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Pato Donaid, Mickey, S'Jper-Homem,

t',sterix, Nf.í é' importa qual o idioma, I


não irll)ort a s(~ " ias são subHteratura,'
ou não, A verdade é que, desde que
surgiram '1 a imprensa americana do lj
com eço do século, as histórias em
quadrinhos são universais_ Fizeram â
cabeça de diversas qer;:,qões e, nos
j 1dS dS ' 10jé, -).( Ui98rTl UITI pÚbiico d ( ~
cfmtenas de milhões do pessoas em
tvlo o rnu r; JO , Um público que sabe
que a M 2 ~J a' i da é a plern :ô1 namorada
cio Pato Don.:lld e quP. a Mi riam Lane,
um dia, ainc;-- 'f8 1 descobrir a
verdade'ra Identidade do
"

I I II

,...,1 INHOS
cOlecão • • primeiros
144 • _. _passos

• Cai o Império - República Vou Ver - Lmn M.
Schwarcz/ Angeli
• Da Colônia ao Império - Um Brasil para Inolôa Vw 11
Latifundiário Nenhum Bot ar Defeito - UI/o M .
Sc;hwarcz / Miguel Paiva
OQUEÉ
Coleção Primeiros Passos
HISTÓRIA
• O que é Herói - Martin Cezar Feijó
• O que é Indústria Cultural - Teixeira Coolho EM QUADRINHOS
1 ~ edição 1985 .
Coleção Tudo é História
2 ~ edição
• Tio Sam Chega ao Brasil - A Penetração Cu ltUiol Al tlurl ntl rll1
- Gerson Moura

editora brasiliense
DIVIDINDO OPINIOES MULTIPLICANDO CUlTIJRA

1 9 B7
?

Copyrighl © Sonia M. Bibe·Luyten

Capa:
• ' Carlos Matuck

Revisão:
José W. S. Moraes
Conceição A. Gab riel .-

U F R J -AZe~-;;t~~nsfe~i ~5:_§CO ·· 11 ÍNDICE


Im (1~ FiJos'ofh c C'ências IIUm3llJS
,.

- Int rodução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
- As HQ no mundo . , . , . . . . . . . . . . . . . . . . 16
- A longa luta dgs quadrinhos brasi leiros . . . 60
B3>.:tül>.:t51 36 - Indicações pa ra leitura . . . ... . .. . . . .... 87

30.351 R EÇO
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editora brasiliense s.a.


rua general jardim, 160
01223 . são paulo . sp
lono 1011) 231·1422
brftllllOll1l8 lolox: 11 33271 OBlM BR
••
••••
,

I INTRODUÇÃO

Quantas vezes todos nós já levamos bronca dos


pais, sendo pegos "em flagra" com uma revista de
quadrinhos na mão e eles diziam: "Larga esse
gibi! Não tem coisa melhor para ler?" .
Preconceitos como esse ainda existem, mas
estão ficando menos freqüentes. Hoje, a grande~
maioria das pessoas já está conscientizada da >J:'
enorme importância que têm as histórias em Y
quadrinhos.\ Tanto na área da educação como nas A
de lazer e, ati!" nos camoos da orooaganda comer· -t
cial e pol ítica.} _
Em todas as áreas temos, portanto, a possibili·
dade de encontrar os quadrinhos. O que importa ,
porém, é d~ onde vêm essas históri as e quem as '
escreve, pois elas são excelente veículo de mensa· i,l1r~
" ..L...
gens ideológ[cas-e- d8-CLítica"social expl ícita ou

-
implicitamente. ,
-
8 Sonia M. Bibe-Luyten O que é História em Quadrinhos 9
-"

10 por isso; por exemplo, que elas foram proibidas HQ acompanharam toda espécie de evolução e
durante a Segunda Guerra Mundial pelo Ei xo, e um incrível entrel açado de influências da foto-
os países do bloco comunista se recusam a aceitar grafia e do cinema . Usaram também as inovações
as historietas do Ocidente_ Por outro la do, a tecno lógicas para a reprodução das imagens.
Ch ina Popular, na época de Mao Tsé-Tung chegou Além disso tudo, a influência que os quadrinhos
a criar seus próprios quadrinhos a fim de divulgar exerceram nas pessoas , tanto no Ocidente como
melhor a ideologia da "Revolução Cultural"_ no Oriente, é considerável e, mesmo assilll! , não foi
l.t-pesar dessa sua força e ímpeto de comunicação, ainda avaliada em toda a sua extensão. Quantos
o quadrinho tem sofrido muito em matéria de escritores, pintores ou diretores de cinema já não
desprestrgio por parte de intelectuais e educadores confessaram terem se i nspirado na HQ, como uma
do próprio mundo ocidental _ Essa condição de leitura que dei xou , marcas bem profundas em sua
subproduto de cultura que acompanha as HQ está
em função da estrutura industria l de grande escala ,
envolvendo interessés econômicos que podem
---
formação intelectual?
Portanto, através de seu desenvolvimento, da
formação de sua linguagem, da luta dos desenhistas
acabar, realmente, de compr0rTleter o relaciona- brasileiros para conquistar seu espaço, vamos
mento mais dinâmico c·om a cultura
-
Mas não podemos nos esquecer dos inúmeros
desenhistas que levaram à frente um pensamento
juntos acompanhar como se deu essa evolução,
procurando dissipar mal-entendidos e compreender
por que as Histórias em Quadrinhos deixaram, ou
mais amplo, c riando quadrinhos os quais souberam melhor, ultrapassaram a condição de instrumento
retratar, com esp írito- de crítica e humor, cada de consumo para 1Qrnarem-se símbolo da civili·
época, cada "instante do ser humano da maneira zação contemporâne ~l
mais direta possível , captando tendências artísticas
e cinematográficas para compor sua estética visual.
Para não sairmos de perto, basta lembrar os persÕ=
nagens de Henfil e Ziraldo, além da inesquecível
Os ingredientes das HQ " ...
Mafalda, de Quino, o mais famoso desenhista
da.Argentina. Antes de qualql!er definição, quero dizer que o
Os quadrinhos marcam, sem dúvida, os aCQJlte.ci- quadrinho é um \ produto com ra ízes populares.
-mentoL.d_o_sé..~ esta civl'lização da qua l E mais popular aincra foi a sua difusão. Como um
você é protago ~i sta. Para cnegar à forma atual, as meio de comun icação, ele nasceu nas empresas
10 Sonia M. Bibe-Luyten O que é História em Quadrinhos 11

jornalfsticas norte-americanas, no fim do sécu lo que ~a em da boca dos personagens, indicando


p ~sado sua fala

~
De~ o in fcio, sua característica foi a de comu- Na Espanha e no Brasil, ocorreu algo em comum
nicação de massa, uma vez que atingia um pú5fic o quanto ao nome popu lar de rev istas em .quadrinhos .
./ enorljlJI Outro detalhe foi a exigência dos melhmes Uma revista infantil espanhola (que Inici ou-se em
e mais modernos processos de impressão gráfica 1917), chamada T B. O., ficou_ tão conhecida e
para a sua produção. Assim, o primeiro guadrinho fam osa que seu nome ampliou-se até abranger
norte-americano, o Ye//owKid (Moleque Amarelôl. todas as publicações de caracterfsticas semelhantes.
ae cor amare la, OI justamente para testar essa cor Hoje em dia, na ESJ:lanha a pal~ " taheó" é
que estava sendo usada pela primeira vez na im- eq uiva le lll!Lil_p_ala.ll(a..b(asileif.a~gip!,;J.-
pressão de jornais. No Brasi l, a Editora Abril, o Poucas pessoas se lembram de que a palavra
maior parque gráfico da América Latina, começou "gibi"t significa "moleque". ~ que houve uma
e se con~olidou com a impressão das revistas rev ista com este nome, nas décadas de 30 a 40,
Pato Dona/d.
A difusão dos quadrinhos fo i universal, mas em
cada canto do mundo recebeu nomes diferentes .,
as revi stas de quadrinhos do p2fsJ -
que, de tão difund ida, emprestou seu nome a todas

Na América Espan.b.ola, .usa-se a Ila lavra "histo-


Nos Estados Unidos, o nome comic strios rieta'':'" nQ JaJ:lão, mangá, e em Por.111gal, "histórias
(tiras cômicas) está mUito Vinculado com o con- aos quadradinhos". -
teú do, isto é, no infcio de sua popularização,....àS
histórias tinham um caráte.r predominantememe
humorCstico caticatur:esc "pesar · das novas
modalidades surgidas postenormente, este nome
Como se estruturam as HQ
continua até hoje: comic strips, comics, comix ou
funnies (engraçados) - como designativo geral E la~ são formadas por dois códigos de signos
em pafses de I fngua inglesa. Para as revistas, adota- oráficos: a ilUagem e a li0B-ua9em escrita. ÕTãto
.§e..o termo CJlmic books...... ' tio os .quadrinhos terem nascido do conjunto de
~ França chama-se bandes dessinéf1$, ou seja,
bandas (tiras) desenhadas. Mas, na Itália, o nome
( 1 ~l as artes diferentes -
---
literatura e desenho -
I1 O os desme rece. Ao contrariO, essa funçao, esse
.

derivou-se daquilo que é mais característico nos I!lI ráter misto que deu in fcio a uma nova forma
quadrinhos: ~umetti - fumacinhas, os ba lõezinhos c/li manifestação cultural., é o retrato fiel de nossa
12 Sonia M Bibe-Luyten O que é História em Quadrinhos 13

época, onde as fronteiras entre os meios artfsticos ocasionando, aSSim, ótimos efeitos visuais e
se Inter Iam . comu nicativos.
IÕ infundada a crítica que se faz aos quadrinhos, Vocês podem imaginar, agora , quantas palavras
pri ncipalmente aquela que os considerª s_ubli!era- e expressões explicativas são economizadas, hoje
~ura ou "sub arte". Isso porque,-uma vez que os em dia , pela simples colocação deste ou daquele
quadrinhos tenham se nutrido em fontes literárias tipo de balão. - - -
ou pictóricas, não quer dizer que esses materiais Da mesma forma que os balões, as onomato-
conservem a sua natureza depois de adquirirem péias, palavras que rocuram re roduzi r ru ' dos
sua forma final. IÕ o que acontece com o cinema: e sons, ' completam a lin uagem dos guadrinhos
depois de o roteiro passar para a linguagem cinema- e lhes dão efeito de grande beleza sonora.
tográfica não é mais literatura e, Sim, uma nova Numa comparação com o cinema, os quadrinhos
e vigorosa modalidade artfstica. tiveram a primazia de ser falantes desde o in ício
Entre os elementos que entram na composição (n ão se esqueçam de que o cinema foi mudo até
dos quadrinhos, o que mais caracteriza e dá dina- a década de 20). Posteriormente, as HQ foram
micidade à leitura são os balões . O balão é a marca buscar a inspiração sonora . nas artes cinematográ-
registrada dos quadrinhos . Na sua forma 6em-- fic as para exprimir os ru ídos não contidos nos
comportada, indica a fala coloquial de seuiJlerso- balões.
n"agens. l'iIo entanto, quan o estes mudam de NOs quadrinhos japoneses, por exemplo, as
nu mor, expressando emoções diversas (surpresa, on omatopéias têm uma função muito mais plástica
ódio, alegria, medo), os balões acompanham do que visual ou sonora. Isto porque a escrita
tipologicamente, participando também da imagem. japonesa é formada por caracteres e as onomato-
As formas são muitas e bastante variadas. pé ias inseridas nos quadrinhos dão um incrível
Parti~do-s~do balão-f~>Jodemos.-e ncontrar- o movimento, equilíbrio e força ao som que estão
oalão-pensamel'lto, balão-berro, balão-cochilo, balão ex primindo.
-trêmulo (mado), bal1!o-transmissão (para t ransmitir Pode-se observar que a expressão dos ru ídos
Sõm de aparelhos elétricos ou elet rônicOs) balão- onomatopaicos tem muito a ver também com a
Besprezo.balão-uníssono (mostrando a fal~ ú-nica Iín gua inglesa . to que esta Iíngua, por ser híbrida
d ~ diversos personagens) , balão mudo e dezenas (h ouve ma is de dez idiomas na formação do
de forma ç_éiê . diversas. Esses tipos e formas vão Inglês atual , sobretudo o antigo holandês e o
depender sempre da situação que se quer criar, f'ra ncês normando), favoreceu melhor a escolha
14 Sonia M Bibe-Luyten O que e História em Quadrinhos IS

definitiva de palavras para determinar as coisas_ respeitar a forma original das onomatopéias,
Além disso, a fase de consolidação dos quadrinhos justamente por esse motivo. Mais recentemente,
teve como local os Estados Unidos e daí partiu porém, diversos desenhistas brasileiros, na criação
sua influência pelo mundo. de suas histórias, começaram a buscar e adotar uma
A Iíngua inglesa já é sintética e, por isso mesmo, grafia onomatopaica mais pertin ente à nossa
reproduz o som com maior proximidade e freqüên- Irngua, trazendo, conseqüentemente, uma ass imi-
cia / Assim, certas onomatopéias têm seu sentido lação eficaz e um contato mais direto com o leitor.
na tradução lingü ística semelhante ao ru ído
expresso. Vejamos alguns exemp los:
r---
ONOMA- SIGNIFICADO
TRADUÇÃO
TOPÉIA NO OUAORINHO

SLAM! porta batendo bater com força uma porta


CRACKl objeto partindo-se quebrar; arrebentar ; rachar
aspirar audivelmente pelo
SNIFF fungar; cão farejando
nariz

pessoa ou objeto
SPLASHI espirrar; esguichar
caindo na água

tragar; engulir; devorar; su-


GULPI engasgo
f ocar

Estas e mu itas outras onomatopéias, que já são


dotadas de significado em inglês, quando são trans-
portadas para outras Iínguas, ficam apenas com
uma função de signos visuais, isto é, passam a ser
convenção na linguagem das HQ.
Fui tradutora, durante a lguns anos, da página de
quadrinh os do Jornal da Tarde, e sempre procurei

••
o oque é História em Quadrinhos

AS HQ NO MUNDO

Os pioneiros
Por incr(vel que pareça, a~ns das HO estão
"'\ justamente no in (cio da civilização, onde as inscri-
,,\\ ções rupestres nas cavernas pré-históricas já reve-
lavam a preocu[1a ãõOe na rar os acontecimentos
através de desenhos sucessivos_ -
Durante o processo civilizatório, várias mani-
festações aproximaram-se desse gênero narrativo:
!mosaicos, afrescos tapeçarias e ais EL-um'l
dezena de técnicas foram utilizados para registrar
a história por meio de uma seqüência de imagens, .
No fim do século passado, com o aprimoramento
das técnicas de impressão, as estórias em ir'Qagens

-
foram largamente utilizadas nos livros e jornais,
Os pesquisadores, porém, convencionaram tomar
como arco inicial para uma história das HO o Little Nemo, de Winsor McCay _
Sonia M Bibe-Luytel que é História em Quaarmnu~

aparecimento, emI1894, do Yellow_Kid, criação do dindo em todas as direções.


norte-americano Richard -"F. Outcault para - o. Outcault, no entanto, não inventou a história em
ew York World, jornal sensaCIOnalista de pro- quadrinhos. Na verdade, ela já ex istia em estad
priedade de Joseph Pu lit~ " latente e convergia para o ponto de partida pelo
ste ma rco é importante, pois os quadrinhos, trabalho e van os autores que es avam mais ou
_eLaIIL..e I a s somente em álbun QU menos no mesmo momento criativo. O mérito de
livros assam a ser d ivu l ados or um veículo dL Outcau lt está no fato de ter sido ele uem Ilr'-
,comunicação_ d mas~jl.,~ndo_acessLveis_a um.. meiro rea lizou essa s{ntese e introduziu o balão,
número bem maior de pessoas. _ que é, sem dúvida, o elemento ue define a história
O personagem Yellow Kid aparecia no suple- em guadnnhos como tal.
mento dominica l em cores que, na época, era a Com o aparecimento do balão, os personagens
principa l atração do jornal. "O Moleque Amare lo" passam ~ f~r e a narrativa gan a um aVO<ltn'a",-c ---1
tomou-se rapidamente uma grande atração. mismo, libertando-se, ao mesmo tempo, da figura
Depois disso, os quadrinhos passaraQ1 a ser do narrador e do texto de rodapé que acompanhava
fator determinante na vendagem dos jorna is, e seus cada imagem. Com essa autonom ia, cada qua-
autores, disputados pelos áv idos empr.;strios da drinho ganhou uma incr{vel agilidade, porque
notrcia. Tanto é que William Randolph Hearst, passou a contar em seu interior, integradas à
outro magnata das rotativas e arqui inimigo de Imagem, com todas as informações necessárias
Pulitzer,jiacou rapida mente de seu ta lão de cheques para o seu entendimento. Os personagens passam
e levo R icha.Ld OlJtcal,llt- pa ra o seu New Y ork expressar-se com suas próprias palavras, e surgem
Journa, onde este criou o seu se undo personagem os onomatopé ias acrescentando sonoridade às
de sucesso: o garoto Buster Brown . I age ns.
A superva onzação das HO, devido à exigência Dois anos depo is do Yellow Kid, Rodolph @
dos leitores, mostrou aos empresários que os Dlrks, um desenhis.ta_ pdocip.iante, .já ch~ava ã .H .....
quadrinhos t inham o seu lugar assegurado, e eles larma definitiva da HO. ~us personagens, Thê
"compreenderam" rap idamente o fenômeno sa indo Kotzenjammer Kids (Os Sobrinhos do Galtao ,
à procura de autores cada vez me lhores, criando I O um exemplo completo de HO. Até o apare-
uma efervecência no setor. Logo, desenhistas de I!lmento dos Sobrinhos do Capitão, as estórias
primeira linha traba lhavam freneticamente na I r Im meio toscas, titubeantes. Ouase sempre um
construção de uma linguagem que já estava exp lo- "li outro elemento básico das HO estava mal
20 Sonia M Bibe-Luyte lo que é História em Quadrinhos 21
.
resolvido. comprometendo a narrativa. deixando-a conteúdo do jornal para ingressar nas páginas!:S
precária . Os gersonaoens de Dirks (vocês conhecem internas e aparecer nos outros dias da semana A--
bem os dois garotos terdveis lu tando sempre tornando-se uma prêSeiiÇa cotidiana na vida dos
contra as formas de autoritarismo simbolizadas leitores.
pelo Capitão - e eles são publicados até hoje Essa- alteração implicou também uma mudança

~
. no Brasil ) são tiDOS pitorescos. com vida própria. forma l. já que na página dominical as estórias
encaixados direitinho no cenário. Com-ªsta obra. a ocupavam a sua tota lidade e. agora. viam·se com-
"!) narrativa quadrinizada consegue. após várias expe- primidas numa tira. obrigando os autores a dar o se..!! /::.
V riências. realizar um trabalho vigor0iz e conso- recado em três ou. no máximo. c inco quadrinhos. c1' r
I Iidar-s.eJ:le.t in.ithlamen.te-cu= linguaglt.m . {'Esta mos falando de Mutt e Jerr. criação de Bud ~
Houve outras bis1ód.~ue ficaram f amosas Fisher. consider<Ldu primeira tira diária. que vei~ ~ v
pe las suas inovações. Um bom exemplo é Ji1t1e- abrir novo espaço e tomolJ. incllJsive •....Q lugar do,-
,Nemo in Slumberland (O pequeno Nemo no país suplemento dom inical.'
dos sonhos). desenhado por Winsor McCay em Completa-se. assim. o período de construção
1905. Apresentado no melhor estilo art-nouveau- da linguagem. com flexibilidade suficiente para
(modalidade artrstica em voga na época. com realizar uma grande alteração formal sem perder o
vegetais e flores estilizadas). McCay abriu para os que já havia conquistado. Um exemplo disso é o
quadrinhos um panorama vastrssimo. Ele atinge a próprio "Mutt e Jeff". que surgiu já na sua forma
condição de arte. e seus desenhos desempenham defin itiva e ·continua sendo publicado incansa-
outro papel ao invés de ~e sucederem monoto- velmente. Apareceu . inclusive. até pouco tempo
namente emoldurando a acão.
'-
O que foi visto até agora. aconteciaJlos suple-
mentos domlDicais. que eram. na época. a parte
trás. no jornal O Estado de S. Paulo.

mais procurada do jornal. com os leitores aguar-


dando ansiosamente o momento de reencontrar
seus heróis.
A difusão do-;;;omiCS - os
----- -----
Sy:::Jes
.----
A partir de 1907 ocorria uma profunda modi- Como já vimos. o surgimento das tiras diárias na
1/ fi cação nesse esquema com o aparecimento da primeira década do século coincide com a exp losão
r primeira tira diária - ~ dailv stci!J.. Com isso. os 11 I imprensa norte-americana. Em conseqüência
~ / quadrinhos deixaram de ser um bloco isolado dp do aci rramento da disputa pelo públ ico leitor. os
22 Sonia M Bibe-Luy te, que é História em Quadrinhos 23

editores saíram à PLOcura de novas fórmulas para Um dos primeiros personagens internacionalizados
aumentar as tiragens. E, nesse momento, os qua- foi o Pafúncio (Bringing-,,-úather), criação de
drinhos já haviam comprovado sua eficiência. George MacMa õjJ... desenhado em rico estil o
Além das tiras côm icas, onde predominavam a~ tpéco (a moderna junção de retas e curvas).
crianças endiabradas, inocentes trapalhões e .;tO} syndicates funcionam com desenhistas<,~
an ima is humanizados, surgiu mais tarde um outro co.n tratad~ Rara produw séries de bistórias?""
tipo de quadrinho: as tiras seriadas . Nessa nova previamente apm1'a_d ai que devem ser enviadas
modalidade, cada tira f uncionava como um cap í- com grande antecedência para correções e padro-
turo c:iTário de _ uma hisJória centra l. O último §
ni za ç
quadrinho continha a carga maior de informação ReprotJuzidas em papel de boa qualidade, são
'I ~ e--!uspense, remetendo o interesse [:lara o próximo enviadas para jornais e editoras que têm contrato
" caprtu lÓ", à ve nda no dia seguinte em todas as assinado com O syndicate, geralmente, por doze
bancas ... Essas séries duravam aprox im adamente meses. Cuidam também dos direitos autorais e do
seis semanas. " merchand ising", isto é, a comercial ização dos
'---"" AI Capp, o criador de Li', Abner (Ferdinando, personagens em camisetas, brinquedos e todas
no Brasil), satir izou essa situação criada pe las os as coisas. ,
II histórias de seqüência e o impacto que elas causa- O sistema de distribuição R,ossibilita a grandes -:: <-
ram, mobilizando e cativando os lei tores ameri- pequenos jornais e revistas do mundo inteiro Lf
canos. Ele colocou seus personagens nas situações 1I publicação dos autores e perso nagens mais
mais absurdas para conseguir a continuação da romosos por um preco ab.Sllmo_de-.ba<.a.to.::UJucro
historinha. do syndicate está na grande quantidade de tiras
[Entretanto, a grande difusão das HQ foi real- que são vend idas de uma só vez sem que se tenha
1...r7 mente consegu ida graças ao esquema dos syndicat~s quo redesen há-Ias. O esquema funciona até hoje, e
-" r r ou-a§"ênclas distribuidora'S] (e não "sind icatos", II ca fácil imaginar como se sentem os desenhistas
como são erroneamente traduz idos). Essas agências loca is (o caso do Brasil, por exemp lo), ao tentar
distribu íam e continuam distribuindo centenas de IiOI1COrrer e encaixar seu material nos jorn,~) sJ
hif !órias para ve ículos em todo o mundo. I\lém disso, esses syndicates têm uma especie de
~ prime iro syndicate, criado por Hearst em "l1sura interna que obriga seus autores a nivelar
1912, foi o International News Service, que mais 11 conteúdo das histórias a fim de co locá-Ias em
tarde se tornaria o Kin g Features Syndicate. '1l1l1lquer sociedade, mesmo as mais moralistas.
24 Sonia M Bibe·Luy t que é História em Quadrinhos 2S

Um brasileiro num syndicate - O nosso conhe·


cido Henfil é o exemplo mais próximo que atesta
a pobreza do esquema.
Depois de um "vestibular" onde concorreu com
uns dois mil desenhistas, conseguiu fec har contrato
com os americanos para produzir os Fradim.
Travestidos em The Mad Monks (Os monges
doidos), começaram a ser publ icados em dez
jornais americanos, alguns importa ntes como o
Chicago Tribune . Não durou dois meses. Os leitores
enviavam cartas reclamando contra o humor feroz
e sádico de Henfil e os jornais cancelaram os
contratos.

A consolidação .

Acredito que para se compreender bem o ritmo


de produção dos quadrinhos é preciso se lembrar
dos acontecimentos pol íticos e soc iais do in ício
do século XX. Sobretudo, a(]écada de 30 é um
prato cheio para estas observações, uma vez.,que há
uma co ntra ão muito grande, tanto em aco
cimentos como na produção de HQ.
A mudança de uma deca a para outra foi muito
rápida na América. O ano de 1929 marca o in ício
de uma série de fatos ocasionados pela "quebra"
da Bolsa de Nova Iorque, gerando uma crise sem
precedentes no mundo inteiro. O crack liquidou, Tarzan, de Burne Hogarth.
I('~~r 26
- 27
"

, Sonia M Bibe-Luyte que é His tória em Quadrinhos
.
I, de um só golpe, o otimismo dos anos loucos da A história já t inha aparecido em forma de romance:
I' era do jazz. Tarzan af the Apes, de Edgar Rice Burroughs, em
A nação americana havia crescido na segurança 1912_ Foster fez a adaptação do romance para as
i:'~llr , de um eterno mil agre econôm ico, e o decênio de HO, introduzindo realismo nos quadrinhos. Foi
20 caracterizou-se por um esbanjamento alegre e o desenhista- Hogarth, porém, que deu a Tarzan
'" . insensato da burguesia rica das cidades. a majestade do senhor da selva. Conseguiu dar
Logo, porém, veio o d il úvio'! A classe operária ao cenário uma exuberância fantástica e ao herói
pagou os excessos da classe dirigente com milhões uma be leza de formas inspirada no próprio Mi-
de desempregados. Como conseqüência , o próprio chelangelo .
lazer das massas ficou aretaBO;-CheganBoa-ré- a Sal tando dos galhos da selva para o futuro, o
I / a l ter~ h~bi tos e m,9dlfíCar o gosto das pessoa s flê nero ficção científica é o tema de três grandes
:11 por dete.r:-m inadas cois'lli. "j" JJ. 2- - histórias: Brick Bradfard (de W_ Ritt e C. Grayl.
E ta lvez por isso que se expl ica como o gênero Buck Ragers (de Nowlan e Dick Calkins) e Elash~
"Aventura" chegou ao auge e um turbilhão de Gardan J de Alex Raymondl. que obteve grande
iP histórias surgllUJ.e.S!iLépo.ca, explorando ao máx i::- ucesso. As hero rnas de Alex Raymond foram
I\1U ito avançadas para a época em que viveram e
mo esta nova mina de ouro . A aventura indica um
11 desejo de evasão e a criação de mitos, de heróis Ind os os seus personagens parecem sa ídos das te las
, positivos. Reve la a necessiaaaeae novos modelos ti o cinema - são altos, loiros, com queixos e /
nos quais se inspirar para a conduta humana. IIllrl zes para ninguém botar defeito. Flash Gordon
- E a era de Tarzã (aventura na selva), Flash 11 I1 Ca rna o protótipo do mito ariano. Dotado de V
Gordan (aventura de ficção científica) e do Prín- 11 m corpo perfeito musculatura inveiável, [1ossu í

/'
1/';
cipe Valente (aventu rnno passado med'ieval).
como se os heróis - envolvidos nas histórias
compe~assem as perturbações e inseguranças da
lodos os atributos de uma sUl)er-raça. No enredo,
" passa do, presente e futuro se entrelaçam , mas
11 r 11 todas as épocas o bem sempre acaba ven-
triste realidade e todos resolvessem fugir para I lindo o ma l.
, lugares desconhecidos. E "foi então ,que se deu a O pa ssado reviveu toda sua alória com o PríncjQe
consoJidaçJo dos quadrinhos: o volume de criacão V,I lo nte, uma história na -qual cava leiros, dragões,
e a boa qua lidade de materi ~ . 1I t1l1 cesas, castelos e cenários majestosos sa iam
,Tarza n surge no cenário desenhado por dois tlII pena de H. Foste r, familiarizando o leitor com
grandes mestres, Ha l Foster e Burhe Hogarth. I oorte do Rei Artur, os Cavaleiros da Távol a
- -
,
28 Sonia M Bibe-Luyt que é História em Quadrinhos 29

Redonda e os vikings. Foster mostra uma visão mina de ouro em algum lugar do planeta .
norte-européia da Idade Média : uma era sem Disney , na produção de desenho animado,
trevas mas de muitas lutas. E como ele era origina- levou às telas alguns contos de fadas que as crianças
riamen te um pintor, as HQ ganharam ' muito na s6 conheciam pelos livros. Hoje em dia, ao se
in trodu ção de paisagens nos desenhos. Foster, fa lar, por exemplo, de Branca de Neve ou Cinderela,
tendo vivido no Canadá, soube retratar e enri- a meninada, com certeza, verá diante de SI a
queceras quadrinhos com lagos, florestas e pan- Ima,gem disneyana dos personagens.
ta~ is. Esse lindo e poderoso império de revi stas em
~~a Europa, a aventura segue por outros caminhos, quadrinhos, desenho animado e parques de diversão
com a cnaçao de Tíntín (do belga Hergél que, ao 'tremeu nas bases quando dois sociólogos no
invés dos jornais, publica suas histórias em álbuns Chile, Dorfman e Mattelart, atacaram o mito mais
< gue logo T oram traduzidos para outros idiomas, badalado dos últimos tempos. A acusação principal \
9 tingindo,~slm , milhões _de leitores em todo o toma as inocentes historinhas como dlfusoras do
mundo. -- opitalismo amencano, que funCionam, há anos,
-[é om Tintin inicia-se a Escola de Bruxelas, um oomo lava~em c~reb ~~ de populações infanto- ,
ntro criador de quadrinhos na Europa, de onde, Juvenis do mundo Intel ~
ma'is tarde, surgiram out(êS histórias excepcionais As posições são bas: te radicais mas, pessoal-
como Asterix e L ucky LU.6!J l11ente, acho que no fundo os dois sociólogos não
No in ício dos anos 3D, na América, aparece um tloixam de ter razão, principalmente porque o
desenho animado que passou depois para as revistas I" odelo Disney é exportado para inúmeros pa íses.
de quadrinhos, e ficaram famosíssimos tanto o I as crianças do Brasil ou do Paquistão, sem
criador como a criação. Estou falando do Míckey II ro m outros neróis naCionaiS nas tancas, vão
Mouse, o ratinho Que de u origem ao imp-ér io lIIulm il andQ, em qllil d dnho.s,._Ji.Ç..~.
i--. Disney e a In úmeros outros personagens corTiõ o IIlt ler lu cro fácil sem oroduzir,-ªp.LQlLe.ltar,se das.
V Pato Donald, Tio Patinhas,_Margarida , Zé ~Carioca, illltlS fracos e a desprezar as sQ,c.i.e.dades pri mi.ti.vas_
! Minie, João Bafodeonça e assim por diante .
~Os qü a(frl n ~os d e Walt Disney,- no-s velhos
M,IS' o grande mérito de Disney (e isso ningu ém
pl1do contestar) é ter dado às HQ um estilo elásti co ,
tempos, exploraram ao máximo o tema aventura, "'illlli b rado, que influenCI Ou desenb istas..do mundo..
tendo Tio Patinhas como herói principal que não 1I IIIIIro, principa lmente os franceses
poupava nada e a ninguém para descobrir uma nova Mosmo nos Estados Unidos, porém, não faltaram
,. 30 Sonia M Bibe-Luyt (Iu e é História em Quadrinhos 31
I.

autores que fizera m do quadrinho um meio de om seu dinossauro combatendo inimigos pré-
criticar a sociedade moderna de consumo. históricos.
-
- tJm rre"te-sfõlAI Caep, que, através de Li ' 1 ' E, "há 400 anos", surgia, na se lva africana, 0 -
IAn~r (FerdioaodoL satirizou -com -
- -mu ito humor, pri meiro grande her ~ i das HO: o Fantasma. Tanto
o meio em que vIvia. le como seus descendentes iam se casando, tendo
Ele escolheu seus personagens inspirados nos novos Fantasmas para, aSSim, gerar a lenda da
habitantes de pequenas loca lidades caipiras norte-
americanas. Assim, a partir de gente como Ferd i-
Imorta lidade do "Eseírito-Oue-Anda". Criado por
Lee Falk, esta história teve uma trajetória diferente
t-'"
nando, Vio leta e Xu lipa Buscapé, com suas vidas, das outras HO. O Fantasma, que namorou Diana
brigas e amb ições limitadas, é que AI Capp ridicu- Pa lmer mais de tr inta anos, fina lmente se...c_asa e_
lariza o modo de viver da civ il ização ocidenta l, do
IPa!!1erican wav af Ufe. (g le foi também uma das
primeiras pessoas a chamar a atenção das massas
10m filhos (gêmeos, por sina l) _ p~ra continuar a/
dinastia.
Isso não é muito comum_llils fjO. Norma lmente,
Pttê
problemas de defesa do meio ambienti:)
A história que gerou ma is polêmica foi a dos
os heróis parecem não ver o tempo passar. Passados
quase cem anos, os Sobrinhos do Cap itão conti-
"Shmoos", seres que se transformavam em bife, lIuam moleques e endiabrados e a Margarida até
ovos, le ite, enfim tudo aquilo que alguém quisesse hoje não se decidiu entre o Gastão e o Pato Dona ld.
possuir. Imaginem só o desespero dos grandes Lee Falk CriOU também ou t ro personagem,
capitalistas, que viam nos "Shmoos" uma ameaça Mondrake, um mágico com cartola e capa v~ l ha
para o sistema financeiro do mundo . O eróprio " preta, com seu criado, o gigante negro Lothar
AI Capp foi muito _perseguido, sobretudo, na Esta história também se atualizou, mas no k
aécada de 40, 12e lo senador McCarthy, da extrema- "" nt ido social. De uma espécie de escravo, Lotbar_
direita america ~ . - "" tra nsforma em príncipe africano e também
'1lI lI nja uma noiva, uma linda more~ Isso, com
Outras histórias famosas "' Itoza, para :agrada r os milhões de leitores negros
III São desta época também Papeye, o. marinheiro 1111 m'undo inteiro. Em todo caso, essas mudanças
que ficava forte qLiãndo com ia espi nafre para 1111 ada ptações permitiram aos personagens de
sa lvar a Olívia Pal ito das garras do Brutus. E o I 'tJ Fa lk uma ace itação revigorada, ao passo que
Brucutu, o homem das cavernas, sempre montado IIlIlItos outros heróis de HO simplesmente desapa-
- IIIlmam por se terem fossilizado. .

J
, -
32 Sonia M Bibe-Luy Ifle é História em Quadrinhos
.. ,,'.'-. .....
flI1YlIDfDAVB 1kD- A. - - 111
~ h~:- n_
33

--::: _ Em todo caso, podemos dizer que a produção se us primeiros Sina iS. A tensão e o desespero
norte-amen ca na da época pré-guerra é"Tão forte 'faz iam parte do dia-a-dia, num cI ima mais ou
que lOunda os jornais de tOda- a- Europa e do menos como os d ias de hoje.
mü ndo inteiro. O sucesso foi devido tanto à Em 1939 estoura a Segunda Guerra e o mundo
qualidade dos desenhôs como ao eficiente sistema 80 divide. O futuro se torna uma grande nebu losa,..,
,I de
-,-distribuição
.
dos syndicates. Além disso , fica No fim do decênio 30-40, quando Hit ler parecia
L conso lidada também a própria composição dos Invenc íve l na Europa e a América se preparavã ',-. \
qu~drinhos. Isto é, anteriormente, os personagens para combater, os heróis de aventura não eram mais
e figuras eram colocaâos ãe- forma ind iscriminada. Ruficientes. Contra o monstro nazista que se.
Foi principalmente com Hoga rt h, em Tarzã, que Igígantava, a segurança coletiva e o inconsciente
certas regras começaram a funcionar para dar do um povo reclamavam alguma coisa a mais do
movimentos equi'li5racros:-Maravilhosos jogos de que um hort]MO .
~ com o aproveitamento máx imo do branco e E, de repente, neste cenário de conflito, apare-
preto foram conseguidos por Mil ton Caniff, em 110m dois jovens, Joe Shuster e Jerry Spiegel, com
Terry e os Piratas. O uso de nanquim com pincel, lima história e um herói diferentes de tudo aguilo /
obtendo uma persoectiva' elaboraaa, faz lembr ar 'Ille se havia feito em guadrinhos: uma figura de
11111 , muito os efeitos cinematográficos. Os anos 30 loupa colante no corpo, botas, capa voadora e gu~~LY"

~
I foram para os qu.adr nhos o mesmo que Ho ll ywood 110 momento de neriaO ~~Jl.eLP oderes P-ªU
para o cinema: foi a época da aventura e da IIlvar a lguém . O Super-Homem estava em ação.L
invencão o misto de realidade e fantasia. e incrfvel como se conseguiu juntar o clima de
Como resultado, temos que as HQ ficaram IlIns§o de uma guerra com um herói que levava a~\
consagradas e todos liam quadrinhos. 111 soas para uma outra dimensão sunerirreal.
I 11110 de u outra . Foi um sucesso!
Quando os EUA entraram na guerra com solda- /
A crise - a utilização política das HQ d., e armas, os ,quadrinhos já estavam lutando ,~
1II IIIndo pe los ba lõezinhos divulnando suas mens<t-
IIIIIU de proe.aganda ide.o lógica.
Vamos chegando ao fim da década de 30 e Nos aiÍos quarenta, a democracia americana
podemos imaginar o astral das pessoas, principa l- '1' IIl1va-se ameaçada e, para levantar este moral, só
mente na Europa, onde a guerra começava a dar 111" mo superpoderes imedi atos tiveram um efeito
'!f
.. 34
... ..... . • Sonia M Bibe-Luy " ue eHistória em Quadrinhos 3S
'. • ft •

de impactiJ própria bandeira americana. Seu pior inimigo


E os super-heróis eram exatamente isso: agiam (a IéinCle!=tltl-er, é claro) étTIdo o que significa
para o bem das leis vigentes, em bora seus métodos ameaça para a "democracia americana".
não fossem nada legais. Tinham que matar pessoas O Capi tão América, depois de tanto lutar na -.
a fim de preservar a paz. guerra, foi, anos depois, um dos pioneiros a se
s quadrinhos até antes da entrada dos Estados questionar sobre a sua funçao na sociedade. Sua •
Uni.aos na guerra, já estavam engajados numa cé leb re frase : "Ta lvez eu devesse lutar menos ...
posição pol ftic.a. O Principe Valente lutava contra perguntar mals~des!lncadeou toda a oroblemá-
o~ hunos, que, na gíria inglesa, queria dizer germa- tlca existencial. d.?~ super-heróis. . ~
n ICOS. 'lk:como oposlçao a este furor guerreiro, os qua- '
Dick Tracy e X-9 se voltam contra sabotadores fiHnhos, n essa época. ãtinge m um ponto alto soR-
até mesmo- o- Tarzan, na selva africana , luta Ilspect o gráfico, com a criação de The ~Rilit..
cp tra orsoldaaos co loniaíSiia zistas. (O Espírito), de Will Eisner. O que havia de dife-
L ~as foio ~up?r-Homem mesmo a grande atração I nte nesta história era a -técnica de iluminação.
da epoca. Primeiro, porque deu origem às dezenas , to é, o aproveitamento ao máximo do branco e
de super-heróis que conhecemos, como Batman, preto em contraste de luz e sombra e novos ângJJlos
II _ Capitão Marvel, Homem de Ferro, Hulk, Thor, ti desenh o, muito semelhante à técnica cinemato- ' -\-
- MJ1lher Maravilha e outr9§! uráfica.:.. O desenhista também inovou na abertura
lE , depois, com a publicação do Super-Homem é tllI história. Cada vez começava "The Spirit" com
que os quadrinhos americanos passam a ser ed ita- IIITI desenho diferente e sugestivo.
dos em revistas. E a era dos comicjJgpks. A revista Will Eisner marca o alto grau de sofisticação
Action Comics, que lançou esse super-herói, II cni ca conseguido pelos desenhistas norte-ameri-
slmples'!1ente dobrou--sua circulação a partir I finos sem envo lver-se com problemas de cunho
dof~ ,. Itll 016gico, e esta tendência marca o.fim do apogeu
E o herol Q!.l.e..Le~ell.tQU.p-oLexç.clêllcj a oJ.dea I tloHsuper-heróis.
a.merl ~a no de "Ame rica for Americans" foi o o que o período da Segunda Guerra nos deixou
~ue~relro Capitão América - o primeiro super- 1111 uma boa lição de como os quadrinhos são um
nerOI a se declaraL P_ublicamente inimigo _dos iIl'I'l lente veícul o ,para mensagens de cunho ideo-
\...~az l stas . Estava na cara! Ou melhor, na roupa dele: '''lIlco. As HQ desempenharam seu e,apel na PLopa--t 'b.t-
seu uniforme. listrado e estre lado rep resentava a U,""lo ideológica antinaz ista . E bem fácil explicar-
36
Sonia M Bibe·Lux I/fie é História em Quadrinhos 37

por quê. Imagine um herói de quem você gosta


fa moso foi o livro A Sedução dos Inocentes, de
muito mesmo. Com o passar do tempo, você
Frederic Wertham. At ravés de uma se leção parcia l,
estará imitando muitas de suas ações, e tudo o procurava ele demonstrar que os responsáve is por
que ele disser será verdade para você. Assim é que
todos os males do mundo eram os quadrinhos.
as HO foram usadas, através dos heróis, para Chegava a absurdos como o ·exemplo da moça que
·transmitir o pensamento de quem comandava
virou prostituta porque lia HO.,
a guerra.
Os ecos dessa campanha con t ra os quadrinhos
No f inal do conflito ficou -se conhecendo as
ohegaram ao Brasil no começo dos anos 50 e, como ).r
armas ideológicas dos que ganharam. Mas há pouca
IlIntas outras coisas, importaram-se os falsos
notrcia. de quadrinhos usados nas fileiras totali -
t10nceitos moralistas. Muitos professores e pais,
taristas. Mas eles existiram e foram utilizados para
IlIfluenciados por essas idéias, começaram a proibir
combater ou desmoralizar os aliados também . I
que as crianças lessem quadrinhos. Até hoje,
Na Itália, Mickey Mouse, que lá se chama
IIluita gente ainda insiste em considerar as HO
Topo lino, foi substitu ído por um outro nome,
I mo nocivas e subproduto de cultura.
"Tuffolino". Na França, na zona ocupada pelos
Mas áinda bem que na Europa, lá pelos inícios
dos a~os 60, alguns intelectuais franceses . e ~talia-
alemães, teve-se notícia de uma revista que incluía
quadrinhos com fortes mensagens contra os russos 110 devolveram o bom conceito que os quadrinhos
e os personagens tinham cara de fuinha e nomes .lImpre tiveram. Foi o in icio dos estudos de Comu-
alusivos como Orloff e Venine.
IIIt1oç§o de MasSã.. nos_quais ~passava a anall s'!:g-- V
o fim da guerra, a situação era bem ruim para
11 f nômeno quadri nhos como um dos melhores
os quadrinhos. Havia falta de papel, as histórias
1IIIIIos de informação e de formação de conceitos.
foram bastante reduzidas e, graficamente, fica ram
I 1111 visão mais científica e imparcial foi logo
bastante pobres. O conteúdo também sofreu
1III Iorporada pe los americanos, e, desta maneira,
mu ito. Era difícil mostrar otim ismo depois que
rlll possível fazer-se uma reaval iação crítica e
milhõ_es de pessoas de todos os países foram
• 1111 trutiva de tudo o que se tinha produzido
or.tas} .
.111 hlrlórmente
Começou-se uma campanha contra as HO.
1•
Muitos artigos e livros apregoavam que os qua- Multas calieças rolaram. Isto é, muitos heróis
.hllll [l receram das tiras e das \listas. Outros
drinhos eram maléficos para as crianças e que eram
iJI
os culpados pela deli nqüência juvenil. O mais li. IIlIm e muitos novos surgiram...Q que mudou,
,,"I.lm, foi a conscientização dos autores, que não
· 38 Sonia M. lJlt'e-L,uYI<II1C é História em Quadrinhos 39
"

mais procuravam divertir por divertir mas, Sim,


usar os quadrinhos para que servissem d,,-e..':!!.~@.:.., 1
deiro mecanismo de veicu lação de idéias, Isso,
I geralmente, era feito de forma in direta ou imp l ícita,
os resu Itados estão a í ate oJe e- m
comprovados por vocês m esn~~tvejamos adi ==--.I

;$~
A reconstrução ~ ~It
..Q' ~
"Levanta, sacode a poeira e dá volta por cima" . , ,
Isso é letra de samba mas, acredito, se alguns
l~~ -.::-"
desenhistasam'e ricanos morassem no Brasil , teriam
usado essa frase para reconstruir a imagem negativa
!l1 '<
~
-
dos quad rinhos a partir do fim dos anos 40,
Também não era para menos, Fim de guerra, o
mundo destru ído,. sem muita - esperança! No 1:.2~~
{j
5'o0
entanto, no meio daquele cenário sombrio surgi u
uma hi stória em quadrinhos Iflue veio modificar is ""
conteúdo das HQ americanas , Pago , de Walt Kelly,
" nt go desenhista dos estúdiõs Disney, começa a a&~
abOrdar temas soc iais e 01 íticos de süa""'poca,
Através de personagens an imais com cara de gente, ~~.~.
as histórias seguiram por um rumo diferente da

.,
\.~
aventura e passaram a enfocar um
ma is pensa ~
ãb
~,I:ô
~,
No Brasl , Pago não teve mu ita repercussão .
':I!
Não porque fica sse devendo aos grandes m"stl'es '. t·
dos quadrinhos. Ao contrário W, Kelly era um
'
40 Sonia M Bibe·Lu lI/c é História em Quadrinhos 41

grande conhecedor de sua I íngua e brincava com o rlosos e exuberantes . Cada quadrinho era uma
idioma inglês, inventando novas palavras a partir vordadeira obra de arte onde a forma e o conteudo
da junção de duas outras para . dar nomes aos o completavam.
personagens. E coitados dos tradutores para Co m os quadrinhos pensantes, o peso maior foi
encontrar sinônimos à altura. dodo ao conteúdo dos balõezinhos, isto é, a mensa-
Mas Walt Kelly encontra uma alma gêmea: 11 m se destacava dos cenários simpl~iJ E: como SE
Charles Schulz, que conseguiu revolucionar os lIlores representassem num teatro apenas com ur"
quadrinhos dos anos 50 com uma história aparen- IlI nd o branco no palco .
..-')7te"mente inocente: Peanuts IMinduim ou Turma Nesta linha, como sucessores doPeanuts, surgiram
de Cfiar ie Brown em ortuguês). hl tóri as incríveis como Eeiffer, de Jules Feiffer,
Seus personagens são muito conhecidos no linde entra em cena o primeiro anti-herói dos
Brasil: o próprio Charlie Brown, seu cãozinho quadrinhos. O autor consegue dar um clima mu ito
Snoopy, LucYL a menina manaona do grupo e IlI nso onde seus personagens transmitem fossa,
toda a turminha de crianças que falam e ques- 111 ogurança e uma comunicação impossível de
tionam- o mundo melhor do ue mu ito adurto. Id6las. Porém, através de cenários teatrais, os
, Aliás, é isso que mais choca nos Peanuts. São as 'illlldrinhos sã um bom exem lo de unidade
crian as que pensam e refletem sobre .o mundo, "NlóticJL eles transmitem o estado . de espírito
analisando psico oglcamen e a umanidade. O do , seu criador e revelam muito bem o clima
próprio autor, que é pastor pr otestante, fez muita dll anos 50.
gente passar a reacreditar na humanidade através Dentro deste espírito, mas criado alguns anos
dos balõezinhos de seus personagens mirins. 111111 tarde, Mata/da, de Quino, na Argentina, é
O momento era propício para que este tipo de li lll grito vindo da América Latina contra o mundo
estória tomasse conta dos quadrinhos iniciados por IlI lInbardeado de tanta maldade. Quino utl Iza
Pago e Peanuts . A década de 50 ficou conhecida hllll bé m crianças para explicar o universo. Mas
pela fase do quadrinho pensante e intelectual. '" 111 a habilidade de transmitir tudo isso sob os
As histórias não somente se modificaram no " lh os da América subdesenvolvida. Seus persona-
,I conteúdo mas vestiram roupa nova também. Il'li l rep resentam a composição do povo argentino :
Se lembrarmos dós desenhos de aventura que Mll lnlda, a menina politi zada que dá lições de
fizeram época nos anos 30, do tipo Tarzan e 'li lologia e política para seus pais . Manolito, filho
Flash Gordon, dá pãra perceber os cenários glo- In 11 m merceeiro de origem espanhola, asp ira,

,I'
ri
42
Sonia M Bibe·Luy ,, ~tI História em Quadrinhos 43

como imigrante, a ser muito rico e proprietário de II Indo com uma consideráve l produção de cunho
uma caOeiããe Supérl"ITeTCaaos. Suzanita simboliza- 111 1 rnacional.
a mu lher que apenas quer casar·se mUito bem Na França, a dup la R. Gosciny e A. Uderzo
-
e. ter fir ~
I II m Asterix , um gaulês ba ix inho L inteligente e
Para certas pessoas, quando se fala em Mafa/da, ,11i gre que vive numat:Jnica aldeia resistente-;à
vem automaticamente uma comparação com I Ill1 quista romana. Apesar de Astenx ser o herol
Charlie Brown. Porém, uma grande diferença Ili Il1cipal , ele .Jlli!!icamen.tELOão_sobr-evive- sem-seu
ex iste entre ambos e suas visões de mundo. Charlie IIIlle companhei o.....O.be lix . E o ressurgimento da
rs rown pertence a uma sociedade rica, a norte. 1I ola de Bruxe las, iniciada com Tin tin , de Hergé.
ãmericana, e Malfada, ao mundo subdesenvolvido 1\ maio r inovação de Asterix está nos diálogos,
e, portanto, com pro lemas que nos tocam mais ' 11 111 jogos de alavras e caracteres gráficos que
I ~p'erto.
" primem determinada língua estran eira falada
- -18inda reagindo contra o realismo dos anos 40 I,,,I!ls personagens-,- .
seguindo o novo estilo caricatura I - onde se torna Nas histórias de Astenx, os gauleses sempre
importante o traço deCisivõ -, ohnny Hart cria I 111 vitoriosos, e o folclore é mostrado cor!) u.<:!2
S.C. (Before Christ), em português A.C. (Antes
111'11 de humor mul to particular: através do qual
de Cristo). Situados num mundo pré.fíistór ico, li lolto r médio francês se Identifica com os feitos
onde os animais também falam, seus personagens
"" h ró i. Aliás, o segredo do sucesso de Asterix é
não refletem o contexto em que vivem mas reagem Illiples: as histórias base iam·se nos estereótipos
e d iscutem problemas do nosso temp~
' 1111 todos os povos fazem de si mesmos e dos
Uma história em quadrinhos do in rcio da década 111 11 " 'S. Lá' vão alguns exemplos: a fleuma dos
que não segue as novas diretrizes propostas é 111 11 nlcos, o temperamento fogoso dos espanhóis,
Pimentinha . Volta a linha de histórias de crianças I ",~I~tê ncia , a teimosia e o apego às tradições dos
e;;aiã5rada~, predominantes na década_ d_e...2.Q, e 111I 1C:OS9S. Gosciny morreu em 1977 e a ú ltima
q!!: vem reforçar a imagem irresponsável e fe liz IV' IIllIra do gaulês foi "Asterix entre os belgas".
da classe média norte-americana.
IltI", tO tenta continuar com a série, mas com
tQ conjunto de histórias dos anos 50 faz renascer 1111 II l1r sucesso.
as HQ americanas, que esta v m tão desacreditadas 1'lIbll cados em álbuns e traduzidos para muitos
no final da Segunda Guerra. Mas, no resto do
mundo, houve também uma reação positiva culmi. 'h " -
" '11011 15 a aldeia gau lesa e a turma de Asterix
,
li" tao populares na França que sao pratica·
-
44 Sonia M Bibe.Lu II~ Ó lfistória em Quadrinhos 45

mente o simbolo dos quadrinhos .franceses . E os Idontificavam com a sua maneira de ser. Pensavam
romanos que se cuidem com a poção mágica I/lÓ que era brasileiro! A única diferença é que '
(simbo lo da superioridade ga ttl.\tsa)! I do Boné, mesmo não trabalhando, sempre
.Sem ,deixar a peteca cair, lo faroeste americano " ,co bia uma ajuda·desemprego do governo inglês,
fOI satirizado pela produçãõ franco·belga com Ilulaa que até hoje não se cogitou para os desem·
Lucky Luke, De autoria de Morris e Gosc in'Y! 111 gados brasileiros,
r~aptou uma parcela do público jovem europeu: Para os que trabalham em repartições públicas
L!,.ucky Luke é um anti·co.L1{boy acompanhado de 111 1 em escritórios empoeirados, há uma estória
seu fieI cã? Ran Tan Pia0.! (qualquer semelhança qll se tornou clássica no gênero: Bristow, de
com Rm Tm Tm é mera co incidê~ia) e os eternos Il onk Dikens, que sintetiza todos os lances de uma
antiinimigos, ?s Irmãos Dalton, LE um herói soli. IlItlna de tr~~alho através da figura patética de seu
tárlo, uma parodia dos personagens lio llywood ianos, I" rso nagem.\..E Bristow, com um incurável otim is-
que sabe dosar com espirito humoristico o mito 1110, procura fazer o melhor possivel de uma vida
e( .J:ea lida?e do oeste americao IIIon6to na, numa caricatura da sociedade mOder ~J
Nessa epoca, houve também uma série de Entretanto, a grande reviravolta dos quadri ril'ios
histórias que retratam o enfado e a monoton~ 111 u·se em 1952, com o surgimento de um movi-
Neste aspecto, os mgleses tomam a dianteli'ã: 1111 nto que modificou commm.mente o estilo de
Personagens como Bristow e, sobretudo, Andy Il llmor nos Estados Unidos. Estou falando da
Capp, se tornaram a dei icia do lazer dos burocratas, 11 vista Mad, que, lidera da por Harvey Kurtzman
Falando giria londrina, Andy Capp ou o Zé do Ilomeçou a satirizar tudo que encontrava pela '
Boné, de _ Reg Smyth, mostra com perfeição àS 111 nte: filmes famosos, _program~ de TV e até
crises de desemprego ~ quebra de valores. Andy 1I10smo as próprias istóriaL e1D-quadrinhos.
Capp .é preguiçoso, dn lco e briguento, mas apanha Através de jogos de palavras e a reconstituição
d: Fio, sll.a_mulher que o sustenta. Dá tudo para ;In tipos, não escapou ninguém. Só para terem uma
nao trabalhar e, quando não joga futebol ou 11I,lla: Walt Disney foi travestido em Walt Dizzy
bilhar, cUida de seus pombos e bebe com os amigos ( Ionto) , Princi e Va lente em Principe Violento e
(ou amigas) no bar. 11 pr6 prio Flash Gordon virQu Flesh Garden lí!L..
Quando eu traduzia as ti ras do Zé do Boné para 111m da Carne). Uma personagem bastante reacio-
o Jornal da Tarde, em São Paulo, recebia muitas lI ~rla dos anos 30, Littl e Orphan Annie, se traos-
cartas de fãs do irrequieto personagem. Muitos se IlIrma numa espetacular loura sexy, Little Annie

,I
46
Sonia M Bibe·Lu) 'I''" é História em Quadrinhos 47

Fanny, que só tem corpo, mas a cabeça é vaz ia


de idéias. A vanguarda
A Mad de ix ou como legado uma série de outras
do mesmo gênero, satirizando tudo e todos . Em
outros países, como a França, a revista Hara .Kiri 1\ vanguarda feminina
representou a mais importaClte tendência intelectual
em moldes homorísticos. Bem posteriormente, no Dizem que as mulheres dos quadrinhos nos
Brasi l, as revistas Crazy, Pancada, P/op, K/ik e IIIIOS 60 puseram "as manguinhas pra fora". Eu
Gripho, em que se destacam as colaborações de dir ia que, na verdade, puseram muito ma is do que
José Alberto Lovetro (JAL), traduziram o humor lu o. Cansadas de tanto aparecerem em seg~ndo
nilciona l daJru:truLbaslantej rneUgente, também I I plIlM, as mulher~ pro,ta.gonistas do novo quadrlnh ?
Normalmente, quando se pensa nos anos 50, " I) O s ímbolo da vitOria e~iill.ça do sexo feml-
imediatamente vem a lembrança dos quadrinhos 111 11 0 sobre os homens.
pensantes, dentro da linha psicológica e metafísica. Desde a condenação dos quadrinhos, proc lama-
Tudo berTI.'" l'IJo entanto, eu acredito que através"da dll no início dos anos .50 como responsáveis pela
sátira e do humor, tão bem representados pela di uradação fisio lóg ica do ser humano, l1}~ i ta água
revista Mad e outras semel hantes, é que se deu a Inlo u. A distância de alguns anos,. onde~ l,berdade
I grande vá lvula de escape para o ranço provocado dll ex pressão foi um fato adquirido, fez com que
L. p~ guerra fria. 1/ 1 rotismo reencontrasse seu devido lugar.

.~riso, o escárnio, a gozação e a ironia bem 8arbarella foi o carro-chefe das hera nas eróticas .
dosados cumpriram também sua função de recons- Orlada em 1962 pelo francês Jean-C laude Forest,
trução e do renascer de um mundo ainda embara- 1111) misto de Mul her Maravilha e Little Annle
çado nos resultados da Segunda . Guerra Como I lInny, foi publicada na revista V-Magazine: Com
sempre, o espetácu lo tem que continuar~ IllIrba rella os franceses conheceram sua primeira
II Q para adu ltos.
Em 68 foi levada às telas com direção de Roger
Vodin e J ane Fonda no papel pr incipal. Bem
lilr rente das hera ínas submissas dos anos 30,
I'omo Da le Arden (f lash Gordon), Jane (Tarzã) e
Nnrda (Mandrake) .lBarbare lla queria mais é t irar
IIl ovolto dos homen s para as fi na l idades que
o,' ; , 48 Sania M. Bibe-Luyten o que é História em Quadrinhos 49

ela comandav; 1
I
uma legião de mulheres belas, eróticas, como:
A sua posIÇão é um reflexo da própria evolução Satanik, Isabel/a, Messalina, Jungla, Justine,
da -mulher na sociedade moderna . Dentro do estilo , Walal/a, Odina, Lucifera e daí por diante. Essas
ficção científica, Barbarella transita pelo espaço, heroínas representaram um momento da liberação
ama a aventura, devora tudo que encontra pela sexual italiana, tornando-se assim, juntamente com
frente, buscando sempre novas emoções. os franceses, o símbolo dos quadrinhos adultos
O sinal ficou verde e {0, trânsito livre para tantas dos anos 6Ql
outras almas gêmeas. Apareceu Valen tina , de Esta Influência conseguiu, também, furar o
Guido Crepax, heroína freudiana que se li berta dos bloqueio dos pa íses comunistas, e uma mulher
problemas cotidianos através do mundo de son hos. 'enorme, grotesca, com uma estrela vermelha na
Va lentina é enigmática, bela, sensua l mas de testa e os seios à mostra, rasga a cortina de ferro
dif(cil leitura, pois leva ao extremo a linguagem para se tornar heroína única dos quadrinhos
cinematográfica nos quadrinhos. soviéticos (clandestinamente, é claro).
Ainda na Europa, Guy Peellae rt criou duas O fato é singular mas Oktvabrina ou Octobriana
beroínas inspiradas nas musas da mú sica francesa: ' representa o verdadeiro espírito da Revolução de
~del/e, a partir de Sylvie Vartan,. e Pravda, de Outubro de 1917. Quem a criou foi um grupo de
Françoise Hardy. As duas hero ínas Introdu ziram a estudantes 'da_ Unille,rsidade de Shenshensko, em
pop art nos quadriohos, misturando cenas míticas Kiev. Ela transita livremente no tempo e no espaço,
. com liberação sexua U E surge Paulette no pedaço, mas está pronta a combater a opressão dos velhos
uma heroína desbravada, com se ios enormes, regimes coloniais e a burocracia soviética con -
uma criação genial da dupla Wolinsky e Plchard . temporânea.
\.!.. os franceses não pararam mais de produz ir Na distan te Ãfrica, em Moçambique, a mulher
belas mulheres : de Gigi e Moliterni surge Scarlet também conquista seu espaço, ap6s 1975, o ano
Dream, e da pena de Nicolas Devil, Saga de Xam, da libertação, depois de cinco séculos de colonia-
que, apesar da aparência violenta, é uma grande lismo português. Seu nome é Xiconhoca. Ela é.
mensagem de amor e p.iZ1 revolucionária e líder dos idea is da FRELlMO
E a Itália não fica nada devendo à França em (Fre nte de libertação de Moçambique).- Apesar
produção. À partir da revista Diabolik em 63, surge de Xiconhoca ter sido criada nos anos 70 e não
o moment~have de difusão de hero ínas. Juntam- perte ncer à linha erótica, seu autor coloca a mulher
se a linha francesa e a italiana e o resu ltado foi em primeiro plano na conquista de seus direitos.
r 50 Sonia M. Bibe-Luyten o que é História em Quadrinhos 51

'i:.,. [Na verdade, as heroínas dos anos 60 , usa ndo o


erotismo como escudo e os movimentos femin istas
como arma, retratam bem os anseios de uma
emancipação socia l, econôm ica e sexua l1 .,

Abaixo a ordem. Viva o underground!


A grande difusão das HO americanas teve como
base a organização eficiente dos svndicates. Mas, ,
para que isso fosse possível, as histôrias preci- 1
savam ter certas regras para Q..ue pudessem e possam
ser li das no mu ndo inteirol M ui to ligada à histó ria
dessa difusão, está uma c~'nsura caminhando ao
,
,6. './1 ,.
I ~ ,

lado e tornando, assim, as HO de consumo muito


"pasteurizadas". Isso significou uma espéc ie de
censura a temas, imagens e texto. E: muito comu m
L-- ver nas HO certos sinais gráficos como cobras,
lagartixas e caveiras, significando um palavrão
não dito ou censurado.
Nesta trajetória, a um certo momento, .lIDl
grupo de estudantes da Ca lifórnia, liderado p_OJ:.
obert Crumb, resolve quebrar certos tabus
nos_quadrinhos.
"\JLc lima era propício . O mov imento underground
dos anos 60 alastrava-se para todas as moda lidades
art(sticas. Na verdade, é difícil definir o que foi
/ o underground, po is pretendeu revol uc ionar todo
o sistema vigente, o establishment, isto é, a ordem
estabe lecida. O líder deste movimento foi Nervil le,
que propunha uma so lução tendo como origem as
52 Sonia M Bibe·Luyten o que é História em Quadrinhos 53

comunas rurais e a mudança da concepção de A reprodução passou a ser perm iti da sem problemas
família, peça·base da organização de uma socie· . de direitos autorais. O sistema de vendas e distr i-
dade. Isto provocou umª espécie de contracultura, buição era feito "de mão em mão" nas portas
uma cultura marginaliza cJ!J dos teatros, nos jardins, nos bares, enfim, tudo
Robert Crumb, vivendo e participando da ao contrário do sistema "certinho".
juventude underground contestadora, cria um O sucesso foi grande l Mas, de marginal que era, l
personagem que fez mudar os rumos da HQ: foi engolido pelo siste m"ãj Surgiram revi~tas e "
'Fritz the Cato Criado em 1967, é um gato estu· personagens semelhantes aos de Crumb. rF:oram
dante, contestador, poeta, revolu cionário, român- industrializ~os, formando ·se até uma ~ itora
tico, terroriswe drogado. 10 caçador também. undergroundl Seu criador, vendo tudo isso aconte·
~

Mas não de ratos e, sim , de gatinhas, participando cer, abandona o mundo civilizado e vai criar cabras .
. de orgias e fUQindo semore da ,,-ºI ícia, O movimento underground nos uadrinhos,
- l\IIãis tarde, o mesmo Robert Crumb cria outros porém, rodou o mundo. No Brasil, Fritz the Cat
personagens. Mr. Natural, um baixinho careca e - Mr. Natural fiçaram conhecidos atrãVes da.
de longas barbas brancas, ex-motorista de táx i revista Grilo, nos anos 70. E influenciou bastante
do Afegan istão que resolve viver nos EUA. Ele o · uadrinhos marginais brasileiros.
prega a desobediência socia l, mas depois foge Foi uma etapa importante como forma de
para as florestas e va i viver como erm itão. Apesar prCrtestar num período de bastante agi tação socialt
de velho, gosta de moças bonitas e apetitosas. Em 65, o Vietn1í. era cenário de guerra e as ãu~
Mas, no fundo, transmite uma !lfande fossa, pois, potências do mundo, Estados Unidos e União
sempre que pode, deixa transpare1er que há poucas Soviética, gastaram milhões em armamentos e

n'esperanças no mundo.
Esses dois personagens foram editados na revista
fundada pelo próprio Crumb.
Com tudo isso as HQ sofrera m grandes mu·
anças. Os quadrinhos, no meio de toda essa
a juventude teve que ir à luta.
E os que ficaram ou vol tavam mutilados, berra·
vam ao mundo "Paz e Amor". Os univerSitários
pariSienses, na primavera de 68, se revoltam contra
os sistemas arcaicos. Muito tumulto, agressão. Nos
contestação, ficaram livres dos modelos impostos Estados Unidos, em Berckeley, Califórnia, apare·
pelos syndicates. O pa lavrão é dito mesmo, não ciam os sneaks - jovens que t1ªEam a roupa em
há censura para as orgias e o desenho é mais público em sinal de protesto. E os quadrinhos
livre. Além disso, não há regras para publicação. dessa época refletira m bem o clima de insegurança
( 54 Sonia M Bibe-Luy tell o que é His tória em Quadrinhos 55

e ~ forma de protesto foi pôr abaixo tudo aquilo Tsé-tung. Jmpressos e distribuídos somente na /AL-b~
que incomodava o2.jovens. JI:1em da Zap de Crumb, Ch in a, o Ocidente praticamente nãQJ.oro.ou..coQbe LX
surgem Snappy Sammy 2 moot, do guerrilheiro .Qmen!o_dessa...pGaer-eSil-ar-ff\a-i€leelég i€a~o mente
I revolucionário SkiQ Willi amson (1968) e Trashman, após 71, quando alguns intelectuais franceses e
de Spain. RodrLgu@ italianos como Chesceaux, Nebiolo e Umberto
Os temas abordados pelas revistas underground Eco p ublicaram um livro - I fumetti di Mao-, é
tinham em comum as comunidades marai!lais, a que o bloqueio foi fu rado . c
sexualidade, os hippies, a violência, a droga e a Nos anos 60, os mao(stas, .para reforçar a imagerTL
ecologia, dentro de um estilo realista e caricatural.. do seu I(der (que estava perden do terreno), fazem
Os quadrinhos underground inspiraram-se em a "Revolução Cu lt ural" numa tentativa de trans-
algumas histórias sadomasoquistas dos anos 40 e 50 formar o curso da po l ítica chinesa.
e também parodiavam os personagens da idade de Aí é que entram os quadrinhos - um ve ículo de -
I'
ouro (anos 30), co locando os heróis como Tarzã e fácil le itura e ca~ã - para cumprir uma função
Flash Gordon numa intensa atividade sexual. peaagógl~ Na verdade, é o texto que teiTl umar?"
importância Ql:imordiãl. A figura adquire uma
I' Mao Tsé-tung ataca de quadrinhos função de suporte para atrair a atenção do lêTtor. :......
Portanto, os quadrinhos de Mao refletem, na
Nessa mesma época, porém, do outro lado do (iécada de 60, as contradições pol (ticas da China,~
mundo, os quadrinhos estavam servindo para no momento de rompimento com a União Soviét ica
propósitos bem diferentes. Se a gente se transportar e em que se desemboca na Revolução Cultural.-
para a China, nos anos 60, a cabeça vai ter que se Seu grafismo revela dois estilos bastante diferentes:
reciclar para compreender o que estava aconte- a natureza é pintada de forma tradicional, mas as
cendo lá e o que as histórias em quadrinhos desem- figuras humanas são bem real istas. Com um acrés-
penharam nesse pa(s. cimo: os maus e os tra idores dª-pátria são awes.e.o-
Nunca é demais recordar que os comunistas, ao tados de forma caricatu[al ~ _____
conquistar o Qoder na China em 1949, já de cara ~os ·Estados- Unidos, além do movimento I
desenvolve.!:am _uma grodução de quadrinhos como un"derground há grande efervecência na produção
instrumento de educação e formação ideológica. dos novos super·heróiS":'
Ficaram célebres os "Quadrinhos de Mao", onde ~ Stan L",e é a gran e estrela entre os desenhistas
gradualmente foi inserido o pensamento de Mao americanos. São de sua criação numerosos ~uper-
rrr 56 Sonia M Bibe·Luyten o que eHis/ória em Quadrinhos 57

heróis, mas não do tipo tradicional. Apesar de a tu íram·se num gênero denominado fantasia heróica .
vestime ta ter muito em comum com os da década Nos Estados Unid os, os quadrinhos mais.conhecidos
de 40, uas personal idades parecem ser mais com este assunto foram 8lackmark, um cavaleiro
normais, isto é, amam, odeiam, têm seus defei·
~
do mundo do pós·guerra atômica, onde a sociedade
tiflOos, etc vo lta a ser primitiva. Além de Annikki, de Mike
Com Steve Ditko, Stan Lee criou O Homem· Rogers, uma hero (na bárbara, diferente ffifs eróticas
Aranha e Doctor Strange . E com Jack Kirby, os do período anterior.
famosos Fantastic Four, grupo composto por A série Cinco Qor Infioirus.r de Esteban Maroto,
quatro super·heróis: O Homem Elástico, A Mulher também dentro do gênero fantasia heróica, ficou
.,
Invis/vel, a Tocha Humana e O Coi~ conhecida pelo público brasileiro através da Edição
Hulk, o incr(vel Hulk, saiu da incrível pena de Monumenta l da EBAL, onde o desenho é primo·
Stan Lee, e os anos 60 deram às HO o prime iro roso e muito bem elaborado.
super·herói negro: 81ack Panther, que mudou O Com um nome estranho e belo ao mesm"O"
nome para 81ack Leopard para não se ligar ao tempo, a França dá um grande passo na va ngu arda
movimento extremista com a mesma den om inação. dos quadrinhos em termos ed itori ais. Precisamente
Já na Europa, a França ataca os quadrinhos com ' no dia 19 de dezembro de 1974, nascia a Editora '/ V
a famosa revista Hara·Kiri, onde permitiu que Os Humanóides Associados, cuja grande atração e-
mu itos desenhistas novos mostr~ssem seu talento foi a revista Métal Hurlant. Seus fundadores,
e, em seguida, surge 8.-. famosa\ Pilote, estinada Druillet, Grot, Dionnet e Farka's, deram um passo
ao público adulto das H..9J gigantesco no mercado de quadrinhos, abrindo
E a Itália publica a revista Linus, introduzi 'l do as espaço para um novo pÚblicÕl
novas tendências estéticas da década de 60, camo Muitos desenh istas famusos entraram para as
por exemplo Valentina, de _ o CrepaXl. páginas de Métal Hurlant. Druillet, já conheci·
I - díssimo através das aventuras de Lone Sloane, cria
um novo t ipo de anti·herói: Vuzz, um personaqem
mi's teríoso VInSlO de algum planeta perdido da .~
. O que mudou nos anos 70 e 80 galáxia. '
Sob o pseudônimo de Moebius, o francês J ean
Temas misturados com ficção científica, canções Girau d não fica atrás e seiiTlpõe como um dos
~

L' de cavaleiros mais a feitiçar ia medieval consti· maiores expoentes da criação de histórias fasci·
-
'tif S8 . Sonia M. Bibe·Luyten o que é História em Quadrinhos S9

,
nantes. E o Brasil perdeu Sérgio Macedo, que E neste intercâmbio quem está ganhando e o
ficou muito mãis ...konhecido no mundo pelas leitor da nossa década.
, páginas do Métal Hurlant do .que em nosso pa ís.
,
i: muito d ifícil falar do momento histórico em
O editor da revista americana National Lampoon que se vive. Quem são os novos heróis, qual a
gostou tanto do estilo desses quadrinhos que quis preferência do público, que rumo vão tomar os
publicar algumas histórias da Métal Hurlant. E em quadrinhos daqui para a frente?
abril de 77, edita Heavy Metal nos Estados Unidos . Vamos viver nosso tempo e saborear as pági nas
No entanto, ao invés de comprar todo o material dos gibis de maneira intensa, poi s elas passa rão
francês, inseriu histórias locais mais compatfveis para a história dentro de alguns anos.
com o gosto americano. Com um acréscimo de E, enquanto os heróis e heroínas cavalgam pelo
If
material da Espanha e da Itália, também . Inclusive, espaço em busca de novas aventuras, a vida na
o desenho animado Universo em Fantasia, uma Terra continua, mas eles serv irão, sem dúvi da,
l~' seleção de quadrinhos da Heavy Metal, foi todo
feito com material americano.
para novos temas de quadrinhos .
e o mundo acabasse, tudo fosse destru íd o e
A produção dos anos 80 na América do Norte somente sobrassem as revistas de histórias em
:1 if es.tá voltadi;l Rara as minisséries,Jepresentando uma quadrinhos, algum ser extraterreno (se consegui sse
/ G:ra fase das HQ. O formato é de gibi, Rorém, a~ 1 decifrar a escrita de nosso planeta ) pode ria t er,
istórias são mais bem elaboradas. A capa e o com certeza, uma idéia adequada do mundo em
I j papel interno são de melhor qualidade e existe
toda uma reformulação da narrativa com a intra·
que, outrora , vive mos.
III .
~?ãO de novos personagens.
1 \ As minisséries lembram ~ouco as aotiga.§.
novelas e~rtuJ.os~~cada_uma de las contém de
j 6 a 12 números com hlstb rias completas . .
I
Na apresentação gráfica há influência do estilo
do desenhista Will Eisner .tO ESDrrito, da década .
111 de 49, lem6ram·senllOj ogo de luz, e a linguagem .
cinematográfica aRarece a tooo vapor. E um .
. detalhe: o Ocidente vai buscar inspiração nas HQ
Japonesas tanto em conteúdo como no e,st ilo,

~l
I--
. ••
•• ••
'r o que é Históna em Quadrinhos 61

deste século, com ampla repercussão ri,acional ou


internacional? Talvez sim. Talvez não. E ' muito
mais para não do que para sim , não é verdade?
E por que será que certos pa íses conseguiram não

só criar heróis nacionais que continuam vivos
(publicados) até hoje, como também fazê-los
cr iar fama no mundo inteiro?
Como já vimos, há os esquemas de divulgação e
de sustento de um personagem. Mas é preciso que
ALONGA LUTA ele seja criado e que viva o suficiente para consta-
DOS QUADRINHOS BRASILEIROS tar-se se agrada ou não. Um bom exemplo para
isso é Maurício de Souza . Após anos de lu tª.....ele
conseguiu- impor os seus gersona ens e, hoje....em
dia, suas revístas vendem mais do que as do mUl:II:!a-,
Você, leitor, naturalmente não nasceu em 1929 Disney no Brasil. No entanto, o personagem que
nem pôde acompanhar a criação de um personagem vem tomando vu lto nos últimos tempos LQ Cbico. -
americano nessa época . Por outro lado, deve Bento, justamente o que mel hor representa o
conhecer, com certeza, quem é o herói Mickey brasileiro de nossos dias com seu sonhos nostálgico
Mouse, de Walt Disney. Até hoje, ao longo desses volta ao interioL
anos todos, o pequeno camundongo ainda está Um caso bem diferente do Brasil, por exemplo,
perambulando pelo mundo, as páginas das revistas é a Argentina que, no resto, é igual a nós no que
de HO ou em comercia is de algum produto. se refere à infl'uência estrangeira em todos os
Por uma série de razões, o ratinho Mickey ficou ângul os. No entanto, seus desenhistas e respectivos
famoso em seu país de origem e, depois, no mundo personagens são mundialmente famosos e expor-
todo. E, assim, tantos outros heróis ou heroínas tados para uma série de países, como a Maf,alda, o
americanos, franceses ou italianos, formando um Patoruzú e o Isidoro, além de muitos outr~
conjunto de produção de quadrinhos em seus Como é que pôde acontecer isso bem ao nosso
respectivos países. lado? Bem, vo ltando alguns anos, na época de
E do Brasil, você, de imedi ato, seria capaz de Perón e Evita,- houve pura e simp lesmente uma
nomear cinco ou dez heróis de HO, desde o in (cio proibição de se editar Quadrinhos estrangeiros na
r~J 62
\
Sonia M. Bibe-Luyten O que é História em Quadrinhos 63

Argentina . Esta situação durou alguns anos. Tempo suas ra izes, se ja em que campo for: literatu ra,_
sufic iente para que os desenhistas argentinos se---- ci nema e, mesmo, quadrinhos, saberá, com mui to.
" organ izassem em uma poderosa esco la cU Jos maior precisão, trac;:ar o futuro .
" resu ltados são sentidos ainda hoje. Os quadrinhos brasileiros tiveram gran des
I , Atualmente, no Brasil, é difícil proibir-se qua l- expoentes e bons momentos. Muitos de les, poré m,
quer CO isa, ma is ainda cortar uma influê ncia foram a bafa dos oeJaLCi.cc u ns.tânc las.::e,-p~1f.1Gll'l
a ·l·
I ali enigena tão arraigada no pa is. Por outro lado, me nte, pela fa lta de consciência. Uma i::Qosi:: iêo cla_
porém, poderiam pelo menos dar um m ínimo de cr7tica de quem Qublica, .ctLguem com llliLl' to ,
Q ondições de sobrevivência a nossos desen h istas. .tíém de quem faz.
Uma dessas possibilidades é uma regulamentação Quando se ana lisa o ,passado, a tendência é de
da produção nacional por lei, de que falare i adia r1tê.l se ressaltar o que de melhor ficou . Mas, em qual qu er
. ~ Até o momento, todas as nossas produções Cle' • pais, em gua lguer él2oca, l2ara que os melho res
HQ, com exceção de Maur ício de Souza, não preva lecessem hOl.L\le mui.tB-.ptodução iosigo.ifi:...
I: perduraram no tempo. Mu itos art istas de primeira cante, também.
I grandeza não puderam ser apreciados devi damen te Assim, a produção dos quadrinhos nasclon ais
pelo púb lico a quem desejavam oferecer o seu deverá ser vista em função do que aconteceu em
trabalho. Já houve diversos artistas que, não cada época para poder ser ava liada . E este se rá,
I obtendo o devido reconhecimento aqUi, foram portanto, um bom começo para se fa lar em tra Je·
I!' para outros paises, onde foram recebidos de braços tória das HO brasileiras. Uma trajetória que _se
I' abertos. Um desses exemplos é Sérgio Macedo, que, iniciou em mo ldes mu.itO-LllalS-lml.ta-t-J-ves el o q ue
, no inic io dos anos 70, fQi..,:;Jara a França e lá criativos. E por que isso?
passou a publi car seus traba lhos numa das revistas
I mais importantes do momento, a Métal H tgkint.
Iô importante sabermos como se deua evolução
da HO nac l ~ se ~ese n nistas e Rersonage ns
Um início modesto
principa is nor dois ~ntivos : um deles, Rara ava liar .
a prQdução at ua l e suas tendências . A outra ,_ta.l1l8z. i: bom lembrar do que ocorreu nos Estad os
a ma)s importante : para tomarmos co ~ i ência da Unidos no f im do século passado com os quadrinh os:
própria cu ltura brasil eira gue nela se ref lete ._ o sucesso alcan çado pelos suplementos dominic ais
. .
II Um povo que tive r' consc iência de suJLb istória, dos Jorna iS, a partir do " Yellow Kid". Des ta

J
64 Sonia M. Bibe-Luyten o que é História em Quadrinhos 65

TOOO MV NOO I
forma, os primeiros personagens norte-americanos os ME"U$ CABElOS, TE NHO
DAR U,01 JEITO NflfS.
logo alcançaram uma ampla repercussão, que
chegou, inclusive, ao Brasil. " :,
Nossa primeira revista de HO chamava-se O Tico
Tico e surgiu· áernT90o.Seu personagem priilcipal
<õhamava-se Chiquinho, um menininho loiro de
cabelos compridos. Na reáfidade era uma cópia de
Buster Brown, criado por R. Outcault, o primeiro
desenhista de quadrinhos americano, o mesmo
aútor de "YeITOvVKid". -
- O Tico Tico era uma revista destinada às crianças, ,
mas não como os gibis que conhecemos hoje em VOI) VlPE~I"fN· OLEO "I
dia. Havia poucas páginas com quadrinhos. O resto 'TALVrl
A' ""<\.0.
Ot RO~A~
.,.,
CE RT O
' era texto. Geralmente, curi"bsida-de·s;-iábulas e PARA
; -fatos sobre a história do Brasil. Ao longo dos anos, AMAelAR
poré m,-Ol lcO Tico foi se enriquecendo com SEUS
• CABELOS
grandes co laborações de desenhistas famosos.
Um bom exemplo disso é a história de "Reco
Reco, Bolão e Azeitona", de Luís Sá, que soube
pôr no papel tipos bem brasileiros. O Azeitona é
um negrinho sapeca que faz mUita agunça Coiii o
c0l!12anhei o.-ll..o lão., Úm meoino _ gor..ducho, e o
R-eco Reco,Jjue tinha o cabelo todo arrepiado.
Luís Sá continuou deseDbaodp ~depois, inúmeras
histórias,. e_ se estilo fo U llconfundível: quente,
form as arredo dâd.as, um ve rdadeiro barroco
brasileiro. Maccou época na HO nacional.
Lembro-me bem, quando ele morreu há alguns
anos, os jornais demonstraram pouca importância
a este grande artista. No entanto, ele merece nossa
7""1 . 66 Sônia M Bibe-Luy ten (l que é História em Quadrinhos 67

admiração por ter dado ao quadrinho um sabor linha, se destacaram e todos se internacional izar am o
inconfundivelmente brasileiro. O segredo estava começando a ser desvendad 0 -
Outro grande valor dessa época foi J. Carlos. partir do nacional para o universa l.
O volume maior de sua criação a rtfstica, porém, Na pol (tica, Getúlio Vargas dominou o cen ário
: til nacional, tornando-se muito popu lar através de
foram a charge e a nustração. Ele colaborou em
quase todas as revistas importantes de seu tempo. ações como dom (nio da imprensa e outros. Foi um
' Nos quadrinhos, sua criação no O Tico Tico foi dos governantes mais ca ricaturizados pelos artistas.
Jujuba, Carrapicho e Lamparina, que, além de Dizem que ele até gostava d isso. Getúlio, qu e se
I • primar_(:Ie lo lindo desenho, mostrava um conteúdo tornaria famoso por uma série de- reis de cu nho
bem brasileiro. Soube captar a paisagem tropical,~ nacionalista, no entan to, perdeu uma oportunid ade
burburinho subürbano, a conversa de muro e muito boa de aumentar a inda mais o seu prestíglO:
i i!
também o sofisticado ambiente urbano.
-- não fez nada para abrasileirar as histórias em
.
Em 1960, O Tico rico' term ina sua jornada, com quadrTilhõs:-Na Argentina, como já mencionei, seu
II
55 anos de publicação ininterrupta . Foi o fim de colega de ditadura procurou concentrar a aten ção
uma revista por onde passaram grandes desenhistas dos leitores argentinos em torno de assun tos
Ilit! I nacionais de lá. E um dos passos decisivos foi
e funcionou como uma espéc ie de tubo de ensaio
onde se ex perimentaram novas técnicas e novas nacionalizar os quadrinhos. Ali ás, ele simplesme nte
histórias. Foi lido por mu itas gerações e' ensinou proibiu as histórias estrangeiras e, com isso, deu
11' mu ita coisa para as crianças de diversas épocas. campo aberto pa ra os argentinos fazerem as na CIO-
nais. O resultado disso todos con hecem : u ma
Os suplementos no Brasi I: vtr0rosa produção argentina.
Uma faca de dois gumes No Brasil, por essa época, estavam-se .con sti- l
tU IITdo grandes monopólios jorna l rsticos em for ma
O Brasil viveu grandes momentos e mu itas de empresas bem est ruturadas, com eficie ntes
transformações no campo artrstico e pol ítico nos sistemas de produção e de distribuição. Um de les, I
anos 20 e 30. Na literatura, Graciliano Ramos, A Gazeta, lança a Gazeta Infantil ou Gazetin ha, I
José Lins do Rego e José Américo tornaram-se que se caracte riza pela publicação de quadrin i1FiõS
d~S' j
expoentes porque souberam utilizar temas ...brasi- tanto estrangeiros como nacionãiS':"Dos Importa
leiros. O mesmo aconteceu com a pintura, onde vale c itar o Gato Félix, Fantasm.l!JLl.iJ:tl.eJ'Jem O...lD
Portinari e o Grupo Santa Helena, na mesma Slumberland. Mas em suas páginas aparece também

l~~
68 Sonia M. Bibe·Luy ten o que é História em Quadrinhos 69

HQ brasileira. Um desenhista que caracterizou a Selvas, Mandrake e outros. Chegou a haver uma
epoca fo i Be1monte. Ele foi outro exemplo de disputa pelos leitores com a história do Fantasma,
desenhista que soUbe capta r o gosto popular e que também era publicada pela Gazetinha. E
transformá·lo em produção art(stica . O forte de sua também mu itos dJl.senbista.LbJ:JlliJ.e.iOLpassararD-.a_
"'-produção foi a charge, e o personagem QlJe o colaborar no Suplementº-, e este chegou a ter
celebrizou foi Juca Pato (que também aparece ti [gens sIgnificativas pa@ a época.
em quadrinhos), o tipo comum das J1essoas qLJe Acredito que esse pedodo teve con.çlições ideais ,
sempre "pagam o pato" por alguma coisa que párã a fixação dos quadrinh os no Brasil! O mundo
outrosTazem todo explodia em criações de alto""flfvel, como
. I 'r A Gazetinha teve o grande mérito de dar oportu· Tarzã, Flash Gordon e outros. Os leitores brasilei·
n iaãde aos desenhistas brasileir0J ao lado da ros puderam conhecê·los através dos !iYplementos. )
publicação das traduções dos Importados que Co isa boa é sempre agradáve l de se apreciar. No
chegavam dos syndicates americanos por um enta.~o, o Brasil pagou um preço bem caro por )
li ( preço bem barato. Deixou de _circu~r em 1950, isso.tÉ- preciso lembrar que a produção estrange ira
11' após sua fase áurea nos anos 30. supla ntou a nacional, havendo um desequil íbrio
(' Nesse mesmo período de grande ebulição dos na balança
quadrinhos no Brasil surge um dos maiores editores Os arus1as brasileiros dessa época tinham muito
de quadrinhos, que é Adolfo Aizen. Como já ta lento e mu itos puseram toda sua veia artística nas
disse, ao contrário de outros pa Ises, no Brasil os charges. Fazer quadrinhos e publi cá· los exigia muito
editores de quadrinhos tiveram mais destaque do mais espaço e investimento dos meios de comum·
que muitos desenhistas. Isso porque sempre foi ção, e a palavra "cr ise" parece acompanhar todo o
a publicação que garantiu o desenhista, sendo que desenvolv imento histórico do sécu lo XX.
esta situação s6 vai reverter·se com Maurício de Dessa maneira, os art istas nacionais sempre
Souza da década de 70 em diante. Adolfo Aizen tiveram que competir com o que vinha de fora.
( come~ou publicando o Suplemento Juvenil. Ma is E o que vinha de fora era também muito bom
'- tarde, ele fundou a EBAL (Editora Brasil·América e, ainda mais, com esquemas perfeitos de distri·
Ltdãl, que se caracterizou por somente editar buição a um preço acess(ve l para o empresário
( histórias em quadrinhos. O- Suplemento Juvenil b@sileiro de jornais.
trouxe para oós-o--conhecimeJJ1Q dê grandes pro· I Mas os suplementos marcaram época no Brasil e \
duções da HQ, como Flash Gordon, Tarzã, Jim das despertaram o gosto pelos quadrinhos, e firmaram )
70 Sonia M Bibe·Luyten O que é Histórw em Quadrinhos 71

aqui a publi cação até hoje de tantas históriaS) Segunda Guerra Mundial, o nosso país deu apoio à
famosas no mundo inteiro e, pelo menos, tentaram Inglaterra- e, conseqüentemente, aos Estados
dar força aos desenhistas nacion ~U Un idos, depois que esse pa ís interveio na luta.
Va le a pena ainda destacar o aparecimento da Uma intensa campanha de cunho ideológico foi
revista Gibi, em í9"39-:-A palavra ''gibi'';arigor, espalhada para dar suporte aos ali ados, onde
slgmfica-n-m o leque", mas essa revista ficou tão também as HQ tiveram um papel especial. Nessa
popu lar entre os seus leitores que emprestou o seu época, no Brasi l, esses quadrinhos se difundiram
ríOnie para designar tudo o que é revista de H·C[:::" bastante. De produção naciona l, a charge foi a
Quantas vezes você próprio já não foi a uma banca modalidade artrstica que mais partido to mou no
de Jorna is e Ilediu o seu "gibi"? --- conflito-, - eartistas...J;omo f!elmonte retrataram a
Acredito que já deu para notar, até agora, a guerra em todos os seus detalhes .
grande diferença entre os quadrinhos brasileiros e O término do conflito deixou um grande vazio
os estrange iros (principalm..§nte os americanos), nos quadrinhos, principalmente nos EUA e Europa.
quanto à sua publicação. ~quanto no exterior Como já contei, iniciou·se uma grande campanha
ficaram famosos os personagens, isto é, os ele· contra as HQ. E o incrível é que o Brasil adotou
mentos principais de uma história, !l.o Brasil também essa postura negativa. Os professores e
(
J
destacaram·se as revistas ou os suplemen tos pais pro ibiam sua leitura dizendo que era preiud i-
Muitas das histórias americanas começaram Clal as crianças e iovens. Até isso o Brasil importou !
ta mbém a parti r da publicação de jornais ou As ãCusações contra os quadrinhos foram tão fortes
revistas, mas sua força foi tão grande que os que, até hoje, muitos adultos - que_eram criao.cas
~I personagens sobreviveram e ficaram famosos por então - ainda não as vêeJll.C.PJT1 bons olhos.
SI sós. Em contrapartida, muitos personagens e Mas sempre houve pessoas que acreditaram nos
auto res brasi leiros de quadrinhos ficaram nas quadrinhos e, até por teimosia, continuaram a
páginas das revistas e não ati ng iram sua inde· publicá·los no Bras il. Fo i o caso da rev ista O Herói,
pendência. que marcou praticamente o re in ício das at ividades

Ecos de uma guerra


que não aconteceu aqui
da E"ditora Brasil ·América (EBAL) e a vo lta de
Adolfo Aizen às HQ. A EBAL publicou tam bém,
partir de 1949 até a década de 60, a Edição Mara·
ai
vilhosa, 9!Je mar~época, po.iL-quadtinizou
Re lembrando um pouco os acontecimentos da ' importante~obras literárias tanto estrangeiras
72 SOllia M. Bibe-Luy /en o que eHistória em Quadrinhos 73

como naciona is_ Entre elas, Os Sertões, de Eucl ides


éla Cunha, Mar Morto, de Jorge Amado, O Menino
.; do Engenho, de José Li ns do Rego, A Moreninha,
de J . M. Macedo, O Guarani e mu itas outras.
I Diversos escritores, que viram sua obra quadrin i-

zada, elogiaram o t rabalho dos desenhistas bras i-


leiros . Entre estes estavam Nico Rosso, André Le
Blanc, com excelentes criações a partir das des-
crições dos livros. Imaginem, por exemplo, como
e les deveriam desenhar a Iracema, quando J osé de
Alencar a descreve, dizendo que seus cabe los eram
ma is negros que a asa da graúna e seus láb ios mais
doces do que favos de me l ...

o nacionalismo
Rádio, TV, cinema e circo em quadrinhos
Ho uve um momento mu ito pecu liar nos qua-
( d "inhos brasi leiros, em que, a pa rtir de ou t ros
me ios de comu nicação como o rád io, a TV, o
c irco e o cinema, obteve-se uma produção razoáve l
de HQ nacio nal. Há inúmeros exemp los. A começar
pelo Vingador e o Capitão Atlas, de Péricles do
Amara l, que surgiram in icia lmente como persona-
gens de um progra ma radiofônico . O mesmo
\
ocorreu com Jerônimo, °
Herói do Sertão, uma
nove la de rád io criada por Moisés Weltman,/ de o Anjo, de Flávio Colin.
74 Sonia M Bibe-Luyten o que é História em Quadrinhos 75

mu ito sucesso, que descrevia as lutas de um valente · HQ de cunho didático, como Grandes Figuras do )
. sertanej o contra os cangaceiros no interior nordes- Brasil e Biografias em Quadrinhos. E o públ ico
tino. Essa história representou bem um dos protó- infantil VIU em quadrinhos as histórias da caro-
tipos do herói nacional, com muitos .ingredientes chinha, com Contos de Fadas e Varinha Mágica,
para dar certo: um herói, vaqueiro nordestino, da EBAL.
vilões, tam bém. locais, aventuras, lutas e cenário Três grandes mestres do desenho também
e berante, caracteristicamente nacional. criaram seus personagens numa tentativa de colocar
No ci rco, Arrelia e Pimentinha, Fuzarca e nas bancas ma is heróis bras il eiros: Sérgio do Ama-
Torresco e Fred e Caregyjniia, conhecidas duplas zonas, de Jayme Cortez, a Anjo, de Flá'lLo.-CoJm,
de palhaços, também fóram às ancas em forma de °
e Raimundo, Cangaceiro, de JoslLLaDcelo.ttL
quadrinhos. Foram ídolos de algumas décadas Fo i uma época muito fértil, a dos anos 50, onde
atrás, qua ndo a te levisão ainda não havia tomado mu itas sementes foram lançadas . Chegaram a
conta dos lares brasileiros e as famílias iam ao circo florescer, mas depois caiu muita tempestade e
nos fins de semana para se divertir. con tinuou a chover uma ava lanche de produtos
O gra nde ,êxito cinematográf ico de íoscarito e importados, sufocando as frágeis plantinhas brasi-
II Grande ateio, na época áurea da chancnaoa CIo leiras. Elas precisavam de estacas bem -feitas e adu-
cinema brasileiro, motivou a Ed . Cômico- Colegial bos de boa qualidade para crescer e dar frutos,
a lançar uma série humorística com a famosa mas não os encontraram.
dupla, o mesmo acontecendo com Mazzaropi, o A música brasileira explodiu com João Gilberto
capina, que passo-u a ser desenhado por Isomar. e a Bossa Nova. O Cinema Novo com Glauber
E, anos mais tarde, houve uma tentat iva de se criar Rocha começa uma nova era nas telas. O Teatro de
um super-heró i brasi leiro, a Capitão 7. Projetado Arena balançou o palco das produções cênicas, e
para um J .e dado_ de TV, foi quadrinizadõ por a construç1!o de Brasília, ini ciada por Juscelino
Getúlio D_eLphÜ'I . Kubitschek, arremata os anos 60, numa explosão
1 Estava começando a se abrir um bom cam inho de nacionalismo. Muita coisa marcante na trajetóna
'para o quadrini sta bra sileiro. ~, além dessas adapta- da cu ltu ra brasileira.
_ções todas, mais revistas surgiram, como a Sezinho, ~esse clima de nacionalismo, onde se procura-
onde o conhecido Fortuna publicou "Seu Ofo- vam modelos tipicamente brasileiros para todos os
ri no", a Jornalzinho e J:iquinho. A valorização movimentos culturais, nasceu o Pererê, de Zira ldo,
da História do Brasi l fo i feita através de revistas de um personagem que foi um marco na produção
.-
~II' 76 Sonia M. Bibe-Luy ten O que é História em Quadrinhos 77

~d!...9uadrinhos.
Lançando o Pererê em outubro de o Terror Negro pela Editora La Selva.
60, Ziraldo teve a capacidade de aglutinar toda Em poucos anos, porém, os americanos pararam
1\11 uma ambiência brasileira, a "Mata do Fundão '' e de fazer terror e as editoras brasileiras continuaram
~s propostas temá~~cas inspi ra?as . em nossos cos- com o gênero, contratando desenhistas nacionais,
tumes e suoersflcoes. Os proprlos- person·agens uma vei que o público comprava o produto.
são muito tfpicos: Saci Pererê - o símbolo folc ló- 9 terror foi-se adaRtando ao c li ma trop ical e
I riCO brasileiro, Tini"nim o índlo,_ Galileu - a
onça pintada, e o Compadre Tonico - o caipira
OS ambientes sobrenatural e fantástico foram de
cnei"õ ao gosto QcasjJeiro. Só como exemplo desta
\
I dó interior ãclBrasil. Todos reun - idos - num_bom
adaptação, foram criadas O Estranho Mundo do
desenho, uso eficiente de técnica de quadrinização Zé do Caixão, Histórias Caipiras de Assombra.ção'---f-_
e um_ cpn.teúa.cL cPlDpatível com a realidade bra- Histórias que o Povo Conta, Sexta-Feira 13. -
I; Figuram como destaque nessa época os desenhis-
sileira.
Mas o sonho acabou - precisamen te em abri l tas Jayme Cortez Rodolfo Zalla, Nicco Rosso,
de 1964 -,aliás, muita coisa acabou nessa época. Sh imamoto, Francisco de...8s.sis.,_Colooese e Gedeone.
~ara o término QQ Pererê foi ale9ado oue a história E mu itas editoras brasileiras sobreviveram quase
brasileira vendia menos nue a estrangeira e requeria vinte anos em função do terr.or, como La Selva,
11
uma estrutura arande com eguiRes formadas por Taika, Trieste, Prelúdio, Edrel, Outubro e Conti-
arte-finalistas, fotógr.ai~ e gravadores. Ela parou neQlal.
de circular numa ép..9ca de grande in stabilidade ~Mas a censura foi um dos fatores que terminoO
socia l, pol ítica e econômica do país - época com o terror no Brasil, pois, a partir de 1972, \
propícia para revistas de terror! passou a ex igir a ~itura prévia das rev istas. Isto
, porque, com a proliferação de muitas revistaS )
Do terror importado ao terror nacional pornográficas, o sexo atingiu o terror\

Em 1963 o Brasil possu ía 37 revistas só de Um expoente da HQ Brasileira:


terror. Esse gênero já_ vinha crescendo desde_ o Maurício de Souza
I término da Segunda Guerra, nos Estados Un idos.
A produção amencanD, nos anos 50, foi bem Quando comecei a falar da HQ nacional, pergun-
intensa e o Brasil publicou muitas histórias tradu- tei se o leitor era capaz de citar a lguns nomes de
I. zidas, iniciando essa modalidade em 1951 com hi stórias brasileiras. Entre aqueles de que você se'

. -",;1
'ir. í(f .
78 SOllia M Bibe-Luy ten O que é História em Quadrinhos 79

,
lembrou, devem estar os personagens de Maur ício Para garantir a penetração em outros países,
de Souza: Môn ica, Cebolinha, Cascão, Chico Bento •
como o Japão, a Alemanha e os Estados Unidos,
I
e muitos outros. Maurício de Souza conseguiu, produziu desenhos animados de longa metragem
realmente, o que nenhum dos outros desenhistas para garantir o suporte das revistas. Foi preciso
nacionais sequer poderia sonhar: êxito no Brasil
li,i I e fama mundial.
,

~ãS seu início foi modesto . Suas primeiras


- cercar-se de uma série de atividades para reforçar
~ gem.
Alguns teóricos o acusam de ter produzido
histórias foram publicadas pela Editora Conti- personagens que não representam o Brasil ou gue
nental, que lançava histórias de terror e havia não têm o va lo r de contestação sócio-pol íti co1
. decidido trabalhar unicamente com material Maurício iniciou e firmou seus personagens,
brasileiro. Tanto é que aparecia uma faixa verde-
I"'I[ amarela nas revistas, indicando que õ produto era
sobretudo, nas décadas de 60 e 70, trocando a
contestação pela retratação do mundo infantil
:1' 100% nacion al. que ele próprio viveu no interior de São Paulo .
J1i.rJu. lançado em 1959, foi o começo. Depois Segundo ele próprio, seu desejo é divertir, entreter
vieram a publica~ão das tiras na Fo7lia de S_ Paulo e e, na medida do possível, transmitir às crianças
a- distribuição nos iornais de todo o país, inclusive mensagens de otimismo.
eaitando suolementos dominica is com_ !lersona- Também é bom saber que muitas mensagens,
genssó~s. devido ao seu esp írito de reforço, passam com
No início dos anos 70, Maurício de Souza freqüênc ia despercebidas. A inocente Mônica, por
I, . . conseguiu penetrar no mercado editorial com seus exemp lo, o personagem que mais vende no Brasil.
personagens Mônica, Cebolinha, Cascão, Chico tem sua en trada barrada em. vári os...paíse.s,_jll&t&
\ Bento e Pelezinho, lançados pela Eãttora Ab ril. -
mente aqueles em gue _a. ..lDU Iher u oc.iaJ.rne.ole..
Mas sua consolidação deu-se, mesmo, através rEillrimida.
do f!!erchandising, isto é, da util ização de seus
personagens em produtos comerciais.
Assim, v!!mos toda a turma da Mônica em -l .
camisetas, toalhas, produtos alimentícios, esco l a ~ A marginalidade

etc. Daí por diante, as portas se abriram. Maurício •
conseguIu combater o esquema estrangeiro com as A juventude do mundo inteiro contestou os
mesmas armas, para vencê-los e, até, suplantá-IIils. valores tradiciona is nos anos 60 e 70 e, em cada
11
II 'l .~
80 Sonia M Bibe- Luyten O que é História em Quadrinhos 81

lu ar, essa briga teve certas características regionais. Bra.sh


\li mos que, na França, em 1968, os estudantes Muitas dessas rev istas nasciam pa ra morrer no
p seram abaixo os valores arcaicos do ensino, segundo ou terceiro número devido às dificu ldades
num quebra-pau monstruoso nas unive rsidades. pa ra a sua publi cação. Nem todas tinham uma
Nos Estados Un idos, iniciou-se o movimento bandeira definida de luta, mas retrataram de
underground contra tudo que aparecia sob a forma mane ira c§ ra e real o que se passou no Brasil
de estabe lecido. E a Guerra do Vietnã provocou nessa épo; aJ
muitos protestos, sobretudo nos próprios Estados A tendencia gera l, quanto à fo rma, fo i li gada aos
Unidos, país agressor! movimentos de vanguarda, e fo ram levan tados
No Brasi l, a sifi:iÍl ç1io, sob um outro prisma, problemas que, em gera l, a gra nde imprensa não
também era preta. 1964, 1968, 1972 foram anos pu blicava ou não podia publ icar.
dominados por muitos protestos estudantis contra Fo i uma espécie de tubo de ensaio, de experi -
o regime militar no país. A censura nos meios de mento para novas formas de desenho, de trans-
·comunicação fechou mu itas portas para a infor- missão de mensagens, uma vez que os problemas
III1 mação. Mas, o je itinho brasileiro soube abrir básicos continuaram os mesmos: a fal ta de perspec-
in~IDeras jane las. tiva profisisonal e nenhu ma regulamentação
Uma delas rep resentou bem o mov imento governamental q ue deli mit asse uma proteção ao
ma'rg ina l ou udi-grudi dos quadrinhos brasileiros. artista brasileiro.
Esse movimento explod iu por uma série de razões. Essas revistas margin ais surgi ram em t odo o
II ' , Além do cunho pol ít ico de alguns periódicos, os pa ís e, se não atingiram seus objetivos na época,
jovens, inconformados por não terem ve ícu los ,fazendo muito desenhista desistir dos quadrinhos,
para publ icar seus quadrinhos, dev ido sempre à l locomoyeu -se para um outro espaço artísti co:
forte concorrência estrangeira a liada à miopia de a f harg§..J .
muitos editores naCiona iS, lançaram dezenas de A imprensa brasil eira e os outros meios de\
revistas que _surgiram, principa lmente, nos me ios co mu nicação ganharam excelentes arti stas, como \
u . iv.ersitári~
II ( Ainda desta vez, os numerosos quadrinhos
os irm ãos Caru so, Luís Gê, Gus, Miada ira, Jal,
Na ni , Laert e, Fl ávio dei Carl o, Xa lbert o, Dagomir )
m;;rginais brasil eiros tiveram forte influência do Ma rchesi, Otadli o, Gea ndré e o ut~
underground americano. Mas · o conteúdo do A revista Balão fo i a pioneira . Nasci da no\
protesto foi contra a situação sócio-pol ítica do
Iir; campus da Un ive rsidade de São Paulo, consegu iu
,--------------------------------~
1/' "
82 Sonia M. Bibe-Luy ten O que é História em Quadrin hos 83

edita r quase uma dezena de números . Hoje · é do . povo, lá do sertão no rdestin o, que melhor
consi de rada um "c lássico " dos quadrinhos margi - CritiCOU a realidade brasileira
na is. Vieram depois: G irus (RJ). Capa (SP). As vezes não consigo i m~ginar como seriam os /
Ga ratuja (SP) , Risco (DF ). Boca (SPl, Esperança no du ros anos da repressão pol (t ica do pa ís sem a
Po rvir (RJl, A Ovelha (SP) , Humordaz (MG). p;esença de Henf il , qu e fo i um artista capaz não
Cl ick (SP-RJ) , Pi vete, Cabra-macho, Maturi (RN), so de reprodUZir be m essa situação, com o fa zer
Tatu-Ca rt um (RSl, Lodo (SPl, além de ou~ ra ~ ge r os dentes dos homens do pode r com sua
Por out ro lado, para espanto dos especial istas Critica e humor fe rino. .
dos meios de comunicação, as bancas de jornal ,E, lá do extremo sul do Brasi l, um personagem
começaram a vender um jornalzinho de forma ga ucho - Rango - de Edaar Vasques, tambem
dife rente do tradiciona l e de conteúdo menos ~o ntes to u a fome e a misé ria do paes. E a inda fOI
t radiciona l ainda. As vendas, em pouco tempo, um pouco ma is lon e: Hango, nasc ido perto a
ex plodiram e superaram quaisquer ex pectativas. fronte ira, ~ o!Ye-se com os _problemas latino-
O púb lico consumidor deste novo jorna l era ame.LiJ;.an.o.s. A sua crrtica ul t rapassa os IÍmitesaos
composto, geral mente, por jovens e estudantes. pampas para o âm bit o do nosso cont inente sub-
dese nvo lvido.
! Assim, no inicio dos anos 70, nasceu O Pasquim, , ~

qu e foi um ve(culo qlle deu_ uma reviravolta no ~J am que a busca pela retratação do naciona l
\ estrlo jornal (stico e revoluciono u também o humor é sempre contrnu a. Ca da um com seu estilo, sua
noB rasil. me nsagem, .procu ro u reve lar e cri t icar o momento
e m que . v i ve~
Consagrou grandes desenhistas e rpteiristas como
J aguar, Henfil , Zi raldo e Fortuna. t§ses e mu itos Foram experime ntadas novas fo rm as de lingua-
outros divertiram milhões de brasil eiros com a gem, formando, assi m, a frente de va nguarda dos
ma neira simpJ.es e direta das mensagens de profunda quad rin hos no Brasi l. E a HQ margi nal cumpriu de
critica soci~ O Pasquim foi apreendido inúmeras maneira form idável esta função.
vezes pela censura-lIJIas ISSO apenas aguçava o seu A níve l de gra nde ed it ora, a revista Crás., lançada
ataque contra tudo e todos. - pela Abril , c hego u a ser uma promeSsâ""de espaço
I O mine iro Henfi l, além da brilhante passagem para os q uad rln istas brasi le iros, J2!:!.!?li.ca ndo mate-
. pe lo O Pasquim , lança a revista Fradim, com seus n a l naCiona l. Passara m por el a Zé li o Perott i
personagens ]:.etedUQ Grauna, Bode Orei bano_ e Michele , Jayme Cortez, Mic hi '?:,e Ciça, ' uma da~
" os Fradinhos. Foi o cangaceiro Zeferino, o homem poucas mu Iheres neste cam po. ~ a Crás f icou ria
84 Sonia M. Bibe-Luy ten O que é His tória em Quadrinhos 85

promessa, logo saindo das bancas e dando ma is a perg untar: "Mas será possível que não ex iste
espaço aos quadrinhos Disn ~ nada que proteja o desenhista nac ional? Ninguém
Mesmo a iniciativa inrnvldual de Fortuna, I pensou em alguma lei ou a lgo semelhante?" Devo
lançando o Bicho, sofreu muita crítica por parte dizer que fo i pensado . Mas ficou só no pensa-
de jornais,- infl üenciando negativamente o público. mento, pois, de conc reto, não temos a inda nada .
Até os moldes de crítica de HQ nos jornais brasi- Outros pa(ses, ou por força de ci rcunstâncias
le iros ainda estão voltados para os quadrinhos . ou para se firm arem mesmo, con seguiram fazer
estrangeiros. Os heróis nacionais devem ter um com que os desen histas fossem tratados co mo
outro modo de anál ise porque têm características profissionais e vivessem de sua arte.
p ~ rias. O desenhista brasileiro é um lutador. Seu lema
Um grande passo, já nos anos 80, foi dado pela deveria se r: " He i de vencer, mesmo sendo dese-
Ea-rtora Grafipar, de Curitiba. SDb a capa de nhista de quadrinh os bras ileiros ".
quadrinhDs eróticos, para garantir a venda aD Só para se faz er uma idéia da situação, em 1963\
público, manteve-se com uma produção 100%. foi fe ita uma lei que visava obrigar os jornais e I
naciDnal. Muitas histó rias eram de níve l superficial ed itoras de HQ a introduzir gradativamente qua-
e passa ram despercebidas. Seus autores, porém, são drin hos nacio nai s. No entanto, foram tantas as
grandes nomes da HQ naciona l: Flávio Colin, pressões por parte das empresas jornal ísticas e
Shimamoto, Watson, Seto, Athayde, Kussumoto e dos grandes grupos editoriais que essa lei nunca
Franco. Foi um movimento que, para garantir sua chegou a vigorar.
sobrevivência, teve que se dirigir ao público inte- O ass unto foi retomado em 1981, co m outra
ressado em sexo. No entanto, deu alento profissio- tentativa de decreto-l ei. Parecia que tudo iria dar
nal a muitos desenhist§] certo : passou pela Câmara Federal mas, chegando
ao Senado, foi inclu ído um artigo que deixou tudo
na estaca zero. Alguns achavam que se deve ria
o quadrinho é nosso! considerar HQ nac ional tudo que fosse produzido
no Brasil. Isto queria dizer que também muitas
das hist ór ias de Patinhas, Mickey Mouse, Recruta
Depois de lerem tudo isso sobre a HQ brasile ira, Zero e outras, de proveniência americana mas
dessa luta por um espaço nas bancas abarrotadas dese nhadas no Brasil , se riam consideradas brasi-
de revistas estrangeiras, vocês chegarão até mesmo leiras. Não era bem isso que queriam os desenhistas

-
Sonia M Bibe-Luy ten
86 •

nacionais, e o impasse co ntinua.


Em todo o pa ís, a luta dos desenhi stas é grande.
Houve uma união em torno de associações de
classe, para se conseguir um acordo. Uma lei sobre
quadrinhos não deve se r encarada apenas como
algo protecionista, mas como um elemento. q~e •
pode regulamentar uma proporção de mate~lal
nacional que vai efetivamente ser consumido
pelo público. .
Mais uma vez, gostaria de lembrar que todo ato INDICAÇÕES PARA LEITURA
comunicativo traz consigo, direta ou indireta-
mente, uma mensagem de cunho ideológico. Neste
sentido é interessante ' para um paes como o
Brasil ~ue estas mensagens tratem o mais poss (vel Existem muito s livros e artigos sobre quadrinhos. A
sobre a problemática espec (fica de um pa ís como maioria, porém, é de difícil acesso. Os livros citados aqui
o nosso. têm, além de sua qualidade, a va ntagem de poder ser
A mesma coisa acontece com a literatura . encontrados f aci lmente. Os t rês prim eiros são de grandes
Ninguém é contra os bons escritores estrang:iros, estud iosos do ass'unto e o quarto é uma co letânea de artigos
" venham de onde vierem . Mas temos a obrlgaçao de recentes a respeito',
prestigiar aqueles que s110 brasileiros. Também a
música popula r brasileira se impôs no mundo Shazam!, de Á lvaro de Moya, São Paul o, Ed. Perspectiva,
inteiro pe lo fat o de se r uma contribu ição que 1970. É a obra mais famosa já escrita so bre quadrinhos no
apenas o Brasil poderia dar. E este deve se r o rumo Brasil. O autor é um das pi on eiros do estudo de HQ no
de nossos desenhistas para qu e mUitos novos e mundo e tem pub licado numerosos artigos a res pei to , além
bons possam surgir e, principalmente , para que de ter orga ni zado a I Expos ição I nternacio nal de HQ.
vooé, leitor, possa usufrui r de melh ores produções Lecio na na Escola de Comunicações e A rte s da USP e é
nossas. produtor de T V . Os Quadrinhos, de Antoni o Luiz Cagnin,
S§o Paulo. Ática, 1975. També m professo r da ECA/ USP,
Cagni n anali sa a estrutura de composição dos quadrinhos,

-...
••
Importante para os estudos de sem iologia e análise narra·
Sonia M Bibe-Luyten
88

. Uma Introdução Pol!tica aos Quadrinhos, de Moacy


tlva. . d' t de
Cirne, Rio de Janeiro, Ach iamé, 1982. Estu 1050 e au 0;.
vários livros a respeito de HQ, Cirne apresenta uma analise
das HQ como fenômeno de comunicação d~ ~a~sa e mostra
como sua ideologia at inge os leitores. HIstorias em Qua-
drinhos: Leitura Crltica, de Sonia I. M. BibeLuyten (~rg.),
São Paulo, Ed. Paulinas, 1984. Esta obra reúne um a série de
estudos crfticos de quadrinhos, e é fruto de um curso de Biografia
pós.graduação na ECA/USP sobre o assunto.
Nasci em São Paulo, sou jornalista e pesquisadora de
influências da comunicação de massa. Trabalhei quatro anos
como tradutora de quadrinhos no Jornal da Tarde. Sou
I~ professora da Escola de Comunicações e Artes da USP
f desde 1972, onde leciono a matéria "Editoração de Histó-
, rias em Quadrinhos". Sou mestre em Ciências da Comuni-
cação e, no curso de pós-graduação, ministrei a matéria
"Quadrinhos Como Recurso Auxiliar". Autora de vários
artigos e organizadora do livro Histórias em Quadrinhos:
Leitura Crz'tica . Sou editora da Revista Quadreca, especia-
lizada em análise de HQ. Atualmente, no Japão, leciono
Cultura Brasileira na Osaka University of Foreign Languages
e pesquiso o mangá, o quadrinho japonês.

Caro leitor:
As opiniões expressas neste livro são as do autor,
podem não ser as suas. Caso você ache que valea
pena escrever um outro livro sobre o mesmo tema,
nós estamos dispostos a estudar sua publicaçóo
c om o mesmo titulo como "segunda vlsóo" .

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.........--~_ .•••..