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ADVOGADO

DIREITURA & INOVAÇÃO

TEXTO DE APOIO
E COMPREENSÃO
DAS MEDIDAS
DE ESTADO DE
EMERGÊNCIA

O que o
cidadão
precisa saber?

WWW.TELIOCHAMUCO.COM
Ficha Técnica
Título: Texto de Apoio e compreensão das medidas de Estado de Emergência.
O que o cidadão precisa saber?
Autor: Télio Chamuço
Contacto: telio@teliochamuco.com
Data de Edição: Abril de 2020
Coordenação: Télio Chamuço e BEKISA STUDIO
Capa e Arranjo Grá co: www.bekisa.net

Maputo-Moçambique
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ÍNDICE

Acrónimos Usados 4
Glossário 5
Justi cativa 6
Metodologia 7
Lei n.º 1/2020, de 31 de Março – Rati ca a declaração do Estado de Emergência 9
constante do Decreto Presidencial n.º 11/2020, de 30 de Março

Decreto Presidencial n.º 11/2020, de 30 de Março – Declara o Estado de 13


Emergência

Anexos I – A actuação das Forças de Defesa e Segurança durante a vigência do 41


stado de Emergência

Anexo II – Teletrabalho: o futuro das prestações laborais ocasionado 43


ela “visita” do covid-19 à Moçambique

Texto de Apoio e Compreensão das Medidas de Estado de Emergência


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ACRÓNIMOS USADOS

AR Assembleia da República
CRM Constituição da República
DECLARAÇÃO Declaração de Estado de Emergência contante do
Decreto-Presidencial n.º 11/2020.
DP Decreto-Presidencial n.º 11/2020 (diploma legal que declara
o Estado de Emergência).
LEI DE AMNISTIA Lei n.º 2/2020, que concede amnistia e o perdão de penas no âmbito
das medidas de prevenção da propagação do novo coronavírus e a
contenção da pandemia do covid-19 no País.
LEI PREAMBULAR Lei n.º 1/2020, que rati ca o decreto-presidencial que declara o
Estado de Emergência
OAM Ordem dos Advogados de Moçambique
OMS Organização Mundial da Saúde
PGR Procuradoria-Geral da República
PR Presidente da República
TA Tribunal Administrativo
TS Tribunal Supremo

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GLOSSÁRIO
CONFINAMENTO
Internamento compulsivo de uma pessoa em “domicílio ou estabelecimento adequados”
(diferentes da casa de habitação do visado) em virtude do não cumprimento, por parte deste,
das regras impostas para a quarentena.

DISTANCIAMENTO SOCIAL
É a diminuição de interacção/contacto presencial entre as pessoas de uma determinada
comunidade, visando diminuir o risco de propagação do vírus. É uma estratégia preventiva
importante, pois, com a ausência ou redução da interacção/contacto com pessoas, evita-se a
transmissão do vírus por pessoas que podem estar infectadas, mas que ainda não apresentam
sintomas e, por isso, não se sabe se estas são, ou não, portadoras da doença.

ISOLAMENTO SOCIAL
Ocorre nos casos con rmados de covid-19, nos quais o paciente passa a car a cargo de
cuidados médicos, num hospital ou local indicado por pro ssionais de Saúde. Admite-se,
excepcionalmente, que, em casos leves, o paciente que em isolamento social no seu
domicílio.

QUARENTENA
É uma medida preventiva que se caracteriza pelo auto-isolamento – aplicada a nível individual
– por parte da pessoa visada (no seu domicílio – “quarentena domiciliária”) por um período de
14 dias, medida obrigatória para todas as pessoas que tenham entrado no país nas últimas
duas semanas, para as que estejam a chegar ao país e todas as pessoas que tenham tido
contacto directo com casos con rmados de covid-19.

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JUSTIFICATIVA
Tomei, espontaneamente, a ousada iniciativa de elaborar e publicar, gratuitamente, um texto
explicativo com o objectivo de auxiliar a população moçambicana no entendimento dos
aspectos que se escondem por detrás dos termos jurídicos e/ou técnicos constantes das
normas do Decreto-Presidencial n.º 11/2020 – que declara o Estado de Emergência –,
doravante tratado somente por “Declaração”, rati cado pela Assembleia da República, por
intermédio da Lei n.º 1/2020 (doravante, apenas tratada por “Lei Preambular”), cuja
regulamentação consta do Decreto n.º 12/2020 (que aprova as medidas de execução
administrativa para a prevenção e contenção da propagação da pandemia covid-19, a vigorar
durante o Estado de Emergência, doravante, tratada por “medidas de execução
administrativa”), que, por sua vez, alguns dos seus artigos foram alterados pelo Decreto n.º
14/2020, sem me esquecer da Lei n.º 2/2020 (concede amnistia e o perdão de penas no âmbito
das medidas de prevenção da propagação do novo coronavírus e a contenção da pandemia do
covid-19 no País, doravante tratada por “Lei de Amnistia”), termos esses que, devido aquelas
suas mencionadas características técnico-jurídicas, podem causar delicadas di culdades de
entendimento por parte dos respectivos destinatários, obstruindo-se, assim, a sua correcta
interpretação, visando o cabal cumprimento, da parte deles, das medidas de contenção,
prevenção e combate do covid-19 nele corporizadas.

Essencialmente, o propósito norteador da produção desta material prende-se com o facto da


(i) situação inédita que o nosso solo pátrio se vê mergulhado – explosão do surto pandémico
do covid-19 – o qual, pela sua peculiaridade e perspectivando-se prevenir e conter a
propagação dos malefícios causados por esse vírus, forçar a adopção de medidas de carácter
excepcionalmente extraordinário – as do Estado de Emergência –, às quais (ii) limitam
signi cativamente os direitos, liberdades e garantias individuais dos cidadãos e que, por causa
disso, (iii) obrigarão com que estes se resignem à assunção de uma postura completamente
estranha àquela que constituía o seu modo normal de vida.

Torna-se necessário, por um lado, que os cidadãos, compreendam por que razão os seus
direitos são alvos de violações – violações legítimas por parte do Governo – e, por outro, em
que consistem ou como se manifestam, na prática, as obrigações que deverão passar a cumprir
enquanto perdurar o período de vigência do Estado de Emergência.

Com efeito, pretende-se, com o presente Texto de Apoio, através de uma linguagem simples e
acessível à esmagadora maioria da população (termo diferente de “povo”, pois este diz
somente respeito às pessoas ligadas entre si pelo vínculo de nacionalidade, ao passo que
aquele refere-se a todos, incluindo os estrangeiros, residentes no território), descamar as
dúvidas que as normas da Declaração possam suscitar na capacidade interpretativa da
referida população, como forma de contribuir para a sua su ciente compreensão e, uma vez
alcançado este primeiro objectivo, contribuirá, consequentemente, para o desejável
cumprimento das medidas decretadas.

O pior que nos pode acontecer, é não sabermos, sequer, quais são as nossas obrigações e quais
são os limites do nosso raio de actuação, visto que, sublinha-se, a Declaração promove um
verdadeiro corte ablativo nos direitos, liberdades e garantias individuais dos cidadãos,
mostrando-se pertinente aclarar, por via desse corte sofrido, a amplitude e extensão dos
limites das condutas que, durante o Estado de Emergência, devemos observar.

A ideia-mestre que me orienta na elaboração do presente Texto de Apoio é a de que,

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paralelamente a outros pronunciamentos do género que têm sido publicados (sobretudo por
juristas, mas não só, através das redes sociais – aos quais envio uma palavra de imensurável
apreço e admiração pelo incansável esforço que vêm desenvolvendo na sua missão de
aperfeiçoar o conhecimento jurídico do cidadão), os moçambicanos façam dele uma espécie de
livro de cabeceira, no qual, em caso de dúvidas, poder-se-ão dele socorrer para sanar as
mencionadas dúvidas, criando-se, assim, a ambicionada atmosfera de harmonia que constitui
desejo de todos, enquanto enfrentamos este calamitoso quadro pandémico originado pelo
covid-19.

METODOLOGIA
As explicações e/ou comentários às normas da Declaração, bem como da Lei Preambular que a
rati ca, obedecerão a ordem cronológica dos respectivos artigos, começando-se,
logicamente, pelos artigos da Lei Preambular para, depois, mergulharmos no conteúdo dos
artigos da Declaração.

Cada artigo merecerá um destacado parágrafo, imediatamente seguido da explicação ou


comentário a ele referente.

As normas constantes do Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de execução


administrativa, não merecerão o mesmo tratamento a que carão sujeitas a Lei Preambular e a
Declaração – o objectivo é explicar as normas constantes destes dois diplomas – mas, no
entanto, em virtude de o Decreto n.º 12/2020, na prática, regulamentar aqueles dois diplomas,
as explicações e comentários àqueles dois diplomas (Lei Preambular e Declaração) basear-se-
ão também nas normas previstas neste Decreto e, ao fazer-se este exercício, estar-se-á,
também a explicar os aspectos mais “salientes” corporizados no Decreto n.º 12/2020. O que se
disse das menções que recairão sobre o Decreto n.º 12/2020, vale também para o Decreto n.º
14/2020, que lhe altera alguns artigos. Ambos serão exaustivamente mencionados nas
explicações à Declaração (Decreto-Presidencial n.º 11/2020) e à Lei Preambular (Lei n.º 1/2020).

Sendo que todos os diplomas citados compreendem um único “pacote”, e partindo do


princípio que as normas interpretam-se umas às outras, criando, entre si, um sistema de vasos
comunicantes destinado a conferir uma harmoniosa homogeneidade entre as normas, como
um todo, de tal forma que, ainda que haja contradição entre artigos de um diploma com os de
outros, o sentido global do tal sistema de vasos comunicantes auxiliará na compreensão dos
diplomas (como um todo), permitindo que as contradições sejam sanadas com recurso a
unidade do sistema global em que se devem re ectir os cinco diplomas.

E porque se pretende um Texto de Apoio, tanto quanto possível, de conteúdo comunicativo


homogéneo, polido, transparente e translúcido, não serão aqui seleccionadas citações
doutrinárias e jurisprudenciais. As citações legais (artigos de diplomas legais) serão evitadas
ao máximo, sendo somente referenciados, convocados e reproduzidos aqueles artigos que se
mostrem impreterivelmente indispensáveis para o entendimento do que, aqui ou acolá, se
pretenderá transmitir.

O presente Texto de Apoio vem ainda acompanhado de dois Anexos (em conformidade com a
indicação prévia no índice acima), os quais se ocupam de temas especí cos em torno dos
efeitos jurídicos da Declaração e do Decreto que aprova as medidas de execução

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administrativa.
Em todo o transcurso deste labor, procurarei, ao máximo, evitar a convocação de terminologia
jurídica, empenhar-me-ei em trazer alguns exemplos de ordem prática (em alguns artigos ou
alíneas de artigos) destinados a tornar fácil e permeável a percepção, tanto do conteúdo da
norma em apreço bem como da explicação em si mesma.

O propósito é trocar em cêntimos e quinhentas a “linguagem de fato e gravata” constante dos


diplomas legais aqui objecto de análise.

Por m, chama-se a atenção que aspectos relacionados com as razões que fundamentam o
covid-19 como determinativos da Declaração do Estado de Emergência não serão aqui
chamados, visto que, entendo que, uma vez declarado o Estado de Emergência, e estando as
suas medidas em vigor, é inútil, tendo em conta o objectivo deste Texto de Apoio, convocar
aqueles aspectos antecedentes para o presente texto, até porque a própria Organização
Mundial da Saúde, declarou, o cialmente, em 11 de Março de 2019, o covid-19 como sendo
uma pandemia mundial.

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Lei n.º 1/2020, de 31 de Março, que rati ca a declaração do


Estado de Emergência constante do Decreto-
Presidencial n.º 11/2020, de 30 de Março

Artigo 1
(Rati cação)
É rati cada a Declaração do Estado de Emergência, constante no Decreto Presidencial n.º 11/2020,
de 30 de Março, anexo a presente Lei que dela faz parte integrante.

Esta norma nada mais diz além do facto de que o Declaração é chancelada, ou seja, “aceite”,
pela AR, uma “aceitação” que constitui condição de validade da Declaração constante do DP,
conforme obriga o n.º 1 artigo 293 da CRM. Por se tratarem de matérias que dizem íntimo
respeito aos mais nucleares direitos, liberdades e garantias individuais dos cidadãos, a CRM
“não permitiu” que o poder decisório sobre as limitações daqueles direitos se concentrassem
exclusivamente na gura do PR.

Ao abrigo do princípio da separação de poderes e, adentro deste princípio, no âmbito do


controle (pela AR) das actividades do poder executivo (PR/Governo), a Declaração, uma vez
emitida, deve ser submetida à AR no prazo de 24 horas para rati cação – o que, de facto, se
sucedeu – e este órgão soberano (AR) deve rati cá-lo num prazo de 48 horas – o que, também
se sucedeu – conferindo-lhe, assim, validade jurídica.

Artigo 2
(Acesso a justiça)
1. Durante o Estado de Emergência aos actos processuais e procedimentos judiciais aplicam-
se o regime das férias judiciais, sem prejuízo dos actos urgentes, designadamente as providências
cautelares, os que devem ser praticados em processos em que estejam em causa direitos
fundamentais como os relativos a arguidos presos, bem como os relativos a menores em risco.
2. Ficam suspensos todos os prazos processuais e administrativos, incluindo o procedimento
disciplinar pelo tempo que durar o Estado de Emergência.
3. Ficam suspensos todos os prazos de prescrição e de caducidade relativos a todos os
processos e procedimentos, pelo tempo que durar o Estado de Emergência.
4. O Presidente do Tribunal Supremo, o Presidente do Tribunal Administrativo e o
Procurador-Geral da República poderão tomar medidas adicionais consideradas adequadas, no
âmbito da prevenção do COVID-19, podendo ser ouvida a Ordem dos Advogados de Moçambique.

Este artigo traduz-se numa das mais signi cativas consequências da determinação da
limitação da circulação interna de pessoas em qualquer parte do território nacional, prevista na
alínea a) do n.º 2 do artigo 3 da Declaração. Por uma questão de lógica, percebe-se com toda a
facilidade que, uma vez restringida a circulação interna de pessoas (um desvio ao direito de
circulação, previsto no n.º artigo 55 da CRM), tais pessoas cam impossibilitadas de se fazerem
presentes em instituições, públicas e privados, com vista a exercerem seus direitos ou
cumprirem com as suas obrigações. E se partirmos do inafastável princípio segundo o qual os
direitos são, em regra, exercidos dentro de um determinado prazo legal, sob pena de ocorrer a
perda do direito de exercê-los (por prescrição ou caducidade), e, por sua vez, as obrigações se
não forem cumpridas dentro do respectivo prazo, há sempre a susceptibilidade de ocorrência
de efeitos negativos para o incumpridor, como por exemplo: aplicação de multas, ordem de
prisão, perda de direitos e/ou bens (penhora, penhor, hipoteca), tendo sido restringidos
aqueles direitos, a Declaração adoptou mecanismos de assegurar que eles [os direitos] não

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estão perdidos.

Por isso, houve, e bem, necessidade de se xar, como medida intermédia enquanto dura o
Estado de Emergência, que tratamento dar-se-ia, no que concerne aos prazos (judiciais e
administrativos), relativamente aos processos (i) já iniciados e aos (ii) a iniciar.

Como princípio regra, consideram-se suspensos todos os actos, procedimentos e prazos


judiciais e administrativos. Signi ca isto dizer, por exemplo, que caso alguém pretendesse
propor uma acção judicial, já não poderá fazê-lo. Signi ca ainda que aquelas acções já
propostas e que já se encontravam em tramitação, também devem conhecer a respectiva
suspensão, ou seja, param. Esta determinação serve tanto para as fases em que a intervenção é
escrita (fase dos articulados), os de instrução (diligências como inquirições/interrogatórios,
acareações, exames, vistorias) bem como para as audiências (quer sejam as preliminares quer
sejam as de discussão e julgamento).

O cidadão não se deve preocupar com a veri cação da passagem do tempo, pois os seus
direitos de recorrer aos tribunais mantêm-se salvos e salvaguardados enquanto durar o Estado
de Emergência. Aquele trabalhador que foi despedido não carece de car preocupado se o
prazo de seis meses para intentar uma acção de impugnação de despedimento iria expirar
durante o mês de Abril; de igual modo, a instituição, pública ou privada, que pretenda instaurar
um processo disciplinar a um trabalhador/funcionário ou o trabalhador/funcionário que
estava na iminência de responder a nota de culpa/de acusação, não precisam, ambos, de se
perturbar com a contagem de prazos durante a vigência do Estado de Emergência. Portanto,
estão suspensos os prazos (iniciados e a iniciar) os actos processuais (julgamentos, diligências,
processos disciplinares, processos e procedimentos administrativos – por exemplo, junto ao
Conselho Municipal, para a regularização de terrenos, etc.).

A Declaração que porá m ao Estado de Emergência fará menção do levantamento daquelas


suspensões e do reinício da contagem dos respectivos prazos.

Entretanto, a norma aqui em análise estabelece algumas excepções. Os denominados


processos urgentes em que estejam em causa direitos fundamentais – e o n.º 1 da norma
exempli ca alguns dos processos que estão cobertos pela excepção, referindo-se aos relativos
a arguidos presos e processos referentes a menores em risco, sendo caso paradigmático disso
aquelas situações em que estejam em causa alimentos devidos a menores – continuarão a ter a
sua continuidade.

Percebe-se com facilidade a adopção desta excepção – que também já é, por lei, adoptada no
período relativo às férias judiciais, ao abrigo do artigo 27 da Lei n.º 24/2007 (Lei de Organização
Judiciaria), tendo em atenção as alterações que lhe foram introduzidas pela Lei n.º 11/2018,
que tratou de asseverar que durante o período das férias judiciais os tribunais realizam
julgamentos de processos com arguidos presos, providências cautelares, habeas corpus e outros
de carácter urgente (sendo que o n.º 1 do artigo 2 da Lei Preambular trata de lembrar e enfatizar
que o regime a vigorar no Estado de Emergência é o mesmíssimo obedecido nas férias
judiciais) – pois, de entre os processos urgentes, os referentes a arguidos presos assumem,
dentro da categoria dos direitos humanos, uma dimensão superlativa, visto que se trata do
direito à liberdade (por muitos, considerado o principal direito existente na face da terra logo
após o direito à vida/saúde) e, no que se prende com os menores, creio que são escusados
argumentos pormenorizados para elucidar que o mal que se pretende evitar em caso de

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carência de alimentos devidos a menores (habitação, alimentação, vestuário, lazer, saúde,


acrescida de uma pensão em dinheiro), é indispensável para a sobrevivência de um grupo de
pessoas cuja faixa etária, caracterizada pela fragilidade, ingenuidade, pureza, total e completa
inocência, merece tratamento excepcional, sendo que os tribunais continuarão a receber e
tramitar os processos respeitantes aos arguidos presos (legalizações de prisões, apreciação da
prisão preventiva e julgamento de réus presos) e os destinados a apreciar questões atinentes a
alimentos devidos a menores.

Chama-se a atenção que a Lei Preambular refere-se a estas tipologias de processos a título
meramente exempli cativo, não signi cando que sejam os únicos a merecer continuidade de
apreciação durante o período de vigência do Estado de Emergência. A norma abrange todos
os processos em que estejam em causa direitos fundamentais cujo adiamento no respectivo
tratamento pode implicar a produção de danos irreparáveis.

O n.º 4 da norma aqui sindicada não é explícita nem concludente, pois não refere que tipo de
medidas são essas e nem como serão tomadas. Entretanto, através do conhecimento que se
possui das atribuições que por lei são conferidas aos titulares do TS, TA e PGR, certo me parece
que o legislador lhes confere a prerrogativa para, respectivamente, tomarem medidas que
visam a reorganização e reestruturação do funcionamento dos seus serviços – em tudo que
seja medida referente à prevenção e contenção do covid-19 e que esteja relacionada com os
aspectos com questões ligadas a prazos, actos processuais, diligências –, sem que, com isso,
colidam com as regras de funcionamento das respectivas instituições decorrentes da lei, pois,
quanto a esse aspecto, o artigo 297 da CRM é claro ao estipular que (sic): «a declaração do
estado de sítio ou de emergência não pode afectar a aplicação da Constituição quanto à
competência, ao funcionamento dos órgãos de soberania e quanto aos direitos e imunidades dos
respectivos titulares ou membros». Por isso, quando a Declaração preceitua que os titulares
daqueles três organismos poderão tomar medidas adicionais consideradas adequadas, no
âmbito da prevenção do covid-19, e sendo certo que estas medidas devem esbarrar na
proibição contida no artigo 297 da CRM, torna-se claro que tais medidas inserem-se num
quadro de reorganização e reestruturação, excepcional e temporário, sob o ponto de vista de
medidas urgentes vinculadas à administração da justiça, fazendo com que esta dê respostas
rápidas à situações também súbitas e repentinas, cujas respostas se venham julgar
convenientes, à medida em que tais situações surjam.

A título de exemplo do que me re ro no parágrafo precedente, o presidente do TS introduziu,


através da directiva n.º 03/TS/GP/2020, de 01 de Abril, várias medidas de prevenção para fazer
face à covid-19 nos tribunais. O titular do TS ordenou a “adopção da modalidade de rotação de
funcionários, que não exercem cargos de direcção e che a, devendo os presidentes dos tribunais a
todos os níveis se encarregarem de assegurar a elaboração de escalas de trabalho dos funcionários
dos tribunais respectivos, nos sectores em que tal medida se justi que e seja possível, devendo ser
salvaguardada a continuidade do serviço e o controle da efectividade”. Determinou ainda que a
elaboração de escalas de trabalho na Inspecção Judicial será assegurada pelo Inspector-Geral
e determinou a não realização de reuniões presenciais, a menos que sejam inadiáveis.

No caso da PGR, ao abrigo da sua função de defensora e controladora da legalidade, cremos


que o raio da sua intervenção será maior comparativamente aos outros dois organismos que,
se tratando de tribunais, têm um papel passivo (os processos devem-lhes ser submetidos para
que reajam) ao passo que à PGR cabe um papel mais activo na sua missão defensora da
legalidade e, sobretudo, de interesses colectivos e difusos (aqueles interesses entendidos

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como supraindividuais e que dizem respeito a uma categoria de pessoas ligadas entre si com
base numa mesma relação jurídica, cuja intervenção da PGR para salvaguardar a defesa desses
interesses se torna essencial). A título de exemplo, emerge, por estes dias a questão relativa às
escolas que instituíram um sistema de aulas on-line ou com recurso ao meio digital WhatsApp
ou, às quais se suspeita que não passam de estratégias sorrateiras de angariar valores
monetários, simulando uma inadiável necessidade de continuidade de aulas (on-line ou com
recurso a mecanismos digitais), em prejuízo dos seus formandos ou encarregados destes. Mas,
relativamente a este aspecto, a oraremos mais adiante na norma respeitante ao
encerramento dos estabelecimentos de ensino.

Realça-se, ainda, o papel menor (se é que é papel) atribuído à Ordem dos Advogados que
somente poderá ser ouvida se aqueles três titulares quiserem. Medida cujo mérito é discutível,
mas este não é o espaço destinado a discutir o mérito das medidas decretadas pelo PR, mas,
sim, de, somente, explicá-las ao cidadão.

Artigo 3
(Regulamentação)
Compete ao Conselho de Ministros regulamentar a presente Lei.

Norma ultra importante. Em tempo célere o Conselho de Ministros deu início ao cumprimento
desta incumbência, através do Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de execução
administrativa, cujos alguns artigos foram alterados pelo Decreto n.º 14/2020. Em bom rigor, o
Conselho de Ministros não regulamentou a Lei (Lei Preambular – Lei n.º 1/2020), ainda que, em
termos formais, o tenha feito, mas sim o DP (Decreto-Presidencial n.º 11/2020) do qual consta a
Declaração do Estado de Emergência.

Pairava a dúvida se o Governo optaria por regulamentar os preceitos que entendesse


merecedores dessa tarefa num único diploma, onde abarcaria todas as matérias e situações
previstas genericamente no DP, ou – o que, quanto a mim, seria melhor opção – pudesse
aprovar vários regulamentos, obedecendo, cada um deles o critério da matéria especí ca que
visasse regular. Exemplo: um regulamento que diga respeito a questões laborais; outro
correspondente a questões comerciais; outro atinente a questões scais, outro relativo a
matérias administrativas, etc.

Nas normas constantes do Decreto n.º 12/2020 e do Decreto n.º 14/2020, que altera aquele,
temos, assim, um regulamento geral, contudo, à medida que o Estado de Emergência for a
suceder-se no tempo, pode ser necessária a regulamentação precisa e microscópica, por
exemplo, do novo e excepcional gurino das relações laborais (sobretudo, no que tange ao
tratamento que se dará aos trabalhadores infectados). Seja qual for a solução que o executivo
for a encontrar e adoptar, o que se pretende é que os objectivos das normas jurídicas – clareza e
segurança jurídicas – sejam alcançados, de tal sorte que os destinatários das normas, nos quais
se incluem os próprios executores das medidas decretadas, quem perfeitamente cientes dos
limites das respectivas actuações durante o período em que vigorar o Estado de Emergência.

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Decreto Presidencial n.º 11/2020, de 30 de Março,


que declara o Estado de Emergência

Artigo 1
(Âmbito territorial)
É declarado o Estado de Emergência, por razões de calamidade pública, em todo o
território nacional.

O conteúdo deste artigo traduz-se num obrigatório cumprimento da regra estabelecida no


artigo 290 da CRM, que assevera que, ao se optar pela declaração do Estado de Emergência, ao
invés do Estado de Sítio, deve-se dizer o porquê da opção tomada, dentro dos permitidos
pressupostos constitucionais e deve-se, outrossim, xar a extensão territorial em que vigorará
a medida.

O artigo 290 CRM xa os pressupostos para o decretamento do Estado de Sítio ou de


Emergência. Este artigo envolve, no seu respectivo conteúdo, os pressupostos para o
decretamento de ambas as realidades excepcionais, não destrinçando quando é que se aplica
um ou outro, referindo que tanto um quanto outro só podem ser declarados, no todo ou em
parte do território, nos casos de agressão efectiva ou eminente, de grave ameaça ou de
perturbação da ordem constitucional ou de calamidade pública.

A luz que separa as águas, é-nos fornecida pelo texto do n.º 1 do artigo 291 da CRM que nos
elucida que, para que se saiba se a medida a adoptar é a do Estado de Sítio ou Emergência,
deve-se socorrer, para se optar pela última (Estado de Emergência) do “critério da menor
gravidade dos pressupostos” delineados no artigo 290 da CRM.

Ora, entre um panorama de agressão (iminente ou efectiva) e outro de calamidade pública, é


indiscutível que este último constitui o de menor gravidade, sendo também indesmentível
que a pandemia do covid-19 insere-se no pressuposto da calamidade pública e não,
obviamente, no da agressão.

No mais, o artigo estipula a extensão territorial, fundamentada no facto de o risco dos


malefícios dos efeitos causados (ou a causar) pelo surto pandémico abarcar (ou poder abarcar)
todo o território nacional. Se, porventura, estivéssemos perante um cenário dentro do qual
uma calamidade pública fustigasse somente, por exemplo, o Distrito de Mecanhelas, o Estado
de Emergência seria decretado unicamente para aquela circunscrição territorial.

O artigo 2 do Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de execução administrativa,


preceitua nos mesmos termos que esta norma (artigo 1 do DP), enfatizando, ainda, que a
medida se aplica a todos os cidadãos residentes no solo pátrio, inclusive os estrangeiros.

Artigo 2
(Duração)
O Estado de Emergência tem a duração de 30 dias, com início às 0 horas do dia 1 de Abril de
2020 e término às 24 horas do dia 30 de Abril de 2020, podendo o seu período ser alterado.

O vertente artigo, em estrito cumprimento do estipulado no artigo 292 do texto


constitucional, xa o limite temporal dentro do qual vigorarão as medidas limitativas de
direitos e garantias individuais a que carão sujeitas as pessoas em decorrência da Declaração.

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Ao aconchego da norma constitucional acima referenciada, o tempo de duração do Estado de


Emergência não pode ultrapassar os trinta dias, sendo que esse período pode ser prorrogado
por iguais períodos até três, se persistirem as razões que determinaram a sua declaração.
Signi ca isto dizer que, se, no nal do tempo previsto para o presente período de Estado de
Emergência, as condições que estiveram por detrás do seu decretamento ainda se observarem
(ou agravarem) e a continuidade das medidas adoptadas também se mostrar necessária, o PR
pode prorrogar a vigência do Estado de Emergência por um período máximo de mais 30 dias
(por três vezes consecutivas a contar do primeiro decretamento, o que pode perfazer o
período máximo de 120 dias).

Chama-se a atenção que, a cada prorrogação, o PR deverá, tal como fez da vez originária,
fundamentar a decisão e, novamente, tal/tais prorrogação/prorrogações deverá/deverão
passar pelo crivo da AR para efeitos de rati cação.

Não é obrigatório que o PR cubra o limite máximo – 30 dias – mas sim, é proibido excedê-lo,
signi cando que, após sérios e rigorosos estudos, se se prever que a situação pode car
reestabelecida em, por exemplo, 15 ou 20 dias, então o PR xa um período correspondente ao
período que se prevê que efeitos dos males que se pretendem evitar possam car curados.

Artigo 3
(Limitação de Direitos, Liberdades e Garantias)

Algumas palavras propedêuticas antes de transcrevermos o artigo.

É, seguramente, dos artigos mais importantes da Declaração. É, também, dos mais


problemáticos devido, conforme já tivemos oportunidade de referir acima, e cuja opinião é
largamente corroborada pela maioria, a sua natureza abstracta e genérica, desprovida de
normatividade ao mais ín mo detalhe e pormenor, o que di culta, sobremaneira, o
tracejamento dos limites que a norma encerra em si em mesma.

No essencial, o artigo, subdividido em dois números, estabelece uma série de medidas


restritivas no que concerne aos direitos e garantias por lei conferidas às pessoas, públicas e
privadas, singulares e colectivas, sendo que o n.º 1 ocupa-se das medidas de carácter geral e o
n.º 2 das medidas de índole especial.

A limitação de direitos consubstancia-se na consequência mais “sonante” durante o


predomínio de um Estado de Emergência, seja em que país for. A CRM determina que na
restrição dos direitos, deve-se ter em conta o respeito pelo princípio da proporcionalidade e
circunscreverem-se ao estritamente necessário ao pronto restabelecimento da normalidade
constitucional. Ou seja, as medidas graves que restringem direitos e garantias nucleares das
pessoas só são admissíveis se se mostrarem o único e idóneo mecanismo para reestabelecer a
situação adversa que se pretende combater, pois nada, além do necessário, justi ca a restrição
de direito tão fundamentais, respeitando-se o carácter abstracto (número indeterminado e/ou
indeterminável da situação) e geral (número indeterminado e/ou indeterminável de pessoas)
das normas restritivas.

O princípio da proporcionalidade acima referido, por sua vez, subdivide-se em outros três
subprincípios: proporcionalidade propriamente dita, excepcionalidade e necessidade.
Sinteticamente: (i) “Proporcionalidade propriamente dita”, que signi ca que as medidas

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Sinteticamente: (i) “Proporcionalidade propriamente dita”, que signi ca que as medidas


restritivas devem adequar-se ao m que se pretende com tal restrição – no sentido de se
pretender salvaguardar, com a restrição, outros direitos “superiores” –, sendo que não haja
outras medidas menos onerosas que permitissem atingir o mesmo m, salvaguardando-se
que os meios utilizados devem ser proporcionais ao m que se pretende atingir (ii)
“Necessidade”, que se traduz na ideia segundo a qual só se devem limitar os direitos que se
mostrem necessários ao enfrentamento da situação que está por detrás do Estado de
Emergência, e apenas na medida em que tais limitações são necessárias, exigindo-se absoluta
ine cácia de outras medidas “normais” constitucionalmente consagradas e (iii)
“Excepcionalidade”, que consiste na limitação de direitos, se, efectivamente, ocorrerem
situações absolutamente atípicas e anormais de calamidade pública que cria grave caos social.

Em qualquer dos três princípios acima mencionados, sem se descurar da razoabilidade dos
meios utilizados e do cumprimento pelo princípio da legalidade, assenta-lhe o pressuposto
relativamente ao qual, as medidas de carácter extraordinário que são tomadas devem
mostrar-se adequadas a solucionar o estado calamitoso público que origina a adopção das
referidas medidas. Ou seja, a limitação de direitos sacrossantos protegidos pela CRM só é
admissível na medida – e só na medida – em que, objectivamente, esteja claro e aceitável que
só com a tal limitação temporária de direitos é que se chega a restauração da normalidade.

1. Na pendência do Estado de Emergência, e na medida do necessário para a


prevenção e/ou combate à pandemia do COVID-19, devem veri car-se as seguintes
medidas restritivas gerais:
a) suspensão da emissão de vistos de entrada e cancelamento dos vistos já emitidos;

Medida de caracter óbvio que, por ser tão óbvio, não carece de explicações suplementares. Se
o propósito é conter a propagação do covid-19, tornava-se, inclusive, obrigatório que esta
medida fosse tomada. O risco das pessoas em países estrangeiros que quisessem visitar
Moçambique serem portadores do vírus é(ra) elevado e, como forma de proteger o país da
entrada de pessoas que transportassem o vírus, a suspensão da emissão de vistos de entrada e
cancelamento dos vistos já emitidos não surpreende a ninguém.

Aliás, nunca é demais recordar que o primeiro caso de covid-19 con rmado no nosso país dizia
respeito precisamente a um cidadão estrangeiro que tinha chegado ao solo pátrio
proveniente do Reino Unido. Portanto, creio que não são necessárias mais palavras em torno
desta medida, que, segundo muitos, só pecou por tardia.

A mesma norma vem ainda enfatizada no artigo 9 do Decreto n.º 12/2020, acrescida da
determinação da suspensão dos acordos de supressão de vistos durante a vigência do Estado
de Emergência, devendo-se entender por “acordos de supressão de vistos” como sendo
aqueles acordos internacionais de carácter bilateral entre países que ajustam, entre si, que os
cidadãos de ambos os países poderão entrar, passar em trânsito, permanecer e sair do
território de cada um dos países contratantes, sem necessidade de obtenção prévia de visto.

O direito a liberdade de circulação – todos os cidadãos são livres de circular no interior e para o
exterior do território nacional – previsto no n.º 2 do artigo 55 da CRM é, assim, temporariamente
restringido, com objectivo de conter a velocidade da propagação do covid-19.

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b) Reforço das medidas de quarentena domiciliária, de 14 dias, para todas as


pessoas que tenham tido contacto directo com casos con rmados de COVID-19,
observando-se as medidas preventivas estabelecidas pelo Ministério da Saúde;

Esta norma é complementada pelo artigos 3 do Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de
execução administrativa.

Essencialmente, Moçambique adoptou o regime de estipulação de quarentena como uma das


medidas preventivas de contágio do covid-19. É esse o objectivo que se pretende ao se
recomendar que todos aqueles que tenham entrado no país nas últimas duas semanas (a
contar da data da rati cação da Declaração) extensível àqueles que tenham tido contacto
directo com casos con rmados de COVID-19, tenham de obrigatoriamente evitar o contacto
com os demais, “distanciando-se” por um período cuja duração – 14 dias – emerge por
recomendação dos postulados da OMS, na medida em que é o período máximo de incubação
do vírus, após se ter contacto com um doente de covid-19, ou seja, é o tempo entre a exposição
ao vírus e o aparecimento dos sintomas. É uma medida restritiva para frear a doença e os seus
efeitos nos demais.

Apesar de a norma sugerir que se trata de uma mera recomendação, é uma verdadeira norma
imperativa de carácter obrigatório cujo incumprimento dá lugar, nos termos do n.º 3 do artigo
3 do Decreto n.º 12/2020 que aprova as medidas de execução administrativa, a alteração do
privilégio de gozar de quarentena domiciliária, passando ao con namento em domicílio ou
estabelecimento adequado, com objectivos preventivos. Portanto, o visado deixa de estar em
quarentena domiciliária, no aconchego do seu lar, e passa a estar con nado em domicílio que
lhe é estranho com o objectivo de se auferir maior segurança (no sentido de o visado não se
ausentar dele e colocar os demais em perigo) ou estabelecimento de cariz sanitário
apetrechado para o efeito.

Chama-se particular atenção ao facto de, apesar de o n.º 3 do artigo 3 do Decreto n.º 12/2020,
que aprova as medidas de execução administrativa, referir que o incumprimento às regras de
quarentena domiciliária dá lugar ao con namento em domicílio ou estabelecimento
adequado (certamente de cariz sanitário), este aspecto não afasta, pelo incumprimento, a
prática do crime de desobediência nos termos previstos no artigo 5 da Declaração e punido
nos termos do artigo 412 do Código Penal.

Poder-se-ia pensar que a pena pelo cometimento do crime de desobediência está afastado
pelo facto de a norma referir que a violação das regras de quarentena dão lugar a
con namento, em eventual alusão ao princípio segundo o qual norma especial tem privilégio
sobre norma geral. Mas não é bem assim, pois con namento não é sanção e muito menos
pena. É uma medida compulsiva de carácter médico-sanitário (internamento compulsivo) que
visa conter e prevenir a propagação do vírus. Visa evitar que o indivíduo que viola a regra de
quarentena não mais coloque os demais em perigo, contagiando-os (caso seja portador do
vírus). O desrespeito por uma medida de carácter imperativo da Declaração con gura crime de
desobediência (artigo 5 da Declaração) e a sanção é através da pena prevista para esse crime
nos termos do artigo 412 do Código Penal. No crime de desobediência não é valorada
qualquer preocupação de protecção de interesses de pessoas a quem, em segunda linha, o
acatamento da ordem desobedecida possa aproveitar. No crime de desobediência o que se
incrimina é a desobediência (em sim mesma), independentemente das consequências.
Protege-se, nesta tipologia de crimes, tal como nos demais crimes contra a autoridade pública,
a autonomia funcional do Estado.

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O n.º 4 do artigo 3 do Decreto n.º 12/2020, atribui, “aos órgãos competentes” o dever de criar as
condições necessárias para o conhecimento, em tempo real, da localização, por
geolocalização, das pessoas constantes do número 1 do presente artigo. Este particular
aspecto, será pormenorizadamente a orado nas explicações da alínea e) do n.º 2 do artigo 3 da
Declaração.

c) suspensão das aulas em todas as escolas públicas e privadas, desde o ensino pré-
escolar até ao ensino universitário;

O conteúdo desta norma não surpreende, visto que, o que se pretende evitar com tal medida,
é, tal como acontece com as outras actividades que conhecerem restrições ou encerramento, a
consequência adveniente desta suspensão é uma das questões que mais polémica cria na
sociedade.

O principal foco originador de polémica prende-se com o facto de se saber que tratamento
dar-se-á à questão relativa ao pagamento das mensalidades (prestações mensais) a que estão
obrigados a realizar os formandos e/ou encarregados de educação.

O DP que declara o Estado de Emergência a isso nada se refere e o Regulamento que o


complementa (Decreto n.º 12/2020, na redacção que lhe é dada pelo Decreto n.º 14/2020),
nada mais diz, no seu artigo 13, além de que (sic): «Decorrente da suspensão das aulas em todos
os estabelecimentos de ensino, públicos e privados, em todos os níveis do Sistema Nacional de
Educação, assim como os de Educação Pro ssional, as instituições de tutela emitirão instruções
que assegurem o cumprimento dos programas de ensino e o ajustamento dos calendários
escolares».

A questão que preocupa tanto os estabelecimentos de ensino bem como os


formandos/encarregados continua a pairar no ar sem aparente resposta.

Antes de nos debruçarmos sobre a forma de tratamento desta questão, urge fazer um
imprescindível parêntesis relativamente a vários pronunciamentos opinativos sobre a matéria
que têm vindo a ser publicamente veiculados.

Pessoas com interesse na geração de rendimentos por parte dos estabelecimentos de ensino
(sócios/proprietários, amigos de sócios/proprietários, advogados dos sócios/proprietários)
têm formulado pareceres jurídicos que se direcionam no sentido de a prestação mensal dever
ser paga, independentemente da suspensão decretada por força do Estado de Emergência. De
igual modo, mas em sentido inverso, pessoas com interesses em não pagar (formandos, pais
de formandos, advogados de formandos, amigos de pais de formandos) emitem pareceres no
sentido contrário.

Estamos em face de interesses económicos opostos. Interesse económico dos


pais/encarregados de educação e dos formandos, dum lado; e dos estabelecimentos de
ensino, doutro. Uns, ao não pagarem, desoneram-se de realizar uma despesa; outros, por não
receberem, perdem a sua capacidade de ganho. Chama-se atenção e apela-se que o mais
importante é que, quer da parte de uns quer da parte doutros, haja decência comunicativa,
honestidade discursiva e intelectual, acompanhados dos deveres de imparcialidade, isenção,
neutralidade e equidistância perante os factos em disputa.

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O Decreto n.º 12/2020 difere o tratamento do assunto para momento posterior, referindo que
«as instituições de tutela emitirão instruções que assegurem o cumprimento dos programas de
ensino e o ajustamento dos calendários escolares».

O facto é o seguinte: a base justi cativa para o pagamento das prestações mensais (por parte
dos estudantes ou encarregados) prende-se com o facto de os estabelecimentos de ensino
prestarem um serviço de educação. É este serviço que justi ca, à luz do contrato rmado, a
obrigatoriedade de pagamento mensal.

Tanto é assim que no período de férias escolares, não há lugar a pagamento algum. Nenhum
estabelecimento de ensino possui a coragem e ousadia de exigir pagamentos durante o
período de férias escolares, exactamente porque o pressuposto que justi caria a obrigação de
pagamento não tem lugar (nas férias).

Ora, tendo sido decretada a suspensão das aulas por razões sobejamente conhecidas e,
decorrente disso, objectivamente, não haverá, enquanto durar o período de vigência do
Estado de Emergência, qualquer prestação de serviço de educação, não há qualquer base legal
que justi que o pagamento das mensalidades referentes a esse período.

Num artigo da minha autoria publicado no Jornal O País, do dia 27 de Março de 2020, pag. 10,
intitulado “Direito Digital: o Direito preferencial dos tempos de quarentena forçada pelo covid-
19”, disponível em http://opais.sapo.mz/direito-digital-o-direito-preferencial-dos-tempos-
de-quarentena-forcada-pelo-covid19- advertia-se que “as relações disciplinadas pelo Direito
Civil tendem a ser alteradas, por força dos princípios jurídicos de carácter universal como o do
“rebus sinc stantibus” que determina que a variação substancial/anormal das circunstâncias
repercute-se sobre o vínculo originariamente assumido e pactuado, implicando,
inelutavelmente, o desvio ao princípio “pacta sunt servanda” que é tido como a chave da
validade e e cácia dos contratos e que assevera que os contratos devem ser pontualmente
cumpridos, tal e qual previstos na sua forma originária”.

No ordenamento jurídico moçambicano o princípio “pacta sunt servanda” vem estabelecido


no artigo 406 e o princípio “rebus sinc stantibus” encontra-se previsto no artigo 437, ambos do
Código Civil, e aqui explicar-se-á, em cêntimos e quinhentas, a contraposição entre estes dois
princípios.

É de lei que os contratos, uma vez assumidos e ajustados, devem ser cumpridos na íntegra, nos
termos precisos constantes das respectivas cláusulas, e só alterados consoante acordo entre as
partes (“pacta sunt servanda”). No entanto, também é de lei que, se ocorrer uma situação
anormal e imprevisível – como é o caso de uma calamidade pública que origina o Estado de
Emergência – que escapa ao controle de ambos os contraentes – dos quais nenhum tem
responsabilidades ou culpa – e tal situação impossibilitar que o contrato possa continuar ser
cumprido tal e qual as partes contratantes desenharam na altura da respectiva assinatura, esse
contrato, a ter de continuar a vigorar, deve sujeitar-se às novas circunstâncias, de tal forma que
a nova forma de prestação das obrigações contratuais não seja excessivamente prejudicial
para alguma das partes (“rebus sinc stantibus”).

O pagamento da mensalidade é a contrapartida do serviço prestado pelos estabelecimentos


de ensino aos seus formandos. Se o dever de se pagar mensalidades sem que as actividades
que estão por detrás desse dever não ocorrem, isso seria excessivamente prejudicial para o

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formando/encarregado, que se veria obrigado a pagar por um serviço inexistente, o que


implicaria que os estabelecimentos de ensino recebessem valores monetários sem causa
justi cável para o efeito, facto que à luz da lei moçambicana consubstancia a gura do
“enriquecimento sem causa” previsto no artigo 473 do Código Civil que determina que «aquele
que, sem causa justi cativa, enriquecer à custa de outrem é obrigado a restituir aquilo com que
injustamente se locupletou. A obrigação de restituir, por enriquecimento sem causa, tem de modo
especial por objecto o que for indevidamente recebido, ou o que for recebido por virtude de uma
causa que deixou de existir ou em vista de um efeito que não se veri cou».

Portanto, a lei proíbe que uma das partes “enriqueça”, “se locuplete” “ganhe vantagens
nanceiras” de forma ilegítima (entendido, sem causa justi cativa para enriquecer, se
locupletar, ganhar vantagens nanceiras o ganho de vantagens nanceiras sem causa idónea
para o efeito).

Nem os estabelecimentos de ensino e muito menos os formandos possuem responsabilidades


na suspensão da relação contratual. Em regra, pelo menos presencialmente, é
temporariamente impossível a continuidade das prestações, quer de um quer de outro. Um
não deve exigir ao outro as lições lectivas a que tinha direito; e este não deve exigir àquele os
pagamentos que estava obrigado a efectuar.

Chama-se atenção para a situação de algumas escolas terem, por iniciativa própria, criado uma
forma de dar continuidade ao leccionamento, pela via digital (WhatsApp) ou on-line. É
necessário que a PGR, ao abrigo das atribuições que a lei lhe confere de defender interesses
colectivos e difusos, averigue sobre a necessidade e mérito desse leccionamento, pois, pode
indiciar uma manobra ardilosa, manhosa e dissimulada por parte das referidas escolas no
sentido de angariar valores monetários injusti cados durante o período do Estado de
Emergência, forçando os formandos/encarregados a realizar despesas injustas, fora do
aconchego do espirito da boa-fé. A PGR tem funções de defender interesses colectivos e
difusos (alínea d) do n.º 1 do artigo 11 conjugado com o seu dever de scalização da legalidade
nos termos da alínea b) do artigo 14, ambos da Lei Orgânica do Ministério Público, em
consonância com o disposto no artigo 235 da CRM, acerca do seu papel geral de defensora e
controladora da legalidade), entendendo-se por interesses difusos e colectivos aqueles de
natureza supraindividuais (dizem respeito a mais de um indivíduo), que dizem respeito a um
número determinado de pessoas que estão por si unidas numa mesma base de relação
jurídica. Ou seja, esse grupo de pessoas, por ser a mesma a base relacional que dá causa ao
interesse que cada um possui, torna-se um interesse colectivo (desse número determinado de
pessoas), possuindo, os sujeitos compreendidos nessa relação, interesses idênticos na
satisfação dos seus direitos, sendo que o prejuízo que pode advir da não salvaguarda desses
direitos é também o mesmo para cada uma dessas pessoas envolvidas. É, indiscutivelmente, o
caso dos formandos/encarregados de educação na situação que estamos aqui a analisar.

Caso se apure que não existe causa legítima e plausível, actuação sob o espírito da boa-fé e/ou
interesse ou necessidade improrrogáveis dos formandos, nas aulas que lhe são impostas
através de mecanismos digitais, estaremos em face da gura da “prática abusiva”, que consiste
no fornecedor prevalecer-se da fraqueza e ignorância do consumidor para impor os seus serviços
(alínea d) do n.º 1 do artigo 29 da Lei de Defesa do Consumidor), não nos esquecendo que à luz
do artigo 92 da CRM, os consumidores têm direito à protecção dos seus interesses económicos e,
ao abrigo do que dispõe o n.º 4 do artigo 11 da Lei de Defesa do Consumidor – princípio da
protecção dos interesses económicos do consumidor – «o consumidor não ca obrigado ao

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pagamento de serviços que não tenha previamente solicitado, ou que não constituam
cumprimento de contrato válido, não lhe cabendo, do mesmo modo, o encargo da sua
compensação». A alínea d) do n.º 1 do artigo 22 da Lei de Defesa do Consumidor acrescenta,
ainda que «são nulas e de nenhum efeito as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de
serviços que estabelecam obrigações consideradas iníquas e abusivas que coloquem o
consumidor em desvantagens exageradas ou sejam incompatíveis com a boa-fé e equidade».

d) proibição de realização de eventos públicos e privados, como cultos


religiosos, actividades culturais, recreativas, desportivas, políticas, associativas,
turísticas e de qualquer outra índole, exceptuando questões inadiáveis do Estado ou
sociais, como funerais, devendo em todos casos ser adoptadas as medidas de
prevenção, emanadas pelo Ministério da Saúde;

As proibições constantes desta norma possuem, como base, os mesmos princípios que os já
a orados nas restrições anteriores: partindo-se do princípio que a concentração populacional
origina um maior risco no contágio e propagação do covid-19, o PR decidiu que a realização
daqueles eventos que, pelas características das actividades nelas desenvolvidas, aglomeram
um considerável volume de pessoas, devem ser proibidos.

A medida, aconselhada pelos postulados da OMS, é seguida na maioria dos países que correm
risco de se verem assolados pelo surto pandémico do covid-19.

O Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de execução administrativa, procura trazer
elementos especí cos que auxiliam a cabal compreensão dos limites nos quais se traduzem
cada um dos eventos indicados neste artigo.

Relativamente a uns, a interdição é absoluta; e quanto a outros, a interdição é relativa,


permitindo-se que determinados eventos ocorram, todavia, com um número diminuto de
presenças ou em determinadas situações especiais.

O legislador moçambicano foi sensível relativamente a alguns dos eventos indicados,


reconhecendo a importância e/ou utilidade dos mesmos, não tendo, por isso, interditado por
completo as respectivas realizações.

Com efeito, ao abrigo do n.º 1 do artigo 16 do Decreto n.º 12/2020, são absolutamente
interditas as actividades culturais, recreativas e desportivas realizadas em espaços públicos. E
como consequência dessa interdição, o n.º 2 do mesmo diploma legal assevera que são
encerrados: discotecas; salas de jogos; bares e barracas destinadas à venda de bebidas
alcoólicas; ginásios desportivos, com excepção das actividades terapêuticas (aqui se abriu
uma excepção em reconhecimento da importância sanitária das actividades terapêuticas);
piscinas públicas; pavilhões gimnodesportivos; actividades recreativas como treinamento
colectivo e jogos colectivos o ciais ou recreativos; campos de jogos; museus; bibliotecas; e
teatros;

São também encerrados os Monumentos e locais similares, salvo quando se trate de


cerimónias de Estado, desde que se observe o limite máximo de 20 participantes. Esta
excepção, na óptica do legislador moçambicano, enquadra-se dentro das questões inadiáveis
de Estado, pelo que a medida de encerramento – quando se trate de questões inadiáveis de
Estado – é excepcionada, contudo, a preocupação com a aglomeração de pessoas foi, na

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óptica do Estado, acautelada, ao se determinar que não se pode ultrapassar o número de 20


participantes (devendo-se, sempre respeitar as regras de prevenção delineadas no n.º 2 artigo
17 do Decreto n.º 12/2020 – distanciamento interpessoal, arejamento, etiqueta da tosse,
desinfecção de equipamentos, não partilha de bens pessoais – e no artigo 6A aditado ao
Decreto n.º 12/2020 pelo Decreto n.º 14/2020 – no que concerne ao uso de máscaras para tapar
a boca e o nariz).

Suspende-se também a realização de feiras e exposições, com excepção da venda de insumos


agrícolas (n.º 4 do artigo 14 do Decreto n.º 12/2020, ressalvadas as alterações que lhe foram
introduzidas pelo Decreto n.º 14/2020), o que signi ca que as feiras e exposições de carácter
cultural, reacreativo e comercial são vedadas. A norma atrás indicada determina ainda que nas
feiras e exposições destinadas a venda de insumos e produtos agrícolas devem estar em
consonância com o disposto no artigo 20 do Decreto n.º 12/2020, designadamente,
observância de um horário compreendido entre as 6 horas e 17 horas, cabendo aos órgãos
gestores dos mercados o dever de criar condições para a observância do distanciamento
interpessoal recomendável entre os vendedores e entre estes e os compradores, o uso de
máscaras, criar condições para a desinfecção dos locais onde as aludidas feiras e exposições se
realizarão, bem como de higiene e saneamento do respectivo meio.

São ainda interditas a frequência a praias, quando ocasionadas por motivo de lazer. A
frequência às praias somente é permitida para actividades pesqueiras.
Aqui chama-se particular atenção ao facto de alguns realizarem actividades pesqueiras por
puro prazer, “hobby” e lazer. Estes estão proibidos de o fazer.

Estão, outrossim, suspensos os cultos e celebrações religiosas em colectivo, em todos os


lugares de culto, com ressalva de que tais actividades podem veri car-se nos domicílios dos
crentes, desde que salvaguardadas as condições de prevenção do covid-19, previstas no n.º 2
do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020 e no artigo 6A aditado ao referido diploma legal pelo
Decreto n.º 14/2020. O que isto quer dizer: signi ca que todo aquele que pretenda realizar
cultos religiosos em sua casa, deve observar as regras referentes ao número de pessoas que
participarão no culto (é sabido que algumas igrejas possuem núcleos de culto formado por um
número diminuto de crentes que entre si possuem relação de proximidade, cujos membros se
encontram periodicamente para, juntos, realizarem cultos religiosos ou, de qualquer forma,
prestar louvores a entidades divinas; os membros devem se responsabilizar pela observância
de um número diminuto que não coloque em cause o perigo de contracção, contágio e
propagação do vírus); devem também ser observadas as regras de higiene e saúde (etiqueta
da tosse; lavagem frequente das mãos; desinfecção de objectos), de protecção pessoal (não
partilha de utensílios de uso pessoal, uso de máscaras) e ainda de logística (garantir-se de que
tal casa que alberga o culto satisfaz condições de arejamento e condições para se respeitar o
distanciamento interpessoal aconselhável entre os crentes).

O legislador teve uma solução equilibrada, tanto quanto possível, para não suspender o
exercício de um direito constitucional – liberdade de culto e consciência – o qual, à luz do que
dispõe o artigo 294 da CRM, faz parte do núcleo dos direitos impassíveis de suspensão
decorrente da declaração do Estado de Emergência.

Estabelece este comando constitucional que «a declaração do de emergência em nenhum caso


pode limitar ou suspender o direito (…) a liberdade de religião». E de facto o direito não foi
suspenso. A liberdade de religião continuar a prevalecer. O que se suspendeu foi a realização

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de cultos em locais que, devido a volumosa aglomeração de pessoas – característica intrínseca


aos cultos – funcionaria como um foco de propagação do vírus que a Declaração pretende
suster.

A liberdade de religião foi mantida em respeito ao princípio-mestre da laicidade do Estado


estabelecido no artigo 12 da CRM, cujas manifestações alcançam-se da combinação dos
seguintes comandos constitucionais: «a República de Moçambique é um Estado laico» (n.º 1); «a
laicidade assenta na separação entre o Estado e as con ssões religiosas» (n.º 2); «as con ssões
religiosas são livres na sua organização e no exercício das suas funções e de culto e devem
conformar-se com as leis do Estado» (n.º 3); «o Estado reconhece e valoriza as actividades das
con ssões religiosas visando promover um clima de entendimento, tolerância, paz e o reforço da
unidade nacional, o bem-estar espiritual e material dos cidadãos e o desenvolvimento económico
e social» (n.º 4).

A laicidade do Estado tradicionalmente encontra expressão na separação entre o Estado e as


igrejas, assente em três princípios fundamentais, designadamente: [1] a secularização do poder
político, [2] a neutralidade do Estado perante as igrejas e [3] a liberdade de consciência, religião e
culto (Excerto do Acórdão do Tribunal Supremo datado de 27 de Dezembro de 1996 e
proferido à luz do Proc. n.º 1/96-CC, que, na altura, agia ao abrigo dos “poderes transitórios” que
o artigo 202 da CRM de 1990 lhe conferia, no sentido de o TS acumular as suas atribuições com
as do Conselho Constitucional, Acórdão esse, respeitante a um pedido de apreciação
preventiva da constitucionalidade de uma Lei que então instituía feriados nacionais para as
datas de Ide-Ul-Fitre e Ide-Ul-Adha).

Em virtude dos efeitos devastadores que o covid-19 causa, ofensivos ao direito à vida –
bem/direito mais valioso de entre todos os bens/direitos – é compreensível a solução a que se
chegou, podendo ser objecto de discussão o número de participantes permitidos na
realização dos cultos que cristalizam o exercício do intocável direito a liberdade de religião.

As cerimónias fúnebres fazem parte do grupo de eventos que não conheceu uma interdição
absoluta. Em explícito reconhecimento pela tradição dos moçambicanos em enterrar os seus
entes queridos, em enaltecimento do direito à última despedida de que gozam os familiares e
amigos de pessoa falecida, este evento não foi objecto de absoluta interdição, mas sim de
restrição relativamente ao número de pessoas que podem, nele, estar presentes.

Como forma de conciliar os aspectos sensíveis acima referidos com a necessidade de se conter
os riscos de contágio e propagação do covid-19, o legislador xou em 20 pessoas o número
limite de pessoas que podem estar presentes numa cerimónia fúnebre. A xação destes
quantitativos é sempre discutível, no entanto, há que existir compreensão e sensatez de que o
momento obriga a cuidados extraordinários e, parece-me, os enterros de pessoas falecidas só
poderão ser testemunhados pelos membros mais íntimos da família ou chegados do
malogrado.

Além de xar o número de participantes na realização de cerimónias fúnebres em 20 pessoas


(numero que é reduzido a 10 caso o malogrado tenha falecido padecesse de covid-19), o
Decreto n.º 12/2020 refere ainda que se deve assegurar o cumprimento do distanciamento
social e é obrigatório o uso de máscaras.

Há ainda atribuição do dever dos gestores dos cemitérios em adoptar medidas necessárias ao

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cumprimento do disposto no presente artigo. Cremos que, essencialmente, tais medidas


inserem-se no quadro do controle pelo cumprimento do número de participantes e pela
observância das já repetidas regras de prevenção (sendo, de entre elas, a mais sonante, a
disponibilização de água para a lavagem das mãos e, se possível, disponibilização de material
destinado a desinfecção de objectos utilizados no acto de enterramento).

Estas medidas são aplicáveis quer nos espaços normais destinados ao enterramento
(cemitérios públicos) quer nos locais reservados a pessoas de determinadas categorias,
nomeadamente, de certa nacionalidade, con ssão ou regra religiosas ou nos locais
tradicionais de enterramento, e quer ainda em casos de cremação e incineração de cadáveres,
em consonância com o que dispõem sobre a matéria os artigos 252, 254 e 255 do Código do
Registo Civil, aprovado pela Lei n.º 12/2018.

e) obrigatoriedade de implementação de medidas de prevenção em todas as


instituições públicas e privadas e transporte de passageiros.

As medidas de prevenção geral vêm dispostas no n.º 2 do artigo 17, n.ºs 2 e 3 do artigo 26,
ambos do Decreto n.º 12/2020, ressalvadas as alterações que foram introduzidas ao último
artigo pelo Decreto n.º 14/2020, e ainda no artigo 6A aditado ao Decreto n.º 12/2020 pelo
Decreto n.º 14/2020, sendo as mais relevantes: distanciamento interpessoal de 1,5m, no
mínimo, etiqueta da tosse; lavagem frequente das mãos; desinfecção das instalações e
equipamentos; não partilha de utensílios de uso pessoal; arejamento das instalações; redução,
em reuniões ou locais de aglomeração, do número de pessoas, para o máximo de 20, quando
aplicável, exceptuando situações inadiáveis do funcionamento do Estado (esta última parte
grifa que, tratando-se de reuniões que se mostrem urgentes para a prossecução de assuntos
do Estado ou do interesse público, é, excepcionalmente, permitido que o número de presentes
possa ser superior a 20), e ainda protecção do nariz e boca em todos os locais públicos, áreas
comuns, aglomerados, transportes colectivos de passageiros, moto-táxi e bicicleta-táxi, com
máscaras.

Se todas essas medidas são de cumprimento obrigatório nas instituições públicas e privadas,
as mesmas devem, também, com as necessárias adaptações e quando aplicáveis, as ser
extensíveis aos transportes de passageiros. Logicamente que algumas delas não são aplicáveis
num cenário de transporte colectivo de passageiros (como a lavagem das mãos, por exemplo).

A par daquelas medidas de prevenção geral, em função da natureza de cada instituição e das
peculiaridades que as actividades nelas desenvolvidas implicam, lançam-se mãos a medidas
de prevenção, digamos, especiais, como por exemplo o tratamento que se deve dar a situações
laborais – matéria que que será analisada quando estivermos a nos debruçar sobre as
explicações referentes ao disposto na alínea l) do n.º 2 do artigo 3 da DP que declara o Estado
de Emergencia.

Realce ainda, como medidas preventivas a serem levadas a cabo pelas instituições, públicas e
privadas: a faculdade concedida de “suspensão de serviços de interesse público” – as
instituições públicas e privadas que prestam serviço público, poderão reduzir o volume de serviços
prestados, de modo a que se conformem com o previsto no artigo 17 do Decreto n.º 12/2020 –; o
dever de “adopção de medidas de protecção individual”, nos termos do artigo 18 do referido
Decreto – aquelas instituições devem garantir condições essenciais de protecção individual dos
funcionários e agentes do Estado, trabalhadores bem como dos utentes e respeitar as orientações

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orientações das autoridades sanitárias, em conformidade com o propugnado no artigo 19 do


citado Decreto.

Relativamente as medidas de prevenção nos transportes colectivos (rodoviário, aéreo, uvial e


marítimo), o artigo 26 do Decreto n.º 12/2020, ressalvadas as alterações que lhe foram
introduzidas pelo Decreto n.º 14/2020, xa o limite máximo de passageiros a bordo de acordo
com o número máximo de assentos/lotação estabelecido para cada tipo de transporte, desde
que seja respeitada a obrigatória regra de tapar o nariz e boca com máscaras; sendo que os
mesmos princípios valem para os prestadores de serviços de moto-táxi e bicicleta-táxi.

O referido Decreto adverte ainda que serão apreendidos os veículos de transportes colectivos
de passageiros, as moto-táxi e bicicleta-táxi caso não respeitarem a regra referente ao limite
máximo permitido e a relativa a obrigatoriedade de uso de máscaras.

Ainda que o Decreto n.º 12/2020, não se re ra especi camente a esse aspecto, sublinha-se
que, quanto as regras a observar no transporte, o uso de máscaras deve ser obrigatório quando
se trate de trasladação de cadáveres para local (Província/Distrito) diverso daquele em que
ocorreu a morte do trasladado, observadas as formalidades prescritas no artigo 256 do Código
do Registo Civil, aprovado pela Lei n.º 12/2018.

Uma palavra nal para a Lei de Amnistia, aprovada sob os auspícios da Lei n.º 2/2020. Este
diploma legal pode ser enquadrado numa medida que visa responder ao referido nesta
norma. No preâmbulo desta lei, lê-se (sic): «urge adoptar medidas destinadas a mitigar a
superlotação dos estabelecimentos penitenciários do País, visando a prevenção da propagação
do novo coronavírus e a contenção da pandemia no ambiente penitenciário e na sociedade». Ora,
se partirmos do princípio que a superlotação impede o cumprimento da regra do
distanciamento interpessoal e cria um ambiente para que as pessoas estejam
con nadas/apertadas em espaços que não respondem às recomendações de arejamento,
chega-se a conclusão que amnistia e o perdão de penas com o objectivo de evitar a
superlotação, insere-se na perfeição, na materialização das medidas de prevenção e
contenção da propagação da pandemia do covid-19 no País.

2. Devem veri car-se ainda, as seguintes medidas restritivas especiais:

a) limitação da circulação interna de pessoas em qualquer parte do território


nacional, desde que, se veri que o aumento exponencial de casos de contaminação;

O conteúdo desta norma antecipa o que será uma medida a ser tomada caso se veri que o
facto futuro e de veri cação, ainda, incerta. Ela não limita, desde já, a circulação de pessoas,
entretanto, já deixa antever que, se se veri car o aumento exponencial de casos de
contaminação, então, nesse cenário, será tomada a decisão de limitar aquela circulação (um
desvio ao princípio constitucional da liberdade de circulação previsto no n.º 2 do artigo 55
CRM).

b) imposição de con namento de pessoas em domicílio ou estabelecimento


adequado, com objectivos preventivos, em casos de incumprimento das medidas
impostas na alínea b) do n.º 1 do presente artigo;

Já nos referimos a este aspecto quando fornecíamos as explicações relativas à norma disposta

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na alínea b) do n.º 1 do presente artigo 3 da Declaração, nos termos da qual, repete-se, todos
aqueles que violarem as regras impostas para o cumprimento da quarentena domiciliária,
serão sujeitos a con namento em domicílio diferente dos respectivos sujeitos ou em
estabelecimentos adequados (por forma a serem devidamente controlados pelas autoridades
administrativas e sanitárias).

c) imposição de internamento de pessoas em estabelecimento de saúde com


ns terapéuticos;

Esta situação reporta-se a casos diferentes tanto dos que dão origem a quarentena domiciliária
bem como dos que causam o con namento em domicílio e/ou estabelecimentos adequados.
Esta alínea c) reporta-se aos casos de doentes que são sujeitos ao internamento visando a
respectiva cura. Não se pode perder de vista que tanto na quarentena bem como no
con namento (internamento compulsivo devido a violação das regras de quarentena), as
pessoas em causa não estão doentes. Somente suspeita-se que possam estar, em virtude de
terem estado em contacto com um doente de covid-19 ou por terem entrado no país vindo do
estrangeiro, de onde se suspeita que possa existir a possibilidade de estarem infectadas, mas
em período de incubação do vírus (14 dias). Daí a necessidade que estes últimos dois casos
merecerem uma medida que aponta para o distanciamento social obrigatório. No
internamento para ns terapêuticos, os visados são pessoas padecentes de covid-19.

d) limitação de entrada e a saída de pessoas, do território moçambicano, através do


encerramento parcial das suas fronteiras, exceptuando assuntos de interesses do Estado,
apoio humanitário, saúde e transporte de carga;

O objectivo especí co desta medida possui semelhanças com a prevista na alínea a) do n.º 1 do
artigo 3, que determina a suspensão de emissão de vistos de entrada e cancelamento dos
vistos já emitidos. No entanto, a norma prevista na alínea a) do n.º 1 e esta, disposta na alínea d)
do n.º 2, ambos do artigo 3 da Declaração, não signi cam exactamente a mesma coisa.
Naquela norma eliminavam-se os vistos; nesta encerram-se as fronteiras. Esta última constitui
uma medida mais robusta.

Não obstante os controlos fronteiriços a pessoas e bens, designadamente proibindo o direito a


livre circulação de pessoas, podem ser tomadas medidas necessárias a assegurar a circulação
internacional de bens e serviços. Por isso,

Exceptuam-se, desta medida de encerramento de fronteiras, por razões óbvias, a entrada e


saída de pessoas se estas tiverem exclusivamente de tratar assuntos do interesse do Estado, o
que pode consistir na entrada de médicos estrangeiros e equipamento medicamentoso vindo
do estrangeiro, entrada de pessoal quali cado para prestar ajuda humanitária aos doentes de
covid-19 ou, de qualquer forma auxiliar na execução de medidas preventivas, e demais
pessoas e bens cuja entrada o solo pátrio se mostre imprescindível, quer para a prevenção e
combate do covid-19, em especial, quer para assuntos ultra importantes referentes a vida da
nação.

As entradas e saídas de pessoas para ns turísticos, culturais, recreativos e outros equiparados


estão terminantemente proibidos.

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e) exigência do conhecimento em tempo real de pessoas através do recurso a


geolocalização;

A geolocalização consiste em detectar doentes de covid-19 ou controlar o cumprimento das


regras de quarentena obrigatória, através do recurso a meios tecnológicos ou equipamentos
electrónicos ou aplicativos digitais, de entre os quais se destacam o mecanismo de rastreio por
“GPS” (que pode ser efectuado através de um telemóvel/smartphone), pulseiras electrónicas,
etc.

Os países que já a adoptaram, executam-na através de Apps disponíveis em telemóveis


(smartphones), que são descarregadas no Google Play e na App Store e lhes permite seguir os
movimentos dos cidadãos que são obrigados a permanecer isolados, seja porque vêm de um
país estrangeiro seja porque estiveram em contacto com uma pessoa infectada. Se o aplicativo
detectar que determinada pessoa está infectada, o algoritmo localizará todas as pessoas com
quem esteve em contacto, e estas receberão uma mensagem de que são potencialmente
portadoras da doença. Por um lado, ajuda a salvar vidas; Por outro lado, é uma aplicação que
permite a quebra do sigilo sobre os dados pessoais da pessoa visada, que podem, em alguns
casos, se a recolha e processamento forem mal usados, vir a ser do conhecimento público.
Questiona-se se será que os meios justi cam os ns? De que forma é que uma emergência,
como a do covid-19, justi ca uma privação de direitos como a que estas aplicações parecem
pressupor?

Esta temática tem suscitado intenso e polémico debate na arena internacional, centrado na
pertinência e proporcionalidade desses meios, no que concerne a salvaguarda de direitos à
reserva da vida privada dos visados, direito à protecção de dados pessoais, etc., existindo
quem advogue que a geolocalização é um meio manifestamente ofensivo à salvaguarda
daqueles direitos, atingindo, inclusive, a estrutura fundamental de um Estado de Direito e, por
isso, não devia ser permitido o seu uso, sem permissão da pessoa visada. Os defensores desta
tese defendem que seja o próprio visado a confessar, espontaneamente que é portador da
doença, sendo ilegal que lhe seja diagnosticada a doença a partir desses meios
digitais/electrónicos sem a sua autorização.

Outros, por sua vez, sustentam que a limitação de direitos de privacidade (vinculados à reserva
da vida privada e os relativos à protecção de dados) é justi cável no âmbito da prevenção e
contenção da propagação do vírus e dão o exemplo da Coreia do Sul como um verdadeiro caso
de sucesso. A rmam, ainda, que o direito à vida por parte da colectividade está acima do
direito à privacidade individual(izada).

Polónia e Suíça já usam esses aplicativos; Espanha, Itália, França, Alemanha e Reino Unido são
outros dos países europeus que já têm, ou virão a ter em breve (projectos de lei nesse sentido
estão em fase avançada), formas de rastrear doentes e cidadãos de quarentena. Em Portugal, o
assunto ainda não tem merecido debate formal por parte dos respectivos políticos.

Entretanto, na Ásia a geolocalização de doentes e casos suspeitos já é utilizada desde o início


da epidemia do covid-19. A Coreia do Sul experimentou com sucesso um aplicativo. Aliado à
realização de testes de diagnóstico em massa, o sistema permitiu o controlo da propagação da
doença no país. Hong Kong também deixou de lado o debate sobre a protecção de vida
privada. As autoridades impõem a todos os estrangeiros que chegam ao território chinês o uso
de uma pulseira electrónica que indica, em tempo real, se eles estão respeitando a quarentena

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obrigatória.

A Constituição da República moçambicana (CRM) alberga, no capítulo reservado à


consagração dos “direitos, liberdades e garantias individuais”, a disciplina constitucional
incidente sobre a protecção de dados pessoais através da utilização das tecnologias de
comunicação e informação.

Com efeito, o artigo 71 da CRM, sob epígrafe “utilização da informática”, estabelece que «é
proibida a utilização de meios informáticos para registo e tratamento de dados individualmente
identi cáveis relativos às convicções políticas, losó cas ou ideológicas, à fé religiosa, à liação
partidária ou sindical e à vida privada» (n.º 1); «a lei regula a protecção de dados pessoais
constantes de registos informáticos, as condições de acesso aos bancos de dados, de constituição e
utilização por autoridades públicas e entidades privadas destes bancos de dados ou de suportes
informáticos» (n.º 2); «não é permitido o acesso a arquivos, cheiros e registos informáticos ou de
banco de dados para conhecimento de dados pessoais relativos a terceiros, nem a transferência de
dados pessoais de um para o outro cheiro informático pertencente a distintos serviços ou
instituições, salvo nos casos estabelecidos na lei ou por decisão judicial» (n.º 3); «todas as pessoas
têm o direito de aceder aos dados coligidos que lhes digam respeito e de obter a respectiva
recti cação» (n.º 4).

Realça-se que o princípio geral deste capítulo da CRM, re ectido no artigo 56, cuja epígrafe
cimenta: “princípios gerais dos direitos, liberdades e garantias individuais”, é peremptório em
determinar que «Os direitos e liberdades individuais são directamente aplicáveis, vinculam as
entidades públicas e privadas, são garantidos pelo Estado e devem ser exercidos no quadro da
Constituição e das leis» (n.º 1); «O exercício dos direitos e liberdades pode ser limitado em razão
da salvaguarda de outros direitos ou interesses protegidos pela Constituição» (n.º 2); «A lei só
pode limitar os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na
Constituição» (n.º 3); «As restrições legais dos direitos e das liberdades devem revestir carácter
geral e abstracto e não podem ter efeito retroactivo» (n.º 4).

E se trouxermos à colação que, ao abrigo do artigo 291 da CRM, a declaração do Estado de


Emergência, deve, com base no estabelecido na própria CRM, (…) respeitar o princípio da
proporcionalidade e limitar-se, quanto à extensão dos meios utilizados (…) ao estritamente
necessário ao pronto restabelecimento da normalidade constitucional, conjugando-se esta
norma com outra do mesmo texto constitucional – a do n.º 1 do respectivo artigo 72 – que sob
a epígrafe “suspensão de exercício de direitos”, estabelece que “as liberdades e garantias
individuais só podem ser suspensas ou limitadas temporariamente em virtude de declaração (…)
do estado de emergência nos termos estabelecidos na Constituição, emerge a legítima
preocupação em se aquilatar em que medida é que os direitos e garantias individuais
concernentes à protecção de dados são atingidos pela declaração do Estado de Emergência.

A resposta começa a desenhar-se nas normas que corporizam algumas das alíneas do artigo
295 da CRM, que, subordinada à epígrafe “restrições das liberdades individuais” elenca, no que
releva para a presente análise, as seguintes restrições: restrições relativas à inviolabilidade da
correspondência, ao sigilo das comunicações, à prestação de informações (…) [respectiva alínea
d)]; busca e apreensão em domicílio [correspondente alínea e)], que se encontram fora
daqueles direitos absolutamente intocáveis previstos no artigo 294 da CRM (direitos à vida, à
integridade pessoal, à capacidade civil e à cidadania, a não retroactividade da lei penal, o direito
de defesa dos arguidos e a liberdade de religião).

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Tendo como respaldo o excepcionalmente permitido pela CRM, o n.º 3 do artigo 3 do Decreto-
Presidencial n.º 11/2020, ao estipular que as medidas decretadas na Declaração do Estado de
Emergência e a sua execução devem respeitar o princípio da proporcionalidade e limitar-se à
sua extensão, duração, meios utilizados e ao estritamente necessário ao pronto
restabelecimento da normalidade, parecem materializar o vertido nas mencionadas alíneas d)
e e) do artigo 295 do texto constitucional, abrindo a possibilidade para que os direitos relativos
à protecção de dados pessoais possam ser legitimamente violados com base no fundamento
de um direito superior (direito à vida) a ser protegido.

Sobre esta matéria, a Convenção da União Africana sobre Cibersegurança e Protecção de


Dados Pessoais, rati cada pelo Estado moçambicano através da Resolução n.º 5/2019, prevê
restrições às regras de processamento de dados pessoais de forma coadunável com o
estipulado na Declaração do Estado de Emergência, concretamente, estando-se em face de
uma situação de surto epidémico como a é o covid-19, desde que se respeitem os sacrossantos
princípios estipulados naquela Convenção sobre a matéria.

Assim, o processamento de dados pessoais deve obedecer aos princípios gerais contidos no
artigo 13 da Convenção: (i) princípio do consentimento e de legitimidade de processamento
de dados pessoais; (ii) princípio da lealdade e legalidade do processamento de dados pessoais;
(iii) princípio da nalidade, pertinência, conservação e do processamento de dados pessoais;
(iv) princípio de exactidão dos dados pessoais (v) princípio de transparência de
processamento de dados pessoais (vi) princípio de con dencialidade e de segurança no
processamento de dados pessoais.

Paralelamente àqueles princípios gerais acima elencados, o processamento de dados pessoais


deve, ainda obedecer a princípios especí cos relativos ao processamento de dados sensíveis,
plasmados no artigo 14 da Convenção.

O princípio do consentimento e de legitimidade do processamento de dados pessoais, apesar


de instituir um regime regra que estabelece que o processamento de dados pessoais é
considerado legítimo quando o titular dos dados der o seu consentimento, todavia este requisito
pode ser revogado quando o processamento de dados for necessário para a execução de uma
missão de interesse público no exercício de autoridade pública conferida ao controlador de dados
(…) e ainda para a salvaguarda dos interesses vitais ou direitos fundamentais do portador de
dados (…) – alíneas b) e d), respectivamente, do artigo 13 da Convenção.

O vertido na alínea d) do artigo 13 da Convenção – que se reportava a recolha e processamento


de dados gerais – acima reproduzido, combina perfeitamente com a excepção relativa a
proibição de processamento de dados sensíveis relativos ao estado de saúde do portador de
dados quando o processamento de dados for necessário para proteger os interesses vitais do
titular dos dados ou de uma outra pessoa, se o sujeito titular dos dados estiver física ou
juridicamente incapacitado para dar o seu consentimento – al. c) do n.º 2 do artigo 14 da
Convenção.

Ainda assim, o debate continua: será que os meios justi cam os ns? De que forma é que uma
emergência, como a do covid-19, justi ca uma privação de direitos como a que estas
aplicações parecem pressupor?

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f) requisição da prestação de serviços de saúde, serviços similares e outros que se


considerem complementares;

O facto de uma situação destas – Estado de Emergência – ser inédita no nosso solo pátrio, é
susceptível de causar no povo, alguma estupefacção sobre a opção de determinadas medidas,
de carácter altamente extraordinário, que, indiscutivelmente, caracterizam-se por desvirtuar a
normalidade das actuações dos cidadãos e das relações jurídicas de que estes são
intervenientes.

Esta norma sobre a qual agora nos debruçamos, constitui um mecanismo normal/habitual de
actuação em situações de Estado de Emergência, na maioria dos ordenamentos jurídicos do
universo.

Ela baseia-se em pressupostos e valores ligados ao patriotismo, ao sentido de Estado e à


necessidade de assunção de sacrifícios, por parte dos cidadãos, em prol do bem comum,
público, colectivo e nacional.

O artigo 45 da CRM, cuja epígrafe é “Deveres para com a comunidade” estabelece, na sua alínea
a), que todo o cidadão tem o dever de servir a comunidade nacional, pondo ao seu serviço as
suas capacidades físicas e intelectuais; e, por sua vez, o n.º 1 do artigo 46 da CRM, com epígrafe
“Deveres para com o Estado” preceitua que todo o cidadão tem o dever de contribuir para a
defesa do país.

É assim que, em quadros panorâmicos com o que Moçambique atravessa, a gura da


requisição é muitíssimas vezes manuseadas para reforçar e dar cobro a capacidade do
respectivo pais em responder aos desa os que lhe são impostos pelo facto que dá origem ao
decretamento de Estado de Emergência. Ela é aplicada quando está em causa funcionamento
de determinadas actividades fundamentais e quando há perturbações graves da vida social,
económica e até política.

Com efeito, o n.º 1 do artigo 7 do Decreto n.º 12/2020 estabelece que é determinada a
requisição civil de médicos, enfermeiros e outro pessoal de saúde, fora do Sistema Nacional de
Saúde.

Tanto a norma aqui objecto de explicação (alínea f ) do artigo 3) bem como a que a
regulamenta (n.º 1 do artigo 7 do Decreto n.º 12/2020), são a oramentos do estatuído na
alínea g) do Artigo 295 CRM, nos termos do qual, Ao abrigo do estado de emergência podem ser
tomadas as seguintes medidas restritivas da liberdade das pessoas: requisição de bens e serviços.

Este pessoal requisitado possui o dever de cumprir a ordem emanada e, em regra, as


requisições civis não concedem direito a outra indemnização que não seja o vencimento ou
salário decorrente do respectivo contrato de trabalho ou categoria pro ssional, bene ciando,
contudo, dos direitos e regalias correspondentes ao exercício do seu cargo e que não sejam
incompatíveis com a situação de requisitados.

Portanto, a ideia na qual se sustenta a requisição civil é, basicamente, o reforço da capacidade


do Estado em dar resposta a situação calamitosa publica em que se encontra mergulhado em
decorrência do covid-19.

A requisição civil não se aplica aos médicos, enfermeiros e outro pessoal de saúde

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particularmente vulneráveis à pandemia covid-19 (por via da interpretação analógica,


depreende-se que se tratam de médico e enfermeiros em situação similar aos indivíduos que,
nos termos do n.º 1 do artigo 6 do Decreto n.º 12/2020, gozam de protecção especial: os com
idade igual ou superior a 60 anos; os portadores de doença considerada de risco, de acordo com as
orientações das autoridades sanitárias, designadamente, os imuno-comprometidos, os doentes
renais, os hipertensos, os diabéticos, os doentes cardiovasculares, os portadores de doença
respiratória crónica e os doentes oncológicos; e as gestantes.

g) encerramento de estabelecimentos comerciais de diversão e equiparados, ou


reduzir a sua actividade e laboração;

O espírito desta norma não se difere do presente na alínea d) do n.º 1 do artigo 3 da Declaração,
que já foi objecto de explicação, acima, no seu devido lugar. Com efeito, a alínea d) do n.º 1 do
artigo 3 da Declaração determina a proibição de realização de eventos públicos e privados, como
cultos religiosos, actividades culturais, recreativas, desportivas, políticas, associativas, turísticas e
de qualquer outra índole, exceptuando questões inadiáveis do Estado ou sociais, como funerais
(…);

Como também já tínhamos feito menção nas explicações efectuadas a alínea d) do n.º 1 do
artigo 3 da Declaração, o Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de execução
administrativa, promove encerramento de discotecas; salas de jogos; bares e barracas
destinadas à venda de bebidas alcoólicas; ginásios desportivos, com excepção das actividades
terapêuticas (aqui se abriu uma excepção em reconhecimento da importância sanitária das
actividades terapêuticas); piscinas públicas; pavilhões gimnodesportivos; actividades
recreativas como treinamento colectivo e jogos colectivos o ciais ou recreativos; campos de
jogos; museus; bibliotecas; e teatros;

Portanto, quando se olha para muitos dos estabelecimentos mandados encerrar à luz da alínea
d) do n.º 1 do artigo 3 da Declaração, não causa surpresa nem estranheza que os
estabelecimentos comerciais de diversão e equiparados também sejam mandados encerrar.
Entretanto, quanto a estas, o DP estabelece uma norma alternativa, ou seja, ou se encerram ou
se reduz a sua actividade e laboração. O objectivo desta redução visa, indiscutivelmente, evitar
a aglomeração de um número volumoso de participantes nesses estabelecimentos, bem
como o número extenso, em simultâneo, dos respectivos trabalhadores. A este particular
aspecto, vale também o referido no n.º 3 do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020, segundo o qual, o
efectivo laboral presencial é reduzido para uma quantidade não superior a 1/3, com
rotatividade das equipas de serviço de 15 em 15 dias, com expressa ressalva, no seu n.º 7, tendo
em atenção as alteração introduzida pelo Decreto n.º 14/2020, de as indústrias de bens
essenciais podem laborar com um efectivo superior àquele número, mediante autorização
especial do Ministro que superintende a área do Comércio, após pedido fundamentado.

Não conseguimos deter a nossa tentação em confessar a nossa estupefacção por este
tratamento diferenciado (alínea d) do n.º 1 e alínea g) do n.º 2, ambos do artigo 3), visto que
discotecas, bares e barracas também podem ser interpretados como estabelecimentos
comerciais de diversão ou equiparados. É notória e clara a contradição patente entre as
medidas adoptadas nas duas normas precedentemente citadas.

Cremos que tudo não passou de um lapso por parte do legislador, pois a epígrafe do artigo 14
do Decreto n.º 12/2020 é peremptória em determinar o encerramento de estabelecimentos

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comerciais de diversão e equiparados, e se se analisar esta contradição ao abrigo dos


princípios do Direito e com base nas regras de interpretação jurídica (e não das leis), tendo em
consideração que um Decreto aprovado pelo Conselho de Ministros assume uma posição
hierárquica superior aos Decretos-Presidenciais, pois aqueles constituem uma extensão das
Leis que visam regulamentar e a Lei encontra-se, de forma manifesta, hierarquicamente acima
do Decreto-Presidencial, em harmonia com os mandamentos de um dos princípios-chave do
Direito Administrativo – “princípio do congelamento do grau hierárquico” – que nos ensina
que uma lei só pode ser revogada, alterada, modi cada por outra de igual ou superior grau
hierárquico, conclui-se, com lógica, que neste caso, um Decreto (que regulamenta a Lei
Preambular) alterou o sentido de um Decreto-Presidencial, sendo que aquele pode fazê-lo por
ocupar uma posição superior na hierarquia das Leis.

Portanto, devem considerar-se os estabelecimentos em causa são encerrados.

h) scalização de preços de bens essenciais para a população, incluindo os


necessários para a prevenção e combate à pandemia;

É uma norma protectora aos direitos do cidadão/consumidor contra o aproveitamento que os


operadores comerciais em causa se prevalecem para ganhar vantagens injustas e ilícitas neste
cenário de (risco de) escassez de produtos. Aliás, é público que muitos bens essenciais, assim
que foram tomadas as primeiras medidas restritivas ocasionadas pelos efeitos do covid-19,
sofreram uma alteração exorbitante nos preços praticados no mercado, em clamoroso
prejuízo do cidadão/consumidor.

O artigo 7 da Declaração elenca uma série de serviços (e não bens) essenciais que devem ser
mantidos durante a vigência do estado de emergência.

De entre esse elenco, só a alínea c) do artigo 7 da Declaração se refere a bens, determinando


que é mantida, designadamente, venda de bens alimentícios e de primeira necessidade.

Portanto, são estes os bens – alimentícios e de primeira necessidade – adicionados aos


necessários para a prevenção e combate à pandemia (onde se incluem medicamentos,
máscaras, álcool, álcool em gel, luvas, etc.), que merecerão scalização à luz do que dispõe a
norma aqui em análise.

Para se alcançar esse objectivo, o artigo 21 do Decreto n.º 12/2020, que xa as medidas de
execução administrativa, assevera que os órgãos competentes de inspecção das actividades
económicas mantêm-se em funções e que devem ser reforçadas as acções de inspecção com
vista a identi car e sancionar as práticas de especulação de preços pelos estabelecimentos
comerciais.

Ainda que o Decreto n.º 12/2020 não tenha feito menção expressa deste facto, É, pois,
atribuído à Inspecção Nacional das Actividades Económicas (INAE) – em harmonia com o que
dispõe o Decreto n.º 43/2017, diploma que procede a revisão do Decreto n.º 46/2009, que cria
o INAE – o papel de liderar as actividades inspectivas de que trata a presente norma da
Declaração.

Moçambique possui diplomas legais vocacionados a proteger os consumidores contra a


possibilidade de xação de preços à margem da lei, destacando-se o Decreto n.º 56/2011

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(Regulamento de Fixação de Margens Máximas de Lucro para Produtos Básicos), bem como o
Decreto n.º 47/2011, (Regulamento da Obrigatoriedade de A xação de Preços em Moeda
Nacional para a Generalidade dos Produtos e Serviços Objectos de Comércio), sem descurar,
obviamente a Lei n.º 28/2009 (Lei de Defesa do Consumidor) e o Decreto n.º 27/2016
(Regulamento da Lei de Defesa do Consumidor).

A alínea i) do n.º 1 do artigo 29 da Lei de Defesa do Consumidor denomina de “prática abusiva”


o acto de elevar sem justa causa o preço dos bens e serviços. Por sua vez, a alínea d) do n.º 1 do
artigo 22 da mesma Lei acrescenta que «são nulas e de nenhum efeito as cláusulas contratuais
relativas ao fornecimento de serviços que estabeleçam obrigações consideradas iníquas e
abusivas que coloquem o consumidor em desvantagens exageradas ou sejam incompatíveis com
a boa-fé e equidade», sendo que o conceito de “vantagem exagerada” nos é fornecido pela
alínea c) do n.º 2 do referido artigo 22, que refere que Presume-se exagerada a vantagem que se
mostra excessivamente onerosa para o consumidor considerando a natureza e conteúdo do
contrato (neste caso, o contrato de compra e venda de bens de serviços essenciais).

Nos termos do artigo 33 da Lei de Defesa do Consumidor, a sanção, em regra, é a de multa,


todavia, podem ser aplicadas sanções mais graves como apreensão do bem, suspensão do
fornecimento do bem, revogação de concessão ou permissão de alvará, e interdição, total ou
parcial, de estabelecimento ou da actividade, se os preços praticados estiverem, também,
relacionados com vícios de quantidade dos produtos vendidos.

Realça-se, ainda, que esta conduta pode, também, propiciar a prática de crimes de
especulação nos termos do n.º 1 do artigo 468 do Código Penal que refere que «comete o crime
de especulação aquele que na venda de produtos ou serviços estipule ou exija por qualquer forma
preços superiores aos xados pelas entidades competentes», sendo que, ao abrigo do n.º 3 do
mesmo artigo, «o crime de especulação é punido com pena de prisão até dois anos e multa
correspondente ao quíntuplo do lucro ilícito realizado, acrescido do quíntuplo do valor dos
produtos ou mercadorias apreendidos».

i) promoção e reorientação do sector industrial para a produção de insumos


necessários ao combate à pandemia;

Trata-se de uma estratégia e política que pode ser manuseada em função dos efeitos
provocados pelo Estado de Emergência, designadamente, relacionados com a necessidade de
se produzir/fabricar bens que se destinem directamente a auxiliar a prevenção e contenção da
propagação do covid-19.

Insumos constituem um conjunto dos factores de produção que são directamente


combinados para gerar um bem ou serviço. Ou seja, para que um factor de produção seja
considerado um insumo, ele precisa ter envolvimento directo com a produção. Deste modo,
como os factores de produção, que classicamente são divididos em três tipos, os insumos
podem ser relacionados à terra (como a matéria-prima), ao trabalho (como a mão-de-obra) ou
ao capital (como a maquinaria empregada).

A norma refere que se prevê, nesse cenário, por parte do Governo, a promoção para que o
sector industrial fabrique produtos destinados a combater a calamidade do covid-19 (que
podem passar por medicamentos, utensílios e equipamentos necessários a fazer face à
doença, como álcool, máscaras, luvas, produtos de desinfecção, etc., sem descurar dos que os

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serviços de saúde podem deles carecer para fazer face à doença).

j) adoptação de medidas de política scal e monetária sustentáveis, para apoiar


o sector privado a enfrentar o impacto económico da pandemia;

Reconhecendo-se que o impacto económico da pandemia causará danos quer na situação das
empresas quer na situação dos trabalhadores e, por consequência disso, à economia do país,
as medidas referenciadas nesta norma podem passar atribuição de benefícios scais
(eliminação ou prorrogação de obrigações scais), subvenções `as empresas através de apoio
nanceiro por parte do Governo (adopção de um conjunto de linhas de crédito para apoio à
tesouraria das empresas, destinadas aos sectores mais atingidos pela pandemia), medidas de
apoio às empresas de modo a terem acesso a uma moratória, concedida pela Banca, no
pagamento de capital e juros; redução das contribuições para a Segurança Social; en m, as
medidas que, tendo em conta as circunstâncias económico- nanceiras e capacidade de
solvabilidade do próprio Estado (aquilatando-se o equilíbrio entre as receitas que gera e as
despesas que tem de efectuar), podem se achar mais convenientes, como forma de “salvar” as
empresas.

k) adopção de estratégias de comunicação para intensi cação de medidas de


educação das comunidades e veiculação de mensagens de prevenção à pandemia,
incluindo em línguas nacionais;

Esta norma insere-se no quadro da importância da propagação da informação. As pessoas têm


de estar informadas sobre o que é o covid-19; como se contrai; que medidas se devem tomar
visando a prevenção. Para tanto, acções de divulgação, através da comunicação social, são
imprescindíveis.

E para que a mensagem chegue em condições de ser perfeitamente percebida, a norma aqui
em sindicância programa transmissão de informação através das várias línguas locais faladas
no nosso país, como forma de permitir que todos tenham acesso ao conhecimento mínimo
que é requerido para se prevenirem da contracção a doença.

l) introdução de rotatividade laboral ou outras modalidades em função das


especi cidades da área de trabalho, assegurando contudo mecanismos de controlo
da efectividade.

Esta norma é complementada pelos n.ºs 3 a 8 do artigo 17; n.º 2 do artigo 27 (no que se refere
aos trabalhadores dos órgãos de comunicação social), e ainda n.º 2 do artigo 28, todos do
Decreto n.º 12/2020, tendo em atenção as alterações que foram introduzidas ao referido artigo
17 do Decreto n.º 12/2020, pelo Decreto 14/2020.

Como forma de prevenir e conter a propagação do covid-19, o Decreto n.º 12/2020, que aprova
as medidas de execução administrativa determina que o efectivo laboral presencial é reduzido
para uma quantidade não superior a 1/3, com rotatividade das equipas de serviço de 15 em 15
dias. Cremos que é fácil perceber-se o que se diz aqui. O número limite dos trabalhadores que
se devem fazer presentes, em simultâneo, no local de trabalho não pode exceder a 1/3 do
número máximo dos “recursos humanos” da empresa (com excepção das “indústrias de bens
essenciais” – de nidas no n.º 8 do artigo 17 do n.º Decreto 12/2020, ressalvadas as alterações
que lhe foram introduzidas pelo Decreto n.º 14/2020), podem laborar com um efectivo

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superior àquele número, mediante autorização especial do Ministro que superintende a área
da Indústria e Comércio, após pedido fundamentado (n.º 7 do artigo 12/2020, em atenção a
alteração que lhe foi provocada pelo Decreto n.º 14/2020).

Paralelamente, cada grupo que integrará o número limite xado pelo Decreto n.º 12/2020
deverá prestar a sua actividade laboral em sistema rotativo de 15 em 15 dias, assegurando-se,
assim, que todos os trabalhadores, tanto quanto possível, tenham, em 45 dias, o mesmo
número de horas de trabalho.

Frisa-se que apesar da adopção deste sistema de rotatividade, ao abrigo do n.ºs 3 e 4 do artigo
86 da Lei n.º 23/2007 (Lei do Trabalho), «da redução dos limites máximos do período normal do
trabalho (neste caso, por determinação do Governo), não podem resultar prejuízos económicos
para o trabalhador ou alterações desfavoráveis das suas condições de trabalho»

O Decreto n.º 12/2020 refere ainda que as entidades empregadoras, em função das
especi cidades da prestação laboral de alguns trabalhadores, poderão introduzir outras
modalidades de trabalho (ou outras formas de prestar o trabalho), como, por exemplo, o
teletrabalho (ainda que não tenha feito menção expressa desta gura, mas é ela – o
teletrabalho – que o n.º 4 do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020 evoca, quando refere que devem
ser adoptados mecanismos que assegurem a continuação do trabalho em casa, havendo
condições.

Sublinha-se que o n.º 5 do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020, ao referir que compete a cada
entidade, pública ou privada, de nir modalidades do trabalho em casa, está a atribuir o poder de
a entidade empregadora decidir unilateralmente (sem acordo prévio com o trabalhador) a
xação do regime de teletrabalho.

Sobre o teletrabalho referir-nos-emos de forma detalhada e aprofundada no Anexo II do


presente texto de apoio, e que dele constitui parte integrante.

Não estão abrangidos no sistema de rotatividade que deverá ser efectuado de 15 em 15 dias
aqueles que, nas respectivas instituições, ocupam cargos de direcção, che a e con ança, os
quais mantêm o pleno exercício das suas funções. A partida, poderia parecer uma solução
injusta, mas não é, pois não se pode perder de vista que, nos termos da alínea a) do n.º 5 do
artigo 87 da Lei do Trabalho, podem ser isentos do horário do trabalho os trabalhadores que
exerçam cargos de che a, direcção e con ança.

Nota importante para o facto de n.º 2 do artigo 28 do Decreto n.º 12/2020 esclarecer que,
apesar de o empregador estar proibido de fazer cessar contratos de trabalho com fundamento
na ausência dos trabalhadores, decorrente das medidas determinadas no DP, tal facto não
impede a adopção de medidas disciplinares, quer para os funcionários e agentes do Estado
quer para os trabalhadores (do sector privado) com dever de prestar serviço durante a vigência
do Estado de Emergência. No entanto, ressalva-se que o poder disciplinar do empregador só
poderá exequível apos o término do estado de emergência, visto que o n.ºs 2 e 3 do artigo 2 da
Lei Preambular (Lei n.º 1/2020, que rati ca o DP do qual consta a Declaração do Estado de
Emergência) suspendeu os prazos de procedimento disciplinar, o que signi ca, por exemplo,
que uma nota de culpa (sector privado) ou nota de acusação (funcionários do Estado) só
poderá ser entregue após o levantamento da suspensão dos procedimentos disciplinares que
a lei preambular determinou.

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Merece nota importantíssima a possibilidade de as entidades empregadoras poderem, nos


termos do n.º 1 do artigo 123 da Lei do Trabalho, suspender o contrato de tralho por razões
económicas, entendendo-se por “razões económicas” as resultantes por motivos de mercado
ou catástrofes ou outras que venham afectar a actividade normal da empresa, sobretudo, no
que se prende com a respectiva capacidade de gerar rendimentos (ex: suspensão de
encomendas que a empresa normalmente recebia, quebra na facturação, etc.).

Nesse cenário – de suspensão do contrato – o trabalhador reserva, ao abrigo do n.º 5 do artigo


123 da Lei do Trabalho, o direito a uma remuneração mensal equivalente a 75% do
remuneração total no primeiro mês, 50% no segundo mês e 25% no terceiro mês,
salvaguardando-se que esse valor nunca pode ser inferior ao salário mínimo. Se a situação que
deu causa `a suspensão se mantiver por mais de três meses, os pagamentos de salários
suspendem-se, podendo-se cessar o contrato por mútuo acordo, sem prejuízo do direito a
indemnização cabíveis ao trabalhador (n.º 6 do artigo 123 da Lei do Trabalho).

Realça-se que a suspensão do contrato está sujeita a apertados requisitos: é sempre precedida
de indicação fundamentada, ao trabalhador, da data de início da medida de suspensão,
devendo-se também enviar cópias dessa fundamentação ao Ministério do Trabalho, sendo
que se a Inspecção-Geral do Trabalho apurar que não existem causas para a suspensão do
contrato, a medida é desaplicada (em consonância com o disposto no n.º 4 do artigo 123 da Lei
do Trabalho).

Merece atenção, no que concerne a redução do pessoal no seio das instalações das entidades
empregadoras, o tratamento especial que o Decreto n.º 12/2020 atribui aos órgãos de
comunicação social, estabelecendo que os respectivos gestores devem adoptar medidas para
diminuição do efectivo laboral presencial durante a vigência do Estado de Emergência,
salvaguardando sempre a prestação dos serviços essenciais. Este último aspecto –
salvaguarda da prestação dos serviços essenciais – deve ser combinado com o disposto no
artigo 7 da Declaração que determina a manutenção de serviços essenciais durante a vigência
do Estado de Emergência, apesar de este artigo não mencionar, nas suas alíneas, os Órgãos de
Comunicação Social.

Dito de outro modo: ainda que os Órgãos de Comunicação Social não venham mencionados
no artigo que obriga a manutenção de serviços essenciais (artigo 7 da Declaração), da correcta
interpretação que se faz do estabelecido na parte nal do n.º 2 do artigo 28 do Decreto n.º
12/2020, que aprova as medidas de execução administrativa, conclui-se que os Órgãos de
Comunicação Social são também de nidos como serviços essenciais e a sua prestação deve
continuar a ser realizada, ainda que, ao abrigo do artigo 18 do referido decreto, lhes permitido
reduzir o volume de serviços prestados – este artigo preceitua que as instituições públicas e
privadas que prestam serviço público, poderão reduzir o volume de serviços prestados –
sendo exemplo paradigmático do que se disse atrás a decisão do Grupo Soico que suspendeu
a impressão e circulação do Jornal “O País” em formato físico, entretanto, privilegiando a
continuação da publicação do jornal em formato electrónico/digital.

3. As medidas decretadas e a sua execução devem respeitar o princípio da


proporcionalidade e limitar-se à sua extensão, duração, meios utilizados e ao
estritamente necessário ao pronto restabelecimento da normalidade.

Já me tinha referido a este aspecto em várias explicações aos artigos anteriores, sobretudo, nas

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“notas propedêuticas” ao artigo 3 (no inicio das explicações a este artigo – “limitações de
direitos, liberdades e garantias).

Em regra, os direitos previstos na CRM são tidos como direitos fundamentais e pertencem à
categoria de direitos que se enquadram no núcleo essencial da vida dos cidadãos.

Ao abrigo do artigo 56 CRM, cuja epígrafe cimenta: “princípios gerais dos direitos, liberdades e
garantias individuais”, «Os direitos e liberdades individuais são directamente aplicáveis, vinculam
as entidades públicas e privadas, são garantidos pelo Estado e devem ser exercidos no quadro da
Constituição e das leis» (n.º 1); «O exercício dos direitos e liberdades pode ser limitado em razão da
salvaguarda de outros direitos ou interesses protegidos pela Constituição» (n.º 2); «A lei só pode
limitar os direitos, liberdades e garantias nos casos expressamente previstos na Constituição» (n.º
3); «As restrições legais dos direitos e das liberdades devem revestir carácter geral e abstracto e não
podem ter efeito retroactivo» (n.º 4).

O artigo 72 da CRM, cuja epígrafe consigna “suspensão de exercício de direitos” estabelece que
as liberdades e garantias individuais só podem ser suspensas ou limitadas temporariamente em
virtude de declaração do estado de guerra, do estado de sítio ou do estado de emergência nos
termos estabelecidos na Constituição. Ou seja, só se veri cando esses cenários é que tais direitos
podem ser restringidos, de forma temporária, e essa restrição obedece critérios delimitados no
próprio texto constitucional.

A CRM, no seu artigo 294, elenca os direitos que não podem ser tocados – os direitos
inatingíveis – mesmo no caso de declaração de Estado de Emergência, sendo eles os direitos à
vida, à integridade pessoal, à capacidade civil e à cidadania, a não retroactividade da lei penal,
o direito de defesa dos arguidos e a liberdade de religião. É importante frisar, porque pode
causar dúvidas, que o direito a liberdade de religião (direito inantigível nos termos do artigo
294) não foi restringido (o que se restringiu foi a realização de cultos em locais de risco de
propagação da pandemia do covid-19). Em virtude da calamidade pública que se pretende
conter e prevenir obrigar ao distanciamento entre as pessoas e a realização de eventos que
concentrem um número considerável de pessoas, determinou-se a suspensão da realização
de cultos em lugares normais de culto, todavia, esse direito a liberdade de religião pode
continuar a ser exercido a partir de casa (ou através de emissões televisivas ou com recurso a
meios digitais ou on-line ou ainda presencialmente, desde que se reúna um numero reduzido
de pessoas que esteja dentro dos parâmetros instituídos para a prevenção do risco de
contágio, em harmonia com o que dispõe o Decreto n.º 12/2020, relativamente às regras de
higiene, de protecção pessoal, de distanciamento interpessoal, de condições de arejamento,
etc.).

Paralelamente, a mesma CRM elenca aquele núcleo de direitos que pode sofrer,
temporariamente, limitação no respectivo exercício pelos cidadãos: obrigação de
permanência em local determinado (restrição a liberdade de circulação); detenção; detenção
em edifício não destinado a acusados ou condenados por crimes comuns; restrições relativas à
inviolabilidade da correspondência, ao sigilo das comunicações, à prestação de informações e
à liberdade de imprensa, radiodifusão e televisão; busca e apreensão em domicílio; suspensão
de liberdade de reunião e manifestação; requisição de bens e serviços (artigo 295 CRM), en m,
uma série de desvios a comandos constitucionais que se enquadram dentro do núcleo
essencial dos direitos dos cidadãos, cujos referidos desvios só são permitidos se eles se
mostrarem necessários e imprescindíveis para se ultrapassar a situação anormal provocada

Texto de Apoio e Compreensão das Medidas de Estado de Emergência


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pela calamidade pública do covid-19.

A CRM lembra que a suspensão ou limitação de liberdades ou de garantias, têm um carácter


geral (aplicando-se a um número indeterminado ou indeterminável de pessoas e não dirigido
a um grupo especí co), e abstracto (aplicando-se a um número indeterminado ou
indeterminável de situações, não dando privilégio a determinadas situações dentro do
mesmo objecto que pretende regular), devem ser de carácter temporário, estipulando-se o
período em que essa limitação durará (no nosso caso, o Estado de Emergência não pode
ultrapassar os 30 dias, ainda que podendo ser prorrogado por igual período de tempo, num
numero de três vezes se a situação que provocou a declaração do Estado de Emergência se
mantiver), e é obrigatória a menção dos preceitos constitucionais que justi cam a medida (é o
caso do previsto no artigo 290 e 291 que fazem referencia à calamidade pública).

A limitação de direitos implicará desvios no regime legalmente instituído para a efectivação de


detenções, sendo permitida a detenção em local diferente daqueles em que deviam ocorrer
(esquadras policiais), podendo as mesmas detenções ser efectuadas em edifícios ou locais
estranhos à realidade habitual (por ex: quartel militar), ordenadas por autoridades também
diferentes daquelas que, em regra, tem o poder de as realizar (ex: Forças de Defesa e
Segurança). Se, no regime normal, os detidos devem apresentados às autoridades judiciárias
num prazo de 48 horas, durante o Estado de Emergência esse prazo é elevado para o prazo
máximo de 10 dias (sendo que, deve ser noti cado imediatamente um parente ou pessoa de
con ança do detido por este indicado, a quem se dá conhecimento do enquadramento legal,
no prazo de cinco dias; o nome do detido e o enquadramento legal da detenção são tornados
públicos, no prazo de cinco dias), continuando a valer a formalidade descrita no n.º 4 do artigo
64 da CRM que obriga que a decisão judicial que ordene ou mantenha uma medida de
privação da liberdade deve ser logo comunicada a parente ou pessoa da con ança do detido,
por estes indicados.

Nas notas propedêuticas efectuadas nas explicações ao artigo 3 do DP, referimo-nos aos
princípios da proporcionalidade, excepcionalidade e necessidade, que são aqueles que
devem constituir freio e travões das medidas decretadas, no sentido de só se limitarem ou
suspenderem o exercício de direitos que se mostrem estritamente necessários a estancar o
mal provocado pela calamidade pública, sendo que medidas devem respeitar o princípio da
proporcionalidade, não se permitindo, na limitação e suspensão de direitos, o manuseamento
de meios que sejam excessivos ou desnecessários. Admitem-se apenas aqueles que se
a gurem bastantes. Entretanto, estas explicações estão melhor a oradas no artigo acima
referenciado. As medidas restritivas devem adequar-se ao m que se pretende com tal
restrição – no sentido de se pretender salvaguardar, com a restrição, outros direitos
“superiores” –, sendo que não haja outras medidas menos onerosas que permitissem atingir o
mesmo m, salvaguardando-se que os meios utilizados devem ser proporcionais ao m que se
pretende atingir.

4. A execução das medidas decretadas, durante o Estado de Emergência, serão


assegurada pelas Forças de Defesa e Segurança, em caso de necessidade.

Este artigo, complementado pelos artigos 31 e 32 do Decreto n.º 12/2020, que aprova as
medidas de execução administrativa, merece análise destacada no Anexo I ao presente Texto
de Apoio – “A actuacao das Forcas de Defesa e Segurança durante a vigência do Estado de
Emergência” – e que dele faz parte integrante.

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Artigo 4
(Implementação)
1. Os órgãos competentes do Estado devem, de modo articulado, zelar pelo
cumprimento e materialização do disposto do Decreto Presidencial.

Norma que se orienta no sentido de exortar a adopção dos deveres de colaboração/


cooperação, e espirito de entreajuda, associados aos princípios de coordenação, articulação,
subsidiariedade, complementaridade, e outros do género, entre os demais órgãos do Estado
aos quais foram atribuídas competências de implementar as medidas constantes da
Declaração.

A norma é comunicável tanto para aqueles relativamente aos quais a Declaração constante do
DP e o Decreto n.º 12/2020 atribuem. Expressamente, competências (Conselho de Ministros,
titulares do TA, TS, e PGR; Forças de Defesa e Segurança, ministros que superintendem as áreas
da saúde, transportes, trabalho, indústria e comércio; INAE, entre outros) bem como aqueles
que, ainda que não tenham sido mencionados naqueles dois diplomas legais, pelas suas
atribuições e competências, são indispensáveis no cumprimento e materialização das
medidas decretadas.

2. Os órgãos acima referidos podem recorrer a colaboração especializada de


entidades públicas que julgarem necessárias, em função da natureza das tarefas a
executar para implementação do presente Decreto Presidencial.

Para o bom e satisfatório desempenho daqueles órgãos que constam na explicação da norma
anterior, no âmbito do cumprimento das medidas decretadas na Declaração, haverá matérias
que não são do seu especial domínio, sendo, por isso, necessário o auxílio e intervenção de
outras entidades públicas que, pelas suas atribuições e competências especí cas, podem
aperfeiçoar as medidas que se mostrarem necessárias efectuar.

Artigo 5
(Sanção)
O desrespeito as medidas impostas pelo presente diploma legal será considerado crime de
desobediência e punido com as penas correspondentes.

A norma não indica qual é a pena prevista para a sanção, remetendo-se o seu regime para o
Código Penal.

Nos termos do artigo 412 do Código Penal, comete o crime de desobediência «Aquele que se
recusar a prestar ou deixar de prestar qualquer serviço de interesse público, para que tiver sido
competentemente nomeado ou intimado, ou que faltar à obediência devida às ordens ou
mandados legítimos da autoridade pública ou agentes dela, será punido com pena de prisão até
três meses».

No crime de desobediência o que se incrimina é a desobediência (em sim mesma),


independentemente das consequências. Protege-se, nesta tipologia de crimes, tal como nos
demais crimes contra a autoridade pública, a autonomia funcional do Estado.

Chama-se atenção que, apesar de o desrespeito pelas medidas impostas na Declaração ser
quali cada de desobediência, nada impede a aplicação de outras penas com base no
desrespeito das referidas normas, se esse desrespeito ofender outros bens jurídicos

Texto de Apoio e Compreensão das Medidas de Estado de Emergência


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protegidos pelo Direito Criminal e tais condutas sejam quali cadas como crimes à luz do
Código Penal.

Exemplo paradigmático do que se disse acima é o crime de especulação, previsto no n.º 1 do


artigo 468 do Código Penal e punido nos termos do n.º 3 do mesmo artigo.

Com efeito, «comete o crime de especulação aquele que na venda de produtos ou serviços estipule
ou exija por qualquer forma preços superiores aos xados pelas entidades competentes», sendo
que, ao abrigo do n.º 3 do mesmo artigo, «o crime de especulação é punido com pena de prisão
até dois anos e multa correspondente ao quíntuplo do lucro ilícito realizado, acrescido do
quíntuplo do valor dos produtos ou mercadorias apreendidos».

Signi ca isto dizer que todo aquele que se encontrar nestas situações comete dois crimes
(desobediência e especulação), o que, em Direito Penal, enquadra-se na gura da acumulação
de infracções/crimes estabelecida no n.º 1 do artigo 41, acarretando que a moldura penal
aplicável seja abalizada nos termos da alínea a) do n.º 1 do artigo 127, todos do Código Penal.

À este respeito, diz a Lei: «há acumulação de crimes, quando o agente comete mais de um crime
na mesma ocasião, ou quando, tendo perpetrado um, comete outro antes de ter sido condenado
pelo anterior, por sentença transitada em julgado». (n.º 1, do artigo 41 do Código Penal) e, em
consequência, «quando os crimes sejam puníveis com penas diferentes será aplicada a pena mais
grave, agravada segundo as regras gerais, em atenção à acumulação de crimes e, o mesmo se
observará quando uma das penas for a da alínea a) do artigo 61» (alínea b) do artigo 127 do
Código Penal).

Artigo 6
(Colaboração)
Todas as pessoas e entidades públicas e privadas cam obrigadas a colaborar com as autoridades
na execução da presente declaração do Estado de Emergência.

A colaboração entre todas as forças vivas da sociedade desempenhara um papel fulcral no


combate ao desa o que foi imposto à Moçambique pela calamidade pública da pandemia do
covid-19.

Todos, isolada e colectivamente, são necessários no enfrentamento desta calamidade. Desde


os cuidados preventivos que cada um toma (cumprimento de regras de higiene e protecção
pessoal), passando pelo cumprimento das normas que aprovam as medidas (quarentena,
distanciamento, não se elevar injusti cadamente os preços de produtos essenciais,
cumprimento de regras de transporte colectivo de passageiros, etc.) e desembocando na
disponibilidade solidária (requisição civil dos médicos e pro ssionais da saúde que não fazem
parte do Sistema Nacional de Saúde), torna-se necessário que a população moçambicana
(onde se incluem os estrangeiros aqui residentes, lembrando-se a diferenciação entre “povo
moçambicano” – conjunto de pessoas ligadas entre si pelo vínculo de nacionalidade
moçambicana – e “população moçambicana” – todos aqueles, incluindo os de outras
nacionalidades, que residem em território moçambicano), entidades públicas e privadas, se
unam, cooperem e colaborem entre si visando prevenir e conter os malefícios dos efeitos da
propagação do covid-19.

Texto de Apoio e Compreensão das Medidas de Estado de Emergência


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Artigo 7
(Serviços essenciais)

Durante a vigência do estado de emergência deverão ser mantidos os serviços e actividades


públicas e privadas essências, destacando-se:
a) serviços médicos, hospitalares e medicamentos;
b) abastecimento de águas, energia e combustíveis;
c) venda de bens alimentícios e de primeira necessidade;
d) carga e descarga de animais e géneros alimentares deterioráveis;
e) correios e telecomunicações;
f) controle do espaço aéreo e meteorológico;
g) serviços de salubridade;
h) bombeiros;
i) segurança privada;
j) serviços funerários.

Antes de mais, é necessário que se perceba que esta enumeração não é taxativa. A norma diz
“destacando-se” o que sugere que, além desses serviços, há outros que também são essenciais
e cuja manutenção de actividades se justi cam durante o período de vigência do Estado de
Emergência.

É o caso, por exemplo, dos Órgãos de Comunicação Social. Estes não vem elencados nas
alíneas desta norma, todavia, o n.º 2 do artigo 28 do Decreto n.º 12/2020, refere expressamente
que devem salvaguardar sempre a prestação dos serviços essenciais. Dito de outro modo:
ainda que os Órgãos de Comunicação Social não venham mencionados no artigo que obriga a
manutenção de serviços essenciais (artigo 7 da Declaração), da correcta interpretação que se
faz do referido na parte nal do que aprova as medidas de execução administrativa, conclui-se
que a prestação dos Órgãos de Comunicação Social é também de nida como enquadrante de
serviços essenciais e ela deve continuar a ser realizada, ainda que, ao abrigo do artigo 18 do
Decreto n.º 12/2020, lhes é permitido reduzir o volume de serviços prestados.

A par dos órgãos de comunicação social, podemos, com certeza inequívoca, acrescentar neste
grupo as “indústrias essenciais”, de nidas no n.º 8 do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020,
ressalvadas as alterações que lhe foram introduzidas pelo Decreto n.º 14/2020 (aquelas que se
destinam a produção de bens alimentares e bebidas, indústria de produtos de higiene e
limpeza, indústria química, produtos essenciais ao serviço de saúde e indústrias críticas para o
funcionamento da economia).

Esta norma traduz-se, também, na consequência do referido na alínea d) do n.º 1 do artigo 3 da


Declaração, que determina o encerramento de vários estabelecimentos e interdição de várias
actividades, contudo, excepciona aquelas que, por motivos inadiáveis de Estado (no sentido
lato) e sociais, devem ser mantidas.

Sublinha-se que o funcionamento destes serviços essenciais está ainda condicionado ao


cumprimento das medidas de observâncias das medidas de prevenção e controlo do covid-19,
elencadas no artigo 17 do Decreto n.º 12/2020, ressalvadas as alterações que lhe foram
introduzidas pelo Decreto n.º 14/2020, e de que delas nos debruçamos acima, nas explicações
efectuadas neste Texto de Apoio à alínea e) do n.º 1 e alínea l) do n.º 2, ambos do artigo 3 da
Declaração (vide acima) e ainda, no que se refere aos mercados, o cumprimento das regras do
horário de funcionamento (das 6h as 17h) e medidas preventivas (regras de higiene, regras de

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distanciamento interpessoal) estabelecidas no artigo 20 do Decreto n.º 12/2020.

ANEXO I

A actuação das Forças de Defesa e Segurança durante a vigência do Estado de


Emergência

O n.º 4 do artigo 3 do Decreto-Presidencial n.º 11/2020 atribui competências excepcionais às


Forças de Defesa e Segurança (FDS) destinadas a scalização das normas incorporadas na
predita Lei, preceituando que «a execução das medidas decretadas, durante o Estado de
Emergência, serão assegurada pelas Forças de Defesa e Segurança, em caso de necessidade»,
norma que é secundada pelo Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de execução
administrativa para a prevenção e contenção da propagação da pandemia covid-19, a vigorar
durante o Estado de Emergência, complementando que as FDS podem ser chamadas para
garantir o cumprimento das medidas de prevenção e controlo do covid-19.

O artigo 32 do citado Decreto, com epígrafe “dever de cooperação” preceitua que «os cidadãos
e as entidades públicas e privadas têm o dever de colaboração, nomeadamente no cumprimento
de ordens ou instruções dos órgãos e agentes responsáveis pela segurança, (…) na pronta
satisfação de solicitações, que justi cadamente lhes sejam feitas pelas entidades competentes
para a concretização das medidas previstas no presente Decreto».

Sendo certo que, em conformidade com o estabelecido no preâmbulo do referido Decreto-


Presidencial (sic): «tendo presente a alta de taxa de morbi-mortalidade e o impacto social e
económico negativo que mesma provoca, mostra-se necessária a implementação urgente de
medidas de contenção da propagação da doença, com vista a salvaguardar a vida e saúde
pública» ( m de citação), houve necessidade de se determinar medidas limitativas de direitos e
garantias individuais, constitucionalmente consagrados, e que o cumprimento de tais
medidas assume uma dimensão fulcral visando evitar as maleitas atrás reproduzidas, e, por
isso, o Estado viu-se, justi cadamente, obrigado a manusear meios repressivos de carácter
“anormal”, também é certo que a actuação dos retro mencionados meios devem ajustar-se
adequada e perfeitamente dentro das fronteiras limítrofes estabelecidas no decreto-
presidencial aqui sindicado.

Em condições normais, as tarefas de executar as medidas decretadas, excepcionalmente


atribuídas às FDS durante a vigência do Estado de emergência, são exercidas pela PRM,
designadamente, o Ramo da Polícia de Ordem e Segurança Pública (aqui, vale a pena recordar
que a PRM contém ainda o Ramo da Polícia de Fronteiras e o Ramo da Polícia Costeira, Lacustre
e Fluvial), em conformidade com as competências da PRM delineadas no artigo 14 da Lei n.º
16/2013 – Lei da PRM – e no artigo 10 do Estatuto Orgânico da PRM aprovado pelo Decreto n.º
58/2019.

Se confrontarmos as competências da PRM descritas nos compêndios legais referidos no


parágrafo precedente com os princípios que regem a actuação as FDS, constantes da Lei n.º
18/2019 – Lei de revisão da Lei n.º 18/97, que aprova a Lei da Defesa Nacional e das Forças
Armadas de Defesa de Moçambique (LDNFADM), capta-se, essencialmente, que, por um lado,
à PRM, cabem tarefas de prevenção e repressão à ordem e tranquilidade públicas, ou seja,
tipicamente ligadas à segurança interna, e, por outro, às FDS, cabem, tarefas de âmbito militar,
umbilicalmente vinculadas à salvaguarda da soberania, com a responsabilidade de assegurar a
defesa militar da República de Moçambique contra qualquer ameaça ou agressão externas (n.º 1

Texto de Apoio e Compreensão das Medidas de Estado de Emergência


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do artigo 15 e n.º 1 do artigo 16, ambos da LDNFADM).

Sendo indiscutível que as FDS durante o Estado de Emergência, não actuam ao abrigo das suas
atribuições originárias, mas sim recepcionam por empréstimo as atribuições da PRM, é pací co
e lógico a rmar, com certeza indubitável, que, durante aquele período, os limites de actuação
das FDS, são os limites normais de actuação da PRM.

O que se disse acima, encontra respaldo no disposto no n.º 2 do artigo 25 da LDNFADM cuja
epígrafe é: “Emprego das Forças Armadas de Defesa de Moçambique no Estado de Sítio ou Estado
de Emergência”, que preceitua que «as Forças Armadas de Defesa de Moçambique podem ser
utilizadas na segurança interna nos casos em que os meios da polícia não podem fazer face à
situação prevalecente».

Assim, conforme vínhamos defendendo, durante o período de vigência do Estado de


Emergência, a amplitude, extensão e limites das competências das FDS (nos termos que lhes
foram atribuídos pelo n.º 4 do artigo 3 do Decreto-Presidencial n.º 11/2020, que declara o
Estado de Emergência, e pelo artigo 32 do Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de
execução administrativa), devem coincidir com os da PRM, previstos nos já citados artigo 14 da
Lei da PRM e artigo 10 do Estatuto Orgânico da PRM.

Essencialmente, essa actuação – completamente deslocada daquela que se exigiria, por


exemplo, num cenário de guerra (que ocasionaria um estado de sítio) – orienta-se de modo a
garantir a ordem, segurança e tranquilidade públicas; protecção de pessoas e bens; prevenção
de prática de crimes, contravenções e outros actos contrários à lei; observância e cumprimento
de obrigações legais que regem a realização de reuniões, manifestações e espectáculos
públicos; entre outras, típicas do ramo de segurança interna, repete-se, completamente
distanciada dos princípios que regem a actuação militar(izada).

E porque assim é, as FDS, durante o período do Estado de Emergência, estão, acima de tudo,
adstritos ao cumprimento dos princípios fundamentais do funcionamento e actuação da PRM,
destacando-se, no que releva para a presente abordagem, «o respeito pelos direitos humanos»
(n.º 3 do artigo 2 da Lei da PRM) bem como, «no uso dos meios coercivos para a garantia da
ordem, segurança e tranquilidade públicas, a PRM [o que equivale dizer FDS durante o Estado de
Emergência] observa os limites da necessidade, razoabilidade, proporcionalidade e
adequabilidade» (n.º 4 do artigo 2 da Lei da PRM).

Torna-se, por isso, indispensável que as FDS sejam doutrinadas sobre a imprescindível
necessidade de se pautarem por uma postura didáctico-pedagógica, instruindo o povo na
assunção de um compromisso de amplitude nacional na luta contra o surto pandémico do
covid-19, fazendo a população car consciente, através de métodos educativos, sobre a
anormalidade do actual quadro panorâmico que, por sua vez, justi ca a adopção de novos e
atípicos comportamentos.

Não se deve perder de vista que um exponencial segmento da população moçambicana – que
nunca esteve mergulhada num Estado de Emergência – carece de conhecimento exacto e
preciso sobre esta gura, não sendo, por isso, causador de estranheza que nos primeiros
tempos de vida do Estado de Emergência, haja uma semi-desculpável relutância no acatamento
das medidas decretadas pelo Presidente da República.

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A propósito da necessidade de se privilegiarem, em primeira linha, actuações didáctico-


pedagógicas por parte das FDS (que, temporariamente, actua sob as vestes da PRM),
lembra-se, que nos termos do artigo 33 da Lei da PRM, deve-se dar primazia à utilização de
meios persuasivos e só em última e recôndita instância é que é admitido o manuseio de
meios coercivos.

Com efeito, estabelece a alínea b) do n.º 2 do artigo 33 da retro mencionada Lei que «é
permitido o uso de meios coercivos para vencer a resistência à execução de um serviço no exercício
das suas funções, depois de procedido à intimação formal de obediência e esgotados outros meios
para o conseguir».

E chama-se a atenção que, inclusive, os meios coercivos devem conformar-se com os


princípios da necessidade, proporcionalidade e razoabilidade (n.º 3 do artigo 33 do mesmo
compêndio legal).

Há motivos mais do que justi cados – até porque o passado é farto de exemplos disso – que
um eventual excesso de zelo das FDS pode dar azo à criação de uma atmosfera de revolta no
seio da população, que, por sua vez, pode originar rebeliões refractárias, manifestadas na
resistência da população em acatar as suas ordens, cujos resultados são – conforme a memória
do passado nos recorda – susceptíveis de redundar num caos social tingido de sangue.

Logicamente, o que se disse aqui não equivale dizer que se deve apadrinhar actos de desacato
ilícito, desobediência ilegal e resistência ilegítima por parte da população. Nem de perto nem
de longe. Todavia, reconhecendo-se a incomparável superioridade das FDS relativamente à
população – em razão do material bélico com o qual aqueles se fazem transportar –, aliado à
peculiaridade da situação gerada e especialidade das condições socio-económico-culturais
de Moçambique, é aconselhável que sejam convocados, por parte das FDS (que devem actuar
como actuaria a PRM e não inspirada em postulados militares) os “princípios costumeiros” da
parcimónia, do bom-senso, da equidade e da tolerância, combinando-os aos “princípios
legais” da proporcionalidade, razoabilidade, necessidade e adequabilidade.

Sendo que o Estado de Emergência, justi cadíssimo por unanimidade, destina-se a prevenir e
conter a propagação do covid-19 e seus efeitos infecciosos altamente mortíferos, a forma de
executar as medidas conducentes ao alcance desse desígnio não podem, elas próprias,
resultar noutro tipo de males “para que o remédio [no qual se traduz o reforço de efectivo à
PRM pelas FDS] não seja pior de sofrer do que o mal [prevenção da calamidade pública do
covid-19] que se destina a curar”.

ANEXO II

Teletrabalho: o futuro das prestações laborais ocasionado pela “visita” do cobid-19 à


Moçambique

A alínea l) do n.º 2 do artigo 3 do Decreto-Presidencial n.º 11/2020, que declara o Estado de


Emergência, determina a introdução de rotatividade laboral ou outras modalidades em função
das especi cidades da área de trabalho, assegurando contudo mecanismos de controlo da
efectividade.

Texto de Apoio e Compreensão das Medidas de Estado de Emergência


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aos trabalhadores dos órgãos de comunicação social), e ainda n.º 2 do artigo 28, todos do
Decreto n.º 12/2020, tendo em atenção as alterações que foram introduzidas ao referido artigo
17 do Decreto n.º 12/2020, pelo Decreto 14/2020.

Como forma de prevenir e conter a propagação do covid-19, o Decreto n.º 12/2020, que aprova
as medidas de execução administrativa determina que o efectivo laboral presencial é reduzido
para uma quantidade não superior a 1/3, com rotatividade das equipas de serviço de 15 em 15
dias. Cremos que é fácil perceber-se o que se pretende com esta redução.

O número limite dos trabalhadores que se devem fazer presentes, em simultâneo, no local de
trabalho não pode exceder a 1/3 do número máximo dos “recursos humanos” da empresa (com
excepção das “indústrias de bens essenciais” – de nidas no n.º 8 do artigo 17 do n.º Decreto
12/2020, ressalvadas as alterações que lhe foram introduzidas pelo Decreto n.º 14/2020),
podem laborar com um efectivo superior àquele número, mediante autorização especial do
Ministro que superintende a área da Indústria e Comércio, após pedido fundamentado (n.º 7
do artigo 12/2020, em atenção a alteração que lhe foi provocada pelo Decreto n.º 14/2020).

Paralelamente, cada grupo que integrará o número limite xado pelo Decreto n.º 12/2020
deverá prestar a sua actividade laboral em sistema rotativo de 15 em 15 dias.

O Decreto n.º 12/2020 refere ainda que as entidades empregadoras, em função das
especi cidades da prestação laboral de alguns trabalhadores, poderão introduzir outras
modalidades de trabalho (ou outras formas de prestar o trabalho), como, por exemplo, o
teletrabalho (ainda que não tenha feito menção expressa desta gura, mas é ela – o
teletrabalho – que o n.º 4 do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020 evoca, quando refere que devem
ser adoptados mecanismos que assegurem a continuação do trabalho em casa, havendo
condições.

Em cumprimento das medidas de contenção e prevenção da propagação do covid-19, aquelas


relações jurídico-laborais que normalmente se caracterizam pela obrigação do trabalhador
em se fazer diariamente presente no seu posto de trabalho, em escrupuloso cumprimento dos
seus deveres de pontualidade e assiduidade (alínea a) do artigo 58 da Lei n.º 23/2007 – Lei do
Trabalho, doravante, tratada somente por “LT”), terão de sofrer desvios no que concerne à
[forma da] respectiva execução.

Assim, as entidades empregadoras, como forma de assegurarem a continuidade da actividade


laboral, conjugado com a necessidade de observarem as medidas de prevenção e contenção
da propagação do covid-19, aliados à recomendação efectuada pelo n.º 4 do artigo 17 do
Decreto 12/2020, na parte em que refere que devem ser adoptados mecanismos que assegurem
a continuação do trabalho em casa, havendo condições, deverão lançar mãos a um mecanismo
de execução do contrato de trabalho, impulsionado pelas Tecnologias de Informação e
Comunicação (TIC's) denominado “teletrabalho”, cuja prestação pode ser realizada no
domicílio do trabalhador (permitindo-se que este trabalhe em prol dos objectivos da empresa
e da nalidade do contrato de trabalho sem necessidade de sair de casa).

Chama-se atenção para o facto de, apesar do teletrabalho ser essencialmente realizado no
domicílio do trabalhador, ele não se confunde com a gura do “trabalho no domicílio” (previsto
na alínea b) do n.º 1 do artigo 3 da LT – ainda “órfão” de regulamentação – sendo que, por sua
vez, o “trabalho no domicílio”, também não se confunde com “trabalho doméstico”, previsto na

Texto de Apoio e Compreensão das Medidas de Estado de Emergência


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a) do n.º 1 do mesmo artigo e regulado pelo Decreto n.º 40/2008).

O recurso ao teletrabalho é uma das soluções que se a guram inevitáveis, não havendo “volta a
dar”, sobretudo, no que tange àquelas tarefas cuja execução caracteriza-se pelo labor
intelectual e/ou cientí co por parte do trabalhador, não requerendo, em virtude desse
aspecto, que este tenha de, impreterivelmente, se fazer presente no habitual local de trabalho.

Ao abrigo do n.º 6 do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020, que aprova as medidas de execução
administrativa no âmbito do Estado de Emergência, não estão abrangidos no sistema de
rotatividade que deverá ser efectuado de 15 em 15 dias aqueles que, nas respectivas instituições,
ocupam cargos de direcção, che a e con ança, os quais mantêm o pleno exercício das suas
funções.

Não se pode perder de vista, e nem se ignorar, que, a imposição estabelecida nos termos do n.º
6 do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020, relaciona-se com o estabelecido na alínea a) do n.º 5 do
artigo 87 da Lei do Trabalho, nos termos do qual, podem ser isentos do horário do trabalho os
trabalhadores que exerçam cargos de che a, direcção e con ança.

No que toca a gura do teletrabalho, é muito frequente que aqueles que exercem cargos de
direcção, che a e con ança, e ainda scalização, manuseiem, também, actividades de índole
cientí ca/intelectual, o que torna a respectiva presença no local de trabalho dispensável, se as
condições para desempenharem as suas funções estiverem apetrechadas nos seus domicílios
e, em face das circunstâncias que devem ser analisadas caso a caso, essa dispensabilidade não
afectar a produtividade do trabalho.

O teletrabalho, também conhecido como “trabalho à distância” ou “home office” (escritório em


casa) ou “home working” (trabalho em casa) ou ainda “trabalho remoto ou portátil”, é
comummente de nido na Doutrina seguida entre nós como sendo aquele que é realizado em
ambiente diverso das instalações do empregador – onde em condições normais, teria de ser
executado – com recurso a equipamentos, técnicas, tecnologias e meios que permitem que a
nalidade da prestação laboral seja cumprida, tal e qual seria se o trabalhador estivesse nas
instalações da entidade empregadora.

Muitas empresas já adoptam esta forma de se realizar a prestação do contrato de trabalho,


apontando-se-lhe várias vantagens, tais sejam a exibilidade (de horário e de local da
prestação), a comodidade (ambiente familiar), a economicidade nanceira (redução de
gastos), economicidade temporal (“fuga” ao uxo do tráfego e congestionamento do trânsito
estradal), etc.

Portanto, não se trata de um fenómeno novo. Muito pelo contrário! Com o crescimento
exponencial das TIC's, o teletrabalho é, cada vez mais, um mecanismo preferencial
actualmente manuseado na execução de tarefas que, pelas suas feições, não implicam a
presença do trabalhador nas instalações da empresa nem tão pouco o cumprimento do dever
de assiduidade (que normalmente transporta consigo, como se de atrelado se tratasse, o dever
de pontualidade).

Tarefas de índole intelecto-cientí co como produção de relatórios podem ser efectuadas fora
das instalações da empresa, bastando somente que o trabalhador envie, por e-mail o produto
do seu trabalho. Para tanto, torna-se imperioso estabelecimento de canais entre a corporação

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e o trabalhador, que possibilitem a emigração da informação através de mecanismos digitais


(softwares), electrónicos (laptops), comunicacionais (fax, telemóvel, Skype).

A nossa Lei do Trabalho não de ne a gura do teletrabalho e, logo, não prevê o seu regime,
todavia, podemos nos socorrer da de nição que nós é aprovisionada pela Organização
Internacional do Trabalho (OIT), aplicável ao Direito moçambicano por intermédio do disposto
nas disposições conjugadas entre o n.º 1 do artigo 18 da Constituição da República (CRM) e n.º
1 do artigo 13 da LT, relativamente a validade dos tratados e acordos internacionais rati cados
por Moçambique, nos termos da qual «o teletrabalho é a forma de trabalho realizada em lugar
distante do escritório e/ou centro de produção, que permita a separação física e que implique o uso
de uma nova tecnologia facilitadora da comunicação».

Essencialmente, esta de nição que nos é aprovisionado pela OIT vai ao encontro do que já
havíamos referido supra, quando salientamos que as TIC's (re ectidas no manuseamento de
laptops, internet, Skype, vídeos-conferências, etc.) desempenham um papel vital na facilitação
e permissão do desempenho pro ssional do trabalhador, sem que este tenha de exibir a sua
face no escritório da entidade empregadora – aqueles que, pela natureza das suas funções
podem exercê-las sem necessidade de presença física nas instalações da empresa.

Bem vistas as coisas, o teletrabalho é facilmente adaptável àqueles trabalhadores de nidos na


alínea b) do n.º 5 do artigo 87 da LT que preceitua que “estão isentos do horário de trabalho os
trabalhadores que exerçam tarefas cuja natureza justi que a prestação de trabalho em tal regime”,
podendo ser convocados os mencionados na alínea a) do n.º 5 do mesmo artigo (“os que
exercem cargos de che a, direcção, con ança e scalização”, se as tarefas compreendidas no
desempenho desses cargos não requererem forçosamente a presença do respectivo titular no
escritório).

A nossa Lei do Trabalho prevê, no artigo 73, com epígrafe “alteração das condições de trabalho”,
que (sic): «as condições de trabalho podem ser modi cadas por acordo das partes com
fundamento na alteração das circunstâncias, caso isso (...) contribua para melhorar a situação da
empresa, através de uma mais adequada organização dos seus recursos (...)».

Por isso, advertimos, acima, que o teletrabalho será o recurso que os sujeitos da relação
jurídico-laboral lançarão mãos quando se estiver em causa a execução de determinados tipos
de tarefas.

Obviamente, nem todas as tarefas podem ser substituídas pelo teletrabalho, e consideramos
escusado trazer exemplos elucidativos desta acepção, dada a natureza óbvia da referida
acepção.

Para tanto, importará xar-se a disciplina jurídica a que estará sujeita essa forma de se trabalhar
– direitos e deveres de cada um dos intervenientes contratuais – por forma a estabelecer a
harmonia e homogeneidade da relação na qual esses sujeitos se vinculam contratualmente,
sublinhando-se que o n.º 5 do artigo 17 do Decreto n.º 12/2020, ao referir que compete a cada
entidade, pública ou privada, de nir modalidades do trabalho em casa, está a atribuir o poder de
a entidade empregadora decidir unilateralmente (sem acordo prévio com o trabalhador) a
xação do regime de teletrabalho.

Conforme dissemos supra, a nossa Lei não de ne e nem prevê o regime jurídico do teletraba-

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lho, entretanto, valem algumas manifestações observáveis em ordenamentos jurídicos


similares ao nosso, nos quais, o trabalhador nestas circunstâncias ca obrigado a cumprir um
horário de trabalho, em contacto frequente com as che as e mantém o direito à retribuição
por inteiro, cando a empresa responsável pelo pagamento normal do salário do trabalhador,
incluindo o subsídio de alimentação.

Tal factologia, partindo-se do princípio que o trabalho é feito à distância, obrigará a empresa a
desenvolver mecanismos de controlo da actividade (meios de vigilância electrónica – não
confundir com câmaras – como colocação de chips nos equipamentos – laptops – ou outros
dispositivos que permitem monitorar as horas que, efectivamente, o “teletrabalhador”
emprestará ao trabalho).

Certa e incontornável será a transmutação da gura do teletrabalho no centro gravitacional da


prestação da actividade laboral, ocasionada pelos riscos de contágio do covid-19, não se
tratando, o que se disse atrás, de uma mera necessidade, mas sim de uma irresistível
inevitabilidade.

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