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ADALBERTO VON CHAMISSO A MARAVILHOSA HISTORIA DE PEDRO SCHLEMIHL PREFACIO DA 1.* EDIGAO De Adalberto von Chamisso para Hitzig Tu que nao te esqueces de ninguém, deves ainda recordar um certo Pedro Schlemihl, que viste em tempos na minha casa, um individuo de pernas muito altas, considerado inepto para tudo e que, por causa de uma certa inércia, era considerado preguigoso. Eu esti- mava-o. Deves lembrar-te, Eduardo, de que, na época dos Livros Verdes, ele apareceu fugazmente entre os nossos sonetos; levei-o um dia a um dos nossos chés poéticos e ele fezme a desfeita de se deixar dormir, en- quanto nés escreviamos, antes até de ter comegado a leitura. Lembra-me até uma piada tua acerca dele. De facto, tu tinha-lo j4 visto n&o sei quando nem onde com uma casaca preta que ainda usava nesse dia e declaraste: «Esse fulano podia ser considerado feliz se a alma dele tivesse metade da imortalidade da_casaca que veste.» Tal era a consideracéo que tu e os outros tinheis por ele. Eu estimave-o. E 6 desse tal Schlemihl, que ha longos anos perdi de vista, © manuscrito que te confio. E a ti, s6 a ti, Eduardo, meu amigo intimo, meu outro eu, melhor do que eu, com quem ndo tenho se- gredo nenhum, 6 a ti e 86 a ti que o confio @, evidentemente, ao nosso caro Fouqué, cujas as raizes penetram no mais fundo do meu cora- 40 (se bem que, na parte que Ihe cabe, a minha confianga nele seja valida para 0 amigo e nao para o poeta). Ambos compreendereis que me seria muito desagradavel saber que esta confissao, colo- cada no meu regago por um homem honesto, confiado na minha amizade e na minha recti- dao, viesse a ser colocada no pelourinho duma quaiquer obra poética ou a ser objecto de menosprezo, como obra dum engragado qual- quer, que nao é nem pode ser. E claro que, no que diz respeito @ histéria em si, mui ingénua sob a pena do meu simpético amigo, 6 uma pena ndo poder ser reescrita de forma mais enérgica e mais cémica por uma mao diferente e mais hébil. Dela teria Jean-Paul tirado um partido imenso! Quanto ao mais, caro amigo, é possivel que aparecam nomeadas certas ‘pessoas ainda vivas; e isso merece consideracao. S6 mais uma palavra sobre 0 modo como os Papéis me vieram ter as maos. Foi ontem, de manha cedo, ao despertar, que mas entre- garam: um homem estranho, de barba ruca, com uma kurtka preta muito cocada, uma caixa de botanista a tiracolo e umas pantufas por cima das botas, apesar do tempo chuvoso, Perguntara por mim e tinha deixado aquela encomenda; afirmava vir de Berlim. Kunersdorf, 27 de Setembro de 1813. Adalberto von Chamisso De Fouqué para Hitzig Guardar, caro Eduardo, velar pela historia do pobre Schlemihl, de modo a oculté-la aos 26 olhares que a desdenhariam: tal 6 a delicada miso que nos fol confiada. Olhares desses so legido. Qual o mortal capaz de fixar os destinos dum manuscrito, coisa muito mais dificil do que reter a palavra que jé salu da boca? Farei como o homem que sente verti- gens e que escolhe precipitar-se imediata- mente no abismo: publicarei a narrativa na integra. Este meu modo de proceder, Eduardo, assen- ta em razées muito sérias. Grande erro seria © meu se cresse que nao hé na nossa Ale- manha coracées capazes e dignos de com- preender 0 pobre Schlemihl. No semblante de muitos dos nossos contemporaneos hade passar um sorriso de compaixéo perante o jogo cruel que a vida Ihe tramou, perante o jogo inocente que ele joga consigo mesmo. E tu, querido Eduardo, ao veres este livro tao profundamente leal, ao pensares que muitos desconhecidos, préximos dele pelo coragao, podem aprender a amé-lo como nés o amamos, hés-de sentir como que uma gota de bélsamo na ferida que a ti e a todos os que estimas a morte te vibrou hé pouco ("). Finalmente, existe (a minha experiéncia assim mo ensinou) existe um génio bom dos livros impressos, que nos leva até as maos que os néo merecem. Confere a cada obra que seja pura de espirito e de coragéo uma fechadura invisivel que se abre e se fecha com uma destreza infalivel. E a esse génio, querido Schlemihl, que eu confio o teu riso e as tuas ldgrimas, e que Deus te acompanhe. Nennhausen, fins de Maio de 1814. Fouqué (() Referéncia & morte recente da esposa de Hitzig. a PREFACIO A 2. EDICAO De Hitzig para Fouqué Vé bem as consequéncias do teu mergulho no abismo: a histéria de Schlemihl, que era nosso dever guardarmos em. segredo, man- daste-a tu imprimir. E n€o s6 os franceses © 08 ingleses, os holandeses © os espanhdis a traduziram, como até 0s préprios ameri- canos reeditaram a versao inglesa (del-te j4 essa noticia no Berlim Hustrado); mais do que isso, prepara-se na nossa Alemanha uma nova edicio com as gravuras da edicdo inglesa, feitas pelo célebre Cruikshank, o que vai dar ao livro muito mais fama. Se nao te consi- derasse ja devidamente punido da tua inicia- tiva arbitéria (uma vez que, em 1814, ndo isseste nada sobre a publicacio do ma- nuscrito) pelas queixas que Chamisso, na sua viagem @ volta do mundo, de 1815 ‘a 1818, de ti fez no Chile, na Kamtchatka e junto do seu defunto amigo Tameiamaia, na ilha de Oahu, eu ndo deixaria de te pedir publica- mente contas, Abstraindo de tudo isso, o que 1a vai 14 vai e tens as tuas razées, pois muitissimos ami- gos nossos gostaram do livro e apaixona- ram-se por ele no decurso dos fatais treze anos que se passaram desde que o livro viu a luz, Nunca me esquecerei do dia em que © li a Hoffmann. Transbordando de prazer e impaciéncia, ficou até ao fim suspenso da minha leitura; ansiava por conhecer pessoal- mente 0 autor; ele, t40 adversdrio de toda e qualquer imitacdo, nao resistiu a tentagdo de fazer, nas suas Aventuras da Noite de Sao Sil- vestre, através do, reflexo perdido de Erasmo 28 Spikher, uma variante néo muito conseguida do tema da sombra perdida. (...) Penso que leitores antigos e novos ficaréo ‘surpreendidos quando descobrirem neste bo- tanista, explorador, antigo oficial do exército do rei da Prissia historiégrafo do célebre Pedro Schlemihl, um poeta Iirico que canta cangées malaias e lituanas, em tudo revelando um coracéo de poeta, um coracéo bem colo- cado. Por tudo isso, caro Fouqué, é meu desejo terminar com os mais cordiais agradecimentos pela primeira edicdo, desejando-te, assim como aos teus amigos, as maiores felicidades pela segunda. Berlim, Janeiro de 1827. Eduardo Hitzig PREFACIO A 3," EDICAO (') Muitos anos depois, a tua histéria chegou-me novamente as maos e foi com como¢ao que recordel o tempo em que fomos amigos, em que entrémos na vida, Sou jé um velho encanecido, nao hé falso pudor que mande em mim e 6 tempo de afirmar publicamente que sou e serei sempre teu amigo. (°) Tradugio livre. © original em versos de dez sflabas, dispostos em oftavas, com o esquema de rima ABABABCC, imitando «Os Lusiadas». 29 Nao passei, pobre amigo, pela desgraca de ser joguete do destino atroz ‘como tu foste. Persegui quimeras, lutei, sonhei, colhi alguma coisa. Mas ndo poderé 0 Maligno gloriar-se de ter arrebatado a minha sombra. A sombra que ao nascer me foi entregue jamais me foi tirada dos poderes. Ingénuo fui, como as criangas todas, conheci o desprezo como tu... Em muita coisa somos semelhantes! Seguiram-me, bradando: «A tua sombra?= Mas, quando eu a mostrava, nao a viam e as gargalhadas nunca mais paravam. Que fazer? Resignarmo-nos. Feliz de quem na alma nao tem da culpa o peso. Pergunto eu agora, depois de ter ouvido mil vezes tal pergunta: «Que importancia tem a sombra afinal pra toda a gente a por acima das maiores riquezas? Apés vinte mil dias que me deram outras tantas ligdes de sensatez, aprendi que o real se apaga com a sombra depois de esta se ter crido real. Apertemos a mao, meu pobre Schlemihl. Nada mudemos, sigamos sempre em frente sem ligarmos a quanto o mundo diz, buscando s6 0 estarmos bem connosco. Nao 6 verdade que 0 alvo se aproxima, apesar da galhofa e da censura? Nao esté ja a vista 0 porto aonde iremos apés a tempestade repousar? Berlim, Agosto de 1834 Chamisso Apés feliz travessia, que para mim néo deixou de ser bastante fatigante, entrémos finalmente no porto. Mal sai do barco e pus 0 pé em terra, peguei nas escassas bagagens e, abrindo passagem pelo meio da multidao, en- caminhei-me para a casa mais modesta e mais pequena que me apareceu com tabuleta a vista, Pedi um quarto. O criado, depois de me ter observado, mandou-me entrar. Pedi-lhe gua fresca e informel-me sobre o local onde poderia encontrar 0 senhor Thomas John. — Acasa de campo dele — respondeu-me — 6 @ primeira a direita de quem sai a porta do Norte; € uma casa nova de mérmore r6seo e branco, com colunas. — Optimo Era cedo ainda. Abri a mala, tirei a casaca preta recém-virada, vesti-me o melhor possivel € peguei na carta de recomendacéo que devia favorecer as minhas esperancas junto do patréo a quem ia apresentar-me. Depois de ter subido a rua do Norte e pas- sado a Porta, vi as colunas brilharem atrés da vegetacdo. «£ aqui» —pensei. Limpei com 0 lengo 0 pé dos sapatos, dei um arranjo as pregas e ao n6 da gravata e, encomendando- er -me a Deus, toquei a campainha. A porta abriu-se logo. Ful submetido a um interroga- t6rio, mas 0 porteiro teve a bondade de me anunciar, posto 0 que tive a honra de ser re- cebido no jardim onde o senhor John passeava com alguns convidados. Reconheci-o logo pelo ar de satisfagao que da cara rechonchuda Ihe radiava. Recebeu-me afavelmente, com uma afabilidade que ndo me fez esquecer a distan- cia que separa um ricago de um pobre diabo. Voltou-se para mim, sem todavia largar os con- vidados, aceitou a carta de recomendacao que Ihe entreguel e, lendo o endereco, disse: — Ah, do meu irmao! Hé muito que néo tinha noticias dele. Ele tem passado bem? Sem esperar pela minha resposta, voltou-se Para os outros € apontou com a minha carta uma colina préxima: —E ali que quero construir 0 novo edificio. Rasgou depois o sobrescrito, mas sem iterromper a conversa que era sobre as van- tagens da riqueza. Quem nao dispuser de, pelo menos um io —declarou—, ndo passa, desculpem a expressao, de um maltrapilho. —E 6 bem certo — repliquei eu com dolo- rosa conviccdo. A expressdo que pus nas minhas palavras deu-the para rir e acrescentar: —Fique, meu caro. Mais tarde, vou certa- mente poder dizer-lhe 0 que penso do assunto. E apontava para a carta que meteu no bolso, enquanto se voltava para os convidados. Ofe- receu o brago a uma jovem dama. Outros cavalheiros procuraram as respectivas acom- panhantes, formaram-se os pares ao gosto de cada um e todos se encaminharam para a tal colina onde vicejavam as roseiras em lor. 32 Sem incomodar ninguém, uma vez que nin- guém se incomodava comigo, segui timida- mente atrés de todos. Reinava a animacéo, falavase com gravidade de coisas vas e futeis, discutiam-se assuntos graves com frivolidade e as piadas incidiam_principal- mente sobre pessoas ausentes e seus respec- tivos neg6cios. Eu nao entendia grande coisa da conversa e estava suficientemente preo- cupado comigo para poder achar graca a se- melhantes. enigmas Chegados que fomos ao roseiral, a gentil Fanny, que parecia ser a heroina do dia, resolveu colher um ramo de flores. Um espi- nho feriua e um fio de sangue vermelho como as rosas maculou a alvura da sua mao. acontecimento pés toda a gente em alvo- rogo. Procurava-se um lengo de tafeté inglés. Um homem silencioso, seco, descarnado, bas- tante alto, de meia idade, que estava entre os convivas e eu nao tinha notado ainda, acorreu e metendo a mao na algibeira da casaca de tafeté desbotada, tirou de 14 uma carteirinha, abriua e, com’ uma reveréncia, epresentou @ dama o que lhe era pedido. Ela aceitou sem agradecer e sem sequer prestar atenc&o ao cavalheiro. Pensada a ferida, con- tinuémos a subir a colina do cimo da qual os olhos, depois de se terem perdido no verde do jardim, repousavam na imensidade do Oceano, A vista era magnifica e grandiosa. No horizonte, entre o verde negro das ondas e 0 azul do céu, via-se um ponto luml- noso. —Um 6culo! —pediu o senhor John. Antes que os criados, déceis & voz do dono, tivessem tido tempo para ouvir a ordem, jé 0 homem de fato cinzento, com uma reveréncia, metera a mao na algibeira e retirado um belo telescépio que apresentou ao senhor John 33 Este, observando 0 ponto.longinquo, info mou os outros de que era o barco que véspera largara do porto e que os vent contrérios retinham ainda a vista. O tele: pio passou de mao em mao, mas néo regi Sou @ do proprietério; eu ia olhando, surpre dido, para 0 homem’ sem conseguir percel como um instrumento téo comprido puder caber-Ihe numa exigua algibeira. Mas 0 fa Parecia no despertar a atencio de nenhur dos presentes e ninguém ligava_ mais homem do fato cinzento do que me. liga a mim. - _ Serviramse refrescos, frutas raras e ex6- ticas, em salvas preciosas. 0 senhor John tudo presidia, muito bem disposto, e foi entao. que me dirigiu segunda vez a palavra: —Sirva-se, que a bordo ndo deve ter tido nada disto! Fiz uma vénia, a agradecer, mas ele nem deu por nada, pois falava jé com outro. Toda a gente mostrava desejo de se deitar na relva da colina, olhando para 0 vasto pano- rama; mas receévamos a humidade do solo. —0 ideal —disse um dos convivas — era termos aqui uns tapetes turcos para nos deitarmos. Mal 0 desejo tinha sido expresso, j 0 homem do fato cinzento metia a mao na algi- beira, para, com muita humildade, retirar uma bela peca de purpura bordada a ouro. Os cria- dos receberam-na sem qualquer estranheza estenderam-na no chao. Toda a gente se sen- tou em cima do tapete. Eu olhava, estupefacto, ora para o homem ora para a algibeira e para © tapete, para os seus vinte passos de com- prido e dez de largo; esfregava os olhos, sem saber 0 que pensar, até porque nenhum dos Presentes manifestava a menor surpresa. a4 A minha vontade era saber mais sobre fAquele homem, perguntar quem era; mas ndo fabia a quem, pois tinha tanto ou mais receio dos criados do que dos senhores a quem eles forviam. Até que cobrei animo e me acerquei de um mancebo que me pareceu menos im- portante e de que os outros por vezes se ‘fastavam. Em voz baixa, pedi-Ihe que me in- formasse quem era aquele senhor téo com- placente, vestido de tafeta cinzento. — Quem? Aquele que parece uma ponta de linha caida da agulha dum alfaiate? — Sim, aquele que estd sempre afastado dos outros. —Nao.0 conhego. Virou costas, certamente para evitar mais perguntas minhas e entabulou com outro uma conversa sobre coisas sem importancia. O sol entretanto dissipou as nuvens e tanto aqueceu que comegou a incomodar as senho- ras. Voltando-se entéo negligentemente para ‘0 homem a quem ninguém que eu visse ainda tinha dirigido a palavra, a bela Fanny pergun- tou-lhe se porventura néo traria com ele uma tenda. Ele respondeu com uma profunda vénia, como se ela Ihe tivesse prestado uma honra imerecida; meteu entretanto a mao na algibeira e dela retirou estacas, cordas, pregos e toldos, ou seja tudo quanto era necessério para a construcao do mais espléndido dos pavilhées. Os cavalheiros mais jovens ajudaram a er- gué-lo. Cobria toda a extensao do tapete. E, mais uma vez, ninguém viu no facto nada de extraordinério. Sentia j4 uma certa angiistia e algum pavor, quando, para dar satisfacéo a um desejo que seguidamente foi expresso, vi o homem tirar da algibeira trés cavalos, nada mais e nada menos do que trés cavalos pretos arreados e selados — imagine-se, por amor de Deus! — Ey trés cavalos arreados, saidos da mesma al- gibeira que contivera jé a carteira, um teles- cépio, um tapete bordado a ouro com vinte passos de comprido e dez de largo, uma tenda com as mesmas dimensdes e todos os ferros © pregos correspondentes. Nao acreditarias, Por certo, se eu néo te jurasse que vi tudo isto com os meus préprios olhos! Apesar da grande humildade do homem e da Pouca atencdo que os outros lhe prestavam, @ personagem causava-me uma impressao tao sinistra que néo conseguia desviar os olhos dela. Resolvi ir-me embora, o que me pareceu facil, téo insignificante era o papel que ali estava a desempenher. Era minha intencdo regressar a cidade, voltar no dia seguinte a visitar o senhor John e, se tivesse coragem, fazer-lhe algumas perguntas sobre aquele es- tranho homem vestido de cinzento. Que bom, seria se eu pudesse fugir! Nao foi dificil ir descendo pelo meio das roselras, até chegar a um relvado descoberto. Receando ser surpreendido a caminhar na rel- va, fora dos arruamentos, olhei em volta. Qual nao 6 0 meu espanto quando vejo 0 homem. do fato cinzento a seguir-me e prestes a al- cancar-me. Comegou por tirar o chapéu, posto © que me fez uma vénia como nunca ninguém. me fizera. Era evidente que desejava falar comigo e seria grande indelicadeza evitélo. Tirel também o chapéu e correspondi a sau- dacao. Fiquei depois parado, de cabeca ao sol, tao imével como se tivesse raizes no chao. Olhei para ele apavorado, como o péssaro fascinado pela serpente. Pareceu-me ver nele Idéntico embaraco; ndo se atrevia a levantar os olhos e repetiu varias vezes a saudacio. Falou entao comigo em voz baixa e com a Indecisao que hé na fala dum mendigo: —Digne-se Vossa Mercé desculpar a minha 36 indiscrigéo, perdoaré que eu the fale sem o conhecer. Tenho um pedido a fazer. Se Vossa Mercé mo permitisse. —Por amor de Deus — interrompi, aflito. —ue posso eu fazer por um homem que. Ambos nos detivemos, téo envergonhados, reio, um como o outro, Seguiram-se momei tos de siléncio e foi ele que retomou a palavra: — Durante os breves instantes que me foi dado té-Io ao meu lado, pude, permita que Ihe diga, pude contemplar com inexprimivel admi- ragéo a bela sombra que Vossa Mercé trata com soberano desdém, essa magnifica som- bra que tem aos pés... Desculpe o meu atre- vimento e a proposta que téo descaradamente ouso fazer-Ihe: dignar-se-la consentir em ne- gociar comigo, em me ceder a sua sombra? Calou-se € eu senti como que uma m6 de moinho a rodar dentro da cabeca. Como podia eu aceitar a ideia de negociar a sombra? Deve ser louco— pensei. E num tom humilde seme- Ihante ao dele, respondi: —Meu amigo, mas entéo nao the chega a sua sombra? O negécio que me propée é muito estranho! —Tenho na algibeira —atalhou ele— al- gumas coisas néo de todo indignas de ser oferecidas a Vossa Mercé. Ndo hé nada que eu nao dé em troca da sua inestimavel sombra. Qualquer prego que me exija seré demasiado médico. Senti um arrepio 86 de me lembrar da algi- beira e afigurou-se-me incompreensivel o facto de ter tratado aquele homem como meu amigo. Retomei a palavra e tentel reparar a falta usando de delicadeza: —Digne-se Vossa Mercé perdoar a este seu criado, mas nao entendo bem aonde quer chegar. Como ¢ possivel que @ minha som- ra... Interrompeusme: —Eu peco apenas a Vossa Mercé licenca ara me deixar apanhar a sua magnifica sombra © para a meter na algibeira; quanto & maneira como isso é possivel, néo se importe Vossa Mercé. Em troca, darhe-ei a escolher entre as preciosidades diversas que tenho na mesma algibeira: a verdadeira raiz-gazua, a raiz da mandrégora, moedas que transformam as outras em ouro, os téleres voadores, a toa- Iha magica do escudeiro de Rolando, um gnomo de forca pelo preco que quiser (’). Mas nada (1) © proprio autor forneceu para esta passagem (© que podemos chamar duas interpretagbes diferente uma na versio francesa, multo diferente do original © adaptada a0 gosto francés @ outra numa carta a0 itmao Hippolyte, em 1821. Na primeira, os talismé S80 multo mai nntes dos do original: «a erva preciosa do pescador Glauco, a raiz de Circe, as cinco moedas do Judeu Errante, lenco de Alberto Magno, a mandrégora, 0 elmo de Mambrino, © ramo de ouro, ‘9 chapéu de Fortunatus ou, se prefrir, a sua bolsa... Na carta ao. irmio, explicita os talismas referidos no original: a Springwurzel abre todas as portas @ anula todas as fechaduras; 0 pica-pau conhece esta ralz; faz ‘© ninho nos troneoe carcomidos; quando ele sai do niinho, tapa-se-lhe 0 buraco; 0 péssaro vai logo buscar 2 ralz para abrir 0 ninho © quem apanhar 0 péssaro Pode apoderar-se da raiz; a Alraunwurzel 6 a raiz mandrégora, que permite descobrir os tesouros escor didos. Os Wechselpfennige ou Heckpfennige sio moo- das de cobre que se tornam, quando se volta ‘moadas de ouro. O Raubtaler 6 um téler que volt sempre & mio do dono, trazendo consigo todas moedas em que toca, A’ toalha mégica do escudeiro de Rolando 6 uma que fica coberta com todas as ‘iguarias que se dessjarem. 0 Galgenménniein 6 um diabo metido numa garrafa; faz tudo 0 que o dono deselar; 6 comprado com dinheiro (dai a alusio a0 reco) mas tem de ser vendido por uma quantia sem- re inferior; 0 diabo apodera-se da alma do sitimo dono, que no consegue vendé-lo. Ver este mito tra- tado em © Diabo Engarrafado de Stevenson (Coleccto Mela-Noits) © também om As Folticeirs Espanholos de Mérimé in A Visdo de Carlos XI (livro b). 38 deve ser do seu agrado; o melhor talvez seja © chapéu de Fortunatus, consertado de novo © em perfeito estado ou entéo uma bolsa como a dele...(") —A bolsa de Fortunatus? —etalhei. No meio de todos os meus receios, esta palavra conquistou-me. Fui tomado de verti gens e julguei ouvir 0 chocalhar dos ducados. — Quer Vossa Mercé fazer a fineza de exa- minar a bolsa e de a experimentar? Tirou entéo da algibeira e meteume nas méos uma bolsa de marroquim com grossos cordées, muito sélidos, e entregou-ma. Meti a mao na bolsa e tirel dez moedas de ouro, seguidas de outras dez e de mais dez e ainda mais dez, posto o que lhe estendi a mao: —Aperte af! Negécio fechado! Fico com a bolsa em troca da sombra. Ele apertou-me a mao e, sem mais hesita- ¢6es, ajoelhou-se na minha frente. Pude entao ver @ habilidade com que recolhia do chao a minha sombra, a comecar pela cabeca e a acabar nos pés, erguendo-a, enrolando-a e me- tendo-a finalmente na algibeira. Feito isto, inclinou-se na minha frente e desapareceu atrés das roseiras. Eu, por meu lado, agarrei os cordées da bolsa; o sol brilhava, esplendo- roso, & minha volta e eu nao conseguia tomar perfeita consciéncia do que se passava comigo. (), Fortunatus 6 um her6i popular alemBo, dono duma bolsa que nunca se esvazia de moedas de ouro, ‘@ dum chapéu magico que leva quem 0 ponha pera 0 sitio que pretenda. 0 Assim que voltei a mim, tratel de abandonar aquele local onde esperava nada ter a fazer. Comecei por encher os bolsos de ouro e aper- tel depois solidamente ao pescoco os cordées da bolsa, escondendo esta no peito. Sai da cerca sem ser notado, alcancel a estrada e segui para a cidade. Ao aproximar-me, sempre meditabundo, da porta do Norte, ouvi chamar: —Meu senhor! Ouca, meu senhor! Voltei-me para trés. Vi uma velha que bradot —Atengao, meu senhor! Perdeu a sombi — Obrigado, minha senhora! Dei-lhe uma moeda de ouro, em agradeci- mento pelo conselho e pela boa intencdo e cheguei-me para a sombra das drvores. A porta, tive de ouvir a sentinela: —Onde 6 que Vossa Mercé deixou a som- bra? E logo a seguir algumas mulheres —Jesus! Maria! O pobre perdeu a sombra! Aquilo comecava a incomodar-me e evitei andar ao sol. Mas nem sempre me era possi- vel, por exemplo na Rua Larga, que tive de atravessar na hora exacta em que os garotos safam da escola. Um pimpolho corcunda {ainda estou a vé-lo!) conseguiu logo desco- Ce Se ee brir que me faltava aisombra. Denunciou-me logo em altos brados aos patifes dos estu- dantes do bairro e eles nao se fizeram rogados para me atirarem pedras e me cobrirem de lama. —As pessoas decentes tém por costume trazer consigo a sombra sempre que andam a0 sol! Para os afastar, lancei moedas de ouro para cima deles e, com ajuda de algumas almas. compassivas, subi para a carruagem. Ao ver-me s6 dentro da carruagem que me levava, pus-me a chorar amargamente. Come- ava a adivinhar que, neste mundo, 0 ouro esta téo acima do mérito e da virtude quanto a sombra est acima do proprio ouro: tal como antes sacrificara a riqueza 4 minha conscién- cia, trocara agora a minha sombra por um pouco de ouro: que ia ser de mim nesta triste vida? Estava eu completamente desorientado quando a carruagem parou & porta da hospe- daria; estremeci sé de pensar que ia entrar naquele tugdrio infame. Mandei que me trou- xessem os meus pertences, recebi com des- dém a misera bagagem, dei algumas moedas de ouro e pedi que me levassem ao hotel mais afamado; o edificio tinha a fachada virada para Norte; n&o teria de recear.o sol. Des- edi 0 cocheiro, depois de Ihe ter pago em ouro, exigi os melhores aposentos na ala da frente e neles me fechei logo que me foi possivel. Que julgas tu que fiz entéo? Envergonho-me até de o dizer, meu caro Chamisso! Puxei da maldita bolsa que tinha pendurada ao peito e, com grande furia, uma furia como a de um incéndio, que a si mesmo se ateia, comecei a tirar ouro, mais ouro, sempre mais ouro, se- a ‘meei ouro no chéo, caminhei-Ihe em cima, fi-lo chocalhar e, saciando 0 meu pobre coracéo com o brilho @ a musica do ouro, acumulel metal sobre metal, até cair exausto em tao reciosa liteira, nela enterrando as méos, de- iciado, nela me rebolando, como quem se banha num oceano de prazer. Nao abri a porta, @ noite veio encontrar-me deitado em cima do Meu ouro @ 0 sono fechou-me os olhos. Foi entéo que sonhei contigo; pareceu-me estar atrés da porta envidracada do teu quarto @ ver-te senitado & escrivaninha, entre um es- queleto e um amontoado de flores secas; na tua frente, estavam abertos livros de Haller, Humboldt, Lineu; no sofé, via-se um volume de Goethe 6 0 «Zauberring: (’). Fiquel a olhar durante algum tempo para ti, para os objectos que te rodeavam, novamente para ti, mas tu nao te mexias, nao respiravas, estavas morto. Despertei. Pareceu-me que era ainda muito cedo. O relégio estava parado. Sentia-me can- sado, cheio de fome e sede; nao tinha comido nada desde a mana do dia anterior. Furioso e enjoado, atirei com todo aquele ouro que antes me inebriara 0 coracdo embrutecido. Nao sabia 0 que fazer dele. Nao podia deixé-lo ali espalhado no chéo. Experimentei fazé-lo ingerir @ bolga que o tinha produzido. Nao consegui. Nenhuma das janelas dava para o mar. Vime obrigado a arrumé-lo, com muito suor © muita dificuldade, num armério grande que havia numa sala contigua. Fiquei s6. com alguns punhados de moedas. Terminado o trabalho, deitei-me, exausto, num canapé, até que comecei a ouvir as pessoas da casa. () Na versio francesa, Chamisso substituiu Goethe eo Zauberring (Anel magico) do seu amigo La Motte- -Fouqué por «Homero e Shakespeares, Logo que possivel, mandei que me trouxessem de comer e chamei o dono do hotel. Estabeleci com ele a futura organizacao da minha vida ali. Recomendou-me ele, para o meu servigo pessoal, um certo Bendel cujo semblante leal e inteligente me conquistou de, imediato. Foi a dedicacéo dele por mim a maior ajuda que posteriormente vim a receber, no meio das desgracas da minha vida, foi ele que me consolou e me ajudou a suportar 0 meu triste destino. Passei o dia inteiro nos apo- sentos, recebendo lacaios sem amo, sapatei- ros, alfaiates e negociantes de toda a espécie; tomei uma série de disposigées e comprei grande ntimero de objectos raros e de pedras Preciosas, para ver se me desembaragava de parte do ouro acumulado: acabei por verificar, que a diminuigéo quase no se notava. Assaltaram-me as piores angtstias a res- peito da minha situacdo. Nao me atrevia a dar um passo fora daqueles aposentos; & noite, para evitar a escuridao, mandava acender qua- renta velas. Com o coragéo em sobressalto, Pensava na cena dos garotos & porta da es- cola, Resolvi, armando-me sabe Deus de quanta coragem, desafiar novamente a opiniéo publica. ‘As noites eram nessa altura muito enlua- radas. Altas horas da noite, rebucei-me numa capa, enterrei um chapéu até aos olhos e, tremendo que nem um ladréo, sai do hotel: 86 ao chegar a uma praca, sai da sombra que as casas projectavam e avancel, a luz da lua, até onde a voz dos transeuntes pudesse reve- lar-me o meu destino. Poupa-me, caro amigo, a dor de te repetir tudo 0 que tive de suportar. As mulheres tes- temunhavam repetidas vezes a profunda pie- dade que eu Ihes inspirava e as lamentagdes por elas proferidas torturavam-me tanto o eoracdo como os insultos dos jovens e 0 altivo desdém dos cavalheiros, principalmente dos que, por serem gordos e anafados, pro- jectavam sombras larguissimas. Passou uma jovem encantadora, em companhia, creio, de Sous pais; enquanto estes, com muita gravi- dade, s6 olhavam para o chéo que pisavam, a moga olhou casualmente para mim; ficou visivelmente apavorada, quando viu que eu no tinha sombra, escondeu o rosto com o véu, baixou a cabeca e seguiu o seu caminho sem dizer uma palavra. Era demais: comecei a chorar légrimas ‘amargas e, com o coracaéo despedagado, voltei para casa, embrenhando-me no escuro. Tinha de me agarrar as casas para néo desfalecer € s6 muito tarde e muito a custo entrei no hotel. N&o consegui dormir durante toda a noite. No dia seguinte, 0 meu primeiro culdado foi mandar procurar por todo o lado o homem de fato cinzento, com a ideia de que me ia ser possivel encontré-lo: que felicidade a minha se ele, como eu, estivesse arrepeso do negd- cio! Chamei por Bendel, que me parecia habil e inteligente. Fizlhe uma descrieao exacta do homem em cuja posse estaria um tesouro sem © qual (expliquei) a minha vida seria um tor- mento. Disse-lhe a hora e o local onde o tinha visto, descrevi-lhe todas as pessoas entao presentes e, para orientacdo’ dele, disse-lhe também para se informar a respeito de um telescépio, um tapete turco lavrado a ouro, uma tenda de luxo e, finalmente, uns cavalos de montar, negros, cujas hist6rias tinham relacdo. (disse-lhe, mas sem explicar qual) com a do homem misterioso que toda a gente olhava como insignificante e cujo apareci- mento tinha transtornado a calma @ a fe dade da minha vida. 4° Fui depois buscar ouro, todo o que pude carregar; acrescentei algumas pedras pre- ciosas e joias de valor incalculavel: —Bendel — acrescentei —, isto servira para aplanar o caminho e para tornar muito mais faceis coisas que parecem impossiveis; nao poupes estas riquezas, como eu também as nao poupo! Vai e ndo voltes sem trazer ao teu amo as novas sobre que repousa toda a sua esperanga. Partiu para regressar jé tarde e muito triste. Tinha falado com todos os criados do senhor John, com todos os convivas; nenhum deles se recordava do homem do fato cinzento. Havia 0 telescopio novo, sim, mas _ninguém se recordava da proveniéncia dele. La estavam. também o tapete e a tenda, aquele estendido e esta erguida no alto da colina; os lacaios bendiziam a sorte do amo, mas nenhum deles sabia donde pudessem ter vindo tais riquezas; © préprio amo estava radiante e nada preo- cupado por nao saber a origem delas; quanto aos cavalos, os jovens cavaleiros que neles haviam montado tinham-nos guardado nas. respectivas estrebarias e celebravam a ge- nerosidade do senhor John que thos tinha oferecido. E isto 0 que pode tirar-se do rela- tério de Bendel, cujo zelo ardente ¢ habilidade, vos embora, mereceram todos os meus elo- gios. Triste e melancélico, fiz-lhe sinal para que me deixasse ficar s6. —Meu amo —tornou-me ele —, prestei a Vossa Mercé contas da mais importante in- cumbéncia que me foi confiada. Resta-me dar-lhe um recado de que esta manha muito cedo me encarregou uma pessoa que encon- trei na portaria, quando ia tratar da missao que tao fraco resultado surtiu. As palavras do tal homem foram as seguintes: «Diga a0 senhor Pedro Schlemihl que nao voltaré a 4 ver-me, porque tenho de fazer uma viagem Por mar e o vento favordvel obriga-me a correr sem demora para 0 porto. Mas, dentro de um ‘ano e um dia, terei a honra de the fazer uma visita e de lhe propor um negécio que talvez ele ache aceitével. Apresente-lhe as minhas homenagens respeitosas e transmita-lhe toda @ minha gratidao.» Eu perguntei-Ihe quem era, mas a resposta dele foi que Vossa Mercé o conhecia muito bem. — Como era ele? — perguntei, pressentindo © pior. E Bendel descreveu-me 0 homem do fato cinzento, feigao por feicdo, palavra por pa- Javra, tudo correspondendo @ anterior descri- a0 do homem que fora procurar. — Infe se eu, torcendo as mos. —Era ele. As escamas cairam-lhe dos olhos: —An, pois eral Tinha de ser ele! —excla- mou, espantado.— E eu, cego e estipido, nao © reconheci! Ndo 0 reconheci e trai o meu amo! Chorando amargamente, deu em censurar-se © 0 desespero dele inspirou-me também gran- de pena, Consolei-o e declarei-Ihe mais de uma vez que ndo punha em davida a sua fidelidade. Mandei depois ao porto, com ordem para seguir, se possivel, 0 rasto da estranha personagem. Mas tinham sido varios os barcos que, hé muito retidos por ventos contrérios, tinham nessa manha largado do porto, rumo a outros continentes e a praias ignoradas, e 0 homem de fato cinzento sumi- rase sem deixar rasto, como uma sombra, De que serviam as asas a um homem soli- damente amarrado com correntes de ferro? 86 para Ihe acrescentarem o desespero. Sen- tiame igual a Faffner, junto do tesouro ("), longe de toda e qualquer consolacéo humana, morrendo de miséria junto do meu ouro; néo 86 ndo me atrafa como até o amaldicoava, por ser a causa de eu me ver completamente se- parado da vida humana. Guardando em mim o meu triste segredo, receava até o tiltimo dos meus lacaios, ao mesmo tempo que me sentia obrigado a invejé-lo: ele tinha sombra e podia andar ao sol; eu passava os dias e as noites solitério e triste, fechado nos meus aposen- tos, @ 0 desgosto corrofa-me o coracao. Outra pessoa havia que se consumia de dor na minha presenca: era o meu fiel Bendel que no cessava de se atormentar por ter iludido a confianga do seu amo e néo ter reconhecido o homem cuja busca lhe fora confiada, 0 homem de quem ele cria que estava dependente o meu destino. Eu, entre- ) Faffner: draqo que guarda os Tesouros dos Nibelungos. Na versio francesa, Chamisso limita-se a dizer ecomo 0 dragio que guarda 0 tesouros. 0 tanto, néo o tinha na conta de culpado: es aventura vinha apenas provar-me que o des: conhecido pertencia a um mundo fabuloso. Decidido a tentar todas as possibilidades, mandei um dia Bendel, com um anel de bri- Ihantes, procurar o mais célebre pintor da cidade, convidando-o a visitar-me. Assim que ele entrou, mandei sair os criados, fechei as. Portas, sentei-me na frente dele e, depois de ter celebrado o seu talento, entrei no assunto,, com 0 coracao angustiado. Mas s6 depois de o ter feito jurar que guardaria segredo absoluto. —Senhor professor — prossegui —, se, por grande desgraca, um homem viesse a perder: @ sombra, poderia Vossa Mercé pintar-Ihe uma. sombra postica? —Refere-se a uma sombra normal? —Sim, a uma sombra das que toda a gente tem. —Mas —tornou ele a perguntar— que negligéncia é essa que pode levar alguém a perder a sombra? —O modo como aconteceu — respondi — nao tem importéncia, mas posso afirmar-lhe o Seguinte (disse, convencido de que estava a mentir): foi na’ Rassia, durante uma viagem em pleno Inverno, que a sombra, com o frio que estava, congelou e ficou téo colada ao chao que fol impossivel arrancé: —A sombra postica que eu podia pintar- -lhe —replicou 0 professor— era daquelas que, a0 mais leve movimento, se dissiparia, tratando-se, ainda por cima, de um homem: ‘com t&o pouco apego a sombra com que nas- ceu. Quem no tem sombra que nfo ande ao sol: 6 a coisa mais sensata e mi segura que pusso aconselhar. E, depois de se levantar, afastou-se e dei- tou-me um olhar penetrante e para mim in- 50 Suportével. Deixei-me cair na poltrona e es- condi 0 rosto nas mos. Assim me encontrou Bendel, ao entrar nos meus aposentos. Viu a desventura do amo e Ja j4 retirar-se, em respeltoso siléncio. Le- Vantei os olhos. Oprimia-me o peso da in- felicidade e senti necessidade de me confiar ® alguém. —Bendel —gritei-lhe—, Bendel! Tu que és 0 Gnico a ver e a respeltar os meus sofri- mentos, que mostras ndo quereres perscru- té-los, mas deles compartilhas em siléncio, vem cd, Bendel, aproxima-te mais do meu coracaéo. N&o te dissimulei o ouro que pos- ‘suo, néo vou também dissimular-te as minhas desventuras. Bendel, néo me abandones. Ben- del, sabes como sou rico, generoso, cheio de bondade; julgas que o mundo deveria erguer- “me nas nuvens e vés-me fugir do mundo colocar barreiras entre mim e o mundo. O mundo, Bendel, ditou a sua sentenca e rejei- tou-me e tu, possivelmente, vais também dei- xar-me quando souberes do meu terrivel se- gredo: Bendel, eu sou rico, sou generoso, sou bondoso, mas —Deus meu!— nao tenho ‘sombral —Vossa Mercé nao tem sombra? —ex- clamou 0 meu criado, cheio de medo, com as ldgrimas nos olhos.—Ai de mim! Vir a este mundo para servir um amo sem sombra! Calou-se. Eu continuava com o rosto es- condido entre as maos. —Bendel —acrescentei, tremendo, pas- sado muito tempo—, ja sabes do meu se- gredo. Podes trair-me. Vai apresentar queixa, vail! ‘A minha impressao fol de que dentro dele se travava um rude combate; acabou por se prostrar aos meus pés e por me agarrar na m&o que me encharcou em ldgrimas: Ea —Néo —disse—, nao! Pense o mundo que pensar, eu ndo posso, por causa dumi sombra, abandonar o meu amo; agirei acordo com a justica e contra a razo. Ficar com Vossa Mercé, emprestar-Ihe-ei a minh sombra, ajudé-lo-ei enquanto me for possivi e, quando 0 néo puder, chorarei também. Abracei-o, maravilhado com o que tal cor portamento tinha de raro; conhecia-o suficiel temente para me convencer de que néo et © amor do ouro que 0 movia. Dali em diante, 0 meu destino e o me modo de viver sofreram uma certa mudang: E impossivel descrever todas as precaucie: que Bendel tomou para dissimular o met Ponto fraco. Para onde quer que fdssemo: ia 4 minha frente ou ao meu lado, prevent tudo, e quando surgia algum perigo impr isto, cobria-me com a sombra dele, pois er mais forte e mais alto do que eu. E foi dest modo que tornei a arriscar-me a conviver co os homens, comecando a desempenhar um papel no mundo. Tive, evidentemente, de afe tar certas manias e certos caprichos. Mas. trata-se de coisas que quadram bem a ui homem rico e, escondendo a verdade, pude’ gozar_plenamente das honrarias e da consi deracdo devidas ao meu ouro. Fol com coracdo mais tranquilo que fiquei a espera’ da visita do misterioso desconhecido, culo prazo dum ano e um dia estava prestes a ex: pirar. sombra e onde facilmente podia ser traido; pensava também, e devia ser eu o Unico a. lembrar-me do facto, na visita a casa do se- nhor John, recordacio que me fazia sofrer muito. Estava apenas a ensaiar o papel. para poder entrar em cena com mais facilidade e 22 mais seguranga... Mas, entretanto, a vaidade reteveme durante algum tempo: 6 por ela que 0 homem e a Ancora, o mais das vezes, véo ao fundo. A bela Fanny, a tal com quem me encon- trara em casa de terceiros, esquecida j4 de algum dia me ter visto, concedeu-me uma atengéio, uma vez que agora eu tinha ito e inteligéncia, Eu falava e obtinha logo a atencao geral, mas nem eu proprio como tinha adquirido a arte de dirigir e dominar téo facilmente a conversacio. A consciéncia que eu tinha da boa impresséo por mim causada aquela dama fez de mim © que ela mais desejava, ou seja um tolo, e, desse dia em diante, passei a segui-la, com mil dificuldades, de noite e de dia, para onde quer que ela fosse. Vaidoso como era, s6 de- sejava que ela se envaidecesse da minha pessoa; mas foi em véo que procurei trans- ferir tal vaidade da cabeca para o coracdo. Mas, para qué repetir-te toda uma historia Perfeitamente vulgar? Tu proprio me tens contado outras quejandas, cujos herdis sao pessoas de muito respeito. A velha e banal comédia em que eu representava um papel mais do que gasto iria ter um desenlace ca- tastréfico, que nem eu nem Fanny nem nin- guém esperdvamos. Numa bela noite tinha eu reunido no jar- dim, como de costume, numerosos convivas, e passeava de braco dado com Fanny a certa distancia dos convidados, procurando muito a custo cortejé-la. Ela baixava os olhos com grande modéstia e respondia ternamente & doce pressio da minha mao. Subitamente, atrés de nds, a lua surgiu de entre as nuvens ea bela Fanny viu no chao somente a sombra dela; estremeceu, olhou para mim, desorien- tada, e tornou a olhar para o chao, & procura 23 da minha sombra; os seus sentimentos flectiram-se-Ihe de tal modo no semblant que eu teria dado uma gargalhada, se ndo eee Percorrido a espinha um artepio gf lado. Larguei-lhe 0 braco, deixei-a cair, desfal cida, e fugi como uma flecha pelo meio do convidados. Chegado a porta, entrei para primeira carruagem que vi parada e fugi par a cidade, onde, para minha desgraca, tinhal deixado 0 fiel Bendel. Ficou aflito quand me viu; bastou uma palavra para ele perce: ber tudo. Fomos logo procurar cavalos d posta. Levei comigo um Gnico criado, ul grande patife de nome Rascal que tinha con seguido arranjar artes de ser indispensdvel @ que nao podia sequer suspeitar do que na- quela noite se tinha passado. Percorri_ na- quela noite trinta Iéguas. Bendel ficou na cidade, para tratar dos meus assuntos, distri buir ouro e ir depois ter comigo, levando-m as coisas indispensdveis. Quando, no dia se- quinte, o vi apare i-Ihe nos bracos e ju- reilhe nao que deixaria de cometer asneiras, mas sim que, doravante, seria mais prudente. Seguimos viagem, passémos a fronteira e a) montanha e s6 quando nos vimos na outra vertente, separados por uma barreira daquela’ terra funesta, s6 entéo, numa cidade balnear Préxima e pouco frequentada, consenti em descansar, depois das duras provas que aca- bava de sofrer. sa v Este meu relato terd de passar rapidamente sobre uma época que gostava de referir com mais vagar, se me sentisse capaz de evocar, pela magia’ da lembranga, o sopro que a ani- mou. Mas a cor que Ihe dava vida, que tha pode dar ainda, apagou-se dentro de mi © quando quis reencontrar no mais fundo do coracéo aquilo que the dava a animacao, a ventura e a desventura, as ilusdes piedosas, foi como se batesse em vao num rochedo: @ agua recusa-se a brotar, sinal de que fui abandonado por Deus (’). Ah, a indiferenca com que eu hoje olho para esse passado! Naquela cidade balnear, era suposto que eu iria representar um papel herdico. Mas © papel estava mal estudado, o actor era um estreante: nao tardei a esquecer-me da peca e a deixar-me fascinar por dois olhos.azuis. Os pais, enganados pela comédia, tudo fa- zem para apressar o desenlace e 0 casamento foi o vergonhoso fim de toda a farsa. () Referdncia a0 episédio do tivo do xodo (c. 17, v. 8). Jeova, para dar a Moisés uma prova do qué no 6 tinha abandonado, mandou-o bater no rochedo @ deste teria brotado uma nascente de agua 8 Tudo aquilo se me afigura hoje em dia ri- diculo e miserével, mas o mais terrivel 6, para mim, o considerar hoje ridiculo uma coisa que entéo me encheu 0 peito das mais ricas e generosas emogées. O Mina, tanto quanto outrora chorei o ter-te” perdido, assim choro hoje o ter-te esquecido de todo. Terei assim envelhecido tanto? 0 razéo cruel, dé-me s6 mais uma pulsacao das daquele tempo, um segundo de sonho! Mas néo! Estou 86, no oceano imenso e vazio das tuas ondas amargas e 0 champanhe do ‘ano onze deixou hé muito de espumar na der- radeira taga ( Tinha mandado Bendel & minha frente, para ele procurar na cidade uma casa em confor midade com as minhas necessidades. Ele dis- tribuiu algum ouro e falou vagamente do bre estrangeiro a quem servia (era meu) desejo néo ser nomeado expressamente). Aquela gente comecou a fazer de mim uma) ideia falsa. Logo que a casa ficou pronta para me receber, Bendel velo ter comigo e puse- mo-nos a caminho. Uma légua antes da cidade, numa planicie: cheia de sol, demos com a estrada ocupada) por uma multidéo festivamente vestida. Ai carruagem parou. Fez-se ouvir a misica, os) ‘sinos tocaram, troou o canhao; ressoarai os vivas. Para’a porta da carruagem corre todo um cortejo de donzelas lindissimas vestidas de branco, mas todas eclipsad pela beleza duma delas, tal como todas as) estrelas 0 sao pelo sol da manhé. A encan- tadora donzela, rubra de confuséo, afastou- (), A colhelta de champanhe de 1811 tomou-se: proverbial. Coincidlu com 0 aparecimento dum co- ‘meta. Chamisso, na versio francesa, limita-se a es sel...) @ 8 taga encantada hé multo que secous, 0 se do grupo, veio ajoelhar-se na minha frente e, numa almofada de seda, entregou- me uma coroa feita de louros, ramos de oli- Veira @ rosas, pronunciando algumas pala- yras em que se falava de majestade, venera- 0 © amor. Nao entendi todo o sentido do discurso, mas a magia das suas ressonancias frgentinas inebrioume os ouvidos e 0 cora- jo. Tinha a impressao de que a divinal cria- tura tinha j4 passado por mim nao sabia quando. © coro comegou entretanto a can- tar, celebrando os louvores do bom rei e a folicidade do seu povo. E toda esta cena, meu caro amigo, foi ao soll Ela continuava de joelhos, ali a dois pas- 80s de mim, enquanto eu, sem sombra, era Incapaz de sair daquela priséo ambulante e de me ajoelhar em frente daquele anjo. O gue eu ndo teria dado por uma sombra! Vie- sme obrigado a esconder no interior da car- ruagem a vergonha, a angustia e o deses- Pero que me dominavam. Foi Bendel quem decidiu por mim: saltou pela outra porta da carruagem. Eu chamei-o, tirel duma das ma- Jas que tinha & méo um rico diadema de bri- Ihantes, j6ia destinada a Fanny, e entreguel- -lho. Ele avangou e, tomando a palavra em representagéo do amo, declarou nao poder nem querer este aceitar aquela honrosa ma- nifestagéo, pois devia haver qualquer equi- yoco, mas que, em todo o caso, agradecia aos bons habitantes da cidade as’ suas boas in- tengdes. Entretanto, retirou da almofada a co- Toa que me era oferecida e colocou no lugar dela 0 diadema de brilhantes; estendeu de- pois a mao a donzela, para a ajudar a levan- tar-se e, com um gesto, mandou retirar o clero, a8 autoridades municipais e todas as deputagées. Ninguém foi autorizado a avan- gar. Ordenou & multidéo que se afastasse, ” ra os cavalos passarem, entrou_novament pa carruagem e seguimos a toda a brida par a cidade, passando sob um arco triunfal folhas e de flores. Os canhdes continuava a disparar alegremente. A carruagem imobi lizou-se frente @ casa; corri, lesto, para porta, passando por entre a multidéo que desejo de me ver havia reunido; sob a ji nela, a populaca gritava vivas e eu lancei-th uma chuva de ducados. A noite, a cidad espontaneamente, apareceu iluminada. Eu continuava sem saber o que signi tudo aquilo e ignorava por quem me tor vam. Mandei Rascal informar-se. Foi-lhe et téo dito que, de fonte segura, chegara a dade a nt ia de que o rei da Prassia viaja pela regio como nome dum conde e qi © ajudante-de-campo se traira e me dera conhecer, para grande alegria da populaca que ficou radiante por me ver permanecer cidade. Presentemente, é claro, a0 verel que eu desejava manter o segredo, todos e: tavam embaracados por ter sido. levanta © véu. Mas, como eu, na minha célera, mostrara cheio de cleméncia, havia cert mente de Ihes perdoar a boa intencéo. Tanta graca achou a isto o patife do mé criado que, por iniclativa propria, fez os p siveis por alimentar a conviccdo daquela gente. O relato que me fez era cheio de micidade e, ao ver que eu Ihe achava gra declarou ser o autor de todo o estratager Custa-me a confessé-lo, masa verdade que me senti feliz por receber honrarias qu eu sabia dirigidas a0 soberano. Dei ordem para que, no dia seguinte, desse uma festa A sombra das drvores praca fronteirica a casa, festa para a q convidei toda a cidade. O misterioso podi da minha bolsa, os esforcos de Bendel, a 28 bilidade e 0 engenho de Rascal lograram triunfar do proprio tempo. Foi verdadeira- mente surpreendente ver a riqueza, a magni- ficéncia com que tudo foi organizado em pou- as horas, 0 esplendor ¢ 0 luxo que surgiram 4 luz do dia; por outro lado, a iluminagéo es- tava téo engenhosamente repartida que eu me sentia perfeitamente seguro: nada tinha & dizer, os meus criados eram merecedores de todo 0 louvor. Entardecia. Comegaram a aparecer os con- vivas, que me foram apresentados. Foi ba- nido ‘o tratamento de Majestade; mas era com grande respeito e profunda submissio que me davam o titulo de senhor conde. Que podia eu fazer? Aceitei o titulo e assim me tornei no conde Pedro. No meio da multidao em festa, 0 meu coracao desejava ardente- mente uma Unica presenca. la ja alta a noite quando apareceu a que era a coroa da festa, @ que trazia na cabeca o diadema oferecido por Bendel. Seguia modestamente atris dos pais e parecia nao dar conta de que era a mais bela de todas. Foram-me apresentados 0 se- nhor inspector florestal, a sua esposa e a sua filha. Aos pais, logrei dizer toda a es- pécie de coisas gentis e amaveis; diante da filha, senti-me como um garoto apanhado em flagrante que nao consegue balbuciar uma s6 alavra. Consegui por fim, gaguejando, pe- dirlhe que honrasse a festa e exercesse as fungGes a que a sua graca e beleza Ihe davam ‘0. Corou e, com um olhar encantador, suplicou-me poupasse a sua modéstia; eu, ainda mais corado do que ela, prestel-lhe, como seu primeiro stbdito, muito respeitosa- mente, a minha homenagem; um tal gesto do conde era para os convivas uma ordem a que todos alegremente se conformaram. Majestade, inocéncia e graca, unidas & be- “9 leza, foi quem presidiu aquela festa jubilos: Felicissimos, os pais de Mina creram que honrarias prestadas @ filha os honravam bremaneira. Quanto a mim, sentia-me nu estado de embriaguez indescritivel. Com a j6las que me restavam dos tempos em q as comprara para me desembaragar do oul que me incomodava, com todas as pérolas pedras preciosas, enchi dois vasos cober e, durante a refeicdo, mandei-as distribuir; em nome da rainha, a todas as damas e d zelas. Neste entrementes, do alto dos estr dos érguidos para o efeito, langava-se inin terruptamente ouro as mancheias sobre multiddo. Na manha seguinte, Bendel confidenciou: -me que as suspeitas ha muito pendentes si bre a honestidade de Rascal eram uma ce teza e que, na véspera, tinha dado sumico Vérias bolsas de ouro. — Deixa! —repliquei-lhe.— Pode ficar co tudo isso, o pobre diabo! Dou presentes toda a gente, porque ndo havia de thos d a ele? Ontem serviu-me lealmente, com aliés todos os criados que me arranjaste; tt fizeram para me ajudarem a dar uma fet cheia de alegria! E nao se falou mais no caso. Rascal conti: nuou a ser o meu primeiro servidor, enquat Bendel era meu amigo e confidente. Habitua ra-se a considerar as minhas riquezas ines gotdveis e nao Ihes De acordo com as minhas intengGes, esforc: va-se por descobrir oportunidades de ostenta e distribuir ouro as mancheias. Do desconh« cido, do homem de cinzento com aspecto manhoso, sabia apenas que eu néo me podi ver livre das suas maldicdes e que 0 receava, embora nele depositasse a minha tica esp ranca. Sabia, por outro lado, que eu na ry Jograria encontré-lo em parte alguma e tam- bém que essa era a razéio por que eu, en- quanto esperava o dia aprazado, desistira de toda e qualquer busca, esplendor da festa e a minha atitude no decorrer da mesma conseguiram manter nos erédulos habitantes da cidade as ideias pre- eoncebidas. Mas as gazetas ndo demoraram 4 desmentir rapidamente toda a historia da viagem do rei da Prussia, classificando-a de boato sem fundamento. Mas isso néo me Impediria de ser rei de uma vez por todas, um rei dos mais ricos e dos mais poderosos que Jé existiram. $6 que ninguém sabia qual era 0 meu reino. O mundo nunca teve razio para se queixar da falta de reis © hoje em dia ainda menos. Os que nunca tinham posto os olhos em cima dum rei adivinharam, como 0s outros, a solucdo do enigma. Uns consi- deravam-me um soberano do Norte, outros diziam que 0 meu reino era no Meio-dia. Quanto ao conde Pedro, continuava a ser 0 conde Pedro. Apareceu um dia entre os banhistas da ci- dade um comerciante que tinha aberto falé: cia para enriquecer; gozava da consideracéo geral e projectava uma sombra enorme, se bem que pélida. Tencionava fazer ostentacéo da fortuna acumulada e pretendia até rivalizar comigo. Eu lancel mao da minha bolsa e o pobre diabo viu-se obrigado, para salvar o prestigio, a abrir nova faléncia e a sumirse para 14 dos montes. Assim me vi livre dele! Muitos ociosos e valdevinos criei naquela terral No meio do régio fausto e da prodigalidade de que usava com toda a gente, a minha vida doméstica nao deixava de ser simples e reti- rada. A prudéncia assim mo aconselhava. Ninguém senao Bendel entrava nos meus apo- o ‘cordo com Bendel, a resolucao de ir naquela mesma noite visité-la ao jardim do inspector. Em certas alturas, enganavame a mim mesmo, pondo grandes esperancas na proxima chegada do desconhecido de fato cinzento, para logo a seguir me censurar por alimentar Semelhante esperanca. Calculara, dia por dia, © momento em que a terrivel personagem havia de chegar; ele tinha dito «um ano e um dia» € eu dei crédito a palavra dele. Os pais de Mina eram pessoas velhas e honradas, muito amantes daquela filha Gnica; viram-se diante da situagao, quando ela era Jé um facto consumado e estavam hesitantes na posi¢do a tomar. Nunca Ihes teria passado pela que 0 conde Pedro viesse sequer @ pensar na filha deles e, afinal de contas, amava-a e era amado por ela; a mae, em boa verdade, era. suficientemente vaidosa para crer na possibilidade dum.casamento e para tudo fazer no sentido de o realizar; 0 robusto bom-senso do velho inspector nao se deixava seduzir por ambigdes tdo irrealistas. Ambos estavam convencidos da pureza dos meus fentimentos e rezavam pela felicidede da a. Tenho comigo uma carta de Mina escrita nessa é6poca e que guardei ciosamente. E a letra dela, no ha divida. Deixa que a trans- creva: «Sou uma pobre moga, cheia de ideias lou- cas. Imaginel que o meu bem-amado, s6 porque eu 0 amo do fundo do coracio, havia de corresponder &s minhas loucuras, Tu és tio bom, téo bom... Mas néo te sacri . Nao tens por que te sacrificar. Se o fizesses, eu sentiria édio por mim prépria. N&o, ensinaste-me o amor, tornaste-me feliz. Afastacte! Eu sei qual é 0 meu destino: o conde Pedro nao me pertence a mim, pertence sentos, fosse por que pretexto fosse. E quanto o sol raiava, eu permanecia fechad com 0 meu confidente e mandava anunci que o conde estava ocupado. As pessoas, claro, relacionavam esta minha ocupacao cor © muito correio que recebia e expedia a pr posit de tudo e de nada. $6 & noite recebi convidados, no jardim cheio de arvores entdo no saléo habil e ricamente ilumina gracas aos cuidados de Bendel. So saia, usand. de toda a prudéncia e sob a vigilancia ate do meu Argos, para ir ao Jardim do inspector florestal encontrar-me com Mina: 0 amor el a Unica coisa que dava algum encanto a minhi existéncia. Espero, meu estimado Chamisso, que aind te lembres do que € 0 amor. Poderds preei cher as lacunas do que te conto. Mina e1 uma menina boa e piedosa, dignissima d ser amada. Eu atraira-a completamente: humi de como era, Mina ignorava as razGes que m tinham levado a por nela o meu olhar, mi correspondia com amor ao meu amor, amavi -me com a paixdo juvenil dum coracao in cente. Amava como mulher que era, sacri cava-se totalmente, sem sombra de egoismt dando-se toda aquele que era a sua vida, set pensar que um tal amor podia resultar perdic&o. Amava autenticamente. Eu (oh tempos terriveis!, muito embora sint desejos de voltar a vivé-los!) passava horas chorar, reclinado no peito de Bendel; apés ‘embriagués dos primeiros tempos, det ef reflectir, entrei em mim, no homem sem sot bra, que, preparando com pérfido egofsmo. perdic&o’ daquele anjo, o havia atraido co mentiras, para Ihe roubar a alma sem manchi Um dia decidi contar-Ihe tudo; fiz depois solene promessa de me libertar do seu amot de fugir; com solucos de dor, tomei até, di a 63 ‘a0 mundo inteiro. Seré para mim uma glér ouvir um dia dizer: ele foi isto e mais i: realizou tudo isto ¢ 0 seu nome foi por es: motivo abengoado e adorado. Quando pen: em tudo isto, censuro-te por abandonares altos destinos em favor duma pobre mo como eu. Afaste-te, para que tal pensamer no me torne infeliz, a mim que, gracas a tenho sido téo feliz. Néo terei sido na vida um simples botéo de rosa, como 0 q ornava a coroa que me fol dado oferecer-te! No mais fundo'do coracéo, ficas para semp1 ‘comigo; nao receies abandonar-me. Gracas ti, por amor de ti, morrerei feliz, indizivel mente feliz!» Deves imaginar como estas palavras m dilaceraram 0 coracéo. Expliquei-Ihe que ni era © que me julgavam, mas téo-somente ut homem rico, embora infinitamente infeliz, qu pesava sobre mim uma maldicdo, que es era um segredo entre nés ambos, pois na perdera ainda todas as esperancas de a v conjurada; e que o que mais afligia a mint vida era a ideia de a arrastar comigo pai 0 abismo, a ela que era a minha Gnica |i a Gnica ventura, o centro de toda a mini vida. A vista da minha infelicidade, ela pds-s a chorar. Era téo terna e bondosal Para pagal © resgate duma unica das minhes lagrimas teria sacrificado, alegremente, a sua vida it teira. Tal nfo era, de modo nenhum, a interpr tacéo das minhas palavras; ela tinha a va ideia de que eu era algum principe vitima du anétema, uma cabeca coroada condena exilio; a imaginacao dela no cessava de v © bem-amado a desempenhar um papel e: pléndido em cenas herdicas. Um dia disse-the: «Mina, 0 dltimo dia proximo més pode trazer ao meu destino um on mudanga, uma decisdo definitiva; se assim néo for, 0 meu desejo é morrer, Porque nao quero ser causa da tua desgraca.» Reclinou a cabeca no meu peito e comecou @ chorar: —Se 0 teu destino mudar, bastame sa- ber-te feliz; mas nao tenho sobre ti qualquer direito. Se fores infeliz, prende-me a tua miséria, que eu te ajudarei a suporté-la —O querida, néo deixes a tua boca dizer uma coisa téo imprudente... Sabes de que miséria se trata, qual a maldi¢ao que aflige © teu bem-amado, sabes que cle... Néo ves © meu pavor, 0 meu terror, néo vés que tenho um segredo, um segredo que néo posso dizer? Prostrou-se, aos meus pés, a solucar e con- tinuou a suplicar, invocando as minhas juras de amor. Entrou nesse momento o pai e eu declarel- -lhe a minha intengéo de pedir a mao da filha no primeiro dia do més seguinte. —Fixo esta data — acrescentei —, porque, entretanto, pode haver acontecimentos sus- ceptiveis de influenciar o meu destino; a ver- dade, porém, 6 que o meu amor por sua filha nao mudaré. © bom do homem ficou estupefacto quando ouviu estas palavras proferidas pelo conde Pedro. Logo a seguir abragou-me, confuso Por ter traido 0 que sentia; teve entao a idela de hesitar, de reflectir e de inquirir; falou no dote, na seguranca, no futuro da filha querida Eu mostrei-me agradecido por ele me ter obri- gado a pensar. Declarei-lhe que era minha intengdo ficar a morar naqueles sitios, onde, pelos vistos, era estimado, e levar uma vida tranquila. Pedi-lhe adquirisse, em nome da filha, as mais belas propriedades que na regio estivessem & venda e me enviasse os vende- os dores, para eu hes pagar; um pai (acl tei) podia, mais do que ninguém, ajudar. aspecto o noivo da sua filha. Teve mil dades em cumprir esta misséo, porque : sido precedido no negécio por um estrange desconhecido e, desse modo, o total das pras ficou-se pelo milhéo. A finalidade em vista, ao dar-he este balho, era afasté-lo do meu convivio, ¢ foi a primeira vez que assim procedi com até porque era um homem muito impor A mie, pelo contrério, era surda e menos ciosa da honra de divertir com as conversas 0 senhor conde. Calhou entrar nessa altura ¢ fui convi a ficar naquela noite em casa deles. M festei-lhes a impossibilidade de ficar um nuto que fosse, pois via jé a lua a despot no Horizonte: tinha passado a minha hora. Na tarde do dia seguinte, voltei ao jai do inspector florestal, todo rebucado na com o chapéu enterrado até aos oll Corri para Mina; assim que ela erqueu olhos e me viu, fez um movimento involuntér Vi entao nitidamente no meu espirito aqui noite Iligubre em que sai de casa, 8 luz luar, sem sombra. Ela tinha-me visto.. S que me reconhecia? Estava nciosa e ‘sativa e eu tinha no peito um peso insupo! vel. Despedi-me; ela, em siléncio, encos ‘a0 meu peito a chorar. Saf. q Dali em diante, vi-a muitas vezes a chor caixas de ouro e esperava, vigilante, a déci primeira hora. E ela soou. 06 Fiquei imével, sentado, de olhos fitos nos iteiros do relégio, contando os segundos, minutos, que eram para mim como outras (tas punhaladas. A cada ruldo que ouvia, ha um sobressalto. Amanheceu. Pesadas mo chumbo, sucediam-se as horas. Chegou meio-dia, a tarde, a noite; os ponteiros avan- am, a esperanca ia esmorecendo; os dl- jmos ‘minutos da dltima hora passavam inguém aparecia. Bateu a primeira pancada ‘do meia-noite, bateu a dltima, e eu deixei-me ir na cama, desesperado, lavado em légri- mas. Devia no dia seguinte pedir a méo da minha amada; s6 de manha 6 que um sono ‘ngustiado me fechou os olhos. 7 Cedo ainda comecei a ouvir vozes na anteca- mara e percebi que se tratava de uma violenta discussao. Pus-me a escuta: Bendel defendia @ minha porta. Rascal, por entre muitos pala- vroes, asseverava que néo recebia ordens de quem era tanto como ele e insistia em penetrar nos meus eposentos. Bendel censu- rava-o, dizendo-lhe que tals palavras, se che- gassem aos meus ouvidos, o fariam perder 0 bom emprego que tinha. Rascal ameacava usar de violéncia, se ele continuasse a ve- darlhe @ passagem. Eu estava jé meio-vestido; furibundo, abri recipitadamente @ porta e ful direito @ Ras- cal: —Que € que tu queres, velhaco? Ele recuou dois passos e respondeu com toda a frieza: —Pedirthe muito respeitosamente, senhor conde, que me mostre a sua sombra. No patio, esté um sol maravilhoso! Fol como se um ralo me tivesse fulminado. Fiquei muito tempo sem conseguir dizer uma 86 palavra. —Como pode um criado — perguntei —, ne presenca do amo... o Cortou-me a palavra: —Um criado pode ser muito honrado e ni desejar servir um homem sem sombra. Ven requerer dispensa do meu servico. Era_pteciso mudar de tom: —Rascal, meu caro Rascal, quem foi q te meteu isso na cabeca? Como podes pensar... —Hé pessoas que dizem que Vossa Mer no tem sombra—continuou ele no mesi tom.—E ou Vossa Mercé me mostra a si sombra ou entéo despeco-me. Bendel, pélido e trémulo, mas mais refl tido do que eu, fez-me um sinal e eu lan mao do ouro que ultrapassa todos os obst culos. Mas 0 ouro perdera todo o poder Rascal atirou-mo aos pés: —Ndo recebo presentes de quem nem soi bra tem. Dito isto, voltou costas, e, de chapéu ni cabeca, assobiando uma cantiga, saiu da sal Eu fiquei com Bendel, petrificado, seguind com o olhar, sem conciliar a minima. idei sem fazer um 86 movimento. ‘Com um suspiro profundo e a morte alma, preparei-me para honrar a palavra dad: comparecendo no jardim do inspector, cor © criminoso na presenca dos juizes. Ent sob 0 caramanchéo sombrio a que tinha j sido posto o meu nome e onde era esperad Foi a mae de Mina que me recebeu, alegi e descuidada. L4 estava Mina & minha espera, bela e pilida, alva como a neve que. as veze: no Outono, cai como um beljo sobre as ulti: mas flores, transformando-se de imediato e' Agua amarga. O inspector florestal. com ur papel na mo, caminhava de um lado par: © outro e parecla reprimir os mais desvairados sentimentos que, apesar disso, se lhe refle tiam ora no rubor ora na palidez dum ros! 70 habitualmente impassivel. Quando entrei, avan- gou para mim e, com palavras entrecortadas, Pediu para conversar comigo a sés. A avenida r6xima do caramanchéo levava a um sitio do "Jardim aberto e cheio de sol. Sem dizer pala- yra, deixeime cair numa poltrona, em meio dum siléncio que nem a prépria mae de Mina ousou interromper. O inspector, entretanto, néo parava de pas- sear, com ar furioso, de um lado para o ou- tro: de repente, estacou diante de mim, olhou para a carta que trazia na mao e perguntou com um ar terrivel: —Senhor conde, 0 nome de Pedro Schle- mihl diz-the alguma coisa? Fiquet calado. —Um homem de excelente cardcter e par- ticularmente dotado...? Esperava uma resposta. —E se fosse eu esse homem? —atalhei. —Um homem — acrescentou energicamen- te — que perdeu a sombral —Eu bem adivinhava! —disse Mina, — Eu sabia que ele ngo tinha sombra, hé muito que © sabial E correu para os bragos da mae que; espan- tada e abracando-a convulsivamente, comecou a censuré-la por néo ter denunciado um tal segredo. Qual Aretusa, tornada em fonte de lagrimas, Mina chorava com mais forca a cada palavra que eu dizia e era uma verdadeira inundagéo sempre que eu tentava aproxi- mar-me. —E nGo hesitou —continuou o inspector, irritado— em cometer a imprudéncia de en- ganar esta crianca, de me enganar a mim! E depois vem dizer que a ama, depois de a ter reduzido a esta desgracal Ponha os olhos no desespero dela! Desgracado! n Eu estava téo desorientado que dei e proferir palavras delirantes, declarando afinal de contas, uma sombra é uma sombi e nada mais, que se pode viver sem ela e qi nao valia a pena fazer tanto barulho por ul coisa de nada. Sentia, porém, a inanidade que dizia, tanto que me calei antes de ele s dignar responder-me. Acrescentel apenas qu © que se perdeu pode vir 2 encontrar-se ul dia. Perguntou-me num tom de voz ameacador —Como foi que perdeu a sombra? Vime obrigado a mentir: —Foi um alarve que pos um dia o pé cor tanta forca em cima dela que a deixou to esburacada... Mandei-a logo consertar, poral © ouro consegue tudo; deviam ter-ma trazi ontem. mas néo 6 0 tnico; eu, como pai que sot Ppreocupo-me com o futuro dela; dou-lhe tré: dias para ir @ procura da sombra; se daqt a trés dias me aparecer com uma sombi conveniente, sera bem-vindo; mas no quat dia, tenha a certeza disso, minha filha ser de ‘outro. Tentei ainda falar com Mina, mas ela, cor solugos de cortar 0 coracao, abragou-se ain mais & mae e esta, evidentemente, mandou-m afastar. Afastei-me, cambaleante, com a it presséo de que o mundo se fechava atré de mim. Fugindo @ afectuosa vigiléncia de Bendel percorri, em_correria desenfreada, florest é planuras. Corrie-me da fronte 0 suor, nai ciam-me do gemidos abafados, todo io. Durava esta minha fuga hé nao sei quant tempo, quando, no meio duma charneca bati n pelo sol, alguém me agarrou pela manga. Parei e voltei-me: era o homem do fato cin- zento, que parecia esbaforido de ter corrido atrés ‘de mim. Tomou logo a palavra: —Eu tinha anunciado que chegava hoje; nao conseguiu esperar por mim; mas ndo se perde nada. Vai ter de ser razodvel, meu caro: f& sombra esté & sua disposi¢ao © pode re- gressar. Seré bem-vindo no jardim do inspector @ tudo 0 que se passou no seré mais do que uma brincadeira. Quanto a Rascal, que o traiu @ quer desposar a sua noiva, eu encarrego-me dele, desse velhaco. Eu estava como adormecido: —Anunciou que chegava hoje? Reflecti demoradamente nas datas... ele tinha razéo, eu é que me tinha enganado num dia, logo no comeco. Level a mao direita a bolsa que tinha no peito. Ele adivinhou a minha inteng&o e recuou dois passos. —N4o, senhor conde! Esté em muito boas maos. Pode ficar com ela. Olhet para ele, hesitante, de olhos em alvo, estupefacto. —Peco apenas —continuou—uma coisa de nada, como recordacao: quer ter a bondade de assinar este escrito? E entregou-me um pergaminho com os se- guintes dizeres: «Eu, abaixo assinado, cedo ao detentor da presente a minha alma, tao depressa ela se liberte do corpo.» Mudo de espanto, olhei para o pergaminho e logo a seguir para o homem do fato cinzento. Ele, entretanto, com uma pena acabada de talhar, recolheu uma gota de sangue de um arranhaéo que eu tinha feito com um espinho numa das mos @ entregou-ma. —Mas quem é Vossa Mercé? — perguntei. —Que importa isso? — respondeu ele. —Néo se vé logo? Um pobre diabo, assim 73 daquela maneira. Odiava-o do fundo do cora- géo e creio que era essa repugnancia pessoal, mais do que quaisquer principios ou precon- ceitos, 0 que me impedia de resgatar com a assinatura requerida a sombra de que tanto precisava. Era-me insuportével a simples Ideia de fazer na companhia dele a peregrina- gé0 que me era proposta. Ver aquela odiosa Personagem com ar de fantoche trocista meter o nariz entre mim e a minha noiva, entre dois coragdes dilacerados, revoltava-me profundamente. Mas aceitei os factos como obra da fatalidade, aceite! a desgraca como Goisa inelutavel e, voltando-me para o homem, lisse: —Meu caro senhor, vendi-lhe j4 a sombra em troca desta bolsa que em si mesma merece todos os elogios, mas fiquei assaz arrepeso. Se fosse possivel voltar atrés, juro-Ihe que voltaria, ‘Abanou a cabeca com um esgar de meter medo. Eu continuei: —Por isso mesmo, néo estou na disposicao de Ihe vender nada do que possuo, nem mesmo em troca da minha prdpria sombra; nfo vou ‘assinar coisa nenhuma. De tais factos serd facil concluir que a mascara que me propde iria diverti-lo mais a si do que a mim. Peco, pois, muita desculpa e, sendo as coisas como 80, melhor ser ir cada um & sua vida —Lamento, senhor Schlemihl, que telme em recusar 0 negécio que a minha amizade Ihe propés. Mas talvez, para a préxima, eu tenha mais sorte. Adeus, até breve! A pro- Pésito... permita Ihe mostre como eu néo deixo estragar as coisas que adquiro, antes as respeito e guardo ciosamente, como nin- guém mais as guardaria. Dito isto, u da algibeira a minha sombra e, desenrolando-a com presteza, estendeu-a uma espécie de médico ¢ sébio que. em pag: das habilidades que sabe fazer, recebe d amigos ingratidées, e que nao tem na vid outro divertimento que nao sejam as suas proprias experiéncias. Mas assine ai, & direite e ao fundo: Pedro Schlemihl Abanei a cabeca e respondi: —Desculpe, mas néo assino. —Néo?— retorquiu ele, m — Porqué? —Quer-me parecer que € muito arriscad trocar a alma por uma sombra. —€ boa!—tornousme ele, com uma ga galhada.—€ arriscado? Mas, permitame pergunta, o que 6 isso da alma? Alguma vé a viu? Depois de morrer, para que Ihe serv a alma? Eu acho que devia sentir-se mult satisfeito por saber que ha um amador di posto a pagar-Ihe, em vida, 0 prego devi pela heranca péstuma desse X, dessa for galvanica, dessa energia polarisante, do qu quer que seja essa coisa burlesca (’), 2 pag por ela mais até do que vale, ou seja, umn sombra real, com a qual poderé conquistar mao da mulher que ama e alcangar tudo quar to deseja. Ou serd que prefere deixar a ‘quena nos bracos daquele patife do Rasc prefere ceder-Iha a ele? Nao! Hé-de ver cot ‘os seus préprios olhos; venha, que eu empre: to-lhe 0 capuz magico (e retirou da algibel uma coisa qualquer) e iremos ambos. ji siveis, fazer uma peregrinacéo até ao jardit do inspector. Devo confessar que me sentia terrivelment envergonhado por 0 homem me ridiculari (©) Chamisso acrescentou, na_verséo frances essa enteléquias. Entelechia, ‘termo da_filosofia Aristoteles e Lelbniz, tem aqui 0 sentido de «al ‘que no se entender. 7 75 . aos pés, virada para o sol; ficava assim duas sombras, a dele ea minha, tendo minha de lhe obedecer, de se conformar, seguir todos os movimentos dele. Quando, ao fim de tanto tempo, vi a mini pobre sombra reduzida a tao humilhante se ventia, numa altura em que, por falta dela, via votado & desgraga, o meu coracéo desfez e comecei a chorar légrimas de amargur A odiosa personagem continuava a passe & minha frente, ostentando a presa que m tinha roubado e renovando desavergonhai mente a oferta: —Continua & sua disposicao! Basta ut assinatura para poder salvar a pobre e infel Mina das garras dum patife e a fazer cair ni bracos do senhor conde... S6 uma assinatut nada mais! O meu pranto redobrou, mas consegui vit costas e afastar-me. Na ha frente apareceu entéo Bendel qt cheio de inquietacao, tinha seguido o m rasto. Notando as minhas légrimas e ve a minha sombra, pois s6 podia ser ela, ni méos do estranho desconhecido, resolvel fazer tudo para eu ndo sair dali sem o q era meu, usando embora de violéncia, como a mansidéo nfo era virtude que p zasse, dirigiu-se ao homem e, sem mul rodelos, intimou-o a restituir 0 que nao | pertencia. A resposta dele foi virar cost @ por-se a caminho. Bendel levantou ent&o u verdasca espinhosa que trazia e, corren atrés_ do desconhecido, flagelou-o com méxima energia, renovando a ordem para me desse a sombra. Mas, como se estives: habituado a tratos semelhantes, o. home baixou a cabeca, curvou-se todo e segui em frente, sem dizer palavra, levando-m 76 além da sombra, o meu fiel servidor. Durante muito tempo, continuou a ouvir-se o ruido das pancadas que ecoavam no meio do ermo. Depois, tornou-se mais débil. Estava nova- mente, como antes, s6 com a minha desgraca. ” vi Ao ver-me s6, na charneca deserta, deixei as ldgrimas correr, aliviando assim o meu pobre coraco da ‘indizivel angustia que o oprimia. Percebia que a minha desgracga nao tinha limites, nem saida nem fim, mas foi no veneno servido pelo desconhecido que matei a minha sede de 6dio. Trazendo a ideia a imagem de Mina, o seu rosto adorado apa- receume banhado em lagrimas, tal como o tinha visto da ultima vez, mas, agora, 0 sem- blante escarninho ¢ insolente de Rascal in- terpunha-se entre nés. Tapei os olhos e deitei a fugir pela campina deserta; mas a viséo horrenda no me. largava, perseguiu-me in- cansavelmente até a0 momento em que me deixei cair, sem folego, no chéo, regando a terra com uma torrente de légrimas. Tudo isto por causa de uma sombra! E ter- -me-ia bastado uma assinatura para a reaver! Pensei na estranha proposta e na minh: recusa. Reinava dentro de mim o caos, néo tinha sequer 0 dominio de mim préprio. Entardeceu. Matei a fome com frutos sel- vagens e bebi da nascente mais. préxima. Ao ‘air da noite, deitei-me debaixo duma arvore. A humidade matinal despertou-me dum n sono pesado, durante o qual me ouvi a arf com estertores de moribundo. Bendel nai devia ter achado o meu rasto, facto que mi dava alguma consola¢ao. O meu desejo el no voltar para o meio dos homens, dos quais fugia como deles fogem os bichos ferozes d montes. Assim vivi trés dias angustiosos, Na manha do quarto dia, vi-me no mei duma planicie arenosa exposta a Sul; esta sentado no meio duns rochedos, ao sol, qui agora gostava de contemplar, depois de ter estado tantos anos sem para ele olhar. E siléncio, deixei 0 coracéo cevar-se no set proprio desespero. De sabito, senti um lev ruido perpassar junto a mim. Receoso, olhel em volta e preparel-me para fugir. Nao vi ninguém, Mas, na areia batida pelo sol, de: lizou uma sombra semelhante & minha qu passando por ali sozinha, dava a impressa de ter fugido a0 dono. Fui_dominado por um certo entusiasmo: «Sombra (pensei), procuras um dono? Serei eu.» E corri atrés dela. Pensava eu que, s lograsse ir pelas passadas da sombra, ela s adaptaria aos meus pés, podendo fixar-se e, com o tempo, habituar-se a mim. ‘Ao meu primeiro. movimento, a sombré pés-se em fuga e eu tive de lhe ‘mover um Perseguicao para a qual nao tinha mais forca: do que a da vontade de escapar a terrivell situacdo em que me encontrava. Fugia a som- bra direita a um bosque, que ficava a certa distancia © no seio do qual ia certamente perdé-la. Ao perceber tal facto, o terror apo-| derou-se do meu coracao, inflamou o meu deseio e deu-me asas. Estava id perto de alcancar a sombra, ia jé perto dela, nao tar- daria a apanhé-la. Foi entéo que ela parou e se voltou para mim. De um salto, como 0 leo sobre a presa, arremeti contra a sombra. 60 procurando agarré-la: bati inesperadamente num corpo que me resistia. Recebi logo a seguir de mos invisiveis as mais formidaveis bofetadas que um ser humano alguma vez sentiu. O meu terror deu-me forcas para apertar convulsivamente os bragos e prender solida- mente o ser invisivel que tinha na minha frente. Para tanto, deixei-me cair sobre ele: debaixo de mim, deitado de costas, estava o homem que eu tinha agarrado © que sd entéo se tornou visivel. $6 nesse momento a aventura adquiriu uma explicacao natural. O homem, a principio, devia levar na mao o ninho invisivel que torna invisivel quem o leva mas nao a respectiva sombra. Olhei em redor com toda a atencéo e vi a certa distancia o ninho invisivel; pus-me logo de pé e corri a buscar a preciosa presa. Com 0 ninho na mo, tornava-me invisivel e sem sombra. (© meu adversério ergueu-se logo a segui procurando descobrir o seu vencedor, mas, na planicie batida pelo sol, nao viu o homem nem a sombra que, angustiado, procurou com 0 olhar. Nao tinha tido tempo para o perceber, nem podia supor que eu nao tinha sombra. Quando deu conta de que o seu vencedor tinha desaparecido sem deixar rasto, sentiu-se de- sesperado, eshofeteou-se e arrancou 0 cabelo. Quanto a mim, 0 tesouro recém-conquistado davame a um tempo a possibilidade e o desejo de buscar novamente a sociedade hu- mana. Néo me faltavam pretextos para justi- ficar aos meus prdprios olhos este roubo insolente, se 6 que tal justificagéo se me impunha; foi para fugir de todo e qualquer pensamento deste género que resolvi afastar- -me, sem me virar, do desaracado cuja voz angustiada ouvi durante muito tempo ressoar er atrés_de mim, Esta foi, pelo menos, a Presséo que nesse momento me causaram diferentes circunstancias do acontecido. Estava a arder em desejos de penetrar | jardim do inspector e de verificar pess. mente 0 que 0 odioso homem de cinzento contara. Mas nem sequer sabia onde esta\ ‘subi, para me orientar, ao outeiro mais ximo @, 4 do cimo, vi'a cidadezinha e, © Jardim do inspector florestal. O coragéo batia-me no peito, vieram-me. lagrimas aos olhos, mas eram légrimas di rentes das que até ali tinha chorado: 6 ia vé-la de novo! Ao descer pela vereda mi directa, 0s meus passos eram animados um desejo e uma ansia como nunca senti Passel sem ser visto por alguns campénit que vinham da cidade; falavam de mim, Rascal e do inspector; eu nada ouvia, limita -me a caminhar sempre em frente. Penetrei no jardim, com o coracéo domin: pelo temor e pela ansiedade. Chegou-me | aos ouvidos uma_gargalhada. Assustei-me: olhei em volta; nao descobri ninguém. Se sempre em frente; pareceu-me ouvir muil perto um ruido de passos; mas nada qi fosse visivel. Pensei que o meu. ouvido enganava. Era ainda cedo, néo havia ningu no caramanchéo do conde Pedro e o jardit estava deserto. Percorri as alamedas famili res e avancei até a casa. Seguia-me, ca vez mais distinto, o ruido anterior. Desori tado, sentei-me num banco, num local chei de sol, frente & porta de entrada. Tive a i presséo de que 0 deménio, invisivel e esc: ninho, se sentava ao meu lado. Vi a cha da porta rodar, a porta abrirse, e dela sal © inspector. com papéis na mao. Senti ur espécie de nevoeiro a perpassar sobre cabeca, voltei-me e, assombrado, vi senta e2 Mente com o perga ‘go meu lado o homem do fato cinzento, olhan- ‘do para mim, com um sorriso saténico. Tinha wolocado na minha cabega o capuz magico iQue trazi ; aos seus pés, jaziam lado a lado minha sombra e a dele; brincava negligente- ho que eu jé conhecia perfeitamente; enquanto 0 inspector, com os papéis na mo, passeava de um lado. para ‘outro do caramanchéo, o estranho, com muita femiliaridade, disse-me ao ouvido: —Afinal sempre aceitou o meu convite! Desta feita conseguimos ser duas cabecas dentro do mesmo chapéu, como s6i dizer-se. Muito bem, muito bem! Mas vai ter de me restituir 0 ninho magico. J4 no precisa dele © creio-0 suficientemente honesto para nao tentar ficar na posse dele... Nao, no se canse @ agradecer, que eu emprestei-Iho da melhor vontade... Tirou-mo entéo da mao, sem que eu lhe opusesse resisténcia, meteu-o no bolso e soltou uma tal gargalhada que 0 inspector se voltou. Eu estava perfeitamente siderado. —Hé-de confessar — prosseguiu ele — que um capuz destes 6 muito mais o6modo; nao 86 cobre o dono como também outras pessoas que ele haja por bem levar consigo. Hoje, ‘como pode ver, somos dois. E tornou a rir. —Repare, Schlemihl, como acabamos sem- pre por fazer forca uma coisa que antes podiamos ter feito de bom grado. A meu ver, Vossa Merc® devia resgatar 0 que é seu: tornava a recuperar a sua -noiva e mandava- mos 0 Rascal para a forca, o que até é facil, ‘enquanto existirem cordas. Mais do que isso: ofereco-the também o meu proprio capuz. A mae da noiva saiu de casa e comecou a conversar com 0 marido: cy —Que est4 a fazer Mina? —Esté a chorar, — Que tola! Nunca mais ira parar com iss —E claro que néo! Dé-la logo a outro, de repente! Tem sido muito cruel com a st filha! ——Néo tenho, mulher! A senhora é que tudo ao contrério! Quando ela, antes mesi de secar aquelas lagrimas infantis, se casada com um homem riquissimo ¢ res} tado, hé-de libertar-se de todas as méj e dar gracas a Deus ¢ aos pais! Haver de ver! Deus queiral —Ela tem algo de seu, 6 verdade! M depois do barulho que toda esta historia © aventureiro provocou, seria possivel encor trar um. partido tao bom como o senhor R: cal? Sabe a quanto orgam os bens deli milhées, s6 aqui na regido, livre A uns seis de hipotecas e sem dividas! Tive j4 os cumentos ‘na mio. Era ele que aparecia sei pre antes de mim a comprar as melhores pi Briedades; e, além disso, em notas do ban de Thomas John, teré ai uns trés. milhdes meio, —Devem ter sido roubados! —Néo diga uma coisa dessas! Po enquanto outros esbanjavam! —Um homem que andou ‘de libré!... —Néo diga asneiras! Tem uma’ so excelente, pelo menos! —Tem ‘razéo, mas. © homem do fato cinzento rivse e oll para mim. Abriu-se a porta’e salu: Mina. amparada por uma camareira ¢ corriam-lhe lagrimas pelas faces pélidas, Sentou-se m cadelrio adrede preparado, & sombra es tilias, e 0 pai tomou assento ao lado dela. 'Pegou-lhe ternamente na mao e, enquanto la chorava com redobrada violéncla, dirigiu- Ihe estas palavras: —Tu és a minha filha querida. Tens de ser razodvel, néo quererés magoar o teu velho pai que s6 quer a tua felicidade; eu com preendo, minha querida, que tudo Isto te des- norteou; 86 por milagre escapaste a desgraga. Amaste esse desgracado, enquanto as fraudes "por ele praticadas néo se descobriram. Eu sel so, Mina, @ ndo te censuro. Eu préprio'o estimel, filha, enquanto o considerava um grande ‘senhor. Mas agora, bem vés, tudo mudou. Nao ha cachorro que néo tenha som- bra, querida, e a minha Gnica filha havia de desposar.... Néo, nem penses... Apareceu agora um homem a pedir a tua mao, Mina, um homem que néo receia o sol, um homem respeltado, que néo é nenhum principe, é certo, mas que tem uma fortuna de dez mi- Ihdes, dez vezes mais do que tu, um homem que faré a felicidade da minha querida filha. Nao digas nada, deixa tudo comigo, limitate @ ser uma filha obediente, uma filha, € deixa que 0 teu pal muito amigo se ocupe da tua felicidade ¢ te seque as lagrimas. Pro- mete que dards a mao ao senhor Rascal. Pro- metes ou n&o? —Deixel de ter vontade —respondeu ela com voz mortic¢a —, deixel de ter desejos. Fa- rei tudo quanto meu pai quiser. Nesse momento fol anunciado o senhor Rascal que entrou com _semblante insolente. Mina tinha desmaiado. © meu odioso compa- nheiro deitou-lhe um olhar furioso e murmu- rou estas breves palavras: —Consegues suportar isto? O que 6 que tens nas velas, em vez de sangue? 8s ; Com um gesto répido, fez-me um arrani na mao: —Tem sangue vermelho, afinal! — c« nuou. — Vamos, assine! © pergaminho e a pena estavam nas n nhas mos, 80 vil Meu caro Chamisso, entrego-me ao teu julgamento e tudo farei para néo o influenciar. Eu proprio me submeti jé a julgamentos mais severos, pois alimentei no intimo do coragao © verme que mo roja. Via, a toda a hora, passar diante da minha alma aquele momento grave da minha vida e s6 conseguia olhar para ele com alguma divida e muito arrepen- dimento. Quem comete a leviandade de fugir ‘a0 caminho recto, meu caro amigo, 6, sem querer, arrastado por veredas que, de dia para dia, 0 véo impelindo para o abismo. Véo, nessas alturas, é 0 clarao dos astros que nos guiam, nao ha ja escolha possivel, 6 mister descer inexoravelmente a encosta ¢ sacrifi- carmo-nos nas aras de Nemésis. Depois da- quele inconsiderado desvio que me tinha transformado num réprobo, entrara, pela accao do amor, tomando-a de assalto, na vida duma outra erlatura: eu tinha semeado a ruina, erame pedido que interviesse rapidamente como salvador. Que podia eu fazer sendo in- tervir cegamente? Soava a hora suprema Nao facas mé ideia de mim, Adalberto! Nao creias que 0 pre¢o a pagar me parecesse excessivo @ que 0 regateasse, eu que nunca o tegateei o meu ouro. Nao, Adalberto! A mi alma 6 que estava cheia de ddio contra) enigmética personagem que encontrava si pre em vielas tortuosas. Talvez eu fosse justo, mas revoltava-me toda e qualquer 40 com ele. Foi, de resto, como muitas v me aconteceu e acontece também na hist do mundo, foi um caso fortuito que acal por decidir de tudo. Reconciliei-me mais tat comigo mesmo. Comecei por aprender a ver rar a necessidade: haveré alguma coisa mi dependente dela do que a accao cometida @ acontecimento que nao quisemos? Passei pois a considerar a necessidade como ut Providéncia sabia cujo sopro se faz sentir ati vés de todo o organismo dum mundo no qual’ nossa intervencéo se assemelha & das rode que trabalham para um objectivo comum, re bendo e dando impulsos. O que tem de acc tecer acontece inelutavelmente, 0 que de ter acontecido aconteceu e aconteceu grat intervencéo dessa providéncia que aprendi a venerar no meu destino e no de} tino daqueles que o meu influenciou. Nao sei se atribua o facto a tensao minha alma impelida por tao violentas i Pressdes ou ao esgotamento das forcas fis cas, enfraquecidas pelas desusadas privac dos dltimos dias, ou mesmo a revolta ti que a presenca do monstro vestido de cinzen Provocava em todo o meu ser. Em resumo: momento de assinar, desfaleci ¢ fiquei mui tempo como nos bracos da morte. Berros e palavrées foi a primeira coisa qi me soou aos ouvidos quando voltei a mim abri os olhos. Escurecia; 0 meu odioso co! panheiro estava apoquentado comigo e cer suravame: «Que modos de proceder estes! Parece uma velha! Vamos tratar de fazer ee je ficou decidido ou qué? Ou mudou de nio e prefere choramingar?» Pus-me de pé com muita dificuldate e, llencioso, olhei em redor. la alta a noite; das janclas iluminadas da casa do inspector, inha uma misica festiva; nas alamedas afas- fadas passeavam grupos de convivas; alguns deles, tagarelando, aproximaram-se @ senta- yam-se no banco em que eu me tinha sentado. Falavam do casamento celebrado ina_manha daquele dia, do rico senhor Rascal e da filha do inspector. Tudo se consumara. Sacudi a cabega e libertei-me do capuz mégico do desconhecido, o qual desapareceu logo da minha frente e, sem dizer palavra, corri para a saida do jardim, mergulhando na sombra negra das sebes e seguindo pela rua que passava frente ao caramanchéo do conde Pedro. Mas 0 deménio, o meu perseguidor invisivel, ta comigo e repetia as mesmas pa- lavras mordazes: — esta a paga que se recebe pelo trabalho de velar o dia inteiro junto de Sua Mercé, que estava mal dos nervos! A paga 6 ser 0 bombo da festa. Teimoso! Fuja de mim, fuja! No é por fugir de mim que vamos tornar-nos inseparéveis. Esté na posse do meu ouro, mas eu tenho comigo a sua sombra e isso 6 0 bastante para nenhum de nés poder descan- sar. Alguma vez se ouviu que uma sombra pudesse largar o dono para sempre? A sua sombra atrastame atrés de si até que a receba de bom grado e me livre dela. Nao quis fazer as coisas de livre vontade, tem de ‘as fazer agora forcado e contrariado: ao des- tino 6 que ninguém pode fugir. Continuava a falar sem parar e sempre com 0 mesmo tom de voz. Era inidtil fugir-Ihe; no me largava, néo cessava de falar, com voz 4spera, do ouro e da sombra. A mim, 89 erame impossivel dizer ou sequer refle no que quer que fosse. Seguindo pelas ruas desertas, cheguei casa; ao olhar para esta, mal a reconhecl; se via luz atrés das janelas. As portas o: vam fechadas; no se notava o movimento criados. O meu companheiro pés-se @ —Sim, sim, as coisas chegaram 2 ponto! Mas o seu Bendel, esse, pelo mei esta a sua espera. Recebeu ordem para vol e voltou téo fatigado que nao deve ter sal a rua. Riu de novo @ continuou: — Hé-de ter histérias para contar. Vou in Por hoje, boa-noite, adeus e até brev Toquei varias vezes: a luz acendeu-se. Bi del, do interior, perguntou quem era. Ao virme, ao reconhecer que era eu, quase conseguiu dominar a sua alegria. A pol abriu-se de par em par e, chorando, cait nos bracos um do outro. Achei-o muito dado, mais fraco e doente; os meus cabel entretanto, tinham ficado todos brancos. ‘través dos aposentos devastados. le -me para uma divisdo interior que tinha si poupada; foi buscar de comer e de bebt ‘sentémo-nos e deu em chorar. Contou que, dia anterior, tinha espancado durante ul longa distancia o tal homem de cinzento se tinha apoderado da minha sombra, e tai se afastara que me perdera de vista e acabal por cair exausto; seguidamente, néo me contrando, regressara a casa; a populaca, tada por Rascal, invadira-a, arrombara pot e janelas e cevara nela a sua raiva destruti Assim mostrava aquela gente a sua aratidi a quem Ihe fizera bem. Os criados tinham: despedido e posto em fuga. A policia tint sentenciado a minha expulsio como suspei e dava-me um prazo de vinte e quatro hor pora abandonar os territérios da cidade. Além do que eu ja sabia sobre a riqueza e 0 casa- jnento de Rascal, Bendel falou-me de outros ficontecimentos. O celerado, causa primeira fe tudo quanto havia sido maquinado contra nim, conhecia, pelos vistos, 0 meu segredo fesde o principio: atraido pelo ouro, arranjara ‘grtes para se me impor e, logo no comeco. fonseguiu arranjar uma chave do armédrio ‘onde eu tinha posto 0 ouro, com o qual come- qou a edificar a fortuna que doravante nao the interessava jé aumentar. Todas estas coisas me foram relatadas por Bendel entre muitas légrimas, que depois se transformaram em légrimas de alegria por fornar a ver-me, e de felicidade porque. depois de muitas interrogagdes sobre o que podia ter-me acontecido, me via aceitar o destino talma e resignadamente. Tal era a forma que ¢m mim assumira o desespero. Via toda a fninha miséria, gigantesca ¢ inelutdvel. Esta prrancarame ja todas as légrimas e todos os jamentos possiveis; frio e indiferente, oferta- valhe agora a cabeca descoberta. "Bendel — declarei—, tu conheces a mi nha sorte. Cometi em tempos alguns erros € por eles sou castigado. Tu ndo fizeste mal figum e por isso ndo deves unir ao meu 0 teu destino. Eu nao quero. Esta noite partirel a cavalo; sela-me um cavalo, s6 para mim: tu ficas, 6 essa a minha vontade. Deve haver ainda aigumas caixas de ouro, ficam para ti. fu irel por esse mundo, sozinho e & toa: se ‘caso algum dia me sorrir uma hora de tran- quilidede, se © destino me conceder um 86 olhar de perddo, néo me esquecerei hei-de lembrar-me daquele em cujo peito cho- rei nas horas de magoa e de aflicéo. ‘Com 0 coragdo a sangrar, 0 pobre Bendel obedeceu, embora sentisse um terror enorme ” perante a ordem que do amo recebia; eu -me surdo as stiplicas e as lagrimas de trouxe-me 0 cavalo; abracei uma vez aquele fiel servidor, montei e, a0 abrigo escuridéo, parti daquela terra que fora © coval da minha vida, indiferente ao cami Para onde o cavalo me levava. A minha deixara de ter objectivo, nao alimentava qt quer desejo ou esperanga. vu Nao tardou a aparecer um caminhante que, depois de ter acompanhado durante algum tempo o passo da minha montada, me pediu, uma vez que seguiamos o mesmo caminho, licenga para colocar na parte de trés da sela uma capa que levava; eu consenti e néo disse valavra. Agradeceu reconhecidamente o meu favor e elogiou muito o cavalo, o que lhe ser- viu de pretexto para celebrar em voz alta 4 felicidade 0 poderio dos ricos, posto o que deu inicio, no sei bem como, a um monélogo que eu me limitel a ouvir passivamente. Desenvolveu varias opinides sobre a vida e Sobre o mundo e entrou depois nos dominios da metafisica, & qual atribuiu o condéo de resolver todos os enigmas que nos preocupam. Pés o problema com muita clareza e passou depois & busca da solucdo. Sabes, meu caro, que, depois da minha répida passagem pela escola dos filésofos, entendi rapidamente que n&o nasci para a especulacao filoséfica, dominio ao qual me sinto completamente alheio. Dessa altura em diante, cessel 0 aprofundamento de certos problemas, renunciei a saber e a compreender multas coisas @, conflando, como tu mesmo 22 es me aconselhaste, na rectidao do meu pro juizo, segui, tanto quanto posso e sei, a que fala no mais fundo do meu coracao. Ora deu-me a impresséo de que o edifi erguido por aquele falador era sélido ¢ alicercado, com bases muito seguras. Infel mente, vi logo que s6 néo continha aquilo que eu necessitava e todo o sistema me receu como uma simples obra de arte elegdncia e cujo acabamento perfeito se apenas para o prazer dos olhos. Nem por is deixei de ouvir deliciado aquele homem cundo que me desviava a atencao dos s mentos por que passara; facilmente o tet seguido, se ele tivesse sabido cativar-me alma como soube cativar-me o entendimer ‘As horas tinham, entretanto, passado sem eu dar por isso, a aurora comegava ji iluminar 0 céu. Tive um sobressalto quan erguendo o olhar, vi a nascente as esplen rosas cores que anunciam o nascer do E, contra este, numa hora em que as sombr se projectam no maximo de extensdo, havia no local protec¢do ou barreira a q eu pudesse recorrer. Endo estava s6. Ol Para o meu companheiro e fui acometido outro susto. Era nem mais nem menos do qt ‘@ homem do fato cinzento. Sorriu do meu semblante consternado _ continuou, sem me deixar dizer nada: —Dé-me licenca, pois assim o aconsell © costume, que una aos seus os meus i resses, nem que seja por breves instant temos tempo para depois nos separarmi Aquela estrada que segue a montanha, muito que 0 nao tenha ainda percebido, é nico caminho razoavel que pode seguir; a cer ao vale seria grande ousadia; tornar ercorrer a montanha jé atravessada tamb esté fora de questo. HA sé um caminho e o Por esse que eu vou... Vejo que empalideceu Qo ver raiar o sol... Eu empresto-Ihe a sombra, enquanto viajarmos juntos. Em troca, tera de aceitar a minha companhia. Além do mais, nfo tem j4 a companhia de Bendel; eu posso prestar-Ihe alguns servigos. Lamento que nao goste da minha pessoa. Mas isso nao impede Que utilize os meus servicos. O diabo néo é tio negro como o pintam. Ontem, para Ihe ser franco, irritou-me; mas hoje nao guardo j4 qualquer rancor, tanto que Ihe mostrei j4 © caminho mais curto, ndéo é verdade? Vé, tome a sombra e experimente-a. O Sol tinha j4 nascido; passava muita gente por nés ao longo da estrada; com alguma repugnancia, aceitei o oferecimento. Ele, sor- rindo, deixou deslizar a sombra até ao chao. esta foi-se colocar sobre a sombra do cavalo e, alegremente, trotava em simultdneo comigo. A minha confuséo era inexplicével. Montado no cavalo, passel diante de varios campér que, tirando 0 chapéu, abriram alas para deixarem passar um senhor abastado. Segui caminho, espreitando pelo canto do olho, de cima da montada, aquela sombra que jé tinha sido minha e que agora me fora emprestada por um estranho ou, pior do que isso, um inimigo. Ele, muito seguro de si, caminhava ao meu lado, assobiando uma cantoria, la a pé ¢ eu ja a’ cavalo: numa vertigem, a tentagao ven- ceu-me e, dando esporas ao cavalo, meti a galope por um atalho; a sombra é que néo me acompanhou e, no momento da fuga, des- tacou-se do cavalo e ficou na estrada & espera do legitimo dono. Tive de voltar atrés, enver- gonhado. O homem de cinzento acabou de assobiar a cantoria, deu uma gargalhada, ajus- toume a sombra e informou-me de que ela nao estava muito segura e que 86 seria com- 98 Estaévamos um dia sentados a entrada duma uta muito visitada pelos forasteiros que correm aquela regio montanhosa. Ali se Wve, vindo das profundas do abismo inson- jével, 0 mugido de torrentes subterraneas © ima pedra que se atire parece cair indefini- jamente, como se nunca encontrasse o fundo. le comecou a descrever-me, como era seu abito, com muita imaginagio e brilhante golorido, alguns quadros das coisas que eu, gracas ao meu dinheiro, podia levar a cabo, 8 partir do momento em que tivesse a som- bra em meu poder. Com os cotovelos apoia- dos nos joelhos e as maos a ocultar rosto, eu ouvia a pérfida personagem, com a alma dividida entre a tentagdo e a vontade rigida que abrigava em mim. Era-me impossivel su- portar mais tempo uma tal guerra interior © iniciei a luta decisiva: —Parece esquecer que, se Ihe permiti, sob certas condigdes, que me acompanhasse, nem por isso renunciei & minha liberdade. — Se assim 0 ordenar, eu fago as malas © vou-rme embora. Era uma das ameacas habituais dele. Néo respondi; comecou logo a enrolar a minha ‘sombra. Empalideci, mas nada fiz para o im- pedir @ no abri sequer a boca. O siléncio prolongou-se. Fol ele que tomou a palavra: —Vossa Mercé néo me suporta, odela-me, eu sel... Mas odela-me porqué? Seré porque me assaltou, na intenco de me arrebatar pela violéncia 0 meu ninho magico? Ou 6 porque tentou furtar-me, como auténtico gatuno, uma coisa que é propriedade minha, uma sombra que Vossa Mercé julgou ter-lhe sido conti com a simples promessa da sua probidade? Apesar disso, nao guardo rancor, deixe 14; ‘acho natural que procure aproveitar-se, que use da astticia e da violéncia. E nada tenho pletamente minha quando eu a aceitasse legitima propriedade. —E€ pela sombra—acrescentou — qué tenho preso e néo me hé-de escapar. homem rico como Vossa Mercé precisa de dono duma sombra; n&o pode deixar de e € censurdvel que no tenha reconhecido mais cedo. Segui viagem pela mesma estrada; contrei todas as comodidades, para nao di todo o esplendor da vida. Tinha liberdad facilidade de movimentos, pois tinha soi embora emprestada, e por toda a parte pirava o respeito que a riqueza impoe; levava a morte na alma. O meu estranho o Panheiro, que se apresentava como indi criado do homem mais rico do mundo, trava-se extraordinariamente servical,, I gente e destro: era o lacaio ideal do hoi rico; mas néo me largava e néo cessava discursar, mostrando sempre a mais absol conviccgo de que, 20 menos para me ver I dele, teria de assinar o contrato relati sombra. Era-me téo pesado quo odioso. Sentia me dele. Estava dependente dele. Tinha-me guro, depois de me ter reconduzido ao mu esplendoroso de que eu fugira. Via-me gado a aguentarlhe a eloquéncia e q sentia que ele tinha razdo. Um homem ri cd neste mundo, deve ter a sua sombra partir do momento em que eu pretende ocupar o lugar a que ele me conduzira, | tinha uma saida; mas, depois de ter si ficado 0 amor e ficar reduzido a uma vida encantos, 0 meu tiltimo desejo era nao c a alma aquele ser, nem sequer em troca todas as sombras deste mundo. O probli Parecia néo ter solucdo. % 7 contra 0 facto de perfilhar principios rigi e de, pelo menos em pensamento, se co derar a honra personificada. Sao fantasias s consequéncias. Por mim, sou muito. m severo; limito-me a agir de acordo com suas ideias. Ou alguma vez Ihe pus a faca garganta, para tentar apropriar-me da alma preciosa que ardentemente desej Alguma vez mandei um dos meus criados a1 batar-the a bolsa que the cedi? Alguma fiz_alguma prestidigitacao para Iha tirar? Eu néo tinha nada a dizer e ele prosseguil —Esté muito bem! Vossa Mercé nao suporta; compreendo isso. perfeitamente no 0 censuro. € evidente que temos de separar; também eu comeco a aborrecer. da sua pessoa. E, com vista a liberté-lo pa sempre da minha humilhante presenca, to-lhe 0 meu conselho: pague o resgate. Peguei na bolsa e dei-lha, dizendo: —Por este preco? — Nao — respondeu-me. Suspirei profundamente e retorqui: —Esta bem. Separemo-nos, peco-lhe int tantemente. Nao torne a aparecer no meu minho. Acho que hé no mundo lugar pa ambos, —Vou-me embora —respondeu com ul sorriso—, mas quero, antes de abalar, en: narlhe como pode chamar-me se Ihe vier vontade de tornar a ver este seu criado: bast agitar a bolsa e fazer tilintar as eternas mo das de ouro; 0 som do ouro eterno hé-de t zer-me junto de si. Neste mundo toda a gen Pensa nos seus interesses, mas, como vé, Penso nos seus, € evidente que concedo mais um poder. Essa bolsal a bolsa hé-de ser um traco de uniao entre nt dois. E pelo ouro que Vossa Mercé me hé-de 98 isponha deste seu criado, mesmo & em sabe que sou pessoa amiga de fervir 08 amigos € que as pessoas ricas tem Gomigo as mais amistosas relagoes. Ja teve ‘ocasido de o verificar pessoalmente. Quanto 4 sombra, caro senhor, nada feito: s6 com uma condieao'poderé ser senhor dela! Bailaram no meu espirito imagens de outros tempos e perguntei: —Tem a assinatura do senhor John? Sorriu: — Com esse bom amigo, era desnecesséria. — Que é feito dele? Quero saber, por Deus! Levou a mao a algibeira, hesitante, e vio tirar, presa pelos cabelos, a figura pélida e irreconhecivel de Thomas John que, agitando os labios cadavéricos, pronunciou estas pala- vras terriveis: «Justo judicio Dei judi ‘sum; justo judicio Dei brado, lancei a bolsa no abismo e pronunciei estas palavras definitivas: «Ordeno-te em no- me do céu, infame! Afaste de mim e nunca mais aparegas diante da minha vista!» Com um ar sinistro, levantou-se e desapare- cou logo de seguida atrés dos penedos que serviam de moldura ao mato bravio. °° ix Assim me vi sem sombra e sem dinheiro, mas com 0 peito aliviado de um grande peso © com a alma mais serena. Se néo tivesse fi- cado também sem o meu amor, se néo tivesse de me censurar por havé-lo perdido, creio que me sentirla feliz; 6 no sabia o que fazer. Levei a mao & algibeira e encontrei algumas moedas: contei-as e pus-me a rir. Tinha os cavalos na hospedaria, mas tinha vergonha de Ir 14 @ la ter de esperar até ao por do Sol que ainda ia alto. Deitei-me A sombra das drvores préximas ©. deixei-me dormir profundamente, Tive um sonho agradavel, em que bailavam figuras alegres @ risonhas. Mina, coroada de flores, passou diante de mim, esvoacando, e sorriu, Também o honrado Bendel me apareceu coroado de flores e, deslizando rapidamente, saudou-me com amizade. Vi outras pessoas, vite a ti, Chamisso, pareceu-me ver-te no meio duma multidéo; a atmosfera era luminosa, mas ninguém tinha sombra e, 0 que parecia mais estranho, o facto néo incomodava ninguém. Soavam cantorias por entre as palmeiras, tudo respirava felicidade. Erame impossivel fixar todas aquelas imagens fugidias, ndo me era dado compreendé-las; mas o vé-las en. 101 ora. Deu logo conta do que me faltava e _ nterrompeu a narracao, para dizer: ae —O0 qué? Vossa Merc8 néo tem sombra? Infelizmente nao! — respondi com um _ ido. — Tive uma doenca prolongada e cruel yrante @ qual perdi os cabelos, as unhas-e a ombra. Repare no meu cabelo, como esté odo branco, veja como tenho as unhas curtas, como a sombra se recusa a crescer. chlame de prazer e procurava néo aco mesmo depois de ter despertado, cor 8 olhos fechados, como para reter na a imagem do que vira em sonhos. Ao abrir os olhos, vi o Sol no céu, mas lado do Oriente; tinha dormido todo 0 anterior © também durante a noite. Parece tratar-se duma adverténcia para néo. volt hospedaria. Abandonei sem custo os pert — Ah!... —exelamou o velho, abanando a ces que Ié tinha deixado e resolvi seg abeca.—Nao ter sombra 6 maul Grande Pé a vereda que, rodeada de mato, serp HHoenca Vossa Mercé teve! teava pelas encostas do monte. Abandonel Pos termo & narracio encetada e, no prk 20 destino, sem olhar para tras @ nem seq iro atalho que Ihe apareceu, abandonoume me passou pela cabega ir ter com Ber “gem dizer palavra. Mais uma vez me vieram @ quem deixara rico e com o qual, na desg} ‘as légrimas aos olhos: toda. a minha sereni- Poderia contar. dade me abandonou. afioodl in sileniprdotin ‘al hee 6s pone os Segui 0 meu caminho, cheio de tristeza, @ din deehteanhne A ee oe te funca mais procurei 0 convivio dos. homens. tida era modesta, tinha uma velha kurkta Passava os dias no meio do mato e, Para atra- pradavont Berlin, qua, tao cot came vessar looais batidos pelo sol, esperava mu- Farosicae ae toane no din err cue antale tas vezes horas e horas, até ter a certeza de cla balnear; tinha na cabeca um chapéu | gue néo hayla olhos humanos a impedirme de Tagbis bitoni tee ea Pessar. A noite, procurava abrigo nas aldelas. tei-me, cortel um varapau nodose, em roca Em boa verdade, procurava uma mina na ior. dago do local, ¢ pus-me a caminho. tanha, pensando que me eta possivel.encon- Pan Utl ven ene ee trar trabalho, debaixo da terra. E que, nao 86 dou cordialmente; travel conversa com rs ee Ga a anes Viajante ansioso de instrucdo, informel até dera conta de que s6 um trabalho duro me Ss Usle C e e ibertaria dos pensamentos sinistros que me @ 08 respectivos habitantes, sobre as cultu poe * dio da montanha. A todas as ‘minhas pergunt ne ADO ee ee ele respondeu com a exuberancia dos guma coisa, embora com prejuizo das botas feitas para o conde P6nios. Chegémos ao leito duma torrente q Culas solas tinham sido ; tinha arrastado consigo parte. da. flore i dehigiee s aiie eee ee A vista da clareira iluminada pelo sol fez-m 16 desoalco. sin) ae bowsa: Wa Inert dedi estremecer. Delxel que o meu companhel Pn ge stabi ean 2 Secoteas ani tretite, Lia deisvene Sonia seguinte, ful compré-las a uma vila proxima, fiometh cavene 67 wohendous coe Gan al onde se realizava uma feira, na qual encontrei tou-me @ histéria @ a data da cheia devastaggy "4 tenda com botas novas ¢ com outras em ie 103 ‘segunda méo. Escolhi e regateei dura gum tempo umas botas novas, mas 0 pi era proibitivo. Escolhi outras jé usadas, fortes. O' mancebo, de cabelos louros e ¢ racolados que estava na tenda, uma vez a mercadoria, entregou-ma com um soi amavel desejando-me boa viagem. Calce € segul viagem rumo & porta norte da cid Perdido nas minhas reflexdes, nem ‘08 pés olhava, pois 36 pensava na min: esperava chegar nessa tarde, embora ‘soubesse como havia de me apresentar. Tir andado uns duzentos passos quando ti impresséo de me ter desviado do cami Procurei orientar-me; vi-me no meio floresta de abetos ‘centendrios que ni conhecera machado. Dei mais uns passo vi aparecer uma grande extensdo de pene desolados, cobertos de musgo amarelad rido na base e, no cume, de longas exte de neve ¢ gelo. O ar era frio; voltel-me p trés © vi que a floresta tinha desapare Dei mais uns passos. Reinava em dei um siléncio de morte; sobre 0 qual pairava'um nevoeiro espe estendia-se a perder de vista. Um sol cor. Sangue comecava a erguer-se no horizonte. Percebia o que estava a acontecer. A ter ratura glacial que me enregelava os me! obrigou-me a estugar o passo. Ouvia-se a um mugido de torrente a certa distane andei mais uns passos e encontrel-me costas geladas dum oceano. Um rebanho focas, ao ver-me, saltou com grande ala Para a gua. Seguindo ao longo da pr tornei a ver penedos escarpados, seguidos florestas de abetos bétulas. Continut correr durante alguns minutos; o calor to va-se insuportével. Olhei: estava no meio du arrozais muito cuidados, entre amorel 104 ntel-me & sombra daquelas arvores e olhei a0 relogio. Tinha safdo da aldela hé um juarto de hora; julguel sonhar e mordi a lingua fa me acordar, mas a verdade 6 que estava sperto. Fechel os olhos para por ordem nas deias. Chegaram-me esto aos ouvidos algu- mes silabas duma lingua estranha, um falar wasalado @ lento. Olhel: eram dois chineses fos rostos asiéticos néo me enganavam, em- bora a indumentéria pudesse parecer-me de- Jajustada) a falar comigo e a saudarme a Mmaneira do meu pais. Levantel-me e recuei Wois passos. Deixei de os ver; a paisagem stava completamente diferente: em vez de ‘frrozais, arvoredos e florestas, vi-me rodeado de drvores e plantas floridas: algumas eram- sme conhecidas e pertenciam a flora do Su- deste asidtico. Quis aproximar-me duma das irvores e dei um passo em frente: mudou tudo. Uni entdo os calcanhares como os recrutas ho quartel e comecei a andar devagarinho, dum lado para o outro. Campos, pradarias, Mmontanhas, estepes, desertos de arela: todas @ssas palsagens se sucediam com maravi- thosa diversidade diante dos meus olhos meravilhados; no havia diivida: tinha nos pés mas botas de sete léguas. 105 Cal de joelhos, recolhi-me e derramei ldgri- mas de ac¢ao de gracas, porque, finalmente, © futuro sorria-me. Abria-se diante de mim caminho da natureza que sempre tinha amado; podia tirar a desforra da sociedade humana, da qual, por culpa minha, fora ex- cluido. © estudo da natureza ia ser o movi- mento e a forca da minha vida cujo objectivo era a ciéncia. Daquele dia em diante, com um zelo silencioso, austero e infatigavel, 0 meu trabalho passou a ser dar uma imagem fiel do que me_aparecia, em toda a luz da sua perfeicéo, na sua forma primeira, néo me dando por satisfeito enquanto no visse satis- feito 0 ideal que tinha em vista. Ergui-me, para, de um s6 relance, ver e fabarcar todo o campo que se abria a0 meu trabalho. Estava no alto do Tibete e o Sol, que poucas horas antes tinha visto nascer, declinava jé no poente. Atravessei a Asia de leste a oeste, seguindo a viagem do sol © penetrei na Africa. Observel-a com toda a curlosidade, percorrendo-a vérias vezes em todas as direccées. Ao atravessar o Egipto, olhando de boca aberta as pirémides e os templos antigos, pude ver, perto de Tebas-das- 107 -cem-portas, no meio do deserto, as gruta onde viveram os anacoretas. De subito, tor uma decisao definitiva e clara: ai esté at morada. Escolhi para minha habitacdo ul das cavernas mais escondidas, a um tem vasta, cémoda e inacessivel aos chacais, ‘© que segui em frente. Entrei na Europa pele Colunas de Hércules e, depois de ter langat um olhar pelas provincias do Sol e do No passei do Norte da Asia, através dos gel polares da Gronelandia, para a América. corri ambas as partes ‘deste continente e Inverno que reinava no Sul repeliu-me ray damente do cabo Horn para o Norte. Quedei-me até ao nascer do dia na oriental e 86 depois de ter descansado ¢ segui 0 meu caminho. Ao longo das di Américas, segui a cadela de montanhas qu apresenta alguns dos picos mais altos globo. Devagar, com toda a cautela, respira as vezes com dificuldade, pulei de cume ‘cume, pisando ora vulcdes que expeliam fu ora pincaros nevados; alcancel 0 Monte Santo Elias, atravessei o estreito de Behri e regressei @ Asia. Segui toda a costa dental do continente em todos os seus mei dros e, cuidadosamente, investiguei quais ilhas da regiéo que me eram acessiveis. peninsula de Malaca, as minhas botas | ram-me a Samatra, Java, Bali e Lamboc. curei com algum risco mas sem resultac por entre os ilhéus e rochedos que erica oceano, abrir caminho até Bornéu e out ilhas do arquipélago. Tive de renunciar. St tei-me na ponta extrema de Lamboc e, de c voltada para o Sul e para o Leste, com impressio de estar preso numa enxovia, cl rei por ter alcancado tao rapidamente as nhas fronteiras. A curiosa Austrélia, tao es: cialmente necesséria & compreenséio da no: 108 entendimento do conjunto terra e das vestes que o Sol Ihe tece (refiro- me as plantas e aos animais), como também 0 Mar do Sul com suas ilhas de madrepérola, tudo isso me fora vedado ('). Desde o princi pio que o fruto do meu trabalho estava votado 4 ser mero fragmento. © meu caro Adalberto, no que dao os esforcos do homem! Muita vez, no pino do Inverno, partindo do abo Horn, no Império Sul, seguindo para este, através dos gelos polares, tentel per- vorrer os escassos duzentos passos que me separavam da Terra da Van Diemen e da Austrélia(, sem me preocupar com 0 re- gresso e com o risco de ver esse funesto pais encerrar-me em si, como se fosse um caix4o. Dei, sobre os gelos flutuantes, alguns passos usados e desesperados, desafiando 0 frio e 0 mar. Tudo em véo: nunca pude por o pé na Australia €). Depois de varias tentativas sem resultado, regressava_sempre a Lamboc e, sentado na minha priséio, chorava novamente. Um dia resolvi partir e, com a tristeza na alma, voltei para o interior da Asia; percorri 08 sitios que ainda nao tinha visitado, rumo 0 ocidente. Antes do alvorecer, j4 estava na Tebaida, na morada que havia escolhido e onde estivera na véspera. Depois de ter descansado, e de ver o Sol despontar na Europa, 0 meu primeiro cuidado foi procurar o que necessitava, e, antes de mais nada, uma coisa que me refreasse as botas. Aprendera com a experiéncia o quanto revia toda esta mais necesséria para o €) No original «Land holland», Chamisso, na versio francesa, abrevia © traduz por ‘no original (Neuholland). Nova Holanda. () Nova. Holands Como Alégel, preferimos traduzir por Australia. 108 era incémodo ter de me descalcar todas vezes que precisava de observer qualqt coisa préxima. Consegui o efeito pretendi calgando umas pantufas por cima das e passei a trazer comigo dois pares, port &s vezes acontecia-me deitar uma para lor e perdé-la, num momento em que os | homens ou ursos me obrigavam a interrom © trabalho e a fugir. O meu reldgio, que fi cionava bem, podia servir-me para regular a minhas andancas. Precisava também de sextante, de instrumentos de fisica e de liv Para conseguir todas essas coisas, dei rias voltas a Paris e a Londres, protegi por um nevoeiro favorével. Esgotado 0 pou ouro da bolsa magica que me restava, come a pagar com marfim africano, facil de en trar: era todavia obrigado a escolher pre: Pequenas que ndo fossem além das_minh forcas. Assim provido, iniciei a minha vi de investigador. Percorri 0 globo em todos os sentidos, m dindo aqui montanhas, ali a temperatura di Aguas e do ar, estudando aqui os animais ali as plantas; corri do equador para o pol de um continente para outro continente, cot parando as minhas com outras experiénci Os ovos das avestruzes africanas ou os d aves nérdicas, os frutos das palmeiras tro} cais e as bananas eram o meu alimento hal tual. Para suprir a felicidade que me fall 0 tabaco; para suprir a simpatia e 0 dos meus semelhantes, tinha amor dum cachorro fiel que ficava na gr da Tebaida e que, todas as vezes que via aparecer, saltitava na minha frente, di do-me a entender de forma. humanissima a afinal no me encontrava s6 no mundo, Mi houve uma aventura que me forcou a convive de novo com os homens. x1 Um dia em que, nas costas das terras do Norte (’), com as pantufas calcadas por cima das botas, me entregava & colheita de liquenes e algas, vi numa escarpa um urso branco que estava prestes a atacar-me. Depois de ter des- calgado as pantufas, procurei saltar para uma "Ilha que havia em frente e qual podia chegar facilmente através dum rochedo que emergia | das vagas. Pus um dos pés no dito rochedo, mas 0 outro escorregou-me para o mar, por- que, sem querer, @ outra pantufa tinha-me ficado no pé e refreado a bota. Fiquei enregelado e s6 muito a custo me Il- vrei de téo perigosa aventura. Assim que me vi na terra firme, corri imediatamente para a Libia, com a intenc&o de me secar ao sol do deserto. 86 que, to depressa me expus aos seus raios incandescentes, vi-me obrigado a regressar, doente e cambaleante, para as terras do Norte. Procurava alivio em movi- mentos violentos, em corridas de oeste para leste e de leste para oeste, Passava do dia para a noite e do Verao para o frio do Inverno. () Na versio francesa de Chamisso: Norvega. 10 an N&o sei quanto tempo demorei nestas dangas vagabundas por toda a face da ter Tinha as veias inflamadas por uma febre dente; desorientado, percebi que estava perder forcas; a pouca sorte fez com q correndo sem sentido, acabasse por pisar pé de no sel quem; magoei-o, recebi ul Pancada e cai desfalecido. Quando voltei a mim, vi-me conforta mente instalado numa boa cama que se en trava rodeada por muitas outras, numa sé limpissima e enorme. Vi alguém sentado cabeceira; havia outras pessoas em movim to pela sala, passando de cama em cami Passaram junto da minha e falaram a respeito. Tratavam-me pelo n° 12, mas parede & minha frente, estava, era facil Ié- numa placa de mérmore preto, em letras ouro, nitidamente gravado, 0 meu nome: PEDRO SCHLEMIHL Na mesma placa, por cima do nome, dus linhas que a minha fraqueza no me permiti decifrar. Fechei os olhos. Em voz alta e inteligivel pude entdo ou ler qualquer coisa que, se referia a Pedi Schlemihl e cujo sentido nao percebl; vi er um homem de semblante afavel e uma bel mulher vestida de luto quedarem-se frente minha cama. Eram dois vultos que néo mi eram estranhos, mas néo consegui reconhi cé-los. Pouco a pouco, ganhel forcas. Chamavam: n? 12 e, por causa da barba comprida, on? 1! Passava por ser judeu, mas nem por isso ei menos bem cuidado. Ninguém tinha dac conta de que Ihe faltava a sombra. As bota: © 0 resto das pertencas que trazia comigo e: tavam guardadas (disseram-me) e, depois de 112 ‘estar curado, voltariam ao meu poder. O sitio ‘em que me encontrava denominava-se Schle- miblium; e as coisas que ouvira ler sobre Pedro Schlemihl eram uma exortagao a oracdo pelo dito, apontado como fundador e benfeitor do Hospital. O homem afavel que tinha visto ‘aos pés da cama era Bendel e a formosa dama era Mina, Restabeleci-me no Schlemihlium, sem nunca ser reconhecido e fiquei a saber mais algumas coisas: estava na cidade natal de Bendel, onde este, com 0 resto do ouro amaldicoado que eu lhe ofereci, fundara aquele hospital com 0 meu nome e no qual numerosos desa- fortunados bendiziam diariamente o meu nome. Era ele que dirigia o estabelecimento. Mina tinha enviuvado; um proceso infeliz custara a vida ao senhor Rascal e levara, a0 mesmo tempo, a major parte do dote. Os pais de Mina tinham morrido e ela vivia agora na provincia, retirada do mundo, toda entregue a obras de caridade. Um dia teve junto da cama don’ 12 a se- guinte conversa com Bendel: —Minha senhora — perguntou Bendel —, porque é que vem tantas vezes expor-se a es- tes ares infectos? A sorte foi téo cruel que a tenha levado a buscar a morte? —Nao, meu respeitavel Bendel. Uma vez desfeitos os meus sonhos e depois de ter des- pertado deles, sinto-me feliz ¢ néo tenho re- celo nem desejo de morrer. E com alma se- rena que penso no passado e no futuro. Nao é com id6ntica serenidade que o senhor Bendel hoje serve téo pledosamente 0 seu amo e amigo? —E certo, minha senhora, gracas a Deus! Que destino 0 nosso! Inconsideradamente, bebemos até ao fundo a taca das alegrias e das dores da vida. A taga esté J4 vazia. Somos 03 até levados a crer que todo 0 passado m: no foi do que um ensaio de peca e que it porta agora armarmo-nos de sabedori so horas da estrela. Mas, enquanto som chamados a outros palcos, sentimos saudad das ilus6es enganosas em que vivemos | que lembramos com ternura. E tenho p: mim que as coisas correm hoje melhor nosso velho amigo do que outrora. —Também 0 creio — respondeu a vi posto o que se afastaram ambos. Esta conversa deixou-me impressionad mas sobreveio a divida e interrogava-me sobi se devia dar-me a conhecer ou se era mell partir ‘sem ser reconhecido. Até que tom uma deciséo. Pedi um papel e um lépis co que escrevi o seguinti «0 vosso velho amigo, tal como vés, é hoj mais feliz do que foi outrora. E, se expia sua falta, fé-lo depois de se ter reconciliado. Pedi licenca para me vestir, sentia-me cot mais forcas. Foi-me dada a chave do arméri que se encontrava & minha cabeceira estava tudo 0 que me pertencia. Vesti-m pus por cima da kurtka preta, a caixa das plantas, na qual encontré la, os liquenes polares; calcei as bota: deixei na cama o papel que tinha escrito mal sai, tomei pelo caminho da Tebaida. Caminhava eu ao longo da costa siria, pelt mesmo caminho que antes percorrera, 20 del xar a minha morada, quando ao meu encont correu o pobre Figaro. O bom do cachorro comt que procurava, seguindo o meu rasto, um don por que h4 muito esperava. Parei e chamet-o, Seguiu-me aos pulos, ladrando, manifestand Por todas as formas uma alegria inocente sincera. Peauei nele a0 colo, pois era evi dente que ele nao podia acompanhar as mb nhas passadas, e level-o para o abrigo. 114 Encontrei tudo como o tinha deixado e, pouco a pouco, & medida que ia recobrando forcas, voltei 2 minha vida anterior, evitando todavia os frios polares que me faziam bas- tante mal. E assim, caro Chamisso, que tenho vivido. As botas néo se gastam, ao contrario do que @ sapientissima obra de Tieckius, De rebus gestis Pollicilli, me fez temer durante al- gum tempo (). Néo perdem virtude. Eu 6 que vou ficando debilitado pela idade; mas sinto ‘a consolacéo de ter alcancado todos os objec- tivos por que lutei com perseveranca. Tanto quanto as minhas botas me consentiram, aprendi a conhecer, mais do que os outros homens que antes de mim viveram, a terra, a sua configuracdo, 0 seu relevo, a sua tem- peratura, as varlagdes da sua atmosfera, as manifestagdes da sua forca magnética, a vida que nela se manifesta, mormente no reino vegetal. Em varias obras, consignei e ordenei com clareza e precisdo todos esses factos, escrevi tratados com as minhas conclusdes e 0s meus pontos de vista. Dei bases sélidas & geografia do interior da Africa e das regides préximas do Pélo Norte, do interior da Asia e das suas costas orientais. A minha Historia stirpium plantarum utriusque orbis é uma das partes da Flora universalis terrae e apenas um capitulo do meu Systema naturae. Creio ter ampliado o rol das espécies conhecidas, acres- centando-the um terco do total hoje aceite e acho que dei uma contribuigao util as ciéncias da natureza e @ geografia botanica. Trabalho (°) Alusio a uma peca de Ludwig Tieck (Leben und Taten des Kieinen Thomas, genannt Daumchen) escrita em 1811, onde 0 autor afirma que as botas do Poleaar- Zinho dimninuem uma légua. sempre que leva moias- 8, agora assiduamente na fauna('). Tudo fa Para que, antes de morrer, os meus man Critos fiquem depositados nia Universidade Berlim. Enfim, caro Chamisso, elegi-te deposit da minha histéria maravilhosa, para que, mé tarde, quando eu desaparecer deste mun ela possa ser Gti! como ligdo para os home! E tu, se desejares viver no meio dos home! aprende, antes de mais nada, a respeitar sombra. Se desejares viver s6 para ti e pi a satisfagéo do melhor que em ti hé... ni Precisas de conselhos! Explicit as conjecturas que se oferceram & minha

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