Você está na página 1de 1

ESCALAPB 2% 5% 10% 20% 30% 40% 50% 60% 70% 80% 90% 95% 98% PB

100% ESCALACOR 2% 5% 10% 15% 20% 30% 40% 50% 60% 70% COR
80% 85% 90% 95% 98% 100%

Produto: CADERNO_2 - BR - 7 - 09/03/08 D7-BR/SP - Cyan Magenta Amarelo Preto

%HermesFileInfo:D-7:20080309:

DOMINGO, 9 DE MARÇO DE 2008


O ESTADO DE S. PAULO
CULTURA
CULTURA D7
D7
Literatura Entrevista:
EDUARDO NICOLAU/AE

“Memórias
claro, com o desenrolar foi mu-
dando. Gostei de passar por es-
saprovação do limitedeespaço.

Quantovocêusoudahistóriaconta-
daporseu avô?

compõem Apenas alguns fiapos. Ele me


contou sobre um homem solitá-
rio que passou a vida esperando
a chegada de uma mulher. Essa
paciência foi o que mais me im-

meu chão
pressionou. O que é irônico,
pois, se desperta impaciência, a
paixão, ao mesmo tempo, obri-
ga a ser paciente, à espera. É
umlivro sobre a perda. Porisso,

literário”
eu não podia ser enfático com a
linguagem. O tom é de uma ora-
lidade sem rebuscamento.

Por que Arminto tem tanto desape-


gomaterial?
Milton Hatoum retoma mitos de seu É um tipo de vingança contra o
pai. Um tanto infantil, reconhe-
passado em Órfãos do Eldorado ço. Mas perceba como o sobre-
nome da família é revelador:
Cordovil une tanto a vilania co-
mo um lado cordato, o ‘coeur’,
Ubiratan Brasil começa com a apresentação coração. Eu me inspirei em
dessa e de outras lendas, reve- um militar de Parintins que ca-
“A primeira vez que ouvi a his- lando uma estratégia engenho- çava índios, homem temível
tória, ela foi contada pelo meu sa de Hatoum – se, no início, as que provocou matanças. E a
avô...”, começa Milton Ha- pessoas sonham com tal lugar situação não mudou: ainda ho-
toum, antes de fazer uma rápi- perfeito, as páginas finais reve- je há grileiros que comandam
da pausa para bebericar um ca- lam que a busca é infrutífera. latifúndios na Amazônia.
fé. Ele conversa com o Estado A chave está na epígrafe,
durante a ensolarada tarde de com o poema A Cidade, do gre- Onomeentãorevelamuitodoper-
terça-feira passada, no ajardi- go Konstantinos Kaváfis. Em sonagem?
nado bar do Centro Brasileiro um determinado trecho, é dito: Sim, muito. Sempre é possível
Britânico, no bairro de Pinhei- “Nãoencontrarás novas terras, descobrir algo do personagem
ros, onde também mora. No nem outros mares/ A cidade irá a partir de seu nome, como eu
próximo ano, Hatoum comple- contigo.” A partir daí, e fazen- tambémdescobridetalhesdo li-
ta dez anos vivendo em São do a união com os mitos amazô- vroapartirdotítulo,quemesur-
Paulo, mas suas raízes conti- nicos, Hatoum traça a história giu antes de terminar o texto.
nuam fincadas na Manaus on- de uma família e, por extensão, Inicialmente, pensei em Cegos
de nasceu, em 1952. Bastar es- de uma época em que os ho- do Paraíso, que é o nome de um
piar sua obra, notadamente o mens encarnaram os sonhos barco e me agradava, mas Ór-
quarto e mais recente livro, Ór- de um Eldorado amazônico. fãos do Eldorado é mais revela-
fãos do Eldorado, cujo lança- Como faz parte da coleção dor, pois Eldorado é o nome do
mento acontece a partir das Mitos (série lançada pela edito- cargueiro, da ilha e do mito. E
18h30 de quarta-feira, também ra escocesa Canongate, em que órfãos que são quase todos.
ali perto, na Livraria da Vila. grandes autores de diversos
A partir do relato de um ve- países oferecem sua versão do Você procurou escrever um texto
lho com fama de louco, o livro mito preferido), o livro já teve pensandono exterior?
traz a história de um amor im- os direitos de publicação vendi- Eunãopodiadisfarçarqueesta-
possível cujo pano de fundo é a dos para mais de 15 países, en- vaescrevendosobreoutromun-
mitológica região amazônica. tre eles Inglaterra, China e Rús- do. Os escritores não mentem –
É, de uma certa forma, uma sia. Hatoum precisou,no entan- esse trabalho é reservado aos
narrativa verdadeira, como to, seguir as regras da coleção e políticos. O autor passa a vida
conta Hatoum, retomando a escrever um texto com o tama- AMAZÔNIA – “Lá, isoladas e cercadas pela floresta, as pessoas alimentam o mito de um mundo melhor” tentando dizer uma verdade
conversa, depois de saborear nho de uma novela, ou seja, não profundaatravésdeuma inven-
o café. “Meu avô escutou a nar- tão extenso como um roman- tilação. A idéia veio a partir de não para a cidade; a moça que personagem que tem alma in- ção literária. Não procurei evi-
rativa de um homem, em uma ce, mas também não tão curto uma história que meu avô me tem uma relação com o pai, o si- constante. Os colonizadores ti- tartermosamazônicos.Não po-
de suas viagens ao interior do como um conto. Sobre esse tra- contou e também dos poemas lêncio e o sumiço dela. São estra- nham verdadeira repulsa por deria deixar de usar termos co-
Amazonas. Guardei apenas balho, que lhe foi exaustivo ini- do grego Konstantinos Kavá- tégias que fazem parte do gêne- essa indiferença ao dogma mis- mo ‘dibubuia’ ao invés de ‘flu-
pedaços da conversa, mas o cialmente, mas recompensa- fis e do Manuel Bandeira (Pa- ro. O húngaro Georg Lukács, sionário, à religião. Acredita- tuar’, que vem da minha infân-
que me impressionou é a insis- dor ao final, Hatoum conce- sárgada), sobre esse sonho utó- aliás,acreditavasetratardeuma vam que a alma selvagem era cia e faz parte do meu vocabu-
tência de um homem em espe- deu a seguinte entrevista. pico de um mundo melhor. O forma superior de literatura. muito inconstante. Da minha lário. O exótico só soa estra-
rar pela mulher amada.” poema do Kaváfis me deu o mo- parte, considero ótima tal in- nho para alguns. Quando li Ne-
Órfãos do Eldorado conta a Eraumahistóriaquevocêvinhaaca- te para estruturar o livro, pois Olivrotrata do mito do inalcançá- constância. A ausência de coi- ve, de Orhan Pamuk, eu conse-
trajetória de Arminto Cordo- lentandohátempo, não? a primeira parte do poema é vel? sasprevisíveisalimentaaperso- guia sentir o frio do gelo.
vil que, no início do século pas- Sim, estava na fervura. Adap- um eu lírico que acredita nes- Sim, de uma esperança sem- nagem. E essa volubilidade é ti-
sado, vive dividido entre o tei o que vinha escrevendo à se sonho da existência de um pre adiada. É um pouco a ex- picamente brasileira. Nós te- Manausaindaéumafonteinesgotá-
amor por uma moça misterio- estrutura da coleção. Eu tenta- lugar melhor e, na segunda, o pectativa do nosso Brasil. O de- mos uma alma indígena. veldeinspiração?
sa, Dinaura, e as pretensões va escrever um romance, mas, outro eu lírico responde, dizen- sencanto é um dos sinais da Sim, é fonte primordial de tu-
dinásticas do pai, Amando, ar- com o projeto aceito, percebi do que “a cidade irá atrás de maturidade. Isso tem a ver Éuma históriamelancólica,não? do que escrevi. Ainda vou con-
mador enriquecido com o ci- que tinha de ser uma novela. ti”. Essa simetria rigorosa é com o romance: a busca por É inevitável por ser a busca do tar sobre minha passagem pe-
clo da borracha. Os Cordovil Mesmo assim, não me contive que deu mais trabalho. um desejo que não se realiza. desejoquenãosecompleta.Difi- lo exterior e minha vivência
representam uma rica família e escrevi mais que devia. As- cilmente seria de outra forma – em São Paulo – ao lado de Ma-
de Vila Bela, cidade inspirada sim, demorei mais para rees- Opoemajáeraumainspiraçãoinevi- Vocêcitaum escritor quevisitaVila senão,seriaoutrolivro.Masnão naus, trata-se da cidade brasi-
em Parintins, onde Amando é crever que para fazer a primei- tável? Bela.É MariodeAndrade? acho de todo amargo – existem leira com a qual mantenho rela-
idolatrado pelas atitudes bene- ra versão. Tive de evitar di- Sim, Kaváfis é um exemplo de Sim, pensei nele. Mario visi- algumas saídas, mas a ambigüi- ções muito fortes e na qual
méritas – a face do pai conheci- gressões, descrições, caracte- que a boa literatura é sucinta, tou a região em 1927. Sua via- dade final é deixada para o lei- criei fortes relações. Amigos
da por Arminto, no entanto, é rizações e concentrar o foco não precisa de muitas páginas. gem à Amazônia foi fundamen- tor, que não sabe se de fato essa de Manaus pedem para nunca
a de um homem frio, embrute- na história. Também estabele- E tem a força do mito na obra tal na escritura de Macunaí- mulher está ali na casa de Ar- abandonar minha identidade.
cido, ativo participante de ma- cer a correspondência entre o dele. Assim, fiz as junções da ma. Também tomei empresta- mintoouseéfrutodeumaloucu- Respondo que identidades são
racutaias e extorsões para ga- mundo natural, do mito, e a vi- história individual com a do do algumas coisas sobre o que ra dele, um delírio. Mudei o final plurais, só os malucos têm
rantir sua fortuna. da humana. Minha idéia era Amazonas e trouxe para nosso ele fala de Manaus, Belém. noúltimomomento,poispreten- uma única religião, um único
A história evoca também um evocar alguns mitos logo na momento político: as negocia- dia manter um parágrafo em caminho a seguir – talvez o
mitoamazônico,odaCidadeEn- abertura e depois rebatê-los tas, o empresário que quer Os mitos amazonenses ainda te queoouvintedeclaraverArmin- George W. Bush seja um deles
cantada. “Os nativos acreditam na vida dos personagens, tor- crescer mas depende da políti- acompanham? to com a mulher nos braços. (risos). Mas não há uma única
que, no fundo de um rio, existe nando os mitos em ficção. ca, da extorsão e dos favores. Sim, estão presentes. Na infân- vez que não fico emocionado
uma cidade maravilhosa, onde Mas, não se doma o conscien- Nos livros que estudei sobre o cia, eu ouvia histórias sobre a Entãovocênãoacreditavaqueseria quando volto a Manaus. É mui-
as pessoas vivem em completa te, que é desgovernado, e sur- gênero,percebi que a novelape- cidade encantada, Atlântida. umaalucinação? to forte. Não escondo minhas
harmonia”, conta o escritor, en- giram outros personagens. de a exploração do absurdo, do As pessoas vivem muito isola- Mas quando tirei aquele pará- emoções. Nostalgia não é
quanto prepara um cigarro. Cresceu tanto que, na primei- inesperado. E tudo isso contra- das, diante da natureza e mais grafo, passei a acreditar mais uma doença, mas apenas um
“As pessoas são seduzidas e le- ra versão, havia o dobro de pá- ria o curso normal da vida. As- nada. O que elas esperam, por- nisso. Fez um grande bem para sentimento humano. As me-
vadas para aquele mundo e só ginas. Fiz, então, o percurso sim, para Arminto tudo é ines- tanto, está no sonho, no mito a história. É um livro muito pen- mórias compõem meu chão
conseguem voltar com a inter- inverso: comecei a cortar, perado: a morte do pai, cuja que alimenta um desejo por um sado,arquitetado.Haviaumasi- literário. Eis a herança mais
mediação de um pajé.” O livro exercício penoso, de auto-mu- maldade só existe para ele e mundo melhor. Dinaura é um metria calculada de início que, forte das minhas origens. ●

Narrativa que desafia a morte e valoriza a cultura arcaica


Em seu novo livro, o escritor amazonense faz da escrita um ofício litúrgico para exorcizar o desencanto contemporâneo

Antonio Gonçalves Filho dios com os pés para trás, auxi- acesso aotempo primordial dos bíblica como a de Lavoura Ar- pende de uma prosa narrativa
liado na tarefa por historiado- mitos,masseusautores, aocon- caica, coma diferença que aver- resistente ao mito criado pela
A Amazônia é um celeiro de mi- rescaucasianosquejamaiscolo- trário, têm plena liberdade pa- dadeira mãeestá ausente. Mor- própria literatura. A exemplo
tos, a começar pelo prefixo gre- caram os próprios pés na selva. ra circular por mundos imagi- reu para o bebê nascer. Entre- do Raduan Nassar de Lavoura
go do nome da região, que iden- O escritor amazonense Mil- nários como o da tapuia de Ór- gue à cunhantã de confiança do Arcaica, Hatoum identifica a li-
tifica uma raça de mulheres tonHatoum ouviu histórias me- fãos do Eldorado. Ignorada pelo pai, não tarda em trocar a ma- teratura como um ofício litúrgi-
guerreiras com um dos seios lhores das populações ribeiri- maridoe cansadadetantosofri- madeira pelo seio da moça. co de salvação. Persiste nos
amputados. Por lá também é nhas, mas foi o mito da “cidade mento, ela surge logo no segun- A morte é uma companheira dois um certo desencanto pelo
preservado outro mito, nascido encantada” que o levou de vol- do parágrafo em busca de um inseparável em Órfãos do Eldo- desprezo jônico – seria lícito
naAmazônia espanhola,odeEl- ta à terra inspiradora de Cin- lugar tranqüilo para renascer rado. Um pai ambicioso morre acrescentar racionalista – que
dorado, lugar de origem de um zas do Norte, após anos respi- (ousematar): a cidade encanta- com a expectativa de se dar o mundo moderno tem pelo mi-
misterioso homem todo cober- rando o ar profano de São Pau- da e submersa à beira do Ama- bem na vida, uma amante desa- to. Falando de Hatoum, uma
to de ouro. A cidade pode ser lo. Escrito semintenção de inte- zonas. Entra na água, nada em pareceebempodeestarnacida- vez que Nassar abandonou a li-
lendária,masfoirealoqueacon- grar a coleção Mitos, do editor direção à ilha das Ciganas e de- de encantada ou em Manaus. E teratura, é provável que os pra-
teceu aos nativos, despojados Jamie Byng, da Canongate – saparece para sempre. Essa o narrador? Bem, ele procura zeres do personagem Estiliano,
de seus mitos pelo conquista- mas a ela incorporado –, o novo também pode ser a história de umasaídadotempoquesóalite- escritoramantedevinhos epoe-
dor europeu. Apenas como livrodo autor, Órfãos do Eldora- Dinaura, objeto de desejo, ma- ratura lhe garante, confiando tas gregos, revelem mais sobre
exemplo desse genocídio cultu- do, já a partir do título revela o drasta ou meia-irmã do princi- na tradução de uma tapuia, que o autor do que talvez desejasse.
ral, basta dizer que o jesuíta es- trágico sentimento de abando- pal personagem, Arminto Cor- mitificou uma história de suicí- Um pouco à maneira do que diz
panhol Cristóvão de Acuña, ao no do homem contemporâneo, dovil, amamentado por outra Órfãos do Eldorado dio. Sair de um tempo profano o professor inglês ao Zorba de
difundir a lenda das amazonas que busca na literatura um su- tapuiacom suco leitoso do tron- Milton Hatoum para o tempo mítico exige um Kazantzakis,elecrê queaescri-
entre seus pares religiosos, car- cedâneo para a mitologia. co do amapá. Arminto é vítima Companhia das Letras sacrifício dos diabos, ainda ta pode não explicar a morte,
regounas tintase inventou uma O romance, como já obser- de uma (des)ordem familiar 112 págs., R$ 29 mais quando a sobrevivência li- mas é o “único alento” para co-
raça de mulheres ferozes e ín- vou Mircea Eliade, não tem perturbadora, tão ancestral e teráriadoespaçomitológicode- rações desesperados. ●

Você também pode gostar