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Trabalhar Cansa. Cesare Pavese.

Tradução de Maurício Santana


Dias. (São Paulo: Cosac Naify / 7Letras, 2009.)

O caminho solitário e a intensa reflexão:


Trabalhar cansa, de Pavese
Trabalhar cansa (Lavorare Stanca, 1935) chega ao mercado bra-
sileiro numa parceria das editoras Cosac Naify e 7Letras, com tradu-
ção de Maurício Santana Dias. É o primeiro livro do poeta e escritor
Cesare Pavese, considerado uma das grandes vozes italianas no perío-
do entre as duas guerras mundiais. As obras de Pavese traduzidas no
Brasil são: O belo verão (1987, pela Brasiliense), A lua e as fogueiras
(1988, pelo Círculo do Llivro, e 2003 pela Berlendis&Vertecchia),
Ofício de viver (1988, pela Bertrand Brasil), Mulheres só (1988, pela
Brasiliense) e Diálogos com Leucó (2001, pela Cosac Naify).
Pavese faz parte do panorama da literatura italiana do século
XX, não só como poeta, mas também como escritor de romances
e contos e tradutor. Nessa lista não é possível esquecer da sua par-
ticipação na famosa equipe, composta também por Elio Vittorini,
Italo Calvino e Natalia Ginzburg, que atuou ativamente no merca-
do editorial italiano por meio do trabalho na Editora Einaudi.
Apesar de seu distanciamento da política, faz parte do grupo de
intelectuais antifascistas piemonteses, formado por Giulio Einaudi,
Massimo Mila, Leone Ginzburg, Giulio Carlo Argan, Norberto Bo-
bbio. Tal grupo é lembrado pelo crítico literário Giuseppe Petrônio
como o “fior fiore dell’antifascismo liberalsocialista”. Como Leone
Ginzburg e tantos outros, Pavese também passa pela experiência do
cárcere durante o fascismo, um período de reclusão na Calábria que
lhe proporciona um contato maior com a literatura (fruto desse mo-
mento é o breve romance Il carcere) e inicia o seu diário, Ofício de
viver, que o acompanhará até o trágico suicídio em 1950.
De retorno a Turim, Pavese continua o trabalho iniciado nos
anos anteriores de tradução de autores americanos e ingleses. Al-
guns dos autores traduzidos são Sinclair Lewis, Herman Melville,
Sherwood Anderson, James Joyce, John dos Passos, John Steinbe-
ck, Willian Faulkner, Daniel Defoe, Charles Dickens. Como se vê,
há uma imersão na literatura americana, principalmente a daque-
les anos. Seguindo o título de um texto de Calvino “Traduzir é a
verdadeira forma de se conhecer um texto”, Pavese adentra, apesar
de nunca ter-se deslocado para o outro continente, no diversifica-

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do universo dos EUA. Um mundo, “o outro”, que vai sendo des-
coberto a partir das viagens literárias mediadas pela leitura e de-
pois pelo trabalho de tradução. Em um artigo publicado no jornal
L’Unità, de 20 de maio de 1945, dirá Pavese:
Nos nossos esforços para compreender e para viver sorriram para
nós vozes estrangeiras: cada um de nós buscou e amou a literatura
de um povo, de uma sociedade distante, e falou dela, a traduziu,
fez dela a pátria ideal. Tudo isso na linguagem fascista chamava-se
esterofilia [...] Naturalmente não podiam admitir que estávamos
procurando na América, na Rússia, na China, e quem sabe onde,
um calor humano que a Itália oficial não nos dava. Menos ainda
que estávamos procurando simplesmente nós mesmos. Na verdade
foi assim mesmo. Lá embaixo nós procuramos e encontramos nós
mesmos. Das páginas bizarras daqueles romances, das imagens da-
queles filmes veio a primeira certeza, a de que a desordem, o estado
violento, a nossa inquietação e a de toda a sociedade que estava ao
redor, podiam ser resolvidos e apaziguados num estilo, numa ordem
nova e deviam transfigurar numa nova lenda do homem.

Com efeito, é uma descoberta que aos poucos se revela e con-


duz o olhar pavesiano para além dos traços americanos. É, na ver-
dade, lendo e relendo, decodificando e recodificando com a ativi-
dade tradutória, que o poeta de Santo Stefano Belbo passa a ver de
uma outra perspectiva o contexto piemontês e italiano no qual es-
tava inserido. A ligação com a própria terra de origem é para Ce-
sare Pavese não só afeto e memória, mas é essa relação que alimen-
ta o espírito do poeta e apresenta-se como um dos temas mais re-
correntes em seus textos. É, portanto, a partir da leitura do outro
que Pavese (re)define o seu foco: as colinas, as Langas, os dias de
ócio, o rio Pó, camponeses, proletários; questões que estão tam-
bém condensadas no binômio campo X cidade. Imagens que po-
dem ser identificadas em todo o seu percurso e, consequentemen-
te, na sua produção literária. Nesse livro de estreia, Trabalhar can-
sa, por exemplo, elas permeiam todos os poemas.
A edição brasileira é baseada na segunda edição da obra data-
da de 1943, publicada pela editora Einaudi. É composta por uma
apresentação de Maurício Santana Dias, pelos 70 poemas que for-
mam o livro e um apêndice com dois textos assinados por Pavese:
“O ofício de poeta” e “A propósito de alguns poemas ainda não es-
critos”. Nessa mesma edição de 1943, é possível identificar peque-
nas mudanças e acréscimos em relação à primeira, como aponta
Maurício Santana Dias no texto de introdução. Pavese acompanha
de forma ativa esse processo de reedição: insere poemas antes censu-

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rados pelo regime e outros inéditos, altera algumas pontuações, faz
pequenas modificações e, ainda, acrescenta dois textos de reflexão
sobre a temática, a forma, a métrica das poesias ali contidas.
A apresentação de Maurício Santana Dias dá um panorama
bastante detalhado da vida e da atividade de Cesare Pavese, pouco
conhecida no Brasil, mas em alguns momentos, quando trata das
poesias, pode parecer para o leitor comum um pouco técnica. Os 70
poemas do livro são agrupados em seis seções: Antepassados (Antena-
ti), Depois (Dopo), Cidade no campo (Città in campagna), Maternida-
de (Maternità), Lenha verde (Legna verde), Paternidade (Paternità).
A primeira, Antepassados, é formada por 11 poemas e as ima-
gens presentes nestas poesias serão o símbolo da narrativa pavesiana:
o retorno à região geográfica das Langas, a infância – um momento
feliz da vida –, o silêncio e a não comunicação. Temas que podem
ser mais tarde realocados nos binômios campo x cidade e infância
x vida adulta. Esta seção é aberta com o paradigmático poema “I
mari del Sud”. Na segunda seção, Depois, o leitor encontra 15 po-
esias que, como definiu Calvino, apresentam um “motivo amoroso
e sensual num tom de contemplação e melancolia” – pode-se pen-
sar aqui nas complicadas relações e decepções amorosas de Pavese.
Os títulos de algumas poesias dessa seção são: “Agonia”, “Mulhe-
res apaixonadas”, “Mania de solidão” e “A puta camponesa”. A ter-
ceira seção, Cidade no campo, é aquela com mais poemas, no total
19, e parece ser a mais “empenhada” de todo o livro. Os persona-
gens principais são o camponês e o operário que, mesmo em am-
bientes diferentes, trabalham duro e fadigam. “O cansaço do dia
os empurra pro sono/ e as pernas estão destroçadas. Alguns só ima-
ginam/ e comer sonolentos, quem sabe sonhando” são alguns ver-
sos de “Crepúsculo de areeiros”. Esta parte se conclui com a poesia
que dá título ao livro “Trabalhar Cansa”, iniciando com a oposição
já mencionada infância x vida adulta: “Travessar uma rua fugindo
de casa/ só um menino o faria, mas este homem que passa/ todo o
dia nas ruas não é mais menino/ e não foge de casa”. Maternidade
é a quarta seção e tem 10 poesias. Aqui a imagem da mulher retor-
na, mas não mais como algo sensual e sim como a provedora, quer
dizer, o símbolo de fertilidade. A quinta seção, Lenha verde, apre-
senta 7 composições, e é possível observar que há o predomínio da
temática social e política como, por exemplo, nos versos contidos
em “Geração”: “Numa tarde de luzes distantes ouviram-se tiros/
na cidade, e acima do vento, medonho,/um clamor descontínuo.

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Calaram-se todos/ [...] há operários calados e alguns estão mortos”.
A sexta e última seção, Paternidade, é composta por 8 poesias e se
contrapõe pelo próprio nome à seção Maternidade. Aqui são pri-
vilegiados os temas relacionados à solidão e à incomunicabilidade.
“Fala pouco o amigo, e esse pouco é estranho” é o primeiro verso
de “Mediterrânea”, poesia que abre essa parte.
A tradução de Maurício Santana Dias tem escolhas bem pre-
cisas. Professor de literatura italiana da USP, ele vem cada vez mais
se destacando como um importante elo de ligação entre Brasil e
Itália. O trabalho tradutório pode ser concebido aqui como um di-
álogo de múltiplas faces que proporciona, haja vista a própria ex-
periência pavesiana, uma série de relações entre os dois sistemas li-
terários envolvidos. Na parte “Traduzir Trabalhar cansa”, Santana
Dias oferece ao leitor algumas motivações de suas escolhas:
Antes de finalizar este estudo, é necessário examinar a constituição
formal dos poemas de Lavorare Stanca e, por conseguinte, explicitar
as minhas próprias opções de tradução. A tarefa deve começar ob-
viamente pala análise de “I mari del Sud”, o primeiro e mais longo
poema do livro, aquele que estabeleceu o padrão pelo qual Pavese se
guiaria durante a década de 1930 e 1940. Porém, antes de passar à
leitura dos textos, cabe reiterar que todas as composições do livro se
originam a partir de um verso básico: o verso quantitativo de ritmo
anapéstico, constituído de uma unidade mínima formada por duas
sílabas breves e uma longa. Não por acaso, o anapesto é o verso que
inicia o livro e lhe dá a cadência” (p. 54-55)

Ao iniciar com esse fragmento a reflexão sobre o processo tra-


dutório, é possível identificar uma opção inicial que norteará todo
o trabalho de tradução das 70 poesias: a preferência e o privilégio
dado à métrica. É como se o olhar do tradutor fosse quase sugado
pelos elementos formais – a matriz rítmica e a linguagem – e pelo
tom monocórdio pavesiano. Tal predileção também fica clara nas
mais de dez páginas dedicadas a essa questão na apresentação. Para
finalizar, Maurício Santana Dias cita traduções de Lavorare stanca
em outras línguas (a francesa Travailler fatigue, de Gilles de Van;
a inglesa Hard labour, de William Arrowsmith; a catalã Trabalhar
cansa, de J.M. Miñoz Pujol; a portuguesa Trabalhar cansa, de Car-
los Leite) e algumas antologias que incluem essa obra de Pavese.
Todas essas traduções citadas e consultadas têm uma escolha di-
ferente, como pontua o tradutor, elas não mantiveram na “língua
de chegada a métrica e o ritmo de Pavese: seus poemas foram ver-
tidos quase sempre em versos livres e não raro tornados mais líri-
cos e melodiosos do que de fato o são” (p. 72-74).

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Tanto já se discutiu e se vem debatendo sobre os inúmeros e
complexos aspectos, positivos e negativos, que envolvem o proces-
so tradutório. Ora, fazer uma tradução significa também fazer es-
colhas e, por sua vez, escolher comporta sempre, de alguma forma,
ganhos e perdas. O último parágrafo de Santana Dias aponta o que
para ele seriam as perdas dessas traduções consultadas:
Pelo que foi exposto, pode-se deduzir que traduções dessa natureza
não sejam as mais adequadas aos poemas em questão. Afinal, o pró-
prio Pavese havia rejeitado o verso livre por considerá-lo impróprio
à sua poesia, ou seja: “Pela desordenada e caprichosa abundância
que ele costuma solicitar à fantasia.” Desse modo, uma tradução
em versos livres – ou que simplesmente não acompanhe de perto o
ritmo sempre igual e monótono dos versos pavesianos –, por mais
feliz que seja, terá perdido de vista o projeto do autor, ou seja, o ato
mais radical e característico do poeta piemontês: a busca incessante
de “apreender o real”, de dar uma forma e um sentido próprios a um
mundo que em última instância lhe pareceu alheio. (p. 73)

O privilégio dado à métrica, que é sem dúvida um ganho da


tradução brasileira, pode provocar certas perdas. Alguns pequenos
exemplos estão na primeira poesia “Os mares do Sul”:
mi ha detto “...ma hai ragione. La vita va vissuta
lontano dal paese: si profetta e si gode

Disse ele, “...tens razão. A vida só é vivida


Distante de sua casa: se aproveita e se goza
(p. 78-79, grifo nosso)

E mais adiante
Mio Cugino ha una faccia recisa. Comprò un pianterreno
nel paese e ci fece riuscire un garage di cemento
con dinazi fiammate la pila per dar la benzina
e sul ponte ben grossa alla curva una targa-réclame.
Poi ci mise un meccanico dentro a ricevere i soldi
e lui girò tutte le Langhe fumando
S’era intanto sposato, in paese. Pigliò una ragazza

Ele tem uma cara obstinada. Comprou um terreno


na aldeia e ergueu uma sólida garagem
que ostentava, brilhante, uma bomba para a gasolina
e, na ponte, bem grande, na curva, um cartaz chamativo.
Contratou um mecânico que recebia o dinheiro
e foi passear nas Langas, fumando.
Entretanto casara, na aldeia. Pegou uma garota
(p. 78-79, grifo nosso)

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Nesses trechos, um elemento que chama a atenção é a pala-
vra italiana paese, traduzida, na mesma poesia, com dois signifi-
cados diferentes: o primeiro casa, no sentido figurado de lar e de
tudo o que é familiar, e o segundo denotativo que é realmente al-
deia, vilarejo. Uma situação análoga também acontece com o vo-
cábulo em português serena, que nesta mesma poesia é traduzido
com o seu correspondente serena – notti serene/noites serenas, mas
em “Agonia”, sétimo poema da seção Depois, aparece serena como
correspondente do vocábulo italiano stessa, cujo significado seria
mesma: ogni volto che passa e restare la stessa/ cada rosto que passa e
manter-me serena (p.138-139).
Ainda, recuperando os outros grifos do segundo fragmento
acima, há um equívoco na tradução da palavra pianterreno. Na lín-
gua italiana também existe a palavra terreno que é escrita e tem o
mesmo significado que em português. Todavia, a palavra escolhi-
da por Pavese, pianterreno, possui um outro signifcado, isto é, an-
dar térreo. O que interfere, consequentemente, na continuação do
verso seguinte. De fato, não é necessário erguer ou construir uma
garagem, na verdade, um espaço que já existia e localizava-se no
andar térreo foi transformado em uma garagem. Essa transforma-
ção fica clara na expressão “ci fece riuscire”.
Um outro aspecto que é importante lembrar consiste nas re-
ferências poéticas de Cesare Pavese. Todo o percurso do poeta é
marcado pela leitura e estudo de alguns clássicos como Leaves of
Grass de Walt Whitman, Les fleurs du Mal de Charles Baudelaire e
a Ilíada de Homero – é bom lembrar que o próprio Pavese organi-
zou e prefaciou uma edição dessa obra. Trabalhar cansa, portanto,
apresenta-se como uma obra de exploração, mas não experimental,
que pode ser vista e lida a partir de três momentos. O primeiro é
caracterizado por aspectos da cultura e literatura americana, como
já dito, fruto da atividade de tradução, principalmente em relação
às paisagens e à redescoberta do Piemonte, terra natal de Pavese.
No segundo momento, as imagens, sempre presentes, recebem um
novo tratamento e são incorporadas à narrativa; para tal Pavese cria
um sistema de analogias. Enfim, o terceiro momento é assinalado
por uma espécie de imersão na subjetividade. Tais questões são co-
locadas e discutidas nos dois textos contidos no apêndice.
A produção de Cesare Pavese, marcada pela disciplina, refle-
xão e estudo, pode ser vista como uma terceira via diante do con-
texto literário e cultural promovido pelo fascismo de um lado e o

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grupo da poesia hermética do outro. O poema-narrativo escolhi-
do pelo autor, que recusa o verso-livre como é colocado nos textos
finais, é a marca pavesiana dos poemas iniciais. O que se apresen-
ta é uma poesia caracterizada por um estilo límpido e coloquial.
Aspecto que algumas vezes não foi muito bem compreendido pe-
la crítica literária, que só (re)conhecia Pavese pelas traduções feitas
que não estavam de acordo com a linha determinada pela cultu-
ra oficial fascista. Escritor, poeta, tradutor, diretor de uma edito-
ra: são esses os perfis que vão se delineando ao longo do seu solitá-
rio percurso. Trabalhar cansa é um conjunto, fruto de um intenso
processo de reflexão intelectual, que expressa o rigor, a dedicação e
a fadiga do poeta diante do trabalho com a palavra.

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