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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE MINAS GERAIS

Programa de Pós-Graduação em Direito – Ciências Penais

Lívia Reis de Sousa

A MITOLOGIA DA VÍTIMA PERFEITA: CULTURA DO ESTUPRO E


CULPABILIZAÇÃO DA MULHER NOS CRIMES SEXUAIS

Juiz de Fora
2019
4

Lívia Reis de Sousa

A MITOLOGIA DA VÍTIMA PERFEITA: CULTURA DO ESTUPRO E


CULPABILIZAÇÃO DA MULHER NOS CRIMES SEXUAIS

Artigo apresentado como trabalho de conclusão do


curso do Programa de Pós-Graduação em Direito –
Ciências Penais da Pontifícia Universidade Católica
de Minas Gerais.

Orientadora: Professora Me. Letícia Fonseca Paiva


Delgado

Área de concentração: Ciências Sociais Aplicadas

Juiz de Fora
2019
5

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................................................................. 6
1 A CONSTRUÇÃO DOS PADRÕES DE FEMINILIDADE E MASCULINIDADE ........................ 7
3 A CULTURA DO ESTUPRO................................................................................................................................... 9
4 A ATUAÇÃO DO SISTEMA PENAL NOS CRIMES SEXUAIS ......................................................... 17
CONCLUSÃO ................................................................................................................................................................. 22
REFERÊNCIAS.............................................................................................................................................................. 22
6

A MITOLOGIA DA VÍTIMA PERFEITA: CULTURA DO ESTUPRO E


CULPABILIZAÇÃO DA MULHER NOS CRIMES SEXUAIS
1
Lívia Reis de Sousa

RESUMO
Este artigo apresenta as razões pelas quais a mulher vítima de crimes sexuais é socialmente
estigmatizada e frequentemente culpabilizada pela violência que sofreu. É demonstrado o
desenvolvimento histórico da tipificação penal do crime de estupro, assim como a atuação do
sistema penal nesses casos, e são detalhados os mecanismos que promovem a chamada
“cultura do estupro”, evidenciada na naturalização das agressões sexuais praticadas por
homens em contraponto com a responsabilização da mulher vítima dessas mesmas agressões.

Palavras-chave: criminologia feminista; cultura do estupro; crimes sexuais; sistema penal.

INTRODUÇÃO

A violência contra a mulher é característica essencial de um sistema patriarcal,


pautado pela misoginia e outros mecanismos que garantem a dominação masculina. A
violência sexual, em especial, se apresenta como uma ferramenta indispensável nesse
processo de dominação.
Mesmo com o passar dos anos, com a evolução dos paradigmas sociais e com as
alterações legislativas, a prática indiscriminada desse tipo de violência continua sendo uma
constante, porém a comunicação desses crimes não coincide com a estimativa real da sua
ocorrência.
Embora hoje o estupro seja um crime socialmente condenado, que causa horror na
grande maioria da população, as pessoas ainda têm dificuldade em identificar boa parte das
agressões sexuais como atos de violência e, em consequência disso, tendem a naturalizar
casos de estupro e procurar formas de culpabilizar a vítima, forjando uma espécie de
“consentimento implícito” que na situação real não existe.
No Brasil, 88,5% das vítimas de crime de estupro são mulheres (IPEA, 2016, p. 7) e
são elas também as principais vítimas do processo de estigmatização e culpabilização sofrido
por quem decide denunciar.

1
Pós-graduanda em Ciências Penais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais PUC, Juiz de Fora –
MG (Brasil) Bacharela em Direito pela Faculdade de Direito Vianna Júnior.
7

Em razão disso, o presente trabalho tem como objetivo demonstrar as origens, o


funcionamento e os efeitos sobre as mulheres, desse comportamento social e penal que, ao
mesmo tempo que demonstra aversão aos crimes sexuais, acaba por criar artifícios para que
esses mesmos crimes sejam praticados impunemente.

1 A CONSTRUÇÃO DOS PADRÕES DE FEMINILIDADE E MASCULINIDADE

É de conhecimento comum que ao longo da história e ainda nos dias atuais foram
criados e propagados diversos padrões sociais e de comportamento que ditam o que a
sociedade espera de uma mulher e qual é o seu papel na vida em comunidade.

Esses padrões, tradicionalmente estabelecidos, nem sempre existiram. A divisão de


papeis começou a surgir a partir descoberta da paternidade e da contribuição do homem na
reprodução, o que tornou a herança masculina e transformou as relações sociais (ROSSI,
2016, p. 26).

A organização das sociedades, antes mais igualitária, passou a ter funções de gênero
pré-definidas e estrutura hierarquizada, colocando a mulher em posição de inferioridade. Para
garantir que a paternidade fosse “legítima” e que as posses permanecessem na família, o
corpo da mulher passou a ser controlado e seu papel social reduzido à função reprodutiva.
Giovana Rossi explica como se desenvolveu o que hoje chamamos de sistema patriarcal:

O estabelecimento definitivo do patriarcado na civilização ocidental foi um processo


gradual que levou quase 2.500 anos, desde cerca de 3.100 a.C até 600 a.C. Com a
sua instauração, foram eliminadas as sociedades de parceria e a mente humana foi
remodelada para classificar como natural um novo tipo de arranjo, ou seja, uma
cultura dominada pelo homem, como se isso fosse característica de todos os
sistemas humanos. Para ser aceito definitivamente como certo, o patriarcado foi
apoiado pela religião e pela ciência, que forneceram subsídios para o papel inferior
da mulher na sociedade, tornando os novos valores verdades imutáveis (ROSSI,
2016. p. 28).

No modelo tradicional de família consolidado pelo patriarcado, aos homens ficou


designado o papel de provedores, a produção de bens e o domínio da vida pública. Já às
mulheres foi direcionado o papel de reprodutoras, o trabalho doméstico sem valor econômico,
e a limitação de atuação ao âmbito privado.
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Durante a Idade Média, a ideologia patriarcal se misturava aos valores religiosos da


época, disseminados através da publicação de obras que enfatizavam a inferioridade da mulher
em relação ao homem e a descreviam como uma figura frágil e irracional, porém maligna,
suscetível à corrupção e que, por isso, deveria ser controlada (KRAMER e SPRENGER, 2007,
p. 52).

A partir dessa concepção, foram estabelecidos diversos padrões de comportamento


que versavam sobre como uma mulher deveria se portar, sobre quais assuntos poderia falar e
o que deveria ou não vestir. Padrões esses que foram (e ainda são) importantes ferramentas de
controle, para garantir que as mulheres permanecessem restringidas ao espaço que lhes foi
designado, qual seja, o privado. Lima (2013, p. 6), denuncia a diferença da expectativa social
no que se refere a homens e mulheres:

Os homens do mundo patriarcal devem pautar-se de forma sexualmente livre – e até


libertina – devido à posição de superioridade e independência que lhes cabe. Devem
ser, portanto, rígidos, másculos e dominadores. Por sua vez, às mulheres resta a
necessidade de resguardar sua moral sexual, agindo de forma efetivamente recatada.
Suas vestimentas, seus diálogos e seus comportamentos devem revestir-se da cautela
necessária a ensejar o respeito do seio social. Seu corpo não é considerado sua
propriedade, senão verdadeiro objeto de controle da sociedade (LIMA, 2013, p. 6).

Esse ideal cristão de domesticidade feminina e superioridade masculina também foi


reforçado pelo Direito, que designou ao pai ou marido a função de “chefe” da família e
conferiu poder praticamente ilimitado sobre a mulher e os filhos. A mulher tinha status legal
de propriedade e não havia qualquer garantia jurídica em relação à sua integridade, podendo o
“homem da casa” fazer com ela o que bem entendesse. Se desafiasse esse modelo ou não
atendesse aos padrões comportamentais de docilidade, recato e submissão, a mulher era vista
como “desviada”, ficando suscetível a mecanismos de “correção” como insultos,
espancamento, confinamento, estupro e homicídio (ROSSI, 2016, p. 29).

Empregada como instrumento de “correção” ou como forma de ameaça, a violência


física, moral e sexual contra a mulher sempre foi e ainda é uma importante ferramenta de
estabelecimento e consolidação da dominação masculina e do patriarcado. Conforme expõe
Rossi (2016, p. 29), “a sociedade organiza-se em torno da autoridade masculina e o recurso à
violência sempre está presente como uma forma de mantê-la e reafirmá-la” (ROSSI, 2016, p.
29).
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Durante muito tempo, essas questões foram entendidas como relativas à esfera privada
e não sofriam interferência do direito penal. Consequentemente, restaram invisibilizadas a
figura da mulher e a opressão sofrida por ela tanto na esfera jurídica quanto na social.

Mesmo que muitas mudanças tenham sido operadas no decorrer do tempo, a visão
social predominante ainda é a de que a mulher é mais frágil e dependente, e deve se
comportar de acordo com regras sociais estabelecidas séculos atrás. Qualquer desvio desse
padrão é utilizado como prerrogativa para que ela seja vítima de violência e para que essa
violência seja justificada.

A propagação da ideologia patriarcal afeta sobremaneira a mulher que é vítima de


violência sexual, visto que até os dias de hoje mulheres são criadas e socializadas para se
submeterem à violência masculina e não se reconhecerem como seres humanos, sujeitos de
direito, mas como “coisa”, propriedade do homem. E quando são violentadas sexualmente,
em regra, a primeira reação social é buscar argumentos que responsabilizem a vítima em vez
do agressor.

3 A CULTURA DO ESTUPRO

Uma das consequências mais graves da perpetuação de ideologias essencialistas sobre


qual é o lugar da mulher na sociedade e sobre como ela deve se comportar, é a naturalização
da violência sofrida por ela, principalmente a sexual, e a busca em seus próprios atos e
personalidade de justificativas para os abusos que eventualmente venha a sofrer.

No que diz respeito à violência sexual contra a mulher, a palavra “cultura” na


expressão “cultura do estupro” se traduz como um conjunto de crenças, comportamentos e
costumes predominantes em determinado meio social. A cultura do estupro consiste na
criação e propagação de factoides que, em tese, justificariam a prática de violência sexual
contra determinadas mulheres, funcionando como mais um mecanismo de controle informal,
utilizado para a manutenção do poder masculino e para preservar a mulher no lugar que lhe
foi socialmente designado, qual seja, de mãe, esposa e “mulher honesta”, agindo de acordo
com normas de conduta carregadas de moralidade, determinadas pelo patriarcado. Por medo
da violência e da rotulação negativa, mulheres não só se submetem a essas regras, como
acabam por reproduzi-las, conformadas de que precisam corresponder à expectativa social
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depositada sobre elas. Rebecca Solnit (2017) traz uma definição bastante elucidativa para o
termo “cultura do estupro”:

Cultura do estupro é um ambiente em que o estupro é predominante e a violência


sexual contra as mulheres é normalizada e desculpada na mídia e na cultura popular.
A cultura do estupro é perpetuada pelo uso da linguagem misógina, a objetificação
do corpo da mulher e a glamorização da violência sexual, criando assim uma
sociedade que ignora os direitos e a segurança das mulheres. A cultura do estupro
afeta todas as mulheres. A maioria das mulheres e meninas limita seu
comportamento devido à existência do estupro. A maioria das mulheres e meninas
vive com medo do estupro. Isso não acontece com os homens, de modo geral
(SOLNIT, 2017, p. 166).

Somadas a uma percepção errônea sobre os perfis das vítimas e dos autores de
crimes sexuais perpetuada ao longo dos anos, a objetificação do corpo feminino e a
normalização da violência sexual operam como elementos centrais na construção de um
ambiente de cultura do estupro e fazem com que a culpabilização da vítima seja praticamente
automática quando um crime sexual é relatado.

A objetificação do corpo feminino acontece desde os primórdios do patriarcado,


quando o Direito e a Religião estabeleceram a ideia de que a mulher fazia parte do patrimônio
familiar e que seu papel consistia essencialmente em cuidar da casa e satisfazer sexualmente o
marido. Em decorrência desse discurso, prevaleceu na cultura popular o entendimento de que
o corpo feminino era posse, objeto, “coisa”, que poderia ser disposta e desfrutada pelo
patriarca, da forma que lhe conviesse. Para manter esta estrutura, além de padrões de
comportamento, foram estabelecidos padrões de beleza, que não somente ditam como a
mulher deve ser e parecer, como também determinam suas aspirações e prioridades, que nessa
visão se resumiriam a cultivar uma aparência bonita, que agrade aos homens. A objetificação
está presente em diversos aspectos do comportamento social, como programas de televisão,
peças publicitárias e também na forma como as mulheres são fortemente sugestionadas a
enxergar seu valor pessoal na própria fisionomia e nada mais.

Esse processo de retirada de direitos e de desumanização fez permanecer, até os dias


atuais, a noção de que o corpo feminino tem como função principal a satisfação do prazer
sexual masculino, o que faz com que a mulher ainda seja vista por muitos, como um “pedaço
de carne” a ser adquirido, consumido e descartado.

Os resultados negativos dessa perspectiva são incontáveis, pois para aqueles que
ainda vislumbram o corpo feminino como mero objeto, a violência sexual, em muitos casos,
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não é reconhecida como violência, mas como uma forma de “cumprimento de dever”,
conforme elucida Solnit (2017):

A expressão “senso de direito ao sexo” foi usada em 2012 em referência a agressões


sexuais cometidas pelo time de hockey da Universidade de Boston, embora seja
possível encontrar usos anteriores da expressão. Eu a ouvi pela primeira vez em
2013 em uma matéria da BBC que tratava de um estudo sobre o estupro na Ásia. O
estudo concluiu que, em muitos casos, o motivo para o estupro era, simplesmente, a
convicção de que um homem tem o direito de ter relações sexuais com uma mulher,
independentemente do desejo dela. Em outras palavras, os direitos dele superam os
direitos dela, ou ela não tem direito algum. Esse sentimento de que homens têm
direito ao sexo está por toda parte. Muitas mulheres são acusadas, como eu fui na
juventude, de que algo que nós fizemos ou dissemos ou vestimos, ou apenas a nossa
aparência geral, ou o fato de sermos mulheres, havia excitado desejos que nós
tínhamos, portanto, a obrigação contratual de satisfazer. Nós devíamos isso a eles.
Eles tinham esse direito. Tinham direito a nós (SOLNIT, 2017, p. 168).

Portanto, ainda que, em tese, a mulher não seja mais retratada como propriedade do
pai ou marido, a objetificação iniciada com o patriarcado e perpetuada até hoje, continua a
ser utilizada para justificar a prática de violência sexual.

Essa normalização não acontece porque a ocorrência de crimes sexuais não causa
repulsa, pelo contrário, a tendência natural da grande maioria das pessoas é condenar esse tipo
de violência. Porém, existe uma grande dificuldade de entendimento popular sobre o que
caracterizaria um episódio de violência sexual. Esse é um fenômeno intrinsecamente ligado às
inverdades propagadas ao longo dos anos a respeito das mulheres.

Conforme exposto no capítulo anterior, já nos primeiros modelos de civilização, foi


firmada a premissa de que o corpo da mulher deve ser objeto de controle e que homens têm
poder de disposição sobre ele. Além disso, também foi propagada a ideia de que mulheres são
naturalmente mentirosas e que usam do próprio corpo como instrumento de sedução e
desvirtuamento dos homens. Como explica Soraia Mendes (2017), “a mulher foi construída
como infiel, vaidosa, viciosa e coquete. Como o chamariz de que Satã se servia para atrair o
homem para as profundezas” (MENDES, 2017, p. 130). Por conta desse entendimento, ocorre
uma espécie de flexibilização do conceito de violência sexual e a ideia de que a análise das
circunstâncias do caso concreto não seria suficiente para estabelecer sua configuração, seria
necessário também analisar o perfil da vítima e se ela atende ou não aos padrões de
comportamento impostos socialmente.
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Dessa forma, quando a mulher que reporta a violência sexual não se enquadra em
parâmetros absurdos como vestimenta recatada, comportamento comedido ou “resistência
inequívoca”, seu relato geralmente é desacreditado, pois não é visto como violência e sim
como um ato sexual respaldado por uma espécie de “consentimento presumido”, derivado da
forma como a vítima se portou antes, durante e depois do crime.

Os estereótipos de gênero também influenciam na análise do perfil do agressor e dos


aspectos do crime. Ainda existe uma crença social muito forte no sentido de que estupros são
crimes que acontecem apenas na rua, em locais desertos e que estupradores são homens
“loucos”, emocionalmente desequilibrados e mentalmente perturbados, detentores de desvios
comportamentais que supostamente facilitariam a identificação desse tipo de criminoso
(ROSSI, 2016, p. 80). Como consequência, a palavra da vítima também é desacreditada
quando o agressor e a agressão não se enquadram nesses moldes.

3.1. O “estuprador monstro”

Acompanhado da ideia de que crimes sexuais não acontecem em ambientes


popularmente considerados seguros, como dentro de casa, o mito do “estuprador monstro”
versa que nenhum homem “normal” seria capaz de estuprar uma mulher (ARDAILLON e
DEBERT apud ROSSI, 2016, p. 82), esse tipo de crime tão vil somente seria cometido por
homens perversos, com problemas psicológicos graves e lascívia incontrolável, os “maníacos
sexuais”.

Porém, considerando que os dados estatísticos informam que a maioria dos crimes
sexuais são cometidos em casa e por agressores conhecidos das vítimas (IPEA, 2014), a
realidade dos fatos denuncia a incoerência dessa versão e demonstra que há uma certa verdade
na afirmativa de que “todo homem é um estuprador em potencial”.

Apesar de serem as principais vítimas da cultura do estupro, as mulheres não são as


únicas. Homens são ensinados desde muito cedo que precisam reafirmar a sua masculinidade
a todo momento, que precisam ser conquistadores e que não podem aceitar “não” como
resposta, sob pena de serem hostilizados pelos seus iguais. Bourdieu (2012) explica como o
patriarcado infligiu nos homens à necessidade de assumir comportamentos violentos para
demonstrar virilidade:
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O privilégio masculino é também uma cilada e encontra sua contrapartida na tensão


e contensão permanentes, levadas por vezes ao absurdo, que impõe a todo homem o
dever de afirmar em toda e qualquer circunstância, sua virilidade. (...) A virilidade,
entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social, mas também como aptidão
ao combate e ao exercício da violência (sobretudo em caso de vingança), é, acima de
tudo, uma carga. Em oposição à mulher, cuja honra, essencialmente negativa, só
pode ser defendida ou perdida, sua virtude sendo sucessivamente a virgindade e a
fidelidade, o homem “verdadeiramente homem” é aquele que se sente obrigado a
estar à altura da possibilidade que lhe é oferecida de fazer crescer sua honra
buscando a glória e a distinção na esfera pública (BOURDIEU, 2012, p. 64).

Essas exigências contribuem para que o homem enxergue a mulher como algo a ser
conquistado, possuído e, em última instância, violado.

A cultura patriarcal em que vivemos reforça a ideia de que prazer sexual e dominação
são faces da mesma moeda. Somos bombardeados diariamente através dos meios de
comunicação por anúncios, filmes e novelas que romantizam o estupro e outros tipos de
violência e que propagam a concepção de que a negativa da mulher não deve ser respeitada,
pois com um pouco mais de insistência (violenta ou não) ela sempre acabará “cedendo”.

A indústria pornográfica tradicional, meio de iniciação sexual para muitos jovens,


demonstra nitidamente como a dinâmica de dominação e subordinação é disseminada de
forma exaustiva, como “exemplo” do que seria uma relação sexual prazerosa. Conforme
leciona Campos (2017, p. 162), a dominação, “principalmente para os homens, e submissão
para mulheres, será o código de conduta através do qual o prazer sexual será experimentado.
O sexismo será uma política desigual que é sexual e desigualmente desfrutada” (CAMPOS,
2017, p. 162).

Nessa percepção, a violência sexual é glamourizada e o conceito de consentimento


acaba por se perder, pois as relações entre homem e mulher são retratadas como um “jogo de
gato e rato”, em que o homem deve perseguir a concretização do seu desejo e a mulher, por
mais que tente fugir, acabará sempre dominada, porque essa é a ordem natural das coisas. Nas
palavras de Cajal e Lima (apud ROSSI, 2016):

Gera-se a ideia de que cabe ao homem a iniciativa e o apoderamento do corpo da


mulher. À mulher, por sua vez, competiria apenas a sedução. Dentre as táticas de
atração, a mais utilizada pelas mulheres é, dentro desta lógica, a negação da
atividade sexual. Quando a mulher se faz de difícil, caberia ao homem, então, a
conquista, isto é, a transformação do “não” inicial em um “sim”. Afinal, acaba-se
por reproduzir a lógica de que o homem deve defender sua honra, e honrado é
aquele que possui todas as mulheres que quiser. (...) Todo esse ideário em que o
‘não’ da mulher nunca é verdadeiramente um ‘não’ e que tudo não passa apenas de
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uma tática de sedução constrói o que aqui se chama de cultura do estupro. (ROSSI,
2016, p. 101).

Em razão do disposto, a sociedade acaba por neutralizar a violência praticada pelo


homem, concebendo-a como algo natural, passível de acontecer, principalmente quando a
mulher, a partir de algum comportamento considerado como desviante, “provoca” a reação
violenta. E, na concepção de uma sociedade conservadora e machista, há tantas formas de
uma mulher se comportar de forma “inapropriada”, que culpar a vítima em vez do agressor se
torna algo trivial.

3.4. A “vítima perfeita”

O mito do “estuprador monstro” é parte de uma série de crenças irreais sobre as


circunstâncias que envolvem os crimes sexuais e que constituem o que aqui chamamos de
“mitologia da vítima perfeita”. Conforme explica Rossi (2016) a cultura do estupro divide as
mulheres em dois grupos:

Existem categorias de mulheres que são mais facilmente descritas como vítimas
genuínas, são elas: virgens, mulheres muito jovens, senhoras idosas, mulheres que
resistiram fisicamente ao ataque, e mulheres que foram estupradas por parceiros e
que expressam o desejo de perdoá-los. Por outro lado, as categorias que raramente
são representadas como vítimas genuínas de estupro são: mulheres estupradas por
parceiros atuais ou ex-parceiros, mulheres descritas como promíscuas, imprudentes,
etc., mulheres cujas versões dos eventos foram tratadas com desconfiança, e que
foram, portanto, descritas como mentirosas em potencial (ROSSI, 2016, p. 92).

A partir destes estereótipos, foi criado um espectro do que seria a “vítima perfeita”,
um perfil específico de mulher que teria direito de clamar justiça caso sua dignidade sexual
fosse violada. Nessa concepção, somente pode ser considerada vítima de crime sexual a
mulher que atenda a determinados “requisitos” sobre a sua conduta no contexto da violência e
também sobre a forma como conduz a própria vida.

“Bela, recatada e do lar”, a vítima perfeita não bebe, não usa roupas provocantes, não
sai à noite sozinha e nunca interagiu com o agressor. É frágil e indefesa, mas resiste à
violência de forma incisiva, de modo a não deixar dúvidas sobre a sua negativa. Apesar do
trauma, consegue relatar a violência com coerência e riqueza de detalhes, sem demonstrar
frieza ou falta de emoção, obviamente. Para as que não se enquadram nesses requisitos, ou
seja, a grande maioria das mulheres, a reação social, em geral, é de descrédito e de
culpabilização.
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Nesse contexto, a cultura do estupro, ao criar vítimas “genuínas” e “não-genuínas”, a


partir de critérios baseados em paradigmas mentirosos e sem qualquer fundamento jurídico ou
científico, funciona como um mecanismo de controle social que sustenta o patriarcado,
incentiva o uso da violência como instrumento de dominação e garante que as mulheres
permaneçam submissas, enquanto os homens se mantém em posição de poder, até mesmo
quando praticam os crimes mais hediondos.

3.5. Consequências

Conforme demonstrado, a cultura do estupro provém de uma sociedade que, ao mesmo


tempo que revela verdadeira ojeriza pelo estupro e outros crimes sexuais, na realidade se
mostra tolerante à sua incidência, quando esses crimes são cometidos contra mulheres que não
se encaixam em padrões comportamentais há muito estabelecidos e que são praticamente
impossíveis de alcançar.

A consequência prática dessa ideologia é que, em pesquisa realizada pelo Datafolha,


juntamente com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2016, foi demonstrado que um
a cada três brasileiros concorda com as frases: “mulheres que se dão ao respeito não são
estupradas” e “a mulher que usa roupas provocativas não pode reclamar se for estuprada”. Ou
seja, no entendimento popular, vestimenta e comportamento individual se tornam elementares
dos crimes sexuais e fazem com que, em muitos casos, a responsabilização da vítima vire
regra e a do ofensor, exceção.

Nessa concepção, a violação dos padrões de sexualidade impostos tem peso maior que
a violação real do corpo e da dignidade da mulher, o que permite que o agressor atue com o
aval da sociedade e dos sujeitos que operam o sistema penal, inevitavelmente influenciados
pela cultura do estupro e suas ramificações.

Todos esses valores distorcidos propagados no meio social também são internalizados
pelas vítimas, que quando sofrem essa violência, acabam tendo como primeira reação
procurar no próprio comportamento motivos que as fizeram ser estupradas ou que
“permitissem” que o agressor as estuprasse.

O silenciamento pelo medo da culpabilização, junto ao alto índice de subnotificação


desses delitos, estimado em 90% (IPEA, 2018, p. 26), são resultados diretos da cultura do
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estupro, que não só coloca todas as mulheres sob risco constante de sofrer violência sexual e
estimula a impunidade, como faz com que crianças e adolescentes sejam os maiores alvos
dessa violência, pois ao contrário do que se imagina, as pessoas mais afetadas não são
mulheres adultas “que não se dão ao respeito”, mas crianças e adolescentes, que, conforme
levantamento da Folha de São Paulo utilizando dados do Ministério da Saúde (2019),
correspondem a 72% das vítimas de violência sexual e dessas, 42% são vítimas recorrentes.

Mesmo com cifra oculta em torno de 90% (IPEA, 2018, p. 26), as estatísticas
denunciam o caráter epidêmico da violência sexual, visto que, de acordo com o Anuário
Brasileiro de Segurança Pública (2019, p. 112), o Brasil registrou 66.041 ocorrências de
estupro em 2018, o que significa que, em média, uma mulher é estuprada a cada oito minutos.
Se considerarmos a subnotificação estimada, essa incidência passa a ser de mais de um
estupro por minuto.

Números tão alarmantes, somados à contumaz responsabilização da vítima, criam nas


mulheres uma sensação de insegurança constante e limitam o exercício de direitos
fundamentais, como o de ir e vir. Rita Joana Basilio de Simões (apud BAKER, 2007, p. 36)
explica que a teoria feminista compreende o medo da violência como um dos pilares que
sustenta a manutenção do sistema patriarcal:

Ainda que a violência de gênero não seja a chave para a compreensão das relações
entre homens e mulheres, é, contudo, decisiva na abordagem da diferença entre uns
e outros. A questão da vitimização, por exemplo, é paradigmática. Embora os
homens tenham maior probabilidade de ser vítimas de crimes violentos, são as
mulheres que mais temem passar por experiência dessa índole. (Pain, 1997;
Yodanis, 2004). De acordo com a teoria feminista, é justamente através do medo que
os homens são capazes de controlar os comportamentos das mulheres, limitando sua
participação pública e mantendo o controlo das instituições sociais. (...) O
conhecimento da ocorrência de crimes horripilantes contra as mulheres será,
segundo essa perspectiva, suficiente para manter uma cultura do medo ao serviço do
domínio masculino (BAKER, 2007, p. 36).

Posto isso, o controle dos corpos femininos não se dá somente pela violência sofrida
de fato (muitas vezes utilizada como ferramenta de “correção”), mas também pelo medo dessa
violência, com o qual as mulheres precisam conviver diariamente e, a partir dele, tomar
decisões que podem mudar um pouco ou totalmente a sua vida. O medo da violência funciona
como um mecanismo de “autorregulação” ativado pela própria mulher, que se obriga a
restringir suas vestes, os horários em que pode sair desacompanhada, sua conduta e até
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mesmo seus ideais, ainda que involuntariamente. Por mais que esteja ciente da perversidade
dessas armadilhas do patriarcado, é praticamente inevitável que a mulher seja submetida a
esse sistema e veja sua liberdade limitada em diversos aspectos, não sendo capaz de viver
uma vida plena e exercer todos os direitos que, em tese, seriam seus.

4 A ATUAÇÃO DO SISTEMA PENAL NOS CRIMES SEXUAIS

Para que a forma de processamento dos crimes sexuais seja analisada, é necessário
compreender o histórico da criminalização do estupro, delito de maior incidência dentre os
crimes contra a dignidade sexual e que em muitos momentos da história da humanidade foi
tolerado socialmente e até mesmo institucionalizado. De acordo com Rossi:

Durante muito tempo, o estupro sequer era condenável moral ou criminalmente,


sendo visto até mesmo como um “prêmio”. Em casos de guerras, por exemplo, o
vencedor detinha o direito de ter relações sexuais, independentemente de qualquer
consentimento, com as mulheres da parte derrotada. Nesse contexto, o estupro era
relevado pelos juízes, pois representava uma espécie de “posse de território”.
(ROSSI, 2016, p. 41).

Nas primeiras formas de criminalização, o estupro era considerado um crime contra o


patrimônio (ROSSI, 2016, p. 42), revelando o caráter essencialmente masculino e patriarcal
do direito vigente à época.

A criminalização das violações sexuais praticadas contra as mulheres não veio para
protegê-las, mas para estabelecer regras entre os próprios homens sobre o que poderiam e o
que não poderiam fazer em relação à propriedade de outros homens. Violar o corpo de uma
mulher não significava violar a dignidade desse ser humano, significava danificar um
patrimônio, seja porque o ato poderia desvalorizar a filha virgem, tratada como mercadoria a
ser vendida pelo pai através do casamento, seja por violar o direito exclusivo do marido de
usufruir sexualmente da esposa.

Posteriormente, o crime passou a ser compreendido como uma violência sexual,


porém, sua tipificação trazia conceitos que diziam respeito ao comportamento individual da
mulher, definindo quem poderia e quem não poderia ser vítima, e assim permaneceu por
muitos anos.
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No Brasil, durante muito tempo, o estupro foi classificado como um crime que
atentava contra os costumes sociais e não contra a dignidade da vítima. O que restava violada
era a honra da família e do patriarca, importando muito pouco para o Direito Penal a afetação
que o delito causava na mulher vitimada.

Das Ordenações Afonsinas, de 1512, até o ano de 2005, após a lei 11.106/05, a
“honestidade” da mulher era trazida como elementar de crimes sexuais, havendo variações na
conceituação de “mulher honesta”, mas sendo constante a alta carga de moralidade que o
termo trazia consigo (FARIA, 2016, p. 3).

No Código Penal de 1940, o crime de estupro foi originalmente inserido no Título VI,
que tratava “Dos crimes contra os costumes”, juntamente com o atentado violento ao pudor e
outros crimes sexuais. É possível perceber, na denominação do Título, assim como em alguns
crimes que ainda traziam os termos “mulher virgem” e “mulher honesta” em sua redação, que
o conservadorismo, o foco no comportamento sexual pregresso da vítima e a sua consequente
culpabilização marcavam presença forte nas tipificações relativas a esses delitos. A exposição
de motivos do decreto-lei retratava com clareza o pensamento de que já foi dito, com acerto,
que “nos crimes sexuais, nunca o homem é tão algoz que não possa ser, também, um pouco
vítima, e a mulher nem sempre é a maior e a única vítima dos seus pretendidos infortúnios
sexuais” (BRASIL, 1940).

Após da lei 12.015/09, o Título VI, denominado “Dos crimes contra os costumes”,
passou a tratar “Dos crimes contra a dignidade sexual”, asseverando a ideia de que a tutela
penal nos crimes sexuais deve ter fundamento na dignidade da pessoa humana e não mais em
regras de conduta impostas pelo Estado e pela sociedade (costumes sociais). Rossi explica o
objetivo dessas mudanças:

O legislador de 2009 inovou em alguns aspectos no tratamento dos crimes sexuais


visando afastar qualquer ranço arcaico e inapropriado referente à ideia de moral e
bons costumes presentes na versão original do Código Penal, retirando conceitos em
desuso ou em contradição com o atual momento histórico-social e cultural (ROSSI,
2016, p. 59).

Cabe mencionar que, mais recentemente, com o advento da lei 13.718/18, novos
crimes sexuais e causas de aumento foram criados como forma de abarcar novas condutas que
atentam contra a dignidade sexual e ainda não eram abrangidas pela legislação penal. Dentre
os destaques da nova lei, estão os tipos penais de “Importunação sexual” e “Divulgação de
19

cena de estupro ou de cena de estupro de vulnerável, de cena de sexo ou de pornografia”.


Além dos novos tipos, a lei traz também causas de aumento de pena relativas ao crime de
estupro. Uma delas é chamada de “estupro coletivo”, situação em que dois ou mais agentes
praticam o crime em concurso. A outra causa de aumento diz respeito ao denominado
“estupro corretivo”, que seria aquele praticado “para controlar o comportamento social ou
sexual da vítima”.

É visível que a produção legislativa tem realizado um esforço para acompanhar o


progresso da sociedade, entretanto, o que é possível perceber é que infelizmente a natureza
dessa legislação é muito mais simbólica do que prática. O Código Penal evoluiu na redação,
novos crimes foram criados e a intenção de tutelar novos bens jurídicos foi manifestada,
porém, a atuação do sistema penal e a reação de grande parcela da sociedade em relação aos
crimes sexuais, parece continuar encontrando seu fundamento nos períodos que precederam a
própria criminalização.

Conforme demonstrado até o momento, a história da criminalização do estupro se


entrelaça com a história da mulher no caminhar da humanidade. Desde os movimentos
embrionários do patriarcado, a tentativa de controlar o corpo da mulher sempre esteve
presente. A princípio sob o pretexto da necessidade de gerenciar sua função reprodutiva para a
garantia de filhos “legítimos” e, posteriormente, com a ideologia dos papeis sociais de cada
gênero já sedimentada, a justificativa para a manutenção desse controle passou a ser a
preservação dos valores disseminados na sociedade. Campos (2017, p. 164) explica que no
patriarcado, a dominação sobre as mulheres é realizada através da subordinação sexual e
complementa apontando que o “direito asseguraria essa dominação, uma vez que o paradigma
jurídico que o instrui é masculino e o padrão pelo qual as mulheres são julgadas é o homem.
Portanto, o direito é patriarcal e masculino” (CAMPOS, 2017, p. 164).

Durante a maior parte da sua criação e desenvolvimento, o sistema jurídico foi


estudado e operado por homens e para homens. Assim sendo, inevitavelmente, por muito
tempo, somente a ótica masculina foi considerada na concepção e interpretação das leis em
geral e com a lei penal não foi diferente. Mesmo com a modernização das normas e o avanço
social, a aplicação do direito penal ainda é muito influenciada por conceitos e paradigmas
androcêntricos, que não levam em consideração o ponto de vista da mulher, tampouco a luta
dos movimentos feministas por emancipação e igualdade.
20

Juntamente a isso, considerando que o crime de estupro tem como principal


característica a clandestinidade, sendo geralmente praticado em ambientes privados ou locais
isolados, a produção de elementos probatórios que comprovem e ratifiquem o relato da vítima
resta dificultada, o que faz com que, comumente, o único meio de prova possível seja a
palavra da mulher que sofreu a agressão sexual. A prova pericial nem sempre é de grande
ajuda nesses casos, visto que muitas vezes o crime não deixa vestígios e, quando deixa, o
perito pode atestar se a vítima manteve relação sexual recente, mas não há como precisar se
houve consentimento, e é justamente na seara do consentimento que são abertas brechas no
procedimento judicial para que o comportamento individual da vítima seja colocado em
xeque, mesmo quando não mantem nenhuma relação com a prática do fato criminoso (ROSSI,
2016, p. 90). Sobre essa tendência, leciona Rossi:

A violência sexual contra a mulher decorre da visão patriarcal que enxerga a mulher
como um objeto de propriedade do homem e essa objetificação é reiterada no
discurso dos operadores do sistema de justiça criminal durante toda a fase de
colheita de provas, culminando em sentenças que em sua maioria revelam que o que
está em julgamento não é o fato criminoso, mas a conduta moral da vítima e do
autor do crime. (ROSSI, 2016, p. 59).

Corroborando esse raciocínio, Marcela Zamboni (2007, p. 2) ao analisar a transcrição


de uma audiência, em que a primeira pergunta do juiz direcionada à vítima foi relacionada à
sua virgindade à época do fato, concluiu que “a verdade jurídica é produzida não apenas a
partir da aplicabilidade da lei, mas principalmente segundo padrões sociais de moralidade”
(ZAMBONI, 2007, p. 2).

O sistema penal se mostra seletivo, tanto para definir o perfil da vítima quanto o do
agressor. É operada a chamada “lógica da honestidade” (ROSSI, 2016, p. 87), que assim
como boa parte dos paradigmas de um sistema patriarcal, tem dois pesos e duas medidas
quando trata de homens e mulheres. Enquanto o que define um “homem honesto” é a sua
sanidade mental e sua capacidade de se encaixar ou não no estereótipo do “estuprador
monstro”, o perfil da mulher honesta é baseado essencialmente na sua reputação sexual. Rossi
sintetiza a questão da seguinte forma:

Os homens são divididos em duas categorias: os “normais”, incapazes de cometer


um estupro, e os “anormais”, que merecem ser punidos. Do mesmo modo, as
mulheres são separadas entre “honestas”, as quais merecem uma proteção contra os
“anormais” e as “desonestas”, capazes de se aproveitar desse crime para reivindicar
direitos que não lhe cabem (ROSSI, 2016, p. 91).
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Além da reputação ilibada e da ausência de “desvios comportamentais”, a vítima


também precisa apresentar comprovação de que sua negativa foi clara e incisiva e que em
momento nenhum deixou dúvida a respeito da sua discordância com o ato sexual. Nessa
toada, há entendimento doutrinário no sentido de que havendo dúvida a respeito da recusa,
seria possível a alegação de “erro de tipo”, afastando o dolo e conduzindo à atipicidade do
fato (MASSON, 2014, p. 824). Ou seja, se o agressor argui que o fato ocorrido não foi
estupro, porque entendeu que houve consentimento da vítima no momento, por qualquer
razão que seja, ocorre uma verdadeira inversão do ônus da prova e a vítima passa a ser
responsável por comprovar que o ato sexual foi praticado contra a sua vontade.

Sendo assim, dificilmente a grande maioria das vítimas de crimes sexuais conseguirá
se enquadrar no estereótipo do que aqui chamamos de “vítima perfeita”, pois todo o sistema
opera no sentido de desqualificar essa vítima, através de fatos relacionados à sua
personalidade e comportamento, colocando em dúvida constante a possibilidade de ocorrência
do fato criminoso narrado.

Do atendimento nos serviços de saúde até a conclusão do processo no judiciário, a


mulher será incansavelmente questionada sobre onde estava, a que horas, o que estava
fazendo no local, se bebeu, se interagiu anteriormente com o agressor, se comportou-se de
maneira “promíscua”, se disse não “querendo dizer sim”, se reagiu, se foi incisiva na
negativa, se gritou por ajuda, por que não há marcas de violência, por que demorou para
denunciar, enfim, indagações que o tempo todo colocarão à prova o depoimento prestado e a
farão ser revitimizada por inúmeras vezes, na intenção perversa de que, em algum momento,
ela assuma a responsabilidade pela violência sofrida.

Portanto, o que se percebe é que, apesar da jurisprudência majoritária apontar o grande


valor da palavra da vítima nos crimes sexuais (STJ, 2018, p. 3), na prática essa palavra
somente será realmente considerada se acompanhada da comprovação de que a vítima
manteve conduta impecável antes, durante e depois do fato criminoso. Caso contrário, seu
depoimento poderá ser considerado como “prova frágil” ou até mesmo falacioso.
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CONCLUSÃO

Para compreender as causas e as consequências da violência sexual contra a mulher no


Brasil e no mundo, é indispensável entender que crimes sexuais não são fruto de um desejo
sexual incontrolável. Não se trata de uma violência corporal apenas, mas de uma violência
que dói na alma e tem a intenção de assim o ser. Crimes sexuais são instrumentos de
dominação. São formas de humilhar, subjugar e controlar a vítima, retirando qualquer
autonomia que ela possa ter sobre seu corpo, sua intimidade e suas vontades.

Estupro é um crime de ódio. É uma arma utilizada para manter a divisão sexual
estabelecida pelo patriarcado através da dominação do corpo, reforçando a ideia de que a
liberdade plena só é direito de quem está em posição de poder e esse não é o lugar das
mulheres.

Bourdieu (2012) explica que, além da violência de fato, o processo de dominação


masculina se vale da “violência simbólica”, que, de forma sutil, realiza a contenção e reforça
a subordinação das mulheres. A violência simbólica se revela através de normas de conduta
que limitam os corpos e a autonomia das mulheres, sendo a cultura do estupro uma das
formas de manifestação dessa violência.

A cultura do estupro trabalha em função do patriarcado para tornar o mundo das


mulheres menor. Ao naturalizar a violência e ditar regras de comportamento que teoricamente
evitariam uma violação sexual, intrinsecamente o que a sociedade está dizendo para a mulher
é que ela precisa se limitar, que não pode exercer os mesmos direitos que os homens pois
precisa “se dar ao respeito”, que não pode frequentar os mesmos lugares pois alguns recintos
não são “lugar de mulher”.

Atualmente, a resposta da justiça penal nos crimes sexuais tem como destinatária a
vítima, em vez de seu algoz. É ela quem sofre a estigmatização de passar por um processo
criminal, é ela quem recebe duros questionamentos a respeito da veracidade das suas
afirmações e, ao fim, é ela quem acaba por penalizada, em um sistema que inverte valores e
propaga injustiças, muitas vezes isentando agressores e fazendo com que a vítima seja vista
como mentirosa ou que se sinta culpada por ter sido violada sexualmente. Nesses crimes, a
seletividade do sistema penal não atua somente em relação ao perfil do criminoso, mas dita
também quem pode ou não ser vítima e, como foi exposto, grande parte das mulheres não
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consegue passar pela “peneira social” que filtra de forma bastante rigorosa quais serão
tuteladas e protegidas pelo sistema pois, conforme conclusão de Sommacal (2016, p. 70):
“toda mulher possui em si uma característica que pode vir a ser utilizada para culpabilizá-la
qual seja, o fato de ser mulher”.

E a melhor forma de prevenir que esses crimes ocorram não é usando roupas
compridas ou não saindo de casa em certos horários – como é ensinado para as mulheres
durante toda a vida –, mas com a desconstrução da crença de que se a mulher agir de
determinada forma ou deixar de fazer certas coisas, ela será capaz de evitar um estupro. É
necessário que sejam abertas mais possibilidades de diálogo, que homens, mulheres, meninas
e meninos conversem sobre violência sexual e consentimento. É necessário que se aprenda
sobre respeito e sobre como identificar uma violência desse tipo, é preciso desmantelar a
cultura do estupro e, em paralelo, destruir as bases que sustentam o patriarcado.

Como explica Bourdieu (2012), o combate à violência simbólica que assegura a


dominação masculina deve ser feito através da desconstrução da estrutura de opressão em que
vivemos:

Pelo fato de o fundamento da violência simbólica residir não nas consciências


mistificadas que bastaria esclarecer, e sim nas disposições modeladas pelas
estruturas de dominação que as produzem, só se pode chegar a uma ruptura da
relação de cumplicidade que as vítimas da dominação simbólica têm com os
dominantes com uma transformação radical das condições sociais de produção das
tendências que levam os dominados a adotar, sobre os dominantes e sobre si
mesmos, o próprio ponto de vista dos dominantes. A violência simbólica não se
processa senão através de um ato de conhecimento e de desconhecimento prático,
ato este que se efetiva aquém da consciência e da vontade e que confere seu "poder
hipnótico" a todas as suas manifestações, injunções, sugestões, seduções, ameaças,
censuras, ordens ou chamadas à ordem. Mas uma relação de dominação que só
funciona por meio dessa cumplicidade de tendências depende, profundamente, para
sua perpetuação ou para sua transformação, da perpetuação ou da transformação das
estruturas de que tais disposições são resultantes (particularmente da estrutura de um
mercado de bens simbólicos cuja lei fundamental é que as mulheres nele são tratadas
como objetos que circulam de baixo para cima). (BOURDIEU, 2012, p. 31).
24

Por essa razão, as alterações na lei penal não tem se mostrado efetivas no combate a
este tipo de violência. É preciso trabalhar na efetivação de mudanças na sociedade, para que
as normas penais, que trazem em sua redação a pretensão de proteger a liberdade sexual das
mulheres, sejam aplicadas de maneira efetiva. É preciso trabalhar para que além da proteção
simbólica da legislação, seja consolidado também o respeito por essa mesma liberdade sexual,
retirada das mulheres de forma violenta e injusta por tantos anos. E a melhor forma de fazer
isso é combatendo as mentiras propagadas pelo patriarcado.

A naturalização da violência sexual não pode mais ser admitida. É inaceitável que a
prática tão frequente de uma violência que deixa marcas tão profundas seja tratada como algo
“normal”, como consequência dos atos da pessoa violada, sejam eles quais forem. Nenhuma
mulher merece ser estuprada. Em hipótese alguma, em contexto nenhum.

REFERÊNCIAS

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contra o gênero feminino. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2015.

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criminologias. 1ª ed. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2017.

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25

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sexual são vítimas recorrentes. Folha de São Paulo, 2019. Disponível em:<
https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/09/42-das-criancas-e-adolescentes-que-
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