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A Utilização da Matemática em

Empreendimentos Econômicos
Solidários: Uma revisão bibliográfica

The Use of Mathematics in Solidary Economic Enterprises Context: A Bibliographic


Review
MOURA, Carla Saturnina Ramos de1; RAMOS, Jorge Luis Cavalcanti2; SANTOS, Vivianni
Marques Leite dos3 ; SILVA, Lino Marcos da4
1
UNIVASF, carlasramosmoura@gmail.com; 2 UNIVASF, jorge.cavalcanti@univasf.edu.br; 3UNIVASF,
vivianni.santos@univasf.edu.br; 4UNIVASF, lino.silva@univasf.edu.br

Área Temática: POLÍTICAS PÚBLICAS,


PRÁTICAS ASSOCIATIVAS,
EXTENSÃO E DESENVOLVIMENTO
RURAL
Resumo

Esse estudo objetiva identificar situações matemáticas em práticas de Empreendimentos


Econômicos Solidários – EES, assim como relacionar o conhecimento matemático e a autogestão
nos EES. A pesquisa consiste em uma revisão bibliográfica com uma abordagem qualitativa, em
que foram selecionados artigos no Portal de Periódicos CAPES. Assim, concluímos que existem
situações em EES em que são utilizados conhecimentos matemáticos, tais como: o entendimento
de planilhas eletrônicas; a organização de tabelas para controle de produção; o cálculo de materiais
necessários para a produção e o entendimento de operações matemáticas utilizadas para
elaboração de orçamentos do empreendimento. Foi identificada uma não compreensão desses
conteúdos matemáticos por parte dos membros, sendo realizadas intervenções pedagógicas que
contemplavam atividades que valorizavam o contexto de cada empreendimento e os conhecimentos
prévios dos membros, essas ações contribuíram para o fortalecimento da autogestão.

Palavras-chave: Matemática; Autogestão; Economia Solidária.

Abstract:

This study aims to identify mathematical situations in practices of Solidary Economic Enterprises -
ESS, as well as to relate mathematical knowledge and self-management in ESS. The research
consists of a bibliographical review with a qualitative approach, in which articles were selected in the
CAPES Journal Portal. Thus, we conclude that there are situations in EES where mathematical
knowledge is used, such as: understanding spreadsheets; the organization of tables for production
control; the calculation of materials needed for production and the understanding of mathematical
operations used to prepare budgets of the enterprise. A misunderstanding of these mathematical
contents was identified by the members, and pedagogical interventions were performed that
contemplated activities that valued the context of each undertaking and the prior knowledge of the
members. These actions contributed to the strengthening of self-management.

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Keywords: Mathematics; Self-management; Solidarity economy

Introdução

No contexto atual, onde existem diversas discussões relativas à organização da


sociedade, entre elas, no cenário organizacional, encontra-se o capitalismo. Singer (2002)
considera que tal modo de produção é fundamentado no direito de propriedade e liberdade
individual, e destaca-se que uma das consequências desse modo de produção é uma
economia de mercado competitiva, em que empresas disputam as vendas. (SINGER, 2002,
p. 08).
Contrário a esse modo de pensar competitivo e excludente, que tem como uma de
suas consequências a desigualdade social, Singer (2002) propõe uma sociedade adepta à
Economia Solidária, na qual a competição fosse substituída pela cooperação entre os
participantes da atividade econômica. Nessa mesma perspectiva, Pitaguari, Santos, Camara
(2012) destacam que a potencialidade da Economia Solidária está centrada na solidariedade
e na equidade, não havendo espaço para a competição e o individualismo.
As transformações recentes ocorridas no mundo do trabalho fizeram com que
trabalhadores e comunidades pobres se organizassem sob a forma de autogestão, uma
característica importante da Economia Solidária (BRASIL, 2006). De forma simples, Santos
(2012) esclarece que “autogestão seria a gerência de si mesmo. Parte-se do intento de que
os homens podem ser responsáveis pela organização de uma atividade, sem a necessária
intervenção de um dirigente, ou um superior” (SANTOS, 2012, p. 106).
Quando um grupo de pessoas produzem e comercializam seus produtos baseados
nos princípios da Economia Solidaria, elas constituem os Empreendimentos Econômicos
Solidários (EES). Esses empreendimentos podem ser: “cooperativas, associações,
empresas recuperadas autogeridas, organizações de finanças solidárias, grupos informais,
entre outros. (MENEGHETI, 2016, p. 3).
Os EES, ao longo do tempo, recebem apoio de diversas entidades. Destacamos, no
contexto acadêmico, o trabalho realizado pelo grupo de pesquisa EduMatEcoSol,
coordenado pela professora Renata C.G. Meneghetti, sendo uma de suas linhas de
pesquisa relativa à Educação em Economia Solidária. Meneghetti (2016) identifica a
Etnomatemática presente nos EES e, a partir disso, realiza intervenções, contribuindo para
a autogestão de tais empreendimentos.
É notório que o conhecimento matemático se apresenta nos mais variados contextos
sociais. É nesse sentido que D’Ambrósio (2013) discute um saber fazer matemático
contextualizado, que busca explicações e maneiras de lidar com o ambiente, apontando a
Etnomatemática como a matemática praticada por grupos culturais, a exemplo de grupos de
trabalhadores, sociedades indígenas dentre outros.
D’Ambrósio (2008) ressalta uma definição de caráter etimológico para a
Etnomatemática, em que etno são os mais variados ambientes, desde o social, cultural e a
natureza; matema, que significa explicar, entender, ensinar, lidar com; tica, que lembra a
palavra grega tecné, que se refere a artes, técnicas, maneiras. Em síntese, tem-se a
Etnomatemática, que significa “o conjunto de artes, técnicas de explicar e de entender, de
lidar com o ambiente social, cultural e natural, desenvolvido por distintos grupos culturais”
(D’AMBROSIO, 2008, p. 8).

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Diante do exposto, este estudo tem como objetivo identificar situações matemáticas
presente em práticas de Empreendimentos Econômicos Solidários (EES). Mais
especificamente, objetiva-se relacionar o conhecimento matemático e a autogestão nos
EES.

Material e Métodos

Este estudo consiste em uma revisão bibliográfica, com uma abordagem qualitativa
(GIL, 2017), em que foram selecionados artigos publicados entre o ano 2000 e outubro de
2019, indexados Portal de Periódicos CAPES/MEC. Na busca, foram utilizadas as seguintes
palavras-chave “Etnomatemática’’,” Economia Solidária” interligadas com o operador
booleano “AND”.

Resultados e Discussão

Após a busca pelas palavras “Etnomatemática’’ e ” Economia Solidária” no Portal de


Periódicos Capes, foram identificados 6 artigos, sendo 3 artigos duplicados e ainda um artigo
que não foi considerado na análise, pois o mesmo tinha como objetivo investigar, do ponto
de vista teórico, aproximações possíveis entre a Educação Matemática e a Economia
Solidária (MENEGHETTI,2013), não abordava situações matemáticas presentes em
práticas de EES. Assim para análise dos resultados foram considerados 2 estudos, que são:
Meneghetti; Barrofaldi (2015) e Meneghetti et al. (2013).
O estudo de Meneghetti e Barrofaldi (2015) teve como propósito desenvolver
atividades matemática de forma contextualizada, visando atender a demanda específica de
um Banco Comunitário (BC). Dessa forma, incialmente ocorreu uma compreensão do dia a
dia desse empreendimento; buscando identificar os saberes matemáticos necessários em
sua cadeia produtiva e as dificuldades apresentadas por seus membros.
De acordo com o levantamento inicial, a maioria das atividades efetuadas no BC
giravam em torno de se manusear uma planilha de análise e de controle de crédito produtivo,
utilizada para a análise e concessão de empréstimos. Dessa forma, foi identificado uma
maior dificuldade dos integrantes na utilização dessa planilha, mais especificamente, em
relação aos conceitos matemáticos necessários para seu preenchimento e análise, que
envolvem operações básicas com números decimais, cálculo de médias, porcentagens,
regra de três e conversões de medidas. Diante dessa constatação, em um segundo
momento, foram realizadas intervenções em que foram trabalhados esses conteúdos
matemáticos, valorizando o conhecimento prévio que cada membro possuía. Verificou-se
ainda que as intervenções propiciaram a aprendizagem de conteúdos matemáticos em que
diversas dificuldades apontadas inicialmente foram sanadas, além disso, sinalizam que
essas ações auxiliaram na autogestão daquele empreendimento.
A pesquisa de Meneghetti et al (2013) teve como finalidade atender as demandas
específicas da Educação Matemática junto a três Empreendimentos em Economia Solidária
(EES): uma cooperativa de limpeza, uma marcenaria coletiva feminina e um grupo de
fabricação de sabão caseiro. Em um primeiro momento, foram identificados os saberes
matemáticos presentes em cada um dos grupos dificuldades encontradas por seus
integrantes quanto ao conhecimento matemático. Assim, na cooperativa, foi identificada a
participação em editais públicos que necessitam apresentar contrato com valores baseados
no tipo de serviço a ser prestado, incluindo cálculos como: número de integrantes para
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executar o serviço; quantidade de produtos de limpeza necessária, deslocamento de
produtos e de pessoas etc. Nestas ações, utiliza-se operações com números racionais na
forma decimal.
Na marcenaria coletiva feminina, foram identificadas situações matemáticas, as quais
envolveram desde o cálculo da quantidade de madeira utilizada para a confecção de móveis
até discussões sobre uso de calculadora, ábaco e equações.
Quanto ao grupo de fabricação de sabão caseiro, os pesquisadores perceberam que
as sócias tinham dificuldades na confecção das tabelas utilizadas para controle da produção
e contagem de produto produzido. Nesse sentido, foi realizada atividade de intervenção no
sentido de orientar a construção de tabelas. Dessa forma, após esse momento, foi
identificado que quanto ao preenchimento da tabela, compreenderam como se dá o
preenchimento e interpretação de uma tabela, o que consistiu em um avanço em busca da
autogestão deste EES.

Conclusão

Ao retomar os objetivos desse trabalho, de identificar situações matemáticas


presentes em práticas de Empreendimentos Econômicos Solidários (EES), e de relacionar
o conhecimento matemático e a autogestão, conclui-se que existem diversas situações nos
EES em que são utilizados conhecimentos matemáticos. De acordo com as pesquisas
analisadas, deve-se destacar: o uso e entendimento de planilhas eletrônicas; a organização
de tabelas para controle de produção; o cálculo de materiais necessários para a produção,
assim como o entendimento de operações matemáticas utilizadas para elaboração de
orçamentos do empreendimento.
Foi identificado que os membros dos EES envolvidos nas pesquisas apresentaram
dificuldades na manipulação desses conteúdos matemáticos, o que acarretava em uma
dificuldade na execução das atividades. Dessa forma, nos três estudos, foram realizadas
intervenções pedagógicas, em que foram contempladas atividades que valorizavam o
contexto de cada empreendimento e os conhecimentos prévios dos membros, essas ações
proporcionaram uma certa autonomia na execução das atividades, contribuindo para o
fortalecimento da autogestão.

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4
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