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ANÁLISE DA MÚSICA CHÃO DE GIZ – ZÉ RAMALHO

Vocês que fazem parte dessa massa que passa nos


projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar e dar muito mais do que
receber
E ter que demonstrar sua coragem à margem do que
possa parecer
E ver que toda essa engrenagem já sente a ferrugem lhe
comer

Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz

Lá fora faz um tempo confortável, a vigilância cuida do


normal
Os automóveis ouvem a notícia, os homens a publicam
no jornal
E correm através da madrugada a única velhice que
chegou
Demoram-se na beira da estrada e passam a contar o
que sobrou

Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz

O povo foge da ignorância apesar de viver tão perto dela


E sonham com melhores tempos idos, contemplam essa
vida numa cela
Esperam nova possibilidade de verem esse mundo se
acabar
A arca de noé, o dirigível, não voam nem se pode flutuar

Ê, ô ô, vida de gado, povo marcado, ê, povo feliz


A letra da música foi escrita na terceira
pessoa, ou seja, é um narrador onisciente e
objetivo quanto aos fatos relatados – não é
influenciado pelas próprias emoções, até porque
ele mesmo não faz parte da narração.
O título da música é notadamente uma referência
ao livro “admirável mundo novo” do escritor
Audous Huxley. Neste best-seller o escritor
defende a ideia de que a sociedade do futuro
suprimirá valores como o família, religião,
privacidade, dúvida, amor, insatisfação, e todos
os momentos da vida de seus cidadãos serão
expressamente controlados pelo Estado (cultura,
entretenimento, trabalho, relações sociais).
Quando alguns desses valores passam a não fazer
mais sentido para alguém, então é a hora desse
alguém tomar a “soma” – um comprimido que
anestesia e elimina qualquer sintoma de
insatisfação (basicamente um droga).
Fazendo um paralelo entre o livro e a música
vemos alguns elementos em comum. Ambos possuem
sociedades estruturadas em uma ordem rígida e de
certa maneira opressora – enquanto uma suprime
valores como privacidade a outra trata seus
cidadãos com “vida de gado”.
Podemos notar também a intenção e compromisso de
ambos os Estados em manter a ordem instaurada. O
do livro se utiliza de uma droga (a soma),
enquanto o outro de promessas que nunca são
cumpridas – “Vocês que fazem parte dessa massa
que passa nos projetos do futuro”.
Entenda “projetos do futuro” como uma promessa
de que “dias melhoress virão”. Se hoje você esta
insatisfeito e infeliz com a vida e com o
sistema deve manter a calma, pois o sistema esta
trabalhando para no futuro inverter este quandro
e tornar a sua vida melhor. Tenha paciência.
Nessa história a opressão do sistema se mantem
irretocável.
Agora, não se pode deixar de anotar também os
traços do marxismo.
1. “É duro tanto ter que caminhar e dar muito
mais do que receber” – fazendo referência à mais
valia – teoria marxista – aonde o operário
produz 1000 peças para o burguês, mas o salário
disso é suficiente para comprar apenas 100, por
exemplo. Marca da opressão.
2.”E ter que demonstrar sua coragem à margem do
que possa parecer” – aqui é tratado a alienação
do operário, inserido em um mundo onde os ideais
de valores são os seus maiores bens (dignidade,
honra, mérito, amor, paz, obediencia,
compromisso) e no entanto, não sabe o prque de
tais valores, sua função, interesses e
resultados.
3. “E ver que toda essa engrenagem já sente a
ferrugem lhe comer” – autoexplicativo né.
prenuncia aqui o desmoronamento do sistema. Isso
porque o oprimido vive cada vez mais desiludido
quanto ao seu futuro. Pode ser feita uma relação
com a profecia fracassada de Marx de que o
capitalismo seria substituido pelo comunismo, e
que até o momento não passa de um dos fracassos
de Marx.
4.”Lá fora faz um tempo confortável, a
vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia, os homens a
publicam no jornal” – Há aqui uma crítica pesada
ao sistema. O que necessariamente normal? por
que é normal expropriar um trabalhador mas é
crime roubar um banco para não morrer de fome?
Aliás, utilizando uma frase muito conhecida: “eu
não sei o que é pior: roubar um banco ou ter
um”. Ou seja, nesse pequeno trecho há uma
crítica aos valores burgueses
5 – “E correm através da madrugada a única
velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada e passam a contar
o que sobrou” – essa eu ainda não sei e nem faço
a mínima ideia do que pode querer dizer.
6. “O povo foge da ignorância apesar de viver
tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos, contemplam
essa vida numa cela” – agora passa ser uma
reafirmação dos argumentos. O povo quer ser
respeitado dentro do sistema fugindo de todas as
malediscências que possam cair sobre ele, mas
isso já é o suficiente para o destruir, enquanto
ser consciente, pois fazer parte dessa sociedade
já terminantemente degradável. Ainda assim ele
espera uma vida melhor, mesmo que em uma cela,
porque tudo que esta ao seu alcance é observar o
sistema, a engrenagem – por isso a cela.
7.”Esperam nova possibilidade de verem esse
mundo se acabar” – autoexplicativo.
8.”A arca de noé, o dirigível, não voam nem se
pode flutuar” – essa eu também quero saber.

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