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TOXICOLOGIA DE

AGROTÓXICOS E
SOLVENTES
Agrotóxicos: Definição
• Produtos e componentes de processos físicos, químicos
ou biológicos destinados ao uso no setores de
produção, armazenamento, e beneficiamento de
produtos agrícolas, nas pastagens, na proteção de
florestas nativas ou implantadas e de outros
ecossistemas e também em ambientes urbanos,
hídricos e industriais, cuja finalidade seja alterar a
composição da flora e da fauna, a fim de preservá-la da
ação danosa de seres vivos considerados nocivos, vem
como substâncias e produtos empregados como
desfolhantes, dessecantes, estimuladores e inibidores
do crescimento.” ( Lei 7.802/89 e Dec. 98.816, art. 2º.,
Inciso I )
Agrotóxicos: Classificação
300 Princípios ativos em 3.000 Formulações

• INSETICIDAS
– ORGANOSFOSFORADOS: derivados dos ácidos fosfórico, tiofosfórico
ou ditiofosfórico:
• Folidol, Azodrin, Malation, Diazinon, Nuvacron, Tamaron, Rhodiatox

– CARBAMATOS: derivados do ácido carbâmico


• Carbaril, Temik, Zectran, Furadan

– ORGANOCLORADOS: à base de carbono, radicais de cloro.


Derivados do clorobenzeno, do ciclohexano ou do ciclodieno:
Aldrin,Endrin,, BHC, DDT, Endossulfan, Heptacloro, Lindane, Mirex

– PIRETRÓIDES: Sintéticos: com estrutura semelhante à Piretrina


(Chrysanthemum cinenariaefolium): aletrina, resmetrina, decameterina,
cipermetrina
Agrotóxicos:Classificação

• FUNGICIDAS
• Etileno-bis-ditiocarbamatos: Maneb, Mancozeb, Dithane, Zineb,
Tiran
• Trifenil estânico: Duter e Brestan
• Captan: Ortocide e Merpan
• Hexaclorobenzeno

• HERBICIDAS
• Paraquat: Gramoxone
• Glifosato: Round-up
• Pentaclorofenol: Clorofen; Dowcide-G
• Derivados do ácido fenoxiácético: 2,4 diclorofenoxiacético(2,4D);
2,4,5 triclorofenoxiácetioco ( 2,4,5 T) e 2,4 D + 2,4,5 T = TORDON (
Agente Laranja)
Agrotóxicos:Classificação

• Raticidas: dicumarínicos
• Acaricidas
• Nematicidas
• Molusticidas
• Fumigantes: combate a insetos e
bactérias: fosfetos metálicos ( Fosfina) e
Brometo de metila
Agrotóxicos: Classificação Toxicológica segundo a
DL 50 e cor no rótulo do produto

Grupos DL50 (mg/kg) Dose capaz de


matar um adulto
Extremamente <5 1 pitada/algumas
tóxicos( Classe I) gotas
Altamente tóxicos 5 - 50 Algumas gotas - 1
(Classe II) colher de chá
Medianamente 50 - 500 1 colher de chá/
tóxicos ( Classe 2 colheres de
III) sopa
Pouco 500 - 5.000 2 colheres de
tóxicos(Classe IV) sopa a 1 copo
Muito 5.000 ou mais 1 copo – 1 litro
pouco tóxicos
AÇÃO DOS ORGANOFOSFORADOS
E CARBAMATOS

• Inibidores da acetilcolinesterase:
– no Sistema Nervoso Central
– nos glóbulos vermelhos
– no plasma
– em outros órgãos
• Não se acumulam no organismo. É possível o
acúmulo de efeitos
• Ocorrem efeitos neurotóxicos retardados com
alguns organofosforados( inibição de
neurotoxiesterases)
Sinapse nervosa
Mecanismo de inibição da acetilcolinesterase
Sinais e Sintomas de Intoxicação por
Organofosforados e Carbamatos
Precocemente Tardiamente
Suor abundante Miose
Salivação intensa Vômitos
Lacrimejamento Dificuldade respiratória
Fraqueza Colapso
Tontura Tremores musculares
Dores e cólicas abdominais Convulsão
Visão turva ou embaçada
Sinais e Sintomas de Intoxicação por
Organoclorados
Primeiramente Tardiamente
Irritabilidade Tontura

Dor de Cabeça Náuseas e Vômitos


Sensação
de cansaço Colapso

Mal-estar
Sudorese fria Contrações
musculares
involuntárias
Convulsões
Outros efeitos dos Organoclorados*

Efeitos genotóxicos do DDT e do HCH sobre


linhagem de células mononucleares humanas
cultivadas: o aumento da concentração de DDT
leva a uma tendência de aumento da
fragmentação do DNA
Investigação do dano genômico: amento da
formação de micronúcleos, indicativo de dano
genômico, que pode levar a um aumento de
células precursoras de tumores
* Grupo de Estudos de Saúde e Trabalho Rural – ICB/UFMG
MODO DE AÇÃO DOS PIRETRÓIDES

• Estimulante do sistema Nervoso Central

• Em doses altas: lesões permanentes no


Sistema nervoso periférico

• Reações alérgicas
Sinais e Sintomas de Intoxicação
por Piretróides
Precocemente:
¾ formigamento nas pálpebras e lábios. Irritação
das conjuntivas e mucosas,espirros.

Tardiamente:
¾ Prurido, manchas na pele, secreção e obstrução
de mucosas, reação de hipersensibilidade,
excitação e convulsões
Outros efeitos dos Piretróides*

¾ Redução significativa da proliferação celular de


células mononucleares cultivadas humanas de
trabalhadores exposto

¾ Redução da capacidade oxidativa das células,


aumentando os danos no DNA, correspondendo
ao um envelhecimento precoce da população
exposta
* Grupo de Estudos de Saúde e Trabalho Rural – ICB/UFMG
SOLVENTES: Definição

• Qualquer substância – usualmente líquida - que


dissolve outra substância, resultando em uma
solução ( uniformemente dispersa como
mistura)
• Podem ser classificados como AQUOSOS
(baseados em água) ou ORGÂNICOS
(baseados em hidrocarbonetos). A maioria dos
solventes industriais são orgânicos e usados
para : LIMPEZA, DESENGRAXE OU
EXTRAÇÃO
SOLVENTES: Classificação
ƒ HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS : Pentano, Hexano, Heptano etc

ƒ HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS CÍCLICOS: Ciclopentano, ciclohexano

ƒ HIDROCARBONETOS AROMÁTICOS : Benzeno, Tolueno, Xileno, Estireno

ƒ HIDROCARBONETOS ALIFÁTICOS HALOGENADOS: Tricloroetano, percloroetileno,


tricloroetileno, tetracloreto de carbono

ƒ ALCOÓIS: metílico, etílico

ƒ CETONAS: Acetona, MEK (metil-etil-cetona), MIBK ( metil-iso-butil-cetona)

ƒ ÉSTERES: acetato de etila, de propila

ƒ ÉTERES: éter etílico

ƒ GLICÓIS: etileno glicol, dietileno glicol, trietileno glicol, propileno glicol

ƒ Outros compostos: dissulfeto de carbono, benzina, terebentina


EFEITOS DOS SOLVENTES – I
PELE
Dermatite: 20% dos casos
A maioria é irritante primário => efeito desengordurante
Alguns provocam dermatite de contato alérgica

SISTEMA NERVOSO CENTRAL


Efeitos agudos: Depressão do SNC ou anestesia
Efeitos crônicos:
Distúrbios neurocomportamentais (Dissulfeto de carbono)

Sintomas subjetivos, mudanças de personalidade ou do humor


(depressão, ansiedade), função intelectual reduzida, cefaléia,
fadiga, perda da memória recente, dificuldade de concentração
EFEITOS DOS SOLVENTES - II
EFEITOS HEPATÓXICOS
Principalmente solventes halogenados e com radicais nitrosos
Fracamente hepatóxicos: benzeno, tolueno, xileno, ésteres e cetonas
Necrose hepática aguda => 2- nitropropano
Hepatite crônica : CCl4

EFEITOS RENAIS
Insuficiência renal aguda: intoxicação aguda por solventes
halogenados

EFEITOS HEMATOLÓGICOS
Anemia aplástica/leucemia : Benzeno
Anemia hemolítica : glico-éteres

OUTROS EFEITOS : - Sobre o sistema reprodutivo


- Defeitos congênitos do SNC
- Efeitos teratogênicos: álcool etílico
Benzeno
• É um hidrocarboneto aromático, de
odor característico, líquido, incolor,
altamente inflamável, não polar.
• Características físico-químicas:
– Ponto de ebulição = 80,1 ºC
– Pressão de vapor = 95,2 mm Hg (25ºC)
• (água = 23,8 mm Hg - 25ºC)
– Ar saturado contém 120.000 ppm
– Ponto de fulgor = - 11.1ºC (copo fechado)
– Limites de explosividade = inferior : 1,5% -
superior : 8% por volume de ar
– Limite olfativo = 1-12 ppm ( 3,2 - 39 mg/m3 )
Benzeno: Principais fontes de exposição

¾ Siderúrgicas integradas; coquerias


¾ Indústrias do petróleo;
¾ Indústrias petroquímicas;
¾ Indústrias químicas que utilizam o benzeno em
processo de síntese química;
¾ Laboratórios de análise química;
¾ Postos de gasolina e mecânicos de automóveis.
¾Atividades que usam gasolina como solvente.
Benzeno: Toxicocinética

Vias de absorção:
1. Via respiratória é a mais importante
A maior parte do benzeno inalado é eliminado pela
expiração (cerca de 50% a 60%), sendo a retenção respiratória
de cerca de 30%

2. Via oral e cutânea

A absorção cutânea não é tão substancial quanto a


absorção que se segue a inalação ou exposição oral
Benzeno: Toxicocinética

O benzeno deposita-se preferencialmente no tecido adiposo.

Metabólitos do benzeno (fenol, catecol e hidroquinona) foram


detectados no sangue e medula óssea após 6 horas de
exposição ao benzeno, com níveis na medula óssea excedendo
os respectivos níveis no sangue.

- O benzeno é uma molécula altamente lipofílica que não está


pronta para ser excretada pelo organismo, excetuando-se no ar
expirado, por ser volátil. Portanto, é eliminado intacto através dos
pulmões e, em uma pequena parte, como metabólitos pela urina.
- A taxa e percentual de excreção através dos pulmões são
dependentes da dose e da via de exposição.
Benzeno: Toxicocinética

Metabolismo: Predominantemente hepático sendo seus


metabólitos excretados pela urina.

Pode também ser metabolizado pela medula óssea e sangue.

A medula é o órgão alvo da toxicidade do benzeno, havendo


estudos que sugerem efeitos interativos entre metabólitos do
benzeno formados no fígado e na medula óssea, não ocorrendo
efeito tóxico primário no fígado mas apenas na medula óssea.
Benzeno: Metabolismo: 2 fases

2 fases:

Fase I: Alteração na estrutura da molécula original: oxidação, redução e


hidrólise

Fase II: torná-lo solúvel em água, acoplando um grupo funcional que


pode então ser conjugado com ácido glicurônico, sulfato ou alguma outra
molécula altamente polar

A hidroxilação aromática é muito importante, pois, seus principais


produtos são os fenóis, além dos catecóis e quinóis.

Acredita-se que o efeito carcinogênico do benzeno é produzido


por um ou alguns destes metabólitos intermediários.
Efeitos Tóxicos

Os efeitos mielotóxicos são as principais alterações relacionadas


a exposição crônica ao benzeno.

3 mecanismos fundamentais de mielotoxicidade do benzeno:


- Depressão das células progenitoras primitivas e
indiferenciadas (Stem cells)
- Lesão do tecido de medula óssea
- Formação clonal de células primitivas afetadas
decorrente de danos cromossomiais dessas células.
Efeitos Tóxicos

O benzeno é mielotóxico, leucemogênico e


cancerígeno, mesmo em baixas concentrações.
Acarreta também lesões ao sistema nervoso
central e alterações citogenéticas.

Não existem sinais ou sintomas patognomônicos


da intoxicação.
Efeitos Tóxicos Agudos

Potente irritante das mucosas e sua aspiração provoca edema pulmonar e


hemorragia nas áreas de contato.

Os vapores em altas concentrações são, também, irritantes para as mucosas


oculares e respiratórias.
Efeitos Tóxicos Agudos

No Sistema Nervoso Central dependendo da quantidade respirada:

- Narcose
- Excitação seguida de sonolência
- Vertigem
- Cefaléia
- Náuseas
- Taquicardia e dificuldades respiratórias
- Tremores
- Convulsões e perda de consciência
- Morte

Alterações neurocomportamentais em casos crônicos


Efeitos Tóxicos Crônicos
Alterações sanguíneas:
Aplasia de medula (pancitopenia): Depressão generalizada na medula
óssea que se manifesta pela redução de eritrócitos, granulócitos, trombócitos,
linfócitos e monócitos.

Neoplasias sanguíneas: Na intoxicação pelo benzeno está estabelecida a


dose-dependência para sua ação cancerígena.

Neoplasias sanguíneas correlacionas a exposição ocupacional ao


benzeno:
Leucemias: mielóide aguda, mielomonocítica, monocítica,
promielocítica, eritroleucemia, aguda indiferenciada, linfóide aguda, mielóide
crônica, linfóide crônica e “hairy cell” (HCL).
- Evidenciada associação com a síndrome mielodisplásica e mielofibrose
- O principal agravo à saúde descrito no Brasil relacionado à exposição
crônica ao benzeno é a leucopenia decorrente de neutropenia
Efeitos Tóxicos Crônicos
Alterações sanguíneas
A Leucemia mais comum é a leucemia mielóide aguda
e suas variações, entre elas a eritroleucemia e a leucemia
mielomonocítica.

Outras alterações sanguíneas: trombocitopenia (plaquetopenia), eosinofilia,


linfocitopenia, leucopenia, neutropenia, leucocitose, macrocitose, linfocitose,
pontilhado basófilo, hiposegmentação dos neutrófilos (anomalia de Pelger) e
presença de macroplaquetas (plaquetas gigantes).

- Aumento de Volume Corpuscular Médio, a eosinofilia e diminuição dos


linfócitos são alterações precoces da intoxicação benzênica

- O principal agravo à saúde descrito no Brasil relacionado à exposição crônica


ao benzeno é a leucopenia decorrente de neutropenia.
Efeitos Tóxicos Crônicos
Alterações Cromossomiais

As principais alterações descritas são:


-Alterações numéricas: trissomia, monossomia e
poliploidia;
-Alterações estruturais: cromossomos dicêntricos e
fragmentos acêntricos;
-Aumento de intercâmbio entre segmentos de cromátides
irmãs (ISC);
-Aumento do número de cromossomos do grupo C;
-Perda de material cromossômico (clastogênese, o
benzeno é descrito pelo I.A.R.C. como clastogênico);
-Cariótipo pseudodiplóide.
ANEXO 13-A da NR-15 – Portaria 3214/78

• Prevenção da exposição ocupacional ao


benzeno
– empresas que produzem, transportam, armazenam,
utilizam ou manipulam benzeno e suas misturas
líquidas contendo 1% ou mais de volume
– proíbe a utilização de benzeno, a partir de 1/1/97,
exceto:
• Produção - síntese química – combustíveis – laboratórios
• obtenção de álcool anidro (2002)
– Obriga cadastramento das empresas
– Obrigação do "Programa de Prevenção da
Exposição Ocupacional ao Benzeno“
ANEXO 13-A da NR-15 – Portaria 3214/78
• estabelece o conceito de Valor de Referência Tecnológico (VRT)

– Referência - NÃO EXCLUI RISCO À SAÚDE.


– 2,5 ppm para as indústrias siderúrgicas
– 1,0 ppm para indústrias petroquímicas

– sinalização, rotulagem - situações de emergência

• Outros documentos
– INSTRUÇÃO NORMATIVA SOBRE AVALIAÇÃO DAS CONCENTRAÇÕES DE
BENZENO EM AMBIENTE DE TRABALHO
– INSTRUÇÃO NORMATIVA SOBRE A VIGILÂNCIA DA SAÚDE DOS
TRABALHADORES NA PREVENÇÃO DA EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL AO
BENZENO

• Atualmente: Comissões estaduais em São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Rio


Grande do Sul e Minas Gerais
Programa de Prevenção da Exposição
Ocupacional ao Benzeno (PPEOB)

• Caracterização das instalações e Avaliação das


Concentrações de Benzeno em Ambiente de
Trabalho
• RECONHECIMENTO/CARACTERIZAÇÃO
– conhecer como o benzeno está presente na empresa
• ESTRATÉGIA DE AVALIAÇÃO
– Coleta de amostra pessoal (ou individual)
• AVALIAÇÃO INICIAL
• INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS
– Avaliações individuais
– Avaliações de área
Medidas de Controle de Contaminação
Ambiental
– Organização do Trabalho
– Sinalização apropriada –
• “PERIGO:PRESENÇA DE BENZENO-RISCO A
SAÚDE”
– Área controlada (isolamento de área)
– Capacitação específica
– Proteção respiratória adequada: IN nº 1 de
11 de abril de 1994
– Procedimentos Operacionais
– Medidas de Engenharia
Benzeno: VRT – anexo 13-A
• Obrigação de elaborar o PPEOB
• VRT-MPT: concentração média
ponderada pelo tempo, para uma jornada
de 8 horas, obtida na zona respiratória
• Valores de VRT-MPT:
¾ 2,5 ppm para as siderúrgicas
¾ 1,0 ppm para as outras empresas
abrangidas pelo acordo
Portaria Interministerial nº 775, de
28/04/2004,
Proíbe, em todo o território Nacional, a comercialização de produtos
acabados que contenham “benzeno” em sua composição, admitida,
porém, a presença desta substância, como agente contaminante.
– 1% (um por cento), em volume, até 30 de junho de 2004;
– 0,8% (zero vírgula oito por cento), em volume, a partir de 1° de
julho de 2004;
– 0,4% (zero vírgula quatro por cento), em volume, a partir de 1°
de dezembro de 2005; e
– 0,1% (zero vírgula um por cento), em volume, a partir de 1° de
dezembro de 2007.
– § 1° Aos combustíveis derivados de petróleo é admitido um
percentual não superior a 1% (um por cento), em volume.