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reformador Fevereiro 2007 - A.

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Expediente Sumário
4 Editorial
Reencarnação
11 Entrevista: Lauro de Oliveira São Thiago
Uma vida dedicada à Homeopatia e ao Espiritismo
Fundada em 21 de janeiro de 1883
Fundador: Augusto Elias da Silva 17 Presença de Chico Xavier
Lições do momento – André Luiz
Revista de Espiritismo Cristão 21 Esflorando o Evangelho
Ano 125 / Fevereiro, 2007 / N o 2.135
Mar alto – Emmanuel
ISSN 1413-1749
Propriedade e orientação da
30 A FEB e o Esperanto
FEDERAÇÃO ESPÍRITA BRASILEIRA Valiosas sugestões do presidente da Associação Universal de
Diretor: NESTOR JOÃO MASOTTI
Diretor-substituto e Editor: ALTIVO FERREIRA Esperanto – Affonso Soares
Redatores: AFFONSO BORGES GALLEGO SOARES, ANTONIO
CESAR PERRI DE CARVALHO, EVANDRO 32 Reformador de ontem
NOLETO BEZERRA E LAURO DE OLIVEIRA SÃO THIAGO
Secretária: SÔNIA REGINA FERREIRA ZAGHETTO Eutanásia, nunca! – Vianna de Carvalho
Gerente: AMAURY ALVES DA SILVA
Gerente de Produção: GILBERTO ANDRADE 42 Seara Espírita
Equipe de Diagramação: SARAÍ AYRES TORRES, AGADYR
TORRES E CLAUDIO CARVALHO
Equipe de Revisão: MÔNICA DOS SANTOS E WAGNA
CARVALHO 5 As religiões e as tradições – Juvanir Borges de Souza
REFORMADOR: Registro de publicação 8 De vez em quando – Richard Simonetti
o
n 121.P.209/73 (DCDP do Departamento de Polí-
cia Federal do Ministério da Justiça),
13 Riqueza intocada – Dario Veloso
CNPJ 33.644.857/0002-84 • I. E. 81.600.503 14 Tendências: Reflexos do passado (Capa) –
Direção e Redação: A. Merci Spada Borges
Av. L-2 Norte • Q. 603 • Conj. F (SGAN)
70830-030 • Brasília (DF)
16 Ouve – Amaral Ornellas
Tel.: (61) 2101-6150 18 Casos de evidências de reencarnação (Capa) –
FAX: (61) 3322-0523
Departamento Editorial e Gráfico: Antonio Cesar Perri de Carvalho
Rua Souza Valente, 17 • 20941-040 20 A reencarnação fortalece os laços de família –
Rio de Janeiro (RJ) • Brasil
Tel.: (21) 2187-8282 • FAX: (21) 2187-8298 Allan Kardec
E-mail: redacao.reformador@febrasil.org.br
22 Em dia com o Espiritismo – Células-tronco e congela-
Home page: http://www.febnet.org.br mento de embriões – Marta Antunes Moura
E-mail: feb@febrasil.org.br e
webmaster@febnet.org.br 25 FEB no “Fórum Espiritual Mundial”
26 Questão de escolha – Ivone M. M. Ghiggino
PARA O BRASIL
Assinatura anual R$ 39,00 28 Com Cristo, não há sombra sombria –
Número avulso R$ 5,00 Jorge Leite de Oliveira
PARA O EXTERIOR
Assinatura anual US$ 35,00
33 Eutanásia – Nestor Vítor
Assinatura de Reformador:
34 Há órgãos no corpo espiritual? – Mauro Paiva Fonseca
Tel.: (21) 2187-8264 • 2187-8274 36 Conflitos de jurisdição – Alfredo Fernandes de Carvalho
E-mail:
assinaturas.reformador@febrasil.org.br 37 Cursos na Sede Seccional da FEB em 2007
38 Bezerra de Menezes Abolicionista –
Projeto gráfico da revista: JULIO MOREIRA
Capa: AGADYR TORRES
João Marcos Weguelin
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Editorial
Reencarnação
“[...]Quando Jesus pronunciou a divina palavra – amor, os povos sobressalta-
ram-se e os mártires, ébrios de esperança, desceram ao circo.
O Espiritismo a seu turno vem pronunciar uma segunda palavra do alfabeto
divino. Estai atentos, pois que essa palavra ergue a lápide dos túmulos vazios, e a
reencarnação, triunfando da morte, revela às criaturas deslumbradas o seu patri-
mônio intelectual. Já não é ao suplício que ela conduz o homem: condu-lo à conquis-
ta do seu ser, elevado e transfigurado.”
LÁZARO (PARIS, 1862)*

U
ma das mais graves situações que o ser humano vivencia em nossa época,
marcada pela insegurança e pela instabilidade, é a falta de respostas às suas
dúvidas: o que sou?, de onde vim?, para onde vou?, o que faço aqui na
Terra?, qual o sentido da existência humana?... São questões a que o materialismo,
assim como as doutrinas espiritualistas que admitem apenas uma única existência,
não conseguem responder.
O Espiritismo, porém, desde a metade do século XIX, nos esclarece, assentado
em fatos submetidos ao crivo da razão, a realidade da multiplicidade das existências
físicas, já registrada no Velho e no Novo Testamentos, e que proporciona ao Espí-
rito imortal as oportunidades de crescimento e aprimoramento intelectual e moral.
Independentemente de qualquer revelação espiritual, os fatos não deixam dúvi-
das a respeito desta verdade. Eles ocorrem com pessoas sem nenhuma convicção
religiosa ou espiritualista, obrigando-as a reformulações relacionadas com suas
convicções próprias diante de realidades por elas vividas, conforme relatos que
constam desta edição de Reformador.
Estudiosos, voltados às pesquisas científicas, já reúnem um número avassalador
de fatos levantados, comprobatórios da reencarnação. Da mesma forma, psicólogos
e psiquiatras, sem nenhuma vinculação religiosa, já se utilizam, com resultados al-
tamente positivos, das terapias de vivências passadas, buscando, em reencarnações
anteriores, as causas das patologias encontradas em seus pacientes na presente
existência.
Isto tudo deixa claro que a reencarnação não é apenas uma proposta teórica, filo-
sófica ou religiosa, mas um fato científico constatado, utilizado e vivenciado no
nosso dia-a-dia.

*
KARDEC, Allan. O Evangelho segundo o Espiritismo. 126. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. XI, item 8.

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As religiões
e as tradições
J U VA N I R B O R G E S DE SOUZA

A
o observarmos o roteiro do No mundo ocidental são notó- mente, Moisés legou ao povo ju-
progresso do homem na rias as três grandes Revelações, em deu o denominado Pentateuco,
Terra, ao longo das idades cerca de 3.400 anos, vindas através compreendendo cinco livros de re-
e das múltiplas civilizações, pode- de Moisés, do Cristo e da Doutrina gras civis e religiosas, além de in-
mos perceber que a Humanidade Espírita. formações históricas e narrações,
em todas as épocas e os povos de Cada uma dessas Revelações que fazem parte do Antigo Testa-
todos os quadrantes têm recebido atende às necessidades de melhor mento da Bíblia.
o auxílio divino, através dos envia- compreensão das verdades e reali- O Cristo representa a Segunda
dos do Governador deste Orbe – o dades referentes a Deus, o Criador Revelação.
Cristo de Deus. do Universo, à vida e à natureza do É o próprio Governador deste
O estudo das religiões, das mais homem, de sua origem e destino, Orbe que, após enviar muitos mis-
antigas às atuais, assim como a pes- sem perder de vista a capacidade sionários aos habitantes da Terra,
quisa dos sistemas filosóficos e de entendimento e as limitações vem pessoalmente, no momento
morais demonstram que todos os daqueles seres aos quais foram certo por Ele escolhido, para indi-
povos, nações, raças, tribos ou dirigidas. car à Humanidade o caminho cor-
grupamentos humanos tiveram Moisés foi o grande legislador
Moisés: Primeira Revelação
seus missionários, seus guias, seus hebreu, nasceu no ano 1.500 a. C. e
pensadores e seus profetas, Espíri- morreu em 1.380 a. C. Criado na
tos mais adiantados, ou mais escla- corte faraônica do Egito antigo, re-
recidos e vividos que vieram em cebeu ensinamentos e educação
missão da Espiritualidade Supe- especiais. Chefiou a retirada dos
rior, com o objetivo de proporcio- hebreus do Egito, onde eram es-
nar o progresso espiritual de seus cravos, e conduziu-os à Terra da
contemporâneos e pósteros. Promissão, a atual Palestina.
Por vezes, esses missionários se Médium e missionário do Go-
constituem em verdadeiras alavan- vernador da Terra – o Cristo de
cas para o deslocamento de erros Deus – recebeu da Espiritualidade,
arraigados, ou de superstições e no Monte Sinai, as Tábuas da Lei,
atrasos de difícil remoção. com os Dez Mandamentos que
São formas de auxílio utilizadas constituem a base para a legislação
pela Espiritualidade, sem prejuízo civil em todo o mundo.
do livre-arbítrio com que foi cria- Além dos Mandamentos,
do cada beneficiário. recebidos mediunica-

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Sabia Ele que seus ensinos não mo de múltiplas faces, com graves
seriam compreendidos integral- prejuízos para a realidade do espí-
mente, que haveria deturpações de- rito, o outro elemento do Univer-
vidas à ignorância, de um lado, e so, ao lado da matéria.
aos interesses inferiores, de outro. O aparecimento de diversas cor-
Por isso, prometeu o envio de rentes filosóficas materialistas nos
outro Consolador, para retificar os últimos séculos da história huma-
desvios que ocorressem e ensinar na foi outro fator a justificar a pre-
coisas novas. sença do Consolador no mundo.
Era a previsão da ocorrência da Essas ocorrências mostram, com
Terceira Revelação. clareza, as razões pelas quais o Go-
A última das três grandes Re- vernador Espiritual da Terra, sem-
velações é representada pelo Es- pre atento ao seu progresso, esco-
piritismo, denominação criada pe- lheu o século XIX para o advento
Jesus: Segunda Revelação lo missionário Allan Kardec para de uma Nova Luz a iluminar os
designar a doutrina trazida aos caminhos da sua evolução – o Espi-
reto, o conhecimento da verdade e homens pela Espiritualidade Su- ritismo, com suas revelações novas
da vida, com ensinamentos e exem- perior, à frente o Espírito de Ver- sobre a vida futura e as necessárias
plificações. dade, tudo conforme a promessa retificações dos erros ocorridos.
Sua autoridade provém da sua do Cristo, de enviar um outro Con- Com a nova ciência evidencia-
condição de Espírito puro, numa solador. -se a existência e a natureza do
missão divina, indicando aos ho- A época escolhida para o cum- mundo espiritual e seu relaciona-
mens o verdadeiro roteiro para a primento da previsão de Jesus foi o mento com o mundo material, acla-
ascensão humana. meado do século XIX, por razões rando e explicando o sentido da
Suas parábolas estão impregna- que hoje podemos identificar, na vida e de muitos ensinos do Cristo
das de simplicidade, de sabedoria e sua significação transcendente. que permaneciam ininteligíveis,
de verdades eternas. O mundo havia caminhado e por falta de conhecimentos da rea-
“Eu sou o Caminho, a Verdade evoluído, impulsionado pelas reli- lidade espiritual presente em todo
e a Vida”, proclamou Ele, e exem- giões e pelas ciências, apesar dos ser humano.
plificou como deve proceder o ho- enganos e erros dos homens. 
mem para viver e elevar-se sem- O Cristianismo, embora não
pre, obedecendo às leis eternas de entendido na sua significação inte- A Terceira Revelação aclara
Deus. gral, pela incapacidade interpreta- muitos dos ensinos do Mestre In-
Jesus veio no seio do Judaísmo, tiva, de um lado, e pelos interesses comparável constantes dos Evan-
aproveitando a circunstância de ser humanos, de outro, não deixou de gelhos e que foram interpretados
o povo hebreu o único a cultivar a produzir resultados benéficos, ape- de conformidade com as tradições
crença no Deus único. Sua vinda sar dos desvios ocorridos em cerca e com os interesses das instituições
foi anunciada pelos profetas bíbli- de dezoito séculos da presença da humanas criadas à sombra do
cos com séculos de antecedência. Mensagem Cristã na Terra. Cristianismo.
Mas é evidente que sua Men- As ciências, de outro lado, ape- Assim como o Cristo declarou
sagem se dirige a todos os povos, sar de contribuirem com muitos que não vinha destruir a lei antiga,
nações e raças, sem exceções, já conhecimentos novos para o pro- mas, sim, dar-lhe cumprimento,
que todos os homens são criatu- gresso de toda a Humanidade, dei- vale dizer, mostrar sua real signifi-
ras de Deus. xaram-se dominar pelo materialis- cação, interpretada pelos fariseus e

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saduceus de conformidade com gras e dogmas, nos múltiplos Con- Universo, e ao seu filho, o Cristo,
suas tradições e com seus interes- cílios, os quais deveriam ser obe- Governador deste Orbe, há que par-
ses, também a Doutrina Espírita decidos e praticados pelos cristãos, tir do sentimento puro dos cora-
vem retificar a compreensão dos transformando-se em costumes e ções, sem necessidade da interferên-
Evangelhos, restabelecendo o en- tradições, com prejuízo dos ensi- cia de tradições oriundas dos usos
tendimento correto da lei de amor, namentos originais. e costumes humanos, traduzidos
justiça e caridade, que sintetiza to- É admirável a prescrição do geralmente por honras exteriores.
das as leis morais. Cristo na síntese – “amar a Deus O amor a Deus e ao próximo,
Para que prevaleça o amor, o sobre todas as coisas e ao próximo na síntese inigualável do Cristo,
perdão, o esquecimento das ofensas, como a si mesmo” – como norma desdobra-se nos sentimentos de
a aceitação do semelhante, há ne- superior e invariável, capaz de di- justiça, de fraternidade e de solida-
cessidade do retorno ao Cristianis- rimir quaisquer dúvidas no enten- riedade para com todos os seme-
mo do Cristo, deturpado, mal inter- dimento da lei e na sua vivência. lhantes e na aceitação de nossos ir-
pretado e imposto pela tradição das É o Amor Soberano a sobrepor- mãos tais como são, embora nem
Igrejas em práticas variadas que se -se a quaisquer situações duvido- sempre possamos concordar com
distanciam dos ensinos do Mestre. sas sobre como devemos agir e sen- seus pensamentos e ações.
Mais importante que as mani- tir, já que o amor ao nosso Criador O Espírito de Verdade e a plêia-
festações religiosas exteriores é o é um imperativo para todas as cria- de de Espíritos Superiores, tal co-
resguardo dos pensamentos e ações turas em relação àquele que nos mo já fizera antes o Cristo, vieram
que conduzem ao amor a Deus e ao deu o ser; e o amor aos nossos se- restabelecer a prevalência do espí-
próximo. É conservar os melhores melhantes, sem exclusão de nin- rito sobre a matéria, a afabilidade e
sentimentos, repartindo-os cada guém, deve ter como base o amor a benevolência de todos para com
criatura com seus companheiros de a nós mesmos, que nos é inato. todos, a indulgência para com as
jornada, para que a compreensão e “Toda planta, que meu Pai ce- imperfeições alheias e o perdão
a paz sejam sempre preservadas. lestial não plantou será arranca- das ofensas.
Tanto com relação às leis anti- da.” (Mateus, 15:13.) Espiritismo: Terceira Revelação
gas, prescritas no Velho Testamen- As palavras de Jesus, embora
to, quanto com referência aos ensi- alegóricas, não deixam dúvida so-
nos do Cristo, acrescentaram-se, no bre a necessidade de preservar o
decorrer dos séculos, determina- superior, o divino, das alterações e
das tradições, aceitas por sucessivas adições humanas, que só trazem
gerações, que se transformaram em prejuízos aos próprios homens.
usos, costumes e vivências, confun- A advertência de Jesus aos fari-
didos com os preceitos originais. seus aplica-se perfeitamente aos
Dessa forma, ao lado das Reve- tradicionalistas da época atual,
lações Divinas, encontram-se os que se preocupam com os precei-
aditamentos humanos, tradicio- tos humanos criados por suas igre-
nais, confundidos com as prescri- jas, esquecendo-se da essência das
ções superiores mas que, de certa revelações sucessivas, trazidas pela
forma, alteram sua significação. Espiritualidade Superior ao tempo
Compulsando-se a história da de Moisés, do Cristo de Deus e do
Igreja, percebe-se que, a partir dos Espírito de Verdade.
primeiros séculos do Cristianismo, O culto verdadeiro ao Se-
foram estabelecidas normas, re- nhor da Vida, o Criador do
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De vez em
quando
RICHARD SIMONETTI

D
eus consola os humildes e do capítulo VI, item 8, de O mos alguém muito poderoso, to-
dá força aos aflitos que lha Evangelho segundo o Espiritismo, do bondade e solicitude, a cui-
pedem. Seu poder cobre a é assinada pelo Espírito de Ver- dar de nós.
Terra e, por toda a parte, junto de dade.

cada lágrima colocou Ele um bál- Enfatiza a presença de Deus
samo que consola. A abnegação e no Universo, consolo dos aflitos, Se acreditamos nessas afirma-
o devotamento são uma prece con- amparo dos desvalidos. tivas, se estamos conscientes da
tínua e encerram um ensinamen- Nos séculos passados floresceu presença divina, por que, freqüen-
to profundo. A sabedoria humana a idéia do panteísmo, segundo a temente, nos sentimos combali-
reside nessas duas palavras. Pos- qual Deus seria o somatório uni- dos e tristes, amargurados e per-
sam todos os Espíritos sofredores versal, isto é, o Universo seria o turbados?
compreender essa verdade, em vez corpo de Deus e nós seríamos áto- É um tanto contraditório, co-
de clamarem contra suas dores, mos divinos, parte do Criador. mo alguém que tem uma des-
contra os sofrimentos morais que O Espiritismo nos ensina que pensa cheia de alimentos e recla-
neste mundo vos cabem em parti- não é bem assim. Deus é a cons- ma que está com fome.
lha. Tomai, pois, por divisa estas ciência cósmica do Universo, o Isso ocorre porque a nossa fé
duas palavras: devotamento e ab- Cérebro Criador. Está em tudo e situa-se um tanto precária, fé pa-
negação, e sereis fortes, porque elas em todos, sustentando a vida e a ra os dias felizes, quando tudo
resumem todos os deveres que a ca- harmonia do Universo, mas não corre bem.
ridade e a humildade vos impõem. somos substância dele. Apenas Se surgem atribulações, vaci-
O sentimento do dever cumprido suas criaturas. lamos.
vos dará repouso ao espírito e re- Jesus simplifica. É preciso, portanto, fortalecer
signação. O coração bate então me- Deus é o Nosso Pai, de infini- a fé.
lhor, a alma se asserena e o corpo to amor e misericórdia, que nos Como? Freqüentando mais as
se forra aos desfalecimentos, por ama desde o princípio e nos casas religiosas, orando mais,
isso que o corpo tanto menos forte conduz pelas veredas da justiça, lembrando mais de Deus?
se sente, quanto mais profunda- como ensina o salmista. Tudo isso pode ser bom, mas
mente golpeado é o espírito. Por isso, Evangelho significa não é suficiente. Falta algo, exa-
Essa manifestação, que consta Boa Nova. A notícia de que te- tamente o que destaca o Espírito

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de Verdade: abnegação e devota-


mento.
A verdadeira oração, sempre
presente, como se fora uma respi-
ração espiritual, que nos habilita
à permanente comunhão com
Deus, não é feita de palavras, mas
desses dois sentimentos, que pre-
cisamos definir bem, até para que
possamos exercitá-los.
Primeiro a abnegação. Explica
o dicionário:

Ação caracterizada pelo des-


prendimento e altruísmo, em que
a superação das tendências egoís-
ticas da personalidade é conquis-
tada em benefício de uma pessoa,
causa ou princípio.

Simplificando.
Abnegação seria o esforço por
vencer o egoísmo, exercitando a
iniciativa de fazer algo em favor
do bem comum.
Aqui há uma dificuldade: o ser
humano é um de-vez-enquandá-
rio. ciplina, observando horários de Não vale cultivá-la de vez em
O médico conversa com o repouso? quando.
paciente. – De vez em quando. Há mil – De vez em quando atendo o
– Sua pressão está alta. O se- coisas a fazer! pobre que bate à minha porta…
nhor está com o peso acima do – Dorme oito horas diárias? – De vez em quando tolero as
normal. Os índices de colesterol – De vez em quando. Não re- impertinências da minha sogra…
são ruins. Tem feito regime ali- sisto aos filmes na madrugada. – De vez em quando não man-
mentar, como lhe recomendei, – Então, meu amigo, de vez do alguém que me aborreceu pa-
evitando alimentos gordurosos e em quando você vai ter proble- ra o diabo que o carregue…
calóricos? mas de saúde, culminando, pro- – De vez em quando peço per-
– De vez em quando, doutor. vavelmente, com uma dor no pei- dão por uma má palavra…
Não resisto à picanha e aos doces. to muito forte, em enfarte fulmi- – De vez em quando trabalho
– Exercícios físicos e respira- nante, quando a morte, que não como voluntário numa institui-
tórios? é de-vez-enquandária, o carrega- ção filantrópica...
– De vez em quando. Acho rá de vez para o Além. – De vez em quando participo
enjoado. Algo semelhante acontece com de um grupo de trabalhos me-
– Cuida de trabalhar com dis- a abnegação. diúnicos…

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Imaginemos uma empresa de Quando aliamos a abnegação, própria realização, e fica a mãe
eletricidade que forneça energia o desejo de servir, ao devota- com a síndrome do ninho vazio,
elétrica à cidade, de vez em quan- mento, o servir com dedicação, a marcada por insuperável nostal-
do... vida flui melhor em nossas veias gia, a repercutir negativamente
Que transtorno para a gela- e somos capazes de todos os sa- em seus estados de ânimo.
deira, o cozido, a novela, o ba- crifícios e renúncias em favor do Algo semelhante ao profissio-
nho quente, a iluminação notur- bem comum. nal abnegado, que se devota a
na... Tudo imprevisível! Temos marcante exemplo na uma empresa, entregando-se de
Perdemos a sintonia com Deus figura da mãe. corpo e alma, centralizando nela
porque apenas de vez em quando Naturalmente abnegada, por- todas as suas aspirações. Quando
cultivamos abnegação, algo que que responsável por alguém que obrigado a afastar-se em virtude
deveria ser de vez em sempre. lhe é inteiramente dependente, da aposentadoria, pela enfermi-
será a devoção ao filho que lhe dade ou pelos azares da profis-

sustentará energia sem fim, dis- são, cai em depressão, angustia-
Para superar o comportamento posta a ver no bem-estar dele o -se como se lhe faltasse o chão.
de-vez-enquandário, no cultivo da espelho em que se mira afortuna- O devotamento a que se refe-
abnegação, há o outro sentimento da, luz que lhe põe nos olhos novo re o Espírito de Verdade não de-
recomendado pelo Espírito de brilho, conforme a expressão fe- ve limitar-se aos cuidados hu-
Verdade – o devotamento, assim liz de Coelho Neto. manos em relação à família ou à
definido pelo dicionário: Ocorre que os filhos não são profissão.
nossos, como enfatiza Khalil Gi- É preciso ir além, buscando as
Qualidade de quem se dedica em bran, no seu poema famoso – realizações divinas, no campo do
favor de alguém ou de uma causa. são filhos da ânsia da vida... bem e da verdade.
E um dia eles partem, Nunca nos faltarão energia e
batem asas, bus- bom ânimo enquanto estivermos
cam outros ho- dispostos a dar o melhor de nos-
rizontes e sua so esforço em favor do bem co-
mum, cultivando abnegação e
devotamento.
Na medida em que esses dois
sentimentos estiverem presentes
em nossas ações, não de vez em
quando, mas permanente-
mente, iremos compreen-
dendo, em toda sua exten-
são, o que quis dizer o
Espírito de Verdade ao
proclamar que com esse
comportamento o cora-
ção bate melhor, a al-
ma se torna tranqüila
e o corpo se isenta de
seus males.

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Entrevista L AU R O DE O. S Ã O T H I AG O

Uma vida dedicada à


Homeopatia e ao Espiritismo
Lauro de Oliveira São Thiago relata oportunos fatos sobre sua família – pioneira do
Espiritismo em Santa Catarina e colaboradora da FEB desde os seus primeiros anos –,
e ainda sobre sua atuação como médico-homeopata e dirigente da FEB

Reformador: Como se tornou espí- outros confrades, em sua casa na Lauro: Foram muitos fatos liga-
rita? cidade de São Francisco do Sul, o dos à consolidação do Espiritismo
Lauro: Em verdade, propriamente Centro Espírita mais antigo do no Brasil e à sua expansão mun-
não me tornei espírita, pois nasci Estado. dial. Para citar apenas um, repor-
espírita no seio de uma das mais Meu avô Joaquim e sua esposa, to-me ao ano de 1984 com as co-
antigas e maiores famílias cristãs- Clara Almeida de S. Thiago (vovó memorações ocorridas em todo o
-espíritas do Brasil. Meu tio-avô Clarinha), professores públicos e país para marcar, de forma indelé-
Polidoro Oliveira de S. Thiago, en- espíritas convictos, educaram seus vel, o centenário da Federação
genheiro, jornalista e político, que filhos e filhas à luz dos princípios
chegou a vice-governador de San- da Doutrina Espírita. Desta for-
ta Catarina, passou a estudar o ma, meu pai e seus irmãos funda-
Espiritismo e a freqüentar a Fede- ram novos lares espíritas, onde
ração Espírita Brasileira, desde o nascemos eu, meus onze irmãos e
seu nascedouro, e, em 20 de abril meus primos, todos espíritas des-
de 1890, fundou a “Assistência aos de o berço.
Necessitados” da FEB, em funcio-
namento ininterrupto até o pre- Reformador: Tendo exercido os car-
sente. gos de secretário de 1970 a 1974 –
Iniciado na Doutrina Espírita diretor-substituto de Reformador
por tio Polidoro, meu avô, Joa- de 1980 até janeiro de 1983, e a par-
quim Antônio de S. Thiago, pro- tir de 1980 vice-presidente da FEB,
fessor, escritor e político, cuja bio- conte-nos um fato importante li-
grafia encontra-se no livro edita- gado ao Espiritismo, ocor-
do pela FEB, Grandes Espíritas do rido durante esse
Brasil, de autoria do nosso queri- período?
do Zêus Wantuil, tornou-se um
dos pioneiros do Espiritismo no
Estado de Santa Catarina, fundan-
do, em 21 de julho de 1895, com
reformador Fevereiro 2007 - A.qxp 16/2/2007 14:46 Page 12

Espírita Brasileira. Principalmen- qualidades morais e sua elevação minha mãe, Maria Eugênia de
te as solenidades ocorridas no dia espiritual, foi e continua sendo o Oliveira S. Thiago, aprendi as li-
2 de janeiro, na Sede de Brasília, missionário da Terceira Revelação, ções da humildade, da brandura,
com o lançamento do carimbo recebendo de nosso Mestre Jesus a da doação, do amor ao próximo,
comemorativo, emitido pela Em- grandiosa tarefa de trazer-nos o da renúncia e do devotamento à
presa de Correios e Telégrafos, do Consolador através da Codifica- família.
cartão postal, as mensagens vi- ção da Doutrina Espírita. Com meus tios, primos, irmãos
brantes e emocionadas de inúme- Francisco Cândido Xavier pode e irmãs, vivi as lições da igualda-
ros confrades e do plano espiri- considerar-se um admirável ins- de, da fraternidade e da liberdade
tual e a edição histórica de Refor- trumento dos Espíritos elevados responsável.
mador. que vieram completar e consoli- Com minha querida esposa,
dar a obra de Kardec, no Brasil e Neide Costa Pereira de S. Thiago,
Reformador: Existe algum livro es- no Exterior, com vistas à implan- vivi os momentos mais impor-
pírita, que tenha influenciado a tação definitiva de um mundo re- tantes da minha vida e aprendi o
sua vida? generado e feliz. significado maior do verdadeiro
Lauro: Neste ponto só posso dizer amor, além de ter podido estudar
que todos eles, sem exceção, in- Reformador: O que acha da mídia, o fenômeno da mediunidade pro-
fluenciaram grandemente no nos assuntos ligados ao Espiritismo longada e detalhadamente. A ela
aperfeiçoamento gradual de meu atualmente? todo o meu carinho e gratidão. Aos
caráter. Lauro: É a demonstração mais evi- meus filhos, filhas, genros, noras,
dente do interesse que o Espiritis- netos e bisnetos devo a graça de
Reformador: Dirigindo durante mo vem progressivamente des- ter constatado o imenso papel de-
bastante tempo a Biblioteca da FEB, pertando em toda a comunidade sempenhado pela educação cris-
na Av. Passos, e promovendo a sua humana. tã-espírita na obra de redenção da
reabertura em 1973, qual o interesse Humanidade.
pelos livros espíritas naquela época Reformador: Qual foi a contribui-
e atualmente? ção da sua família, começando pe- Reformador: Teve alguma atuação
Lauro: No período em que prestei lo seu pai, para sua evolução como efetiva em Instituição Espírita?
meus modestos serviços à direção espírita? Lauro: Participei da Sociedade de
da Biblioteca da FEB, pude cons- Lauro: A família tem sido a gran- Medicina e Espiritismo do Rio de
tatar dois fatos significativos: o in- de escola onde, progressivamente, Janeiro, fazendo atendimento am-
teresse das pessoas pelos livros es- venho burilando o meu espírito bulatorial semanalmente e duran-
píritas e o poder que eles têm de das imprudências do passado, te algum tempo presidindo-a. Fui
esclarecê-las e integrá-las nas filei- com vistas a tornar-me modesto professor do Instituto de Cultura
ras do Espiritismo. Quanto ao in- obreiro de nosso Divino Mestre. Espírita, fundado por Deolindo
teresse, despertado hoje, pelos li- Com meu pai, Arnaldo Claro Amorim.
vros espíritas, devo dizer que ele de S. Thiago, adquiri profundos Fui fundador, juntamente com
supera, em muito, todas as nossas conhecimentos da Doutrina, for- meu pai, do Centro Espírita Be-
expectativas. taleci minha convicção, aprendi a zerra de Menezes, do Andaraí, do
defender a causa espírita com qual sou presidente e médico há
Reformador: O que representam energia e amor e entendi que ver- várias décadas.
Allan Kardec e Francisco C. Xavier, dadeiro espírita é o que exemplifi-
na sua opinião, para o Espiritismo? ca, na prática diária da vida, os Reformador: E com relação à Ho-
Lauro: Allan Kardec, por suas postulados do Mestre Jesus. Com meopatia?

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Lauro: Abracei a doutrina médi- Reformador: Como analisa a ex- partamento Editorial, estão fada-
ca de Samuel Hahnemann a par- pansão editorial da FEB? dos a desempenhar na grandiosa
tir de minha formatura, como Lauro: A expansão editorial é o obra de regeneração da Humani-
médico, pela Faculdade Nacional resultado do excelente trabalho dade.
de Medicina, há sessenta e cinco desenvolvido por toda a equipe
anos, exercendo ininterruptamen- do Departamento Editorial, dos Reformador: Qual a sua mensa-
te atividade de médico-homeo- diretores aos funcionários mais gem a propósito das comemora-
pata até hoje. Pela manhã, aten- humildes e o apoio incondicional ções do Sesquicentenário do Espi-
do os pacientes ambulatoriais do da presidência e demais membros ritismo?
Centro Espírita Bezerra de Me- da equipe dirigente. Lauro: A todos os confrades, en-
nezes, do Andaraí, e à tarde os de volvidos nas comemorações do
minha clínica particular. Sou mem- Reformador: E o interesse pelos Sesquicentenário do Espiritismo
bro efetivo do Instituto Hahne- nossos livros no Exterior? deixamos as mais sinceras expres-
manniano, do qual fui por mui- Lauro: Esse interesse é crescente, sões de apoio e de júbilo pela for-
tos anos orador. Meu amor pela demonstrando o papel que o li- ma vibrante, responsável e dedi-
Homeopatia pude expor em mo- vro espírita e a Federação Espíri- cada com que estão preparando
desto opúsculo, publicado pela ta Brasileira, através de seu De- tão justas comemorações.
FEB, intitulado Homeopatia e
Espiritismo.

Reformador: Como se integrou à Riqueza intocada


FEB? E em que tipo de atuação?
Lauro: Comecei na FEB como Tudo sofre na Terra implacável mudança,
simples assistente nos seus ambu- Pólo a pólo, alma a alma, em ritmo profundo,
latórios de assistência médica-clí- Mês a mês, dia a dia e segundo a segundo,
nica; posteriormente, passei a fa- A vida se refaz, aprimora-se e avança.
zer parte de sua diretoria como
terceiro secretário, chegando a vi- Reflete no museu onde a História descansa.
ce-presidente. Bronzes, troféus, brasões, em repouso infecundo,
Mostram que a pompa humana é cinza para o mundo
Reformador: Quais fatos relevan- Ontem, púrpura e sol; hoje, trapo e lembrança...
tes destaca na sua convivência com
presidentes da FEB? Força, fama, ilusão, graça, beleza e glória
Lauro: Com todos eles sempre Caem da ostentação da senda transitória
mantive laços de plena amizade e Nos arquivos do tempo – o eterno sábio mudo!...
solidariedade fraternal. O fato re-
levante para mim, é que pude Uma riqueza só permanece intocada,
conviver com Espíritos prepara- A riqueza do bem que esparziste na estrada,
dos para a grande tarefa de man- Luz a esperar-te além da alteração de tudo.
ter o vigor e a exuberância da Fe-
deração Espírita Brasileira com Dario Veloso
vistas ao papel que esta Institui-
Fonte: XAVIER, Francisco C. Poetas redivivos. Diversos Espíritos. 3. ed. Rio de Ja-
ção desempenha no presente e de- neiro: FEB, 1994. Cap. 27, p. 52.
sempenhará no porvir.

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reformador Fevereiro 2007 - A.qxp 16/2/2007 14:46 Page 14

Capa

Tendências:
Reflexos do passado
A. M E R C I S PA DA B O R G E S

A
reencarnação não apaga dos céus, mas aquele que faz a tendências agressivas e paixão por
as experiências adquiri- vontade de meu Pai, que está nos armas. São tendências que de-
das no pretérito; apenas céus”. (Mateus, 7:13 e 21.) monstram seu cabedal de expe-
as encobre com o véu do esqueci- Portanto, todo aquele que dire- riências adquiridas em outras vi-
mento, a fim de que o indivíduo ciona a vontade pelos caminhos das. Algumas delas se manifestam
possa prosseguir, sem interferên- do estudo, do trabalho digno, do logo na primeira idade; enquanto
cias diretas, a sua jornada evolu- respeito a Deus e aos semelhan- outras podem vir à tona em mo-
tiva. Na busca constante de novos tes, consegue enriquecer o espíri- mentos marcantes da vida. Os pais,
conhecimentos, o Espírito com- to de bens perenes. Estes bens são geralmente, assistem, atônitos, a
pletará o seu aprendizado ao lon- conquistas que o tempo jamais seus adoráveis rebentos revelarem
go das eras. apagará. caráter agressivo ou dócil; con-
O ser humano, a cada encar- Experiências adquiridas ficam fiante ou temeroso; obediente ou
nação, enfrentará as vicissitudes impressas nos arquivos mentais revoltado; amoroso ou arredio.
que definirão o seu aprimoramen- do Espírito e acompanham-no ao Se os genitores apresentam traços
to. Se bem-sucedido, incorporará longo das reencarnações, razão semelhantes, certamente se con-
novas conquistas; se derrotado, pela qual a criança revela tendên- vencerão de que a virtude ou a
árduas lutas se travarão entre os cias incompreensíveis àqueles falha moral, que se manifesta no
verdadeiros e falsos valores incor- que desconhecem as leis da reen- seu descendente, é de origem he-
porados. carnação. De tempos em tempos reditária. Daí se ouvir certos re-
Jesus apresenta ao homem a a mídia revela crianças-prodígio frões: “Aquele menino puxou o
fórmula segura para alcançar os que apresentam o dom da músi- gênio do pai, ou a inteligência da
seus objetivos sem tombar pelos ca e se identificam com certos mãe”; “Aquele outro tem a agres-
atalhos: instrumentos sem qualquer apren- sividade do seu avô”. Há caracte-
“Entrai pela porta estreita, dizado anterior. Outras encontram rísticas que em nada se asseme-
porque larga é a porta, e espaço- tanta intimidade com os núme- lham às dos seus familiares.
so, o caminho que conduz à per- ros a ponto de realizar cálculos O Espiritismo faz luz sobre a
dição, e muitos são os que en- impossíveis de se conceber na fai- diferença entre a hereditariedade
tram por ela. [...] xa etária em que se encontram. e as tendências inatas. Assim, os
Nem todo o que me diz: Se- Não é raro observar crianças mal traços físicos que se assemelham
nhor, Senhor! entrará no Reino saídas do berço que já revelam aos dos familiares, como a cor dos

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olhos, da pele, dos cabelos; com- tenceram à mesma


pleição física e outros tantos tra- família, mesma região,
ços, próprios do corpo carnal, per- ou participaram de orga-
tencem à lei da hereditariedade, nizações científicas, reli-
pois sua origem está nos elemen- giosas, artísticas, profis-
tos biológicos herdados de seus an- sionais, políticas, que lhes
tecessores, os quais compõem a propiciaram tendências
vestimenta material. No entanto, semelhantes. Um outro
se a criança apresenta deficiências grupo familiar pode
físicas, congênitas ou, até certo se identificar com
ponto, adquiridas, não se pode di- guerreiros,
zer que são heranças biológicas e desordeiros,
sim os reflexos atuais de mazelas viciosos com
que foram armazenadas em vidas os quais convive-
anteriores, pelo Espírito que reen- ram no passado.
carna para cumprir expiação vo- A infância é,
luntária ou compulsória, a fim de portanto, o perío-
quitar seus débitos com a lei. En- do apropriado para
tretanto, a hereditariedade pode se reforçar as tendên-
colaborar para que a lei se cumpra. cias boas e desfazer
As características psicológicas as infelizes. E os pais
inatas não são heranças que se que amam seus filhos não
transmitem de pais para filhos. possuem instrumento me-
São, sim, conseqüências de crédi- lhor para educá-los senão
tos ou débitos adquiridos pelo Es- o Evangelho, complementa-
pírito em encarnações preceden- do pela disciplina e hábitos
tes. Determinadas tendências que saudáveis. Este é o mecanismo
caracterizam o indivíduo podem para a educação moral do ser em É importante ressaltar que o
apresentar semelhanças com as formação. renascimento não ocorre aleato-
apresentadas por seus genitores. O insigne Codificador expõe o riamente, há sempre uma pro-
Todavia, se esses traços não foram processo educativo ideal: gramação com finalidade útil
adquiridos nesta vida, pelos veí- “[...] Há um elemento, [...] sem para o Espírito renascente. Por-
culos da educação ou do exem- o qual a ciência econômica não tanto, reencarnar não tem por
plo, certamente se explicam pelas passa de simples teoria. Esse ele- objetivo único cumprir provas e
leis da reencarnação. Os dons se- mento é a educação, não a educa- expiações, mas, sobretudo, pro-
melhantes se revelam pela afini- ção intelectual, mas a educação mover o crescimento do Espírito.
dade existente entre famílias espi- moral. Não nos referimos, porém, Quanto maior o crédito acumu-
rituais. Há grupos que partilha- à educação moral pelos livros e lado, mais curto se torna o cami-
ram, em outras vidas, ou no pla- sim à que consiste na arte de for- nho que conduz aos ideais supe-
no espiritual, experiências afins. mar os caracteres, à que incute há- riores. Daí a responsabilidade
Assim, um ou mais membros de bitos, porquanto, a educação é o dos pais de investir na educação,
uma mesma família podem ter conjunto dos hábitos adquiridos. no aprimoramento moral dos fi-
vivenciado situações pretéritas [...]”. (O Livro dos Espíritos, ques- lhos, ainda no período infantil, a
em que todos ou parte deles per- tão 685, comentário de Kardec.) fim de que a reencarnação deles

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seja proveitosa. Esse é o caminho Espírita. É preciso valorizar esse Um físico saudável é benesse
para que o Espírito cresça de con- tesouro. adquirida em vivências de equilí-
formidade com os padrões mo- Para o Espírito recalcitrante, brio e respeito à veste carnal, en-
rais evangélicos e, no momento cujos instrumentos educacionais quanto que um corpo doente re-
aprazado, retorne à vida espiri- não surtem o efeito desejado, um flete os abusos e vícios cultiva-
tual com o futuro consolidado outro se apresenta infalível: a dor. dos. É, pois, a lei da hereditarie-
nas leis divinas. Nesse mecanismo de conquis- dade que faculta esta tarefa. Uma
A Doutrina Espírita, alicer- tas e aquisições, ou quedas e so- mente prodigiosa revela as con-
çada no Evangelho de Jesus, pro- frimentos, de acordo com as leis quistas encetadas ao longo de mui-
põe ao homem o trabalho cons- da vida, a hereditariedade pode tas encarnações. Porém, somente
tante de sua escultura moral. colaborar para a realização desse um Espírito evangelizado irradia-
Aceitar a hereditariedade co- feito. Assim, o conjunto de hábitos rá a paz das conquistas sedimen-
mo causa das insuficiências mo- morais e intelectuais, adquiridos tadas nos celeiros de obras reali-
rais é duvidar da Justiça Divina. e aprimorados por uma educa- zadas em sincronia com as leis
A lei da reencarnação é a expres- ção bem direcionada, se agrega- divinas.
são mais justa da misericórdia do rão às tendências inatas arquiva- Esta realidade, revelada pela
Criador para com suas criaturas. das ao longo do carreiro evoluti- Doutrina dos Espíritos, é o cerne
É a oportunidade de desfazer vo, e jamais se perderão com a da semente plantada pelo Divino
enganos e apagar delitos; de refa- desintegração da matéria. Lavrador.
zer amizades e ampliar vínculos
no equilíbrio de energias afins;
de se reconstruir o que se des- Ouve
truiu em existências anteriores. É Escuta! Enquanto a paz da oração te domina,
oportunidade de crescer. Afirma Qual melodia excelsa, a fremir, doce e mansa,
Kardec: Reconhece-se o verdadei-
Há quem padeça e morra à míngua de esperança,
ro espírita pela sua transformação
Rogando amparo, em vão, no lençol de neblina.
moral e pelos esforços que emprega
para domar suas inclinações más. Ouve! A sombra tem voz que clama e desatina...
(O Evangelho segundo o Espiritis- É a provação que ruge... A dor que não descansa...
mo, cap. XVII, item 4.) Desce do pedestal da fria segurança,
Esse é o objetivo primordial da Transfigura a bondade em fonte cristalina.
reencarnação. É importante que o
ser humano se conscientize de que Estende o coração!... Serve, instrui, alivia...
nenhuma educação, nenhuma Das sementes sutis de ternura e alegria
aquisição moral se efetiva sem Prepararás, agora, o jardim do futuro...
perseverança, sem esforço, sem Um dia, voltarás à pátria de onde vieste
Evangelho. A conquista da luz in-
E apenas colherás na luz do Lar Celeste
terior só se alcança com muito
O que dás de ti mesmo ao solo do amor puro.
suor e lágrimas.
Jesus legou ao homem o mais Amaral Ornellas
perfeito roteiro de vida: o seu
Evangelho, programado para se Fonte: XAVIER, Francisco C. Antologia dos imortais. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB,
projetar futuramente no Conso- 2002. p. 49.
lador, que floresceu na Doutrina

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Presença de Chico Xavier

Lições do momento
D
eus é amor invariável e o amor desafivela os recolhida para o momento a transcorrer, verificando
grilhões do espírito. quantas vezes, em vinte e quatro horas, você é requi-
Se há repouso na consciência, a evolução sitado a auxiliar os semelhantes, e não regateie co-
da alma ergue-se, desenvolta, dos alicerces insubsti- operação.
tuíveis do sacrifício. Na oficina de trabalho, buscam-lhe a gentileza no
Quem não se bate pelo bem, desce imperceptivel- amparo de muitos corações que se sentem ao desa-
mente para as fileiras do mal. brigo.
Junto à correção sempre existe o desacerto, exal- Na via pública, esbarram-lhe o passo, companhei-
tando o mérito do dever na conduta digna. ros que vão e vêm buscando encontrar o sorriso que
Identifique, na dificuldade, o favor da Providência você pode ofertar-lhes como incentivo à esperança.
Divina para dilatar-lhe a paz, sentindo, no imprevis- No recesso do lar, o alvorecer encontra-lhe a pre-
to da experiência mais grave, o fulcro de incitamento sença, em novas possibilidades de exaltar a confian-
à perseverança na boa intenção e vendo, na tibiez de ça nos Desígnios da Altura.
quantos imergiram na invigilância, o exemplo inde- Na conversação comum, requisições ostensivas
lével daquilo que não deve ser feito. auscultam-lhe a disposição de estender conhecimen-
Quanto maior a sombra em torno, mais valiosa a to e virtude, na enfermagem das chagas morais en-
fonte da luz. trevistas na modulação das vozes e nos traços dos
Desse modo, a alegria pura viceja entre a dor e o semblantes, afora variegados ensejos de assistir o pró-
obstáculo; a resignação santificante nasce em meio ximo, a lhe desafiarem a eficiência e a vigilância, tais
às provas difíceis; a renúncia intrépida irrompe no como a necessidade interior estampada no silêncio
seio da injustiça das emulações acirradas, e a pureza do visitante, o azedume do colega menos feliz, o
construtiva surge, não raro, em ambiente de viciação doente a buscar-lhe os préstimos, o sofredor a rogar-
mais ampla. -lhe compreensão, a abordagem da criancinha des-
Eis por que, em seu círculo pessoal, se entrecru- valida, a surpresa menos agradável, a correspondên-
zam mensagens importantes e diversas a lhe doarem cia a exigir-lhe a atenção ou o noticiário intranqüilo
o estímulo e a consolação, o entendimento e a clari- que a imprensa propala.
dade de que você carece para ajustar-se espiritual- Pureza inoperante é utopia igual a qualquer outra,
mente, através das lides variadas de cada instante. e, em razão disso, ignorar a poça infecta é manter-lhe
O chefe irritadiço é instrumento providencial da a inconveniência.
corrigenda. Não menospreze, assim, a lição do momento, na
O companheiro problemático deixa-nos livre certeza de que renovamos idéias, experiências e des-
caminho à sementeira da fraternidade sem mescla. tinos, cada dia, segundo as particularidades das ma-
O engano é precioso contraste a ressaltar as linhas nifestações de nosso livre-arbítrio.
configurativas da atitude melhor.
Pelo Espírito André Luiz
A tortuosidade do caminho demonstra a excelên-
cia da estrada reta. Fonte: XAVIER, Francisco C.; VIEIRA, Waldo. O espírito da ver-
Faça, pois, do momento que transcorre, a lição dade. 15. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. 28, p. 72-74.

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Casos de evidências
de reencarnação
A N TO N I O C E S A R P E R R I DE C A RVA L H O

D
urante estada para compro- rentes de seu contexto de vida ma: “Ele também falou sobre um
misso doutrinário na In- começaram a preocupar princi- grande livro que utilizava para
glaterra, entramos em con- palmente seus professores. Estes ler, e sobre Deus e Jesus. [...] Nós
tato com informações sobre um entraram em contato com a fa- não somos uma família religiosa,
caso de lembrança de vida passa- mília de Cameron. Os episódios mas sua família de Barra era”. Na
da que tem despertado atenções seqüência, ocorreram consultas
da mídia britânica. a profissionais da saúde, culmi-
Trata-se do menino Cameron nando com a indicação de um
Macaulay, de seis anos, resi- deles para que a família de
dente em Clydebank, Glas- Cameron procurasse um
gow (Escócia). Este me- profissional que traba-
nino passou a comentar lhasse com casos simi-
sobre uma outra mãe, lares. Foi quando fize-
mais velha, as paisagens ram consultas com o
de outra localidade que psicólogo Jim Tucker,
ele chamava Isle of Bar- de Virgínia, conforme
ra (Escócia), a 160 mi- comentou a Sra. Nor-
lhas de distância de sua ma Macaulay: “Ele se
cidade, e a descrever ou- especializou em reencar-
tra moradia. Seria uma ca- nação e tem pesquisado
sa branca, com três banhei- outras crianças”. Este últi-
ros, e da janela de seu quarto mo profissional assumiu a
teria visão para o mar. Sua mãe orientação do caso, recomendan-
Norma declarou: “Ele fala de do à família que realizasse regis-
seus antigos parentes, como seu Cameron no programa de TV tros das observações de Came-
pai faleceu, e de seus irmãos e ron, culminando com a viagem,
irmãs”. Norma, de início, pensou deixaram a família atônita. Con- realizada em fevereiro de 2006, à
que se tratasse da imaginação in- tinuaram a surgir detalhes e o Baía de Cockleshell, próxima a
fantil, mas quando o menino pas- menino comentava que sua anti- Glasgow. Ao chegarem a Isle of
sou a freqüentar a escola, os co- ga família era religiosa, diferente Barra – a localidade citada pelo
mentários e informações dife- da atual. Relatou sua mãe Nor- menino –, desconhecida de todo

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Capa

landa, que via nos sonhos e des-


crevia aos familiares, e passaram a
procurar os locais a que ela se re-
feria e também a família dos anos
30. Depois de minuciosa procura
em registros e entrevistas com
pessoas mais idosas, acabaram lo-
calizando o filho mais velho de
Mary, o mais ligado a ela, agora na
faixa dos 70 anos.
Vários episódios das visões de
Jenny foram constatados e facili-
Cameron diz ser esta a casa onde viveu taram as identificações, a partir
das entrevistas com o surpreso e
o grupo familiar, depois de algu- Curiosamente um outro episó- assustado filho mais velho de Ma-
mas buscas infrutíferas, recebe- dio, transcorrido na Inglaterra ry. Em seguida, foram localizados
ram a indicação do Hotel onde nos anos 90, vem à tona na atuali- os demais filhos de Mary, restabe-
poderia haver uma casa branca dade, em virtude do lançamento lecendo-se contatos entre os ir-
junto a uma baía, que teria per- no Brasil do filme e DVD “Minha mãos já envelhecidos, separados
tencido à família Robertson. Ao Vida na outra Vida”. Este filme é após as adoções que se seguiram à
chegarem com Cameron ao local inspirado num fato real e foi morte da mãe.
indicado, surpresos, passaram a adaptado do livro As Crianças de O depoimento de Jenny Co-
constatar os informes relatados Ontem (Yesterday’s Children), de- ckell é surpreendente e contribui
pelo menino. Colheram dados so- poimento da britânica Jenny Co- para os estudos sobre evidências
bre os antigos proprietários, entre ckell, nascida em 1953 e que, em de reencarnação. No filme, pro-
os quais se incluía uma senhora 1990, começa a ter visões da sua duzido nos Estados Unidos, com
já falecida. Nas pesquisas subse- última encarnação nos primeiros algumas alterações de finalidades
qüentes encontraram fotos que anos da década de 30. Surgem de- comerciais, Jenny é interpretada
coincidiam com informações da- talhes de seu relacionamento, co- pela atriz Jane Seymour. Este fil-
das por Cameron, sobre um au- mo Mary, com os antigos filhos e me tem valor também histórico,
tomóvel preto e um cão preto e o difícil marido. Mary desencar- pois pela primeira vez um filme
branco. Outro fato interessante nou em 1932, em decorrência de retrata um caso real de reencarna-
relatado pela mãe: “Quando per- parto e, pelo fato de seu marido ção (www.dvdversatil.com.br).
gunto-lhe qual era seu nome an- ser alcóolatra e violento, em de- Os dois casos recentes da Grã-
tes, ele responde: É Cameron. sespero, o filho mais velho entre- -Bretanha se somam a milhares de
Ainda sou eu”. gou os irmãos a um orfanato de- outros estudados em várias partes
Esse caso mereceu reportagem dicado à adoção de menores. Jen- do mundo, relacionados com me-
de página inteira de autoria da ny Cockell, intrigada com as vi- mória de vidas anteriores e mar-
jornalista Yvonne Bolouri, no pe- sões, mas contando com a coope- cas de nascimento. Nos anos 70, o
riódico londrino The Sun – “The ração de seu marido e do filho Dr. Hemendra Nath Banerjee
boy who lived before”–, Londres, adolescente, procurou apoio de (1929-1985), da Índia, se destacou
8/9/2006, p. 38-39), e documentá- profissionais da saúde e recebeu a neste tipo de pesquisa. Em seguida,
rio no programa de TV “Five on orientação para a averiguação dos notabilizou-se o Dr. Ian Stevenson,
Monday”, no dia 18/9/2006. fatos. Dirigiram-se à cidade da Ir- da Universidade de Virgínia (EUA),

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reformador Fevereiro 2007 - A.qxp 16/2/2007 14:47 Page 20

rães Andrade (1913-2003) tam- do êxtase e da dupla vista, o Co-


bém se dedicou ao estudo de ca- dificador chama a atenção para
sos que sugerem reencarnação e estas vias de obtenção de infor-
publicou a obra Reencarnação no mações: “Para o Espiritismo, o so-
Brasil (O Clarim, 1988). nambulismo é mais do que um
As questões de O Livro dos Es- fenômeno psicológico, é uma luz
píritos, no item “Esquecimento do projetada sobre a psicologia. É aí
passado” (cap. VII, Parte Segun- que se pode estudar a alma, por-
da) deixam claras as razões para que é onde esta se mostra a des-
o esquecimento, mas esclarecem coberto.[...]”
Capa do DVD:
que “[...] muitos sabem, o que fo- O protocolo de pesquisa e o
Minha Vida na outra Vida
ram e o que faziam” (questão trabalho dos estudiosos sobre re-
autor de inúmeros artigos e de vá- 395) e alertam: “Algumas vezes, é encarnação prevêem a separação
rios livros, inclusive de Reencarna- uma impressão real; mas tam- das várias situações e influencia-
ção e Biologia: Uma Contribuição bém, freqüentemente, não passa ções para se identificar os que
à Etiologia das Marcas e Defeitos de uma mera ilusão, contra a realmente passam a ser casos su-
de Nascimento (Reincarnation and qual precisa o homem pôr-se em gestivos ou evidências de reencar-
Biology: A Contribution to the Etio- guarda, porquanto pode ser efei- nação. Sem dúvida, os casos cons-
logy of Birthmarks and Birth De- to de superexcitada imaginação” tatados de vidas passadas repre-
fects, Praeger Publishers, 1997) com (questão 396). No capítulo VIII sentam uma das situações em que
2.080 páginas e em dois volumes. (questão 455), ao comentar sobre se projeta luz para a melhor com-
Em nosso país, Hernani Guima- os fenômenos do sonambulismo, preensão da alma humana.

A reencarnação fortalece os laços de família


O s laços de família não sofrem destruição alguma com a reencarnação, como o pensam certas pes-
soas. Ao contrário, tornam-se mais fortalecidos e apertados. O princípio oposto, sim, os destrói.
No espaço, os Espíritos formam grupos ou famílias entrelaçados pela afeição, pela simpatia e pela
semelhança das inclinações. Ditosos por se encontrarem juntos, esses Espíritos se buscam uns aos ou-
tros. A encarnação apenas momentaneamente os separa, porquanto, ao regressarem à erraticidade,
novamente se reúnem como amigos que voltam de uma viagem. Muitas vezes, até, uns seguem a ou-
tros na encarnação, vindo aqui reunir-se numa mesma família, ou num mesmo círculo, a fim de traba-
lharem juntos pelo seu mútuo adiantamento. Se uns encarnam e outros não, nem por isso deixam de
estar unidos pelo pensamento. Os que se conservam livres velam pelos que se acham em cativeiro. Os
mais adiantados se esforçam por fazer que os retardatários progridam. Após cada existência, todos têm
avançado um passo na senda do aperfeiçoamento. Cada vez menos presos à matéria, mais viva se lhes
torna a afeição recíproca, pela razão mesma de que, mais depurada, não tem a perturbá-la o egoísmo,
nem as sombras das paixões. Podem, portanto, percorrer, assim, ilimitado número de existências cor-
póreas, sem que nenhum golpe receba a mútua estima que os liga.[...]
Allan Kardec
Fonte: O evangelho segundo o espiritismo. 126. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. IV, item 18.

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Esf lorando o Evangelho


Pelo Espírito Emmanuel

Mar alto
“E, quando acabou de falar, disse a Simão: Faze-te ao
mar alto, e lançai as vossas redes para pescar.”
(LUCAS, 5:4.)

E
ste versículo nos leva a meditar nos companheiros de luta que se sentem
abandonados na experiência humana.
Inquietante sensação de soledade lhes corta o coração.
Choram de saudade, de dor, renovando as amarguras próprias.
Acreditam que o destino lhes reservou a taça da infinita amargura.
Rememoram, compungidos, os dias da infância, da juventude, das esperanças
crestadas nos conflitos do mundo.
No íntimo, experimentam, a cada instante, o vago tropel das reminiscências que
lhes dilatam as impressões de vazio.
Entretanto, essas horas amargas pertencem a todas as criaturas mortais.
Se alguém as não viveu em determinada região do caminho, espere a sua opor-
tunidade, porquanto, de modo geral, quase todo Espírito se retira da carne, quan-
do os frios sinais de inverno se multiplicam em torno.
Em surgindo, pois, a tua época de dificuldade, convence-te de que chegaram para
tua alma os dias de serviço em “mar alto”, o tempo de procurar os valores justos,
sem o incentivo de certas ilusões da experiência material. Se te encontras sozinho,
se te sentes ao abandono, lembra-te de que, além do túmulo, há companheiros que
te assistem e esperam carinhosamente.
O Pai nunca deixa os filhos desamparados, assim, se te vês presentemente sem
laços domésticos, sem amigos certos na paisagem transitória do Planeta, é que Jesus
te enviou a pleno mar da experiência, a fim de provares tuas conquistas em supre-
mas lições.

Fonte: XAVIER, Francisco Cândido. Pão nosso. Ed. Especial. Rio de Janeiro: FEB, 2005. Cap. 21,
p. 55-56.

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Em dia com o Espiritismo

Células-tronco e
congelamento de embriões
M A RTA A N T U N E S M O U R A

O
s seres pluricelulares são células pluripotentes com a pro- O processo de extração de célu-
constituídos de diferen- priedade de formar todos os teci- las-tronco embrionárias encontra
tes tipos de células, origi- dos, exceto a placenta e anexos. As barreiras éticas devido à morte
nárias das células precursoras, de- células-tronco adultas, de diferen- dos embriões (blastocistos). Esses
nominadas células-mãe, células ciação limitada, são encontradas embriões, quando congelados em
estaminais ou células-tronco (stem nos órgãos do corpo, sendo que as nitrogênio líquido por mais de três
cells). São células que produzem mais utilizadas nas terapias são as anos, são considerados excedentes
os tecidos orgânicos pelo processo da medula óssea, placenta e do ou inviáveis pelas clínicas de ferti-
biológico de diferenciação celular, cordão umbilical. lização in vitro, ou são formados
geneticamente regulado por genes É mais apropriado o uso de cé- especificamente para fins de tera-
específicos. As células-tronco são, lulas-tronco adultas cuja terapia, pias médicas. No Brasil, a Lei Fe-
na atualidade, objeto de comple- além de não contrariar os princí- deral 11.105, de 24 de março de
xas e onerosas pesquisas científi- pios da bioética, revela mínima 2005, regulamenta as pesquisas na
cas, consideradas úteis no contro- possibilidade de rejeição biológi- área, permitindo o uso de células-
le de doenças neurodegenerativas, ca. Neste sentido, é oportuno des- -tronco embrionárias para pes-
cardíacas, metabólicas, hematoló- tacar a impressionante capacida- quisa e terapia. Durante os trâmi-
gicas, renais, acidentes vasculares de das células-tronco localizadas tes de elaboração dessa lei, cau-
cerebrais (AVCs). na medula óssea: elas podem dife- sou-nos surpresa a afirmação de
As células-tronco são classifica- renciar-se nos nove tipos celulares alguns colegas da área de saúde
das em dois tipos básicos: em- que circulam no sangue e, tam- que, na tentativa de justificarem a
brionárias e adultas. As embrio- bém, nas células localizadas nos realização de pesquisas com em-
nárias são denominadas totipon- órgãos linfóides (envolvidos nos briões congelados, alegavam (e
tentes porque podem originar mecanismos de imunidade). A alegam), como pretensa verdade
qualquer tecido do organismo, renovação celular no sangue é tão absoluta, a não-existência de vida
além da placenta e dos anexos pla- intensa que, diariamente, entram no blastocisto, reduzido a mero
centários. Na fase inicial de desen- na corrente sangüínea cerca de oi- conceito de simples agrupamento
volvimento, o embrião é conheci- to mil células novas, provenientes de células, um pré-embrião.
do como blastocisto, o qual possui da medula óssea. Em sentido diametralmente

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oposto, o Espírito André Luiz in- laço fluídico perispiritual ao cor- men, como uma planta na ter-
forma: po em formação, não é tão super- ra[...]”.3
“É importante considerar, to- ficial como se supõe à primeira É preferível, do ponto de vista
davia, que nós, os desencarnados, vista: espiritual, que os casais inférteis,
na esfera que nos é própria, estu- “[...]À medida que o gérmen desejosos de ser pais, adotem uma
damos, presentemente, a estrutu- [embrião] se desenvolve, o laço se criança ou, se fizerem opção pelos
ra mental das células, de modo a encurta. Sob a influência métodos da reprodução assis-
iniciarmo-nos em aprendizado do princípio vito-ma- tida, façam a insemina-
superior, com mais amplitude de terial do gérmen, o ção de todos os em-
conhecimento, acerca dos fluidos perispírito, que briões congelados,
que nos integram o clima de não se comprome-
manifestação, todos eles tendo com a morte
de origem mental e de nenhum deles. É
todos entretecidos preferível, igualmen-
na essência da maté- te, que os enfermos
ria primária, o Haus- se fortaleçam moral-
to Corpuscular de mente e suportem as
Deus, de que se com- suas doenças provacio-
põe a base do Universo nais, do que serem be-
Infinito”.1 neficiados por terapias
Ora, se uma célula, responsáveis pela destrui-
germinal ou somática ção de embriões.
tem estrutura mental, Devemos ter fé em Deus
é óbvio que, onde há e em Jesus, guia e modelo da
elementos mentais, Humanidade. Os Benfeitores
existe também vida. espirituais trabalham inces-
A discussão sobre a santemente em benefício do
destruição dos em- progresso terrestre, nos dife-
briões congelados não rentes campos do saber hu-
é, portanto, banal, mano. É por isso que recebe-
que deva ser relegada mos como auspiciosa a re-
a plano secundário, cente publicação da revista
sobretudo pelo espírita Nature (julho de 2007)
que, a priori, sabe que a que faz referência aos
união do Espírito ao corpo co- promissores resultados
meça na concepção: de pesquisa realizada
“[...]Desde o instante da con- por uma equipe de
cepção, o Espírito designado para possui certas pro- cientistas americanos. Es-
habitar certo corpo a este se liga priedades da matéria, ses pesquisadores conseguiram
por um laço fluídico, que cada vez se une, molécula a molécula, ao produzir duas linhagens de célu-
mais se vai apertando até o instan- corpo em formação, donde o po- las-tronco embrionárias sem cau-
te em que a criança vê a luz[...]”.2 der dizer-se que o Espírito, por in- sar a morte dos embriões utiliza-
Os Espíritos Superiores tam- termédio do seu perispírito, se en- dos. O método empregado está
bém esclarecem que a ligação, do raíza, de certa maneira, nesse gér- em fase experimental, ainda reve-

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la-se incipiente, mas representa situação dos embriões congelados, coisas me são lícitas, mas nem todas
um avanço científico de valor. Tra- deduzimos que a integridade (hi- as coisas convêm; todas as coisas me
balhos dessa natureza demons- gidez) e a viabilidade do blastocis- são lícitas, mas nem todas as coisas
tram que não nos encontramos no to, detectadas por técnicas cientí- edificam”. (I Coríntios, 10:23.)
Planeta por conta e risco próprios, ficas apropriadas, são evidências
mas submetidos a uma direção de que falam a favor da presença de Referências:
1
ordem superior, sábia, amorosa e um Espírito unido ao corpo em XAVIER, Francisco C.; VIEIRA, Waldo.
justa. Deus concede a todos nós, formação. Evolução em dois mundos. Pelo Espírito
em caráter particular e coletivo, a Necessitamos, na verdade, estu- André Luiz. 24. ed. Rio de Janeiro: FEB,
proteção de Espíritos guardiões dar com mais afinco os postulados 2006. Cap. 2, item “Estrutura mental das
que, sob a orientação de Jesus, da Doutrina Espírita, orientação células”, p. 32-33.
2
velam pelo progresso humano, segura que nos auxilia agir como KARDEC, Allan. O livro dos espíritos.
guiando-nos como faz um pai em pessoas de bem, responsáveis e Trad. Evandro Noleto Bezerra. Edição Co-
relação aos filhos; protegendo-nos conscientes, aptas a fazer escolhas memorativa do Sesquicentenário. Rio de
na senda do bem, consolando-nos mais acertadas sem medo de dene- Janeiro: FEB, 2006. Questão 344.
3
nas aflições e nos levantando o grir a consciência e de comprome- ______. A gênese. Trad. Guillon Ribeiro.
ânimo nas provas da vida.4 ter a felicidade que nos aguarda nos 50. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. Cap. XI,
Aguardemos, pois, confiantes, dias futuros. É preciso, em suma, item 18.
4
os avanços da Ciência. É medida saber exercitar o “[...]dai, pois, a ______. O livro dos espíritos. Trad. Evan-
de bom senso deixar de lado dis- César o que é de César e a Deus, o dro Noleto Bezerra. Edição Comemorativa
cussões infrutíferas que questio- que é de Deus”(Mateus, 22:21), do Sesquicentenário. Rio de Janeiro: FEB,
nam a existência, ou inexistência, pois como nos lembra, acertada- 2006. Questão 491.
5
de um Espírito ligado ao embrião mente, o apóstolo Paulo: “Todas as Idem, ibidem. Questão 345.
congelado, assim como consultar
médiuns para solucionar tal
dúvida. Os métodos cien-
tíficos não fornecem
garantias a respeito.
Detectam apenas se
os embriões são viá-
veis ou inviáveis, do
ponto de vista bioló-
gico. O Espiritismo, por
outro lado, esclarece que há,
sim, possibilidade de ser rompida
a ligação que mantém unidos a al-
ma e o corpo, caso o reencarnan-
te, por vontade própria, recuar
por temer as provas que escolheu.5
Nesse sentido, ocorre um aborto
espontâneo ou nascimento de na-
timorto, se a desistência ocorreu,
respectivamente, no primeiro ou
últimos trimestres da gestação. Na

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FEB no “Fórum
Espiritual Mundial”

Aspecto da Mesa: abertura das atividades

A Federação Espírita Brasilei- para a Paz Mundial” e os dire- sa-redonda “A Economia a Ser-
ra foi uma das parceiras do “Fó- tores João Pinto Rabelo e Anto- viço da Justiça Social” e do gru-
rum Espiritual Mundial”, organi- nio Cesar Perri de Carvalho par- po para esclarecimentos sobre
zado pelas entidades União Pla- ticiparam, respectivamente, da me- Movimento Espírita.
netária, Iniciativa das Religiões
Unidas e Universidade Holística Estande da FEB no Fórum
Internacional, realizado de 6 a 10
de dezembro de 2006, no Centro
de Convenções Ulysses Guima-
rães, em Brasília. O evento teve
como tema central “Valorizando
a diversidade para a construção
de uma solidariedade planetá-
ria”. A FEB participou com es-
tande para divulgação das Cam-
panhas Família, Vida e Paz, do
folheto “Conheça” da Campanha
de Divulgação do Espiritismo, e
do Sesquicentenário da Doutri-
na Espírita. O presidente Nestor
João Masotti atuou na mesa-re-
donda “Diálogo entre as Religiões

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Questão de
escolha I VO N E M. M. G H I G G I N O

A
Doutrina Espírita nos momento, optar por aquilo que prática do bem. Essa é a autêntica
alerta sobre a liberdade sabemos ser o correto ou ceder resignação, palavra tão mal inter-
que temos de escolher ca- ante os apelos negativos que ainda pretada por muitos de nós...
minhos em nossa vida: é o livre- permanecem em nós. Exemplo: “Resignação” vem do latim, da
-arbítrio. diante de uma doença séria, de- junção do prefixo “RE” (de novo),
Embora muitos desavisados sesperamo-nos e revoltamo-nos com o verbo “signare” (assinar),
aleguem que essa liberdade é ilu- contra Deus, dificultando todo mais o substantivo “actionem”
sória, devido a tantas imposições tratamento que venhamos a fazer, (ação); e significa, ao pé da letra,
da matéria, do mundo moderno, físico ou espiritual... Ou, em con- “ação de assinar de novo”. Ora,
os queridos benfeitores incansa- trapartida, elegemos acertada- quem “assina” algo, concorda com
velmente nos esclarecem que po- mente optar por confiar na Justiça esse algo: resignação é atuante,
demos sempre selecionar a nossa e na Bondade do Pai, executando não conformismo como várias
atitude em presença de qualquer a nossa parte tanto no tratamento pessoas pensam...
fato ou situação: podemos, a todo devido, quanto na nossa contínua Nós já “assinamos” antes de
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reencarnar, ao participarmos da da evolução, descortinando para por isso não vou nem tentar!”, ou
preparação da nossa futura exis- nós a realidade daquele que se es- “Eu vou tentar, mas a tarefa é
tência na carne, quando, usando força, de verdade, em “domar suas muito difícil!”... Vamos resoluta-
nosso livre-arbítrio, pedimos as inclinações más” (como está em O mente mudar a colocação dessa
situações que se apresentarão em Evangelho segundo o Espiritismo, conjunção adversativa “mas”, dan-
nosso caminho ou com elas con- no capítulo XVII, item 4) e avan- do-lhe o enfoque positivo da
cordamos, visando nosso apren- çar rumo à luz: esse estabelecerá construção: “A tarefa é muito difí-
dizado e conseqüente aperfeiçoa- “sintonia com vibrações superio- cil, mas eu vou tentar!” E certa-
mento. Assim, tudo isso que acei- res”, conseqüentemente “receben- mente irá conseguir executá-la...
tamos estará presente, “pré-deter- do estímulos vigorosos” e alcan- Confiantes no amparo do pla-
minado” por nós mesmos, em çando crescentes “harmonia inte- no maior, deixemos de nos ator-
nossa vida terrena, quando reen- rior e renovação”, tendo “visão mentar com “dúvidas e paixões
carnarmos. Porém, não está de- mais ampla” e respirando “ar mais dissolventes”, e escolhamos entre-
terminado o resultado de cada saudável”... gar-nos a Jesus através da decisão
uma dessas situações, pois sempre de usarmos nosso livre-arbítrio
dependerá de nós, das escolhas
que fizermos perante elas... Confiantes com sabedoria, trabalhando no
bem, reparando erros, aprenden-
Sem dúvida, a melhor dessas do sempre, cheios da energia que
escolhas dar-se-á toda vez que se-
guirmos a Lei do Amoroso Pai, a
no amparo a fé espírita, raciocinada, clara-
mente nos confere.
nós trazida pelo Mestre dos Mes-
tres, Jesus. E nós conhecemos essa
do plano Sigamos as recomendações fi-
nais de Marco Prisco, que nos ofe-
Lei! Nenhum de nós pode alegar
desconhecê-la...
maior, rece o seguinte roteiro:

Então, faz-se as seguintes per-


guntas: “Como estão nossas esco- deixemos  “Utilizar acertadamente seu
tempo” aqui na Terra: o tempo é
lhas? Realmente adequadas a quem
deseja sinceramente se melhorar e de nos um talento do qual também tere-
mos que prestar contas.
tornar-se, um dia, genuíno tare-
feiro de Jesus?... Quais as compa-
nhias espirituais que escolhemos,
atormentar  “Insistir no nosso esforço de
melhoria”: não desanimemos ante
sabendo sobre a “lei de afinidade”, Mostra-nos Marco Prisco o os desfalecimentos ao longo do
e que nosso pensamento é ener- mal que faz a si mesmo aquele trajeto; recomecemos com mais
gia, vibrando em determinada que, seja por inércia, acomoda- força, capacitando-nos com a ob-
freqüência, e sintonizando com mento, e até mesmo por pessimis- servação dos nossos enganos, a
encarnados e desencarnados que mo, estaciona, paralisa-se, “aca- fim de não repeti-los desastrada-
vibrem em modo semelhante?...” lentando insucessos” e assimilan- mente.
O benfeitor Marco Prisco, no do “ondas inferiores, cheias de
livro Luz Viva, através da psico- miasmas pestilenciais”, que geram  “Eleger ideais nobres”: defini-
grafia de Divaldo Franco, oferece- “desequilíbrios e enfermidades”... tivamente o bem, definitivamente
-nos o capítulo 11, cujo título é E quantas pessoas vivenciam as o amor, como nos ensinou Jesus.
justamente “Questão de escolha”. célebres frases destrutivas: “Nada Desse modo, indubitavelmen-
Aí, mais uma vez, dedicadamente dá certo comigo!”, “Ninguém gos- te, estaremos fazendo excelentes
incentiva-nos a seguir na estrada ta de mim!”, “Não vou conseguir, escolhas!

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Com Cristo, não há


sombra sombria
JORGE LEITE DE OLIVEIRA

E
m Malaquias, Antigo hedonista, que não respeita
Testamento (4:5-6), en- A sombra* nada, apenas visa desfrutar,
contramos este “ter- das mais variadas formas,
rível” anúncio: “Eis que vos Pressinto estranho ser junto de mim. de tudo aquilo que lhes sa-
envio o profeta Elias, antes Soturnamente, avança o espectro mau tisfaça aos interesses mate-
que venha o dia grande e com esgares terríveis de animal riais e às paixões dos senti-
terrível do Senhor; e con- sedento do meu sangue, do meu fim. dos. É o culto ao prazer e à
verterá o coração dos pais matéria, como bens supre-
aos filhos e o coração dos Os pêlos eriçados de terror mos a serem conquistados,
filhos a seus pais; para que falam do meu estado neste instante não importa como.
eu não venha e fira a terra em que o temor se instala, alucinante, O leitor destas linhas po-
com maldição”. ante este inusitado dissabor. deria perguntar-nos qual
Um dos grandes desa- seria a nossa visão desse ser
fios da Humanidade atual Emite o espelho o espanto do meu rosto. “terrível”, com poderes de
é o da educação. As pessoas Nenhum reflexo de outro vulto, e um grito ferir a Terra com maldição,
estão confusas, perdendo se esboça no meu peito assaz aflito. citado acima por Mala-
o referencial semântico quias. Seria Jesus, o cordei-
tradicional dos conceitos, Quero livrar-me breve deste encosto ro manso de Deus? Impos-
que estão sendo transfor- e, à tênue luz da Lua, vejo bem sível. A mensagem do Cris-
mados, tendenciosamen- a sombra de mim mesmo e mais ninguém. to, relatada por João, e que
te, em “pré-conceitos”. Tu- procuramos despir da letra
do o que a cultura antiga *Há cerca de vinte anos produzimos este soneto. do simbolismo para a rea-
considerava certo e sabido lidade dos dias atuais, visa
vem sendo questionado, desclas- dos que se dizem espiritualistas justamente dar-nos, em definiti-
sificado e demolido pela mentali- fingem ser o que não são, com o vo, segurança, certeza e coragem
dade da pós-modernidade. único objetivo de se darem bem. nas lutas cotidianas, por tornar
A conduta humana, cada vez O oportunismo inconseqüente e conhecido o desconhecido. É o
mais voltada para o ter, em detri- egoísta, em todo o mundo, pre- raio de luz de um novo dia no
mento do ser, cultua o materialis- valece nas intenções ocultas de despertar das consciências sem
mo. A descrença e a hipocrisia grande número de pessoas, gra- rumo ou em dúvida sobre o ca-
grassam em toda a parte. Muitos ças a uma visão, cada vez mais minho a seguir, entre tantos apre-

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goados pelos falsos profetas dos nhecer Jesus como caminho que Esta é a sombra que nos pro-
dias atuais. nos conduzirá a Deus, verdade porciona a presença de Jesus em
A mensagem de Jesus é a com- que nos livrará da ignorância, nossas vidas: a sombra das boas
panhia segura nas horas de apa- vida plena que nos encherá de companhias espirituais. E a Dou-
rente solidão, pois quem cami- paz, remédio para nossas mazelas trina Espírita, Consolador envia-
nha com o Cristo jamais se sen- morais, equilíbrio para nosso or- do por Ele, surgiu no mundo pa-
tirá abandonado. Ainda que o ganismo psicossomático. ra nos tirar do medo e da igno-
mundo dele se afaste, o Mensa- Com a saúde espiritual e física rância, afirmando-nos, sem amea-
geiro Divino estará a seu lado, que nos proporciona o Verbo lu- ças, sobre a presença permanen-
orientando seus passos com se- minoso – Jesus –, perceberemos te da companhia espiritual. Com
gurança na caminhada evolutiva que tanto a Lua como o Sol nos Jesus, representado ao nosso la-
sem fim. E não somente no ca- proporcionam sombras amigas. do pelos Espíritos iluminados,
minhar o Mestre nos antecede- Vultos que não vemos, mas sen- ainda que estejamos em vale es-
rá, mas também na escalada do timos estarem presentes conos- curo, não temeremos mal algum,
monte da elevação, que este é o co, em nossas mentes e corações: pois ao nosso lado estarão as
destino de todos nós. o Mestre dos mestres, que seu boas companhias, inspirando-nos
A mensagem de Jesus é o equi- apóstolo João nos revela como o pensamentos amigos e paz in-
líbrio mental de quem se encon- Verbo encarnado, que estava descritível.
tra no domínio pleno de seus com Deus, co-criador, junto a Se atentarmos para o sublime
pensamentos, pois terá sempre nosso Pai Celestial, do mundo objetivo de nossa existência, que
presente, nos atos da vida, a reco- em que vivemos, e seus emissá- é a prática permanente do bem,
mendação do Mestre da Galiléia: rios de luz. Veremos, na mensa- não teremos de temer a sombra
“Vigiai e orai, para que não en- gem mística de João, que o Cris- do mal, pois, com Cristo, não há
treis em tentação; o espírito, na to veio para nos tirar o véu da ig- sombra sombria.
verdade, está pronto, mas a carne norância e permanecer conosco
é fraca”. (Marcos, 14:38.) até o fim dos tempos.
A mensagem de Jesus é, por-
tanto, a segurança mental dos
que reconhecemos, com Ele, que
a origem do mal está em nós
mesmos. E, para que nos livre-
mos dessa tendência, precisamos
ter absoluto controle dos nos-
sos pensamentos. Conse-
qüentemente, de nossas
palavras e atos. Nisto es-
tá a sabedoria cristã:
em reconhecer Deus
como nosso Pai e
adorá-lo em Es-
pírito e Verda-
de; em reco-

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A FEB e o Esperanto

Valiosas sugestões do
presidente da Associação
Universal de Esperanto
A F F O N S O S OA R E S

T
ranscrevemos abaixo o que pudemos obter da ritas do Exterior. Isso se deve, provavelmente, à falta
gentileza do Dr. Renato Corsetti, presidente de relações internacionais mais intensas, as quais
da U. E. A. – Universala Esperanto-Asocio –, obrigariam a se refletir sobre o problema lingüístico,
com vistas a uma ação eficaz no sentido de conscien- além de, também, à falta de uma conscientização mais
tizar os espíritas de outras terras a respeito da utili- vigorosa por parte do Movimento Espírita do Brasil.
dade do esperanto como língua ideal para as relações Já se realizaram quatro congressos mundiais de
internacionais da família espírita mundial: Espiritismo, com a participação de adeptos de diver-
sos países, principalmente das Américas e da Europa.
Mensagem de Affonso Soares ao O problema lingüístico sempre e cada vez mais defi-
Dr. Renato Corsetti ne seus contornos, e nós, os espíritas brasileiros, per-
cebemos nesse fato uma ocasião favorável para co-
“Caro Renato, roarmos o trabalho quase centenário que empreen-
demos no Brasil em favor do esperanto, isto é, para
Como você sabe, ao longo de muitas décadas os conscientizarmos nossos confrades de outras terras
espíritas brasileiros apóiam, divulgam e utilizam sobre o fato de que eles devem ver no esperanto a
o esperanto, o que tem trazido ganhos para ambos os língua mais adequada às nossas relações internacio-
movimentos: – nas asas da Língua Internacional os nais. De há muito temos cultivado esse sonho, embo-
princípios espíritas se fazem muito mais amplamen- ra estejamos conscientes sobre a extensão do cami-
te conhecidos, e o esperanto, cultivado e sustentado nho que conduz a que ele um dia se concretize.
pelos espíritas, se tem assegurado mais uma base E aí está, querido amigo, o motivo de minha men-
sólida para seu desenvolvimento. Naturalmente, sagem, já muito longa, a você: – como agir com efi-
muitos outros benefícios recíprocos têm resultado cácia para a gradativa concretização desse sonho?
dessa união de forças, mas, a meu ver, os acima refe- quais as primeiras providências práticas a tomar pa-
ridos são os mais evidentes. ra atrairmos cada membro, individual e coletivo,
Durante quase cem anos o esperanto, nos círculos dessa crescente família espírita mundial, ao esperan-
espíritas, tem permanecido como um assunto quase to como solução do problema lingüístico? devería-
exclusivo do Movimento Espírita brasileiro, desper- mos, por exemplo, dirigir a atenção desses movi-
tando muito pouco interesse nos movimentos espí- mentos espíritas nacionais para a existência das

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organizações esperantistas nacionais? deveríamos trário, eu diria que essa foi a melhor mensagem da
disponibilizar-lhes material de propaganda, em lín- semana.
gua nacional, sobre o esperanto? Para falar a verdade, sinto, como você, o mesmo
Pedimos-lhe, humildemente, auxílio, uma vez que problema para pensar em algo concreto. Mas eu lhe
nos faltam justamente as experiências práticas indis- diria:
pensáveis para conceber uma estratégia minima-
mente boa.  crie um slogan para os espíritas não-brasileiros,
Até hoje trabalhamos apenas em uma coletivi- do tipo “Para a comunicação no mundo espíri-
dade nacional. Temos usado o esperanto para di- ta”, ou “Espiritismo e Esperanto melhorando as
fundir o Espiritismo entre os esperantistas. Divul- relações mundiais”, ou “Não à guerra, sim à paz
gamos o esperanto tão-somente entre os espíritas – Espiritismo e Esperanto”, ou “Espiritismo e
brasileiros. Publicamos manuais de aprendizado, Esperanto para as boas relações culturais”. Você
dicionários, bem como sustentamos cursos, pro- certamente poderá pensar em algo melhor. O
gramas radiofônicos, mas tudo num exclusivo âm- slogan deveria ser a cobertura geral da campa-
bito nacional. nha;
Agora temos que enfrentar o desafio de atrair cada
Movimento Espírita nacional para o esperanto. Nos-  envie, em língua nacional, material informativo
so Conselho Espírita Internacional, a que estão filia- sobre o esperanto juntamente com uma carta
dos, em sua maior parte, os movimentos espíritas dos espíritas brasileiros;
nacionais, até possui um setor dedicado ao esperan-
to, mas, como lhe disse, faltam-nos experiências prá-  indique as organizações esperantistas nacionais
ticas nesse novo campo de ação. e as possibilidades de contactá-las através da re-
Por essa razão, nós ficaríamos muito gratos, se de de computadores.
pudéssemos merecer a sua atenção e de você receber
algumas sugestões, instruções, como um início segu- Após alguns anos de informações dessa natureza,
ro de nossa ação, de nossos primeiros passos nesse algo começará a acontecer: por exemplo, poderá ser
campo. solicitada a inclusão do esperanto entre as línguas
Perdoe-me, pois certamente eu o incomodei – jus- oficiais dos congressos mundiais de Espiritismo, etc.
tamente você, o presidente da U. E. A.! – com essa A U. E. A. (Associação Universal de Esperanto)
mensagem quilométrica, com esses pedidos. Mas eu pode ajudar por meio de convite dirigido às associa-
senti a necessidade de me dirigir a um co-idealista ções esperantistas nacionais no sentido de colaborar
tão gentil quanto competente como você, apesar de com vocês.
ter a consciência do peso das responsabilidades que O que acha?
estão sobre seus ombros. Com amizade, Renato.”
Pedindo-lhe perdão e antecipadamente grato,


Affonso Soares” Aí temos, caros co-idealistas do tríplice ideal


Evangelho-Espiritismo-Esperanto, um material dig-
Resposta do presidente da no de aproveitamento e aperfeiçoamento, destinado
Associação Universal de Esperanto aos trabalhos numa nova fase que consideramos
como o coroamento das atividades dos espíritas em
“Caro Affonso, torno do esperanto, iniciadas com o memorável arti-
go publicado em Reformador de 15 de fevereiro de
Você absolutamente não me incomodou. Ao con- 1909.

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reformador Fevereiro 2007 - B.qxp 16/2/2007 15:02 Page 32

Reformador de ontem

Eutanásia, nunca!
S
eja qual for a razão pela qual se pretenda inter- gânicos e mentais que assolavam, cruéis, consti-
romper uma vida humana, justificativa alguma tuem, hoje, lembranças do processo de evolução das
será aceitável na área da eutanásia. Ciências Biológicas e Médicas, que conseguiram
Por mais longa e dolorosa a enfermidade, ninguém apagá-los das páginas da História Contemporânea,
se pode arrogar o direito de, em nome da piedade fra- constituindo capítulo arquivado na literatura da
ternal, aplicar a terapia do repouso sem retorno. Medicina...
Mesmo que o paciente, parecendo exausto de so- A cirurgia abriu portais dantes jamais ultrapassa-
frer, solicite e autorize a medida extrema, nunca será dos; a terapêutica preventiva e as medidas sanitaristas,
direita a aplicação do recurso último. o tratamento especializado com recursos de alta sofis-
Apesar de esperança alguma restar para a recupera- ticação, as técnicas imunológicas vêm ganhando mui-
ção do enfermo no largo trânsito de uma vida vegeta- to espaço nas “terras de ninguém”, no que diz respei-
tiva, irreversível, diante de uma família desgastada to às doenças lamentáveis.
pelas longas vigílias, não se faz moral a usança da téc- Outros recursos sociológicos, educacionais, econô-
nica de encerramento da vida... micos aumentam, com as valiosas contribuições da
A eutanásia é crime que um dia desaparecerá da Medicina para alongar a estância carnal, quanto à du-
Terra, quando a sociedade crescer em valores morais ração da vida humana na Terra...
fundamentados nas realidades do Espírito. É certo que ainda faltam muitas realizações a serem
Somente uma cultura primitiva, porque bárbara ou ganhas.
semibárbara, aplica os recursos da interrupção da Descobrem-se novas enfermidades, porque a diag-
vida, exatamente por desconhecer os comportamen- nose imperfeita do passado as encaixava em quadros
tos morais relevantes. outros que não correspondiam à realidade.
Também medram tais atitudes em homens de for- Aí estão, assustadoras, ceifando vidas, com outras
mação deficiente, estribados nos extremos do mate- designações.
rialismo, que no corpo apenas encontra a legitimida- Sem embargo, a batalha está travada com cientistas
de da vida. e pesquisadores que encanecem e sacrificam as horas
Ignorando ou teimosamente negando a realidade nos laboratórios e gabinetes de estudos, esforçando-se
espiritual, pensa que na cessação das expressões fisio- por vencê-las, o que lograrão, sem dúvida, hoje, ou
lógicas se encerra o ciclo da existência humana, se mais tarde, quando o homem já não necessitar de
apaga a claridade da inteligência, somente por causa evoluir sob o látego da pedagogia do sofrimento, co-
da fragilidade e pouca duração dos implementos que mo ocorre nestes dias...
constituem a maquinaria física. As enfermidades são resultado do estágio primevo
Enfermidades que antes constituíam calamida- da evolução em que a Terra se encontra.
des; distúrbios orgânicos e psíquicos, que no passa- Por isso, realizam o seu mister invitando a criatura
do se revelavam irrecuperáveis, problemas de saúde, ao estudo da fragilidade carnal, de modo a entender e
que antes eram verdadeiras desgraças coletivas e respeitar-se como ser espiritual que é, em aprendiza-
individuais; epidemias que varriam a Terra, periodi- gem temporária na escolaridade terrena.
camente; males mutiladores e dolorosos que se ins- Cada instante de vida de um paciente é-lhe valioso,
talavam em milhões de criaturas; desequilíbrios or- porque lhe pode constituir chamamento para desper-

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tar os sentimentos mais elevados, dando-se conta dos que o Espírito transita pelo corpo ou sem ele, sem
objetivos essenciais da existência. entrar ou sair da realidade intrínseca onde se encontra
Outrossim, os sucessos felizes ou inditosos que têm colocado no Universo.
curso nas vidas são efeito inevitável dos atos pretéritos Amar e atender aos pacientes com carinho, envolven-
realizados nas reencarnações passadas. do-os em vibrações de paz, orando por eles, aplicando-
Este homem, hibernado, numa tremenda alienação -lhes recursos magnéticos de que todos dispõem são as
mental, é antigo déspota que se utilizou da vida para atitudes corretas que a consciência cristã e espírita deve
infelicitar e afligir, ora expiando em injunção educativa aplicar em quaisquer situações em que se encontre, na
os delitos perpetrados... condição de familial ou facultativo, de amigo ou de
Esse padecente, em torpe imobilidade, com os cen- companheiro, na enfermagem ou no serviço social...
tros mentais e motores lesados, é anterior suicida que Eutanásia, nunca!
pensou burlar a Lei, evadindo-se dos compromissos Vianna de Carvalho
que assumira e que não quis sofrer...
Aquele, portador de cruel neoplasia maligna com (Página psicografada pelo médium Divaldo Pereira Franco, em
metástase generalizada, em extremos de desespero, é o 15/12/1980, no Centro Espírita “Caminho da Redenção”, em Sal-
alucinado destruidor de vidas, que culminou a existên- vador, Bahia.)
cia antiga em autocídio espetacular, e que ora resgata, Fonte: Reformador de dezembro de 1990, p. 29(377)-30(378).
repassando pelos caminhos antes percorridos com a
insânia do orgulho e da prepotência...
Todos eles, ressalvadas algumas exceções de abnega- Eutanásia
dos missionários que se entregam à dor para ensinar aos Ofega o corpo a sós... Oculta, a morte espia...
seus coevos como superá-la, os que experimentam lar- – Invisível chacal na tocaia da presa.
gos desgastes na saúde estão em justo mecanismo repa- Na máscara do rosto, a ansiedade retesa
rador de que, resignados e humildes, se liberarão, de- Aparenta velar a dor do último dia.
mandando à paz e à felicidade que todos alcançaremos.
Ninguém está condenado irremissivelmente, que não Choras ao ver prostrada a criatura indefesa
usufrua as bênçãos da harmonia, quando regularizado Cujo olhar sem consolo a lágrima embacia,
o compromisso no qual falhou. E intentas ministrar-lhe a branda anestesia
É de alta importância a libertação pela dor ou através Que apresse o longo fim e ajude a Natureza.
do sacrifício do bem que se pode produzir, do amor. Susta, porém, teu gesto! A vida é sábia em tudo!...
Não cabe, portanto, a ninguém, o direito de fazer ces- A alma jungida à carne, em pranto amargo e
sar o processo do sofrimento por meio da eutanásia, [mudo,
mesmo porque a morte do corpo não anula o fenôme- Roga-te, embora gema e fale de outra esfera:
no da necessidade específica de cada um, nos múltiplos
estágios do crescimento espiritual. – “Aguardo a mão da Lei, sempre doce e bem-
A morte apenas destrói o corpo, sem modificar a [-vinda!
estrutura da vida. Dá-me silêncio e paz! Não me expulses ainda!..”
Aqueles que pensam driblar a Justiça Divina, fugindo E, por trás da alma em luta, a Lei exclama: –
ou sendo expulsos da matéria, despertam, no Além- [“Espera!”
-túmulo, mais sofridos e alienados, retornando à Terra Nestor Vítor
para darem curso à reabilitação em corpos iguais ou
menos aparelhados do que aquele de que se supunham Fonte: XAVIER, Francisco C.; VIEIRA Waldo. Antologia dos
imortais. Poetas diversos. 4. ed. Rio de Janeiro: FEB,
liberar... 2002. p. 209-210.
A vida – na matéria ou fora dela – é indestrutível, já

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reformador Fevereiro 2007 - B.qxp 16/2/2007 15:03 Page 34

Há órgãos no
corpo espiritual?
M AU R O P A I VA F O N S E C A

É
a pergunta que todos gosta- sáveis provações ou testemunhos
ríamos de ver respondida, de cada indivíduo”.
tal é a dificuldade para con- Ora, se é uma exteriorização do
cebermos e assimilar aquilo que corpo perispiritual, então os ór-
não podemos ver nem perceber gãos preexistem à criação do cor-
com os imperfeitos sentidos do po físico!
corpo físico. Entretanto, a resposta Não deveremos esquecer que o
não poderá ser “sim” ou “não” co- perispírito é o plano organogêni-
mo gostaríamos que fosse, porque co do corpo físico, do mesmo mo-
seriam afirmações categóricas, ra- do que uma semente o é da árvo-
dicais, que jamais expressariam a re que sua germinação trará à vi-
complexidade e magnitude das va- da; por isso, é absolutamente na-
riantes que determinam uma ou tural e lógico que, ao desprender-
outra das afirmativas. -se dele pelo fenômeno da morte,
O iluminado Espírito Emma- os sistemas orgânicos o acompa-
nuel na obra O Consolador res- nhem e, com eles, as necessidades
ponde, na pergunta número 30: próprias.
“Dentro das leis substanciais Sabemos que o perispírito, ou
que regem a vida terrestre, exten- corpo espiritual, é o veículo de ex-
sivas às esferas espirituais mais pressão do Espírito, energia inteli-
próximas do planeta, já o corpo gente individualizada pelo Cria-
físico, excetuadas certas alterações dor, e tem sua formação material
impostas pela prova ou tarefa a fluídica dependente do estado vi-
realizar, é uma exteriorização apro- bratório do desencarnado que o
ximada do corpo perispiritual, ex- habita. Quanto mais evoluído mo-
teriorização essa que se subordina ral e intelectualmente, mais eté-
aos imperativos da matéria mais rea é a sua natureza e menos
grosseira, no mecanismo das he- imperiosas as necessidades a
ranças celulares, as quais, por sua satisfazer. Do mesmo modo
vez, se enquadram nas indispen- como na Terra o homem mais

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intelectualizado e moralizado se Afirmar que os Espíritos desen- supracitada, à mesma página, o


satisfaz com uma alimentação fru- carnados não comem, não dor- anfitrião Alfredo refere-se à falta
gal e o homem ignorante e embru- mem, não se cansam, e não estão de medicamentos e alimentos pa-
tecido pela deficiência intelectual sujeitos às necessidades físicas dos ra atender o grande número de
e atraso moral em que se demora sistemas orgânicos em geral, não desencarnados que estão sob tute-
exige uma alimentação mais pesa- faria sentido. Na obra Os Mensa- la do Posto de Socorro de Campos
da, mais densa, os Espíritos de- geiros, psicografada por Francisco da Paz, cujos estados de materiali-
sencarnados igualmente terão as C. Xavier, à página 92 da 5a edição, dade e desequilíbrio ainda recla-
exigências da natureza “material” FEB, vemos André Luiz e Vicente, mam tais recursos.
de seu corpo espiritual, a depen- dois Espíritos em viagem da colô- Na obra Nosso Lar, do mesmo
der do estado vibratório que nia Nossa Lar para a crosta terres- autor espiritual, vemos a Gover-
lhe seja peculiar. tre, descansarem numa pousada a nadoria da colônia de mesmo no-
meio do trajeto, onde lhes foi ofe- me, providenciando o auxílio de
recida farta refeição de frutas. especialistas em alimentação pra-
Supor que alguém, porque mor- naiama pela respiração, habitan-
reu, poderá prescindir dos siste- tes de outras esferas, para coibir
mas orgânicos que o acompanha- abusos da população da colônia
ram durante toda a vida material que começava a sofisticar o apuro
seria santificá-lo ou emprestar-lhe das preferências alimentares, exi-
uma angelitude que nem todos es- gindo cardápios cada vez mais
tarão à altura de possuir, pois a próximos dos alimentos materiais
passagem direta da Terra para as terrenos.
Esferas de Luz é apanágio das al- Se estes fatos acontecem com
mas angélicas e santificadas, para desencarnados de mediana evolu-
as quais as dependências mate- ção, imaginemos o que ocorrerá
riais já não têm qualquer sentido. com os infelizes irmãos, habitan-
Como ninguém vira santo porque tes das regiões inferiores do um-
morre, segue-se que a quase tota- bral, sujeitos às aflitivas carências
lidade dos desencarnados carece- de uma vida embrutecida e sem
rá dos sistemas orgânicos para esperança!
conduzir-se na vida espiritual. À proporção que o desencarna-
Assim, cada Espírito procura- do vai adquirindo independência
rá a satisfação das próprias ne- pela elevação de sentimentos e en-
cessidades, conforme o estado de riquecimento intelectual, o domí-
materialidade que ainda guar- nio mental sobre seu veículo de ex-
de. À proporção que as neces- pressão vai aumentando, e o fenô-
sidades forem desaparecendo, meno da ideoplastia vai promo-
com a transferência dos esta- vendo as transformações normais,
dos mentais e conscienciais da natureza material para a nature-
para condições mais eleva- za espiritual. A ideoplastia é a for-
das, os órgãos irão se atro- ça resultante das ações produzidas
fiando por falta de uso ob- pela consciência, pelo pensamen-
jetivo até o completo de- to e pela vontade, capaz de modi-
saparecimento. Na obra ficar a estrutura do perispírito.

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Conflitos de jurisdição
ALFRED O FERNANDES DE C A RVA L H O

L
ogo no início de uma im- do. Por sua vez, altos funcionários Aqui na Terra, entre as religiões
portante rodovia federal que estaduais da esfera pertinente, cristãs, em que pese terem os seus
liga grande capital a cidades embora reconhecendo a gravida- fundamentos originados em um
do interior e a outros Estados sur- de do problema, declararam que a mesmo e grande fanal, que é Je-
giu pequeno buraco na pista de responsabilidade por aquele tre- sus, eternizam-se os conflitos de
asfalto, cujas pedrinhas, uma a cho era da prefeitura da capital, a jurisdição, porque vitimadas pelas
uma, foram ganhando liberdade, qual justificou a sua omissão ale- distorções que o homem, Espírito
por força do intenso e pesado trá- gando ser o conserto da alçada imperfeito, lhes tem trazido ao
fego. O buraco aumentava de ta- do município limítrofe, cujo pre- longo dos séculos, através de
manho a cada dia, transforman- feito, considerando que o buraco, adendos, supressões, omissões ou
do-se numa grande cratera que a cada dia maior e mais perigoso, errôneas interpretações, proposi-
colocava em risco a vida dos se situava em plena rodovia, atri- tais ou frutos da ignorância. Cada
usuários da estrada. Reclamações buiu ao Governo Federal a obri- uma delas diz-se a verdadeira, a
surgiram. Os policiais rodoviários gação de fazer as obras necessárias única que salva, garantindo às al-
do posto próximo ouviam com para tapá-lo. Formou-se, assim, mas o Céu. Há dirigentes voltados
paciência os reclamantes e infor- um grande círculo burocrático, um mais para César do que para
mavam-nos de que já haviam pe- jogo de empurra, tecnicamente Deus. Templos suntuosos, intitu-
dido providências aos seus supe- chamado conflito de jurisdição. lados Casa de Deus, são encontra-
riores hierárquicos. Autoridades Os dias corriam rápido e eis que, dos a poucos passos de comuni-
federais vieram a público esclare- finalmente, trabalhadores, máqui- dades extremamente carentes de
cer que nada poderiam fazer para nas e material apareceram e a cra- tudo, mostrando de modo claro
sanar o problema porque a rodo- tera foi tapada. A imprensa, sempre que existem devotos que fazem
via se iniciava exatamente no local diligente, trouxe as explicações pa- tabula rasa para o que, de Estêvão,
onde se encontrava o posto rodo- ra o tão esperado evento: um em- está registrado em Atos dos Após-
viário e o buraco estava antes dele, presário havia mandado executar, tolos (7:48-49): “[...] mas o Altís-
por conseqüência, fora de sua por sua conta, as obras que recons- simo não habita em
jurisdição, que atribuíam ao Esta- tituíram a pista de rolamento. templos fei-

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tos por mãos de homens, como diz forma como Jesus, em pessoa, reencarnações de aprendizado
o profeta: trouxe-lhe o Amor, e Moisés, pela doloroso.
O Céu é o meu trono, e a terra, mediunidade, os Mandamentos Merece registro a definição da
o estrado dos meus pés. da Lei. O Espiritismo nada pro- Doutrina Consoladora pelo Espíri-
Que casa me edificareis [...]?” mete, nada impõe; não ataca, to Manoel Philomeno de Miranda,
(Ver Isaías, 66:1.) não revida, não condena; sim- em consonância com a Codificação
Amplos espaços estão criados plesmente mostra o caminho pa- Kardequiana: “– O Espiritismo é a
para a discriminação e para a ra mais rápida ascensão espiri- Doutrina de Jesus, em espírito e
mais irracional intolerância. Re- tual. Uma vez que não traz aba- verdade, sem fórmulas nem ritos,
ligiosos há que matam e se entre- los às bases de qualquer religião sem aparências nem representan-
matam em nome de Deus ou no ou crença, a Doutrina dos Espí- tes, sem ministros. É a religião do
do doce Jesus. Fanáticos explo- ritos veio fadada a ser a religião amor e da verdade, na qual cada
dem-se para matar. E todos ga- do futuro, quando o homem, pe- um é responsável pelos próprios
rantem que serão devidamente lo raciocínio da fé e por sua pró- atos, respondendo por eles [...]”.*
recompensados pelo Pai Aman- pria vontade, obedecer à lei de Lembrado seja: “Fora da cari-
tíssimo... justiça, amor e caridade, fazendo dade não há salvação”.
Ensina-nos Ana no seu Cântico desaparecer os inaceitáveis con-
(I Samuel, 2:3) que de nada flitos religiosos e outros, que
adiantam louvores a Deus sem os tanto prejudicam e desarmoni- *FRANCO, Divaldo P. Nos bastidores da
correspondentes labores dignifi- zam a Humanidade, mantendo obsessão. Pelo Espírito Manoel Philome-
cantes, nem condenações de rotos multidões de Espíritos presos a no de Miranda. 6. ed. Rio de Janeiro: FEB,
a rasgados, quando diz: “Não um quase infindável ciclo de 1992. Cap. 16, p. 271.
multipliqueis altíssimas altivezas,
nem saiam coisas árduas da vossa
boca: porque o Senhor é o Deus
da sabedoria, e por Ele são as
obras pesadas na balança”.
Nada obstante, reconheça-se, a
grande massa dos religiosos quer
viver em paz e em mútuo respei-
to, procurando seguir, dentro de
suas limitações, a vontade de
Deus, o qual, em sua infinita sabe-
doria, ainda não quer que nenhu-
ma religião tenha a maioria abso-
luta de fiéis neste planeta.
O Espiritismo, que é a con-
substanciação do Consolador
prometido por Jesus, age como o
empresário que mandou tapar o
buraco da estrada, indiferente aos
conflitos de jurisdição religiosos.
O Espiritismo veio trazer a Ver-
dade para o homem, da mesma

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Bezerra de Menezes
Abolicionista
Muito antes de tornar-se espírita, Bezerra de Menezes levantou a voz
pela emancipação dos escravos
JOÃO MARCOS WEGUELIN

O
s grandes vultos do Espiritismo sempre le- cia do Ceará, onde, até 1845, todo o serviço domés-
vantaram a sua voz a favor da emancipação tico e industrial era feito por braço escravo. Segundo
dos escravos. Já em 1866 Antônio da Silva afirmou: “Quem não possuía escravos, não podia ser
Neto publicou um opúsculo intitulado Estudos sobre lavrador!” Os fazendeiros, todos juntos, mal produ-
a Emancipação dos Escravos no Brasil. Mais tarde, as ziam para o consumo da Província, a exportação era
páginas do Reformador também defenderam por este nula e o comércio insignificante.
ideal, até que em 1888 fosse decretada a extinção da Com a chegada de uma seca devastadora no Cea-
escravidão no Brasil. rá, em 1845, contudo, a única solução foi colocar à
Uma parte dessa história se encontra em deplorá- venda os escravos, o que deixou a Província despo-
vel estado de decomposição nas prateleiras da Bi- voada dos mesmos. Então, ao longo de 24 anos, a
blioteca Nacional. Trata-se da obra A Escravidão no fortuna pública e particular dos cearenses cresceu
Brasil e as Medidas que Convém tomar para Extingui- enormemente, prosperando a indústria de criação,
-la sem dano para a Nação, de Bezerra de Menezes, bem como os fazendeiros, que antes mal davam con-
com 30 páginas, publicada pela Tipografia Progres- ta da manutenção de suas fazendas, mas que agora
so, em 1869. O único exemplar existente deste livro haviam enriquecido. As fazendas passaram a valer
na Biblioteca Nacional tem a seguinte localização: sem os escravos o mesmo que valiam com todos eles.
BN – V-261, 2, 6, no 11. Sem falar que muitos escravos morriam, o que acar-
Bezerra escreveu, na introdução do trabalho, que retava grande prejuízo ao seu dono.
nenhuma questão reclamava mais a atenção do povo Um contingente enorme de pessoas correu para
brasileiro do que a questão da emancipação da escra- trabalhar nas fazendas, como explicou Bezerra de
vatura. Para ele, a escravidão era “uma lamentável Menezes:
aberração do espírito humano”, condenada pela reli-
gião, pela civilização do século XIX, pela economia “Toda essa população, acoimada pelos viajantes
política e pela moral. Bezerra de Menezes condenou de preguiçosa, e que de fato vivia na ociosidade, para
a maldita sede do ouro e a insaciável cobiça do ho- não trabalhar em comum com os escravos, corre ho-
mem que o leva a colocar os ganhos materiais à fren- je para os pontos agrícolas em procura de trabalho.
te dos princípios morais. Assegura-me pessoa competente e acima de toda
Em seguida, Bezerra de Menezes demonstrou, atra- a suspeição, que essa afluência de trabalhadores se
vés de fatos, que o trabalho feito por braço escravo não faz em escala admirável, e que pela concorrência ex-
podia competir com o que era feito por braço livre. traordinária que há, os salários são módicos, que fei-
Ele começou a contar a história da então Provín- to o cálculo do que se gastava com um preto, não

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contando o empate do capital e o risco de perdê-lo, Bezerra de Menezes explicou, a seguir, como seria
reconhece-se ser muito menor a despesa que se faz esse plano:
com um trabalhador livre.”
A criação das crianças libertadas, não deve, pois, ser
Bezerra de Menezes começou a expor, então, as feita na casa dos senhores de suas mães, quer por inte-
muitas formas de emancipação da escravatura que resse da vida dessas crianças, quer e principalmente
eram defendidas naquela época. Havia os que defen- por interesse de seu futuro e de sua educação moral.
diam a emancipação rápida e os que preferiam a Julgo que o melhor é estabelecerem-se casas de
emancipação gradual. Dentre os que clamavam pela criação em todos os municípios, sob as vistas ime-
emancipação rápida, uns a queriam de forma imedia- diatas das respectivas Câmaras.
ta, indenizando-se os proprietários; outros preferiam Essa corporação fará recolher à casa de criação,
que se marcasse, desde aquele momento, um prazo, confiada à sua guarda e vigilância, todas as crianças
depois do qual todos os escravos ficariam livres, sem que nascerem de ventre escravo em seus municípios,
que a Nação indenizasse os seus proprietários. quer empregando, para esse fim, agentes seus, quer
Bezerra de Menezes defendeu a forma gradual de obrigando, por meio de posturas, os senhores a
emancipação, optando ainda pela decretação do ven- transportarem as crianças recém-nascidas.
tre livre.
Bezerra se preocupou inclusive com a amamenta-
Ventre livre, é, pois, o meio mais simples, mais fá- ção dos bebês e, já naquela época, ele afirmou que a
cil e mais cômodo entre todos de quantos se tem, até amamentação natural era a mais conveniente.
hoje, cogitado. Na parte seguinte, Bezerra de Menezes escreveu
Ele remove todos os perigos e prejuízos que os sobre os seus planos para a educação das crianças:
outros acarretam, e resume em si todas as vantagens
que se podem desejar, quando se trata de uma ques- Instrução primária acompanhada de princípios
tão tão melindrosa, que joga com tantos interesses morais e religiosos, tão necessários como aos estu-
quer públicos quer particulares. dos; a prática desses princípios, fortificada pelos
Porém esse meio não nos dá senão a solução de princípios de preceptores e diretores escrupulosa-
uma parte do problema; não nos dá senão a extinção mente escolhidos, eis no que se pode resumir a pri-
da escravidão, e nós queremos o complemento dessa meira educação a dar aos meninos de ambos os se-
reforma, queremos a transformação do escravo em xos, colocados sob a tutela da Nação.
cidadão útil, sem o que todo o resultado é nulo, e Mais tarde, e logo que tenham aprendido as pri-
porventura prejudicial. meiras letras, devem os rapazes aplicarem-se ao es-
tudo dos princípios elementares das ciências, que
Para que a emancipação pudesse servir de trans- servem de base às artes mecânicas; e as raparigas à
formação para a vida do escravo, pudesse oferecer aprendizagem desses misteres que constituem o tra-
um futuro mais digno para todos aqueles que passas- balho da mãe de família.
sem a ser livres, Bezerra de Menezes defendeu que o Chegados a este grau, as mulheres têm completa-
Estado deveria ficar responsável pela criação e edu- do a sua educação; os homens, porém, precisam ain-
cação das crianças nascidas do ventre escravo. da aprender, cada um, um ofício para que tenham
Seu projeto, ao contrário dos demais projetos da vocação.
época, visava não somente libertar o escravo, mas
cuidar da sua educação moral, fazer com que ele Bezerra de Menezes entendia que a educação de-
completasse os estudos, conseguisse emprego e con- veria ser de responsabilidade do Estado – iniciando
traísse matrimônio. entre os seis ou sete anos –, devendo ser levada adian-

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te nas capitais das províncias, na Corte ou em qual- espírito e pela prática dos sãos princípios da moral e
quer lugar onde houvesse estabelecimentos compe- da religião; constituir com ele uma família, em que se
tentemente montados para essa educação. Como reproduzam aqueles princípios zelosamente incutidos
homem à frente de seu tempo, Bezerra de Menezes em sua alma e em seu coração; e, por meio dessa famí-
ressaltou que o governo deveria dar muita atenção à lia, levar a pureza dos costumes a todos os que se lhe
instrução agrícola, avaliando que a agricultura seria aproximarem, a todos os que com ela se forem entre-
a principal base da grandeza futura do Brasil. Além laçando; é a meu ver a única solução que se deve dar à
disso, ele sabia que somente educar esses jovens não questão da emancipação do escravo no Brasil.
resolvia o problema. O Estado não poderia lançar
essas pessoas à sociedade e entregá-las a seus pró- Ele considerou que o seu plano não era de difícil
prios recursos. Ele considerava que os homens saíam execução e que os brasileiros não se furtariam aos sa-
desses estabelecimentos públicos dotados da instru- crifícios que fossem impostos a eles para levar a ter-
ção necessária para ganharem a vida, mas entendia mo esta iniciativa. Achava que não haveria problema
que o mesmo não acontecia com as mulheres. também para conseguir os recursos necessários para
A maior preocupação de Bezerra de Menezes, por- colocar o plano em prática. Afirmou que o Brasil era
tanto, era com as mulheres, consideradas entes fracos “um país onde o ouro se desperdiça a largas mãos”,
e dependentes da vontade alheia. Muito discrimina- acusou gastos exorbitantes com coisas inúteis e criti-
das, elas tinham a obrigação de contrair matrimônio cou a existência de um “funcionalismo estragado,
e de formar uma família. Era nessa proteção familiar sem préstimo e desnecessário”, Bezerra de Menezes
que deveriam se tornar excelentes mães de famílias, defendeu um corte nos gastos no funcionalismo pú-
educadas e formadas para a vida. Mas, por serem blico, para que estas economias pudessem ser empre-
muito discriminadas, essa tarefa se tornava muito di- gadas no seu plano. Pediu que fossem suspensos, ou
fícil e poderia colocar todo o plano a perder. ao menos reduzidos, os gastos com a colonização es-
Para resolver problemas deste tipo, Bezerra de trangeira, e colocou em primeiro plano a coloniza-
Menezes propunha a criação de colônias nacionais, ção nacional. Afirmou que o Estado poderia lançar
para os libertos que fossem completando a sua edu- mão de um imposto especial ou até mesmo contrair
cação moral e artística. Os filhos de escravos que es- empréstimos, esclarecendo que essas despesas com a
tivessem preparados para a vida civil e social se reu- emancipação trariam vantagens reais ao país e con-
niriam em um ou mais destes centros comuns, o que tribuiriam para o aumento da renda pública.
facilitaria ainda que moças encontrassem seus mari- Bezerra de Menezes defendeu ainda que o progres-
dos, de acordo com as suas próprias condições, e so material deveria caminhar junto com o progresso
constituíssem famílias honestas e laboriosas, ao invés moral:
de se perderem no seio da sociedade.
Bezerra de Menezes se defendeu ainda das críticas Não nos dediquemos exclusivamente ao progres-
que seu projeto pudesse sofrer e afirmou que ao se so material, sacrificando-lhe toda a receita do Estado.
isolar os libertos da comunhão dos brasileiros não se Atendamos também ao desenvolvimento moral,
estaria fomentando indisposições ou rivalidades das repartindo com ele uma parte daquela receita.
raças. Mesmo porque esse entrelaçamento ocorreria E como a emancipação dos escravos é atualmen-
pouco a pouco dentro da família geral brasileira. Ele te a maior e mais elevada questão de caráter moral
resumiu o seu plano da seguinte forma: que temos a resolver, repartamos com ela uma parte
da receita pública, que se costuma aplicar a verbas
Receber do escravo o fruto de seu amor depravado; de melhoramentos materiais.
criá-lo com todo o cuidado, como recomenda a cari-
dade santa; educá-lo pelo trabalho, pela ilustração do Ele acreditava que esses estabelecimentos agrícolas

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e industriais, essas oficinas e fábricas que o governo Dizem-me a consciência e a razão que a não ser
estabeleceria para escola dos educandos libertos, de- ela resolvida por aquele modo, ou por outro seme-
veriam resultar em renda para o Estado se eles fossem lhante, estulta será a glória de quem exterminar a
convenientemente administrados. Se isso ocorresse, escravidão no Império, porque em vez do bem que
os gastos efetuados seriam cobertos e haveria até um se espera, resultarão infinitos males de tão recla-
saldo significante para os cofres públicos. Nos primei- mada reforma.
ros 8 a 10 anos não haveria qualquer compensação
para o Estado, mas depois desse período os educandos Ao escrever essa obra, Bezerra de Menezes deseja-
passariam a produzir e estariam aptos a retribuir ao va estabelecer uma discussão em torno do assunto.
Estado as despesas efetuadas com a sua criação, com a Queria que suas idéias pudessem ser avaliadas e
sua educação e com o próprio estabelecimento. aperfeiçoadas pelas grandes inteligências do país e
No seu plano, Bezerra de Menezes estabelecia que que, com isso, ele pudesse contribuir indiretamente
os educandos não poderiam deixar os estabeleci- para o que ele considerava ser a mais importante re-
mentos antes de determinada idade, período em que forma que o país necessitava.
eles teriam que trabalhar para o Estado, para cobrir A obra é datada de 10 de março de 1869 e o seu
as despesas que este mesmo Estado teve com eles. autor assinou apenas “Dr. Bezerra”.
Outra questão que foi pensada por Bezerra de Me- O resgate deste livro é extremamente importante
nezes foi a de como os educandos recomeçariam por dois aspectos. Em primeiro lugar, para mostrar a
suas vidas quando eles saíssem desses estabelecimen- luta de Bezerra de Menezes pela emancipação dos es-
tos. Afirmando que era possível conciliar o interesse cravos, uma luta que também foi de Antônio da Silva
público com o dos educandos, Bezerra de Menezes Neto e de outros grandes homens. Essa luta começou
definiu que a partir do momento em que os educan- a ser ganha pouco mais de dois anos e meio depois
dos começassem a trabalhar, uma determinada par- da data desse livro, em 28 de setembro de 1871, com
cela de seus rendimentos seria retirada e guardada, a promulgação da Lei do Ventre Livre. A outra ques-
estabelecendo um sistema de cotas, em que todos te- tão pertinente é que a cópia deste livro, encontrada
riam que contribuir. Com isso, aqueles que comple- na Biblioteca Nacional, está em estado de decompo-
tassem a idade para deixarem os estabelecimentos sição, não se sabendo se existem outras cópias da
dividiriam todo o valor acumulado. Bezerra de Me- obra deste grande brasileiro, que em vida se tornou
nezes acreditava que essa idéia cobria as despesas fei- mais conhecido como o “Médico dos Pobres”.
tas pelo Estado com os educandos, além de auxiliá-
-los no momento de deixarem os estabelecimentos. Ilustração representando a
escravatura no Brasil
No final da obra, Bezerra de Menezes afirmou que
seu plano não era uma utopia ou um meio parado-
xal de resolver a questão. Eis o que escreveu:

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Seara Espírita

Goiás: Congresso Espírita Estadual Distrito Federal: Espaço Federativo


De 18 a 20 de fevereiro, crianças, jovens e adultos “Atendimento Espiritual na Casa Espírita” foi o tema
terão a oportunidade de compartilhar idéias e im- do Espaço Federativo que ocorreu no dia 3 de de-
pressões no XXIII Congresso Espírita Estadual do zembro, das 8h30 às 17h, na sede da Federação
Estado de Goiás. O evento, que terá palestras de Espírita do Distrito Federal (FEDF). A expositora
Alberto Almeida, Irvênia Prada, Jacbson Sant’anna convidada foi Maria Euny Herrera Masotti, diretora
Trovão e Otaciro Rangel, contará com o estudo de da FEB e coordenadora da Área de Atendimento
temas como Evolução, Encontro das Leis Humanas Espiritual na Casa Espírita das Comissões Regionais
com a Lei de Deus e debate sobre ciência e religião. do Conselho Federativo Nacional da FEB. Mais in-
No encerramento, Divaldo Pereira Franco coor- formações sobre o Movimento Espírita no Distrito
denará o seminário “O Despertar da Consciência”. Federal: www.fedf.org.br
A FEEGO oferece mais informações na página
www.feego.org.br ou pelo telefone (62)3281-0200. Amazonas: Eventos Espíritas
Duas palestras públicas e um seminário foram pro-
Rio de Janeiro (RJ): Palestra na FEB movidos, de 1 a 3 de dezembro de 2006, em Manaus
No dia 27 de janeiro, o presidente da FEB, Nestor (AM). Para o evento, a Federação Espírita Amazo-
João Masotti, fez a palestra inaugural das atividades nense convidou a presidente da Associação Médico-
de 2007 na sede histórica da Federação Espírita Bra- -Espírita Internacional, Marlene Nobre. Ela fez a pa-
sileira, no Rio de Janeiro. E no dia 24 de fevereiro, no lestra “Nossa Vida no Além”, coordenou o seminário
mesmo local, às 10h30, José Carlos da Silva Silveira “A Obsessão e suas Máscaras” e também fez confe-
coordena um seminário com o tema “A promoção rência específica para profissionais da área de saúde.
social à luz da Doutrina Espírita”. As palestras pros- A página eletrônica da Federação Espírita Amazo-
seguirão nos demais meses do ano. Informações pe- nense é: http: www.feamazonas.org.br
los telefones (21) 2221-3153/3155 ou no seguinte en-
dereço: Av. Passos, 30, Centro (RJ). Espírito Santo: Encontro de Trabalhadores
Em novembro de 2006, a Federação Espírita do
Movimento de Integração Espírita Estado do Espírito Santo promoveu o seu 9o En-
Em sua 34a edição, o Movimento de Integração contro de Trabalhadores da Assistência e Promoção
Espírita Paraibano (MIEP), que ocorrerá em Campi- Social (Entradas) e aproveitou a oportunidade para
na Grande (PB), conta com o estudo do tema “O Li- inaugurar uma nova metodologia com ênfase no re-
vro dos Espíritos, 150 anos de verdade e consolação”. lacionamento interpessoal. Participaram 22 Institui-
O evento, de 17 a 20 deste mês, tem como palestran- ções espíritas capixabas.
tes André Luiz Peixinho (BA), Frederico Menezes
(PE), Severino Celestino de Souza (PB) e Juselma Encontro Espírita no Panamá
Maria Coelho (MG), entre outros. A realização é da De 8 a 11 de fevereiro, o Movimento Espírita do
Coordenadoria Espírita da Borborema e Associação Panamá realizará o I Encontro Espírita Panamenho,
Municipal de Espiritismo, com o apoio da Federação que contará com a presença de vários representantes
Espírita Paraibana. O MIEP será realizado na So- do Movimento Espírita da América Latina. Entre os
ciedade de Estudos e Educação Espírita, Rua João brasileiros, Divaldo Pereira Franco, José Raul
Pequeno, 181, Catolé. Informações na página eletrô- Teixeira e Ney Prieto Perez. Tema central: “A Ciência
nica www.miep.com.br e o Espírito no Mundo Contemporâneo”.

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