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A REFORMA PROTESTANTE E A CONTRA REFORMA

Antes de estudar a Reforma precisamos primeiro compreender que outras críticas ao


mecanismo de organização da Igreja já haviam sido feitas, mas que o contexto do
Renascimento oportunizou uma projeção muito maior das ideias de Martinho Lutero.

Contexto anterior: A Igreja já vinha internamente passando por mudanças. Com o


humanismo, com os teólogos ministrando aulas nas universidades, com a influência das ideias
de Santo Agostinho e com o tomismo (que inseria a lógica aristotélica na teologia), movimentos
internos já questionavam posturas do alto escalão, principalmente aos seguintes pontos: a
relação da Igreja com o acúmulo de capitais, o luxo que o alto escalão vivia e a influência nas
questões políticas.
Durante a Idade Média não se admitia divergência em relação ao catolicismo no
território europeu quem professava outra fé, ou de outra forma a mesma fé, era considerado
herege. E foi para julgar os hereges que o Tribunal do Santo Ofício ou Inquisição foi criado.
Nesse período inicial, a falta de poder real e um poder político essencialmente
descentralizado, dividido entre os senhores feudais, permitiu a Igreja desempenhar esse poder
unificado da cristandade (que na época era sinônimo de ser católico), oportunizando unidade
para por exemplo liderar as Cruzadas e a expulsão dos mulçumanos do território europeu.
Nesse período a Igreja foi a maior possuidora de terras na Europa, instituição de maior
influência política, responsável pela manutenção do sistema feudal, e passou a se confundir
com a nobreza, já que o fato do clérigo não deixar herdeiros trouxe o costume que o segundo
filho nobre ingressasse na Igreja (única instituição com terras para doar), deixando também o
caráter vocacional, provocando quebras no celibato clerical. Com o tempo, os nobres passaram
a poder entrar na Igreja através da compra de cargos (investiduras ou simonia), gerando um
clero inadequado e incapaz de dar respostas aos anseios espirituais dos seus fiéis. Com a
simonia e depois com a vendas de indulgencias (venda de perdão de Deus, a partir do
pressuposto da salvação pelas obras) o luxo do clero era sustentado. Com tanto poder, com a
centralização política a Igreja passou a se tornar também um problema para algumas
monarquias. Internamente muitos clérigos passaram a chamar a atenção para a necessidade
de se retomar os preceitos bíblicos da humildade, externalizando-se nas criação de ordens
religiosas como a franciscana, beneditina, dominicana e agostiniana que se estabeleciam em
regras rígidas, com votos de pobreza e castidade, apesar de não frontais em críticas contra a
Igreja, a sua ascensão já demonstrava a oposição ao status quo. As mudanças na economia
também oportunizaram a reforma religiosa, já que o objetivo dos capitalistas e comerciantes
era buscar o lucro que era condenado pelo catolicismo.

As críticas de Lutero: Foi nesse contexto que Lutero (1483-1546), monge e teólogo católico,
professor da Universidade de Wittenberg, remontou as ideias de Santo Agostinho, as quais ele
seguia, fazendo críticas cada vez mais pesadas a Igreja. Ao se ver diante da venda de
indulgências, resolveu tornar público seus questionamentos fixando 95 teses suas sobre a
Igreja justamente na porta de entrada da catedral de Wittenberg, o que provocou a sua a
excomunhão e, depois, a se tornar um dos líderes de todo um movimento religioso que se
espalharia pelo Ocidente.
Podemos identificar que Lutero era um homem do seu tempo que se por um lado
recebeu influência das críticas internas da própria Igreja, como das ordens religiosas, e
também das ideias do Renascimento, sendo desta última a noção de que se o homem poderia
interpretar a natureza e também poderia realizar em relação a bíblia. Assim Lutero denunciou a
mediocridade, a corrupção, a venda de indulgências e de cargos, o luxo e acúmulo de posses
da Igreja. Após as críticas que realizou, Lutero foi excomungado e expulso da Igreja, mas
ganhou apoio da burguesia e de nobres, que passaram a reivindicar a autonomia religiosa de
seus principados.
Esse contexto foi fundamental, já que a história de Lutero poderia ter sido a mesma de
João Huss, que um século antes já pregava a reforma na Igreja, mas que foi preso e queimado
pela Inquisição.
Perseguido, Lutero refugiou-se no castelo do Príncipe Frederico, da Saxônia, onde
pode traduzir a bíblia para o alemão. Esse ponto também merece destaque: a imprensa do tipo
móvel já havido sido inventada por Gutenberg, contemporâneo de Lutero, que resolveu imprimi-
la. A impressão da bíblia traduzida fez as ideias de Lutero se projetarem muito mais,
possibilitando a ampliação de um movimento que poderia ter se restrito a região de Wittenberg,
na atual Alemanha. Entre 1526 e 1529, Lutero organizou uma nova doutrina religiosa, que foi
publicada em 1530 como Confissão de Augsburgo. Nela negou a infalibilidade do papa,
alterando-a para a bíblia, declarou sacerdócio universal (todo o indivíduo que ler os textos
sagrados pode interpreta-los), trouxe a tese da salvação pela fé (negando a das obras), aboliu
o celibato dos sacerdotes, eliminação de parte dos sacramentos (só deixando o batismo e o
casamento), a substituição do latim para o alemão nas missas (língua local) e rejeitou a
hierarquia do clero católico. Nesse período houveram revoltas camponesas contra a riqueza e
que foram associadas a Lutero, no entanto esse as condenou e não estimulava a destruição
das posses da Igreja católica. Na Alemanha o imperador Carlos V tentou conter o avanço do
luteranismo e isso impulsionou uma série de protestos, e por isso aqueles que clamavam pelo
direito de professar o luteranismo passaram a ser conhecidos por protestantes. O conflito se
protelou até 1555, quando foi realizada a Paz de Augsburgo, concedendo a cada príncipe o
direito de escolher a religião de seu principado.

Outros reformadores: Na Suíça João Calvino (1509-1564), sacerdote francês, acrescentou


às ideias de Lutero a predestinação, criando mais um movimento que futuramente foi
designado como calvinismo. Segundo Calvino, algumas pessoas já teriam sido escolhidas por
Deus e o progresso delas seria exemplo dessa escolha, o que favorecia o acúmulo de bens
materiais. As ideias de Calvino e o texto base da religião criada por ele estão na obra
Instituição da religião cristã (1536). Na França os huguenotes, como eram conhecidos os
calvinistas franceses, e católicos prosseguiram em conflitos durante 30 anos (chegando a dois
mil mortos na noite de São Bartolomeu) que acabou apenas em 1598, com a publicação do
Edito de Nantes, que garantia a liberdade religiosa para os protestantes. Os calvinistas também
foram chamados de puritanos na Inglaterra e presbiterianos na Escócia. Na Inglaterra, o rei
Henrique VIII, em 1534, fundou o anglicanismo, que mesclava elementos do catolicismo e do
calvinismo, e ainda previa a possibilidade do divórcio e a não submissão do rei ao papa. O rei
inglês também seria a autoridade máxima da Igreja anglicana, já que havia rompido com o
papa por questões políticas. No Ato de supremacia, os ingleses deveriam aderir ao
anglicanismo e aqueles que não o seguissem seriam perseguidos. Henrique VIII ainda
confiscou os bens do clero católico e os distribuiu entre a gentry, camada de pequenos e
médios proprietários rurais, assegurando apoio dessa camada a si e a nova religião . Nos anos
seguintes a Inglaterra ainda voltou a ser católica, passando por perseguição aos anglicanos, e
apenas a rainha Elisabeth I proclamou o anglicanismo como religião oficial. Foi na Inglaterra
também que surgiram os puritanos que lutaram para que o anglicanismo fosse purificado dos
vestígios do catolicismo.

Contrarreforma: Por sua vez a Igreja Católica reagiu fazendo a sua Contrarreforma. Com o
Concílio de Trento (1545-1563), moralizou o clero (estabelecendo idade mínima e formação em
seminários); proibiu a venda de indulgencias, fortaleceu a hierarquia da Igreja, publicou o Index
librorum proibitorum (lista de obras censuradas) e reconheceu a ordem religiosa Companhia de
Jesus (1534 – Ignácio de Loyola), que teve um papel importante na Contrarreforma,
espalhando-se pelo mundo para divulgar a fé (catequisando povos originários nas colônias
europeias). No Concílio também foi retomado o Tribunal do Santo Ofício ou Inquisição, que
conseguiu impedir o avanço do protestantismo em Portugal, Espanha e na Itália, onde o apoio
real ao catolicismo também foi ferramenta importante para esses resultados.

Dentre as consequências da reforma estão: fim do monopólio católico na Europa, incentivo a


alfabetização, estímulo ao desenvolvimento capitalista, intolerância religiosa (perseguição de
cientistas e intelectuais), entre outros.