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CAPÍTULO XII

FILOSOFIA DA CIENCIA

i) CONCEPTO DE CIENCIA
A Filosofía da Ciencia ou Epistemología é o estudo lógico da
Ciencia: o estudo reflexo do pensamento humano, quando procede
seguindo uma ordem científica.
Ciencia é o conhecimento ordenado, sistemático e mediato dos
entes e de suas propriedades. É um conhecimento descritivo, mensurante,
definitório e explicativo das coisas, através de suas causas ou principios. É
um corpo orgánico de conhecimentos.
Aristóteles definia a Ciencia como:
• "conhecimento certo pelas causas".
• "habito intelectual especulativo".
A Ciencia ("epistéme") cuida do que é necessário ("anagkaión") e
nao do que é contingente ("tyche").
A Ciencia tem duas finalidades principais:
• especulativa — atender a tendencia natural do homem a querer
conhecer as coisas;
• prática — satisfazer as necessidades da vida, dominando o
Universo corpóreo.
O Objeto da Ciencia é o aspecto da realidade que ela se pro- póe
estudar. Divide-se, basicamente em:
• Objeto material — espécie de realidade considerada generi-
camente por uma ciencia (Ex.: o homem; os seres vivos; os seres
materiais; etc.);
• Objeto formal — aspecto dos entes considerado específicamente
pela ciencia (Ex.: o homem enquanto ser vivo ou en- quanto sujeito
de direitos e obriga^óes).
> Formal quod — aspecto real conhecido (Ex.: o movimento, a
vida, o número, etc.);
> Formal quo — modo pelo qual se conhece (Ex.: com a luz da
razao ou da fé; com a observado espontanea ou através de
instrumentos).
As ciencias se diferenciam pelo seu objeto formal, que é o seu

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ponto de vista a respeito da realidade estudada.

II) DIVISAO E ORDEMDAS CIENCIAS

As ciencias podem ser classificadas e ordenadas segundo vários


aspectos:
1) Enfoque Cognoscitivo:
• Ciencias Humanas — partem de principios cognoscíveis pela
Razao (tanto as Ciencias Humanas propriamente ditas, quan- to as
Ciencias Exatas ou Biológicas).
• Ciencias Teológicas — partem de principios dados pela Revelado
(verdades contidas na Biblia ou na Tradicao Religiosa, reveladas
por Deus aos homens).
2) Enfoque Finalístico
• Ciencias Especulativas (Teoréticas) — tem por finalidade
conhecer a natureza do objeto estudado: o que a coisa é (Ex.:
Filosofía, Ciencias Naturais, etc.).
• Ciencias Práticas (Operativas) — tem por finalidade estabe- lecer
o que se deve fazer: Ciencia Normativas (Ex.: Direito, Engenharia,
Medicina, etc.).
3) Enfoque Metodológico:
• Ciencias Dedutivas — adotam método preferencialmente
demonstrativo (Ex.: Matemática);
• Ciencias Experimentais — adotam método baseado funda-
mentalmente na experiencia (Ex.: as Ciencias Naturais em geral).
4) Enfoque Objetivo:
• Ciencias dos Corpos — tem por objeto material a matéria em seus
vários aspectos (Física, Química, Mineralogia, etc.);
• Ciencias da Quantidade — tem por objeto material um dos
acidentes da matéria que é a quantidade (Matemática, Esta- tistica,
etc.);
• Ciencias da Vida — tem por objeto material o fenómeno da vida,
em suas mais diversas vertentes (Biologia, Botánica, Zoologia,
etc.);
• Ciencias do Homem — tém por objeto material o homem, quer
considerado individualmente (Psicología), quer considerado em
sociedade (Direito, Economia, Sociologia, Historia, etc.);
• Ciencias de Deus — tém, por objeto material, Deus (Teologia).
5) Enfoque Abstrativo:
O conhecimento humano so é possível grabas a capacidade humana
de abstrair, das realidades concretas, as ideias ou conceitos universais das
coisas, formulando generalizares que se aplicam aos vários entes que tém
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as mesmas características.
Há vários graus de abstrajo, conforme o nivel de desmate-
rializacao que se procede no estudo do objeto e no modo de intelecto da
realidade que se busca.
Assim, podemos dizer que há tres graus de abstracao:
• Abstracao Física — apenas da matéria individual, mas nao dos
aspectos intelectivos da matéria sensível.
• Abstracao Matemática — dos aspectos sensíveis e experi- mentais
da realidade, para ficar apenas com as estruturas quantitativas
abstratamente consideradas.
• Abstracao Metafísica — abstrajo integral da matéria sensível,
considerando aspectos comuns também aos seres ima- teriais
(inteligíveis puros).
Dentro desse espectro, haveria Ciencias Médias, marcadas pela
aplicado dos conhecimentos matemáticos as investigares físicas (Ex.:
Astronomia, Agronomia, Física Moderna), uma vez que as dimensoes de
espado, tempo, velocidade,^calor, luz, forca sao suscetíveis de
matematizacao (quantificacao). É necessário destacar, no entanto, que as
formulas matemáticas nao explicam o ser das coisas, mas apenas um
aspecto dos entes corpóreos.
6) Enfoque Humanístico:
• Ciencias Naturais (Ciéncias da Natureza) — engloba todas as
ciéncias que tenham por objeto de estudo as realidades materi- ais,
isto é, a Natureza em seus mais diversos aspectos (Física, Química,
Biologia, Matemática, etc.).
• Ciencias Humanas (Ciéncias do Espírito) — englobando todas as
ciéncias que se dediquem ao estudo dos problemas humanos, em
suas mais variadas facetas (Economia, Direito, Psicologia,
Sociologia, Historia, Linguística, Pedagogia, Antropología Cultu-
ral, etc.). Estao particularmente vinculadas a filosofía (dependem
da concepcao de homem que se tenha).
7) Hierarquia das Ciencias
Pode-se dizer que existe urna hierarquia ou subordinaban entre as
ciencias, encarada sob dois prismas:
• Subordinaban Material — as ciencias superiores recebem
principios e dados de ciencias inferiores, que sao suas auxiliares
(Ex.: principios filosóficos para a Teologia; conhecimentos fi- sico-
quimicos para a Psicologia).
• Subordinaban Formal — as ciencias inferiores recebem sua
fundamenta^ao das superiores, de modo a conhecer melhor seu
objeto material (Ex.: principios filosóficos, que devem ser
respeitados pelas ciencias particulares; principios éticos que
devem ser observados pelas ciencias práticas).

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Há, portanto, autonomia e subordinabao entre as ciencias: cada
uma tem seu objeto formal próprio (aspecto da realidade que estuda), mas
compoe um todo harmónico (que permite uma visao global do homem e
do mundo).

III) O MÉTODO DAS CIENCIAS

Método é o modo ordenado de se proceder para se chegar a um fim.


Método científico é o procedimento ordenado para o conheci-
mento da verdade no ámbito de cada ciencia especifica.
A Ciencia, sob o prisma metódico, é o conhecimento de con-
clusoes, obtidas demostrativamente a partir de principios. Assim, todo
método científico supoe:
a) fixabao de principios — quer tirados da experiencia (dados),
quer colocados aprioristicamente como hipóteses de trabalho (postulados),
que fundamentam todo o conhecimento posterior;
b) regras de demonstrabao — formas de extrair dos principios e
dos dados posteriores, que se obtém através da investigabao experimental,
novos conhecimentos;
c) obtenbao de conclusoes — conhecimentos adquiridos a partir
dos postulados e da experimentabao ou demonstrabao dedutiva.
O método científico tem como ponto de partida a experiencia. Por
indubao se extraem da realidade os dados experimentais básicos que
permitem fixar os principios da Ciencia (os próprios postulados da
matemática e da geometría se extraem por indubao da experiencia
sensivel, nao sendo idéias inatas). E, a partir desses principios, por
dedu^áo, extraem-se novos conhecimentos, sempre confrontando com os
dados empiricos, através da experimentado (a própria filosofía extrai da
experiencia comum a base sobre a qual constrói os principios metafisicos,
razao pela qual esse recurso continuo aos fatos é o sinal distintivo de uma
filosofía realista em rela- 8<o a uma postura idealista, de gera^ao de
idéias a partir do pró- prio cogitar, sem qualquer correspondencia com a
realidade dos fatos).
As ciencias naturais utilizam basicamente o recurso a experi-
mentado, para comprovar se as hipóteses formuladas para explicar os
fenómenos sao verdadeiras. Essas experiencias sao provocadas
artificialmente em laboratórios e, quanto melhor for o instrumental de
medida e observado, maior grau de certeza se obterá sobre as conclusóes.
O fato de que os sistemas de medidas sejam convencionais e que os
instrumentos de medido possam alterar um pouco o fenómeno
observado nao implicam que nao se possa conhecer a realidade. Sempre é
possivel um aprofundamento no conhecimento, com instrumentos mais
modernos, e uma explicado melhor da realidade, com modelos mais

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abrangentes. A verificado, quando se trata de indudo empírica, só alcanza
uma certeza fisica e, como tal, nunca é definitiva. No entanto, nao se pode
pretender, como Popper (19021994), que as teorías científicas nao sejam
verdadeiras, mas apenas verossímeis, até serem falseadas por algum
fenómeno que nao fos- se por elas explicado. Os modelos explicativos
anteriores, formulados com base nas verifica^óes feitas com os
instrumentos existentes na época, dao uma explicado da realidade que
nao deixa de ser verdadeira, sabendo-se que nunca se pode esgotar a
verdade.
As incertezas que se verificam especialmente nos campos da
Astronomía, da Microfísica e da Historia Natural dizem respeito a
limitado dos instrumentos científicos e a impossibilidade de re-
produzir o já ocorrido. Isso mostra os limites do conhecimento científico:
continuam pendentes de resposta, do ponto de vista das Ciencias
Naturais, as grandes interroga^óes sobre a origem do Universo, da vida e
do homem.
Já a Filosofía, ao se apoiar na experiencia comum, que é mais
abrangente e completa, encara os fenómenos na sua globalidade. Dai que a
verificado experimental nao seja critério último de verdade para a filosofía
(pois estuda realidades que transcendem os sentidos, aínda que partam
deles para se chegar dos efeitos as causas). De qualquer forma, os dados
científicos comprovados ser- vem de parámetro e matéria para a reflexao
filosófica.
IV) A DEMONSTRADO

O cerne de todo método científico é constituido pelas regras de


demonstrado que observa para chegar dos principios (mais co- nhecidos)
as conclusoes (mais remotas).
Aristóteles tratou da demonstrado ("apódeixis") nos seus "Analítica
Posteriora", onde desenvolveu o método do silogismo apodítico (ou
demonstrativo). Aristóteles foi o primeiro filósofo a pensar
matemáticamente a lógica, em método de demonstrado par- tindo de
axiomas (principios) cognosciveis através dos sentidos. Seu sistema de
definido com base em genero (universal) e espécie (particular) nao difere
substancialmente da moderna teoria matemática dos conjuntos.
Reconhece que só há demonstrado do necessário e nao do que é
contingente e acidental.
Os dois tipos básicos de demonstrado sao:
• Demonstrado "quia" (“a posteriori" ou explicado) — que parte dos
efeitos para chegar as causas, ou seja, explica os fenómenos
apontando para suas causas (Ex.: o fenómeno das marés se explica
pela atracao que a Lua exerce sobre a Terra); e
• Demonstrado "propter quid" ("a priori" ou dedudo) — que chega
das causas aos seus efeitos, ou seja, do mais universal as

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conseqüencias práticas (Ex.: conhecendo a trajetória de um
planeta, pode-se demonstrar quando estará em determinada
posido).
A demonstrado “quia" ou seja, cuja estrutura demonstrativa é do
tipo "isto deve ser assim porque se comporta desta forma", distingue-se da
indudo, tendo em vista que nao parte de casos singulares para chegar a
uma verdade universal, mas apenas busca a causa que explique um
determinado fenómeno. Parte, pois do principio da causalidade: "tudo
o que ocorre tem uma causa". Assim,
se o fenómeno existe, deve ter uma causa. A indudo servirá apenas para
ofertar a demonstrado “quia" a sua premissa maior: induzida tal conclusao
da observado de fenómenos semelhantes, será que nao se aplica a esse
outro fenómeno? (Ex.: Quem apresenta determinados sintomas, é que tem
sarampo; Pedro apresenta tais sintomas; Logo, Pedro está com sarampo).
A demonstrado "propter quid", isto é, cuja estrutura demonstrativa é
do tipo "isto é assim por causa daquilo", parte da nature- za das coisas, já
captada anteriormente, para se tirar conclusoes práticas: nas ciencias
práticas (Direito, Engenharia, Medicina, etc.), parte-se do conhecimento da
finalidade das coisas, para se tirar conclusóes sobre o que fazer, como agir
em cada caso (Ex.: É da natu- reza dos felinos ser carnívoro; o leao está
solto e com fome; se eu permanecer por aqui, serei trabado pela fera).
A indu^áo causal é o método para se buscar qual dentre vá- rias
possíveis causas é aquela que explica efetivamente o fenómeno. Para tanto,
cabe a formulado de várias hipóteses, procurando, através de vários
experimentos, identificar, por exclusao, qual seria a causa verdadeira, ou
seja, a que é necessária para que o fenómeno tenha ocorrido e nao
meramente suficiente (pois entao seria causa acidental e nao essencial). A
escolha de hipóteses de traba- lho deve ser pautada pela “salvaguarda das
aparéncias", ou seja, aquelas que, explicando o fenómeno, nao se oponham
aos fatos, tal como eles aparecem aos sentidos (hipóteses mais
verossímeis). As formas da indu^ao causal, tais como vislumbradas por
Stuart Mili (1806-1873), seriam:
• Método das Semelhan^as e Diferen^as — detectar se um dentre
vários fatores está sempre presente quando ocorre o fenómeno,
para se chegar a causa suficiente (quando todos os objetos
submetidos ao mesmo tratamento sofreram efeito seme- ihante)
ou necessária (quando os objetos nao submetidos a esse
tratamento tiveram efeito diferente);
• Método das Variares Concomitantes — detectar se há va- ria^ao
proporcional de um fenómeno quando há varia^ao cor-
respondente em seus fatores antecedentes (percep^ao da in-
fluencia de um fator sobre o fenómeno); e
• Método dos Residuos — alguma irregularidade residual de um
fenómeno, que em geral se explica por um conjunto de causas,

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deve ser explicada por outra causa, que deve ser investigada.
A demonstrado por absurdo é aquela que se faz mostrando que o
contrário do que se quer demonstrar seria uma hipótese im- possível, falsa
e absurda, o que leva a conclusao de que a hipótese inicial deve ser
verdadeira.

V) OS PRINCIPIOS CIENTÍFICOS

a) Conceito de Principio Científico


Principio é aquilo do qual algo procede. Há dois grandes grupos
básicos:
• Principios Ontológicos — sao as causas ou elementos cons-
titutivos das coisas (formam parte do mundo real).
• Principios Lógicos — sao verdades certas ou hipóteses das quais
se partem e que causam o conhecimento de conclusóes a respei- to
das coisas (formam parte do mundo das ideias).
Os principios científicos (espécie do genero "principios lógicos") sao
enunciados universais e indemonstráveis, que servem como premissas
para as demonstrares.
Sao indemonstráveis porque o seu conhecimento se dá por intui^ao
("HOMS"), isto é, por capta^ao imediata de sua realidade e nao por
raciocinio.
O fato de serem "lógicos" nao significa que nao tenham referencia
com a realidade, pois devem refletir, em última instancia, a realidade que
se busca conhecer e explicar. Ocorre que, em alguns casos, constituem
apenas hipóteses de trabalho, até se chegar a um grau de certeza maior
sobre sua veracidade.
b) Espécies de Principios Científicos
Nao apenas as ciencias particulares (Matemática, Fisica, Qui- mica,
Sociologia, Direito, etc.), mas também a Filosofía e a Teologia sao ciencias
que se fundam em principios comuns a todas elas e principios próprios de
cada uma.
• Principios Comuns (principios primeiros ou metafisicos) — sao as
verdades imediatas e certissimas que se referem as propriedades
do ente, e que sao comuns a todas as ciencias (Ex.: "principio da
nao contradigo", como primeiro principio das ciencias
especulativas; "deve-se fazer o bem e evitar o mal", como primeiro
principio das ciencias práticas).
• Principios Próprios — (principios secundários ou particulares) —
sao os postulados, leis, normas ou regras que norteiam cada
ciencia particular (Ex.: normas morais para a Ética; regras do
silogismo para a Lógica; leis positivas para o Direito, etc.).
Os principios metafisicos, fundados no conhecimento espontaneo,
sao verdades que gozam da máxima certeza e servem de substrato último
da certeza das demais verdades universais (pois, do contrário, só restaría o

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ceticismo de nao se admitir nenhuma verda- de e nenhum conhecimento).
c) Os Principios Matemáticos
Os principios matemáticos dividem-se em:
• Axiomas — principios matemáticos reais, conhecidos como
verdadeiros, já que frutos de uma indu^ao (abstrajo origi- nária da
quantidade real), sendo imediatamente evidentes e estando
implicitos em qualquer demonstracao matemática (Ex.: o todo é
maior que a parte);
• Postulados — principios matemáticos lógicos (conceitos de razao),
tomados como hipóteses de trabalho, para as construyes ideáis,
independentemente da referencia a realidade (Ex.: os números
irracionais).
O método axiomático (utilizado pela Matemática para deduzir dos
principios básicos as suas conclusoes) parte dos axiomas inde-
monstráveis (por serem evidentes por si mesmos, ou serem postulados
utilizados como hipóteses de trabalho) e, utilizando as regras de
inferencia (que estabelecem o modo pelo qual os axiomas podem ser
utilizados), chega a enunciados formais novos, que, por sua vez, ser- virao
para a construyo de outros enunciados, mais especificos, compondo os
teoremas (inferencia de axioma) ou teorias (inferencia de postulado).
A utilizado rigorosa do método assegura a coerencia da teoria
(sintática ou relayo interna dos simbolos), mas nao sua verdade material
(semántica ou relayo dos simbolos com a realidade, significando-a). Para
isso, é necessária a verifica^ao experimental de suas conclusoes.
As propriedades que deve ter uma teoria matemática, do ponto de
vista sintático, sao:
• Consistencia — nao contradiyo entre os enunciados;
• Completude — capacidade de demonstrar todas as fórmulas
válidas em seu dominio;
• Independencia — os axiomas básicos nao devem ser dedu- zidos
uns dos outros;
• Decidibilidade — existencia de um mecanismo automático de
demonstrayo ou refuta^ao das conclusoes.
d) A Prova de Goedel — Completude x Consistencia
Kurt Goedel (1906-1978), matemático tcheco e professor das
Universidades de Viena e Princeton, desenvolveu, em 1931, o teorema da
incompletude, aplicado a lógica formal matemática e a aritmética,
segundo o qual um sistema axiomático nao consegue ser, ao mesmo
tempo, consistente e abrangente: ou tem uma qualidade ou outra
(semelhante a teoria de Chesterton sobre o "mistério" como a razao
humana sendo levada aos seus limites: quer explicar tudo, e deixa tudo
cinzento; admite alguns mistérios, pontos negros, e com isso torna clara
toda a realidade). Assim, todo sistema seria essen- cialmente incompleto
(haveria enunciados verdadeiros que nao po- deriam ser derivados das
premissas do sistema). Goedel propos a ado- yo de um "realismo
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filosófico platónico": a matemática nao cria ou inventa seus objetos, mas
os descobre como realidades preexistentes (ainda que para Platao sejam
arquétipos ideais desencarnados).
Quanto a denominada "Prova de —bedel" temos:
• substancia — possibilidade de provar a impossibilidade de
provar (ex: que o axioma euclidiano de que por um ponto tora de
uma reta só pode passar uma reta paralela a primeira é
indemonstrável): problema da aparente autoevidencia dos axi-
omas de uma disciplina e da nao necessária verdade das pre-
missas postuladas para a derivado de um teorema ou teoria. A
prova da consistencia de um sistema se baseia na demonstrado de
que nem todas as fórmulas podem ser deduzidas dos axiomas
(Ex.: as contraditórias entre si).
• problema — consistencia interna dos axiomas, para nao ge- rar
teoremas contraditórios, quando nao intuitivos os axiomas, pela
sua evidencia (Ex.: a geometría nao euclidiana de Riemann, ao
negar o axioma das paralelas, seria válida para a "superficie
plana", mas nao para a "superficie curva" da esfera, sendo que a
consistencia dos axiomas de Riemann "depende" da consistencia
dos de Euclides). Hilbert pretende dar essa consistencia passando
ao sistema algébrico das coordenadas cartesianas (substituindo
ponto por dois números, reta por equacao de I a grau e curva por
equacao de 2a grau), mas isso remete a consistencia da própria
álgebra.
• consistencia e abrangencia — a consistencia (e consequente
verdade) de um sistema supoe poder aplicar um conjunto finito
de premissas a um conjunto nao finito de hipóteses, sem que se
encontrem antinomias (contradices) nas con- clusoes: modelos
válidos de explicado da realidade.
• "formalizado" de um sistema — Hilbert propos "formalizar" os
sistemas, retirando o significado dos signos (sinais vazios), para
nao remeter a consistencia a qualquer elemento externo ao sistema
(apenas a metamatemática se preocuparía com o significado dos
simbolos) e Russell, no seu "Principia Mathematica" reduziria a
matemática a lógica e estabelece- ria um sistema fechado de
inferencias a partir dos axiomas admitidos como fundantes. Os 4
Passos da "formalizado" de um sistema seriam:
> catálogo completo dos signos utilizados (vocabulário).
> estabelecimento das "regras de formado" — combinares
aceitáveis dos signos (fórmulas ou gramática do sistema).
> estabelecimento das "regras de transformado" — derivado de
umas fórmulas de outras (regras de inferencia).
> seledo das fórmulas que constituirao os axiomas do sistema
(fórmulas fundantes).
• "mapeamento" de um sistema — necessidade de expressar as

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proposites em linguagem gráfica diversa, para desco- brir a raiz
das contradices (expressoes cujo sentido ultra- passa os signos
definidos do sistema: metassentido).
• etapas da prova de Goedel:
> "número de Godel" - atribuir um número (único) a cada signo
elementar, fórmula (sequéncia de signos) e prova (sequéncia de
fórmulas), "aritmetizando" completamente o cálculo formal (a
prova seria toda numérica).
> estabelecer uma fórmula metamatemática com o seguinte
enunciado: “Afórmula — nao é demostránel".
> a demonstrado da inconsisténcia do sistema se fará se a fórmula
G e o seu contrário forem demonstráveis (igualdade final dos
números de Goedel para enunciado negativo e positivo,
resultando numa tautología [diz-se a mesma coisa com
palavras diferentes, numa redundancia], em que a fórmula será
invariavelmente verdadeira, pois seus elementos sao equi-
valentes): isso mostraría ser impossível deduzir tudo dos
axiomas (necessidade de elementos extrassistema para mostrar
a impossibilidade da contradicho).
• conclusao — se a aritmética é consistente, ela é incompleta, ou
seja, os axiomas da aritmética sao incompletos, na hipótese de
serem verdadeiros (reconhecimento da limitado fundamental do
método axiomático): se o enunciado "existe ao menos uma fórmula
de aritmética para a qual nenhuma sequéncia de fórmulas constituí uma
prona" for demonstrável (como o fez Goedel), entao a aritmética
exige uma prova metamatemática de sua consistencia (o sistema
fechado é insuficiente para tudo pro- var e deduzir). Tal prova foi
feita por Gerhard Gentzen (1936), através do "Principio da
Indu^ao Transfinita" (foge do mapeamento formalista da
aritmética).
• Inteligencia Artificial — se o método axiomático é incompleto e
insuficiente, nenhuma máquina ou robo, que funcionam com esse
método de axiomas e regras de inferencia, pode superar o cérebro
humano (ainda que seja mais rápido e preciso em mui- tas
operacoes).
e) Os Principios Físicos
Os principios físicos sao formulares universais que expressam
propriedades das coisas materiais. Para serem verdadeiros, devem poder
ser verificados experimentalmente.
As leis físicas sao a inclinado ativa das coisas materiais, que as
move de um modo determinado, de acordo com a sua natureza. Sao
deduzidas do comportamento uniforme e regular dos seres materiais e
formuladas, por inducao, em enunciados universais (Ex.: lei da gra-

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vidade). Podem ser expressas em equa^óes matemáticas, enquanto medem
rela^óes quantitativas da atividade corpórea.
A Física se utiliza de modelos, que sao representares esquemáticas e
simplificadas da realidade (que é mais complexa): sao idealizares dos
fenómenos. Através deles se captam parcialmente aspectos reais das
coisas, podendo ser aperfei^oados com o passar do tempo, na medida em
que as experiencias sao mais profundas e precisas.
O método hipotético-dedutivo, utilizado pela Física, Química e
Ciencias Biológicas, opera em duas fases:
• Apontar uma provável causa dos fenómenos observados,
mostrando que ela pode produzi-los;
• Deduzir dessa hipótese efeitos que nenhuma outra hipótese
conbecida até o momento consegue explicar adequadamente.
Os critérios a serem seguidos para a formula^ao de hipóteses
válidas sao:
• Coerencia — conjuga^ao com principios de outras ciencias, sem
contrariá-los;
• Verificado empírica — constatado da veracidade do modelo pelos
dados fáticos;
• Fecundidade — capacidade de explicar novos fenómenos, que o
modelo anterior nao explicava;
• Simplicidade — explicado dos fenómenos por menor quan-
tidade de causas, pois a inclusao de muitas hipóteses ad hoc para
explicar excedes sinalizam para que a explicado nao seja a
verdadeira.
As teorías científicas sao conjuntos organizados de conheci- mentos
científicos, formados a partir de certos pressupostos iniciais, numa
hierarquia que comporta os seguintes níveis:
• Fatos — sao os dados captados pelos sentidos e mensurados pelos
instrumentos científicos;
• Proposi^oes básicas — sao a expressao intelectiva dos fatos;
• Leis — sao as regularidades encontradas nos fatos, que ex- plicam
grupos de fenómenos;
• Principios Superiores — sao o fundamento explicativo de um
conjunto de leis, do qual depende toda teoria.
As teorías antigas nao se destroem, mas se purificam ou se
incorporam as novas teorías, dando uma explicado mais abran- gente e
profunda dos fenómenos (Ex.: mecánica newtoniana clássi- ca
aperfei^oada pela mecánica quántica). As teorías, por serem réplicas
parciais da realidade, sempre podem ser melhoradas. Se, nos comeaos,
uma teoría é hipotética, pode com o tempo tornar-se certeza (Ex.: teoría
sobre a forma^ao do Universo a partir de uma explosao inicial continua
hipotética, mas poderá vir a ser compro- vada no futuro).

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VI) PRINCIPAIS CORRENTES HISTÓRICAS DAFIEOSOFIA
DA CIENCIA

A concep^ao de Ciencia que se teve ao longo da Historia pode ser


resumida nas seguintes escolas:
a) Antiguidade — A Ciencia se confundía com a Filosofía, bus-
cando-se o principio do qual tudo derivaría e as causas explicativas das
coisas: a par da filosofía de Aristóteles (que sistematiza todo o saber
filosófico precedente), desenvolvem-se as primeiras ciencias particulares
(geometría com Euclides, astronomía com Ptolomeu, mecánica com
Arquimedes, medicina com Galeno, etc.).
b) Idade Média — A Ciencia e a Filosofía se ordenam para embasar
a própria Teología, sendo que as universidades passam a ser os centros de
estudos científicos: os principais compaginadores entre fé e razao foram S.
Agostinho e S. Tomás de Aquino (como a Natureza e a Revelado sao dois
caminhos para se chegar a mesma Verdade, nao podem se contradizer).
c) Idade Moderna — O desenvolvimento das ciencias particulares
e o enfrentamento com a teología levam a uma concepto me- canicista do
mundo (Descartes, Galileu e Newton), que se explicaría a si mesmo em
seu funcionamento autónomo: o positivismo de Comte quer afastar as
explicares teológicas e metafísicas da realidade, para limitá-las as
explicares científicas de caráter experimental, que deveriam ser estendidas
a todos os campos do saber, inclusive as ciencias humanas.
d) Idade Contemporánea — A crise do dogmatismo científico-
positivista leva ao surgimento de diferentes correntes que pro- curam
explicar a realidade:
• convencionalismo — todas a teorías científicas nao pas- sariam de
conven^óes entre os homens, estabelecendo parámetros para
explicar e uniformizar a referencia aos fenómenos (Poincaré);
• pragmatismo — as teorías científicas nao tém valor de verda- de,
mas sao meros instrumentos que servem para a a^ao de
transformado da realidade (James);
• empiriocriticismo — a ciéncia se reduziria a análise das sen-
sa^óes, agrupadas pelo homem para se adaptar ao mundo no
contexto da luta pela vida (Mach);
• neopositivismo — rejeita a metafísica, por considerar que só
teriam valor científico as proposites que pudessem ser verificadas
experimentalmente (Schlick);
• falseabilismo — as teorías científicas nao seriam verdadeiras, mas
apenas verossímeis, passíveis de falseamento, quando nao
explicassem algum fenómeno novo (Popper);
• paradigmatismo — a ciéncia teria períodos de normalida- de, em
que o conjunto de conhecimentos recebe a luz de um modelo

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paradigmático aceitado pela comunidade científica, e períodos de
revoluto, quando o paradigma é contestado, ao nao explicar
fenómenos novos, devendo ser substituído por um novo
paradigma (Kuhn).
O relativismo que permeia várias dessas concep^óes de Ciéncia nao
se coaduna com a postura realista do próprio autor da "teoría da
relatividade", que deixou registrado:
“Sem a crenga em que6possível captar a realidade com nossas constru- goes
teóricas, sem a crenga na harmonía interna de nosso mundo, nao poderá
haver ciencia. Esta crenga 6 e será sempre o motivo fundamental de toda
criagao científica. Em todos os nossos esforgos, em cada luta dramática
entre as concepgoes antigas e as concepgoes novas, reconhece- mos a
aspiragao de compreender, a crenga semprefirme na harmonía de nosso
mundo, continuamente reafirmada pelos obstáculos que se opoem ? nossa
compreensao" (Einstein, "A Evolu^ao das Ideias da Física", 1978).

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