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Morfologia

Portuguesa

autor do original
Ornella Pacífico

1ª edição
SESES
rio de janeiro  2015
Conselho editorial  magda maria ventura gomes da silva, rosaura de barros baião,
gladis linhares

Autor do original  ornella pacíficoa

Projeto editorial  roberto paes

Coordenação de produção  rodrigo azevedo de oliveira

Projeto gráfico  paulo vitor bastos

Diagramação  fabrico

Revisão linguística  aderbal torres bezerra

Imagem de capa  nome do autor  —  shutterstock

Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida
por quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em
qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora. Copyright seses, 2015.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

M827m Moraes, Rozângela


Morfologia portuguesa / Rozângela Moraes.
Rio de Janeiro : SESES, 2015.
138 p. : il.

isbn: 978-85-5548-100-0

1. Estudos gramaticais. 2. Formação do léxico. 3. Conceitos. 4. Variação.


I. SESES. II. Estácio.
cdd 469.5

Diretoria de Ensino — Fábrica de Conhecimento


Rua do Bispo, 83, bloco F, Campus João Uchôa
Rio Comprido — Rio de Janeiro — rj — cep 20261-063
Sumário

Prefácio 9

1. Gramática: História, Recursos e Conceitos. Estudos


sobre a Língua, Linguagem, Diacronia, Sincronia 12
Linguagem 12
Linguagem verbal e não verbal 15
Língua 17
Sincronia, diacronia e acronia 19
Morfologia 24
Morfologia, palavra, vocábulo e a dupla articulação da linguagem 25

2. Conceitos de Morfologia e seus Aspectos


Componentes: os Morfemas 34
Conceito de morfema na língua portuguesa 35
Tipos de morfemas e tipos de morfes 35
Morfema e alomorfe 36
Morfema e morfema zero 37
Estrutura das palavras 38
Semantema ou radical 40
Vogal temática 41
Tema 42
Afixos 42
Desinências 44
Interfixos 45
3. Processos Formais de Formação do Léxico 50

Processos formais de formação do léxico: formação de palavras 50


Composição 52
Derivação 52
Hibridismo 56
Abreviação 56
Sigla 56
Onomatopeia 57
Palavra-valise 57

4. Classes de Palavras e Categorias Gramaticais 64

Classes de palavras e categorias gramaticais 64


Morfologia 65
Classes de palavras 66
Substantivo 72
Gênero dos substantivos 76
Adjetivo 80
Artigo 95
Numeral 96
Pronome 97
Pronomes pessoais 98
Pronomes de tratamento 101
Pronomes possessivos 103

5. Classes de Palavras que Compõem o Sintagma


Verbal, Neologismos e o Novo Acordo Ortográfico 108

Classes de palavras que compõem o sintagma verbal verbo 108


Flexões do verbo 109
Vozes verbais 110
Locução verbal 111
Elementos estruturais do verbo 113
Neologismos 117
Afinal, o que é mesmo ortografia? 118
Acentuação gráfica 120
Trema 122
Hífen 123
Prefácio
Prezados(as) alunos(as)

Você já deve ter observado que um bom profissional, independentemente


de sua área de atuação, necessita cada vez mais de uma bagagem cultural que
lhe permita selecionar e preparar informações para facilitar o processo decisó-
rio, seja por meio de produção de textos, de apresentações institucionais, seja
gerenciando o fluxo de informação que certamente faz parte da rotina de traba-
lho de muitos profissionais.
Faz-se necessário, portanto, preparar-se para esse mercado de trabalho com
o auxílio de uma ferramenta muito importante que é o uso adequado da língua
portuguesa. Deste modo, é preciso dominar esse idioma, essa língua, que nos
permite interagir com o outro, na busca de uma comunicação eficaz.
Sabemos que o estudo de uma língua pode ser realizado sob vários aspectos.
Podemos estudar os sons pronunciados e as letras utilizadas para representar
esses sons; a ordem na qual as palavras são empregadas e ainda a significação
delas em diferentes contextos.
Nesta disciplina, vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre a língua
portuguesa, estudando detalhadamente a maneira como as palavras estão clas-
sificadas. É na parte da gramática denominada morfologia que vamos encon-
trar esse estudo, bem como o estudo dos elementos mórficos (que formam as
palavras) e os processos de formação de palavras na língua.
São dez as classes de palavras, seis delas são variáveis (flexionam-se em gê-
nero, número, pessoa, tempo ou modo) e as outras quatro são invariáveis, ou
seja, não sofrem flexão alguma.
Pertencem à classe de palavras variáveis o substantivo, o adjetivo, o artigo, o
numeral, o pronome e o verbo. O advérbio, a conjunção, a preposição e a inter-
jeição são classes consideradas invariáveis.
Saber distinguir essas classes e perceber as posições que elas podem ocupar
nas frases é fundamental para o competente domínio da norma culta do idioma.
Deste modo, a disciplina Morfologia Portuguesa vem ao encontro dessas
necessidades oferecendo ferramentas para auxiliá-lo, propiciando um embasa-
mento teórico assim como atividades práticas para sua formação.

9
O estudo sobre Morfologia Portuguesa está organizado em cinco capítulos,
estruturados do seguinte modo:
Capítulo 1 – Gramática: história, recursos e conceitos – Estudos sobre a lín-
gua, linguagem, diacronia, sincronia
Capítulo 2 – Conceitos de morfologia e seus aspectos componentes: Os
morfemas
Capítulo 3 – Processos formais de formação do léxico
Capítulo 4 – Classes de palavras e categorias gramaticais
Capítulo 5 – Classes de palavras que compõem o sintagma verbal, neologis-
mos e o novo acordo ortográfico.
Conto com a sua participação efetiva na construção de todo esse conhecimento
por meio da realização de muitas leituras e da busca incessante pela informação.

Bons estudos!

Professora Rozangela Nogueira de Moraes


1
Gramática: História,
Recursos e Conceitos.
Estudos sobre a
Língua, Linguagem,
Diacronia, Sincronia
1  Gramática: História, Recursos e Conceitos.
Estudos sobre a Língua, Linguagem,
Diacronia, Sincronia
Neste primeiro capítulo, faremos algumas reflexões acerca de língua, lingua-
gem e suas dimensões, relembrando nossas experiências de aprendizagem da
língua, uma vez que esta existe para tornar efetivo o ato de comunicação. Para
tanto, toda língua apresenta unidades mínimas de significado e som. Na comu-
nidade em que vivemos, usamos a língua portuguesa para nos comunicar e in-
teragir com outras pessoas. Assim, quanto maior for o domínio sobre a língua,
maiores serão as possibilidades de um desempenho linguístico eficiente.

OBJETIVOS
Que você seja capaz de:
•  Compreender o sentido de língua, linguagem e signo linguístico;
•  Diferenciar linguagem verbal e não verbal;
•  Aprender o que significam diacronia e sincronia;
•  Aprofundar seus conhecimentos sobre a dupla articulação da linguagem.

REFLEXÃO
Você se lembra quantas vezes fizemos a análise morfológica de algumas palavras da frase,
especificando também o número de letras e de fonemas delas? Em muitos casos, não en-
tendíamos a importância nem tínhamos uma explicação dessas atividades, tampouco a sua
finalidade. Muitos exercícios eram realizados automaticamente. A partir dos estudos desse
capítulo, aprofundaremos os conhecimentos sobre essas atividades que realizávamos de
modo automático.

1.1  Linguagem

Todo ato de linguagem é um ato de comunicação e representação do pensa-


mento, um fenômeno social por meio do qual os indivíduos, vivendo em grupo,

12 • capítulo 1
buscam interagir uns com os outros. Para isso, estabelecem regras e normas
de vida em sociedade, criam uma forma de pensar e de se reconhecerem como
participantes de uma identidade cultural. Ao colocar os indivíduos em relação
uns com os outros, a linguagem cria o sentido e esse cria o lugar social.
Historicamente, a linguagem tem sido concebida como representação do
mundo e do pensamento, instrumento para transmissão de informações e for-
ma de ação ou interação (KOCH, 1992).
A linguagem, segundo Rosa (2005, p. 18), é um dos sistemas complexos que
interagem com outros sistemas de conhecimento na mente de um indivíduo,
o qual é ativado logo após o nascimento e lhe permite adquirir a língua ou as
línguas no ambiente ao seu redor.
Entende-se por linguagem qualquer sistema de signos simbólicos emprega-
dos na intercomunicação social para expressar e comunicar ideias e sentimen-
tos, isto é, conteúdos da consciência, segundo Bechara 2009.
A linguagem se realiza historicamente revelando aspectos sociais e cultu-
rais. Considerada uma atividade humana, permite ao ser humano, organizar
e dar forma às experiências e representações de mundo que se constroem. Ob-
servemos, portanto, a definição desses elementos que compõem a linguagem:
Sistema é todo conjunto de unidades organizadas, concretas ou abstratas,
reais ou imaginárias, que se ordenam para determinadas finalidades.
Signo é a unidade simbólica estabelecida por meio de convenção, a qual se
manifesta ou leva ao conhecimento de outra coisa que a substitui, podendo ser
concreta ou abstrata, real ou imaginária. Observemos os seguintes exemplos:
a) As nuvens negras no céu manifestam ou são sinais de chuva iminente;
b) a letra “s” final em choras é o signo da segunda pessoa do singular;
c) a mesma letra “s” em histórias é o signo ou sinal que indica plural.

Deste modo, segundo Bechara (2009), os signos são unidades simbólicas


que se manifestam ou levam ao conhecimento de outra coisa, é a.
Ao considerarmos o contexto dos estudos linguísticos, podemos afirmar
que o signo está relacionado com o fato de alguma coisa estar no lugar de outra,
ou seja, uma coisa substitui outra no processo comunicativo, desencadeando a
ideia de representação. Pode-se dizer que o signo é “algo que representa algo”.
Eles são artificiais porque são elaborados especialmente para a comunicação
e são representativos porque substituem o “objeto a conhecer apresentando-o
aos indivíduos” (BORBA, 1998, p. 18).

capítulo 1 • 13
Já explicitamos sistema, signo, vamos, portanto, à intercomunicação social.
Para que se compreenda a intercomunicação social, consideremos a lingua-
gem como sendo plural em oposição à individual, ou seja, construída em socie-
dade, reflexo de um sujeito histórico, sendo, portanto, um estar no mundo com
os outros, entre os outros, em comunidade.
Deste modo, a linguagem permite a comunicação entre os membros que
constituem a sociedade com a finalidade de expressar e comunicar ideias e sen-
timentos, conteúdo da consciência.

CONEXÃO
Para uma compreensão mais detalhada sobre língua, linguagem e linguística, leiam a entrevista
com Mario Perini : Sobre Língua, linguagem e linguística. Disponível em: <http://www.revel.inf.
br/files/entrevistas/revel_14_entrevista_perini.pdf>. Acesso em junho de 2014.

1.1.1  Linguagem e suas dimensões

A linguagem, entendida como uma atividade humana de falar, apresenta cinco


dimensões universais:
a) Criatividade: manifesta-se como uma atividade livre e criadora, que vai
além daquilo que foi aprendido.
b) Materialidade: ao utilizar-se dos órgãos de fonação, produz signos foné-
ticos articulados: os fonemas, grafemas, os quais estabelecem diferen-
ças de significado como as que observamos nos seguintes exemplos:
mala/bala/cala.
c) Semanticidade: cada forma corresponde um conteúdo significativo.
d) Alteridade: reflete a natureza político-social do homem.
e) Historicidade: a linguagem se apresenta sempre sob a forma de língua,
acompanhada de sua referência histórica.

Vale ressaltar que, dentre essas dimensões, a semanticidade é a que dife-


rencia especificamente a linguagem em relação às outras formas de cultura,
enquanto a alteridade é o traço distintivo do significar linguístico em relação
aos tipos de conteúdo das outras formas de expressão, fundamento da histori-
cidade da linguagem.

14 • capítulo 1
Para que se possa compreender linguagem e língua, faz-se necessário com-
preender a essência de seus conceitos, assim como as várias dimensões da lin-
guagem. Passemos, pois, ao estudo da linguagem verbal e não verbal.

1.2  Linguagem verbal e não verbal

Vimos que a linguagem pode ser entendida como a capacidade que todo ser huma-
no tem de se comunicar. Constitui todo sistema de sinais ou signos convencionais
que nos permite a comunicação. A linguagem humana pode ser verbal e não verbal.

1.2.1  Linguagem Verbal

A palavra é o instrumento mais eficaz na comunicação que estabelecemos com


o outro e com nós mesmos. Ela organiza nosso pensamento, faz com que pos-
samos explicitá-los e nos acompanha nas inúmeras atividades que desenvolve-
mos ao longo de nossa vida.
A humanidade tem veiculado, por intermédio da palavra, de geração a ge-
ração, um volume enorme de conhecimentos, comportamentos e valores que
constituem a cultura das várias comunidades existentes.
A linguagem verbal apresenta uma estrutura bastante complexa: além de re-
presentar todos os objetos, permite a sua análise, caracterização e interligação
com outros conceitos, num sistema amplo de relações.
A linguagem verbal, portanto, vale-se da palavra, seja escrita ou falada. Se dis-
tinguirmos linguagem verbal, ou seja, uma linguagem humana que utiliza como
sinais a palavra articulada, chegaremos então à diferença entre linguagem e língua.
Podemos dizer que a língua é uma linguagem humana específica, baseada
na palavra. Dito de outra forma, a língua é a linguagem verbal. Assim, a língua é
um tipo de linguagem humana.
Podemos ainda afirmar que a música, a pintura, a dança, o teatro, o cinema
e outras expressões são um tipo de linguagem humana. Daí falarmos em lingua-
gem da música, linguagem corporal, linguagem pictórica e por aí em diante.
Ao fazermos a distinção entre linguagem verbal e não verbal, precisamos
lembrar que muitas vezes a comunicação se dá por meio do uso dos dois tipos
de linguagem. Ao falarmos com alguém ou discursarmos para determinado
público, vamos tanto fazer uso da linguagem verbal (a fala) como também da
linguagem não verbal (gestos, postura corporal, tom da voz etc.).

capítulo 1 • 15
1.2.2  Linguagem não verbal

Na comunicação diária, utilizamo-nos de meios que dispensam o uso da pala-


vra. Nossos gestos e olhares são prova disso. A maneira como nos vestimos e até
como nos portamos nos vários ambientes que frequentamos também comunica,
a quem nos observa, preferências e modos de vida. Gestos comunicam sentimen-
tos. A mímica, a pintura, a música e a dança são artes que, em sua expressão,
prescindem da palavra. Hoje convivemos com frequência cada vez maior e mais
intensamente com a linguagem visual. O cinema, a televisão, os computadores,
a fotografia, os veículos publicitários (outdoors, revistas) têm encontrado, nesse
tipo de linguagem, um instrumento de comunicação extremamente eficaz, devi-
do, sobretudo, à velocidade com que transmite as mensagens.
Observem essa imagem que é um exemplo da linguagem não verbal.

Disponível em: <http://karmadecay.com/r/AdPorn/comments/1k3w3p/world_wildlife_


fund++_before_its_too_late_1400_x_913/>.

Que leituras podem ser feitas a partir dessa imagem? Como você a interpreta?
Uma das possíveis interpretações é a de que temos aqui a linguagem não
verbal comunicando uma mensagem sobre a importância de se preservarem as
florestas, que representam o pulmão do mundo.
Vejamos outros exemplos de linguagem não verbal:

16 • capítulo 1
Disponível em: <http://www.ciencias.seed.pr.gov.br/modules/galeria/uploads/1/normal_
34charge_agua.jpg>.

CONEXÃO
Amplie seus conhecimentos sobre a linguagem não verbal ,por meio da leitura do artigo
de Suria Schelles: “A importância da linguagem não verbal nas relações de liderança nas
organizações”. Disponível em:< http://www.fsma.edu.br/esfera/Artigos/Artigo_Suraia.pdf>.

1.3  Língua

... o sentido de uma palavra, de uma expressão, de uma proposi-


ção etc. não existe em si mesma, mas é determinado pelas posi-
ções ideológicas colocadas em jogo no processo social histórico
em que as palavras, expressões e proposições são produzidas...
A língua aparece como a base comum de processos discursivos
diferenciados.

Pêcheux

capítulo 1 • 17
O termo língua tem diversas acepções nos textos de linguística. Para Saus-
sure (1969), língua é uma parte da linguagem ou manifestação desta, sendo,
portanto, o objeto da linguística.

“Língua é um sistema de signos que exprimem ideias e é comparável, por isso, à escrita,
ao alfabeto dos surdos-mudos, aos ritos simbólicos, às formas de polidez, aos sinais
militares etc. Ela é apenas o principal desses sistemas”. Os signos em geral ou a lingua-
gem seriam estudados pela semiologia, “uma ciência que estuda a vida dos signos no
seio da vida social”. A semiologia ensinaria, então, “em que consistem os signos, que leis
os regem”, constituindo-se em uma “ciência geral” dos signos.
Saussure 1969, p.24

O estudo da linguagem comporta, portanto, duas partes: uma, essencial,


tem por objeto a língua, que é social em sua essência e independe do indivíduo;
esse estudo é unicamente psíquico; outra,secundária, tem por objeto a parte
individual da linguagem, vale dizer, a fala, inclusive a fonação e é psico-física
(SAUSSURE, 1969, p. 27).
Outra acepção para o termo língua é a de “uma coleção de dados”, sejam pa-
lavras ou sentenças bem formadas. Nesse sentido, uma língua é um constructo
que é “compreendido independentemente das propriedades da mente/cérebro
(Chomsky, 1988:20). Uma língua é “um conjunto de estruturas compartilhadas
por um grupo” (Rosa, 2005: 22). Quando usado nessa acepção, o termo tem sido
especificado como língua-E (externa).
Numa outra acepção, língua é o resultado da interação de dois componen-
tes: o estágio inicial, comum à espécie, e aquilo que vai sendo aprendido com o
ambiente linguístico. É a língua-I (internalizada), ou competência gramatical.
Observem a letra desta música de Caetano Veloso:

Língua

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões


Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores

18 • capítulo 1
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó


O que quer
O que pode esta língua?

REFLEXÃO
Dentre as várias acepções sobre o termo língua: “um sistema de signos que exprime ideias”,
“uma coleção de dados”, “resultado da interação de dois componentes: o estágio inicial, comum
à espécie, e aquilo que vai sendo aprendido com o ambiente linguístico”:
a) Como você analisa a letra desta música de Caetano Veloso?
b) Como você interpreta os seguintes versos:
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

1.4  Sincronia, diacronia e acronia

Os fatos linguísticos, de acordo com Borba (2005), podem ser estudados sob três
pontos de vista: quanto ao seu modo de ser geral, quanto ao seu funcionamento
num determinado momento e lugar e quanto às suas transformações ou evolução.
•  Modo de ser geral (acrônico): são considerados em si mesmos, indepen-
dentemente de seu funcionamento real, porque o interesse está no exa-
me de suas possibilidades de funcionar.
•  Em determinado momento e lugar (sincrônico): observam- -se fatos ou
dados concretos em funcionamento.

capítulo 1 • 19
•  Quanto às transformações ou evolução (diacrônico): procura-se detectar
as alterações dos fatos com o decorrer do tempo.

Deste modo, temos os seguintes enfoques: acrônico – faz abstração do tem-


po, sendo os fatos explicados ou descritos quanto à sua natureza e função; sin-
crônico – preocupa-se em descrever o funcionamento concreto da língua em
dado momento e lugar e diacrônico – observa as mudanças que a língua sofre
com o decorrer do tempo.
Vejamos também a importante contribuição de Saussure para os estudos
linguísticos quando ele chama a atenção para o fato de que o fator tempo deve
ser considerado na linguística, ainda que isso traga alguma dificuldade em ra-
zão de se colocar tal ciência diante de duas rotas distintas ou de uma dualidade.
Tal dualidade ou distinção entre dois caminhos a tomar diz respeito à pos-
sibilidade de se realizar um estudo a partir do eixo temporal da simultaneidade
ou levando-se em conta o eixo das sucessões. Ao eixo das simultaneidades ou
das relações entre coisas coexistentes Saussure relacionou a linguística sincrô-
nica e ao eixo das sucessões ou das coisas que se sucedem no decorrer do tem-
po ele relacionou a linguística diacrônica.

A B

Fig. 1: Eixo das simultaneidades (AB), concernente às relações entre coisas coexistentes,
D
de onde toda intervenção do tempo se exclui, e eixo das sucessões (CD), sobre o qual não
se pode considerar mais que uma coisa por vez, mas onde estão situadas todas as coisas do
primeiro eixo com suas respectivas transformações (SAUSSURE, 1969, p. 95).

20 • capítulo 1
A diacronia (ou estudos diacrônicos) diz respeito às evoluções ou mudanças
verificadas na língua ao longo do tempo. A sincronia (ou estudos sincrônicos)
relaciona-se com o aspecto estático ou com um estado da língua. Assim, dia-
cronia designa uma fase de evolução e sincronia designa um estado de língua.
O quadro abaixo sintetiza o conceito de diacronia e sincronia proposto
por Saussure:

Diacronia Sincronia
Evolutiva Estática

Sucessões Simultaneidade

Ao longo do tempo Prende-se a um estado, a uma fase

Saussure defendia que o estudo sincrônico deveria ser o objetivo ou inte-


resse do linguista, pois o estudo diacrônico apresenta alterações ao longo do
tempo que os falantes de uma língua desconhecem ou não percebem. Assim,
para um leigo, as sucessões acabam não existindo.

A língua é um sistema em que todas as partes podem e devem ser consideradas na sua
solidariedade sincrônica (...). O aspecto sincrônico prevalece sobre o outro (diacrônico),
ele constitui a verdadeira e única realidade. Também a constitui para o linguista: se este
se coloca na perspectiva diacrônica, não é mais a língua o que percebe, mas uma série
de acontecimentos que a modificam.
SAUSSURE, p.102,106

Saussure, na verdade, afirmava que é necessário estabelecer uma prioridade


entre a linguística diacrônica e a linguística sincrônica. Ele optou pela linguís-
tica sincrônica, pois assim como optou também pela langue (língua) em vez da
parole (fala) pelo fato de ser a língua algo coletivo e social, a opção pela sincronia
se justifica em função de seu caráter coletivo

capítulo 1 • 21
Tudo quanto seja diacrônico na língua, não o é senão pela fala. É na fala que se acha o
germe de todas as modificações: cada uma delas é lançada, a princípio, por um certo
número de indivíduos, antes de entrar em uso (...) Mas todas as inovações da fala não
têm o mesmo êxito e, enquanto permanecem individuais, não há por que levá-las em
conta, pois o que estudamos é a língua; elas só entram em nosso campo de observação
no momento em que a coletividade as acolhe.
SAUSSURE, 1969, p. 115

Assim, Saussure privilegiava o estudo sincrônico e propunha uma diferença


entre os dois métodos de estudo. A primeira diferença diz respeito ao fato de a
sincronia ter somente uma perspectiva, a saber, a das pessoas que falam. Desse
modo, o método da linguística sincrônica é recolher o testemunho desses fa-
lantes, pois, “para saber em que medida uma coisa é uma realidade, será neces-
sário e suficiente averiguar em que medida ela existe para a consciência de tais
pessoas” (SAUSSURE, 1969, p. 106).
A linguística diacrônica, por sua vez, tem duas perspectivas: “uma prospec-
tiva, que acompanha o curso do tempo, e outra retrospectiva, que faz o mesmo
em sentido contrário” (SAUSSURE, 1969, p. 106).
A segunda diferença está relacionada com os limites do campo que abrange
a diacronia e a sincronia. O estudo sincrônico “não tem por objeto tudo quan-
to seja simultâneo, mas somente o conjunto dos fatos correspondentes a cada
língua; na medida em que tal for necessário, a separação irá até os dialetos e
subdialetos”. O estudo diacrônico, por sua vez, abrange termos pertencentes a
mais de uma língua.
Saussure relacionava a diacronia com os fatores externos ou históricos da
língua. A sincronia, de outra forma, foi relacionada com os fatores internos ou
com uma descrição estrutural da língua. Desse modo, os fatores externos, his-
tóricos e culturais são separados dos fatores internos de um sistema, ainda que
os fatores externos possam condicionar o sistema.
Importante também ressaltar que os enfoques sincrônico e diacrônico,
embora tenham traços específicos, não devem ser considerados como coisas
separadas, uma vez que, na verdade, eles se completam. Dessa maneira, “a lín-
gua não é estática e, portanto, não é uma realidade sincrônica” , A sincronia é,
portanto uma operação abstrativa e, de certa forma, redutora. Por isso “deve ser
completada pela visão diacrônica” (BORBA, 2005, p. 71).

22 • capítulo 1
Vamos observar os exemplos apresentados por Borba (2005, p. 72-73) para
demonstrar a pertinência de uma complementaridade entre o enfoque sincrô-
nico e o diacrônico:

Sincronicamente o plural dos nomes (substantivos e adjetivos) funciona assim:


1.  Nomes terminados em vogal recebem s-: meninos, bodes.
2.  Nomes terminados em –r, –s, –z recebem –es: mar-es, mês-es, feroz-es.
3.  Nomes terminados em –l mudam o –l em –is: anima-is, crué-is, azu-is.

Para as regras mostradas, temos que observar o seguinte:


1.  Se a vogal pertence ao ditongo –ão, há três possibilidades de plural:
mão, irmão - mãos, irmãos
pão, cão - pães, cães
dragão, leão - dragões, leões
2.  Se o –s está em sílaba átona, a palavra não varia:
um/dois lápis, o/os alferes, este/estes ourives.
3.  a terminação –il se comporta assim:
-il tônico perde o –l e recebe o –s: funil, anil > funis, anis.
-il átono perde o –il e acrescenta-se –eis: fóssil, dócil > fósseis, dóceis.

Considerações de ordem diacrônica mostram a regularidade desses fenô-


menos. Inicialmente se fica sabendo que o morfema de plural é –s porque as-
sim terminava o acusativo plural latino, caso que gerou as formas do português.
Esse –s se acrescenta a diferentes tipos de radicais. Assim:
1.  Rosa-s, lupo-s, mense-s, mare-s, luce-s, cruce-s, muliere-s > rosas, lobos,
meses, luzes, cruzes, mulheres.
2.  Sole-s, mortale-s, crudele-s > sóis, mortais, cruéis, com a queda normal
do -l- intervocálico e consequente ditongação oe, ae, ee > oi, ai, ei. Com
as palavras terminadas em –il dá-se o mesmo: facile-s > facies > facees >
fáceis; subtíle-s > subtiies > suties > sutiis > sutis.
3.  Mano-s, (g)ermano-s, pane-s, cane-s, dracone-s, latrone-s, leone-s >
mãos, irmãos, pães, cães, dragões, ladrões, leões, com a queda normal
do -n- intervocálico e consequente nasalização da vogal anterior.
4.  As palavras terminadas em –es átono recebiam –es normalmente no
português arcaico: ouriveses, alfareses, mas acabaram perdendo essa
desinência talvez porque a forma fosse interpretada como sendo já de
plural (BORBA, 2005, p. 72-73).

capítulo 1 • 23
1.5  Morfologia

A morfologia preocupa-se com a classificação das palavras. Classificar é, de


acordo com Faraco (2000, p. 199), “distribuir em classes ou em grupos, seguin-
do determinado sistema ou método”.
De acordo com o autor, classificar as palavras “é uma necessidade fundamen-
tal quando se pretende descrever a estrutura dessa língua. Para uma classificação
ser válida, tem de seguir métodos apropriados” (FARACO, 2000, p. 199). Como
qualquer outra classificação, de frutas numa banca de feira, por exemplo, as pa-
lavras da língua também são distribuídas, ordenadas, separadas conforme crité-
rios, semelhanças, diferenças.
De acordo com Laroca (2005), a morfologia é o ramo da linguística que trata das
palavras em diferentes usos e construções. Trata da estrutura interna das palavras,
dos seus constituintes, significativos mínimos ou morfemas.
Segundo Rosa (2005, p. 15), morfologia significa, com base nos seus elemen-
tos de origem, o estudo da forma. O termo forma pode ser tomado num sentido
mais amplo, como sinônimo de plano da expressão, em oposição a plano de
conteúdo. Nesse caso, a forma compreende dois níveis de realização: os sons,
destituídos de significados, mas que se combinam e formam unidades com
significado; e as palavras, as quais têm regras próprias de combinação para a
composição de unidades maiores. Segundo a autora, a palavra não precisa ser
interpretada como unidade fundamental para representar a correlação entre o
plano da expressão e o do conteúdo.
Esse papel pode ser atribuído ao morfema. Portanto, temos duas unidades
distintas como possíveis centros de interesse para os estudos da morfologia.
Essa diferença no que diz respeito à unidade em que está centrado o estudo
morfológico, se no morfema ou na palavra, redunda em maneiras diferentes de
focalizar a morfologia. Segundo a autora, a noção de morfema está relacionada
com o estudo das técnicas de segmentação de palavras em unidades constitu-
tivas mínimas, ao passo que os estudos que privilegiam a noção da palavra pre-
ocupam-se com o modo pelo qual a estrutura das palavras reflete suas relações
com outras palavras em construções maiores, como a sentença, e com o voca-
bulário total da língua.
Para Cabral (1973, p. 129), morfologia é a parte da gramática que descreve
as unidades mínimas de significado, sua distribuição, variantes, classificação,
conforme as estruturas onde ocorre, a ordem que ocupam, os processos na for-
mação de palavras e suas classes.

24 • capítulo 1
A morfologia “ocupa-se das condições de estruturação da parte significativa
dos signos e bem assim das regras que determinam as possíveis variações dos
significantes”. O que se enfatiza aqui é o caráter fônico da morfologia. Des-
ta combinação fônica é que resultam os padrões morfológicos: os fonemas se
combinam em sílabas para formar os morfemas, que são unidades de primeiro
nível gramatical (BORBA, 2005, p. 143).
Os estudos sobre morfemas serão aprofundados no capítulo 2.
Segundo Laroca (2005, p. 15), os linguistas dividem a morfologia em dois
ramos: a morfologia flexional e a lexical.
A morfologia flexional (ou gramatical) estuda as relações entre as diferentes
formas de uma mesma palavra, isto é, o seu paradigma flexional, sendo a flexão
uma variação de caráter morfossintático, uma exigência da concordância ver-
bal ou nominal.
Vejamos os exemplos apresentados pela autora:

Antigamente fazíamos longas viagens.

Há uma relação de dependência entre fazíamos e nós (concordância na pri-


meira pessoa do plural). Observamos também a concordância entre o advérbio
“antigamente” e o emprego do pretérito imperfeito do indicativo em “fazíamos”.
A morfologia lexical trata da estrutura das palavras e dos seus processos de
formação; das relações entre paradigmas diferentes.

Vamos observar os exemplos citados pela autora:

Jogar/jogador, belo/beleza

Jogador se relaciona derivacionalmente com jogar, por meio do sufixo deri-


vacional –dor. O mesmo podemos dizer de beleza, que deriva de belo por meio
do sufixo derivacional –eza. As formas jogar e jogador, belo e beleza são pala-
vras distintas, pertencentes a paradigmas distintos.

1.6  Morfologia, palavra, vocábulo e a dupla articulação da linguagem

Partindo das várias definições acerca de morfologia, observamos que há duas


unidades distintas que compõem o seu centro de interesse de estudos: o mor-
fema ou a palavra. A noção de morfema relaciona-se com o estudo das técnicas

capítulo 1 • 25
de segmentação de palavras em unidades constitutivas mínimas, enquanto os
estudos que privilegiam a noção da palavra preocupam-se com o modo pelo qual
a estrutura das palavras reflete suas relações com outras palavras em construções
mais desenvolvidas, como a sentença, e com o vocabulário total da língua.
Deste modo, vamos aprofundar os conhecimentos sobre essas duas unidades,
estabelecendo um paralelo entre a Morfologia e a dupla articulação da linguagem.

1.6.1  Palavra e vocábulo

Do ponto de vista psicológico, em todo falante existe uma consciência intuitiva


da palavra, mesmo que sua língua não tenha escrita.

Não pode haver prova mais convincente do que a seguinte: o índio, ingênuo, completa-
mente despercebido do conceito da palavra escrita, não tem, apesar disso, dificuldade
em ditar um texto a um investigador linguístico, palavra por palavra.
SAPIR, 1971, p. 44

Segundo Laroca (2005, p. 20), não há uma definição generalizante e univer-


sal para a palavra, uma vez que os linguistas se valem de critérios fonológicos,
morfológicos, sintáticos e semânticos para defini-la ou delimitá-la.
No âmbito da modalidade escrita “serão consideradas palavras as sequências
gráficas que representam signos da língua em questão e que ocorram precedidas
e seguidas de espaço ou pontuação” (BASILIO, 1974, p. 79). Portanto, do ponto de
vista da língua escrita, temos quatro palavras em: O rapaz lhe telefonou?
De acordo com Câmara (1964, p. 351), no nível fonológico, o chamado vo-
cábulo fonológico corresponde a uma divisão fonológica intermediária entre
a sílaba e o grupo de força, isto é, na sequência de vocábulos enunciados sem
pausa, cada sílaba apresenta um grau de tonicidade.
De acordo com Ribeiro (2003), as palavras da língua portuguesa podem ser
subdivididas em vocábulos formais variáveis e invariáveis. O vocábulo formal
ocorre quando temos um segmento fônico associado a uma significação lexical
ou gramatical.
Os vocábulos formais variáveis podem ser exemplificados pelas seguintes
classes de palavras:

26 • capítulo 1
1) Substantivos Menino, meninas

2) Verbo Canto, cantas

3) Artigo O, as, os, as, um, uma...

4) Adjetivo Fácil, difícil

5) Pronome Meu, sua....

6) Numeral Um, primeiro, dobro...

Os vocábulos formais invariáveis podem ser exemplificados pelas seguintes


classes de palavras:

1) Advérbio Calmamente, não, talvez....

2) Preposição A, até, desde, para....

3) Conjunção E, nem, mas também...

4) Interjeição Oh! Ah! Vixi!

Nos capítulos 3 e 4, vamos nos ater a esses aspectos morfológicos da língua


analisando as palavras de acordo com sua estrutura, formação e classe.

1.6.2  A dupla articulação da linguagem

Característica da linguagem humana, a articulação diferencia-se das outras


produções vocais não linguísticas e de outros sistemas de comunicação. O mé-
todo da articulação é o mais utilizado para compreendermos como a estrutura
de uma língua é constituída.
Segundo Martinet (1967, p. 17 apud MATTOSO CÂMARA 1992, p. 23), a du-
pla articulação da linguagem é a circunstância que a enunciação linguística se
compõe de uma sequência vocal, suscetível de análise, até seus elementos últi-
mos indivisíveis, e uma correspondência, também suscetível de análise, entre
os grupos vocais e certas significações que a língua comunica. Como a comuni-
cação entre os homens é função fundamental, tem-se nessa correspondência a

capítulo 1 • 27
“primeira articulação”. A “segunda articulação” é a das sequências vocais consi-
deradas em si mesmas.

1.6.2.1  Primeira articulação da linguagem: ou morfologia


Nesta articulação, o segmento fônico se associa a uma significação léxica ou
gramatical, sendo o vocábulo formal a contraparte do vocábulo fonológico.

Ao contrário do vocábulo fonológico que rege a nossa escrita, procurando representar


aproximadamente os fonemas pelas letras e dividindo as suas sequências de acordo
com as sílabas, a apresentação do vocábulo na escrita se faz pelo critério formal.
MATTOSO CÂMARA, 1992, p.69.

Considerando que morfologia é o estudo da forma, as palavras, sob essa


perspectiva, podem ser agrupadas e analisadas em “formas livres e formas pre-
sas” (Bloomfield 1993) e “formas dependentes” (Mattoso 2006, p. 70):
a) Formas livres são aquelas que podem constituir, isoladas, um enunciado
suficiente para a comunicação. Ex. lei.
b) Formas presas são aquelas que não são suficientes para, sozinhas, cons-
tituírem um enunciado. Ex:. pro (de proscrever), trans ( de transcrever).
Constituem exemplos de formas presas a desinência de plural, de femi-
nino, a modo-temporal, os prefixos, os sufixos, as vogais temáticas.
c) Formas dependentes são consideradas os artigos, preposições, algumas
conjunções e os pronomes oblíquos átonos. Ex: o rapaz, diga-me, preciso
de ajuda. Essas formas, de acordo com o autor, não são livres porque não
constituem, isoladas, um enunciado e não são presas porque são separá-
veis como vocábulos formais.

1.6.2.2  Segunda articulação da linguagem: ou fonologia


Para Mattoso Câmara (1992, p.33), a divisão mínima na segunda articulação
da língua é a dos sons vocais elementares, que podem ser vogais ou consoantes,
A divisão, segundo o autor, resulta de um processo psíquico da parte de quem
fala e quem ouve. O estudo dessa primeira divisão chamou-se fonética. Criou-se
mais tarde o conceito de fonema ao lado do som vocal elementar.

28 • capítulo 1
Esse conceito, proposto por Baudouin, parte do princípio doutrinário de
que, no som vocal elementar, o que realmente interessa na comunicação lin-
guística é um pequeno número de propriedades articulatórias e acústicas ou
traços, e não todo o conjunto da emissão fonética. Esses traços distintivos são
os que servem para distinguir, numa determinada língua, os sons vocais ele-
mentares dos outros.
Com isso, conforme exemplifica Mattoso Câmara (1992, p. 33), cada fonema ou
conjunto de traços distintivos opõe entre si as formas da língua, que o possuem, e
as outras formas, que não o possuem ou possuem em seu lugar outro fonema.
Vejamos os exemplos:
Ala, vala, vela, vê-la, vila;
Saco, soco, suco;
Pelas, belas, melas, telas, delas, nelas, zelas;
Amo, ano, ancho ..e assim por diante.

ATIVIDADE
1. Discuta a definição de morfologia.

2. Estabeleça a diferença entre morfologia derivacional e flexional.

3. Texto

Oficina
Aprendiz de poeta,
Vou tecendo meu verso
Com os fios da esperança
E as vozes da memória.
Tecelã do irreal,
Projeta a realidade
Nas tramas da palavra.
Na aspereza das fibras,
O ressonar do rio
E a ciranda dos heróis.
Na superfície intacta,

capítulo 1 • 29
O voo livre do pássaro
Descreve o infinito.
LAROCA, Maria Nazaré de. Sem cerimônia. Juiz de fora, Edição do autor, 1985, 2 ed. 2000

Identifique nos exemplos retirados do poema os fenômenos da flexão e derivação.


a) esperança (esperar)
b) vozes (voz)
c) tecelã (tecelão)
d) irreal (real)
e) realidade (real)
f) aspereza (áspero)

REFLEXÃO
Neste capítulo, vimos as concepções de língua e linguagem enquanto sistema, o funcionamen-
to da estrutura da língua portuguesa, sincronia e diacronia e a dupla articulação da linguagem.
Retomando o que foi abordado, cabe refletirmos sobre as diversas partes que constituem o
léxico de nossa língua, preferencialmente aquelas que determinam a formação e construção
dos termos que a caracterizam e a identificam. Salientamos também que o estudo da forma é
uma das possibilidades de análise, que traz à tona o entendimento de que as palavras se orga-
nizam não apenas numa frase, mas também internamente.

LEITURA
Para aprofundar seus conhecimentos acerca dos conteúdos abordados no capítulo, reco-
mendo a leitura dos livros de LYONS, John. Linguagem e Linguística: uma introdução. Trad.
Marilda Winkler Averbug, Clarisse Sieckenius de Souza. Rio de Janeiro: Padrão, 1995 e de
MARTINET, A. Elementos de linguística geral. Trad. Jorge Morais-Barbosa. 8. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1991.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BORBA, F.S. Introdução aos estudos linguísticos. Campinas, SP: Pontes, 14 ed. 2005.

30 • capítulo 1
CAMARA, M. J. JR. Estrutura da língua portuguesa. Petrópolis: Vozes, 21 ed. 1992

LAROCA, Maria N.C. Manual de morfologia do português. Campinas, SP: Pontes, 4 ed.
2005.

ROSA, M.C. Introdução à morfologia. São Paulo: Contexto, 4 ed. 2005.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. São Paulo: Cultrix, 1969.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo, abordaremos os conceitos de morfema da língua portuguesa, as unida-
des que constituem a estrutura das palavras da língua portuguesa, os tipos de morfemas e
os tipos de morfes.

capítulo 1 • 31
2
Conceitos de
Morfologia e seus
Aspectos
Componentes: os
Morfemas
2  Conceitos de Morfologia e seus Aspectos
Componentes: os Morfemas

É sabido que as palavras representam ferramentas importantes para o conhe-


cimento humano e, portanto, para que possamos ampliá-lo, há necessidade de
aprofundar os estudos acerca da etimologia para aprender mais a história da
língua e, por conseguinte, do próprio homem.
Faz-se necessário estabelecer uma relação entre os estudos morfológicos e a lin-
guagem, a fim de que o estudo morfológico aconteça como parte integrante de
um sistema maior, a gramática, a qual se realiza por meio da linguagem. Por-
tanto, é de fundamental importância conhecer todos os elementos mórficos do
vocábulo; um assunto bastante útil, pois há necessidade de se compreender o
significado das palavras pelo reconhecimento do semantema, qualquer que seja
a sua origem (latim, grego, etc.). Por exemplo, o radical grego geo significa Terra,
terra, tanto em geografia (descrição da Terra) como em apogeu (longe da Terra);
o radical latino pes, pedis = pé, como em pedicuro (aquele que cuida dos pés);
bípede (de dois pés); velocípede (que tem os pés velozes).

OBJETIVOS
Neste capítulo, você será capaz de:
• Reconhecer os elementos estruturais de uma palavra;
• Aprofundar seus conhecimentos sobre morfemas, conhecendo os seus tipos e identifi-
cando-os como unidades que constituem a estrutura da língua portuguesa.

REFLEXÃO
Muitas vezes, em nossa vida acadêmica, deparamo-nos com dúvidas sobre os elementos que
compõem as palavras da nossa língua portuguesa. Você se lembra, por exemplo, de quando
precisou formar o plural de algumas palavras e observou, por meio dessas reflexões, que nem
sempre o –s é que indicava o plural? Observou também que as diferentes pessoas do discurso
apresentam flexões verbais diferentes? Pois bem, vamos aprofundar nossos conhecimentos
sobre esse conteúdo e esclarecer essas dúvidas.

34 • capítulo 2
2.1  Conceito de morfema na língua portuguesa

Para Bloomfield, o morfema é “uma forma (significativa) recorrente que não


pode, por sua vez, ser analisada novamente em formas (significativas) recor-
rentes menores” ( BLOOMFIELD, 1926, P.27), as quais mantêm o mesmo traço
semântico em todas as estruturas nas quais ocorre.
Observemos os exemplos propostos por Laroca (2005, p. 26):

Pedras Pedreiro

Livros Livreiro

Jardins Jardineiro

Barba Barbeiro

Podemos observar formas mínimas que se repetem com o mesmo significado:


•  s: indicando o plural de nomes;
•  eiro: indicando agente, profissão;
•  pedr(a), livr(o), jardim, barb(a) com sentidos lexicais próprios encontra-
dos no dicionário como, por exemplo, pedra: matéria mineral dura e só-
lida, da natureza das rochas.

De acordo com a concepção de Bloomfield, essas formas são morfemas,


pois têm um traço semântico recorrente e são mínimas, não podendo ser divi-
didas em unidades menores.
Outra definição de morfema é encontrada em Lyons (1970, p.140) “os mor-
femas são unidades mínimas de analise gramatical”. O autor acrescenta que
“não há nada na definição de morfema que implique que ele deva ser sempre
um elemento identificável da palavra da qual é um constituinte”.

2.2  Tipos de morfemas e tipos de morfes

Segundo Laroca (2005, p. 31), as duas grandes classes de morfemas, tradicio-


nalmente reconhecidas pelos linguistas são as raizes e os afixos que se repre-
sentam por morfes que tem uma distribuição própria.

capítulo 2 • 35
Os morfes raízes constituem o núcleo mínimo de uma construção morfoló-
gica e podem ser livres ou presos. Num item lexical, podemos depreender vários
núcleos ou elementos básicos centrais. Vejamos o exemplo proposto pela autora:
Racionalização
Racion– al– iz– a– ção
O núcleo mínimo racion- é o morfe raiz, preso, que representa o morfema
raiz [razão].
Em infelizmente e cruzeiro, depreendemos dois morfes raízes, feliz- e cruz-,
que representam os morfemas [feliz] e [cruz] respectivamente.
Os morfemas afixos são representados por morfes presos que podem ocorrer
precedendo ou seguindo o morfe raiz. Esses morfemas afixos são denominados
prefixos, quando vêm antes da raiz, ou sufixos, quando vêm depois da raiz.
Observemos o exemplo abaixo:
No item lexical descongelamento, podemos identificar dois morfes prefixos
des– e con e o morfe sufixo –mento, representante do morfema sufixo deriva-
cional [mento].
Os prefixos, segundo Laroca (2005, p. 31), têm a função de formar novas pa-
lavras, operando no processo lexical da derivação. Em descongelamento, perce-
bemos uma estrutura hierárquica de constituintes imediatos do seguinte modo:
Gelar – congelar – descongelar– descongelamento
O verbo congelar se formou da adição do prefixo com– a gelar; por sua vez, des-
congelar foi formado do prefixo des – + congelar e, finalmente, descongelamento
formou-se pela adição do sufixo derivacional -mento ao verbo descongelar.

2.3  Morfema e alomorfe

Como visto no item anterior, o morfema é uma classe de morfes. O morfe é um


segmento de enunciado, uma sequência fônica a que é possível atribuir significa-
do e que será posteriormente classificado num morfema. O morfema é, por con-
seguinte, uma abstração em relação ao morfe, do mesmo modo que o fonema o
é em relação ao fone: um morfema é uma classe de morfes, isto é, cada morfe, ou
alternante morfêmica, é um elemento de um conjunto formador de uma unida-
de estrutural, que é o morfema.
O conjunto de morfes que representam o mesmo morfema é composto
por seus alomorfes, portanto alomorfes são as diferentes representações físi-

36 • capítulo 2
cas de um mesmo morfema, constatando-se variantes de significante diante
do mesmo significado.

Exemplos de alomorfia em português


Ao observarmos substantivos no singular e no plural, vemos que a ocorrên-
cia do “s” é regular para marcar o plural das palavras, porém observamos a au-
sência do –s em alguns casos como: o pires / os pires ou o lápis / os lápis, opon-
do suas ocorrências no masculino e no feminino.
Portanto, as funções dos morfemas são basicamente enfeixar a significação
básica (semantemas), derivar novas palavras (afixos), flexionar palavras (desinên-
cias) e distribuir as palavras em categorias (vogais temáticas).

2.4  Morfema e morfema zero

O morfema zero consiste na ausência de uma marca de oposição em relação


a outro termo marcado. Segundo Bechara (2009), só haverá morfema zero se a
noção por ele expressa for inerente à classe gramatical em que ele ocorra.
É um fenômeno de caráter flexional observado, por exemplo, em substantivos
e verbos. Vejamos as condições em que esse fenômeno ocorre:
5.  Quando se constata que o morfema corresponde a um espaço vazio.
6.  O espaço vazio deve opor-se a um ou mais segmentos (observação atra-
vés de pares comparativos). Ex.: amava / amávamos. O vazio final em
“amava” contrapõe-se ao –mos em amávamos.
7.  A noção expressa pelo morfema zero deve ser inerente à classe gramati-
cal do vocábulo examinado. Ex.: se observarmos quaisquer flexões ver-
bais, obrigatoriamente ocorrerão nelas referências de número e pessoa
(podendo ser o morfema zero a referência encontrada).

Observemos a ocorrência de morfema zero na flexão nominal e verbal:

Gênero a Feminino Menina

Flexão
nominal
Número s Plural Meninas

capítulo 2 • 37
d) Em relação à flexão de gênero, existe uma forma marcada –a (feminina)
e em oposição, uma forma não marcada Ø (masculino). Em relação à fle-
xão de número, existe uma forma marcada –s (plural) e uma não marca-
da Ø (singular).
e) No par alto/altos, a noção de número plural, inerente à classe dos nomes,
acha-se marcada pelo pluralizador –s, enquanto a noção de singular está
marcada pela ausência de uma marca. Bechara (2009) considera esse
como exemplo de um verdadeiro morfema zero Ø.
f) Palavras paroxítonas terminadas em –s (simples, lápis, ourives) perma-
necem invariáveis no singular e no plural e a identificação de número só
acontece mediante a concordância. Ex.: lápis preto / lápis pretos.

Flexão verbal
A ocorrência do morfema zero na flexão verbal se dá pela falta de marca em rela-
ção às outras do mesmo paradigma. Em: escrevo, escreves, escreve, escrevemos,
escreveis, escrevem, a 3ª forma verbal é caracterizada pela falta de desinência em
relação às outras pessoas verbais. Temos, portanto, um morfema zero.

2.5  Estrutura das palavras

Uma palavra pode apresentar estes elementos estruturais: radical, vogal te-
mática, tema, afixos, desinência e interfixos. Nem sempre, porém, as palavras
apresentam todos esses elementos.

Adotaremos como texto para análise – exemplificação do assunto – o poema De


gramática e de linguagem, de Mário Quintana.

De gramática e de linguagem

E havia uma gramática que dizia assim:


“Substantivo (concreto) é tudo quanto indica
Pessoa, animal ou cousa: João, sabiá, caneta”.
Eu gosto é das cousas. As cousas, sim!...
5 As pessoas atrapalham. Estão em toda parte.
Multiplicam-se em excesso.
As cousas são quietas. Bastam-se. Não se metem com ninguém.

38 • capítulo 2
Uma pedra. Um armário. Um ovo. (Ovo, nem sempre
ovo pode estar choco: é inquietante...)

Laurent Renault / Dreamstime.com

10 As cousas vivem metidas com as suas cousas.


E não exigem nada.
Apenas que não as tirem do lugar onde estão.
E João pode neste mesmo instante vir bater à nossa porta.
Para quê? não importa: João vem!
15 E há de estar triste ou alegre, reticente ou falastrão.
Amigo ou adverso... João só será definitivo
Quando esticar a canela. Morre, João...
Mas o bom, mesmo, são os adjetivos,
Os puros adjetivos isentos de qualquer objeto.
20 Verde. Macio. Áspero Rente. Escuro. Luminoso.
Sonoro. Lento. Eu sonho
Com uma linguagem composta unicamente de adjetivos,
Como decerto é a linguagem das plantas e dos animais.
Ainda mais:
25 Eu sonho com um poema
Cujas palavras sumarentas escorram
Como a polpa de um fruto maduro em tua boca,
Um poema que te mate de amor
Antes mesmo que tu lhe saibas o misterioso sentido:
30 Basta provares o seu gosto...

Mário Quintana, In Nariz de vidro, p. 27.

capítulo 2 • 39
2.6  Semantema ou radical

É o elemento portador de significado, comum a um grupo de palavras da mes-


ma família. Assim, na família de palavras ovo (v. 8), ovinho, oval, óvulo, ovular,
desovar, existe um elemento comum: ov– que é o semantema. Os vocábulos que
terminam por vogal tônica, como sabiá (v. 3) ou por consoante, como animal (v.
3), lugar (v. 12), amor (v. 28) são atemáticos, isto é, não trazem vogal temática.
Tais formas traduzem apenas o radical e, por conseguinte, são indivisíveis; pos-
suem morfema (desinência) zero de gênero e de número.
Quando formamos uma família de palavras, dizemos que o semantema é
um morfema lexical de significação externa pertencente a uma série aberta.

ATENÇÃO
Subtraído o semantema, todos os elementos estruturais são morfemas.

ATIVIDADE
Leia este artigo que mostra a trajetória de uma família de palavras que têm origem no mero
ato de esticar:
Com a corda bem esticada
Mário Eduardo Viaro
Algumas raízes explicam fenômenos não só do português, mas de outras línguas.
Em latim, o verbo tendere tinha diversos sentidos, mas ligava-se, sobretudo, à ideia
de “esforçar-se”, “esticar”. Era usado, por exemplo, para descrever o ato de montar
uma barraca, em que era preciso puxar com força para esticá-la. A vara usada se
chamava tendicula, em que se vê o radical tend-. O mesmo nome era dado à vara
que servia para “estender” a roupa no varal (que, aliás, pode se chamar estendal ou
no francês antigo estendard, que gerou “estandarte” e a inglesa standard).
“Estender” vem do latim extendere (esticar para fora). O particípio de tendere era
tensus ou tentus. Daí, a pessoa “tensa” é, metaforicamente, como uma corda esti-
cada com força. De tensus nasce tensio, que é a “tensão”, da mesma forma que de
extensus, particípio de extendere, obtemos extensio, daí “extensão”.

40 • capítulo 2
Merzavka / Dreamstime.com

Ora, “estender” vem do latim vulgar (que sofreu mais mudanças, por ser língua
viva na época), já “extensão” é aportuguesamento do latim clássico (baseado em
fontes escritas) e, assim, explica-se a diferença de grafia entre as duas palavras.
Do particípio presente tendens (que estica até algum ponto) nasceu o abstrato
tendentia (“ação de orientar-se para”), donde “tendência”. Também da mesma raiz
vem “tenda”, via latim vulgar, e o termo médico “tendão”, via latim científico, ambos
tendo por base a ideia de “estender”.
Outro derivado proporciona discussões sobre ortografia: “entender”, com e,
vem do latim vulgar intendere (estender até certo ponto), ou seja, “atingir (metafo-
ricamente, por meio do intelecto)”. Diferentemente, palavras do latim clássico não
transformam o i em e, como em “intenção”, que vem de intentio, derivado de inten-
tus, particípio de intendere. Um particípio alternativo é intensus (esticado) e, por
consequência, “intenso”. Nessa palavra, capta-se metonimicamente a intensidade
do ato de estender - suponhamos - a corda do arco antes de lançar-se a flecha.
Daí estar dicionarizada “intensão” como “força, veemência, energia”, de intensio, do
particípio intensus.
Da mesma base, veio o particípio presente intendens (o que estende) ou, no
sentido metafórico medieval, “autoridade que afirma com força”, donde o composto
tardio superintendens (superintendente).

Disponível em: < http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=12082>. Fragmento.

2.7  Vogal temática

É a vogal que vem logo após o semantema e, no caso dos verbos, indica as conju-
gações. São três as vogais temáticas: –a – esticar (v. 17), –e – bater (v. 13), –i – vir
(v. 13). Há, ainda, as vogais temáticas nominais que produzem os temas nomi-
nais, todos com –a, –e, –o átonos finais. Ex.: caneta (v. 3), verde (v. 20) e objeto

capítulo 2 • 41
(v. 19) apresentam vogais temáticas nominais, prontas para receber o morfema
de número: canetas, verdes, objetos.
A vogal temática, portanto, amplia o semantema em tema, ficando este
pronto para receber o morfema ou o sufixo.

ATENÇÃO
Os termos importa (v. 14), adverso (v. 16) e isentos (v. 19) não contêm prefixos, uma vez que
im– ad– e i– fazem parte do semantema.

2.8  Tema

É o radical acrescido de vogal temática.


Ex.: verbal: atrapalham (v. 5) – atrapalha = tema; vivem (v. 10) – vive = tema;
vir (v. 13) – vi = tema;
Nominal: pedra (v. 8) = pedr + a; triste (v. 15) = trist + e; sentido (v. 29) = sentid + o.

2.9  Afixos

São elementos que se juntam ao semantema, antes (prefixos) ou depois (su-


fixos) dele.
Prefixos: inquietante (v. 9), composta (v. 22)
Sufixos: inquietante (v. 9), luminoso (v. 20), unicamente (v. 22)

Leia este texto que fala sobre o sufixo –eiro.

De onde vem o sinueiro?


Mário Eduardo Viaro

Os neogramáticos, no fim do século 19, entusiasmados por terem


encontrado um caminho “científico” para a determinação dos
étimos, postulavam que as leis fonéticas não tinham exceções.
Os menos ousados diziam que, quando as havia, eram facilmente
explicáveis pela analogia. Assim, havia um elemento inexorável,
espécie de lei física, a qual, conciliada com a arbitrariedade e a

42 • capítulo 2
imprevisibilidade dos pensamentos, permitia prever, dado um
ponto de partida de uma palavra, qual era seu ponto de chegada.
Sabe-se hoje que foi desse ambiente neogramático que nasceram
as ideias de Ferdinand Mongin de Saussure (1857-1913), que pou-
co teve de iconoclasta e fundador de novas ideias.

Origens nos sinos

Sinus gerou, pelo latim eclesiástico, a palavra sino em português.


A mesma palavra, no latim vulgar, no caso lexicogênico chamado
acusativo sinum (originalmente usado para marcar objeto direto)
se transformou em seio, por meio da abertura da vogal -i- breve do
latim (i>e), nasalação da mesma vogal e queda do -n- intervocáli-
co (sinum > s?o) e posterior desnasalação (s?o > seo) com epêntese
do -i- para quebrar o ditongo (seo > seio). Além disso, a apócope
do -m do acusativo (-m > ø) e a abertura do -u- átono final comple-
tariam a explicação (u>o). A palavra seio mantém o significado
original: sinus significava em latim “prega, curva, seio, bolso”.
O significado do objeto sino é uma metáfora do latim eclesiásti-
co. Para entender melhor meu raciocínio basta ler, por exemplo,
o livro Do latim ao português (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro),
de Edwin B. Williams (1891-1975) e conhecer as transformações
mais comuns que ocorrem com o passar do tempo, as quais com-
põem vastas listas: sitim > sede, catenam > cad?a > cadea > ca-
deia, foedum > feo > feio, venam > v?a > vea > veia etc.

Todos esses fenômenos são comuníssimos, podendo ser conside-


rados como verdadeiras “leis fonéticas”. Muitas vezes uma eti-
mologia se dá dessa forma ingênua, motivada por algo irresistí-
vel que costumo chamar de “tentação da etimologia imediata”.
Mesmo especialistas sucumbem aos seus encantos.

Disponível em: <http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11896 >. Fragmento.

capítulo 2 • 43
2.10  Desinências

É o elemento que se apõe ao tema para indicar as flexões de gênero, número,


pessoa, modo e tempo. O morfema é classificado como série fechada. Pode ser:
Nominal – indica o gênero e o número dos nomes: substantivos, adjetivos, nu-
merais e pronomes. Ex.: -a = quieta, -s = quietas (v. 7). O nome quieto possui mor-
fema zero de gênero e de número, porque o masculino é uma forma não marcada.
Vê-se que a desinência (ou flexão) compreende as categorias de gênero e nú-
mero (para os nomes).
Verbal – indica o modo e o tempo, MM-T (morfema modo-temporal), e o
número e a pessoa MN-P (morfema número-pessoal), dos verbos. Ex.: atrapa-
lham (v. 5): -m = MN-P (3ª pessoa do plural); será (v. 16): -rá = MM-T (futuro do
presente do indicativo); saibas (v. 29): -a = MM-T (presente do subjuntivo) e -s =
MN-P (2ª pessoa do singular).

Para facilitar a compreensão dos morfemas modo-temporais, resumi-lo-e-


mos neste quadro:

Modo
Indicativo Subjuntivo
Tempo

1ª 2ª 3ª 1ª 2ª 3ª
conj. conj. conj. conj. conj. conj.

Pret. imper-
-VA -A -A -SSE -SSE -SSE
feito

Pret. mais-
-RA -RA -RA
que-perfeito

Futuro do
-RE -RE -RE
presente

Futuro do
-RIA -RIA -RIA
pretérito

44 • capítulo 2
Presente — — — -E -A -A

Futuro -R -R -R

2.11  Interfixos

São elementos que se intercalam entre o radical e o sufixo para facilitar a pro-
núncia. Podem ser vogais e consoantes:
•  Vogais: frutífero, gasômetro, parisiense, carnívoro
•  Consoantes: paulada, cafezal, cafeteira, pezinho, sonolento, padeiro

São conhecidos também pelo nome de vogais de ligação e consoantes de li-


gação, denominações muito próprias, porque, muitas vezes, há conjuntamente
vogal e consoante. Ex.: ratazana, colheitadeira, fortalecer, pardacento, planificar.
Este texto é bastante rico para análise e compreensão. Com este assunto,
não podemos deixar de analisar os vocábulos homônimos “Eu gosto” (v. 4) com
o radical gost- e -o morfema número-pessoal; e “o seu gosto” (v. 30) com radical
gost-, -o vogal temática e o tema gosto.

ATENÇÃO
O presente do indicativo e o pretérito perfeito do indicativo não possuem morfema modo-tem-
poral, pois são formas primitivas do verbo.

Observe como o compositor Gilberto Gil “brinca” com os lexemas nesta composição musical.

Metáfora

Uma lata existe para conter algo


Mas quando o poeta diz: “Lata”
Pode estar querendo dizer o incontível

Uma meta existe para ser um alvo


Mas quando o poeta diz: “Meta”
Pode estar querendo dizer o inatingível

capítulo 2 • 45
Por isso, não se meta a exigir do poeta
Que determine o conteúdo em sua lata
Na lata do poeta tudonada cabe
Pois ao poeta cabe fazer
Com que na lata venha caber
O incabível

Deixe a meta do poeta, não discuta


Deixe a sua meta fora da disputa
Meta dentro e fora, lata absoluta
Deixe-a simplesmente metáfora

LEITURA COMPLEMENTAR
Sufixo a serviço de um estilo
É possível criar textos elegantes ao variar o final das palavras, seguindo o exemplo de Drum-
mond

Elis de Almeida Cardoso


Os processos de formação de palavras objetivam fundamentalmente o enriquecimento do
léxico de determinada língua, entretanto não se pode negar que atendem também a necessi-
dades expressivas. Muitas vezes, uma nova palavra é utilizada muito mais com valor expressi-
vo do que com o objetivo apenas de suprir uma lacuna existente no léxico.
Desde o século XIX, autores passaram a explorar mais o chamado léxico virtual, formando
novas palavras por composição e derivação. É, entretanto, no Modernismo que a criação lexical
literária ganha mais força, chegando-se ao mestre Guimarães Rosa, que constrói, sem dúvida, um
léxico próprio.
Nem todos os escritores são, entretanto, criadores linguísticos. É importante mencionar
a diferença entre criação artística, criação literária e criação linguística. O texto pode ser
literário e artístico sem conter criações linguísticas.

46 • capítulo 2
Expressividade
A expressão literária constitui um nível particular da língua. Nela, a fantasia verbal para a criação
é mais livre. Embora seja possível, é mais difícil uma criação poética vir a fazer parte do léxico da
língua. Continuará sendo, na maioria das vezes, uma lexia virtual que se presta àquele momento,
àquela obra, àquele autor.
A derivação sufixal é um processo extremamente produtivo na formação de novos vo-
cábulos. Os sufixos podem ser classificados em verbais ou nominais. Há também o sufixo
adverbial –mente, que se une a uma base adjetiva no feminino, formando um advérbio que
exprime ideia de qualidade, de quantidade ou medida, de relação, de tempo, de lugar.
Dentre os sufixos verbais, -ar e -izar são, sem dúvida, os mais produtivos na formação de
unidades lexicais neológicas. Unem-se a bases substantivas ou adjetivas, formando um verbo
resultante, na maioria das vezes, de uma frase de base em que se tem verbo + objeto direto
(substantivo) ou verbo + predicativo do sujeito (adjetivo): “dar piruetas” = “piruetar”; “tornar
feminino” = “feminilizar”.
Dentre os sufixos nominais, citam-se os formadores de adjetivo, os formadores de subs-
tantivo e, ainda, os aumentativos e diminutivos.

Disponível em: < http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11783>. Fragmento.

REFLEXÃO
Neste capítulo, estudamos os principais elementos que formam o léxico da língua portugue-
sa. Aprendemos os conceitos de morfema da Língua portuguesa, as unidades que cons-
tituem a estrutura das palavras da língua portuguesa, os tipos de morfemas e os tipos de
morfes. Com base nesses estudos, você entenderá melhor o sentido das palavras, compre-
endendo não só a sua significação na leitura, mas também o seu emprego na produção de
textos bons, claros e corretos.

capítulo 2 • 47
LEITURA
Para conhecer mais detalhes sobre esses elementos que formam a língua portuguesa, faça
a leitura dos seguintes livros:

CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Gramática reflexiva: texto, semântica e interação. São


Paulo: Atual, 2005.

MESQUITA. Roberto Melo. Gramática da língua portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1998.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CEGALA, D. P. Novíssima Gramática da língua portuguesa. São Paulo: Nacional, 2005.

CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Gramática reflexiva: texto, semântica e interação. São


Paulo: Atual, 2005.

CUNHA, C. F.; CINTRA, L. F. L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de


Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

MESQUITA. Roberto Melo. Gramática da língua portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1998.

SACCONI, L. A. Nossa gramática: teoria e prática. São Paulo, Atual, 1999.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo, vamos conhecer os processos de formação de palavras e suas funções.
Estudaremos os neologismos, empréstimos linguísticos, prefixação, sufixação, sigla, onoma-
topeia, abreviação, assim como algumas questões relevantes acerca das noções de número
e gênero.

48 • capítulo 2
3
Processos Formais
de Formação do
Léxico
3  Processos Formais de Formação do Léxico
Muitas vezes, as necessidades culturais, científicas e de comunicação, de modo
geral, que surgem da vida em sociedade favorecem a renovação do léxico por
meio da criação de palavras. Há, na língua portuguesa, muitos processos pelos
quais se formam palavras. Entre os procedimentos formais, os mais comuns são
a composição e a derivação. Veremos, neste capítulo, esses e outros processos de
formação de palavras.

OBJETIVOS
Neste capítulo, você será capaz de:
•  Conhecer os processos de formação de palavras;
•  Diferenciar os processos pelos quais as palavras são formadas na língua portuguesa.

REFLEXÃO
Você se lembra de ter ouvido falar em neologismos? De ter estudado palavras primitivas e
palavras derivadas? Você se lembra, por exemplo, de que pedra é uma palavra primitiva e que,
a partir dela, podemos formar outras palavras, as quais chamamos de derivadas? Formamos,
portanto, a partir dessa palavra primitiva outras palavras como pedreiro, pedrada, pedrinha,
entre outras. A esse processo de formação chamamos derivação. Neste capítulo, vamos
estudar esses e outros processos de formação de palavras.

3.1  Processos formais de formação do léxico: formação de palavras

Antes de iniciarmos os estudos propriamente ditos a respeito dos processos


pelos quais as palavras podem ser formadas, vale a pena refletirmos um pouco
sobre alguns conceitos importantes para a compreensão desse conteúdo.
Iniciemos com o conceito de flexão versus derivação.

50 • capítulo 3
3.1.1  Flexão e derivação

A flexão consiste fundamentalmente, segundo Bechara (2009, p. 341) no morfe-


ma aditivo sufixal acrescido ao radical, enquanto a derivação consiste no acrés-
cimo ao radical de um sufixo lexical ou derivacional:

Casa + s = casas Flexão de plural

Casa + inha = casinha Derivação

A flexão dos nomes e dos verbos apresenta, segundo o autor, muito frequente-
mente uma alternância complementar interna que recai na vogal tônica básica:

Avô Avó

Novo Nova

Fiz (1ª pessoa) Fez (3ª pessoa)

No plano sintagmático, a flexão provoca o fenômeno da concordância:


móvel novo = móveis novos
em oposição à
casa nova – casinha nova

3.1.2  Conceito de raiz ou radical primário

Chama-se raiz em gramática descritiva, de acordo com Bechara (2009, p. 341),


ao radical primário ou irredutível a que se chega dentro da língua portuguesa e
comum a todas as palavras da mesma família.
Observemos o exemplo abaixo:

Em desregularizar podemos depreender diversos graus de radical.


8.  Destacando a vogal temática e a desinência de infinitivo, temos “desre-
gulariz”.

capítulo 3 • 51
Este radical pode ser reduzido, por destaques sucessivos, a:

Regulariz Sem o prefixo

Regular Sem o sufixo

Regul Cf. o latim regula

Reg Que aparece em reger, régua

Este último radical reg que constitui o elemento irredutível e comum a to-
das as palavras do grupo, chama-se primário e coincide, em relação à língua
atual, com a raiz.
regul- é um radical secundário (ou do 2º grau), como regular é um radical
terciário (ou do 3º grau) e assim por diante.

3.2  Composição

A composição consiste em formar palavras com a união de dois ou mais radi-


cais. A composição pode ser de dois tipos:

g) Composição por justaposição: não há alteração das palavras componentes.


Ex.: segunda-feira, girassol, passatempo, pé de moleque, amor-perfeito

h) Composição por aglutinação: há alteração das palavras componentes; a


palavra perde pelo menos um fonema.
Ex.: planalto (plano + alto); embora (em + boa + hora); cabisbaixo (cabeça
+ baixo); petróleo (petra + óleo)

3.3  Derivação

A derivação consiste em formar uma palavra, chamada derivada, a partir de ou-


tra, chamada primitiva.
Palavra primitiva é a que dá origem a outras palavras. Ex.: cruz, livro, pedra,
dente, ferro

52 • capítulo 3
Os processos de derivação são:

a) Derivação prefixal: ocorre quando há acréscimo de um prefixo a um ra-


dical. Ex.:
reescrever  re + escrever
prefixo radical

desfazer  des + fazer


prefixo radical

b) Derivação sufixal: ocorre quando há acréscimo de um sufixo a um radi-


cal. Ex.:
modernismo  modern- + -ismo
radical sufixo

goiabada  goiab- + -ada


radical sufixo

c) Derivação prefixal e sufixal: ocorre quando há acréscimo não simultâneo


de um prefixo e de um sufixo a um radical. Ex.:
infelizmente  in- + feliz + -mente
prefixo radical sufixo

subnutrida  sub- + nutr- + -ida


prefixo radical sufixo

d) Derivação parassintética: ocorre quando há acréscimo simultâneo, isto é, ao


mesmo tempo de um prefixo e de um sufixo a um radical. Ex.:
empobrecer  em- + pobr- + -ecer
prefixo radical sufixo

acampar  a- + camp- + -ar


prefixo radical sufixo

capítulo 3 • 53
ATENÇÃO
Na derivação parassintética, se você eliminar o prefixo ou o sufixo, formará uma palavra
inexistente na língua.

e) Derivação regressiva; ocorre quando há eliminação de morfemas (desi-


nências, sufixos, etc.) no término da palavra. Ex.:
a luta < lutar
o combate < combater
o canto < cantar

f) Derivação imprópria: ocorre quando há mudança de sentido e da classe


gramatical da palavra. Ex.:
o azul (substantivo) < azul (adjetivo)
o olhar (substantivo) < olhar (verbo)
uma xérox (substantivo comum) < Xerox (substantivo próprio)

Quem veio antes?

Classificação reducionista de palavras em primitivas e deri-


vadas aponta modelo ultrapassado de ensino do idioma

Aldo Bizzocchi

Outro dia recebi um e-mail de uma leitora levantando uma


questão bastante interessante. Ela, que é professora, estava en-
sinando a seus alunos as noções gramaticais de palavra primi-
tiva e palavra derivada quando lhe surgiram as dúvidas: “pé de
moleque” é palavra primitiva ou derivada? E “amor” é deriva-
ção regressiva de “amar” ou o inverso?

O impasse da minha leitora se justifica, pois tentar enquadrar to-


das as palavras da língua nessas duas categorias é como tentar
calçar nas irmãs malvadas o sapatinho de cristal de Cinderela.

54 • capítulo 3
Acontece que a classificação das palavras em primitivas e deriva-
das realizada pela gramática tradicional representa um reducio-
nismo grosseiro da real dinâmica do léxico da língua, bem mais
complexa do que isso. Aliás, é absurdo que, com todos os avanços
da linguística nos últimos 200 anos, ainda se ensine às crianças o
modelo gramatical de Dionísio de Trácia, do século 3 a.C.!

Comecemos com os dois processos de criação de vocábulos por com-


binação de elementos constituintes: a composição e a derivação.

Composição

Composição é o processo em que dois ou mais radicais se unem


para formar uma palavra. Essa união pode se dar entre pala-
vras já existentes na língua, com ou sem modificação fonológica
(“sócio” + “proprietário” = “sócio-proprietário”, “perna” + “lon-
ga” = “pernilongo”) como também pode envolver semipalavras
(ou elementos de composição, como também são chamadas),
elementos que não existem como palavras autônomas, mas só
ocorrem em compostos, como é o caso dos radicais gregos crono-,
foto-, -logia, -metria etc.

(...)

Derivação

Em português, a derivação, ou combinação de um radical a um


ou mais afixos, se dá por prefixação (super- + “chique” = “su-
perchique”) , sufixação (“chique” + -érrimo = “chiquérrimo”) ou
parassíntese (prefixação e sufixação simultâneas: a- + “pregão”
+ -ar = “apregoar”). Em outras línguas, há ainda a infixação, a
interfixação, a circunfixação e a transfixação.

Disponível em: <http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11842>. Fragmento.

capítulo 3 • 55
3.4  Hibridismo

Hibridismo é a formação de novas palavras a partir da união de radicais de idio-


mas diferentes. Ex.:
automóvel (grego e latim)
sociologia (latim e grego)
sambódromo (africano e grego)
burocracia (francês e grego)
televisão (grego e latim)
abreugrafia ( português e grego)

3.5  Abreviação

Abreviação é a redução de palavras até o limite permitido pela compreensão. Ex.:


fone (telefone)
pneu (pneumático)
foto (fotografia)
quilo (quilograma)
cine (cinematógrafo)
extra (extraordinário)

3.6  Sigla

A sigla é formada pela combinação das letras iniciais de uma sequência de pala-
vras que constitui um nome. Existem dois tipos de siglas: as puras (formadas a
partir de uma letra para cada palavra) e as impuras (formadas por mais de uma
letra para cada palavra) Ex.:
Siglas puras: IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística)
IPTU (Imposto Predial, Territorial e Urbano)
MEC (Ministério da Educação e Cultura)

Siglas impuras: FUNAI ou Funai (Fundação Nacional do Índio)


MOBRAL ou Mobral (Movimento Brasileiro de Alfabetização)

56 • capítulo 3
3.7  Onomatopeia

Onomatopeia é a palavra que procura reproduzir aproximadamente certos sons


ou ruídos. Por esse processo, criam-se verbos, substantivos e interjeições. Ex.:
cacarejar
tilintar
coaxar
miar
reco-reco
tique-taque
bem-te-vi
tlintlim
pimba!
catapimba!

3.8  Palavra-valise

Palavra-valise é um termo na linguística que se refere a uma palavra ou morfe-


ma que faz a fusão de duas palavras, geralmente uma perdendo a parte final e
a outra perdendo a parte inicial. Frequentemente, essas palavras são neologis-
mos. Ex.:
brasiguaios (Brasil + uruguaios)
portunhol (português + espanhol)
motel (motor + hotel)

ATIVIDADE
Leia o poema Neologismo, de Manuel Bandeira, e observe que há preocupação
não só com a fonologia, mas também com a morfossintaxe e a semântica.

Beijo pouco, falo menos ainda.


Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

capítulo 3 • 57
Agora leia o artigo abaixo que fala sobre os processos de formação de palavras e emprés-
timos:

A ideologia das raízes

O processo de formação das palavras e empréstimos de outros idiomas


podem revelar ideologias da língua

Aldo Bizzocchi

A Europa ocidental engloba duas famílias linguísticas principais: a ro-


mânica, ou neolatina, cujas línguas provêm do latim vulgar, e a germâ-
nica, descendente do germânico comum. O latim e o germânico deri-
vam do indo-europeu, língua não documentada, falada na Pré-História
e reconstruída pelo método histórico-comparativo.

Ideologia

Quando pegamos um manual de instruções redi-


gido em várias línguas, notamos que, onde o fran-
cês e o inglês usam a palavra latina instruction
(do latim instructione), em que só a desinência
foi adaptada, o português substitui o sufixo -tio-
ne pelo vernáculo -ção (“instrução”) e suprime o
c do radical, enquanto o italiano elimina o n e o c
Robert Adrian Hillman / Dreamstime.com

e adapta à ortografia (istruzione), e o alemão cria


um decalque a partir do latim (Anweisung). Ou
seja, diante da necessidade de importar palavra
latina, cada língua a incorpora segundo um pro-
cesso diferente. (...)

Os cultismos são criados por:


Empréstimo de palavra diretamente do grego ou latim (cultismo direto)
- “Teatro”, “temperatura”, “status”.
Empréstimo de cultismo a partir de outra língua vulgar (cultismo indireto)
- “Helicóptero” e “iniciativa”, do francês; “fractal” e “genoma”, do inglês.

58 • capítulo 3
Refecção (restauração) - Trocar vulgarismo pela palavra que lhe deu ori-
gem: silentiu, flore, que evoluíram no português arcaico seenço e chor e
foram refeitas na Renascença para “silêncio” e “flor”.
Restituição - Empréstimo de vulgarismo ou semicultismo estrangeiro
com substituição de seus morfemas por correspondentes gregos ou
latinos: inglês to feed back, português “retroalimentar”; francês opéra-
tionnel, português “operacional”.
Composição com radicais cultos - “Anteroposterior”.
Derivação a partir de radical culto com afixos cultos - “Fisiologismo”,
“globalitarismo”.
(...)

Vulgarismos surgem por:


Herança - São as palavras vernáculas: “pedra”, “cavalo”, “bom”, “andar”.
Empréstimo de um vulgarismo estrangeiro - São os estrangeirismos:
“futebol”, “abacaxi”, “pizza”, “bonbonnière”.
Tradução de vulgarismo estrangeiro - Decalque de estrangeirismo: os
termos ingleses skyscraper e hot dog deram em português “arranha-
céu” e “cachorro-quente”.
Composição com radicais vulgares - “Puxa-saco”, “pernilongo”, “ca-
bisbaixo”.
Derivação a partir de radical vulgar, seja com afixos cultos ou vulgares
- “cabecear”, “mesário”, “saudosismo”.
(...)
Disponível em: < http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11700 >. Fragmento.

LEITURA COMPLEMENTAR
Palavras não têm rugas
Estudos históricos sobre a origem das palavras têm dificuldade para precisar quem deriva
de quem no reino das palavras
Mário Eduardo Viaro
Várias questões gramaticais e linguísticas são históricas. Devido a uma preocupação
com um recorte apenas sincrônico, por décadas do século passado pensava-se que se
fazia uma espécie de expurgo do elemento diacrônico. No entanto, a verdade é que certos

capítulo 3 • 59
temas são impossíveis de ser tratados sob outra ótica. A língua é histórica, além de ter
muitas outras características.
Da mesma forma que um biólogo, numa análise de viés ecológico, pode descrever os
elementos de uma biota prescindindo da teoria da evolução, como faz o linguista sincrôni-
co, o mesmo biólogo não poderá ignorá-la completamente, pois toda a classificação dos
seres dessa biota se pauta em uma taxonomia que só faz sentido historicamente.

Colar e colação
Uma pequena investigação histórica comprova facilmente que “colar” é que veio da pala-
vra “colação” e não o contrário, como quer nossa intuição.

Disponível em: < http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11741>. Fragmento.

REFLEXÃO
Neste capítulo, aprofundamos nossos conhecimentos acerca dos processos básicos pelos
quais as palavras podem ser formadas: a derivação e a composição e as suas subdivisões.
Aprendemos os conceitos de flexão e derivação. Aprendemos sobre hibridismo, onomato-
peia, siglas puras e impuras, entre outros. Aprofundamos também os conhecimentos o que
é raiz primária e secundária. Com base nesses estudos, é possível compreender melhor o
sentido das palavras e identificar as diferentes origens a partir de suas raízes e dos demais
elementos que as compõem, o que facilita muito no processo de decodificação da mensa-
gem e da produção textual.

LEITURA
Para conhecer mais detalhes sobre os processos de formação de palavras da língua portu-
guesa, faça a leitura dos seguintes livros:

LAROCA. M. N. C de. Manual de morfologia do português. Campinas. SP: Pontes,


2005.
MESQUITA, Roberto Melo. Gramática da língua portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1998.

60 • capítulo 3
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

CEGALA, D. P. Novíssima gramática da língua portuguesa. São Paulo: Nacional, 2005.

CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Gramática reflexiva: texto, semântica e intera-


ção. São Paulo: Atual, 2005.

CUNHA, C. F.; CINTRA, L. F. L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de


Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

SACCONI, L. A. Nossa gramática: teoria e prática. São Paulo, Atual, 1999.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo, vamos conhecer a classificação, estrutura estrutura e formação das palavras:
principais constituintes do vocábulo formal. Estudaremos as classes gramaticais variáveis e inva-
riáveis. Dentre as classes variáveis, estudaremos os substantivos, adjetivos, pronomes, numerais,
artigos e verbos.

capítulo 3 • 61
4
Classes de Palavras
e Categorias
Gramaticais
4  Classes de Palavras e Categorias
Gramaticais

Você estudou no capítulo 1 sobre os conceitos de Morfologia e entre as definições


aprendidas vimos que ela preocupa-se com a classificação das palavras, distribuin-
do-as em grupos ou classes, de acordo com determinado método ou sistema. Des-
te modo, as palavras da língua portuguesa são distribuídas, ordenadas, separadas
conforme critérios, semelhanças, diferenças. Neste capítulo, vamos estudar as clas-
ses de palavras nas quais estão divididas as palavras da língua portuguesa. Estuda-
remos as classes variáveis e invariáveis. Aprofundaremos nossos conhecimentos
acerca da classe dos substantivos, adjetivos, pronomes, numerais, verbos, artigos,
interjeições, preposições, conjunções e advérbios.

OBJETIVOS
Neste capítulo, você será capaz de:
•  Conhecer as classes de palavras;
•  Reconhecer as classes de palavras variáveis e as classes de palavras invariáveis.

REFLEXÃO
Você se lembra das muitas dúvidas acerca da classificação dos substantivos? Concreto ou abs-
trato? Primitivo ou derivado? E a respeito dos verbos, quantas dúvidas no momento de flexio-
ná-los nos diferentes modos e tempos. Pois bem, substantivos, verbos, pronomes, entre outros,
são algumas das classificações das palavras. Vamos aprofundar nossos conhecimentos sobre
as dez classes de palavras da língua portuguesa e lidar com todas essas dúvidas para que pos-
samos dominar mais profundamente essa classificação.

4.1  Classes de palavras e categorias gramaticais

Neste capítulo, vamos estudar as classes nas quais estão divididas as palavras da
língua portuguesa.

64 • capítulo 4
De acordo com Rosa (2005, p. 91), a tradição gramatical greco-latina reconhe-
ceu na palavra características de três tipos:
g) Semânticas: fornecem definições de como o substantivo é a palavra que
nomeia os seres ou como informações acerca de quais os elementos que
podem ser suprimidos do enunciado, mantendo-se, assim, uma estrutura
com significado.
h) Morfológicas: reconhecimento de que o nome pode flexionar-se em gêne-
ro, número e caso, mas não em tempo, modo ou voz.
i) Sintáticas: identificação de que o nome, mas não o verbo, pode funcionar
como sujeito, além de questões variadas acerca dos fenômenos de concor-
dância e regência.

Segundo a autora, em decorrência desse feixe de propriedades semânticas,


morfológicas e sintáticas, as palavras foram distribuídas em classes ou, na nomen-
clatura tradicional, em partes do discurso.
Em consequência da tradição gramatical, habituamo-nos a considerar as palavras
do português como pertencentes a dez classes de palavras: substantivo, adjetivo, arti-
go, pronome, numeral, verbo, advérbio, preposição, conjunção e interjeição.

4.2  Morfologia

A morfologia preocupa-se com a classifi-


cação das palavras. Classificar é, de acordo
com Faraco (2000, p. 199), “distribuir em
classes ou em grupos, seguindo determina-
do sistema ou método”.
De acordo com o autor, classificar as
palavras “é uma necessidade fundamental
quando se pretende descrever a estrutura
dessa língua. Para uma classificação ser vá-
lida, tem de seguir métodos apropriados”(-
FARACO, 2000, p. 199).
Como qualquer outra classificação,
por exemplo de frutas numa banca de
feira, as palavras da língua também são
distribuídas, ordenadas, separadas conforme critérios, semelhanças, diferenças.

capítulo 4 • 65
4.3  Classes de palavras

9.  Classe de palavras que se aproximam por semelhança de significado: ho-


mens, cavalo, insetos – indicam seres que existem no mundo real.
10.  Classe de palavras que se aproximam por apresentarem semelhança na va-
riação de forma: livro e belo fazem o plural com o acréscimo de um –s: li-
vros, belos.
11.  Classe de palavras que podem exercer determinadas funções na frase:
próspero e humanitário podem funcionar como predicativos do sujeito,
mas nunca como núcleos do sujeito.

A gramática normativa vale-se do cruzamento de dois critérios:


a) critério semântico, ou seja, que se baseia no significado das palavras, por
exemplo: palavras que denominam pessoas, objetos, lugares, sentimentos,
emoções, enquadram-se na categoria dos substantivos.
b) critério formal, ou seja, que se baseia nos aspectos formais das palavras,
por exemplo: palavras invariáveis, que servem para ligar ou relacionar duas
orações, enquadram-se na categoria das conjunções (FARACO, 2000, p.
199-200).

Em português, existem dez classes de palavras que agrupam, de acordo com o


pressuposto mostrado, os vocábulos de nosso idioma.
A Nomenclatura Gramatical Brasileira (NGB) divide as palavras da língua por-
tuguesa em dez segmentos chamados de classes gramaticais.
As palavras dividem-se em variáveis e invariáveis.

4.3.1  .Variáveis

As classes variáveis são formadas por palavras que sofrem algum tipo de flexão,
seja de gênero (masculino ou feminino), e de número (singular ou plural), como
o substantivo, o adjetivo, o artigo, o pronome e o numeral, e mesmo flexão de pes-
soa (1ª, 2ª ou 3ª), de tempo (presente, pretérito ou futuro) e de modo (indicativo,
subjuntivo e imperativo), como é o caso do verbo.
As classes variáveis são seis: substantivo, adjetivo, artigo, numeral, pronome
e verbo.
Substantivo – palavra que dá nome aos seres: alunos, idioma, caráter, Brasil.

66 • capítulo 4
Adjetivo – palavra que modifica os seres: quebrado, recente, maravilhoso, tris-
tonho.
Artigo – palavra que precede o substantivo, determinando-o ou indeterminan-
do-o: o, os, uma, umas.
Numeral – palavra que dá ideia de número: 2008, 3º lugar, século XXI.
Pronome – palavra que acompanha ou substitui o substantivo: ela, minha tur-
ma, aquele período, muitas pessoas.
Verbo – palavra que pode sofrer as flexões de pessoa, número, tempo e modo:
caminhar, estudar, estar, chover, gear.

CONEXÃO
Leia mais sobre as classes de palavras variáveis em: http://educacao.uol.com.br/portugues/
ult1693u3.jhtm

4.3.2  Invariáveis

As classes invariáveis são formadas por palavras que não admitem nenhuma fle-
xão. São quatro as classes invariáveis em nossa língua: preposição, advérbio, con-
junção e interjeição.

Preposição – palavra que serve para ligar dois termos de uma oração: copo de
vidro, sairei com vocês.
Advérbio – palavra que modifica um verbo, um adjetivo, outro advérbio ou
toda uma oração, sempre expressando uma circunstância: moro longe, falava
muito mal.
Conjunção – palavra que serve para relacionar duas orações ou termos seme-
lhantes de uma mesma oração: a maçã e a pera; estudo, mas não trabalho.
Interjeição – Palavra que expressa sentimento ou emoção: olá!, tomara!

CONEXÃO
Leia mais sobre as classes de palavras invariáveis em: http://educacao.uol.com.br/portugues/
ult1693u4.jhtm

capítulo 4 • 67
ATIVIDADE
Com base na leitura do texto a seguir, reflita sobre a importância de se conhecerem as ori-
gens da terminologia para evitar a “decoreba” de termos técnicos.

A identidade da gramática
Mário Eduardo Viaro

Qualquer grupo de palavras sobre as quais nos debrucemos à busca de


étimos nos fornecerá um grande patrimônio de informações. Quando se
estuda gramática, existe a chamada “análise morfológica”, na qual as pala-
vras são organizadas em certos grupos. Existem esboços dessas classes
de palavras em Platão e em Aristóteles, mas sua forma acabada aparece
na primeira gramática do Ocidente, de Dionísio Trácio (170-90 a.C.), a sua
tékhne grammatiké, ou seja “arte das letras”.

O termo “gramática” é o adjetivo grego grammatikós no feminino, derivado


de grámma (letra), substantivo do verbo grápho (escrever). A terminação
sufixal -ma de grámma informa que a palavra é neutra, o que origina nor-
malmente palavras masculinas em português (não só “telegrama”, “crono-
grama”, “eletrocardiograma”, mas também “poema”, “problema”, “drama”
etc.). A palavra “trama” é feminina porque não tem origem grega, mas
latina.

Basicamente todas as classes de palavras já aparecem na obra de Dionísio,


com poucas exceções: as interjeições só farão parte do rol com os autores
latinos e os “nomes” incluem tanto os atuais substantivos quanto os adjeti-
vos. Façamos uma investigação dos radicais dos termos hoje empregados
pela gramática tradicional.

Disponível em: < http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11700>. Fragmento.

68 • capítulo 4
LEITURA COMPLEMENTAR
Ensinar gramática?

Olhando uma gramática com algum cuidado, pode-se ver que se trata
de um volume muito heterogêneo. Ele contém: a) regras a serem segui-
das para praticar um desejável padrão lingüístico (ortografia, pronúncia,
concordância e regência são os casos mais óbvios); b) um conjunto de
análises de aspectos estruturais da língua (tipos de sons, de sílabas, de
classes de palavras; morfologia, sintaxe); c) um conjunto de indicações
de comportamentos sociais (evitar regionalismos e estrangeirismos, não
ser grosseiro), intelectuais (ser claro), quase morais (evitar cacofonias),
etiquetais (“ele e eu” ou “eu e ele”). O esboço, precário, permite ver que a
questão “estudar gramática” só é simplificada por falta de conhecimento
ou de boa fé.
Diria que o que mais interessa, do ponto de vista da sociedade, e as-
sumindo uma posição conservadora, é o domínio escrito de uma deter-
minada norma – que, talvez, devesse ser representada pelos jornais e
revistas, e não pela literatura. Ou seja, o “pedaço” da gramática que mais
interessa é o que diz respeito a como se pode e ou não se pode escrever.
Uma observação um pouco cuidadosa mostraria que a fala é suficien-
temente marcada por peculiaridades, e que, portanto, exigir que ela seja
como a escrita é um equívoco. Um bom exemplo é a diferença entre a es-
crita e a fala de colunistas de jornais que também falam em rádios e TVs.
A experiência mostra que esse domínio da escrita dita correta deriva qua-
se totalmente de práticas (leitura, escrita, observação da escrita, revisão
- própria e alheia) e quase nada de estudos “teóricos”. O melhor exemplo
é o dos autores que escreveram antes de haver gramáticas das línguas
em que escreveram. Os clássicos gregos são um exemplo óbvio, mas Ca-
mões também vale.
Dito isso, e para evitar todos os equívocos possíveis, proponho que a escola
tenha sua “hora de gramática”, assim como tem as horas de leitura (que
deveriam ser mais numerosas, aliás).
Mas o que se faria nessas “horas da gramática”? Não se trata de ensinar
português: nem a falar, nem a escrever, nem a ler. Trata-se de pensar sobre
a forma da língua, de mostrar como uma língua é “por dentro”, como é sua
estrutura, como ela funciona, como é “criativa” e viva.

capítulo 4 • 69
Diz-se que os alunos pouco gostam das aulas de gramática, que são arti-
ficiais e desligadas da realidade. Ora, as aulas de gramática não precisam
ser assim. Podem ser ligadas à vida (à nossa e à da língua) e agradáveis.
Para que isso seja possível, proponho três tipos de atividades, todas ligadas
à língua viva.
O primeiro consiste em analisar piadas. Quem leu de Freud pelo menos o
livro destinado a apresentar sua teoria sobre os chistes (Os chistes e sua
relação com o inconsciente) terá percebido que, para poder sustentá-la,
propõe análises lingüísticas sem as quais sua tese da relação da lingua-
gem das piadas com a dos sonhos seria puro palavrório. O que importa é
a técnica, ele insiste.
Vejamos um exemplo (que não é dele):
Fulano vai ao cinema. Chega cedo. Precisa ir ao banheiro. Vai e, quando
tenta voltar à sala,percebe que está trancada. Mas há um buraco na porta,
pelo qual pode ver o filme. Como se chama o filme? – Vida privada.
A pequena aula consistiria em, depois da risada (sintoma de que a sequên-
cia é corretamente compreendida), explicitar o que aí ocorre. Pelo menos:
a) que a sequência pode ser lida de duas maneiras: 1) vida privada e 2) vi
da privada; b) que Vida privada parece mais nome de filme do que Vi da
privada (mas isso interessa menos, porque estamos diante de uma piada
e não de um capítulo da história da sétima arte); c) que as formas vida
privada e vi da privada podem ser distinguidas pela diferença de acento
da sílaba da (final de “vida” ou começo de “da privada”); d) que vi da privada
significa “(eu) vi (o filme) da privada”, ou seja, que dois elementos cruciais
para a interpretação são elípticos, mas todo mundo sabe que estão lá.
Professores e alunos “ligados” poderão perceber fenômenos semelhan-
tes em diversas piadas e também na fala quotidiana (é uma pena que um
livro de piadas tenha sido retirado da lista da Secretaria de Educação de
São Paulo, porque piadas são um excelente material “didático”, para dis-
cutir tanto questões de língua quanto questões sociais).
O segundo consiste em analisar neologismos e estrangeirismos. Os
dois temas permitem um bom debate sobre o que é uma língua na-
cional e sua relação com as novidades culturais – vindas de fora ou
de dentro. Mas a ênfase que sugiro é relativa aos aspectos gramati-
cais. Os estrangeirismos, ao contrário do que muitos pensam, mostram
o quanto a língua é forte, que sua gramática se impõe às palavras
estrangeiras. Veja-se como pronunciamos as palavras e-mail (email),

70 • capítulo 4
hot-dog (roti-dogui), marketing (marquetchim), set (setchi), snob (es-
nobe) etc., e logo ficará claro que não estamos importando inglês, mas
fortalecendo o português (o que está em jogo é nossa cultura e nossa
mentalidade, mas não nossa língua). Sem contar que todos os verbos
importados (!) se tornam verbos regulares da primeira conjugação:
printar, estartar, inicializar, glugar etc. Não é pouco!
Observe-se agora o que ocorre com os neologismos: a gramática sempre
se revela fortíssima (gostar das palavras novas ou não é outra coisa): ala-
vancar e (des)catracalizar são só dois exemplos – derivam regularmente
de alavanca e de catraca.
O terceiro diz respeito à observação cuidadosa de um fenômeno bastante
criticado, o gerundismo. Uma lista dessas formas mostra um fenômeno
curioso: sempre há um verbo auxiliar (posso, vou), seguido do verbo estar
no infinitivo, seguido de outro verbo no gerúndio (vou estar providencian-
do, posso estar enviando).
Observem-se duas coisas: a) nunca são criticadas construções como “vou
ficar esperando / vou continuar trabalhando”, ou seja, aquelas em que não
ocorre o verbo estar; b) o primeiro verbo é sempre flexionado (concorda
com o sujeito: vou, posso, vai, pode, vamos, podemos), o segundo (estar)
está sempre no infinitivo e o terceiro, sempre no gerúndio.
Veja-se que, em qualquer construção com auxiliar + verbo, o segundo
verbo está sempre no infinitivo (vou dormir, pode deixar, devo partir), que
estar exige gerúndio (estou dormindo, sonhando, trabalhando): ou seja,
a sintaxe (a gramática) do dito gerundismo é absolutamente regular! E
portuguesa, não inglesa, como dizem muitos!

Aulas (de economia, de história, de direito, de genética) devem considerar


os fatos que estão acontecendo. Se não, parece que uma coisa é o que
está nos livros didáticos e outra o que ocorre no mundo (literatura ou arte
modernas podem não parecer literatura e arte!!). O mesmo deveria acon-
tecer na análise da língua. Com a vantagem de poder mostrar aos alunos
o que é de fato uma gramática: é ela o que faz uma língua ser uma língua.

Sírio Possenti (prof. Associado do Departamento de Linguística da Unicamp), autor de Os hu-


mores da língua (Campinas, Mercado de Letras) e de Questões para analistas de discurso (S.
Paulo, Parábola).

capítulo 4 • 71
4.4  Substantivo

Segundo Bechara (2009), substantivo é a classe de lexema que se caracteriza por


significar o que convencionalmente chamamos objetos substantivos, isto é, em
primeiro lugar, substâncias (homem, casa, livro) e, em segundo lugar, quaisquer
outros objetos mentalmente apreendidos como substâncias, quais sejam quali-
dades (bondade, brancura), estados (saúde, doença), processos (chegada, entrega,
aceitação).
Ligados diretamente à experiência e à cultura de um povo, substantivos de
uma língua às vezes não encontram correspondência em substantivos de outras
línguas. A palavra saudade, por exemplo, quase não encontra correspondência
perfeita em outras línguas.

Observe o excerto do poema de Carlos Drummond de Andrade.

A máquina do mundo

E como eu palmilhasse vagamente


uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos


que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo


na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado...

CONEXÃO
Leia o poema completo em: <http://www.releituras.com/drummond_amaquina.asp>.

Para nomear os seres e os objetos que fazem parte dessa “Máquina do mun-
do”, Drummond usou palavras como estrada, tarde, sino, sapatos, aves, céu. Cha-
maremos essas palavras de substantivos.

72 • capítulo 4
Substantivos são palavras que designam seres – visíveis ou
não, animados ou não –, ações, estados, sentimentos, desejos,
ideias. CEREJA; MAGALHÃES, 2005, p. 114

Quanto à formação, o substantivo pode ser:


a) primitivo (dá origem a outros substantivos) ou derivado (origina-se de outro
substantivo, o primitivo). Ex.: jornal (simples); jornalista (derivado).
b) simples (formado por um só radical) ou composto (formado por mais de um
radical). Ex.: sol (simples), girassol (composto).

Quanto à classificação, de acordo com Bechara (2009, p. 113),o substantivo


pode ser:
1.  Próprios ou comuns
1.1 Substantivo próprio é o que se aplica a um objeto ou a um conjunto
de objetos, mas sempre individualmente. Isto significa que o substanti-
vo próprio se aplica a esse objeto ou a esse conjunto de objetos, conside-
rando-os como indivíduos. Assim, um nome como João, Isabel ou Açores
só acidentalmente se aplicará a várias pessoas ou a várias ilhas, não por-
que estas apresentam características comuns que as identifiquem como
membros de uma classe ou conjunto específico. Por isto, cada João, cada
Isabel ou cada Açores é uma pessoa ou ilha considerada como indivíduo
inconfundível para as demais pessoas.
Ainda, segundo Bechara (2009), os substantivos próprios mais impor-
tantes são os antropônimos e os topônimos. Os primeiros se aplicam
às pessoas que, em geral, têm prenome (nome próprio individual) e
sobrenome ou apelido. Os topônimos se aplicam a lugares e acidentes
geográficos.
1.2 Substantivo comum é o que se aplica a um ou mais objetos particula-
res que reúnem características inerentes a dada classe: homem, mesa,
livro, cachorro, lua, sol, fevereiro, segunda-feira, papa.

Substantivos como lua, sol, fevereiro e papa, entre outros, são nomes individualizados,
não como os nomes próprios, mas pelo contexto extralinguístico e pelo nosso saber que
nos diz que, no contexto natural só há uma lua, um mês de fevereiro...

4.4.1  Substantivo coletivo

capítulo 4 • 73
Entre os substantivos comuns, encontram-se os coletivos, que, embora estejam
no singular, indicam vários seres da mesma espécie.
Conforme Sacconi (1999), os coletivos podem ser:
•  Específicos – indicam sempre a mesma espécie de ser, daí a não exigência
de modificadores: arquipélago, biblioteca, atlas.
•  Não específicos – indicam ora esta, ora aquela espécie de seres; por isso
exigem modificadores: junta de médicos, de dois bois, de examinadores;
manada de elefantes, de cavalos, de búfalos etc.

Um coletivo pode ser usado com modificadores, neste caso excepcionalmente:


•  Quando é preciso referir-se à espécie: um cardume de piranhas, um cardume
de sardinhas; uma floresta de sequoias, uma floresta de pinheiros etc.
•  Quando é preciso restringir o significado do coletivo: um cardume de pei-
xes miúdos, uma floresta de antiquíssimas árvores etc.
•  Quando o coletivo é empregado em sentido figurado: um cardume de sub-
marinos, uma floresta de galhos cortados etc.

A seguir lista de alguns coletivos.

alcateia – de lobos

álbum – de fotografias

antologia – de trechos literários

assembleia – de parlamentares, associados

baixela – de objetos de mesa

banca – de examinadores

bandeira – de garimpeiros

bando – de aves

cacho – de uvas

cancioneiro – de poemas, canções

concílio – de bispos

corja – de ladrões

elenco – de artistas

74 • capítulo 4
enxoval – de roupas

feixe – de lenha

flora – de vegetais

girândola – de fogos de artifício

junta – de examinadores, médicos, bois

legião – de demônios, soldados, anjos

malta – de desordeiros

nuvem – de insetos

pinacoteca – de pinturas

plantel – de atletas, animais de raça

repertório – de peças teatrais, anedotas, músicas

revoada – de pássaros

romanceiro – de poesias populares

súcia – de pessoas desonestas

vocabulário – de palavras
viviDPiXELS | DREAmStimE.com

Você sabia que o coletivo de borboletas é panapaná?

2. Concreto ou abstrato
2.1 Concreto é o que designa ser de existência independente: casa, mar,
sol, automóvel, filho, mãe. Os substantivos concretos nomeiam pesso-

 • 75
capítulo 4
as, lugares, animais, vegetais, minerais e coisas.

ATENÇÃO
Toda palavra que venha antecedida de artigo é um substantivo. Ex.: o não, o sim, o saber, o a, o
esse, o Ceasa, o Dersa etc. (SACCONI, 1999)

2.2 Abstrato é o que designa ser de existência dependente: prazer,


beijo, trabalho, saída, beleza, cansaço. Os substantivos abstratos de-
signam ações (beijo, trabalho, saída, cansaço), estado e qualidade
(prazer, beleza), considerados fora dos seres, como se tivessem uma
existência individual. (BECHARA, 2009, p. 113).

CONEXÃO
Leia um artigo sobre substantivos concretos e abstratos em: <http://www.kplus.com.br/mate-
ria.asp?co=197&rv=Gramatica>.

4.5  Gênero dos substantivos

Quanto ao gênero, os substantivos podem ser masculinos ou femininos. Quanto


à forma, eles podem ser:
Substantivos biformes são os que apresentam duas formas, uma para o masculi-
no, outra para o feminino, lembrando que apresentam apenas um radical.

Menino Menina

Traidor Traidora

Aluno Aluna

Substantivos heterônimos são os que apresentam duas formas, uma para o mas-
culino, outra para o feminino, com radicais diferentes.

76 • capítulo 4
Homem Mulher

Bode Cabra

Boi Vaca

Substantivos uniformes são os que apresentam apenas uma forma para am-
bos os gêneros. Eles dividem-se, conforme tabelas a seguir:
• Comum de dois gêneros apresentam uma só forma para ambos os gê-
neros, com artigos distintos. Vejamos alguns exemplos.

O/A Estudante

O/A Imigrante

O/A Acrobata

O/A Agente

O/A Intérprete

O/A Lojista

O/A Mártir

O/A Viajante

O/A Artista

O/A Atleta

O/A Camelô

O/A Gerente

O/A Presidente (pode ser também a presidenta)

• Sobrecomuns são os que apresentam uma só forma (e um só artigo)


para ambos os gêneros. Vejamos alguns exemplos:

capítulo 4 • 77
o algoz a pessoa

o apóstolo a criança

o carrasco a vítima

o cônjuge a testemunha

o indivíduo a criatura

• Epicenos designam animais e insetos, possuem um único gênero gra-


matical para indicar os dois sexos, sendo a especificação do sexo feita
mediante o uso das palavras macho ou fêmea.

Barata macho Barata fêmea

Girafa macho Girafa fêmea

Águia macho Águia fêmea

Cobra macho Cobra fêmea

Jacaré macho Jacaré fêmea

Onça macho Onça fêmea

Observações importantes
Dependendo do significado que possuem em uma frase, há substantivos que
podem ser femininos ou masculinos. Veja alguns exemplos.
o banana (palerma, imbecil), a banana (fruto);
o cabra (homem valente), a cabra (animal);
o caixa (funcionário/a), a caixa (objeto);
o grama (medida de massa), a grama (capim);
o rádio (aparelho receptor), a rádio (estação, emissora).

ATENÇÃO
78 • capítulo 4
Inconsistência do gênero gramatical — a distinção do gênero nos substantivos não tem fundamen-
tos racionais, exceto tradição fixada pelo uso e pela norma: nada justifica serem, em português,
masculinos lápis, papel, tinteiro e femininos caneta, folha e tinta (Bechara 2009, p. 133).

•  São palavras masculinas:


o açúcar, o ágape (refeição dos primitivos cristãos), o aguapé, o alvará, o al-
piste, o amálgama, o anátema (excomungação), o aneurisma, o apêndice,
o apetite, o avestruz, o axioma (premissa verdadeira), o carcinoma (tumor
maligno), o champanha, o clã, o clarinete, o contralto, o coma, o cós, o dia-
betes, o diadema, o diagrama, o dó, o eclipse, o eczema, o estratagema, o
fibroma (tumor benigno), o formicida, o gambá, o gengibre, o guaraná, o
haras, o herpes, o hosana (hino), o lança-perfume, o laringe, o lhama, o lota-
ção, o magazine, o praça (soldado raso), o sabiá, o sósia, o suéter, o suspen-
se, o tamanduá, o telefonema, o trema.

•  São palavras femininas:


a acne, a agravante, a aguardente, a alcunha, a alface, a aluvião, a apendi-
cite, a atenuante, a baguete, a bicama, a cal, a cólera (doença), a derme, a
dinamite, a echarpe, a entorse, a enzima, a fênix, a ferrugem, a jaçanã (ave),
a juriti (ave), a libido, a marmitex, a mascote, a matinê, a micareta, a mídia,
a omoplata, a patinete, a sentinela, a suçuarana (felino), a sucuri, a tíbia, a
trama, a ubá (canoa), a usucapião, a vernissagem, a xérox.

Conforme Sacconi (1999), as siglas que se usam como nomes próprios têm o
gênero do nome inicial da locução substantiva. Assim, se Ceagesp significa Com-

capítulo 4 • 79
panhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo, teremos uma sigla de gê-
nero feminino: a Ceagesp.

4.6  Adjetivo

Observe no poema a seguir as palavras que dão atributos aos substantivos estrelas
e facas.

Receita de acordar palavras

Palavras são como estrelas


facas ou flores
elas têm raízes pétalas espinhos
são lisas ásperas leves ou densas
para acordá-las basta um sopro
em sua alma
e como pássaros
vão encontrar seu caminho

MURRAY, R. Receitas de olhar. São Paulo: FTD, 1997. p. 10.

Você deve ter observado que a autora caracterizou as facas como lisas ou áspe-
ras e as estrelas como leves ou densas. As palavras responsáveis por caracterizar os
substantivos são chamadas de adjetivos.

•  Adjetivo, segundo Bechara (2009), é a classe de lexema que se caracteriza


por constituir a delimitação, isto é, por caracterizar as possibilidades desig-
nativas do substantivo, orientando delimitativamente a referência a uma
parte ou a um aspecto denotado.

O adjetivo pode ser:


Uniforme – possui uma só forma para os dois gêneros. Ex.: feliz, alegre.
Biforme – possui uma forma para cada gênero. Ex.: bom, boa; mau, má.
Simples: é constituído de um só radical. Ex.: vermelho, claro.
composto – é constituído de mais de um radical. Ex.: vermelho--claro.
Primitivo – o que não deriva de outra palavra. Ex.: bom, forte, feliz.

80 • capítulo 4
Derivado – o que deriva de outra palavra. Ex.: famoso, carnavalesco, amado.
Explicativo – indica uma característica própria do ser. Ex.: sangue vermelho.
Restritivo – indica uma característica acidental. Ex.: suco amargo.

4.6.1  Adjetivo pátrio

Entre os adjetivos, existem os que designam nacionalidade, o lugar de origem de


alguém ou de alguma coisa. Sãob os adjetivos pátrios ou gentílicos.

Veja na tabela a seguir alguns exemplos de adjetivos pátrios.

Localidade Adjetivo pátrio correspondente


Acre acreano

Afeganistão afegane, afegão

Amapá amapaense

Angola angolano

Aracaju aracajuense, aracajuano

Atenas ateniense

Belém (Pará) belenense

Belém (Palestina) belemita

Belo Horizonte belo-horizontino

Brasília brasiliense

Boa Vista boa-vistense

Cabo Frio cabo-friense

Catalunha catalão

Cuiabá cuiabano

Espírito Santo espírito-santense, capixaba

capítulo 4 • 81
Localidade Adjetivo pátrio correspondente
Estados Unidos estadunidense, norte-americano, ianque

Florença florentino

Florianópolis florianopolitano

Goiânia goianiense

Gália gaulês

Grécia grego, helênico

Havana havanês

Índia indiano, hindu

Japão japonês

Jerusalém hierosolimitano, hierosolimita

Macapá macapaense

Manaus manauense, manauara

Natal natalense

Nova Iguaçu iguaçuano

Nova Zelândia neozelandês

Pequim pequinês

Porto Alegre porto-alegrense

Porto Rico porto-riquenho

Recife recifense

Rio Branco rio-branquense

Rio de Janeiro (cidade) carioca

Rio de janeiro (estado) fluminense

82 • capítulo 4
Localidade Adjetivo pátrio correspondente
Rio Grande do Norte rio-grandense-do-norte, potiguar, norte-rio-grandense

Romênia romeno

Rondônia rondoniano, rondoniense

Salvador salvadorense, soteropolitano

São Paulo (cidade) paulistano

São Paulo (estado) paulista

Sardenha sardo

Sergipe sergipano

Teresina teresinense

Tibete tibetano

Tocantins tocantinense

Três Corações tricordiano

Vitória vitoriense

Observe também esses gentílicos de estados brasileiros.

Quando houver mais de uma forma prefira a primeira

Estado Sigla Adjetivo pátrio


Sul

Rio Grande do Sul (RS) gaúcho, rio-grandense-do-sul

Santa Catarina (SC) catarinense, barriga-verde (não é pejorativo)

Paraná (PR) paranaense, paranista (usado no Sul) e tingui

Sudeste

capítulo 4 • 83
Estado Sigla Adjetivo pátrio
São Paulo (SP) paulista, bandeirante

Rio de Janeiro (RJ) fluminense

Minas Gerais (MG) mineiro, montanhês, geralista

Espírito Santo (ES) capixaba, espírito-santense

Centro-Oeste

Mato Grosso do
(MS) mato-grossense-do-sul, sul-mato-grossense
Sul

Mato Grosso (MT) mato-grossense

Goiás (GO) goiano

Nordeste

Bahia (BA) baiano, baiense

Sergipe (SE) sergipano, sergipense

Alagoas (AL) alagoano, alagoense

Pernambuco (PE) pernambucano

Paraíba (PB) paraibano

Rio Grande do potiguar, rio-grandense-do-norte, norte-rio-gran-


(RN)
Norte dense

Ceará (CE) cearense

Piauí (PI) piauiense, piauizeiro (pejorativo)

Maranhão (MA) maranhense, maranhão

Norte

84 • capítulo 4
Estado Sigla Adjetivo pátrio
Rondônia (RO) rondoniense, rondoniano

Acre (AC) acreano, acriano

Amazonas (AM) amazonense, baré

Roraima (RR) roraimense

Pará (PA) paraense, paroara, parauara (usado na Amazônia)

Amapá (AP) amapaense

Tocantins (TO) tocantinense

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa

Alguns adjetivos pátrios compostos apresentam o primeiro elemento reduzi-


do e invariável. Veja alguns exemplos.
afro – africano
anglo – inglês
austro – austríaco
euro – europeu
franco – francês
greco – grego
hispano – espanhol
ibero – ibérico
ítalo – italiano
luso – lusitano
nipo – nipônico
sino – chinês
teuto – alemão

CONEXÃO
Veja uma lista mais completa de adjetivos pátrios em: <http://www.gramaticaonline.com.br/tex-
to/839/Adjetivos_pátrios>..

4.6.2  Locução adjetiva

capítulo 4 • 85
Muitas vezes, para caracterizar um substantivo, não usamos apenas um adjetivo,
mas uma expressão formada por mais de uma palavra. De acordo com Bechara
(2009), esta expressão é formada de preposição + substantivo ou equivalente com
função de adjetivo.
Observe os exemplos.
Homem de coragem = homem corajoso
Livro sem capa = livro desencapado
Observe que nem sempre encontramos um adjetivo de significado perfeita-
mente idêntico ao de locução adjetiva.
Colega de turma

Veja alguns exemplos de locuções adjetivas que possuem os seus respectivos


adjetivos.
Amor de mãe = amor materno
Dever de pai = dever paterno
Obediência de filho = obediência filial
União de irmãos = união fraterna
Alimento sem sabor = alimento insípido

CONEXÃO
Veja uma lista mais completa de locuções adjetivas em: <http://www.gramaticaonline.com.br/
texto/841/Locuções_adjetivas>.

4.6.3  Adjetivo erudito

Numerosos adjetivos eruditos, que significam “relativo a”, “próprio de”, “seme-
lhante a”, “da cor de”, equivalem a locuções adjetivas: torácico = do tórax, relativo
ao tórax; sulfurino = da cor do enxofre; férreo = de ferro, como ferro.

Eis alguns exemplos de adjetivos eruditos1.

1 Disponível em: <http://www.mundovestibular.com.br/articles/2446/1/LOCUCAO-ADJETIVA/Paacutegina1.html>.


Adaptado.

86 • capítulo 4
de estômago = gástrico, es-
de abdômen = abdominal de orelha = auricular
tomacal

de abelha = apícola de estrela = estelar de outono = outonal

de abóbora = cucurbitáceo de éter = etéreo de ouvido = ótico

de abutre = vulturino de fábrica = fabril de ouro = áureo

de açúcar = sacarino de face = facial de osso = ósseo

de Adão = adâmico de falcão = falconídeo de ovelha = ovino

de águia = aquilino de fantasma =espectral de pai = paterno, paternal

de alface = lactúceo de faraó = faraônico de paixão = passional

de alma = anímico de farinha = farináceo de palato = palatal

de aluno = discente de fêmur = femural de pântano = palustre

de amígdalas = tonsilar de fera = feroz, ferino de papa = papal

de amor = erótico de ferro = férreo de paraíso = paradisíaco

de andorinha = hirundino de fígado = figadal, hepático de parede = parietal

de anel = anular de filho = filial de páscoa = pascal

de anjo = angelical de fogo = ígneo de peixe = písceo

de pele = cutâneo, epidér-


de ano = anual de folha = foliáceo
mico

de aranha = aracnídeo de formiga = formicular de pênis = peniano, fálico

de asno = asinino de frente = frontal de pescoço = cervical

de astro = sideral de gado = pecuário de Platão = platônico

de audição = ótico de gafanhoto = acrídeo de plebe = plebeu

de aves de rapina = acipi-


de galinha = galináceo de pombo = columbino
trino

de Baco = báquico de galo = alectório de porco = suíno, porcino

capítulo 4 • 87
de baço = esplênico de ganso = anserino de prado = pratense

de prata = argênteo, ar-


de baixo-ventre = alvino de garganta = gutural
gentino, argírico

de bálsamo = balsâmico de gato =felino, felídeo de professor = docente

de bexiga = vesical de gelo = glacial de prosa = prosaico

de bílis = biliar de gesso = gípseo de proteína = proteico

de bispo = biliar de Golias = goliardo de pulmão = pulmonar

de boca = bucal, oral de guerra = bélico de pus = purulento

de bode = hircino de homem = humano, viril dos quadris = ciático

de boi = bovino de idade = etário de raio = fulgural

de borboleta = papilionáceo de Idade Média = medieval de raposa = vulpino

de bosque = nemoral de igreja = eclesiástico de rato = murino

de brejo = palustre de ilha = insular de rei = real

de bronze = brônzeo, êneo de insetos = entômico de rim = renal

de intestino = intestinal, en-


de cabeça = cefálico, capital de rio = fluvial
térico

de cabelo = capilar de inverno = hibernal de rocha = rupestre

de irmão = fraterno, frater-


de cabra = caprino de romance = romanesco
nal

de caça = venatório, cine-


de joelho = genicular de rosa = róseo
gético

de campo = rural de junho = junino de sabão = saponáceo

de cana = arundíneo de lado = lateral de seda = sérico, seríceo

88 • capítulo 4
de cão = canino de lago = lacustre de selo = filatélico

de cardeal = cardinalício de lágrima = lacrimal de selva = silvestre

de Carlos Magno = carolín- de sobrancelha = superci-


de leão = leonino
gio liar

de carneiro = arietino de lebre = leporino de sonho = onírico

de cavalo = equídeo, equino,


de leite = lácteo , láctico de sol = solar
hípico

de cela, célula = celular de limão = cítrico de sul = meridional, austral

de tarde = vesperal, ves-


de chumbo = plúmbeo de lobo = lupino
pertino, crepuscular

de chuva = pluvial de lua = lunar, selênico de teatro = teatral

de cidade = citadino, urbano de macaco, símio = simiesco de tecido = têxtil

de terra = terrestre, terre-


de cílio = ciliar de maçãs do rosto = malar
no, telúrico

de cinza = cinéreo de madeira = lenho, lígneo de terremoto = sísmico

de cobra = colubrino de mãe = materno, maternal de tijolo = laterário

de cobre = cúprico de manhã = matinal de tio = avuncular

de coração = cardíaco, cor- de mar = marinha, marítimo,


de tórax = torácico
dial equóreo

de correio = postal de marfim = ebúrneo, ebóreo de touro = taurino, táureo

de coruja = estrigídeo de margem = marginal de trás = traseiro

de costas = dorsal de mármore = marmóreo de trigo = tritíceo

de coxa = crural de memória = mnemônico de túmulo = tumular

de crânio = craniano de mestre = magistral de umbigo = umbilical

capítulo 4 • 89
de moeda = monetário, nu- de universo ( habitado) =
de criança = pueril, infantil
mismático ecumênico

de dança = coreográfico de Moisés = mosaico de unha = ungueal

de monge = monacal, mo-


de daltonismo = daltônico de vaca = vacum
nástico

de vasos sanguíneos =
de dedo = digital de monstro = monstruoso
vascular

de morte = mortal, letal,


de Descartes = cartesiano de veado = cerval, elafiano
mortífero

de diamante = adamantino,
de nádegas = glúteo de velho, velhice = senil
diamantino

de dinheiro = pecuniário de nariz = nasal de vento = eóleo , eólico

de direito = jurídico de navio = naval de verão = estio, estival

de éden = edênico de neve = níveo, nival de víbora = viperino

de eixo = axial de Nilo = nilótico de vidro = vítreo, hialino

de norte = setentrional, bo- de vinho = vínico, vinário,


de embriaguez = ébrio
real vinoso, víneo

de enxofre = sulfúrico, sul-


de noz = nucular de vinagre = acético
fúreo, sulfuroso

de erva = herbáceo de nuca = occipital de violeta = violáceo

de espelho = especular de óleo = oleaginoso de virilha = inguinal

de olhos = ocular, óptico, of-


de esposa = uxoriano de virgem = virginal
tálmico

de esposos = esponsal de Olimpo = olímpico de visão = óptico (ótico)

de opala = opalino, opales-


de esquilo = ciurídeo de vontade = volitivo
cente

90 • capítulo 4
4.6.4  Gênero do adjetivo

Os adjetivos biformes simples flexionam-se em gênero pelas mesmas regras de


flexão dos substantivos: lindo, linda; japonês, japonesa; sonhador, sonhadora.
Os adjetivos compostos recebem a flexão feminina apenas no segundo ele-
mento: sociedade luso-brasileira, festa cívico-religiosa, saia verde-escura.
Nos adjetivos terminados em -oso, muda-se a vogal tônica fechada para vogal
aberta: bondoso (ô), bondosa (ó); gostoso (ô), gostosa (ó).

4.6.5  Número do adjetivo

Os adjetivos simples seguem as mesmas regras da flexão numérica dos subs-


tantivos.
gostoso – gostosos
cru – crus
gentil – gentis
igual – iguais
azul – azuis
fiel – fiéis
audaz – audazes
feroz – ferozes
amável – amáveis
útil – úteis
são – sãos
vã – vãs

Nos adjetivos terminados em -oso, muda-se a vogal tônica fechada para vogal
aberta: glorioso (ô), gloriosos (ó); famoso (ô), famosos (ó)
Conforme Cegalla (2005), para formar o plural dos adjetivos compostos obser-
vem-se os seguintes princípios.
•  Os componentes sendo adjetivos, somente o último toma a flexão do plu-
ral: cabelos castanho-escuros, saudades doce-amargas, ciências político-so-
ciais, conflitos russo-americanos, lenços verde-claros, folhas verde-escuras,
jogos infanto-juvenis.
•  Flexionam-se os dois componentes de surdo-mudo: meninos surdos-mu-
dos, crianças surdas-mudas.

capítulo 4 • 91
•  Azul-marinho, azul-celeste e azul-ferrete são invariáveis: ternos azul-mari-
nho, mantos azul-celeste, gravatas azul-ferrete.
•  Os componentes sendo palavra (ou elemento) invariável + adjetivo, somente
esse último se flexionará: meninos mal-educados, crianças recém-nascidas.
•  Os compostos de adjetivo + substantivo são invariáveis: tapetes verde-esme-
ralda, saias azul-pavão, olhos verde-mar, vestidos azul-turquesa.
•  Invariáveis ficam também as locuções adjetivas formadas de cor + de +
substantivo: vestidos cor-de-rosa, olhos da cor do mar, cabelos cor-de-palha,
olhos da cor da safira.

4.6.6  Gradação do adjetivo

Segundo Bechara (2009), há três tipos de gradação na qualidade expressa pelo


adjetivo: positivo, comparativo e superlativo, quando se procede a estabelecer
relações entre o que são ou se mostram duas ou mais pessoas. Esta gradação se
expressa por mecanismo sintático ou derivacional.
•  O positivo que não se constitui a rigor numa gradação enuncia simples-
mente a qualidade.
Joana é cuidadosa.

•  O comparativo compara qualidade entre dois ou mais seres, estabelecendo:


a) igualdade.
Siri pedala tão forte quanto Breno.
b) superioridade.
Zezito corre mais rápido que Dito.
c) inferioridade.
Tio Carlão é menos rápido que Paulinho Boi Bordo.

Alguns adjetivos possuem, para o comparativo de superioridade, formas sinté-


ticas, herdadas do latim. São eles:
bom – melhor
mau – pior
grande – maior
pequeno – menor
alto – superior
baixo – inferior

92 • capítulo 4
Excepcionalmente, usam-se as formas analíticas desses adjetivos quando se
comparam duas qualidades do mesmo ser. Ex.: Aquele menino é mais bom que
inteligente.

•  O superlativo pode:
a) ressaltar, com vantagem ou desvantagem, a qualidade do ser em rela-
ção a outros seres.
Carol é a mais cuidadosa das (ou dentre as) pretendentes ao emprego.
Pedro é o menos cuidadoso dos pretendentes.

Observem que, neste caso, a qualidade é ressaltada em relação ou em compa-


ração com os outros pretendentes. Diz-se, então, que o superlativo é relativo.

b) indicar que a qualidade do ser ultrapassa a noção comum que temos


dessa mesma qualidade.
Carol é muito cuidadosa.
Carol é cuidadosíssima.

Observem que, neste caso, a superioridade é ressaltada sem nenhuma relação


com outros seres. Neste caso, diz-se que o superlativo é absoluto ou intensivo.

O superlativo absoluto pode ser analítico ou sintético.


a) Analítico é formado com a anteposição de palavra intensiva (muito, extre-
mamente, extraordinariamente etc.) ao adjetivo.
Alice é muito linda.
b) Sintético é obtido por meio do sufixo derivacional -íssimo (ou outro de valor
intensivo) acrescido ao adjetivo na forma positiva, com a supressão da vogal
temática, quando o exigirem regras morfofonêmicas: cuidadosíssimo.
Alice é lindíssima.

O superlativo absoluto sintético apresenta-se sob duas formas em bom núme-


ro de adjetivos, uma erudita, de origem latina, outra popular, de origem vernácula.
A forma erudita é constituída pelo radical do adjetivo latino + um dos sufixos -íssi-
mo, -imo ou -érrimo.

Principais superlativos absolutos sintéticos eruditos.

capítulo 4 • 93
acre / acérrimo grande / máximo
alto / supremo, sumo humilde / humílimo
ágil / agílimo incrível / incredibilíssimo
amargo / amaríssimo inimigo / inimicíssimo
amável / amabilíssimo íntegro / integérrimo
amigo / amicíssimo livre / libérrimo
antigo / antiquíssimo magnífico / magnificentíssimo
áspero / aspérrimo magro / macérrimo
atroz / atrocíssimo mau / péssimo
baixo / ínfimo mísero / misérrimo
benéfico / beneficentíssimo negro / nigérrimo
benévolo / benevolentíssimo notável / notabilíssimo
bom / ótimo pobre / paupérrimo
célebre / celebérrimo pródigo / prodigalíssimo
comum / comuníssimo provável / probabilíssimo
cristão / cristianíssimo pudico / pudicíssimo
cruel / crudelíssimo respeitável / respeitabilíssimo
difícil / dificílimo sábio / sapientíssimo
doce / dulcíssimo sagrado / sacratíssimo
dócil / docílimo salubre / salubérrimo
fácil / facílimo são / saníssimo
feliz / felicíssimo simpático / simpaticíssimo
feroz / ferocíssimo

fiel / fidelíssimo simples / simplicíssimo


frágil / fragílimo soberbo / superbíssimo
frio / frigidíssimo terrível / terribilíssimo
geral / generalíssimo veloz / velocíssimo
grácil / gracílimo voraz / voracíssimo

Cegalla (2005) apresenta também outras formas de superlativo absoluto.

•  Por meio de certos prefixos: garota supersimpática, produto extrafino.


•  Com repetição do adjetivo: ela era linda, linda!
•  Por meio de uma comparação: feio como o diabo, doce como o mel.

94 • capítulo 4
•  Por meio de certas expressões da língua coloquial: podre de rico, linda de
morrer.
•  Com o adjetivo no diminutivo: a igreja ficou cheinha.
•  Com o adjetivo no aumentativo: boi grandão, homem grandalhão, moço
bonitão.

4.7  Artigo

Artigo é a palavra que antecede o substantivo, determinando-o ou indeterminan-


do-o.

Pode ser classificado em:


•  definido – o, a, os, as – relacionando-se a um ser específico de uma espécie.
•  indefinido – um, uma, uns, umas – relacionando-se a um ser qualquer de
uma espécie.

4.7.1  Emprego do artigo definido

Segundo Bechara (2009):


a) junto dos nomes próprios denota familiaridade (neste caso, o artigo pode
ser também omitido).
Exemplo: O Pedro talvez falte hoje. O Carlos comunicou-se com o Paulo.
b) Costuma aparecer ao lado de certos nomes próprios geográficos, principal-
mente os que denotam países, oceanos, rios, montanha, ilhas: a Suécia, o
Atlântico, os Andes, a Groenlândia.
Entre nós, dispensam artigo os nomes dos seguintes estados: Alagoas, Goi-
ás, Mato Grosso, Minas Gerais, Santa Catarina, São Paulo, Pernambuco e
Sergipe.
c) Entra em numerosas alcunhas e cognomes: Isabel, a Redentora; D. Ma-
nuel, o Venturoso; mas: Frederico Barba-Roxa.
d) Aparecem em certos títulos: o professor Antônio Carlos, a historiadora Ma-
ria Carolina, o doutor Nogueira.
e) São omitidos nos títulos de Vossa Alteza, Vossa Majestade e outras denomi-
nações, além das formas abreviadas dom, frei, são e as de origem estrangei-
ra como lord, madame, sir.

capítulo 4 • 95
f) Dizem-se com artigo os nomes de trabalhos literários e artísticos (se o arti-
go pertence ao título, deve ser escrito obrigatoriamente com maiúscula): a
Eneida, a Jerusalém libertada, Os Lusíadas, A Tempestade.
g) A palavra todo, no singular, pode vir ou não seguida de artigo, com os signi-
ficados de inteiro, total e cada, qualquer.
Toda a família estava presente. ( = a família inteira)

CONEXÃO
Leia um artigo sobre o uso do artigo antes de nomes próprios: <http://www.portrasdasletras.
com.br/pdtl2/sub.php?op=gramatica/docs/ousodeartigo>.

ATENÇÃO
Toda e qualquer palavra que for anteposta por um artigo passará a ser um substantivo.

4.8  Numeral

De acordo com Bechara (2009, p. 203), numeral é a palavra de função quantifica-


dora que denota valor definido.
“A vida tem uma só entrada: a saída é por cem portas.”
Os numerais propriamente ditos, segundo Bechara (2009), são os cardinais: um,
dois, três etc., e respondem às perguntas quantos?, quantas?
A tradição gramatical, levando em conta mais a significação de certas palavras
denotadoras da quantidade e da ordem definidas, tem incluído entre os numerais
próprios – os cardinais – ainda os seguintes: os ordinais, os multiplicativos e os
fracionários.

Levando-se em conta essa definição, o numeral pode ser:


a) cardinal (um, dois, três...);
b) ordinal (primeiro, segundo, terceiro...);
c) multiplicativo (dobro, triplo...);
d) fracionário (metade, um quarto...).

96 • capítulo 4
Há ainda os numerais coletivos que são aqueles que indicam um aglomerado de
quantidades (século – período de cem anos, bimestre – período de dois meses).

Se o numeral vier acompanhando um substantivo, ele será classificado como nu-


meral adjetivo.
Exemplo: Ele foi o primeiro aluno da classe.
Se o numeral estiver no lugar de um substantivo, ele será classificado como nume-
ral substantivo.
Exemplo: Ela será a segunda nesta rodada.
Incluem-se entre os numerais as seguintes palavras: zero, ambos/ambas.

ATENÇÃO
As palavras último, penúltimo e antepenúltimo são adjetivos. Metade é substantivo.

4.8.1  Emprego do numeral

a) Se o numeral vier antes do substantivo, usa-se o numeral ordinal:


Exemplo: Vigésimo primeiro século, terceiro livro

b) Se o numeral vier depois do substantivo, deve-se atentar para duas situações


1. Se o substantivo designar séculos, reis, papas e capítulos, usa-se o numeral
ordinal até décimo e, daí para frente, usam-se os numerais cardinais.
Exemplo: capítulo terceiro, capítulo onze
2. Se o substantivo fizer referência ao universo jurídico (lei, inciso, pa-
rágrafo etc.), usa-se o numeral ordinal até nono e, daí para frente,
usam-se os numerais cardinais.
Exemplo: lei terceira, lei dez

4.9  Pronome

Pronomes são palavras que substituem ou acompanham outras palavras,


principalmente os substantivos. Podem também remeter a palavras, orações e frases
expressas anteriormente (CEREJA; MAGALHÃES, 2005).

capítulo 4 • 97
Os pronomes que funcionam como substantivos chamam-se pronomes subs-
tantivos; e os que acompanham os substantivos, pronomes adjetivos.
Ex.: Esta casa é mais confortável que a outra. (esta – pron. adjetivo; outra –pron.
subst.)

ATENÇÃO
Os pronomes exercem papel fundamental nas interações verbais. São eles que indicam as pesso-
as do discurso, expressam formas sociais de tratamento e substituem, acompanham ou retomam
palavras e orações já expressas. Contribuem, assim, para garantir a síntese, a clareza, a coerência
e a coesão do texto. CEREJA; MAGALHÃES, 2005

4.10  Pronomes pessoais

Os pronomes pessoais designam diretamente uma das pessoas do discurso:


•  O locutor (quem fala): 1a. pessoa – eu (singular) ou nós (plural).
•  O interlocutor (com quem se fala): 2a. pessoa – tu (singular) ou vós (plural).
•  O assunto ou referente (do que se fala): 3a. pessoa – ele/ela (singular) ou
eles/elas (plural).

Pronomes pessoais são aqueles que indicam as três pessoas do discurso. Clas-
sificam-se em retos e oblíquos.

Número Pessoa Pronomes retos Pronomes oblíquos


Singular 1a. eu me, mim, comigo

2a. tu te, ti, contigo

3a. ele/ela se, si, consigo, o, a, lhe

Plural 1a. nós nos, conosco

2a. vós vos, convosco

3a. eles/elas se, si, consigo, os, as, lhes

98 • capítulo 4
A variação em pessoais retos e pessoais oblíquos está ligada à função que os
pronomes desempenham na frase. Se for função de sujeito, usam-se os pronomes
retos; se for função de objeto direto, usam-se, normalmente, os pronomes oblí-
quos átonos e, na função de objeto indireto, os pronomes oblíquos tônicos.
Emprego dos pronomes pessoais:
•  As formas oblíquas o, a, os e as completam verbos que não vêm regidos de
preposição; enquanto lhe e lhes completam verbos regidos das preposi-
ções a ou para (não expressas).

•  Em pouco uso, porém vigente, as formas mo, to, no-lo, vo-lo, lho e flexões
resultam da fusão de dois objetos, representados por pronomes oblíquos
(ninguém mo disse = ninguém o disse a mim).

•  O, a, os e as viram lo(a/s) quando associados a verbos terminados em r, s ou


z e viram no (a/s), se a terminação verbal for em ditongo nasal.

•  O/a (s), me, te, se, nos, vos desempenham função se sujeitos de infinitivo
ou de verbo no gerúndio, junto ao verbo fazer, deixar, mandar, ouvir e ver
(mandei-o entrar / eu o vi sair / deixei-as chorando).

•  Você hoje é usado no lugar das segundas pessoas (tu/vós), levando o verbo
para a 3ª pessoa.

•  As formas de tratamento serão precedidas de vossa, quando nos dirigirmos


diretamente à pessoa, e de sua, quando fizermos referência a ela. Troca-se
na abreviatura o v. pelo s.

•  Quando precedidos de preposição, os pronomes retos (exceto eu e tu) pas-


sam a funcionar como oblíquos.

•  Eu e tu não podem vir precedidos de preposição, exceto se funcionarem


como sujeito de um verbo no infinitivo (isto é para eu fazer).

•  Pronomes acompanhados de só ou todos ou seguido de numeral assumem


forma reta e podem funcionar como objeto direto (estava só ele no banco /
encontramos todos eles).

•  Me, te, se, nos, vos podem ter valor reflexivo, enquanto se, nos, vos podem
ter valor reflexivo e recíproco.

•  Si e consigo têm valor, exclusivamente, reflexivo e são usados para a 3ª pessoa.

capítulo 4 • 99
•  Conosco e convosco devem aparecer na sua forma analítica (com nós e com
vós), quando vierem com modificadores (todos, outros, mesmos, próprios,
numeral ou oração adjetiva).

•  Os pronomes pessoais retos podem desempenhar função de sujeito, pre-


dicativo do sujeito ou vocativo, este último com tu e vós (nós temos uma
proposta. / Eu sou eu e pronto. / Ó, tu, senhor Jesus.)

•  Não se pode contrair as preposições de e em com pronomes que sejam su-


jeitos. (Em vez de ele continuar, desistiu).

•  Os pronomes átonos podem assumir valor possessivo (levaram-me o di-


nheiro / pesavam-lhe os olhos).

•  Alguns pronomes átonos são partes integrante de verbos como suicidar-se,


apiedar-se, condoer-se, ufanar-se, queixar-se, vangloriar-se etc.

•  Podemos usar alguns pronomes oblíquos como expressão expletiva (Não


me venha com essa).

Observe o uso dos pronomes pessoais neste excerto da música Oração ao tem-
po, de Caetano Veloso:

Oração ao tempo

(...) O que usaremos pra isso


Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito


Ser possível reunirmo-nos

100 • capítulo 4
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo


E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo (...)

4.11  Pronomes de tratamento

Pronomes de tratamento são palavras e expressões empregadas para tratar fami-


liar ou cerimoniosamente o interlocutor.
Apesar de designarem o interlocutor – a pessoa com quem se fala (2a. pessoa)
–, os pronomes de tratamento exigem verbo e pronome na 3a. pessoa.
Exemplos:
Você se esqueceu de devolver o livro.
Vossa Excelência trouxe os relatórios?

Conforme Cereja e Magalhães (2005), empregamos alguns pronomes de trata-


mento precedidos de Sua, quando nos referimos à pessoa, e precedidos de Vossa,
quando nos dirigimos diretamente a nosso interlocutor. Assim, numa situação for-
mal, se uma pessoa se dirigir ao presidente da República, dirá, por exemplo: “Vossa
excelência aceita mais café?”, porque está se dirigindo diretamente a seu interlocu-
tor. Em outro contexto, em conversa com outra pessoa, diria, por exemplo, referin-
do-se ao presidente: “Sua excelência tomou duas xícaras de café”.
São pronomes de tratamento2 :

2 Disponível em: http://www.brasilescola.com/gramatica/pronomes-tratamento.htm

capítulo 4 • 101
Pronomes de Abreviatura Abreviatura
Usados para:
tratamento singular plural

Pessoas familiares,
Você V. VV.
íntimas

Pessoas com as quais man-


Senhor,
Sr., Sr.ª Srs., Srª.s temos certo distanciamento
Senhora
mais respeitoso.

Pessoas com maior grau de


prestígio. Usualmente, são
Vossa Senho-
V. S.ª V. Sª.s empregamos em textos escri-
ria
tos, como: correspondências,
ofícios, requerimentos etc.

Usados para pessoas com alta


Vossa autoridade como: presidente
V. Ex.ª V. Ex.ªs
Excelência da república, senadores, depu-
tados, embaixadores etc.

Vossa
V. Em.ª V. Em.ªs Usado para cardeais.
Eminência

Usado para príncipes e du-


Vossa Alteza V. A. V V. A A.
ques.

Vossa
V.S. – Usado para o papa.
Santidade

Vossa Reve- Usado para sacerdotes e reli-


V. Rev.mª V. Rev.mªs
rendíssima giosos em geral.

Vossa Paterni- Usado para sacerdotes e re-


V. P. VV. PP.
dade ligiosos de ordens religiosas.

Vossa Magnifi- Usado para reitores de uni-


V. Mag.ª V. Mag.ªs
cência versidades .

Vossa Majes- Usado para reis e


V. M. V V. M M
tade rainhas.

102 • capítulo 4
4.12  Pronomes possessivos

Os pronomes possessivos fazem referência às pessoas do discurso, indicando pos-


se, e concordam em gênero e número com a coisa possuída.

Número Pessoa Pronomes possessivos


primeira meu, minha, meus, minhas

singular segunda teu, tua, teus, tuas

terceira seu, sua, seus, suas

primeira nosso, nossa, nossos, nossas

plural segunda vosso, vossa, vossos, vossas

terceira seu, sua, seus, suas

Emprego dos pronomes possessivos


•  Normalmente, vêm antes do nome
a que se referem; podem, também,
vir depois do substantivo que de-
terminam. Neste último caso, po-
dem até alterar o sentido da frase.
•  Seu/sua (s) podem causar ambi-
guidade, para desfazê-la, deve-se
preferir o uso do dele/dela(s). (Ele
disse que maria estava trancada
em sua casa – casa de quem?)
•  Podem indicar aproximação numérica (ele tem lá seus 40 anos), posse figu-
rada (“Minha terra tem palmeiras”), valor de indefinição = algum (Tenho cá
as minhas dúvidas!).
•  Nas expressões do tipo “Seu João”, seu não tem valor de posse por ser uma
alteração fonética de senhor.

Observe neste excerto de O mistério da casa, de Nélida Piñon, o uso do prono-


me pessoal lhe com valor de possessivo.

capítulo 4 • 103
O mistério da casa

( ...) A casa tem personalidade própria. Basta olhá-la para dizer


com quem se parece. Seu jeito, em geral, é moldado pela mulher
que faz uso de suas dependências. Há séculos a casa vincula-se
ao destino feminino, a quem cabe esculpir o cotidiano. E não é
a mulher que passa em revista os quartos, o quintal? Zela pelo
patrimônio da sociedade? É natural, pois, que esta casa lhe siga
os passos, adote seu repertório.

PIÑON, N. Até amanhã, outra vez. Rio de Janeiro: Record, 1999.

ATIVIDADE
1.  Observe a presença dos pronomes neste excerto da música de Caetano Veloso e faça uma breve
análise sobre o uso dos pronomes pessoais do caso reto e oblíquo e justifique o uso do demons-
trativo esse no primeiro verso.

...Ah! Que esse cara tem me consumido


A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele chega ao anoitecer...
Caetano Veloso
Disponível em: <http://letras.mus.br/caetano-veloso/144566/>. Acesso em: 5 abr. 2013.

2.  Observe esta estrofe retirada da música O Quereres de Caetano Veloso e identifique um adjetivo
no grau superlativo.

(...) Eu queria querer-te amar o amor


Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação

104 • capítulo 4
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor (...)

REFLEXÃO
Neste capítulo, vimos a classe do substantivo e as três classes de palavras relacionadas ao
substantivo: o adjetivo, utilizado para dar atributos, o artigo, que particulariza ou generaliza o
substantivo, e o numeral, responsável por quantificar, e a classe dos pronomes, como eles se
classificam, como variam ou não e como devem ser utilizados. Fica evidente a importância
da utilização correta dos pronomes para uma satisfatória coesão textual. Como você viu, os
pronomes podem substituir ou acompanhar o substantivo e podem, portanto, ter função de
núcleo ou função secundária nas frases.
Quando você estudar sintaxe, irá perceber que, ao contrário do substantivo (que funciona
como núcleo), o adjetivo, o artigo e o numeral têm uma função secundária, mas não menos
importante, nas frases. Eles aparecem com função de adjunto adnominal, por exemplo, por-
que vêm junto com o nome (o substantivo).

LEITURA
Se você quiser ver outros exemplos e fazer vários exercícios, um livro interessante é a No-
víssima gramática da língua portuguesa, de Domingos Paschoal Cegalla, da Editora
IBEP Nacional.
Outra gramática muito boa é a de Ulisses Infante e Pasquale Cipro Neto, Gramática da
língua portuguesa, publicada pela Editora Scipione.

capítulo 4 • 105
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

CEGALA, D. P. Novíssima gramática da língua portuguesa. São Paulo: Nacional, 2005.

CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Gramática reflexiva: texto, semântica e interação.


São Paulo: Atual, 2005.

CUNHA, C. F.; CINTRA, L. F. L. Nova gramática do português contemporâneo. Rio de


Janeiro: Nova Fronteira, 1985.

SACCONI, L. A. Nossa gramática: teoria e prática. São Paulo, Atual, 1999.

NO PRÓXIMO CAPÍTULO
No próximo capítulo, vamos conhecer a classe de palavras que compõem o sintagma verbal,
o papel dos verbos no uso da língua e a classificação das interjeições como uma classe de
palavras. Aprenderemos também o conceito de neologismo e suas implicações para o pro-
cesso vocabular, o novo acordo ortográfico e a morfologia.

106 • capítulo 4
5
Classes de Palavras
que Compõem o
Sintagma Verbal,
Neologismos e
o Novo Acordo
Ortográfico
5  Classes de Palavras que Compõem o
Sintagma Verbal, Neologismos e o
Novo Acordo Ortográfico
Neste capítul,o estudaremos a classe de palavras responsável por indicar ações,
estado, mudança de estado ou fenômenos da natureza: o verbo. Vamos detalhar
como os verbos se classificam e como eles variam. Veremos também os neologis-
mos e o Novo Acordo Ortográfico.

OBJETIVOS
Neste capítulo, você será capaz de:
•  Conhecer a classe de palavras que compõe o sintagma verbal;
•  Aprender os neologismos e o Novo Acordo Ortográfico.

REFLEXÃO
Nas séries iniciais você aprendeu que os verbos são palavras que indicam ação, mas
você se lembra de que alguns verbos também podem indicar estado, mudança de estado
ou fenômenos da natureza? Vamos estudar agora como os verbos se flexionam, suas
vozes, conjugações, como se classificam, quais são seus elementos estruturais, além do
emprego dos tempos, modos e formas nominais do verbo. Além disso, vamos estudar os
neologismos e o Novo Acordo Ortográfico.

5.1  Classes de palavras que compõem o sintagma verbal verbo

Verbo é a palavra que indica ação praticada ou sofrida pelo sujeito, fato do qual
o sujeito participa ativamente, estado, mudança de estado, qualidade do sujeito
ou fenômeno da natureza. Pode sofrer flexões de número, pessoa, tempo e modo.
Ao conjunto de flexões verbais se dá o nome de conjugação.

108 • capítulo 5
Conjugação verbal
Há três conjugações para os verbos da língua portuguesa, caracterizadas pela
vogal temática.

1a. conjugação: verbos terminados em -ar.


2a. conjugação: verbos terminados em -er.
3a. conjugação: verbos terminados em -ir.

ATENÇÃO
O verbo pôr e seus derivados pertencem à 2ª conjugação, por se originarem do antigo verbo poer.

5.2  Flexões do verbo

c) Número – indica a quantidade de seres envolvidos no processo verbal.


São dois os números: singular e plural.
• O verbo está no singular quando a quantidade de seres envolvidos
no processo é simples ou unitária: canto, cantas, canta.
• O verbo está no plural quando a quantidade de seres envolvidos no
processo é dupla ou múltipla: cantamos, cantais, cantam.

d) Pessoa – indica as pessoas do discurso (1ª, 2ª e 3ª).


• A 1ª é a que fala, ou seja, o emissor ou falante, e corresponde aos
pronomes pessoais eu (singular) e nós (plural): canto, cantamos.
• A 2ª é a pessoa com quem se fala (receptor, ouvinte) e corresponde
aos pronomes pessoais tu (singular) e vós (plural): cantas, cantais.
• A 3ª é a pessoa de quem se fala e corresponde aos pronomes pesso-
ais ele, ela (singular) e eles, elas (plural): canta, cantam.

e) Modo – indica a maneira, o modo como o fato se realiza. São três os mo-
dos verbais na língua portuguesa.
• Indicativo, que expressa atitudes de certeza.
• Subjuntivo, que expressa atitudes de dúvida, hipótese, desejo.
• Imperativo, que expressa atitude de ordem, pedido, conselho.

Além dos modos, existem as formas nominais: infinitivo, gerúndio e particípio.

capítulo 5 • 109
f) Tempo – indica o momento ou a época em que se realiza o fato. São três
os tempos: presente, passado (ou pretérito) e futuro.

Observe no excerto da letra da música O verbo flor, composição de Renato


Rocha, o emprego das palavras tempos e pessoas em dois sentidos: pessoas
refere-se às pessoas do discurso e a todas as pessoas, todo o mundo; tempos
significa tempos verbais e duração das estações.

O verbo flor
Royik Yevgen | Dreamstime.com

(...) quando o coração conjugar:


quando eu flor
quando tu flores
quando ele flor
e você flor
quando nós
quando todo mundo flor.

ROCHA, R. Adivinha o que é. São Paulo: Ariola, 1981. MPB4.

CONEXÃO
Para conhecer a letra completa da música, acesse:
<http://letras.mus.br/mpb4/945681/>. Acesso em 11/3/2013.

5.3  Vozes verbais

As vozes dos verbos são as formas que estes assumem para indicar a relação
de atividade, passividade ou, simultaneamente, ambas as coisas. São três as
vozes verbais: ativa, passiva e reflexiva (MESQUITA, 1998, p. 250).
a) Na voz ativa, o sujeito da ação é o agente, praticante da ação verbal.
Exemplo: O garoto quebrou a janela.

110 • capítulo 5
b) Na voz passiva, o sujeito é paciente, sofre a ação, é recebedor da ação verbal.
Exemplo: A janela foi quebrada pelo garoto.
A voz passiva pode ser:
• Analítica – formada pelos verbos ser, estar e ficar, seguidos de parti-
cípio. Ex.: O cabelo foi penteado por mim.
• Sintética – formada por um verbo transitivo direto acompanhado
do pronome se, do qual se diz apassivador. Ex.: Penteou-se.

c) Na voz reflexiva, o sujeito age e sofre a ação, isto é, agente e paciente.


Exemplo: Ele se cortou com a faca.

ATENÇÃO
No plural, a voz reflexiva pode indicar reciprocidade de ação. Ex.: Nós nos penteamos. (Um pen-
teou o outro.)

5.4  Locução verbal

A locução verbal1 – também chamada de conjugação perifrástica – é formada


pelos verbos auxiliares mais o infinitivo (terminação em –r) ou o gerúndio (ter-
minação em –ndo):
→ Estava lendo o jornal. (estava= auxiliar / lendo = principal)
→ O aluno finge entender o assunto.

Observações:

a) O verbo auxiliar e o principal podem estar unidos por uma preposição:


→ Os jurados têm [de] tomar uma decisão.
→ João entrou [a] falar alto. / Tenho [de] ir hoje.

b) A locução pode ser composta por mais de dois verbos:


→ Você não deveria estar usando essa máscara.

1 Disponível em: http://recantodasletras.uol.com.br/gramatica/1810903 - Acesso em 08/12/2011

capítulo 5 • 111
c) São estes os principais verbos auxiliares que formam locução verbal com
o verbo principal:
Acabar de: Susana acabou de sair.
Andar: Ando trabalhando muito.
Atrever-se a: Não se atreva a dizer isso.
Buscar: Buscamos encontrar uma solução.
Chegar a: Não cheguei a dizer isso.
Começar a: Começou a chover faz pouco.
Conseguir: Não consegui falar direito.
Continuar a: Continuo a falar disso.
Costumar: Costumo jantar ao meio-dia.
Deixar de: Não deixe de agradar o cão.
Desejar: Desejamos ver o Papa.
Haver de: Hei de ver esse jogo.
Ir: Eliana vai fazer o trabalho.
Odiar: Odeio ouvir essas coisas.
Ousar: Não ousei beijar Juçara.
Parar de: Pare de fazer barulho!
Parecer: As crianças parecem chorar.
Poder: Não posso viver sem você.
Pôr-se a: Cassilda pôs-se a chorar.
Precisar: Precisamos progredir muito.
Pretender: Pretendo casar com ela.
Querer: O menino queria ver o cometa.
Tentar: Tentei abrir a porta.
Ter de: Tenho de encontrar uma solução.
Tornar a: Tornei a telefonar há Paula.
Vir: Venho insistindo nisso a tempo.
Nossa língua não dispõe de flexões próprias suficientes para exprimir com
rigor todos os momentos do processo verbal. Vale-se, então, dos verbos au-
xiliares, que são usados para exprimir os mais diferentes aspectos da ação.

CONEXÃO
Veja uma lista de verbos utilizados para indicar sons de animais em :
<http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=gramatica/docs/vozesdeanimais>.

112 • capítulo 5
5.5  Elementos estruturais do verbo

Os verbos possuem uma estrutura que se compõe de: um radical (R), mais uma vo-
gal temática (VT), ambas constituindo o tema (T), mais as desinências modo-tem-
poral (DMT) e número-pessoal (DNP)2 .
Radical (R) é o elemento portador do significado e a parte do verbo que so-
bra, quando retiradas as terminações -ar, -er, -ir. Portanto, am-, vend- e part- são
radicais. O radical, embora às vezes alterado, aparece em toda a conjugação.
Retirado o radical, restarão os morfemas: VT, DMT e DNP, elementos que po-
dem aparecer ou não durante a conjugação.
Vogal temática é o elemento que caracteriza as conjugações. São três: -a-, -e-, -i-.

Tema é o radical acrescido da vogal temática; ama-, vende-, parti-. É o ele-


mento que recebe as desinências.

Desinência modo-temporal é o elemento que indica o tempo e o modo: am


-a-va, vend-e-ra, part-i-a.

Desinência número-pessoal é o elemento que se flexiona e identifica a pes-


soa e o número: am-o, am-as, am-a, ama-mos, ama-is, ama-m.

Temos, portanto, a seguinte fórmula:

V = R + VT + DMT + DNP

Vejamos para que nos serve a fórmula estrutural, comparando duas formas
verbais diferentes.

Cantavas x cantássemos
Sabemos que cantavas é a 2ª pessoa do singular do imperfeito do modo indi-
cativo, enquanto cantássemos é a 1ª pessoa do plural do imperfeito do subjuntivo.

2 Disponível em: <http://www.linguacomtexto.com/pulo_do_gato/assunto13.htm (com alterações)>.- Acesso em


5/4/2013.

capítulo 5 • 113
Como podemos confirmar essas conjugações? Por meio dos elementos es-
truturais. Basta que separemos e confrontemos os elementos mórficos dos ver-
bos: cant/a/va/s e cant/á/sse/mos.

R = cant R = cant

VT = a VT = a

DMT = va (imperfeito do indicativo) DMT = sse (imperfeito do subjuntivo)

DNP = s (2a. pessoa do singular) DNP = mos (1a. pessoa do plural)

Como observamos, o radical e a vogal temática são os mesmos. A flexão, isto


é, a variação que ocorre na parte final, nas desinências, indica que va = imper-
feito do indicativo; s = a 2a. pessoa do singular. Em cantássemos, temos o tema
canta: sse = imperfeito do subjuntivo e mos = 1a. pessoa do plural. Assim, pode-
mos fazer um quadro geral das DMTs.

Quadro geral das DMTs

Desinências Tempo e modo Conjugação Exemplos

Imperfeito do
VA (ve) 1a. amava, amáveis
indicativo

Imperfeito do
A (e) 2a. e 3a. corria, partia
indicativo

Mais-que-perfeito 1a., 2a. e amara, correra,


RA (re)
do ind. 3a. partira

Futuro do 1a., 2a. e cantarás, cantare-


RA (re)
presente 3a. mos

114 • capítulo 5
Desinências Tempo e modo Conjugação Exemplos

Futuro do 1a., 2a. e


RIA (rie) cantaria, partiríeis
pretérito 3a.

Presente do
E 1a. cante, cantem
subjuntivo

Presente do
A 2a. e 3a. corra, partam
subjuntivo

Imperfeito do 1a., 2a. e


SSE cantasse, partissem
subjuntivo 3a.

Futuro do 1a., 2a. e


R (re) cantar, partirem
subjuntivo 3a.

Obs.: estão entre parênteses as variantes das desinências.

Para as formas nominais, as desinências são: infinitivo -r, gerúndio -ndo,


particípio -do.

Quadro geral das DNPs

Pessoas e números
(presente do Desinências Exemplos
indicativo)

1a. pessoa do singular -o, -i, Ø canto, corro, parto, canta

2a. pessoa do singular -s, -ste, -es cantas, corres, partes, venderes

3a. pessoa do singular Ø, -u cantava, corria, partia

capítulo 5 • 115
Pessoas e números
(presente do Desinências Exemplos
indicativo)

cantássemos, corrêssemos, par-


1a. pessoa do plural -mos
tíssemos

2a. pessoa do plural -is, -des, -stes cantais, correrdes, partistes

3a. pessoa do plural -m, -em, -ram cantam, correrem, partiram

Obs.: geralmente não há desinência de 1a. pessoa do singular, exceto no


presente do indicativo em que ela é o.
Obs.: na 3a. pessoa do plural do futuro do presente do indicativo, ocorre di-
tongação e a nasalidade é indicada por til: cantarão, venderão, partirão.

Manuel Bandeira, em seu poema Neologismo criou um verbo, fazendo uso


de uma desinência verbal. Observe no excerto a seguir:
© Yael Weiss | Dreamstime.com

Neologismo

(...)
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

BANDEIRA, M. Antologia poética. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

CONEXÃO
Leia um artigo sobre a criação de verbos em -izar: <http://www.portrasdasletras.com.br/
pdtl2/sub.php?op=gramatica/docs/verbosterminadosemizar>.

116 • capítulo 5
5.6  Neologismos

Segundo Bechara (2009, p. 351), há uma necessidade de renovação do léxico


por meio da criação de novas palavras que ocorrem devido as múltiplas ativida-
des dos falantes para atender às necessidades culturais, científicas e da comu-
nicação de modo geral. Essas palavras renovadoras que atendem essas neces-
sidades chamam-se neologismos, os quais têm, do lado oposto ao movimento
criador, os arcaísmos, representados por palavras e expressões que, por diver-
sas razões, saem de uso e acabam esquecidas por uma comunidade linguística.
De acordo com o autor, os neologismos ou criações novas penetram na lín-
gua por diversos caminhos. Entre eles, por meio dos elementos (palavras, prefi-
xos, sufixos) já existentes no idioma, seja no significado usual, seja por mudan-
ça de significado, o que já é um modo de revitalizar o léxico da língua.
São várias as fontes de revitalização e, entre os procedimentos formais, des-
tacam-se a composição e a derivação prefixal e sufixal, tendo em vista a regu-
laridade e sistematicidade com que operam na criação de novas palavras. Os
empréstimos e calcos linguísticos, isto é, palavras e elementos gramaticais
(prefixos, preposições, ordem de palavras) tomados (empréstimos) ou traduzi-
dos ( calcos linguísticos) ou de outra comunidade linguística dentro da mesma
língua histórica (regionalismos, nomenclaturas técnicas e gírias) ou de outras
línguas estrangeiras, que são incorporados ao léxico da língua comum e exem-
plar são as outras fontes de revitalização lexical (BECHARA 2009, p. 351).
O autor destaca também que outra fonte de neologismos vem da criação de cer-
tos produtos ou novidades que recebem o nome de seus inventores ou fabricantes.

Observemos o poema abaixo de Manuel Bandeira

Neologismo
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, a verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1970.

capítulo 5 • 117
CONEXÃO
Para leitura completa do poema, acesse o link: <http://www.luso-poemas.net/modules/
news03/article.php?storyid=1511>. Acesso em 11/3/2013.

5.7  Afinal, o que é mesmo ortografia?

Um antigo professor de gramática já me ensinava que ortografia vem do grego


orthos (correto) e graphein (escrever), sendo, portanto, uma tendência para se
fixar um “sistema estrito de grafia”. Simplificando, ortografia seria a forma cor-
reta de se escrever.
Se pensarmos na linguagem coloquial, aquela do dia a dia, marcada pela
oralidade e pela informalidade, talvez a ortografia torne-se, até certo ponto, um
pouco irrelevante. No entanto, quando tratamos do registro escrito, dentro do
contexto da chamada norma culta, deve-se dar importância à ortografia e levar
em conta as recomendações para se produzir uma escrita padrão e dentro das
normas ortográficas vigentes.
Para falar a verdade, nem sempre as regras são claras. Algumas regras são
complexas e acabam dificultando a vida do usuário da língua. Por isso mesmo,
para muitos entusiastas do Novo Acordo Ortográfico, as novas regras simpli-
ficariam o nosso sistema ortográfico, mas há controvérsias! Muita gente boa
anda dizendo o contrário.
De qualquer modo, não dá para negar que os sistemas ortográficos são con-
vencionais e têm certo caráter de arbitrariedade, ainda que eles sejam baseados
em princípios fonéticos e etimológicos.

5.7.1  Acordo ou desacordo ortográfico?

Desde o início do século XX, tanto no Brasil quanto em Portugal, empreende-


ram-se esforços na busca de um modelo de ortografia que possibilitasse a con-
vergência ortográfica nas publicações oficiais e no ensino entre os dois países.
Em 1945, foi assinado um Acordo Ortográfico em Portugal, tornando-se vigente
apenas neste país, pois o Brasil não ratificou o acordo, preferindo manter o vo-
cabulário de 1943. Em 1986, teve lugar no Brasil nova tentativa de uniformiza-
ção, mas sem consenso.

118 • capítulo 5
ATENÇÃO
Os princípios fonéticos e etimológicos correspondem, respectivamente, à fonética e à etimologia.
A fonética estuda os sons de uma língua, ou seja, os sons vocais em sua natureza física e fisioló-
gica. A etimologia ocupa-se do estudo da origem das palavras.

Em 1990, depois de um longo trabalho desenvolvido por representantes de


Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal e São Tomé
e Príncipe, chegou-se ao Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, ao qual Ti-
mor aderiu em 2004. O texto do acordo, no entanto, não entrou em vigor, já que
não foi ratificado.
A CPLP (Comissão de Países de Língua Portuguesa), tempos depois, decidiu
que o Acordo poderia entrar em vigor, caso três países o ratificassem. Como o
Brasil ratificou-o em 2004 e Cabo Verde e São Tomé e Príncipe, em 2006, ele já
poderia tecnicamente ter entrado em vigor.
Portugal, depois de muito hesitar, aderiu ao Acordo. A Assembleia da Repú-
blica de Portugal ratificou o acordo em maio de 2008.
Agora, já estamos vivendo a vigência e aplicação do Novo Acordo Ortográfico,
embora haja um tempo de transição no qual convivem a antiga e a nova ortografia.
Entre gramáticos e linguistas, há opiniões e emoções tanto favoráveis quan-
to contrárias à vigência imediata do novo Acordo. Embora alguns critiquem as-
pectos do texto do Acordo e outros concordem com as mudanças propostas, há
uma atitude de cautela da parte de muitos estudiosos. A questão é basicamente
a seguinte: seria oportuno um Acordo neste momento? Não há outras priorida-
des educacionais com as quais o MEC deveria se preocupar?
Não é a intenção aqui apontar uma posição final sobre o assunto, nem mesmo
oferecer detalhada explicação de cada regra do novo Acordo. O espaço aqui é mais
para introduzir o assunto e apresentar alguns pontos do Novo Acordo Orográfico.

CONEXÃO
No link a seguir, você poderá ler o texto do Acordo na íntegra: http://www.abril.com.br/arqui-
vo/acordo_ortografico.pdf

capítulo 5 • 119
5.8  Acentuação gráfica

A sílaba mais forte de uma palavra recebe o acento de intensidade ou acento tô-
nico. O acento tônico nem sempre corresponde a um acento gráfico. Existem re-
gras que, por convenção, estabelecem em quais casos o acento tônico é marcado
graficamente. As regras de acentuação gráfica, portanto, estabelecem quando a
sílaba tônica de uma palavra é marcada graficamente e o tipo de acento gráfico.

O Acordo Ortográfico não alterou todas as regras de acentuação gráfica. É o


caso das regras referentes às palavras oxítonas e monossílabos tônicos. Confira
as recomendações quanto à acentuação gráfica.

ATENÇÃO
A sílaba tônica de uma palavra, na língua portuguesa, pode estar em três diferentes posições.
Cada posição corresponde a uma classificação. Quando a sílaba tônica é a última, a palavra é
oxítona. Se a sílaba tônica é a penúltima, a palavra é paroxítona. Quando a sílaba tônica é a ante-
penúltima, a palavra é proparoxítona. As palavras de uma sílaba são denominadas monossílabos
tônicos ou átonos de acordo com a intensidade que elas apresentam numa frase.

5.8.1  Monossílabos tônicos

São acentuados graficamente os terminados em a(s), e(s), o(s), éi(s), éu(s), ói(s).
Exemplos: pá, pé, sê, pó, pôs, dó, réis, céu, réu, rói.
As formas verbais têm e vêm são acentuadas graficamente em oposição às
formais verbais no singular tem e vem. Também é acentuado graficamente o
verbo pôr em oposição à preposição por.
Veja alguns exemplos:
Os alunos têm apresentado bons resultados. /O aluno tem apresentado
bom resultado.
Os turistas vêm nos visitar mais vezes quando são bem tratados. / O turista
vem nos visitar mais vezes quando é bem tratado.
É preciso pôr as contas em dia./ Ele disse que há muita coisa por fazer.

120 • capítulo 5
5.8.2  Palavras oxítonas

São acentuadas graficamente as palavras oxítonas terminadas em a(s), e(s),


o(s), em, ens.
Exemplos: crachá, você, até, cipó, avô, avós, alguém, contém (verbo conter),
parabéns, armazéns, reféns.
Também são acentuadas as oxítonas terminadas em ditongo aberto éi(s),
éu(s), ói(s).
Exemplos: anéis, fiéis, chapéu, herói.

5.8.3  Palavras paroxítonas

São acentuadas graficamente as paroxítonas terminadas em:


•  l: incrível, inflamável, útil, pênsil, móvel
•  n: íon, hífen, próton, sêmen, elétron
•  r: repórter, caráter, éter, mártir
•  x: tórax, ônix, látex
•  ps: bíceps, tríceps
•  i(s): táxi, lápis, grátis
•  us, um, uns: vírus, ônus, bônus, álbum, fórum, álbuns
•  ã, ãs, ão, ãos: ímã, órfã, órfãs, bênção, órgão, órfãos, sótãos
•  ditongos orais (seguidos ou não de s): água, árduo, jóquei, vôlei, cáries,
fáceis, inflamáveis, lírio, lírios, mágoas

A forma verbal pôde (3a pessoa do singular do pretérito perfeito do indica-


tivo do verbo poder) é acentuada graficamente para diferenciar-se de pode (3a
pessoa do singular do presente do indicativo).
O novo Acordo Ortográfico, no entanto, suprimiu o acento diferencial
de outras palavras, entre elas: para (verbo) e para (preposição); pelo/pelos
(substantivo) e pelo/pelos (verbo pelar e contração de preposição e artigo);
polo/polos (substantivo) e polo (contração arcaica de preposição e artigo),
coa/coas (verbo coar) e coa/coas (preposição + artigo).
O Acordo Ortográfico também alterou outras normas. Confira:
d) As palavras paroxítonas com ditongos ei e oi na sílaba tônica deixam de
ser acentuadas graficamente: ideia, boleia, assembleia, apoio (1a pessoa

capítulo 5 • 121
do singular do presente do indicativo do verbo apoiar), jiboia, europeia,
heroico (diferentemente de herói, que é oxítona).

e) As formas verbais terminadas por eem perdem o acento: creem, deem,


leem, veem, descreem, releem, reveem.

f) A vogal tônica do hiato oo deixa de receber acento gráfico: voo, perdoo,


povoo (verbo povoar).

g) Os verbos arguir e redarguir deixam de ser acentuados graficamente com


acento agudo na tônica u: tu arguis, ele argui, arguem, tu redarguis, ele
redargui, redarguem.

h) Não são acentuados graficamente os prefixos paroxítonos terminados


em r e i: inter-helênico, super-homem, semi-intensivo.

5.8.4  Palavras proparoxítonas

São acentuadas graficamente todas as proparoxítonas: cômodo, lâmpada, êxi-


to, líquido, mérito, trânsito.

5.8.5  Hiatos acentuados

Quando a segunda vogal de um hiato for i ou u e tônica, seguida ou não de s,


será acentuada: saúde, saída, proíbo, faísca, baú, viúva, juíza, juízo, país, Jaú,
Jacareí, Cabreúva, Luís.
Atenção! Se essas vogais tônicas do hiato forem seguidas de outras consoantes
ou nh, não haverá acento: Luiz, juiz, raiz, Raul, cairmos, contribuinte, sair, cauim.
O Novo Acordo Ortográfico alterou, nessa regra de acentuação do hiato, o
seguinte: se as vogais i ou u forem precedidas de ditongo, não serão mais acen-
tuadas graficamente. Veja como ficam agora algumas palavras que se incluem
nesse caso: feiura, Bocaiuva, baiuca.

5.9  Trema

O novo acordo ortográfico suprimiu completamente o trema em palavras por-


tuguesas ou aportuguesadas, permanecendo apenas em palavras estrangeiras.
Veja: linguiça, sequência, tranquilo, cinquenta, sagui, arguir, linguística.

122 • capítulo 5
5.10  Hífen

Provavelmente é no emprego do hífen que reside a maior dificuldade quanto


ao entendimento e aplicação das alterações do Novo Acordo Ortográfico. Em
muitos casos, o hífen foi abolido, em outros, ele passou a ser usado. Vejamos
então o que mudou e o que não foi alterado.

5.10.1  Uso do hífen com prefixos

Com os prefixos AUTO, CONTRA, EXTRA, INFRA, INTRA, NEO, PROTO, PSEU-
DO, SEMI, SUPRE e ULTRA somente devemos usar o hífen se a palavra seguinte
começar por “h”ou vogal igual à vogal final do prefixo. Antes do acordo, tam-
bém se usava o hífen quando a palavra seguinte começava por h, r, s e qualquer
vogal. O Novo Acordo mudou isso. Também é importante atentar para o fato de
que nas palavras iniciadas por r ou s, além de não mais se usar o hífen, é preciso
dobrar essas letras.
Auto-hipnose, auto-observação, autoadesivo, autoanálise, autobiogra-
fia, autoconfiança, autocontrole, autocrítica, autoescola, automedicação,
autopeça, autopiedade, autopromoção, autorretrato, autosserviço, autossu-
ficiente, autossustentável.
Contrabaixo, contraceptivo, contracheque, contradizer, contraespião, con-
trafilé, contragolpe, contraindicação, contramão, contraordem, contrapartida,
contrapeso, contraproposta, contrarreforma, contrassenso.
Extraconjugal, extracurricular, extraditar, extraescolar, extrajudicial, extra-
oficial, extraterrestre, extratropical.
Infracitado, infraestrutura, infraocular, infrarrenal, infrassom, infraverme-
lho, infravioleta.
Intracelular, intragrupal, intramolecular, intramuscular, intranet, intrao-
cular, intrarracial, intrauterino, intravenoso.
Neoacadêmico, neocolonialismo, neofascismo, neoirlandês, neoliberal,
neonatal, neorromântico, neossocialismo, neozelandês.
Protoevangelho, protagonista, protótipo, protozoário.
Pseudoartista, pseudocientífico, pseudoedema, pseudoproblema, pseu-
dorrainha, pseudorrepresentação, pseudossábio.
Semiaberto, semialfabetizado, semiárido, semibreve, semicírculo, semi-
deus, semiescravidão, seminu, semirreta, semisselvagem, semitangente, semi-
úmido, semivogal.

capítulo 5 • 123
Supracitado, supramencionado, suprapartidário, suprarrenal, suprassumo.
Ultracansado, ultraelevado, ultrafamoso, ultrajudicial, ultranacionalismo,
ultraoceânico, ultrapassagem, ultrarradical, ultrarromântico, ultrassensível,
ultrassom, ultrassonografia.
Com os prefixos ANTE, ANTI, ARQUI e SOBRE somente se usará hífen se a
palavra seguinte começar com “h”ou vogal igual à vogal final do prefixo. Pela re-
gra antiga, também se usava o hífen quando a palavra seguinte começava com
“s” e “r”.
Antebraço, antecâmara, antediluviano, antegozar, ante-histórico, antemão,
anteontem, antepenúltimo, anteprojeto, anterrepublicano, antessala, antevés-
pera, antevisão.
Antiabortivo, antiácido, antiaéreo, antialérgico, anticoncepcional, antide-
pressivo, antigripal, anti-hemorrágico, anti-herói, anti-horário, anti--imperia-
lismo, anti-inflacionário, antioxidante, antirrábico, antirradicalista, antissemi-
ta, antissocial, antivírus.
Arquibancada, arquidiocese, arqui-hipérbole, arqui-inimigo, arquimilioná-
rio, arquirrival, arquissacerdotal.
Sobreaviso, sobrecapa, sobrecomum, sobrecoxa, sobre-erguer, sobre-huma-
no, sobreloja, sobremesa, sobrenatural, sobrenome, sobrepasso, sobrerrenal.
Com os prefixos HIPER, INTER e SUPER, somente se usará hífen se a pala-
vra seguinte começar com “h”ou “r”.
Hiperativo, hiperglicemia, hiper-hidratação, hiper-humano, hiperinflação,
hipermercado, hiper-realismo, hiper-reativo, hipersensibilidade, hipertensão,
hipertrofia.
Interação, interativo, intercâmbio, intercessão, intercontinental, interdis-
ciplinar, interescolar, interestadual, interface, inter-helênico, inter--humano,
interlocutor, intermunicipal, inter-racial, inter-regional, inter- -relação, inter-
seção, intertextualidade.
Superaquecido, supercampeão, supercílio, superdosagem, superfaturado,
super-habilidade, super-homem, superinvestidor, superleve, supermercado,
superlotado, super-reativo, super-requintado, supersecreto, supervalorizado.
Com o prefixo SUB, somente será usado o hífen se a palavra seguinte come-
çar com “b”ou “r”.
subaquático, sub-base, subchefe, subclasse, subcomissão, subconjunto,
subdiretor, subdivisão, subeditor, subemprego, subentendido, subestimar,
subfaturado, subgrupo, sub-hepático, sub-humano, subjugado, sublocação,
submundo, subnutrido, submundo, suboficial, subprefeito, sub-raça, sub-rei-

124 • capítulo 5
no, sub-reitor, subseção, subsíndico, subsolo, subtítulo, subtotal.
Com o prefixo CO, somente será usado o hífen se a palavra seguinte come-
çar com “h”.
Coautor, cofundador, co-herdeiro, cosseno, cotangente, coobrigação, coo-
cupante, cooperar, coordenar.

Alguns prefixos sempre serão seguidos de hífen. Confira:


Além: além-mar, além-túmulo
Aquém: aquém-fronteiras, aquém-mar
Bem: bem-amado, bem-querer (exceção: bendizer e benquisto)
Ex: ex-senador, ex-esposa
Grã: grã-duquesa, grã-fino
Grão: grão-duque, grão-mestre
Pós: pós-moderno, pós-meridiano, pós-cabralino
Pré: pré-nupcial, pré-estreia, pré-vestibular
Pró: pró-britânico, pró-governo
Recém: recém-chegado, recém-nascido, recém-nomeado
Sem: sem-número (inúmeros), sem-terra, sem-teto, sem-vergonha
Vice: vice-diretor, vice-governador

Conforme o novo acordo, os pseudoprefixos ou prefixos falsos serão segui-


dos de hífen se a palavra seguinte começar por “h” ou por vogal igual à vogal
final do prefixo falso. Veja a lista.
AERO: aeroespacial, aeronave, aeroporto
AGRO: agroindustrial
ANFI: anfiartrose, anfíbio, anfiteatro
AUDIO: audiograma, audiometria, audiovisual
BI(S): bianual, bicampeão, bigamia, bisavô
BIO: biodegradável, biofísica, biorritmo
CARDIO: cardiopatia, cardiopulmonar
CENTRO: centroavante, centromédio
DE(S): desacerto, desarmonia, despercebido
ELETRO: eletrocardiograma, eletrodoméstico
ESTEREO: estereofônico, estereofotografia
FOTO: fotogravura, fotomania, fotossíntese
HIDRO: hidroavião, hidroelétrico
MACRO: macroeconomia

capítulo 5 • 125
MAXI: maxidesvalorização
MEGA: megaevento, megaempresário
MICRO: microcomputador, micro-onda
MINI: minidicionário, mini-hotel, minissaia
MONO: monobloco, monossílabo
MORFO: morfossintaxe, morfologia
MOTO: motociclismo, motosserra
MULTI: multicolorido, multissincronizado
NEURO: neurocirurgião
ONI: onipresente, onisciente
ORTO: ortografia, ortopedia
PARA: paramilitares, parapsicologia
PLURI: plurianual
PENTA: pentacampeão, pentassílabo
PNEUMO: pneumotórax, pneumologia
POLI: policromatismo, polissíndeto
PSICO: psicolinguística, psicossocial
QUADRI: quadrigêmeos
RADIO: radioamador
RE: reposição, rever, rerratificação
RETRO: retroagir, retroprojetor
SACRO: sacrossanto
SOCIO: sociolinguístico, sociopolítico
TELE: telecomunicações, televendas
TERMO: termodinâmica, termoelétrica
TETRA: tetracampeão, tetraplégico
TRI: tridimensional, tricampeão
UNI: unicelular
ZOO: zootecnia, zoológico

Confira, também, os casos em que o hífen deve continuar sendo usado:


•  Para dividir sílabas: or-to-gra-fi-a, gra-má-ti-ca, ter-ra, per-do-o, ál-co-ol,
ra-i-nha, trans-for-mar, tran-sa-ção, su-bli-me, sub-li-nhar, rit-mo.
•  Com pronomes enclíticos e mesoclíticos: encontrei-o, recebê-
-lo, reunimo-nos, encontraram-no, dar-lhe, tornar-se-á, realizar-se-ia.
•  Antes de sufixos -(GU) AÇU, -MIRIM, -MOR: capim-açu, araçá-guaçu, ara-
çá-mirim, guarda-mor.

126 • capítulo 5
•  Em compostos em que o primeiro elemento é forma apocopada (BEL-,
GRÃ-, GRÃO- ...) ou verbal: bel-prazer, grã-fino, grão-duque, el-rei, arra-
nha-céu, cata-vento, quebra-mola, para--lama, beija-flor.
•  Em nomes próprios compostos que se tornaram comuns: Santo-Antô-
nio, Dom-João, Gonçalo-Alves.
•  Em nomes gentílicos: cabo-verdiano, porto-alegrense, espírito--santen-
se, mato-grossense.
•  Em compostos em que o primeiro elemento é numeral: primeiro-minis-
tro, primeira-dama, segunda-feira.
•  Em compostos homogêneos (dois adjetivos, dois verbos): técnico-cientí-
fico, luso-brasileiro, azul-claro, quebra-quebra, corre-corre.
•  Em compostos de dois substantivos em que o segundo faz papel de adje-
tivo: carro-bomba, bomba-relógio, laranja-lima, manga-rosa, tamanduá
-bandeira, caminhão-pipa.
•  Em composto em que os elementos, com sua estrutura e acento, perdem
a sua significação original e formam uma nova unidade semântica: copo-
de-leite, couve-flor, tenente-coronel, pé-frio.
O GLOBO

ATIVIDADE
1.  Identifique as desinências modo-temporais nas formas verbais desta letra de música.

Tempo rei

Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos
Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
Água mole
Pedra dura

capítulo 5 • 127
Tanto bate que não restará nem pensamento
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei
Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas de repente ficam sujas
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei
Gilberto Gil
© Gege Edições Musicais Ltda. (Brasil e América do Sul) / Preta Music (Resto do mundo).

REFLEXÃO
Nesta capítulo, aprofundamos os conhecimentos sobre outra classe de palavras com papel
fundamental nas orações: o verbo. Vimos as flexões, as vozes e os tempos compostos da
voz ativa. Vimos também como os tempos verbais são formados. Aprofundamos os conheci-
mentos sobre os neologismos e sobre o Novo Acordo Ortográfico. Espero que todos esses
conhecimentos tenham contribuído para a sua formação e que os auxiliem na sua jornada
profissional e pessoal.

128 • capítulo 5
LEITURA
Se você quiser se aprofundar no estudo dos verbos, um bom livro é a arte da conjugação dos
verbos em português, de Ivone C. Benedetti, da Editora Martins Fontes.
Outro livro muito bom para consulta é a gramática de Maria Aparecida Ryan, conjugação dos
verbos em português: prático e eficiente, publicado pela Editora Ática.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BECHARA, E. Moderna gramática portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.

CEGALA, D. P. Novíssima gramática da língua portuguesa. São Paulo: Naci onal, 2005.

CEREJA, W. R.; MAGALHÃES, T. C. Gramática reflexiva: texto, semântica e intera-


ção. São Paulo: Atual, 2005.

MESQUITA. Roberto Melo. Gramática da língua portuguesa. São Paulo: Saraiva, 1998.

SACCONI, L. A. Nossa gramática: teoria e prática. São Paulo: Atual, 1999.

EXERCÍCIO RESOLVIDO
Capítulo 1
Observem a letra desta música de Caetano Veloso:

Língua
Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar a criar confusões de prosódia
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa

capítulo 5 • 129
E sei que a poesia está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior?
E deixe os Portugais morrerem à míngua
“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?

Vamos refletir?
Dentre as várias acepções sobre o termo língua: “um sistema de signos que
exprime ideias”, “uma coleção de dados”, “resultado da interação de dois com-
ponentes: o estágio inicial, comum à espécie, e aquilo que vai sendo aprendido
com o ambiente linguístico”:

a) Como você analisa a letra desta música de Caetano Veloso?


Resposta pessoal.
Entre as várias possibilidades de interpretação, apresentamos as seguintes, extra-
ídas de

http://literatortura.com/2013/09/cancao-lingua-caetano-veloso-minucioso-trata-
do-lingua-portuguesa/ de Luiz Antônio Ribeiro

Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões


A canção começa, não por acaso, com a palavra “gosto”, que pode remeter também ao gostar
no sentido comum, de ter preferência por algo, como também do sentido do paladar – língua
como parte do corpo e não como apenas linguagem, objeto da fala, o que é criado no hori-
zonte de expectativa criado por Caetano.
Gostar de roçar a língua de Luís de Camões é quase uma celebração sexual do encontro
das duas pontas de nossa língua: a falada pelo poeta português escritor d’Os Lusíadas, prin-
cipal formatador do que conhecemos como Língua Portuguesa, com aquilo que se tem de
mais contemporâneo: a música popular e a língua do rap.

E quero me dedicar a criar confusões de prosódia


E uma profusão de paródias
Que encurtem dores

130 • capítulo 5
E furtem cores como camaleões

Eis a função do poeta: confundir prosódias, ou seja, tipos de fala, sotaques, ritmos, acentos,
misturando tudo em um amálgama poético. Profundir paródias, também uso do poeta, está
ligado ao fato do Caetano, entre outras coisas, se utilizar do rap para contar sua história da
língua.

Deixe os Portugais morrerem à míngua


“Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!

“Minha Pátria é minha língua” é uma frase do poema do O Livro do Desassossego de Bernar-
do Soares, heterônimo de Fernando Pessoa, no qual ele diz que seu apego não está ligado
à nação, à pátria como um território, uma terra, que tudo isso lhe pode ser retirado, mas sua
língua é sua grande referência de sentimento nacional, de pertencimento. Por isso, em língua,
“minha pátria é minha língua” se resume apenas em “Fala Mangueira”, para dar voz à nossa voz.

b) Como você interpreta os seguintes versos:


“Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua? ”
Última Flor do Lácio é como ficou conhecida nossa Língua Portuguesa. As línguas neolatinas
são todas conhecidas como línguas do “lácio”, região europeia. O termo chega até nós pelo
poema de Olavo Bilac, lembrando que o português é chamado de inculto justamente por
que vem do latim vulgar:

“Última flor do Lácio, inculta e bela,


És, a um tempo, esplendor e sepultura”

1.  Discuta a definição de Morfologia


Morfologia é definida neste capítulo como o ramo da linguística que trata das palavras em di-
ferentes usos e construções. Trata da estrutura interna das palavras, dos seus constituintes,
significativos mínimos ou morfemas. Há um consenso entre os autores citados de que se
trata do estudo da forma, mas esse conceito é ampliado como sinônimo de plano da expres-
são, em oposição a plano de conteúdo. Nesse caso, a forma compreende dois níveis de rea-
lização: os sons, destituídos de significados, mas que se combinam e formam unidades com
significado; e as palavras, as quais tem regras próprias de combinação para a composição de

capítulo 5 • 131
unidades maiores. A discussão proposta no capitulo pelas autoras é acerca da interpretação,
do foco a respeito da unidade fundamental para representar a correlação entre o plano da
expressão e o do conteúdo. Esse papel pode ser atribuído ao morfema. Portanto, temos duas
unidades distintas como possíveis centros de interesse para os estudos da morfologia. Essa
diferença no que diz respeito à unidade em que está centrado o estudo morfológico, se no
morfema ou na palavra, redunda de maneiras diferentes de focalizar a morfologia.

2.  Estabeleça a diferença entre Morfologia derivacional e flexional


Enquanto a morfologia flexional (ou gramatical) estuda as relações entre as diferentes
formas de uma mesma palavra, isto é, o seu paradigma flexional, sendo a flexão uma
variação de caráter morfossintático, uma exigência da concordância verbal ou nominal.
Antigamente fazíamos longas viagens.
Há uma relação de dependência entre fazíamos e nós (concordância na primeira pessoa
do plural). Observamos também a concordância do advérbio antigamente e o emprego do
pretérito imperfeito do indicativo em fazíamos.
Por outro lado, a morfologia lexical trata da estrutura das palavras e dos seus processos
de formação; das relações entre paradigmas diferentes.
Veja o exemplo abaixo para compreender melhor:
Jogador se relaciona derivacionalmente com jogar, por meio do sufixo derivacional - dor.
O mesmo podemos dizer de beleza que se deriva de belo por meio do sufixo derivacio-
nal - eza. As formas jogar e jogador, belo e beleza são palavras distintas, pertencentes
a paradigmas distintos.

Texto

Oficina

Aprendiz de poeta,
Vou tecendo meu verso
Com os fios da esperança
E as vozes da memória.

Tecelã do irreal,
Projeta a realidade
Nas tramas da palavra.

132 • capítulo 5
Na aspereza das fibras,
O ressonar do rio
E a ciranda dos heróis.

Na superfície intacta,
O voo livre do pássaro
Descreve o infinito.
(LAROCA, Maria Nazaré de. Sem cerimônia. Juiz de fora,
Edição do autor, 1985, 2ª edição:2000)

3.  Identifique, nos exemplos retirados do poema, os fenômenos da flexão e


derivação.
a) esperança (esperar) derivação sufixal
b) vozes (voz) flexão número
c) tecelã (tecelão) flexão gênero
d) irreal (real) derivação prefixal
e) realidade (real) derivação sufixal
f) aspereza (áspero) derivação sufixal

Capítulo 2

1.  Leia este artigo que mostra a trajetória de uma família de palavras que tem
origem no mero ato de esticar:
Com a corda bem esticada
Mário Eduardo Viaro
Leitura do texto e reflexão pessoal

Capítulo 3

Leia o poema Neologismo, de Manuel Bandeira, e observe que há uma preocu-


pação não só com a fonologia, mas também com a morfossintaxe e a semântica.
Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras

capítulo 5 • 133
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Os neologismos, ou criações novas, penetram na língua por diversos caminhos. O primeiro


deles é mediante os elementos (palavras, prefixos, sufixos) já existentes no idioma, quer no
significado usual, quer por mudança do significado, o que já é um modo de revitalizar o léxico
da língua.
No poema de Manuel Bandeira temos a criação de um novo vocábulo que é o verbo tea-
dorar, formado por meio da união de um pronome pessoal do caso obliquo (te) e do verbo
adorar, resultando no verbo teadorar. Observamos que há uma preocupação neste poema,
não apenas com a fonologia, mas também com a morfossintaxe e a semântica, uma vez que
a morfossintaxe trata da análise morfológica e sintática, realizada simultaneamente. Quando
falamos em análise morfológica referimo-nos as classes gramaticais enquanto a análise sin-
tática faz referência às funções desempenhadas por uma dada palavra, estando ela inserida
num contexto oracional.

Capítulo 4

1.  Observe a presença dos pronomes neste excerto da música de Caetano Ve-
loso e faça uma breve análise sobre o uso dos pronomes pessoais do caso
reto e oblíquo e justifique o uso do demonstrativo esse no primeiro verso.

.Ah! Que esse cara tem me consumido


A mim e a tudo que eu quis
Com seus olhinhos infantis
Como os olhos de um bandido
Ele está na minha vida porque quer
Eu estou pra o que der e vier
Ele chega ao anoitecer...
Caetano Veloso

1.  Observe a presença dos pronomes neste excerto da música:


Nesse poema, podemos observar a presença de vários pronomes, conforme segue:

134 • capítulo 5
a) esse – pronome demonstrativo
b) me – pronome pessoal do caso obliquo
c) mim- pronome pessoal do caso obliquo
d) seus – pronome possessivo
e) ele- pronome pessoal do caso reto
f) minha- pronome possessivo
g) eu – pronome pessoal do caso reto

2.  Faça uma breve análise sobre o uso dos pronomes pessoais do caso reto e obliquo. Os
pronomes pessoais do caso reto têm a função de sujeito da oração, portanto temos no
poema, dois sujeitos: eu e ele.
Eu = que aceito tudo, que sou submissa
Ele = Que a consome, que chega quando quer....

Entre esses sujeitos há a presença dos pronomes que indicam posse, os pronomes
possessivos: seus olhinhos... minha vida....

Esses sujeitos se inter-relacionam ao longo do poema denotando um sentido de posse.


É um sujeito que a consome.
Com relação aos pronomes oblíquos, estes exercem a função de complemento do verbo,
de objetos da oração.
Vejamos o exemplo:
Que esse cara tem me consumido.
Esse cara= ele = sujeito tem consumido a quem? A ela (me) objeto do sujeito.

3.  Justifique o uso do demonstrativo esse no primeiro verso.


Os pronomes demonstrativos referem-se as pessoas do discurso:
Este para a primeira pessoa
Esse, para a segunda pessoa, com quem se fala
Aquele, para a terceira pessoa, de quem se fala.
Neste caso, esse, refere-se a segunda pessoa do discurso, com quem se fala: com ele.

capítulo 5 • 135
Disponível em: <http://letras.mus.br/caetano-veloso/144566/> Acesso em 5/4/2013.

2.  Observe esta estrofe retirada da música O Quereres de Caetano Veloso e


identifique um adjetivo no grau superlativo.
(...) Eu queria querer-te amar o amor
Construir-nos dulcíssima prisão
Encontrar a mais justa adequação
Tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés
E vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero (e não queres) como sou
Não te quero (e não queres) como és
Ah! bruta flor do querer
Ah! bruta flor, bruta flor (...)

Neste poema, temos o adjetivo doce, que se encontra no grau superlativo absoluto sintético:
dulcíssimo.

Capítulo 5

1.  Identifique as desinências modo-temporais nas formas verbais desta letra


de música.
Tempo rei Gilberto Gil
Não me iludo
Tudo permanecerá do jeito que tem sido
Transcorrendo
Transformando
Tempo e espaço navegando todos os sentidos
Pães de Açúcar
Corcovados
Fustigados pela chuva e pelo eterno vento
Água mole
Pedra dura
Tanto bate que não restará nem pensamento
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver

136 • capítulo 5
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei
Pensamento
Mesmo o fundamento singular do ser humano
De um momento
Para o outro
Poderá não mais fundar nem gregos nem baianos
Mães zelosas
Pais corujas
Vejam como as águas de repente ficam sujas
Não se iludam
Não me iludo
Tudo agora mesmo pode estar por um segundo
Tempo rei, ó, tempo rei, ó, tempo rei
Transformai as velhas formas do viver
Ensinai-me, ó, pai, o que eu ainda não sei
Mãe Senhora do Perpétuo, socorrei

© Gege Edições Musicais Ltda. (Brasil e América do Sul) / Preta Music (Resto do mudo).

a) Permanecerá – desinência MT Futuro do presente do indicativo


b) Restará – desinência MT Futuro do presente do indicativo

capítulo 5 • 137

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