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AUTOR OE O

i É

pensamento
P A U L B R U N T O N

UM EREMITA
NO HIMALAIA

Prólogo do
Príncipe Mussooree Shum Shere
Jung Bahadur Rana, do N E P A L

Tradução de
G I L B E T R O BERNARDES DE OLIVEIRA

EDITORA PENSAMENTO
SÃO PAULO
ÍNDICE

Prólogo "

Prefácio da Primeira Edição Inglesa 13

I. A Filosofia da Amizade. No Himalaia em Lombo de Pónei.


Meu Bangalô no Cume da Montanha. 17

II. Expedição Planejada ao Monte Kailas, no Tibete. O Es-


plendor de uma Montanha Coberta de Neve. Descubro
o "Refúgio". 28

III. Meditação Sobre o Domínio Inglês na Índia e Sobre a Luta


Política. A Necessidade de Espiritualizar a Política. O
Controle dos Pensamentos. Um Segredo da Concen-
tração. 40

IV. Minha Procura da Quietude Interior. A Recordação de


Nascimentos Anteriores. Um Método Budista para Rea-
vivar Recordações Pré-Natais. O Objetivo da Natureza
com Relação à Humanidade. E m Unidade com a Natu-
reza. 50

V. Visita Inesperada de Dois Iogues. Peregrinos e Santuários


no Himalaia. O Poder da Quietude. 61

VI. Um Apanhado da Minha Correspondência. Um Quase-Sui-


cídio e a Minha Resposta. Ajuda Telepática a Estu-
dantes. 73

VII. Reflexões Acerca do Futuro do Tibete. As Experiências de


Sir Francis Younghusband. O Destino do Oriente e
do Ocidente. 83

VII. Uma Missivista Decreta Minha Retirada do Mundo. As


Virtudes da Ociosidade e da Solidão. O Novo Testa-
mento. Jesus e Seus Críticos. 94

IX. A Tempestade. Os Precursores das Monções. Meus Visi-


tantes Animais. A Questão das Roupas. 108
Y Mais uma Visita de um Iogue. Suas Venturosas Viagens
de Cachemira até o Monte Kailas. Suas Andanças no
Tibete Ocidental. Como seu Mestre Vivia Nu na Neve.
Explicações do Feito. i l 9

YT Filosofia e Divertimento. Reflexões Acerca do Sr. Charles


Chaplin. Sua Arte Silenciosa e seu Génio. A Neces-
sidade de Modernizar a Ioga. A Inviabilidade do Asce-
ticismo. Algumas Verdade Acerca de Sexo e Ioga. 136

Ml Uma Incursão Sagrada na Quietude. As Expedições Alpi-


nistas e seu Significado. 151

XIII. Encontro com uma Pantera. O Problema da Crueldade da


Natureza. 160

XIV. Visita de um Príncipe Nepalês. Curiosa Experiência com


um Faquir e um Espírito. Exploramos o Lindo Vale
de um Rio. Aventura com um Elefante Enfurecido.
O Budismo no Nepal. Krishna e Buda Comparados. 167

XV. Minhas Vigílias Noturnas ao Ar Livre. Reflexões sobre as


Estrelas. A Verdade Acerca da Astrologia. O Mistério
de Sírio. Os Planetas são Habitados? O Simbolismo
do Sol. O Cedro do Himalaia Fala. Adeus ao meu
Bangalô. 185

XVI. Parto Novamente a Cavalo. Maravilhoso Panorama no


Estado de Tehri. Minha Viagem Através de Cristas
e Trilhas Montesas. Atravessando as Florestas na
Escuridão. Chego a Pratapnagar. 197

XVII. Os Nevados Gigantes do Himalaia. O Ataque de um Urso. 208

XVIII. As Delícias de Beber Chá. Como Começam as Tempes-


tades das Monções. 217

Epílogo 225
Adeus, mundo ingrato, vou-me embora!
Amigo meu não és, nem teu sou.
Muito tempo entre a turba vaguei,
Qual barca perdida no oceano;
Mero joguete muito tempo fui;
Mas agora, mundo ingrato, vou-me!

Adeus digo à vil bajulação;


À ríspida e fútil soberbia;
À vã arrogância da fortuna;
À toda sorte de servilismo;
Aos salões, às cortes e às ruas;
Aos empedernidos e apressados;
Aos que de cá e de lá correm.
Adeus, mundo ingrato, vou-me embora!

Vou-me de volta à minha morada,


Em verdes colinas isolada, —
Canto secreto em país ameno
Cujos bosques fadas planejaram,
Onde sorri a vida sem cessar
Ao canto alegre da passarada,
E pés profanos jamais pisaram,
Recanto sagrado a Deus c ao mundo.

Posto a salvo em seu refúgio


Espezinharei o antigo orgulho,
E estirado sob os pinheirais,
Onde brilha a vespertina estrela,
Rir-me-ei das humanas histórias,
Dos escolásticos e letrados,
Que eles nada são em sua altivez,
Pois nas matas se pode achar Deus.

Ralpb Waldo Emerson


PRÓLOGO

Pelo
PRÍNCIPE MUSSOOREE SHUM SHERE
JUNG BAHADUR RANA,
do
- -t NEPAL

Proporciona-me grande satisfação escrever estas palavras introdutórias


a este derradeiro livro do amigo Paul Brunton. O cenário está colocado
ao longo da famosa cadeia de montanhas que separa a índia da Ásia
Central. As cristas e picos que o autor descreve, tais como conheceu no
Estado de Tehri, não são senão uma continuação do meu querido Himalaia
nepalês. Nascido que sou nestas montanhas, tenho grande afeição pelo
Himalaia e os momentos que passei lendo a seu respeito, nas palavras
originais e atraentes de Brunton, foram dos mais auspiciosos.

Tão-somente aqueles que foram criados entre as cordilheiras revestidas


de florestas e os picos recobertos de neve do Himalaia saberão que o autor
não superestimou aquela região; simplesmente lhe fez justiça. O Himalaia
será sempre o mais estupendo panorama de toda a Ásia, digo de todo o
mundo.
Antes de deixar as montanhas, o autor fez-me uma visita de alguns dias
e, durante a sua estada, mostrou-me o manuscrito de Um Eremita no Hima-
laia. Foi apenas então que descobri ali algumas páginas dedicadas á minha
improvisada visita ao seu refúgio, quando a amizade levou-me a montar a
cavalo e atravessar as cristas, em procura do amigo a quem considero como
um profeta espiritual de nossos tempos.

Tivesse eu sabido que sua poderosa memória compilava em silêncio


e segredo notas sobre tudo quanto eu dizia, provavelmente teria sido mats
cuidadoso em minhas manifestações! Pois eu não sabia que ele fazia um
diário onde registrava, nos momentos de folga, pensamentos, fatos e conver-
sações. Felizmente, estou seguro de que sua discrição não lhe permitirá
publicar assuntos que não sejam do interesse público.

9
Este novo livro, sendo apenas um diário, é para mim mais interessante
revelada por um crítico de nascimento ocidental no tocante ao país em
do que uma obra laboriosamente composta, pois, necessariamente, tem um que estava vivendo.
clima de intimidade e franqueza que, de hábito, se pode encontrar apenas
nos jornais e diários. A obra conduz o leitor ao mais imo do pensamento A opinião do citado crítico merece tanta aceitação quanto a de um
bronco pugilista profissional acerca de um precioso vaso chinês da dinastia
do talentoso escritor. Este me disse que, ao reler as páginas antes de
Ming.
mostrar-mas, achou-as "terrivelmente egoístas" e sentiu ímpetos de enterrá-
las sob as montanhas em que tinham sido escritas. Assegurei-lhe porém que Posso testemunhar pessoalmente que não há na índia apenas os
o egoísmo é componente essencial de quaisquer memórias e que estas memó- iogues, descritos no livro de Brunton, vale dizer, homens possuidores de
rias de sua vida no Himalaia não carecem daquela qualidade que confere dons sobrenaturais, poderes maravilhosos e altaneira espiritualidade, mas
renovado interesse e encanto à literatura, conquanto possa ser repugnante também outros igualmente raros que não foram mencionados. No entanto,
em sociedade. o europeu médio e o hindu de educação ocidental encararam com indife-
rença e desprezo as declarações do autor, provando com isso que não foram
Durante a estada que ê o tema deste livro, Paul Brunton foi, creio
iniciados nos mais valiosos conhecimentos do mundo e na mais cara das
eu, o único homem branco a viver no pouco conhecido Estado de Tehri.
tradições secretas da Ásia.
Certamente, poucos europeus se dariam ao trabalho de isolar-se em monta-
nhas bravias e agrestes, longe dos centros civilizados, como ele fez. Não Como nepalês, pertencendo a um povo que rigidamente vem mantendo
obstante, estou certo de que ele obteve sua recompensa, pois mesmo durante seu país em total independência e sobranceira exclusividade, posso também
o curto período em que lhe fiz companhia sou obrigado a dizer que os dias asseverar que essas antigas tradições de sabedoria mística têm sido preser-
pareciam maravilhosos: a gente se sentia apartado das cruas realidades do vadas nestes redutos montanheses do Nepal muito melhor do que na própria
viver cotidiano e arrebatado por um mundo de sonhos, paz e espiritualidade. índia. Mas apenas aqueles que procuram com tanta seriedade como o
autor podem esperar penetrar na sociedade e nos segredos dos verdadeiros
A este último respeito parece-me que suas ideias gerais, conforme Sábios da Ásia. O crítico de Calcutá não mereceria atenção, não fossem
expressas neste e em outros livros, são particularmente adequadas a orien- inúmeros preconceitos igualmente injustos sempre a manifestar-se. Assim
tação das pessoas ocidentais e do crescente número de orientais que adotam é que tenho ouvido europeus descreverem as pesquisas realizadas pelo
a maneira de viver e de pensar do hemisfério ocidental. Pessoalmente, acho autor no Egito como "Mero sensacionalismo de Jornal"! Uma vez mais,
mais fácil compreender muitas intrincadas sutilezas de nossas próprias trata-se de uma confissão de ignorância. Essas pessoas ou não chegaram
filosofias e técnicas espirituais asiáticas, inclusive a Yoga, quando explicadas a conhecer Paul Brunton ou, caso tenham chegado a conhecê-lo, não se
por Brunton, à sua maneira científica, racional, moderna e imparcial, do permitiram compartilhar da sua vida interior, como a mim foi dado
que quando explicadas à maneira tradicional, tão distante da compreensão fazer. Aqueles que de fato o conhecem — coisa difícil de conseguir, sou
do século vinte. forçado a reconhecer — sabem que sua sinceridade é indiscutível e que
Encontram-se numerosas passagens nas escrituras da maior parte das seus sacrifícios materiais para descobrir a fugidia verdade por detrás da
religiões onde se menciona o Espírito falando por diversas formas, por vida têm sido grandes. Poucos realmente o conhecem e a incompreensão
meio de diferentes idiomas e a homens diferentes. Estou convencido dc parece ser a sua sina preceituada e aceita.
que Brunton é um dos instrumentos eleitos para reinterpretar a sabedoria Sinto-me feliz com a oportunidade de prestar um pequeno favor ao
semiperdida do Leste para aqueles que foram apanhados na vida mecânica meu amigo, escrevendo esta introdução. Que a mensagem muito necessária,
do Oeste, e servir com isso a Sua causa. cuja luz interior brilha através das páginas que se seguirão, leve consigo
Um livro como este destina-se àqueles que vêem com bons olhos ou as bênçãos dos modestos Sábios do Sagrado Himalaia!
desejam a vida interior do Espírito. Posso avaliar a profunda ignorância
do critico que, num determinado jornal de direção europeia de Calcutá,
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existência_ de qualquer espiritualidade na índia,


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e, por fim, ridicularizou


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a pretensão do autor de entregar-se a tais pesquisas. Os melhores jornais


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PREFÁCIO DA P R I M E I R A EDIÇÃO INGLESA

Para que os leitores não pensem erradamente que este é


um novo livro, que rompi um silêncio de muitos anos através
desta manifestação, apresso-me em dizer-lhes que não é assim.
Este livro foi escrito há mais tempo do que me é agradável
lembrar. As folhas saíram do prelo em Madras, em cujas proxi-
midades eu me encontrava na ocasião, e circularam na forma de
livro. Uma pequena porção delas foi mandada para a Inglaterra
e ali distribuída também sob a forma de livro, mas logo desapa-
receu. Um Eremita no Himalaia nunca foi reimpresso, apesar
dos pedidos.
Embora eu nunca tenha voltado à mesma região do Himalaia
Central descrita na obra, os azares da guerra levaram-me, na
verdade, àquelas estupendas montanhas, primeiramente o seu
extremo oriental, nas fronteiras de Sikkim, e, depois, ao extremo
ocidental, dando vista para o Pequeno Tibete.
Nunca mais me foi possível esquecer a grandiosidade sufo-
cante daquelas fieiras intermináveis de cumes rebrilhando ao sol
a perderem-se céu a dentro, nem os sons alegres de apressados
regatos que serpenteiam no chão de vales elevados e pedregosos.
Era inevitável que alguns dos pontos de vista segundo os
quais as reflexões contidas nesse diário foram escritas se modifi-
cassem pelo desenvolvimento interior e acúmulo de experiência
trazidos pelo correr dos anos. Porém, o ponto de vista genérico
permanece substancialmente o mesmo, isto é, a necessidade de
conquistar a paz espiritual recuperando o domínio da mente e
do coração. Não faz muito tempo que retornei do Oriente e da
vida tropical para voltar a viver no hemisfério ocidental, mas
tudo quanto tenho visto e ouvido nestas bandas convence-me de
que tal necessidade é hoje em dia mais urgente e imperiosa do
que o era quando da feitura deste diário. Se o mundo está em
estado de pasmo e confusão diante dos seus problemas, isto se
, w em parte ao fato de que nós, ocidentais, fizemos da atividade A tranquila passividade que o indivíduo dispõe-se a alcançar
um deus Resta-nos ainda aprender como ser, da mesma forma irá, eventualmente, aumentando até chegar a um ponto em que
p2a quai aprendemos como fazer. o pensamento pára e o cérebro se esvazia. Nesse silêncio interior
Precisamos de um oásis de calma neste mundo tempestuoso. penetra, não se sabe como, a sublime consciência do E u Superior.
Ocasiões há em que refugiar-se com tal propósito deixa de ser Aqueles que passam um espaço de tempo suficiente na busca
deserção e se transforma em sabedoria, deixa de ser fraqueza e mística, com perseverança e orientação suficientes, verificam ser
se transforma em fortaleza. Se nos afastamos durante algum ela infinitamente inspiradora por que os liga — por mais débil
tempo a fim de proceder a uma revisão em nossas metas, se e momentaneamente que seja — com um poder infinito, uma
usamos o tempo e o lazer para acalmar nossas agitações e aguçar sabedoria infinita, uma bondade infinita.
nossas intuições, então, com certeza, não estamos obrando mal. O fruto de tais meditações vem na forma de breves visões
da beleza floral da alma. Embora esse fruto, na maior parte dos
No entanto, não advogo a reclusão rural ou monástica com
casos, não se faça ver senão por poucos minutos, sua florescência
outros propósitos que não os de conseguir uma ajuda temporária
perdura e volta à memória durante muitos anos a seguir. Apenas
e fortuita de grande valia, porque a verdadeira batalha tem de
o adepto, aquele que viajou bem longe na sua jornada ao interior
ser travada dentro do nosso próprio ego, exatamente no ponto
de si mesmo, tem o poder de voltar a qualquer momento, e ao
em que o aspirante se encontra. Toda vez que enfrenta com
sabor da sua vontade, à serena beatitude dessa alta consciência.
sucesso as contingências impostas pela vida mundana tem o
homem uma oportunidade de fazer um. avanço não apenas no
P. B.
terreno da consciência e da compreensão, mas também, e de
modo muito especial, no do caráter. É-lhe oferecida uma forma
rápida de transformar seu caráter para melhor. O erro que Taneiro de 1949
supõe a crença mística e a prática da meditação convenientes
apenas aos ascetas, frades e homens santos ou então aos excên-
tricos, neuróticos e aleijões (e a eles restrita) é dos mais sérios.

O antigo mundo da pré-guerra, onde viajar era fácil, já não


existe. A despeito dos aviões, o Himalaia parece hoje mais
remoto a qualquer cidadão inglês do que o era quando, pela
primeira vez, entrei em seus domínios multicoloridos sob um
céu turquesa. Aquele que hoje em dia busca um retiro não pode
ir muito longe, talvez não possa ir muito além de um estado
vizinho. Na verdade, nestes dias de carência de acomodações,
muitas vezes lhe é negada a intimidade de um quarto. Estará
então fechado o caminho? Não. Continua aberto a todos os
homens, se bem que de uma forma diferente. Uma meia hora,
roubada as atividades do dia ou ao descanso noturno, reservada
para meditar na própria casa, dará, em última instância, bons
resultados Sugestão útil para os que não conseguem em casa
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14
CAPÍTULO I

Filosofia da Amizade - No Himalaia em Lombo de


pónei - Meu Bangalô no Cume da Montanha

A ÚLTIMA etapa da minha jornada logo estará terminada


Depois de semanas viajando de forma irregular, desde que deixei
para trás o tórrido triângulo da Índia meridional, esta noite irei
para a cama com a agradável consciência de que possivelmente
se passará um bom espaço de tempo antes que o rolo de cober-
tores marrons e lençóis brancos torne a ser afivelado no seu
invólucro de lona.
Não que a viagem em si não se tenha constituído em agra-
dável novidade. Até mesmo a queda gradual da temperatura é
benéfica ao corpo queimado de sol, ao passo que a extensa suces-
são panorâmica de quadros e lugares excita a curiosidade de um
intelecto esfalfado. O europeu experimenta aqui uma sensação
de liberdade, um sabor de alívio, ao chegar cansado das planícies
sufocantes, sobre as quais o calor estival se abate como uma
rútila mortalha.
Melhor do que tudo, já se teve o prazer de reencontrar
velhos amigos e fazer novas amizades. É bem verdade que um
homem que baseia suas amizades na afinidade espiritual e não
nos vínculos do interesse nem nas ligações mundanas, não pode
esperar contá-las em grande número, pois os ditames do E u
Superior têm de ser obedecidos e os diferentes graus de compre-
ensão (e, como frequentemente me é dado observar, de incom-
preensão) propriamente ditos erguem barreiras intransponíveis
entre aqueles a quem Deus não uniu no prazer da amizade.
Quando pondero agora na variedade de algumas das aparên-
cias exteriores sob as quais encontrei essa afinidade, durante a
presente viagem, espanto-me diante das possibilidades com que
a vida nos presenteia tão logo comecemos a trilhar os caminhos
do Eu Superior, conquanto o façamos de maneira intermitente
mentalidade mais mundana, mas isso não nos impede de nos
e mal definida. - ,
sentirmos perfeitamente à vontade em presença um dos outros.
Um comerciante de óculos, mercador de custosas sedas, cuja
) 0 homem precisa estar preparado para tocar a vida em muitos (
loia o destino colocou no meio de um concorrido bazar; um i lados, se é que deseja realmente viver; até mesmo um grande f
J e intelectualizado editor adjunto de um jornal, o qual Pregador não se pejou de confraternizar com os pecadores repu- V
discorre sobre política e economia, enquanto eu me delicio com diados e desprezados deste mundo; no entanto, o homem deve
uma bebida gelada; um operário analfabeto que moureja de sol sempre agir assim quando a atração interior for mútua e espon-
a sol a semana toda, em troca de um salário magérnmo e cuja tânea, e não em caso contrário. Não raro as mais espantosas
trágica pobreza ilustra para mim a verdade de que aqueles que mudanças da vida acontecem por essa forma. Uma das primeiras
suaram na batalha da vida, mas nunca sangraram, nao sabem pessoas que Cristo induziu a dar à vida o devido valor ou, em
realmente o que esta significa; um nobre marajá de meia-idade linguagem popular, salvou-lhe a alma, não era um respeitável
que pertence à época vitoriana no seu sólido zelo pela contenção esteio da autoridade e virtude cívica, mas uma prostituta.
moral e nas suas melancólicas observações acerca da decadência Quando eu visitava uma certa cidade, depois de uma ausên-
que rapidamente se apossa das gerações mais novas; um jovem cia de alguns anos, um amigo ofereceu-se para dar uma festa em
mestre-escola inglês que, com olhos jovens e entusiasmo abra- minha homenagem, a fim de permitir-me "conhecer as figuras de
sador, está tentando arrancar os métodos educacionais da anti- proa da cidade". Recusei-me solenemente. Não tenho nenhum
quada rotina em que os encontrou; um poderoso e dominador desejo de conhecer as figuras de proa de qualquer cidade. Ade-
ministro, cujas habilidades transformaram-no em figura central mais, por que tanto trabalho! Eu já tinha feito um pouco de
do governo de um grande estado hindu e cuja prosa fluente forne- jornalismo e um pouco, assim o espero, de literatura de melhor
ce-me estímulo intelectual; o guia espiritual de uma fraternidade qualidade. Já tinha feito algumas pesquisas pouco comuns.
religiosa hindu que, benevolamente, ignora as diferenças de Apenas isso. Muitos homens tinham feito outro tanto e muito
crença, na profunda consideração que nos une um ao outro; um mais ainda. Seria justo dar uma festa quando eu tivesse reali-
iogue paupérrimo que medita em forças misteriosas, sentado à zado algo de grande valia, quando tivesse galgado o Himalaia
margem do Ganges, nas proximidades de Rishikesh, essa cidade da alma e atingido o seu alto cume. E temo que, se tal coisa
chegar a acontecer, as figuras de proa da cidade não quererão
única em que eremitas, frades e peregrinos fazem sua morada,
conhecer-me pessoalmente!
permanente ou provisória: com grande calma, ele me conta como
separou o espírito do corpo e conseguiu presenciar cenas na Há ainda outros que eu gostaria de reencontrar, mas, infeliz-
longínqua Calcutá e até mesmo ouvir o rumor do tráfego lon- mente, o tempo não espera. Não ouso mandriar na minha jor-
drino, enquanto contemplava as águas do rio! Há também uma nada rumo ao norte. Pois tenho uma meta, um objetivo, que
jovem dama bengali que atingiu excepcional grau de realização para mim é da mais alta importância.
espiritual e cujo semblante lembra o rosto pleno de beatitude
de Sta. Teresa, enquanto sentada com os olhos semicerrados em
meio a um grupo de devotos; um delgado e arcado maometano * *
de barbas grisalhas que me guia através dos encardidos becos e
bazares de Delhi até a Jumma Masjid, a maior mesquita da índia,
onde então me fala das suas aventuras da mocidade durante a Por isso eis-me sentado numa sela, a cavaleiro de um sólido
sua peregrinação a Meca e a seguir me conta dos seus prepara- pónei montês, ouvindo o bimbalhar dos sinos dos seus arreios e
tivos para um outro tipo de peregrinação, sua partida deste deslocando-me em marcha lenta pelas trilhas escorregadias e
mundo. E simpático este velhinho, pois não hesita em mesclar íngremes que me conduzem para o ar rarefeito das cristas do
um pouco de humor à sua filosofia. Himalaia. Seria falso dizer que nós ambos não estamos cansados
e não veríamos de bom grado a parada final, nem que a fieira
Há muitos outros, conhecidos ou desconhecidos, que de
modo '-- de carregadores cules, sob a chefia do meu criado, que me segue
muito íntimo cruzaram meus caminhos; talvez sejam de

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o erra de quilómetro e meio de distância, transportando bagagens transportar pesadas cargas em sacos colocados de viés sobre o
e provisões, não ficaria contente de receber o seu pagamento seu lombo e tão compridos que obrigavam a manter-se distan-
estLlado e dispersar-se. Até mesmo o pónei desenvolveu o ciado da parte interna da trilha, para que a carga não roçasse na
hábito infeliz e desagradável de desviar-se estupidamente para a rocha daquele lado.
beirada externa da trilha, onde uma ravina perigosa e pontilhada
de troncos esparsos de árvores, mil metros abaixo parece espe- O sol bateu o dia todo, com um calor surpreendente para
rá-lo como um abismo de mandíbulas escancaradas; na parte mim; trata-se, no entanto, de um calor tolerável e não cansa-
interna a trilha leva à parede perpendicular das rochas nas quais tivo, algo deveras parecido com a temperatura de um bom agosto
foi escavada. Seria extremamente fácil o animal despenhar pela do verão europeu. E m comparação com o calor enervante e
temível encosta muito mais ligeiro do que tinha subido e estate- terrível das planícies escaldantes é, sem dúvida, paradisíaco.
lar-se finalmente no chão. A ideia de escorregar ladeira abaixo Numa curva da espiralada trilha montesa, que sobe cem
até a ravina nâo me pareceu particularmente sedutora. Persiste cessar, todo um novo panorama de extasiante beleza cénica é
e muitas vezes vem à tona o sentimento de que devo controlar revelado aos meus olhos atónitos. Que a natureza possa juntar
meu rumo com firmeza. Por essa razão puxo com frequência picos ciclópicos e cristas montanhosas de forma tão generosa e
a rédea esquerda, mas o obstinado pónei, com igual frequência, sob formas tão indiscriminadas é algo que dóceis olhos europeus
encabeça para a borda do precipício, enquanto eu balanço na mal podem acreditar. Olhe-se para onde for, em qualquer direção
sela! Não consigo perceber que poderoso engodo o chama para que seja, é-se prontamente enclausurado pelos gigantes hima-
a destruição, mas não me move nenhuma intenção de acompa- laios. A nordeste, um reino de neves eternas, a colossal e alta-
nhá-lo encosta abaixo no seu destino iminente.
neira barreira que mantém o Tibete com um estranho segregado
Por que o animal quereria renunciar à sua existência terrena e cheio de suspeitas num posto em amistosa comunicação por
em pleno viço não o sei realmente, mas esta tarde fiz bambalear todos os meios concebíveis, entesa seus flancos cinzentos fendidos,
propositadamente sua pata dianteira sobre a beirada do preci- seus ombros revestidos de branco e sua cabeça de um azul-
pício, com o resultado de que ele escorregou e tropeçou, mandan- -nevado para o céu, distanciando-se das umbrosas ravinas que
do-me ao chão com um baque, um quadril esfolado e um ombro lhe ficam na base. Enormes massas de neve macia e reverberante
dolorosamente deslocado. Julguei então chegado o tempo de brilham nos seus altos. Para o leste, uma fileira comprida e
termos os dois uma conversa franca e tentei mostrar à melan- irregular de cumes revestidos de florestas e contrafortes espi-
cólica criatura o seu óbvio erro de conduta ao costear precipícios cha-se em renques intermináveis, até perder-se no horizonte
com tanta obstinação. distante. A oeste, vejo a meus pés grandes gargantas boscosas,
de um verde-oliva mesclado de marrom, que se encontram e
unem num vasto cálice de pedra e terra, milhares de metros
* #

a conversa surtiu algum efeito, porque o


pónei ergueu um pouco a tristonha e bela cabeça e dali em abaixo. Quanto ao sul, só me cabe erguer a cabeça e torcer o
diante conservou os pés em terra firme. Cuidei que ele colocasse pescoço, ao contemplar o pico elevado do majestoso rochedo de
os cascos no chão com mais cautela e não mais voltamos a ficar granito vermelho que se agiganta sobre a cabeça do meu pónei,
separados do terrível despenhadeiro por um mero fio de cabelo, há poucos metros apenas dos flancos do animal, e que domina a
i remiei o pónei mais tarde com duas colheradas do meu precioso paisagem próxima.
açúcar outrora, ai de mim!, tão encontradiço, que crescia maciça- Toda essa pletora de cristas corcovadas, separadas por fendas
cuid Z! a m , mas que devia agora ser
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profundas, picos alcandorados e ravinas de agudos recortes, espa-


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que os meus víveres não
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lha-se confusamente, com uma cadeia desmembrando-se da outra
o meu chá não se tornasse e

totalmente intragável ao paladar. ou correndo paralelamente a ela durante algum tempo e depois
era a ^ e t n r ^ ^ ^ ° * e j á v e l hábito do pónei
q U e i n d e desviando-se numa tangente e voltando a encontrar-se subita-
nerança de um ancestral tibetano de carga, que costumava mente mais adiante.
0
Os cartógrafos devem ter passado por maus bocados neste jamor que emana do Ser Supremo. As montanhas resplandecem
amontoado de interminável confusão, creio eu, muito piores do
de beleza; uma beleza que não pertence a elas mas a Deus.
os que enfrentaram em meio as fazendas niveladas das prada-
Toda a viagem transformou-se num glorioso símbolo poético. A
rias sern fronteiras nas planícies. As alturas ergueram-se aqui ao
procura do Santo Graal é a sua divina realidade.
acaso e de qualquer maneira. Nada existe aqui de euclidiano,
nem um vestígio sequer da geométrica disposição de Nova Iorque. Os pés do meu pónei deslocam-se sem firmeza sobre as
pedras limosas, rochas esboroadas e fragmentos de granito deslo-
É estranho recordar neste ponto que todo o Himalaia gira cados que intermitentemente juncam o caminho, tendo caído das
com este nosso globo terrestre em torno do Sol a uma velocidade encostas acima. Aqui e acolá manchas irregulares de grama
de mais de cento e noventa quilómetros por segundo. sobrevivem no solo pedregoso. Por vezes, a trilha chega mesmo
No entanto, o rústico encanto destes paramos torna-os mais a exibir com orgulho umas poucas flores. Encontra-se aqui tanto
atraentes do que qualquer outro cenário natural que eu tenha cravos-de-defunto quanto hortelãs.
visto. Recebo agradecido o presente da natureza. Os deuses A caminho passo por uma cena curiosa. Um cule está
que fizeram esta terra deveriam estar ébrios de beleza. A beleza transportando uma dama num engraçado cesto cónico atado às
selvagem do cenário suplanta a imaginação. Inspira a mente e suas costas. O marido da passageira vem atrás. Ambos pere-
soergue a alma. Fosse eu um Shelley e de pronto tornar-me-ia grinam em demanda de algum santuário do Himalaia, embora
lírico diante desta região, mas, desgraçadamente, não sou. Pois não tenha tomado a estrada costumeira. A dama não está
o senhorial Himalaia existe dentro de uma aura de completa enferma, mas o esforço de subir escarpadas encostas é demasiado
solidão que é inefavelmente cheia de paz e inspiradoramente para ela.
grandiosa. Nestes planaltos do Himalaia desponta o verdadeiro Uma fonte brota lentamente sobre a trilha, saindo de uma
encanto do alpinismo; a civilização fica tão longe, as cidades abertura na parede maciça da encosta recoberta de vegetação.
tão distantes e a serenidade está tão presente. Eles encerram Ela cria uma poça rasa e a seguir descai pelo flanco do abismo.
uma sensação de eternidade, embora haja cordilheiras de monta- O pónei estaca subitamente, baixa a cabeça e, sedento, mete o
nhas ao sul que são muito mais antigas. As tremendas alturas focinho na poça. Se eu não houvesse pressentido o que o animal
respondem, talvez, por essa sensação. Aqui a gente se encontra iria fazer, poderia ter sido facilmente cuspido da sela e atirado
cara a cara com o mistério universal propriamente dito, não ao fundo do faminto despenhadeiro. Mas tomei a precaução de
oculto sob a fachada de cidades gregárias construídas pela mão desmontar antecipadamente!
do homem, mas revelando sua face calma e desafiadora de maneira
Daquele ponto em diante a trilha mantém-se mais ou menos
direta e assumindo sua forma mais selvagem. O Himalaia corpo-
em nível e nos deslocamos em ritmo mais ligeiro. Não obstante,
rifica as grandes forças da natureza.
em razão da natureza encaracolada do terreno, somos obrigados
a nos desviar consideravelmente do rumo, contornando picos e
atravessando vales; não existe a possibilidade de tomar atalhos.
Abetos florescem por aqui, sobre os flancos da montanha,
e são mantidos em férreo abraço por trepadeiras que crescem em
Continuamos a subir pela estreita trilha. Os caminhos íngre- torno dos seus troncos. De uma feita, vejo um solitário rodo-
mes do Himalaia são aparentados com os íngremes caminhos da dendro incendiado de flores rubras e de outra uns poucos conglo-
própria vida. Mas aventuro-me pela áspera trilha com música merados de botões de flores.
nos ouvidos. Deus me chama. Cavalgo não apenas para o Hima- Eventualmente, o Sol principia seu fatal declínio, o calor
laia, mas para o próprio céu. Abandonei um mundo apenas para se abranda rapidamente, um palor amarelo e lustroso toma conta
da paisagem e o céu se transforma em âmbar transparente.
nem^nT ™ n d
- Nenhum sofrimento me sobreveio,
o m e I h o r

nem pode me sobrevir, pois teria primeiro de penetrar na região De quando em quando um abutre esvoaçante ou uma águia
do meu coração e isso é impossível. O ar é impregnado de doce vara o céu turquesa em demanda das suas etéreas moradas. Noto
22
2i
flKiitre não voa desajeitadamente como as,demais aves
L s Plana exatamente como um avião. Ele se equilibra nas mam-se em prata sob os raios lunares e os troncos das árvores
parecem esculpidos em pedra congelada. Há algo de suma-
L e plana macio para cima e para baixo.
mente sobrenatural na cena do pálido luar esbateando os gigantes
Ouço o cuco uma vez. Seu canto faz-me pensar na prima- do mundo. Penso ser cerca de nove horas, mas não posso afir-
vera europeia. má-lo com precisão, porque o meu relógio de pulso espatifou-se
O ocaso acarreta uma rápida mudança nas cores. Os p j c o s no desagradável acidente e daí por diante estou condenado a
e penhascos de um branco diáfano que se erguem rumo ao céu viver desligado do tempo até retornar à civilização. Não será
são agora aquecidos pelos raios que se vão e transformam-se em nenhuma perda irreparável, conjeturo sardonicamente, pois o
massas de coral e rosa; mas isso é apenas passageiro. A descida tempo e eu podemos muito bem nos separar durante alguns meses.
do Sol que morre transforma o prateado gelado das neves de cor A Terra terá de girar dali por diante desapercebida em sua cami-
em cor, enquanto tinge as cristas mais baixas recobertas de verde nhada diuturna. Ademais, para mim é melhor ter levado uma
de uma tonalidade amarelo-alaranjada. O vermelho resvala para queda de um metro ao invés de um tombo de um quilómetro.
o ouro e o ouro volta ao amarelo. E quando os derradeiros Mostrando em silhueta contra o negro pano de fundo do céu,
raios desaparecem, as cores quentes abandonam também a serrania que agora se enche rapidamente com os primeiros conglomerados
e as neves assumem uma brancura de giz. O palor torna-se mais de tremeluzentes estrelas que chegam com suas jóias como embai-
pronunciado e termina num branco-acinzentado. xatrizes da noite, encontra-se o elevado terraço de picos que
O por do Sol, infelizmente, não é senão um breve intervalo cruza transversalmente a extremidade da nossa rota e bloqueia
intercalado entre o dia e a noite no Leste, mas aqueles poucos o vale. É como uma fileira de pirâmides. Cada qual é agora
momentos cheios de cor são preciosos para mim. como um titã fantasmal, grande, sombrio, porém de uma beleza
Logo uma mortalha de vacuidade envolve toda a paisagem. inegável. Cada qual zomba desta insignificante criatura a cavalo
que ousa invadir-lhes o reino silencioso. Porque o Himalaia,
Mas a Lua ergue-se cedo por detrás das cordilheiras e, afortuna-
nesta luz misteriosa, converte-se na fabulosa terra dos gigantes.
damente, trata-se de um belo crescente, de modo que podemos
Aqui os contos de fadas que alegraram a nossa infância podem
enxergar com clareza sob os seus raios, tão logo os meus olhos
muito bem tornar-se realidade. Com muita propriedade, descubro
se habituam à escuridão que se alastra. Não obstante, quando o
de repente, no horizonte oeste, o lindo agrupamento das Plêiades
caminho, após curvas e mais curvas, nos traz afinal aos altos de
na constelação zodiacal de Touro. Não há povo antigo que não
uma crista recoberta de matas, encontramo-nos rodeados da mais
cultive a lenda dessas sete filhas de Atlas que foram alçadas aos
completa escuridão e mal podemos seguir por entre as árvores.
céus e transformadas em estrelas.
Por fim saímos uma vez mais à luz prateada e uma vez mais o
meu pónei tem diante de si uma estirada de cinco quilómetros Sigo em frente com maior ansiedade. Por sorte, o luar é
de trilha montesa visível. suficiente para nos guiar, porque constato que a natureza florestal
da região poderia facilmente fazer-me perder o rumo e forçar
A maior vantagem prática de tal trilha, pondero amarga- desnecessariamente o meu pónei em caminhadas inúteis. E isto,
r
"IS? u
m
f ° Possibilidade de nos
0 t Õ e S j q U C n ã e x i s t e a confesso-o envergonhado, acontece. Adiantamo-nos cerca de
íft ! ° P ™ n t e porque não há a Í Z a Ç ã s i m l e s quinhentos metros e, súbito, um sentimento desconfortável e
mal i ô e A ^ ? '
S$ld
° - f"*te ou voltar,
S l n a l Í Z Ç ã 0 P d e s e i r e m crescente de estar errado toma conta de mim e me obriga a
se s a l 1 , ° « ™ ~ * ™enos q «
l f C m q U a l q U C r U t r a à i desmontar e virar a cabeça do pónei na direção da qual tínhamos
IruZs n r Í T " í " ° ° Perpendiculares ou descer
e m e r c h e d S vindo. Minha lanterna elétrica jaz esquecida no fundo da baga-
c ^ f T q « errar numa h t 6 Í t 0 m e l h o r d o gem. Não há outra saída senão fazer uma lenta e cuidadosa
^ J ^ n h
° C C l
™ d
^ c i l do que a gente
a > n d e n a d a é i s exploração a pé. Depois de assim proceder, descubro que a
trilha quase flanqueia o topo da crista num determinado ponto,

^undo^masm!! ^ * ° ' Atravessamos um


Íma

tantasmal, monstruoso, porém lindo. As folhas transfor-


**** j r n a d a
onde foi feita uma pequena clareira na densa floresta e cobre
as faldas da montanha de alto a baixo.

24
Prendo o animal a uma árvore e galgo a breve e escarpada cinco quilos. Contudo seu regime alimentar é constituído, no
encosta até o alto. Ali, rebrilhando palidamente ao luar, estão mais das vezes, apenas por arroz e ervilhas secas, com um pouco
as naredes caiadas de um bangalô solitário, engastado no seio de de leite para rebater).
uma região selvagem, porém arcádica, situada bem na crista das A gente fica a cismar quanta carne e quantas refeições
montanhas! Cheguei ao meu novo lar. diárias seriam necessárias a um carregador europeu para suportar
Uns poucos passos além da construção levam-me à beira de tal tarefa. Os meus cules faziam uma refeição pela manhã e
uma outra garganta profunda, a qual confina com a face sul da uma outra, muito ligeira, bem mais tarde. Esses duros indígenas
cordilheira. Positivamente, serei obrigado a caminhar com cautela são capazes de suportar mais calor e frio, pesos e escaladas, do
nestas paragens, no futuro! que faz supor a sua magreza.
Uma vez mais premiei o pónei que, a despeito do seu legado E u me antecipo às suas exigências de baksheesh, dando-lhes
de doridas contusões à minha pessoa, tinha-me transportado com uma quantia que faz calar o seu loquaz chefe. Eles dormirão um
êxito até aquele domicílio único e pitoresco. Nesta ocasião enter- curto sono, contam-me, e partirão antes do nascer do dia, levando
rei a mão mais fundo no bolso do casaco e ele engoliu com avidez consigo o pónei.
a generosa porção de açúcar que lhe dei. Meu criado abre as camas de lona. Cansados e empoeirados
Um vento frio sopra das neves e viro a gola do meu casaco. como estamos, não familiarizados com o local, não temos tempo
No alto, o céu cintila em toda a sua beleza. Planetas correm para inventariar o ambiente, mas, passando por cima de tudo o
o firmamento com brilho sobrenatural. As estrelas, no seu alto mais, entregamos nossos corpos àquela misteriosa, porém sempre
céu, parecem amontoados de diamantes adornando os cabelos benvinda condição que o mundo costuma chamar de sono.
coroados da noite.
Agora sento-me à margem do caminho a fim de esperar
pacientemente pelo grupo de carregadores dos quais eu me
distanciara algumas horas antes. Caio num devaneio noturno até
que, depois de algum tempo, sou despertado por gritos de boas-
-vindas. Uma vez mais o sentimento gregário se reacende em
mim e alegro-me de que estejamos todos juntos novamente.
Conto a caravana de cules, acrescento o meu criado e verifico
que estão todos sãos e salvos, ao cabo da viagem. Seus rostos
alegres sorriem comigo quando os informo em tom descuidado:
— Somos sete! — e acrescento alguns versos de um certo poema,
mas eles não se dão conta de uma sutil alusão de Wordsworth.
Talvez imaginem que estou cantando um cântico aos meus estra-
nhos deuses, dando graças pela minha chegada, mas não sei ao
certo.
A bagagem é levada para dentro do bangalô. Malas são
abertas, fósforos e velas são encontrados e a cerimónia do paga-
mento aos carregadores é efetuada. São homenzinhos peludos e
bem construídos, pertencentes a tribos das montanhas. São
notavelmente fortes e robustos. Os cules recrutados entre a sua
classe sao capazes de transportar nas costas, dia após dia, uma
carga de cinquenta quilos (não que eu pretendesse impingir-lhes
uma carga tao desumana; eles transportaram em média vinte e

26
verdadeira, não poderia sê-lo agora. Estou pronto a crer que o
finado mostrou-se realmente numa forma levemente fosforescente
uma ou duas vezes, num esforço para conservar suas raízes nesta
Terra, mas não estou pronto a crer que ele continua aqui. Fan-
tasma algum pode manter-se por muito tempo nestes ares sadios
de montanha nem existir sem tornar-se miseravelmente solitário
CAPITULO I I
e inteiramente entediado pela falta de quem o aprecie. Que
incentivo pode esperar um pobre fantasma nesta morada solitária,
que permanece fechada e sem usuário anos e anos a fio? Todo
Expedição Planejada ao Monte Kailas, no Tibete - O fantasma que se preza precisa de uma plateia. E que plateia
Esplendor de Uma Montanha Recoberta de Neve - poderia haver aqui — os ventos? Não — ele precisa de compa-
Descubro "O Refúgio" nhia, a fim de que seus nervos se mantenham em bom estado.
Com toda certeza constatarei a improcedência da advertência.
E no que consistirão minhas atividades? A principal será
ALGUM DIA um cientista nos dará a matemática do sono, ficar quieto! Estou falando sério. Trata-se, na verdade, é forçoso
calculando com aproximação de ínfimas frações o quociente entre admitir, de uma estranha ocupação, a mais estranha a que já
o grau de cansaço e o período de inconsciência. Mas, qualquer me propus desde que o meu navio levantou âncora e voltou a
que seja o quociente apresentado ao curioso, estou certo de que proa às costas britânicas; não é decerto uma ocupação pela qual
será obrigatória uma revisão dos números no que tange aos mora- me pagarão sequer uma rupia. No entanto, essa é a pura verdade,
dores dos altiplanos do Himalaia. a única coisa que me fez apartar-me do grosso dos homens e
instalar-me por uns tempos neste pouco frequentado reino do
Porque nós ambos acordamos depois de um sono mais breve Himalaia. Não conto com passagens excitantes, situações de
do que o normal, sentindo-nos porém mais descansados e dispos- arrepiar os cabelos ou perigos, nesta minha nova aventura.
tos do que até então. Talvez o ar puro e fresco, quando inalado,
Uma mescla de sentimentos vários passa por mim. A um
ajude o corpo a restaurar suas funções exaustas mais rapidamente
só tempo sinto-me estimulado, amedrontado e reconfortado.
do que em outras circunstâncias. De qualquer forma começamos
as atividades do dia bem cedo e tivemos de acender uma luz Estimulado, porque acredito que alguma parte de mim "pertencia"
enquanto esperávamos o romper da aurora, momento em que a este lugar, e na verdade viveu feliz nestas paragens em alguma
os picos surgem indistintos contra um céu azul-ferrete e os raios vida terrena anterior. Amedrontado, porque recordo que há
solares sobrevêm para tingir o horizonte nevado. mais de sessenta picos na grande cadeia do Himalaia com mais
de oito mil metros de altura, que tremendas massas tempestuosas
Percorro o bangalô. Trata-se de uma construção simples e e relâmpagos azulados que jamais se aquietam, constantemente
elementarmente mobiliada, tal como convém a uma solitária açoitam estes deuses cobertos de neve, gelidamente apartados do
residência de montanha. Três conjuntos de portas duplas abrem mundo dos humanos. Reconfortado, porque embora a natureza
para o meu quarto, um vindo da sala de jantar, outro do banheiro seja notoriamente inóspita para com o homem nestas regiões,
(nao ha paredes ladrilhadas nem vasos de porcelana; apenas um um sentimento de proteção divina imperiosamente afasta qual-
quarto nu com uma tina de zinco para banhos frios), e o terceiro quer temor, tão logo este surja.
abrindo diretamente sobre a floresta. A luz entra através de
vidraças colocadas na última porta. Será difícil, entre estas montanhas eternas, equilatar o valor
do tempo e, consequentemente, permitir que o cérebro dispare
aue f Í m ã
V q U e
l e S
f - Súbito, lembro-me de
i a 0 m e u n o v o l a r
sem descanso.
dou l i " , d
* d
* nial-assombrado, mas não
e q u e 0 l u a r e r

1 Fica calado e sabe que eu sou Deus! L


™ l o r ,m
P°'tancia à advertência. Mesmo que outrora fosse
É uma frase da Bíblia Hebraica. Ela incita-me a ir para o nróorio Buda aos seus seguidores como um local digno de ser
Himalaia, não como um explorador ou pesquisador, mas apenas escolhido por aqueles que desejam meditar e chegar ao Nirvana.
para cessar minhas atividades externas e tranquilizar minha mente Assim como o cimo gelado do Olimpo ocultava os deuses helé-
até chegar à mais completa placidez. Nem mesmo devo continuar nicos dos olhares profanos, assim também a cobertura nevada
meus antigos trabalhos de meditação, aconselha ela, apenas do Monte Kailas oculta, segundo a crença, os espíritos dos Budas
permanecer calado! já falecidos.
Não deverei procurar aventuras externas, nem mesmo aven- Os tibetanos dão-lhe o nome de Kang-Rinpoche, "a jóia de
turas interiores. Deverei aceitar a natureza como tutora, amal- neve". O famoso iogue medieval, Milarepa, entregava-se a medi-
gamar meu espírito com o silêncio absoluto do meio e permitir tações numa gruta desse monte.
que todos os meus pensamentos se desfaçam em nada. Deverei Existe uma estrada de peregrinação para Kailas através de
transformar-me num paradoxo vivo, buscando atingir uma ordem
Almora, mas escolhi um caminho mais comprido e difícil por ser
de ser mais elevada, seguindo o curioso método de não fazer
menos frequentado e mais variegado. Viajar através das suas
nada! Em suma, o ditame do salmista, a que estou obedecendo
como uma imposição, deverá ser tomado ao pé da letra. tranquilas solidões, tão distantes das tensões das gentes e dos
lugares, será viajar rumo .da sanidade e da serenidade, deixando
Assim, na minha fome pela presença divina, parti para a para trás um mundo doido e difícil.
viagem rumo ao norte, mal sabendo onde meus pés iriam descan-
sar. Pois a grande cordilheira do Himalaia | deve medir de ponta É certo que haverá perigos em plena jornada, no coração
a ponta cerca de dois mil e quatrocentos quilómetros. Onde, bravio do Trans-Himalaia, mas a ideia pouco me preocupa.
dentro desse mundo estranho, poderei encontrar um local suficien- Aprendi na escola da experiência que o escudo protetor da Provi-
temente solitário e adequado para que eu me amalgame com o dência acompanha o homem que se lança numa empreitada de
meio ambiente? objetivos mais altos do que ele próprio.
Desde tempos imemoriais os mais notáveis dos iogues
hindus, sábios e santos têm recorrido às cristas revestidas de
florestas e às cavernas tachonadas de pingentes gelados do Hima-
laia, a fim de meditar e residir em cenários harmoniosos. Imitar,
portanto, esses homens seria seguir uma boa tradição. Kailas transforma-se na minha Canaã, na minha terra prome-
tida. Mas em Nova Delhi, onde os fios do governo central se
Meu primeiro pensamento dirige-se para o gelado Monte encontram e são atados numa unidade ordenada, descubro que
Kailas, no lado tibetano. É o local mais sagrado da Ásia tanto não me permitirão cruzar a fronteira do Tibete. O Monte Kailas
para os hindus quanto para os budistas de todo o continente.
é demasiado sagrado para que os tibetanos permitam seja visi-
O que Roma é para os católicos, o que Meca é para os maome-
tado por europeus infiéis e, de acordo com algum artigo do pacto
tanos, o que Jerusalém é para os judeus, isso é o monte Kailas
de 1908, os ingleses garantiram não conceder permissão a euro-
para os asiáticos. Ele é o monte da salvação, morada dos deuses
peus desejosos de violar a santidade do lugar com a sua presença.
e residência dos anjos. O Nirvana está entronado entre os seus
pingentes de neve. Sei que não se trata de mera superstição, pois O tempo é precioso. Apelo para o Vice-Rei.
há profundas razões de ordem esotérica que sustentam tal tese.
Sua Excelência leu meu livro A índia Secreta e, como conse-
Terá a nossa imaginação se tornado tão pobre e limitada que já
quência imediata, fez uma visita de inspeção a Dayalbagh, a
nao pode conceder lugar na vida e espaço no mundo para os
cidade que é uma cooperativa em bases espirituais e a cujo
velhos deuses? Será o Monte Olimpo apenas um sítio estéril
respeito escrevi um capítulo. Ademais, Sua Excelência ficou tão
para nos, quando para os antigos era um local tão bem povoado?
Us deuses trocam de nome em função dos povos, mas não mudam satisfeito com aquilo que viu, que o fundador da cidade, Sahabji
em si mesmos. Ademais, o Monte Kailas foi recomendado pelo Maharaj, recebeu um título honorífico quando da proclamação
da Lista de Honrarias do Ano Novo.
30
Mas a resposta à minha solicitação de uma licença esneei 1
a cortês expressão de pesar porque os tibetanos opõem ,
foi u m existe ainda uma forma pela qual poderei fazer a viagem, seguro
enazmente a visita de qualquer europeu ao local sagrado. de chegar ao meu destino.
tenaz."'»-" . 1
„ j «f í.
Telegrafo para o Secretario de Estado da índia, em Londres Sua sugestão é que eu me disfarce de iogue, pinte o rosto
Fie está a par das minhas pesquisas; manifesta sua solidariedade e as mãos de uma cor apropriada e use o manto amarelo caracte-
e sabe do tato. da compreensão e discrição que me caracterizam rístico. Ele próprio cuidará do resto e me acompanhará ao
no tocante aos sentimentos religiosos dos orientais. longo de todo o trajeto. Garante-me que me fará transpor incó-
A resposta é franca e sincera. Seria embaraçoso para 0 lume a fronteira do Tibete e chegar até o Monte Kailas, uma
eoverno britânico fazer um pedido às autoridades tibetanas , q u e vez que tem amigos por todo o caminho.
com toda certeza, seria recusado. E , mais do que isso, o simples
Recuso a oferta. Sinto que seria "jogo sujo" para com os
fato do pedido ser encaminhado através daquela via em nada amigos do governo que tinham confiança em mim. A peregri-
me ajudaria com relação à viagem. nação teria de ser feita com honra ou simplesmente cancelada.
O governo estará preparado, todavia, para obter uma licença Ademais, poderiam surgir desagradáveis complicações políticas.
a fim de que eu possa cruzar a fronteira do Tibete e fazer uma
Existe uma derradeira esperança, um último trunfo que eu
expedição de Kalimpong, perto de Darjeeling, ao longo da estrada
estava reservando para um caso de extrema necessidade.
comercial de Lhasa, mas tão-somente até Gyantse. Nada mais
do que isso. Um amigo tibetano, que vê com bons olhos minha obra e
minhas pesquisas, detém uma certa dose de influência nos círculos
Sinto-me desapontado. O fato de que a simples cor da
governamentais do Tibete. Tão confiante está ele em que poderei
pele de um indivíduo o impeça de fazer uma peregrinação (por-
fazer minha viagem, que, na verdade, já me muniu de cartas
que na verdade se trata de uma peregrinação) ao local mais
escritas no idioma tibetano, apresentando-me aos lamas chefes
sagrado da Ásia, parece ser uma justa vingança contra os precon-
de todos os mosteiros na minha rota e solicitando a todos os
ceitos raciais dos brancos. Sei mais acerca do budismo do que funcionários locais que me ajudassem na obtenção de combustível
a maioria dos próprios tibetanos, pois estudei-o longa e aprofun- e víveres necessários para chegar ao termo da empreitada. E u
damento sob a orientação de um dos mais doutos e desenvolvidos alimentava a esperança de passar algum tempo num mosteiro
monges budistas que há, e, no entanto, catalogam-me entre os situado ao pé do Monte Kailas e ali fazer em paz minhas medi-
infiéis porque acontece ser branca a minha pele, assim como tações.
amarela é a deles!
Enviei-lhe uma mensagem urgente, relatando o sucedido.
A licença para viajar até Gyantse não tem nenhuma utilidade
Uma fórmula telegráfica vermelha cortou-me abruptamente
para mim. Gyantse fica bem no interior do Tibete e é uma
o suspcnse. Estava vasada nos seguintes termos:
cidade importante para os comerciantes tibetanos que de Lhasa
se dirigem para a índia. Fica no centro-leste do Tibete ao passo Lamento muito. Consultei Governo. Impossível influ-
que o Monte Kailas fica na zona oriental do país. WL enciar Lhasa atual conjuntura devido situação interna lá
Mas não sou negociante nem cartógrafo. Não quero ir ao vigente Mm^,
Ubete unicamente para ver alguns poucos mercadores trajando
roupas de pele de carneiro e uns poucos mosteiros, decadentes e Aceito aquelas palavras como uma decisão inabalável do
sonolentos. Move-me um objetivo mais elevado e Kailas fica destino.
— O Monte Kailas está dentro de ti — tinha-me dito, de
^t V n
L° O R
- A Ç A d e s s e o b j e t i v o M e u
P°> q t e m
P u e é
" a r t e i n t e

Le 1 ! ' m i V l d a p r e c i s a s e r a
g ° * utilizado com vistas a
r forma misteriosa, o Mestre um ou dois dias antes da minht
esse objetivo e apenas a ele.
partida. Saberia ele que jamais chegarei l á ? Daí em diante o
cume branco do Monte Kailas retrocede da minha objetiva e
que ?áh»v! ° C a
V o v i d
Por telegrama" a um iogue amigo
a d e s

q , a h a V I a e s t a d o
no Monte Kailas. Responde-me ele que viro.a cabeça em outra direção.
32 ••: ••fcfi^''
Minha aceitação é tão simples quanto impotente. P i Q s 0

destino preparou verdadeiramente um lugar especial para as malas. Que monte variado de coisas tinha sido ali atulhado e
minhas meditações e quando examino a comprida e agreste exten- mesclado! É verdadeiramente maravilhosa a quantidade de coisas
são do Himalaia no mapa e repouso o dedo sobre o reino de que se pode enfiar numa sacola militar! Ternos, camisas, sapatos,
Tehri-Garhwal, onde nasce o rio sagrado da índia, o Ganges, alimentos, papéis, lâmpadas e quanta coisa mais não desaparece
sinto, como que numa inspiração, que ali deve estar o meu substi- através da sua boca bocejante indo cair no volumoso estômago
que não se cansa de pedir mais!
tuto para o Monte Kailas.
A seguir disponho-me a explorar o ambiente, familiarizar-me
Entre as planícies quentes da índia Britânica e o gélido alti-
com ele e selecionar um local onde a pesada tarefa de nada fazer
plano do Tibete fica toda uma cadeia de Estados, quase todos
pudesse ser convenientemente atacada!
eles engolfados entre as fronteiras naturais do grande Himalaia.
Eis-me aqui, por fim, empoleirado no alto de uma estreita
Incluem-se entre esses estados Bhutan, Sikkim, Nepal e Tehri-
crista, a barreira divisória entre dois profundos vales.
-Garhwal. Raros homens brancos os visitam, pois, além do caráter
solitário, bravio e extremamente montanhoso da região, existem Minha primeira vista é a da floresta e a segunda a das neves.
barreiras que tendem a manter à distância os europeus. O Nepal É uma cena tocante e soberba. Meu quarto de dormir possui
é um reino quase que totalmente independente, Buhtan está nas uma porta que abre para nordeste e para o panorama das alturas
mesmas condições, ao passo que Sikkim é um protetorado britâ- mais grandiosas do globo terrestre. Ali, sobre as copas dos abetos
e cedros do Himalaia que literalmente crescem a poucos centí-
nico. Tehri-Garhwal, embora sob a proteção política da Ingla-
metros da porta e cujas raízes estão cravadas bem abaixo no
terra, jamais atraiu residentes britânicos e permanece sob o con-
flanco da montanha, a comprida e agreste barreira de picos
trole do seu próprio marajá para todos os fins e conservadora-
cobertos de neve e pináculos que separa o Estado de Tehri do
mente hindu através dos séculos. Tehri-Garhwal fica distante
Tibete sobrepaira toda a paisagem rural. Algumas das encostas
de toda via férrea. Nenhum turista ou mercador já aviltou esse
são demasiado alcantiladas para deter a neve e apresentam uma
país. Ademais, qualquer europeu que pretenda entrar na região coloração acinzentada contrastando com o branco predominante.
do país confinando com o Tibete precisa estar munido de uma
licença especial. As dificuldades de acesso, a ausência de como- Uma verdadeira conflagração de cores explode através dos
didades civilizadas, a falta de transportes modernos e o desconhe- céus.
cimento pelos habitantes de gostos ocidentais são coisas que Sob a ação dos primeiros e oblíquos raios solares as cores
mantêm afastados os viajantes brancos, exceção feita talvez a do céu refletem-se sobre as neves, as quais assumem um deli-
uns poucos esportistas apaixonados que se dedicam à caça graúda. cado matiz rosa, depois tonalidades de ouro-velho, avermelhadas
Mas essas são coisas que de forma alguma me atrairão. Ademais, e rosadas. Depois de algumas transformações calidoscópicas,
os santuários mais sagrados da índia encontram-se ali. Muitas assentam-se em massas branco-argentinas, livremente manchadas
das histórias de divindades, sábios e iogues que viveram nesse de porções cinzentas de pedra nua, que brilham de uma forma
país segregado originaram-se nas brumas da tradição. A l i , mais transparente como a madrepérola.
do que em outra parte, talvez eu encontre um local onde meditar, Ao longo de cento e oitenta quilómetros, e, fora do meu
porque o cenário é o que existe de mais grandioso no mundo. campo de visão, até mais de dois mil e duzentos quilómetros de
distância, a fieira de picos gelados pode ser vista num mesmo
e vasto panorama, estendendo-se para a direita e para a esquerda.
Minha vista alcança desde o Passo de Buranghatti, a cinco mil
metros de altura, ao norte, até Nanda Devi, a oito mil metro^
de altura, a leste, onde por fim o quadro se fecha. Nanda De\
A tonalidade cinzenta e fria que precede o nascer do Sol atinge uma altura incrível, sobrepujando todos os demais picos
ja desapareceu. A aurora espalhou-se pelo leste como uma pérola como uma monstruosa torre de igreja. Aqui existe uma sólida
rosada^ Quando a música de pássaros chilreantes e jubilosos, muralha de granito — a mais altaneira deste planeta — rctor
excitados pelo acontecimento arrefeceu um pouco, abri as minhas
cada por um revestimento de neve e gelo de centenas de metros
de espessura, apresentando aos espectadores uma face tão formi- A densa floresta de abetos eretos e escuros e majestosos
dável que logo se compreende por que o mundo deixa o Tibete cedros do Himalaia estende-se desde os meus pés até a profunda
em naz Essas cristas maciças constituem o Gibraltar do planalto ravina abaixo.
mais além; elas são inexpugnáveis e, salvo nuns pontos, intran- Que sorte! Ter toda uma floresta de árvores de Natal à
sitáveis. porta de casa! E cada árvore traz seu quinhão de presentes sobre
Uma fumaça branca parece desprender-se de alguns picos, os galhos agulhados — presentes intangíveis e invisíveis, talvez;
presentes de serenidade e quietude! As copas dessas árvores
como de vulcões, mas se trata tão-somente de uma espuma de
gigantescas chegam quase à minha própria porta, mas suas raízes
neve impulsionada pelo vento através dos céus.
estão a vinte metros sobre a encosta da montanha. O que falta
Despontando da linha esbranquiçada e irregular vejo de aos abetos em circunferência sobra-lhes em altura. São árvores
relance diversos altos cumes que coroam a cordilheira. Pouca senhoriais e grandiosas em suas vívidas roupagens verdes.
coisa vive, pouca coisa pode viver, nas suas formidáveis alturas. O musgo cobre-lhes os troncos. O solo recobre-se de uma
A natureza os colocou como monarcas orgulhosos em seus tronos espessa camada de pelotas caídas. As plantas trepadeiras que se
brancos. Nenhuma criatura plebeia, da espécie animal ou humana, enlaçavam em torno de alguns desses troncos diante da porta
ousa aproximar-se e construir sua casa naqueles domínios régios, de minha casa exibem florescências alvas como a neve de peque-
porém estéreis, exceto os vales. Os cabeços nevados erguem-se ninas flores levemente perfumadas que alegram a cena sombria.
oito mil metros e mais acima do nível do mar e foram generosa- Essas flores sarapintam a folhagem escura como um firmamento
mente doados a esse território. A nordeste, nada menos que de estrelas luzidas. Entre essas sombras silenciosas de árvores eu
um grupo desses gigantes acha-se aglomerado nas proximidades talvez encontre aquilo que as cidades não me podem dar: paz,
de Gangotri, onde o Ganges sagrado encontra a sua nascente nas profundidade e cura. Mas o declive faz um ângulo demasiada-
geleiras. Mais próximo de mim fica o Bandarpunch, outro gigante mente agudo e é difícil descer por ele sem agarrar-se com ambas
as mãos aos troncos das árvores à medida que se avança.
de oito mil metros, a oeste do qual nasce o segundo rio mais
Ademais, o sol não penetra através da densa folhagem dos inú-
importante da índia, o Jumna. Os picos sagrados e batidos de
meros galhos; a floresta é fria e tristonha; e eu, amante do Sol
sol de Badrinath, Kedarnath e Srikant dão prosseguimento aos
que sou, tenho que aquecer-me aos seus raios dourados. Uma
denteados horizontes e brilham contra um céu sem nuvens. vez mais volto-me em outra direção.
Pensamento curioso e assustador é o de que um visitante Essas florestas do reino de Tehri são responsáveis por quase
do espaço sideral ao aproximar-se do nosso planeta visse, antes toda a renda do Estado, uma vez que a terra cultivável é muito
de mais nada, essa serrilhada cordilheira do Himalaia. Pois, pouca. Elas são portanto o patrimônio mais valioso da nação
com pelo menos algumas centenas de picos de mais de oito mil e a madeira nelas abatida é posta a ilutuar no rio durante a
metros de altura, o Himalaia constitui-se no mais n o t á v e l objeto estação chuvosa, sendo transportada pelas águas até a Índia britâ-
na superfície do nosso planeta! Nem mesmo as montanhas nica, para ser vendida às ferrovias. Inspetores florestais costu-
Rochosas norte-americanas se lhe podem comparar, pois possuem mam correr o país a fim de supervisionar essa propriedade. Para
que possam ter abrigo decente e acomodações confortáveis
TL ÊT • \
e oito mil metros de altura: o Monte durante o seu turno de inspeção, construíram-se bangalôs em
McKinley.
vários sítios solitários. Um desses bangalôs eu o ocupo agora,
Encapuzadas em matas e neve as montanhas penetram céu por cortesia das autoridades locais. Um funcionário dificilmente
nannT' " . , reverência, temor e admiração. Mas fará uso dele mais do que duas ou três vezes por ano e, ainda
ZncC
E C a r ( > a s c o m

assim, nunca o ocupa por mais do que duas noites em cada


C a S t l g a
1
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fendas profundas e
viagem.
pedras T J , ^ g d e i r a s
«^regadias com desertos de
Afastando-me da porta, penetro no ar frio e revigorante que
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' 1 S b l C 0 S d e e l e n d e n t e u e s e
envolve o bangalô. A estreita crista em que a moradia foi erigida
^ Z d n ^ *^ ' ^ P ™ q ^ m pretenda
Í r e Ç Õ e S n ã 0 h á a

parado, sem nada a preocupá-lo ou p e r t u r b á - l o .


continua no sentido leste, até cerca de oitocentos metros adiante
da clareira e a seguir ergue-se abruptamente, formando um outeiro afinal ao cume. Aqui, para minha surpresa, constato que o lugar
de cento e cinquenta metros, parte do qual é nua e pedregosa, está atapetado por folhas mortas. Como vieram ter aqui estas
sendo que o restante é irregularmente pintalgado de pequenas folhas? Algum furacão no Himalaia as terá feito voar milhares
árvores. Esse outeiro também não me agrada. de metros pelos ares e depositarem-se depois neste lugar?
Sigo até a beirada da ribanceira dando vista para o que na De qualquer forma, estas folhas formam um estupendo
noite da véspera eu julgara ser uma garganta aos fundos do tapete natural para o cume da colina, tão confortável como qual-
bangalô. Olho para baixo e constato que na realidade se trata quer grosso tapete de Mirzapur feito à mão e, com toda certeza,
de uma imensa piscina natural, de espantosa profundidade Seria não menos artístico. Entre as folhas, despontam decorativamente,
fácil escorregar pela ribanceira e cair ao fundo daquele abismo. aqui e ali, algumas primaveras e diminutas violetas.
No entanto, a beleza do lugar é algo singular. Sinto-me deveras Sei que não preciso ir mais além. Os deuses guiaram-me
satisfeito por estar a minha nova casa colocada em cenário de até este refúgio perfeito. Os hindus, assim como os tibetanos,
tanta grandiosidade. O declive é recoberto até o fundo por uma acreditam firmemente ser o Himalaia a morada secreta dos deuses,
espessa mata de cedros do Himalaia. É o ponto de encontro de bem como daqueles super-homens espirituais a quem chamam de
dois vales estreitos e escuros, de aspecto escocês, cujos flancos Rishees e que hoje em dia, ao que acreditam, residem naquelas
escarpados alargam-se aqui, formando um vale circular de tama- montanhas, ocupando corpos etéreos e invisíveis. Sim, um deles
nho suficiente para abrigar um grande pico, caso a natureza, num trouxe-me até cá. É bem possível que este recanto de beleza
lance caprichoso, resolvesse fazer surgir um neste local. Espes- inimaginável seja a sua própria morada. Encho-me de encan-
sas florestas de um verde muito escuro alternam-se com extensões tamento.
marrons e rubras de granito puro espalhadas pelos flancos. No E um fato que estas grandes montanhas do reino de Tehri
lado leste erguem-se, em formações terraceadas paralelas de grande são recintos sagrados. Os hindus acreditam que estes santuários
magnificência, cristas e mais cristas, semelhando gigantescos himalaios colocados entre cristas monumentais, são ainda mais
muros ameados, construídos para afugentar os intrusos, ao passo sacrossantos do que as cidades sagradas de Benares, Puri e Nasik.
que a fronteira ocidental é formada de outeiros entremeados com E que Shiva e Krishna, e todas as outras divindades, para cá se
esporões escarpados, de vegetação menos densa. Baixando o transferiram. Parte do fascínio que elas costumavam exercer
olhar sobre aquele oco profundo e parecido com uma garganta, nos antigos continua presente.
e, permitindo que as minhas vistas descansassem sobre aquelas Aqui, portanto, fica o meu delicioso santuário montês. E
encostas bravias, compreendi que já não precisava procurar mais. ali, entre as folhas amontoadas, meu tapete de reza cor de topázio!
Em algum lugar daquele côncavo montanhoso, com certeza encon- Duas vezes por dia, na aurora e no crepúsculo, treparei pelo
traria o local ideal para fazer as minhas meditações. flanco escarpado do outeiro com auxílio da minha bengala e, a
Com alguns golpes de uma faca de madeireiro transformo seguir, me acomodarei para aprender com um homem pode chegar
um galho de pinheiro tombado numa sólida e excelente bengala à arte de permanecer quieto e, eventualmente, conhecer Deus.
de alpinista. O segredo está em afiar a extremidade, não redu- O Himalaia será o meu noviciado para o céu e nestes gran-
zindo-a a uma ponta, mas dando-lhe a forma de uma quilha de diosos ermos eu talvez me prepare para a solidão ainda mais
navio. Entro a seguir na fase final da minha busca. sublime de Deus.
Avançando com lenta cautela pela encosta de um outeiro do
lado oeste, porque galgar a rampa escorregadia é tarefa que
requer cuidados, e trepando por sobre pedras encravadas nos
seus flancos escarpados, eu vou aos poucos circundando a depres-
são e atravesso uma touceira de musgosos sicômoros. O aroma
de pes de hortelã crescendo nas laterais chega até mim. Paro,
indino-me e inspiro maior quantidade desse ar agradável. Chego
flp

38
empregar o cedro do Himalaia para aquecer a água dos seus
banhos e dos banhos das suas favoritas, em virtude do raro
perfume daquela planta. Duas pequeninas flores montesas beijam
o pé venerável do cedro com suas pétalas novas e frescas. A
mais espiritual dentre as árvores, o cedro do Himalaia é, segundo
a lenda, o preferido dos deuses.
Imagino que chegaremos a nos conhecer bem, este alto e
CAPÍTULO III grácil cedro do Himalaia e eu, e atingiremos mesmo um grau
de sólida amizade que minha inevitável partida um dia não
Meditação sobre o Domínio Inglês na índia e sobre conseguirá desfazer. De qualquer forma, de agora em diante
a Luta Política - A Necessidade de Espiritualizar a faremos companhia um ao outro durante longo tempo, pois assim
Politica - O Controle dos Pensamentos - Um Segredo o quer o destino. Sussurrarei para ti meus segredos mais recôn-
ditos, ó cedro patriarcal, e te relatarei alegrias perdidas e atribu-
da Concentração
lações terríveis que homem algum confessa de público, mesmo
sendo um escritor. E tu me falarás, ainda que tão baixinho, que
o mundo dirá, trocista, que estou enganando-me a mim mesmo.
No F I N Z I N H O da tarde torno a subir a íngreme rampa que Mas nós ambos riremos compadecidos do mundo e lhe perdoa-
leva ao meu refúgio. A bengala se presta bem às funções que remos a falta, porque bem sabemos que embora a natureza seja
lhe reservei, mesmo não sendo perfeita como a dos alpinistas, a nossa mãe comum, o mundo permanece na mais escura negra
que tem uma ponteira de ferro. Escolho um local onde posso me ignorância dos seus segredos mais íntimos.
sentar e pensar em paz, como um prelúdio à quietude interior
que espero alcançar com o anoitecer. Sento-me perto da própria Meus pensamentos voltam à cálida Índia, país que acabo de
borda do rochedo, pois dali pode-se ver lá embaixo o grande vale deixar para trás. Nas cidades das planuras distantes, onde uma
cingido de árvores e contemplar-lhe quase toda a sublime grandio- mão colocada sobre um parapeito de pedra tem de ser rapida-
sidade. O lugar tem uma paz de mosteiro. Se for possível mente recolhida, tanto se queima, e onde uns poucos homens de
conseguir a serenidade na Terra, esta será, sem dúvida, uma das pele branca que não podem fugir aos seus deveres cambaleiam no
poucas regiões adequadas para isso. Este Estado fronteiriço, não calor estival e são atormentados por mosquitos vorazes, a tensão
contaminado, onde os antigos deuses hindus passeavam, parece da agitação política diminuiu temporariamente, porque é difícil
bem diferente do restante da índia. desenvolver entusiasmo por ideais distntes a uma temperatura
de mais de quarenta graus, por mais idealista que se seja.
Meu olhar repousa finalmente sobre os olhos recurvos de
um orgulhoso cedro do Himalaia, cujo tronco anoso está reco- O mistério e o significado da conquista da Índia pelos
berto por uma pesada camada de musgo úmido e pardacento, e ingleses é algo que nenhum inglês ou hindu jamais conseguiu
do qual pendem longos tufos de líquen esfiapado lembrando explicar satisfatoriamente, porque ninguém examinou a questão
barbas. A árvore cresce a poucos passos de onde me encontro e com discernimento e isenção de preconceito racial. Penso que
se projeta do flanco do rochedo segundo um ângulo bem agudo. se a lei britânica é tão negra como a pintam os hindus, a estes
Os raios do Sol filtram-se através da sua ramagem. O s galhos só resta o recurso de emigrar! Penso também que, se o assunto
não crescem com simetria, como os dos pinheiros, e os conglo- racial é tão difícil como o afirmam os britânicos, a emigração é
merados cachos de espinhos que formam a ramagem descaem a única solução viável também para estes! Somente o tempo,
melancolicamente na direção do chão. Não obstante, a velha e através da amplitude da sua perspectiva, poderá ajudar ambas
escura arvore tem um ar de desbotada aristocracia e exala uma as partes a compreender por que este enorme subcontinente
fragrância característica que trai o seu parentesco com o cedro tornou-se o local de encontro de duas raças tão diferentes entre si.
sino. Lembra-me que os imperadores mongóis costumavam
41
A vida, pouco provavelmente, terá atirado de encontro esses
dois povos, sem um objetivo determinado. Haveria outro risco para mim, caso me aventurasse a fazer
profecias políticas neste país, que fervilha de intrigas orientais
Terão eles um serviço a prestar um ao outro? e susenta. Recordo-me de um incidente pouco conhecido ocorrido
O par de séculos durante o qual a civilização ocidental vem durante a última guerra, quando penso nesse perigo.
desembarcando nas costas da índia precisa de ser acrescido ainda O finado Coronel T . E . Lawrence, essa figura admirada,
por mais algumas décadas para que o mundo possa ficar conhe- denegrida e incompreendida, atingiu um período crítico da sua
cendo a resposta. campanha na Arábia, encontrando renitentes obstáculos que foram
Nesse ínterim, os políticos criaram uma nova profissão para superados com muita dificuldade.
a índia, de educação moderna, e o brado de independência, de Mas, num daqueles seus famosos repentes de génio, teve a
expulsão das autoridades britânicas, se faz ouvir, poderoso, onde original ideia de pedir a Londres mágicos profissionais que pudes-
quer que se reúnam os jovens progressistas. O jovem hindu
sem fazer turnês entre as tribos do Mar Vermelho e do Medi-
culto que se veste à moderna e pensa à antiga está desaparecendo
terrâneo. Teriam de ser, na medida do possível, árabes de nasci-
rapidamente. As calças que ele enverga hoje em dia transfor-
mento e conhecedores dos costumes e crenças dos locais. Seu
mam-se em símbolo da pressão que exerce sobre a sua religião,
trabalho consistiria em fazerem-se passar por faquires errantes,
seu governo, seus costumes e seu meio ambiente. De outra
executar alguns truques e ganhar com isso a reputação de porta-
parte, nos acantonamentos militares e nos clubes civis, nos edi-
dores de poderes sobrenaturais. Baseados na força dessa repu-
fícios de tijolos aparentes do Secretariado de Nova Delhi, desde-
tação, arrogar-se-iam o dom da profecia e prediriam uma sensa-
nhosos anglo-saxões, com toda a teimosa coragem da sua raça,
cional derrota dos turcos, induzindo destarte os árabes a juntar-se
estão determinados a manter o domínio da situação, pelo menos
aos britânicos. Cinco homens foram enviados ao Oriente Próximo
durante a sua geração. O destino, como de hábito, terá a última
com essa missão, sendo três árabes de nascimento, um francês
palavra nesta questão. O destino escreverá suas próprias soluções
falando árabe e um inglês falando árabe, todos especialmente
em seus escuros e misteriosos pergaminhos, e elas, uma vez mais,
serão as mais sábias. " O tempo é o rei dos homens", diz o sábio treinados para o desempenho dos seus papéis. Eles fizeram um
Shakespeare." Ele é pai, mãe e sepultura: dá aos homens o que bom trabalho para Lawrence e ajudaram a influenciar muitos
quer, não o que estes desejam!" Pois existe um poder mais alto árabes, mas o francês e um outro membro da trupe foram desco-
que as ambições e aspirações humanas. bertos e sentenciados à morte.

E u tenho minhas próprias intuições proféticas quanto ao que


irá acontecer à índia, mas num inundo onde reina o preconceito
de nacionalidade e raça nem sempre é hábil dizer a verdade.
Não uso nem quero usar qualquer distintivo político. É certo Não que haja verdadeiramente um fim para a turbulência
que não tomar partido hoje em dia passa por ser herético e das lutas políticas e para as inquietações das divergências raciais.
pusilânime, convida à negligência, mas vestir o manto do profeta Teremos um mundo pacificado quando tivermos os corações
e muito perigoso. Tanto ingleses quanto hindus não compreen- pacificados — não antes. Os sábios antigos, que deram à huma-
deriam minha atitude e, com certeza, interpretariam mal minhas nidade essa fórmula simples, são agora acoimados de idealistas
predições. O melhor, portanto, é que eu cuide dos meus assuntos poucos práticos. Mas se a prova definitiva de uma política é os
e permaneça calado. Entrementes, desejo ver o Leste e o Oeste seus resultados materiais, somos obrigados a reconhecer que este
apreciarem-se mais um ao outro e tentarei, dentro das minhas mundo sem paz pouco tem melhorado. A vacuidade espiritual
parcas forças, ser um precursor da compreensão entre um lado da nossa época e a pobreza dos nossos recursos interioi v - , \pre>
e outro. Por que haveria eu de desperdiçar o meu tempo debla- sam-se de modo suficientemente claro no caos, na angústia que
terando contra os defeitos da sociedade estabelecida? Seria vemos por toda parte, e na dolorosa subserviência dada a ideais
prererivel fazer alguma coisa construtiva. indignos e homens indignos.

42 4J
O desenvolvimento do egoísmo e do intelecto do mundo — Abençoai aos que vos amaldiçoam e rezai pelos que vos
deu-lhe um sentimento fictício de sabedoria prática. Mas os exploram. . . Não julgueis, para não serdes julgados; não conde-
sábios que falaram em outras épocas fizeram-no com um conhe- neis, para não serdes condenados; perdoai e sereis perdoados.
cimento da história da humanidade muito mais profundo e Pois, quem com ferro fere com ferro será ferido.
acurado do que aquele que qualquer dos historiadores contem- Jesus sabia.
porâneos poderá ter. Pois os míseros milhares de anos cujo Mas o mundo dos homens superficiais não sabe, não com-
registro podemos fazer — e à custa de muita imaginação — repre- preende e, por isso, chafurda num caos cego e doloroso.
sentam tão-somente a porção derradeira do longo passado da Amargos antagonismos darão lugar a uma sábia cooperação apenas
humanidade. Quando um homem (ele nunca pretendeu ser mais quando essa lei não escrita for compreendida e o homem souber
do que isso) como Buda proclama reiteradamente que "o ódio que tudo aquilo quanto ele faz aos outros recairá, em última
não se termina com o ódio; o ódio se termina apenas com o instância, sobre ele próprio. A benevolência universal é portanto
amor", não está sendo um mero sentimentalista, propalando suas a política mais sábia e sensata. Nesta época conturbada é a
emoções bem intencionadas porém vãs. Está sendo tão prático nossa preocupação imediata e íntima.
como qualquer homem de negócios que não desgruda os ouvidos No entanto, quem, hoje em dia, quer moral e pregações?
do telefone nem os olhos dos jornais que tem sobre a mesa. Estas só me poderão valer risos fáceis. É vão pregar aos conver-
Porque Buda, como todos os grandes sábios da sua categoria, vê tidos, porque aqueles que acreditam nestas coisas não precisam
o lamentável emaranhado de guerras sem fim que aterraram a de discursos, ao passo que aqueles que não têm fé simplesmente
época pré-histórica bem como a histórica. V ê tais coisas, na visão não dão ou vidos. J O destino encarregar-se-á das nações e lhes
universal do passado do planeta, que os deuses seguram diante ensinará aquilo que elas têm de aprender. XO caminho mais
dele como um espelho. E lhe mostram como os fios de causa e prático que se abre diante de mim é, consequentemente, o de
efeito nos assuntos da humanidade são atados por mãos invisíveis concentrar minhas energias e dirigir minha atenção para um canal
de uma forma tal que uma justiça inarredável, um reajustamento onde possam ser usadas de forma mais económica.
uniformizante, estão sempre em ação. V ê também que há um ( Tal canal existe dentro de mim. O melhor ponto de partida
poder espiritual por detrás do mundo que se exprime, de um para reformar o mundo é, indubitavelmente, o nosso próprio
certo modo, através da benevolência e que tal poder é eterno. interior. A melhor maneira de disseminar o espírito de benevo-
Sabe que o ódio traz o sofrimento, tanto ao que é odiado quanto lência é começar por mim mesmo. Seja-me, portanto, permitido
ao que odia, e que, por isso, o ódio e o seu corolário de sofri- organizar meus pensamentos e repetir em silêncio a fórmula
mento só poderão cessar quando imperar a benevolência. E , budista para o bem-estar do mundo, cujo espírito e letra é:
j — Aos quatros cantos do mundo, envio compaixão. Para
porque o Poder que nos urge a praticar a benevolência é eterno
L o norte, o sul, o leste e o oeste, para cima e para baixo, envio i
e, acima de tudo, iniludível, prega a conveniência de nos curvar-
(compaixão. A todas as criaturas vivas na face da Terra, envio
mos agora a esse poder, evitando com isso muito sofrimento
compaixão.
inútil. Quem é menos prático: Buda ou aquele que odeia?
Minha mente demora-se suavemente nesse tema agradável;
Exatamente a mesma visão da vida foi dada a Jesus. Num a emoção da comiseração passa por mim; e quando a derradeira
mundo de secos formalistas e estéreis fanáticos, dados à doutrina
palavra de bendição é pronunciada, não me sinto menos aben-
do olho por olho, dente por dente, Jesus condensa e reafirma
çoado. ' r

essa verdade. Também a ele é dada uma visão do universo e


O rosto de um dos meus mais ácidos críticos surge repenti-
das leis que secretamente regem os seres. Não foi à toa que
namente diante de mim. Ouço-a dizer palavras duras, como se
ele desapareceu nas montanhas e quedou-se estático a meditar,
ela estivesse fisicamente presente, embora saiba-a em outro
louco depois da sua volta, verbera os cegos fariseus e cura o
continente. Sabendo o que sei e conservando com cuidado meus
homem paralítico da mão; e diz, em palavras inspiradas e desti-
tuídas de paixão, à multidão aglomerada ao redor de si: segredos, eu de hábito recuso-me a brincar com palavras ambv

44
guas, qualquer que seja a roupagem de que estejam revestidas, forrado de algodão, do qual raro se afasta. Falamos das dificul-
e ignoro-as com tranquila indiferença. Mas hoje, sorrio e perdoo dades experimentadas pelos principiantes quando tentam concen-
a sua falta de compreensão e lhe desejo bem. Olho nos seus trar-se. O adepto observa:
olhos raivosos e faço votos que a sua alma azeda encontre a
— Se admitirmos que o número médio de pensamentos que
verdade, e com ela, a doçura e a luz. Três vezes a abençoo e a
ocorrem a um cérebro humano num dado período de tempo é cem
seguir interponho uma barreira física entre mim e os seus pensa-
J e que, se for possível, através da prática, reduzir essa cifra para
mentos.
noitenta, poderemos dizer então que foi possível adquirir o poder ,
Uma libélula passa adejando à minha frente. da concentração em vinte por cento. Por isso, a maneira mais
i direta de obter tal poder de concentração é praticar a diminuição
do número dos próprios pensamentos.*
E com o meu cérebro funcionando em ritmo mais lento,
embora não esteja por isso nem um pouco menos atento, começo
E agora o resfriamento do ar que precede o crepúsculo
a sentir-me envolvido por uma paz mais profunda. A concen-
adverte-me que cesse minhas meditações e adote uma impassivi-
tração prolongada gerou, em última instância, um estado interior
dade mental condizente com a minha inação física. Olho em
melhor. Como sinto pena dos habitantes das cidades, que vivem
torno — o Sol começou a por-se atrás das montanhas, que perdem
submetidos a uma agitação sem fim! Por que para eles o intelecto
sua cálida vermelhidão e recaem em sombria palidez.
tem de ser supremo? No entanto, sua forma de libertar-se, no
Mantenho-me em rígido repouso, deixando que o mundo fundo, não pode ser diferente da minha. Os cérebros exasperados
saia lentamente do meu consciente e voltando toda a minha pelas inevitáveis fricções e decepções do viver cotidiano, poderão
atenção para dentro de mim mesmo. No meu íntimo, em algum encontrar na compensação ganha com a tranquilidade mental uma
lugar, mora o E u Superior, a essência eterna, o ser divino de que serenidade reconfortante e saudável que untará de bálsamo seus
recebo a minha força vital. nervos ofendidos.
— Fica calado — aconselhara-me o Mestre — e conhecerás O intelecto é tão-somente um instrumento, não o ser essen-
então o E u Superior, pois Deus e o E u Superior são como que cial do homem. Ele não se mantém às próprias custas, f. uma
í um só. faculdade automática e de rotina. O homem moderno representa
Minha respiração se retarda. Durante todo um minuto fixo o triunfo do intelecto mecanístico sobre o instinto puro, assim
minha atenção sobre o movimento da respiração. O resultado como o homem do futuro representará o triunfo da intuição
de controlá-la deliberadamente é por em ritmo a inspiração e a divina sobre o intelecto puro.
expiração, cadenciá-las e aquietá-las, tornando-as mais suaves e A razão, que por vezes pode ser um guia excelente, pode
menos abundantes. também nos trair em outras ocasiões. Nem sempre a reflexão
O cérebro é como uma roda que gira sem parar, colhendo prévia é o nosso melhor guia, também a inspiração espontânea
novos pensamentos a cada revolução. Agora observo a roda pode-nos orientar com precisão. A razão é puramente aritmética,
diminuir sua marcha. Quanto mais me disponho a forçar a ao passo que a intuição é um desdobramento não sabemos de qu£
atenção para dentro, no sentido de um ponto central, tanto mais O avanço da intuição sobre os nossos pensamentos não se pode
meus pensamentos diminuem de frequência e comprimento. Sei medir matematicamente. A intuição penetra na mente sem ser
/anunciada, como que através de uma porta privativa. Nao e
que neste repouso do intelecto poderei encontrar o caminho da
Vum pensamento mas um influxo de um reino superior que se
sabedoria.
imiscui no pensamento. Não é uma emoção totalmente eseoi
Recordo-me do que um poderoso professor iogue, de cujos mada do pessoal. Mas, desgraçadamente, a maior parte doa
feitos tenho o mais alto conceito, disse-me certa vez. Ele mora homens dá pouca importância aos tímidos arautos da intuiçto
numa cela de um antigo e pitoresco templo. Estando eu sentado
nascente.
no chao, ele inclina-se com os olhos semicerrados sobre um banco

46
A relativa tranquilidade que agora me envolve talvez não
seja, ou melhor, não é, a total quietude que desejo conseguir, Nenhum método melhor se poderá adotar (pelo menos no
pois não poucos pensamentos lentos conseguem serpentear no que me diz respeito) do que sentar-se e ficar imóvel. Não é
/ interior dos compartimentos vazios do meu cérebro. Estar real- necessária nenhuma permissão oficial para entrar nos divinos
' mente sereno é estar centrado. Não obstante, por hoje dou-me domínios que ficam logo adiante da barreira himalaia do inte-
lecto. Não se pode obter dos homens nenhuma ajuda mais
„ por satisfeito e não tentarei cruzar a mística fronteira.
substancial do que aquela que me foi prometida pelo meu Mestre.
Sei que esses intrusos são estranhos ao ser essencial do Seu poder é tal, tenho certeza, que os quatro mil quilómetros
homem. Sei que quando todos os pensamentos se vão, quando entre nós reduzem-se a apenas dois centímetros, ao sabor da
morrem como flores de lotos em pleno inverno, a realidade divina sua vontade.
começa a surgir. A mera decisão e o consequente esforço para Que mais posso desejar?
voltar a atenção para dentro, de pronto, os coloca em pé de Mas as sombras do crepúsculo entraram no meu refúgio
guerra, fazendo-os lutar ferozmente pela subsistência. O poder como uma tímida rapariga entrando na casa do seu amante. Até
de dominação que exercem sobre o homem é mais tenaz do que mesmo o rescaldo cor-de-rosa do por do Sol já desapareceu. O
este normalmente se dá conta, pois se trata do resultado de um dia se exauriu e logo a luz das estrelas estará embalando os cumes
hábito há muito arraigado e passado de geração a geração. Os para dormir.
pensamentos dominam impiedosamente o homem, escravizam-no Qual, pergunto-me, será essa qualidade misteriosa do cre-
de uma maneira que ele raramente compreende e privam-no da púsculo que tantos encantos tem para mim? Por que, quando
liberdade existente na sua natureza mais íntima e desconhecida. todos os grandes professores e grandes iogues do passado aconse-
lhavam aos homens meditar com a aurora, sigo o meu próprio
Observei em mim mesmo os processos que movimentam o pensa-
instinto e escolho justamente o pólo oposto do dia para tentar
mento e descobri que são todos mecânicos.
a tranquilidade mental? Todos os fatos científicos, todos os
Vim para o Himalaia a fim de declarar uma guerra sem princípios esotéricos, todos os argumentos racionais estão com
tréguas a esses antagonistas invisíveis. Não que não me seja os mestres. Porém, o fim do dia é o momento que mais me
possível detê-los, quando me resolvo firmemente a isso; não ajuda. Sou obrigado a aceitar a magnífica revelação que vem
que eu desconheça aqueles segredos teóricos e práticos cuja apli- nesta hora pacífica e não ser um mexo copiador dos outros.
cação pode proporcionar-me uma boa vitória; não que me falte f O crepúsculo, portanto, proporcionar-me-á um dia o
ajuda valiosa nessas empreitadas. Mas consegui manter os intru- momento da minha liberação final. O exilado começou sua
sos sob controle apenas por determinados espaços'de tempo e jornada rumo de casa.
minhas vitórias não me proporcionaram satisfações senão tempo- Ergo-me, pois é hora de voltar para o meu bangalô incrus-
rárias. Tal é o poder ancestral dos pensamentos sobre o homem. tado na floresta.
O cume espiritual da minha vida ainda não foi galgado. É
chegado porém o tempo de encetar uma nova e ininterrupta
batalha contra eles até que um dos combatentes se retire da arena.

Nenhum palco mais adequado para essa guerra do que estes


sertões remotos e solitários do Himalaia. E m nenhum dos muitos
países que visitei — pois só me sinto em casa quando estou
viajando! — encontrei atmosfera tão propícia à tranquilidade
espiritual como nestas montanhas a que o destino houve por bem
trazer-me. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, é possível
compreender, tornar real, a frase do salmista: — Fica calado e
sabe que eu sou Deus.

4H
mundo^ — A paciência é a chave da alegria, mas a pressa é a \
chave da tristeza — costumavam dizer meus sossegados amigos J
árabes em tom reprobativo, quando eu me movimentava entre /
eles com a minha pressa ocidental. Aqui, de alguma forma,
percebo que eles têm razão. Sinto que não haverá jamais por
que preocupar-me com os resultados da minha pequena aventura.
CAPÍTULO IV porque, mesmo que eu fracasse por completo na consecução dos
meus objetivos, haverá sempre um Poder Maior que tomou-me
Minha Procura da Quietude Interior — A Recordação sob seus cuidados, e suas decisões podem ser incondicionalmente
aceitas.
de Nascimentos Anteriores — Um Método Budista
Não quero bater-me por um maior desenvolvimento espiri-
para Reavivar Recordações Pr é-N atais — O Objetivo
tual. Sinto-me como o tísico Keats sentia-se com relação à sua
da Natureza com Relação à Humanidade — arte quando disse: — Se a poesia não nasce tão naturalmente
Em Unidade com a Natureza como as folhas das árvores, é melhor que nem chegue a nascer.
Hoje, o prelúdio da minha meditação toma um tema cediço
— cediço, quero dizer, do ponto de vista do Leste, mas talvez
HÁ J Á VÁRIOS DIAS venho subindo ao imponente anfiteatro, desconhecido da maioria dos ocidentais: a doutrina das suces-
natural que é o meu refúgio, a despeito das minhas constantes sivas reencarnações da alma, que Pitágoras chamava de metemp-
dores nas costas. Tenho honrado fielmente meus compromissos sicose e que os budistas e hindus da Ásia chamam de renasci-
com a quietude. O cedo começa a abandonar sua aristocrática mento, é tão velha como o mais velho dos povos pré-históricos.
rigidez e a acolher-me com prazer, à medida que o nosso conhe- Dificilmente um asiático — a menos que seja maometano
cimento aumenta. Dentro em pouco, sem dúvida, ele me rece- — deixa de aceitar essa doutrina como um fato da natureza,
berá no círculo sagrado da amizade. As folhas cor de ferrugem tal é o poder da crença herdada! Dificilmente um ocidental não
abriram para mim uma pequena clareira, como que a prevenir imagina que sua vida na Terra constitui toda a sua existência,
o mundo de que aquele lugar destina-se aos que desejam tranqui- tal é o poder da crença herdada!
lidade. As poucas florinhas montesas brilham à luz do Sol e No reino dos mistérios espirituais e psíquicos os povos
suas coroas de pétalas amarelas e heliotrópicas competem entre orientais têm um imenso acervo de conhecimentos passados de
si para fazer sentir o seu suave aroma e tornar mais doce o ar. geração em geração pela tradição, um acervo superior ao exis-
Até mesmo a esgalhada corça, que há apenas uma semana fugia tente na Europa e na América, parte porque estes últimos conti-
de mim espavorida, quedou-se agora a olhar-me durante um bom nentes simplesmente adiantaram-se em matéria de desenvolvi-
minuto, trocando as largas orelhas e franzindo o nariz molhado, mento material e intelectual e foram, em consequência, forçados
antes de disparar para a solidão da floresta. Sim, estou fazendo a desdenhar das coisas menos tangíveis, e parte porque as raças
progressos. orientais são muito mais antigas do ponto de vista cronológico.
É certo que as tradições orientais tornaram-se agora inarreda-
Não obstante, não fiz esforços indevidos no sentido de velmente entrelaçadas com os parasitas da lenda e da superstição,
esmagar meus pensamentos recalcitrantes de uma só arremetida. mas a árvore original continua presente. Não que os conheci-
Começo calmamente minhas meditações e, quando me relaxo, mentos aqui enfocados tenham sido transmitidos para a massa,
deixo que os pensamentos se acomodem sem uma pressão exces- pois foram mantidos nas mãos de uns poucos.
siva da minha parte. Sinto que não há necessidade de apressar-me,
a despeito do limite de tempo fixado para a minha estada pelo ^ A t é mesmo na índia, a despeito da degenerescência t # p a
próprio clima do Himalaia e das minhas obrigações para com o dação atuais, a espiritualidade não é privilégio de poucos.

50
Enquanto um simples preconceito de cor nos impedir de
admitir a hipótese de recebermos instrução de um mestre perten- cado a meditação durante vinte anos e podia testemunhar os
cente a uma raça escura, os nossos povos ocidentais permane- resultados. Mas eram necessários esforços dos mais prolongados
cerão incapazes de encontrar a forma mais elevada de ensina- para arrancar essas recordações da relutante natureza.
mento. Pois, tal como nos tempos antigos, dos dias de Buda
Não desejo nem tenho competência para dogmatizar neste
até os de Jesus, a maior sabedoria encarnou-se nuns poucos corpos
terreno, mas à luz desta explicação é forçoso sorrir com ironia
orientais. diante da safra de rainhas e Cleópatras que se seguiu imediata-
À primeira vista, a ideia de já haver vivido na Terra anterior- mente ao florescimento da doutrina da reencarnação no Ocidente.
mente parece ridícula ao ocidental médio, embora o oriental Qualquer neófito aventura-se a entrar num terreno que os mais
jamais tenha sonhado contestar o acerto dos conhecimentos dos experientes orientais temem pisar! Recordar existências passadas
seus ancestrais nesse terreno. não é tão fácil assim. Não é sem razão que a natureza as protege
O culto monge budista que me ensinou o budismo falou-me com véus de grande espessura.
certa vez de um método psicológico originalmente ensinado pelo 2
Dificilmente alguém nos países de onde venho faria uma
próprio Buda e praticado nos mosteiros com resultados positivos. tentativa com o método budista, pois seria difícil surgir alguém
Através desse método é possível descobrir as encarnações ante- disposto a sacrificar diariamente algumas horas do seu tempo,
riores de uma pessoa. Parte do treinamento diário consiste em durante metade da vida, apenas para reavivar recordações já
fazer voltar atrás a memória, dia a dia, semana a semana, mês mortas. O jogo, francamente, não vale a pena. Assim como a
a mês, até que os acontecimentos de todo um ano sejam por natureza, nós compreendemos que o passado é menos digno de
essa forma relembrados. A seguir, os anos anteriores são trazidos grandes esforços do que o presente. Não seria proveitoso arrancar
à memória pelo mesmo sistema, pouco a pouco. Por fim, desen- tais cenas de suas sombrias moradas.
volve-se um maravilhoso poder tanto de memorização quanto de
Isto não significa, porém, que essas recordações não possam
vistualização e chega-se aos dias da infância. Por incrível que
ser dadas como um presente. E u já as tive, inesperadas, extraor-
pareça, tudo quanto se relaciona com a primeira infância e o
dinárias e estranhamente apropositadas. Porém, como tais recor-
nascimento pode então ser lembrado.
dações jamais fornecem provas válidas para outras, é inútil falar
Os psicólogos, hipnólogos e psicanalistas fazem questão de delas. Neste sentido, o aforismo do sábio chinês de olhos amen-
ressaltar hoje em dia que nossa vida pregressa está gravada na doados pode ser aplicado com muita propriedade: — Aqueles que
memória do subconsciente. A ser isto verdade, então um lfsabem, não falam; aqueles que falam, não sabem!
exercício mental reavivando as recordações da mais tenra infância 1 E u só posso dizer que, se pela graça de Deus e da Oriental
não será, afinal de contas, demasiado artificial. As descobertas Steam Navigation Company, piso hoje o solo oriental, já o pisei
da Psicopatologia estão começando a iluminar o caminho. também em vidas anteriores.
Mas o meu monge budista não se deteve ali. Disse-me ele
que a superdesenvolvida capacidade de recordação foi então
levada mais além da barreira do nascimento, nos exercícios que
fizeram e. . . i n c r í v e l ! . . . trouxe consigo recordações de uma
pessoa inteiramente diferente, de uma existência anterior na Meus pensamentos são perturbados por um som estranho e
Terra! Foi possível reconstituir todos os detalhes desde a morte sibilante. Alguém ou alguma coisa está subindo o rochedo na
anterior até o nascimento anterior através desse estranho processo minha direção. Pelo som apenas não sei dizer se se trata de gente
psicológico. ou animal, mas mantenho-me perfeitamente imóvel. U>gcjum
O monge reconhecia que a concentração requerida era faisão aparece no meu raio de visão. Tem o corpo azul-ce este.
tremendamente difícil e que poucos budistas tinham conseguido a cauda marrom. A ave lança um olhar sobre mim e volta-se
ir muito longe dentro daquele método. E l e próprio tinha prati- espavorida, correndo para o vale em alta velocidade, tia ctra-
5?
52
reja com estridor e grita de excitação. Visitantes, especialmente perfeitamente a todas as demais leis naturais que os cientistas
humanos, são coisa rara nestas paragens! descobrem no mundo físico. É, sem dúvida, muito mais consola-
Por que esta doutrina da reencarnação geralmente está dora do que a ideia de que a vida não é senão uma loteria com
associada à incomoda ideia de retribuição fatalística, muitos poucos prémios e muitas decepções. Há uma onda de aconte-
ocidentais encolhem-se diante dela, intimidados. — Quê! — cimentos que sobrenada irresistivelmente às nossas vontades.
T
exclamam eles. — Acha que devemos pagar pelos pecados dos Leis mais altas colocam-se a si próprias em ação; não é preciso
outros? Nada mais injusto! que nos preocupemos. Pouco razoável é o lamentável e apático
Por que não? desespero a que o povo hindu amiúde se entrega, ajudado e favo-
recido pelo efeito relaxante e enervante do clima tropical.
Toda a questão gira em torno de quem somos-nós.
A futilidade de um ponto de vista meramente físico das coisas
Se não passamos de corpos físicos, então a objeção é plena-
fica mais clara quando se pondera no problema da justiça ou
mente válida. Se não passamos de moscas voejando por este
injustiça da vida. Não tomamos conhecimento do aspecto mental
nosso planeta, por um breve espaço de tempo, então o Ocidente da vida, por considerá-lo de pouca importância, quando, para a
tem razão. Se, no entanto, somos almas revisitando continua- Natureza ele é sempre o aspecto causativo.
mente o mundo, então a exigência de pagar na vida terrena por
A Natureza parece, sem dúvida, rigorosa, como dizem os
pecados anteriormente cometidos encerra um certo sentido de
materialistas. Mas a Natureza é nossa mãe. Que mãe castiga
justiça. Nesse caso o destino, que coloca a sua marca nas nossas
seus filhos senão com intuitos educativos? A Natureza é tão
vidas, deixa de ser uma força cega e arbitrária.
real e viva como qualquer mãe humana. Pois este planeta tem
Creio, ou melhor, sei que o destino do homem está com por trás de si uma Inteligência diretora, como o comprova um
Deus e não com os vermes. O cérebro não gera pensamentos, simples olhar para os reinos mineral, vegetal ou animal. E que
o corpo não gera a alma, da mesma forma pela qual o fio não fizemos à Natureza para que ela deseje castigar-nos com propó-
gera a corrente elétrica. Tanto cérebro quanto corpo são apenas sitos não educativos? E como poderia o esquema educativo ser
condutos, transportando uma força melhor e de maior sutileza completado ao longo de uma simples vida terrena?
para o denso mundo da matéria.
Qual é então o objetivo da Natureza dentro desse esquema?
Se não passamos de seres de carne, seria injusto exigir que Ousarei dizê-lo? Será ele demasiado artificial aos ouvidos de
os nossos átomos, lentamente transformados e redistribuídos mentalidades materialistas? Como poderá esse longínquo objetivo
depois da nossa morte, respondessem por nossos pecados. ser descrito em palavras que o façam parecer exequível e racional?
Mas somos isso e mais alguma coisa. Essa coisa a mais é Basta lembrar que a Natureza se esforça no sentido de
a Consciência. Na verdade, somos mentes conscientes entrelaçadas livrar-nos da prisão ao mundo material e recolocar-nos nos lugares
com os ossos e a carne do corpo. primordiais do espírito dos quais provimos. Ou, para usar de
A mente representa a soma dos nossos caracteres, tendências uma alegoria bíblica, reconduzir-nos ao Jardim do Éden.
e capacidades. É a verdadeira fonte dos nossos atos, pois é ela Se nos prendemos a essa roda da existência que o destino
e não o corpo a nossa verdadeira personalidade. Se acreditarmos faz girar, podemos também nos libertar dela. Tal é o desejo
que a mente pouco varia de nascimento para nascimento, então Natureza e constituirá a nossa felicidade. Nossas preocupaç
não será difícil ver que a personalidade que tem que adaptar sofri- terrenas poderão arrastar-nos ao pessimismo, mas a Natureza
mentos legados por uma reencarnação aos sofrimentos recebidos atrai para a paz. Precisamos deixar a nossa casca terrena e diri
pela reencarnação seguinte está pagando pelos próprios pecados mo-nos para o centro, partir da extroversão completa para
e não pelos dos outros. equilibrada introversão. Mas, enquanto não encontramos o n
Mas uma doutrina que declara que toda ação tem seus frutos, centro, ficamos à mercê dos acontecimentos futuros. Tão-som
e que a vida reencarnada tem de prosseguir até que essas conse- aqueles que moram no centro vivem acima das preocupações e
quências sejam completadas, é deveras razoável. E l a se ajusta medo.

54
Estas palavras parecem banais. E são. Pois, desde os
primórdios do mundo têm sido repetidas, de uma forma ou de universo não é morto, porém vivo; não é maléfico, porém bené-
outra, por todos os grandes profetas e sábios e continuarão a ser fico; não é uma casca oca, mas o corpo gigantesco de um Grande
repetidas até a consumação dos tempos. Nenhuma outra expli- Cérebro. Sinto pena dos materialistas que, de forma muito
cação dos objetivos da Natureza perdurou nem poderá subsistir honesta porém dispondo de poucos dados, acham que a morte
por muito tempo, porque esta é a resposta que a própria Natu- é o rei do mundo e o Demónio mora no íntimo das coisas. Se
reza dá àqueles que sabem inquiri-la com propriedade. Um fato lhes fosse possível calar seus cérebros superativos e enquadrar-se
é preferível a quarenta hipóteses; isto é um fato da Natureza. na personalidade panorâmica da Natureza, eles descobririam o
f A carcaça material deste universo se dissolverá um dia e quanto estão errados.
/com ela nossos corpos serão dissolvidos, porém nós continua- No entanto, com as mais recentes descobertas dos cientistas
L remos. de que dispomos, apenas os tolos e sectários poderão defender
| Mas até esse dia basta que se escreva a respeito! as teses do materialismo.
A forma misteriosa pela qual este crescente sentimento de
unidade mescla-se com um sentimento de completa bondade vale
ser assinalada. O sentimento de unidade não se deve a qualquer
esforço da minha parte; pelo contrário, vem-me não sei de onde.
Poderia ser bom para alguns homens, inclusive eu próprio, A harmonia vai surgindo gradualmente e atravessa-me o ser como
modelar-se segundo o figurino destas elevações rochosas que música. Uma ternura infinita se apossa de mim, aplacando o duro
buscam os céus, a fim de encontrar estabilidade, fixidez e força. cinismo que uma reiterada experiência da ingratidão e desones-
Estas montanhas hão terão o significado de uma lição para os tidade humanas gravou fundamente no meu temperamento. Sinto
débeis mortais? a bondade fundamental da Natureza, a despeito da sua aparente
fachada de ferocidade. Assim como os sons de todos os intru-
Ultimamente, minhas excursões à quietude produziram em mentos de uma orquestra afinada, todas as coisas e todas as
mim um sentimento de maior contato com o meio ambiente. pessoas parecem entrar em doce relacionamento, que subsiste no
Como disse o poeta Shelley, sinto-me "unificado com a natureza''. coração da Grande Mãe.
Sentado à beira do meu rochedo, munido de toda a paciência do
mundo, deixando que a beleza e a serenidade da vizinhança pene- Começo a compreender por que meu venerável Mestre não
trem em mim, começo a sentir-me, eu próprio, como uma parte me sugere nenhum tipo especial de meditação e não me fornece
da tranquila paisagem. Estou absorvendo na minha natureza a nenhuma fórmula mística para ser ponderada e destrinçada. Ele
quietude do Himalaia. Meu corpo parece despontar da terra não deseja que eu realize qualquer esforço no sentido de atingir
pedregosa e escura como qualquer pequena árvore. Agacho-me uma posição mais elevada, quer apenas que as coisas corram natu-
ao solo, enraizado como o cedro à minha frente. A vida que ralmente. Ele não me exibe um quadro daquilo em que me devo
pulsa nas minhas veias parece ser a mesma que corre na seiva transformar, mas diz apenas, sê\ E m suma, trata-se de não fazer
das plantas ao meu redor. A t é mesmo a sólida montanha deixou nada a fim de permitir que algo seja feito comigo.
de ser uma simples massa de rocha cristalina, para transformar-se Nós, humanos, nos tornamos tão importantes e orgulhosos
numa formação viva obedecendo a determinadas leis, da mesma aos nossos próprios olhos que não nos ocorre que a Grande Mãe,
forma pela qual a minha carne obedece a essas leis. que nos gera tão pacientemente no seu seio, nos alimenta com
atanta abundância de alimentos e nos chama de volta quando
E , à medida que esse espírito unificador penetra mais e mais estamos suficientemente cansados, tem um objetivo próprio que
em mim, um benfazejo sentimento de bem-estar parece ser o deseja conseguir em nós, desde que lhe permitamos. Nós organi-
resultado. E u e todas estas árvores amigas, esta terra amável, zamos nossos planos e projetos, nós decidimos aquilo que quere-
estes picos brancos e reluzentes, estamos unidos num só orga- 1 mos da vida e nós pensamos, lutamos e até mesmo padecemos
nismo vivo e o todo, positivamente, é bom no seu íntimo O
em nossos esforços para obter a satisfação de nossos desejos.

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Se, porém, dedicássemos uma quarta parte do nosso tempo a as ele próprio quem iria transportar as malas. Assim, também,
suspender os nossos esforços e deixar tranquilamente que o cére- Deus sustenta a Terra, sustenta-nos a nós e aos nossos fardos,
bro da Natureza penetrasse no nosso, poderíamos proceder a uma levando tudo Consigo.
sábia revisão do rol das coisas que desejamos e, ao mesmo tempo, Quantos dos nossos sofrimentos decorrem, portanto, da
garantir a ajuda da Natureza na obtenção dessas coisas. nossa resistência? A princípio a Natureza coloca seu dedo deli-
O mundo não passa de um grande hotel, onde a Mãe Natu- cado sobre nós, mas nós nos afastamos bruscamente. A solici-
reza nos aloja e alimenta, paga a nossa conta e depois segue em tação de confiarmos nossas vidas a um Poder mais alto é feita
frente. no mais brando dos sussurros, de modo que, se não nos aquie-
tarmos por algum tempo, talvez não a escutemos. A submissão,
Pois a Natureza tem um desígnio para cada um de nós e
que nos traria a paz, está distante dos nossos pensamentos. O
apenas desistindo durante algum tempo do contínuo exercício
ego pessoal, com sua ilusória realidade, nos engana e, enganan-
das nossas vontades poderemos nos familiarizar com tais propó-
do-nos, nos aprisiona.
sitos. Se, no entanto, agirmos assim, talvez constatemos, surpreen-
didos, que ela também tem uma forma de chegar aos seus fins, mm Tudo não pass.i do preço que pagamos por desertar da Natu-
í silenciosa porém eficazmente, diante de nossos olhos, desde que reza. Com ela a harmonia; sem ela, a discórdia c o consequente
a ajudemos despindo-nos do nosso egoísmo. Então os desígnios sofrimento.
da Natureza e os nossos tornar-se-ão um só. As ambições mudar- Não sou capaz de expressar de forma adequada o quanto
1
-se-ão em aspirações e as coisas que outrora desejávamos em nosso reverencio a Natureza. Ela é para mim o templo universal, a
próprio benefício serão alcançadas quase sem esforço, através de igreja universal. No sul da Índia ouço muita agitação e tumulto
! nós para o benefício de outros também. Cooperar por esta forma porque os párias e os de casta inferior não são admitidos pelos
com a Mãe Natureza é cessar de carregar as cruzes da vida e brâmanes em seus templos. As piores formas de "intocabilidack-'
deixar que ela faça esse trabalho por nós; tudo se torna fácil, até predominam no sul muito mais do que em qualquer outra parte
mesmo miraculoso. da Índia. O antigo sistema de divisão em castas era perfeito
em outras épocas. O homem letrado era a cabeça do corpo social,
Já tinha visto essas verdades antes, mas agora, no meu refú- o guerreiro os braços, os comerciantes e camponeses o corpo, e
gio montês e mais intimamente vinculado à Mãe, vejo-as com os operários os pés. Hoje em dia, porém, a disposição das castas
espantosa claridade. perdeu sua força, tornou-se desorganizada e opressiva, de modo
Um poeta disse que a Natureza é a roupagem de Deus. que há muitos milhões de seres submetidos a indignidades cruéis
Sim, mas para mim a Natureza não pode ser distinguida de Deus. e desprezíveis. Se os brâmanes fossem sensatos transformariam
Sei que quando estou reverenciando a Natureza não me estou suas proibições para com os de casta inferior em vetos de caráter
entregando a um solilóquio; alguém acolhe a minha reverência. social ou higiénico, mas não religioso. Podemos compreender e
Se Deus é o Grande Arquiteto então a Natureza é o Mestre de aceitar que um duque se recuse a sentar-se em companhia de um
Obras do universo, no sistema Maçónico do nosso mundo. gari num edifício público, mas quando ele diz que sua recusa é
por ordem divina e não por causa do seu refinamento, e chegado
Meu Mestre explica a inutilidade de qualquer esforço sepa- o momento de por um paradeiro a essa tolice. Se eu fosse o
rativo, através de um sorriso significativo. E pergunta-me: — líder desses infelizes hindus de casta inferior eu lhes diria: —
Que pensarias tu de um homem que entrasse num compartimento Parem com esta agitação degradante em torno de alguma coisa
de um vagão de estrada de ferro com uma mala na cabeça, que talvez não valha a pena ter. A Natureza deu nos um templo
depois se acomodasse num banco e se negasse a colocar a mala verdadeiro, onde Deus está tão presente como ^aquele velho
no chão? As pessoas, no entanto, negam-se a entregar a Deus amontoado de santuários sebentos e pedras santas lá adiante;
os espinhos das suas existências, insistindo em carregá-los por si venham às florestas e montanhas, até mesmo a uma sala nua e
próprias, na ilusão de que ninguém mais poderá fazê-lo, assim eu lhes mostrarei um Deus que os outros raramente enconn.un!
como o homem do trem estava na ilusão de que não era o trem

58
A voz da Natureza tem de ser ouvida interiormente; sua
Y beleza pode ser vista exteriormente; mas a sua benéfica harmonia
vive tanto no nosso interior quanto no nosso exterior.
Se eu não sentisse assim em virtude da experiência presente
e não soubesse verdadeiro em razão de experiências passadas,
não me atreveria a escrever palavras de tanto otimismo, capazes
de iludir-me a mim e a um mundo tornado cego. Mas, porque
a sublimidade que se instala em mim, cá neste solitário rochedo
do Himalaia, é um fato genuíno e encantador, permito que minha CAPÍTULO V
pena as escreva.
Visita Inesperada de Dois logues — Peregrinos e
Já sofri demais e vivi demais para demorar-me em senti-
Santuários no Himalaia — O Poder da Quietude
mentos melosos que não passam de ficção. Mas, se eu morrer
esta noite, que estas palavras sejam encontradas no meu diário
e publicadas e divulgadas para todo o mundo:
, M I N H A SOLIDÃO foi invadida. Os primeiros visitantes che-
/ A Natureza é tua amiga; reverencia a Natureza nos teus
garam. E sua inesperada visita fornece-me, ainda uma vez, uma
| momentos de silêncio e ela te abençoará em segredo. 1

ampla prova da pequenez do mundo sublunar. Que se esteja


num bulevar de uma grande cidade ou numa viela de um lugarejo
oriental, é preciso que se esteja sempre preparado para encontrar
algum conhecido ou alguém que jura que nos conhece. Três
vezes fui detido na índia Central e Setentrional por viandantes
modestamente trajados que me chamaram pelo nome e me sauda-
ram com efusão, embora eu não lhes conhecesse os rostos nem
os nomes. E m Delhi, almocei inesperadamente com um major
aposentado de volta à índia, obedecendo a um súbito capricho,
depois de uma ausência de quinze anos, e com quem eu havia
almoçado dezoito meses antes, no seu confortável apartamento
londrino. E m Dehra Dun, também de forma inopinada, retomei
o fio de uma conversação interrompida com um professor da
Universidade de Oxford que há muito não via. E assim por
diante.
Aqui, no isolamento do coração do Himalaia, até hoje pare-
cia-me possível conseguir um retiro absoluto. Agora constato*
o contrário. Faça-se o que for e mãos invisíveis estarão sempre
a atar todos os tipos de meadas entre a gente e o mundo que se
deixou. •- ^ . .,..v% ;^
: ;

Pois, tendo eu ficado até tarde esta manhã no pequeno


terraço, de pedra e grama, com os galhos do abeto sobre a cabeça
e tentando por em ordem uma confusão de papéis, anotações e
cartas, eis que me surge de repente o criado, sorridente, anun-
ciando dois visitantes!

60
Ergo os olhos e lá estão eles, logo atrás do criado, tendo poderia perdoar se os privasse de um mínimo que fosse de
subido a pequena rampa que sai da casa.
alimentos.
O sol do meio-dia bate de rijo sobre os dois homens que
Os dois homens tornaram-se então um tanto nervosos e
envergam um manto amarelo, vestimenta que anuncia serem
fizeram toda a pressão possível para que eu aceitasse o presente.
iogues, frades, ascetas, homens santos, vagabundos ou ladrões,
O mais jovem declara que aquele fruto é uma oferenda especial
porque na índia moderna qualquer um que não deseje trabalhar
a um colega iogue, como mandam os costumes, e que ambos se
para viver pode envolver o corpo preguiçoso num destes hábitos,
sentiriam muito ofendidos, caso eu insistisse na minha negativa.
tanto quanto um santo que despreza o mundo e deseja devotar
Como percebesse que ficariam realmente magoados, aceitei com
toda a sua vida à oração e à meditação. Ambos poderão então
pedinchar comida e assim por diante, e, tendo sorte, poderão reluntância a dádiva, mas com a condição de que fosse imedia-
encontrar um patrão que tome a si a tarefa de sustentá-los. tamente cortada e dividida entre nós três. Enquanto o criado
cuida de descascar e trinchar a fruta, alego, meio em brincadeira,
Os dois homens que tenho diante de mim parecem ser de
que eles cometeram um erro e que não sou nenhum iogue, con-
um tipo superior. O mais idoso é bem apessoado, de rosto forme se pode ver facilmente pelas minhas roupas.
agradável e aspecto aristocrático. Tem os cabelos encacheados e
compridos, chegando até os ombros. Seu companheiro é mais O guru replica gravemente:
moço, de constituição mais franzina, mas igualmente simpático. — Não é o manto amarelo que faz o iogue; isso não é
Também ele usa cabelos anormalmente compridos. É o primeiro nada; é o coração e o senhor é um dos nossos.
a falar; saúda-me pelo nome e, para minha surpresa, arroja-se — Então esta é talvez a primeira vez — retruco alegre-
no chão. mente — que um iogue veio para o Himalaia usando um capa-
Não o conheço e digo-lhe isso. cete contra o sol e calças vincadas, sentou-se num impermeável,
Ele responde sorrindo que me conhece e conhece também bateu as teclas de uma máquina de escrever portátil e tomou chá
o meu Mestre. A seguir dá-me o seu nome e fico sabendo que quente de uma garrafa térmica atada às suas costas!
provém da costa Malabar do sudoeste da índia. Seu compa- O homem mais velho fica tão surpreendido com o meu
nheiro, esclarece-me ele, vem de Gorakhpur, ao norte, das Pro- chiste banal que prorrompe súbito numa tremenda gargalhada,
víncias Unidas, para ser exato. O primeiro é um guru, isto é, que dura talvez um minuto. Aparentemente, seu voto de silêncio
um mestre espiritual, de alguma influência na sua região. Não permite-lhe rir. Se o riso não é na realidade uma forma de
obstante, é uma espécie de discípulo não vinculado do outro. falar isto é um problema digno de ser atacado pelos filósofos.
Essas informações só são conseguidas depois de longo inter- Mas eu não tinha terminado de interrogá-los. Enquanto comemos
rogatório da minha parte. A seguir o homem mais velho apro- as fatias da deliciosa fruta, pergunto:
xima-se, toca em mim e apresenta-me uma espécie de manga, — Como sabiam que eu estava aqui?
cujo nome não me ocorre, mas que sei ser um fruto de alto Não sabíamos, mas fomos guiados — foi a calma res-
preço. Ele mo oferece sorridente, mas não diz uma só palavra.
posta. , • ,_ v .; ^ .. ,
: ; ...^
O seu companheiro esclarece-me então que o homem está "em — Por quem?
regime de silêncio" e há doze anos não fala.
O homem que falava sorri e aponta na direção do céu. Sou
^ Agradeço-lhe e recuso, dizendo que ele precisará de toda
obrigado a satisfazer-me com aquilo.
espécie de alimentos nesta região erma.
— O h , nao! — exclama o outro, — temos conosco alguns Não obstante, faço uma última tentativa.
cules carregando todas as provisões necessárias, pois estamos Se v ã o a Gangotri, sabem que esta não é a estrada habi
numa peregrinação a Gangotri. tualmente usada pelos peregrinos. O caminho certo fica entre
Dharasu e Uttarkashi. Passando por aqui, estão-se desviando da
Mas eu bem sei das dificuldades inerentes à viagem e
nego-me a aceitar a fruta, declarando francamente que n ã o me rota e encompridando desnecessariamente o caminho.
— Mas queríamos conhecê-lo — é a bondosa resposta acom-
hospedo. Assim é que, nesta pereginação a Gangotri, o profes-
panhada de um sorriso.
sor que me leva está também arcando com as despesas.
A seguir eles se erguem e pedem licença. Vão encontrar-se
— É verdade, como dizem muitos, que a maioria dos
com os seus cules e almoçar. O mestre, por meio de escrita,
ascetas e homens santos não passa de vagabundos desclassifi-
convida-me a ser seu hóspede para o jantar e fazer a adoração
cados? O senhor viaja entre eles e tem mais autoridade para
vespertina em sua companhia, pois pretende descansar aqui lalar do que eu, que, na verdade, estou afastado dessas coisas.
durante um dia e seguir viagem antes do romper do dia. Desta
vez expresso a minha gratidão e sinto-me tentado a aceitar. Per- O iogue sacode tristemente a cabeça. Seus olhos tornam-se
graves.
cebo que ele está-se concedendo grande honra ao partilhar
comigo suas parcas provisões. — Sim, infelizmente é a pura verdade. Irei mais longe e
direi que mais do que noventa por cento dentre eles não passam
Depois do almoço, o homem mais jovem veio visitar-me pela de preguiçosos, mendigos ou vagabundos. Vi-os por toda a
segunda vez. Seu nome é Bhandu Sharma. Sugiro que façamos índia, vivi entre eles e garanto-lhe que menos de cinco por cento
uma caminhada e levo-o na direção do pico a cerca de oitocentos são pesquisadores sinceros dos assuntos do espírito.
metros de distância, onde vicejam ásteres amarelos que brilham
Nossa trilha margeia a floresta e é flanqueada no outro lado
de encontro ao austero pano de fundo. A caminho, ao galgarmos
por uma baixa elevação. Ao falarmos, aproximamo-nos das
uma estreita prateleira de rocha que adere ao flanco da montanha pegadas recentes de um urso, que revolveu bastante o solo à
como que ansiosa por alcançar-lhe o cume, falamos de coisas procura de raízes comestíveis.
mais elevadas e ele desenvolve uma veia autobiográfica. Frag-
Contei ao meu companheiro um incidente que presenciara
mentos da história da sua vida saem-lhe dos lábios.
na Estação Gwalior, esperando por um trem. Um homem santo
Há seis anos vinha percorrendo o território da índia em itinerante, dono de apenas uma capa impermeável e uma bengala,
todas as direções, entre multidões agitadas e bazares e solitárias obrigara o bilheteiro e a polícia ferroviária a deixá-lo viajar sem
cabanas no jângal, em templos cujos altares tresandavam a man- passagem. Diante das suas ameaças propaladas em altos brados
teiga rançosa e no ar puro dos vales das montanhas, estudando e logo misteriosas ninguém se animou a erguer um dedo e, com
a sabedoria do Espírito e a arte da Ioga ao pé de vários mestres. certeza, ele repetiria a cena no seu destino e aumentaria assim
Comparamos nossas anotações, pois algum destes últimos são o número daqueles que viajam de graça na índia. Ademais,
eu percebera nos olhos do homem que ele se encontrava ainda
nossos conhecidos comuns. Diz-me ele que o Místico de Tiruvan-
sob o efeito de uma boa dose de haxixe.
namalai é o homem que lhe causou maior impacto. — E m sua
presença sentia-me imediatamente em paz — afirma o iogue — Bandhu Sharma expressa seu descontentamento em voz
e durante os quatro dias em que permaneci na sua choupana melancólica.
recebi experiências espirituais que jamais conhecera antes. U m Minhas viagens e peregrinações terminarão dentro de um
dia voltarei até ele. ano — informa-me ele. — Então deixarei de lado a companhia
desses rufiões para sempre, assim espero. Fixar-me-ei em algum
Pergunto-lhe acerca do tipo de vida que está levando e como lugar e viverei na maior simplicidade, à custa de um pequeno
consegue suportá-la. rendimento que espero obter de amigos. Dedicar-me-ei ao estudo.
— Serve-me bem porque tenho liberdade para estudar e Parece-me claro que os homens santos itinerantes da índia
meditar, liberdade essa que nunca tive quando era funcionário são simplesmente os frades errantes da Europa medieval. A
dos correios, embora fosse bem remunerado. modernização da índia fará com que desapareçam, assim como
— É uma vida dura para um homem da sua classe. a modernização da Europa fez desaparecer os frades.
— Seria, se eu fosse obrigado a mendigar comida; seria Aqueles raros que são iogues de verdade talvez desapareçam
uma degradação impossível de suportar. Mas tenho a felicidade também, mas não por completo. Considero-me um felizardo por
de receber comida e casa de todos os mestres com quem me

64
haver alcançado uma situação entre as suas fileiras, porque
sociedade dos iogues é mais fechada que a da aristocracia.
Terminado o jantar, convido-os a vir ao meu bangalô para
Ele conta-me do ponto a que chegou na sua vida interior
uma derradeira conversa, já que partirão antes da aurora.
É capaz de sentar-se calado para meditar durante duas ou três
Discutimos antigos tópicos da vida espiritual que na índia já
horas e olvidar por inteiro o mundo exterior; é capaz de entrar íôtãm tantas vezes discutidos e o professor, com ajuda do seu
em transes espirituais místicos e desenvolveu seu poder de concen- ágil lápis, esclarece laguns detalhes de somenos ligados ao seu
tração até um ponto muito adiantado. E l e encontrou uma certa próprio ramo de cultura espiritual. A seguir levanta-se, todos
dose de tranquilidade interior e é, por isso, feliz. sorrimos uns para os outros, tocamos as palmas à guisa de sau-
Discutimos dois problemas com os quais ele não é capaz de dação e eles vão-se recolher para passar a noite. Foi a última
se haver satisfatoriamente e, por fim, sinto necessidade de dar vez que vi os dois andarilhos vestidos de amarelo.
certas explicações. E l e as recebe jubilosamente e exclama:
— Agora sei por que tinha de vir vê-lo. Estas são precisa-
mente as respostas que me escapavam!
Digo-lhe que não devem ser levadas a meu crédito, mas
Estamos na temporada das peregrinações. Durante os quatro
sim ao do meu Mestre, pois só a ele devo esses conhecimentos meses de verão pode-se transitar a salvo pelas trilhas e caminhos
específicos. do Himalaia, mas a seguir estes ficam enterrados na neve até
Descansamos um pouco no alto do pico. O lugar está cerca de dois metros e viajar por ali torna-se tarefa perigosa e
repleto de samambaias, que se enroscam nos troncos dos abetos. praticamente impossível. Assim sendo, os peregrinos só aparecem
Na nossa viagem de volta, sob um céu raiado de um rosa-pálido durante o verão. A maior parte deles é constituída de homens
e com as neves reverberando ao acaso como metal em brasa, santos, faquires e frades.
deparo, agradavelmente surpreendido, com alguns jasmineiros Admiro a determinação, a bravura e a devoção religiosa
selvagens. São flores de exótico perfume, brancas como neve, dessa gente que vem das planícies da índia, de regiões onde faz
e recordam-me um certo jardim de Gwalior onde meu anfitrião um calor feroz para uma austera região de precipícios, gelo e
ajudara a Natureza a propiciar-me alguns momentos indeléveis. neve. É relativamente fácil a um europeu, habituado aos frios
Meu companheiro faz uma observação acerca da alta inspi- invernos do seu próprio continente, suportar o frio do Himalaia,
ração que encontra aqui. Quase todos os hindus voltam-se com mas para aqueles hindus mal vestidos a aclimatação é penosa e
devoto temor diante do "Poderoso Himalaia", conforme dizem exige muito sofrimento.
os seus livros, como a última morada dos verdadeiros sábios Centenas de homens, e até mesmo.mulheres, vêm em pere-
nesta era que se finda. grinação a estas montanhas recobertas de neve todos os verões,
À noite, sob a luz fraca de um lampião de querosene, pois sua religião lhes ensina que aqui viveram seus deuses e seus
junto-me a ele e ao seu mestre para a adoração vespertina. mestres mais famosos e, invisivelmente, continuam a viver.
Depois de cantarem seus hinos, eles permanecem prostrados por
O Himalaia é a terra santa do subcontinente hindu. É para
terra em reverente oração. A o final, surge o jantar. Tudo está
os hindus o mesmo que a Palestina é para os judeus e cristãos.
colocado sobre uma enorme travessa de latão, de modo que os
pratos, do primeiro ao ú l t i m o , aparecem simultaneamente diante Aqui, na gruta de Badarikasrama, viveu o famoso sábio
dos meus olhos. Vyasa que escreveu a Mahabharata, a mais grandiosa epopeia
Surpreendo-me ante a excelência e variedade do repasto religiosa da índia. E m Rishikesh, à margem do Ganges, os
oferecido. Todas as gulodices de que os hindus tanto gostam Vedas, ou escrituras sagradas, receberam sua forma quadrupla
estão presente — desde chapatis (pães de cevada) até as rasi- final ' Vasishta, sábio e profeta, o solitário autor de um imenso
gullas (rapaduras). O guru tem vários cules e dois criados e, compêndio de Ioga, viveu neste reino de Tehn antes da era
evidentemente, é o homem abastado, julgando-se pelos p a d r õ e s cristã No alto de um trono natural rodeado de neve. ohiva. o
dos peregrinos. Deus que tomou o corpo de um iogue, acredita-se ainda perdido

6;
66
numa meditação eterna. No pequeno e arborescente vale de
Agastyamuni o grande vidente chamado Agastya havia praticado Curiosa experiência sucedeu-me hoje. Estando sentado de
a Ioga nos tempos antigos. O sagrado Rio Bhagirathi, que atra- pernas cruzadas sobre o rochedo, com o pé direito descansando
vessa este reino, é mencionado nos livros sagrados, os Puranas, sobre a coxa esquerda, o olhar fixo na extremidade da garganta,
pois é na verdade o principal alimentador do Ganges. O nome a respiração contida pela quase imobilidade, o doce torpor em
do rio está associado com o do rei Bhagirath, um santo real. O que recaio é subitamente rompido por uma aparição violenta de
poder.
templo de Badri Narayan num vale gelado é sagrado até para os
budistas, e não menos para os hindus, e até hoje alguns mosteiros Nenhum esforço da minha parte a provoca, pois repouso
tibetanos prestam-lhe tributo. sobre o solo tão impassível como uma pedra. No entanto, um
impulso eletrizante toma de repente conta do meu corpo e enri
Quando o peregrino chega a esses santuários ele se acredita jece a minha espinha como se fosse a corda de um arco. Uma
na presença das divindades que habitam o local. Os peregrinos força dinâmica se espalha por toda a minha carne, de modo que
palmilham pacientemente o terreno até Kedarnath Badrinath e rilho os dentes para conter-me e enterro as unhas nas palmas
até mesmo Gangotri e Jumnotri, percorrendo trilhas estreitas e das mãos.
sinuosas, alimentando-se apenas de arroz e lentilhas, cantando
Este repentino acesso de força, aparentemente vindo' do
extaticamente hinos sagrados e engrolando orações. Sobem a nada, é tanto físico quanto moral. Meu corpo leve se transforma
custo íngremes ladeiras e descem com dificuldade declives escor- e sente-se capaz de feitos hercúleos, ao passo que o meu caráter
regadios essas figuras cansadas e pequenas, padecendo de diversos absorve grande dose de coragem física, determinação e aspiração.
males na viagem de volta, que dura de seis a oito semanas, e
Sinto que legiões de anjos guardiões e espíritos prestativos
correndo riscos de sofrer acidentes e contrair moléstias. Quando,
se reuniram para amparar-me e me ajudarão a transformar em
por fim, chegam, exaustos, aos templos erigidos há séculos em
sucesso qualquer empreendimento a que me atire. Sinto-me
locais sagrados nestas montanhas, seus rostos iluminam-se, pois
como um segundo Mussolini, com o mundo invisível como a
recebem — ou pensam receber — as bênções dos deuses.
minha Abissínia. Sinto-me como aquele oficial do exército que
Acho que eles têm razão. certa vez relatou-me suas sensações ao passar em revista a tropa.
— A consciência de ter sob o meu comando duzentos homens,
Ainda que os templos sejam inúteis coleções de pedras, ainda
todos inteiramente prontos a obedecer à minha primeira voz de
que os deuses não passem de delírios da imaginação dos homens
comando e a seguir-me onde quer que eu fosse, dava-me uma
primitivos, viver no Himalaia é por si só uma grande bênção!
autoconfiança prodigiosa que eu, normalmente, não possuo —
Lá no alto, as estrelas em sua alta abóboda já saíram por confessou ele.
completo dos seus ataúdes de luz diurna e brilham aqui e acolá Esta disposição misteriosa prolonga-se por cerca de mais
com seus raios que piscam. Hidra, batizada com o nome da de uma hora. A seguir vai gradualmente arrefecendo, nlo, porém,
serpente monstruosa que Hércules abateu, espicha sua comprida sem deixar sua marca em mim. Percebo que, por acaso, liberei
silhueta sob a eclíptica. Orion, outra constelação austral, aparece alguma força psicofísico-espiritual, embora como, por que e onde,
no equador. O Caçador é a figura mais notável dentre as formas sejam coisas menos fáceis de asseverar com precisão.
estreladas. Seu punhal embainhado contém uma nebulosa que De repente uma rajada de vento se ergue e varre as gargan-
é uma das vistas mais lindas do céu. A sudoeste de Orion brilha tas. As folhas amareladas dançam loucamente em torno de mim
Sírio, famosa estrela de primeira magnitude. Meu derradeiro e depois voltam a cair ao solo. Um corvo chama sua compa-
olhar dirige-se à constelação de Leão, quinto dos grupos zodiacais, nheira, que responde de uma árvore próxima./
que comanda o zénite. A seguir recolho-me por aquela noite.
Uma premonição estranha toma conta de mim. Sinto que
Gozei uma comunhão silenciosa com as estrelas longínquas. aquela disposição iria voltar-me com frequência, com o conse-
quente despertar de toda a vibração da vida em todas as esferas.
*
Com esta força indescritível, gerada não sei onde, tomando conta

69
68
de mim, sei que o futuro poderá ser encarado com otimismo,
sem receios, até mesmo de modo triunfante. Estas ideias de os seus auxiliares movimentam-se para cá e para lá, fazendo todo
0 barulho.
vitória ser-me-ão valiosas no futuro, tenho certeza.
O eixo de um gigantesco volante que comanda as correias
Lembra-me que os antigos mestres iogues costumavam falar
de transmissão de uma máquina de uma grande fábrica onde
de um poder que jaz oculto no corpo etéreo do homem, o qual,
trabalham milhares de homens é silencioso e fixo, mas as rodas v

embora invisível, liga-se intimamente ao seu corpo físico. Repre- fazem a maior parte do barulho. No entanto, em última instância,
sentavam esse corpo sob o símbolo da serpente e diziam que toda a atividade da fábrica gira em torno do eixo.
ficava enrodilhado na base da espinha. Uma vez distendido,
Nos terríveis furacões dos trópicos africanos, que podem
despertado e forçado para cima,** o corpo etéreo iria regenerar o
ser tão devastadoras à vida e às propriedades humanas, sabe-se
homem e conferir-lhe incríveis poderes psíquicos, mágicos e espi- que bem no seu centro existe a mais absoluta calmaria. Os
rituais. E m última instância poderiam ajudá-lo a entrar à força furacões estrugem por fora mas são calados no seu interior.
no reino dos céus.
Estas analogias tiradas tanto da Natureza quanto da vida
Mas os fisiologistas não chegaram jamais a encontrar qual- ilustram a ilusão de que calma significa necessariamente fraqueza.
quer vestígio desse poder maravilhoso. Seja ele um fato ou Não é assim.
mera ficção, isso não me importa. Seja como for, fiz uma desco- O ser mais poderoso de todo o universo — O Criador —
berta. é também Sempre-Calmo, Sempre-Plácido. O Ser Supremo vive
Descobri que quietude é força. no Absoluto imutável, porém todo o movimento, toda a criação,
todo o trabalho do mundo, emanam da Divina Imobilidade.
Um mestre hindu moderno, já falecido, disse que estando
sentado a meditar tinha sob os pés a força do mundo! Queria E , se o homem é "feito à imagem de Deus", então o elemento
ele dizer que aquele que é capaz de dominar os próprios pensa- mais dinâmico do seu ser deve também viver na imobilidade.
Esta é uma verdade primordial da vida e seria de bom alvitre
mentos é capaz de dominar o mundo.
que a reconhecêssemos.
Ao invés de fraquejar, sinto-me hoje mais forte; portanto,
Se o Poder que impulsiona toda a maquinaria do nosso
os que encaram a meditação como uma expressão de fraqueza não
universo é, em última análise, secreto e imóvel, então o homem,
sabem na realidade de que estão falando.
que no seu interior reproduz em miniatura todos os principais
Rejubilo-me da quietude que suave e diariamente cresce elementos do universo, deve ser também animado por um Poder
dentro de mim como uma flor. igualmente secreto e imóvel.
A pose delicada que se assume durante a meditação pode 1 Percebo, por conseguinte, que nada tenho a perder persis-
ser uma fonte que jorra poder. tindo nos meus exercícios de quietude. Não preciso temer nem
a fraqueza nem a degenerescência. Pelo contrário, tenho tudo a
Os deuses mais altos são parados, tão parados que os antigos
ganhar, a saber, entrando em contato com essa vital força criadora
egípcios os retratavam de cócoras, em seu sistema hieroglífico!
que na verdade me fez. Tal contato poderá até mesmo transmitir
No entanto, massas de homens movem-se inconscientemente ao
algo dessa força única ao meu eu consciente. No entanto, exte-
seu talante, ao passo que até mesmo os maiores planetas oscilam
riormente, poderá não restar nada senão a serenidade. O mundo
catastroficamente da vertical para uma oblíqua, ao menor ato
poderia continuar a considerar-me insignificante. Isso não teria
da sua vontade.
a menor importância. O mundo perceberia a liberação e agiria
A coisa mais enganosa do mundo é pensar que só aqueles de um plano mais profundo do que o físico.
que fazem barulho são poderosos ou que só eles possuem poderes Os povos antigos sempre tiveram suas lendas acerca dessas
muito ativos. possibilidades. Não há raça que não tenha tido histórias algo
O maior chefe executivo de um grande empreendimento exageradas de sábios, mágicos e profetas que obrigaram tanto os
comercial costuma ficar parado na sua cadeira giratória, enquanto

70
homens quanto a Natureza a submeter-se aos seus desejos
Quando os motivos não eram egoístas tais homens eram bons,
caso contrário eram maus.
Fazer o mundo voltar a estúpidas crenças antigas e reviver
superstições seria retroativo, mas fazer o mundo reportar-se
àquilo que havia de verdadeiro em tais crenças só poderia ser
uma atitude progressista.
A ciência aplicada mostrou o caminho. Ela atira ao espaço, CAPÍTULO VI
pelo sem fio, um raio invisível de sutil energia elétrica; os raios
movem-se de forma rápida, silenciosa e invisível. E , pronto!. . .
Um Apanhado da Minha Correspondência — Um
Aviões voam sem pilotos, o tráfego nas ruas é dirigido por semá-
Quase-Suicídio e a Minha Resposta — Ajuda Telepática
foros automáticos, campainhas de alarme são disparadas, portas
automáticas são postas a funcionar, sinais de estradas de ferro a Estudantes
levantam e abaixam por si mesmos, navios encontram suas rotas
nas mais densas cerrações e soldados tombam mortos, eletro-
cutados instantaneamente. O MENSAGEIRO que de tempos em tempos traz-me a corres-
No armazém universal há outras forças que não a eletrici- pondência da agência postal mais próxima na escaldante índia
dade, as quais poderão agir de forma igualmente secreta e invi- deve ser um dos campeões mundiais de marcha. Entra dia sai dia,
sível e serem não menos potentes à sua própria maneira. Tais não faz senão andar! Ele percorre de trinta a quarenta quiló-
forças poderão estar, adormecidas e inaproveitadas, dentro do metros por dia, graças a Deus e aos seus resistentes sapatos, mas
não se gaba disso. Chega invariavelmente depois do cair da
próprio homem.
noite, quase sempre ensopado por uma dessas tempestades que
agora assolam esta região quase que todos os dias, abre sua
valise e derrama sobre a mesa o habitual maço de cartas. Depois,
em seguida a uma refeição e a um descanso noturno, parte nova-
mente com o romper do dia, carregando através dos compridos
e desérticos caminhos monteses os meus despachos para a civili-
zação. Assim passa ele a sua vida, alma simples e primitiva que
é, fiel e dedicado ao serviço, caminhando sem parar!
É uma figura que poderia ter fornecido a Charlles Lamb o
tema para um espirituoso ensaio, caso houvesse nascido na Ingla-
terra e no século dezenove. Mas o destino reservou-o para o
meu serviço sobre estas trilhas mal traçadas e para a visão de
um mundo em que os aviões cortam os ares zumbindo como
vespas furiosas e carruagens sabidas correm como o vento, sem
ter um cavalo sequer para puxá-las!
Para mim ele é de inestimável necessidade, pois mantém
aberta a minha linha de comunicação com o resto do mundo.
Tal serviço poderia muito bem ter sido desmerecido pelos ere-
mitas antigos ou medievais, mas para um eremita do século vinte
como eu é das melhores coisas que há. Hábitos modernos para
eremitas modernos, eis o meu lema.

ri
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Portanto, vivo segregado mas não isolado. "escória literária" ou "tolices nauseabundas", como aconteceu
Houve época em que eu encarava estas estranhas missivas comigo, ou impugnam sua sinceridade, como aconteceu comigo,
que me são mandadas dos quatro cantos do mundo como pertur- ele pode perdoá-los com um sorriso e responder-lhes com o
badoras do meu sossego. Depois que um autor escreveu suas silêncio da indiferença, enquanto apanha o volumoso maço de
quinhentas palavras diárias para um novo livro e, possivelmente, cartas em que os leitores lhe enviam sua mais profunda gratidão
alguns parágrafos de um artigo de jornal, ele não tem disposição e até mesmo bênçãos cordiais por haver escrito determinada obra.
para tomar da pena e escrever duas ou três mil palavras adicio- Nem todos os críticos usam epítetos tão pouco lisonjeiros
nais na forma de respostas a correspondentes desconhecidos ou como os que acabo de citar. Precisamente o mesmo trabalho que
cartas fornecendo as novidades aos conhecidos e amigos, especial- mereceu deles uma opinião tão desfavorável foi altamente reco-
mente se precisa manter intato um período do dia para a sua mendado pelos dois jornais de maior prestígio no mundo: o
Deusa meditação. Quando não, escrever cartas será para ele Times de Londres e o New York Times. Pode-se muito bem
uma ocupação enfadonha e cansativa. aguentar os primeiros com a finalidade de ouvir os últimos. Mas,
seja como for, não erigi nenhum altar à opinião pública. Se
Certamente, eu não poderia, como o francês Flaubert,
o mundo puder receber o meu pensamento, isto sem dúvida me
labutar durante três dias apenas para conseguir uma frase per-
será agradável; caso contrário, permanecerei imperturbável.
feita! Apenas um génio ou um milionário pode dar-se ao luxo
de tal desperdício de tempo. Jamais serei um milionário e ainda E agora chegou uma nova remessa de correspondência. Não
tenho muito o que viver antes que possa dizer orgulhosamente a posso trazer para cá minha secretária, fazendo-a compartilhar da
um inspetor de alfândega, como disse Oscar Wilde ao entrar completa solidão deste desértico Himalaia, de modo que tenho
nos Estados Unidos: — Nada a declarar, a não ser o meu génio! de cuidar de cada carta e cada assunto sem qualquer ajuda. Na
verdade, arrependo-me até de ter trazido comigo um criado provi-
Nem mesmo uma secretária, conquanto ajuda valiosa e sório, porque ele, pobre alma, está-se tornando um tanto inquieto
essencial, é capaz de aliviar a pressão o suficiente para diminuir e, lendo-lhe os pensamentos, vejo que começou a contar os dias
de maneria marcante o peso do encargo, quando a correspondência da nossa estada. Não ficarei chocado, portanto, se ele me vier
é tão peculiar e pessoal como a minha. anunciar gaguejante que deseja acertar as contas e a seguir me
No entanto, a passagem do tempo abrandou o meu ponto abandone pela mais sociável e civilizada cidade de Delhi, onde
de vista e terminei por encarar de modo mais tolerante essas o contratei. Posso perfeitamente cozinhar as minhas próprias
cartas. Afinal de contas, tirante umas poucas que não são muito r e f e i ç õ e s . . . sim, até mesmo os místicos têm de comer!... e
sãs ou vêm de meros caçadores de autógrafos ou de simples prefereria fazê-lo a ter a paz destas montanhas prejudicada por
curiosos ou histéricos com mania de religião, a maior parte das pensamentos conturbados. O preparo de uma saborosa refeição
pessoas não rompe sua natural reserva escrevendo a um estranho não supera as minhas capacidades culinárias. — Paz a qualquer
acerca das suas dificuldades com a sua concepção do mundo ou preço — que já foi o lema de um certo partido político inglês,
expondo-lhe os problemas espirituais que a aflige ou, perplexa, tornou-se o meu lema também. Aqueles iogues que antigamente
pedindo-lhe orientação, a menos que haja um motivo forte e se refugiavam nos recessos do Himalaia levavam consigo apenas
urgente para assim fazer. Existe, no entanto, um lado bem discípulos devotados que os atendiam em suas necessidades, nos
seus recantos solitários: agora posso compreender porque. E
agradável na vida do escritor. Boa percentagem das cartas que
embora eu não seja um iogue (ao menos no sentido ortodoxo do
recebe relaciona-se com o prazer intelectual e a ajuda espiritual
termo), meu objetivo aqui é sensivelmente igual ao deles.
que seus leitores alcançaram à custa de seus esforços literários.
Nenhum autor é modesto a ponto de não gostar de receber tais As revelações que a minha mala postal me faz são por vezes
cartas encomiásticas. Elas o encorajam a prosseguir na sua obra extraordinárias. Eis um homem da Checoslováquia que me diz
e impedem-no de abandonar uma profissão precária, quando que mais de duas mil pessoas reuniram-se no seu pequeno pafa
ocupações muito mais lucrativas surgem tentadoramente diante com o propósito de estudar a sabedoria secreta do Espirito e
dele. E , quando críticos hostis denunciam seus livros como

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praticar regularmente a meditação como meio de chegar a ela
Aqui está uma carta de um advogado hindu exercendo sua profis- podem atacar com muito mais propriedade? A Europa forjou
são no fórum de uma grande cidade, o qual está tentando orga- seu próprio destino e, sob o olhar vigilante dos deuses, a Europa
nizar um retiro espiritual no sopé do Himalaia, a fim de q u e
terá de suportá-lo. Toda calamidade traz consigo uma compen-
ele e outros profissionais tenham um lugar para onde se dirigir sação espiritual invisível. Não desespere, porém, pois há um
quando necessitarem de tranquilidade espiritual. plano por detrás de tudo e, no momento apropriado, a presença
de poderes mais altos se tornará mais clara diante de um mundo
Eis um convite de um comité europeu de pesquisas psíquicas estupefato. Nossa raça está atravessando um período de transição.
para que eu presencie e investigue uma demonstração feita cami- Pois as grandes forças do destino, as invisíveis forças diretoras
nhando sobre carvões em brasa. Bem, a distância impede-me de da História, mobilizam nas ocasiões críticas os instrumentos
ir, mas, de qualquer forma, eu preferiria presenciar e investigar humanos necessários ao cumprimento tanto do nosso destino
o por do Sol por entre reverberações douradas de luz deslum- prévio quanto de sua própria vontade, seja para a alegria ou
brante. para a dor ou, ainda, para ambas as coisas.
Cá está um amigo jornalista que, durante vinte anos, encon- Quem são, na verdade, os legítimos senhores do mundo?
trou toda sorte de infortúnios e, mantendo o seu orgulho embora Serão eles os títeres inconscientes cujos nomes aparecem nos
sempre com os bolsos vazios, via agora as coisas mudarem radical- jornais ou serão os seres divinos que desde tempos imemoriais •
mente e todos os bens do destino caírem-lhe ao colo. tiveram a seu cargo a tutela da humanidade?
Entrementes enraíze sua vida no E u Superior e não terá por
Outro é um charlatão de oitenta e um anos à procura de
que sentir medo. É extremamente difícil para uma mente
um discípulo, oferecendo-se, numa carta em duas vias, para
moderna conceber um estado em que o ego pessoal se submete
dar-me "iniciações para Deus (sic), reavivar mistérios zelosa-
ao Infinito impessoal. Parece, à primeira vista, impossível que
mente preservados, que só podem ser desvendados aos olhos de toda uma vida, com seus sofrimentos e alegrias, seus temores
homens que mereçam tal felicidade. Mas, sendo necessário encon- e esperanças, seus fracassos e loucuras, deva ser mantida em
trar um sítio permanente e as facilidades exigidas para a conse- suspenso, por assim dizer, por uma vida mais profunda que
cução desse trabalho e também para as minhas orações diárias, emana de uma fonte divina interior ao próprio ser e o transcende.
cobro uma taxa de 108 rupias dos ricos, 40 rupias da classe Nesse estado não há ontem nem amanhã, pois só assim se pode
média e 9 rupias dos pobres". Ainda bem que posso receber obter a paz. Mas precisamos tentar, se se tentarmos como fé e
"uma iniciação para Deus" aqui nestas montanhas silenciosas sem correção, eventualmente não estaremos tentando em vão. Capa-
pagar um tostão sequer e, com certeza, uma iniciação bem melhor cite-se desta verdade, senhora, use-a como se fosse uma lanterna.
do que aquela que me seria proporcionada pelo velho caçador
de rupias. Pergunto-me, porém, por que ele me teria escrito.
Sou suficientemente conhecido na índia para dar-me ao luxo de
recusar discípulos ao invés de converter-me num deles. Sem \ Eis aqui mais uma carta de uma dama. E l a é velha e há
dúvida, a lapidar definição de Darwin do tolo como um homem
/ trinta anos procura a verdade espiritual, mas, infelizmente, seus
que jamais faz uma experiência não se aplica ao velho em tela.
esforços sempre foram vãos. Só encontrou decepções e desilusões
Aqui está a carta de uma amiga fiel, falando dos problemas Y em sua busca, o que gerou ceticismo e amargura. Torturada, ela
políticos em que a Europa se acha mergulhada e lastimando a pede-me que a aconselhe. Pois bem, dar-lhe-ei meu conselho,
ameaça de guerra sempre presente. E l a , muito naturalmente, pobre senhora A A tristeza é o prefácio da sabedoria. Renove
sente-se deprimida, pois é esposa de um general e implora-me J suas esperanças desvanecidas e restaure sua fé no Ser Supremo.
que saia do meu retiro e tome alguma providência! Mas quem Cá está um amigo político a quem ajudei com conselhos
sou eu, cara amiga, mísero escrivã itinerante e um mortal fraco Escreve-me para- perguntar se serei candidato pelo seu partido
e pecador, para atacar aquilo que um milhar de políticos preo- nas próximas eleições. Agradeço e lamento. Já me candidatei a
cupados e algumas centenas de milhares de pacifistas atónitos

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uma eleição mais elevada, presidida pela Mãe Natureza e prome-
tendo ao eleito apenas repouso e como honraria única a verdade. poucas palavras de júbilo a seguir: — Quando surgem os grandes
Outra carta chega-me de um amigo no Egito, pondo-me a aborrecimentos e a vida se enegrece de infortúnios, não resmun-
par de todas as novidades relacionadas com um grupo que tem gues em tom lutuoso, "É o fim!" mas, ao invés, diz, cheio de
o seu papel na vida social daquele ensolarado país e a seguir esperança, "É o começo!" A ocasião tem de ser aproveitada como
pedindo notícias minhas. Um funcionário de uma ferrovia escre- uma oportunidade para iniciar uma nova vida, para mostrar as
ve-me acerca de problemas surgidos quando se entregou à prática qualidades positivas, corajosas e construtivas que estão latentes
da meditação. Um médico da Inglaterra envia-me agradecimentos no teu íntimo. Tem de ser uma oportunidade para reconstruir
por haver eu elucidado determinados aspectos psicológicos num tua existência em melhores bases, bases apropriadas que repousam
sobre aquelas qualidades imperecíveis. Domina primeiro as difi-
dos meus livros e a seguir propõe uma questão de difícil resposta.
culdades em tua mente e também elas irão gradualmente tomando
Um arguto homem de negócios americano diz que alguns dos meus
novas formas segundo as novas circunstâncias exteriores. Deixa
parágrafos revolucionaram seu modo de ver as coisas e pergun-
que cada tristeza, quando chegar, seja o ponto de partida para
ta-me se estou disposto a tratar de certos delicados problemas de um tipo de vida mais divino. Foste feito à imagem de Deus —
ordem pessoal. Alguns grupos esparsos, que um dia talvez se sim, bem no fundo és a imagem de Deus — faze, portanto, jus
transformem em expoentes do evangelho da ação inspirada e a ela. Quando te recusas a reconhecer a maldade de uma outra
que estão prontos para trabalhar desinteressadamente pelo bem- pessoa ou de um conjunto de circunstâncias, fazes com que dimi-
-estar da humanidade, mandam-me notícias suas e pedem conse- nuam as possibilidades de seres por ela afetado. Faze dos teus
lhos acerca de vários assuntos. Meu aluno mais jovem, que tem aborrecimentos uma forma de encarar a vida sob um novo
doze anos de idade e algumas dezenas de séculos na alma, man- aspecto e pensa nela de uma forma mais forte, mais positiva.
da-me carinhosas notícias dos seus progressos escolares. Ele já Não sintas amargura com relação ao que poderia ter sido; a rebe-
é capaz de fazer, com habilidade e segurança, aquilo que muitos lião em nada te ajudará; a sábia resignação talvez. Começa de
adultos continuam lutando por conseguir: ficar calado e relaxar, novo, tornando-te uma nova personalidade. Tenta, assim, desar-
os pensamentos enfocados no Infinito. Um iogue que começa mar o destino. Faze uma lista daquilo que ainda possues, tanto
e termina sua carta com o símbolo de Deus em sânscrito; um material quanto espiritual, e verás que não estás verdadeiramente
engenheiro que está tentanto conservar sua sensibilidade para as perdido. Na pior das hipóteses, estarás perdido apenas quando
coisas divinas no meio da sua carga de tarefas comerciais, embora tiveres perdido toda a esperança, toda a coragem, toda a fé nos
seus impulsos espirituais fluam de forma irregular e incoerente; divinos poderes curativos que nos guiam. A agonia de perder
um diretor de empresa que está agora aprendendo a dirigir-se a as coisas é grande, sim, mas a agonia de perder a esperança é
si próprio; um marceneiro desempregado que me pede que aben- ainda maior. Não te submetas a ela; ela nunca é benvinda. Deus
çoe seus esforços para encontrar trabalho; uma condessa apanhada continua a existir e importar-se conosco. Garanto-te que ganhei
o direito de escrever esta última sentença, pois ganhei-o em meio
no turbilhão da vida social, sem contudo esquecer seus deveres
a uma angústia tão grande quanto a tua.
mais elevados — todos estes e alguns outros contribuem com a
sua quota para a minha correspondência de hoje.
E agora preciso apanhar a minha pequena máquina de escre-
ver portátil e começar a datilografar respostas, umas poucas,
A última carta é mortificante. Relata ela uma série de
pois não tenho tempo para escrever mais. Há outras pessoas
terríveis tragédias que partiram o coração do escritor. Poderia com as quais uma voz interior que precisa ser obedecida proíbe
eu dar-lhe uma migalha de conforto, pergunta-me o^homem, toda comunicação: são imposições amplamente justificadas e o
alguma explicação que lhe permita agarrar-se à vida e não termi- tempo, via de regra, endossa por inteiro tais vetos. Nem sempre
ná-la de forma violenta? sei por que devo obedecer, já que a mente interior tem suas
Dou-lhe as explicações que me são possíveis, mas pouco há próprias razões, mas sempre o faço. Os críticos maldosos, por
para se dizer diante dos mistérios do destino. Desenredar por exemplo, só merecem a resposta do silêncio. Por este modo, não
inteiro suas teias é tarefa para um Conhecedor. Mas há umas abrimos nenhum canal de comunicação com as fontes invisíveis

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que os usam como instrumentos inconscientes. A maldad d
ser combatida com o destemor, o que não significa que deva ^ mas o mundo dos aspirantes é demasiado fraco para alcançar esta
combatida com estupidez. s e r
verdade e precisa sempre de alguém que já foi um pouco além
a fim de orientá-lo. Que eles se apoiem em mim, se assim o
Quando Jesus disse aos seus seguidores que fossem inofe
desejarem, desde que não exagerem e percam sua viril capaci-
sivos como pombas mas astutos como serpentes, Ele levava D

dade de autoconfiança espiritual, que tanto é um direito natural


conta a existência desses poderes maléficos.
quanto é o destino de cada um. E m última análise as palavras
Há os que fazem pedidos impossíveis, ante o meu tempo do sábio Marco Aurélio permanecem verdadeiras: — O homem
limitado e as minhas finitas energias. A resposta a estes é o tem de ficar de pé e não ser mantido de pé pelos outros. Mas
silêncio, também. Claro que serei mal interpretado por eles a lei universal que faz recair sobre nós tudo aquilo que fazemos
por melhores pessoas que sejam, mas não posso resumir quarenta a outrem é mais inapelável em relação àqueles que acreditam
e oito horas em vinte e quatro. nela. Se eu adquirisse um dia uma fortuna espiritual, esses
Recebe-se também a habitual coleção de cartas pedindo amigos também ficariam mais ricos. É impossível expressar a
gratidão formal em palavras formais diante da devoção, o mais
esmolas, pois o mundo (e de modo especial a í n d i a ) imagina
raro de todos os dons. Esta transforma a selva que é para mim
sempre que a riqueza acompanha necessariamente a fama. Ele
a vida social, pois dentro dela sinto-me deslocado e órfão, num
jamais sonha que a pobreza muitas vezes é irmã da celebridade. florescente e ameno roseiral.
Outros pedem-me grátis uma coleção completa das minhas obras.
Estes têm a ilusão de que um autor viaja com estoque de livros Aqueles poucos que deram uma devoção provada têm de
na mala e ignoram que ele próprio tem de pagar pelos livros que ser recompensados. Não lhes posso dar dinheiro nem cargos,
presenteia. Não há nada grátis no universo. mas posso-lhes dar o que tenho de melhor — eu próprio.

No entanto, se alguns tomam o autor pelo editor, outros Seus rostos passam diante de mim à hora do crepúsculo,
julgam ser ele uma agência de empregos! como uma longa galeria de retratos, estando eu no meu refúgio
e enquanto um corvo no céu bate pesadamente as asas em
E , finalmente, por escrevermos sobre assuntos que durante
demanda da sua pousada. Tudo aquilo que encontrei nestes inde-
muito tempo foram exclusividade dos desequilibrados e, por essa
finíveis reinos de espiritualidade partilho com eles. Se entro
razão, foram motivo de escárnio e só agora começam a ser enca-
em paz profunda, não é apenas por mim mas por eles também;
rados com o devido respeito, numerosos maníacos nos perseguem,
se descubro a benevolência íntima da Natureza, minha feliz dispo-
julgando haver encontrado um colega! Apesar de tudo, recuso-me sição adeja silenciosamente até eles. Quando a exótica pulsação
a apear da minha posição de indivíduo dotado de bom senso e do silêncio sagrado me empolga com a sua sublimidade, tele-
esclarecido realismo. grafo-a, transmito-a como que por telepatia, para essas almas
fiéis.
Talvez nem sempre elas tenham consciência do que está
*
sendo feito por elas, porque as pesadas barreiras da insensibi-
lidade não são fáceis de remover, mas de várias maneiras e em
À noite, contudo, entro em outra espécie de correspondência.
ocasiões diversas a mensagem é, em última instância, recebida.
Esta funciona sem caneta e sem máquina, mas é infinitamente
Por vezes os beneficiários não se dão conta de nada, até que
mais agradável para mim. Pois existem uns poucos que ofere- a tristeza surge para afligi-los e atrapalhá-los: então a força, a
ceram devoção e lealdade sem que isso lhes fosse pedido e cuja sabedoria e o consolo apossam-se do ser aflito e lhe permiu
oferta é provada e redimida. Intitulam-se eles meus discípulos, suportar aquilo que de outra forma seria insuportável. Por vezes
mas não quero discípulos. O E u Superior dentro de nós é capaz uma inesperada onda de serenidade visita endereços situ.uU >
de nos dar todos os ensinamentos e toda a ajuda de que neces- numa rua populosa, um escritório de muitas ocupações ou uma
sitamos — desde que o abordemos convenientemente. N a ^ r 1 -
barulhenta fábrica. Aí também a atividade diurna nio terá «do
dade, nenhum outro mestre senão essa luz interior é necessário,

Sf)
em vão. Mas, de uma forma ou de outra, um pensamento f
tem forçosamente de chegar ao seu destino. ° r t e

O mundo exterior rira destas ideias tolas. One rio M'


1 i r Y U C R I A
- INOS,
que construímos um vinculo espiritual atetuoso e sincero o í
desafia o espaço e suporta todas as provações, não tomaremos
conhecimento dos risos. Pois se trata de um vínculo que não
depende das aparências do status social nem dos acessórios das
CAPITULO VII
propriedades mundanas, e, por essa razão, destina-se à imorta-
lidade.
Reflexões Acerca do Futuro do Tibete — As
Experiências de Sir Francis Younghusband —
O Destino do Oriente e do Ocidente

NESTE começo de manhã o céu está de um azul divino, tão


claro como o céu da Itália e delicadamente prateado por tiras
regulares de nuvens matizadas de giz. É um desses dias límpidos
em que se vê o maciço Himalaia em seu esplendor máximo.
Todos os detalhes da deslumbrante paisagem se iluminam pela
ação dos primeiros raios solares do dia, enquanto a luz intensa
transforma as grandes geleiras em gigantescos prismas que as
refletem em calidoscópica confusão de cores.
De leste a oeste a vista passeia por um formidável horizonte
de picos recortados e campos de neve ondulados, um quadro de
pureza e grandiosidade suficiente para satisfazer ao gosto estético
mais exigente. Na verdade, a austera pureza das neves rechaçaria
qualquer forasteiro que trouxesse consigo um resquício de mundo.
As fendas de um cinza-metálico que cortam as geleiras e as negras
ilhas de pedras que despontam da neve fornecem o contraste
necessário e o céu constitui um pano de fundo azul perfeito
para todo o cenário iridiscente.
Lembro-me, pelo contraste que oferecem, dos verdes arrozais
da índia meridional que tão bem conheço, dos pitorescos coquei-
rais, das planícies poeirentas.
Mal posso olhar pela minha porta dos fundos sem sentir
um extático soerguimento, uma requintada animação. Estes
cumes piramidais que de forma tão majestosa se projetam sobre
a longa e alva cordilheira fariam do mais empedernido admirador
de cidades um orador da Natureza. Tão grandes, tão numerosos
e tão resplandescentes são. A aurora, com seus tons pálidos* e

H2
o) ocaso com seus tons rubros, criam quadros q U epodem
ser
V/istos um milhar de vezes sem qualquer impressão dee m até Badrinath. No entanto, os mais pobres, que eram obrigados
mono-
tonia. Por que estas encostas rebrilhantes do Himalaia - a usar as trilhas nas montanhas, gastavam, via de regra, de três
amiúde varridas por nevascas e castigadas por avalanchas? Suas a quatro semanas para cobrir a mesma distância.
faces possuem uma beleza perfeita. São a produção mais requir? Se os aviões já roncam no coração do Himalaia, transpor-
tada do Grande Arquiteto e do Mestre de Obras. tando os fiéis aos seus sítios de devoção, a barreira ártica não
E , no entanto, com o zelo estas cordilheiras gigantéias de poderá manter-se inexpugnável por muito mais tempo. Talvez
gelo cinzento e neve defendem o escuro e árido planalto que eu ainda possa dar um pulo ao Monte Kailas e pregar um susto
fica atrás da imensa grandiosidade da sua perspectiva! A cinco nos monges budistas de um dos cinco mosteiros que lá existem,
com um inesperado pedido de hospedagem.
mil pés de altura fica o telhado do mundo. O Tibete há séculos
encontra-se seguramente protegido pela barreira inexpugnável do Posta em perigo pela gasolina e mais o cérebro humano, a
Himalaia. Parece que a Natureza deliberadamente construiu estes longa segurança do Tibete talvez se esboroe. Seus redutos gelados
agrupamentos de frígidos gigantes para cingir e defender o país. e sobranceiros baluartes não permanecerão intatos até o fim deste
século. A chegada do avião pode e deve trazer o ruído das
Com boas razões este se mantém alheio ao resto do mundo.
hélices até os seus planaltos e até as próprias janelas do Potala,
Mas durante quanto tempo ainda conseguirá sustentar esta o grande palácio de Lhasa.
sua desconfiada segregação? A escalada do Everest, o voo de Teichman e o avião dos
A ciência aplicada e a técnica podem conquistar até mesmo peregrinos são apenas arautos do que está por vir. Até mesmo
o grande Himalaia. U m avião construído com engenho já contor- a conquista da Etiópia é um augúrio. Sua segregação era tão
nou e sobrevoou o Monte Everest — pico mais alto do mundo. antiga como a do Tibete, embora menos drástica. Mas perto de
O adido consular Sir Erich Teichman, em seu épico voo de três mil anos de isolamento e liberdade se perderam, acabaram
Kashgar até o quartel-general do governo em Delhi, na Ásia em sete meses. Não fosse o avião, os italianos precisariam de
central, mostrou o que o homem do século vinte é capaz de sete anos para conquistar aqueles sombrios desertos e rochosas
montanhas avermelhadas que escoram os chapadões.
fazer para cruzar até mesmo o Himalaia ocidental em coisa de
dois dias apenas. Por que esses estreitos e orgulhosos tártaros do Tibete insis-
tem em manter fechadas suas fronteiras? Por que reforçam o
Quando visitei Hardwar, a velha cidade na boca da garganta
majestoso isolamento propiciado pela Natureza com uma deter-
através da qual o Ganges entra nas planícies depois de cortar
minação inflexível? Por que se agarram a essa desconfiança
pelas montanhas, tive uma tremenda surpresa. Existe um
exagerada com a mesma tenacidade com que as neves se agarram
caminho de Hardwar até o Himalaia, chegando até os famosos
às cordilheiras que velam pelo seu país?
santuários de Kedarnath e Badrinath. Esses lugares estão tão
As razões são de dois tipos — religiosas e materiais.
intimamente ligados com a religião hindu que todos os anos
centenas de peregrinos dirigem-se a pé para lá ou, quando são Os governantes do Tibete são religiosos. Os lamas são
ricos, utilizando toscos palanquins. Mas este ano deparei com poderosos. Eles nomeiam o soberano — O Dalai Lama — e
uma outra forma de viajar oferecida a essas piedosas criaturas. compõem o Conselho de Ministros. Eles mantêm sob seu domínio
material e espiritual a massa do povo.
Alguns industriosos engenheiros hindus formaram uma Eles sabem que a chegada de estrangeiros será tatal ao seu
pequena companhia e inauguraram uma linha de transporte aéreo, domínio. Encaram o forasteiro como um agente do materialismo
que já estava em funcionamento. Os peregrinos mais abastados ou então como um agente de outra religião — coisas que oio
tinham à sua disposição um pequeno e elegante monoplano que são bem vistas pela sua fé e, consequentemente, representam
cobria a distância de Hardwar ao ponto de aterrissagem mais perigo para a sua posição.
próximo em apenas uma hora. A partir desses pontos o pere- Eles devotam amargo desprezo ao propalado materialismo
grino tinha pela frente uma viagem de quatro dias em lombo do estrangeiro e não hesitam em usai o epíteto "bárbaro com
de pónei até chegar a Kedarnath ou uma viagem de sete dias

S4
relação ao intruso ocidental, que tão pouco sabe acerca rW ^- .
rios psíquicos e religiosos cujos segredos estão escritos nas b Pertence à linha de evolução de nossos dias que o Leste e
guardadas bibliotecas dos grandes mosteiros. e m
o Oeste terão de encontrar-se, quando não casar-se. Embora eu
Mais vital ainda, .nestes dias pragmáticos, é o veja com simpatia os desejos de evitar proximidade com os povos
t i 1 • latO POUCO orientais que, no passado, muito naturalmente temiam o imperia-
conhecido de que provavelmente existe tanto ouro dentro d lismo do branco, o calendário avançou e hoje tais desejos são
fronteiras do Tibete quanto em qualquer outro país do globo* antiquados. O mundo todo está sendo unificado pelos trans-
Talvez haja até muito mais, pois nenhum geólogo profissional portes, comunicações, comércio e cultura. Não estou entre
obteve permissão até esta data para proceder a um levantamento aqueles que tolamente afirmam que os povos ocidentais não
das riquezas virgens do país. A t é mesmo as minas de ouro que trazem consigo para o Oriente senão o materialismo, senão coisas
vêm sendo trabalhadas atualmente, sob a vigilância de soldados más. Pelo contrário, trazem coisas boas e más. E encontram
ficam numa região proibida e inacessível e estão sendo trabalhadas tanto coisas boas quanto coisas más.
da forma mais rudimentar possível. Métodos usados há dois A santidade não é prerrogativa do Oriente. Este, procla-
mil e quinhentos anos pelos demais países continuam sendo mo-o com toda a convicção, precisa de um reavivamento espiritual
empregados pelos modernos tibetanos. A mineração mal faz tanto quanto o Ocidente. Ambos os hemisférios estão em má
jus a esse nome. Ninguém sabe ao certo o tamanho dos tesouros situação espiritual.
pertencentes às lamaserias nem a extensão dos filões de ouro Uma vez que vivemos num mundo material, pois possuímos
ainda não minerados nas montanhas. Há mais de um templo um corpo material, é acertado e sensato aproveitar ao máximo
com telhado de puro ouro. Os caras brancas tentarão roubar o esse mundo, fazer uso de todas as comodidades, confortos e
ouro do solo tibetano? A tradicional cobiça ocidental se conten- invenções que o cérebro humano seja capaz de engendrar. Por
tará em ficar de fora para sempre? isso, o encontro do Ocidente progressista com o Oriente conser-
vador tem de despertar este último para a exploração e o desen-
volvimento, em maior escala, dos recursos naturais. Tal coisa
virá beneficiar o Oriente e não prejudicá-lo.
Muito mais poderosas que os lamas são as forças que hoje Também o Ocidente se beneficiará. A primeira e óbvia
em dia tendem a aproximar o Leste do Oeste e fazer com que o vantagem é puramente material. A segunda, e mais remota, é
antigo e o novo se misturem. puramente cultural.
O Tibete não será capaz de resistir à chegada dos caras Mas é preciso que esses encontros de povos diferentes sejam
brancas, seja ela para o bem ou para o mal. Suas cabeças, relu- feitos com amizade. Os métodos da Espanha medieval, abrindo
a América Central e rapinando todo o seu ouro não serão bem
tantes, já se viram obrigadas a baixas um pouco em seu teimoso
aceitos hoje em dia. Leste e Oeste devem encontrar-se em boa
conservantismo, aceitando algumas das invenções dos brancos.
camaradagem. Que suas ideias sejam trocadas e que as melhorias
Neste momento o governo está montando uma estação de rádio
materiais resultem de uma cooperação mútua e não de projéteis
a fim de transmitir mais rapidamente suas ordens aos governantes
ou bombas!
de certas cidades provincianas. Luzes elétricas brilham no palácio
Estas derradeiras palavras recordam-me uma significativa
de Potala. E uma linha telegráfica liga a capital a Darjeeling,
passagem que Sir Francis Younghusband contou-me faz alguns
na índia. Quando o funcionário tibetano intercedeu em favor
anos. Há mais de trinta anos foi ele colocado à testa de uma
da minha expedição ao Monte Kailas, não fui obrigado a perma-
pequena expedição militar britânica que foi mandada através das
necer três semanas em Nova Delhi enquanto um mensageiro em
espaldas geladas do Himalaia até o Tibete, negociar um tratado
lombo de iaque atravessava os altos passos e um cavaleiro percor-
político e comercial com o governo do Dalai Lama.
ria nos dois sentidos o planalto do Tibete meridional com
O principal objetivo da missão do exército era modificar a
mensagens. Não, graças à linha telegráfica para Darjeeling pude
atitude hostil do país e forçar os tibetanos a adotar um ponto de
receber a decisão final dentro de poucos dias.

*7
86
vista mais razoável com relação ao comércio da índia. Desse
modo o isolamento do Tibete começaria a diminuir. ninguém pode dar-se ao luxo de continuar a acreditar em notórias
inverdades. A chegada das raças brancas ao Leste é como um
Sir Francis deu aos tibetanos todas as oportunidades de vento forte e saudável que soprará para longe repugnantes teias
chegar a um acordo pacífico, mas eles se mostraram obstinados. de crenças anacrónicas e costumes bárbaros. Pois os brancos
Um exército recrutado às pressas barrou-lhe a passagem na deso- trarão sanidade, bom senso e ceticismo. Na vida também há
lada estrada para Lhasa. O exército contrário dispunha apenas necessidade de tais coisas.
de velhos arcabuzes de mecha, arcos e flechas e espadas. O chefe
britânico sabia o quanto era infantil aquela pretensão d enfrentar
e
A civilização quase destruiu nossa fé no sobrenatural. Não
seus homens armados de modernos rifles, metralhadoras e arti- se pense, porém, que a superstição dos tibetanos não passa de
lharia de montanha. Pediu por isso aos comandantes tibetanos, rematada tolice. Não é. Onde há fumaça há fogo. A verdade
um bom número de vezes, que não lhe resistissem para não serem perdura entre as distorções em que a encontramos envolvida.
massacrados, pois a ele interessava apenas a assinatura de um Os lamas não podem conter as leis da Natureza mas podem tirar
tratado; e a seguir evacuaria prontamente o Tibete, voltando partido de leis que para nós são desconhecidas e para eles são
para a índia. conhecidas de longa data. Existem lá homens portadores de
poderes mágicos genuínos, mas não nos mosteiros. Tais homens
Porém, apesar da sua corporação mal armada e pouco disci-
fazem pouco dos monges comuns e isolam-se em locais afastados,
plinada, os tibetanos não cederam e trataram o inimigo com
no alto das montanhas. Claro que são muito pouco numerosos.
desprezo, até por fim atacá-lo. O então Coronel Younghusband
Não lhes interessa em absoluto impressionar as massas com exibi-
foi obrigado a dar ordem de fogo, com o resultado que as balas
ções de seus dons sobrenaturais. Mas os gabolas e embusteiros,
da sua artilharia despejaram-se sobre as fileiras tibetanas,
aqueles dentre os lamas ortodoxos que são crédulos e cegos, tanto
enquanto seus rápidos rifles repetidamente atiravam contra o
inimigo, o qual precisava de alguns minutos para recarregar um quanto na índia, adquirem e conservam uma falsa reputação de
por um seus mosquetões, com a pederneira frequentemente milagreiros, a qual cairia por terra diante de qualquer investigação
negando fogo. de cunho científico.

O inevitável aconteceu. Centenas de soldados tibetanos Já encontrei mais de um embusteiro na índia e na Africa
foram postos fora de combate em pouco tempo e os restantes que me ofereceu amuletos capazes de fechar-me o corpo à ação
debandaram na mais completa desordem. O caminho para Lhasa das balas! W. ^ : . , , '. %
:

estava aberto. Não obstante, não apenas há alguns resquícios de verdade


O interessante nesta história é que a verdadeira razão da por trás das alegações dos tibetanos (e hindus) de que existem
resistência do exército tibetano a um inimigo superiormente poderes e forças psíquicas impossíveis de explicar por outra forma,
armado fundamentava-se na superstição. Os soldados haviam como também há algo por trás da tradição de alta sabedoria
confiado na magia de seus melhores feiticeiros e dos seus mais espiritual no sombrio planalto. Acredito, em razão das minhas
famosos padres. Havia-lhes sido dito que, com a ajuda de amu- muitas pesquisas, que o Monte Kailas e suas vizinhas, incluindo-se
letos e talismãs especialmente preparados e fartamente distri- o Lago Manasrowar, possuem uma atmosfera magnética de intensa
buídos pelos acampamentos, eles ficariam invulneráveis aos tiros vibração espiritual, assim como o Monte Arunachala, no sul da
do inimigo. E era tal a sua fé cega e a sua superstição que esses índia. Estou certo de que qualquer pessoa verdadeiramente
pobres diabos atacaram o exército inglês com total confiança de sensível notaria seus pensamentos serem automaticamente capta-
que nenhuma bala britânica seria capaz de penetrar em seus dos e reverenciados, pelo menos, quando se aproximasse desst
corpos! Mas as leis da Natureza não cedem, nem diante de um montanha, que é o centro espiritual da Ásia e o orgulho espi-
lama! ritual do Tibete.
O episódio ilustra a habitual mistura de superstição ridícula Quando o exército inglês sob o comando do Coronel
e sabedoria profunda encontrada nas raças orientais. Porém, Younghusband conseguiu chegar até Lhasa e o tratado que moti-

HH
vou a pequena guerra foi afinal conseguido, uma coisa curiosa
sucedeu ao seu chefe. Contou-me ele que no dia seguinte ao Seria também conveniente que se deixasse de lado mesqui-
acontecimento, obedecendo a uma imperiosa necessidade, subiu nhos temores políticos e construísse uma estrada de rodagem
sozinho a íngreme e rochosa colina sob a qual se estende a através de um vale de Sikkim e às margens de um rio, a melhor
cidade de Lhasa. Depois de caminhar durante algum tempo via natural de comércio entre a índia e o Tibete, poupando assim
sentou-se num matacão para descansar. E m pouco tempo aconte- a homens e animais uma terrível viagem por entre os altos passos
ceu-lhe a mais surpreendente experiência espiritual da sua vida. nevados* ^ - á<
Todo o seu ser foi transportado a uma espécie de êxtase místico. Manter os homens sempre imersos nas doutrinas e nos feitos
Uma serenidade absoluta tomou conta de sua alma. A experiência de séculos anteriores a Cristo não é coisa totalmente sadia. Se os
nada teve de pessoal, pois todos seus desejos reduziram-se a tibetanos fossem mais sábios, permitiriam que seus jovens lamas
nada diante da paz impessoal e maravilhosa que o tinha envolvido. de maior talento absorvessem aquilo que o conhecimento ociden-
Ele desceu da colina com um acontecimento memorável tal tem de mais útil, particularmente a parte científica, insistindo
gravado para sempre em sua mente. O Tibete dera-lhe mais do sempre em apegar-se às verdades essenciais da sabedoria budista.
que uma simples conquista militar; dera-lhe iluminação espiritual. Ambas as coisas podem facilmente se complementar, embora não
o possam através de espíritos ortodoxos de visão acanhada. E
Quem ou o quê, naquela extensão coberta de neve, era enquanto conservando sua independência e soberana autoridade
responsável pela dádiva? sobre o seu próprio país, deveriam incluir um pouco de bom
senso e prudente discriminação em suas leis proibindo a entrada
de estrangeiros. Na verdade, se lhes fosse possível conseguir
estrangeiros da melhor estirpe ou portadores de capacidade
especializada e conhecimentos técnicos que entrassem no seu
Mas preciso voltar ao meu tema. O contato, sob todas as gélido e desinteressante país, cujos vales apenas são mais altos
formas, entre Ocidente e Oriente é inevitável. O Tibete não que os mais altos picos dos Alpes Suíços e cujas planícies sombrias
pode fechar suas altas fronteiras contra o influxo de ideias ociden- não têm abrigos nem árvores e são dia e noite varridas por
tais. Mas foi preciso esperar até o século vinte para descobrir tempestuosos ventos gelados, esses estrangeiros deveriam ser rece-
e revelar esta verdade. O último dos países proibidos não poderá bidos de braços abertos e não repelidos. Que os desordeiros
sustentar-se por muito mais tempo. Seu receio ao imperialismo indesejáveis, os enfatuados portadores de complexos de superio-
ocidental não tem sentido nos dias que correm, embora pudesse ridade e os exploradores inescrupulosos fossem mantidos longe
ter fundamento há cinquenta anos. Das três grandes potências por todas as formas, mas deixe-se o país ser aberto aos europeus
cujos domínios ficam mais próximos do Tibete, a Inglaterra já úteis e bem intencionados.
não é um país anexionista, mas cuida agora, sabiamente, de fazer
Porque acredito firmemente nas verdades básicas ensinadas
suas conquistas através do comércio; a Rússia tem uma extensão
por Buda, e, consequentemente, simpatizo com qualquer povo
territorial suficiente para satisfazê-la e cuida, antes de mais nada,
budista, estou sempre a sugerir a viabilidade de adaptar-se volun-
de edificar sua própria economia e estrutura industrial; a China
tariamente aos conhecimentos e modos de agir modernos. Assim
é um império em estado de triste desintegração.
fazendo, os orientais poderão pfeservar sua antiga sabedoria,
E , se os lamas temem a sede de ouro dos ocidentais, melhor progredindo concomitantemente com o progressista século vinte.
seria para eles negociar algumas concessões de seus campos aurí- Não que eu padeça da vaidade da época e entenda que a substi-
feros com empresas europeias, que têm à sua disposição enge- tuição do século vinte pelo século dezessete seja necessariamente
nheiros capazes, equipamento científico atualizado e modernos a substituição de uma forma de civilização mais elevada por uma
meios de comunicação. Dessa maneira o governo tiraria maior r menos elevada; é porque, embora façamos uso inconsciente das
proveito das minas e a futura propriedade das mesmas estaria invenções científicas, as invenções propriamente ditas nem por
mais bem resguardada. isso devem ser desprezadas.

90
Mas, infelizmente, hoje em dia os verdadeiros seguidores de
Buda estão-se tornando tão raros em seus próprios países como Não recordo o nome desse profeta nativo que vaticinou o
os verdadeiros seguidores de Cristo nos países cristãos. Esta é desaparecimento dos Grandes Lamas e a entrada dos brancos no
uma razão pela qual os deuses estão pondo por terra as barreiras Tibete.
que dividem povos, raças e países. Creio, no entanto, que parte da predição será cumprida e
O futuro é previsível. No mundo unificado que vai surgir que esse país heomético será um dia invadido e sofrerá o impacto
na civilização conjunta Leste-Oeste que está nascendo, o caminho e a inevitável influências das forças da nova era, quaisquer que
estará desimpedido e pronto para receber o elevado despertar sejam estas.
espiritual universal que ainda está por vir. Não existe credo que
não esteja padecendo de uma extrema necessidade de um novo
impulso de vida divina. Este virá porque tem de vir.
Um calvo e imperturbável monge budista falou-me certa vez
de uma profecia corrente no Tibete e conhecida dos lamas, a qual
se ajusta curiosamente à atual situação. Disse-me ele que a
previsão, feita há dois ou três séculos, refere-se ao Dalai Lama
(ou Grande Lama), a um só tempo rei e Papa do Tibete. Pre-
viu-se que o décimo terceiro Dalai Lama seria o último da sua
linhagem e que algum tempo depois da sua morte o Tibete seria
invadido por "bárbaros" de cor branca cuja civilização "materia-
lista" penetraria no país dali por diante. Segundo a velha crença,
o rei seguinte será uma reencarnação do seu espírito. É dever
do Grande Conselho de Lamas, reunido em Lhasa, encontrar a
criança na qual o espírito do falecido Monge Governador está
reencarnado.
Sua teoria não é a reencarnação, como de hábito é enten-
dida, mas uma emanação de um místico Ser celeste, quase aparen-
tado com Buda, que entra na criança recém-nascida destinada a
ser o futuro Grande Lama. Por essa razão um dos títulos deste
último é O Onisciente, já que se presume possuir ele a sabedoria
divina.
O Grande Conselho consulta sempre o Oráculo do Estado
quando precisa de orientação na procura da criança. Depois de
encontrar algumas do sexo masculino, portadoras de certos sinais
tradicionais, ordena que os nomes destas crianças sejam inscritos
em pequenas placas de ouro, que são encerradas numa urna; o
nome escolhido por sorte será o eleito.
Encontrado o menino, tem este de ser educado e preparado
para as suas altas funções. Isto significa que de quinze a vinte
anos passarão antes que a criança alcance a maturidade e prin-
cipie realmente a governar. A t é lá o país é dirigido por um
Conselho de Regentes.

92
Mas a verdade é que a Natureza nos conserva sob seu domí-
nio: não há, em última instância, como fugir. Num dia deter-
minado seremos todos chamados, com uma autoridade que não
admite réplica, à nossa verdadeira morada.
Seja-me permitido, então, não desperdiçar todos os meus
dias numa insensata devoção ao trabalho incessante. Ganhei o
CAPÍTULO VIII direito de fazer uma breve pausa nesta existência da labuta cons-
tante e estudos que não se acabam. Queimei mais as pestanas
GO que a maioria dos homens e, muitas vezes, acordei com a fria
Uma Missivista Decreta Minha Retirada do Mundo —
aurora, encontrando minha cabeça calva enterrada num enxame
As Virtudes da Ociosidade e da Solidão — O Novo de papéis sobre a mesa. Houve época em que eu me orgulhava
Testamento — Jesus e seus Críticos de trabalhar como um forçado e devorar o trabalho com o mesmo
apetite com que um cão se atira sobre o seu osso; hoje em dia
recuso as tarefas remuneradas que a todo instante me são ofere-
cidas.
TRÊS SEMANAS e meia passaram-se silenciosamente desde que
anotei no meu diário o último destes parágrafos, que me saem Não que encare minha existência solitária cá no sul como
da pena de forma tão desordenada. Afinal de contas, não vim a única espécie de vida digna de ser vivida; pelo contrário, acre-
a estas florestas primitivas e a estes cumes nevados para escrever, dito no ritmo, na retirada apenas quando a esta se seguir a
mas para descansar. Se quiser permanecer fiel à tarefa que me atividade, na solidão somente quando seguida da sociedade, no
impus, ficar quieto continuará sendo meu principal objetivo. Se desenvolvimento autocentralizado apenas quando o serviço social
eu tomo da pena em determinados dias ou dedilho as teclas for o seu complemento necessário, na espiritualidade apenas
polidas da minha máquina portátil em outros, ou ainda não faço quando em harmónico equilíbrio com a materialidade. Devemos
uma coisa nem outra durante semanas inteiras, isto não é coisa obedecer à ordem de Cristo, dando a César o que é de César,
que faça diferença para mim neste lugar, como poderia acontecer sem contudo desleixar das coisas de Deus. Tudo aquilo que
caso eu ainda estivesse na Europa. A solene insignificância da constitui o que há de melhor na vida material e que todo mundo
ambiciona — propriedades, casa, posição, casamento, automóveis,
existência mundana desapareceu sob estas árvores.
mobílias e boas roupas — é na verdade, desejável, mas é preciso
Sinto que o trabalho é uma coisa excelente e, na verdade, que não nos esqueçamos do nosso destino primordial quando
uma necessidade, se é que devemos justificar nossa existência, empenhados na procura de tais coisas. Por isso, o retiro espi-
mas sinto também que sempre há uma época em que aprender a ritual não passa de uma episódio em minha vida; não é, em
ser não é menos excelente nem menos necessário, se é que dese- absoluto, um objetivo último, mas apenas um oásis à margem
jamos obedecer à lei suprema da vida. do caminho. Não estou na índia nem como turista nem como
Pois tive uma visão da meta derradeira. V i o caminho residente, mas como um peregrino que tanto poderá fixar-se por
maravilhoso que se alonga até o cimo diante de todos os homens, alguns anos quanto tomar um avião de volta e ir embora de um
o caminho que conduz ao reino do céu acerca do qual Jesus falava momento para outro. E m suma, não tenho residência fixa, seja
e ao lugar do Nirvana descrito por Buda. Talvez resistamos à na cidade seja no sertão. Busco manter minha mente tranquila
chegada desse caminho durante milhares de anos, se assim o e minha vida ordenada.
desejarmos, porque entre todas as atribulações e exaltações do Nos dias que correm transformei-me num ocioso, inútil à
viver cotidiano preferimos as delícias da existência sensorial sociedade e a mim próprio, num faz-nada que se limita a perma-
material. Talvez nos ressintamos da intrusão daqueles profetas necer imóvel e esforçar-se para repelir as ondas de pensamento
que alardeiam o seu evangelho, pois eles atiram o gelo da dúvida que de contínuo o assaltam. E m resumo, não tenho um statu
sobre^as convicções ortodoxas que nos enchem de ilusões.

94
definido nem um lugar próprio no mundo Deixei de ser um
telhados planos, estando-se na índia, do que descansar o olhar
homem respeitável. sobre picos gelados e pináculos rebrilhantes como o faço da
E que importa isso? minha atual morada. Acredita ela que me isolei da realidade.
Se a realidade consiste no estuante calderão que é uma cidade
grande, e nos temores, ódios e cobiças que ali fervem, há coisa
pior do que fincar os pés neste solo himalaio sem mácula, passar
Num livro de bolso, de capa preta, que acaba de enviar-me os dias com pacífica alegria e recusar-se a voltar para o mundo.
uma amiga de Bombaim li ao acaso esta frase que, para mim, Felizmente, porém, não tenho receio e voltarei para a vida sem
encerra uma ideia sensata e reconfortante: objetivo do mundo. Executei apenas uma retirada estratégica
do mundo, não o abandonei por inteiro.
"De que vale o homem ganhar o mundo inteiro e perder
a própria alma? Que deve dar o homem em troca de sua alma?" Não que aos olhos mundanos da minha amiga não exista
um tipo mais divino de vida — longe disso — mas ela gosta de
O livro a que me refiro traz na capa estas palavras: Novo encarar o bem-estar social como uma coisa santificada e apartada
Testamento. das demais.
Trata-se apenas de uma forma de dizer que avaliar um Minha missivista poderia, está claro, denunciar minha quie-
homem por sua riqueza ou por aquilo que ele trabalha é vulgar. tude como mera ociosidade, mas creio que ela tem alguma
Não é apenas aquilo que ele faz pelo mundo que importa, mas compreensão do que acontece. Suplico-lhe que se lembre de que
aquilo que faz por si próprio. o valor dado por europeus e americanos ao trabalho advém de
Meu excerto é, no entanto, inauspicioso para a minha amiga. necessidades climáticas, da mesma forma pela qual o valor atri-
Ela mandou-me o livro com o desejo específico de que eu lesse buído pelos orientais à indolência decorre do clima quente em
uma passagem inteiramente diferente. Na página em branco, ela que vivem. Olhe-se qualquer vivaz representante do Ocidente
anotou a lápis o seguinte: Veja Atos, capítulo 26, versículo 24. que tenha vivido vinte anos na índia. A mudança é espantosa.
O antigo apóstolo do trabalho converte-se em praticante da indo-
Obedientemente, viro as páginas e procuro a referência
lência. A atmosfera o absorve, o clima o domina malgrado seus
indicada. Leio agora:
músculos fortes.
" E como que falando de si para consigo, Festus ergueu a
voz e disse: — Paulo, estás doido; o excesso de conhecimentos Mas os ocidentais transformaram o excesso de energia num
te põe fora de ti." fetiche a ser venerado; nós fizemos da operosidade um pequeno
deus. Sempre que visito o Oeste sou obrigado a munir-me de
Minha correspondente parece não aprovar minhas atividades um diário alentado, com o maior número possível de páginas,
(ou seria melhor dizer inatividades)! Sei, por uma carta anterior, pois ali, de hora em hora, surge a pergunta: — Que tenho de
que ela julga dever eu instalar-me numa grande cidade como fazer agora? — ou — Quem tenho de encontrar agora? — É
Bombaim, durante minha permanência na índia, e tornar-me impossível colocar uma cadeira junto da lareira e gozar de um
respeitável, isto é, entrar em contato com as classes média e alta, hora de lazer.
receber e ser recebido, cuidar de alguma ambição ativa, escolher
Afinal de contas, alguns dentre nós somos como o pescador
algum tipo de local, nele permanecer e, finalmente, fazer tudo
bíblico que labutou a noite inteira sem nada conseguir. Tenta-
quanto fazem as pessoas convencionais.
mos juntar um pouco de dinheiro, mas acontece que concomitan-
Acha, por conseguinte, a missivista, que seria mais sensato temente juntamos preocupações. Tudo tem seu preço, é verdade
que eu me transformasse num ser hurpano rodopiante movendo-se mas poucas coisas têm valor; ainda temos de aprender a torma
à assim chamada melodia de jazz numa cidade superpovoada. mais elevada de prudência.
Evidentemente, ela acha melhor ter uma vista sobre um mar de
A t é Shakespeare está comigo. Não foi outro quem escreveu;
chaminés, estando-se na Europa, ou uma vista sobre um mar de
"Nada convém mais ao homem
Do que uma moderada quietude." O artista que deseja compor uma tela realmente inspirada
ou o músico que aspira criar uma sinfonia verdadeiramente
E u gostaria de apor um gigantesco ponto de exclamação a marcada pelo génio tem de afastar-se de tudo ou fechar-se a sete
essas palavras, pois o apoio do príncipe dos poetas ingleses e chaves até terminar seu trabalho.
talentoso mestre da língua é verdadeiramente valioso. A ideia
Numa tal ocasião o artista criativo que deseja ser algo mais
é inebriante, mas não ouso bulir com suas palavras. Claro que
do que uma simples mediocridade em sua profissão corre perigo,
um crítico exigente poderia enfurecer-se e assinalar que eu chegara se permitir que o mundo venha em sua procura ou se for, ele
a essa citação plausível (e, na minha opinião, perfeita), primeiro próprio, em procura do mundo. Ele tem de respeitar a santidade
decapitando a frase e a seguir decepando-lhe os pés. Mas eu do seu próprio ego tanto quanto a de qualquer templo religioso.
contestaria que a verdadeira arte de citar é retirar algumas A solidão resguarda e fomenta os esforços do seu génio; a socie-
palavras do contexto e deixar de lado o resto. Que fiz eu dade porém os destrói. O génio, na verdade, precisa de operar
senão isso? em meio a um completo isolamento espiritual, artístico e físico.
Temo, porém, que o crítico se afastasse agastado, frenético O génio tem de ser seletivo e não tomar mais ao mundo do que
de raiva, diante das minhas heresias: shakespearianas, espirituais aquilo que é necessário aos seus objetivos primordiais. As pessoas
ou de qualquer outro tipo. que levam vidas comuns poderão rir-se dele mas não serão capazes
E u poderia também lembrar à minha missivista uma de produzir alguma coisa extraordinária. Da mesma forma,
quando um homem deseja fazer um esforço supremo no sentido
passagem do livro que ela tanto respeita: "Olhai os lírios do
da espiritualização, é preciso que ele se afaste de tudo e se feche
campo; eles não mourejam nem rodopiam."
em alguma parte. Não será eíe também um artista, embora
O resultado das minhas considerações é esta incursão no sua arte seja intangível e mesmo infalível em seus resultados?
Himalaia! Mas a minha amiga irá intimar-me a descer destas
nuvens metafísicas e cair na realidade que nos cerca. Da mesma forma, igualmente, se o meu próprio sonho
chama-me para o Himalaia e me pede que fique quieto, sem
Para dizer a verdade, renunciei a pouca coisa ao fugir para
I dúvida tal coisa deverá ter sua utilidade para a vida. Ser-me-á
o meu refúgio. Não desgosto dos prazeres sociais, mas posso r

J lícito supor que outras pessoas entendam mais dos meus assuntos
muito bem passar sem eles. Não tenho medo de sentar-me no
\do que o meu Mestre e o meu E u Superior? Não, cara senhora,
flanco de uma montanha e contemplar o cenário abaixo. Devemos
prefiro ser fiel a mim mesmo e não tentar mistificar os demais.
render adoração aos pés da deusa da sabedoria na mais completa
Tanto a senhora quanto eu, não nos devemos curvar ao respeito
solidão, se é que desejamos conquistá-la. Embora sempre me
humano mas, ao invés, obedecer à lei primeira dos nossos seres.
tenha sido agradável tomar chá no Florian de Veneza ou olhar
Não é preciso que tenhamos medo. Nada iremos perder; absolu-
a multidão dos passantes num café parisiense, tais lugares não
tamente nada. As leis divinas cuidarão de nós, se confiarmo>
são necessários à minha existência. A Natureza, no entanto, é.
nelas, e todos os prejuízos aparentes serão apenas temporários e
Posso afastar-me dela durante algum tempo, mas sempre volto,
reparados em dobro. Confiemos na justeza matemática da Justiça
à maneira do marido que prevarica mas não deixa de amar sua
invisível; esta não nos trairá. >
esposa.
C~ Resta, por fim, uma razão mais forte para a minha atitude.
Não posso tampouco resistir à tentação de fazer uma derra-
1 Há alguns anos, estando eu mergulhado em transe iogue, medi-
deira citação que não me sai da lembrança: "Alguém deveria
tando profundamente, recebi uma mensagem, talvez mesmo uma
ensinar que, embora na opinião da sociedade, a contemplação seja
o mais grave dos pecados que se pode imputar a um cidadão, na missão, mas, de qualquer forma, uma obra a fazer. Tal mensagem
opinião da cultura mais elevada é a ocupação mais apropriada
1 veio de quatro grandes seres, figuras angélicas de uma ordem
particularmente interessada no bera-estar espiritual da humam
para o homem." Adoto alegremente a sugestão de Oscar Wilde
dade, e vindas de um outro planeta para a esfera terrestre.
e me arrogo o papel de professor!

98
E m obediência a essa mensagem, cujo conteúdo solicitava
que eu me tornasse um andarilho neste mundo, salto de lugar numa viagem ainda mais longa e eu raramente fale em público,
em lugar ao sabor de impulsos espirituais do momento. E u não tendo o hábito de recusar sistematicamente quantos convites
me importava então, e continuo a não me importar, com a opinião recebo, respondi que concordaria desde que me fosse feito um
pública. Fama e celebridade são coisas que não me tocam e por convite oficial. Mas quando os professores que me viam com
isso não as desejo. Quanto ao dinheiro, preciso apenas do sufi- bons olhos apresentaram sua ideia, na primeira reunião da congre-
gação da universidade, o diretor do conselho usou de sua influên-
ciente para viver decentemente e ocorrer às minhas despesas de
cia para que a resolução não fosse aprovada. Em consequência,
viagem. Quanto ao prazer, gosto de prová-lo em pequenas doses
o convite oficial não me foi mandado.
de quando em quando. Embora eu tivesse aceitado a tarefa,
repudiei o seu lado público, preferindo deixar a outrem aquela A razão de tal negativa foi estranha. O homem que se
parte que implicaria em honrarias públicas. É mais próprio do opôs à minha presença foi um europeu, um inglês para ser
meu temperamento construir em paz e segredo as bases da refe- exato, mas hoje em dia todos os brancos recebem na índia, por
rida tarefa. O labor literário é para mim uma coisa secundária deliberação governamental, a designação de europeus. A objeção
e, no tocante a reservas, sempre tenho a providência divina a principal e única era a de que "um homem branco que mora entre
os nativos e passa a maior parte do seu tempo metido com iogues
apoiar-me. Nada mais me é necessário.
deve ser louco"!
A excelente senhora assinalou o parágrafo que julga perti-
Se trocar a cidade pelo campo, a atividade pela reclusão,
nente ao meu caso. Tal referência, partindo de qualquer outra
durante determinados períodos de tempo, for indício de insani-
pessoa, pareceria ofensiva. Mas trata-se de uma amiga que está
dade, então espero jamais recuperar a razão! Se procurar a
tomando liberdades de amiga. Mais ainda, como idosa viúva de
verdade metafísica ou praticar a meditação mística for sinal de
um oficial do exército e conhecedora de alguns dos meus assuntos
intelecto confuso, então rogo aos deuses que nunca me façam
mais íntimos e pessoais, ela tem por mim um interesse maternal. voltar à normalidade! Se para esse cavalheiro erudito porém
Recebo, portanto, sua referência sem ofender-me; rio-me mesmo pouco arejado, o esforço no sentido de encontrar e conservar a
dela, pois sei que foi o afeto e não o desprezo que levou-a a paz interior num mundo sem paz for um princípio de loucura,
sublinhar o parágrafo em tela. então dou-me por feliz porque ele me rotula de doido! Mas
considero como verdadeira sanidade tentar manter uma digna
integridade de alma entre tantas forças desagregadoras, entre o
terror e a turbulência da existência moderna.
Sem dúvida alguma, meu oponente académico frequenta uma
É curioso, porém, como as pessoas definem diferentemente igreja aos domingos, mas será que estaria disposto a acompanhar
o termo "sanidade". Há poucos meses fiz uma conferência em Cristo até o Calvário? Pergunto-me se ele terá jamais cogitado
determinada universidade hindu. Sem querer afastar-me dos que Cristo realmente era sincero em suas manifestações. Pergun-
assuntos que falavam mais de perto aos estudantes e não dese- to-me se ele seria capaz de perceber que um santo sábio de nossos
jando, por outro lado, desperdiçar uma viagem de quatrocentos dias, ainda que hindu de nascimento, é mais cristão do que a
quilómetros abordando um tema que não fosse do maior interesse maior parte da massa que não falta à missa dominical. Pergun-
para mim, encontrei uma solução feliz, fixando-me no tema A to-me se ele seria capaz de entender que uma pele escura não
Filosofia da Inspiração. Foi-me assim possível tratar da inspiração é empecilho a que se entre no reino dos céus, o qual Jesus nos
na literatura, na arte, nos negócios, nas invenções, na vida e na apresentou como a meta final, coisa que tão poucos cristãos
religião, bem como fornecer aos estudantes uma ou duas sugestões compreendem nos tempos atuais.
práticas relativamente à sua preparação para a vida profissional. Se dependesse de mim, cada pregador teria de faaer um
Depois que os jornais publicaram o meu endereço, recebi a aprendizado para a vida, e não com professores, antes de pronun-
visita de uma delegação, solicitando-me que pronunciasse uma ciar sua primeira palavra no púlpito. Ele teria de ser enviado
conferência na universidade estadual. Embora aquilo implicasse

100
ainda jovem, a viver entre os pobres e desfavorecidos antes d e
compor os bens cuidados e floridos períodos que constituem seu„s Tal homem não tem contemporâneos e não precisa deles.
sermões. Teria de ir para a solidão das montanhas e florestas O ortodoxo talvez não encare com simpatia tal independência,
desertas e ali permanecer, sem livros nem amigos, lutando com ao passo que o heterodoxo poderá desdenhar tanta "superstição"!
Não importa. A verdade, serena e suprema, pode esperar pacien-
a própria alma até encontrar Deus ou chegar à conclusão de que
temente pelo seu dia de glória. Ela nada tem a perder, pois é
a Igreja não era a sua vocação. Teria de renunciar a todos os
eterna. Sua revelação terá de vir mais cedo ou mais tarde, de
desejos de incutir religião nos outros até que ele próprio se modo abrupto ou lento.
imbuísse dela. Se, depois disso, seus sermões não agradassem aos
ouvintes e bispos convencionais, seriam, pelo menos, verdadeiros É em razão dessa posição equidistante que conto amigos
entre todas as crenças e entre os ateus, bem como inimigos em
e sinceros, palpitantes do sopro divino que deve possuir todo
todas as facções. Vivo no meio de todos eles como um estranho,
homem que ousa transformar-se em ministro de Deus perante
embora saiba muito bem onde fica a minha verdadeira pátria.
outrem. Isto seria uma condição mínima exigida de todo pre-
gador e todo padre, quer pertencesse ele à igreja de Cristo ou Instituição alguma interpõe-se entre mim e os raios prove-
nientes do Sol Oculto.
à irmandade de Buda, quer se dirigisse ao seu rebanho em nome
de Sri Krishna ou em nome de qualquer outro profeta. O destino condenou-me a ser um intérprete da linguagem
da Esfinge; a tarefa é deliciosa, desde que guarde para mim as
Desfruto da situação privilegiada de não estar filiado a minhas interpretações, mas torna-se desagradável tão logo me
nenhuma religião ortodoxa. Quando pessoas curiosas se metem ponho a revelá-las ao cético mundo.
num assunto que não é da sua conta, respondo-lhes de forma
Mas encontro um consolo secreto na ideia de que esta penosa
desconcertante e elas cessam de fazer perguntas.
jornada não é senão temporária e que os deuses compadecidos
Não encontrei amarras para a minha alma flutuante em irão um dia reconduzir-me à minha própria estrela, cujo fulgor
nenhuma fé religiosa, em nenhuma filosofia, pois acredito no de prata procuro localizar no céu todas as noites com indizível
Espírito que, assim como o vento, sopra onde é ouvido. nostalgia. ^ 1

Pessoas que confessadamente seguem Jesus, mas que jamais A minha amiga de Bombaim, que Deus lhe tenha a alma
chegaram a compreender ou acatar suas injunções mais profundas, ingénua, ao tentar reprovar minha tentativa de pesquisar assuntos
que permanecem na mais densa obscuridade, prestou-me, na
talvez, em seu fervor farisaico, ressintam-se da intromissão de
verdade, um grande serviço. Ela colocou-me nas mãos, eu que
alguém não declaradamente filiado à sua ou a qualquer outra
estava inteiramente desprovido de livros quando cheguei a estas
denominação. Um homem cuja visão interior interpõe barreiras
paragens desoladas, as palavras e a vida do sábio Galileu, cujo
entre ele e tais pessoas, bem como entre ele e qualquer outro
simples nome soa de modo mágico aos meus ouvidos. Lerei estas
grupo religioso, descobre, no entanto, que essa visão é para si
páginas de começo a fim. Claro que não posso aceitar a versão
um agente de liberação. Se ele for suficientemente forte para
autorizada desta obra como a mais exata nem a mais completa,
manter-se desvinculado de todas as religiões ortodoxas e grupos porque muitas coisas dignas de nota foram recusadas pelos compi-
raciais que o circundam, se for suficientemente independente ladores e muitas das coisas impressas foram mal traduzidas, ao
para não pedinchar favores nem temer carrancas, neste caso o passo que as andanças preparatórias de Jesus, entre as idades de
destino e o acaso se combinaram para proporcionar-lhe uma libe- doze e trinta anos, não figuram de forma alguma. A t é mesmo
ração única e maravilhosa. Enquanto outros homens atiram seu as passagens verdadeiras nem sempre são relatadas com fidelidade
ódio silencioso ou declarado uns sobre os outros, enquanto as Não obstante, malgrado todas essas imperfeições, conservarei
raças se maldizem entre si, enquanto credos entram em despre- com estima e amor o pequeno livro negro.
zíveis conflitos por causa de quinquilharias, ele poderá contem- Precisamos lançar um olhar mais além deste símbolo super-
plar a insensatez dessas pessoas briguentas em cujo meio foi ficial a que chamamos vida, minha cara senhora, e procurar
colocado, como faria um observador de um planeta distante, caso descobrir o que realmente significa. Jesus sabia. Não devemos
viesse a encontrar-se em posição semelhante.
101
102
confundir as contingências da .sua vida com aquilo que é funda-
mental. Aquele que imita o mundo com o sacrifício de sua paz que se ouve na índia, é inócuo. Já tivemos tempo de sobra para
interior está punindo-se a si mesmo. provar esses credos. Se não nos foi possível testá-los devida-
mente nos séculos mais próximos do período de vida dos seus
As palavras de Jesus não se perderam inteiramente para o
Inspiradores, tal coisa jamais nos será possível. Inútil que nos
mundo como as de tantos outros pregadores. Por quê? Porque
enganemos a nós mesmos. Retorno ao passado é coisa que não
Jesus nos falava das profundas regiões do E u Superior, enquanto
existe. A inspiração original de uma religião é também a mais
outros recorriam apenas aos seus diminutos intelectos. Jesus
vital que ela contém. Sob sua influência pode-se fazer muita
falou aos seus contemporâneos mas suas palavras chegaram até
coisa que no futuro só poderá ser copiada sem sinceridade nem
a posteridade. Os outros jamais conseguiram ir além dos seus
calor. As rodas de um relógio não podem girar em sentido
contemporâneos, ou ter mais do que uma vida efémera na gazeta inverso, por mais manipulações que façamos. O passado tem de
diária. Foram obrigados a falar com certos cuidados: cuidados cuidar de si próprio. É precisamente isto o que Jesus queria
com a opinião pública e com os seus bolsos. Sua desculpa era dizer ao proclamar: deixem que os mortos enterrem os mortos.
que o homem precisa viver e pão é melhor do que qualquer Devemos estudar a vida no presente, que é vivo, e não no passado,
auréola. Pobre gente! Não sabia que quem chega a encontrar que é morto. O mundo continua à espera do seu Redentor. As
uma auréola encontra também o pão. Se os pardais recebem de velhas religiões perderam sua dinâmica. Os verdadeiros cristãos
comer por que não o receberiam os homens aureolados? Deus são aqueles que foram atirados como mártires aos leões.
não é tão impotente que não possa cuidar das suas criaturas. . .
Que o nosso aprendizado da Verdade comece escoimado dos
As palavras de Sócrates continuam em circulação porque ele
perniciosos vestígios de dogmas mumificados.
deixava que o problema do pão se resolvesse por si mesmo, e
assim acontecia. . . O valor das palavras de um homem depende Se os oráculos das civilizações antigas estão hoje em dia
da sua gravidade espiritual específica. calados, isto significa que os oráculos do mundo moderno têm
agora de falar. A inspiração propriamente dita não jaz num
Os ditos do deus-homem Jesus são os mais dignos de serem
túmulo, embora isso aconteça com os seus primeiros instru-
repetidos que eu conheço. O mundo dos críticos e teólogos mentos.
poderá tergiversar acerca do seu significado, como vem fazendo
há mil e novecentos anos, mas uma alma simples ou sensível Se Cristo viesse à cidade de Camden, conforme admitiu
encontrará dificuldades muito menores em compreendê-los, por- Blake à sua maneira muito espiritual de ver as coisas, ninguém
o reconheceria, pela simples razão de que a nossa falsa educação
que são esplendidamente objetivos e porque o próprio Jesus não
nos levaria a esperar a descida de carros de fogo do céu ou,
era um teólogo. Não há nada no Novo Testamento que seja
melhor ainda, uma figura radiante envolta em brumas como num
ambíguo ou impreciso.
sonho; ao passo que seria mais provável encontrá-lo a passear
Pois é chegado o dia, como já aconteceu no passado na calmamente pelas ruas, com poucos sinais em seu rosto capazes
Palestina, de falar com franqueza, dar plena vazão à voz da de distingui-lo do restante dos carpinteiros que perambulam
Verdade, e não sussurrar frases apenas entreouvidas e de pouco anonimamente em locais anónimos.
sentido pelos becos escuros.
Ninguém hoje em dia ousa dizer que Jesus era doido, porém,
quando ele começou suas andanças, pregando às multidões ululan-
tes de barbudos fariseus, estes comentaram desdenhosamente
entre si: — Que louco! — Só mais tarde, ao perceberem que
ele era verdadeiramente sincero e "expulsou os vendilhões do
Desgraçadamente, a maior parte dos homens é muda do
templo e revirou as mesas dos mercadores", começaram a levá-lo
ponto de vista espiritual e incapaz de pronunciar uma palavra
a sério. Depois, quando ele se tornou uma ameaça, procuraram
eterna!
uma forma de destruí-lo; pois temiam-no, porque todos ae admi-
Desgraçadamente, também, o clamor pela volta âo cristia- ravam da sua doutrina. Os fariseus leccavam como nunca
nismo, que se ouve na Europa, ou pela volta ao neobramanismo,

104
sacudir suas míseras ilusões. Preferiam o preconceito ao princípio, Jesus lhes disse, M E U A L I M E N T O É F A Z E R A V O N
o orgulho à verdade. Fugiam ao E u Superior, pois tinham medo T A D E D A Q U E L E Q U E M E E N V I O U E T E R M I N A R A SUA
de ser por este prejudicados. Gente tola e má! Nada havia a OBRA. :j
perder, tudo a ganhar. Os céticos que custam a acreditar que Jesus viveu um dia
Infelizmente, "pois Jesus mesmo provou que um profeta não poderão ser perdoados, mas os místicos intelectuais que consi-
é reverenciado em sua própria terra". deram todas as bíblias como meras alegorias e todos os antigos
Por isso, "deixou a Judeia e partiu para a Galileia. E mestres religiosos como símbolos da alma humana levam muito
precisou atravessar a Samaria... Lá estava o poço de Jacó. longe suas especulações. Por que não haveria de ter existido
Jesus, cansado da viagem, sentou-se à beira do poço. . . Surgiu homens com grandeza suficiente para descobrir sua bondade
interior? E , se algum dia viveram, por que não haveria a sua
então uma mulher de Samaria para buscar água: Jesus disse-lhe:
história de ser registrada, ainda que com muitas falhas? Cristo
— Dá-me de beber. — Ao que a mulher lhe respondeu: — Como
e Krishna, Buda e Osiris não são muitos tanto quanto não o é
podeis vós, um judeu, pedir-me de beber, a mim, que sou uma
Maomé, o qual, estando muito mais próximo da nossa era, tem
mulher de Samaria, já que os judeus não tratam com os de Sama-
sua existência aceita sem contestações. A dificuldade real repousa
ria. — Jesus então lhe disse: — Se conhecesses as graças de Deus
nas floreadas interpretações das histórias sagradas.
e aquele que te pede de beber, ter-lhe-ias feito um pedido e ele
te teria dado a água da vida. — A mulher contestou: — Senhor, A qualidade mais extraordinária de Cristo é o seu poder de
conversão. Ele percorre o litoral da Galileia, encontra-se com
não tendes com o que retirar a água e o poço é fundo; de onde,
dois pescadores entregues à sua faina diária, dirige-lhes umas
então, obtendes essa água da vida? — Jesus respondeu-lhe: —
poucas palavras e, imediatamente, convence-os a jogar uma outra
Quem beber desta água voltará a ter sede; mas quem beber da
espécie de rede entre os homens. . . O filho sai à procura do
água que eu der, jamais voltará a ter sede; pois a água que eu
rebanho muar do pai, encontra o Mestre, e muda: dali por
vou dar emana de um poço da vida eterna. — A mulher disse:
diante tratará de procurar um rebanho mais divino. . . Saulo,
— Senhor, percebo que sois um profeta. — Jesus respondeu: — jornadeando pela estrada de Damasco, é encontrado pelo Cristo
Mulher, crê em mim, é chegada a hora em que os verdadeiros invisível e cai prostrado de joelhos. . .
fiéis venerarão o Pai com sinceridade: pois o Pai procura gente
No entanto, nem mesmo esse poder de Jesus era miraculoso
dessa espécie para venerá-lo. Deus é um espírito e aqueles que
nem universal. Não lhe foi possível converter os fariseus; até
o adoram, precisam fazê-lo com o espírito e com sinceridade".
hoje ainda não os converteu — a esses indivíduos empedernidos,
Vem, vidi, vici! As palavras do chefe romano não se aplicam arrogantes, formais e excessivamente prudentes que existiram
a Jesus. E bem verdade que ele conquistou o coração cie uns através dos tempos em todos os países, não apenas entre os judeus
poucos, mas a grande massa dos judeus permaneceu insensível. mas também entre todas as raças.
Jesus passou entre eles de forma tão obscura como surgira, a Pois Jesus só foi capaz de converter os seus patrícios. Na
despeito das inverdades históricas de certos teólogos. Tanto isso verdade, não procurou fazer mais do que isso. Ele tinha vindo
é verdade que é difícil encontrar-se uma só referência escrita por eles, seus filhos. Tal é o maravilhoso dom da liberdade com
àquele período da vida de Cristo. que Deus beneficiou a todos nós — a liberdade de escolha do
Não obstante: homem jamais será perturbada. É preciso que nos voltemos na
— Naquele tempo seus discípulos instaram com ele dizendo, direção certa por nossa própria vontade e não em virtude de
Mestre, é preciso que vos alimenteis. qualquer pressão ou interferência.
Os Mestres de Luz, tal como nos dias de Jesus, procuram
Mas ele lhes respondeu, tenho com que me alimentar e não
o sabeis. apenas aqueles que os estão procurando a eles, aqueles cujas
mentes, consciente ou inconscientemente estão ansiosas por
Então os discípulos comentaram entre si, alguém lhe terá voltar para casa. É sabido que laranja só dá em pé de laranja
trazido algo de comer?

106
Elas começam com o cair da noite. Uma alteração pressa
ocorre na temperatura, que principia a cair gradualmente. Prote-
jo-me do frio, metendo-me numa camisa grossa de lã e num
espesso suéter de gola alta; a seguir espio através da janela o
irromper da rebombante tempestade. Logo terríveis trovoadas
irrompem em toda a extensão da cordilheira himalaia, com uma
fúria de bombas detonadas; parece que as montanhas estão sendo
CAPÍTULO IX dinamitadas em suas bases e aluídas por gigantescas forças subter-
râneas. Sei, contudo, que o quartzo, o granito e o gnaisse que
A Tempestade Os Precursores das Monções
— Meus — constituem o coração do Himalaia resistirão sem susto às erosões
Visitantes Animais - \ Questão das Roupas da Natureza. Mas, o magnífico espetáculo dos raios que precede
o barulho representa, por si só, uma ampla compensação. Não
se trata de meros ziguezagues de luz elétrica, mas de grandes
massas circulares de uma fosforescência branca que se destaca
ALGUNS precursores muito remotos da estação chuvosa ainda curiosamente da completa escuridão que domina todo o cenário.
distante fazem seu súbito aparecimento. O Himalaia mostra-se
extremamente caprichoso nestes dias; cada dia oferece diversas Uma rajada selvagem açoita as copas dos meus altos abetos
amostras diferentes, tanto boas quanto más. As inesperadas e faz com que os galhos se agitem de um lado para outro, ao
mudanças começam no horizonte próximo, onde céu e terra se passar por eles com a velocidade de um trem expresso. Ventos
estrondeantes castigam os vales e deixam as árvores mais frágeis
encontram numa linha interrompida de nuvens algodoadas, picos
depenadas de suas folhas. Chove a cântaros, gotas imensas que
denteados e neve caída do céu.
pingarão com fúria e continuamente durante horas a fio. Para
A única vantagem que nos vem das chuvas intermitentes é completar o bombardeio, o matraquear do granizo agride o
a melhoria do nosso problema de água. Até aqui o líquido teve telhado, com suas pedras do tamanho de bolas de gude.
de ser trazido da fonte mais próxima, a qual fica a mais de
Essas pedras têm grande poder de destruição. Por vezes
quinhentos metros de distância. Agora, porém, basta que ponha-
chegam a ter o tamanho de nozes. Depois de uma pesada tempes-
mos um balde metálico diante da nossa porta e permitamos que
os elementos, generosamente, o encham. De quando em quando tade encontrei os corpos de alguns pássaros nas proximidades do
fazemos assim, tal é o volume das chuvas que vêm caindo. No bangalô, como que a anunciar o que teria acontecido ao longo
entanto, o recurso é esporádico e não se pode confiar muito nele. da cordilheira, e um alto cedro do Himalaia abatido por um raio.

As noites são, por vezes, de um frio cortante, particular- De manhãzinha fui acordado por ruídos de trovões qu
mente para quem veio do tórrido sul. Pois, com o cair do dia, ecoavam por todo o vale. A tempestade rugia furiosamente n
as nuvens singram como navios sobre os cumes e frequentemente lado de fora. E , mais tarde, quando a luz cinzenta e fria de u
se juntam no céu; os terríveis ventos tibetanos saltam, sibilantes, alvorecer sem sol se espalhou pela região, espiei pela porta
deparei com um cenário nada hospitaleiro. Brumas brancas
a crista nevada e vêm bater de encontro ao meu bangalô; brumas
densas, inteiramente impenetráveis, envolviam toda a região, a
tenebrosas e desagradáveis aparecem amiúde e toldam a paisagem,
adiante das fileiras de abetos, os quais, muito eretos, lembrava
deixando o prédio isolado no espaço, depois de encorpar-se em
rígidas sentinelas em serviço. A floresta propriamente dita tm'
torno dele. Tudo então desaparece de vista.
desaparecido, a linha nevada de penhascos e píncaros sumira com
Mas tudo isso não é nada comparado com uma tempestade se jamais houvera existido. Cá estamos, a ttès mil metros
no Himalaia. Esta é das piores que já vi em razão da sua inten- altura, insulados num mar de brumas leitosas. Índia» Tibet
sidade, mas não deixa de ser impressionante a ponto de encerrar Inglaterra — tudo não parece agora passar de designações dad
um toque de grandiosidade. Duas vezes, nesta semana, fomos a países lendários. Este planeta Terra, aparentemente, <fe
apanhados por tempestades.
veu-se em espaço branco e somos nós os únicos sobreviventes
empoleirados numa diminuta fortaleza em meio ao éter. ' O vóo poderoso de uma águia lá no alto lembra-me de
repente aqueles .mestres tibetanos que dizem aos seus discípulos:
As úmidas brumas que se aglomeram como envoltórios Assim como a águia arrebata uma única ovelha do rebanho,
lanosos sobre toda a paisagem, rolando através dos vales, envol-
assim também deveis vós destacar um único pensamento dentre
vendo as íngremes encostas e cingindo picos e cristas, até, final-
a multidão dos que se apresentam e concentrar-vos apenas nele.
mente, transformar tudo num só borrão indistinto, podem ser
rivalizadas apenas pelos escuros nevoeiros da sombria Inglaterra Borboletas esvoaçam da floresta e pousam nas solitárias
mas são muito mais agradáveis. São, pelo menos, brancas e de flores silvestres e a paz que envolve a cena só é rompida pelo
aspecto limpo. Mas isolam as pessoas de forma tão completa cantar jubiloso dos pássaros, livres como o vento, celebrando seu
que a vida se torna estranhamente misteriosa e indizivelmente hino de louvor diário ao Himalaia e suas florestas. Meu cedro
solitária, a ponto de satisfazer o mais exigente dos anacoretas. inclina-se por um instante à brisa suave, com a vetusta dignidade
de um sexagenário. A crista pintalgada e o pescoço amarelo-
Estas brumas intermitentes não me afetam, mas as chuvas -açafrão de uma poupa cruzam minha linha de visão.
cortantes e as tonitroantes tempestades mantêm-me, por vezes, Nessa feliz restauração da Natureza que faz do Himalaia
afastado do meu refúgio montês. Minhas meditações têm então um esplendor constante descubro um magnífico apoio para o
de ser feitas dentro de casa. E m tais ocasiões já não posso aven- meu corpo e um apoio ainda mais magnífico para o meu cérebro,
turar-me numa absoluta quietude entre o encantador ambiente pois, ao sentar-me e permitir que os meus pensamentos se fundam
de folhas ferruginosas e florinhas silvestres, mas sou obrigado a imperceptivelmente no silêncio, o E u Superior me toca e começa
acocorar-me num leito de carvalho e fixar os olhos na brancura a forçar-me para dentro de mim mesmo. Depois atira seu manto
de uma parede caiada. Pergunto-me o que o meu cedro do sagrado sobre as minhas imperfeições e eu fico sabendo o que
Himalaia pensará dessas gazetas. Como ele deve imaginar-me foi feito destas.
fraco! Temendo a chuva que ele arrosta com tanta bravura c
Por essa forma, todos os homens devem libertar-se dos
indiferença!
reclamos da própria personalidade.
Mas, durante boa parte do tempo, o clima faz concessões.
A chuva cessa bruscamente e uma estiagem benfazeja reaparece.
As brumas desaparecem como por encanto, evaporando-se tão
rapidamente como rolos de fumaça soprados com vigor de um
cachimbo e um alegre interlúdio de sol se faz presente. Lagartos Meu criado vem-me dizer que a perda do meu relógio de
de couro acinzentado saltam de dentro das rochas para aproveitar pulso privou-o de uma das coisas mais essenciais do viver civili-
um pouco os raios luminosos. Seus olhos vidrados parecem zado — saber que horas são! Como consequência, ele não sabe
muito idosos e malvados. Uma vez mais o Himalaia ergue a sua quando deve dar início aos preparativos das refeições e vê-se
cabeça majestosa e renitente. Na atmosfera rarificada, o sol brilha forçado a adivinhar, sendo que em muitas ocasiões vem-me anun-
ao longo de toda a extensão nevada, o céu reveste-se de uma ciar o almoço e é acolhido com um desalentador sinal de mão
tonalidade azul-turquesa maravilhosa; e uma quentura agradável que espere, ao passo que em outras ocasiões declaro-me faminto
se espalha por toda a parte. e a refeição ainda está longe de estar pronta para ser comida!
Recebo as novas com alguma seriedade, pois percebo que a
É melhor, não há dúvida, do que ser um sacrificado operário
queixa é justa. Depois de alguma reflexão decido improvisar
das planícies padecendo dos calores tropicais.
um tosco mostrador solar para uso do criado. No bosque escolho
Apanho então minha bengala e volto, penitente, ao deserto um pequeno pedaço de madeira, que aplaino e espeto firmemente
refúgio; desculpo-me debilmente perante o meu cedro, e me no chão, atrás do bangalô. A seguir espero pelo dia seguinte
acomodo uma vez mais sobre o meu lençol impermeável, tendo quando, ao romper da aurora, ao meio-dia e ao cair da noite faço
por sobre a cabeça um firmamento tranquilo. minhas primeiras marcações, colocando três pedras no chão ao

110
. „ A* linha da sombra do graveto. A partir daí foi fácil conseguiria um pouco de remédio para colocar na mão lesada?
' Z marcas das sombras de maneira a corresponder aproxi- Uma vez mais ele se torna taciturno.
r í a m e n t e às horas desejadas para o desjejum o almoço o chá
maaanic ^ e n q utivermos dias ensolarados,
a n t o
Desatando o trapo imundo que lhe cobre a mão, examino
a ferida. Evidentemente, o homem foi mordido por algum animal
teremos nosso relógio primitivo funcionando à perfeição, dando-se
desconto das variações no comprimento das sombras devidas selvagem. Um grande naco de carne foi arrancado, provocando
uma visão horrível. É uma posta ensanguentada e suja. A falta
à estação do ano. - , de higiene do curativo faz prever uma ameaça de gangrena. O
Como o tempo nos tiraniza! Fizemos da sua medida e do pobre diabo não compreende a importância de limpar uma ferida
seu controle uma necessidade absoluta das nossas existências. E , num corpo que não é lavado com frequência. Lavo-lhe cuidado-
no entanto, no mais recôndito do seu ser o homem é uma entidade samente a mão machucada, usando como desinfetante uma solução
intemporal. fraca de ácido bórico, recubro-a de ácido bórico em pó, aplico-lhe
uma pomada verde para facilitar a cicatrização, troco o pano por
* um linho limpo e coloco novas ataduras para terminar a obra.
Dou ao pastor um sortimento de pomadas, pós e ataduras, junta-
mente com instruções para o seu uso.
Há pouca agricultura neste reino de Tehri e pouco espaço
disponível para a mesma. A terra não se submete com docilidade Ele me saúda uma vez mais e se vai lentamente, em compa-
arado do agricultor, pois quase tudo é montanhoso e bravio nhia do seu barulhento rebanho, o rosto radiante como o de um
ao garoto entregue aos maiores folguedos; um homenzinho valente
então pedraria estéril. Por isso, apascentar as cabras e o gado
ou e feliz.
que galgam os flancos das montanhas e deles descem com espan-
tosa agilidade é uma ocupação importante para os poucos habi- Invejo-lhe a simplicidade da alma. Os homens das monta-
tantes que tiram seu sustento do seio relutante destas cordilheiras. nhas como ele vivem intimamente ligados à Natureza e desen-
Um pastor montês, que erra com seus magotes de cabras volvem um caráter sincero e independente, isento de perturbações
gemebundas, aproxima-se do lugar em que me encontro. Suas de ordem intelectual. Os antigos historiadores da índia contam-
vestimentas estão esfarrapadas e consistem dos componentes -nos que os primitivos moradores do país eram tão honestos que
usuais naqueles homens: um capuz arredondado e alto, um jaleco jamais era preciso trancar as portas das casas. Resquícios desses
justo, uma camisa folgada e uma tanga. Um tufo de barba negra velhos costumes perduram entre os montanheses e concluo que
desponta-Ihe do queixo forte e protuberante. Seus olhos, em estes também possuem algo daquela honestidade total.
virtude de um hábito de muitos anos, mantêm-se apertados para Seu contato com o mundo externo é pequeno, e com as coisas
defender-se do clarão do sol. Sua pele tem a cor do bronze. Ele modernas, menor ainda. Eles não aderiram à competição genera-
traz os braços cruzados sobre o peito, um punhal grande e recurvo lizada, pois mais dinheiro e instrução não significam para eles
preso a uma das mãos. Suas feições são rudes e castigadas pelo mais felicidade do que já têm. São surpreendentemente amáveis
tempo. Seus pés descalços estão recobertos de poeira. e pacíficos. Vivem a mais pobre das vidas, mas não deixam de
ser felizes. A despeito da minha inveja, porém, prefiro provar
Estou batendo algumas cartas à máquina e aproveito para
dos frutos da árvore da ciência e pagar o preço exigido. Não
trabalhar ao ar livre. O homem me observa e mantém-se em posso invalidar o passado e trocar de posição com um homem
respeitoso silêncio durante cerca de vinte minutos. Por fim, como esse que acaba de por-se em marcha.
rompe o silêncio e revela seus pensamentos, pois chega-se para
mais perto, toca a fronte com ambas as mãos e pronuncia um Estas gentes têm provérbios curiosos e estranhas expressões.
A inevitabilidade do destino está expressa em "Deus dá, até
Slaam!" em voz baixa, fazendo profundas reverência. Só então
mesmo através do teto da nossa casa!" A interdependência da
percebo que traz a mão direita enfaixada. Conta-me ele que vive
humanidade encontra-se em "Homem algum pode raspar o pró-
numa cabana a alguns quilómetros de distância e que feriu a
prio crânio!" Sagaz momento da transitoriedade da vida é "Os
mao. Será que Sua Excelência, o Protetor dos Pobres, não lhe

112
homens dizem que o tempo passa; o tempo d que os homens
1 2 humor. Amo a minha cara avezinha e espero que ela não me
nassam'" Quando já não resta o que fazer com relação a alguma abandone. Seu habitat fica num ninho recém-construído sob o
coisa dão de ombros e dizem "Não há nada além de Mana!" teto do meu bangalô, quando ela não está saltitando entre os
Maná é o último vilarejo habitado a caminho do Tibete. galhos das árvores mais próximas.
Mas, a título de contraste, existe um outro habitante destas
regiões. Trata-se de um barulhento corvo que mora bem no
cimo do abeto à margem do meu caminho entre estas cristas
Dois escorpiões, negros e enormes, penetraram no meu rochosas. A cada brisa mais forte ele corre o perigo de perder
quarto de dormir durante a semana. São tipos estranhos e desa- a sua morada, à qual insiste em se aferrar; os violentos esforços
gradáveis e talvez não tão vivazes nestas alturas como os seus que faz para manter o equilíbrio são verdadeiramente cómicos.
fulvos primos egípcios, e muito menos encontradiços, mas nem Certa vez ele desapareceu mais tempo do que de costume. Por
por isso deixam de ser capazes de picar virulentamente com suas isso pus-me à procura do truão. Encontrei-o perto do meu refúgio,
entre uma multidão de outros corvos reunidos em grave assem-
compridas caudas.
bleia e aparentemente discutindo assuntos de Estado em suas
Se a Natureza me envia alguns intrusos de variada espécie, vozes grasnantes. Ele tem uma voz gutural e rouca que não se
o destino, para minha surpresa, envia-me companhia. Claro que dá ao trabalho de esconder; é como um alto-falante e, em conse-
eu desejava gozar de uma solidão completa, mas solidão à deux quência, cada animal, cada ave, cada inseto destas montanhas
pode ser coisa agradável, se a outra parte o for e a recém-chegada deve saber onde fica o seu domicílio. Também ele saltita pelo
assim parece. Percebo de relance que ela respeitará os momentos chão com o bico aberto, de quando em quando, embora não tenha
em que eu desejar estar só e, ao mesmo tempo, cantará para me sido convidado, executando uma desengonçada série de pulos e
distrair nos momentos em que estiver disposto a ouvi-la. Não metendo, desajeitado, o bico nas migalhas. Seu grande bico, suas
me seria nada mau viver em sua companhia no Himalaia, a partir lutuosas penas pretas, seus olhares a um tempo desconfiados e
do instante em que os meus pés cansados cessassem suas andanças. curiosos são coisas que por muito tempo me ficarão gravadas na
A transitória visitante que se transformou em companheira memória. A avezinha é a cantora oficial da minha corte, na
permanente é uma avezinha macia e quente que esvoaça em torno mesma medida em que o corvo é o truão inconsciente.
do bangalô e depois pousa na moita mais próxima, para espiar-me Todas as tardes, logo antes do crepúsculo e com a chegada
seguidamente, enquanto me entrego à redação da minha corres- do por de Sol violeta, um tordo ruidoso surge na trilha pedre-
pondência e do meu diário — esse registro de cenas e panoramas, gosa que serve de palco para as aves minhas companheiras e
de umas poucas entrevistas e muitas meditações, no qual coloco proporciona-me uma excelente exibição. Ele assobia tão bem
meu coração sob um microscópio e relato o que me vem, aquilo como qualquer menino de escola equipado de um instrumento
que me é dado contemplar durante as luminosas horas de êxtase, apropriado e, sem a menor dúvida, de forma muito mais melo-
à maneira de um jornalista celeste que compilasse notas para diosa.
futura recordação.
Uma vez mais, contrastando com o rouco grasnar do corvo,
A pequenina ave conquistou um pedacinho do meu coração surge o suave arrulhar de um casal de pombos de plumagem
e para ela tenho sempre nos bolsos certa quantidade de migalhas marrom, que se aproxima bastante de mim e me olha com grande
de biscoitos. Depois de ganhar confiança e perder o seu receio curiosidade. E u também os observo, embora eles não o saibam,
da humanidade, ela aceita o meu convite, desce da moita e che- pois tenho interesse em verificar até que ponto estão enamorados
ga-se^ bem perto de mim, até que lhe coloco no bico aberto uma um do outro, nunca se perdendo de vista nem se afastando mais
porção generosa da sua comida paradisíaca. Cada vez que lhe do que uns poucos passos um do outro.
vejo um trecho do peito maravilhosamente policrômico sinto-me
Há um quarto companheiro que jamais vejo, mas escuto.
um pouco mais feliz, um pouco mais alegre, como se a Natureza
Trata-se de uma cigarra. O inseto mora na árvore do corvo,
me estivesse enviando um recado para que me pusesse de bom
porém bem mais abaixo, e o seu canto agudo se faz ouvir a

intervalos regulares como uma matraca. Sento-me para fazer as refeições metido nas mesmas roupas
velhas que uso para passear pela região. Não me dou ao trabalho
O mais estranho dos meus camaradas é uma mosca domes-
de vestir uma desconfortável camisa engomada para jantar.
tica Seu local predileto é a unha de um dos meus polegares
Talvez tenha perdido a noção de dignidade e decência nestes
Ali ela passa horas felizes, entregue a uma divertida exploração. ermos bravios, não sei. De qualquer forma, sinto-me tão inteira-
De quando em quando coloco um pouco de açúcar na mão e a mente livre, tão deliciosamente abandonado à Natureza, tão
mosca se gruda ao alimento sem desprender-se, por mais q u e
distante das restrições que de hábito os homens e mulheres se
eu vire a mão ao escrever. Quando canso de carregá-la na unha impõem em sociedade, que pouco me importam as maneiras exigi-
do polegar, transfiro-a para a outra mão, onde ela se queda perfei- das pela vida civilizada. Tal é a traição que a Natureza insidio-
tamente feliz. samente instilou em mim.
Visitante nada benvindo é uma mosca azul, grande, brava, É verdade que continuo a fazer a barba diariamente.
de tamanho descomunal. Descubro sua existência certo dia em Sinto necessidade disso. Uma longa barba, porém, ficaria muito
que ela enfia o ferrão dentro da minha camisa e me atinge com bem num eremita, mas tenho receio de ir tão longe assim.
uma picada aguda que me deixa a pele irritada durante longo Conheci não faz muito tempo um inglês, guarda florestal.
espaço de tempo. Mas não acredito que nenhuma outra mosca Durante três anos serviu ele numa região pouco povoada de
desse tipo ouse a repetir a mesma façanha pela segunda vez! Punjab, onde encontrar outro europeu ou um hindu instruído era
Os gafanhotos, também, dançam comicamente pelo local. acontecimento muito raro na sua solitária existência. Não
obstante, ele não hesitava em envergar seu dinner-jacket e camisa
Há aqui visitantes pertencentes aos mundos animal e dos de colarinho duro todas as noites, sem exceção, ao sentar-se para
insetos, tanto agradáveis quanto desagradáveis, bravios ou mansos, jantar, como se estivesse numa festa a rigor. Apenas seu criado
mas só aparecem ocasionalmente e se vão, estranhos que são a presenciava seus preparativos para a refeição noturna. Ele me
esta casa. Extremamente inesperada, no entanto, é a visita que disse que era incapaz de degustar sua comida como convinha, se
recebo certa tarde à hora do almoço. Ouço passadas furtivas às não estivesse vestido a caráter. Acredito nele e o admiro.
minhas costas, aproximando-se cada vez mais, deslocando-se com No entanto permanece em aberto a questão de dever um
a maciez felina de um ladrão. Sem saber se um leopardo ou homem desleixar sua aparência pessoal por não estar vivendo em
pantera estava prestes a saltar sobre mim, viro-me subitamente e outra companhia que árvores sombrias e cumes silenciosos,
dou de cara com. . . uma cabra montesa! ocasionais nativos iletrados e pássaros chilreantes. Suponho que
Trata-se de uma criatura de cor leitosa, faminta, que se paletó, colarinho e gravata sejam coisas realmente necessárias
desgarrou do seu rebanho e foi atraída pelo aroma saboroso que à vida citadina. Por que um homem haveria de preocupar-se
se desprendia da minha cozinha. com a colocação de uma gravata aqui, onde o ambiente o torna
livre com um pássaro?
Ao cair da noite, estando ocasionalmente sentado na orla
No Himalaia calças sem vinco são mais naturais, mais inevi-
da floresta, sob uma Lua cheia que era uma espera perfeita e um
táveis, pois não se pode transportar pesados ferros de passar
céu de um azul de anil, das profundezas chegam-me estranhos
nestas regiões. Em Hertford Street ou Mayfair seriam um erro
gritos. A população selvagem está agitada. A noite convida os
e uma demonstração de falta de gosto. Há, porém, uma dife-
animais noturnos a começar suas rondas. Mais alto do que
rença: enquanto o Himalaia se interessa mais por aquele que
todos, o notibó, essa ave barulhenta, guincha na escuridão. Vaga-
as usa, Hertford Street preocupa-se mais com as calças propria-
lumes coriscam entre as árvores, tecendo curiosos padrões de luz
mente ditas!
fosforescente no escuro
No entanto posso compreender como o gosto estético de
um homem pode levá-lo, para sua própria satisfação, a repudiar
essa influência liberadora e chegar mesmo a cuidar tanto da sua

116
aparência pessoal nestas solidões primitivas como se estivesse
entre a multidão atarefada de um salão elegante. Tudo é questão
de gosto e temperamento. Permita-se ao homem fazer o que
melhor lhe aprouver, ao penetrar nestes domínios sem fronteiras
de montanhas e florestas. Permita-se-lhe ser feliz à sua maneira
e não necessariamente à maneira dos outros.
O rude e barbudo Carlyle deu-nos, em seu estilo caracte-
rístico, uma filosofia das roupas e nos mostrou como, em seus CAPÍTULO X
espelhos, podemos ler o homem. Metade dos anúncios dos alfaia-
tes nos falam da importância de usar o traje certo. A moda e
o tédio são os grandes ditadores do mundo. Apenas os milio-
Mais uma Visita de um Iogue - Suas Aventurosas
nários e os sábios podem-se dar ao luxo de usar roupas ensebadas Viagens de Cachemira até o Monte Kailas — Suas
ou inadequadas. Sem precisar do parecer favorável da sociedade, Andanças no Tibete Ocidental — Como seu Mestre
o mundo é obrigado a aceitá-los de qualquer forma, mas trata-se Vivia Nu na Neve — Explicações do Feito
de raridades que só encontramos de tempos em tempos. Os demais
têm de cuidar dos laços das suas gravatas, caso contrário seu
orgulho cairá por terra, devastado pelas carrancas reprobatórias
E u E S T A V A contemplando a espiralada trilha de pedra ao
e pelos juízos desfavoráveis daqueles que andam na moda.
longo dos flancos da montanha quando a última luz do dia revelou
uma figura envolta num burel cor de laranja, contornando um
cotovelo fechado e caminhando celeremente na minha direção.
Aguardo pacientemente por ela na varanda do meu bangalô, pois
se trata de uma visita esperada.
Dois dias antes chegara uma carta dele, dando conta,
para minha agradável surpresa, de que ele se desviaria do seu
caminho a fim de passar comigo alguns dias.
Trata-se do Iogue Pranavananda.
Trata-se também do homem em companhia de quem eu
planejara peregrinar ao Monte Kailas. Ele ficara muito desa-
pontado diante do insucesso da minha tentativa de conseguir
uma autorização do governo para empreender a minha viagem.
Ao perceber que a recusa do governo era definitiva, decidira
fazer a peregrinação sozinho. Para ele a entrada era livre, porque
os tibetanos permitem que os homens santos hindus visitem o
Monte Kailas como peregrinos, embora não consintam que eles
lá permaneçam por tempo indeterminado.
O homem atravessa o terraço pedregoso em que o bangalô
tinha sido erigido e nós dois nos encaramos mutuamente. Ergo
as palmas das mãos viradas e junto-as à guisa de saudação, curvan-
do-me ligeiramente. Ele faz o mesmo.
Sua estrutura é imponente, seus olhos são grandes e brilhan-
tes, seu rosto recoberto por pesada barba, ao passo que seu«

11H
cabelos descaem em ondas compridas e grossas até os ombros.
ao frio que ele terá de suportar, pois nunca antes enfrentara o
Ele vem envolto em espessas camadas de tecido alaranjado, sobre
inverno tibetano, mas ele me parece bastante otimista e confiante.
as quais usa uma. capa impermeável de cor fulva.
Antes de irmos dormir, ambos contemplamos a fotografia
O iogue toma o lugar que lhe é oferecido. Seu rosto grave
colocada à parede caiada: Kailas, emoldurado por uma orla
tem um ar deveras impressionante. Fazemos uma caminhada de
branca de neve e gelo. Os olhos do iogue enchem-se de amor,
duas horas e depois nos recolhemos para meditar. Logo após,
admiração e respeito. Sem nenhuma dúvida, Kailas significa mais
faço a minha refeição da noite. Pranavananda não janta; toma
para ele do que qualquer outro lugar, mais ainda do que a sua
apenas um pouco de leite de cabra e come umas poucas frutas.
própria terra natal.
Ficamos acordados até tarde, pois há muito o que discutir.
— Encontrei alegria na minha vida de renúncia ao mundo
Meu companheiro adora o Monte Kailas e o Lago Manas- e prática da Ioga — murmura ele, cofiando a longa barba. —
rowar. Uma fotografia da região tirada por ele em determinada Jamais me sinto infeliz. No entanto, senti certa vez uma tristeza
ocasião encontrava-se na parede do meu quarto desde a minha profunda e muita depressão. . . uma melancolia como jamais
chegada. Duas vezes ele esteve lá; primeiro em 1928, quando experimentei nos trinta anos que vivo apartado do mundo. F o i
seguiu pela estrada ocidental (que é a mais longa) partindo de na ocasião em que tive de abandonar o Monte Kailas, no ano
Cachemira, atravessando Gartok e voltando a seguir a Cachemira; passado, e voltar para a índia, antes que sfe estradas passando
depois em 1935, quando tomou a estrada meridional, mais curta, pelo Himalaia se tornassem intransitáveis pelo acúmulo de neve.
segura e menos conturbada, partindo de Almora. E u tinha sofrido em razão do clima frígido, da falta de alimentos
Depois desta visita que me faz, voltará para a í n d i a Britâ- e combustíveis e até mesmo das comodidades mais elementares,
nica e demandará novamente Almora, donde partirá para Kailas mas todas essas privações nada significavam para mim e não me
pela terceira vez. Mas, nesta oportunidade, n ã o irá como mero chegavam a perturbar o espírito; apenas a agonia de deixar um
lugar tão maravilhoso tinha o poder de anuviar meus sentimentos
visitante, mas fixará residência pelo espaço de um ano num
e entristecer minha alma. A h , Kailas, é um lugar mágico, sua
mosteiro budista, muito provavelmente o grande mosteiro de
k

beleza é dominante e, do do ponto de vista espiritual,- a região


Truphulklho (também chamado Jaridhipu, Tuthulphuk e Tsun-
possui uma sutil vibração magnética, de uma qualidade decidi-
tulphu). Ali passará seu tempo em meditações e estudos. Será
damente superior.
o único iogue hindu a viver no Tibete Ocidental e os tibetanos
lhe concederam tal distinção porque o tem em altíssima conta. "Peregrinei à maior parte dos lugares sagrados da Índia
mas nenhum tinha a mesma vibração espiritual que encontrei em
Pesaroso, dou-me conta de que entre a minha papelada existe
torno do cume tibetano e do seu lago. As lendas locais afirmam
um envelope lacrado, endereçado ao Lama Chefe do Mosteiro
que os Budas continuam a morar em seus cimos maravilhosos,
Truphulklho, contendo uma carta solicitando p e r m i s s ã o para que
com seus corpos sutis e invisíveis, e eu acredito piamente no que
eu ali resida e dê sequência aos meus estudos e meditações. Esta
dizem. Desconheço cena mais fascinante ou inspiradora do que
carta de apresentação foi escrita por um funcionário tibetano,
o por do Sol nas águas verde-azuladas de Manasrowar. Parece
pois o mosteiro localiza-se na margem meridional do Lago Manas-
uma enorme esmeralda incrustada entre duas montanhas majes-
rowar e, portanto, sob os. olhares benfazejos do Monte Kailas.
tosas: Kailas, ao norte, e Guria Mandhata, ao sul. O s raios
Mas agora, infelizmente, os lindos e floreados caracteres tibe-
esplendorosos do Sol que se deita acrescentam um encanto místico
tanos escritos à mão neste envelope estão condenados a jamais a um lago que já de per si encerra um encanto misterioso. As
serem lidos pelos olhos de um lama. vibrações espirituais que dali emanam arrebatam-me e põem-me
Pranavananda ficará sem comunicar-se diretamente com a a alma em estado de sublime serenidade; amiúde transporta-me
Índia durante duas terças partes do ano, porque as pesadas a êxtases inesperados. O melhor dos monges budistas tibetanos
nevascas do inverno irão bloquear os passos do Himalaia e isolar encontra-se nas cercanias dessas paragens sagradas e muitos dentre
o Tibete Ocidental. Exprimo alguma preocupação relativamente eles batalham noite e dia para atingir o silêncio eterno do Nirvana

120
Se o senhor pudesse vir comigo agora, isso me faria ainda mais
feliz. Mas é preciso que aceitemos o destino; talvez no próximo "A seguir cruzamos o encantador vale de Cachemira, galga-
ano ele permita que o seu desejo seja satisfeito; retornarei então mos as montanhas que o circundam, acompanhando o trajeto do
à índia e, se estiver livre, iremos juntos." Rio Sind até Kargil e daí até a cidade de Leh. A estrada condu-
ziu-nos através do famoso Passo Zoji-La, o qual se atinge por
Ele toca-me as palmas em sinal de despedida e retira-se meio de uma escorregadia e estreita trilha cavada na face rochosa
para dormir. da montanha e enroscando-se nela em curvas a nunca terminar.
No dia seguinte nos embrenhamos na floresta e caminhamos Tivemos de atravessar pontes de neve e leitos de neve. Por
felizes sob os longos ramos dos abetos, pisando um fofo tapete vezes o caminho se mostrava muito íngreme e até mesmo trai-
de bolotas caídas ao solo. Umas poucas primaveras selvagens, çoeiro, pois avalanchas costumam desabar sobre a trilha, soter-
com suas pétalas muito cerradas, emprestam um colorido mais rando aqueles que têm a infelicidade de encontrar-se nela. Tais
forte ao cenário. Uma súbita rajada de vento varre os vales e as avalanchas deixam a trilha recoberta por uma escorregadia camada
árvores balançam seus braços verde-escuros sobre o chão. Cada de gelo e, em alguns pontos, fomos obrigados a saltar por sobre
um destes abetos lembra uma gigantesca árvore de Natal. Será fendas. Perto de Lamayuru a trilha descia até uma garganta tida
nesta floresta a escondida moradia de Papai Noel? Será que um como a mais profunda do mundo. O fundo fica imerso na
dia o encontrarei frente a frente nestas paragens? Gostaria escuridão.!

imenso de conhecer o bondoso velhinho de barbas brancas e "Chegamos a Leh depois de algum tempo e lá visitamos um
fazer-Ihe umas tantas perguntas, já que ele fascinou os dias da
mosteiro budista, onde vimos uma grande estátua de Maitreya,
minha infância e deu motivo a fantasias do tamanho do seu
enorme saco de presentes que, desgraçadamente, jamais se mate- o Messias dos budistas, que virá salvar o mundo daqui a dois
rializaram. mil anos, segundo a sua crença. Embora a figura estivesse sentada,
sua altura era tão grande que os ombros varavam o teto e a
Encontramos um lugar limpo e umbroso e nos sentamos. cabeça ficava num outro andar da construção!
Como é repousante para os olhos sair da deslumbrante luz
amarela das planícies! "Leh é um interessante vilarejo, pois fica na junção de
quatro grandes estradas de caravanas. Uma leva à Ásia Central
Falamos interminavelmente. Logo caímos no nosso tema e Yarkand, outra ao Tibete e à China e as demais conduzem, por
predileto e o iogue enverada para o terreno autobiográfico. caminhos diferentes, à índia.
Solicito-lhe que conte a história da sua primeira visita ao Monte
Kailas. Pranavananda alisa a espessa barba num silêncio refle- "Estávamos agora em Ladakh ou Pequeno Tibete. Este
xivo e, por fim, reencontra a fala. país fez parte um dia do Tibete propriamente dito, mas foi
depois invadido e conquistado por Cachemira, em meados do
século passado. Seguç , portanto, sendo uma província de Cache-
;

mira, mas conserva todas as suas características tibetanas.


" Seguimos no rumo sudeste até chegarmos a Hemis, onde
— Oito anos se passaram desde que me pus a caminho, em encontramos o maior mosteiro de Ladakh, famoso por suas danças
companhia de um discípulo irmão. Nosso professor, o santo do diabo. Nessas danças um grupo de lamas usa grandes e horripi-
Swami Jnanananda, já tinha peregrinado ao Monte Kailas e sua lantes máscaras à cabeça, cada qual pintada a fim de representar
vívida descrição da viagem, bem como seus objetivos, espicaçaram um demónio ou algum terrível animal chifrudo de um outro
nosso apetite e nos influenciaram no sentido de empreender a mundo. Todos dançam com guizos presos aos pés. O mosteiro
perigosa travessia. Viajamos primeiro para o Estado de Cache- propriamente dito foi erigido na face de um rochedo cinzento,
mira e na capital, Srinagar, conseguimos roupas e equipamentos numa estreita ravina, mas o Lama Chefe tem um sítio especial
apropriados para enfrentar a vida no Tibete, esse país de neves e exclusivo para as suas meditações, colocado numa rocha elevada
articas. r

bem distante do edifício.


122 123
"Nem bem atravessáramos a fronteira do Tibete e o frio esforços para apurar a nossa pretensa identidade. Dali em diante,
começou a castigar-nos, embora fosse ainda uma estação cama- vi-me obrigado a ocultar a máquina fotográfica que trazia comigo
rada. Ventos gélidos e cortantes sopravam sobre nós, vindo das e usá-la às escondidas. De alguma forma, conseguimos tranqui-
geleiras. Nossas mãos e orelhas ficaram entorpecidas. Vimo-nos lizá-los o suficiente para que nos permitissem ir embora.
impossibilitados de segurar as rédeas dos nossos cavalos; somente "Um hábito tibetano que tentei contrair mas não consegui
depois de alguns dias aprendemos a fazê-lo. Tentamos aquecer é o de beber chá. O chá é fervido durante uma hora e misturado
as mãos em pequenas fogueiras feitas com gravetos, mas, ao com manteiga rançosa e sal. A primeira vez que experimentei
tempo em que um dos lados se aquecia, o outro já tinha gelado fiquei doente uma hora mais tarde.
novamente. O senhor bem pode imaginar nossos sofrimentos,
pois somos hindus e, como tais, habituados ao mais escaldante "Fato curioso é que os espinhentos arbustos, que em muitos
dos calores; nasci no sul, em Rajahmundry, e fui educado num lugares eram o único combustível disponível, queimavam a con-
colégio de Lahore (ambos os lugares são dos mais quentes da tento, mesmo estando verdes. . . mais pareciam velhos e resse-
índia). Eu tinha curiosidade de comparar as temperaturas do quidos gravetos.
Tibete com as da índia e por isso fui munido de um termómetro "Em Darchen encontramos um hospitaleiro anfitrião que
naquela viagem. Constatei que a temperatura média entre a morava com a família numa só tenda. Ele nos ofereceu abrigo
fronteira e o Monte Kailas andava em torno do ponto de conge- e comida por alguns dias. Quando despertei no primeiro dia,
lamento. com o raiar da madrugada, notei que a sua filha mais nova, uma
garotinha de cerca de três anos e meio, tinha dormido a noite
"No entanto, prosseguimos em nossa aventura, pois se
toda com apenas uma pele a cobrir-lhe o corpo quase desnudo,
tratava de uma peregrinação santa que uma vez começada só
não tomando conhecimento de uma temperatura que descia dez
poderia ser interrompida por motivo de morte. Tivemos grandes graus abaixo de zero. Tão logo a criança se deu conta de que
dificuldades a caminho, em razão de não conhecermos a língua eu estava acordado, saltou como uma flecha do seu leito sobre
e não conseguirmos por vezes trocar nossos cavalos, tendo sido o chão e correu para fora da tenda. Ali atirou-se sobre um monte
obrigados a fazer grandes caminhadas a pé. Em outras oportu- de neve e colocou-se de bruços sobre ele. O tempo todo não
nidades a dificuldade foi conseguir alimentos. Em muitas cidade- despregou os olhos de mim. Depois de um pequeno intervalo
zinhas descobrimos que as pessoas não podiam tomar banho, voltou para a cama e tornou a cobrir-se com a sua pele, até que
uma vez ao ano que fosse, em virtude do frio excessivo. eu fiz um movimento, fingindo que ia erguer-me da minha cama.
"No entreposto comercial de Gynamina o guia que tínhamos Imediatamente, ela saiu da tenda e saltou sobre o monte de
contratado nos abandonou, ao ouvir o relato de que uma grande neve pela segunda vez. E u não podia compreender a razão
caravana de mercadores tinha sido atacada e despojada de todos daquela estranha conduta e fui inquirir o pai, valendo-me do
os seus bens e pertences pessoais. Bandidos armados são coisa guia como intérprete.
mais ou menos comum no Tibete Ocidental e tornam inseguro "Disse-me ele que a neve cai pesadamente durante a noite
viajar. O assalto tinha ocorrido na estrada que iríamos tomar. e soterra o cão, que dorme no lado de fora a fim de guardar a
Sem um guia não nos seria possível continuar. Deus, no entanto,
tenda. Apenas os olhos e o focinho do animal permanecem de
não nos falhou. Surgiu depois um mercador que fez amizade
fora. O cão não se mexe durante toda a noite, pois se o fizesse
conosco, partilhou conosco seus víveres e nos cedeu um guia
entre sua criadagem. o seu lugar de dormir ficaria molhado. Assim sendo, permanece
quieto sob o seu cobertor de neve até o raiar do dia. Os cães
"Porém, nem bem terminaram aqueles problemas e novos tibetanos são enormes e ferozes mastins, tão poderosos que despe-
aborrecimentos nos aguardavam. Boatos alarmistas tinham sido daçam os homens, como os lobos. O pai explicou-me que a
divulgados através do acampamento, dizendo que nós dois éramos meninazinha percebeu que minha vida correria perigo se eu
espiões disfarçados a serviço dos ingleses. Os tibetanos nos deti- tentasse sair da tenda ao despertar, pois o cão me trataria como
veram vigiaram-nos atentamente e desenvolveram os maiores um estranho a ser atacado. Por isso, ficara a observar-me desde

124 1
a madrugada e ao primeiro sinal de que eu m e m o v i m

correu para fora e segurou o cão que estava escondido sob **** budistas que fugiam de perseguições na índia. Na biblioteca
ee que eu não teria visto, evitando com isso que eu a neve de Punri havia magníficas imagens de personagens sagrados da
que eu nao teria visto, evuanao com isso q eu f
U e f •
0s
crença budista, colocadas em altas plataformas metidas entre os
Ela não podia falar e esclarecer o perigo por desconhecei • 1?' velhos tomos. Muitas pinturas de valor, feitas em estilo chinês
língua. Fiquei maravilhado diante da sabedoria e da b ^ sobre rolos de seda, pendiam das paredes.
daquela pequenina criança, as quais certamente ela tinha h d ^
do pai, um homem altamente espiritualizado. Ele • L° "Nosso guia conduziu-nos a um recesso nas paredes, pesada-
suplicado que lhe desse algumas lições da arte da pranaya mente encortinado em ambos os lados e abrigado por um maravi-
(controle da respiração usado como^ meio para concentrar** lhoso dossel de seda. Como todas as janelas da biblioteca osten-
mente) e eu lhe ensinei alguns dos métodos hindus. a tavam véus de seda, o local estava pouco iluminado. Havia duas
pequenas lâmpadas a óleo ardendo diante do recesso a que tínha-
"No velho mosteiro de Silling encontramos cento e oito mos sido trazidos e foi-nos preciso quase um minuto para perce-
monges, cujas idades variavam entre sete e setenta anos. Havia bermos que a figura colocada sobre a plataforma erguida não era
ali uma prensa rudimentar que era operada por um velho lama tão-somente uma estátua como as demais, mas um homem de
. Ao invés de usar tipos móveis, ele gravava toda a página em carne e osso. E muito jovem. Na verdade, disseram-nos que
blocos de madeira e, desta forma, cada livro era lenta e laborio- ele contava apenas dezesseis anos de idade e era o Lama Chefe
samente produzido. Um lama menino trabalhava como seu ou Abade de todo o mosteiro, altamente reverenciado tanto pelos
aprendiz e destinava-se a suceder o velho quando este morresse. antigos quanto pelos novos monges e profundamente respeitado
Os livros eram bem feitos e extremamente bonitos. Eram impres- pela população em geral. Como sabe o Grande Lama do Tibete
sos em papel de três qualidades fabricados em Lhasa: comum bem como o Lama Chefe dos mosteiros importantes é escolhido
superior e superfino. Os livros produzidos na última edição por conselhos encarregados de descobrir a reencarnação do lama
tinham papel muito grosso e resistente e eram impressos a ouro. falecido. Tais lamas são encontrados ainda crianças e cuidado-
samente criados para as altas funções que lhes estão reservadas.
"Quando nos aproximávamos de Taklakot fomos surpreen-
No caso deste jovem Abade do Mosteiro de Punri, haviam colo-
didos pela noite e perdemos o caminho na escuridão. Errávamos cado diante dele determinados pertences que tinham sido do
ao acaso, quando um robusto tibetano partiu sobre nós, um Abade morto. Esses objetos tinham sido deliberadamente mistu-
enorme punhal na mão. Derrubou por terra meu companheiro rados com outros. Sem qualquer hesitação, o jovem reconheceu
e a seguir espetou-me o punhal de encontro ao pescoço, gritando e selecionou corretamente todas as coisas pertencentes ao falecido
ao mesmo tempo: — Quem são vocês? — Respondi gravemente, e rejeitou as demais.
sentindo que o meu último momento era chegado: — Somos uns
pobres sadhus (homens santos hindus). Não tememos seu "O jovem lama mantinha-se absolutamente imóvel diante
punhal nem suas ameaças. — Àquelas palavras nosso atacante de nós, o pé direito apoiado à coxa esquerda e o pé esquerdo
prorrompeu em estrepitosa gargalhada. Quando se acalmou, apoiado à coxa direita. Tinha uma das mãos sobre o joelho
disse que não nos faria mal. Esclareceu que tendo nos encon- direito e a outra espalmada no colo, a palma virada para cima
trado por acaso, resolvera pregar-nos uma peça! Coisa estranha e o polegar erguido.
o humor tibetano! "Fiquei muito impressionado com o seu aspecto. O jovem
tinha um rosto inteligente e sereno, uma tez lembrando discre-
"No sopé de uma montanha a dez quilómetros do Lago
tamente o marfim e uma expressão doce e bondosa. Realmente,
Manasrowar chegamos ao lindo mosteiro de Punri. As paredes
parecia um jovem Buda. Costumo perceber prontamente a atmos-
eram pintadas de branco e os tetos decorados por beiradas de fera espiritual que envolve uma pessoa. Na presença daquele
um vermelho brilhante. Dormimos lá à noite e pela manhã um lama senti uma tal sensação de reverência que me vi forçado a
jovem lama levou-nos até a biblioteca. Todos os mosteiros do prostrar-me diante dele... ato que até ali eu não tivera no Tibete,
Tibete possuem uma antiga biblioteca em sânscrito. Por vezes pois entre os monges e lamas com quem tivera contato não havia
encontram-se livros trazidos há mais de mil anos por monges

126
encontrado nenhum merecedor da veneração que dedico apenas fisicamente ali, mas creio na sua presença espiritual. As vibrações
ao meu mestre pessoal. O Lama Chefe tomou conhecimento do
são únicas e circundam a montanha com um campo invisível de
preito que lhe era rendido, mexendo-se pela primeira vez e
arrebatadora divindade, da mesma forma pela qual um ímã é
esticando o braço para tocar-me na cabeça fletida. A seguir
rodeado por um invisível campo magnético. E , justamente por-
' apanhou uma bandeja de prata ricamente entalhada que estava
que a atmosfera induz à meditação, é que a julgo superior a
ao seu lado e deu-me um punhado de tâmaras secas. . . gesto que
todas as demais atmosferas que conheço. Por isso vou agora
na índia tem o mesmo significado sagrado. Saí, sentindo-me
passar um ano num dos mosteiros budistas da região.
enormemente engrandecido, pois aquele era, dentre todos os
lamas que eu conhecera no Tibete, o mais forte do ponto de vista "Fiz a tradicional caminhada de cinquenta quilómetros em
espiritual, o mais semelhante a Buda. torno de Kailas e de oitenta quilómetros em torno de Manas-
rowar, deslocando-me lentamente e mantendo a mente atenta a
"Afinal, depois de prolongados sofrimentos em razão do
assuntos sagrados. Minha peregrinação chegava ao fim. Não
frio e das aventuras vividas num país estranho, debilitados,
o importunarei com os detalhes da minha volta a Cachemira.
famintos e entorpecidos, chegamos ao Lago Manasrowar. Meus
Voltei são e salvo, e, sete anos mais tarde, repeti a visita ao
sapatos se haviam desgastado nas estradas pedregosas e eu tive
Monte Kailas, usando, porém, o caminho mais curto que parte
de andar descalço sobre trilhas cobertas de neve. Meus antigos de Almora e o qual tenciono usar uma vez mais."
anseios de ver de perto o sagrado lago emoldurado por montanhas
O relato do iogue estava terminado.
foram por fim satisfeitos. E r a quase noite quando chegamos e
nos acomodamos numa diminuta gompa ou ermida monástica Voltamos para casa no silêncio da floresta, caminhando a
situada num outeiro gigantesco. À s dez horas da noite abri a passos lentos e firmes.
janela próxima do meu leito e olhei para fora. Tive sorte, porque
uma Lua cheia iluminava todo o lago. Soprava um vento frio e
a superfície das águas azuis partia-se em volumosas ondas. O
luar brilhava nas ondas, mas o meio do lago estava calmo, refle- i
tindo tanto as estrelas quanto a L u a . Cisnes brancos de bico Durante os poucos dias da sua visita, o iogue fornece-me
vermelho deslizavam na superfície. A água batia na praia branca variadas visões do modo de viver dos tibetanos. E m Ladakh
e sem árvores produzindo sons melodiosos a intervalos regu- ele tinha encontrado a mesma supestição que Sir Francis Young-
lares. Surgiu então um conglomerado de nuvens pesadas e husband enfrentara quando da expedição militar a Lhasa. O
negras, deitando sombras sobre o Lago Manasrowar. E r a tal a povo de Ladakh contou-lhe que o país tinha sido anexado a Cache-
vibração espiritual na atmosfera que o meu coração saltava de mira depois que o Marajá havia enviado o General Zoravah
júbilo. O cérebro inconscientemente repelia quaisquer outros Singh para invadir o Tibete em 1848. Asseveraram-lhe que o
pensamentos e de forma lenta e segura v o l t a v a - s é numa dadn líder das tropas de Cachemira possuía poderes sobrenaturais, de
direção. Minha consciência mergulhou num místico lago de bem- modo que balas de chumbo comuns n ã o conseguiam penetrar em
-aventurança. Minha felicidade era indescritível. seu corpo. Suas forças cruzaram o Tibete Ocidental, num ponto
"O último estágio da minha viagem trouxe-me ao Monte não muito distante do Lago Manasrowar. O imperador chinês
Kailas, famoso em toda a Ásia. Minha primeira v i s ã o foi a de enviou um grande exército para ajudar os tibetanos e a v i t ó r i a ,
em razão da grande diferença numérica jpntre os contendores, foi
uma abóboda branca postada entre dois outros cabeços que quase
completa; mas a única forma de matar Zoravah Singh foi dar-lhe
lhe tocavam os flancos. O gelo que recobria o monte reluzia
um tiro com uma bala de ouro ao invés de chumbo! E m seguida,
como prata polida. Por essa razão os hindus usam a expressão
o general inimigo foi cortado em pedaços.
Montanha de Prata com referência a Kailas. Nossos Puranas
(livros sagrados) dizem que o deus Shiva vive em postura de Possivelmente por causa da sua presença imponente e da
meditação em seu cimo branco, ao passo que os tibetanos acre- sua total sinceridade e espiritualidade, os tibetanos devotam
ditam que Buda mora ali. Decerto n ã o acredito que ele mora grande respeito a Pranavananda. Têm-se na conta de melhor

128
iogue hindu que jamais visitou seu país e, por isso, concede- procura da verdade. Viajou para o norte e para o oeste em
ram-lhe o privilégio de lá viver. Dentro de um mês ou dois procura de um professor. Alguns anos mais tarde, ao encontrar
ele será o único iogue hindu a viver num mosteiro budista, seu mestre, este último disse-lhe simplesmente: — A meta espi-
exceção feita ao seu amigo Rahula, que a intervalos reside em ritual já está em tuas mãos.
Lhasa. Rahula, no entanto, é um monge budista nascido na "Ele percebeu o quanto era avançado espiritualmente o
província indiana de Bihar e educado nas escolas-templos de jovem. E isso foi comprovado, pois logo após, o meu reverendo
Ceilão; não é um iogue hindu. Mestre entrou no estado mais elevado de transe espiritual, do
Conheci o monge Rahula há alguns anos. Achei curioso qual emergiu um novo homem.
ter ele um semblante tibetano embora toda a sua ascendência
"No entanto, meu professor queria tornar a sua realização
seja hindu. Vestido e encapuzado, é absolutamente impossível
perfeita, firme e sem solução de continuidade, de modo que,
distingui-lo de um lama. Ele exibiu-me uma grande e valiosa para esse fim, veio para o Estado de Tehri e foi viver solitário
coleção de antigas pinturas sobre seda, de formato retangular, em Gangotri, em 1923. Lá estando teve uma experiência que
que haviam sido retiradas das paredes de diversos mosteiros e serviu para provar a força da sua conquista espiritual. Viu-se um
presenteadas a ele por vários Lamas Chefes. Os tibetanos o dia frente a frente com um enorme tigre, o qual não fez nenhuma
estimam e têm-lhe confiança e ele desfruta do privilégio de poder tentativa de atacá-lo, mas aquietou-se nas patas traseiras e que-
residir no principal mosteiro de Lhasa sempre que tem vontade. dou-se a observá-lo durante algum tempo, antes de embrenhar-se
Ele trouxe, triunfante, de uma.de suas viagens uma vasta biblio- na mata e desaparecer.
teca constituída de raros volumes em sânscrito que haviam desa-
parecido por completo da índia há cerca de mil anos, destruídos "Meu Mestre permaneceu nas vizinhanças durante todo um
por invasores antibudistas ou brâmanes fanáticos. A partir das inverno, quando nenhuma outra alma teria ousado fazê-lo por
traduções tibetanas tencionava preparar exemplares dos originais causa da neve, de três metros de altura, que sepultava toda a
desaparecidos. Não lhe foram necessárias senão vinte mulas para região. Durante toda a estação hibernal não era possível obter
transportar seus presentes de volta para a índia. ali qualquer espécie de comida, mas as autoridades de Tehri
conseguiram que os funcionários governamentais mais próximos
O budismo quase desapareceu do seu país de origem e enviassem suprimentos de quando em quando. Mas o que é de
Rahula desejava salvar a chama vacilante da extinção total. pasmar é que Swami Jnanananda insistiu em permanecer quase
Certa tarde, enquanto estávamos sentados nas proximidades inteiramente nu durante toda a sua estada, não usando senão uma
da margem de um pequeno regato, o Iogue Pranavananda come- sumária tanga. Jnanananda vivia numa caverna aberta, sem porta
çou a falar acerca do seu professor, o Swami Jnanananda: e sem lareira. Quando lhe perguntavam como podia suportar
nu tanto frio, ele dizia: — Diante da minha gruta em Gangotri
— Meu Mestre pertence a uma rica família que mora em
eu costumava sentar-me numa pedra para meditar e entrar em
Andhra, na zona nordeste de Madras. Com cerca de dezessete
Samadhi. Habituei-me às inclemências do tempo sem maiores
anos de idade ele teve um sonho no qual apareceu-lhe uma dificuldades. Um dia senti necessidade de atirar fora todas as
Grande Alma e pediu-lhe que deixasse o lar, mas tal pedido minhas roupas, sem qualquer razão aparente. Senti que alguma
gerou um conflito íntimo no seu ser e ele não obedeceu de pronto. força interior me instava. Essa força e o nome do Senhor torna-
A Grande Alma apareceu-lhe novamente num segundo sonho, ram-me totalmente indiferente ao frio, que eu não sentia. —
repetindo o pedido, mas desta vez o conflito íntimo tornou-se Imagine-o vivendo naquela região desolada e bravia, cercado
mais agudo do que nunca, sem que ele pudesse definir-se entre apenas de neve e gelo, com grandes avalanchas desabando, de
o seu desejo de obedecer e a sua esposa. Uma vez mais ele tempos em tempos, das encostas e ameaçando soterrá-lo. Sua
vacilou, faltando-lhe coragem para romper os laços de família. única companhia era o silencioso Himalaia, os animais selvagcÉÉ
No entanto, A Grande Alma veio ter com ele uma terceira vez, que por vezes se arriscavam a passar por ali e uns poucos habi
tocou-o num sonho, e deu-lhe então forças para obedecer. Assim tantes das montanhas. Hoje, se perguntarmos ao homem que
sendo, ele deixou o lar e, renunciando ao mundo, desapareceu em

/ W
costumava trazer comida ao Swami, descobriremos o quanto ele
< aprendeu a amar essa grande alma, pois seus olhos se iluminam com as vibrações mais elevadas que agora dominam o ambiente.
ao falar nela e seu coração se enche de júbilo. . O mestre fala-me, sem se valer do uso de palavras, sem discursar,
e eu me torno sensível e receptivo tanto quanto posso. O mundo
De repente, Pranavananda pára de falar. Seus olhos quase exterior talvez não veja senão dois homens calados, um com os
se fecham. Sua respiração torna-se agitada e estertorante. Ima- olhos semicerrados, outro com os olhos bem arregalados. Mas
gino que vai ter um ataque. Mas não, logo ele se acalma e eu vejo uma presença sublime, cuja visita ergue-me provisoria-
começa, através de estágios tranquilos, a entrar em transe. Seu mente acima do meu pequenino ego.
corpo mantém-se sereno e imóvel, a não ser pelo ligeiro movi-
Finalmente, meu companheiro retorna lentamente à sua
mento de erguer e baixar os ombros que acompanha a respiração.
condição normal, vira a cabeça e depois toca os olhos com o
Então dou-me conta de que uma modificação vital se operou lenço. Continuamos sentados, não mais frente a frente, porém
na atmosfera. A misteriosa quietude que anuncia a chegada de ambos imersos no mais absoluto mutismo. Mais tarde, quando
um estado mais elevado de consciência ou de um ser superior • nos levantamos e caminhamos juntos pelo vale, falamos acerca
invade o ar. Percebo de pronto que algo importante aconteceu, de outros assuntos e não tocamos naquele. A experiência
de modo que faço uma meia volta a fim de olhar de frente o vivida não constitui um tema fácil para conversação e deixamos
iogue, sento-me no chão, tranco as pernas em postura de medi- que ela passasse sem ser mencionada.
tação e tento ajustar-me mentalmente àquilo que estava por vir. De volta ao bangalô, pondero no breve esboço de vida do
Perante o olho interior, a imaginação, a epífise — o nome seu mestre que o meu amigo traçou para mim. Imagino-o em
pouco me importa — fulgura um rosto de homem, barbado, Gangotri, sentado-se para meditar, com talvez uma pele de corça
usando óculos e com um nariz largo. Um sorriso amigo lhe baila estendida sobre um banco de gelo; a neve caindo por toda parte,
nos lábios. Recebo um olhar penetrante e, logo depois, uma quase soterrando-o; e os ventos cortantes uivando em torno.
mensagem. Como terá podido ele resistir à tremenda dureza da vida num
Compreendo. ermo tão entorpecente? Como pôde suportar todo um inverno
himalaio nas alturas de Gangotri, três mil e quinhentos metros
É o Swami Jnanananda. Usando dos poderes misteriosos no nível do templo, ultrapassada apenas pelo pico nevado que
que têm os homens da sua classe, ele projetou sua mente, sua tem uma altitude de sete mil metros? Como sobreviveu a tudo,
alma, seu corpo sutil — uma vez mais o nome pouco me importa nu e sem lareira, e emergiu são e salvo da sua odisseia? O 1

— sobre seu discípulo e eclipsou-o. No momento, os dois são corpo obedece a determinadas leis naturais e qualquer outro
espiritualmente unos, seus corações se mesclam. Este processo homem que tentasse viver nu em condições semelhantes pereceria
de autotransferência poderá surpreender o mundo, mas significa, inevitavelmente. No entanto, Jnanananda parece haver interrom-
em menor escala, a mesma coisa que Jesus quis dizer ao procla- pido o funcionamento de tais leis por um simples ato de sua
mar: — E u e meu Pai somos um só. — Este é o verdadeiro vontade. u
.. .
n . - •. ^ j L . ,
; : u U :

significado da condição de discípulo, seu segredo mais íntimo. Qual é a explicação?


Não é à toa que as tradições iogues da í n d i a declaram que Encontro alguma indicação a respeito, parte em dois antigos
render-se ao Mestre é uma condição essencial, mas os tolos sem- volumes hindus e parte nas declarações de um asceta tibetano
pre puseram esta verdade no plano material e não conseguiram que conheci em Buda-Gaya há alguns anos.
compreendê-la. Tudo aquilo que um verdadeiro Mestre exige Um dos volumes é o Hatha Yoga Pradipika, um texto sâns
do seu discípulo é uma íntima identificação consigo e não a crito para uso daqueles que estão praticando o Controle do Corpo.
entrega de bens materiais. Esta última é a marca registrada da
charlatanice. A primeira é o atalho que elimina todas as longas I O médico oficial do Estado de Tehri, Dr. D. N . Nautyal, examinou
e laboriosas disciplinas impostas por caminhos diferentes. Swami Jnanananda depois da sua volta e constatou que o seu pulso bate
agora num ritmo de 30 pulsações inferior ao normal segundo me declarou
Durante meia hora nos mantivemos em completo silêncio,
um funcionário do governo.
o discípulo eclipsado e eu. Procuro colocar-me em harmonia

132
Descreve-se ali um rigoroso e difícil sistema de autodisciplina,
envolvendo grandes esforços da vontade e prometendo por fim mais. No entanto digo-lhe sentir que, enquanto ele estiver
aos seguidores a capacidade de resistir a quaisquer mudanças de vivendo na extraordinária atmosfera espiritual do Monte Kailas
temperatura. O outro livro é o famoso Bhagavad Gita um y
e do Lago Manasrowar, aquele elo interior que existe entre nós
manual de Ioga e filosofia, que aconselha o praticante a recolher me será proveitoso e que alguma recordação da atmosfera, ocasio-
sua mente tão profundamente na direção do seu centro espiritual nalmente, será enviada através da linha telegráfica invisível
a ponto de esquecer as sensações físicas. "Coloque-se além dos daquele elo.
opostos calor e frio são as palavras ali impressas.
,,
)
Ele meneia a cabeça.
Dos tibetanos aprendi que entre os avançados ascetas do — Sim, e eu lhe mandarei, por intermédio de um comer-
reino dos lamas existem numerosos que se especializam em gerar, ciante, alguns pedregulhos catados nas cercanias do Monte Kailas.
por meio de determinados exercícios físicos e práticas mentais, Serão mais do que uma recordação; pisando neles, estará pisando
um calor interno, uma sutil força ígnea a que chamam tomo. no solo do Monte Kailas e desafiando com isso a proibição do
Nesses exercícios a respiração profunda se combina com esforços governo!
da vontade e da imaginação. Primeiro, canta-se uma invocação
secreta a fim de receber o poder mágico requerido, a seguir o
poder de visualização é conseguido e uma imagem subjetiva do
fogo é produzida. Depois as chamas são avivadas, com o acompa-
nhamento de respirações profundas, a partir da sua origem imagi-
nária junto do órgão sexual e enviadas à cabeça. A teoria desses
ascetas é que o fogo imaginário aquece o fluido sexual, o qual é
a seguir distribuído pelas artérias e nervos através do corpo, por
meio de outros exercícios. Por fim, o asceta entra num transe
durante o qual permanece durante algum tempo com a mente
focalizada na miragem do fogo por ele criada. Meu informante
tibetano pretende que esta prática afugenta por completo qual-
quer sensação de frio do corpo e permite ao homem sentir uma
agradável quentura, mesmo estando ele enfiado no mais rigo-
roso inverno. Na verdade, acrescentou, alguns ascetas sentam-se
propositalmente em água gelada quando entregues à prática deste
exercício, --
O relógio não pode parar seu tique-taque e as folhas do
calendário têm de ser viradas. O Iogue Pranavananda aperta um
pouco mais seu burel alaranjado ao corpo, a fim de preparar-se
para a longa jornada que terá pela frente. Seu vulto embuçado
terá de atravessar o Passo Lipu Lekh, de seis mil metros de
altura, antes que a neve o torne inteiramente intransitável, se é
que deseja penetrar no altaneiro planalto tibetano ainda este
ano. Nossas deliciosas conversas acerca de viagens têm que chegar
ao fim. Nossos lapsos silenciosos no sentido do Silêncio maior
têm que cessar.
Não mais lhe verei o rosto confiante e destemido nem lhe
ouvirei a voz possante e veemente pelo espaço de um ano, talvez

134
exibindo as tragédias, paixões e comédias da existência humana
sobre telas brancas. Plateia alguma se reúne no templo de adora-
ção do século vinte para reverenciar as louras heroínas de Hol-
lywood e seus românticos e intrépidos galãs; e nenhum pastor
montanhês despende seu dinheirinho ganho com muito sacrifício
para ouvir essa fantástica mágica do Oeste, o cinema falado.
CAPÍTULO XI Mas um amigo que faz a parte editorial de um certo jornal
fica com pena da minha solidão e me envia um sortimento de
seus jornais pelo correio. Embora um tanto anacrónicos com
Filosofia e Divertimento - Reflexões Acerca do Sr. relação às notícias, em razão das exigências de um serviço postal
Charles Chaplin — Sua Arte Silenciosa e seu Génio - obrigado a subir e descer as estreitas trilhas montesas do Hima-
- A Necessidade de Modernizar a Ioga — A Inviabi- laia, estes lembretes da existência de um mundo externo são
sempre benvindos. É a um desses jornais que devo o retrato
lidade do Asceticismo — Algumas Verdades Acerca de sem moldura da figura única, inimitável, ingenuamente encanta-
Sexo e Ioga dora e sempre patética de Charlie.
E verdade que o pedaço de papel está rodeado de retratos
mais sérios, mas isso não é desculpa para a sua existência. À
SE U M DOS M E U S amigos mais sisudos surgisse durante o direita há uma fotografia de revista de uma maravilhosa cena
período desta minha reclusão no Himalaia e entrasse no meu de nuvens no céu, ao passo que à esquerda fica uma fotografia
quarto, ele talvez fizesse mais do que erguer o sobrolho, surpreen- real do nevado Monte Kailas, a qual me foi dada pelo Iogue
dido, diante de um certo objeto dependurado à parede caiada, Pranavananda, quando nossa projetada peregrinação foi frustrada.
logo acima da lareira. Ele talvez o considerasse como um sinal Mas o Sr. Charles Chaplin, incongruentemente, ocupa o centro
externo e visível, não de graça, absolutamente! mas da inevi- do cenário, revelando destarte ao mundo a minha falta de gosto
tável degenerescência que se estabelece quando as pessoas vivem Se o meu orgulhoso visitante tivesse de fazer um comentário
longe do saudável contato ativo com a sociedade. Talvez insi- mais audível do que um nariz torcido com relação ao meu gosto
nuasse mesmo que estou-me tornando prematuramente caduco. e perguntar por que eu havia pendurado aquela coisa à parede
E talvez voltasse a cabeça orgulhosa, torcendo o nariz de da minha sala de estar, eu seria obrigado a procurar uma resposta.
desprezo. Não sei se ele se daria por satisfeito com a minha explicação,
mas com certeza me assistem fortes razões para agir como agi.
O objeto capaz de provocar uma tal conduta é, pejo-me de Por que devoto tanta adoração a esse pequenino inglês de
confessá-lo, um retrato de um certo comediante do cinema, um chapéu coco e calças folgadas, como qualquer fã de cinema desti-
tal Charles Chaplin, apenas isso. O retrato não é uma fotografia tuído de pretensões filosóficas? Minha primeira resposta seria
artística de corpo inteiro, pintado a óleo e colocada numa rica extremamente simples. O Sr. Charles Chaplin me faz rir. Esta
moldura dourada. Não, trata-se apenas de uma impressão sua atividade primordial colocou-o em meu coração há vinte anos
comum, um desenho impresso com tinta barata e num papel ordi- quando ele conquistou o mundo. Não me arrependo de havê-lo
nário. Trata-se, na verdade, confesso-o mais uma vez contra a guardado no coração durante todo esse tempo. Ele vive ali muito
vontade, de um mero pedaço de papel arrancado há poucos confortavelmente, embora a figura barbada da filosofia ocupe o
dias de um anúncio de cinema. espaço adjacente. Graças a Deus, tenho espaço de sobra para os
dois. Jamais permiti que qualquer das minhas excursões aos
Não que haja cinemas nas encostas escarpadas destes * j m e
tópicos mais graves da vida expulsasse o grisalho palhaço do
domínios himalaios (oxalá houvesse!). E m todo o Estado fl quarto de hóspedes que ocupa. Durante todas as minhas andanças
Tehri-Garhwal, bem como nos minúsculos países e u r o P e i ! L o s
Lichtenstein e San Marino, não existem filmes cinetnatogranc

136
pelos místicos sítios celestes ainda não encontrei nenhum cartaz
de todas essas coisas. Apenas seu método é diferente. Ele
proibindo o riso.
simplesmente acalma o pensamento, pois sabe que uma coisa não
Afinal de contas, é melhor gracejar e brincar com esta vida pode feri-lo enquanto não permitir que ela se imiscua nos seus
efémera do que imitar o agente funerário. A vida sem um toque pensamentos.
de humor é a mesma coisa que sopa sem sal. . . não tem sabor.
Precisamos rir para que a vida se torne tolerável. — Se a Natu- Em qualquer hipótese, eu não daria ao meu orgulhoso visi-
tante outras razões que não essas três. Se eu, assim como milhões
reza não nos tivesse feito um tanto frívolos, seríamos extrema-
de outras pessoas, tenho por Chaplin uma verdadeira afeição, não
mente desditosos — disse um espirituoso francês, e acrescentou:
há por que envergonhar-me de pendurar o seu retrato na parede
É porque podemos ser frívolos que a maioria não se suicida! da minha sala.
— Voltaire não exagerava indevidamente. A vida torna-se mais
Sua popularidade é algo fenomenal. Seu nome encerra o
tolerável quando rimos dela.
interesse internacional de um grande político. Sei que milhões
Minha segunda resposta seria que Chaplin desperta a minha de pessoas aguardam seus filmes com ansiedade, assim como eu
simpatia. Quando aquela tímida e nervosa figura bamboleia pela (infelizmente minhas andanças fizeram-me perder alguns).
estrada, sofrendo aparentemente de um eterno complexo de infe- Quando ele visitou Paris, os franceses ficaram loucos por ele,
rioridade, sinto pena dela. Vejo milhões de outros homens enquanto um ministro de estado, em cerimonia pública, colocou-
tímidos representados por aquela pessoa, homens a quem o nasci- -lhe no peito uma condecoração oficial! Nas maiores cidades da
mento não dotou para a dura luta desta nossa competitiva exis- Ásia ele é tão famoso e querido como nas cidades industriais
tência e que, consequentemente, arrastam-se pela vida de forma dos Estados Unidos. Os russos têm por ele o mesmo entusiasmo
tão patética como Chaplin se arrasta em seus filmes. Sinto pena que professam por seus líderes comunistas. Pois ele fala uma
de todos eles. Sua impotência, suas desventuras, sua perple- linguagem universal, a qual os homens de pele branca, vermelha,
xidade diante das crueldades sociais, encontram um foco no perso- amarela ou preta compreendem com a mesma facilidade — a
nagem cinematográfico deste homem de olhar espantado. Nós linguagem do humor e do patético.
nos encontramos nos nossos heróis de cinema, dizem, e eu talvez Seu pequenino bigode à escovinha, sua cómica bengala, seus
reencontre nele o mesmo sentimento de inferioridade com o qual sapatos grandes e disformes e suas roupas engraçadas são mundial-
tive que me haver antes de perceber que não vale a pena tomar o mente famosos. Sua arte é impagável. Aquelas posturas inimi-
mundo a sério. táveis, aqueles gestos de melancólica resignação, aquela figura
Em terceiro lugar, eu poderia salientar que Chaplin e eu desamparada, maltratada, de vagabundo, aquele tipo ingénuo e
possuímos muita coisa em comum. Nossas profissões, por exem- infantil — tudo isso nos é muito caro. O seu andar espanto-
plo! Ele é comediante, tenta mostrar às pessoas uma forma de samente desajeitado vem do reino da inspiração. Chaplin apren-
escape às realidades mundanas. Sua forma pessoal de fazê-lo é deu com um velho condutor de cavalo, inglês, cujos pés doentes
através do riso. E u , filósofo não académico e superficial que sou, o obrigavam a usar sapatos de tamanho exagerado e andar pelas
tento mostrar às pessoas uma forma de escape às realidades mun- "ruas com passos ridículos.
danas, também. Minha forma pessoal é através da quietude A grave dignidade de Chaplin mistura-se com uma infanti-
mental! - lidade jocosa. A alegria, o riso, a palhaçada decorrem das situa-
O humor é uma qualidade misteriosa que os deuses deram ções simples que ele inventa, as quais estão muito distantes das
à humanidade como um soporífero substituto para a divina exal- antigas e rançosas fórmulas de portas que desabam de forma
tação que ela perdeu. O humor fornece uma excelente forma inesperada e pudins cremosos que são atirados ao rosto das
para o homem libertar-se do efeito dos infortúnios, dos ambientes pessoas. Esse vagabundo de calças brilhantes e sem vinco e no
insípidos, das realidades e pessoas desagradáveis, mas, acima de entanto cheio de auto-respeito, amiúde se mostra solene, mas
tudo, do ego pessoal. O homem capaz de rir de si mesmo já jamais se torna enfadonho. A parte artesanal, a construção* a
adquiriu alguma dose de impessoalidade. O filósofo espiritual produção, a direção, o detalhe de seus filmes são perfeitos
objetiva precisamente o mesmo. Também ele busca libertar-se Pode-se perceber aqui que Chaplin é mais exigente com relação
ao seu trabalho do que os próprios críticos. Ele não é apenas interior de Chaplin, não é menos verdade que as pessoas bem
um artista, mas um homem torturado pela busca da perfeição sabem que a primeira alternativa não passa de uma nota falsa
que atormenta todos os verdadeiros génios. escrita por ficcionistas. O pequeno vulto metido em engraçadas
O mudo espetáculo da pantomina é mais expressivo em calças, que acolhe todos os infortúnios com um desdenhoso
suas mãos do que todas as explosões verbais dos demais atores. sacudir de ombros, ajuda a todos no caminho de um fatalismo
Afinal, os homens primitivos compreenderam-se através de sinais despreocupado, tão requintado como as mãos do ator.
e gestos durante muito tempo, antes de aprenderem a falar através Assim sendo, toda sala de exibição pode cumprir sua missão
de sons e palavras. A representação muda está por isso entre como um local onde se pode passar alegremente algumas horas,
as mais antigas formas de arte. Os lábios imóveis de Chaplin livre das opressões da preocupação e dos fardos do pensamento,
são mais eloquentes do que qualquer discurso e se ele um dia distante das dúvidas e das dificuldades que se grudam como
começar a falar na tela, temo os resultados. Seu espetáculo mudo mariscos indesejáveis ao casco da existência moderna.
é muito melhor do que poderiam ser suas palavras. Esperemos
que essa frágil figura, metida num fraque apertado e ridículo,
jamais rompa seu silêncio, que é mais atraente do que todas as
travessuras dos outros, embora eu tema que o cinema falado
seja demasiado irresistível e acabe por engolfá-la também. Certa vez me hospedei numa casa de campo da Europa
continental onde, pouco antes, o próprio Chaplin havia estado.
Que o céu o ajude a conservar seu silêncio, pois, financeira- Sua fotografia autografada estava sobre o piano da sala. Depois
mente, será a melhor saída possível. Os asiáticos e africanos, que tentei manifestar meu tributo ao seu génio, minha anfitriã
que agora compreendem sua pantomina, não entenderão suas reconheceu-lhe o talento mas retorquiu com a acusação, — Mas
palavras, desde que ele comece a falar: isso trará descontenta- ele é comunista!
mento e com este virá o princípio da queda do herói. Seu lema, Parece que sua conversação revelava profundo interesse por
do ponto de vista artístico, deverá sempre conservar-se aquele: assuntos económicos, bem como pela imensa revolução que foi
"Falar é prata, calar é ouro." gerada nas vizinhanças do Kremlin de Moscou. Na verdade, não
creio que ela estivesse cem por cento certa, pois os seus temores
É estranho e simbólico que o ano do seu nascimento tenha
pessoais aos bolcheviques, que ameaçavam o seu país, faziam com
testemunhado também o nascimento do cinetoscópio de Edson,
que ela visse o mais vivo dos vermelhos onde havia apenas um
que foi o precursor da moderna máquina de filmagem.
leve rosado. Chaplin é demasiado individualista e demasiado
A subida de Chaplin à fama fci quase tão miraculosa como artista para cair presa das doutrinas do Estado Socialista. As
os seus desempenhos. Uma simples virada da misteriosa roda provas do seu individualismo, sua força e sua singularidade são
da fortuna colocou-o, um tanto ruborizado e deslumbrado, diante mostradas pelo fato de que todo o mundo da cinematografia se
dc dois continentes, no espaço de alguns meses apenas. Ele curvou ante a supremacia dos filmes falados e ele mantém-se
transformou-se de filho de um obscuro ator no maior cómico sozinho, fazendo com que a bandeira do cinema silencioso conti
deste planeta. As lições por ele aprendidas durante os dias da nue a tremular.
mais sórdida pobreza revelam-se em pequenos incidentes das Porém, quaisquer que sejam suas opiniões políticas ou econó-
histórias da tela que o fazem amado das classes proletárias de micas, seus modos simples e despretensiosos, sua índole sensível
todas as partes do mundo e que enchem de júbilo todos os cora- e modesta, demonstrada na vida privada, dizem-nos com muita
ções e de lágrimas todos os olhos. Os homens enfrentam com clareza que ele não foi corrompido pelo sucesso vertiginoso de
um pouco mais de felicidade as atribulações da vida, tendo assis- Hollvwood, como tantos outros atores.
tido aos seus filmes. E , se é verdade que esses filmes nem sempre
terminam com o tradicional happy ending, mas, preferentemente,
com um desfecho filosoficamente budista, mostrando que o
mundo é feito de dor, revelando destarte o profundo pessimismo
Ifl
140
Infelizmente a vida sem amor é incompleta! O homem e
Ele deveria estar aqui comigo nas alturas, no poderoso
a mulher necessitam um do outro. Não fomos feitos para pisar
Himalaia! Como seria agradável nossa estada em meio a uma
a frígida arena do celibato. silenciosa comunhão espiritual! Que momentos maravilhosos
Embora tenha sido infeliz no casamento, a culpa dos insu- teríamos, contemplando o sol transformar os picos em frutos
cessos não cabe a ele nem às suas ex-esposas. Quando duas amarelos no fim do dia! Quantas aventuras não relatadas, não
pessoas decentes, que poderiam muito bern^ dar-se à perfeição fotografadas, procurando e por fim encontrando o verdadeiro eu
com outras pessoas, são jungidas em matrimonio sem compreen- espiritual! Mas minhas reflexões acerca da sua pessoa têm que
der se são ou não adequadas uma à outra, a penosa descoberta ser concluídas. Assim, exatamente como no desfecho dos seus
das diferenças entre elas faz ressaltar, via de regra, o que há filmes, ele sacode pateticamente os ombros, gira a bengala muito
de pior em ambas. Uma vez libertadas, elas voltam a ser decentes. conhecida e sai desajeitadamente na direção da solidão... rari-
Mais do que uma vez ponderei nas razões alegadas pela dade adorável entre a espécie humana!
primeira esposa de Chaplin quando requereu divórcio. Ele era
um homem de temperamento estranho, queixou-se ela, que cami-
nhava sozinho até a praia e lá permanecia durante horas a fio;
era um homem taciturno, frequentemente entregue a profundas
Ocorre-me, pensando melhor acerca deste delicado assunto,
meditações; era um solitário que amiúde fugia à sociedade e se
que se eu convidar o Sr. Chaplin a ser iogue, a primeira coisa
refugiava nas colinas da Califórnia.
que provavelmente irá acontecer é que serei vítima de numerosas
Eles estavam casados mas não acasalados. Os homens casam- interpretações erróneas, tão variadas são as concepções, certas ou
-se apressadamente e as mulheres arrependem-se quando lhes é erradas, que se fazem acerca daquele elástico termo. Não tenho
conveniente. A Sra. Chaplin, pobre criatura, era demasiado a menor ideia de persuadir o triste humorista de Hollywood a
jovem de corpo e alma para compreender que se o génio de atirar fora suas roupas ocidentais e vestir um burel alaranjado,
Charles devia sobreviver, ele seria obrigado a fazer aquelas coisas enrolar a cabeça num turbante e calçar um par de sandálias
estranhas, teria que praticar a autocomunhão solitária. Se o abertas nos pés. Pelo contrário, eu preferiria, possivelmente insis-
divórcio não se tivesse consumado, sua obra teria sofrido e tiria, que ele se apresentasse no topo destas montanhas com as
Chaplin, assim como diversos outros génios, teria sido obrigado mesmas roupas cerimoniais de seus filmes. Seria para mim motivo
a viver das recordações de uma passada grandeza, de uma preté- de grande prazer apresentá-lo ao meu cedro do Himalaia devida-
rita fama. mente ataviado em seu fraque de abas curtas, velho chapéu coco
e enormes sapatos.
Seus repentes e seus taciturnos silêncios eram o preço do
seu génio. Temo que ele seja obrigado a formar seu conceito a respeito
dos iogues a partir dos prolixos Swamis ou professores religiosos
Quando os laços do matrimonio transformam-se num pesado hindus embarcados para os Estados Unidos por conta própria,
grilhão, isto significa, às vezes, que é chegada a hora de fazer as embalados pelos sonhos de conquistar facilmente uma legião de
malas e ir embora; outras vezes, que é chegada a hora de apren- fiéis discípulos. Estranhamente, a maior parte deles deixou-se
der a divina lição da renúncia pessoal. conquistar, pois as tentações da novel e mais livre vida ocidental
O génio entra no matrimónio correndo o risco de desinte- não estão previstas na sua filosofia. Há algumas honrosas exce-
grar-se. ções, claro. Mas os demais constituem uma curiosa multidão.
Quando ouvi um certo mestre de Ioga de Rishikesh, a cidade do^
, .jornas Burke, o romancista, observou certa vez: — Chaplin
homens santos, perto do sopé do Himalaia, voltar-se horrorizado
e o indivíduo mais solitário e triste que jamais conheci.
ante a sugestão de um médico americano, em companhia do qual
Por quê? A razão não é muito difícil de achar. Charles eu o visitava, de que ele deveria aceitar algu ns alunos ocidentais,
Uiaplin e um eremita espiritual inconsciente, um iogue em e denunciá-los com estas palavras: — Os ocidentais irão comer
potencial. '

142
rializar a Ioga, - eu me senti diminuído e injustiçado pois sabia
oue a sinceridade espiritual não era prerrogativa da Índia. Agora, Eu acho que um homem será melhor iogue se usar os lugares
no entanto muitos dos seus compatriotas que se bandearam para bravios e isolados da Natureza apenas como refúgios temporários
n transatlântico Eldorado, juntamente com os seus títulos autocon- e não como moradas permanentes. Use-se a solidão mas não se
feridos de iogue e Swami, mostraram que o Leste nada tem a
abuse dela. O princípio da broca pneumática de mineração, que
aprender com o Oeste em matéria de maldade e, na verdade é enterrada no solo até uma certa distância e a seguir retirada
antecipou-se a ele em muitas coisas. durante algum tempo, para logo adiante mergulhar novamente
no seio da terra até um ponto mais fundo, é um bom princípio
Espero que o Sr. Chaplin não me julgue pelo modo de vestir, também para as pessoas que aspiram à espiritualidade. Que elas
pelas pessoas e pelas doutrinas dessa gente. Não quero que ele se afastem da vida ativa por certos períodos, períodos que pode-
faça dos objetivos dela os seus objetivos, nem que renuncie sua rão durar um dia, um mês e até mesmo alguns anos, mas que
sabedoria ocidental duramente conquistada com o fito de adquirir voltem depois para o mundo do qual desertaram e entrem numa
os ecos distorcidos de antigas verdades que hoje em dia passam existência ativa como fase seguinte do seu ser. E assim deverão
correntemente, até mesmo entre os próprios hindus, como sabe- permanecer até sentirem que o mundo novamente se tornou
doria oriental.' A verdade é uma dama extremamente esquiva. demasiado para elas; aí então deverão procurar de novo o retiro
Ela resiste com igual bravura à corte dos ocidentais e às carícias espiritual. Uma tal vida é equilibrada e obedece ao ritmo pres-
dos orientais. Ela pode ser capturada, porém, mas o seu preço é crito pela própria criação universal.- A vida social expressará
o seu próprio segredo. então a vida espiritual, a interior influenciará a externa e ambas
As concessões mais servis que quase todos os homens santos se adaptarão melhor à mudança. A coordenação entre espírito
e matéria não poderá prejudicar ninguém.
da atualidade foram obrigados a fazer com relação aos regimes
e disciplinas prescritos pelos antigos indicam significativamente Aqueles que vegetam toda uma existência em mosteiros e
as insuficiências daqueles procederes nos dias que correm. Por eremitérios talvez estejam fazendo o que é melhor para eles, caso
que não ir até o fim e adaptar-se por inteiro à era em que se contrário não continuariam a permanecer ali, mas às vezes a coisa
vive? se torna ruim para eles. Em muitos casos sua imaginária evolução
A velha receita para uma moradia era uma caverna, um.i espiritual desapareceria come o pólen soprado pelo vento se
eles se submetessem à prova da vida citadina. Os mais intuitivos
floresta, uma montanha, um rio retirado ou um jangal. Todos
e mais intelectualizados dentre eles fariam melhor se procurassem
excelentes lugares. . . por algum tempo. Tais locais fornecem a
uma liberdade integral, usando o mundo de tempos em tempos
solidão e a tranquilidade ideais para um homem que pensa pra- como um trampolim onde experimentassem sua capacidade de
ticar a meditação. Que ele recorra a eles, desde que as circuns- mergulhar.
tâncias lhe permitam. Mas se ele demorar-se demasiadamente Devíamos apreciar as maravilhosas habitações construídas
nesses sítios, correrá o risco de contrair tuberculose, coisa que pelo homem tanto quanto as lindas regiões que a Natureza sele-
aconteceu a um iogue que conheço, ou reumatismo, conforme cionou do caos primitivo. Não é abandonando falsas ambiências
aconteceu com outro; ou, pior ainda, poderá tornar-se uma que fazemos os nossos maiores progressos, mas abandonando
vítima inconsciente desses males. Pois apenas entre as agitadas falsos pensamentos. O verdadeiro sítio em que principiam todas
multidões citadinas poderá ele por à prova a secreta virtude as nossas dificuldades é a mente.
daquilo que ganhou durante o seu período de solidão. Apenas Seja um apartamento de Park Avenue, em Nova Iorque,
na vida atribulada das grandes aglomerações humanas, com suas ou uma tenda solitária no deserto central da Ásia, estou sempre
inúmeras provações e tentações, poderá ele descobrir se o pre- pronto a adotar qualquer coisa como minha morada provisória,
tenso ouro da sua conquista espiritual é à prova de ácido. A se assim for necessário. Sou capaz de desfrutar de ambos e ainda
Natureza é a mãe de todo homem que aspira à verdade, à paz deixar qualquer deles sem uma queixa sequer, pois sei muito
e a felicidade, sem dúvida; e não se negará a ajudá-lo, mas a bem onde fica o meu verdadeiro lar. Não é aqui. É no E u
criança que quiser permanecer indefinidamente no colo da mãe Superior.
jamais atingirá a maturidade

144
Portanto, Sr. Chaplin, enquanto os velhos eremitas tendiam aderir ao asceticismo completo. Há mais de uma forma de se
para extremos desnecessários é melhor que façamos algo melhor
chegar à divindade, fato que os pregadores do asceticismo rígido
para nós mesmos, preferindo o conforto e a conveniência. Pode-
muitas vezes deixam passar, simplesmente por não saber nada a
mos praticar mais eficientemente a Ioga com as comodidades
respeito.
modernas do que com o antigo desconforto, da mesma forma pela
qual os artistas podem sair-se melhor na pintura e na literatura O que é necessário ao homem é decência e autocontrole; ele
quando bem alimentados e livres de problemas financeiros, ao precisa ter sempre presente que o corpo tem sua própria higiene,
invés de subsistirem à custa de pão e queijo exclusivamente e a qual deve ser observada com vistas à saúde, mas isso não
serem vítimas constantes dos credores. Pois também nós temos implica em conflito e auto-imolação.
que ser artistas na prática da nossa quietude mental. Muitas das regras de asceticismo foram feitas no passado,
quando as condições sociais eram muito diferentes das que hoje
prevalecem. Que adianta exigir que todos obedeçam a injunções
especialmente destinadas a pessoas que há muitos séculos repou-
sam em seus túmulos? As velhas épocas estão sumindo nos
Outro ponto, no meu convite para que o senhor se torne abismos; por mais que façamos, não seremos capazes de fazê-las
um iogue, que será motivo de controvérsia é o sexo. Dir-lhe-ão, voltar.
esses Swamis, que é essencial guardar a mais completa castidade, Elas não dizem tanto respeito ao corpo como ao habitante
renunciar a todas as mulheres, conluiadas inconscientemente que do corpo — a alma. Não chegaremos a elas inquietando-nos com
estão com o demónio. Dir-lhe-ão que não se case, se for solteiro, os nossos órgão físicos, mas dominando aquilo que em última
ou que viva com sua mulher como um irmão, se for casado e instância os controla — a mente.
não puder livrar-se dela com facilidade. Essa é a Ioga que pro- Toda a questão do ascetismo, que tem sido mal interpretada
fessam, o caminho que decidiram seguir. Que o sigam, pois a através dos tempos, só pode ser tratada, finalmente, em bases
coisa evidentemente lhes convêm. Mas não permita que lhe pessoais. E l a depende, mais do que as pessoas se dão conta, em
impinjam esse sistema, com o antigo dogma de que não existe parte das características peculiares a cada indivíduo, e em parte
outra fórmula capaz de levar ao reino dos céus senão a observação do tipo de experiência de vida que ele teve.
da mais estrita castidade. Nem todos dentre nós devemos vio- Há aqueles a quem a Natureza, a Divindade e o destino
lentar a Natureza e a nós mesmos. Não é necessário que todo deram uma vocação para o completo asceticismo e a total renúncia
aspirante à vida espiritual se torne vítima de doutrinas pouco ao mundo. Minhas ideias não se aplicam a eles e seria igual-
arejadas. Não é desejo da divindade que:'todos se torturem, mente errado, pecaminoso e isensato tentar impor-lhes tais ideias,
fazendo esforços mal sucedidos para desviar a atenção de algo como seria se os ascetas tentassem impor-me a mim as suas ideias.
que é, afinal de contas, uma função puramente natural. O sexo Essas pessoas deveriam respeitar profundamente o modo de ser
não é uma coisa em separado, nem má, acrescentada em segunda inato a cada um. Sendo elas fiéis à sua voz interior, conseguirão
instância pelas forças criadoras com a finalidade de nos fazer os melhores resultados. Para elas o mosteiro ou o eremitério,
cair numa armadilha. A ideia é tão atroz quão absurda. O sexo a floresta ou a montanha, tem de ser uma morada permanente;
é uma parte da totalidade orgânica do microcosmo humano e castidade absoluta e celibato inexorável, a carga de uma vida
deve ser encarado com a mesma deferência que só se dá a E os assuntos profanos têm de ser mantidos longe. Respeito,
qualquer outra parte do corpo. ou melhor, reverencio homens assim, quando os encontro e veri-
A obediência a princípios morais ascéticos e disciplinas fico que são sinceros.
monásticas é essencial àqueles que dela precisam, mas nem todos Mas eles são necessariamente uma pequena minoria. O^
estão nesse caso. restantes, que imitam essas grandes almas, fazem-no com muito
Mas até mesmo os que não conseguiram essa condição de risco. Pois as armadilhas da autodecepção e as ciladas da reação
franca comunicação com o E u Superior não estão condenados a estão sempre à espera deles.

146
O velho que eu costumava ver diariamente rolando na poeira
em torno dos quinze quilómetros que circundam o Monte Aruna- lograr as funções físicas normais por meio de métodos heróicos
chala tornou-se para mim um poderoso símbolo. Vi nele o repre- de abstinência voluntária é por vezes insensata e, amiúde, vã.
sentante de ideias e princípios que hoje em dia estão sendo enter- Ao invés de aconselhar os homens a deixar de lado hábitos de
rados pelos agentes funerários. Ele pode ser, e efetivamente o ação existentes, eu os aconselharia a deixar de lado hábitos de
é um idoso cavalheiro extremamente pio e devoto; sua adoração raciocínio existentes. Murados por velhos hábitos de raciocínio
por esse local sagrado é prova disso. Mas tudo quanto ele ganha como estão, é melhor para os homens derrubar esses muros do
poderia ser ganho com menos desconforto e mais simplicidade, que dissipar suas energias em infrutíferas alterações daquilo que
sentando-se tranquilamente em algum ponto da encosta e permi- estão fazendo dentro dos ditos muros. Todas as ações, em última
tindo, receptivamente, que as vibrações espirituais provenientes análise, são produto do pensamento. São o resultado ou da
do monte encontrem acesso à sua mente. Talvez seja um método compreensão da verdade ou dos nossos esforços inconscientes por
silencioso e discreto, mas será, indubitavelmente, mais efetivo, lá chegar. '
menos maçante e mais sábio. E isto me traz a mais uma interpretação errónea da Ioga,
Por razões mais ou menos análogas, as regras para a prática Sr. Chaplin. Dir-lhe-ão, também, que a solidão deve ser pro-
da Ioga não são facilmente obedecidas nos dias que correm. Elas curada porque devemos dedicar todo o nosso tempo à prática
vieram de uma era, milhares de anos recuada no tempo, que da meditação. Aqueles que podem fazer isso, estão fazendo uma
difere em muito da nossa e cuja face e alma são estranhas para coisa excelente. Que façam, pois.
nós. A coisa sensata a fazer é adaptar e readaptar tais regras a Mas a mente não pode ser tão facilmente conquistada. Já
fim de que se prestem aos dias atuais. O velho deve ceder lugar vi um bom número de modernos aspirantes à Ioga, tanto no
ao novo. Se os advogados da Ioga houvessem demonstrado no Ocidente quanto no Oriente, e duvido de que mais do que cinco
passado um espírito mais flexível, sua ciência não se teria trans- por cento fosse capaz de sustentar tal prática através de todo um
formado em anormalidade, na curiosidade que é atualmente, nem dia. Aqueles que tentam, no entanto, inevitavelmente acabam
teria desaparecido de forma quase total da face do mundo, como sofrendo de descontentamento consigo mesmos. Seus esforços
acontece hoje em dia. Esses ascetas flutuam sobre nossas cabeças baldados produzem uma carga natural de conflitos íntimos e a
numa espécie de estratosfera espiritual e parecem não dar ajuda paz objetivada fica mais longe deles. A Natureza, em última
nem esperança a nós outros, mortais mais fracos que somos. instância, os conduz de volta a uma existência mais equilibrada.
O asceticismo não tem atrativos para o homem moderno. Como seriam mais sensatos, como evitariam muita tortura
Minha crença diz que também não é essencial. A vida exterior desnecessária, se tivessem começado com um ritmo saudável, com
e o espírito interior podem e devem ser conciliados. O homem um programa diário que permitisse um determinado espaço de
poderá aprender a praticar um asceticismo íntimo interior que tempo para a meditação e um outro tanto para a vida ativa! A
pouco interferirá com a vida exterior, mas que, com toda certeza, moral é que a meditação é apenas um meio para alcançar um fim
interferirá decisivamente junto ao coração e à mente. Depois, — não, como pensam muitos, uma meta em si mesma. Não
quaisquer que sejam as modificações a serem feitas em sua exis- devemos confundir a estrada com a destinação. Há muito mais
tência ativa, ele as fará livremente, obedecendo a ditames do seu coisas que eu poderia dizer acerca da meditação, acerca dos anti-
íntimo, a uma autoridade interior e não seguindo às cegas a orien- gos métodos através dos quais é praticada e dos métodos moder-
tação de uma disciplina externa. nos que forçosamente irão superar os antigos, mas acho melhor
desistir.
^ Aprendi, se é que cheguei a aprender alguma coisa, que a
renúncia é na verdade uma atitude mental; que o simples gesto Dir-lhe-ão, talvez, que as artes são armadilhas e que o inte
físico da renúncia é vão quando não acompanhado até certo ponto lecto é um alçapão. Pode ser que estejam certos, mas não neces-
pelo correspondente ponto de vista interior; e que, a própria sariamente. Trata-se de coisas perigosas para os homens estreitos,
Natureza não tendo pressa, a tentativa de atingir a perfeição e como eles próprios, mas podemos transformá-las em nossas ami-

148
gas: podemos usar nossos dons culturais e usufruir dos dons
alheios e o mundo será melhor por isso.
A verdade é que não existe virtude final em nenhum lugar
per se, nem qualquer superioridade da vida solitária e inativa
sobre a vida social ativa. Quem se jacta de uma em detrimento
da outra revela com isso quão pouco seus olhos foram abertos
pela Grande Luz do Universo. Mas quando homens, que tomam
sobre os ombros o manto de professor, proclamam ser os velhos CAPÍTULO X I I
caminhos para o céu os únicos e as velhas maneiras de agir legí-
timas para todo o sempre, sou obrigado a refrear o desejo de Uma Incursão Sagrada na Quietude — As Expedições
repudiar sua estreiteza, e ficar aguardando a ocasião propícia em
que a voz interior me concitará a falar. Então revelarei a mes- Alpinistas e seu Significado
quinhez da concepção que formaram acerca da ampla tolerância,
da total caridade, do desdobramento universal do Pai Supremo,
que é a vida e o esteio de todos os seres sem exceção. UMA dias correm em meus domínios monta-
V E Z M A I S OS
nheses como ligeiras borboletas. Não esqueço, não posso esquecer
Há luz divina e confortadora salvação para todos nós, não
o etéreo objetivo que me trouxe até cá. Acima de tudo está essa
importando quem somos nem o que fazemos, sejamos velhos peca-
inexorável necessidade de atingir e reter durante algum tempo
dores ou novos santos, homens trabalhadores ou meros sonha-
um certo grau de quietude espiritual, mental e física.
dores, tecedores de fantasias, ou indivíduos que desdenham da
Ioga, da religião e da filosofia. Um dia a compreensão desta Numa série de lugares deste triste planeta uma série de
verdade animará toda a humanidade adulta. E então os sutis homens corre de cá para lá ou salta para cá e para lá, num
padrões da divindade serão completados neste nosso mundo esforço de desenvolver um corpo mais atlético através do emprego
vacilante. constante de tais atividades.
E u , pelo contrário, estou procurando imobilizar por inteiro
o meu corpo, num esforço por libertar-me de todos os indícios
da sensação física.
Exagerando, poderia dizer que o homem que nada faz entre-
ga-se à forma mais elevada de atividade; que o homem que está
sempre ocupado na realidade não faz nada: que, na verdade, a
missão suprema do homem, para a qual ele foi enviado a este
mundo, é precisamente não fazer nada. Mas, desgraçadamente,
poucos me entenderiam!
Desejamos uma justificação concreta do direito do homem
de existir na forma de trabalho, mas nada mais dentre aquilo que
é grande na Natureza exige a mesma coisa. O Sol não trabalha
e no entanto cumpre a lei da sua existência melhor do que qual-
quer homem. Ele simplesmente se mostra e, de estalo, todas as
mil e uma atividades diferentes do mundo começam a se agitar.
Sejamos como o Sol e aprendamos como a forma mais elevada
da arte de nada fazer trará toda a Natureza a nossos pés, pronta

/ 50 [51
a entregar-se por completo a qualquer espécie de atividade em
nosso benefício. e eu me vi levado para o reino do espaço sideral, aquele contato
significou então um enorme reforço no instinto já existente. A
Numa série de outros lugares uma série de outros homens
mensagem do desejo implacável dos deuses de efetivar a divina
está agitando as moléculas de seus esquentados cérebros em refle-
restauração do homem foi-me entregue e retornei da memorável
xões intelectuais acerca de centenas de assuntos. E u , pelo con-
presença dos Quatro Sagrados com uma fieira de palavras
trário, recolho o gelo simbólico destes picos e o coloco durante
imprensa na mente. O teor dessas palavras por vezes me ame-
algum tempo sobre a minha cabeça, na esperança de congelar dronta, por vezes me exalta. Mas, qualquer que seja o resultado,
toda e qualquer manifestação dos atos reflexivos. E em todos deposito ilimitada confiança na natureza eterna dessas forças
os cinco continentes do globo outros homens estão adulando seu que mantêm o mundo sob controle e, consequentemente, contro-
criador com oferendas, ritos, autopunições, aspirações, encanta- lam também a minha vida. Sabedor do glorioso fim, do glorioso
mentos, orações e cerimonias. E u , numa insurreição final contra embora não cumprido destino da humanidade, posso esperar
todos esses procedimentos antiquados, mantenho o coração tão calmamente. E u também, como ser humano, devo partilhá-lo
tranquilo como um plácido lago e espero a revelação do criador com os outros homens. As derrotas não são senão provisórias.
com a altaneira paciência de quem sabe ser eterno. As misérias que viajam no trem da vida terrena não afetam o
Não há pressa em meus esforços não esforçados. O fracasso E u Superior, que um dia reclamará o que é seu, pois tudo está
é e será sempre destituído de significado para mim. Ajo agora subordinado a ele.
sob o sentimento da natureza cíclica das coisas e sob um senti- Com tal confiança, portanto, um homem poderá sentar no
mento de imortalidade que está no meio da nossa existência alto de uma montanha e deixar que a vida passe. Com tal inspi-
mortal. A roda da vida gira em seu curso, assim como a roda ração do ar da eternidade, poderá ele dar-se ao luxo de deixar
do universo gira através de criações e dissoluções, e meu sucesso, correr o tempo e esperar sem se queixar. A vida está cheia de
inevitavelmente, acontecerá a longo prazo. Não há ser ou inalteráveis e benévolos princípios. Permitam-me aceitá-los,
obstáculo suficientemente forte para impedi-lo. Criatura alguma, portanto.
seja ela humana, sub-humana ou sobre-humana, boa ou má, poderá A Esperança é o arauto da Verdade. Começamos a perceber
impedir que a água da minha vida volte ao nível da sua nascente a vinda da nossa esperada revelação através de uma cega e
divina. Essa volta poderá ser retardada de muitos anos ou de inconsciente vontade de recebê-la.
muitas encarnações, pois não me é dado predizer a hora e o dia
em que a sagrada incursão irá acontecer, mas posso perfeitamente
esperar. Um sentimento de irretorquível eternidade me envolve
como uma nuvem. Vivo, movimento-me e respiro dentro dessa
nuvem. , Mais uma tarde no refúgio recamado de folhas mostra-se
particularmente frutuosa. A presença interior tem estado pacien-
Mas como posso saber que o sucesso é certo? De onde
temente à minha espera. O ar vibra com amor, pois começo a
emana este indiscutível otimismo que tão fundo se enraíza em
banhar-me no belo elemento da Verdade. A mente aquieta-se em
meu coração, e de forma tão enérgica?
seu próprio centro sem grandes dificuldades. A maré de uma
E u próprio só posso responder que mal sei a razão. Ela benfazeja serenidade começa a inundar-me o coração. Uma paz,
existe e eu a aceito. Não disculo o Sol que se aloja no céu. Não divina e deleitável, começa a rolar sobre a minha cabeça, onda
posso discutir esse instinto confiante que se aloja no meu coração. sobre onda. A respiração transforma-se num movimento dos
Sem dúvida, foi ele reforçado no passado, mas se já não mais suaves; tão suave que passa quase desapercebido.
existisse, nenhum contato externo poderia tê-lo tornado tão pode- A procissão da eternidade passa. Todas as pequenas irrita-
| rosamente vivo como agora. Quando, na margem do Tamisa ções e caprichos egoístas, as amarguras fundamente vincadas, os
certa noite, meu espírito foi inesperadamente sacado do seu cinismos rebeldes e as preocupações triviais deixam por algum
envoltório terreno assim como uma espada é sacada da sua bainha, tempo o meu caráter, como folhas mortas caindo de árvores sem

152
seiva, no outono. Como poderiam continuar a existir
atmosfera tão grandiosa e rarificada como esta que a g o r a ^ e agradável paz extática que habita no coração secreto da vida.
envolve com tanta força? Como poderiam estes elementos doT* O homem agarra-se à vida porque percebe que se trata de uma
rosos e fúteis continuar a afligir-me quando um outro ego, E°0
dádiva a ser conservada. Se lhe fosse possível reportar a vida
Superior, ergue-se agora em toda a sua sublimidade e faz de mim física àfc suas fontes originais, ele próprio possuiria uma porção
sua vítima temporária, apanhando-me a mente, o coração e
dessas dádivas. Pois a efémera existência de alguns tantos anos
corpo em seu amplexo, assim como um gato apanha um rato encerra apenas um pálido reflexo da oculta corrente da vida.
entre os dentes brancos? Trata-se de apenas um pequeno arco em todo o círculo da
existência.
Ah, mas a vítima está mais do que disposta! Pois é virtual-
mente impotente. Penetra fundo nela o aroma sutil destas pala-
vras: — Seja feita a vossa vontade, Senhor, não a minha.
Aqui jaz a felicidade primordial. Precisamos amar o Senhor
Absoluto quando nos damos conta da sua presença. Chega uma mensagem de Darjeeling dizendo que Ruttledge
Impotente, porém jubilosa liberdade! Os laços do ego foi afinal obrigado a desistir da expedição ao Monte Everest. O
pico mais conhecido do mundo não se dobrou. A mais alta aspi-
pessoal são atirados de lado por uma mão invisível e com eles
ração do Himalaia sobrepaira o alcance da humanidade. A comi-
vão-se todas as preocupações, toda a ansiedade, todo o interesse
tiva de Ruttledge chegou a poucas centenas de metros do cume
pelos erros passados e pelas incertezas futuras. O E u Superior
mas o tempo agora o venceu. Permanecer mais algum tempo nas
anunciando a sua presença, anuncia também que vem na quali-
proximidades dos ombros desse gigante altaneiro e batido de
dade de libertador. À sua ordem tudo que é mau, mesquinho e tempestades será suicídio certo.
rasteiro se encolhe e desaparece. Ao seu olhar surge um mar
O Everest continua sendo a gema mais procurada nesse
de amor, adoração e humildade.
cinturão maciço que a Natureza colocou em torno da face norte
Como é balsâmica a sensação da sua presença benigna e da índia. ; v
dominadora! Todos os conflitos interiores cessam. O sangue Ruttledge e seus companheiros descerão cobertos de uma
deixa de estar em guerra com o cérebro; a paixão faz as pazes merecida glória. Fizeram tudo quanto podiam, não era possível
com o pensamento. Quando nossas mentes se deixam dominar fazer mais. Afinal de contas, ele dispunha de um período de
inteiramente pela lógica, estamos perdidos. O divino transcende apenas seis semanas em todo o ano para tentar a sua empreitada.
o lógico. O frio é inteiramente insuportável antes de maio e as monções
O Himalaia abriu as janelas douradas do céu para mim e são irresistíveis a partir de meados de junho. Tremendos gra-
preciso bendizer o dia em que entrei no seu tranquilo reino. nizos, que fustigam a face dá montanha como monstros rugidores,
dentro em breve colocarão todos os homens na senda da morte;
Com o silencioso cair da noite, a quietude interior e exterior vastas nevadas, que rapidamente recobrem a encosta, breve irão
torna-se cada vez mais intensa. E m grau mais humilde, percebo enterrar todos os cadáveres. Uma retirada honrosa é a única
agora o sentido espiritual das palavras de Cristo: — Meu Pai e saída sensata diante das dificuldades e agruras, quando as forças
eu somos um só. da Natureza revelam até que ponto podem tornar-se violentas.
Recebe, então, teu filho pródigo, ó E u Superior, recebe-o O crédito por tornar a escalada do Monte Everest uma coisa
como escravo. Como é doce a vida quando se lhe penetra as praticável pertence ao meu respeitado amigo Sir Francis Young-
profundezas ocultas! Nossa maior necessidade não é uma existên- husband. Ele próprio nascido numa região himalaia e descen-
cia mais ampla e difusa, porém mais profunda. Uma tal expe- dente de uma antiga família militar britânica que há gerações vem
riência nos ajuda a compreender por que o homem se agarra tão sendo associada à história da índia, nutre um interesse e amor
desesperadamente à vida, mesmo diante de grandes sofrimentos fenomenais por essas montanhas vestidas de branco Em 1S>
corporais e terríveis torturas espirituais. Aquele mesmo aferro ele cruzou o desconhecido e não explorado Passo Mustagh, do
nao e senão uma débil infiltração em nosso mundo daquela intensa

154
j o centro-asiático, depois de efetuar uma viagem assustador,
ad

„ente solitária e perigosa de cerca de cinco mil quilómetro' ganhou a imensa bacia natural inexplorada que a montanha oculta.
através de toda a extensão da China e dali passando p l e a fogg O Dr. Paulo Bauer por duas vezes tentou escalar o Kanchenjunga,
desolação do deserto de Gobi, onde ele e seu camelo só d ^ p o
mas a oito mil e quinhentos metros, com o cume à vista, não
viajar à noite. Em grande parte dessa vasta paisagem não hav£ conseguiu mais encontrar onde firmar-se naquelas montanhosas
sinal da existência do homem, nenhuma marca da sua atividade paredes de gelo e neve e correu, momentaneamente, o risco de
E foi nas proximidades de Mustagh que ele deparou subitamente ser apanhado por avalanchas iminentes. Foi obrigado a voltar.
com a segunda mais alta montanha do mundo, o célebre K2 O grupo alemão de Merkl tentou o Nanga Parbat há dois anos.
apenas duzentos metros mais baixo do que o Everest. Metade dos homens perdeu suas vidas, tendo o próprio Merkl
A emoção daquela cena única plantou uma semente q morrido de frio numa gruta de gelo a uma altitude de sete mil
u e
e setecentos metros, depois de terrivelmente carbonizado pela
germinou mais de trinta anos depois quando, na qualidade de
ação da neve acumulada.
presidente da Real Sociedade Geográfica, Sir Francis formou 0

Comité do Monte Everest. Também aqui, na região de Tehri-Garhwal do Himalaia


Central, estiveram Palis e seus camaradas em 1933. Eles devem
A primeira tarefa deste organismo foi remover as dificul-
ter passado pelo meu bangalô na floresta a caminho de Gangotri
dades políticas que até então impediam a aproximação do Eve- e, provavelmente, pernoitaram aqui. E m Gangotri esperava-os
rest, pois nepaleses e tibetanos não se mostravam dispostos a um conglomerado de picos, quase todos com cerca de seis mil
permitir que suas fronteiras fossem cruzadas por qualquer expe- metros de altura. Primeiramente escalaram uma montanha de
dição movida por aqueles fins. A t é mesmo Lord Curzon, tão cinco mil e quatrocentos metros, desceram até o grupo do Kedar-
acostumado a impor sua vontade, não conseguiu permissão nath e subiram a um pico de seis mil e seiscentos metros. A
quando era Vice-Rei da í n d i a . O Everest é um pico sagrado seguir atacaram o Satopanth, que tem sete mil metros de altura,
para eles, embora muito menos sagrado que o Monte Kailas. e uma vez mais foram bem sucedidos. Seus corpos exaustos
Nenhum pé ocidental jamais receberá licença para descansar no pediam repouso, de modo que eles voltaram a Harsil, perto de
cume do Monte Kailas enquanto a religião mantiver um resquício Gangotri, por alguns dias. Puseram-se novamente em marcha,
da sua força atual no Tibete. chegaram ao inóspito Vale Nela através de uma geleira e desce-
ram até o Vale Spiti, na fronteira tibetana. Dali partiram para
O Comité, no entanto, foi bem sucedido onde Curzon fra-
a conquista do imponente pico Leo Pargal, de sete mil metros,
cassou. Sua providência seguinte foi organizar os necessários
arrostando brumas, nevascas e vendavais acompanhados de vio-
preparativos. Cinco expedições assaltaram a montanha sob seus
lentas trovoadas.
auspícios, ao longo de alguns anos, e, se todas falharam, trata-se
dos mais gloriosos fracassos da história do alpinismo. Poucas outras alturas do Himalaia foram conquistadas e o
registro dos êxitos alcançados é ainda bastante pobre. Mummery
Mas se o Everest se recusa a submeter-se a pés profanos, subiu ao Nanga Parbat, mas não se sabe até onde chegou, pois
alguns dos outros gigantes menores renderam-se ao esforço nunca mais se teve notícia dele. O Duque de Abruzzi não con-
humano. Frank Smythe, há alguns anos, dirigiu uma audaciosa seguiu escalar o K 2 . Mas a sina do homem é buscar o alto,
expedição até o cume do Kamet, numa altitude de oito mil tanto física quanto espiritualmente, e seu poder inventivo talvez
metros. Os pés dos homens enterravam-se na neve macia e eles encontre meios para desafiar a Natureza e fazer com o asiático
eram obrigados a escalar rochas perigosas e cavar buracos onde Himalaia o mesmo que já fez com os seus primos mais baixos,
S C
?° °' c o r r e g ã o bastaria para mandá-los
g e l 0 m e n o r e s os Alpes Europeus.
ao tundo do abismo. O Tenente Oliver galgou os flancos escar- A aventura de desbravar as piores geleiras do mundo, as
pados do Trisul, atingindo-lhe o cimo, a sete m i l e seiscentos encostas mais íngremes e as mais elevadas altitudes eagp no
rh V
e
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P
1 9
^ licença do exército,
3 3 d u r a n t e u m e r í o d o entanto, excepcionais condições físicas e poder de resistência,
negando a sua meta ofegante e exausto, p o r é m triunfante. Eric coisas que muitos não possuem. A pouca quantidade de oxigénio
J ° com as gargantas medonhas do Nanda Devi e
p t 0 n p e , e u

156
no ar, a essas grandes altitudes, transforma cada respiração num
esforço e cada passo numa dura empreitada. A pressão atmos- de forma alguma. Identicamente, tem o aspirante de amar todas
férica é diferente e os estranhos ainda não aclimatados são ata- essas quatro coisas, se é que pretende receber um dia a dádiva
cados por fortes dores de cabeça. A l i os corações têm de ser sublime que a alma da Natureza reserva para ele.
absolutamente sãos, os pulmões grandes e fortes, os membros E qual é a íntima significação dessas expedições ao Hima-
rijos, caso contrário será mais conveniente que o homem perma- laia? Não será que a aspiração lateja nos corações de todos os
neça onde agora me encontro, a menos de três mil metros de homens dignos como o leit-motif da música? Não será, também,
altura, desde que não queira arriscar-se numa roleta mortal. que a peregrinagem mora em nossa natureza e que contentar-se
O frio penetrante, os ventos cortantes e as constantes com a auto-estagnação é um pecado?
tempestades tornam essas gélidas regiões acima da linha das neves Os cimos rebrilhantes que despontam da face achatada do
um doloroso purgatório. Reduzido a uma impotente irritabili- nosso planeta e fulgem no alto do céu himalaio, por sobre nuvens
dade pela temperatura glacial, entorpecido e morbidamente depri- enormes, devem simbolizar para nós a raça dos homens supe-
mido pela má circulação sanguínea, encontrando dificuldades para riores que serão a vanguarda da evolução. O sonho nietzsche-
respirar e chegando ao ponto de precisar respirar três ou quatro niano do Super-homem com toda certeza será realizado, ainda
vezes entre uma passada e outra, ameaçado pelo perigo sempre que não inteiramente de acordo com o seu modelo tosco e cruel.
Já existem mesmo uns poucos. Eles serão a um só tempo metas
presente de escorregar e encontrar morte certa no fundo de um
e guias. No Sábio iluminado e no poderoso Iniciado há um
abismo, afetado internamente pelas alterações no funcionamento
retrato atual das nossas futuras conquistas.
dos rins, o homem só pode ousar galgar os sobranceiros picos
do Himalaia quando seu estofo é heróico e otimista, para não O florentino Dante colocou seu Paraíso Terrestre no cume
se falar nas qualidades físicas e relativa juventude que são exi- de uma montanha, da mesma forma pela qual os pintores japo-
gidas. neses colocam a morada dos seus deuses nos altos nevados do
encantador pico do Fujiyama, a mais elevada das numerosas
Existe, na verdade, um valor espiritual e um significado grandes altitudes japonesas (e hoje em dia um vulcão extinto),
espiritual nesses reiterados desafios ao Himalaia. Quem quer o Monte Kailas do Japão, visitado por peregrinos de todos os
que voluntariamente se dispõe a explorar-lhe a face, e não recua cantos do país, os quais voltam para as suas respectivas cidades
diante de nenhuma altitude, deve certamente possuir qualidades imbuídos de uma profunda reverência pela sua beleza física e
que também se prestam ao noviciado para uma vida mais divina. significação espiritual.
Tal pessoa está pronta a desfazer-se de suas mais caras proprie- Além e acima de todos nós, alpinistas ou homens de planí-
dades, seu direito de existir, arriscando tudo na alta empreitada. cie, brilha o esplendor argentino do cume branco erigido pelo
Da mesma forma, deve um aspirante à espiritualidade estar pronto Criador para que o escalemos. Ele é eterno e, silenciosamente,
para dirigir-se para onde sua voz interior ordenar, até mesmo nos chamará através dos séculos. Também nós devemos ser
para o martírio e a tortura, como já aconteceu a muitos, e alpinistas do Himalaia. Deveremos ser covardes e permanecer
permitir que a própria vida lhe fuja da carne. Aquela tem de no conforto dos nossos lares? Ou deveremos nos paramentar,
libertar-se de todos os marcos convencionais e principiar a deste- encher o coração de determinação e partir para aquilo que, afinal
mida subida por encostas sem trilhas, demarcando sua própria de contas, é a mais maravilhosa expedição que este mundo nos
trilha ao subir. Identicamente, tem o aspirante à verdade de pode oferecer?
libertar-se de todos os dogmas convencionais da religião e da
filosofia e caminhar com os olhos abertos, decidindo consigo
mesmo cada novo passo que vai fazer, encontrando seu próprio
caminho para o interior do mundo da verdade que existe dentro
dele. Por fim, o alpinista tem de ser amante da solidão, da
simplicidade, da tranquilidade e da beleza cénica da Natureza,
caso contrário essas alturas pouco frequentadas não o atrairiam

1W
da pretendida vítima, sobre a qual, no momento azado, arreme-
teria.
Minha própria posição também é algo inusitada. Estou
cansado e quero voltar para casa o mais breve possível. No
entanto, se avançar, terei de passar sob a árvore em que a pantera
dorme, correndo grande risco de despertá-la. Não estou disposto
CAPÍTULO XIII a voltar e menos ainda a demorar-me onde me encontro. Minha
única arma de defesa é um curto e frágil pedaço de bambu que
apanhei en route. Diante das circunstâncias tem tanta utilidade
Encontro com uma Pantera — O Problema da como um palito de fósforo.
Crueldade da Natureza Não há outra coisa a fazer senão avançar, de modo que
me adianto cautelosamente, quase nas pontas dos pés. Meus
cuidados se mostram inúteis. No silêncio da floresta até mesmo
VAGUEANDO pela floresta esta tarde, e achando-me a não os menores ruídos resultam grandemente ampliados. Está-se
mais de quinze minutos de distância do meu bangalô, algo recor- sempre atento ao roçagar de uma folha que cai. A pantera
desperta no exato momento em que eu estava por passar sob
dou-me uma coisa que facilmente se poderia esquecer entre as
sua folhosa toca.
belezas resplandescentes desta região: o fato de que os animais
selvagens abundam neste reino desolado. Meu olhar sem rumo J á não resta o que fazer senão estacar imediatamente e
descamba para os lados da minha mão direita e uma inusitada aguardar os acontecimentos. A criatura ergue sua cabeça felina,
cintilação de luz solar me faz parar. Meio escondida numa depois o corpo veludoso e belo, e olha inquisidoramente para
árvore folhosa, percebo uma pantera numa extraordinária situa- mim com maldosos olhos verde-amarelados e cheios de fogo.
ção. E l a está deitada ao comprido de uma forquilha entre dois Devolvo-lhe o olhar.
galhos horizontais, a uma distância de cerca de dez metros do Meu pulso dispara muito acima do normal. Não sou um
chão. A cabeça arredondada repousa entre as patas dianteiras e heróico valentão, dotado de um excesso de coragem física e
a pele marchetada está quase inteiramente esticada. robustez hercúlea. A única coisa sobre a qual exerço algum
domínio é uma certa tranquilidade interior. De modo que apelo
A fera dorme a sono solto.
para as minhas reservas dessa subestimada qualidade, que, talvez,
O sol do meio-dia, dardejando seus raios verticais sobre a me propicie o mesmo resultado que a coragem.
Terra, produziu um calor abafante que colocou a criatura numa Percebendo que dei por ela, a expressão da pantera trans-
espécie de letargia e fez com que ela logo passasse à sonolência. forma-se em pura raiva. E l a abre as mandíbulas, irritada, e
Não consigo achar outra explicação para a sua posição excepcio- arreganha os dentes num desafio. Suas orelhas estão colocadas
nalmente exposta. Sua presença no alto da árvore também é para trás, rentes ao crânio. A seguir, com um rugido raivoso
facilmente explicável. De modo geral, as feras saem à noite, lembrando um rouco tossir humano, o corpo musculoso ergue-se
seus olhos tendo-se totnado extremamente aguçados através da em arco, salta de cabeça do seu esconderijo e aterrissa com estré
constante atividade no escuro. Este animal saiu a passeio fora pito sobre a entrelaçada vegetação rasteira. Minha última visão
de horas. De todos os animais da floresta, a pantera é o mais é a de uma cauda longa e recurva e a pantera desaparece na
silencioso; caminhando vagarosa e furtivamente, suas patas não floresta.
fazem qualquer ruído. Com o fito evidente de não afugentar H á outros animais no Estado de Tehri que não amam os
uma presa antes do tempo, ela subiu a esta árvore e se empo- homens nem são amados por eles. O urso preto é muito comum,
leirou entre os galhos, de onde poderia vigiar a área em torno ao passo que o leopardo erra de cá para lá, o javali deixa estragos
com toda atenção e, ao mesmo tempo, manter-se fora do olhar por onde passa, enquanto o tigre limita-se agora a determinadas

160
áreas. Mas, via de regra, todos mantêm-se quietos durante o dia
e só se movimentam com a chegada da escuridão. Ouvem-se então distante, ficam exaustos e param de repente. No entanto, a longa
ruídos estranhos e pios agourentos, provando que alguma criatura história não começou ali. É como um repórter de um outro
errante saiu de sua toca na floresta ou na ravina e está investi- planeta aqui chegando em plena última guerra mundial e voltando
gando as possibilidades da região. Certa vez acendi lanterna de depois aos seus pagos para dizer que os habitantes da Terra dedi-
mão na cara de um pequeno urso que se achegou, grunhindo, cam-se apenas a destruir-se mutuamente. Se ele houvesse vindo
ao meu bangalô e veio espiar através da janela envidraçada do alguns anos antes seu relatório seria bem diferente.
quarto dos fundos. Não me é dado produzir fósseis para fundamentar minha
Nas encostas das montanhas há grandes manadas de veados asserção, nem encontrar qualquer pertence deixado pelos homens
selvagens, gamos malhados, e dessa curiosa criatura, o cabrito primitivos a título de legado. Não posso levar ninguém a passear
montês: simples, inocente, tímido e adorável, bem comportado sobre o sólido terreno das provas tangíveis. O planeta de hoje
não é o planeta de ontem e as tremendas mudanças na superfície
até o momento em que é obrigado a lutar pela subsistência com
e imensas modificações na estrutura que o tempo provocou destro-
animais mais bravios. Aí então sua poderosa galhada entra em
çaram os insignificantes registros de eras a esta altura tão remotas
cena e por vezes ele se comporta com muita eficiência. Uma só que já não têm qualquer importância. A Mãe Terra não se preo-
pantera é capaz de perseguir uma manada de veados selvagens, cupa em preservar todos os testemunhos de sua história primi-
que se limitam a gemer seu pavor até o último momento, quando tiva a fim de que uns poucos cientistas tenham material em torno
a necessidade de defesa produz neles uma renovada coragem. do qual seus intelectos possam engendrar novas teorias. E l a
O gamo ladrador também está aqui — um animal lindo e própria tem ampla consciência daquilo que fez e, se homens
de pernas esbeltas. pequeninos pensam diferentemente, isso é com eles e não com ela.
O urso preto do Himalaia não é agradável de encontrar-se Mas, se me apresento de mãos abanando quando me atrevo
de supetão. Sua disposição de momento será o fator que irá a proclamar que o desígnio primeiro da Natureza não foi começar
decidir se ele atacará o homem ou não. Sua fama é de cruel, o universo através de um reinado de terror, do qual a aranha
vingativo e destruidor. que seduz a mosca é um símbolo válido, mas muito o contrário,
possuo suficientes indícios da sua benevolência original para satis-
História curiosa que se ouve por aqui é a de um jovem
fazer meu senso crítico, que, em certa época, foi talvez mais
caçador que tinha visto um urso numa encosta coberta de vege-
devastador do que o dos próprios cientistas cujas suposições
tação, pouco acima de onde se encontrava. Ele disparou sua absorvi na minha inocência. Tais indícios, porém, não chegaram
arma e feriu ligeiramente a fera. Rugindo de ódio e dor, esta até mim através qualquer fonte que o mundo moderno encare
lançou-se pelo flanco da montanha com incrível.velocidade, apa- com respeito; e seria mero desperdício de tempo falar delas às
nhou o infeliz homem e atirou-o precipício abaixo. O caçador exigentes plateias contemporâneas. Seja suficiente declarar que
morreu. existe uma determinada condição de ser, semelhante àquela que
A vida, em seus primórdios, não encerrava tais terrores existe num semitranse, e que nessa condição força normalmente
como esses que estas feras selvagens trouxeram consiga para invisíveis podem falar ao homem. Por essa forma aprendi um
agoniar tanto o reino dos humanos quanto o dos animais. Sei pouco da história não registrada da nossa raça.
que os evolucionistas materialistas nos falam de um tempo em Aquilo que por essa forma foi trazido à tona restabelece um
que o homem vivia uma existência bestial nas cavernas e animais quadro da era primitiva em que o Bem, em sentido lato, domi
gigantescos vagavam pelo planeta com intuitos ferozes. Que nava por completo e a matéria se encontrava submetida ao espí-
houve algo no género não é preciso ir mais londe do que o rito. A humanidade daquela era vivia à luz de um instinto divir
primeiro museu de história natural para descobrir, pois os restos e não precisava de tergiversar com as dúvidas da argúcia e do
dos fósseis falam de maneira eloquente. Mas os nossos teóricos, intelecto para compreender quais eram seus verdadeiros inte-
infelizmente, não recuam no tempo o suficiente. Tendo levan- resses. A exploração dos povos mais fracos pelos mais fortes
tado a história do homem e do nosso globo até uma época muito não existia e não podia existir; pois todos os homens sentum

162
no coração o Pai comum, ao qual adoravam, universalmente,
como tal. como sendo um Deus, pelo menos, bem intencionado, compreen-
sivo e amigo para conosco.
Os animais daquela era não temiam o homem e não tinham
razão para fazê-lo. Nem se temiam uns aos outros. A Natureza Se todo líder religioso, se todo sábio ou profeta do passado
provia abundantemente suas necessidades, e de forma pacífica. que afirmou ser tal coisa verdadeira está enganado ou enganando,
então a sanidade implica em abandono de tudo aquilo que é
A depredação de uma espécie por outra não apenas era desne-
decente na vida, numa guinada no sentido de um egoísmo impie-
cessária como também desconhecida.
doso e selvagem e numa cínica abdicação de todas as esperanças
para o futuro desta nossa estonteada e estonteante raça. Preci-
samos então aceitar a doutrina de Oswald Spengler, apóstolo
germânico do pessimismo e da força, de que o próprio homem é
uma fera carniceira.
Se, como digo, não disponho de fatos nem de fósseis para
convencer àqueles que não tenho desejo de convencer, tenho na Felizmente, a maioria dos homens inteligentes não pensa
realidade uma pergunta. Todo homem inteligente — isto é, inte- assim. Não adora a razão até o ponto de excluir por inteiro o
sentimento, como fazem os modernos intelectuais mais presun-
ligente pela sua vivência e não pseudo-inteligente através dos
çosos. Onde se afasta de uma religião como o cristianismo, não
livros escolares — terá de dizer algum dia, com Napoleão, quando
se afasta por completo de Cristo. Onde abandona o decadente
este olhou através da janela do palácio, certa noite, o céu cheio
hinduísmo, continua a professar alguma veneração por seus pri-
de estrelas: — Não me peçam que acredite que toda esta enorme
meiros santos. E assim a ideia da benevolência de Deus continua
criação não tem um Autor!
sendo uma esperança e uma fé para muitos.
Se, ademais, ele admitir a verossimilhança da existência
Todas essas pessoas, no entanto, com sua instrução, aceitam
desse Autor, desse Deus, terá de defrontar-se com o problema
a história científica da evolução da barbárie até a civilização. Essa
do sofrimento e do mal. Por que Deus admite tais coisas em
história não é um romance completo mas apenas uma história
nosso meio? Reconhecendo a existência dessas misérias, terá de em série. Os cientistas, como disse, até aqui só se apoderaram
admitir que Deus introduziu-as propositalmente em sua criação dos últimos capítulos. Se e quando receberem os primeiros, serão
ou então que elas surgiram por si, sem autorização expressa do forçados a reformular suas opiniões.
Criador. Á única forma de suprimir o problema é asseverar, em
face das provas das contradições do mundo e da presença simul- Esta ideia de que a Natureza começou a ferro e fogo, criando
tânea de deploráveis mazelas e prazeres deliciosos, que Deus os homens mais bestiais e os animais mais ferozes esteve em voga
quando criou o universo estava b ê b e d o ! e foi muito cara entre as pessoas instruídas durante quase três
quartos de século.
O problema é, sem dúvida, o mais antigo, o mais encanecido
Minha pergunta está agora pronta para ser feita e se dirige
com que tiveram de se haver os pensadores tanto da antiguidade
a essas pessoas. Se acreditam num Deus benevolente, como
quanto da era moderna. E u não estou disposto a preocupar-me
podem acreditar que ele começou sua obra criadora de maneira
com ele, tampouco.
tão vil? ^ ; T'.*** ^
Mas as únicas mensagens de Deus ao homem, que realmente Não será mais racional acreditar, ao invés, que Deus, de
se encontram à nossa disposição, estão corporificadas nas grandes acordo com a sua natureza, começou da melhor forma possível,
religiões que surgiram de tempos em tempos. Podemos n ã o criando os homens mais nobres e os animais melhores? Não
aceitá-las como tais, mas é pouco provável que n ã o passassem será mais racional acreditar que essa foi a sua intenção primeira
de fumaça sem fogo. Não é absolutamente desarrazoado supor e que a degeneração em barbárie, quando aconteceu, proveio de
que algumas almas ousadas aventuraram-se em regiões mais eleva- homens e animais caídos em virtude de sua própria volição e
das, ultrapassando o raio de ação habitual da humanidade, e não pelo desejo de Deus?
voltaram com novas do Criador. Todas as religiões falam de Deus

164
A história bíblica da queda do homem é apenas parcial-
mente uma alegoria; e é, não obstante, uma verdade.
É preciso distinguir entre uma queda e um e m p u r r ã o . Deus
jamais empurrou suas criaturas a uma condição de inferioridade.
Tampouco criou um conjunto de autómatos destinados a trabalhar
como marionetes em cordéis. O fato de que caímos é prova
suficiente de que nos foi dada liberdade bastante para tanto.
No entanto, se todos os professores religiosos de todo o CAPÍTULO X I V
universo se reunissem e todos os luminares proféticos do firma-
mento da história se juntassem para dizer-me que o nosso Criador Visita de um Príncipe Nepalês — Curiosa Experiência
era malvado, cruel e bárbaro, eu não lhes daria crédito. A t é com um Faquir e um Espírito - Exploramos o Lindo
mesmo se toda a raça humana assim mo afirmasse, eu viraria as
Vale de um Rio — Aventura com um Elefante
costas, sem convencer-me.
Enfurecido - O Budismo no Nepal - Krishnu e Buda
Pois minha prova final de que estariam errados ficaria na Comparados
dependência da minha própria experiência interior. N ã o seria
mesmo valendo-me de uma clarividente percepção de antigas fases
da vida universal que eu os refutaria, mas através de algo infini-
QUANDO PELA última vez nos encontramos eu disse ao
tamente mais profundo, mais precioso e, para mim, mais irrefu-
Príncipe Mussooree Shum Shere Jung Bahadur Rana, do Nepal
tável. ^ 1 ^ que tencionava ir ao recesso do Himalaia numa aventura espi-
Lenta e pausadamente, de maneira humilde e com p é s que ritual e interior. Meu brilhante amigo respondeu descuidada-
amiúde escorregam, seja como for, encontro-me no caminho do mente, expressando seu desejo de poder furtar-se ao mundo do
paço do Senhor e progrido à medida que os anos correm. E dever e dos prazeres por algum tempo e acompanhar-me até lá,
quanto mais me aproximo da divina Presença tanto mais me sinto como se uma tal viagem fosse coisa de meia hora. E eu lhe
envolvido por uma compaixão cuja amplitude não tem limites e respondi, brincalhão: — De qualquer forma, Príncipe Mussooree,
tanto mais me vejo amparado por um amor cuja natureza é venha tomar uma xícara de chá comigo qualquer dia. — E nós
infinita. ambos rimos da pilhéria.
Mas meus pensamentos, por mais luminosos e concretos que Não tive notícias do príncipe até hoje quando, inteiramente
possam parecer à minha mente visionária, serão para os espertos, sem aviso e da forma mais inesperada, ele chega! Acompanhado
doutos e oniscientes eruditos da era moderna meras especulações, por um par de criados e subindo a trilha no lombo de um estu-
ociosas e erráticas. pendo cavalo alazão, ei-lo que irrompe nos meus solitários
domínios. \'"
— Então veio tomar aquela xícara de chá! — observei eu,
quando o primeiro pasmo da súbita aparição cedeu e deu lugar
àquela emoção hospitaleira com a qual todo homem deve acolher
seus amigos. •>
Mas o príncipe discorda da minha conclusão e declara que
tem pouco apreço pelo chá; beberá qualquer coisa, menos chá.
Infelizmente não me é possível oferecer-lhe, neste refúgio da civi-
lização, qualquer coisa que não seja água. Excelente, declara ele.
beberei água! No entanto, as rígidas tradições de sua casta exigem

166
que o seu próprio criado lhe forneça água do carregamento que
de uma guerra com o Tibete por causa de um insignificante inci-
trazem. dente na fronteira, risco que apenas no derradeiro instante foi
E enquanto ele sorve o fluido incolor eu me ponho• a cismar conjurado, ele exclamou: — Tanto melhor para os tibetanos! —
no fenómeno de um homem que vai para a montanha brincar E amiúde chamaria orgulhosamente a atenção para o fato de que
de eremita, que não espera nenhum visitante, e acaba recebendo os sólidos e pequenos gurcas são os melhores combatentes do
uma porção deles. Exército Britânico da índia e têm os seus próprios oficiais.
De acordo com a lei das probabilidades posso contar com Enquanto se prepara uma refeição deixamos o bangalô
cerca de dez visitantes mais durante a minha estada aqui! Fica caiado e rodeado de abetos para dar um passeio. Levo o meu
assim amplamente provocado que neste século vinte ninguém pode visitante até o meu precioso refúgio. Ele anda de um lado e de
bancar o Robinson Crusoe. Quer a gente se desterre numa desér- outro, admirando a magnífica vista de vales estreitos e alcanti-
tica ilha do Pacífico, quer se encarpite num agreste cume de lados e montanhas agrestes e desabitadas. Depois que viu o
suficiente, conduzo-o até o local das minhas meditações, onde
montanha, o mundo nos descobrirá e nos invadirá a solidão.
nos sentamos. O imenso anfiteatro natural que se espraia aos
Quando não houver outras formas de abordagem, o avião virá
nossos pés arranca uma exclamação de surpresa dos seus lábios.
meter o nariz no nosso retiro!
— Isto é perfeito para os seus objetivos! Escolheu
Não obstante, não sou um grosseirão. Sinto-me grato por muito bem!
estas visitas. O destino teve a bondade de não mandar-me senão
Falamos acerca de coisas passadas até que, no fim, nossa
aquelas que seriam realmente recebidas de bom grado. Meus
conversação recai sobre o meu assunto. O príncipe conta-me
hóspedes estimularam-me o intelecto e deram-me o prazer da
acerca de algumas das suas próprias experiências com a Ioga, em
comunhão espiritual. Na verdade, devemos ter algum tipo de dias longínquos. Também ele foi educado à ocidental, mas
relacionamento interior, algum vínculo afetivo, invisível e intan- nenhum treinamento científico impingido a força afugentará as
gível, pois que outra coisa o poderia ter levado a fazer esta viagem crenças nas forças sobrenaturais da vida que vivem no sangue
cansativa sobre bravias cordilheiras, até chegar a estas paragens de todo oriental reflexivo.
desoladas? Eles evitaram que eu me enconchasse por completo.
— A grande atração para mim foi a Hatha Ioga, isso que
Melhor do que tudo, eles vem com afeto no coração. Poderá
o amigo chama de Sistema de Controle do Corpo. Tive um
um estranho ou um amigo trazer melhor presente para um professor, claro está, e continuo a manter contatos ocasionais
homem? com ele, mas aprendi a dominar determinadas coisas por puro
O Príncipe Mussooree tem cerca de trinta e três anos. Seu instinto, antes de conhecê-lo. Minha teoria é que eu já havia
rosto mongólico tem belas feições, com um nariz chato, uma pele praticado a Hatha Ioga em encarnações anteriores. Comecei
amarelada e uns olhos rasgados. E l e é bem baixo; não é mais com as posturas físicas que formam a base do sistema e descobri,
alto do que eu, mas essa é uma característica que partilhamos com para minha surpresa, que aquelas contorções do corpo, tão difíceis
gente boa, pois o Coronel Lawrence, da Arábia, foi recusado na aparência, saíam-me com bastante facilidade. Até mesmo
pelo serviço militar no início da última guerra em razão da sua agora, depois de permanecer anos sem praticá-las, sou capaz de
baixa estatura, enquanto os centímetros que faltavam a Napoleão executar uma meia dúzia delas.
valeram-lhe o título de Pequeno Caporal. O meu príncipe tem, — Poderia executá-las aqui?
todavia, uma voz poderosa e forte, típica dos montanheses do — Sem dúvida.
Nepal. Ele é de boa índole, bem-humorado e, ao mesmo tempo, E o Príncipe demonstra algumas das atitudes da loga-hsica,
capaz de responder a uma provocação com uma destemida explo- com as quais estou familiarizado. Primeiro assume a postura do
são, coisa também típica do povo do Nepal. Pavão, assim chamada porque a atitude final lembra muito o
Ele é sobrinho de Sua Alteza o M a r a j á do Nepal e possui contorno do corpo de um pavão. A seguir, cokva-s<. na postura
uma devoção por aquele pequeno e desconhecido país que toca do Gafanhoto. A terceira postura é a do Embrião \ a criança no
às raias do fanatismo. Quando, faz alguns anos, surgiu o risco
ventre materno); a quarta, sarvangasana, ele a executa exatamente céu através de bancos de nuvens, uma comprida linha que fulge
como a executou Brama, o hatha-iogue cuja vida e cometimentos ao sol matutino. As geleiras aparecem como torrentes brancas
eu descrevi em A índia Secreta. O esforço final do Príncipe é e claras correndo para o sopé das montanhas.
a postura do Arco.
A região através da qual passamos oferece muita caça.
Sou forçado a reconhecer que o corpo do Príncipe oferece Animais selvagens rondam as florestas e montanhas de Tehri-
um evcelente testemunho da eficácia da Ioga do Controle Cor- -Garhwal. De quando em quando ouço o grito de uma criatura
poral, porque, embora não tenha mais do que trinta e três anos, bravia quebrando a fantástica quietude da mata, quando acordo
ele parece um jovem de, no máximo, dezenove. Sua saúde é à noite, e compreendo que tentador teatro de operações seria
perfeita ele observa uma rigorosa dieta alimentar, fazendo apenas para mim o Estado de Tehri, se eu fosse um caçador.
uma refeição diária e passando muitas vezes sem isso. E l e acre-
Subimos uma crista inclinada, pisando uma trilha consti-
dita firmemente que a maioria das pessoas se empanturra de
tuída de fragmentos de pedras varridos dos flancos das montanhas
comida e desgasta com isso os órgãos, submetendo-os a uma
pela ação dos ventos que por vezes atingem uma força ciclônica.
carga desnecessária de trabalho.
Contornamos algumas ravinas e a seguir galgamos uma alta
O Príncipe lembra o Basti, uma curiosa prática dos antigos ribanceira. Subimos ao topo de uma outra crista e a seguir
hatha-iogues. É o seu processo de limpar o cólon, lavando-o enveredamos na direção de um bosque de cedros do Himalaia,
com água, depois de mergulhar até a cintura nas águas de um um pouco mais abaixo. Num determinado lugar somos literal-
rio. — O processo continua em uso — afirma ele. mente obrigados a nos agarrar com pés e mãos a raízes e pedras,
— Não conheço um só europeu que seja capaz de praticar tão escarpado era. Depois de caminhar e subir alguns quiló-
esse higiénico hábito — respondo — embora alguns de nós o metros, pesadas brumas descem sobre o cenário, toldando a maior
imitemos, recorrendo a métodos artificiais; usamos aquilo que parte da paisagem e trazendo uma ameaça de chuva. Somos
chamamos de banho interno. forçados a nos deter.
— Meu filho, que tem apenas doze anos de idade, pratica Felizmente para nós as brumas se dissipam pouco depois.
o Basti à perfeição, de acordo com o método tradicional. Ao erguerem-se e se desmancharem aos nossos pés, mostram uma
Voltamos para o bangalô sob um céu crepuscular, em que vez mais a massa de montanhas encadeadas e o espetáculo se
transforma como que num passe de mágica. Subimos até os
o azul e o cereja se desbotam em cores progressivamente mais
altos de cristas enfeixadas por bosques.
apagadas. Como amo essas pausas entre o dia e o cair da noite,
quando a Natureza toma da sua paleta e tinge o mundo hima- Nossa conversação recai no país natal do Príncipe. Interes
laio de matizes gloriosos! santes fragmentos da vida no Nepal saem-lhe dos lábios; interes-
santes porque os governantes daquele país conservam-no ainda
À noite olhamos para o céu. O lindo Cruzeiro do Sul está
como uma terra de mistério e permitem a apenas umas poucas
quase a ponto de fixar-se. Gémeos, a terceira constelação do
pessoas de nascimento ocidental cruzar-lhe as fronteiras, embora
zodíaco e mudo símbolo da afeição entre Castor e Pólux, enfeita
não sejam tão exagerados e exclusivistas como os tibetanos.
a orla noroeste. Vega, um ponto luminoso azul-esbranquiçado no
Não obstante, trata-se de um país fechado — fechado, sem
horizonte leste, parece ser a mais brilhante das estrelas.
dúvida, diante da falta de confiança nos europeus. Ademais, as
montanhas do Nepal estão separadas da índia pela floresta de
Xerai — esse escaldante, luxuriante, maleitoso e mortífero trato
a seus pés.
— Nestes dias de após-guerra uma parte da Europa pende
Na manhã seguinte tomamos uma trilha estreita que se para a ditadura como forma mais efetiva de dirigir um pais —
enrosca na face de uma serra. Nosso objetivo é um penhasco observo eu — e acredito que o seu povo também adotou essa
escuro no vale, que se projeta até uma grande altura. A o fundo
forma.
vemos a massa serrilhada de montanhas nevadas, erguendo-se ao

170
O Príncipe Mussooree responde:
Ó Grande Mãe, grito eu em silêncio, e faz com que ele daqui
Sim, o que o Nepal fez há mais de meio século a por diante dependa de tua orientação e teu amor apenas. E m
Europa está fazendo agora! Meu tio, Sua Alteza o Marajá, detém sua elevada presença a verdadeira relação entre o homem e o
os maiores poderes sobre o povo e é virtualmente um ditador. seu criador revela-se sob novo ângulo e surge uma quietação tão
Ele governa no sentido mais amplo da expressão. Mas o seu doce como a quietação do crepúsculo.
governo é benevolente e o seu desejo é usar o poder em benefício Quando nos erguemos e começamos a viagem de volta, um
de todos os seus súditos. Por exemplo, há dois anos tivemos mudo sorriso de compreensão passa entre nós, mas não fazemos
um terrível terremoto que sacudiu e fendeu o país de um extremo referência verbal ao que havíamos sentido.
a outro de seus oitocentos quilómetros de comprimento. Nossa
Esta noite ouço uma extraordinária história dos lábios do
capital, Katmandu, foi quase totalmente despedaçada. Sua Alteza
Príncipe Mussooree acerca de uma experiência que lhe aconteceu
foi morar num abrigo provisório. Lá permaneceu durante longo
há vários anos.
tempo. Quando o povo e os seus parentes instavam com ele
que reconstruísse o seu palácio, ele respondia, "Antes que o meu — E m seu livro O Egito Secreto o amigo descreveu um
mágico do Cairo que alegava ter sob seu controle os djins ou
povo esteja confortavelmente reinstalado em suas casas não
espíritos inumanos. Conheci certa vez um homem assim e os
permitirei que uma só pedra seja colocada na construção da
acontecimentos que seguem são tão assombrosos que não posso,
minha própria morada".
contudo, refutá-los como uma cilada da imaginação, da mesma
"Sua Alteza, diga-se de passagem, é um extraordinário cava- forma que não posso acreditar em tudo quanto meus olhos viram.
leiro e é capaz de fazer seu cavalo galopar furiosamente encosta Pergunto-me se o amigo concordaria em catalogá-los como coisa
abaixo em qualquer ponto do Himalaia. Nem mesmo os nossos dos djins também. Trata-se realmente de um caso para um djinó-
melhores oficiais da cavalaria cavalgam como ele." logo, se é que existe essa espécie de pesquisador!
Um pouco mais tarde fiquei sabendo por q u ê : "Um faquir visitou-me e pediu-me que o acompanhasse
— Os homens da tribo de Sherpa, que tanto nos ajudam numa experiência envolvendo esses djins. Pertencia ele a um
nas várias expedições ao Monte Everest, vivem no Nepal, perto povo himalaio chamado Garhwalis. Não me interessava, porém,
do Passo Kanglachen. Sua coragem e resistência possibilitaram aquele tipo de experiência e recusei-me a colaborar com ele. Mas,
durante vários dias ele continuou a pressionar-me, embora sem
os resultados já alcançados nessas empresas e sem eles os alpi-
conseguir êxito. Por fim, disse-me que faria a experiência, com
nistas britânicos jamais teriam chegado às alturas que chegaram.
ou sem o meu consentimento. Sua explicação era que ele tinha
Ao chegarmos ao topo do penhasco sentamo-nos e nos entre- ligações com um djim há vários anos. Durante todo o tempo
gamos à contemplação do panorama que se desdobra abaixo. este estivera a seu serviço. Agora, porém, ele desejava renunciar
Descanso então durante meia hora, meditando em silêncio e o à magia ou feitiçaria, como se poderia chamá-la, e enveredar pelos
Príncipe me faz companhia em sua muda amizade. Sinto a paz caminhos mais elevados da Ioga espiritual. Para tanto ser-lhe-ia
que nos envolve a ambos em ondas espiraladas. Agacho-me ao preciso desistir do djim e separar-se dele. O djim respondera
lado dele e permito que a minha mente se desprenda de suas que jamais concordaria em deixá-lo a menos que ele o transfe-
amarras e retorne suavemente à sagrada Fonte de onde provém. risse para um amo digno. O faquir, por isso, pôs-se à procura
Sem dificuldade, ela se abandona à existência interior, onde tudo daquela pessoa que poderia livrá-lo do seu djim. Por alguma
é perfeito, tudo é calmo, tudo é celestial. Não percebo quanto razão que jamais cheguei a conhecer escolheu-me a mim. Conti-
tempo passa, porque o tempo realmente se ausentou, na qualidade nuei, no entanto, a dizer-lhe que não queria participar de nenhuma
de entidade indesejável. Sei apenas que me despojei dos farrapos bruxaria.
da vaidade pessoal e do orgulho intelectual, que subitamente fui "Certa noite, por volta de duas horas, pareceu-me acordar
humilhado, e que envergo agora o manto de uma inefável reve- terrivelmente assustado. Uma sensação de sufocamento me
rência perante o grande poder da Natureza que se manifestou envolveu e tive a impressão de que o quarto estava presa de
com grandeza tão acachapante. Recebe de volta teu filho truão,

172
fogo e fumaça. Na verdade, eu me achava num estado interme-
diário entre o sono e a consciência. Então uma voz, vinda aparen- priscos dias das Mil e Uma Noites, mas o amigo tem suficiente
temente de dentro dos meus ouvidos, disse-me: — Pagarás caro experiência do Oriente para saber que estas incríveis maravilhas
pela tua teimosia! A sensação sufocante agravou-se e senti que podem ter sido e continuam sendo possíveis.
os meus últimos momentos na Terra tinham chegado. Felizmente, Meu companheiro faz uma pausa; uma expressão grave toma-
tive a presença de espírito de lembrar-me do meu Mestre, um -lhe o rosto.
grande iogue hindu que vivia nas Montanhas Kangra. Rezei — Pouco tempo depois o faquir foi atacado por uma
silenciosamente e pedi-lhe proteção. A força do meu Mestre horrível doença e se acabou em ritmo galopante. Dezoito dias
manifestou-se num dado momento e uma sensação de reconforto mais tarde estava morto. Seu fim sobreveio exatamente um dia
voltou-me; a fumaça pareceu dissipar-se e a impressão de estar antes da Lua cheia. . . conforme o djim ameaçara!
sendo sufocado foi desaparecendo gradualmente.
"No dia seguinte o estranho faquir veio fazer-me nova visita.
Suas primeiras palavras foram: — sabeis por que passastes por
0%

aquela experiência de sufocação ontem à noite? E u vos direi.


Outro dia moroso se passa. Mais uma rotação deste nosso
Meu djim ficou furioso convosco diante da vossa negativa em
globo desassossegado. Mais uma agradável excursão com o meu
adotá-lo e tentou punir-vos por isso. Mas o vosso Mestre de
amigo nepalês.
Ioga interferiu, salvando-vos. Lamento o acontecido e pesa-me
Descemos uma garganta revestida de florestas até uma
não ter podido evitá-lo. Infelizmente, perdi boa parte do controle
profundidade de cinquenta metros mais ou menos e então, agar-
que exercia sobre o espírito e fiquei impotente para agir. Aquele
rando-nos aos troncos das árvores, fazemos um desvio horizontal
dia tentei transferir o djim para o vosso serviço sem que soubés-
por uma trilha que se estende até certo ponto sobre a vegetação
seis. Se eu tivesse tido êxito isto ajudaria vossos assuntos mate-
rasteira. .
riais numa medida que mal podeis imaginar. Mas houve algo
Caminhamos por ali cerca de oitocentos metros. A seguir
errado na cerimonia mágica a que procedi. Faltaram algumas
fazemos uma abrupta virada à esquerda e principiamos uma preci-
precauções essenciais, seja por desleixo ou por mero esqueci-
pitosa descida para os flancos densamente arborizados de uma
mento. O resultado foi que perdi o domínio sobre o djim. Agora
profunda garganta. As árvores são principalmente sombrios
que fracassou, graças à proteção do vosso Mestre, o djim voltou-se
abetos, com touceiras ocasionais de sólidos carvalhos e algum
contra mim. Declarou-me que vai-me matar antes da próxima
tufo de rododendros aqui e acolá. Nossa travessia começa a
Lua cheia. Vivo no temor de deixar este mundo muito breve."
assumir os tons de uma apressada fuga de algum animal selvagem,
O Príncipe interrompe sua narrativa para retomar fôlego. em razão do terreno escarpado que não nos oferece apoio e nos
Essa foi a estranha história que ouvi do faquir — obriga e deslocarmo-nos com tanta rapidez que se poderia dizer
prosseguiu o Príncipe Mussooree um minuto mais tarde. — Para que deslizamos o tempo todo, firmando-nos nos lugares mais
mim, tudo pareceu-me extremamente fantástico. E m virtude da perigosos com auxílio das nossas pontudas bengalas de alpinismo.
Desta forma, cobrimos cerca de oitocentos metros em tempo
minha educação moderna manti-me cético e não me foi possível
recorde e chegamos ao fundo da garganta depois de uma afanosa
dar crédito à explicação do faquir. Preferi acreditar ter sido
passagem por entre arbustos, árvores, espinhos, touceiras, pedras
vitima de um extraordinário pesadelo. Mas espere. . .
e terra solta. Com nossa chegada, recebemos a primeira recom-
Perdão, mas tendes certeza de que não havíeis dito nada pensa por todo aquele incomodo em tão alta velocidade.
ao faquir antes que este tentasse uma explicação?
Revela-se a nossos olhos uma cena das mais encantadoras.
O Príncipe se mostra extremamente enfático. Achamo-nos no leito de um rio que secou e transformou-se de
Nem uma só palavra. A ninguém. O homem estava a um curso d'água de oito metros de largura numa torrente de
par de tudo antes de chegar. Foi uma coisa assombrosa. Mas cerca de dois metros. Enormes rochedos e matacães nos cercam
ouça o que veio depois. Sei que isto parecerá um conto dos de todos os lados. Exuberantes flores de rododentros cor de togo

174
salpicam as touceiras de um verde carregado que se prolongam A caminho passamos pela floresta e nos detemos para
ao longo das margens do rio, formando uma avenida. A água admirar o cenário, que é bravio porém requintado. Sei que
propriamente dita corre doidamente, num ritmo feroz, desabando esta floresta é um dos locais preferidos dos ursos e advirto o
em pequenas cascatas aqui, circundando enormes matacães acolá, Príncipe, pois já é tarde. Ele ri do perigo.
marulhando harmoniosamente entre miríades de pedregulhos e — Temos muitos ursos no Nepal. Alguns distritos são
pedras lavados que reverberam em todos os matizes à luz forte
de tal maneira infestados por eles que as camponesas andam
do sol. Bem acima de nós estão as altas paredes da garganta
armadas de forcados e alfanjes para defender-se dos seus ataques.
colocadas de encontro a um céu de um azul muito límpido, coa-
Com o forcado na mão esquerda procuram manter afastado o
lhado de delicadas formações de nuvens brancas como o leite.
animal, ao passo que o atacam com o alfanje empunhado pela
Atravessamos as rápidas águas do fio d'água e nos sentamos outra mão.
sobre um matacão para bebermos toda aquela beleza. A água
saltita sob nossos pés. Observo os raios de sol a brincar entre "Nossos montanheses dizem que ao encontrar inesperada-
as pedras. O fascínio de encontrar a Natureza em sua forma mente um urso, estando-se desarmado, o melhor é deitar de
mais agreste e grandiosa nesta região nunca cessa, pois o ambiente bruços e se fazer de morto. O urso irá então farejar um pouco
o ar e em seguida irá embora. Ainda não tive a experiência,
encerra uma atração mágica inteiramente indescritível. Fez muito
mas espero que a coisa funcione! A propósito, já ouviu alguma
bem o antigo poeta sânscrito quando disse: — Nem que eu
vez os gritos de um urso ferido? Atiramos num urso há algum
vivesse centenas de vezes as idades dos deuses, seria capaz de
tempo, mas não conseguimos matá-lo. Ele chorou como um ser
contar todas as maravilhas do Himalaia. — Não creio que o humano. Incrivelmente parecido!
esplendor cénico deste mundo montanhoso de oito mil metros
possa ser exagerado. Tudo aquilo que se disser não será com " H á mesmo algo de humano no choramingar de um cavalo
certeza um exagero. presa de intenso medo. Certa vez meu irmão, eu e um criado
O Príncipe Mussooree logo decide fazer um passeio pelo íamos por um caminho no Himalaia nepalês, muito parecido com
leito do rio. Saltamos de pedra em pedra através da água corrente, este que acabamos de fazer no alto da garganta: uma trilha
com a ajuda de nossas bengalas, ou esmagamos sob os pés o estreita e árdua, cortada na superfície da pedra. Meu irmão estava
solo pedregoso à medida que avançamos por entre as paredes da um tanto cansado de cavalgar e desmontou, puxando seu cavalo
garganta, que se tornam mais alcantiladas com o nosso progresso pelas rédeas e caminhando a pé. Ao contornar uma curva muito
até chegarem a ser completamente verticais e por inteiro impos- fechada, o cavalo escorregou na beirada do caminho. Seu quarto
síveis de escalar. Estas imensas paredes de granito lembram uma traseiro caiu no precipício, mas com auxílio das patas dianteiras
gigantesca catedral gótica, cujas torres e arcobotantes houvessem ele conseguiu agarrar-se à borda. Meu irmão segurou-lhe a cabeça
sido partidos em dois por um terremoto. De quando em quando e nós dois corremos em seu auxílio. A maior parte do peso do
paramos para conversar e escutar o ruído bimbalhante e musical cavalo pendia sobre a garganta e, a despeito dos nossos esforços
da apressada correnteza espanando as pedras em seu curso. conjuntos, não foi possível içá-lo de volta. A pobre criatura
Dentro de mais ou menos um mês esta torrente será transfor- compreendeu sua situação e começou a choramingar lancinan-
mada pelas chuvas das monções num rio largo e caudaloso e uma temente. Fizemos o máximo para salvá-la, mas o peso era exces
caminhada como esta que agora fazemos será impossível. sivo e o nosso próprio apoio era precário. Os gritos do cavalo
aumentavam à medida que suas forças enfraqueciam. Seus gritos
Retornamos do nosso passeio cansados porém contentes. de medo e angústia tornaram-se quase humanos. Por fim, ele
Encetamos o caminho da volta. A íngreme parede da garganta escorregou de nossas mãos e caiu no abismo, gemendo o tempo
ergue-se diante de nós e árdua subida de oitocentos metros tor- todo até chegar ao fundo, onde ficou reduzido a uma pasta.
na-se um esforço de tirar o fôlego, o qual conseguimos amenizar
contando ocasionalmente alguma piada sobre assuntos totalmente "Um dos meus criados contou-me um encontro casual que
desconexos. De qualquer forma, vamos progredindo em nossa teve com uma extraordinária tribo de homens-animais que existi
subida. numa bravia região do interior do Nepal. Eles se escondem bem

176
e procuram sempre evitar os conta tos com os seres humanos. a fome é na realidade o melhor tempero. A comida sempre é
Seus corpos são totalmente recobertos de pelos; são menores de postosa nessas ocasiões e até mesmo os alimentos enlatados
tamanho do que os homens e mulheres da nossa raça, enquanto parecem frescos e saborosos.
as suas feições parecem uma mistura de chimpanzés e humanos. Os três dias seguintes testemunham novas viagens a outros
Nossas tradições históricas nativas de há muito falam nessa locais da região. Assim, durante o período da oportuna visita
estranha raça, mas hoje em dia é muito difícil encontrar um do Príncipe familiarizo-me com a vizinhança e consigo exercitar
espécie. um pouco o corpo que reclamava por isso. Passeamos através
'Talando ainda em animais preciso contar-lhe como disputei de estreitas encostas, com precipícios abaixo, sendo elas os únicos
certa vez uma corrida com um elefante! Diversas pessoas forma- caminhos disponíveis, ou galgamos picos escarpados e massas
ram um grupo para ir à caça de animais de grande porte. Está- estriadas de rochas ou descemos através de densas florestas na
vamos montados em elefantes e, quando cruzávamos um rio, direção de ravinas profundas. Lá no alto, os abutres descrevem
uma dessas montadas saiu de dentro da água, tentou derrubar seus voos muito direitos num céu sempre cambinante. Esses
o montador das suas costas e matá-lo com suas presas. Argu- abutres sobem muito alto e a seguir planam ao longo de distâncias
mento algum tem valor com um elefante enfurecido, de maneira fenomenais com as asas distendidas e imóveis. Eles não batem
que o espavorido montador correu para outro animal e foi colo- sequer uma vez as asas durante alguns quilómetros, mas avançam
cado no seu lombo como medida de proteção. Nós nos afastamos com firmeza, em alta velocidade, na suas trajetórias horizontais.
o mais depressa que pudemos e deixamos o rebelde consigo Fica-se maravilhado de vê-los e não se compreende como aquilo
mesmo. Infelizmente, horas mais tarde fomos obrigados a passar é possível. .r

pelo mesmo local, na viagem de volta, a fim de tornarmos ao Muitas partes destas cristas entrecruzadas que se estendem
nosso acampamento. Lá estava o elefante enfurecido à nossa em torno de nós demasiado rochosas para possuir vegetação,
espera! Ele arremeteu contra a nossa comitiva e apanhou com ao passo que outras apresentam densas verduras e florestas por
a tromba um dos nossos homens pela perna. Num instante, este todos os lados. No entanto, até mesmo a escura insipidez destas
foi arrancado do seu assento e girado no ar como uma pluma. rochas estéreis é quebrada aqui e ali pela presença de solitárias
O homem, julgando que seria atirado pelos ares, urrava de terror, flores silvestres, quase todas tão pequeninas que lembram unida-
tão alto, na verdade, que o próprio animal furioso pareceu acovar- des de um jardim japonês em miniatura. Delicadas margaridas
dar-se e soltou a sua vítima. O homem esborrachou-se no solo e boninas amarelas, rosadas e brancas parecem espiar em volta,
mas não se feriu. Imediatamente, meteu-se por entre as patas do alto dos seus finíssimos talos; uns quantos miosótis despontam
de um outro elevante e pôs-se a salvo. Privada de sua presa, a das fendas entre as rochas e fazem com que eu me detenha para
raivosa criatura enfureceu-se ainda mais e atacou o nosso grupo, admirar-lhes o variegado colorido; um solitário cravo-de-defunto
dirigindo-se especificamente sobre mim. A l i estava um caso projeta sua beleza amarela entre o musgo verde na face interna
digno de ilustrar a sua máxima de que a discrição é amiúde o de uma trilha cavada na rocha; um espécie da framboesa silvestre
melhor componente da bravura! Saltei do dorso da minha do Himalaia enrama sem proveito, mas não deixa de ser tenta-
montada e fugi para o matagal. O elefante enfurecido saiu em dora a vermelhidão dos seus frutos; violetas de pequenas pétala^
minha perseguição, sacudindo ferozmente a tromba no ar. Corri de requintado formato também aparecem por aqui e mesmo a
como nunca havia corrido antes. O suor rolava em grossas primavera amarela inglesa goza de uma esperançosa existência.
bagas sobre o meu corpo. Num dado instante senti o bafo quente No prelúdio do crepúsculo, quando os picos verdes tornam-se
da fera junto do meu pescoço. Sabendo que não havia defesa sombreados de vermelho, os caminhos nus são tingidos de rosa,
possível contra o animal, coloquei todas as minhas forças e e, quando o Sol que se põe pinta de ouro as cn>..is nevadas, uma
reservas de fôlego na fuga. Literalmente, voei pelo terreno e Daz excelsa se faz a imperatriz reinante do Himalaia. Neste
escapei." •.wmw . m&m ;1< silêncio sereno e nada citadino, onde não tocam buzinas de auto
móveis, onde os bondes não comparecem com o seu estritor,
Volto para o jantar com o apetite espicaçado pelo fino ar
onde ônibus algum mataraqueia e nenhuma multidão se com-
das montanhas e compreendi, assim como o romano Cícero, que

17 X
prime, os dias desaparecem sem que sejam percebidos, com uma *»E quando, em razão da oposição e até mesmo perseguição
tranquilidade suave e fácil. Aqui, e até o ponto em que a terra dos invasores muçulmanos ou dos padres brâmanes rigidamente
e o céu se encontram, se é que se encontram, é dado ao homem ortodoxos, o budismo foi destruído na índia mais de mil anos
saber o que significa a palavra contentamento e gozar de uma após a sua fundação, numerosos monges e eruditos que não
verdadeira tranquilidade. queriam renegar sua religião ancestral fugiram para as montanhas
do Nepal, onde não corriam perigo. Por isso temos hoje milhares
de manuscritos e livros antigos, estátuas, gravações e antiguidades
em nossos mosteiros e templos, trazidos por esses refugiados.
Por isso, também, a religião do moderno Nepal é uma curiosa
Chega mais uma tarde ensolarada. O sol do meio-dia despeja mistura de budismo e hinduísmo. Um nepalês não tem consciên-
seus raios verticais sobre a terra. O zumbido de atarefadas cia de qualquer antagonismo entre as duas crenças e com fre-
abelhas ressoa nos ares. Gralhas, chapins, pequeninas lavandiscas quência rezará num templo hindu num dia e num templo budista
e outros pássaros saltam e pipilam entre os musgosos monarcas no dia seguinte. Minha crença é hindu, como sabe, mas ainda
da floresta. Tirante esses deliciosos sons da Natureza, há uma assim sinto muito respeito pela outra fé.
encantadora quietude na atmosfera. Só se pode acreditar que "Sabe também que embora os últimos redutos do budismo
a vida é boa, caridosa e. tranquila. No entanto, bem ao norte, nas proximidades da fronteira norte com a í n d i a sejam o Nepal,
a Europa ferve de tensão e medo; à mesma distância, para leste, o Tibete e Sikkim, aquela crença floresceu um dia aqui no
uma guerra civil faz da República Chinesa um navio partido ao Estado de Tehri-Garhwal? Num local agora denominado Barahat,
meio; enquanto em algum lugar do oeste um gorgolejar de morte a cerca de trinta quilómetros em linha reta deste lugar, há, entre
aflige a garganta da casa real da Etiópia. as ruínas de velhos templos e outros prédios, um grande tridente
de bronze imensamente antigo que traz uma inscrição recor-
Nos populosos centros da civilização, homens microscópicos
dando as visitas de Rajás budistas nepaleses que para lá foram
correm para cá e para lá, cheios da própria importância e brigando
em peregrinação, por volta do século doze. Huien TSang, o
pela crosta de um planeta que, em última análise, não lhes per-
peregrino budista chinês, diz que esta região era chamada na
tence, como que ignorantes da sua realeza, seu poder e sua
sua época de reino de Brahmapura e que o budismo existiu aqui
grandeza.
ao lado da fé mais antiga."
O Príncipe Mussooree Shum Shere Jung Bahadur Rana e Entramos a conversar sobre as duas religiões, budismo e
eu estamos sentados à sombra da varanda do bangalô, refeste- hinduísmo, suas notáveis semelhanças e estranhos contrastes.
lados em espaçosas poltronas de espaldar de vime e ambos plenos Digo ao Príncipe que, na qualidade de intelectual europeu, sinto
daquela satisfação que se segue imediatamente a uma refeição certa afinidade por Buda, a qual não me é tão fácil sentir por
degustável e degustada. Krishna, porque o primeiro era um homem racional que se trans-
Não sei se foi a atmosfera de paz ou a simples aparição de formou num deus, ao passo que o último era um deus nato que
um pensamento desgarrado que fez o outro homem entrar a falar por vezes se comportava com um homem. Buda só se manteve
de Buda. De qualquer forma, ele diz: — O Nepal contribuiu puro e casto com relação às mulheres depois de ter vivido e
para o mundo com algo mais do que boas tropas. Sabe que o experimentando as tentações que elas oferecem ao homem normal,
grande Buda Gautama teve íntima ligações com o Nepal? E l e ao passo que Krishna cortejou um sem número de moças. Buda
nasceu dentro de suas fronteiras. Para trezentos milhões de não renunciou a um mundo sobre o qual nada sabia, como fizeram
asiáticos o encantador bosque de Rummindei, no Nepal, local de tantos monges. O fato de ter conseguido tal pureza ante as
nascimento do Buda, é considerado como sagrado. U m grande oportunidades de praticar a sensualidade que sua condição de
monólito erguido pelo Imperador Asoka há quase 2200 anos príncipe lhe propiciava torna-o digno do maior respeito, mas
para festejar o lugar continua lá, com sua inscrição mais clara Krishna haver sucumbido diante dos sentimentos humanos nio
do que nunca. é nada louvável. Talvez muitos infantis tenham sido criados em

1X0 I S yiÊ^Ê ttf


torno da sua figura e as espalhafatosas litografias da namoradeira
divindade com as quais os hindus amiúde decoram suas paredes das mãos varia de pose para pose. Essas trinta e oito variantes
sejam inteiramente destituídas de fundamentos históricos. Poderia na postura das mãos são simbólicas e encerram profunda signi-
ser mais sensato então conservar tais contos em segundo plano. ficação, enquanto a escrita às costas está colocada de maneira
No entanto, acrescento também que, como homem que se entre- a corresponder exatamente às miniaturas; assim sendo, seguran-
gou à devoção religiosa numa fase adiantada da vida, acho os do-se o quadro contra a luz, aquelas palavras parecem ser legendas
ensinamentos de Krishana soberbamente elevados: o incentivo explicativas de cada uma das figuras. Na realidade não é assim,
que deu ao seu jovem discípulo Arjuna no sentido de colocar pois não passam da repetição da frase OM-AH-HUM, pronun-
sem medo nem restrições a vida nas mãos de um Poder mais ciada pelos lábios de cada um dos retratos, uma frase mística
Alto constitui um incentivo também para os demais homens. budista simbolizando numerosas e sagradas intenções.
Enquanto isso Buda se torna excessivamente racionalista, dema- O centro da composição é ocupado por um retrato bem
siado dependente do esforço humano, demasiado independente da maior do Buda, ainda com os pés entrelaçados na famosa postura
grande ajuda que Deus dá à sua alma cativa. do Lotos; a mão esquerda lhe descansa no colo, com a palma
virada para baixo e o polegar em riste, ao passo que a mão
É apenas em seus diálogos com Arjuna que Krishna se torna
direita está pendente, com os dedos estirados. É o trigésimo
magnífico, mais amorável e adorável do que o próprio Buda,
nono Buda, que tem para mim um significado todo especial.
pois ali ele não prega um asceticismo rígido, como fazia Buda,
mas apela da sua posição para o humano discípulo. Contemplamos longamente o meu tesouro. Essas figuras do
sábio Gautama lembrando estatuetas parecem trazer em si uma
A seguir convido o Príncipe Mussooree a entrar e abro uma
serena bênção, uma sensação de completa paz. Como é artístico
comprida caixa para mostrar-lhe uma preciosa obra de arte
o ritmo de todo o conjunto, como é requintado em matéria de
budista, presente recebido ultimamente de alguém que perma-
pose e forma! Devo confessar que as efígies esculpidas ou
necerá no anonimato. Trata-se de algo que daqui por diante irá
ídolos de bronze Krishna, tão comuns no Industão, deixam-me
acompanhar-me pelo mundo; um cilindro de madeira de oitenta
insensível. Sua figura grotesca não desperta entusiasmo, não
centímetros de comprimento enrolado numa sobrecapa de seda
outorga bênção. No entanto, não padece dúvida de que a men-
amarelada e atado com duas estreitas faixas de seda cor de lacre.
sagem de Krishna foi tão divina como a de Cristo e de que ambas
Com vagar e cuidado desato as faixas e desenrolo o invólucro,
foram tão repassadas de sabedoria como as de Buda. Talvez a
pondo à mostra um quadro de cores brilhantes pintado sobre uma
minha mentalidade moderna, procurando uma simplicidade de
bandeira retangular de seda azul e amarela. Esticada entre o rolo
forma grega e indagando como Sócrates no mercado, encontre
inferior e uma estreita ripa no alto, esta linda representação
mais objetividade intelectual nas palavras despretensiosas do Buda
brilha intensamente, quando a penduro a um prego na parede.
do que na inspirada revelação de Krishna. Porém Buda, infeliz
Meu companheiro examina atentamente a pintura. mente, encarou a existência com exagerada seriedade. Ele poderia
— Isto é coisa de um mosteiro tibetano! — exclama ele e ter arrancado uma página de um livro de certos filósofos hindu^
a seguir inspeciona as costas do quadro. Sete colunas escritas e visto tudo como um sonho, como uma mera e espalhafatosa
com tinta vermelha em caracteres tibetanos confirmam suas decla- agitação, como uma simples onda espumante que não modifica
rações. em nada o aspecto do oceano. Se Buda soubesse rir da vida.
a história religiosa da Ásia teria sido diferente.
Embora o invólucro e o fundo do quadro estejam enegre-
cidos pelo tempo, a parte pintada está brilhante e fresca, com Mas eu preciso reembrulhar o meu tesouro transimalaio t
suas cores alegres, parecendo ter sido feita pela mão do artista guardá-lo com carinho.
há coisa de dois anos. São trinta e oito pequenos retratos do A seguir, o príncipe nepalês prepara suas despedidas
Buda, agradavelmente dispostos em sete linhas retas de alto a Agradeço-lhe a encantadora surpresa e o estímulo intelectual que
baixo. E m cada um deles a Luz da Ásia está sentada em sua de forma tão inesperada recebi através da sua pessoa, depois de
atitude convencional com os pés entrelaçados, mas a colocação entregar-me durante tantas semanas a solilóquios entre as árvores.

1X2
pedras e ravinas. E l e salta para a sela do seu cavalo e, com um
derradeiro aceno, desaparece entre os abetos na trilha ensom-
brada sob o meu bangalô, enfrentando muito ereto os ventos
que sopram com vigor. Sua figura ágil e vigorosa junta-se à
pequena procissão daqueles que vieram e se foram, ao modo das
estrelas que chegam com a noite e se vão com a aurora. O
mundo a que ele pertence reclamou um dos seus, mas algo que
aquele mundo não percebe nem pode perceber se enraíza em seu
coração e cresce em segredo como uma planta delicada que está CAPÍTULO XV
destinada a dar um esplêndido botão.
Minhas Vigílias Noturnas ao Ar Livre — Reflexões
sobre as Estrelas — A Verdade Acerca da Astrologia
— O Mistério de Sírio — Os Planetas são Habitados?
— O Simbolismo do Sol — O Cedro do Himalaia Fala
— Adeus ao meu Bangalô

Os DIAS J Á NÃO passam tão rapidamente quando se está


sozinho uma vez mais. Passo horas arrastadas examinando a
grande variedade de plantas ou curiosas lâmir/as de pedras estria-
das. Olho estudiosamente para os animais da floresta que encon-
tro ou diviso, de tempos em tempos, criaturas que vagueiam
despreocupadas e sem serem caçadas. Transformo-me num obser-
vador do céu, acompanhando com cuidado o deslocamento das
brumas errantes. Escuto o despejar tonitroante das chuvas que
acompanham de hábito as tempestades periódicas, como costu-
mava escutar, nos meus dias de maior sofisticação, os acordes
de uma orquestra sinfónica.
Por vezes ergo-me e ando de um lado para outro como uma
pantera notívaga, pois não sinto nenhuma necessidade de obede-
cer a qualquer programa cronometrado, que é a essência do viver
moderno. Sentado no alto de um matacão, circundado pelo ar
soturno das dez, onze, doze horas da noite ou duas da madru-
gada, percorro com o olhar as constelações desde a de Carneiro
até a de Peixes. .
O mistério dessas luzes piscas, tão desdenhado e desperce-
bido por que dorme confortavelmente com um teto sobre a
cabeça, começa a afetar-me. Volto reiteradamente a contempla-la*
durante a noite. Parecem chispas arrancadas à bigorna da eter-
nidade. Não posso estudá-las com a perícia profissional de um
astrónomo que as espia através de um potente telescópio nem

184
com o ansioso interesse de um navegador antigo que todas as
Então repontam das profundezas da memória as palavras de
noites as observava para saber em que latitude se encontrava.
um velho astrônomo-astrólogo, já desaparecido do nosso mundo
Posso porém especular acerca da sua natureza e, talvez, através
juntamente com seus mapas, cálculos e efemérides: — Antares
de puros devaneios, chegar a um contato ligeiramente clarivi-
está no seu horóscopo em conjunção com o Planeta Saturno
dente com elas.
e acrescentou lentamente, — isto significa cegueira precoce.
Cá estão milhões de mundos vivos e brilhantes dispostos Sua afirmação era verdadeira e a verificação ocorreu muito
sobre a minha cabeça. O homem incapaz de ver que um Poder antes de eu conhecê-lo. Certa manhã as minhas pálpebras fecha-
Superior guia e dirige sua ordeira atividade rítmica deve ser ram-se e o mundo desapareceu do meu olhar. O Sol, as estrelas
intelectualmente cego. O Universo vive e não está morto. Isto e as ruas deixaram de existir para mim. A terra era-me tão
não quer dizer que um Deus na forma de um homem gigantesco inútil como se eu fora um espírito. Mas o que eu perdi então
e venerado guie e dirige as estrelas. A inteligência e força que foi compensado por aquilo que achei: um mundo interior em
acionam as estrelas são inerentes a elas, e constituem-lhe a alma, que os fantasmas tornavam-se realidades. Mal sabia eu que dois
precisamente da mesma forma pela qual a inteligência e a força livros que escreveria mais tarde seriam impressos em Braille para
são inerentes ao corpo humano e constituem a sua alma. Deus que os cegos pudessem lê-los!
não é externo à sua criação; as estrelas não são títeres que ele Quer dizer que acredito na verdade da astrologia? Talvez
manobra com cordéis; e o homem não é um boneco que se opere acredite, mas não creio nos astrólogos. Eles não possuem senão
a distância. um amontoado de meias verdades, verdades reveladas, meras
Entrementes, nossos relógios marcham com o movimento superstições, princípios bem fundados e interpolações sem funda-
dos nossos planetas e dos nossos círculos terrestres em torno do mento. Existe na astrologia o suficiente para proporcionar ao
Senhor. cândido investigador algumas surpresas e existe também o sufi-
ciente para desiludi-lo grandemente depois que sua fé já se houver
Olho de um para outro lado do céu. Ao norte fica o Dragão
firmado. A coisa é incompleta e semicientífica. Para cada pre-
que luze próximo do pólo com um brilho não visto pelos habi- dição acertada sobre a qual se faz grande alarde, existem centenas
tantes das planícies meridionais. Adotado pelos chineses como de outras totalmente erróneas. O sistema hindu é, provavel-
seu emblema nacional há milhares de anos, pictograma adequado mente, mais completo do que o atualmente usado no Ocidente
para a mais antiga civilização do globo, é ele a mais pitoresca e difere deste em detalhes importantes. No entanto, ambos
das constelações setentrionais. Espraiando-se pela borda noroeste possuem importantes lacunas, segredos que se perderam na anti-
dos céus encontra-se a Ursa Maior. No centro do céu fica guidade e, por isso, ambos tornaram-se pouco dignos de confiança
Arcturo, "o Guarda da Ursa": um jorro de luz alaranjada. como guias, embora acertando em pleno de quando em quando
Baixo, a sudoeste está a constelação de Centauro, meio homem entre os muitos erros que cometem. Mas quem é bastante oms-
e meio cavalo. E como um arco distendido, a Via-Láctea varre ciente para indicar a priori onde está certo em suas predições e
o horizonte oriental até terminar no Cruzeiro do Sul, incendiado onde está errado? Não há certeza alguma. O homem prudente
por um brilho não visto por aqueles que moram sob os anuviados agirá com cautela quando se tratar de usar os horóscopos ou,
:éus setentrionais. melhor ainda, afastar-se-á deles por completo e depositara sua
fé, não em falhos astrólogos mas no infalível E u Superior. Fode
O grupo do Escorpião, semelhando uma letra S alongada, haver uma miríade de influências no espaço estelar, mas existe
fica no sul, tendo por companheiro o fulgor do planeta J ú p i t e r , algo que é supremo dentro de cada um de nós. O homem deixará
à sua direita. No meio, descubro uma pequenina estrela averme- então de preocupar-se se Marte entrou em maléfica relação com
lhada, cujo tamanho aparente é no entanto enganador, pois o Sol em seu horóscopo, como aconteceu J^^JT^^
Antares deve ser uma das maiores estrelas do firmamento; da irá aliviar o seu fardo. Deixará também de
mesma forma somos enganados pela magnitude do Sol em con- um trígono em Júpiter lhe promete algum dmheiro em mco
traste com diversas estrelas que na realidade são maiores, mas anos ou uma oposição em Vénus, um divorcio em trts.
parecem menores do que ele.

1HC>
preenderá que uma sábia indiferença é melhor do que uma servil
submissão a todos esses temores e esperanças, pois através dela, da Grande Pirâmide era exatamente 1461, coincidindo com o
número de anos do ciclo de Sothis!
como se estivesse atravessando um portal, ele poderá conquistar
a paz» - :j --^r .. ,
iv w$ À g O outro nome tradicional de Sírio é Estrela Cão. No
entanto, o primeiro símbolo de Sírio entre os eruditos do Egito
Ele sabe que as predições do mais famoso astrólogo podem não era o cão mas sim a girafa. Este animal de pescoço comprido
estar totalmente erradas e, se seguidas, poderão levar à ruína, não possui cordas vocais, não emitindo, portanto, qualquer som;
ao passo que a orientação do divino E u Superior será sempre é, sem a menor dúvida, a mais calada das criaturas do seu porte.
perfeita e só poderá levar a uma maior serenidade, maior sabe- Ademais, é capaz de enxergar em volta sem virar a cabeça ou
doria e maior felicidade. os olhos. E m consequência é o símbolo perfeito dos quatro
deuses que velam pela evolução da humanidade num silêncio de
esfinge. A estrela Sírio está definitivamente relacionada com
esses seres sobre-humanos, os Guardas Silenciosos; e os sábios do
antigo Egito não ignoravam tal relação.
De outra feita meus olhos repousam em Sírio, a mais cinti- Sírio não pertence à multidão do nosso sistema estelar: é
lante das estrelas matutinas, que fura um céu de veludo azul apenas um estranho momentaneamente aproximado de nós, mas,
bem na linha do horizonte. Para mim e para o pesquisador de algum dia, desaparecerá na profundidade do espaço. Os egípcios
observatório, essa estrela é a maior de todas que existem. O não estavam sozinhos no seu conhecimento de Sírio e na sua
astrónomo, no entanto, registra apenas a expressão física da super- veneração por aquela estrela. A maioria das raças antigas tam-
lativa magnitude do seu brilho azulado; eu registro também o bém conhecia e reverenciava essa gloriosa estrela.
surpreendente fulgor e mais uma impressão puramente psíquica. Espiritualmente, porém, ela ainda nos é mais estranha. Os
Os egípcios tinham em tal conta esta linda estrela que a seres que a povoam são infinitamente superiores, sob todos os
pontos de vista, às crituras que habitam a Terra. E m matéria de
chamavam de A Divina Sothis {Sírio), Rainha do Céu. Seu
inteligência, caráter, poder criativo e espiritualidade somos vermes
aparecimento no meio do verão assinala a inundação anual do
que rastejam a seus pés. Os naturais de Sírio possuem poderes
rio Nilo, que irriga toda a extensão do país e traz alimento para
e faculdades que. teremos de esperar ainda algumas eras para
milhões de seres. Os egípcios lhe reservavam, em seus escritos
adquirir. Eles já descobriram a nossa existência, quando ainda
e desenhos, um hieróglifo semelhante àquele que correspondia não sabemos e amiúde não cremos que o mundo das estrelas é
ao seu maior monumento — a figura de um triângulo. H á uma habitado.
outra notável correspondência entre a estrela e a pirâmide. Os
sacerdotes-astrônomos tomavam-na como base para medir as Evolução, involução e devolução são coisas que ainda não
épocas da história universal. Observavam-lhe os sucessivos apare- cessaram com esta pequenina criatura que reina neste planeta
sob a denominação de homem. Seu nome vem da raiz sânscrita,
cimentos num dado lugar entre os poucos minutos que medeiam
manas — pensar! Não me é possível enumerar o imenso número
£ntre o instante em que a sua luz surge e a aurora desponta, e
de anos desde que ele fez a sua primeira aparição neste palco,
anotavam sua posição relativa à Terra e ao Sol, quando seu
mas é perfeitamente óbvio que apenas nos últimos tempos come-
aparecimento coincidia com o soustício de verão. Eles sabiam,
çou a usar sua faculdade de raciocínio e tem ainda muito caminho
através de observação e cálculos, quanto tempo decorreria até
pela frente antes de começar a usá-la em sua plenitude. Se
que a posição se repetisse, dando ao período o nome de Ciclo
algum Gulliver de Sírio fosse atirado a esta terra liliputiana,
de Sothis. T a l época tinha nada menos do que 1461 anos. Assim
encontraria tantas coisas surpreendentes para registrar no seu
o aparecimento de Sírio antecedendo imediatamente o romper do
diário quantas encontrou o seu famoso protótipo da fábula.
dia tornou-se o ponto de partida para o calendário egípcio,
formando a Grande Época do seu ciclo secular. Pois bem, o Aqueles que imaginam que porque o nosso planeta tem sua
número de pedras colocadas em torno da base, nos quatro lados carga de frágil humanidade, nenhum outro planeta poderá ter

188
a sua, traem uma estreiteza de mentalidade digna de uma formiga. Menos ainda posso medir a tremenda distância que nos separa
Assim como a Terra marrom, cujas moléculas compõem parte de algumas estrelas. Decerto um bilhão de quilómetros seria,
da crosta do globo, revoluteia no espaço apenas para dotar as igualmente, uma previsão pessimista. Não posso tampouco contar
formigas de uma habitação, segundo a firme convicção das pró- as infinitas galáxias de nebulosas, mundos, sóis, luas, satélites,
prias formigas, assim também este espaçoso universo repousa asteróides e planetas que preenchem este complexo universo.
grandiosamente no éter com todos os seus habitantes vivos Decerto, uma vez mais, um bilhão seria uma estimativa pes-
concentrados numa única e relativamente microscópica partícula simisllU -"
.^ ^" ' "iío.
chamada Terra, segundo a firme convicção das nossas formigas
humanas. Seria difícil escolher entre essa ilusão e a teoria de Quem é capaz de contemplar reflexivamente esta espantosa
Bernard Shaw de que este nosso planeta é o manicômio do sis- criação entronizada no espaço insondável, sem provar pelo menos
tema solar! os começos de um pasmo e, no máximo, a humildade de dobrar
os joelhos para venerar? Meu espírito desgarra, perde-se no
Medimos a precessão dos equinócios com uma precisão de recândito mistério de tudo isto. . .
frações de grau; calculamos o tempo dos eclipses sem errar um Tudo parece tão remoto, tão etéreo, tão austero. Como
segundo; mas não descobrimos ainda sequer uma das persona- são ridículos, insignificantes, os problemas dos homens colocados
lidades inteligentes que existem em outras partes do universo. em confronto com estes bilhões de olhos lustrosos, tão distantes
Mas, se não as conhecemos, algumas delas nos conhecem, algumas e impessoais!
delas se compadecem de nós e algumas chegam mesmo a nos
O relógio uma vez mais fará a sua ronda e eu uma vez
servir. Uma dessas foi e é o Cristo. Os homens poderão escolher
mais tenho de voltar à minha vigília. Vejo as sentinelas lumi-
aquele dentre os dois verbos que mais lhe agradar, enquanto
nosas esmaecerem suavemente nos céus, como os vi certa vez
aquele que o negam poderão elidi-los; a verdade jamais será
esmaecerem sobre a cabeça da Esfinge Egípcia. Cedo chega a
ameaçada por sua mesquinha arrogância de opinião.
aurora com seus matizes cinzentos de pérola sucedidos por azuis-
E assim volto à minha contemplação noturna dos conglo- -metálicos; consolida-se velozmente e faz entrar o Sol no nosso
merados de estrelas e dos planetas que revolvem em torno do mundo em trevas. A atmosfera está limpa e se ilumina rapida-
Sol, curvando-me ao fascínio noturno que deles jorra gratuita- mente, e eu volto a cabeça para contemplar o orgulho do Hima-
mente. Se Deus não existisse realmente eu adoraria o Sol; se laia, com sua neve e seu silêncio, entre a rubra aurora.
o Sol não existisse eu adoraria a Natureza; e se a Natureza não O sol matutino adornou as alvas neves com flamejantes
existisse eu adoraria as estrelas. Não poderia e não adoraria a plumas de um amarelo-carregado. A linha serrilhada de picos
Lua, essa esfera fria e fantasmal! gelados resplende sobre o cambiante pano de fundo de um céu
Vê -se um bom número de estrelas cadentes neste hemis- turquesa. Os pináculos de neves eternas honram seu encontro
fério tropical. Que tremendo acontecimento desloca a maqui- diário com o ígneo portador da luz. Raios de tremeluzente
naria universal quando um cometa descreve uma trajetória viva coloração infiltram-se nos vales e por entre os elevados picos,
no céu noturno! manchando tudo de um rico rosado. Neve pulverizada sobe em
torrentes para o céu, do alto desses picos.
Desperto certa noite para espiar as últimas estrelas espa-
Minhas reflexões finais desertam das estrelas desaparecidas
lhadas pelo céu e contemplar a chegada da aurora. O rosto da
e se voltam para o Sol que chega. Este, em quase todas as
Lua, rebocado de branco como um rosto de mulher, mantém
religiões primitivas surge como um símbolo divino, como a marca
sua vigília sobre a minha própria vigília. Meu assento sobre o
de Deus nos céus para que todos a vejam. Sua aparição e desapa-
matacão é banhado pelas irradiações despendidas por esses grupos
rição diárias exemplificavam para os antigos a própria morte e
que cintilam sobre o seu negro pano de fundo. Não sei calcular
reencarnação do universo. Tanto o Sol quanto a Natureza eram
a velocidade com que sua luz se propaga até chegar a estas borbu-
imortais, já se sabia. E ao Sol juntavam frequentemente o loto.
lhas himalaias na pele da nossa própria estrela. Decerto duzentos
Tantos egípcios como hindus, as tecas como atlantes, conside-
mil quilómetros por segundo seria um cálculo pessimista.

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ravam o loto como a sua flor sagrada. Essa encantadora flor metera entre as nuvens durante uma ou duas horas, como que
fecha suas pétalas à noite e torna a abri-las pela manhã; uma para recordar ao mundo a sua existência, desaparecendo a seguir.
vez mais simbolizando a morte e o renascimento da força vital. As chuvas recomeçarão a cair torrencialmente e me manterão um
Os antigos não se cansavam de desenhá-la nas paredes dos seus virtual prisioneiro em meu quarto, dia e noite. Um muro líquido
templos e nos seus papiros. será a barreira entre mim e a liberdade.
O paralelo entre o Sol e o loto vai ainda mais longe. O Quão oportuna, então, é a ocasião que se me oferece agora,
Sol banha com a mesma imparcialidade os piores e mais infectos por cortesia das autoridades de Tehri-Garhwal, de mudar-me
lugares; assim também o loto cresce amiúde em lagoas barrentas para o interior e instalar-me melhormente numa grande casa nas
e charcos imundos. imediações do Palácio Pratapnagar! Quão bondoso foi o destino
Poderemos ver nisto precisamente aquilo que viam os em arranjar-me melhor abrigo no exato momento em que estou
antigos: o divino E u Superior no homem mantém-se imaculado, precisando disso! Pois, já que terei de passar o verão dentro de
ainda que este desça às profundezas do materialismo. casa como um prisioneiro das monções, melhor será que o faça
Agora toda a região do Himalaia está iluminada e inteira- numa boa casa, onde as condições externas não me perturbem e
mente à vista. Executo minha devota prostração matutina diante a procura de alimentos não me preocupe.
da Luz, primeira manifestação de Deus no mundo físico, e a N ã o haverá outras alterações no meu modo de viver. Conti-
seguir volto para casa. nuarei com as minhas meditações como antes. Não haverá alte-
rações na minha liberdade e solidão. Minha solidão, mais do
que qualquer outra coisa, será mais completa, pois visitante
algum ousará cruzar estas montanhas de Pratapnagar durante a
estação chuvosa apenas para me ver. Estarei portanto, mais
Se o relógio tem que fazer a sua ronda, também as folhas inacessível do que nunca.
do calendário têm que fazer a sua. O tempo continua sua marcha
O Palácio Pratapnagar está ancorado numa altaneira monta-
de sempre, até mesmo aqui no Himalaia, e as semanas o acompa-
nha, numa região tão solitária como a minha atual morada. Ele
nham. A índia ressequida aguarda o impiedoso dilúvio que o
é pouco usado, pois há outros palácios mais bem localizados ao
céu acumula durante nove meses a fim de liberá-lo em três.
sul de Tehri e em Narendranagar. Garantem-me que as regiões
Quando muito prolongadas, as monções podem destruir as colhei-
circunvizinhas são extremamente lindas, mas, infelizmente,
tas e arruinar os camponeses, mas, quando muito ligeiras, podem
minhas andanças terão por força de ser interrompidas com a che-
causar precisamente o mesmo efeito. O não surgimento de uma
gada das monções. Terão de ser continuadas na mente, por entre
monção pode gerar a fome em milhares de vilarejos. Com que
os picos das ideias elevadas e os vales das suaves meditações.
ansiedade os observadores têm aguardado os maciços exércitos
Seja como for, sinto-me cada vez menos inclinado a sair de casa.
de nuvens negras e carrancudas que pressagiam essas deliciosas
De acordo com os padrões da Ioga já me exercitei mais do que
e temíveis monções! Algumas partes da índia já estão sob os
o suficiente durante esta minha estada. Quero explorar menos
seus efeitos. O Himalaia Oriental já recebeu seu pantagruélico
o mundo exterior, quero estar tranquilo e explorai mais o mundo
batismo, e eu aguardo diariamente o melancólico destino do
interior. Assim, durante as monções, minha nova casa em Pra-
Himalaia Central. A primeira prelibação que tive não foi das
tapnagar, com suas acomodações superiores, servirá melhor a
mais agradáveis.
este propósito do que o sombrio bangalô na floresta que ora
A frhegada das monções mudará o caráter geral da minha ocupo. ~ í 'S
vida. A maior parte da minha permanência nestas montanhas
terá, de agora em diante, de ser feita portas a dentro. Breve Portanto agora, pouco depois do nascer do Sol, tenho de
me tornarei um escravo resignado das tremendas chuvas, dos dar um último adeus ao cedro do Himalaia, que durante tanto
ventos tempestuosos e furiosas tempestades. Haverá alguns tempo foi para mim um zeloso guardião e um bondoso, conquanto
curtos intervalos, sem dúvida, em que um sol tímido se intro- aristocrático, mentor. Minhas conversações com ele têm de ter-

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minar. Minha meditação sob a sua galhada espinhuda chegarão
ao seu termo. quais se inclinam como que a chorar. Sim, também eu sinto
vontade de chorar.
Bengala em punho, subo a agreste elevação cujo cimo ilhado
por árvores abriga o meu refúgio. Não é agradável esta minha Tens alguma mensagem para mim, ó cedro?
missão de despedida e não sei como o cedro receberá esta minha O intenso silêncio, a paz imperturbável prolonga-se ainda
inesperada deserção. por um instante. Afinal é quebrada, não por um som, porém,
mas por um pensamento que flutua na atmosfera e entra no meu
Quando afinal saio da espinhosa vegetação rasteira e dos cérebro.
pedregulhos da encosta e atravesso o espaço aberto na direção
— Vieste a mim de um mundo que não conheço e não
do refúgio, faço uma parada para retomar fôlego. Um rápido
compreendo. Mais cedo ou mais tarde, eu sabia que esse mundo
olhar para o meu cedro, uma carranca acusadora em sua face
te chamaria de volta. Por que haveria eu de impedir-te de ir?
musgosa, um suspiro melancólico de seus galhos rendilhados, e
Não terei aprendido a viver só? Não terei encontrado na minha
percebo que ele está lendo meus pensamentos. Por que terá o solidão a força para suportar todas as coisas... até mesmo os
semblante tão triste? Ele sabe. Curvo a cabeça, envergonhado. açoites dos ventos uivantes e a fúria das destruidoras tempes-
Agacho-me sobre as folhas, no local de costume, sempre a tades? Onde obtive este poder de resistência? Arranquei-o do
desviar o olhar da árvore. Sinto o sangue afluindo-me ao rosto. meu próprio coração, onde a princípio se achava adormecido.
Depois fico triste. A dor da partida me afeta. Agora não temo coisa alguma. . . nem mesmo a morte, que não
De repente, porém, ergo a vista. Perdoa-me, meu cedro! pode andar muito longe. Aprendi a não depender de nenhuma
Assim é a vida, tu sabes. Conhecimento, amizade, adeus. A ajuda, a não ser da minha própria. Esta, meu jovem amigo, é
caravana tem que seguir sua rota sinuosa através do deserto da a minha resposta para ti. Sê autodependente. Onde quer que
4

existência terrena; ela não pára senão por uma noite. No entanto, estejas, permanece interiormente um eremita. Então teu mundo
é mais doce haver erigido aquilo que será, para mim, uma bela não poderá enfraquecer-te. Não deixes tua tranquilidade aqui
recordação do que nada haver feito. onde a encontraste./ Leva-a contigo para essa vida distante cuja
agitação raro me chega, conserva-a como o mais caro dos teus
Caro amigo cedro! Assim é a transitoriedade da vida. bens e então, destemido, poderás permitir que todas as tempes-
Precisamos sempre partir; encontramos a amizade e o amor tades rujam em torno de ti. /Lembra-te sempre de que o teu
apenas para perdê-los logo adiante. No entanto, nossos espíritos ser deriva do c é u y Dou-te a minha paz.
não se separarão; eles poderão voar pelo espaço, atraídos um ao
Estas foram as derradeiras palavras que ouvi do cedro.
outro pelo amor.
Pois com o término do seu telepático sussurro passei insensi-
Há no ar uma estranha e sorumbática quietação. velmente para uma condição mais profunda. A paz externa
A seguir uma borboleta, inseto muito comum e muito lindo filtra-se para dentro de mim. Rápido, transformo-me como que
nestas altas paragens, esvoaça em torno da minha cabeça e pousa num homem hipnotizado e caio num semitranse. Sou incapaz de
sobre a samambaia que pende do cedro como barbas. A juven- mexer um dedo, muito menos um membro e permaneço preso
tude e a beleza são assim colocadas em marcante contraste com ao chão como uma árvore.
a idade e o decoro. A maravilhosa criatura alada, muito maior Nenhum esforço para meditar partiu de mim, nenhuma
que as suas parentas europeias, cola-se (trata-se decerto de uma tentativa de refrear as divagações do pensamento. Resvalo
de nobre estirpe) à planta, fecha as asas de finíssimo lavor e se apenas para este estado de encantamento tão fácil e irresistivel-
acomoda numa posição fixa. Terá ela vindo enfeitar um pouco a mente como um doente de hospital que cai no sono sob o efeito
minha desgraciosa partida? de algum poderoso anestésico. Sinto-me tão impotente como
A quietude esmagadora nos envolve, dobra e cinge todo o um homem drogado, mas com esta diferença: tenho plena
cenário. consciência do ambiente físico. Sinto que a minha mente está
sendo impelida para o seu interior, irresistível e poderosamente
"' . N o
8
t o
de orvalho que continuam pendentes, como
a s o t a s

atraída por alguma força magnética interior.


lágrimas, das pontas dos espinhos dos galhos do velho cedro, os

194
Que me fizeste, ó cedro!
Todos os pensamentos estão parados como uma lâmpada
num lugar sem vento. Minha mente está tão tranquila como a
ravina a meus pés.
Não consigo abrir nem fechar minhas pálpebras semicerradas,
nem libertar-me deste meio transe; também não o desejo, tão
agradável é o que estou sentindo.
CAPÍTULO X V I
É uma experiência serena e bela, um extático devaneio,
tão intenso que não pode ser devidamente descrito. Descubro
de novo que a nossa existência está encerrada em divindade. Parto Novamente a Camio — Maravilhoso Panorama
Todas as palavras simplesmente a sugerem, tocam-lhe a franja no Estado de Tehri — Minha Viagem Através de
do vestuário. Para descrevê-la com precisão seria preciso escrever Cristas e Trilhas Montesas — Atravessando as Florestas
como um cientista e analisar exaustivamente; o processo analítico- na Escuridão — Chego a Pratapnagar
-científico transforma apenas o fogo vivo em cinza morta; talvez,
no entanto, até as próprias cinzas sejam benvindas num mundo
em que a beleza etérea é remota e rara. SERIA REALMENTE incorreto dizer-se que se monta um
Dentro do círculo da imobilidade interior, minha felicidade cavalo através do Himalaia; senta-se apenas na sela e deixa-se
torna-se perfeita e completa. que o animal caminhe lentamente, obedecendo a um ritmo moroso
Quanto tempo permaneci assim não sei, embora saiba que imposto por ele próprio. Cavalgar ao longo destes caminhos
foi menos de meia hora. O E u Superior, desgraçadamente, tanto íngremes e estreitos recortados na face da montanha em marcha
ingressa na mente como a abandona. Apenas o super-homem é razoável seria cavalgar abruptamente na direção da borda exterior
capaz de permanecer indefinidamente sob o seu domínio. Ergo- da cordilheira e entrar num espaço sem trilhas que leva à desen-
-me, relutante. carnação. Ademais deste perigo extremamente óbvio, há algumas
dificuldades de pequena monta em arriscar-se a um trote mais
É o fim. Abeiro-me do rochedo e desço com mil cuidados rápido, quanto mais a um galope nos aclives e declives, nas
até o tronco do cedro, agarrando-me com ambas as mãos às pedras contínuas curvas fechadas e superfícies ásperas das trilhas que
e às raízes. Arranco um pequeno pedaço de casca e volto ao por vezes se encapelam como as ondas do oceano.
cimo. Este será meu souvenir, minha eterna lembrança destes
Durante cerca de mil e duzentos metros meu caminho se
silenciosos domínios do Himalaia.
faz através da floresta; depois saio novamente ao ar livre. Posso
Um último olhar para o refúgio, incrustado no seu pano- ver agora a trilha espiralada subir pela cordilheira como uma fita
rama de elevados picos e silenciosos vales, e giro nos calcanhares. acinzentada até o alto de um pico, desaparecer depois adiante da
No bangalô encontro os carregadores cules à minha espera, margem, a seguir reaparecer e mergulhar para o fundo, fazendo
a bagagem pronta para ser colocada nas suas costas. Também um desvio em forma de serpentina em torno dos três lados de
um cavalo tordilho muito forte de membros, com uma testa ampla um estreito vale e por fim contornar uma curva para sempre.
e saliente, grossos joelhos e jarretes e um esplêndido brilho na Meus cules já se perderam de vista na floresta e só voltarei
pelagem. Não há mais nada por que esperar. a vê-los no dia seguinte. A viagem para Pratapnagar requer dois
Monto na sela, ajeito os pés nos estribos, apanho as rédeas dias, desde que se queira fazê-la com certo grau de conforto,
e inicio a minha viagem pelas montanhas em direção da minha mas tenciono cobrir todo o trajeto em um só dia, mesmo que
nova morada. para tanto tenha que chegar depois de meia-noite.
Neste país esparsamente povoado, onde se pode viajar quilo
metros e quilómetros sem encontrar ninguém, é uma sorte não

1%
haver a possibilidade de perder-me, embora não deixe de ter Passamos por um cenário que não cessa de variar, subindo
comigo um mapa. Não há encruzilhadas para nos confundir, morros e descendo ladeiras, contornando cumes e picos, atraves-
atalhos para nos distrair a atenção e letreiros a serem examinados. sando escarpas rochosas e pequenos vales arborizados, entrando
Só se pode ir para frente ou para trás; não há outra escolha, a e saindo de gargantas, vales e ravinas, sempre beirando preci-
menos que se queira despenhar até o fundo da ravina! pícios. Carreiras e mais carreiras de cristas, que recortam todo
Cavalgo a manhã toda, notando com alívio que as brumas este país, erguem-se mais além, seus cabeços erguidos como
matutinas levantaram por completo e que o céu promete um fieiras de ondas. Tudo se une e mescla para formar a paisagem
excelente dia. A longa e laboriosa subida na direção dos picos do Himalaia. Magnífica sensação, esta, de estar-se a sós com a
chega ao seu fim e o cavalo pára de ofegar. A esta altura da Natureza em seu esplendor mais bravio, que é quase intoxicante
viagem a vista da paisagem, tanto próxima quanto distante, e na elevação que dá aos nossos pensamentos, desejos e ambições.
magnificamente ampla e bem definida contra o horizonte. Vejo Pois parece que se extrai um poder destas fortes montanhas de
uma vasta extensão da barreira himalaia, desde as baixas planícies granito, um magnetismo que fortalece a vontade e torna menos
da índia, à direita, até a fronteira bravia em que o Tibete e o intransponíveis as barreiras que entravam a vida de todos os
Estado de Tehri-Garhwal se encontram, à esquerda. Quase todas homens. E é assim que deve ser, porque a própria Natureza
as tonalidades do arco-íris estão aqui, desde o branco absoluto deve possuir e possui uma aura, uma atmosfera mental, tanto
quanto o homem. Quem tem alguma sensibilidade percebe essa
de uma adularia até o violeta de um espinélio, e do azul-carregado
aura, absorve-a e, consequentemente, é por ela influenciado.
de um lápis-lazúli até o verde-oliva de um crisoberilo. Tudo é
Registro meu testemunho não como um poeta, mas como um
radiante aos raios verticais do sol do meio-dia que se despejam
cientista. Onde poderemos encontrar uma manifestação mais
com força sobre nós dois. Progredimos por sobre o cascalho, poderosa dessa aura, reflito eu, do que no Himalaia, uma das
a terra solta e as lâminas de rocha tombadas que se misturam supremas tentativas da Natureza para expressar-se em escala
para formar a trilha e seguimos montanhas abaixo numa marcha ciclópica? Não é sem razão que os deuses e numerosas divin-
um tanto mais rápida. dades inferiores estão ligados a este lugar.
Depois de cinco horas, sinto-me farto de sela e desmonto. Passo através de uma densa floresta de cedros do Himalaia,
Encontro-me numa tórrida região, de estéreis elevações e rochas que me fazem pensar no abandonado amigo que deixei no refúgio.
avermelhadas e pedras gredosas, que me recorda curiosamente o Encontrar-nos-emos novamente?
árido Vale dos Túmulos dos Mortos no Egito setentrional. A t é
A luz do sol vara a folhagem e salpica o chão de luz aqui
aqui encontrei apenas dois viajantes: um homem voltando a pé
e acolá. Pendões de musgo pendem das árvores eretas como
de uma peregrinação a Gangotri, que me parece ferido, cansado,
mastros. Aqui e ali os nodosos galhos de um carvalho, rei da
ligeiramente doente, mas muito determinado, e um camponês
flora, quebram a uniformidade do cenário.
da montanha, semivestido, que se coloca respeitosamente de lado
para que eu passe. Troco algumas palavras com o primeiro Acompanho o flanco de um vale e depois entro numa outra
homem antes de nos separarmos. O segundo é obviamente uma região selvagem e árida. As subidas e descidas às vezes são aqui
alma simples que, a despeito da sua extrema pobreza, poderia demasiado íngremes e eu prefiro descer do cavalo de quando em
dar aos ladinos habitantes das cidades algumas lições em matéria quando, ao invés de rolar com ele pela beirada do precipício.
de honestidade e honradez. Os quilómetros vão ficando para trás. Tenho confiança em
que a viagem estará terminada antes da meia-noite, embora minha
Sento-me sobre uma lasca de rocha plana ao lado da estrada confiança não passe de adivinhação, pois ignoro por completo ab
e abro minha garrafa térmica para o inevitável gole de chá. No condições que ainda me esperam no restante do dia.
pequeno alforje encontro alimentos sólidos, os quais partilho,
como e devido com o cavalo. Durante alguns minutos estiro Por fim, quando o Sol começa a declinar e tanto montador
os membros sobre a pedra e depois, refrescado, salto para a sela quanto montada sentem-se muito famintos, sedentos e cans«do|
novamente e saio a trote. decido fazer uma segunda e última parada para descansar A
vista de um riacho borbulhante e não poluído emergindo das turamento e vendagem. A Natureza também tem um relatório
paredes do rochedo à minha esquerda é o que realmente preci- a apresentar. Apenas, não vem ele datilografado em folhas de
pita a minha decisão. O cavalo estica avidamente o pescoço na papel; vem com o esclarecedor lampejo da intuição que surge
direção da poça de água azulada no terreno^ sob o fio d'água e não se sabe de onde, quando se faz uma penitente volta aos seus
ingere uma grande quantidade. E u também apanho algumas segregados e silenciosos pagos.
xícaras do líquido gorgolejante, que possui um frescor dos mais
Uma vez mais ponho-me a caminho e agora tenho pela
agradáveis. Depois abro o alforje e retiro dele todo o alimento frente uma íngreme subida. A maior parte da superfície está
sólido para a derradeira refeição, que, uma vez mais, partilho juncada de pedregulhos soltos e lascas de rochas quebradas. O
com o animal, cuja docilidade (e inteligência) encheu-me de cavalo pisa com mais cautela e parece ter medo de escorregar
satisfação. neste solo irregular durante os seus ingentes esforços para atingir
o topo da encosta.
Não faltam vestígios dos fortes terremotos que repetida-
mente castigaram esta região. Fissuras comprobatórias mos-
É agradável repousar uma vez mais no solo fragrante e reco- tram-se logo a um olho observador.
berto de flores, ao invés de estar no lombo do cavalo. Contemplo Certa noite, faz quase uma semana, senti um choque de
o Sol espargir uma luz cor de abricó sobre o mundo. O céu intensidade moderada, que durou cerca de trinta segundos, fazer
começa a mudar parcialmente de um azul-profundo para um rosa- vibrar meu corpo durante uma meditação.
-delicado com o por do Sol. Chegamos à orla de uma grande bacia natural em cujas
plácidas e circulares profundidades repousam uns tantos vilarejos.
Em algum lugar das vizinhanças um cuco entona fielmente
No lado oposto uma aldeola adere como um ninho ao flanco de
o seu doce cântico diário. Parece vir uma resposta no delicado
uma montanha menos escarpada. As casas parecem miniaturas
cantar de uma cotovia. Abaixo-me e toco numa florinha silvestre,
de casas de bonecas.
uma campainha azul, que cresce numa fenda entre as pedras, e
inalo o seu aroma muito puro e fresco. Nos lugares menos pro- Desde o vale até o alto, até os cumes nevados, toda a paisa-
gem está banhada por uma luz rósea, à qual se sucedem o rubi
váveis encontram-se essas plantas silvestres agarrando-se a fendas
e o laranja, no último fulgir do Sol à boca da noite. Aqui e ali
rochosas para viver. Até mesmo rododendros avinhados e prima-
o solo se enfeita de florinhas silvestres. Um rebanho de cabras
veras amarelas florescem entre as neves. É extraordinário como
pretas surge balindo atrás de mim e coloco o cavalo junto à
as flores brotam nas elevadíssimas altitudes do Himalaia.
margem interna do caminho para lhe dar passagem. O pastor,
Extasio-me ante a grandiosidade e a beleza que me circundam evidentemente, o está levando de volta de alguma pastagem em
e faço um humilde ato de graças por tudo. A solidão é absoluta algum ponto do flanco da montanha. Ele está com as pernas
e possui uma extrordinária qualidade calmante. O Himalaia é nuas até quase as coxas e enverga uma camisa solta coberta por
tão repousante que um cansado magnata poderia muito bem uma jaqueta rota. Na cabeça tem um chapéu preto de copa acha-
trocar seus itinerários uma vez e procurá-lo, quando estivesse tada, colocado de viés, como o quépi de um soldado escocês ou
interessado numa cura para os seus nervos combalidos. É bom de um guerreiro gurca. Seu rosto tostado e pitoresco parece de
e necessário afastar-se das pessoas em determinadas ocasiões, boa índole e ele me saúda respeitosamente quando se aproxima
colocar três mil metros de montanha entre a gente e os seus de mim.
corpos inquietos e desassossegados. Esses dias de fuga não são Deixei que o rebanho passasse por mim porque deparei com
desperdiçados, mesmo no caso dos mais operosos empresários; uma pequena aldeola a apenas cem metros de distância e quero
pois trazem consigo novos pontos de vista, novas perspectivas ver os animais serem colocados nos seus abrigos para passar a
e renovada inspiração. A Natureza pode às vezes ser tão boa noite. Dentro de poucos minutos chego à coleção de meia dúzia
como qualquer perito em eficiência para ajudar um cansado de casas e uns poucos galpões sobre uma estreita clareil*. Uma
diretor peneirar simplificar seus problemas de direção, manufa-
e

200
das casas está encarapitada de forma um tanto precária sobre a
própria encosta do rochedo. As cabras são recolhidas, enquanto Chegamos ao fundo do vale sem contratempos e na cabeça
da ponte um cavalariço vem ao meu encontro. Ele se encarrega
os habitantes da aldeola vêm saudar-me. Detenho meu cavalo e
da minha suarenta e ofegante montada e dá-me em troca um
compro a um deles uma boa quantidade de leite. Estes monta-
alazão chocolate de aspecto muito sólido, que me parece limpo,
nheses apreciam muito o apetitoso líquido. Perguntam-me para
descansado e forte.
onde vou e quando lhes falo em Pratapnagar aconselham-me a
me apressar pois ainda terei pela frente uma tremenda descida e Faço um pouco de cera sobre a ponte de construção simples
uma subida igualmente tremenda. e me quedo a observar a correnteza esbranquiçada pela espuma
que passa por mim. Mercadores, meio hindus, meio tibetanos,
O conselho é oportuno. Os raios do Sol estão se tornando
atravessam este local vindo de regiões mais altas com merca-
cada vez mais fracos. Esporei o cavalo e faço-o estugar o passo. dorias do Tibete, geralmente sal e bórax e levam de volta cereais
Depois de cavalgar dois quilómetros ao longo do alto da serra e roupas. Muitos sinos estão presos aos seus animais de carga,
entro num vale profundo, a respeito do qual me haviam preve- amiúde carneiros e cabras, cada um deles carregado de pequenos
nido. O caminho se enrosca através de declives recobertos de cestos duplos. Cinquenta metros mais acima lampeja uma queda
grama cor de esmeralda até o fundo — coisa de alguns mil d'água, onde a correnteza ruge e esborrifa como uma cascata,
metros. A l i diviso uma tira acinzentada que se distende por ao entrar em combate com as maciças rochas e depois corre,
todo o vale, tão longe quanto a vista alcança. É um rio, que vitoriosa, entre as suas fileiras. O ruído da queda num nível
identifico pelo meu mapa como sendo o Bhagirathi. A corrente mais baixo parece os gritos de um exército invasor tomando de
provém de uma geleira a quatro mil metros de altura, adiante de assalto uma capital rendida.
Gangotri, perto da fronteira tibetana e é na realidade o nasce-
Antes de mergulhar nos rápidos o Bhagirathi flui através
douro do Ganges, pois junta suas águas às de outro rio antes de
de uma estreita garganta cujas paredes recobertas de verde se
sair afinal do Himalaia; e as águas combinadas recebem a seguir
me antepõem como um par de enormes fortalezas. São sombrias
o nome de Ganges. Terei de cruzar este rio a fim de ganhar
e implacáveis a despeito do seu verde e nenhum pé humano seria
a margem oposta; a comprida e estreita ponte que o cobre de
capaz de lhes escalar as faces imponentes e perpendiculares.
margem a margem mal pode ser vista daqui; aos meus olhos n ã o
Que massas de neves flutuantes e geleiras derretidas se
passa de uma fina linha preta.
mesclaram para formar estas águas geladas que me correm sob
— O Ganges cai do pé de Vishnu como o delgado talo de os pés? Que titânicas cargas de avalanchas, gelo e minerais desa-
uma flor de loto — diz um antigo poeta. pareceram, carregadas nas suas profundezas? A rápida torrente
Além das águas ergue-se uma precipitosa cordilheira, reco- do Ganges tem de fluir ainda através de toda a largura deste
berta de florestas, que se ergue a muitos mil metros de altura. subcontinente indiano até as sete bocas do Hoogly, uma distância
E m algum lugar do alto da cordilheira há um brilho alvejando de mais de mil e quinhentos quilómetros, e alargar-se até que
aos raios oblíquos do Sol, que eu decido ser o Palácio Pratapnagar, suas margens estejam bem longe uma da outra. Quem senão o
próximo do qual está a casa que será o meu futuro lar. inexaurível Himalaia poderá alimentar as sedentas planuras?
A última etapa da minha viagem será a mais difícil, pois a Passará muito tempo até que eu esqueça as torrentes dan-
penosa e alentada subida além do rio será impossível para a minha çantes desta região, se é que vou esquecê-las algum dia.
exausta montada. Felizmente, uma troca de montarias me Viro as costas aos redemoinhos e bramidos do rio e monto
aguarda na ponte. no cavalo que me aguarda. Dirijo-lhe os passos no sentido da>
alturas proibidas que nos esperam e saio de novo em busca de
Fazemos a descida em tempo recorde, pois o caminho está
mais um lar provisório.
muito liso embora tenha muitas curvas. Duas ou três vezes
tenho que apear e caminhar ao lado do meu cavalo em declives O caminho aqui é um pouco mais largo, com uma parede
demasiado perigosos, mas, de modo geral, corro agora riscos cheia de fissuras à esquerda e o rio à direita, na primeira parte
que não havia corrido antes. T a l é a sedução da vinda ao lar! da sua extensão. A superfície também é superior. Depois

202
torna-se mais íngreme, obrigando o cavalo a avançar com passadas
O crepúsculo afinal desfaz-se em prctura, a qual dá formas
lentas e laboriosas, a despeito da sua força. Sempre que chega-
fantásticas às árvores dos rochedos. Não obstante, o cavalo segue
mos a uma curva o animal pára sem que seja solicitado a fazê-lo
com firmeza e não hesita um segundo sequer, pois esta trilha é
e resfolega um minuto antes de prosseguir. No entanto, o declive
sua velha conhecida. Tenho, obrigatoriamente, que confiar-lhe a
torna-se ainda mais escarpado até que, num ponto em que os
minha vida de agora em diante, pois qualquer queda da borda
autores da trilha parecem ter-se aplacado, transforma-se num deste caminho nos levaria ligeiro para uma existência imaterial.
ziguezague sobre a face da montanha, tornando assim a subida Estranha sensação, esta, de total dependência a uma critura de
menos penosa, duplicando embora a distância a ser percorrida. quatro patas; e cria um extraordinário sentimento de união e
Multidões de pedregulhos e fragmentos de rochas cobrem camaradagem entre nós. Dou-lhe um tapinha de incentivo no
o caminho. A maior parte apresenta uma linda coloração violeta. pescoço e ele cava seu caminho estrada acima, através da noite
Uma densa vegetação de floresta começa a reaparecer na estrada. sem estrelas nem luar.
Árvores vestem a encosta. Alguns galhos por vezes vergam sobre
Mas é preciso que a gente se desloque através de toda esta
a trilha forçando-me a afastar as folhas com as mãos. Uns poucos
região himalaia com confiança, pois se está sempre à mercê da
abetos pintam de verde as alturas marrons e os pinheiros consti-
Natureza. Todos os anos, nesta estação, peregrinos perdem suas
tuem a maior parte da vegetação. Depois passo por uma avenida
vidas em desabamentos que de supetão rasgam ao meio as trilhas
de cactos, que crescem até o tamanho de pequenas árvores. Suas
e precipitam tudo no espaço. Dentro de uma hora as primeiras
folhas parecem afiadas espadas brandidas no ar.
estrelas aparecem e a sua pálida luz faz com que a encosta se
•A.
torne ligeiramente visível. Passamos um grupo de enormes mata-
cães, que estão postados perto de uma curva do caminho como
* »

I •

gigantescos marcos miliários. Que rebelião planetária os terá


apartado do corpo principal da montanha e colocado, como um
Agora, porém, o por do Sol chega ao fim e a última luz
fragmentário e diminuto Stonehenge, a equilibrar-se de forma
torna-se gradualmente mais fraca; compreendo que é preciso
tão precária a tantos mil metros acima do nível do mar?
apressar-me. O caminho se alarga por alguns metros a fim de
acolher uma dúzia de casas construídas às suas margens. Os Ao avançar estico o pescoço e tento distinguir algo do
montanheses estão reflexivamente acocorados diante de suas horizonte iluminado à minha frente. A denteada crista da cordi-
portas, mascando casca de coco, esse estranho sucedâneo hindu lheira, que é a Canaã das minhas andanças nestas paragens selva-
do tabaco. Atrás de um deles está a mulher dando de mamar gens, mostra-se não muito longe, mas sei como as distâncias são
a um bebe. É uma mulher com traços predominantemente mongó- enganosas quando se tem que andar em ziguezague. Uma densa
licos e, sem dúvida alguma, mestiça de tibetano por nascimento. floresta, que sei conter uma quantidade de criaturas notívagas
Ela adornou o nariz com uma argola de prata e os tornozelos em seu seio, parece vir logo adiante.
com braceletes de prata. Suas pálpebras estão pintadas com anti- Um minúsculo fragmento de Lua aparece. A escuridão o
mónio preto. Tem um rosto sério e calmo e usa um sari cor-de- desafia com um poder triunfante. Não haverá auxílio por aquele
-rosa em torno do corpo. lado, então.
Tendo colocar o cavalo em ritmo mais acelerado, mas o Tento esquecer o que me rodeia e deixo que o meu cérebro
animal já está dando tudo de si. A trilha em ziguezague que resvale para tópicos os mais desconexos, enquanto, sentado na
sobe a montanha dá-nos ainda nove ou dez quilómetros para sela, empunho mecanicamente as rédeas. Alguém que eu conheço
percorrer com a escuridão já nos nossos calcanhares. Não será está no seu leito de morte na Inglaterra e antes que outra lua
mais prudente nos abrigarmos numa destas cabanas para passar apareça seu espírito encontrará também a sua Canaã A pequena
a noite do que galgar subidas desconhecidas na escuridão da caneta que ela me deu certa vez será seu monumento, e para
noite? Nao, a viagem tem de ser completada ainda hoje, tem mim melhor do que qualquer obra esculpida em granito. Mais
de estar terminada antes que eu desmonte pela última vez. perto daqui, um homem dos círculos gowetnamentlll de Bagdi,

204
que dirigem os destinos dos mais recentes reinos árabes, está, muito distante de algum animal selvagem em sua ronda noturna.
de uma forma menos cega, cumprindo uma predição de futuros Acarinho-lhe o focinho para reconfortá-lo e o convenço a transpor
perigos e futura força, que eu involuntariamente proferi diante este último trecho da viagem com maior rapidez, mas sinto-me
da fachada formalizada de um edifício da Legação. Minha afeição aborrecido comigo mesmo por não me haver lembrado de retirar
voa em sua direção para protegê-lo; ele é o 'mais bravo dos bra-
1
uma lanterna elétrica da bagagem, antes de entregá-la aos cules.
vos", conforme o Marechal Ney foi chamado nos tempos de Napo- Estes, sem sombra de dúvida, estão ferrados no sono em alguma
leão, e, em última instância, colocará todos os seus inimigos a cabana e não aparecerão antes do amanhecer.
seus pés.
Não há nada como atirar um raio de luz elétrica sobre os
A trilha espiralada segue seu laborioso caminho na direção olhos desprevenidos de um monstro feroz. O medo passará então
do alto. Os quilómetros arrastam-se com lentidão sob os cascos para o outro lado. A pobre fera gritará em sua língua pela sua
dos cavalos. A comprida e solitária estrada parece não ter fim, mãe e sairá correndo em disparada! Ademais, este método nos
quando entramos na sombria floresta. Uma escuridão atroz e poupa o incómodo de tirar uma licença de caça — coisa mais
impenetrável nos envolve imediatamente. Até mesmo a réstea difícil na índia do que em qualquer outro país. Até aqui todos
de luz que vem do céu estrelado é cortada pelo denso telhado os meus tiros limitaram-se a uma câmera durante o dia e uma
de galhos entrelaçados sob o qual caminhamos. Está tão escuro lanterna à noite. Os resultados foram tão formidáveis que não
que já não posso ver o pescoço do cavalo. me pejo de recomendar essas armas a todos os caçadores de feras
Para piorar ainda mais as coisas o aclive torna-se inesperada de grande porte!
e assustadoramente mais íngreme. Minha montada pára a todo Por fim o esforço de viajar através de uma floresta escura
instante para tomar fôlego, mas logo reenceta sua marcha. Assim como breu chega ao fim. Emergimos subitamente de sob as
é que ela moureja, resfolega e se consome ao máximo. árvores e nos encontramos no próprio topo da cordilheira. As
Mais uma meia hora e nova dificuldade se apresenta. A estrelas, com sua luz familiar e amiga, voltam a mostrar seus
superfície da trilha neste ponto foi toscamente pavimentada com olhos. O terreno parece relativamente plano. Trinta ou quarenta
metros adiante surge o contorno de um prédio e a luz amarelada
pedras, sem dúvida a título de defesa contra as chuvas das
de um lampião balança na sua fachada. Concluo, triunfante de
monções que poderiam apagá-la por completo. Evidentemente,
alívio, que estamos em Pratapnagar.
estamos agora perto de Pratapnagar. Mas se as chuvas não
conseguiram remover as pedras, falsearam por outro lado as Alguns minutos mais tarde o cavalo foi entregue a um
fundações e afrouxaram a terra sobre a qual as pedras foram cavalariço e eu descanso na varanda do meu novo lar, o qual
colocadas. O resultado é uma superfície escorregadia e desigual possui amplas proporções arquitetónicas. Minha roupa de cama
sobre a qual o cavalo tropeça constantemente. ainda não chegou e não chegará senão no dia de amanhã. De
modo que, tão logo consigo tomar emprestado um par de cober-
Torna-se claro que se eu permanecer na sela serei derrubado tores, atravesso um grande salão em demanda do meu quarto
dentro de dois ou três minutos. Salto da sela e conduzo o animal de dormir, guiado por um criado. A luz de uma lâmpada de
pelo freio através da atra escuridão. Nós ambos seguimos em querosene que este coloca sobre uma mesa do dormitório faz-me
ritmo de lesma, pois somos obrigados a escolher o nosso caminho ver a cama, cujo soporífero conforto me proporcionará a deli-
ao longo de uma estrada que, conforme eu havia pensado, não ciosa compensação a que a esta altura julgo ter direito.
é senão uma sequência irregular de fragmentos rochosos.
Sapos coaxam e saltam em torno do caminho. Sinto o
orvalho gotejar dos galhos, quando esbarro inadvertidamente nas
árvores.
Suponho que sejam cerca de onze horas. Uma ou duas
vezes o cavalo masca o freio e depois estaca, escutando com a
cabeça abaixada, num silêncio de morte, ao perceber o grito não

206
Acho-me sobre as nuvens, cercado de todos os lados pelas
sobranceiras cordilheiras do Himalaia, tal como na minha morada
anterior. Mas aqui há lindos vales sobre os quais se pode alongar
a vista, enquanto um jardim encantador corre da minha casa até
os dois lados da serra sobre a qual ela está construída. Na direção
sul estende-se o maior dos vales, ao longo de cujo fundo gorgo-
lejam as águas prateadas do turbulento rio Bhagirathi. As
CAPÍTULO XVII encostas mais baixas são recobertas de um bonito verde, enquanto
um pouco de terra cultivada surge em manchas amareladas embu-
tidas na verdura, onde montanha e água se encontram.
Os Nevados Gigantes do Himalaia - O ataque de
Florestas de carvalhos e pinheiros ficam a um pulo apenas.
um Urso
Não contava ouvir o gorjeante rouxinol aqui, mas por vezes sua
música se desprende destas árvores.
Da casa desfruto de uma vista extraordinariamente bonita.
Os P R I M E I R O S DIAS em Pratapnagar são dias de deliciosas A residência tem portas nos quatro lados e janelas em três. Terá
descobertas e agradável realização. Exploro o ambiente de uma alguma vez um escritor ou um faz-nada tido uma vista como esta
forma descuidada e sem método, contente de verificar que a que se descortina da minha janela? A Natureza simplesmente se
Natureza pode ser tão bela e as melhorias nela introduzidas pelo esmerou na profunsão que espalhou por dezenas de quilómetros
homem tão confortáveis. em todas as direções (e de forma mais atraente, no meu entender,
Nenhuma monção faz a sua malvinda aparição estes dias. O do que aquela pela qual se esmeraram muitas vezes os homens
Sol brilha de uma forma tão desconcertante que é difícil acreditar em sangrentas desordens que já tive ocasião de presenciar). As
que alguma monção possa surgir por aqui. Minha mudança para cristas são extremamente entrelaçadas, parecendo primeiro correr
umas para as outras e depois se afastando pouco antes de se toca-
cá foi, porém, uma sábia providência e minha vida terrena assume
rem. Gargantas, vales e ocos alternam-se num confuso conglo-
um aspecto mais justo. Muitos dos pequenos confortos que se
merado com a sólida massa de granito de estéreis montes e com
combinam para formar as amenidades do viver civilizado, e que
densas florestas e altíssimos picos. Dois rios cortam as monta-
me faltavam antes, reaparecem aqui. Claro que não temos luz
nhas, mergulhando aqui e ali sobre as rochas com a música agreste
elétrica, água corrente, auto-estradas, ruas e lojas, mas temos o das suas quedas d'água.
suficiente para uma existência tranquila e decente. E estando Mas a mais linda de todas as vistas é a das neves e das
ausentes aquelas cinco coisas, os corolários que de hábito as fendas das geleiras luzindo contra o céu azul. Estou muito mais
acompanham — barulho, nervosismo, agitação política, desordens bem colocado agora para desfrutar dessa vista do que antes.
e rumores de guerra — estão igualmente ausentes, e no que me Encontro-a diante da minha própria janela, por assim dizer, pois
tange, posso muito bem passar sem eles. Não há correrias diante se trata de um panorama ao norte. Os gigantescos picos nevados
da minha porta, nem telefonemas de cinco em cinco minutos. erguem-se em toda a sua grandiosidade e em todos os seus deta-
As notícias da gazeta que vem pelo correio já foram esquecidas lhes diante dos meus olhos. Sua proximidade dá-me um senti-
por todos os outros leitores quando meus olhos recaem sobre mento de inspiração que é esmagador, enquanto a total claridade
elas e talvez sejam esquecidas por mim, tão logo termine de lê-las. das suas faces é irresistivelmente fascinante.
Tampouco sou obrigado a pagar pelo feliz privilégio de escutar Alguns picos são cones agudos, outros grandes corcovas.
inumeráveis ruídos vindos através do éter sob o nome de jazz. Um por um eu os enumero na fieira de centenas de quilómetros
Em suma, devo dar graças à Providência por sua bondosa compa- que tenho diante de mim e que de maneira tão efetiva impede
nhia, que persiste até mesmo aqui entre as bravias montanhas da que o meu olhar veja o Tibete. Na extremidade, à esquefda,
Asia, para não falar nas mais bravias cidades europeias!

208
tenho uma visão do último dos picos do Trans-Sutlej. Mais
perto está o límpido contorno do Passo Baranghati, uma estrada ta-se se entram em qualquer espécie de transe, espiritual ou de
a quatro mil e cem metros de altura levando ao Tibete. Bem outra natureza, ou se morrerão em paz ainda que não completa.
à minha frente e tapando grandemente a minha visão do Jum- Seja como for, aqueles que vêm a Kedarnath são melhores e
notri fica o estranho pico de Bandarpunch, cujo topo ergue-se a recebem, ou acreditam receber, em troca das agruras da peregri-
seis mil e seiscentos metros acima do nível do mar. O nome é nação, as bênçãos das almas antigas que tornaram o local histori-
muito bem aplicado e significa 'rabo de macaco". O corpo
4 camente famoso. Sua cerimónia de aceitação é característica e,
redondo e o rabo recurvo estão visivelmente ali, embora trajados tanto quanto sei, única em toda a índia. Eles entram no templo,
de neve e envoltos num esqueleto rochoso. Ele é cortado de que fica a menos de um quilómetro do sopé da grande geleira
que corre pelo flanco do Kedarnath e, entre o fulgor de lâmpadas
geleiras como mares frígidos, com ondas geladas de cerca de
a óleo e o clangor dos sinos do templo inclinam o corpo e com-
trezefitos metros de profundidade. A poucos quilómetros de
primem o coração de encontro a uma imagem gravada de Shiva,
distância seu companheiro, o Sikranta, fura o céu numa altura a divindade dos ascetas e iogues, cujo espírito acredita-se morar
semelhante. A massa nevada de sua forma triangular convencional no Himalaia Central.
ergue-se num precipício vertical e corporifica todas as precon-
cepções daquilo que deve ser um pico do Himalaia. À sua direita, O mais resplendente dos montes nevados que ficam diante
da minha janela é o Badrinath, que fica à direita quase trinta
um fragmento de Gangotri emerge das suas costas pro te toras,
quilómetros mais adiante e no entanto parece a um passo, tão
obscurecendo, num ponto situado a doze quilómetros de distância
colossal é o seu contorno. É na realidade uma massa larga e
e com uma altitude de três mil metros, o antigo templo que é a
quadrada de picos espantosamente ameados, lembrando um
Meca dos mais venturosos peregrinos através do verão, pois fica
enorme castelo de prata a guardar com horripilante grandeza a
perto das fontes geladas do rio mais sagrado da í n d i a , o Ganges, entrada do Tibete contra quaisquer invasores. Aqui também há
ou melhor o Bhagirathi, que é o principal alimentador do Ganges um santuário tradicional aninhado sob a sua proteção, no vale
e que corre bem abaixo da minha casa, no sopé da cordilheira. situado no seu sopé e tornado famoso na história sagrada hindu.
Durante muitos séculos encheram-se frascos em Gangotri com O mais estranho é que fontes quentes jorram numa lagoa bem
as sagradas águas do Ganges, lacraram-se esses frascos e os bravos próxima, e numa região em que o gelo e a neve dominam o vale,
negociantes os carregaram através das planícies da í n d i a , venden- os peregrinos que estejam dispostos a ser cozidos podem banhar-se
do-os a bom preço, tesouros incomuns que eram. a uma temperatura de oitenta graus centígrados!
Sempre viajando ao comprido da longa fieira, meus olhos Finalmente chego ao extremo leste das neves onde o Duna-
reconhecem o Kedarnath, outro grupo de montanhas sagradas, giri exibe um cume nevado de sete mil e setecentos metros e
enquanto meus ouvidos detectam o ruído abafado de uma ava- depois, por último na enorme fieira branca e tapando o horizonte
lancha, que irrompeu e desabou em algum ponto da fieira. Os de um azul muito vivo, ergue-se a magnífica ponta do Nanda
íngremes rochedos de Kedarnath alçam-se aos céus até uma altura Devi. Trata-se na verdade da mais alta montanha do Império
de quase sete mil e setecentos metros, embora no lado oposto Britânico, porque o Everest e o Kanchenjunga ficam em território
baixem suavemente na direção do Tibete. O Kedarnath protege nepalês e tibetano. O Nanda Devi situa-se além da fronteira do
com seu corpo gigantesco de granito o encanecido santuário no reino de Tehri e dentro dos limites do Garhwal Britânico. Sua
vale abaixo. Este santuário assinala o lugar onde um dos pri- altitude é de oito mil e duzentos metros.
meiros épicos religiosos da í n d i a , o Mahabharata, culmina. É
o local predileto dos homens de buréis amarelos, que para lá
0%

* *
acorrem de todas as partes das planícies hindus, na fase mais
amena do verão. Aqui também, ao que dizem, veio seu famoso
Por que amo estas montanhas? Não será porque em parte
paradigma e mestre, Shankara Acharya, há dois m i l anos atrás
refletem de maneira tangível aquela quietude, aquela beleza, que
e caindo num transe espiritual morreu na mais completa paz.
encontro nas minhas intangíveis meditações?
beus imitadores atuais, infelizmente, são menos dignos e pergun-
211
210
Assim, olhar através da minha janela todas as manhãs é
para mim um ato de adoração. Com cada olhar presto minha para o caminho, parecendo atónitos quando reapareço uma vez
homenagem matutina ao Himalaia e me coloco numa disposição mfniatura CS C
° °
m p e q u e n o s i o g u e s e m s u a s
cavernas em
favorável a uma reverente adoração. Estas montanhas mantêm
uma simbólica relação com a nossa raça. Estes colossos reco- É inútil escolher um lugar ao ar livre para as minhas medi-
bertos de neve, como estupendos dedos apontados, indicam para tações, porque as monções podem aparecer de um momento para
mim as elevadas aspirações que devem sempre evitar que o outro. Atenho-me, por isso, ao espaçoso abrigo do meu próprio
homem afunde na rastejante existência das sarjetas, ao passo que quarto de dormir com suas paredes de meio metro de espessura,
onde posso sentar-me com as pernas dobradas sobre uma cadeira
sua brancura imaculada concita-o a uma pureza que ainda lhe
colocada de modo a que possa contemplar os paradisíacos picos
falta alcançar — não aquele ascetismo infantil que os cânones brancos que refulgem no lado de fora da janela. Assim sentado,
de uma moral convencional estabeleceram, mas aquela purificação estou tanto fora quanto dentro de casa! Até mesmo a mais
de toda corrupção pessoal que Jesus prescreveu a todos quantos prosaica das pessoas é obrigada a embeber-se gradativamente de
podiam compreender que a mais alta sabedoria não é "seja feita poesia nestas redondezas.
a minha vontade, mas seja feita a tua vontade". Somente aqueles
que viveram algum tempo em tal horizonte, cheio de uma coleção Escolho o cone triangular do Srikanta como o pico em
de rebrilhantes picos nevados projetando-se nitidamente contra direção do qual volverei meus olhos daqui por diante, quando
a mente iniciar seus primeiros e tateantes esforços no sentido da
o céu, podem apreciar aquilo que há de inebriante em contem-
auto-abstração. É assim que irei oferecer o meu sacrifício diário
plá-los todas as manhãs.
dos sentidos físicos, atraindo o sentido da percepção para dentro
O jardim cultivado que constitui uma bonita moldura para e a seguir para longe deles, como uma tartaruga recolhe a cabeça
a minha casa e se estende da faixa de grama verde em torno das e os pés ante as ameaças do mundo, e não tentando imolá-los
minhas paredes até as paredes do rochedo está incendiado pelo durante as horas de vida ativa. Há tempo para todas as coisas
colorido de flores gigantescas, cujo tamanho e esplendor contrasta e, segundo penso, a cessação de função de um ou todos os órgãos
com as florinhas que tinha visto até aqui. Girassóis amarelos e pertencente ao sagrado período da absorção espiritual e não ao
marrons misturam-se com delicadas rosas vermelhas e brancas. período secular da atividade física normal. Paralisia física não
Esguios caules de verbenas, com encorpada fragrância, são cama- é espiritualidade. Mas, claro, sou um herege.
das de pequenos aglomerados de ibéridas com suas pétalas Meu precioso quadro tibetano está pendurado à parede. De
branquicentas. Um bonito grupo de flores mostra uma profusão quando em quando olho para o grande Buda central, com suas
de cabeças em formato de sino; outro é uma fonte perene de pesadas pálpebras caídas em postura meditativa.
pétalas de lilazes. Jacintos de um azul-escuro e açafrões chame-
Esta cadeira estofada, portanto, entronará daqui por diante
jantes despontam do solo cor de pinhão. Entre a beleza destas
os meus pensamentos mais sagrados; esta janela semicircular
e de outras variedades o meu coração amante da cor tem de abrirá para a eternidade; estas quatro paredes de cor creme abri-
que ficar alegre. garão os esforços de um homem no sentido de cumprir os mais
Grandes e engraçados lagartos, com longas caudas e olhos caros objetivos do seu ser; o teto de carvalho escuro vigiará
suspeitosos que não piscam, constituem a população assaz nume- minhas próprias vigílias; enquanto todo o quarto será dedicado
rosa das frinchas e fendas sob os lados dos caminhos deste a alguém cujo comando cá me trouxe. — Fica calado e sabe que
jardim. Gosto de brincar de esconde-esconde com eles, da mesma eu sou Deus. — Esse é o tema penitencial sobre o qual escre-
forma pela qual eles gostam de sair, subir ao caminho e aque- verei meus ensaios durante os dias vindouros, não com tinta n í o
cer-se ao sol até que os meus pés humanos os afugentam. Mas relutante mas com vida relutante.
eles são teimosos e tão logo se esgueiram sobre a beirada voltam-
-se e me olham fixamente com seus olhos sem pálpebras e algo
dolentes. Não sentem vontade de entrar nas suas pétreas
moradas enquanto há sol. Mal finjo ir-me embora e voltam

212
Dizem os caçadores que os tigres diferem em temperamento,
Numa pequena aldeola a poucos quilómetros da minha antiga
do mesmo modo que os humanos; nem todos atacam, alguns
casa tinham-me falado de um aldeão que durante o inverno fora
fogem por mera covardia. De qualquer forma, há toda uma
morto por um urso. Seria coisa de estranhar porque os ursos
família de tigres no grandioso saguão que abre para o meu quarto. nao procuram matar mas sim ferir suas vítimas. Essa desagra-
Seus dentes estão arreganhados numa raiva desafiadora; suas dável tendência transforma-os nos piores habitantes das florestas.
orelhas felinas estão puxadas para trás em feroz expectativa; suas Outras feras atacam e matam os humanos quando espicaçadas
garras semelhantes a cimitarras despontam como que prontas a pela fome, mas o urso ataca o homem por despeito e malícia e
entrar numa batalha. depois se vai. Não podendo mordê-lo eficientemente por não
Mas estas criaturas de esplêndido colorido não saltarão sobre possuir carnívoros, usa das garras para feri-lo.
quem quer que seja, tão bem treinadas foram pelo taxidermista Uma tarde um homem chega à casa em lastimável estado.
para comportarem-se e ficarem quietas! Elas não passam agora Tinha sido atacado por um urso a apenas oitocentos metros e
de peles sem carnes e cabeças sem nervos, estiradas impotente- em plena luz do sol.
mente sobre uma parede branca. Sua cabeça está aberta, um olho foi arrancado, seu rosto,
Esta família rajada de negro consiste de um bem-parecido seus ombros e braços são um amontoado de feias feridas. Suas
pai, uma feroz mãe, dois filhos e uma filha. A pele do macho " roupas estão em frangalhos e ensopadas de sangue. O pobre
mede nada menos do que três metros e meio de comprimento, sujeito tem marcas de garras e profundos arranhões por todo o
tendo apenas a cabeça quarenta centímetros. Vivo e íntegro, peito. Por sorte, o médico do palácio ainda está em Pratapnagar,
pesaria provavelmente mais de trezentos quilos; morto e vazio, embora devesse sair de férias dentro de poucos dias. A vítima
ficou reduzido a uma décima parte daquela cifra. No entanto, do urso é pensada, suas feridas suturadas, a hemorragia detida
sua beleza e majestade persistem. A Natureza, previdentemente, e a cabeça e os braços colocados em ataduras.
dotou esses tigres monteses de peles mais espessas do que os No dia seguinte, quando o pobre diabo já havia descansado
seus parentes das planícies. Toda a família foi abatida sobre as e se recuperado um pouco, ouvi o relato do encontro. Trata-se
encostas em torno de Pratapnagar há alguns anos. Agora porém de um homem de aspecto jovem e, ao que penso, instruído.
os tigres deixaram de perturbar as redondezas, cuja população Provavelmente é um brama de casta.
florestal principal é constituída de ursos marrons, leopardos e — Escrevo cartas de petição para os que são analfabetos
essas ferozes criaturas, as panteras rajadas. A preponderância — conta-me ele. — Há dois dias saí da minha aldeia para ir a
desses animais constitui tal problema que me advertiram para pé até a cidade de Tehri, onde tinha alguns negócios para tratar.
não sair depois do escurecer. Meu criado, um menino de dez anos de idade, acompanhou-me.
O zelador caseiro contou-me que uma pantera saltou certa Ontem à tarde eu me aproximava do ponto em que a trilha mon-
vez sobre este relvado verde que contorna a casa e, em plena luz tesa se bifurca em duas, uma subindo ao topo desta serra e
do dia, atacou três cães que dormitavam ao sol. Matou dois e levando ao palácio, e outra descendo para o vale do rio em cuja
arrastou o terceiro para a floresta, antes que fosse possível margem fica Tehri. De repente ouvi um terrível grunhido.
socorrê-lo. Ergui a vista e vi, no alto da montanha por entre as árvores,
um enorme urso marrom com dois filhotes. O animal desceu a
Até mesmo ursos saíam de suas tocas grunhindo e chegavam
encosta na minha direção como uma avalhancha, grunhindo feroz-
até as portas da casa depois do por do sol, cavocando o jardim
mente o tempo todo. Sua velocidade era impressionante e
à procura de raízes saborosas ou tentando subir nas macieiras.
compreendi que seria inútil correr pois não tínhamos nenhuma
Todas as noites, logo depois de me haver ajeitado sob os cober-
possibilidade de fuga. Mas, conhecendo os hábitos desses urso>
tores, e às vezes bem mais tarde, ouço alguns tiros disparados
preparei-me para me defender. A única arma que tinha era um
pelos soldados da guarda do palácio nos seus jardins. Esses
guarda-chuva. Puxei o menino que chorava para trás de mim
ruídos indicam que o compadre urso está rondando em suas
a fim de protegê-lo, cobri o rosto com a mão esquerda e segurei
andanças noturnas e trata-se de um hábito que ele não muda, o guarda-chuva em riste com a direita. Parecia que o uwo
apesar das contínuas advertências.

214
levara um minuto apenas para descer a encosta e alcançar a
trilha. E r a uma fêmea. . . sempre mais perigosa e malvada que
o sexo oposto. E l a tinha um espesso revestimento lanoso, grandes
e lanudas orelhas, nariz negro e uma peluda crina que quase
cobria um dos olhos. Voou sobre mim, arranhou-me a cabeça,
o rosto e o tórax. Bati com o guarda-chuva na sua cara irada
até que a cobertura de pano ficou em tiras. Depois que a fera
feriu-me bastante e quatro ou cinco minutos daquela luta horrível
CAPÍTULO XVIII
tinham-se passado, a ursa pareceu satisfeita e voltou para os seus
filhotes na floresta. Alegro-me por ter podido evitar que o
menino ficasse ferido. A seguir consegui arrastar-me até cá, As Delícias de Beber Chá — Como Começam as
perdendo muito sangue por todo o caminho. Tempestades das Monções
Essa foi a narrativa do infeliz homem. E l a prova cabal-
mente tudo aquilo que todo montanhês sabe: os ursos não
alimentam o desejo de matar o homem, mas o atacam imediata- TÃO AMIUDAMENTE nestes últimos vinte anos sentei-me para
mente apenas para aleijá-lo e desfigurá-lo para o resto da vida. sorver o sentimento de prazer que beber chá me proporciona,
O número de mortes por animais selvagens e répteis vene- invariavelmente; tão reconfortador tem sido para mim esse hábito
nosos talvez seja bastante elevado na índia, embora ocorra princi- agora que o trouxe para o desconforto do Himalaia, que minha
palmente entre o gado, mas não creio que seja pior, levando-se mente em seu longo ócio contempla pensativamente a filosofia
em conta a percentagem de população, do que o número de que existe por detrás dele.
mortes em acidentes de carro no Oeste. O ocidental médio não Nenhum som é tão musical para mim como o da chaleira
percebe que hoje em dia o automóvel tornou-se tão perigoso fumegante, cujo conteúdo está destinado a ser transferido para
para ele como o tigre e a cobra para o hindu médio. Na í n d i a , o bule redondo e espaçoso que descansa amigavelmente sobre a
onde certas partes são tão infestadas que serpentes e escorpiões toalha branca onde quer que eu vá. Observo com a recorrente
podem estar atrás de qualquer pedra e animais selvagens podem reação de prazer antecipado o vapor quente desprender-se do bico
localizar-se em qualquer pedaço de jângal ou floresta, as cifras elegantemente recurvo.
ocidentais relativas a acidentes e mortalidade dificilmente pode- Parece estranho que o mundo ocidental, durante tantos
riam ser superadas no tocante à figura humana, embora as cifras séculos, tenha sido privado de um dos prazeres menores e ao
relativas a depredações entre o gado devam com certeza ser bem mesmo tempo uma das necessidades maiores da existência civili-
mais elevadas. A verdade é que menos animais selvagens do zada. Mil anos antes de a Europa ter conhecimento da existência
que imaginamos irão atacar o homem quando este não os estiver dessa aromática erva, os chineses sugavam seu dourado extrato
caçando, desde que possam rapinar outros animais, enquanto e cochichavam entre si sob o seu suave estímulo.
poucas cobras irão picá-lo a menos que ele as pise por acaso ou Parece ainda mais estranho, contudo, que o país que produz
toque nelas, caso em que picarão por medo de estarem sendo uma grande quantidade do suprimento mundial de chá hoje em
atacadas. E m resumo, o perigo de atravessar uma via infestada dia tivesse tido de esperar pelo advento dos ingleses antes que
de veículos a motor nas cidades da América e da Europa é hoje as primeiras raízes fossem transplantadas para o seu solo. O chá
em dia mais ou menos igual ao perigo de atravessar uma floresta não foi plantado na índia senão no século passado e isso mesmo
repleta de animais ferozes na í n d i a ! através de industriosos agricultores britânicos. Até mesmo agora
muitos hindus não provaram ainda o chá, enquanto poucos sabem
como prepará-lo adequadamente. Um poeta chinês lamentou em
verso o deplorável desperdício de bom chá através de uma prepa-
ração incompetente. Sem dúvida, essa ignorância desaparecerá

216
rapidamente com os novos hábitos que estão sendo introduzidos foi mandado chamar várias vezes pelo imperador, pois era pos-
aqui. . . 1 1 1 . sível reconhecer o chá por ele preparado tão requintado era o
O padre budista que me ensinou o que sei acerca do budismo seu paladar.
disse-me que era costume em muitos mosteiros budistas de Outra coisa que quero lembrar é a reivindicação chinesa
Burma, da China e do Japão, manter os monges sempre supridos no tocante à origem do costume de oferecer chá a um hóspede
de pequenas tigelas de chá fresco durante suas noites de vigílias ou visitante. Diz-se que começou com Kwanyin, um dos princi-
e meditações, a fim de afugentar o sono e permitir-lhes estender pais discípulos do meu filósofo oriental preferido, Lao Tse.
suas práticas espirituais até os máximos limites. Por essa forma Quando aquele deixou seu serviço na corte e chegou à fronteira
esperavam fazer progressos mais rápidos. Ele também me do Passo de Han em sua viagem rumo do oeste (depois da qual
contou a curiosa, atraente e no entanto incrível lenda das origens desapareceu), Kwanyin deu-lhe uma xícara de chá — um ato de
do chá. valor simbólico, pois dali em diante foi introduzido em todo o
Disse-me que um sábio do sul da í n d i a chamado Bodhid- Império. Gostaria de pensar que o último ato do meu barbado
harma viajou para a China por volta do século seis e costumava sábio foi sorver o líquido dourado antes de desaparecer da civili-
zação e dedicar-se a uma vida mais simples junto à Natureza,
meditar sentado diante de uma parede branca. Durante um dos
como queria. Ele era uma grande alma e apenas uma grande
seus prolongados períodos de abstração mental descobriu ele,
bebida era digna dele.
contrafeito, que estava ficando sonolento. Cortou então as pálpe-
bras e as atirou fora. Estas enraizaram no lugar em que caíram No século X V os japoneses fundaram mesmo um culto esté-
e uma planta, até então desconhecida, cresceu no local. As folhas tico em sua honra, com os mais elaborados rituais e cerimónias.
dessa planta tinham a virtude de conservar um homem desperto. Na verdade o cultivo e o preparo da planta do chá foi pratica-
A fábula é algo deliciosa, mas a única coisa certa é que a mente um monopólio dos padres por longo tempo. A infusão
cor de âmbar era considerada como uma bebida superior e aristo-
planta do chá originou-se na China meridional, onde Bodhiharma
crática e por isso só era consumida a princípio pelas classes altas.
desembarcou. Com o tempo, ele tornou-se o fundador de uma
Foram os navios mercantes holandeses que trouxeram as primeiras
grande escola filosófica, a escola Cha'an, ou Zen, como a chamam
latas de chá para as águas europeias. Uma vez provado, não
os japoneses, cujos seguidores até hoje tomam grandes quanti-
demorou muito até que surgisse a mania do chá e a nova bebida
dades de chá enquanto se embebem de sabedoria e cujo próprio
firmou-se entre os ocidentais.
nome personifica o ideógrafo chinês para chá.
Os japoneses prescreviam as mais minuciosas instruções para
Que a simples imersão de umas poucas folhas tivesse resul-
essas cerimónias, tal a importância que lhes davam. Havia uma
tados tão estimulantes sobre o corpo e a mente quanto bebida
forma especial de abrir a tampa da chaleira; uma forma especial
impressionou de tal forma os primeiros adeptos do chá que um
de mexer o chá no bule com um pincel de bambu; uma forma
deles, Luwuh, colocou em prosa poética uma verdadeira Escritura
especial de entregar a pequena chávena ao hóspede; uma impor-
da Arte de Beber Chá. Sua obra, The Chaking, levou os merca-
tância especial em beber o conteúdo em três goles e meio e assim
dores de chá chineses a adotá-lo através de mil anos como o seu
patrono, tal foi a profunda filosofia que ele vinculou ao simples por diante. ã ^
ato de tomar uma xícara de chá. É pena que ninguém tenha Que destinos dependeram simbolicamente desse delicado
arbusto! Os colonizadores americanos derrubaram o domínio
tido até agora o discernimento de traduzir esse livro para uma das
inglês ao atirarem as arcas sobretaxadas de chá ao porto de
línguas ocidentais, pois Luwuh disse a última palavra em matéria
Boston, enquanto Marco Polo nos conta de um ministro chinê<
de chá, desde um estudo botânico sobre a planta propriamente das finanças que foi derrubado por taxar o chá muito alto.
dita até a cor ideal para uma xícara de chá de porcelana, desde Quanto contribuiu o hábito ocidental de tomar chá a tarde para
a asserção de que as fontes montesas fornecem a melhor água para desenvolver as amenidades sociais, facilitar o corte de arestas,
o preparo do chá até críticas à vulgaridade pouco artística dos o amaciamento de rivalidades nacionais e a construção da boa
métodos correntes de beber chá. vontade intelectual entre pessoas, tal como aconteceu entre ol
Nós que também somos aficionados da deliciosa bebida japoneses da Idade Média! Quantos entraram a conhecer se e
gostaríamos de ter conhecido esse homem, de quem se diz que

21H
deitaram os fundamentos de uma amizade imorredoura em
néctar líquido, e a seguir sorvo cada trago valorizando plena-
apenas uma diminuta xícara de chá! Como são grandes os pro-
mente suas qualidades, pois o tempo não me urge, o trabalho
blemas e as decisões que atingiram seu ponto culminante entre
homens e mulheres em meio ao chocalhar de xícaras e pires de não me prende e as pessoas não vêm acotovelar-me aqui. É dessa
forma sossegada que se pode e deve receber tudo aquilo que o
chá! ê . chá tem para dar à humanidade.
Todo homem tem seus próprios gostos, suas preferências
inatas. Necessariamente, ele as transportará para o reino do Que o mundo tome outras bebidas mais pesadas. Para mim
chá. Minha maior predileção era antigamente pelo aroma e pelo nunca haverá outra mais digna de tocar-me o paladar e inspi-
paladar inspirador do chá de Darjeeling. As plantações que rar-me a mente.
cobrem as colinas em torno daquela estação hindu de veraneio E um prazer inocente beber chá. Nada mais refrescante
que se acha face a face com Kanchenjunga, segunda montanha pela manhã do que uma chávena. Nada mais útil para quem
da índia em altura, produzem uma planta que por sua vez produz escreve e gosta de trabalhar suas páginas durante as horas calmas
uma decocção aparentemente sem rival, mas outros, tenho certeza, da noite; de que outra maneira será possível repelir o sono?
irão discordar. Sem dúvida uma parte do encantamento vem No entanto, em determinado estágio da carreira do aspirante
para mim das imagens do Himalaia que se evolam da xícara de espiritual à autodisciplina, este não poderá tomar qualquer estimu-
chá ante os olhos da minha imaginação. Trata-se de uma questão lante sem obstruir o caminho do silêncio interior que busca em
de gosto e, na verdade, quando tantos outros chás finos existem no suas meditações. Durante esse período especial, até mesmo o chá
mercado mundial, seria inescrupuloso quem os denunciasse apenas terá efeitos adversos e ele precisa evitar bebê-lo muitas vezes
com o fito de gabar as suas preferências pessoais. Não obstante, e muito forte.
durante muitos anos entreguei-me a beber os mais suaves chá Acho que as pessoas que conhecem apenas uma maneira de
chineses, por causa do seu menor teor de matérias venenosas. fazer chá poderiam com sucesso experimentar outras formas, a
Muitos escritores que conheço encontraram delícias no chá fim de que possam gozar das delícias da variedade em sua bebida
e nisso não fazem senão copiar os antigos exemplos do D r . diária. Por exemplo, poderiam experimentar, em lugar do café
Johnson, que confessou-se um "empedernido e desavergonhado que se segue ao jantar, um copo de chá ao estilo russo, fraco,
bebedor de chá"; de Charles Lamb, cujas palavras, lamentavel- rheio de água quente, bem adoçado e com uma ou duas rodelas
mente, não recordo; e de Addison, que encontrava frases para de limão. Como bebida para depois do almoço, chá ao estilo
os seus ensaios debruçado sobre uma xícara de chá. persa constitui uma mudança igualmente agradável. É ele fervido
Sempre recebo estímulo intelectual de uma ou duas xícaras ao modo russo, mas o líquido é perfumado com hortelã ao invés
de bom chá, maior do que qualquer outro estímulo material. de ser tornado ácido pelo limão.
Parece que os átomos do cérebro se tornam reativados e o seu
Outra variante muito agradável é à egípcia, colocando pétalas
funcionamento melhora bastante sob os efeitos estimulantes do
de rosas perfumadas num copo de chá açucarado, fraco e sem
chá. De qualquer forma, eu não ousaria enfrentar qualquer leite. Chá com leite deve-se tomar à tarde, acho eu, e pela manhã,
trabalho de caráter intelectual sem beber preliminarmente uma mas uma vez mais cada qual com o seu gosto, como diz o provér-
xícara desse tónico cerebral. Se tivesse espírito matemático, eu bio francês. Estas são, contudo, as minhas preferências pessoais
calcularia quantas onças de chá entraram na composição de cada
cem páginas dos meus escritos! Agora preciso sentar-me e tomar mais uma xícara do néctar
dos deuses", conforme designou-o um oriental, juntamente com
Minha própria estada no Himalaia, tranquila e impertur- uma torrada, e permitir que a sua deliciosa quentura flua atravo
bada, permite-me tirar o máximo possível do ato de beber chá. do meu corpo, ilumine o meu cérebro e alegre o meu coração
Volto das minhas meditações no fim do crepúsculo e me sento enquanto o fragrante aroma sobe das suas folhas enrugadas.
comodamente e quedo-me a sentir a confortadora quentura que
as folhas submersas me proporcionam, enquanto as sombras da
noite se apossam do meu ninho na montanha. Mexo os grãos de
açúcar até que eles derretam rapidamente no seu Nirvana de

220
De manhã bem cedo surge o pressago e ameaçador ruído
rompem-se aqui e além em catadupas de granizo pesado. Lençóis
de uma trovoada distante, que se aproxima e se transforma num
de raios descem sobre uma terra prestes a ser bombardeada por
ribombar frenético. O barulho é o arauto do dilúvio das mon-
três meses de tempestades. Os elementos estão em fúria e os
ções e o presságio da maior alteração climática na í n d i a .
céus são separados à força. A monção despeja seus milhões de
Um vento frio começa a soprar através da minha janela enormes gotas de chuva com a velocidade de uma máquina de
aberta. A chegada deste inesperado hóspede é algo inopinada. voar e por entre o ruído tonitroante de um ataque de artilharia.
Cinco minutos antes ergui os olhos da mesa em que trabalho e Ela vinga sua longa ausência com inacreditável ferocidade.
vi lá fora um panorama de sol brilhante. A relva verde está As tremendas torrentes que vertem agora do céu são em
salpicada de luz e sombras, a caótica massa de montanhas tem quantidade que não encontra paralelo na Europa. Se a energia
um aspecto agradável e pacífico, as cordilheiras vestidas de flo- com que as montanhas são impiedosamente marteladas em toda
restas verde-azuladas sorriem ao sol quente e os cumes nevados a extensão do Himalaia pudesse ser mecanicamente captada e
compõem um quadro de primtiva beleza. Agradecido, torno a transformada em unidades elétricas, vasta porção da largura e do
curvar a cabeça sobre a página que estou lendo. comprimento de metade da índia poderia ser eletrifiçada.
Ouço agora a ameaçadora invasão e torno erguer os olhos. Durante várias horas os ventos tempestuosos impelem estas
O Sol desapareceu. Os céus resmungam como que adivinhando. torrentes de água. A chuva é como uma parede sólida envol-
Espanto-me de ver surgir uma vasta legião de brumas brancas vendo o prédio. Os raios, espasmódicos a princípio, aumentam
e lanosas, vindas do nada, e percorrendo os vales em direção da até tornarem-se quase contínuos. E m meio ao furioso tornado,
casa. Acima delas no céu uma sombria massa de cúmulo paira o ribombar dos trovões chega a fazer o solo sacudir-se.
sobre os picos e começa a ocultar os mais altos sob o seu negro Com a aproximação do crepúsculo as chuvas retomam seus
dossel. deveres. À noite, deitado na cama, ouço o despejar das águas
Brumas escuras e opacas movimentam-se entre as cordilheiras ou contemplo o jogo dos relâmpagos nas paredes. Sim, a estação
como uma esquadrilha de aviões. Toldam a visão de tudo aquilo das monções começou e daqui por diante pode-se esperar sem
por que passam até que a totalidade da paisagem se encontra falta por uma coisa — chuva.
recoberta por um denso e leitoso vapor, como o rosto rigoro- E m poucos dias o quadrado de relva verde que circunda a
samente velado de uma dama muçulmana. casa transformou-se num charco lamacento. Há uma profun-
Ainda consigo ver algo entre os cumes até que um vento didade de trinta centímetros na mistura de água e terra que se
frio que ronca como um trem expresso se ergue e empurra as esconde sob a fachada da grama.
nuvens negras até a sua frente. O vento faz com que venham Não me sinto aborrecido, porém. O chão fendido e resse-
na minha direção. Quando passa pelos galhos das árvores das quido das planícies absorverá toda esta umidade com avidez e
florestas ouço o balouçar de milhares de troncos delgados. O as colheitas de pobres camponeses estarão garantidas.
ar varre o quarto e o súbito frio corta-me o corpo como uma É também a excessiva umidade das monções que reveste a
faca, obrigando-me a vestir um pesado suéter sob o casaco leve. maior parte das árvores das florestas do Himalaia de musgos,
As brumas erguem-se mais alto e logo a casa se encontra trepadeiras e samambaias.
ilhada num mar branco. E m dez minutos todo o mundo desa- No entanto, o tempo tem seus breves instantes de volubi-
parece e as montanhas do Himalaia são transformadas, como lidade, como um velho ranzinza e doente. Em muitos dias
que por mágica, em céu impenetrável. Penso por um instante durante esta estação o Himalaia fica exposto a grandes variações
nos tristonhos nevoeiros londrinos, mas chego à conclusão de de temperatura, que vão desde a ártica até a tropical. Ha noites
que aqui as brumas são limpas em comparação com aqueles e tão frias que me vejo obrigado a enfiar-me em roupas de inverno
não têm odor sulfúrico. para não tremer de frio, embora estejamos em pleno verão. Mas
há também ocasionais estiagens que interrompem as moncoo
A seguir a tempestade rola sobre a minha cabeça, com o quando por duas ou três horas o sol repele as brumas, transtor
acompanhamento de relâmpagos e trovoadas. As nuvens cinzentas

222
mando-as em sonhos desfeitos. O astro rei dardeja então seus
raios com generosidade e aquece o mundo das montanhas e nessas
ocasiões eu me aqueço ao seu calor. Esses momentos trazem
uma compensação para as tristonhas e encharcantes chuvas.
Descubro que até mesmo nesta estação o Himalaia usa um guarda-
-roupa dos mais variados em matéria de cor e pode vestir-se e
tornar a vestir-se uma dúzia de vezes por semana.
Tão feroz é o movimento dos ventos que certa manhã encon-
EPÍLOGO
tro metade do telhado de zinco arrancado durante a noite, à
música de estrondantes trovoadas que ecoam pelas montanhas.
Os esperançosos interlúdios, no entanto, são ainda mais Eu ARRUMEI minhas malas e voltei os olhos para o sul e
apreciados e evitam o espetáculo de dias sem aurora e sem sol preparo-me para deixar este mundo de céus suaves e cordilheiras
apagando da minha memória recordações de tempos mais róseos. nevadas, para partir uma vez mais, andarilho sem lar nem casa
Nesta época do ano as monções são mil vezes preferíveis que sou. A estação mudará, o frio aumentará dia a dia e uma
ao calor, coisa que faz subir os termómetros e suga as energias camada branca de neve se acumulará até três metros de altura
dos corpos dos brancos e reduz os seus nervos a frangalhos. em torno da minha casa e soterrará por assim dizer todas as
Todavia é preciso lamentar que com as monções a flor do saídas e entradas, durante o fim do outono e os meses do inverno.
Himalaia dobre suas pétalas encantadoras e esconda sua beleza Flocos brancos cairão pesadamente sobre este cenário familiar
sob um envolvente véu de brumas leitosas, vapores cinzentos, dentro em breve e tornarão intransitáveis os caminhos. Este
nuvens negras e tristonhas e fustigantes chuvas. pequeno reino ficará hibernado em isolada grandeza e as alturas
do Himalaia uma vez mais serão isoladas do acesso humano até
que venha a primavera.
No entanto, ninguém, deixa de bom grado esta atmosfera
revigorante em troca de luz deslumbrante e do calor sufocante
Este relato da minha vida recente nas montanhas transfor- das planícies do sul, mesmo para tornar a ver caras branca^
ma-se agora, por inteiro, no relato das horas privadas de um depois de uma longa temporada, quando alcançar a borda das
homem com aquilo que é sagrado, num relato da sua busca planícies. Deixo o meu reduto montanhês com pesar.
interior e intima adoração. Ninguém e nada externo aparecerá Dói-me lembrar que breve irei voltar à sociedade de homens
daqui por diante nestas páginas. Acontecimento algum carece de barulhentos, volúveis e superficiais, cujas vozes serão como
ser descrito pois se trata agora da história de uma quietude que zumbidos de moscas e igualmente despidas de significado para
aumenta. Que se poderá registrar daquele sublime Vazio em mim. Como irei suportar o constante cacarejar das cidades, o
que desejo penetrar? Faltam-me as palavras, fogem-me as frases, falatório interminável e desnecessário? O silêncio destas monta-
quando em outros tempos me vinham com facilidade. Meu pensa- nhas parece haver penetrado nos meus ossos: será preciso algum
mento, infelizmente, morre antes de atingir a ponta da minha esforço para voltar a quebrá-lo. Mas, tem de ser feito. O elo-
pena. Seja-me então permitido depor a pena e deixar que as quente silêncio do E u Superior tem de curvar-se ante a tagart
futuras páginas deste diário sejam escritas na água. N ã o posso lice intelectual. Mas eu serei sempre capaz de correr para as
levar o mundo comigo ao interior de sítios tão privativos, nem lembranças da minha estada no Himalaia, que é indelével, e para
o desejo assim. Que a cortina do silêncio caia sobre eles. o seu fruto divino, que é inefável. Viagem alguma e proveitosa
como aquela que nos leva a encontrar o lugar ou o homem que
nos pode dar a Verdade.
O amigo que leu estas páginas em manuscrito e escrcveu-lhe*
o prólogo pensa que estas crónicas ficariam incompletas se eu

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de alguma forma não resumisse a mensagem da Natureza, que
aprendi nas montanhas, e a mensagem da quietude do Himalaia o arauto da sua realização. E m seus momentos mais profundos
para a humanidade aflita. Suas críticas são justas. Por isso acres- ele poderá sentir e experimentar sua verdade. Embora este pensa-
cento estas poucas linhas, na esperança de que o poder das pala- mento tenha sido formulado e repetido até mesmo por pessoas
vras possa dar alguma ideia do Poder sem Palavras que foi e é destituídas de percepção até o ponto de tornar-se extremamente
para mim a suprema atmosfera do Himalaia. maçante, acontece que ele é verdadeiro. O corpo do homem
passara, tao certamente como estas pálidas brumas que brilham
O Destino, sei, mandou-me através do oceano para efetuar nos sombrios picos à minha frente, mas ele conservará a integri-
minhas pesquisas; mandou-me para a solidão do Himalaia: e dade do seu próprio eu, porque este é divino.
o Himalaia manda-me agora de volta ao tumulto de um mundo
Sei disto, não porque alguma bíblia ou clérico mo tenha dito,
maior que eu havia esquecido. O ciclo está agora completo.
mas porque entrei no Silêncio. Quando estava no meu refúgio
Estes três pontos formam um triângulo perfeito. Muito tempo
da montanha, senti-me erguido por vezes para fora do meu corpo
se passará antes que eu desapareça em novo retiro externo; antes e flutuando suavemente no ar. E u podia ver toda a paisagem
que eu esqueça a humanidade e abandone os reclamos da vida em torno, todas as cenas familiares, todas as cenas da floresta,
SOCial. . \ ; f. . V da cordilheira, da ravina e dos picos nevados. Não estava dor-
E quando for chegado o dia em que terei de preparar-me mindo nem estava sonhando, mas de uma feita, quando um criado
para uma viagem mais longa do que esta ao Himalaia estarei veio chamar-me, não pude mexer a mão sequer, embora o esti-
preparado. Sei que a quietude aqui encontrada me passará para vesse ouvindo. E u não era capaz de falar ou mover-se, mas
o mundo da morte e me conquistará amigos numa região em podia em troca observar com muita clareza o que me rodeava;
que a riqueza nada vale. e de forma totalmente impessoal. Meu corpo estava como morto,
Para encurtar as coisas,^ derradeira mensagem do Himalaia mas estava vivo. Isto convenceu-me de que sobreviverei a mais
é SILÊNCIO, esse silêncio que carrega consigo o sopro de Deus. de mil contestações, pois mostrou-me como é possível à mente,
Nesse silêncio a humanidade poderá achar sua prova da existência ao homem interior, entrar e sair da carne no nascimento, no sono
de Deus, da realidade de um Poder universal por detrás da Natu- e na morte.
reza, o qual é sempre presente e sempre atuante/ Para mim, a O Divino Poder não desertou de sua criação o universo.
vida será maior e mais nobre porque vivi aqui. Ele não cessa de trabalhar em silêncio. Lembremos e relem-
Acho que as novidades derradeiras que trarei comigo destes bremos esse fato nestas horas negras de agitação universal.
picos são também extremamente velhas — as da realidade de Aconteça agora o que acontecer, estou convencido de que a
Deus. O Poder Superior não é para mim um mero artigo de história futura do homem irá corporificar seus desejos mais eleva-
fé, mas uma verdade — autêntica, inegável e suprema, ainda que dos, simplesmente porque Deus trabalha em segredo. Tenho esta
muito escondida. fé e todos podem tê-la igualmente, indo para o silêncio e ouvindo
a Voz sem som. Agarremo-nos então à Esperança, quando outras
Acho também que aprendi que a mais alta sabedoria é coisas não se mostrarem dignas de serem agarradas. Os deuses
encontrar e submeter-se depois a esse Poder. Mas para desco- podem e devem prevalecer.
bri-lo é preciso que entremos no silêncio todos os dias durante
um certo espaço de tempo, fugindo do mundo exterior e entrando O Himalaia assim me ensinou.
no mundo interior onde ele habita. Gostaria de, como última linha, reescrever a sentença do
salmista fraseando-a desta forma:
^ Deus não baixará o padrão das suas manifestações para que
os mortais não familiarizados possam compreendê-las. Preci- "Fica calado, e conhece o E u sou — D<
samos aprender a Sua linguagem ou ficar sem a Sua mensagem.
Sua linguagem não é nada mais do que o silêncio. E ele não está
mais distante d e nós do que nós mesmos.
O corolário disto é que o homem não precisará jamais
lamentar sua possível extinção. A esperança d a imortalidade é

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