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Portugal e a sua

história
UFCD 6653
Ilisete Silva
[28/01/2019]

Este manual tem por principal objetivo ser suporte e auxílio às sessões de formação
de Viver em português, no âmbito da UFCD – Portugal e a sua história e destina-se ao
Curso de Técnico/a de cozinha/pastelaria – ação 6, ministrada pela Consultâmega.

Consultâmega – Consultoria e Formação, Lda.

CSLT.16/00 Manual, Textos e Documentação de apoio


Índice

Conteúdo
Condições de utilização do manual..............................................................................................2
Objetivos......................................................................................................................................3
Conteúdos....................................................................................................................................3
A civilização industrial no século XIX e XX....................................................................................4
O mundo industrializado no século XIX..............................................................................4
As alterações urbanas e sociais da industrialização.....................................................................7
Os novos modelos culturais do mundo industrializado................................................................8
A Europa e o mundo no século XX..............................................................................................10
As transformações económicas do pós-guerra......................................................................10
Mutações na estrutura social, na cultura e nos costumes.........................................................11
Rutura e inovação na arte e na literatura...................................................................................12
Portugal no século XX.................................................................................................................17
Portugal: da I República à ditadura militar.............................................................................17
Portugal: o autoritarismo e a luta contra o regime....................................................................19
Portugal democrático: a Revolução do 25 de Abril e a instauração do Estado Democrático.....25
Bibliografia.................................................................................................................................28

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Condiçõ es de utilizaçã o do manual
Objetivo global

Este manual foi concebido pela formadora Ilisete Silva. Pretende-se que seja
usado como elemento de estudo e de apoio ao tema abordado: Portugal e a
sua história (UFCD 6653). O manual é um complemento da formação e do
módulo, não substitui os objetivos das sessões de formação, mas sim
complementa-as.

Condições de utilização do manual

O manual apresenta os conteúdos de forma simples, clara e objetiva e deve ser


usado unicamente pela formadora Ilisete Silva.

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Objetivos
Situar, cronologicamente, os momentos mais importantes da história de
Portugal contemporâneo.
Identificar, em diferentes períodos de tempo, as influências estrangeiras na
cultura e nos diversos setores de atividade económica portuguesa.
Reconhecer o protagonismo de Portugal em determinados momentos
históricos.
Relacionar as diferentes correntes de pensamento com a produção artística e
literária que lhes está associada.
Caracterizar, genericamente, a evolução da estrutura social, da cultura e dos
costumes.
Compreender as causas que conduziram a um processo de transição
democrática em Portugal.
Apreender os sentidos do texto.
Organizar informação recolhida.
Desenvolver a capacidade de conhecimento e aceitação do outro.

Conteú dos
 A civilização industrial no século XIX e XX
 O mundo industrializado no século XIX
 As alterações urbanas e sociais da industrialização
 Os novos modelos culturais do mundo industrializado
 A Europa e o mundo no século XX
 As transformações económicas do pós-guerra
 Mutações na estrutura social, na cultura e nos costumes
 Rutura e inovação na arte e na literatura
 Portugal no século XX
 Portugal: da I República à ditadura militar
 Portugal: o autoritarismo e a luta contra o regime
 Portugal democrático: a Revolução do 25 de Abril e a instauração do
Estado Democrático

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A civilização industrial no século XIX e XX

O mundo industrializado no século XIX


Cerca de 1870, ocorreu em diversos países a 2ª revolução industrial. Que alterações se
verificaram na indústria? Que novos transportes foram colocados ao serviço da
economia e das populações?

Por volta de 1870, deram-se, em alguns países, mudanças importantes na indústria. Estas
mudanças foram tão significativas que os historiadores falam do aparecimento de uma 2ª
Revolução Industrial. Com efeito, as indústrias começaram, a partir de então, a utilizar
novas fontes de energia e novas máquinas:

 A invenção da turbina e do dínamo, que permitiu a produção de eletricidade;


 O petróleo (gasolina, gasóleo), que passou a ser utilizado nos motores de explosão.

Para além das novas fontes de energia (eletricidade, petróleo) e dos progressos técnicos
referidos (turbina, dínamo, motores de explosão), muitas outras inovações levaram ao
desenvolvimento da indústria; por outro lado, utilizaram-se novos metais (níquel, alumínio) e
aproveitaram-se outros já conhecidos (cobre, estanho, chumbo) com novas finalidades.

Entre as novas indústrias destacaram-se a do aço (máquinas, pontes, torres), da química


(fertilizantes, medicamentos) e a de material elétrico (eletrodomésticos). Assim, a indústria
tornou-se a principal atividade económica.

Para além de novas fontes de energia e de novas máquinas, a 2ª revolução industrial foi,
também, acompanhada por importantes inovações nos transportes e comunicações:

 Construção de vias férreas na Europa, América e Ásia, a ligar os principais centros


económicos;
 Progressos na navegação, com o aumento da tonelagem e da velocidade dos barcos,
a construção de canais (Suez, Panamá) e a melhoria dos portos e dos cais.

A revolução dos transportes trouxe benéficas consequências para a economia dos


países – desenvolveram-se novos centros industriais, criaram-se novos postos de trabalho e

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aumentou o tráfego de produtos e passageiros. Mas, também, se aceleraram as trocas entre os
continentes.

Com a 2ª Revolução Industrial, a par da Inglaterra, surgiram novas potências industriais


como a Alemanha, os Estados Unidos e o Japão.

Nos finais do século XIX, a indústria alemã conheceu um grande crescimento, em particular
nos setores algodoeiro, siderúrgico, do material elétrico e dos produtos químicos. Para tal
contribuíram os abundantes recursos naturais (em carvão e ferro), uma mão-de-obra
trabalhadora e disciplinada e a proteção do Estado.

Os Estados Unidos alcançaram, também, um enorme crescimento económico. Devido às


abundantes riquezas naturais e a uma população jovem e dinâmica, desenvolveram-se, a partir
de 1860, as indústrias agropecuária, siderúrgica e de material elétrico. No início do século XX,
os Estados Unidos ocupavam, já em alguns setores, o primeiro lugar a nível mundial.

O Japão entrou, a partir de 1868, numa fase de grande progresso. A indústria japonesa passou
então a afirmar-se nos mercados mundiais. A construção naval e os setores algodoeiro e têxtil
conheceram um forte crescimento.

O dinamismo da economia mundial, que se verificou a partir da 2ª metade do século XIX, foi
impulsionado pelo liberalismo económico, doutrina que defende a livre iniciativa (a
liberdade de produção e de circulação), o direito à propriedade privada dos meios de produção
e a economia de mercado. Em consequência, as empresas alcançaram grande dimensão e
desenvolveu-se o capitalismo financeiro. Ao mesmo tempo, a população aumentou e os
centros urbanos cresceram.

No século XIX, a população europeia cresceu de forma significativa. Para este


crescimento contribuíram os seguintes fatores:

 Aumento da produção agrícola, o que permitiu uma alimentação mais


abundante e variada;
 Progressos na medicina, com a utilização de novos medicamentos e a prática
da vacinação (criada por Jenner e Pasteur);
 Melhoria nos transportes, o que permitiu colocar, com mais facilidade,
produtos nos mercados;
 Progressos da higiene em geral (pessoal e pública, com a construção de
redes de esgotos e de água corrente), o que fez diminuir a propagação das
doenças.
As populações em crescimento dirigiram-se para as cidades, onde as indústrias
proporcionavam mais postos de trabalho. Em resultado do movimento das populações, a
população urbana tornou-se maior do que a população rural. Mas, nos campos e nas cidades
não havia trabalho para todos. Por isso, muitos foram obrigados a emigrar.

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No século XIX, em resultado das revoluções industriais, alguns países alcançaram
grande desenvolvimento. Mas, Portugal permaneceu um país atrasado. Como se explica
tal atraso?

Portugal, na 1ª metade do século XIX, permanecia um país atrasado. A primeira aplicação da


máquina a vapor na indústria portuguesa data de 1835. Depois, outras máquinas apetrecharam
as nossas fábricas. Mas os esforços dos nossos industriais não foram suficientes. Portugal
ocupava um lugar modesto entre os países industrializados.

Nos países pioneiros da revolução industrial, a agricultura foi o setor que se


desenvolveu em primeiro lugar. No entanto, nos inícios do século XIX, a agricultura
portuguesa estava atrasada. Na verdade, o solo era pobre e as técnicas agrícolas
rudimentares. Por outro lado, os proprietários investiam pouco na terra e os lavradores eram
analfabetos.

Contudo, ao longo da 1ª metade do século XIX, verificaram-se alguns progressos na


agricultura, tais como:

 O desaparecimento das estruturas feudais, em virtude das reformas liberais;


 Alargamento das áreas do cultivo e crescimento de certas produções
agrícolas.
Mas estes progressos não foram suficientes. A produção por hectare da agricultura
portuguesa era inferior à da Europa.

A partir da 2ª metade do século XIX, a situação política de Portugal melhorou. As


condições foram, então, mais favoráveis ao desenvolvimento da economia.

No decorrer da Regeneração (1851-1868) foram tomadas importantes medidas com vista


a desenvolver o país:

 Construção de uma rede de caminho-de-ferro e de estradas;


 Construção de pontes;
 Estabelecimento do telégrafo, por todo o país, e de comunicação por cabo
submarino com a Inglaterra, Brasil e Açores.
A política de desenvolvimento dos transportes e comunicações empreendida pela
Regeneração fez aumentar a circulação de produtos e desenvolveu as trocas entre as
diversas regiões.

A partir da década de 1890, a indústria portuguesa conheceu uma fase de expansão. Então,
estabeleceram-se, no país, unidades fabris ligadas à 2ª revolução industrial. Com o
desenvolvimento da economia expandiram-se os bancos. Apesar dos progressos verificados na
economia, Portugal ocupava um lugar modesto entre as nações europeias. Faltavam as
riquezas naturais e os capitais para investimento.

E como estava organizada a sociedade em Portugal no século XIX?

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As alterações urbanas e sociais da industrialização

A burguesia portuguesa tomou o poder político com a Revolução de 1820. A partir de


então e ao longo do século XIX, esta classe veio a impor-se no mundo dos negócios e na
sociedade.

A burguesia portuguesa, de início, imitou os modos de vida da nobreza, adquirindo ou


recebendo títulos nobiliárquicos como os de barão e de visconde. Depois, ganhou
consciência de classe. Com efeito, a burguesia portuguesa, à semelhança da dos outros
países defendia valores próprios como a livre iniciativa, o culto pela família, o gosto pelo
trabalho, pelo bem-estar e pelo prestígio social. Os seus membros dedicavam-se à indústria,
comércio, negócios; dela também fazia parte os proprietários rurais, os funcionários públicos,
os profissionais liberais. A partir de 1870, os governos eram maioritariamente constituídos por
membros da burguesia.

Naturalmente, o número de burgueses cresceu ao longo do século XIX.

Em contrapartida, o operariado não teve um grande crescimento, visto que Portugal teve um
desenvolvimento industrial reduzido. A indústria concentrava-se em algumas das regiões do
país como Porto, Covilhã, Marinha Grande, Lisboa, Barreiro e Setúbal. O operariado era
pouco numeroso. Em 1911, representava 21,1% da população ativa.

Os operários portugueses, à semelhança dos outros países, enfrentaram graves


dificuldades – baixos salários, muitas horas de trabalho, más condições de vida. Eram, em
regra, analfabetos.

À semelhança do que sucedia na Europa, os operários portugueses organizaram-se em


defesa dos seus interesses. Em 1838, apareceu a primeira associação operária. Com o
decorrer dos tempos, criaram-se associações de socorros mútuos, sindicatos e cooperativas.
Também recorreram à greve. Até à implantação da República (1910), o operariado conseguiu
melhorar a sua situação, como aconteceu com a redução para 10 horas do horário de trabalho.

Na generalidade, as condições de vida dos portugueses não eram boas. Por isso, muitos
tiveram de emigrar em busca de uma vida melhor.

Portugal conheceu ao longo do século XIX um apreciável aumento da população. Com


efeito, em 1820 tinha 3 100 000 habitantes e, em 1911, alcançava já os 5 547 708 habitantes.
Mas este aumento não foi acompanhado por um correspondente desenvolvimento da
economia, em particular da agricultura e da indústria. Os postos de trabalho eram insuficientes
e os salários baixos. Muitos portugueses tiveram, por isso, de emigrar em busca de

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melhores condições de vida. Os que partiam eram provenientes dos campos, mas também
dos meios urbanos. Eram sobretudo jovens e do sexo masculino.

A maior parte dos emigrantes portugueses – cerca de 80% - dirigiu-se para o Brasil, terra
onde se pensava enriquecer de maneira fácil e rápida. Neste país, os emigrantes ocupavam-se
na agricultura, no artesanato, no comércio e em trabalhos vários nos núcleos urbanos. As
autoridades brasileiras estavam interessadas na vinda deles, visto que assim diminuiu o
recurso a escravos negros.

Alguns dos emigrantes enriqueceram ou melhoraram substancialmente a sua vida.


Muitos enviavam, regularmente, dinheiro para as suas famílias. Essas poupanças fomentaram
a atividade bancária e permitiram equilibrar o défice comercial do país.

Os novos modelos culturais do mundo industrializado

Na transição do século XVIII para o século XIX, surgiu na Europa um novo movimento
cultural e artístico – o Romantismo. Este movimento manifestou-se em particular na
literatura, na pintura, na arquitetura, na música e caracterizou-se por:

 Exaltação do sentimento e da imaginação;


 Valorização da natureza, apresentada de forma sublime e pitoresca ou de
forma fantástica;
 Defesa dos valores nacionais, da liberdade individual e da independência
dos povos;
 Interesse pela Idade Média, pelos usos e costumes dos povos, pelos
mundos exóticos.
Entre as grandes figuras do Romantismo sobressaíram Victor Hugo (na literatura), Turner e
Delacroix (na pintura), Beethoven e Chopin (na música). Em Portugal, destacaram-se
Alexandre Herculano e Almeida Garrett, Vítor Bastos (na escultura) e Cristino da Silva (na
pintura).

Na 2ª metade do século XIX, manifestou-se uma nova expressão cultural e artística – o


Realismo.

A situação económica e social era diferente da do período anterior. Com efeito, tinha-se
estabelecido a sociedade industrial, onde eram contrastantes as formas de vida da burguesia,
do operariado e do campesinato. O Realismo procurou retratar, com objetividade, a
realidade social. Preocupou-se com o mundo do seu tempo, de modo a contribuir para um
novo tipo de sociedade.

O Realismo abordou temas até aí não considerados. Assim, denunciou os vícios e


preconceitos da burguesia e descreveu a vida difícil dos operários e dos trabalhadores rurais. E
fê-lo através da literatura, da pintura, da escultura.

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Na literatura, destacaram-se Zola, Dickens, Dostoievski e, no nosso país, Antero de Quental e
Eça de Queirós. Na pintura, distinguiu-se Courbet, Millet, Darmier e, em Portugal, Columbano e
Malhoa; na escultura portuguesa, merecem realce Soares dos Reis e Teixeira Lopes.

No último quartel do século XIX, desenvolveu-se a Arquitetura do Ferro. O ferro,


associado por vezes ao vidro, foi utilizado na construção de pontes, estações de caminho-de-
ferro, torres, mercados, mobiliário urbano. Entre os monumentos mais significativos da
arquitetura do ferro, destaca-se a Torre Eiffel e o Palácio de Cristal (Londres). Em Portugal, são
símbolos desta arquitetura as pontes de D. Maria e de D. Luís, que ligam o Porto a Gaia.

Na década de 1860, surgiram as primeiras manifestações de uma nova corrente artística


– o Impressionismo. A invenção da fotografia, em meados do século XIX, permitiu reproduzir
de forma fiel o mundo visível. Os artistas, cansados de reproduzir o real, procuraram captar o
que a câmara fotográfica não conseguia – o instante fugidio, os tons de cor a horas diferentes
do dia. Assim, na pintura, privilegiavam a cor e a luz mais do que o desenho. Para o efeito,
utilizavam pinceladas curtas de tinta clara, filtrada. Como principais pintores impressionistas
destacaram-se Renoir, Monet, Van Gogh. Na música, distinguiu-se Debussy.

No século XIX, também se deram importantes progressos científicos e técnicos nos


domínios da:

 Medicina – a descoberta da vacina contra a raiva (Pasteur), dos bacilos da


tuberculose e da cólera (Koch), de antisséticos e de anestésicos; estudo das
células (Virchow) e da criação da fisiologia (Claude Bernard);
 Biologia – reflexões sobre a evolução das espécies (Darwin) e sobre as leis da
hereditariedade (Mendel);
 Física – estudos sobre a eletricidade (Ampère, Ohm), descoberta das ondas
elétricas (Hertz), do raio X (Roëntreng) e da radioatividade (casal Pierre e
Marie Curie);
 Química – classificação dos elementos químicos (Mendeliev).
Também as ciências humanas – história e sociologia (com Comte e Durkheim) e a psicologia
(com Wundt e Freud) – conheceram progressos significativos. As descobertas científicas
e técnicas foram tão importantes que ocasionaram um autêntico culto pela ciência – o
Cientismo, de que se esperava a paz e a prosperidade para a Humanidade.

A abertura de escolas públicas e a ação dos meios de comunicação – jornais, telégrafo,


telefone – expandiram a cultura entre as populações.

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A Europa e o mundo no século XX

As transformações económicas do pós-guerra


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Além das alterações políticas, a guerra causou graves problemas na Europa, nomeadamente a
nível:

 Demográfico – o continente europeu perdeu cerca de oito milhões de homens


e perto de seis milhões ficaram inválidos;
 Económico e financeiro – os países envolvidos na guerra sofreram a
destruição de casas, hospitais, fábricas, vias de comunicação e meios de
transportes. A produção de bens desceu vertiginosamente, continuando a
procura a ser elevada. Surgiu uma inflação incontrolável, isto é, um aumento
de preços e um consequente agravamento do custo de vida;
 Social – a fome, o desemprego e a agitação social tornaram-se uma constante
em países como a Alemanha, a Grã-Bretanha, a França e a Itália.
Em contraste com os países europeus, os Estados Unidos aceleraram o seu crescimento
económico com o conflito. Para dar resposta ao aumento da procura, a indústria aproveitou as
inovações técnicas surgidas na segunda metade do século XIX: a eletricidade e o petróleo
substituíram o carvão como fontes principais de energia.

Surgiu, também, um novo método de produção, introduzido, em primeiro lugar, por Henry Ford
nas suas fábricas de automóveis. Este método de produção, conhecido por fordismo,
baseava-se:

 Na divisão do trabalho em tarefas simples e rápidas, executadas


repetidamente pelos mesmos operários, procurando, assim, evitar-se perdas
de tempo. O taylorismo, que ficou conhecido pelo trabalho em cadeia, foi
desenvolvido por Frederick Taylor;
 Na produção em série das mesmas peças e modelos uniformizados –
estandardização;

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 Na atribuição de prémios de produção e na subida de salários, que
motivaram os operários a produzir e a consumir mais.
Incentivou-se a produção em massa, que fez baixar os preços dos produtos e aumentar o seu
consumo.

Por sua vez, a crescente competitividade nacional e internacional conduziu a um novo sistema
de organização das empresas, reforçando-se a tendência para a sua concentração o que deu
origem a monopólios, ou seja, sociedades que controlam todos os setores da produção, desde
a extração de matérias-primas até à comercialização do produto final.

Mutações na estrutura social, na cultura e nos costumes

O rápido crescimento da economia nos países mais industrializados acentuou a vida de luxo,
de ostentação e de procura de prazer por parte da alta burguesia. Esta, e até mesmo a
média burguesia, viveu, então, um período de prosperidade que ficou conhecido como Belle
Époque. Um público elegante e bem vestido frequentava cabarés, teatros, óperas e cafés-
concertos. Novos hábitos de lazer, como a prática do desporto e as viagens eram,
também, característicos deste período. Em contraste com este modo de vida, grande parte
da população, de que se destacam os camponeses e os operários, vivia com enormes
dificuldades económicas e sociais.

O movimento sindical, que se ia desenvolvendo e fortalecendo, e as crescentes preocupações


sociais dos governos contribuíram para a publicação de legislação protetora dos operários
como o estabelecimento de horários de trabalho, o direito ao descanso semanal, a
segurança em caso de acidente e doença e a regulamentação do trabalho feminino e
infantil.

No início do século XX, surgiram as grandes organizações sindicais que, integrando vários
sindicatos e mobilizando milhões de trabalhadores, levaram a cabo importantes greves que
contribuíram para melhorar as suas condições de vida. As greves, características das
sociedades industriais, eram o instrumento mais usado pelos operários para fazerem as
suas reivindicações.

Durante a segunda metade do século XIX, devido principalmente às grandes transformações


económicas, verificaram-se importantes mutações na sociedade europeia que continuaram no
início do século XX.

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Ligado ao desenvolvimento do setor terciário (comércio e serviços) verificou-se o
crescimento das classes médias, constituídas pela pequena e média burguesias. Cada
vez mais numerosas, as classes médias, devido ao seu nível de instrução e de
consciencialização, passaram a desempenhar um importante papel nas sociedades dos países
industrializados, sendo responsáveis por significativas mudanças políticas, sociais e culturais
do século XX. Constituíram as bases de apoio dos novos partidos políticos e delas saíram os
dirigentes das novas democracias.

Rutura e inovação na arte e na literatura

As alterações económicas e sociais, bem como a vivência e o sofrimento causado pela I


Guerra Mundial, originaram novas formas de expressão artística e provocaram uma
autêntica revolução no mundo das artes. Ao desenvolver-se a fotografia, a pintura perdeu o
monopólio da reprodução da natureza e foi forçada a encontrar novas soluções. Muitos artistas
romperam com as regras e convenções tradicionais e abandonaram, progressivamente, a arte
figurativa (reprodução da realidade observável), abrindo caminho à pintura contemporânea.

Arte Nova

A Arte Nova surgiu em França e na Bélgica e produziu obras de grande beleza e requinte.

Abrangeu os mais variados setores artísticos: a pintura, a arquitetura, o mobiliário, a decoração


de interiores e a ourivesaria. Inspirou-se na natureza e valorizou a linha ondulante e curva
que sugeria a ideia de movimento.

Expressionismo

Este movimento artístico desenvolveu-se na Alemanha e nos países nórdicos. Os pintores


expressionistas pretendiam revelar os seus sentimentos através da violência das cores, das

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pinceladas largas e das imagens deformadas. É um tipo de pintura intenso, apaixonado e
muito pessoal, baseado na ideia de que a tela é um meio para a expressão das emoções.

(Munch) (Otto Dix)

Munch, Kirchner, Schiele e Otto Dix foram alguns dos principais expressionistas.

Fauvismo

O movimento fauve caracteriza-se pela utilização de cores vivas e contrastantes. Estes


artistas utilizavam largas manchas de cores violentas, procurando traduzir a forma como
observavam o mundo. A intensidade da cor prevalecia sobre as formas. Matisse, Roualt e
Dérain foram três dos principais representantes deste movimento.

Cubismo

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O cubismo representou o corte decisivo com a noção de espaço naturalista da qual fazia parte
a técnica da perspetiva. A arte cubista representa objetos reais. Estes são “achatados” na tela,
de forma a que se possa ver em simultâneo diversas perspetivas de um mesmo objeto. Para
isso, as formas são reduzidas a sólidos geométricos que se sobrepõem, surgindo na tela
vários ângulos de visão daquilo que é representado. Picasso, Braque e Gris foram três dos
principais representantes do cubismo.

(Picasso) (Braque)

Futurismo

Este movimento artístico nasceu com o manifesto literário do poeta Marinetti. Os princípios por
ele estabelecidos – recusa da herança cultural do passado e criação de uma nova arte
baseada na velocidade, nas tecnologias modernas (transportes e comunicações) e no
futuro.

A pintura e a escultura futuristas pretendiam enaltecer o dinamismo que simbolizava o


progresso.

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O futurismo, no entanto, não se limitou à pintura e à escultura, abarcando outros domínios,
como a arquitetura, a música e a literatura.

Abstracionismo

O abstracionismo ganhou uma importância fundamental ao longo do século XX. As formas


geométricas, as linhas e as cores adquiriram, assim, um valor independente da realidade,
não representando nada de concreto, apenas os impulsos estéticos, os sentimentos ou as
emoções do artista.

Surrealismo

Iniciado em Paris, o surrealismo procurou descrever o “surreal”, ou seja, o inconsciente, e


entender o mundo dos sonhos. Nem sempre fáceis de interpretar, estes quadros representam
cenas provocantes e ilógicas e misturam criaturas estranhas e fantasmagóricas, com
coleções de objetos do quotidiano.

(Dali)

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As novas correntes literárias surgiram como reação ao conservadorismo tradicional,
constituindo respostas à instabilidade social que antecedeu e sucedeu à I Guerra Mundial.
Entrou-se num período de desencanto, de crise de valores e de ideais desfeitos. A literatura
deste período foi caracterizada por uma visão mais pessimista do mundo, mais receosa e
subjetiva. Foi o caso do irlandês James Joyce, ou dos franceses Marcel Proust e Albert
Camus.

Em Portugal assistiu-se à chegada de movimento de vanguarda, como o expressionismo,


cubismo e o futurismo, conhecidos no nosso país pelo nome genérico de modernismo.
Salientaram-se, entre outros, os pintores Eduardo Viana, Amadeo de Sousa Cardoso e Almada
Negreiros, que foram influenciados por diversas correntes artísticas modernas.

(Amadeo de Sousa Cardoso)

No campo literário surgiu em Portugal uma nova geração de escritores, preocupados com a
situação do país.

O modernismo literário refletiu-se, nas obras de Fernando Pessoa, Mário de Sá Carneiro e


Almada Negreiros.

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Portugal no século XX

Portugal: da I República à ditadura militar

Perante o pessimismo e o derrotismo provocados pelas cedências do governo aos


interesses ingleses, os republicanos procuraram reerguer o orgulho nacional e incutir a
esperança e a confiança num futuro melhor.

Os desentendimentos entre os diversos partidos leais à monarquia e a agitação no Parlamento


levaram o rei D. Carlos a entregar a chefia do Ministério a João Franco, que passou a dirigir o
País de forma ditatorial.

A oposição ao regime monárquico e à ditadura de João Franco crescia cada vez mais. No dia 1
de fevereiro de 1908, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro D. Luís Filipe foram assassinados
no Terreiro do Paço, por elementos republicanos atuando individualmente. O trono foi ocupado
pelo segundo filho do rei, D. Manuel II. O rei formou um governo com representantes de
todos os partidos que apoiavam a monarquia.

A 4 de outubro de 1910, iniciou-se a revolução. Os revoltosos, tanto militares como civis,


pertenciam à classe média, à pequena burguesia e ao operariado. Eram apoiados pelo
Partido Republicano, pela Maçonaria (sociedade inspirada no Movimento das Luzes, que
defendia a fraternidade e a liberdade) e pela Carbonária (sociedade secreta que apoiava a luta
contra a Monarquia, preconizando mesmo a utilização de armas).

Na manhã seguinte, dia 5 de outubro, os revoltosos proclamaram a República da varanda da


Câmara Municipal de Lisboa.

Proclamada a República, foi constituído um Governo Provisório chefiado por Teófilo Braga,
que conduziu os destinos do País até à aprovação de uma Constituição Republicana.

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Esta, aprovada a 21 de agosto de 1911, adotava o sistema liberal da divisão e
independência dos três poderes e estabelecia um regime democrático parlamentar.

Algumas medidas tomadas pelo Governo Provisório ajudaram a marcar a diferença entre o
velho e o novo regime: uma nova bandeira, um novo hino (A Portuguesa) e uma nova
moeda (o Escudo).

Ao longo do período da I República (1910-1926), foram tomadas outras medidas que marcaram
a ação dos governos republicanos:

 Laicização do Estado – lei da separação da Igreja do Estado, expulsão das


ordens religiosas, nacionalização dos bens da Igreja, proibição do ensino
religioso nas escolas oficiais, legalização do divórcio e criação do registo civil
obrigatório;
 Financeiras – Em 1913 Afonso Costa conseguiu que as contas públicas
apresentassem um saldo positivo, graças a um conjunto de medidas das quais
se destacou uma forte restrição nas despesas;
 Sociais – publicaram-se leis que contemplavam a igualdade de direitos dos
cônjuges e entre filhos legítimos e ilegítimos; instituiu-se o divórcio; foram
reconhecidos o direito à greve e à proteção na doença e na velhice; o horário
de trabalho semanal foi fixado em 48 horas para a maioria dos trabalhadores e
em 42 horas para os empregados de escritório e bancários;
 Educativas – estabelecimentos da escolaridade obrigatória entre os sete e os
dez anos; criação de jardins-escola e aumento do número de escolas
primárias; reforma do ensino técnico; criação das Universidades de Lisboa e do
Porto.

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A instabilidade política

O regime parlamentar instituído pela Constituição de 1911 e as rivalidades partidárias foram


importantes fatores da instabilidade política que se fez sentir durante o período da I República.

O Partido Republicano Português (PRP), bem estruturado e unido pelo forte objetivo de
derrubar a Monarquia, apresentou, logo nos primeiros anos da República, divergências
resultantes de questões entre os seus dirigentes e da dificuldade em cumprir o seu programa.

Dos desentendimentos entre os mais conservadores e os que exigiam reformas e métodos


radicais, resultou a desagregação do Partido Republicano Português, dando origem a novos
partidos rivais.

Como os sucessivos governos não conseguiam obter a maioria absoluta no Congresso


(Parlamento), tinham de recorrer a governos de coligação que, dadas as rivalidades, se
revelavam pouco eficazes. Após curtos espaços de tempo, eram objeto de votos de
desconfiança dos deputados da oposição, ou demitiam-se sem terem posto em prática o seu
programa.

O agravamento das dificuldades

As dificuldades criadas pela participação de Portugal na I Guerra Mundial e a instabilidade


política dificultaram a resolução dos problemas económicos que afetavam o país. Mesmo na
educação, onde se tinha conseguido fazer descer a taxa de analfabetismo de cerca de 70%
para cerca de 63% até final da I República, a obra reformadora ficou aquém das expetativas.

No campo laboral, o antagonismo entre patrões e operários acentuou-se: a burguesia receava


a força crescente do operariado; o operariado considerava que as suas reivindicações não
eram suficientemente atendidas. As manifestações e as greves sucediam-se. Os salários
continuavam a não acompanhar a subida de preços, aumentando a fome e a miséria.

A situação económica, financeira e social foi-se agravando, pois o valor das importações
continuava a ser superior ao valor das exportações, o desemprego era elevado e o custo de
vida não parava de aumentar, fazendo crescer a inflação. Para fazer face à situação, os
governos republicanos, à semelhança dos governos monárquicos da segunda metade do
século XIX, recorreram a empréstimos, aumentando a dívida externa.

A reação autoritária e a ditadura militar

Em 1917, as dificuldades económicas, as lutas políticas e a agitação social levaram


alguns setores da sociedade, nomeadamente os capitalistas, a apoiar Sidónio Pais na
implantação de uma ditadura militar.

O período de 1919 a 1926 foi marcado pelo agravamento da crise financeira e da inflação e
pelo aumento do número de greves e de ações terroristas. Aumentava a instabilidade política,
económica e social, anunciando o fim da República Democrática. Vários movimentos

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revolucionários refletiram o agravamento da conflitualidade política, conduzindo, por vezes, à
substituição ou mesmo à queda dos governos.

A 28 de maio de 1926, tropas comandadas pelo general Gomes da Costa saíram de Braga,
marcharam sobre Lisboa e derrubaram o governo. Ao dissolverem o Parlamento e
suspenderem as liberdades individuais, os militares substituíram a I República por uma ditadura
militar.

Portugal: o autoritarismo e a luta contra o regime

O golpe desencadeado pelas Forças Armadas, em 1926, instaurou uma ditadura militar em
Portugal. Contudo, a instabilidade política e os problemas económicos persistiram, contribuindo
para agravar o défice orçamental e a dívida externa. Foi neste clima de instabilidade que, em
1928, o general Óscar Carmona foi eleito Presidente da República. Carmona convidou António
de Oliveira Salazar para ministro das Finanças. Salazar só aceitou o cargo depois de ver
garantida a possibilidade de supervisionar os orçamentos de todos os ministérios e de ter
direito de veto sobre os respetivos aumentos de despesas.

Recorrendo ao aumento dos impostos e à redução das despesas públicas, Salazar


conseguiu reorganizar as finanças do País. Logo no final do primeiro ano de mandato como
ministro das Finanças, conseguiu que o valor das receitas do Estado fosse superior ao valor
das despesas.

O sucesso da política financeira de Salazar deu-lhe imenso prestígio e converteu-o no


“Salvador da Nação”. Em 1929, dirigindo-se ao País, afirmava: “Nada contra a Nação, tudo
pela Nação”. Salazar procurava construir um Estado forte, que garantisse a ordem, por
oposição à desordem que considerava ter marcado o período da I República.

O Estado forte assentava no reforço do poder executivo, de que Salazar seria o chefe, na
substituição do pluralismo partidário por um único partido e na abolição dos sindicatos livres.
Salazar defendia também a preservação dos valores tradicionais – Deus, Pátria, Família -,
de modo a formar uma sociedade educada de acordo com a moral cristã (Deus),
nacionalista (Pátria) e corporativa (Família). O Estado forte caracterizava-se pelo
imperialismo colonial e pelo nacionalismo económico.

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Em 1932, Salazar foi nomeado Presidente do Conselho (atual cargo de Primeiro-Ministro),
começando desde logo a preparar o texto da futura Constituição.

A Constituição de 1933

Em abril de 1933, foi promulgada uma nova Constituição que pôs fim ao período da ditadura
militar, Iniciou-se um novo período ditatorial que o próprio Salazar intitulou de “Estado Novo”,
para mostrar que a organização do Estado seria diferente da que existira durante a I República.
Este período ditatorial só terminaria a 25 de abril de 1974.

A nova Constituição mantinha eleições por sufrágio direto e continuava a reconhecer as


liberdades e os direitos individuais. Esses direitos estavam subordinados aos “interesses da
Nação”. Progressivamente, Salazar foi concentrando em si todos os poderes, não respeitando
a Constituição:

 O seu próprio poder, enquanto Presidente do Conselho, sobrepunha-


se ao poder do Presidente da República;
 O poder do Governo sobrepunha-se ao da Assembleia Nacional;

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 As liberdades individuais (liberdade de imprensa, de reunião, direito
à greve, entre outros) foram ignoradas ou seriamente restringidas.
A influência de Salazar dominou de tal forma todos os setores da vida portuguesa que o
período do Estado Novo é, muitas vezes, denominado de “salazarismo”. Em 1935, ele próprio
afirmava: “Infelizmente há muita coisa que, parece, só eu posso fazer”.

As organizações fascistas

Em 1936, surgiram duas organizações de caráter marcadamente fascista:

 A Legião Portuguesa, organização paramilitar, que tinha como objetivo


defender o regime salazarista e combater o comunismo;
 A Mocidade Portuguesa, organização juvenil que procurava desenvolver a
devoção à Pátria, o respeito pela ordem, o culto do chefe e o espírito militar.

A censura

A censura à imprensa que tinha sido instituída em 1926, com a ditadura militar, foi-se
estendendo, progressivamente, aos outros meios de comunicação, como o teatro, o cinema, a
rádio e a televisão. Visava não só supervisionar assuntos políticos e militares, mas também
religiosos, normas de conduta e toda e qualquer notícia suscetível de influenciar a população
num sentido considerado perigoso.

Todos os que comunicavam com o público, como jornalistas e escritores, eram forçados a uma
autocensura prévia, a fim de evitar que os seus textos fossem proibidos ou mutilados pela
Comissão de Censura. Os livros, embora não tivessem censura prévia, podiam ser
apreendidos se contivessem matérias “contrárias aos interesses do Estado”.

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Evitava-se, assim, qualquer crítica ao Estado Novo e impedia-se a criação de uma opinião
pública livre.

A polícia política

A polícia política, com funções de prevenção e repressão de crimes políticos, foi criada em
1933. Primeiro chamada Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), passou a
designar-se Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), a partir de 1945.

Esta polícia utilizou a tortura física e psicológica, para obter confissões e denúncias;
enviou para a prisão e para campos de concentração milhares de opositores ao regime ou
simples suspeitos, violou a correspondência dos cidadãos e os seus agentes invadiram
residências consideradas suspeitas, tanto de dia como de noite.

Tudo isto ajudou a consolidar o poder de Salazar e a manter a ordem nas ruas.

Todas estas organizações, bem como a enorme propaganda e o controlo do ensino,


especialmente através da adoção de manuais únicos oficiais que transmitiam os valores do
Estado Novo, ajudaram a consolidar o poder de Salazar.

O corporativismo

Salazar defendia o corporativismo, como forma de controlar a sociedade e a economia. Foi


publicado, em 1933, o Estatuto do Trabalho Nacional, documento onde constavam os
princípios corporativos já anteriormente enunciados na Constituição. Assim foram extintos os
sindicatos livres e foi estipulado que os trabalhadores se organizariam em sindicatos nacionais,
de acordo com as diversas profissões, devendo negociar os contratos coletivos de trabalho

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com o respetivo grémio (organização patronal que representava um ramo de atividade da
produção ou do comércio). Ao Estado competia arbitrar as negociações, de modo a garantir o
direito ao trabalho e a um salário justo, sendo as greves e o lock-out (encerramento
temporários das empresas) proibidos. Foram também criadas as Casas do Povo (uniões rurais
de patrões e trabalhadores) e as Casas dos Pescadores (associações de gentes do mar e seus
empresários), que visavam melhorar as condições de vida da população.

O corporativismo subordinava os interesses individuais e de classe aos interesses do próprio


Estado.

A política de obras públicas

O Estado Novo fez um grande e continuado investimento na construção de obras públicas.


Construíram-se e repararam-se estradas, as redes telefónica e telegráfica conheceram enorme
expansão, melhoram-se alguns portos, construíram-se alguns portos, construíram-se
numerosas barragens, para irrigação dos campos e produção de eletricidade, bem como
aeroportos e hospitais. Esta política de construção, cujo objetivo era criar infraestruturas que
permitissem o desenvolvimento económico do País, tornou-se numa arma propagandística do
regime, dentro e fora de Portugal.

O colonialismo

As colónias desempenharam um papel importante na política salazarista, quer a nível


económico, quer a nível político. Os territórios coloniais eram fonte de matérias-primas (café,
sisal, algodão, minérios) importantes para a indústria nacional, funcionando igualmente como
mercados para escoar os produtos agrícolas e industriais. Foram, assim, um importante meio
para a concretização da política de nacionalismo económico.

O Ato Colonial de 1930 (uma espécie de Constituição para os territórios além-mar) reafirmou as
ideias imperialistas que faziam da defesa do Império a defesa da Nação. A extensão e a
riqueza das colónias, consideradas parte integrante de Portugal, permitiram a Salazar
proclamar a grandeza da Nação.

Após a II Guerra Mundial, Portugal manteve o seu regime autoritário. No entanto, os


oposicionistas acreditaram que era possível recuperar as liberdades e exigiram a realização de
eleições livres. Do exterior, surgiram igualmente pressões políticas por parte de países com
regimes democráticos. Cedendo a todas essas pressões, em outubro de 1945, foi dissolvida a
Assembleia Nacional e foram marcadas eleições legislativas para 18 de novembro, afirmando
Salazar que as mesmas deveriam ser “tão livres como na livre Inglaterra”.

A oposição organizou-se no MUD (Movimento de Unidade Democrática) para concorrer às


eleições. Contudo, depressa se apercebeu de que não existiam condições para lutar
eficazmente contra o regime. Os oposicionistas solicitaram então ao governo o adiamento do
ato eleitoral mas, perante a recusa de Salazar, decidiram-se pela retirada das candidaturas.

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Em 1948, a candidatura do general Norton de Matos às eleições presidenciais, proposta pela
oposição, obteve um enorme apoio popular, provocando um novo momento de contestação ao
regime. Mas foi a candidatura do general Humberto Delgado que, em 1958, fez tremer o
salazarismo.

A oposição, sem hipóteses de vencer as eleições, até porque havia apenas um reduzido
número de cidadãos inscritos como eleitores, aproveitava os diversos atos eleitorais para
demonstrar o seu descontentamento. Por seu lado, o regime salazarista servia-se das eleições
como arma de propaganda para convencer as nações democráticas de que a situação política
portuguesa nada tinha de fascista e contava com o apoio popular.

O Estado Novo recusou, assim, a democratização do país, servindo-se da polícia política, das
prisões e da censura para silenciar os opositores.

As más condições de vida levaram milhares de pessoas a abandonaram as suas terras,


deslocando-se para as cidades mais industrializadas como, por exemplo, Lisboa, Porto e
Setúbal, à procura de uma vida melhor. Também o Ultramar português foi um dos destinos
escolhidos por muitas pessoas. Outros milhares abandonaram Portugal, emigrando para os
países industrializados, onde a carência de mão-de-obra lhes proporcionava salários muito
mais elevados do que na terra-mãe.

No princípio de setembro de 1968, Salazar adoeceu depois de sofrer um acidente, o que o


impossibilitou de continuar à frente do governo, tendo sido substituído por Marcelo Caetano.

A atuação inicial deste novo governante deu aos portugueses a esperança de voltarem a viver
em liberdade: verificou-se um abrandamento na atuação da censura e da PIDE, alguns
exilados políticos foram autorizados a regressar ao País (entre eles Mário Soares, o bispo do
Porto, D. António Ferreira Gomes e até alguns membros do partido comunista) e foi permitida a
realização de um congresso da oposição na cidade de Aveiro. Era a “Primavera Marcelista”.

As eleições legislativas de 26 de outubro de 1969 trouxeram algumas alterações em relação ao


passado salazarista. Pela primeira vez, em 44 anos, a oposição foi às urnas em quase todo o
País. Nos grandes centros, delegados da oposição puderam mesmo fiscalizar as assembleias
de voto. Contudo, a oposição não teve qualquer hipótese de vencer as eleições, pois a
campanha eleitoral durou apenas um mês, milhares de votantes não estavam registados e
outros tinham sido riscados dos cadernos eleitorais. A oposição sofreu uma pesada derrota e a
Assembleia Nacional foi, uma vez mais, ocupada exclusivamente por deputados da União
Nacional.

Um ano após a substituição de Salazar, a Guerra Colonial mantinha-se, não se concedera


qualquer amnistia aos presos políticos, recusava-se a liberdade de associação, os partidos
políticos não tinham sido autorizados e a polícia política apenas mudara de nome, passando a
designar-se Direção-Geral de Segurança (DGS).

Logo em 1970, vários oposicionistas foram obrigados a exilar-se, como foi o caso de Mário
Soares, e muitos outros foram presos. A esperança de liberalização fracassara. Contudo,
tinham sido eleitos para a Assembleia Nacional alguns deputados que acreditavam ser possível
a realização de reformas democráticas, através da sua atuação na Assembleia. Estes
deputados formaram a chamada “ala liberal”.

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Portugal democrático: a Revolução do 25 de Abril e a instauração
do Estado Democrático

A agonia do Estado Novo

Apesar de Marcelo Caetano ter tomado algumas medidas bem aceites pela população, como o
alargamento da Segurança Social aos trabalhadores rurais e a reforma do ensino em 1973, de
que se destacou a escolaridade obrigatória de seis anos e a construção de novas escolas, o
regime entrou em agonia. O desgaste provocado pela Guerra Colonial ia-se acentuando. O
exército via-se desprestigiado por não conseguir derrotar os guerrilheiros africanos, enquanto
milhares de jovens fugiam para o estrangeiro, recusando-se a participar na guerra.

Dentro do próprio exército surgiram vozes críticas. Nos finais de 1973, um grupo de capitães
começou a preparar um movimento conspirativo para pôr fim ao Estado Novo.

A restauração da liberdade

A 25 de abril de 1974, o MFA (Movimento das Forças Armadas), que contou com a maioria das
unidades dispersas pelo País, atuou com rapidez e precisão, pondo fim ao regime. Em pouco
mais de 12 horas, os militares passaram a dominar pontos estratégicos nas principais cidades.
Marcelo Caetano, que se tinha refugiado no Quartel do Carmo, em Lisboa, impôs como
condição para se render a presença de um oficial superior, “para o poder não cair na rua”.
Rendeu-se ao General António de Spínola. Marcelo Caetano e Américo Tomás foram presos e
deportados para a ilha da Madeira e, depois, autorizados a partir para o Brasil. O Estado Novo
deixara de existir.

O apoio dos populares aos revoltosos contribuiu para o êxito do MFA. O povo saiu à rua com
grande entusiasmo para saudar e oferecer cravos vermelhos aos militares e impediu, com a
sua presença, que se travassem combates. A 1 de maio de 1974, Dia do Trabalhador,
impressionantes manifestações populares consagraram o apoio da população ao movimento
revolucionário.

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As primeiras medidas revolucionárias

Na madrugada do dia 26 de abril, o General Spínola, em nome da Junta de Salvação Nacional,


deu a conhecer aos portugueses, através da televisão, o programa do MFA, que era
desenvolvido em torno de 3 objetivos: Democratizar, Descolonizar, Desenvolver. A
democratização da sociedade portuguesa iniciou-se através das seguintes medidas:

 Extinção da Polícia Política, da Legião Portuguesa e da Mocidade Portuguesa;


 Abolição da censura e reconhecimento da liberdade de expressão e de
pensamento;
 Libertação dos presos políticos.

Independência das colónias e retorno dos nacionais

De acordo com o programa do MFA, a solução para a Guerra Colonial deveria ser política e
não militar, o que implicava descolonizar.

A partir de julho de 1974, realizaram-se negociações com os representantes dos movimentos


de libertação tendo em vista o reconhecimento do direito à autodeterminação e à
independência. Rapidamente, na Guiné, em Moçambique, em Cabo Verde, em São Tomé e
Príncipe e em Angola, o poder foi transferido para os movimentos de libertação e foi
proclamada a independência. Formaram-se, assim, cinco novos países independentes.

Um dos aspetos dramáticos da descolonização foi o regresso a Portugal de cerca de 500 000
portugueses das antigas colónias, muitos deles em difícil situação económica.

O difícil caminho da democracia

O primeiro governo provisório, formado em maio de 1974, foi uma tentativa de governo de
unidade nacional antifascista. Quer o seu presidente, Palma Carlos, quer os seus ministros –
entre eles Mário Soares e Álvaro Cunhal – tinham um longo passado de oposição ao Estado

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Novo. Contudo, divergências ideológicas impediram este governo, bem como outros que se lhe
seguiram, de levar a cabo a rápida construção de um Portugal novo.

A 28 de setembro, após uma tentativa falhada de golpe de Estado, o general António de


Spínola pediu a demissão do cargo de Presidente da República, sendo substituído pelo general
Costa Gomes. A 11 de março de 1975, alguns militares apoiantes do general Spínola tentaram
uma revolta, cujo fracasso levou ao exílio de vários civis e militares, entre eles o próprio
Spínola. A 12 de março, a Assembleia do MFA, reunida em Tancos, decidiu substituir a Junta
de Salvação Nacional por um Conselho da Revolução, constituído, em grande parte, por
militares pró-comunistas, que defendiam a implementação de medidas revolucionárias.

Um novo governo provisório, o quarto, chefiado por Vasco Gonçalves, decretou a


nacionalização dos bancos, companhias de seguros e grandes empresas.

O verão de 1975, o chamado “verão quente”, foi um tempo de total agitação, verificando-se
ataques violentos às sedes dos partidos de esquerda e de direita, o controlo dos principais
meios de comunicação pelos comunistas, a par de numerosas greves, desfiles populares,
comícios, entre outros. Formou-se o quinto governo provisório, igualmente chefiado por Vasco
Gonçalves, dominado pelos comunistas.

A consolidação da democracia

Em setembro de 1975, Vasco Gonçalves, muito contestado, foi substituído pelo almirante
Pinheiro de Azevedo, considerado próximo dos socialistas. O seu governo iniciou o processo
de estabilização, que se revelou lento e difícil. A 25 de novembro a extrema-esquerda tentou
um golpe para tomar o poder, tendo sido detida pelos militares moderados. Era o modelo de
democracia representativa, em vigor noutros países ocidentais, que saía vencedora.

Entretanto, a 25 de abril de 1975, apesar do ambiente revolucionário, tinham-se realizado, de


forma ordeira, eleições para a Assembleia Constituinte, tendo a nova constituição democrática
sido aprovada a 2 de abril de 1976 e entrado em vigor no dia 25 desse mês.

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Bibliografia
 Sinais da história 8, Aníbal Barreira e Mendes Moreira, Asa Editora, 2012;

 Sinais da história 9, Aníbal Barreira e Mendes Moreira, Asa Editora, 2012.

Netgrafia:

 www.forma-te.com
 www.infoescola.pt
 www.portoeditora.pt
 www.infopedia.pt

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