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INOVAÇÕES NA ÁREA DE BIOTECNOLOGIA

EM SAÚDE HUMANA EM PAÍSES EM


DESENVOLVIMENTO E SUA IMPORTÂNCIA
ECONÔMICA E SOCIAL: UMA REFLEXÃO SOBRE O
CENÁRIO ATUAL E PERSPECTIVAS FUTURAS
Henrique Sulzbach de Oliveira1, Rafael Luís Spengler2

Resumo: A biotecnologia em saúde humana tem demonstrado ser área de pesquisa promissora para o
progresso de economias em desenvolvimento. Por sua própria natureza científica, a biotecnologia, através
de seu aprofundamento, tem a capacidade de impactar na melhoria da qualidade de vida da população.
A partir da hipótese de que as inovações em saúde humana não estão restritas a países já desenvolvidos,
o presente artigo, por meio de revisão bibliográfica, evidencia iniciativas realizadas em países em
desenvolvimento que tiveram significativo impacto para a solução de seus problemas de saúde. Ademais,
em particular, ressalta progressos científicos realizados no Brasil e os desafios na área de biotecnologia em
saúde humana, verificando que a inovação tecnológica serve de importante propulsor para modificações
tanto quantitativas, referentes ao crescimento da economia do país, quanto qualitativas, relacionadas à
melhoria da vida das pessoas.

Palavras-chave: Biotecnologia. Desenvolvimento. Inovação. Brasil.

INNOVATIONS IN HUMAN HEALTH


BIOTECHNOLOGY IN DEVELOPING COUNTRIES
AND ITS ECONOMIC AND SOCIAL IMPORTANCE:
A REFLECTION ABOUT THE CURRENT FACTS AND
FUTURE PERSPECTIVES

Abstract: Human health biotechnology has emerged as a promising research area for the progress of
developing economies. Because of its scientific relevance, the advances in biotechnology can improve
the population’s quality of life. On the assumption that human health innovations are not restricted to
developed countries, this paper, through literature review, shows initiatives in developing countries that
were significantly relevant to achieve a solution to their health problems. Moreover, it draws attention
to scientific progress in Brazil and the challenges in human health biotechnology and reveals that

1 Fisioterapeuta, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia da Univates e bolsista da


Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul (Fapergs).

2 Bacharel em Ciências Econômicas, mestrando do Programa de Pós-Graduação em Economia, ênfase


em Economia do Desenvolvimento, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e bolsista
da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (Capes).

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technological innovation is an important booster for both quantitative changes, such as the country’s
economic growth, and qualitative changes, such as the improvement of people’s quality of life.

Keywords: Biotechnology. Development. Innovation. Brazil.

1 INTRODUÇÃO
A biotecnologia, de acordo com Glazer e Nikaido (1995) apud Pereira Jr., Bon e
Ferrara (2008, p. 7), pode ser compreendida como o “uso de organismos vivos para
produzir produtos benéficos para a espécie humana”. As suas diversas aplicações
abrangem a saúde animal (inseminação artificial, clonagem, engenharia genética
etc.), a agricultura (sementes e plantas modificadas geneticamente, controle de pragas,
produção de fertilizantes, entre outros) e a bioenergia (como o etanol e o biodiesel),
entre outros.
Mesmo com seu alto grau tecnológico, soluções na área biotecnológica não são
restritas aos países ricos; são também requeridas e devem ser desenvolvidas por países em
desenvolvimento, de modo a atender às necessidades particulares de cada país (SASHA;
SATYANARAYANA; GARDNER, 2004). No Brasil, o setor de biotecnologia
em saúde tem feito progresso considerável. Ele compreende empresas privadas e
institutos controlados pelo governo, estando comprometido no desenvolvimento e/ou
fornecimento de produtos para saúde humana. Nos últimos anos aumentou-se a ênfase
no papel do setor privado como meio de complementar os esforços do setor público,
acelerando o processo de inovação e abastecimento de produtos em saúde (REZAIE et
al. 2008).
Essa percepção é corroborada por estudos setoriais, como Biominas (2011), por
exemplo, que enfatiza que o Brasil possui características estruturais e conjunturais
capazes de alavancar o desenvolvimento do setor de biociências, como forte base
científica, abundância de recursos naturais e ascensão de milhões de brasileiros à classe
média e envelhecimento (aumentando consumo e acesso a serviços de saúde). Porém,
para gerar renda a partir desses fatores, seria necessária a atitude pró-ativa e coordenada
de agentes públicos e privados, além de, sobretudo, um projeto de longo prazo para o
país.
Outro aspecto notável, e que, segundo Bonelli e Fontes (2013), tem sido pouco
enfatizado nos estudos econômicos, é o fato de que a transição demográfica brasileira,
– isto é, a redução das taxas de crescimento populacional e em idade ativa –, tem sido
muito rápida. Enfatizando que a população brasileira deixará de aumentar em 2040,
passando então a diminuir, Bonelli e Fontes (2013) apontam que os impactos sobre os
gastos com saúde e previdência no Brasil aumentarão e, no extremo oposto da pirâmide
etária, as despesas com jovens diminuirão. Os autores demonstram que o Brasil vive o
final de uma fase em que o bônus demográfico (ou seja, a diferença entre o crescimento
da população total e da população em idade ativa) contribuía de maneira decisiva para o

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crescimento. Por isso, a necessidade do crescimento da produtividade nesse contexto se


impõe como essencial, o que reforça a relevância da biotecnologia para a saúde humana
em um contexto de população mais envelhecida e traduz-se, igualmente, em uma
oportunidade de longo prazo para o setor farmacêutico.
O foco deste artigo é exatamente a biotecnologia para a saúde humana, que,
conforme Biominas (2011), está vinculada ao desenvolvimento de novos medicamentos,
diagnósticos, vacinas, terapia celular, medicina regenerativa e engenharia de tecidos.
Esse setor, em franca ascensão no Brasil, oferece inúmeras oportunidades que, se bem
identificadas e aproveitadas, podem contribuir para o desenvolvimento dos países.
Desse modo, partindo da hipótese de que, de fato, avanços técnicos na
área traduzem-se em ganhos econômicos e sociais para países considerados “em
desenvolvimento” (Brasil, África do Sul, China, Coreia do Sul, Cuba, Egito e Índia), e
que as inovações em pesquisas na fronteira tecnológica não são e não devem ser exclusivas
de países desenvolvidos, objetiva-se discutir e enfatizar a importância da biotecnologia
em saúde humana para o desenvolvimento. Sendo assim, algumas questões se impõem:
a qual noção de desenvolvimento se está referindo e qual a importância da biotecnologia
em saúde humana para o mesmo? Quais as principais inovações já consolidadas no
conjunto dos países selecionados e que foram traduzidas em melhorias para a saúde de
suas populações? No caso específico brasileiro, quais iniciativas têm sido tomadas para
o aprofundamento das pesquisas em biotecnologia em saúde humana e persecução do
desenvolvimento econômico-social?
Para tratar desses problemas, o artigo está dividido em quatro seções, além desta
introdução. O próximo capítulo traz uma discussão teórica que realça a influência
da inovação para o desenvolvimento. Destaca-se, sobretudo, o papel das inovações
em biotecnologia em saúde humana. Em seguida, a terceira seção demonstra a
relevância dessas inovações para países em desenvolvimento, exemplificando com
algumas iniciativas bem-sucedidas realizadas em um conjunto de países considerados
“em desenvolvimento”. O quarto capítulo traça um panorama da realidade do setor
de biotecnologia em saúde humana no Brasil e estabelece algumas perspectivas,
oportunidades e desafios relacionados à área no país. Finalmente, a conclusão resume
as principais questões trabalhadas ao longo deste estudo.

2 BIOTECNOLOGIA E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO:


ASPECTOS TEÓRICOS
Ao longo das últimas décadas, a biotecnologia, que se constitui de um conjunto de
áreas de conhecimento (o que reforça a necessidade de competências multidisciplinares),
evoluiu tecnicamente de maneira significativa, de modo a propiciar o aumento da
compreensão sobre processos biológicos em nível molecular e permitir a reprodução
artificial ou modificada de processos antes restritos a modelos naturais. As aplicações

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dessas técnicas para a saúde são vastas, incluindo vacinas (preventivas e terapêuticas),
substâncias terapêuticas de base biotecnológica (proteínas recombinantes, anticorpos
monoclonais, versões recombinantes de hemoderivados), reagentes e kits utilizados para
diagnósticos e análises clínicas (REIS; PIERONI; SOUZA, 2010).
Pode-se dizer que a biotecnologia em saúde humana é parte indissociável de
um fenômeno mais amplo, o progresso científico, que tem impactos significativos
também nas esferas econômica e social. A inovação tecnológica, sem dúvida, é um
dos elementos mais importantes para o desenvolvimento econômico, a ponto de
Freeman e Soete (2008, p. 497), por exemplo, serem categóricos: “O crescimento e
o desenvolvimento econômico das nações sempre estiveram vinculados de perto ao
acesso à ciência e tecnologia e à efetiva exploração de ambas”. Porém, o que se entende
por “desenvolvimento econômico” ou, simplesmente, “desenvolvimento”?3 E qual a
importância da biotecnologia para ele?
Como salienta Souza (1997), não há uma definição aceita universalmente
sobre o que vem a ser desenvolvimento. Grosso modo, contudo, podem-se distinguir
duas correntes entre os estudiosos: uma, de inspiração mais teórica, que considera
desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico; outra, mais voltada para
a realidade empírica, que compreende que o crescimento é condição necessária para o
desenvolvimento, embora não suficiente.
Entre os expoentes do primeiro grupo, destaca-se a contribuição de Robert
Solow (1956), que demonstrou, com base em alguns pressupostos, que o crescimento
econômico tem como fontes a acumulação de capital, o crescimento da força de trabalho
e as inovações tecnológicas – e, desse modo, o produto per capita dependeria, de forma
crescente, da razão entre capital e trabalho. No equilíbrio de longo prazo do modelo de
Solow, tem-se que nenhuma alteração na dinâmica interna da economia pode ensejar
alterações nas taxas de crescimento das variáveis do modelo. A ideia subjacente desse
modelo simplificador, segundo Souza (1997), é que o crescimento econômico, ao
distribuir diretamente a renda entre proprietários dos fatores de produção, engendra
automaticamente a melhoria dos padrões de vida e o desenvolvimento econômico.
Finalmente, como resultado, conforme Muhate (2006, p. 5), “a política econômica
pouco ou nada pode fazer para dinamizar a aceleração econômica no longo prazo, dado
que tanto a tecnologia como a taxa de crescimento da população (determinantes da
produção) são determinadas fora do modelo”. Ou, como afirmam Mendes e Vale (2001,
p. 28), “o Governo não afeta a taxa de crescimento econômico de longo prazo, mas
pode intervir de forma a maximizar o consumo na economia”.

3 Não se pretende aqui, evidentemente, aprofundar a extensa discussão sobre o significado e a abrangência
do conceito de “desenvolvimento econômico”, mas apenas extrair e apresentar algumas ideias mais
importantes para os propósitos deste artigo.

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A segunda corrente, por sua vez, encara o desenvolvimento não como mera variação
no produto, mas, também, como mudanças qualitativas no modo de vida das pessoas,
das instituições e das estruturas políticas. Nesse sentido, desenvolvimento caracteriza-
se pela transformação de uma economia arcaica em uma economia moderna, eficiente,
juntamente com a melhoria do nível de vida do conjunto da população. Encerram-se
nessa tradição economistas vinculados à Comissão Econômica para a América Latina
‒ Cepal, órgão da Organização das Nações Unidas ‒ ONU, como o brasileiro Celso
Furtado e o argentino Raúl Prebisch, além de economistas como o coreano Ha-Joon
Chang e o sociólogo Peter Evans, entre outros, que defendem o papel ativo do Estado
na persecução dessas reformas (BRESSER-PEREIRA, 2010; HERRLEIN JR.,
2014). Para eles, o desenvolvimento implica mudança de estruturas econômicas, sociais,
políticas e institucionais, com melhoria da produtividade e da renda média dos agentes
envolvidos no processo de produção, e tem o mérito de destacar a interdependência
entre os setores produtivos e a necessidade de se aperfeiçoar essas estruturas e os pontos
de estrangulamento do desenvolvimento (SOUZA, 1997, p. 21).
Sendo assim, pode-se definir, de forma concisa, desenvolvimento econômico como
a “existência de crescimento econômico contínuo acima do crescimento demográfico,
envolvendo mudanças de estruturas e melhoria dos indicadores econômicos e sociais”
(SOUZA, 1997, p. 22). Abrange, portanto, um fenômeno de longo prazo, o que
implica, resumidamente, o fortalecimento da economia nacional, a ampliação da
economia de mercado e a elevação geral da produtividade (SOUZA, 1997). Ainda
conforme Souza (1997, p. 22), “com o desenvolvimento, a economia adquire maior
estabilidade e diversificação; o progresso tecnológico e a formação de capital tornam-
se gradativamente fatores endógenos, isto é, gerados predominantemente no interior
do país”. Dessa forma, possibilita-se a redução do número de pessoas que vivem sob
extrema pobreza e a elevação dos níveis de salários e renda agregada.
Nesse contexto, a variável-chave para o desenvolvimento, no entender do
importante economista e sociólogo austríaco Joseph Schumpeter, é a inovação. A análise
de Schumpeter (1982) situa o dinamismo da oferta para a explicação do crescimento
econômico, o que relega em segundo plano o papel da demanda e enfatiza os modos
de combinar matérias-primas e trabalho para a produção de artigos a serem utilizados
no dia a dia das pessoas. O desenvolvimento é pensado como “destruição criadora”, por
substituir práticas e atividades desenvolvidas até então por novas e criativas maneiras
de produzir.
Seguindo a corrente de Schumpeter, encontram-se teóricos mais recentes,
considerados “neo-schumpeterianos”, que sublinham a necessidade de inovações
para que se alcance o desenvolvimento. Lundvall (1995, p. 876), por exemplo, define
que inovação é “um processo cumulativo envolvendo não somente inovações radicais
e incrementais, mas também a difusão, absorção e uso das inovações”. Freeman e
Soete (2008, p.498), na mesma linha de interpretação, enfatizam a importância do
que denominam Sistemas Nacionais de Inovações, compreendidos como “as muitas

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interações entre várias instituições que lidam com ciência e tecnologia, bem como o
ensino, as inovações e a difusão de tecnologia, [...] analisadas em um sentido bem mais
amplo”.
Percebe-se, portanto, que a inovação assume papel preponderante para o
desenvolvimento, independentemente do recorte teórico com que se identifique. O que
as distingue, em última análise, é o papel que o Estado deve assumir para que ocorra
esse desenvolvimento: deve privilegiar a livre-iniciativa, sem incentivar determinados
setores, ou deve ensejar a inovação para o atendimento das necessidades mais urgentes
da população? A biotecnologia para a saúde humana, mais especificamente, está
condicionada a dilemas semelhantes: por um lado, tem potencial para tornar-se uma
grande geradora de lucros, inovação e empregos; por outro, mais afeito às questões
sociais, visa ao atendimento das necessidades imediatas da população, buscando
medicamentos e formas de tratamento mais eficazes, preferencialmente a custos
menores, sobretudo em países com menor poder aquisitivo.
Para Thorsteindóttir et al. (2004a), encorajar o desenvolvimento da biotecnologia
em saúde humana é uma estratégia promissora na promoção do desenvolvimento
sustentável e, se bem sucedida, tem efeitos positivos, diretos e indiretos, por toda a cadeia
produtiva. Ademais, indiretamente, populações mais saudáveis podem fortalecer a
economia dos países em desenvolvimento (WORLD HEALTH ORGANIZATION,
2001). O mesmo vale para o setor de saúde, em sentido geral: os argumentos que
destacam sua importância frisam o desenvolvimento humano com equidade e justiça
social e seu complexo produtivo, valorizando-o como fator de desenvolvimento pelo
elevado grau de inovação, lucratividade e empregabilidade do setor, com potencial
econômico e tecnológico para incrementar a integração regional (GALLO et al., 2005).
Nesse aspecto, Reis, Landim e Pieroni (2011) salientam que os investimentos realizados
nos últimos anos sugerem que a biotecnologia se transformou na maior aposta de longo
prazo na área da saúde, tanto para as empresas quanto para os países, o que os levou a
implantarem políticas industriais ativas para aproximarem-se da fronteira tecnológica.
Não obstante esses evidentes benefícios, a pesquisa biotecnológica em saúde
humana é, relativamente, um negócio de risco, já que o retorno do investimento pode
ocorrer apenas no longo prazo, caso ocorra – afinal, tampouco há certeza de que serão
efetivamente feitas descobertas e inovações. Em outras palavras, conforme salientam
Thorsteindóttir et al. (2004b), embora países com instituições científicas fortes estejam
mais propensos a serem bem sucedidos, os benefícios econômicos provavelmente são
mais correlacionados à forma com que estes países conseguem se engajar e sustentar o
crescimento do setor privado e comercializar as descobertas científicas como produto –
isto é, os países necessitam de um ambiente propício tanto para a pesquisa quanto para
a inserção das inovações no mercado.
Em linha semelhante, Frew, Kettler e Singer (2008) destacam que a criação de
indústrias competitivas que possam desenvolver novas vacinas, drogas e diagnósticos

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é uma condição imprescindível para atender as demandas globais e locais em saúde.


Entretanto, isso não é suficiente para promover impacto significativo aos grupos mais
necessitados, sendo necessárias políticas governamentais que priorizem o tratamento de
doenças prioritárias de acordo com as realidades locais e o suporte a pesquisa, parcerias
e comercialização. Além disso, faz-se mister o acesso à infra estrutura biotecnológica e
a criação de uma via de regulamentação rápida, que priorize produtos para o tratamento
de doenças mais urgentes, além de criar incentivos (incluindo subsídios, créditos fiscais
e demais benefícios) para a atuação nesse mercado altamente tecnológico.

3 RELEVÂNCIA DA BIOTECNOLOGIA EM SAÚDE HUMANA EM


PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO
O termo “biotecnologia em saúde” carrega consigo, segundo Thorsteinsdóttir et
al. (2004a), certo estigma: à primeira vista, pode remeter exclusivamente a estudos e
pesquisas de universidades internacionais de renome, como o Massachusetts Institute
of Technology ‒ MIT e a Universidade Stanford, parecendo não estar relacionado à
solução de problemas de saúde de populações carentes em países em desenvolvimento.
Entretanto, enfatizam os autores que diversos países tipicamente classificados como de
“baixa renda” ou “em desenvolvimento” vêm desenvolvendo bem sucedidas pesquisas
nessa área.
Brasil, África do Sul, China, Coreia do Sul, Cuba, Egito e Índia podem ser
considerados “países em desenvolvimento inovadores”, assinalam Sasha, Satyanarayana
e Gardner (2004), o que aumenta o reconhecimento de que soluções em ciência
e tecnologia para a melhoria da qualidade de vida não estão restritas a países ricos.
Essas soluções são também requeridas e devem ser desenvolvidas por países em
desenvolvimento, de modo a atender as necessidades particulares desses países (SASHA;
SATYANARAYANA; GARDNER, 2004). Como salientam Thorsteinsdóttir et al.
(2004a), embora a biotecnologia sozinha não seja capaz de resolver todos os problemas
de saúde, ela é parte da solução.
Estudo realizado por Thorsteindóttir, Dahar e Singer (2006) demonstrou um
crescimento significativo no número de publicações dos países em desenvolvimento
na área de biotecnologia em saúde. O crescimento dessa área nos países estudados foi
maior do que nos países industrializados, sendo as universidades as maiores produtoras
de publicações. O estudo demonstrou também que a colaboração entre esses países é
extensa, com intenso intercâmbio de conhecimentos entre as instituições, sugerindo
a existência de foco nas necessidades locais desses países – ao contrário dos países já
desenvolvidos.
Conforme Thorsteindóttir et al. (2004b), o sucesso da biotecnologia em saúde
humana nos países em desenvolvimento pode ser expresso de diversas formas: o
desenvolvimento de tecnologias inovadoras (como no caso da meningite B em Cuba),

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a habilitação na produção de tecnologia preexistente (caso da insulina no Egito), os


menores preços para produtos biotecnológicos em saúde, retirando da população a
necessidade e os encargos da importação (medida do sucesso indiano), entre outras
(QUADRO 1).
Quadro 1 ‒ Exemplos de pesquisa biotecnológica voltadas para as necessidades locais
populacionais em países em desenvolvimento considerados inovadores

País Pesquisa
Brasil Ênfase em doenças tropicais, como, por exemplo, Doença de Chagas.
Após surto de meningite B, desenvolveu com sucesso a primeira vacina
Cuba
do mundo contra a doença.
Devido à escassez, desenvolveu a produção de insulina recombinante,
Egito
com a finalidade de reduzir os gastos com importação.
Produção de vacina contra hepatite B a um custo muito menor do que
Índia
dos países desenvolvidos.
Desenvolvimento de vacina contra o subtipo-C do HIV, tipo mais
África do Sul
prevalente no país (bem como no restante da África e Ásia).
Progressos significativos no tratamento da Síndrome respiratória
China
aguda grave (SARS).
Desenvolvimento de vacinas para prevenção da febre tifoide e contra a
Coréia do Sul
hepatite B.
Fonte: Thorsteinsdóttir et al. (2004b); Li, Ke e Guang (2005); Wong et al. (2004).

Com relação ao específico caso do Brasil, são abordados na próxima seção, com
maior profundidade, os avanços e os desafios brasileiros na área de biotecnologia da
saúde. No entanto, cumpre salientar, desde já, a importância da área para os países aqui
analisados, que obtiveram (e provavelmente aprofundarão) progressos significativos na
saúde, melhorando a qualidade de vida de parcelas significativas de sua população.

4 BIOTECNOLOGIA EM SAÚDE HUMANA NO BRASIL:


REALIDADE E PERSPECTIVAS
Ao longo das duas últimas décadas, o Brasil tem vivido um ciclo de estabilidade
política de raros antecedentes na história democrática do país, o que tem contribuído
significativamente para avanços nas áreas social e econômica (LACERDA, 2011),
ainda que, nos últimos anos, o crescimento do produto do país tenha ficado abaixo
da média mundial e do próprio potencial (e, este, em crescimento declinante), como
assinalam relatórios do Fundo Monetário Internacional (IMF, 2103; 2014). As razões
para esse desempenho são variadas e, algumas vezes, complementares.
Entre as diversas explicações para o baixo crescimento brasileiro, a literatura
econômica recente arrola a baixa capacitação e produtividade do trabalho (BONELLI;

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FONTES, 2013; PASTORE; GAZZANO; PINOTTI, 2013), a falta de poupança


interna (RESENDE, 2011; BONELLI; PINHEIRO, 2012), a fraca inserção no
mercado globalizado (CANUTO; CAVALLARI; REIS, 2013) e o baixo dinamismo
da indústria nacional (CARVALHO; KUPFER, 2011). Já o papel que cabe ao Estado
é alvo de controvérsia entre os estudiosos – autores como Segura-Ubiergo (2012),
Lisboa e Latif (2013) e Pastore, Gazzano e Pinotti (2013) denunciam a alta carga
tributária e a intervenção governamental como impeditivos ao crescimento, ao passo
que Castro (2012), Bresser-Pereira e Theuer (2012) e Carneiro (2012), entre outros,
enfatizam o papel do Estado como indispensável para a consecução das reformas sociais
e econômicas.
Bielschowsky (2012) assinala que o Brasil deve aproveitar o fato de ter
grande mercado interno e riqueza de recursos naturais, e propõe uma estratégia de
desenvolvimento capitaneado por três “frentes de expansão”: a expansão do consumo
de massas, o aproveitamento dos recursos naturais abundantes e os investimentos em
infraestrutura, sendo imprescindível a recuperação de setores tradicionais da indústria
e a inovação tecnológica, com o que concorda Carneiro (2012), que também enfatiza
a necessidade de “[...] superação do atraso tecnológico por meio da implantação dos
setores de alta tecnologia” (p. 776).
Nesse sentido, conforme apontam Reis, Landim e Pieroni (2011), o estabelecimento
da produção local de plataformas biotecnológicas em saúde é estratégico sob vários pontos
de vista: agrega competências para inovação e possibilita a entrada em um mercado
com elevado potencial de crescimento para as empresas farmacêuticas nacionais, e, para
o país, dado o volume de gastos com produtos biológicos pelo Ministério da Saúde,
tenderia a promover maior acesso da população à saúde, dada a redução de preços e o
aumento de oferta, além dos efeitos positivos referentes ao desenvolvimento industrial
e tecnológico.
Nota-se, assim, que a produtividade e a inovação são compreendidas como fatores
indispensáveis para o crescimento (e desenvolvimento) econômico e social brasileiro,
com maior ou menor destaque, para a grande maioria dos pesquisadores. O debate
sobre o papel do Estado, se mais ativo e discricionário ou mais enxuto e privilegiando
a criação de um ambiente para a livre concorrência, no entanto, ressurge e segue
indefinido. A descrição da realidade do setor de biotecnologia em saúde humana no
Brasil pode ajudar a melhor compreender as possibilidades e em que medida essa
questão é apropriada.
Conforme afirmam Reis, Landim e Pieroni (2011), a indústria farmacêutica
brasileira observou seu auge na década de 2000, quando, a partir da introdução dos
medicamentos genéricos, as empresas nacionais puderam captar oportunidades
“adquirindo competência na formulação e registro de produtos de síntese química e
ganhando participação de mercado” (p. 6). Porém, conforme esses autores, a entrada
de novas empresas, inclusive multinacionais, no segmento de genéricos tornou a

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concorrência mais acirrada, levando à diminuição das margens de lucro, tornando


“impositivo para a sustentabilidade de longo prazo da indústria brasileira a busca por
produtos de maior valor agregado, como aqueles que envolvem a biotecnologia moderna”
(REIS; LANDIM; PIERONI, 2011, p. 6). Gadelha (2006), por sua vez, propõe uma
ruptura “política e cognitiva” com as visões que colocam as necessidades da saúde da
população em confronto com a indústria. Para o autor, “um país que pretende chegar
a uma condição de desenvolvimento e de independência requer, ao mesmo tempo,
indústrias fortes e inovadoras, e um sistema de saúde inclusivo e universal” (p 1).
As políticas de contratos públicos no Brasil parecem ter tido impacto significativo
no desenvolvimento da biotecnologia em saúde no país, pois exigem que produtos de
baixo custo sejam adquiridos pelo sistema público de saúde. Esse requerimento pode
ser considerado uma política pública responsável, porém, concomitantemente, pode
pressionar empreendimentos locais. Como exemplo, pode-se citar o caso da compra de
produtos fabricados por multinacionais (mais baratos) em detrimento da indústria local
(THORSTEINSDÓTTIR, 2007).
Ademais, o financiamento público tem papel decisivo para o desenvolvimento do
setor privado de biotecnologia no Brasil, já que 78% das empresas o utilizam, o que
demonstra a importância de políticas relativas à ciência, tecnologia e inovação. Por
outro lado, o financiamento por capital de risco continua frágil, com apenas 14% das
empresas utilizando este tipo de investimento (BRBIOTEC BRASIL/CEBRAP,
2011). Além disso, embora o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
‒ BNDES tenha investido R$ 5,3 bilhões em pesquisas iniciais em biotecnologia, maior
valor já concedido até então para pesquisas na área, o valor ainda representa apenas 3%
do total emprestado pela instituição em 2013, sendo insuficiente para atender a procura
por financiamentos (VALENTE; BECK, 2014). Conforme Valente e Beck,

[...] a maior preocupação é a alta mortalidade de projetos na fase de testar se o


produto pode ser feito em escala, a etapa mais arriscada e cara. [...] Em países
como Alemanha e França, o Estado doa dinheiro nessa hora. No Brasil, apenas
4% dos recursos do Inova Empresa, que tem orçamento de R$ 33 bilhões, são
gastos com essa subvenção (2014, texto digital).

Apesar dessas dificuldades e carências, há, contudo, iniciativas que pretendem


modificar o quadro atual e que permitem recobrar o otimismo. Uma delas é o Comitê
Nacional de Biotecnologia instituindo a Política de Desenvolvimento da Biotecnologia,
criado no Brasil em 08 de fevereiro de 2007, por meio do Decreto nº 6.041. No tópico
relativo à saúde humana, consta o seguinte objetivo:

Estimular a geração e controle de tecnologias e a consequente produção nacional de


produtos estratégicos na área de saúde humana para posicionar competitivamente a
bioindústria brasileira na comunidade biotecnológica internacional, com potencial
para gerar novos negócios, expandir suas exportações, integrar-se à cadeia de valor

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e estimular novas demandas por produtos e processos inovadores, levando em


consideração as políticas de Saúde (BRASIL, 2007, texto digital).

O mapeamento mais recente sobre a biotecnologia no Brasil, de 2011, realizado


pelo Centro Brasileiro de Análise e Planejamento ‒ Cebrap e pela Associação Brasileira
de Biotecnologia ‒ BRBiotec, estimou um número de 237 empresas de biotecnologia
(BRBIOTEC, 2011). Segundo o mesmo Brazil Biotech Map 2011, a maioria das
atividades biotecnológicas no Brasil está concentrada na área de saúde humana
(FIGURA 1).
Com relação à distribuição geográfica, apesar de existirem empresas trabalhando
em diversos Estados, quase metade está alocada nos estados de São Paulo, Minas Gerais
e Rio de Janeiro (FIGURA 2). Elas são dependentes do mercado externo devido ao
alto uso de produtos e serviços importados (BRBIOTEC BRASIL/CEBRAP, 2011).
Sobre a maturidade dos empreendimentos, percebe-se que a maior parte das
empresas biotecnológicas brasileiras é jovem, sendo que 63% delas foram fundadas
durante ou após o ano 2000 (40% após o ano de 2005). Elas se apoiam em profissionais
de alto nível educacional, sendo aproximadamente 40% doutores e 20% mestres
(BRBIOTEC BRASIL/CEBRAP, 2011).
Figura 1: Empresas de biotecnologia por área de atividade no Brasil

Fonte: Adaptado de BRbiotec Brasil/Cebrap, 2011.

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INOVAÇÕES NA ÁREA DE BIOTECNOLOGIA EM SAÚDE HUMANA EM PAÍSES...

As universidades e os centros de pesquisa são de grande importância, dado que 95%


das empresas possuem contínuo relacionamento com essas instituições. A maioria delas
tem estabelecido parcerias para desenvolver em conjunto produtos ou processos, seja
utilizando infraestrutura, contratando serviços e/ou treinando pessoal (BRBIOTEC
BRASIL/CEBRAP, 2011). Nos últimos 20 anos, houve aumento expressivo no
número de pesquisadores pós-graduados no Brasil e, em relação à produção científica
em diferentes programas relacionados à biotecnologia, o número de faculdades e
pesquisadores (mestres e doutores) associados é significativo. Nesse sentido, as suas
preocupações estão voltadas a desenvolver melhor interação entre ciência e o setor
privado e a aumentar o número de empresas em outras regiões do país (BRBIOTEC
BRASIL/CEBRAP, 2011).
Um exemplo de sucesso brasileiro na biotecnologia em saúde, e que enfatiza
a relação universidade-empresa, é a produção da insulina recombinante humana.
A Universidade Federal de Minas Gerais ‒ UFMG, juntamente com a empresa
biofarmacêutica brasileira Biobrás (São Paulo), desenvolveu e patenteou um processo
para a produção de insulina recombinante humana nos anos 90, sendo essa parceria
sucesso de colaboração em termos de abordar um problema local de saúde e aumentar a
capacidade técnico-científica (FERRER et al., 2004).
O esforço em patentear tecnologias no Brasil é significativo: 40% das empresas
biotecnológicas ou solicitaram ou tiveram patentes emitidas. Porém, o número de
solicitações é maior do que o número de patentes emitidas, sendo a maior parte delas
emitidas no Brasil em vez de no exterior. No entanto, essa porcentagem é alta quando
comparada a outros setores da economia brasileira (BRBIOTEC BRASIL/CEBRAP,
2011).
Ainda sobre o tema inovação, deve-se ressaltar, finalmente, o papel que têm os
parques tecnológicos e as incubadoras de negócios, considerados importantes para o
desenvolvimento do setor biotecnológico em todo o mundo. Eles são instrumentos
implantados em países desenvolvidos e em desenvolvimento para dinamizar economias
regionais e nacionais, gerando empregos de qualidade, bem-estar social, além de
impostos. Por se localizarem tipicamente perto de universidades e centros de pesquisa,
os parques tecnológicos agregam conhecimento e recursos humanos altamente
qualificados, gerando sinergia e oportunidades (STEINER; CASSIM; ROBAZZI,
2008, p. 2). No Brasil, pouco mais da metade das empresas estão ou foram incubadas
em algum momento de sua existência. Por promoverem um ambiente estimulante
e de suporte, as incubadoras proporcionam condições de crescimento para os novos
negócios, aumentando o índice de sucesso desses empreendimentos (BRBIOTEC
BRASIL/CEBRAP, 2011).

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Figura 2: Empresas de biotecnologia em saúde por cidade no Brasil

Fonte: BRBiotec Brasil/Cebrap, 2011.

No estado do Rio Grande do Sul, dentre as estruturas de destaque, pode-se citar


a Incubadora Empresarial do Centro de Biotecnologia ‒ IE-Cbiot da Universidade
do Rio Grande do Sul ‒ UFRGS e o Parque Científico e Tecnológico da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul (BRBIOTEC BRASIL/CEBRAP,
2011). No Vale do Taquari, o Centro Universitário UNIVATES conta com um Parque
Tecnológico (Tecnovates) e uma incubadora tecnológica (Inovates) na cidade de Lajeado,
ensejando tanto o auxílio ao planejamento quanto a disponibilidade de estrutura física
para novos empreendedores, gerando oportunidades para novos negócios, pesquisas e,
fim último, desenvolvimento regional.

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INOVAÇÕES NA ÁREA DE BIOTECNOLOGIA EM SAÚDE HUMANA EM PAÍSES...

Ao considerar os ambientes acima citados como ferramentas facilitadoras para o


sucesso biotecnológico, visto que há a articulação dos três níveis do poder público, os
diversos setores da academia e o setor privado (STEINER; CASSIM; ROBAZZI,
2008, p. 2), torna-se visível a necessidade do direcionamento de pós-graduandos
(mestres e doutores) para ambientes ricos em inovação, contribuindo, assim, para
o aumento da produção científica, geração de produtos e, consequentemente, o
desenvolvimento econômico e social do país.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O presente artigo parte da definição de que o desenvolvimento não deve ser visto
meramente como crescimento econômico acima do crescimento demográfico, mas, sim,
envolvendo mudanças de estruturas e melhoria dos indicadores econômicos e sociais.
Considerando o aumento do crescimento populacional relacionado ao aumento da
expectativa de vida, tornam-se necessárias medidas no intuito de fortalecer a economia
dos países que se encontram nessa situação. O desenvolvimento econômico dos países
sempre teve forte relação com a expansão da área de ciência e tecnologia, de modo
que a busca por inovações mostra-se não apenas como uma alternativa, mas como
um imperativo para o progresso econômico e social. A inovação assume, assim, papel
preponderante e os avanços em biotecnologia em saúde humana adquirem relevância
indiscutível. Cria-se, a partir daí, um estímulo à interação entre várias instituições e
empresas ligadas à ciência e tecnologia.
Conforme se demonstrou neste estudo, diversos países têm investido em
pesquisas relacionadas à biotecnologia para a saúde humana. Países considerados em
desenvolvimento, como África do Sul, China, Coreia do Sul, Cuba, Egito e Índia,
vêm desenvolvendo bem-sucedidas pesquisas na área, o que pode ser confirmado pelo
crescimento significativo no número de publicações científicas e pela descoberta de
produtos biotecnológicos com a finalidade de suprir as necessidades locais, gerando
também riqueza e empregos.
No Brasil, em que pesem algumas dificuldades, como a transição do conhecimento
das universidades para a produção em larga escala e a predominância quase que
total do financiamento público frente ao privado, o cenário aponta a existência de
diversas oportunidades que, se bem compreendidas e aproveitadas, podem representar
significativos avanços para o setor de biotecnologia em saúde humana. Além de
potencialmente lucrativos, investimentos na área de biotecnologia têm o poder de
modificar, estruturalmente, a sociedade brasileira. Desse modo, é essencial que
agentes públicos e privados estejam em sintonia para que a produção de conhecimento
científico ocorra e, principalmente, para que este conhecimento se transforme em
produtos que supram necessidades específicas locais, de modo a possibilitar a retomada
do crescimento econômico e do próprio desenvolvimento.

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Nesse contexto, por seu caráter multidisciplinar, a biotecnologia em saúde humana


cria oportunidades para profissionais de diversas áreas de atuação, seja em pesquisa
acadêmica ou industrial, seja no desenvolvimento de produtos. As universidades, maiores
produtoras de publicações na área, com o crescente número de graduados, mestres e
doutores, podem e devem continuar fomentando a produção de patentes e de artigos
científicos, além de buscar a aproximação com o setor privado ou institutos públicos.
Por fim, os parques tecnológicos e as incubadoras de negócios têm a possibilidade de
transformarem-se no elo entre conhecimento acadêmico e atendimento às necessidades
de saúde da população, estimulando e criando novas oportunidades para pesquisadores
e empresários.

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