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A Metafísica da Guerra e o desempenho militar na

II Guerra Mundial

João P. Miranda
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

A constatação de Bacon no que concerne o físico, pode ser aplicado à


especulação metafísica, que qualquer doutrina é para ser testada (mas
não valorizada, contudo) pelos frutos: “De todos os sinais não há
algum mais certo ou legítimo do que aqueles dos frutos produzidos;
pois os frutos e os efeitos são seguranças e comprovativos, por assim
dizer, para a filosofia.” “Do mesmo modo que somos acautelados na
religião a mostrar a nossa fé pelas nossas obras, temos liberdade para
aplicar este mesmo princípio à filosofia, e julgá-la pelas suas obras,
designando aquilo que é fútil de improfícuo, e mais ainda, se em vez
de uvas e azeitonas nos render os cardos e espinhos da disputa e
contenda.” ~ James McCosh em Intuitions of the Mind (1875)

Apresentação

Adotando seriamente esta máxima de Lorde Bacon, à semelhança de James McCosh


nas suas investigações metafísicas, neste trabalho pretendo avaliar os frutos de uma
tese filosófica, viz. Julius Evola em Metafísica da Guerra sobre a natureza da guerra.
Passando a metáfora e especificando, irei averiguar o quão eficaz é esta tese a
identificar fatores relevantes que ocasionam superioridade marcial de um grupo
humano sobre outro – com a implicação de que a intervenção sobre esses fatores
pode alterar o decurso das coisas. Para esse efeito foi usada uma certa metodologia
e materiais de consulta. As secções que se seguirão são uma exposição de todos estes
aspetos, e estão organizadas no formato que eu considero mais didático. Por pontos,
o leitor poderá encontrar:

• A metodologia sob a qual a investigação foi enquadrada e conduzida. Aqui


são apresentadas algumas suposições respeitantes à hermenêutica do texto,
a relação entre a investigação filosófica e a científica, e especificamente entre
a filosófica e a antropológica.
• Uma introdução muito breve ao tópico da guerra, onde tomei a liberdade de
fazer uma pequena demonstração de como aplico a hermenêutica descrita
anteriormente. São introduzidos também alguns conceitos de antropologia
evolutiva.
• Breves considerações gerais sobre a filosofia de Julius Evola e a Metafísica da
Guerra. Aqui são enumeradas as temáticas filosóficas pelas quais Evola
desenvolveu o seu trabalho e as circunstâncias em que surgiu a compilação
de textos em causa.
• Dois formatos de exposição da tese articulada por Evola, viz. uma em texto
corrido, mais rica em detalhes e clarificações, e uma esquemática, pela qual
se pretende precisar onde estão as linhas qualitativas dos conceitos usados
na tese. Serão usados diagramas de Venn, entre outras ilustrações, e Teoria
dos Conjuntos. Aqui o leitor acabará com duas teses, viz. uma representativa
da exposição de Evola (como ele a concebeu nos seus textos) e outra
modificada a fim de a tornar mais internamente coerente.
• Um teste para as duas teses. São deduzidos dois pares de previsões das teses
que depois são averiguados por meio de dados históricos, i.e. procura-se
perceber se as previsões acomodam os eventos relevantes da IIGM.
• Uma explicação alternativa de antropologia evolutiva para exatamente os
mesmos fenómenos descritos nos dados históricos, e uma apreciação
conclusiva sobre os méritos teóricos de Evola.

Preliminares Científicas

Nesta secção pretendo enumerar as condições metodológicas sob as quais este


trabalho se desenvolveu.

Hermenêutica textual: Não há um nome pelo o qual a hermenêutica em causa pode


ser categorizada, porém tal não impossibilita expor os seus diversos elementos
definidores.

i) A primeira grande suposição metodológica é de que o texto tem funções


comunicativas, i.e. veiculação de informação em um ou mais sentidos. O texto escrito
em contexto de produção filosófica, neste sentido, é unidirecional pois a
comunicação não ocorre de forma sequencial – como seria no caso oral, numa
maioria de vezes, ou numa troca de cartas. Isto por sua vez implica a intenção do
autor de entrar nessa atividade. O autor pretende comunicar algo a um público
identificado (ou não) no próprio texto. O conteúdo do texto, desta forma, está
condicionado à intenção do autor e só há uma interpretação verdadeira. A verdade
da interpretação depende da sua correspondência com o conteúdo intencionado
pelo autor. Na impossibilidade de obter clarificações pelo autor, qualquer
interpretação por terceiros é uma tentativa de acertar neste conteúdo intencionado.
ii) Outra suposição é a eficácia do método científico como procedimento de
descoberta e sistematização racional da realidade. Neste enquadramento, e
retomando o que foi dito em i), interpretações devem ser entendidas como
hipóteses empíricas sujeitas a falsificação e corroboração. Dados revelantes devem
ser recolhidos para evidenciar a hipótese. A força da evidência disponível sugerirá
diferentes níveis de plausibilidade da hipótese. O carácter não-monotónico da lógica
por detrás desta argumentação presuntiva implica que qualquer hipótese de
interpretação está sujeita a perder ou a ganhar legitimidade epistémica 1 com a
introdução de novos dados. Nenhuma hipótese, sendo assim, ascende ao grau de
certeza. Dados relevantes podem passar por dados linguísticos (ex. regularidades
em construções sintáticas, contribuições de reconstruções lexicográficas e
etimológicas, características gramaticais de uma língua, opções anafóricas e
catafóricas, opções de tradução pelo tradutor), dados históricos (ex. eventos e
ambiente cultural que possam ter influenciado o autor), dados biográficos (ex. livros
lidos, instituições de ensino frequentadas, viagens, frequência com que interagia
com certas pessoas) e dados antropológicos e psicológicos (ex. estatísticas que
identificam tendências comportamentais relevantes, teorias que explicam
fenómenos individuais ou de grupo a que o autor possa ter estado sujeito).

iii) Por fim, há um critério de interpretação que se pode chamar de holismo. Holismo
não é mais que a aplicação do formato justificativo coerentista para fins de
interpretação. Em teorias da justificação (epistémica), coerentismo é a posição pela
qual se argumenta que a melhor forma de justificar uma crença é através da sua
membresia num sistema de outras crenças que se suportam logicamente entre si.
Por analogia, o significado de uma certa porção do texto vai depender da coerência
do todo semântico.2 Por sua vez, assume-se que as diversas unidades linguísticas
dentro do texto têm relações de dependência entre si. Palavras como partes de
frases ou orações. Orações como partes de períodos. Períodos como partes de
parágrafos. Parágrafos como partes de diferentes níveis de divisões temáticas
(capítulos), e estas últimas como partes do todo textual (monografia, ensaio, artigo,
etc). A significação3 das diferentes partes do texto têm de coerer entre si:

Se expressão linguística X em texto T significa A, então em qualquer ocorrência de X em


T se obterá um A, a menos que X seja precedida ou sucedida por uma Y que modifique
X de forma relevante.

1
Por “epistémica” deve-se compreender que satisfaz requisitos de justificação; requisitos que se
razoavelmente cumpridos conferem uma envolvência cognitiva entre o sujeito e o objeto em causa a
que chamamos de “conhecimento”.
2
Como todo o texto coere com toda a denotata. Um denotatum é o conceito pelo qual se empacotam
dados sensoriais e construções abstratas (p.e. números, raízes quadradas).
3
“Significado” serve para expressar o movimento de denotação de unidades linguísticas para os
conceitos correspondentes.
Isto implica que, à medida que se vai avançando no texto, poderá ser necessário
revisar interpretações até à data, i.e. há partes do texto que podem sugerir
alterações de interpretação em partes anteriores, especificando:

Se expressão linguística X em texto T e em posição P1 significa A, então X em qualquer


Pn posterior a P1 significará A, a menos que X em algum Pn posterior a P1 seja modificado
por uma Y ou Y sugira que X em P1 não significa A.

Quanto a inputs exteriores, embora seja necessário assumir um conjunto de


suposições extratextuais para iniciar a atividade de interpretação, a própria
organização do texto deve servir como arbitro de interpretações aceitáveis ou não.
Serve também para excluir suposições extratextuais que contaminam as
interpretações com conteúdos que dificultam manter proximidade ao texto.

Relação entre filosofia e ciência: Como foi dito no ponto ii) anterior, supõe-se o
método científico como aquele pelo qual melhor se acede à realidade. Esta suposição
não deve ser encarada como uma pressuposição à semelhança do Deus cartesiano
que garante a solidez do edifício epistémico humano. O método científico, nas
diversas modificações ao longo dos tempos e mediante diferentes necessidades de
investigação, têm-se mostrado extremamente eficaz na previsão bem-sucedida e
intervenção sobre o mundo. Sendo assim, e por princípio pragmático, uma vez que
o que interessa no mundo é saber em que condições se está a tomar decisões e a agir,
segue-se que tudo o que escape à previsão de consequências e capacidade de
intervenção é simplesmente irrelevante. Deste modo, qualquer outra atividade
epistémica4 será acessória ao método científico. Por seu turno, podemos falar de um
conjunto de atividades epistémicas que não tinham qualquer continuidade
metodológica. Estas atividades são caracterizadas por serem maioritariamente
especulativas e não terem critérios de aceitabilidade, i.e. uma terminologia precisa
(um tecnoleto) e um conjunto de regras de argumentação que permita comunicação
e validação externa de propostas de conhecimento. A este conjunto de atividades e
os seus produtos escritos chamou-se de “filosofia”. A chegar ao séc. XX este tipo de
atividades já tinha perdido bastante fiabilidade, cedendo desta forma vários tópicos
de investigação aos praticantes do método científico. Contudo, face a esta
problemática, alguns pensadores dedicaram o seu tempo a procurar e a perceber
qual o lugar da filosofia. Neste trabalho entende-se a sugestão de W.V.O. Quine como
a mais promissora: «entendo a filosofia como contínua com a ciência, até mesmo
parte da ciência. […] A filosofia situa-se na extremidade abstrata e teórica da ciência.
[…] Filosofia é abstrata por ser muito geral. Um físico falar-nos-á de conexões
causais entre eventos de certos tipos; um biólogo falar-nos-á sobre conexões causais
entre eventos de outros tipos; mas o filósofo interroga-se sobre conexão causal em

4
Atividade por meio da qual se procura o tipo de envolvência cognitiva mencionada na nota de rodapé
1.
geral – o que é um evento causar outro?»5 A filosofia, em menos palavras, pode
contribuir para o trabalho empírico nas diversas ciências especializadas fornecendo
conceitos ou enquadramentos teóricos que sejam úteis e profícuos ao seu
desenvolvimento. Podemos assistir a esta contribuição p.e. na articulação de
abordagens teóricas de largo escopo, como positivistas vs. interpretivistas ou
feminismo intersecional vs. ecologismo-evolutivo.

Antropologia Filosófica: Percebendo qual é a relação entre filosofia e ciência


assumida neste trabalho, também se perceberá o que se entende por um campo de
investigação denominado de “Antropologia Filosófica”. Creio que uma forma de
desempacotar este termo é contrastando-o com um outro, viz. “Filosofia da
Antropologia”. Qual a diferença destes dois termos? O segundo designa um trabalho
acessório de filósofos sobre o trabalho dos antropólogos. Cada um trabalha nos
gabinetes dos seus devidos departamentos e não há comunicação entre os dois lados
– os filósofos fazem o seu trabalho e os antropólogos o seu. O primeiro designa um
trabalho interdisciplinar onde os resultados da investigação foram produzidos por
um trabalho conjunto de filósofos e antropólogos, ou de outra forma, numa
hibridização metodológica das duas áreas praticada por um só investigador – ou
seja, o trabalho empírico seria acompanhado de forma sistemática com questões de
cariz mais abstrato no que concerne categorizações de certos fenómenos ou como
certas catalogações ontológicas coerem num todo teórico. O presente trabalho
deverá ser compreendido deste modo.

Tema

A guerra, e o conflito em geral, teve várias abordagens por teólogos, filósofos e


outros tipos de pensadores no que concerne a entrega de respostas ao que é, de onde
vem (ou o que a ocasiona), como se evitam ou mitigam os seus efeitos e como deve
ser conduzida. Porém, algo em comum havia sobre a proveniência de todas as
respostas avançadas até à data, viz. partiam de abordagens culturais. Com isto quero
apontar mais especificamente para a tese de que a guerra é uma invenção ou um
artefacto humano, por oposição a uma tese de continuidade biológica com outro tipo
de instintos ou proclividades naturais. Esta invenção serve para concretizar
interesses que estão vedados por outras vias de ação, como diplomacia. Guerra, para
estes autores, é analogamente semelhante ao arado. Da mesma forma que o arado
está para uma colheita que permita gerar recursos de sobrevivência, a guerra está
para conquistar novos territórios com recursos materiais e novas populações para
coletar impostos. Uma exceção a estas descrições da guerra é talvez a de Thomas
Hobbes com o seu «condition of Warre».6 Alguns dados textuais elucidam o que este
autor entende por este termo técnico:7

5
Philosophy of Quine: General, Reviews, and Analytic/Synthetic p. 14
6
Thomas Hobbes, Leviathan, c. XIV
7
Ibid., p. 96
A Condição de Guerra é um conceito que encapsula um conjunto de fenómenos
comportamentais humanos no que concerne a disputa de interesses materiais e
interpessoais. Estas disputas podem surgir quer por motivos de ganho quer por
motivos de preservação. Hobbes afasta-se das descrições culturais-artefactuais da
guerra quando aponta para este tipo de conflito como um fenómeno resultante de
algo inato à espécie humana. Sem um arbitro capaz de policiar as disputas de
interesses, i.e. capaz de intervir nelas pela força se necessário, qualquer espécime
humano é propício a iniciar violência sobre outro, uns por prevenção, outros por
aproveitamento de janelas de ganho.8 Este arbitro mais adiante no texto em causa é
chamado de Leviathan.9

Mas Hobbes vai um pouco mais longe. Além do fenómeno visível de violência e
sabotagem, a Condição de Guerra inclui também o fenómeno invisível de jogos
mentais em operação nos agentes envolvidos nas disputas. Como Hobbes afirma,
«guerra não consiste apenas em batalhar […] mas num intervalo de tempo no qual a

8
Ataques preventivo ocorrem quando um agente (ou grupo de agentes) temendo os custos expectados
por não tomar iniciativa de ataque fá-lo primeiro – à que frisar a expressão “expectados”; pode não
haver qualquer intenção de atacar por parte do alvo do ataque preventivo. Janelas de ganho, por sua
vez, também devem ser entendidas como expectativas. Uma janela de ganho ocorre quando um agente
(ou grupo de agentes) perceciona uma oportunidade sobre o seu adversário para o atacar com custos
reduzidos – uma janela pode ser apenas uma ilusão que sairá cara ao agente.
9
Leviathan, p. 132.
vontade de batalhar é suficientemente conhecida».10 Parafraseando de forma mais
precisa, não é por haver um cessar da violência que as hostilidades se dissipam no
ar, estas permanecerão na mente dos participantes até uma autoridade reguladora
intervir. Esta descrição em parte parece reportar aquilo que comummente se chama
de guerra. Numa guerra o combate não é permanente, mas antes pontilha o intervalo
de tempo dentro do qual se deu uma certa disputa. Apenas na ausência das
hostilidades é que podemos declarar uma dinâmica social chamada de paz.

As especulações filosóficas de Hobbes, tomadas desta forma, parecem ter dado boas
pistas sobre onde depositar trabalho empírico. De facto, hoje, o corpo de
investigação relevante nas ciências comportamentais sugere que a guerra advém,
entre outras coisas, de «Competition», «Diffidence» e «Glory». Mas estas não são as
rootcauses da guerra. O tipo de fenómenos subsumidos nestas três palavras são
causas próximas da guerra, e isto significa que têm uma relação de dependência com
um fator antecedente. Esse fator os investigadores propuseram ser a fitness11 dos
agentes. A obtenção de uma vantagem competitiva sobre outros organismos leva ao
tipo de fenómenos reportados nas três causas próximas gerais apontadas por
Hobbes. Mas é também aqui que a articulação deste royalist exilado começa a
desviar-se das propostas científicas atuais.

Hobbes encara a guerra como, traduzindo novamente, um conflito de «todo o


homem contra todo o homem». Não há quaisquer dados que sugiram este tipo de
conflito. Desde muito cedo, e aqui vamos recuar cerca de dois milhões de anos 12, a
estratégia humana de otimização da fitness foi formar grupos. Não apenas grupos
de proximidade familiar (clãs), mas também de desconhecidos, algo que se traduziu
em grupos de vários milhares se se levar em conta os dez mil anos mais próximos. A
cooperação e divisão de tarefas dentro de um grupo permitiu que cada membro
melhorasse as suas condições de segurança e acesso a alimento. No caso dos machos
facilitou a proteção da sua parceira sexual e prole (em muitos grupos no entanto
haveria uma minoria de machos que teria acesso reprodutivo a mais do que uma
fêmea); no caso das fêmeas facilitou o acesso a machos capazes de providenciar
condições de sobrevivência à prole. Uma das consequências desta tendência a
formar grupos é a competição intergrupo. O que está em jogo, novamente, é a fitness,
mas desta vez, não a fitness relativa13 de organismo para organismo, mas sim de
grupo para grupo. Dominância de um grupo sobre outro, em grupos pequenos
caçadores-recolectores, permite ao marcialmente superior aceder às vantagens

10
Qualquer tradução neste trabalho é feita sob a abordagem de tradução conhecida como equivalência
gramatical.
11
Fitness, em teoria biológica, é o conceito pelo qual se compreende o fenómeno de sucesso
reprodutivo de um certo organismo, i.e. o quão eficaz é a passar os seus genes para a geração seguinte.
12
Tomassello, A Natural History of Human Morality, “Self-Domestication”.
13
Fitness relativa é o conceito pelo qual se entende o diferencial de vantagens ou desvantagens
reprodutivas entre organismos dentro de uma mesma população. Neste caso, estou a usar o conceito
para estabelecer o mesmo tipo de comparação mas entre grupos numa mesma espécie.
reprodutivas usufruídas do inferior, como fêmeas e recursos de sustento; e mais
tarde, em organizações humanas com configurações mais próximas do Estado
moderno, por acrescento, escravos, metais, especiarias e pigmentos exóticos (que
conferem prestígio), e novos tributários para coletar impostos.14

É importante referir aqui que as dinâmicas hierárquicas verticalizam-se com a


dilatação da membresia de um grupo. No que concerne o diferencial entre os ganhos
de fitness e o custo da guerra, este tende a mudar de membro para membro dentro
de um mesmo grupo.15 Para ilustrar este este fenómeno considere-se uma nação
europeia de séc. XVIII e uma tribo caçadora-recolectora 50 mil anos antes. Aplicando
uma análise de custo-benefício sobre um monarca iluminista e um chefe tribal
neolítico, entrar em hostilidades com outro grupo é mais compensatório para o
primeiro que para o segundo. Os motivos são dois: ▫uma distância interpessoal
muito maior com aqueles sob a sua liderança (está menos sujeito a sanções e
ataques por súbditos) e ▫não participar diretamente nos confrontos, ou se
participar, ficar em posições de comando distantes da frente de combate (que
diminui a probabilidade de ser gravemente ou fatalmente ferido).

Em suma, como foi dito, um estado belicoso de homem contra homem até à data
parece implausível. Simplesmente não há dados que sugiram um fenómeno desse
género. Quando chega o momento de iniciar hostilidades a grande escala, a formação
de fações parece ser inescapável. Coalizões masculinas formam-se, nem que seja
apenas temporariamente.

Com este pano de fundo, onde ilustrei as interações entre sugestão filosófica e
investigação científica, à que relevar que o tema tem vindo a ganhar alguma tração
quer nas humanidades quer nas ciências sociais. Começando pelas humanidades, até
à segunda metade do séc. XX, história, doutrina, teoria e estratégia militar estavam
seladas hermeticamente em instituições deste caráter. Porém, dado o crescimento
da esfera civil sobre a militar, e o aparecimento de novos tipos de conflito com o
início da Guerra Fria (p.e. as guerras de aproximação, do termo inglês proxy-wars)
todos estes domínios de investigação foram abertos e ganharam até nova
vitalidade.16 Em várias universidades anglófonas lançaram-se cursos com nomes
como “Estudos Militares” (Military Studies), “Estudos da Guerra” (War Studies) ou
ainda “Estudos de Defesa” (Defense Studies). Nas ciências sociais, Glowacki et al.
reportam um crescimento de publicações relevantes sobre o tema da guerra em
antropologia, e Böhm et al. o mesmo na área da psicologia social.17 Neste sentido,
seria interessante manter a abordagem mais conceitual, geral e holista da filosofia

14
“The Evolutionary Anthropology of War”, p.18-19, 21.
15
Mind the Gap, Margaret C. Crofoot & Richard W. Wrangham, “Intergroup Aggression in Primates and
Humans: The Case for a Unified Theory”, p. 189
16
Jan Angstrom & J. J. Widen, Contemporary Military Theory, p. 1
17
“The Evolutionary Anthropology of War”, p. 1-2; “The Psychology of Intergroup Conflict”, p. 2-3
próxima destes desenvolvimentos – coisa que não tem acontecido. Tirando o aceso
debate académico contido nos limites teóricos da Teoria da Guerra Justa, é-me
desconhecido mais algum trabalho filosófico que não o The Roots of Military
Doctrine (2013) de Aaron P. Jackson e, embora as considerações de abordagem
biológica estejam um pouco ultrapassadas, o A Philosophy of War (2002) de
Alexander Moseley. O presente título vem, desta forma, acrescentar algumas
palavras a esta área tão sub-explorada na filosofia.

Plano de Trabalho
Com o enquadramento científico e o domínio temático esclarecidos é tempo agora
de descrever brevemente a tese que se desenvolverá neste trabalho.

Julius Evola
Não é difícil encontrar artigos e capítulos de livros dedicados ao pensamento de
Julius Evola (1898-1974), porém para o tema em questão são irrelevantes. Evola por
várias décadas caiu no desconhecido, ou melhor, tirando alguns pensadores
dissidentes da academia liberal boomer – centrada nos Direitos Humanos e
cosmopolitismos globais – mais ninguém sabia deste nome. Mas a chegar ao final da
segunda década do séc. XXI já não é assim. Sem entrar em grandes pormenores sobre
como ideologias globalistas boomer interagiram com eventos no mundo desde a
década de 1950, creio que é claro que há um certo cansaço e distanciamento destas
ideias e seus patrocinadores da população em geral. A consequência, também com a
capacidade difusiva das novas tecnologias de comunicação, foi a emergência de
atores políticos antissistema (conhecidos como “populistas”) e a correspondente
procura de alternativas ideológicas que acomodassem estas novas direções
políticas.

É aqui que o nome deste italiano ressurge. Julius Evola é o intelectual por excelência
da direita populista. É nos seus escritos que pensadores com algum destaque e os
seus seguidores encontraram fecundidade filosófica para desenvolver críticas à
sociedade atual, sistemas políticos vigentes e propostas adversárias. Trabalhos
célebres deste autor são Rivolta Contro il Mondo Moderno (1934), Gli Uomini e le
Rovine (1953), Cavalcare la Tigre (1961) e Il Fascismo Visto valla Destra: Note sul
Terzo Reich (1974). Mas o que é que Evola tem de especial para atrair a atenção de
dissidentes à direita? Uma resposta a esta questão daria uma tese de doutoramento
por si só, mas aqui ficar-me-ei pelo indispensável. Em primeiro lugar, ▫Evola é um
filósofo sofisticado. Não é alguém que simplesmente apanhou umas ideias no ar e
com alguma criatividade as colou umas às outras no papel. Ele tinha debaixo do
braço um vasto corpo de leituras, como mitos, canones religiosos, filosofia, história
e a alguma ciência. É um autor que se expressa em formas eruditas, muitas vezes
caindo em abstrusidades linguísticas que desafiam a compreensão do leitor. Não
perde muito tempo em exercícios de análise, prefere antes em traços largos incluir
uma série de componentes históricas, mitológicas e weltanschauung. Este tipo de
produção filosófica tende a impressionar muitas mentes pela sua expressão
misteriosa, aparentemente erudita e fenomenologicamente abarcadora – parece ser
bem-sucedida a envolver a experiência com tudo o resto num todo compreensível.
Julius Evola, dadas estas características pode ser classificado como um autor
Continental.

Em termos de conteúdo, Evola pode ser doxografado sob alguns aglomerados de


ideias: Tradicionalismo, Esoterismo e Racismo.

Tradicionalismo: Aqui não se deve confundir com o “tradicionalismo” associado à


Igreja de Roma (por oposição ao Modernismo), nem com um “tradicionalismo” que
pode ser associado a correntes políticas identificadas como “conservadoras”. O
Tradicionalismo de Evola é melhor compreendido pelo significado do étimo
“tradere”, viz. entregar ou passar. Em concreto, Evola e pensadores semelhantes
defendiam que, algures por volta da Renascença, as sabedorias perenais do Ocidente
primordial se foram perdendo ▫quer pelo esbatimento de costumes de passagem
desta informação ▫quer pela introdução de novas ideias que levaram a uma atitude
de escárnio e suspeita dos mesmos. O projeto tradicionalista, associado acima de
tudo a René Guénon (1886-1951), passava por reconstruir no séc. XX, por meio de
intenso estudo das fontes primordiais, as tais sabedorias perdidas e restituir, nesse
processo, a mente Ocidental à sua devida casa espiritual. Na mira da crítica
tradicionalista está o liberalismo, o individualismo, o capitalismo, a ideologia, o
cristianismo protestante e, para aqueles (como Evola) mais dados à positivação
política das ideias tradicionalistas, qualquer sistema de ideias promotor de
organizações internacionalistas, cosmopolitismo ou multiculturalismo.18

Esoterismo: Neste caso Esoterismo Ocidental. Julius Evola certamente se insere na


descrição que Arthur Versluis faz desta corrente de pensadores de génese europeia:
«O termo Esoterismo Ocidental […] designa conhecimento espiritual interior ou
escondido transmitido por meio de correntes históricas ocidentais europeias. […]
Uma característica do esoterismo é uma reivindicação da gnose, ou uma
clarividência espiritual direta sobre cosmologia ou metafísica. […] Para além disto,
este termo tradicional preserva a diferença entre conhecimento obtido por vias
convencionais e racionais, por um lado, e por gnose, do outro».19 Versluis prossegue
acrescentando exemplos de abordagens gnósticas como alquimia, astrologia, magia
e misticismo. Evola praticava e pronunciou-se sobre todos estes modos de obtenção
de conhecimento como viáveis.

Racismo: Não me irei estender muito sobre o racismo específico de Evola, embora
seja possível fazê-lo; Evola dedicou uma obra completa à sua teoria racista, viz.

18
Sidgewick, Against the Modern World, pp. 21-38
19
Versluis, Magic and Mysticism: An Introduction to Western Esotericism
Sintesi di Dottrina della Razza. O que introduz com esta obra é apenas uma
elaboração metafísica do sentido genérico do termo. Comummente é usado para
classificar um complexo feito de crenças e disposições perante uma raça ou um certo
conjunto delas. Crenças que passam por supor diferenciais de habilidade e valor
intrínseco entre raças, e os respetivos sentimentos (ou emoções) de repugnância-
aversão/apetência-atração que as acompanham. No caso de Evola, as raças são
frequentemente chamadas de “stock”. No caso caucasiano – o que ele chama de
“ariano” – entre os povos da Europa, Índia e Médio Oriente é partilhado um stock
original de espécimes chamados de indoeuropeus. Segundo Evola todos estes povos
partilham não só de uma semelhança biológica, algo primário, mas também de uma
alma e um espírito. Para este autor, o espírito da raça colhe o valor mais alto e é
precisamente esta propriedade invisível ao olho científico que eleva uma raça sobre
a outra.

Metafísica da Guerra
Estes três complexos de elementos conceituais estão presentes na Metafísica da
Guerra de Julius Evola. Para ser preciso, Evola nunca escreveu uma obra deste nome,
nem nunca dedicou um trabalho ao tópico da guerra especificamente. Por este título
faz-se referência a uma compilação de ensaios que foram reunidos postumamente
em 2007 por John B. Morgan, em nome da Integral Traditional Publishing. Este
título, não sendo original, não deixa de ser informativo sobre o seu conteúdo. Foram
ensaios escritos durante a Segunda Guerra Mundial (IIGM) aquando da elevação do
fascismo e o nacional-socialismo nos seus países respetivos. Intelectuais italianos e
alemães procuravam, ao bom estilo Continental da filosofia, criar uma cosmovisão
política que fundasse quaisquer medidas de legislação; articulações de traços largos
que abarcavam história, ciência, religião, mitos populares, política contemporânea e
uma base para criticar a ação e ideologia de rivais, neste caso, as repúblicas liberais
capitalistas e o comunismo. Hoje fala-se da filosofia negativa e desconstrutivista da
Escola Crítica frankfurtiana ou dos apologetas marxistas como Foucault, Derrida e
Deleuze, mas Evola, Giovanni Gentile (entre outros assinantes do Manifesto dos
Intelectuais Fascistas de 1925) e Alfred Rosenberg (entre outros intelectuais como
Martin Heidegger, Carl Schmitt e Ernst Bergmann) já se tinham antecipado a esse
tipo de atividade de desconstrução de ideias e crenças em vigor num corpo social.

Nesta compilação, em concreto, Evola procura fundar a superioridade marcial das


nações do Eixo, viz. Itália, Alemanha e Japão, mas acima de tudo as duas primeiras,
pois são estas que partilham de sangue e espírito ariano. Faz isto explorando o
conceito de heroísmo nas suas diversas faces culturais ao longo do tempo. É por
intermédio deste conceito que se pode encontrar o núcleo pulsante do qual origina
toda a manifestação material bélica. Nele encontramos o que impele um certo stock
de homens a fazer guerra. Com este dado nas mãos, é possível expandir a metafísica
que contextualiza (ou enquadra) esse núcleo. Com vimos acima, Evola deposita o
valor mais alto sobre o domínio do espírito. Nesta base, o stock impulsionado para
um telos espiritual na prática da guerra é o stock superior, aquele que se eleva da
materialidade mundana para tocar a divindade – transcendencia. Isto tem
consequências no domínio empírico.

Evola reconhece que mesmo que os combatentes não estejam imbuídos de um


heroísmo espiritual, que são capazes de grandes feitos de guerra, porém nunca se
poderão comparar ao princípio animador dos stocks superiores. Segundo este
tradicionalista italiano, as nações do Eixo estão munidas de um stock devidamente
alinhado com as suas tradições respetivas e que isso lhes confere uma vantagem
competitiva no teatro de guerra. Evola alega especificamente que nações sem
harmonia material e espiritual têm menos «habilidade de combate».20 Desta forma,
Evola abandonou o domínio invisível, em que a especulação filosófica se desenvolve,
e entrou em território científico. Não há como conceber condições de corroboração
ou falsificação das suas alegações metafísicas (factos valorativos e uma hierarquia
racial no domínio espiritual) mas, fazendo jus ao que foi dito em secções anteriores,
será que estas extravagâncias da imaginação de algum modo ajudaram a prever a
superioridade marcial das nações do eixo?

A resposta breve é “sim”. Neste trabalho pretendo precisamente perceber i) o que


está por detrás das construções metafísicas de Evola, ou dito de outra forma, qual a
realidade mal compreendida pelo autor sobre a qual foi decalcada as suas
construções metafísicas, e ii) avaliar a veracidade das suas previsões empíricas. Para
esse efeito começarei por a) fazer uma exposição dos essenciais da tese presente na
Metafísica da Guerra, b) passarei de seguida a uma enumeração dos dados empíricos
relevantes às previsões que se podem extrair da tese e c) procurarei desvendar a
realidade que Evola tocou por intermédio da sua capa teórica extravagante.

A Tese de Evola
Para expor a tese de Evola servir-me-ei de dois modos de apresentação: ▫começarei
com uma descrição por escrito, na qual passarei pelos diversos conceitos e ligações
entre os mesmos, mas depois ▫ilustrarei esta construção conceitual por meio de
esquematizações. As páginas que irei citar não são correspondentes com a edição
original. Para fins de verificação, o leitor deve se servir do documento disponível
aqui21. As citações serão feitas com a notação, “(p.#)”.

Evola começa no primeiro ensaio por declarar as suas intenções de trabalho, viz.
descobrir as condições sob as quais o aspeto espiritual da guerra se manifesta, ou
ainda, a fenomenologia da experiência do guerreiro (p.13). O autor inicia a sua
investigação com uma suposição que julga estar empiricamente corroborada, viz. de
que todas as sociedades humanas tradicionais estão organizadas segundo uma

20
Metaphysics of War, p. 92
21
http://www.cakravartin.com/wordpress/wp-content/uploads/2015/12/Metaphysics-of-War-Evola-
Julius.pdf
hierarquia tetrapartida, composta (de cima para baixo) por uma autoridade
espiritual, uma aristocracia guerreira, uma classe média burguesa (ou mercante) e
uma classe de escravos ou serventes. Evola chama-lhes de castas e segundo ele são
naturais à espécie humana. Isto significa que este tipo de organização social, embora
seja violável, é aquela que melhor se adequa à espécie, i.e. insistência noutro tipo de
organização pode levar a distúrbios quer no coletivo quer em cada membro
individualmente (p.13).

Quanto à primeira alegação, seguindo uma máxima de caridade interpretativa, Evola


está seguro. Embora estas quatro categorias não sejam minimamente definidas pelo
autor, ao olhar para o passado de uma forma muito geral e desfocada pode-se dizer
que havia uma classe religiosa muito importante na tomada de decisões políticas
pelo cabeça de governo, assim como uma nobreza guerreira, uma classe produtora
e ocupada com atividades comerciais, e para finalizar, uma outra escrava ou perto
disso. Já a alegação que parece roçar a normatividade, de que esta organização
tetrapartida é natural à espécie humana, não parece ter tração mediante dados
disponíveis e procedimentos lógicos atuais para determinar associais de caráter
causal. Qualquer uma destas classes emerge e desaparece mediante outros fatores.
São adaptações de grupo sujeitas a pressões quer por competição intergrupo quer
por competição intragrupo.

A competição intergrupo pressiona um certo grupo X a desenvolver uma certa


hierarquia social, com certas dinâmicas específicas e crenças, histórias e expressões
artísticas específicas (traços culturais).22 A nobreza aristocrática, p.e. explica-se por
meio de quatro fatores: i) a frequência de ataques e constante suspeita de futuros
ataques por grupos rivais ou bandos de saqueadores e mercenários, ii) a tecnologia
de armamento disponível a sociedades tradicionais exigir dos combatentes bastante
perícia e capacidades físicas, iii) a eficácia em combate de guerreiros criados para e
experimentados no combate, i.e. a sua presença pode fazer toda a diferença na
preservação e domínio do grupo, iv) as regalias socioeconómicas que advém pelas
condições descritas no fator ii). Pensemos i), ii), iii) e iv) como dispostos numa linha
temporal. i) será o fator mais distante do fenómeno em análise (a existência de uma
aristocracia guerreira) e iv) o mais próximo. Com isto em mente, eliminemos o fator
i). Não havendo risco e ataques constantes, X não precisa no seu corpo social uma
classe de guerreiros para lidar com este problema. Mas suponhamos que i) é o caso
mas ii) não é. Sendo assim, também não é necessária uma classe guerreira
especializada no ofício da guerra. Se é possível gerar a letalidade suficiente para
repelir ou dominar inimigos com uma força militar de conscritos que não requerem
muito investimento de recursos para o seu treino, a classe de aristocrata de
guerreiros é dispensável. Sendo assim, iii) não será o caso assim como iv). Se mão-
de-obra militar é barata, desviar recursos para o enaltecimento deste serviço é

22
Agner Fog, Teoria da Regalidade em Warlike and Peaceful Societies.
dispensável. Façamos o mesmo para o fator iii); i) e ii) são o caso mas iii) não é. Sem
estes guerreiros especializados um grupo não teria como assegurar a sua
continuidade face à pressão de outros grupos, sendo assim, por seleção natural, os
grupos sem uma aristocracia guerreira especializada desapareceriam e aqueles que
tinham iam ficando. Para finalizar, eliminemos iv) mantendo os três fatores
anteriores. Neste caso não haveria qualquer incentivo para estes guerreiros
especializados se manterem no grupo que protegem, seria preferível oferecer os
seus serviços a um outro grupo que os prezasse mais.

O que quero frisar com esta descrição de como a intervenção nestes quatro fatores
podem afetar a emergência de uma classe guerreira aristocrata, é precisamente a
questão de esta ser resultado de certas pressões específicas. Ou seja, não é algo
«natural» à espécie humana, é sim algo que resulta mediante certos contextos.
Explicações semelhantes, i.e. com recurso a manipulação em fatores relevantes,
podem ser aplicadas sobre as outras três «castas» que Evola mencionou.
Novamente, não são naturais à semelhança da necessidade de ingerir uma certa
proporção de macronutrientes para manter as funções orgânicas em estado ótimo,
são sim soluções convenientes para um certo problema.

Na equação de fatores que ocasionam uma certa organização social à que considerar
também a competição interna ao grupo (intragrupo). Voltando ao exemplo anterior,
um cabeça de governo e uma nobreza que não estejam dispostos a abrir dos seus
bolsos para recompensar devidamente a classe guerreira, correm o risco de a) um
grupo inimigo exterminar o suficiente de membros da classe produtora (pondo
assim em causa os meios materiais essenciais à preservação do resto grupo) e b) de
serem mortos num único ataque em que todos os meios de defesa e retirada
falharam. Quero dizer com isto que se estas classes reais e nobres se excedessem na
sua luta pelo controlo e recursos, poderiam criar riscos não compensatórios.

Do mesmo modo, suponhamos que a classe produtora se revolta contra a


aristocracia guerreira, nobre e real. Neste caso, c) correm o risco de falharem porque
o diferencial de capacidade de combate deles por comparação com classe guerreira
é muito grande e d) mesmo que sejam bem-sucedidos, que meios lhes restaram para
se protegerem? Mais uma vez, grupos onde a competição interna levou a uma fraca
capacidade de combate pereceram, e assim foram ficando aqueles que tinham uma
dinâmica específica entre os seus diversos membros, viz. a tal hierarquia
tetrapartida. Nestas condições, e levando em conta que os diversos grupos humanos
de facto foram modificando as suas estruturas sociais mediante alterações em
fatores como aqueles que mencionei, não há razões para aceitar a naturalidade da
hierarquia tetrapartida. Deixo apenas dois exemplos. Sobre o fator ii), com a
introdução de armas de fogo nas organizações militares, foi sendo cada vez mais fácil
gerar a letalidade necessária por meio de conscritos com poucas semanas de treino
– como se pode ver com a despromoção da classe samurai, durante a Restauração
Meiji, para meros símbolos de identidade nacional japonesa.23 Sobre o fator de d)
p.e. em Atenas uma das soluções sociais encontradas foi o desenvolvimento do
«yeoman guerreiro»24, uma classe de homens que guarda para si funções de duas
classes da hierarquia de Evola – tanto eram produtores agrícolas como uma
aristocracia guerreira.

Voltemos à tese de Evola. Com base nesta construção teórica da hierarquia das
quatro castas, o autor prossegue fazendo uma alegação teleológica, viz. que as
sociedades derivam o seu sentido de existência da casta que reunir as condições de
liderança para si (p. 14). Tradicionalmente a casta que dava sentido às outras três
era a espiritual, o que implica uma vivência comunal mais teocêntrica ou
pneumatocêntrica. Este sentido providenciado pela classe dominante leva à
emergência de certos traços culturais tanto observáveis (arquitetura, literatura,
comportamentos, costumes) como inobserváveis (conceitos, sentimentos
religiosos, sentimentos sociais, enquadramentos metafísicos). Uma outra alegação
teleológica por parte de Evola, feita logo de seguida, é que a espécie humana se está
a desenvolver num sentido de «involução». Este tipo de conceitos era muito comum
no final do séc. XIX e início de séc. XX, viz. conceitos evolutivos que decalcavam
direção ao processo evolutivo. Esta tese de direção evolutiva chamava-se de
Vitalismo viz. a tese pela qual se defende que existe uma espécie de mão invisível a
orientar a evolução dos organismos no sentido de menor para maior complexidade
e harmonia. Podemos ver isso de forma explicita p.e. no corpo filosófico de Herbert
Spencer (1820-1903) a que ele chamou A System of Synthetic Philosophy. Especulo
que Evola teria em mente conceitos destes quando avançou a tese da involução
humana.

Para evidência empírica deste sentido regressivo, Evola sequenciou os estágios


involutivos das sociedades chamadas de Ocidentais:

i) A organização social25 aristocrática sacralizada. É nesta organização que


encontramos a casta espiritual na liderança cultural. Nela encontramos éticas de
justificação e ilustração sobrenatural, valor supremo depositado na conquista da
imortalidade, o templo como local privilegiado de congregação comunitária, a
família como a unidade mínima de devoção a Deus e piedade. (p. 14)

ii) “ “ guerreira monárquica sacral. A liderança passa para mãos civis,


particularmente para a aristocracia guerreira que veio sobrevivendo desde as
sociedades tradicionais. Neste estágio, embora o poder tenha mudado de mãos,
ainda sobrevivem resquícios de influência sacral. (p. 14)

23
Kenneth Henshall, A History of Japan, p. 79-80
24
Expressão de Geoffrey Parker, The Cambridge Illustrated History of Warfare, p. 14
25
Daqui em diante não repetirei “A organização social” e passarei diretamente para o tipo.
iii) “ “ guerreira monárquica secular. Estágio em que os resquícios sacrais
desaparecem, mas preserva-se a altivez guerreira. Aqui podemos encontrar a ética
do contrato social hobbesiano (ou do egoísmo racional), a elevação da honra e glória
como crédito social entre homens, coisas a procurar e a defender sem consideração
sacral. A sanguinidade e preparação da prole para a liderança na guerra continuam
de pé nestas famílias, mas a antiga prática de dedicar alguns dos filhos ao serviço
eclesiástico perdeu-se (p. 14).

iv) “ “ oligarca capitalista. A liderança passa para as mãos do burguês


mercante. Temos a ética do burguês articulada por Adam Smith (1723-1790) na
Riqueza das Nações (The Wealth of Nations). A metrópole como centro comercial e
prestação de serviços substitui o castelo e o templo. A família reduz-se a uma
unidade económica chamada de agregado familiar. Período de grandes
sentimentalismos meramente materiais – a nação, o heroísmo como confrontação
com adversidades económicas (muito comum na romantização do colono que
procura uma vida melhor no Novo Mundo além mar) (p. 14).

v) “ “ socialista coletivista. Estágio final da involução, quando a liderança


passa para a casta escrava ou serventia. Usando o termo empregue por Evola, o
poder está nas mãos do «proletariado». Temos a ética do coletivismo materialista, a
sociedade que não é mais do que uma massa amorfa de consumidores e potenciais
colaboradores políticos. A cidade burguesa é substituída por uma megalópole-
colmeia de vários milhões, e assiste-se à destruição da família (p. 14).

Até aqui, temos na construção metafísica: ▫um dualismo entre uma esfera
espiritual e uma esfera material sobrepostas sobre o mesmo tecido existencial;
realidade é a sobreposição destes dois planos; ▫uma valorização acrescida da esfera
espiritual sobre a material; ▫uma hierarquia tetrapartida natural à espécie humana
(divisão natural em castas); ▫um processo involutivo nas sociedades ocidentais no
qual o estágio de maior elevação é o de proximidade ao divino, e o estágio de maior
degradação é o de coletivismo material – processo que tem consequências na
reordenação da hierarquia em iii). Analisámos de perto a questão da naturalidade
hierárquica e vimos que este ponto não tem uma defesa suficientemente forte para
corroborar o que afirma. Assim, o ponto seguinte não requer apreciações adicionais
– sendo a naturalidade da hierarquia tetrapartida implausível, não pode haver
qualquer tipo de processo em desenvolvimento sobre ela, seja de involução (como
especula Evola) seja de evolução. Sobre os dois primeiros pontos não me
pronunciarei. ▫Primeiro, porque uma das suposições metodológicas incluídas nas
de caráter geral, articuladas nas “Preliminares Científicas”, é a distinção Questões
Externas / Questões Internas, defendida por Rudolf Carnap (1898-1970) no seu
célebre ensaio “Empiricism, Semantics and Ontology”.26 Os primeiros dois pontos
não são para ser discutidos em termos de alocação de valores de verdade ou
confirmação (verdadeiro-falso, provável-improvável, plausível-implausível) mas
sim de utilidade e conveniência. Por consequência, ▫segundo, este tipo de
argumentação pragmática não acrescentaria nada de relevante a este trabalho, i.e.
não teria qualquer contributo didático quer à compreensão da construção
metafísica de Evola quer à tese deste trabalho no que concerne as previsões
empíricas implicadas nessa construção.

O espaço lógico aberto por Evola até aqui já nos permite derivar uma consequência,
viz. as atitudes e conceitos perante e relevantes à guerra mudarão consoante o
estágio específico de uma sociedade – em concreto a figura do herói e a natureza da
guerra tomarão formas distintas. É precisamente isso que Evola trata seguidamente.
Fazendo um paralelo com os cinco estágios de involução e as organizações sociais
respetivas27, a guerra é tomada como:

i) O meio pelo o qual se chega ao zénite da elevação espiritual. É o instrumento da


esfera material pelo qual se catapulta o homem para a transcendência espiritual,
para a iluminação, a salvação (p. 14).

ii) e iii) O meio pelo qual se obtém prestígio, glória e honra entre os homens. Em
certos casos a guerra pode ser feita com um fim em si mesmo. Guerra colhe para si
o valor mais alto e é por ela que se satisfaz a existência do homem (p. 14).

iv) Um instrumento de mera defesa dos interesses económicos de uma certa nação,
que por sua vez serve de plataforma de negócios para a casta burguesa. O soldado
deixa de ser o aristocrata nascido para a guerra e passa a ser o soldado-cidadão, que
nada mais tem diante de si que a defesa do seu pedaço de terra e da comunidade
dentro das quais desenvolve as suas atividades económicas (p. 14).

v) Apenas uma luta entre classes a nível internacional, especificamente, a guerra


como meio de planificar (ou horizontalizar) as hierarquias tradicionais
(tetrapartida) ao nível da casta serventia (p. 14).

26
Muito resumidamente, a tese de Carnap era de que as questões metafísicas da filosofia tradicional
devem ser entendidas como pseudo-questões. O que sugere encará-las desta forma é a constatação de
que as respostas para elas são compostas por um conjunto de pseudo-afirmações, i.e. afirmações que não
podem ser avaliadas por procedimentos empíricos ou a priori. P.e. não se pode investigar empiricamente
a questão de uma realidade externa por procedimentos empíricos, e ao mesmo tempo, também não se
pode deduzir uma resposta afirmativa negativa de um axioma qualquer. Sendo assim, em vez de
entendermos estas questões como teóricas, i.e. sujeitas a um valor de verdade, probabilidade ou
plausibilidade, devíamos antes avaliá-las pela sua utilidade como enquadramentos constituintes de uma
metodologia, p.e. positivismo vs. construtivismo social, ou o enquadramento de que há uma realidade
além dos sentidos para ser investigada vs. o enquadramento de que a realidade é socialmente construída
e não mais nada além disso.
27
Voltar atrás para relembrar (se necessário).
Evola é mais preciso nas consequências para o conceito de herói. Além de introduzir
uma nova entidade, viz. o «princípio guerreiro» (p. 15) – que mais adiante Evola
parece substituir por «espírito guerreiro» (p. 67)28 –, este espírito manifesta-se de
formas diferentes, consoante as reordenações hierárquicas da sociedade e
sentimentos e compreensões perante a guerra. É este espírito guerreiro que é
determinante nas conceções de herói, e são três as condições gerais de expressão:

• O espírito guerreiro quando submetido à casta espiritual está na sua devida


condição. Só assim pode florescer devidamente e expressar-se na sua forma
mais elevada (ou completa). É nesta condição que o espírito encontra a via
ótima de realização i.e. não há atritos na esfera material a bloquearem a sua
passagem da esfera espiritual (p. 15).
• O mesmo espírito quando se determinando a si mesmo (providenciando o
seu próprio telos), embora perca a luz da finalidade espiritual
(«suprahumana», expressão recorrente de Evola) e se jogue na escuridão
trágica de uma prisão de guerra interminável, é capaz de preservar a sua
grandeza diante dos homens, especialmente sobre aqueles nas castas
inferiores (p. 15).
• Finalmente, quando submetido às castas serviçais, o espírito guerreiro
expressa-se apenas como um instinto animal direcionado à sobrevivência. Na
guerra é animado por nada mais que agressão pura e cooperação tribal até
ao extermínio do inimigo (p. 15).

Embora Evola não se reveja totalmente no fascismo, é nesta filosofia


weltanschauung e ideologia política que o povo italiano (ou «ariano-romano») pode
reencontrar a sua tradição e modo natural de estar. O fascismo baseia-se em valores
militares (militarismo); valores que não são mais que uma expressão particular do
espírito guerreiro. É aqui que reside a ligação entre o fascismo e o espírito guerreiro,
mas também o fator que explica a atratividade da raça ariana por filosofias e
ideologias militaristas (fascismo e nacional-socialismo). O fascismo está
harmoniosamente alinhado com a identidade espiritual da raça ariana, e é pela sua
praxis que os povos arianos poderão reencontrar o seu sentido de vida no contexto
particular da primeira metade do séc. XX. Em vez dos arianos viverem pelo princípio
da preservação da paz e da guerra como último recurs, os arianos, possuídos pelo
espírito guerreiro vigoroso, se precipitarão sobre a guerra como forma de libertação
e elevação entre os homens na direção do espírito. (pp. 16; 65-67) Evola parece
entender o fascismo como um meio caminho ao estágio i), talvez situado entre algo
semelhante ao estágio ii) ou iii)29.

28
Algo que me leva a pensar que as duas construções nominais denotam a mesma entidade, e que até
está de acordo com o enquadramento filosófico de Evola (enumerado na secção “Julius Evola”).
29
Numeração atinente aos estágios de organização social já expostos.
De traços conceituais muito abstratos, Evola passa para apreciações mais
substanciais, nomeadamente, uma exposição sobre as mitologias das tradições
arianas que enquadram o conceito de herói; conceito esse uma construção motivada
e influenciada pela correta manifestação do espírito guerreiro. As tradições são: a
Romana, a Nórdica (escandinava), a Cristã medieval, a Islâmica medieval, e a Védica.
Na mesma ordem, os elementos metafísicos e religiosos essenciais são:

• Uma reificação antropomórfica da aglutinação de dois conceitos, o Imperium


e a Aeternitas , viz. Aeternitas Imperii, que significa “eternidade do governo
romano”. A eternidade imperial tomou a forma de uma deusa –
provavelmente sob proteção de Juno. Imperium significava “poder absoluto”
e na sociedade romana servia de nome para designar certos poderes
investidos num magistrado. Estes poderes eram compreendidos como de
origem divina (pp. 17, 19). Mais adiante, Evola detalha os rituais de guerra
associados com estes conceitos.
• O mito de Valhalla. Este enorme salão é onde os heróis bebem e combatem
entre si apenas por prazer. Morrem e ressuscitam num ciclo incessante de
festejo e combate. Estes heróis ganharam o seu título por terem sido
guerreiros escolhidos por Odin e transportados diretamente da morte para
Valhalla pelas harpias. Lá levarão a vida perfeita do guerreiro até chegar o
momento final de lutar ao lado de Odin, numa guerra épica de fim do mundo
chamada de Ragnarok (p. 46).
• O cavaleiro das ordens de cavaleiros cristãs – especialmente os templários;
os monges guerreiros. A salvação cristã, na teologia católica-romana, é
entendida como obtida por feitos. Embora a contemplação e os sacramentos
sejam vias possíveis, o combate é visto como mais uma de grande valor. O
herói expia os seus pecados e obtém o favorecimento divino por meio do fogo
purificador do combate em guerra santa (pp. 17-18, 46).
• A Jihad (guerra santa islâmica) como manifestação do espírito guerreiro já
presente em mitologia persa. Jihad é a «Guerra Maior» de caráter espiritual,
mas ocorre no plano material, a «Guerra Menor». Nesta metafísica, uma
Guerra Menor perdida não tem necessariamente implicações na obtenção da
vitória na Guerra Maior. É possível ter uma morte triunfante na Guerra
Menor (à semelhança da romana mors triumphalis) e ascender à completude
espiritual na Guerra Maior, i.e. uma derrota na Guerra Menor com uma vitória
na Guerra Maior (pp. 25, 46-47).
• Em linha com as outras mitologias, segundo Evola, a Bhagavad-Gita introduz
uma qualificação adicional à distinção de Guerra Maior e Menor islâmica, viz.
a Guerra Exterior e a Guerra Interior, respetivamente. Esta qualificação de
modo nenhum rompe com a simbiose entre material e espiritual, apenas
especifica que a elevação espiritual interior se pode obter por meio de
atividades exteriores – a Guerra Interior pela purga das imperfeições da
carne, e consequente elevação espiritual, obtém-se pela ascese no combate
da Guerra Exterior. Na base desta alegação metafísica está o diálogo entre
Arjuna (antropomorfização da ação no espaço e no tempo, condicionada a ser
afetada por enfermidades da carne) e Krishna (antropomorfização da
sabedoria transcendente, eterna, imutável, perfeita, serena e imperturbável)
(pp. 29, 47).

Em todas estas manifestações religiosas do espírito guerreiro característico dos


povos arianos, praticavam-se rituais pré- e pós-guerra para dois objetivos cruciais:
▫primeiro para pedir colaboração e auxílio do divino sobre os assuntos terrenos,
▫segundo agradecer a preocupação do divino com os assuntos dos homens. Pelo
primeiro ritual os guerreiros procuravam conectar-se com os deuses; envolverem-
se no transcendente invisível. Lutar nestas condições seria muito mais que
sobrevivência instintiva, seria sim uma atividade material em simbiose perfeita com
uma finalidade e a esfera espiritual. A vitória por sua vez não podia ser
compreendida como apenas um desfecho de mérito humano. A colaboração dos
deuses não podia cair no esquecimento, não fossem eles depois abandonar os
homens à sua sorte. O herói nestas tradições é visto como aquele que se joga na
guerra como meio de se despojar das suas imperfeições humanas. Combate é visto
como o fogo purificador, a ascese que eleva o guerreiro espiritualmente. O combate
é a via por excelência de libertação das limitações da esfera material (p. 79) e não
há distinção entre a via da contemplação e a via do combate; são ambas igualmente
frutuosas na aproximação do homem à sua superação da esfera material. Nas
culturas animadas por estes envolvimentos religiosos os heróis eram idealizados
como: fisicamente fortes e destemidos, perfecionistas entregues à preparação para
a guerra, calmos, controlados, amantes da ordem, capazes de subordinar impulsos
animais individualistas a princípios mais elevados, e disciplinados (pp. 17-18, 26-
27, 29, 44-45, 48, 57, 63, 67).

Evola prossegue afirmando que o que é importante na raça ariana é este património
espiritual e religioso, e não necessariamente traços morfológicos visíveis como
pigmentação da pele e cabelo, ou até mesmo ancestralidade indoeuropeia. Ainda
assim, esses traços não deixam de ser uma expressão particular do espírito ariano
num certo contexto ambiental (i.e. geografia, clima e biota). Sendo assim,
miscenação racial pode ter graves consequências para a degradação do espírito
ariano, uma vez que nesse processo haverá contaminação de espíritos exógenos.
Esses provocarão distúrbios à harmonia do espírito ariano. Face a este risco, há duas
posições que os arianos podem tomar: uma passiva e uma agressiva. Face à
construção metafísica de Evola é fácil deduzir qual das duas o ariano deve escolher.
Sendo o modo guerreiro um elemento inextricável do espírito ariano, o redespertar
da raça ariana necessita um empurrão sobre os seus membros para o perigo e o
conflito letal, e nada melhor que a guerra (a guerra Exterior e Menor) para esse
efeito.
O autor continua a sua especulação descrevendo algo semelhante a mecanismos de
seleção da Teoria Evolutiva. Na competição pela supremacia material, tanto
perecem raças como emergem subgrupos raciais, i.e. estirpes especiais dentro de
uma mesma raça. Estes sub-grupos, diz Evola, são como que «super-raças» -- os
melhores exemplares de um certo stock que foi especialmente bem-sucedido na
superação das suas tribulações. É nas aristocracias guerreiras que podemos
encontrar estas super-raças e, como tal, foi a partir destas que se desenvolveram os
conceitos de herói mais elevados. Evola acrescenta uma distinção neste domínio da
raça, as «raças da natureza» e as «raças superiores» (ou divinas, celestiais, do
espírito). As primeiras são raças que nunca passam da sua fase coletivista, tribal,
instintiva; quanto às segundas o suficiente já foi dito sobre elas, viz. são aquelas mais
próximas do estágio i) de organização social. A involução da raça ariana passa
precisamente pelos estágios já mencionados acima, i.e. na perda da sua sacralidade
e nos ganhos de materialismo e coletivismo tribal. Repetindo, quebrar este processo
involucionário exigiria submeter os membros da raça a grandes tribulações, a fim
de que o espírito guerreiro acordasse da sua dormência, e por consequência puxa-
se de atrelado consigo todo o espírito ariano de que faz parte. Guerra é o meio
material pelo qual se desperta o espírito ariano para a sua grandeza tradicional (pp.
18, 36-37, 39, 41).

Evola alega que um dos sintomas da involução é a desvalorização da guerra (perde


o seu lugar de excelência como meio de desenvolver virtudes) mas também pode
até passar a ser negativamente valorizada (não só perde a sua importância como
passa a ser repudiada). Na sua construção metafísica, isto tem de ser considerado
uma degeneração, uma maleita da modernidade que bloqueia a harmoniosa
expressão do espírito guerreiro no stock ariano (p. 31). Guerra passa a ser apenas
uma forma de mera defesa da paz, uma infelicidade de último recurso a que o
homem tem de se submeter de forma contrariada para proteger um bem maior. Isto
tem as suas consequências práticas, nomeadamente, a perda de capacidade de
combate, disciplina e sacrifício. Evola serve-se dos ingleses como exemplo de
frouxidão ariana, e aponta como fator desse fenómeno a «judaização do homem
ariano». Segundo ele, está contido na herança judaico-cristã, i.e nas religiões
semitas, o tipo iv) de organização social – valores e filosofia política capitalista,
economicamente centrada e burguesa (p. 54).

Passemos agora a uma esquematização, a fim de facilitar a assimilação dos conceitos


essenciais (conceitos na ausência dos quais não se pode compreender a tese de
Evola) e as relações lógicas entre os mesmos.

Conceitos
• Dualismo (material-espiritual)
• Realismo Valorativo (factos normativos/valorativos)
• Hierarquia Tetrapartida (clero, nobreza guerreira, burguesia, serviçais)
• Supremacia Cosmoviosionária (capacidade de uma casta determinar por
completo a cosmovisão de uma sociedade).
• Espírito Ariano (a contraparte espiritual da raça biológica ariana)
• Espírito Guerreiro (o elemento do espírito ariano mais causalmente
relevante para a expressão da (chamemos) arianidade).

Dualismo – Realidade (R) é um composto de matéria (M) e espírito (E), no qual nem
sempre os dois coincidem, i.e. não há uma envolvência entre os dois. Há elementos
de M que nada têm de E, há elementos de E que nada têm de M, mas também há
elementos que são ambos de M e E.

Separação de
M E Realidade M E substâncias
R=M∪E M⌐E ∪ E⌐M

M E Simbiose de
substâncias
M∩E

Realismo Valorativo – Montando sobre o precedente, R não é valorativamente vácua,


ou dito de forma positiva, R está permeada de valor. Neste caso específico de
realismo valorativo, E é sempre mais valioso que M. Cada elemento de M é mais
valioso que outro elemento de M em função da sua proximidade a E, e cada elemento
de E é mais valioso que outro elemento de E em função da sua distância de M.
+ valor
E

M
- valor

Hierarquia Tetrapartida – Uma divisão necessária na natureza social humana. A


hierarquia tetrapartida (HT) é um subconjunto de M uma vez que todos os seus
membros são membros de M, porém há pelo menos um que não é apenas membro
de M, é também de E, viz. o clero (c), em contraste com a aristocracia guerreira (ag),
a burguesia (b) e a classe serviçal (s).
M∩E

c HT = {c, s, ag, b}
HT ⊆ M
ag s c∈[M∩E]
{s, ag, b} ⊆ [ M ∩ E ]
b
M

A este esquema acrescentamos a hierarquia valorativa.

M∩E
+ valor • Por necessidade, a casta do clero
c terá de estar na interceção entre o
material e o espiritual, caso
ag contrário não seria clero. As outras
três classes encontrar-se-ão na
b interseção dependendo de quem
M tem a supremacia cosmovisionária.
s - valor

Supremacia Cosmovisionária – A capacidade de uma casta exercer uma influência


imbatível sobre as outras. Esta influência é compreendida como a construção de
uma realidade social dentro da qual todas as castas vivem. Isto vai desde conceitos
e teorias de diversos tipos até às instituições que promovem essas ideias e leis que
orientam a sociedade num certo sentido. Sendo que apenas o clero pode influenciar
espiritualmente as outras castas, por necessidade, na ausência dessa influência as
outras castas secularizam-se.
M∩E M∩E
c

ag c

b ag

s b
M
M s

Em condições de supremacia clerical Em condições de supremacia não-clerical


HT ⊆ [ M ∩ E ] HT ⊆ [ M ∩ E ]
Espírito Ariano e Espírito Guerreiro – O espírito ariano (RA ∩ E) tem participação da
raça ariana biológica (RA ∩ M) apenas quando há alguma influência da classe clerical
ou do espírito guerreiro. Não ficou muito claro nos textos de Evola em que consiste
a relação entre o despertar do espírito ariano e as suas consequências para
alterações na supremacia cosmovisionária. Parece que, na realização deste evento,
a sociedade fica mais propícia a voltar a ouvir vozes clericais. O que me faz pensar
que tem de ser assim? Porque da forma como Evola expõe a sua tese, parece que os
guerreiros requerem a influência do clero para sacralizar as suas atividades bélicas
(recordar as mitologias das sociedades arianas tradicionais). Sendo assim, não se
pode falar do espírito guerreiro como um elemento do espírito ariano que por si só
desperta por completo este segundo. Para sua expressão ótima, o espírito guerreiro
requer a influência do clero (como vimos). Por consequência, o espírito ariano
também só pode ter a sua expressão ótima por influência do clero. Com esta
interpretação parece fazer-se jus às apreciações de Evola de que o fascismo é apenas
meio caminho para o antigo tradicionalismo. Ainda assim, continua a haver tensão
conceitual. A tensão pode ser formulada pela questão: se a sacralização de uma
sociedade requer a supremacia cosmovisionária do clero, e o espírito guerreiro faz
parte do domínio do sagrado, então como é que o espírito guerreiro por si mesmo
pode auxiliar o despertar do todo espiritual ariano? Quando muito o espírito
guerreiro pode prestar este auxílio, acelerando o despertar, uma vez sob a alguma
influência do clero. Esta solução embora seja mais conceitualmente coerente não faz
jus ao texto de Evola, ainda assim a ilustração que se seguirá tomará esta forma mais
coerente.

E M∩E
M∩E E

HT HT
RA RA

M M

Raça ariana em condições de Raça ariana em condições de


supremacia não-clerical supremacia clerical
[ HT ∩ RA ] ⊆ [ M ∩ E ] [ HT ∩ RA ] ⊆ [ M ∩ E ]

Creio que o suficiente foi dito para compreensão da tese de Evola. Passemos agora
às suas previsões empíricas.
Testando a Tese

Uma das formas disponíveis para testar uma tese é avaliar as previsões que se
podem deduzir dela contra a realidade. Uma previsão, por sua vez, não precisa de
ser sobre o futuro. Pode-se fazer previsões sobre eventos ou mecanismos causais
em ocorrência ou que já decorreram. P.e. suponhamos que o arqueólogo marinho
deduz da sua tese (hipótese) histórica que um certo galeão espanhol foi afundado
dentro de uma certa triangulação de coordenadas XYZ. Uma equipa de
mergulhadores profissionais sonda a área e de facto o galeão estava situado dentro
da triangulação. Neste exemplo a previsão foi sobre um evento passado. E neste
trabalho iremos fazer o mesmo.

Da tese de Evola o que podemos prever? As previsões que se seguirão concernem a


minha proposta mais coerente e não aquela que faz jus à interpretação estrita dos
textos de Evola:

• A raça ariana é mais eficaz na guerra quando sob a supremacia


cosmovisionária do clero.
• A raça ariana é menos eficaz na guerra quando sob a supremacia
cosmovisionária das castas seculares.

Se fossemos pela versão original de Evola:

• A raça ariana é mais eficaz na guerra quando ou só sob influência do clero


ou só sob influência do espírito guerreiro.
• A raça ariana é menos eficaz na guerra quando sob a influência das castas
seculares e supressão cultural do espírito guerreiro.
Segundo Evola, os povos arianos a caminho da sociedade tradicional são os italianos
(sob governo fascista) e os alemães (sob governo nacional-socialista). Como vimos
acima, os arianos das repúblicas capitalistas dos Aliados são arianos judaizados e
burgueses, e portanto, é de se esperar que os arianos do Eixo sejam militarmente
superiores aos arianos Aliados. Agora, é obvio para toda gente que o Eixo perdeu a
guerra, mas isso não é indicador de habilidade militar. Para aferir essa qualidade é
necessário equalizar as condições de comparação, i.e. equalizar os valores relativos
à quantidade de combatentes e quantidade de recursos financeiros disponíveis para
o esforço de guerra. O experimento mental que estamos a tentar fazer aqui pode-se
formular da seguinte maneira: se disponibilizássemos exatamente o mesmo número
de homens e exatamente os mesmos recursos financeiros aos Aliados e ao Eixo,
quem é que seria militarmente mais competente?
Infelizmente este experimento nunca foi levado a cabo por nenhum historiador da
guerra ou antropólogo – na medida da minha investigação. Ainda assim é possível
encontrar alguns dados interessantes para dar uma resposta, ainda que insuficiente,
a esta questão. Sobre o desempenho militar italiano servir-me-ei do artigo de
Alexander Lopasic, “Italian Military Performance in the Second World War”, que
sumariza os fatores relevantes. Para o desempenho alemão, usarei o trabalho
quantitativo de Trevor N. Dupuy, num anexo em A Genius for War, e dois casos-de-
estudo onde são avaliados os soldados alemães contra os soviéticos e os americanos,
viz. Stalingrad 1942-43: German Soldier Vs. Soviet Soldier e Tunisia 1943: US Soldier
Vs. Afrikakorps Soldier.

Italianos

Entre a propaganda dos Aliados durante e após a guerra e o otimismo ideológico de


Evola, a verdade parece ser de que os italianos não foram uma força militar temível
(tirando a sua marinha de guerra)30. Entraram despreparados para a IIGM, com
unidades mecanizadas e aéreas desatualizadas e flagrantemente em desvantagem
em relação à tecnologia Aliada. A doutrina militar estava também ela desatualizada,
para ser preciso, estava mais adaptada para guerras coloniais e curtas – duas
condições que nunca se concretizaram na IIGM. Havia também falta de coordenação
entre o governo civil e a organização militar, e a liderança militar refletia mais o
sistema de favores de Mussolini do que propriamente competência na guerra. Para
finalizar, esta guerra e a aliança com o Partido Nacional-Socialista alemão nunca
colheram uma aprovação dominante entre as diversas classes sociais do país. Alguns
membros da liderança das forças armas estavam contra, o rei italiano Vítor Emanuel
III e os seus congéneres da nobreza italiana quase que ansiavam por uma vitória
Aliada, o povo não sentia qualquer irmandade com os alemães e não percebiam o
seu envolvimento na guerra, e, por fim, a Igreja Católica não suportava esta
imprudência política e o radicalismo político de Mussolini.

Evola cria de que o ▫fascismo estava a induzir a população da Itália unificada num
retorno à tradição (como já vimos), e que, ▫sendo os italianos «ario-romanos» e os
alemães «nórdico-arianos» (Metaphysics of War, p. 39), a irmandade ariana se ia
instalar entre estes dois povos. Quanto ao primeiro ponto, podemos encontrar
alguns dados históricos que podem explicar o que motivou Evola a pensar desta
forma, no entanto, o segundo ponto, foi puro otimismo ideológico, ou dito com
outras palavras, fé nas suas especulações filosóficas. Agora, antes de procedermos
ao desenvolvimento destes dois pontos, recordemos primeiro as previsões da sua
tese:

• A raça ariana é mais eficaz na guerra quando ou só sob influência do clero


ou só sob influência do espírito guerreiro.
• A raça ariana é menos eficaz na guerra quando sob a influência das castas
seculares e supressão cultural do espírito guerreiro.

30
Frank Joseph, Mussolini's War
O primeiro ponto acima pode ser tratado por intermédio destas duas previsões.
Comecemos com a primeira.

De facto, imediatamente antes da IIGM a Itália tinha travado uma luta explosiva
contra a Etiópia, a II Guerra Ítalo-Etíope (1935-36), conhecida por eles como “la
guerra dei sette mesi” (a guerra dos setes meses). Nessa guerra o país parecia que
se tinha unido para garantir o sucesso no esforço de guerra. Na verdade foi uma
guerra travada em condições duríssimas, quer a nível climatérico – pois o teatro de
guerra situava-se em território abrasador africano – quer a nível logístico – porque
suprir as necessidades de guerra dadas as condições geográficas entre os dois
territórios (italiano e etíope) era um trabalho quase inconcretizável –, e mesmo
assim os italianos saíram vitoriosos, em tempo recorde, contra um inimigo belicoso
e em superioridade numérica.31 Do ponto de vista de Evola – alguém que esteve
presente e participou nestes eventos – tudo parecia corroborar fortemente as suas
especulações. De facto, a sociedade italiana se unificou sob a bandeira da guerra, e
isto aconteceu por influência maioritária do Partido Fascista de Mussolini. Este tipo
de experiências parecem explicar o otimismo ideológico de Evola, no que concerne
as suas previsões para o desfecho da IIGM. Temos assim a primeira previsão
concretizada.

E quanto à segunda? Podemos encontrar um evento histórico que corrobore esta


previsão? Evola estava convencido que a IGM tinha sido travada sob condições de
supremacia cosmovisionária da burguesia, e que o insucesso das campanhas
italianas se explicava desta forma (Metaphysics of War, pp. 52-54). Novamente, o
autor estava justificado pela sua experiência. O Reino da Itália desde as Revoluções
de 1848 até 1922 (quatro anos depois do final da IGM) foi governado por auto-
professados liberais, adeptos da abordagem milliana de economia-política e da
política inglesa em geral – p.e. o próprio primeiro ministro (de 1887 a 1891)
Francesco Crispi ou o editor do jornal Il Risorgimento, Camillo Benso de Cavour,
também primeiro ministro de Itália em 1861. Os dois eventos, primeiro o fracasso
na IGM sob governos liberais, e segundo, o sucesso da Guerra Ítalo-Etíope sob
governo fascista, devem ter satisfeito Evola por completo; talvez se tenha sentido
uma espécie de oráculo ou profeta dos tempos modernos, e isto levou-o a especular
uma derrota esmagadora sobre os Aliados, mesmo estando eles em vantagem
numérica e de recursos.

No que concerne especificamente a vitória contra os etiópios, a tese de Evola


acomoda os factos pondo como fator explicativo plausível a expressão do espírito
guerreiro (relembrar os marcadores lógicos “ou só”). Foi o espírito guerreiro que
acordou o espírito ario-romano dos italianos, e face a isto, seria de esperar que a
IIGM fizesse o mesmo, mas não fez como já vimos. Parece então que as incoerências
teóricas de Evola levaram a más explicações e más previsões. Então e o que dizer da
minha versão revisada de Evola? Relembremos:

31
Aristotle Kallis, Fascist Ideology, pp. 73-75
• A raça ariana é mais eficaz na guerra quando sob a supremacia
cosmovisionária do clero.
• A raça ariana é menos eficaz na guerra quando sob a supremacia
cosmovisionária das castas seculares.

Esta versão acomoda melhor os factos. A IGM não teve o apoio da Igreja de Roma, a
Guerra Ítalo-Etíope teve, e a IIGM voltou a não ter. Por sua vez mais nenhuma classe
parece contrariar o poder de influência da Igreja. A IGM foi apoiada tanto pelo Rei
Emanuel como pelo povo italiano, e mesmo assim foi um desastre, as perdas
humanas das tropas italianas foram traumáticas, as dívidas e dispêndios de guerra
levaram o país a entrar em recessão, e as promessas de concessão de territórios aos
negociadores italianos, por troca de participação militar, não foram concretizadas
no pós-guerra. Parece que nos três casos (IGM, Guerra Ítalo-Etíope, IIGM) sempre
que a Igreja favorece uma guerra o resto da sociedade vai atrás e obtém-se uma
vitória, caso contrário, mesmo que haja suporte de castas seculares, na ausência da
bênção da Igreja o insucesso será o desfecho a esperar.

Em argumentação científica, apenas três casos não seriam suficientes para


evidenciar empiricamente uma hipótese. Digo isto para que o leitor não pense que
estou a fazer uma defesa científica da tese de Evola, estou apenas a fazer algumas
apreciações, sob critérios de metodologia científica sim, mas apenas para averiguar
a capacidade explicativa da proposta de Evola numa versão revisada mais coerente.
E o que pudemos constatar até agora é que, basta fazer pequenos acertos
conceituais, para que as previsões sejam para mais ou para menos acomodativas dos
factos. Ao mesmo tempo, estas apreciações ajudam a perceber porque é que teses
da mesma qualidade filosófica que a de Evola tendem a colher tantos seguidores. De
facto, estas propostas são capazes de acomodar alguns factos; apenas quando são
submetidas a um maior rigor científico é que sua insuficiência fica clara – como
vimos na discussão inicial sobre a proposta de Hobbes ou a especulação de Evola
sobre a hierarquia tripartida como parte da natureza humana. Mas antes de
passarmos a explicações alternativas para sucessos e insucessos militares, vejamos
o caso alemão primeiro.

Alemães

As tropas alemãs desde o final da IIGM têm sido caricaturadas pelos meios de
comunicação dominantes, seja na televisão, cinema ou literatura, como um grupo de
autómatos pouco inteligentes e que seguem ordens sem qualquer tipo de sentido
crítico ou aplicação criativa das mesmas em campo de batalha. São ilustradas com
atiradores que falham recorrentemente os seus alvos, incapazes de planear uma
sequencia de movimentos táticos capazes de produzir uma vitória e estéreis de
quaisquer sentimentos e coragem. Isto não podia estar mais longe da verdade.
Porém, a realidade da eficácia e bravura das tropas alemãs nunca pode ser recontada
em mais lugar algum que não seja em círculos académicos ou de entusiastas da
história da guerra. Aqui é pertinente introduzir o trabalho quantitativo de Dupuy via
uma citação sua, diretamente extraída do trabalho acima indicado:

A extensão da citação permite-me não ter de acrescentar mais nada ao argumento.


Ao contrário dos italianos, os alemães tinham uma máquina de guerra bem oleada
capaz de lidar com todos os cenários de combate que se avizinhassem. E aqui a
metáfora da máquina talvez seja insuficiente. É inegável, face aos dados, o enorme
nível de racionalização da logística militar alemã, mas ainda havia muito espaço na
doutrina para encarar a guerra como uma arte e um esforço vindo do coração, não
apenas um fenómeno estritamente científico. Cito extensivamente um outro autor
sobre esta matéria:32

32
Ben H. Shepperd, Hitler’s Soldiers
[…]

Esta perfeita harmonia entre ▫razão (logística e organização militar), ▫criatividade


prática (que se traduzia na concessão de alguma autonomia a cada oficial e soldado
alemão), ▫um sistema de valores assimilados no weltanschauung nacional-
socialista e promovidos por instituições nacionais, ▫suporte e entrega afetiva da
maioria da população alemã e ▫sistemas educacionais que visavam promover
irmandade entre os rapazes (prospetos futuros soldados), foi o que levou a
Alemanha à sua excelência militar.

Os dois casos-de-estudo mencionados acima são exemplos perfeitos desta realidade.


Nas duas citações, ambos os autores mencionam a Frente de Leste como
especialmente problemática e sofredora para os alemães. Eles estão-se a referir
particularmente à resistência que a União Soviética começou a oferecer em anos
mais tardios, nomeadamente a disputa por Estalinegrado. À entrada dos alemães
nesta cidade soviética os dois primeiros anos foram compostos de várias pequenas
vitórias táticas – as suficientes para compensar alguns sucessos soviéticos. O
problema dos alemães foi de que os generais soviéticos estavam a aprender
depressa, assim como os seus soldados, e estavam a ficar particularmente profícuos
no combate urbano – resultado da experiência em Estalinegrado. Além disso, com
os sucessivos bombardeamentos ingleses a ocorrerem em território francês e
alemão, as linhas de abastecimento às tropas de Estalinegrado foram cortadas, e os
soldados alemães acabaram, maioritariamente, por serem derrotados por exaustão
e ausência de equipamento militar (como explosivos, munições, armas, tanques, até
mesmo fitas adesivas e rastilhos para preparar engenhos explosivos improvisados)
e rações militares. Alguns renderam-se aos soviéticos, mas outros combateram até
à sua morte.33

Um problema semelhante ocorreu na campanha do Norte de África, mas com um


ingrediente adicional. As tropas estacionadas neste território eram mistas,
querendo isto dizer que eram compostas de italianos e alemães. Havia não só um
grande diferencial entre os soldados das duas nações – onde os alemães eram bem
mais proficientes – como também haviam divergências entre as figuras de comando
e doutrinas militares entre as partes. A doutrina militar alemã concedia bastante
espaço de decisão em todas as camadas hierárquicas das forças armadas; só assim
podiam imprimir velocidade e agilidade das tropas no terreno. Já os italianos
estavam mais preocupados em garantir autonomia de decisão apenas a um centro
de comando, algo que abrandava os ciclos de decisão e por consequência a
progressão de tropas no terreno – era mais importante preservar a autoridade do
centro de decisão do que ser eficaz em combate. Assim os italianos eram
constantemente um cravo nas botas alemãs e uma complicação adicional aos
problemas de logística característicos de quem está a combater longe do centro de
recursos, por si já muito no limite das capacidades de abastecimento e envio de
reforços.34

Como se pode explicar esta diferença entre as duas nações arianas do Eixo, por meio
de um enquadramento evoliano? Pela versão genuína de Evola não se consegue
perceber.35 Ambas as nações lançaram os seus soldados arianos para a guerra, e
ambas as nações promoviam a guerra como uma forma elevada de expressão de
virilidade. Seria de esperar que o espírito guerreiro despertasse com a mesma
intensidade em ambos os casos; coisa que não aconteceu. Porém, se nos servirmos
da versão atualizada, com esta já é detetável uma diferença relevante. Enquanto que
os fascistas não davam grande importância ao plano do divino ou do transcendente,
os nacional-socialistas alemães levavam isso em conta desde o início.

Já vimos que na IIGM os italianos não contaram com o apoio da Igreja de Roma, e
mesmo vasculhando os escritos de Giovanni Gentile (já mencionado na secção
“Metafísica da Guerra”) como p.e. A Base Filosófica do Fascismo, parece não haver
um papel especial para o transcendente. Gentile (numa tradução para o inglês)
chega a dizer coisas como: «this State of the Fascists which is created by the
consciousness and the will of the citizen, […] is not a force descending on the citizen
from above or from without», ou «The nationalistic State was, therefore, an

33
Chris McNab, Stalingrad 1942-43, pp.76-77
34
David Campbell, Tunisia 1943, p. 5
35
Voltar atrás no texto se for necessário para recordar as diferentes previsões entre a versão de Evola e
a minha versão atualizada.
aristocratic State, enforcing itself upon the masses through the power conferred
upon it by its origins. The Fascist State, on the contrary, is a people's state, and, as
such, the democratic State par excellence. The relationship between State and
citizen (not this or that citizen, but all citizens) is accordingly so intimate that the
State exists only as, and in so far as, the citizen causes it to exist.»36

Gentile, braço direito intelectual de Mussolini, nega assim por completo o


tradicionalismo de Evola – tradicionalismo que Gentile acusava estar por detrás da
fase nacionalista do Estado. Na verdade, fascismo está mais próximo da última fase
de degeneração estipulada por Evola que as próprias repúblicas capitalistas que
condenava. Esta conceção do fascismo não é estranha se se levar em conta que
Gentile era um investigador dedicado de Karl Marx. Parece assim que Evola, não só
montou uma tese filosófica internamente incoerente, como também se deixou levar
por conclusões precipitadas da sua experiência com os eventos italianos, e não
compreendeu adequadamente os axiomas do fascismo como teoria política e
weltanschauung. Com todas estas falhas cognitivas é expectável que as suas
previsões falhassem. Mas ainda falta dizer algo sobre o que diferencia o nacional-
socialismo e os nacional-socialistas das suas contrapartes italianas.

O nacional-socialismo como weltanschauung punha o centro da vida humana no


espírito, ou por outras palavras, naquilo que não se vê mas do qual tudo o que é
visível depende. Em concreto, à semelhança das declamações místicas de Evola, o
povo alemão tem uma ligação espiritual, não só entre os membros atuais, mas
também com todos os antepassados arianos – uma visão presente em religiões pagãs
germânicas, p.e. de que em situações de apuros podemos invocar os antepassados
para nos auxiliarem com forças adicionais. Por sua vez, o intermediário por
excelência entre estas duas esferas é o Estado; a liderança encarregue do Estado tem
de se assegurar que as portas entre estes dois mundos não se fecham. Estas crenças
esotéricas codificadas no pensamento nacional-socialista não são estranhas se se
levar em conta as pessoas responsáveis pela sua articulação e os fundadores do
próprio partido. Incluindo o próprio Hitler, eram pessoas conhecidas por
participarem em exercícios de necromancia e invocação de entidades espirituais.
Estas crenças refletiram-se nas próprias atividades do governo, p.e. os rituais de
iniciação das SS (schutzstaffel ou esquadrão de proteção).37

Reconhecendo a importância da esfera espiritual, um dos primeiros passos do


regime foi influenciar a religião dominante – e assim apareceu o Cristianismo
Positivista38 – e eliminar minorias religiosas que não dessem aval ao governo, como
testemunhas de Jeová ou metodistas. Mas foram bem mais além que isto. Podemos

36
Ensaio compilado na antologia Readings on Fascism and National Socialism.
37
Nicholas G. Clarke, The Occult Roots of Nazism, p. 177.
38
Uma reinterpretação da religião cristã que nega as suas origens judaicas e substitui-as por arianos.
Como se a religião cristã tivesse sido roubada aos arianos por judeus maquiavélicos.
falar ainda da Ariosofia, a ciência que procurava reconstruir e recuperar a sabedoria,
religião, propósito e história da raça ariana. Neste corpo de estudos, o
weltanschauung nacional-socialista reunia todos os elementos necessários,
nomeadamente uma história das origens e progresso da raça ariana ao longo do
tempo – os herdeiros dos hiperbóreos; uma raça de seres humanos magníficos que
viviam na região do Polo Norte.39 A versão atualizada da tese de Evola e suas
previsões, desta forma, acomodam melhor os dados históricos. Ao conceder
exclusividade de capacidade de desperto espiritual à casta clerical, e tirar qualquer
autonomia ao aspeto guerreiro do espírito ariano, a tese atualizada tanto dá conta
do sucesso italiano na Guerra Ítalo-Etíope e seus insucessos na I e IIGM, como do
sucesso alemão na IIGM – aqui claro, estou a usar “sucesso” como obtenção de
eficácia e excelência militar e não vitória decisiva sobre os adversários.

Antropologia Evolutiva, Guerra e a Religião

Na secção “Tema” já foram adereçados alguns aspetos da guerra, nomeadamente as


rootcauses do fenómeno. Nesta secção, porém, o que interessa é perceber qual é o
papel da religião na guerra, ou posto de forma mais detalhada, que vantagens
competitivas a religião oferece a um certo grupo por comparação com outro que não
a tenha ou pelo menos que não a leve tão a sério – porque é que grupos mais
intensamente religiosos num certo número de casos são mais marcialmente
competentes? Vimos que os alemães foram de longe os mais eficazes e brilhantes
marcialmente. Vimos também que a tese modificada de Evola acomodava melhor
estes factos; acomodava melhor porque põe a casta clerical como a exclusiva
despertadora do espírito ariano (e por necessidade do espírito guerreiro), uma vez
na posse da supremacia cosmovisionária.

Uma linha de investigação em antropologia evolutiva, em poucas palavras, está num


processo de corroboração, ajuste e refinamento da hipótese de que a religião tem
uma função de incremento de coesão intragrupo. Em concreto, religião é o sistema
de crenças e rituais pelo qual os membros de um certo grupo social maximizam a
partilha de projetos de vida, sensibilidades morais e estéticas, posicionamento
histórico e leis ou máximas de conduta. Quanto maior a coesão de grupo maior é a
coordenação de esforços e colaboração no esforço de guerra. E com que mecanismos
a religião incrementa a coesão do grupo? Para responder a esta pergunta, vamos
situá-la primeiro no contexto certo. Como vimos acima, grupos humanos se
digladiaram entre si por consequência do choque de interesses mútuos dos
membros de cada lado do conflito. Nesta competição os grupos menos marcialmente
competentes perecerão, restam assim aqueles que melhor se dedicaram ao esforço
de guerra. O esforço de guerra, por seu turno, exige uma série de competências aos
seus membros: i) capacidade de gerar coordenação de equipa entre os combatentes

39
Nicholas G. Clarke, The Occult Roots of Nazism, p. 20-21.
(maioritariamente homens), ii) disponibilidade para sacrifício individual em nome
do grupo, iii) uma divisão de trabalhos que permita certos membros se dedicarem a
funções especializadas (como desenvolvimento de novos engenhos, neste caso,
instrumentos de guerra, ou coisas mais básicas como engenhos agrícolas, coisa que
influencia o grau de robustez física do grupo e desenvolvimento intelectual) e iv)
uma estratégia sexual que permita reposição e ampliação demográfica do grupo
(que permita exercer superioridade numérica sobre grupos adversários).

Estes são apenas alguns dos requisitos que, se realizados num grau superior ao
adversário, aumentariam as probabilidades de superação. Ao mesmo tempo, os
sistemas de crenças, rituais e costumes dos grupos vencedores foram sendo
preservados com eles. O que se tem vindo a constatar em antropologia evolutiva é
que estes sistemas não são meros resíduos culturais que sobreviveram à competição
intergrupo, mas sim os próprios fenómenos de grupo que explicam o grau de coesão
necessário para um grupo superar outro. E agora sim passemos aos mecanismos, i.e.
a resposta ao como é que a religião favorece um grupo social na competição
intergrupo.

Em primeiro lugar as religiões contribuem para mitigar a competição intragrupo –


diminuindo disputas interpessoais abre-se espaço para criar relações de
cooperação. Isto acontece por meio de normas ou critérios legais que servem para
resolver disputas, mas também providenciar oportunidade sexual aos machos assim
como garantir a segurança da sua prole (um objeto de tensão constante entre
machos de um mesmo grupo) – surgem assim as normas de conduta sexual.
Segundo, os rituais religiosos, muitos deles penosos (a diversos níveis de
sofrimento), servem para induzir os membros de um grupo em sentimentos de
irmandade e dependência – rituais que depois podem ser decalcados sobre
dinâmicas de honra e prestígio.

Terceiro, estes rituais não servem para coalizar os membros de um grupo via
sentimentos e crenças mundanos, mas antes conectam os membros via uma
ontologia sobrenatural, e é sobre esta que os sentimentos são despertados e
expressados em ação no mundo. Deuses sempre vigilantes, de poder
incomensurável, criadores do universo e assim por diante são autoridades mais
eficazes ao policiamento moral que autoridades humanas. Por sua vez, a crença
numa outra vida após morte terrena ou a crença de que antepassados contribuíram
com as suas forças em momentos de apuros, são uma mais valia motivacional na
superação de tribulações muito árduas. Por fim, quarto, a religião providência um
sentido de corretude ao grupo, i.e. a sensação de que o grupo é o que está certo,
aquele que colhe para si autoridade normativa. Nesta base, os grupos que se
assemelham também estão “corretos” e são bem-vindos a conviver ou a estabelecer
relações económicas; os grupos que divergem estão “errados” e a sua mera presença
é repugnante, especialmente aos deuses. Este tipo de certeza normativa evita
pensamentos nos membros que podem levar à quebra da coesão, em concreto,
dúvidas sobre a legitimidade dos seus atos ou a credibilidade cognitiva das suas
crenças.40

Considerações Conclusivas

Esta explicação científica, conjuntamente com outras críticas feitas na secção “A


Tese de Evola”, sob a navalha de Ockham, elimina todos os conceitos pilares da tese
de Evola:

• Dualismo (material-espiritual)
-- Não é preciso postular um domínio espiritual. O fenómeno em causa pode
ser acomodado num enquadramento meramente sensorial (coisas que se
tocam, veem, medem, manipulam, etc).
• Realismo Valorativo (factos normativos/valorativos)
-- Não é preciso postular factos valorativos. Não se percebe como o valor
objetivo das coisas poderá afetar causalmente essas mesmas coisas. Nunca
nenhum filósofo descreveu um mecanismo pelo qual isto acontece, sendo
assim parece que o valor das coisas é mais uma disposição individual do
organismo sobre os diversos objetos ou relações entre objetos em
apreciação.
• Hierarquia Tetrapartida (clero, nobreza guerreira, burguesia, serviçais)
-- Já vimos que a hierarquia tetrapartida é uma adaptação de grupos
humanos sujeita à combinação de vários fatores. Não é, sendo assim, algo
essencial ou uma parte inescapável da natureza humana.
• Supremacia Cosmoviosionária (capacidade de uma casta determinar por
completo a cosmovisão de uma sociedade).
-- Este é um conceito muito difícil de operacionalizar, i.e. passar de um
entendimento opaco em papel para uma checklist de condições empíricas a
confirmar por coleta de dados no mundo. Em concreto é muito difícil
determinar a extensão da influência de uma certa casta sobre as outras no
que concerne a formação de crenças sobre o mundo. Por outro lado, dado as
limitações históricas e geográficas do conceito anterior, a Supremacia
Cosmovisionária acaba por ser irrelevante para fenómenos modernos, em
especial os da IIGM. Sendo assim, é dispensado com os outros.
• Espírito Ariano (a contraparte espiritual da raça biológica ariana)
-- Não há qualquer tipo de evidência que sugira a existência de tal coisa, ainda
para mais sendo uma contraparte espiritual de um grupo biológico de
espécimes humanos chamado de arianos. Mesmo que mudemos a

40
Para uma exposição mais desenvolvida destes mecanismos consultar “The Evolution of Religion: How
Cognitive By-Products, Adaptive Learning Heuristics, Ritual Displays, and Group Competition Generate
Deep Commitments to Prosocial Religions” de Scott Atran e Joe Henrich.
nomenclatura para caucasianos, existem imensas subclasses chamadas de
haplogrupos que diferenciam diversos grupos caucasianos entre si. Sendo
assim este conceito não é mais que uma reificação precipitada.
• Espírito Guerreiro (o elemento do espírito ariano mais causalmente
relevante para a expressão da (chamemos) arianidade).
-- Ipsis verbis do conceito anterior.

Podemos constatar, assim, como é possível arquitetar uma estrutura teórica,


expressa por uma série de expressões linguísticas densas e intricadas (os textos de
Evola), capaz de transmitir a aparência de explicar os fenómenos acessíveis ao
testemunho sensorial. É esta aparência que sugere a substantividade da construção,
i.e. promove a inferência “como acomoda tão bem os factos então tem de ser real”, e
precipita aqueles que a aceitam (que a assimilam no seu sistema de crenças) numa
reificação da mesma. Conclui-se, deste modo, que embora a tese de Evola seja muito
rica em artifícios teóricos e respetiva articulação linguística capazes de
impressionar e atrair pessoas com um certo tipo de disposição cognitiva, sofre de
uma enorme vacuidade de conteúdo, ou dito de outra forma, é uma tese montada
por meio de conceitos vazios, i.e. conceitos que estabelecem condições (ainda que
vagas) para receber conteúdo mas essas condições nunca são satisfeitas.41

41
P.e. o conceito de Gambuzino. Este conceito ainda que seja usado em contextos nos quais pode ser
preenchido com algum tipo de animal a ser caçado (“vamos apanhar gambuzinos”), este conceito nunca
satisfaz nenhuma condição existencial. O mesmo pode ser dito p.e. do conceito de Patriarcado usado
tantas vezes pelas feministas. Pelo contexto de enunciação, muitas vezes o conceito parece ser usado
para agrupar um conjunto de características sobre um grupo social constituído exclusivamente por
homens (depois há variantes que acrescentam que esses homens têm de ser caucasianos) capaz de
exercer poder e, usando um conceito de Evola, supremacia cosmovisionária sobre aqueles que são
oprimidos. Porém este conceito nunca foi operacionalizado a fim de se poder identificar tal coisa no
mundo, logo é um conceito vazio.
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