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O Presente de Luna.

Um conto de Ibimanuara

Conto Originalmente publicado no instagram como ação promocional do livro Herdeiros de Luna: Carietá.

Autoria: Elisabeth Sousa. 2020.


Luna nasceu entre fadas da floresta-pulmão. Sua tribo dividia um território sagrado com
as fadas dos manjares, as fadas de água-doce e as que podiam controlar o clima. Era
uma existência harmônica e divertida, até.
Muito territoriais e caseiras, pouco participavam do mundo: as histórias do exterior lhes
eram trazidas por tribos de faunos e fados na época do Festival do Amor, quando
recebiam visitação.
Embora lhes agradasse em muito a gentileza que faziam para agradá-las, todas elas
sabiam que eram apenas estórias: uma parcela ínfima e muito bem ensaiada da
realidade. Na verdade, até o dito fato de que as fadas da Floresta-Pulmão eram territoriais
e caseiras era uma história contada por outros, para abafar o fato dessas tão nobres e
gentis criaturas não estarem autorizadas a frequentar ambientes de discussões e eventos
importantes fora de seu lugar. Muito menos candidatar-se aos cargos de liderança e
representatividade no Oásis.
Foi quando, em grande comoção, elas se reuniram e pediram para o ser divino, aquele
que formatara a luz e dera aos Quaus poder acima dos Nulos, lhes agraciassem com a
honra de que dentre suas meninas estivesse aquela que ocuparia o cargo de Oráculo no
Triis.
***
Em um verão muito quente, úmido e esverdeado, acometeu-se uma grande fome nas
províncias dos Oásis, levando a desolação ao povo de Ibimanuara: a cidade da
transformação e do conhecimento. Onde o esquecido fora achado.
Então, pela primeira vez em muitos anos foram os homens à floresta pedir
aconselhamento às fadas em como salvar o povo daquela o da tragédia eminente.
Em alguns dias, as fadas resolveram o que Ibimanuara levara anos para destruir e,
durante dois anos, as fadas doaram seu tempo e magia para fazer florescer a vida e
restaurar o equilíbrio. Enfim elas eram tratadas com respeito e honra que mereciam.
Agradecidos, algumas casas deram roupas e vestes cozidas à mão. Alguns anciões
voluntariaram suas posições para que fadas anciãs assumissem pontos de instrução e
continuassem com o legado de cura e fartura que elas criaram.
Ao final dos dois anos, grande parte da tribo voltou para a floresta, restando algumas na
cidade entretanto. Fadas dos Manjares mais despojadas e aventureiras decidiram
aumentar seu repertório de sabores e texturas viajando pelos mundos de Quaus, Nulos e
além Terra. Outras decidiram fazer dos seus dons e talentos base para negócios de
alimentação para toda sorte de criaturas. Fadas das águas elegeram pedaços de rio,
lagos e lagoas para cuidar, enquanto que Fadas do Clima assumiram postos de combate
e defesa, protegendo os limites da sua própria terra e imediações do Instituto.
Na mesma época, souberam que nos países distantes do velho mundo travaram batalhas
em ambos os níveis os do Quau e dos Nulos. Rumores de que os efeitos logo chegariam
às Américas assustaram os pacatos habitantes. Principalmente com a descrição soturna
dos principais vilões e responsáveis por essa tragédia.
E como, desta vez, foram os vaga-lumes que trouxeram a notícia, perceberam que não
era lorota, nem exagero. As pessoas e criaturas começaram a desesperar-se. Nem bem
tinham restaurado a paz e fatura e já teriam que preparar-se para uma possível invasão.
Ao menos em tempos de guerra as respostas tendem a ser o mais urgentes possíveis.
Criaturas pacificas e frágeis criaram fortalezas sob a terra e levaram as crianças consigo.
As pacificas e fortes adaptaram dons e atividades para melhor acolher a utilidade que
fosse salvar a todos naquele momento. As fortes e de espírito guerreiro poderiam
finalmente guiar-se por seus instintos de maneira satisfatória para todos.
As fadas da floresta começaram a temer. Receberam vagalumes de cada avisando-lhes
que talvez fosse melhor voltar, o mais rápido possível. Elas não poderiam. Primeiro
porquê, já estavam tão inseridas no contexto que Ibimanuara era sua casa e, segundo,
fizeram uma promessa. Promessa de fada tem muito valor e quase nunca é quebrada.
Olharam para Luna, os olhos faiscantes de sabedoria e gentileza e souberam o que
precisava ser feito. Chegara, finalmente, a hora de participar da tomada de decisões.
As reuniões de planejamento ficavam mais inflamadas a medida que chegavam novas
informações de que o perigo ameaçava os limites de Ibimanuara. Vários assentamentos
de Nulos dizimadas e aglomerações de Quau praticamente destruídas. Os Nulos
começaram a temer quem carregava qualquer tipo de poder de fogo e, até começaram a
apelar para praticantes mercenários de magia escusas.
Era difícil para as fadas, dentro de sua enorme empatia e sensibilidade saber de tudo e
estarem sentadas tentando montar uma estratégia, por um lado, enquanto eram cortadas
e interrompidas, sem qualquer menção de respeito a qualquer tentativa de expressão. Era
incrível como tudo o que fizeram há tão pouco tempo fosse esquecido e estavam sendo
tratadas como se estivessem somente ocupando um lugar que não lhes pertencia
atrapalhando somente, o andamento das discussões.
Para as fadas dos manjares, era ainda mais difícil aguentar os insultos, embora fossem
ótimas predizes e rapidamente souberam como colocar as cartas na mesa e expor suas
ideias para quem as coordenava: a mais sensata das fadas.
“Nem sabem do que falam!” Acusou um feio lobisomem. Levantando-se de supetão, bateu
as patas peludas na mesa de forma que suas garras ficassem expostas. “Essas fadas
nem deveriam estar aqui. Voltem para a cozinha, preparar o que melhor sabem fazer!”.
Sua resposta foi uma comoção de gritos e vozes exaltadas, daqueles que concordavam.
Já as fadas, nada confortáveis com tamanha falta de educação e grosseria encolheram-
se diante do vozeirão cheio de raiva e preconceito.
O Excelentíssimo reitor do Triis, também presente e mediador, pediu calma à balburdia
que formou-se em seguida, percebendo que nem seus poderes e títulos concedidos
seriam capazes de amansar o ânimo de criaturas mágicas tão furiosas. Mesmo com o
pedido, a batalha de palavras ferinas e chuva de insultos transformou-se em tempestade
de raios, maldições de efeito repentino e imediato e umas muitas puxadas de tapete.
Raízes de árvores atravessaram as paredes e piso, se infiltraram pelas janelas
percorrendo o perímetro da sala, subiram nas cadeiras e mesas agarrando pulsos,
tapando bocas e retendo comportamentos incoerentes.
“Já basta desta insanidade!” A voz era macia, a figura elegante e o rosto calmo e doce.
Luna, a fada-mor da tribo das fadas reconheceu a hora de agir, embora sua natureza
pacifica lhe dissesse que não.

Quando, finalmente, conseguiu a atenção respeitosa de que precisava, Luna, gentilmente,


recolheu suas raízes. Elas espalharam-se e enrolaram-se em seus reféns de tal forma
que começavam a sufocá-los. Uma fada mais baixa de aparência simplória e comum, seu
braço direito, tomou a palavra:
“Por longos cinquenta anos permanecemos na floresta, no local sagrado atrelados às
fadas, assim como nos foi proposto na secção de 1580. Recebemos visitas ocasionais de
vocês, seres dos Oásis, para que fornecermos materiais, conselhos e novas
aprendizagens e, em troca, nos mantiveram informados sobre a vida fora de nossas
bolhas. Com a versão de vocês. Nunca, por nenhuma razão, fomos consultadas sobre
assuntos que interfeririam na vida de todos. Nunca participamos ou fomos convidadas
para algum evento ou negociação, até agora”
As criaturas que compunham a mesa de discussão pareciam pouco impressionados com
a fala, muitas delas mordendo os lábios de vontade de interrompê-la. O resto das fadas,
em contra partida, olhavam-na com admiração e temor, pois fora ela a escolhida para ser
a voz de todo um grupo. Com um olhar de esguelha, a porta-voz pediu a aprovação a
Luna, a fada mor, aquela que carregava o poder de três tribos. Ela respondeu com um
leve aceno de cabeça quase imperceptível para os outros.
“Sim, é verdade. Estivemos por muito tempo em falta com vocês” Interpolou o reitor.
“Embora, não creia que estejam aqui para cobrar reparação sobre o tempo perdido. Vocês
sabem de algo… Não sabem?” A sua voz enfatizava a última frase e estava direcionada à
Luna.
Luna baixou os olhos em resposta, enquanto seu braço-direito vociferou, mais segura do
seu papel: “Por que após uma temporada de doação interina, com aparente gratidão
oferecida de sua parte, precisamos praticamente invadir este lugar para que nos
escutassem?”
Os ruídos e rumores da batalha pareciam cada vez mais próximos. O número de
vagalumes carregando mensagens pareceu duplicar somente naqueles minutos de
discussão vazia.
“Não nos entenda mal. Estamos enormemente agradecidos e honrados com a presença
de vocês neste domínio.” O reitor parecia muito esforçado para redimir a ingratidão já
exposta. Ao mesmo tempo, exibia uma frustração e receio estampado em seu rosto.
“Estamos prontos para ouvir suas razões e as propostas que nos trouxeram.”
Inflexionando a voz, direcionada ao lobisomem ele enfatizou “Ninguém irá interrompê-las
desta vez”.
“Desde que foi anunciado que o Oásis preparava-se para uma guerra, ficamos expostas e
confusas. Nossas irmãs, que voltaram para a floresta, temem quem aqui ficou e nós, que
aqui nos enraizamos, tememos por ela sem Luna. O lugar, que ainda é sagrado, não é
mais capaz de oferecer proteção total às nossas irmãs. Luna, entretanto, não poderia
deixar a cidade até que todas nós, e Ibimanuara, esteja fora de perigo. Então, estamos
propondo um arranjo. Que todas as fadas estejam em segurança e que venham todas
para cá, refugiadas com as outras criaturas, e o lugar seja protegido por Luna e sua
atenção indivisível.”
“Então, as poderosas fadas tão autossuficientes precisam da nossa ajuda?...” O resto do
grupo ignorou o lobisomem mais uma vez, seguindo as instruções lançadas pelo olhar de
fúria do Reitor para o intrometido.
“Estamos a par da proteção que Luna verte sobre a casa e o território de vocês.” O reitor
emendou, com agilidade “Conte-nos qual a mudança influenciou na construção dessa
necessidade. Entendemos que, aqui teriam dupla responsabilidade e que mais fácil seria
abandonar Ibimanuara e refugiar-se com om restante da tribo.”
As fadas concordavam com o reitor. Algumas pareceram ressentidas. O braço direito
recusou-se a falar. Sob o silêncio sepulcral que afligia o grupo, o vazio só não era
completo pela invasão cada vez mais constante de vagalumes mensageiros. Luna
finalmente resolveu expressar-se:
“O meu status mudou.” A fala dela era grave e solene “A terra ofereceu-me uma honra.
Uma honra inexprimível e, em troca, exigiu que eu ajudasse Ibimanuara e abdicasse da
agressividade para sempre. Embora tenha poderes para proteger os territórios
inteiramente, caso necessário, estaria impedida de qualquer ato em qualquer contexto
que a raiva esteja inserida. As consequências para a quebra deste voto seriam terríveis
para todos. Eu poderia verter algo que protegesse Ibimanuara ficando aqui, mas o lugar
das fadas ficaria vulnerável. E caso pensasse como vós e abandonasse a cidade, nada
restaria. Nem pedra sobre pedra.”
O reitor não parecia convencido sobre esta ser a real razão. Ao menos, não
integralmente. E Luna expondo que acreditava que Ibimanuara talvez não sobrevivesse
sem o que desejava oferecer-lhes aumentava as dúvidas sobre as fadas não estarem
contado tudo o que sabiam. Ademais, somente o Oráculo poderia dar aquele tipo de aviso
e o último Oraculo tinha morrido a algum tempo. Apesar disso, manteve a polidez e
descrição: aquelas eram considerações por demasiado aquém aos tópicos em discussão.
O lobisomem, por outro lado, soltou um som alto e gutural que pegara todos de
surpresa…
“Acho que deveríamos recusar este tal presente, essa ajuda, que diz que pode oferecer
em troca de aceitar todas as tribos de fadas e faunos em nosso território durante uma
guerra… Por que aceitaríamos essa dor de cabeça se, temos jovens Quaus talentosos
nesse Instituto prontos para a prática sem supervisão e famintos por praticarem o que
apreenderam sem reservas? Temos criaturas poderosas e de todos os cantos
amontoados nesta única sala e formados por todas as nuances de magia já existentes.
Antes se voltassem ao seu lugar e…”
Luna inspirou fundo e reagiu, com uma calma muito bem trabalhada.
“Sim, é a verdade. O que expõe é a mais pura verdade.”
Pela primeira vez, um pássaro colorido resolveu se pronunciar:
“Esqueceram que são das fadas e de sua descendência a fonte de poder de toda a
Ibimanuara. São elas quem protegem as ninfas e caiporas. São a elas que os boitatás e
botos devem obediência e por tanto permitiram que aqui ficássemos. Estão anulando
anos de história e se elas cessarem de existir, criaremos um desiquilíbrio ainda maior do
que causaram à terra. É para cá que os Quaus jovens ainda vêm para alcançar a
maturidade. O que se tornariam se os deixássemos a mercê de Nulos sem caráter e
cheios de ambição?”
Luna sorriu e afagou o amigo, já bastante exaltado:
“Obrigado, meu amigo. Ele tem razão. E esse é bem parte o motivo de oferecer esse…”
Luna mudou o tom das palavras: “Pedir essa ajudar”
Luna encostou-se na mesa, mãos na bancada, como se esperasse não desabar.
“Estou disposta a abdicar de uma pequena parte do meu poder. Uma parte significativa
dele para um portador a quem caberá proteger o Oásis, Ibimanuara e as criaturas que
nele habitam.”

“E por que não escolher dentre as fadas para este trabalho?” Replicou o reitor a meia voz.

A fada que era braco direito de Luna levantou-se e interveio: “Cada uma de nós já possui
grande poder que é compatível com as estruturas pessoais de cada uma.”
Luna então completou: “Nenhuma delas conseguiria carregar o peso ao qual estou
destinada mas, conhecendo vocês, acredito que serão capazes de escolher dentre seus
jovens talentosos, alguém cujo coração seja tão bom e puro e cujo talento imensurável
seja capaz de carregar as dores que com isso terá.”

O lobisomem encarou a fada mor languidamente por alguns minutos, com um brilho
estranho em sua expressão. Luna enfatizou: “Desde que não seja nenhum desta mesa.”

O reitor passou a mão pelo pescoço ajeitando parte da camisa.


“O que nos pede é tão generoso, quanto perigoso. Escolher um humano, mesmo que
descendente de Quaus, para carregar o poder das fadas em si é…”

O lobisomem, sete sacis e um boto responderam em uníssono: “RIDÍCULO!”


O reitor fez uma menção com as mãos e completou com suas palavras, em tom mais
brando e polido, o que realmente pensava. “Inadequado. Duvido que exista tal pessoa,
quem dirá, ser capaz de carregar dentro de si…”
Luna deu um sorriso e colocando a mão sobre o ventre forçou a mão atravessar a pele.
Algumas criaturas guincharam e gemeram diante da imprevisibilidade daquela ação. O
som do corte e da procura que ela fazia era insuportável, apesar de não haver sangue,
somente luz. Parecia um movimento doloroso, porém Luna continuava serena. Foram
segundos agonizantes para quem assistia até que, de sua barriga, saísse uma pedra.
“Um artefato!” O reitor exclamou, visivelmente entusiasmado, parecendo compreender. A
pedra era pequena e esférica. O material era muito semelhante a uma rocha
popularmente conhecida como Pedra da Lua. Ou assim os tatus a chamaram.
“Eu prefiro que a chame de Carietá.” Luna defendeu sua criação usando palavras de seu
idioma natal. O lobisomem acenou, calado, olhos arregalados, ofertando o seu recém-
adquirido respeito pela fada.
A reunião não tinha terminado. Haveriam muitos pormenores a discutir, já que existiam
algumas regras para o correto uso de Carietá e, a medida que mais vagalumes entravam
na sala com cores de alarme, percebiam não possuir tempo para perder.
Na manha seguinte, Luna voltou para o território sagrada e à tarde, toda comunidade de
fadas refugiou-se nos muros do Instituto com os alunos mais novos. A pedra foi entregue
para um ourives experiente e de confiança e este a protegeu com um adorno de metal
muito delicado. Para auxiliar no transporte, entendeu que seria melhor e uma corrente
mágica, cujo fecho só respondia as ordens do seu guardião, quando este o passasse pelo
pescoço pela primeira vez. Ali nascia Carietá. E quanto ao primeiro guardião, esse foi
determinado em um dia de testes. Contudo, essa é uma outra história.

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