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Lyra Compoetics – Inquérito Poesia e Resistência

A poesia é uma forma de resistência? Sempre, por definição? Ou apenas em


determinados contextos – sociais, políticos, culturais? Como pode resistir a poesia e
a quê?

Creio que a poesia é uma forma de resistência, mas é preciso definir bem que sentido
damos às palavras “poesia” e “resistência” nesta afirmação. Parto de uma concepção
bem ampla de poesia, do que é a arte poética em nossa época: poesia, como arte da
palavra e mesmo para além da palavra, abrange para mim, neste momento, muitas
formas de expressão que alguns ainda insistem em separar e, pior, hierarquizar. Quero
dizer: quando falo em poesia, penso no uso da palavra – e nos tensionamentos entre
palavra e silêncio – pelos poetas dos livros (o que inclui muito do que chamamos de
“prosa” e de “pensamento”), mas também nas práticas de poetas que passam longe dos
livros e das revistas literárias: a canção (em todas as suas possibilidade), o rap, o slam, o
sarau, o repente, a rinha, ou seja, tudo que cabe sob o guarda-chuva da “poesia oral”.

Ao olhar/ouvir assim, de modo ampliado, as circulações da poesia (em todas as épocas,


mas aqui falo da nossa especificamente), é possível perceber que os poetas são
fundamentais para a articulação de um pensamento resistente contra as formas
autoritárias de vida e as banalizações também violentas da nossa percepção da
realidade. A poesia, ao tensionar o uso das palavras, tensiona nossa visão de mundo,
tensiona nosso conhecimento da vida e, claro, nosso autoconhecimento. Amplia as
condições da nossa sensibilidade e da nossa inteligência diante das pessoas e das coisas.

É um lugar comum que devemos continuar visitando: ao transformar a consciência do


leitor/ouvinte – de si, dos outros, da história, do mundo –, a poesia pode transformar o
mundo em que aquele leitor/ouvinte age. Pouco, mas pode. Muito, em algumas
situações. Podemos ouvir o eco das palavras dos poetas na forma como o pensamento se
articula dentro das lutas sociais: “nas palavras de (des)ordem”, nos gritos, nas
pichações, nas camisetas, nas hashtags. Nesse sentido, a poesia é um instrumento de
resistência importantíssimo, ao organizar as vozes da luta em torno de algumas palavras,
dando identidade a quem toma o mesmo partido. E, claro, essa importância não se dá
apenas quando os poetas tematizam claramente, de modo contundente, as lutas do seu
tempo. Vai bem além disso a forma como a poesia intervém na sensibilidade e na
inteligência do seu tempo: ao falar do que não se fala muito, ao falar do que todos estão
falando, ao desautomatizar a consciência, ao conscientizar para outras fragilidades,
forças e bandeiras, a poesia intervém e, assim, participa da resistência.

Mas é claro: nada disso faz muito sentido sem atentarmos para o que chamamos de
resistência e, mais que tudo, sem entender em relação ao que se deve articular essa
resistência. A meu ver, resistência é algo que só pode se dar à esquerda do campo
político, porque resistir é a tarefa histórica dos que não concordam com a opressão, a
exploração, a desigualdade, a censura, o silenciamento, a segregação, a intolerância, a
discriminação e todos essas práticas que definem a sociedade burguesa e, portanto, o
posicionamento político – a direita – que interessa àqueles que se beneficiam da
configuração burguesa da sociedade. A grande poesia é, a meu ver, de esquerda, porque
se identifica, mesmo nas suas formulações mais “intimistas” ou “abstratas”, com uma
valorização do humano que, por si só, é uma declaração de resistência às forças
econômicas, políticas, sociais e culturais que dominam a sociedade e se dedicam a
apagar tudo que as ameace. E a inteligência da poesia, a sensibilidade (social, inclusive)
dos poetas, a coragem dos que pensam as melhores palavras para gritar – e gritam – são
ameaças à organização mesquinha da sociedade. A poesia é gauche, por natureza.
Mesmo quando não quer, é levada a ser do contra, nem que seja por contraste. Mesmo
quando não se declara, age à esquerda, ou seja, resiste: sua fragilidade é uma afronta.

Tarso de Melo (1976) é poeta e advogado. Doutor em Filosofia do Direito pela USP.
Autor de diversos livros, entre os quais Íntimo desabrigo (2017), Alguns rastros (2018)
e Sobre poesia, ainda (2019). Lançará neste ano a antologia Rastros, pela Martelo Casa
Editorial, com grande parte dos poemas que escreveu nos últimos 20 anos.