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Karate adaptado para crianças com perturbações do neurodesenvolvimento:


estudo exploratório

Article · September 2016

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4 authors:

Joana Pinho Bruno Avelar Rosa

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Universitat de Girona
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António M Quaresma Abel Figueiredo


Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias Polytechnic Institute of Viseu
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Desporto e Atividade Física para Todos – Revista Científica da FPDD, 2016
Vol. 2, N.º 1, ISSN 2183-511X

Adaptative Karate to children with neurodevelopmental perturbations:


exploratory study

Karate adaptado para crianças com perturbações do neurodesenvolvimento:


estudo exploratório

Joana Pinho1,2, Bruno Avelar-Rosa2,3, António Quaresma1, Abel Figueiredo4


1
Investigador Independente; 2Universitat de Girona, Espanha; 3Universidade Europeia, Lisboa, Portugal; 4Escola
Superior de Educação do instituto Politécnico de Viseu, Viseu, Portugal.

Abstract Resumo
The Neurodevelopemental disorders (NDD) are a As Perturbações do Neurodesenvolvimento (PND) são
heterogeneous group of pathologies that affect currently um grupo heterogéneo de patologias que afetam
10 to 20% of the population in pediatric age. Between atualmente de 10 a 20% da população em idade
the different sports, the martial art and combat sports pediátrica. Entre as diferentes práticas desportivas, as
present interesting biopsychosocial stimulation Artes Marciais e Desportos de Combate apresentam
characteristics for people with this kind of special needs. características de estimulação biopsicossocial
The goal of this study is to analyze the psychosocial interessantes para a intervenção junto da população com
dimensions, trough the study of “difficulties getting este tipo de necesidades especiais. Este estudo pretende
along with other children”, “kind and helpful behaviour” analisar as dimensões psicossociais, através do estudo da
from the SQD scale, “opposition”, “inattention” e “DSV “relação com os colegas” e “comportamentos pró-
IV - combined” from the Conners scale, departing from sociais” da escala SQD e de “oposição”, “desatenção” e
the intervention focused on Karate training for NDD “DSV IV - total” da escala Conners, a partir de uma
children. From the retrieved results we found major intervenção centrada em aulas de Karate para crianças
positive differences in the five compared variables com PND. Dos resultados obtidos encontraram-se
between the two evaluation moments. With this study diferenças significativas positivas nas cinco variáveis
results suggests that the Karate training may help the comparadas entre o primeiro e o segundo momento de
therapeutic process of NDD children. However, the avaliação. Com os resultados deste estudo sugere-se que
literature does not provide enough information yet to o Karate possa auxiliar no processo terapêutico de
suggest with greater certainty the positive impact of crianças com PND. No entanto, a literatura ainda não
Karate in special populations and more studies should be apresenta informação suficiente que permita concluir
done in this regard. com maior certeza o impacto positivo do Karate em
populações especiais e mais estudos devem ser feitos
neste sentido.

Keywords: Adaptative Sport, Karate, Neurodevelopment Palavras-Chave: Desporto adaptado; Karate,


Perturbações do Neurodesenvolvimento; PHDA;
Perturbations; ADHD; Autism. Autismo.

*Autor para correspondência.


Correio electrónico: joanafspinho@gmail.com (Joana Pinho)
Desporto e Atividade Física para Todos – Revista Científica da FPDD, 2016
Vol. 2, N.º 1, ISSN 2183-511X

Introdução Ainda que inicialmente a prática desportiva por


pessoas com algum tipo de deficiência tenha sido
As Perturbações do Neurodesenvolvimento (PND) considerada como um exercício complementar ao
são um grupo heterogéneo de patologias que têm processo terapêutico, as evidências científicas
por base anomalias neurológicas ou sensoriais de alcançadas relativamente aos seus benefícios
carácter permanente. No global, afetam 10 a 20% permitiram a sua expansão e popularidade nas
da população em idade pediátrica, sendo das últimas décadas do século XX (Horta, Muniz,
patologias crónicas mais frequentes e com Santos, & Rabelo, 2009). O seu contexto de
tendência a aumentar nas sociedades modernas intervenção foi também ampliado, exigindo uma
(Lima, 2015; Oliveira et al., 2012; Torpy, nova compreensão do seu conceito e estimulando o
Campbell, & Richard, 2010; Feldman & Stucliffe, seu reconhecimento por diferentes instituições
2009; Capute & Accardo, 2008; Shevell et al., estruturantes do panorama político e desportivo
2003). Afetam na sua maioria áreas como a internacional.
cognição, a comunicação, a linguagem, a Neste seguimento, a atividade física para pessoas
motricidade, a atenção, a socialização, o com deficiência, ou atividade física adaptada, foi
comportamento ou a aprendizagem escolar, definida por Potter (1981) como uma gama
limitando a aprendizagem necessária para a completa de atividades adaptadas às capacidades
integração na sociedade de um modo autónomo de cada um. Posteriormente, Steadward, Wheeler,
(Lima, 2015; Oliveira et al., 2012). Ainda de & Watkinson (2003) referem-se à atividade física
acordo com Lima (2015), as PND mais frequentes adaptada como um conjunto de modalidades que
referem-se às Perturbações do Desenvolvimento dependem de estratégias e treinadores com
Intelectual, do Espectro do Autismo (PEA), vocações para o treino de pessoas com deficiência.
Específica da Linguagem (PEL), de Défice de Um exemplo que consideramos modelar é o
Atenção e Hiperatividade (PHDA) e da Instituto Português do Desporto e Juventude, I.P.,
Aprendizagem. organismo português da tutela do Desporto, onde
Pese embora as características e dificuldades são apresentados como “valor do Desporto e da
associadas a cada PND, nomeadamente a Atividade Física na pessoa com Deficiência” em
necessidade de particularizar do ponto de vista dois níveis: o do próprio indivíduo e o social.
pedagógico cada caso específico, é commumente Além de explicitar benefícios cognitivos em geral
aceite que a prática de atividade desportiva implica (“potenciar o desenvolvimento cognitivo” e
benefícios diversos nas crianças que padecem “ajudar no desenvolvimento intelectual, sobretudo
destas patologias (Almeida, 2014; Santos, Zendo, nas idades mais tenras”), são apresentados
Júnior, & Moreira, 2013; Magnusson, Cobham, & explicitamente os seguintes valores que
McLeod, 2012; Sowa & Meulenbroaek, 2012). denominamos como da biomotricidade: “O
Efetivamente, autores como Naranjo (2009), Neto desenvolvimento da condição física (aumento da
(2004), Peynot, Chanteneault, & Bouzid (2011), força, da resistência, da velocidade, da
Michaud et al. (2004), Elrick, 1996; Rosa, flexibilidade); o psicomotor (melhoria no controlo
Rodrigues & Freitas (2009), Yanardağ, Yılmaz, & postural, na coordenação motora, no equilíbrio, no
Aras (2010) sublinham os benefícios da prática conhecimento do corpo e das suas reais
desportiva nas crianças com necessidades potencialidades quer psicomotoras, quer físicas); a
especiais, considerando entre aqueles o estimulação de centros nervosos e de estruturas
desenvolvimento do esquema corporal, das anatómicas lesadas, que poderá acelerar o processo
qualidades motoras e psicológicas e das terapêutico”. Também são apresentados
competências sociais. O exercício desportivo explicitamente os seguintes valores que
conduz ainda a melhorias na área da comunicação, denominamos da psicomotricidade: “Potenciar um
concentração, memorização, atenção e redução da aumento do autoconceito; Potenciar a prevenção de
ansiedade, i.e., a uma melhor relação do indivíduo estados depressivos e de ansiedade; Potenciar a
consigo próprio e com os outros; uma maior redução da irritabilidade e da agressividade; A
autonomia e a capacidade de resolução de produção de uma sensação de bem-estar e
problemas através da confrontação e vivência de equilíbrio”. Por fim, num grupo que denominamos
situações de sucesso e superação de situações de da sóciomotricidade são apresentados valores
frustração. como “Potenciar um aumento da comunicação”;

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“Potenciar a integração social e a qualidade de após 14 semanas de treino, que a prática por longos
vida”. periodos tem uma influência significativa na
Também são referidos como contributos positivos redução de comportamentos esteriotipados.
para o desenvolvimento social geral os seguintes: Recorrendo à mesma metodologia, Movahedi,
“Através do esclarecimento do público acerca da Bahrami, Marandi, & Abedi (2013), observaram
situação particular dos grupos de deficiência, que o treino de Kata tem uma influência
acerca das suas experiências, comportamento, significativa nas competências de interação social
atuação e das suas reais capacidades; Permitindo das crianças. Já Bahrami, Mavahedi, Marandi, &
construir uma melhor camaradagem entre Abedi (2015) observaram que os défices na área da
deficientes e não deficientes; Promovendo a comunicação diminuiram significativamente no
integração social de portadores de deficiência grupo de teste (com prática de Karate)
através da realização de provas com pessoas com comparativamente ao de controlo.
deficiência em eventos para pessoas sem Considerando o caso particular da PHDA, Harris
deficiência; Os desportistas com deficiência (1998) referiu existirem indicadores positivos
funcionam como modelo de superação dos relativamente à utilização das AM&DC como
próprios limites para outros elementos com tratamento complementar na PHDA. Por seu turno,
deficiência, permitindo que estes possam encontrar Márquez-Castillo (2013) refere que as as AM&DC
soluções para as suas próprias barreiras à ajudam a reduzir os sintomas, melhoram a função
integração e participação na sociedade; executiva e o desempenho académico. Morand
Despertando um maior interesse da comunidade (2004) refere-se às mesmas como uma intervenção
científica para o estudo das deficiências, sobretudo positiva na PHDA através da influência sobre a
no que diz respeito às áreas científicas que estudam percentagem de trabalhos de casa concluídos e o
o comportamento” [e que, a partir daqui] a desempenho académico, bem como sobre o
intervenção com esta população terá uma mais- número de regras da sala desrespeitadas e o
valia no que diz respeito à qualidade desta; número de vezes que as crianças se levantam
Promovendo o desenvolvimento de soluções inapropriadamente. No caso específico do Karate,
técnicas e de materiais cada vez mais adaptados, Graham (2007) debruçou-se sobre sua a influência
que permitam a atenuação das desvantagens na perceção pessoal da criança com esta
provocadas pelas deficiências” (IPDJ, 2016). perturbação, observando um aumento da
Entre as diferentes práticas desportivas, as Artes capacidade de perceção dos seus próprios
Marciais e Desportos de Combate (AM&DC) sentimentos e de competências de
apresentam características interessantes para a desenvolvimento pessoal.
intervenção junto da população com este tipo de Estas evidências acerca dos benefícios das
necesidades especiais, dado que parecem AM&DC em geral e do Karate em particular
influenciar a aquisição das principais funções encontram paralelo no esforço institucional levado
psicomotoras, o desenvolvimento cognitivo, a a cabo pelas organizações responsáveis pela
socialização e a comunicação, a segurança e a modalidade a nível internacional mas também em
disciplina, a auto-estima e o auto-controlo bem diferentes contextos nacionais. Recentemente, a
como o reforço de diferentes valores de ordem Federação Mundial de Karate, criou um
pessoal e inter-pessoal (Martin, 2002; Woodward, departamento próprio intitulado “Karate for
2009; Pick & Zuchetto, 2010). Disabled”, o qual tem procurado promover a
No caso particular do Karate, vários estudos têm inclusão de praticantes portadores de deficiência,
sido realizados com o intuito de compreender os estimulando a sua prática integrada ou
efeitos da sua prática adaptada em geral e nas PND especializada mas também desenvolvimento
em particular. A este respeito, Conant, Morgan, quadros competitivos próprios dando resposta
Muzykewicz, Clark, & Thiele (2008) encontraram consentânea com as suas especificidades. O
uma redução dos níveis de ansiedade da criança e primeiro campeonato foi levado a cabo em 2007,
dos pais, bem como melhorias na atenção, organizado pela Federação Alemã de Karate, tendo
concentração, impulsividade, perceção corporal e esta competição incluido provas para amputados
qualidade de vida, quando aplicado um programa (com recurso, ou não, a cadeiras de rodas),
de 10 semanas de Karate. Bahrami, Movahedi, invisuais, surdos, paralisias cerebrais e deficiências
Marandi, & Abedi (2012), num estudo sobre os mentais.
efeitos do treino através de exercícios de Kata (型) Contudo, embora os estudos anteriores se refiram a
nas estereotipias de crianças com PEA observaram, PND isoladas, a maioria destas crianças têm
comorbilidades associadas (Matos, 2009), como

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por exemplo PEA e PHDA, PC e PHDA, PEA e fazer escolhas, recebendo, em contrapartida,
PEL. Neste sentido, este estudo pretende analisar a reforços positivos ou negativos. As regras foram
evolução dos comportamentos sociais (relação com discutidas e decididas previamente em conjunto e o
os colegas e ações pró-sociais) e de oposição e respeito ou desrespeito pelas mesmas conduziu ao
desatenção, a partir de uma intervenção centrada respetivo reforço.
em aulas de Karate para crianças com PND.
Tabela 1 – Média, desvio Padrão e Resultado do teste de Wilcoxon

Metodologia
Para avaliar e identificar os problemas
Trata-se de uma intervenção quasi-experimental,
comportamentais específicos da população foram
sem grupo de controlo, implementada entre
utilizados dois questionários: Escala de Conners
setembro de 2015 e março de 2016. A amostra foi
para pais – Versão revista (forma completa)
constituída por oito crianças praticantes de Karate,
(Conners, 1997) e Questionário de Capacidades e
com idades compreendidas entre os sete e os doze
de Dificuldades (SDQ-Por). Foi ainda feita uma
anos (M= 8,50±1,60; 7 rapazes e 1 rapariga).
entrevista semi-estruturada aos pais, a qual não é
Todos os participantes apresentaram diagnósticos
alvo de análise neste artigo, mas cujo conteúdo
de PND, variando entre Síndrome de Asperguer e
permitiu tomar decisões sobre as dimensões de
PHDA (12,5%), PHDA (12,5%), PEA (37,5%),
observação nesta investigação.
PEA e PEL (12,5%), PEA e PHDA (12,5%) e uma
Para todas as variáveis foram recolhidos dados de
criança com diagnóstico ainda por definir.
dois momentos: baseline e após seis meses de
O tempo total de prática de Karate variou entre 6 e
intervenção. Nesta fase do estudo considerámos
18 meses (M=11,00±5,01) com uma sessão de
exclusivamente os resultados referentes aos sub-
treino por semana, com uma duração entre 30 e 45
capítulos dos "problemas com colegas" e
minutos, com interação pedagógica de 1 X 1 (75%)
"comportamentos pró-sociais" (SDQ) e os
e de 1 X 2 (25%), estando uma das crianças já
"comportamentos de oposição", "desatenção" e
inserida também numa turma regular de Karate
"DSM 1 IV-total" (Conners). No caso dos sub-
desde o início da época desportiva em curso.
capítulos "problemas com colegas" e
A intervenção centrou-se em aulas de Karate
"comportamentos pró-sociais" (SDQ), a escolha
adaptado com as seguintes características: foi feita
deveu-se ao facto de estas dimensões se assumirem
uma avaliação das competências iniciais da criança
como duas das limitações mais significativas nos
e das suas dificuldades com os procedimentos que
quadros de PEA e dos que mais frequentemente
caracterizaremos mais à frente; foram planeadas e
preocupam os pais. Por outro lado, relativamente
dirigidas as sessões de treino com exercícios
às opções relacionadas com a escala Conners, os
contextualizados em atividades lúdicas, com
sub-capítulos "oposição" e "desatenção" foram
adaptação das ações técnico-táticas do Karate
escolhidos em complemento aos da escala SDQ,
regular com uma forte componente funcional em
porque são os que abordam os sintomas mais
que o objetivo principal foi estimular os
frequentemente identificados pelos pais como
conhecimentos, as habilidades e as atitudes que
objetivo da prática de Karate. Já o sub-capítulo
permitissem ultrapassar as dificuldades,
"DSM IV total" foi escolhido de forma a obter uma
desenvolver a autonomia e gerir emoções e ações.
Nestas aulas as crianças partilharam ideias e gostos
para estimular o respeito mútuo pela diferença , 1"Diagnostic and Statistical Manual of Mental
sendo chamadas a tomar decisões, incentivadas a Disorders".

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visão mais genérica dos impacto da prática de capítulos "oposição" e "desatenção" é atribuída
Karate no comportamento das crianças. após a indicação de questões como “Furioso e
As análises estatísticas foram realizadas com o ressentido”, “Brigas” e “Perde o controlo”; e
software IBM SPSS versão 21, tendo sido “Dificuldade em fazer ou acabar os trabalhos de
efetuadas análises descritivas para caraterizar a casa”, “Tem problemas em concentrar-se nas
amostra e comparativas não paramétricas aulas”, respetivamente.
(Wilcoxon signed-rank test) para testar a evolução Analisando os resultados do sub-capítulo
das variáveis do baseline para o final. "oposição", em que a média das crianças passou de
66,88 (valor dentro do limite, acima do normal)
Resultados para 59,75 (valor normal) no segundo momento de
avaliação e para os resultados do sub-capítulo
Na tabela 1 são apresentados os valores no baseline "problemas com os colegas", da Escala SDQ em
e após seis meses das variáveis estudadas. que em ambos os momentos a média das oito
crianças do estudo se encontravam com valores
superiores ao limite (7,86 na baseline e 5,14 no
segundo momento), observa-se uma evolução
positiva. Embora na SDQ a média se mantenha em
valores superiores ao limite, há uma aproximação
dos valores normais ou limites (entre 0 e 3).
Também neste, a cotação é dada após análise de
perguntas relacionadas com a popularidade da
A média obtida no sub-capítulo "problemas com os criança ou da relação com os colegas
colegas", da Escala SDQ, mostra-nos que no (agressividade, interação, brigas…) e embora estas
momento da baseline, a média das 8 crianças do crianças estejam maioritariamente a realizar
estudo era 7,86, estando desta forma classificada trabalho de 1 X 1, são incentivadas a partilhar
como superior ao limite (entre 4 e 10), descendo no problemas que tenham na escola e a discutir sobre
segundo momento de avaliação, para uma média possíveis soluções. Complementarmente, e
de 5,14 (T=21; p=0,027). Já no que respeita aos reforçado constantemente que tudo o que
"comportamentos pró-sociais" a média das 8 aprendem no treino deve servir apenas para defesa,
crianças passou da classificação superior ao limite são criados neste diversos momentos de stress e
(entre 0 e 4) com 2,43, para normal (entre 6 a 10), frustração de modo a levar as crianças a situações
com 5,57 (T=28; p=0,018). limite e onde são incentivados a controlar a
Por outro lado, no que respeita aos sub-capítulos agressividade ou a direcioná-la para objetos
analisados da Escala Conners, as crianças inanimados. Os resultados são compatíveis com os
passaram de 66,88 (oposição), 76,25 (DSM IV - dados de Conant et al. (2008) que relatam uma
total) e 75 (desatenção) para 59,75 (T=21; redução dos níveis de ansiedade e impulsividade.
p=0,027), 70,88 (T=28; p=0,018) e 67,5 (T=28; Este auto-controlo pode não só se dever apenas ao
p=0,018), respetivamente. Sendo os valores limites trabalho realizado e à imposição rígida de regras
entre os 65 e os 70 (valores abaixo dos 65 são que são escrupulosamente respeitadas mas também
considerados normais). ao aumento da capacidade de perceção dos
próprios sentimentos e de competências de
desenvolvimento pessoal que Graham (2007)
Discussão identificou no seu estudo.
Paralelamente, há pequenos momentos em que as
Com base nos resultados apresentados verificou-se crianças se cruzam nas saídas e entradas e estes
uma evolução significativa nas variáveis momentos são aproveitados como forma de regular
analisadas. Assim, os dados obtidos no sub- o comportamento e promover uma interação
capítulo "DSM IV - total" permitem perceber que positiva entre elas. Por vezes, é ainda possível
através do Karate foram obtidos resultados partilhar alguns momentos do treino, criando
significativos na diminuição da apresentação situações de interajuda na resolução de problemas,
visível de sinais comuns em crianças com PHDA, na memorização de esquemas e invenção de
indo ao encontro de Márquez-Castillo (2013) que exercícios. Estes momentos podem justificar os
refere que as AM&DC ajudam a reduzir os resultados encontrados no sub-capítulo de
sintomas das crianças com PHDA. Ainda nesta "comportamentos pró-sociais" e estão de acordo
escala, é de assinalar que a cotação dos sub- com Movahedi et al. (2013), os quais referem uma

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influência significativa positiva do Karate nas diversidade. Como afirma Woodward (2009), mais
competências de interação social das crianças. Os estudos devem ser feitos neste sentido. Neste
valores atribuídos no sub-capítulo de processo a evidência científica deve assumir um
"comportamentos pró-sociais" dizem respeito a papel preponderante para aumentar a legitimidade
ações positivas de benefício do outro, ou seja, a da modalidade neste tipo de intervenções. Como
áreas como a entreajuda e partilha e a forma como tal, deveremos considerar em futuros estudos o
a criança olha e gere os sentimentos do outro. aumento do número de elementos da amostra,
Por fim, sobre a "desatenção", este foi um dos abranger um maior número de variáveis, utilizar
aspetos que os pais mais referiram como objetivo grupos de controlo, integrar um terceiro elemento
na procura e prática do Karate durante as de análise após a aplicação do programa de Karate,
entrevistas semi-dirigidas que não alvo de analisar a opinião dos professores e a evolução dos
tratamento neste documento. Tal como nos estudos resultados académicos, bem como incluir crianças
de Conant et al. (2008) e Morand (2004), também treinadas por um grupo mais vasto de treinadores.
neste se observaram melhorias na desatenção Poderá ser ainda interessante acompanhar o
apresentada pelas crianças. Este aspeto é muito processo de integração destas crianças nas classes
trabalhado ao longo dos treinos, com a realização regulares.
de tarefas em sequência; com memorização de Relativamente ao nosso estudo, cabe-nos analisar
relações sequência X cor; com o treino específico em futuras ocasiões a intervenção com as
de Kata, Bunkai (treino de interpretação dos Kata); dimensões não abordadas neste artigo (i.e.,
com a integração de exercícios lúdicos e considerar os restantes sub-capítulos dos
académicos (respeitando o nível de ensino). instrumentos utilizados; integrar a perceção dos
pais relativamente à evolução dos seus filhos após
o início da prática de Karate e avaliar a evolução
do desempenho das crianças na modalidade), tendo
Conclusão em conta que poderão reforçar a compreensão do
impacto que o Karate adaptado poderá ter nas
Com os resultados deste estudo sugere-se que o crianças com este tipo de necessidades especiais.
Karate pode auxiliar no processo terapêutico de
crianças com PND. De acordo com os resultados
obtidos, esta intervenção ajudou a promover a
concentração, a reduzir a ansiedade, a
impulsividade e a melhorar as competências de Referências
interação social, indo ao encontro de resultados
obtidos por outros estudos (Movahedi et al., 2013;
Almeida, D.D. (2014). Efeitos da Atividade Física
Conant et al., 2008 e Morand, 2004).
Tendo em consideração que nesta geração as PND Adaptada no Perfil Psicomotor de uma Criança
com Espetro do Autismo - Estudo de um caso. Tese
têm aumentado significativamente 2 , estes
de Mestrado. Castelo Branco: Escola Superior de
resultados, embora limitados pelo número da
Educação do Instituto Politécnico de Castelo
amostra, sugerem uma forma alternativa mas
Branco.
eficiente para intervir nas crianças com esta
problemática.
APA (2013). Diagnostic and statistical manual of
Efetivamente, a literatura ainda não apresenta
mental disorders: DSM-5. (5th ed.). Washington,
informação suficiente que permita concluir com
D.C.: American Psychiatric Association.
maior certeza o impacto positivo de práticas
referenciadas ao Karate adaptado para populações
Bahrami, F., Movahedi, A., Marandi, S. M., &
especiais, tendo em especial atenção a sua
Sorensen, C. (2015). The Effect of Karate
Techniques Training on Communication Deficit of
Children with Autism Spectrum Disorders. Journal
2 Estima-se que a prevalência desta perturbação se situe of Autism and Developmental Disorders, 46(3),
em cerca de 2,5% no caso dos adultos adultos, 5% em 978-86.
crianças (APA, 2013) e entre os 2% e os 8% em
crianças em idade pré-escolar (Riccio, Sullivan, &
Cohen, 2010).

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