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DIÁRIOS - SUSAN SONTAG

SONTAG, Susan. Diários: 1947-1963. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo:


Companhia das Letra, 2008.

Sempre achei que uma das coisas mais tolas que os vivos dizem a respeito dos
mortos é aexpressão “fulano teria desejado que fosse assim”. No máximo é palpite; na maioria
das vezes, é húbris, por melhor que seja a intenção.

Não dou a mínima para o acúmulo de fatos de ninguém, exceto quando se tratar de uma
reflexão sobre sensibilidade elementar, de que eu de fato preciso... Quero fazer tudo... ter um
modo de avaliar a experiência — se me causa prazer ou dor, e tenho de ser muito cuidadosa
quanto a rejeitar a dor — tenho de perceber a presença do prazer em toda parte e encontrá-lo
também, pois ele está em toda parte! Quero me envolver completamente...tudo é importante! A
única coisa a que renuncio é a capacidade de renunciar, de recuar: a aceitação da mesmice e
do intelecto. Eu estou viva... eu sou linda... o que mais existe?

Podia ser melhor: mais erudição, seguramente, mas é insensato eperar muito mais maturidade
emocional além do que já alcancei nesta altura... Tudo está a meu favor, minha emancipação
prematura, minha

Ainda o fascínio infantil com a minha caligrafia... E pensar que sempre tive esse potencial
sensual reduzido nos meus dedos!

A moralidade conforma a experiência, não o contrário. Eu sou minha história, ainda que em
meu desejo moral de entender o meu passado, de ser plenamente consciente, eu me torne
exatamente aquilo que a minha história demonstra que não sou - livre.

Se eu for aceita, então vou experimentar durante o próximo ano, e se eu ficar insatisfeita em
qualquer aspecto - se em algum sentido eu sentir que a maior parte de mim não está sendo
aproveitada lá, então eu vou embora

Uma irritante viagem de trem, e “como se nunca tivesse ocorrido”.

Mas Kafka tem essa magia de realidade mesmo na expressão mais deslocada, como nenhum
outro escritor tem, uma espécie de calagrio + dor azul rangente nos nossos dentes.

“Detesto ser tão autoconsciente.”

Sei que não sou eu mesma quando estou com os outros, nem com o Philip — disso decorre
aconstante sensação de irritação, com ele, comigo mesma. Mas e sozinha, eu sou eu mesma?
Também parece improvável.

“the soft sell” [vender com conversa mole] (versus“the hard sell” [vender fazendo pressão])

Boa parte da moralidade é atarefa de compensar a própria época em que se vive. A gente
adota virtudes fora de moda, numaépoca indecorosa. Numa época esvaziada pelo decoro,
devemos nos educar na espontaneidade.
Limite do pensamento = linguagem. Linguagem é nexo entre sensação + o mundo.

Ser autoconsciente. Tratar a si como se fosse um outro. Supervisionar a si mesma.

Sobre fazer um diário.

É superficial entender o diário apenas como um receptáculo dos pensamentos privados,


secretos, de alguém - como um confidente que é surdo, mudo e analfabeto. No diário eu não
apenas exprimo a mim mesma de modo mais aberto do que poderia fazer com qualquer
pessoa; eu me crio.

O diário é um veículo para o meu sentido de individualidade. Ele me representa como


emocional e espiritualmente independente. Portanto (infelizmente) não apenas registra minha
vida real, diária, mas sim - em muitos casos - oferece uma alternativa para ela.

Por que escrever é importante? Sobrtudo por vaidade, eu suponho.

(Não sou interessante o suficiente para ter vícios.)

minhas tentativas idiotas de fazer o amor dela vir à tona.

Quando estou com ele, eu o adoro completamente e sem ambivalência.

Estar apaixonada - essa sensação sutil entusiasmada inesquecível da singularidade do outro.

Céu coalhado de nuvens

Melhor saber do que ser ingênua. Não sou mais uma menina.

Não seja gentil. A gentileza não é uma virtude. É ruim para as pessoas com as quais você é
gentil. É tratá-las como inferiores etc.

É preciso distinguir a "verdade" da verdade sobre". É verdade que 1) estava nevando e 2)


Aaron Nolan pôs leite no café que me trouxe. Mas a verdade sobre, por exemplo, o
relacionamento entre I e mim não é um inventário daquilo que aconteceu, do que foi dito, feito.
É uma interpretaçao, uma visão.

...Existem graus de "verdade sobre".

Que instrumento delicado é a língua.

A maneira de superar X é sentir-se (ser) ativa, e não passiva. EU m esinto ansiosa quando o
telefone toca - portanto não atendo ou peço que outra pessoa atenda. A maneira de vencer isso
é não me obrigar a atender o telefone. É dar eu mesma o telefonema.

Para I, amar alguém é expor essa pessoa. Para mim, amar alguém é lhe dar apoio, respaldá-la
mesmo nas suas mentiras.

Eu não me domino. Não devo tentar dominar ninguém; é inútil, pois sou desajeitada demais.
Para onde eu quero que vá a minha vitalidade? Para os livrosou para o sexo, para a ambição
ou para o amor, para a angústia ou para a sensualidade? Não se podeter as duas coisas. Nem
pense na chance remota de que vou ter tudo de volta no final.

Eu pensava que I tinha a chave, e só ela. Que toda a minha sexualidade estava presa a ela.
Agorasei que, tecnicamente, não é assim. Mas, apesar disso, não acredito na realidade de
nenhuma outrapessoa.Não acredito que ela vá voltar para mim. Aqueles que vão embora
nunca mais voltam.

Que não existem pessoas naquilo que eu escrevo. Só fantasmas.