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A COMUNICAÇÃO MUSEOLÓGICA COMO FERRAMENTA DA

PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA ESCOLAR: CONHECENDO OS 140 ANOS


DO JARDIM DA INFÂNCIA NO MACKENZIE (SP)

LUCIENE ARANHA1
POLLYNNE FERREIRA DE SANTANA2

Resumo

O Centro Histórico e Cultural Mackenzie (CHCM), setor integrante da Universidade


Presbiteriana Mackenzie, ocupa o Edifício Mackenzie – prédio tombado pelo
Patrimônio Histórico, construído entre 1894/1896 para abrigar, originalmente, uma
Escola de Engenharia – no Campus Higienópolis, que hoje envolve desde a Educação
Básica até os cursos de Pós-Graduação.
Além da preservação da memória da instituição, por meio da organização, catalogação e
digitalização de seu acervo histórico, o CHCM procura também ser um espaço cultural
vivo, que comunique o acervo e a história por meio de atividades diversas e constantes.
Para isso desenvolvemos, exposições e visitas educativas às exposições de acervo
voltados para a comunidade universitária – alunos e professores – bem como abertas à
comunidade em geral e outras escolas.
As exposições do CHCM têm como objetivo propiciar a relação que se dá no contato
com os objetos musealizados e expostos, por isso a importância de que o cenário
institucionalizado possa ser agente transmissor e possibilitador da relação e da
aprendizagem significativa.
O trabalho discorrerá sobre detalhamentos de uma exposição de acervo de ensino sobre
os 140 anos do Jardim da Infância no Mackenzie – que foi o primeiro do Brasil –
mostrando como se dá o planejamento, como foi executada e a relação que temos com o
público que recebemos, visando contribuir para a prática de preservação da memória

1
Curadora do Centro Histórico e Cultural Mackenzie – Universidade Presbiteriana Mackenzie
São Paulo
2
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Museologia - USP – Universidade de São Paulo
escolar de outras instituições de ensino, bem como estabelecer parcerias para trocas de
experiências que possibilitem novos subsídios para a salvaguarda do patrimônio escolar.
Desta forma a investigação terá diálogo com o campo cientifico da Museologia;
Patrimônio Escolar e Cultura Material. No qual dialogará com os seguintes teóricos:
RÚSSIO (1986;1981); BRUNO (2015) e SOUZA (2013).

Introdução

Muitas empresas e instituições têm demonstrado a preocupação em recontar suas


histórias por meio de documentos e imagens. Isso se torna visível com a criação de
bibliotecas particulares, pequenos museus e Centros de Memória, que têm como
objetivo tornar pública essa história.
O modo de mostrar esse material leva ao tema desse artigo, pois mais do que instrutiva,
a exposição pode proporcionar momentos significativos para o visitante, para que,
nesse contato sejam favorecidas possibilidades de estabelecimento de parcerias, que no
meio institucional são sempre prementes. Contudo, na montagem da exposição, é
preciso levar em consideração o cuidado com a conservação dos objetos expostos e a
utilização dos novos recursos tecnológicos que, auxiliam na exposição do material,
devem ser usados com parcimônia, para não substituir completamente o contato do
público com os documentos e objetos. Pensar em todos esses detalhes, com o objetivo
de oferecer exposições atrativas e instrutivas, leva aos questionamentos levantados
neste artigo, pensando no presente e no futuro, baseando-se nas experiências do
passado.
Vamos nos aproximar do tema na análise de uma exposição de acervo de ensino sobre
os 140 anos do Jardim da Infância no Mackenzie por meio dos conceitos de Fato
Museal, que justifica toda a ação que se dá no Museu. Guarnieri (2010) desenvolveu a
teoria de Fato Museal e a declara como sendo:
[...] a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da Realidade à
qual o Homem também pertence e sobre a qual tem o poder de agir, relação esta que se
processa num cenário institucionalizado, o museu. GUARNIERI (2010 – p. 205)
Essa relação e dá no contato com os objetos musealizados 3 e expostos, por isso a
importância de que o cenário institucionalizado possa ser agente transmissor e
possibilitador da relação e da aprendizagem.
De acordo com GUARNIERI (2010) musealizam-se objetos, edifícios, etc., seguindo os
pressupostos de documentalidade, testemunhalidade e fidelidade, com o objetivo de
torná-los agentes de informação, conhecimento, registro e memória. Estes agentes
devem se relacionar com o Homem e promover a relação do Homem com o objeto. A
ação museológica visa a aproximação do acervo junto à comunidade através de ações
que resgatem as práticas culturais do grupo, reconduzidas para a valorização e
significação desse acervo. Não se restringe à apresentação da representação cultural,
nem compreende a cultura como um domínio de conhecimento exterior.
As ações de interação, bem como as exposições, devem, então, ser tratadas e
implementadas de modo a valorizar o processo de elaboração da documentação do
acervo, permitindo a otimização do uso das peças do acervo, e do próprio edifício, como
fonte de conhecimento, bem como seu entendimento como documento histórico. O
espaço museológico torna-se espaço de discussão da informação e, sobretudo, de
reflexão. Seguindo esse raciocínio, este poderá ser utilizado como recurso didático
destinado ao ensino de várias áreas e, principalmente, da História da comunidade devido
à natureza documental do acervo museológico que abriga.
A preocupação e o cuidado com a prática museológica voltada para ação pedagógica e o
trabalho com o acervo voltado a atender os interesses e expectativas da comunidade
permitirá o maior acesso e interação com objeto museológico, enriquecendo o
aprendizado e os conhecimentos que decorrem da compreensão do homem como um ser
que se forma em contato com a sociedade, numa relação dialética entre o sujeito e a
sociedade a seu redor - ou seja, o homem modifica o ambiente e o ambiente modifica o
homem. Essa relação não é passível de muita generalização. A interação que cada
pessoa estabelece com determinado ambiente, a chamada experiência pessoalmente
significativa.
Para a realização deste artigo será realizada uma breve análise bibliográfica sobre o
conceito de museografia. A ênfase será um estudo de caso especifico de uma exposição
de acervo de ensino sobre os 140 anos do Jardim da Infância no Mackenzie para

3
De acordo com Marília Xavier Cury (2005) “pelo termo musealização se entende a valorização do objeto . esta
valorização poderá ocorrer com a transferência do objeto de seu contexto para o contexto dos museus [...]. A
musealização é um processo que se inicia com a seleção realizada pelo “olhar museológico” sobre as coisas materiais
[...].”(p.24)
analisar a expografia, mostrando como se dá o planejamento, como foi executada e a
relação que temos com o público que recebemos, visando contribuir para a prática de
preservação da memória escolar de outras instituições de ensino, bem como estabelecer
parcerias para trocas de experiências que possibilitem novos subsídios para a
salvaguarda do patrimônio escolar.

O Centro Histórico e Cultural Mackenzie

O Centro Histórico e Cultural Mackenzie (CHCM) setor integrante da Universidade


Presbiteriana Mackenzie, sob tutela da Pró-Reitoria de Extensão e Educação
Continuada, foi instituído em 1998 para salvaguardar a memória da instituição. Ocupa o
Edifício Mackenzie, prédio 1, do Campus Higienópolis. Este prédio foi construído entre
1894/1896 para abrigar uma Escola de Engenharia espelhada nos moldes americanos.
Para contextualizar a importância do edifício para a Universidade, é preciso conhecer
um pouco da história do Mackenzie, que neste ano completa 149 anos de fundação.
A história do Mackenzie tem sua origem em 1870, no momento em que a Sra. Mary
Ann Annesley Chamberlain – esposa do pastor americano George Chamberlain, casal
missionário que chega a São Paulo em 1869 dedicando-se a evangelização, mas
entendendo que a educação também era uma parte essencial de atuação da igreja –
acolheu em sua casa três crianças, disposta a ensinar-lhes as primeiras letras por meio
de uma pedagogia inovadora e moderna, deixando de lado os castigos físicos e as lições
decoradas que faziam parte do método de ensino brasileiro na época.
O novo método deu certo, e a fama da “escolinha”, como era popularmente chamada, se
espalhou, tornando a sala de jantar do casal Chamberlain pequena para acomodar o
crescente número de crianças. A escola foi então transferida na região central da cidade
de São Paulo, chegando a seu endereço definitivo no bairro de Higienópolis, no início
dos anos 1900.
Nos anos de 1990 acontece um processo de preservação do prédio 1 e, no Conselho
Deliberativo da Instituição, a criação de um Centro de Memória do Mackenzie 4. Com
isso se inicia o processo de tombamento do edifício para que, depois de restaurado,
4
Apesar de ter sido criado como Centro de Memória, quando da inauguração recebeu o nome de Centro Histórico Mackenzie. Essa
nomenclatura, que interfere diretamente na determinação de nossa missão, vem sido discutida atualmente, junto com um processo
de organização museológica do acervo.
recebesse esse novo uso. Tombado pelo CONDEPHAAT e pelo CONPRESP, o prédio
foi totalmente restaurado e adaptado ao seu novo uso entre os anos de 2001/2004.
Além da preservação da memória da instituição, por meio da organização, catalogação e
digitalização de seu acervo histórico, o CHCM procura também ser um espaço cultural
vivo, com uma agenda cultural diversa e constante de atividades e exposições artísticas.
E isso, sem perder de vista a preservação do seu acervo e do edifício com princípios
técnico-científicos atuais da museografia, museologia e da conservação preventiva, bem
como busca também manter o alinhamento de todas essas atividades com a história e
confessionalidade da instituição.

As Exposições do Centro Histórico e Cultural Mackenzie

Desde 2010 há a exposição de longa duração Isto é Mackenzie! que tem como principal
objetivo expor a história da instituição, com o enfoque nos fatos relacionados à
educação e à Universidade, utilizando o acervo preservado no CHCM, além de
exposições temporárias de acervo, no mesmo espaço, de caráter mais temático, sempre
relacionadas a temas de efemérides anuais da Universidade.
Em 2018, com o marco de 140 anos de instalação do primeiro Jardim de Infância do
Brasil foi realizada a exposição Jardim da Infância – 140 anos mostrando o acervo
referente a este tema. A história do Jardim da Infância no Brasil, se inicia no Mackenzie
com a vinda da professora Miss Phoebe Thomas, dos Estados Unidos, para dirigir o
Jardim de Infância, criado em 1878 pelo Rev. Chamberlain. Essa iniciativa da Escola
Americana foi elogiada e posta em evidência pelos órgãos de imprensa da época, pois o
mais novo sistema buscava atender a crianças entre quatro e sete anos de idade,
atividade pioneira à época.
A curadoria da exposição foi pautada em mostrar, por meio de imagens e documentos
do acervo, como eram as salas de aula e práticas educativas do início do século 20 no
que se refere ao Ensino Básico. A expografia foi pensada de maneira que o visitante
possa montar seu percurso de maneira espontânea e, por meio de textos descritivos,
entenda o processo de criação da educação Infantil no Mackenzie – nos relatórios
oficiais da instituição – e o método utilizado à época e, depois possa visualizar as
fotografias de turmas de Educação Infantil e educação Básica que mostram esses
métodos sendo utilizados. Há também a exposição de mobiliário do acervo, compondo
um cenário de sala de aula e de alguns objetos que podem ser identificados nas imagens
fotográficas.
O trabalho de Ação Educativa foi elaborado com o objetivo principal potencializar e
criar conexões entre o acervo e o público, promovendo ações voltadas à interação deste
com a história mostrada na exposição, propondo questionamentos, conhecendo os
objetos e criando desafios. São atividades propostas ao público, de acordo com faixa
etária e interesses.
As exposições têm como resultado, além da visitação, a captação de doação de acervo
para completar a coleção. Como o público recebido envolve antigos alunos, é comum
que a identificação com o cenário aconteça e que ocorra a mobilização de entrega e
doação de bens relacionados aos temas.

Conclusão