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Trabalho Social

e Intervenções
Habitacionais
Reflexões e aprendizados sobre o Seminário Internacional

Ministério das Cidades


Secretaria Nacional de Habitação
Aliança de Cidades
Banco Mundial
1
Este e outras centenas de livros estão disponíveis GRÁTIS no site:
www.servicosocialparaconcursos.org

Belo Horizonte (MG)


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Publicação sobre reflexões
e debates do Seminário
Internacional Trabalho
Social em Intervenções
Habitacionais, realizado de
31 de agosto a 2 de setembro
de 2010, no Hotel Gran Bittar –
Brasília/DF

Coordenação Geral
Inês Magalhães - Secretária
Nacional de Habitação do
Ministério das Cidades

Organização
Adilon Sírio Silva Moreira
Anaclaudia Rossbach
Bruna Gatti
Conceição de Maria Lopes Freitas
Cid Blanco Jr.
Diogo Dourado
Elzira Marques Leão
Francesco Di Villarosa
Karina Cavalcanti
Marcos Monteiro
Mariana Kara José
Mirna Quinderé Belmino Chaves
Rodrigo Delgado
Sameh Wahba
Tatiane Leonel de Almeida Silvares
Tássia Regino

Produção Editorial: Publisher Brasil


Edição: Renato Rovai
Redação: Adriana Delorenzo
Projeto Gráfico: Thiago Balbi
Revisão: Denise Gomide

As imagens desta publicação foram


cedidas pela Aliança de Cidades (Cities
Alliance), Ministério das Cidades e
Fundação AVSI, que informaram os
créditos de autoria.
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Arquivo / Ministério das Cidades
Sumário
Entrevista
6 A consolidação do trabalho social

Balanço
Investimentos em habitação
10 impulsionam trabalho social

Direito à moradia
15 Mais que uma casa

Territórios e
vulnerabilidades
Rompendo as barreiras
17 da desigualdade

Projetos
Conhecer o território
20 é o primeiro passo

Reassentamentos
Um processo de intervenção
23 física e social

Participação social
Aprofundar o controle social
24 e os mecanismos de democracia

Experiências
Intersetorialidade e gestão
26 garantem êxito nas intervenções

Metodologias
População é protagonista
29 das intervenções

Trabalho e renda
Desafio de manter famílias nas
31 moradias passa pelas novas despesas

Violência
34 A presença do Estado

Minha Casa, Minha Vida


Trabalho social para
36 4 milhões de famílias

Meio ambiente
38 Rumo a habitações sustentáveis

Desafios
RECOMENDAÇÕES PROPOSTAS
Rio de Janeiro (RJ) PARA O TRABALHO SOCIAL NO
40 DESENVOLVIMENTO URBANO

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Arquivo / Ministério das Cidades
Apresentação
Com a Política Nacional de Habitação, o trabalho social passou a ser parte
obrigatória dos projetos de intervenção habitacional. Trata-se de uma atividade
essencial a ser realizada com as famílias beneficiadas pelos projetos. Esse tipo de
trabalho envolve várias ações, que se iniciam antes da obra e continuam após a
mudança dos moradores. Com a exigência do trabalho social e dos investimentos
em habitação dos últimos anos, especialmente com o PAC e o Programa Minha
Casa, Minha Vida, uma série de projetos de intervenções vem sendo desenvolvida
nos vários municípios brasileiros.
De Norte a Sul, somam-se experiências de trabalho social, que apresentam
peculiaridades teórico-metodológicas, relacionadas a: modelo de gestão local, ta-
manho da área da intervenção, número de famílias, especificidades do projeto,
tipologia da unidade habitacional (horizontal ou verticalizada), situações de risco
e condições de acessibilidade, entre outras variáveis.
Buscando refletir sobre elas, a Secretaria Nacional de Habitação do Ministério
das Cidades, em parceria com a Aliança de Cidades e o Banco Mundial, realizou,
de 31 de agosto a 2 de setembro de 2010, o Seminário Internacional sobre Trabalho
Social em Intervenções Habitacionais, em Brasília. O encontro reuniu 400 pessoas
de todo o País e contou com a participação internacional de palestrantes e de or-
ganizações parceiras do setor público e privado.
Foram três dias de debates, que proporcionaram o intercâmbio de experiências
e informações. Foi uma oportunidade de discutir a diversidade de referenciais teó-
ricos e modelos de abordagens práticas, compartilhando experiências de trabalho
social em habitação, no Brasil e no mundo.
Na ocasião, os participantes levantaram os desafios, apresentaram exemplos
de boas práticas e diagnosticaram o leque de ações que estão sendo incorporadas
ao trabalho social, como as direcionadas à geração de trabalho e de renda. Além
disso, destacaram a questão da intersetorialidade e o conceito de território, como
centrais para o desenvolvimento do trabalho social.
O objetivo do seminário era justamente ampliar o campo de ação e o repertório
do trabalho social. A Secretaria Nacional de Habitação oferece esta publicação
como uma contribuição ao debate. Aqui está reunido um conjunto de reflexões
Rio de Janeiro (RJ) apresentadas durante o encontro. Elas não se esgotam, tampouco o debate e as
possibilidades de ação.
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Entrevista

A consolidação
do trabalho social
O trabalho social passou

Rodrigo Nunes/MCidades
a ser um componente
estratégico numa
intervenção habitacional.
Para a secretária Nacional
de Habitação, Inês
Magalhães, desde 2005
à frente da Secretaria,
evoluiu-se muito na
consolidação institucional
desse conceito. Hoje já
existem investimentos
específicos para a área, e
os desafios são incorporar
novos temas ao trabalho
social, como a questão da
violência e da geração de
trabalho e renda
Qual o balanço que se pode fazer em relação ao Já evoluímos, tornando o trabalho social obrigatório, não há
trabalho social nas intervenções habitacionais, nos liberação de recursos para obra sem que conste no projeto. A nos-
últimos anos? sa avaliação, agora, é que talvez tenhamos que mudar o olhar,os
Hoje, o trabalho social é um dos eixos fundamentais quan- desafios para entrar hoje numa comunidade exigem um repertó-
do se realiza uma intervenção. As pessoas têm o direito de sa- rio mais sofisticado. É justamente este repertório que nós estamos
ber o que vai acontecer com elas e de poder opinar sobre o seu perseguindo, por isso, estamos desenvolvendo estas atividades de
futuro. O trabalho social tem essa função e hoje é um compo- debate e capacitação, para tentar identificar quais são os desafios
nente obrigatório, representando investimentos da ordem de específicos,além de tentar discutir e incorporar outros temas, por
2,5% dos recursos totais de uma obra. exemplo, o da violência, trabalhado em qualquer comunidade, seja
Uma intervenção numa favela é, na verdade, buscar fazer a co- na dimensão da violência doméstica, seja no da violência urbana.
nexão do tecido urbano daquele assentamento com o resto da cida- Há outros pontos muito importantes: o desenvolvimento e a
de, reforçando as competências e atributos para que ela possa se geração de trabalho e renda. É preciso diversificar as ações imple-
desenvolver e se organizar, para tornar-se uma comunidade mais mentadas, oferecendo um cardápio amplo de ações e programas
atuante na garantia de seus direitos, por meio da urbanização e do coordenados, para promover o desenvolvimento econômico das co-
desenvolvimento econômico, com o objetivo de garantir a melhoria munidades. Não é mais razoável que, ainda hoje, se ofereça apenas
das condições de geração de trabalho e renda para aquele público. alguns cursos de capacitação, sem articulação intersetorial, com
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o nível de recursos disponibilizados. Existe um repertório que, do possibilidade para que essas famílias percebam que têm direitos
nosso ponto de vista, deve ser organizado, para que as prefeituras, e reforçar sua capacidade de organização e de reivindicação, sedi-
os gestores, as consultorias, os movimentos sociais possam utilizá- mentando, assim, ações mais profundas de desenvolvimento social.
los como um instrumento para compor a sua estratégia local. Não Essa é uma questão fundamental.
dá para imaginar que haja uma receita que possa ser replicável em
todos os projetos, mas a nossa intenção com o Seminário Interna- A que se devem os avanços na institucionalização
cional Trabalho Social em Intervenções Habitacionais e com a série do trabalho social?
de atividades promovidas pela Secretaria Nacional de Habitação é É um amadurecimento. Hoje a nossa política nacional de
de incrementar esse repertório. assentamentos precários, onde o trabalho social já está mais
consolidado, é fruto de um reconhecimento das experiências
O trabalho realizado numa área de urbanização de municipais dos anos 1980.
favelas, onde a comunidade já existe, é diferente Com o final do BNH, acabou a intervenção federal na área
do que ocorre no Minha Casa, Minha Vida? habitacional, e o que restou aos municípios foi uma estratégia de
O Programa Minha Casa, Minha Vida é um outro desafio. Ele trabalhar com pequenas intervenções em favelas, porque deman-
tem 1 ano, e nós estamos avaliando o trabalho social previsto nele davam menos recursos que uma produção habitacional, que é mui-
como insuficiente. Hoje, a ação concentra-se basicamente na cons- to cara. Acumularam-se experiências, que nos possibilitaram, logo
tituição do condomínio, é necessário estender as atividades e acom- na chegada ao governo e somando às experiências internacionais,
panhar por alguns meses essas famílias na nova moradia. formatar uma política para assentamentos precários. Esta política
Pelas características de elevada vulnerabilidade da popu- está associada a um trabalho social forte, por isso, é preciso que o
lação que vai morar nessas áreas, avaliamos que é preciso en- governo reconheça a necessidade de financiá-lo, já que o municí-
volver mais o poder público nesse desafio, no sentido de que a pio não tem condição de assumir. Isso, por sua vez, nos coloca um
própria prefeitura seja protagonista no processo de implemen- novo desafio, que é preparar gestores sociais para fazer gestão de
tação desses novos conjuntos. recursos, uma das preocupações dos próprios técnicos. Eles estão
É a primeira vez na história da política habitacional do Brasil acostumados a lidar com a comunidade, mas não a fazer a gestão
que se produz em larga escala de um volume de recursos que, às
para pessoas de baixa renda. O A sustentabilidade de uma vezes, chega a quantias bastante
BNH [Banco Nacional de Ha- consideráveis. Nós temos obras de
bitação, criado em 1964] foi uma
intervenção está relacionada 150 milhões, 200 milhões, e 2,5%
experiência importantíssima, Ele com a capacidade do é a parcela destinada ao trabalho
nasceu para produzir habitação
de interesse social, mas conseguiu
trabalhador social inserir social, um valor alto para ser ge-
renciado. Hoje temos um amadu-
atender a classe média baixa, no outros atores municipais e recimento e uma convicção de que
máximo. Já o Minha Casa, Minha estaduais na comunidade o trabalho social é um componente
Vida, como a primeira experiên- indissociável da política de habita-
cia, tem uma responsabilidade ainda maior de ter que dar certo. O ção, em geral, e fortemente da política de urbanização de favelas.
trabalho social é um componente importante para que isto acon-
teça, com a preocupação de levar essas famílias a compreender o Sobre a formação do trabalhador social, quais ele-
que é viver nessa nova condição. Lembrando que a prioridade de mentos ele deve incorporar, além de ser um gestor
atendimento do Minha Casa, Minha Vida é para famílias que estão de recursos? Ele tem que ser um articulador com
em áreas de risco e, portanto, em condições muito precárias, onde outras secretarias?
a informalidade é absoluta, desde o fornecimento da água até o da Essa é uma questão fundamental. Temos um vício institu-
energia. Levamos essas famílias para uma residência formal e, em cional de que se propusermos um trabalho de educação na co-
boa parte, verticalizada, por conta da necessidade e da dificuldade munidade, ele terá que ser desenvolvido no âmbito do projeto.
de conseguir terra, principalmente nas grandes cidades. Isso não é verdade. A sustentabilidade de uma intervenção está
A família terá de pagar a prestação da casa, uma prestação relacionada com a capacidade de quem conduz o trabalho social
simbólica, que nós acreditamos que é importante para promo- na comunidade ser capaz de inserir outros atores municipais e
ver o sentimento de pertencimento, mas além dela há também estaduais, além de promover a articulação necessária para que
contas de condomínio, água e luz, ou seja, a família sai de uma a comunidade esteja fortalecida e com os vínculos necessários
absoluta informalidade e passa a ter, de repente, que desembol- com o poder público. No caso dos projetos habitacionais, esta-
sar a prestação. Isto nos preocupa. mos falando de trabalho de pós-ocupação de seis meses a um
A estratégia de trabalho social deve contemplar essa preocupa- ano, mas, depois disso, a comunidade precisa continuar sendo
ção. O ponto fundamental da questão do trabalho social é o de dar objeto de ações articuladas para garantir a sustentabilidade a
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Entrevista
longo prazo. O bom trabalhador social é aquele capaz de dese- as prefeituras que investiram em ter projetos foram, em grande
nhar bons projetos, mas sobretudo capaz de articular políticas parte, atendidas. Nós estamos quebrando a cultura de que “eu só
que estão disponíveis no município, no governo estadual e fe- invisto em projeto se eu tiver recursos”.
deral para tornar aquela comunidade mais forte e melhorar a
potencialidade daquelas famílias. Como se resolve isso? Porque, em geral, as prefeituras
que construíram esse espaço para a produção de proje-
Na relação com os municípios, há casos em que tos são as mais preparadas e criam, inclusive, um corpo
existe um conceito básico de como se deve realizar para a produção de projetos.
o trabalho, inclusive porque em alguns lugares ele Nós temos mecanismos de proteção. Fazemos uma distribuição
ainda é feito de uma forma que não permite a par- regional, evitando que migrem recursos do Nordeste para o Su-
ticipação popular. Como trabalhar essa articulação deste, porque o Sudeste tem mais projetos. Fazemos o melhor na
com governadores e prefeitos? distribuição dos recursos com base nas potencialidades do local e,
Nós temos uma frase que é: “O planejamento é tão bom quanto além disso, no último ano, abrimos uma linha de financiamento de
quem o conduz”. A questão é que não existe desenho de progra- projetos para que as prefeituras possam fazê-los e depois obterem
ma ou de projeto que seja capaz de resultar em bons projetos. Os recursos para a sua execução. É uma aposta para diminuir o tempo
bons projetos são produtos das circunstâncias, dos atores que os entre a apresentação do projeto e a entrega do produto final às famí-
conduzem. Isso porque muitas vezes o projeto começa errado e a lias, o que é o grande objetivo.
comunidade vai para cima e consegue reverter e alterar o rumo, não Temos trabalhado com uma cultura cuja importância é conse-
só do desenho do projeto, mas da construção política. Na verdade, guir recursos, fazer com que a obra seja viabilizada rapidamente
a nossa aposta não é só nos projetos específicos, mas sim fortalecer para atender o beneficiário final. Nós temos em curso, no País,uma
a comunidade e ampliar a participação. reestruturação institucional muito forte no setor habitacional.
É uma questão difícil, porque estamos falando de um país fede- Quando chegamos em 2003, havia duas coisas a fazer: uma, era
rativo em que os municípios têm autonomia para as suas políticas. rever os programas no sentido de focalizar os recursos, que, naque-
O que nós fazemos são amarrações de funcionalidades no desenho le momento, não eram tão grandes para a camada de baixíssima
do programa, existe um contrato de repasse de recursos, mas não renda; e a outra, era refazer o desenho institucional da área habita-
resolve tudo. Temos casos em que, no meio da implementação de cional. Não há política pública que se materialize e se consolide sem
um projeto, é preciso buscar uma repactuação política com as co- que haja uma institucionalidade. Isso se deu com a Educação, com a
munidades e o governo local. Saúde, com a Assistência Social... Apostamos que deve haver uma
Muitas vezes, uma condução começa enviesada, e a própria co- institucionalidade, no município e no estado, que se ocupe desse
munidade e os movimentos sociais conseguem fazer com que ela tema. Neste sentido, evoluímos bastante.
se restabeleça em um patamar mais adequado. Agora, não existe Tínhamos, em 2004, uma pesquisa entre municípios, que
um processo perfeito. Isso vai sendo conduzido como um produto apontava que 20% deles tinham alguma institucionalidade para
do aprendizado, cada iniciativa é uma equação sempre complexa tratar de habitação. E, normalmente, essas áreas eram ligadas às
cujas variáveis produzem resultados diferentes. Muitas vezes, o primeiras-damas. De acordo com a última pesquisa municipal
problema não é a falta de disposição da prefeitura em consultar que fizemos, hoje isso chega a quase 70%. Os recursos conce-
a sociedade, mas sim a disparidade entre os tempos políticos e didos com fins específicos e a existência do Fundo Nacional de
os processos sociais. Por isso, temos reforçado a importância da Habitação de Interesse Social e do Sistema Nacional fazem com
previsibilidade de recursos anual, ou para cada dois anos. Haverá que o governo federal seja um indutor das políticas locais. Essas
um processo de seleção possibilitando a apresentação propostas, políticas vão se materializando e constituindo uma rede necessá-
e elas devem ser contempladas. Hoje, eu me atreveria a dizer que ria para implantar uma política pública dessa envergadura.
Arquivo/Ministério das Cidades

Via Mangue - Recife (PE)


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Os próximos desafios são incrementar a qualidade desses do governo, desenhar esta ação com base em um território e estabe-
atores e melhorar os projetos. Nós temos um conjunto de atores, lecer uma matriz de políticas específica para cada um deles. Assim,
não são somente o poder público e as comunidades, mas tam- é possível reconhecer se um território tem uma característica de fra-
bém a iniciativa privada. É preciso promover a eficiência nos gilidade em relação à segurança ou de potencialidade de alguma
processos de industrialização da produção, gerando economia atividade cultural ou econômica que pode ser reforçada.
de material nos processos e com desenhos sustentáveis sob o Nós vivemos, num certo sentido, num paradoxo: estamos cada
ponto de vista econômico, social e ambiental. vez mais desenvolvendo tecnologias que nos permitem fazer esse
tipo de leitura, mas ainda não temos nem um modelo abrangente,
Como são pensados esses projetos de habitação popular nem o poder público suficientemente reforçado para implementá-
para que incorporem lazer e outros serviços às popula- las massivamente no Brasil. Há cidades com maior ou menor
ções que estão sendo atendidas? expertise em determinadas áreas, mas é um desafio do próximo
Um bom projeto é aquele que consegue dar resposta a to- governo promover um trabalho de assistência técnica aos muni-
das as carências que o diagnóstico da comunidade apresenta. cípios que seja capaz de levar a sua capacidade de intervenção no
Se não tem creche, faz creche; se não tem uma área de lazer, território, capaz de planejar a sua ação de maneira mais efetiva.
faz uma área de lazer. Para nós, esse é o bom projeto, inclusive Isso tem a ver com recurso, mas não só. O recurso é uma dimen-
construindo áreas em que possa haver atividades de geração são importante, fundamental, mas ele sozinho não resolve se não
de renda, uma cooperativa, por exemplo. houver um ator local suficientemente preparado.
Na questão do Minha Casa, Minha Vida qual é o desafio?
É também incorporar, nos conjuntos habitacionais, as varian- Nesse sentido, a participação da comunidade é impor-
tes e as necessidades locais. tante no diagnóstico de suas necessidades locais?
Costumo brincar que os intelectuais têm só o dilema, e O repertório para se fazer esse tipo de trabalho tem que ser
nós temos que ter o dilema hoje e a decisão, amanhã. Temos melhorado. Muitas vezes, o município diz que não tem dinheiro
que pôr uma regra que valha para pagar, mas é possível usar
para o País e que, ao mesmo Um bom projeto é metodologia de autocadastramen-
tempo, leve em consideração a
variação regional. É importan-
aquele que consegue to para se fazer um diagnóstico.
É uma experiência muito interes-
te ter área comercial, ter área dar resposta a sante, porque ela tem uma dupla
de lazer etc., mas nem as nos-
sas cidades hoje têm tudo jun-
todas as carências que função: além de fornecer a infor-
mação para aquela comunidade,
to ao mesmo tempo. O padrão o diagnóstico da pode funcionar como um profundo
estabelecido para um conjunto comunidade apresenta instrumento de mobilização, de co-
habitacional tem que dialogar nhecimento e surgimento de novas
com um padrão estabelecido na cidade, sob pena de o con- lideranças. Quando se coloca o conjunto da comunidade olhando
junto ficar atrativo para a classe média. para ela mesma, há um grau de confiabilidade desses dados, mui-
tas vezes, maior do que um levantamento feito pelo pesquisador.
A violência é um complicador nas intervenções. Há índi- O autorrecenseamento é um mecanismo que pode funcionar
ces da diminuição desse impacto após as intervenções? bem, mas sobretudo porque é também um fator de mobilização da
Temos um impacto mensurado do programa como um todo. Há comunidade, um fator fundamental para gerar um bom empreen-
indicadores de melhorias da violência, mas não temos tempo sufi- dimento, por meio de um bom desenvolvimento de projeto: ter uma
ciente com uma intervenção que nos permita dizer o que realmente comunidade que consiga entender o que vai acontecer com ela, o
diminuiu. De qualquer forma, há experiências internacionais, como que está acontecendo e que possa intervir nisso. Não se consegue
as colombianas, que trazem indicadores e apresentam um caminho. fazer isso sem que ela esteja minimamente sensibilizada.
Hoje, no tema da segurança pública, não dá mais para pensar A obra tem o papel de alterar o meio físico. Mas ela sozinha não
que os municípios não têm nenhum papel. Essa é uma questão que melhora a qualidade de vida das pessoas. O fato de construir uma
o Pronasci [Programa Nacional de Segurança Pública com Cida- praça, em si, não altera. As intervenções, em si, não alteram. É pre-
dania] trouxe também, por sua vez, fruto de um certo amadureci- ciso sempre levar em consideração a realidade local. Por exemplo,
mento das relações que incorporam o município como um ator im- numa determinada comunidade havia uma quadra esportiva com-
portante na segurança pública. A questão da integração da polícia pletamente destruída, e decidiram fazer uma quadra maravilhosa,
é sempre um tema complexo, difícil de implementar, por questões com iluminação e cercada. Porém naquele entorno só havia famílias
de várias naturezas, mas acho que esse é o caminho. A dimensão com crianças pequenas. A quadra gerou um transtorno para aque-
do território é pouco incorporada nas políticas públicas em geral, las famílias, porque aquilo não tinha nada a ver com aquele períme-
mas cada vez mais ela deve ser incorporada, para focalizar a ação tro. O que eles precisavam ali era de um playground.
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Balanço

Investimentos em habitação
impulsionam trabalho social
Com PAC e Minha Casa, Minha Vida,
atividade ganha escala, mas ainda
é preciso garantir a participação da
comunidade e estender o trabalho
social além da intervenção física

N
a última década, o trabalho dão”, destaca Evaniza Lopes Rodrigues,
social em intervenções ha- da União Nacional de Moradia Popular.
bitacionais ganhou visibi- Somente com o Programa de Acelera-
lidade e reconhecimento. A ção de Crescimento (PAC 1), lançado em
valorização é fruto de um processo, que 2007, R$ 235,5 bilhões foram destina-
teve início com a criação do Ministério dos para a construção de moradias para
das Cidades, em 2003, e foi incorporada a população de baixa renda e a urbani-
às discussões sobre uma nova Política zação de favelas. Esse valor foi 121%
Nacional de Habitação (PNH). No ano maior do que o previsto no lançamento
seguinte, a PNH foi aprovada, sendo do programa. O PAC 2 terá a habitação
legitimada com a criação do Sistema e como uma das áreas prioritárias. Para
Fundo Nacional de Habitação de Inte- o período de 2010 a 2014, está prevista
resse Social (SNHIS/FNHIS), em 2005. a construção de 2 milhões de moradias,
Posteriormente se estabeleceu a aplica- sendo que 1,2 milhão para famílias com
ção de, no mínimo, 2,5% do valor do in- renda de até R$ 1.395, nos moldes do
vestimento para ações de participação, Programa Minha Casa, Minha Vida,
mobilização e organização comunitária, lançado em 2009. Estima-se que, hoje,
educação sanitária e ambiental e ativi- o volume de recursos destinado ao tra-
dades ou ações de geração de trabalho e balho social (TS) corresponda a cerca de
renda para a população atendida. R$ 500 milhões. Todos esses investimen-
O reconhecimento de parte das ver- tos deram escala ao trabalho social, que
bas para esse fim se deve à concepção da se consolida no País.
PNH, que não se restringe à entrega da
casa ao cidadão, mas busca garantir que Além da obra física
as pessoas tenham o direito à cidade. O Para Evaniza, atualmente o trabalha-
trabalho social pretende, assim, incor- dor social está diante de “uma escala iné-
porar o direito ao saneamento ambien- dita”. Segundo ela, que também é mem-
tal, ao transporte e a outros serviços. bro do Conselho Nacional das Cidades,
Também busca um modelo de trabalho, hoje há uma diversidade de programas,
participativo e democrático, pelo qual a projetos e possibilidades de atuação. “A
população se envolve no projeto. “Quan- intervenção física busca diminuir as de-
do falamos do direito à moradia, esta- sigualdades. O trabalho social está junto
mos falando do direito a ter um lugar na nesse processo não só para tirar a aparên-
cidade, um lugar de verdade, como cida- cia de favela, mas o conceito de favela. Não
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adianta urbanizar a área se a vizinhança De acordo com Evaniza, o trabalho Vontade política
continuar falando que ali é a favela. Traba- social não se esgota com o fim da inter- Na opinião de Margareth Coelho, da
lhamos com uma perspectiva de processo venção física, mas é preciso observar Prefeitura de Vitória (ES), o PAC “deu um
em que é fundamental a obra física, mas como a comunidade vai continuar se choque nos municípios”. Para ela, com o
que vai muito além disso, trata-se de inser- relacionando com as políticas públi- programa, as cidades puderam exercitar
ção nesse território, de uma apropriação cas como um todo. Apesar dos avan- o enfrentamento à pobreza. Daí surgiu
pelas comunidades”, ressalta. ços nesse sentido, ela ainda reconhece um dilema: qual é o papel do trabalhador
a existência de práticas autoritárias e social? Margareth chama de “educadores

Divulgação
clientelistas: “Em alguns lugares, hoje, de governo” os técnicos e gestores com-
quando se fala que se vai urbanizar prometidos com os processos de transfor-
uma favela, as pessoas sentem medo de mação social para a promoção da cida-
perder a casa, de ser removida.” dania. “Educadores de governo, porque
A Política Nacional de Habitação, enfrentar a pobreza urbana ou enfrentar
conforme a conselheira, criou instâncias a pobreza de forma geral não é enfrentar
de participação para evitar que a inter- só a falta de renda, são múltiplos os fato-
venção seja de “cima para baixo”. Como res da exclusão. E a equipe de campo não
Ela explica, não há como trazer projetos dá conta se não tiver a vontade política
prontos e tentar, simplesmente, encaixar de governo de, realmente, resgatar essa
as famílias. “Às vezes se trabalha com a dívida social”, explica.
perspectiva de que as famílias não se en- De acordo com Margareth, cada
caixam no ideal de moradia idealizado município tem um arranjo, uma capaci-
pelo projeto”, diz. tação e, até, um endividamento diferen-
Mas, muitas vezes a própria equipe não ciado. “Mas todo município brasileiro
respeita a maneira que a população vive, tem, hoje, uma necessidade de inter-
informa Evaniza. Como exemplo, ela cita, venção rápida.” Ela ressalta que atual-
intervenções em comunidades que se for- mente é possível casar a oportunidade
maram ao redor de um terreiro ou um tem- de obter recursos com a vontade polí-
plo, e depois da obra não há espaço para tica de fazer as transformações sociais.
esse local com que a comunidade se rela- “Agora, nossa grande discussão pas-
ciona. Há ainda a questão das atividades sa, por trabalharmos a habitação como
econômicas desenvolvidas pelos próprios uma questão do conjunto das políticas
moradores: “Muitas vezes, não consegui- sociais”, salienta. Conseguir fazer com
mos traduzir isso para a equipe física, que que a gestão municipal compreenda essa
deve ter, sim, projetos que contemplem diferença, para ela, facilita o processo
esses aspectos com um diagnóstico do que político de integração. “A integração das
as famílias fazem ou querem fazer.” instâncias de governo, da União, estados
Em contraposição à lógica autoritária e municípios, é que, de fato, vai fazer es-
nas intervenções, Evaniza defende pro- sas transformações acontecerem de for-
cessos transparentes e democráticos. O ma mais acelerada”, analisa. Mas essa
controle social, portanto, é fundamental. integração, segundo Margareth, deve se
Ela ainda destaca a importância do for- mostrar presente. Para ela, é inadmissível
talecimento da organização popular da haver um município com obras do PAC
comunidade que está passando pela in- em um território selecionado e o Pronasci
tervenção, bem como da sua articulação estar em outro lugar. “Temos que hipe-
com outros fóruns, outras redes, outras rativar esses territórios”, diz. “Costumo
comunidades. “É atuação em escala, uma falar que é junto e misturado, porque jun-
atuação com muitas obras acontecendo to e separado não se provoca as grandes
e com muitos recursos envolvidos, que mudanças esperadas.” Em sua opinião,
pode dar um salto de qualidade também o desafio do trabalhador social é fazer a
nas organizações populares e dos traba- discussão da habitação como um direito
lhadores, o que também é um grande ob- de moradia digna, mas articulado com o
jetivo das políticas públicas”, avalia. conjunto das políticas sociais.
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Balanço
Segundo Inês Magalhães, secretá- diversidade, qualidade e aderência do ção de trabalho e renda, mas hoje eles
ria Nacional de Habitação, o próximo TS aos problemas específicos de cada são suficientes para lidar com a com-
passo é que “os avanços conquistados uma das cidades”. “Costumamos tra- plexidade de nossos assentamentos?”,
do ponto de vista institucional e de in- balhar com os três eixos, mobilização, questiona Inês. (Leia entrevista com a
vestimento se reflitam em uma melhor educação sanitária e ambiental e gera- secretária na página 6.)

Estudos de caso
Conforme Villarosa, equipes sociais
“Programas integrados são portas qualificadas, motivadas e multidisci-

de entrada de combate à pobreza” plinares são um fator de sucesso dos


programas. Por outro lado, nota-se
a falta de inovação metodológica, às

O
consultor Francesco di Villarosa cadastramento, abertura de frente de vezes, com a tendência de repetir os
apresentou resultados de estudos obras, acompanhamento dos reassen- mesmos instrumentos em contextos di-
de caso realizados em Manaus, tamentos, entre outras atividades, que ferenciados. Além disso, vale lembrar
Belém, Aracaju, Vitória, São Paulo, Curi- são as mais pesadas e as principais do que o trabalhador social se depara com
tiba, Rio de Janeiro e Baixada Fluminense. trabalho social. “Esse é o eixo mais con- problemas contantes nas comunidades,
Financiado pelo Banco Interamericano de solidado e sistematizado no País”, diz. O como o choque entre a burocracia e a
Desenvolvimento (BID) e pela Aliança de segundo eixo busca promover a articula- informalidade, a dificuldade no uso dos
Cidades e com coordenação de Villarosa, o ção intersetorial para promover o desen- espaços coletivos, em relação à convi-
trabalho focou os componentes sociais dos volvimento local e a inclusão social, e ul- vência e às regras condominiais, entre
projetos, e também a dimensão urbanístico- trapassa a intervenção física. Já as ações outras, e, por fim, a disposição do lixo.
arquitetônica e a institucional. do terceiro e quarto eixos, muitas vezes, Villarosa destaca que programas in-
Analisando o TS realizado nos progra- estão interligadas. “Na medida em que se tegrados são “portas de entrada para
mas, Villarosa identificou quatro eixos de busca o fortalecimento das organizações, combater a pobreza”. De acordo com
atuação: trabalho social em apoio à in- pretende-se também que elas tenham ele, as ações do trabalho social devem
tervenção física; ações de setores sociais mais voz e que possam, portanto, con- estar inseridas em políticas sociais lo-
visando à inclusão social e/ou ao desen- tribuir e participar mais ativamente do cais, seja da prefeitura ou do estado.
volvimento local; fortalecimento das or- planejamento e da gestão dos programas. “As equipes sociais não devem condu-
ganizações da sociedade civil; fomento à Podemos falar de um terceiro e único eixo zir determinadas ações de forma iso-
participação da comunidade. ligado ao fortalecimento do capital social lada das políticas sociais, mas o pro-
O consultor explica que o primeiro local e ao empoderamento das entidades grama pode ser o eixo catalisador das
eixo concentra as ações de mobilização, e da própria comunidade”, ressalta. diferentes políticas”, afirma.
Cities Alliance

São Paulo (SP)


12
Nos estudos, o consultor observou É preciso dar um Pontos críticos
que as demandas sociais, normalmente, Por intermédio de grupos focais rea-
são capturadas no trabalho de campo, salto de qualidade lizados em algumas cidades brasileiras,
seja na fase do cadastro, ou nos cons- no sentido de financiados pelo Banco Mundial, foram
tantes contatos estabelecidos entre as
equipes e a população. Entretanto, mui-
uma maior levantados diversos pontos críticos do
trabalho social. O primeiro, é a sua inte-
tas vezes, a própria equipe não consegue profissionalização gração com a intervenção física. “Imagi-
solucionar a demanda, que acaba sendo
encaminhada às respectivas secretarias
do trabalhador namos um programa como uma cadeia
de produção, onde há uma sequência de
setoriais municipais ou do estado. Isso social. Por ações, às vezes essa cadeia não está inte-
causa atrasos e corre-se o risco, diz outro lado, há grada. Tem-se um tempo da ação social;
Villarosa, de a demanda ser “mastigada um tempo da elaboração do projeto; um,
dentro da burocracia, sem conseguir dar necessidade da própria obra; um, da fiscalização e
uma resposta em tempo útil”. Ele reco- de detalhar quais outro, da regularização fundiária, que
menda aos gestores tentar descentrali-
zar e desburocratizar o que for possível.
são os produtos não coincidem. A sequência é interrom-
pida. Em muitos casos, falta integração
Trata-se de um desafio, afinal, a in- desse trabalho organizacional”, sustenta.
tersetorialidade rompe com uma tra- Por outro lado, experiências que
dição consolidada no setor público de encontraram emprego, quanto tempo conseguiram criar cadeias com sequ-
setorização e verticalização do modus levaram para isso ou se abriram sua ências foram bem-sucedidas. Na área
operandi. “Em muitos casos, é interes- própria empresa. “Pequenas amostras de geração de trabalho e renda, por
sante começar em pequena escala, ou seriam importantes para criar uma exemplo, há êxito, quando além de cur-
seja, em vez de articulação com muitos cultura de monitoramento”, analisa. sos profissionalizantes e apoio a coope-
setores ao mesmo tempo, começar com rativas, os projetos foram concluídos
aqueles que têm uma presença mais for- Capital social também com o apoio à comercialização.
te no território para atender algumas Villarosa relata que, nos estudos, “Essa é uma tarefa que necessita de
das demandas que são prioritárias. Des- foram registrados muitos casos de um trabalho social intensivo e de longo
sa forma, ganha-se visibilidade, cria-se sinergia entre o fortalecimento das prazo, de aproximadamente uma déca-
consenso e massa crítica para poder, de- organizações e o fomento à participa- da”, diz Villarosa.
pois, expandir a articulação.” ção da comunidade. Em alguns, essa Como em outros aspectos do TS, no
Outra maneira de promover a inter- associação foi positiva, criando novas caso da geração de trabalho e renda, a
setorialidade é incentivar as secretarias lideranças e espaços de participação. intersetorialidade também é fundamen-
setoriais a se articularem com o progra- Em outros, porém, houve a ocupação tal. Mas ele alerta: “Não é o trabalho
ma de urbanização. Os incentivos po- das instâncias por associações locais, social que promove a intersetorialidade,
dem ser desde equipamentos sociais, reproduzindo práticas personalísticas esta já deve ser parte do programa de
como escolas e unidades de saúde, até entre elas e o poder público. Villarosa governo da prefeitura.” Villarosa des-
ações de fortalecimento institucional, sugere alguns padrões mínimos a se- taca que é fundamental que o plano de
por exemplo, capacitações. rem respeitados nessa área, ligados à desenvolvimento local seja elaborado
Villarosa ressalta que, normalmen- transparência de representatividade em conjunto com todos os setores, e não
te, as ações de geração de trabalho e e democracia, inclusive colocando-os apenas pela equipe social da Habitação.
renda tendem a ser pontuais, com di- como condicionantes para investimen- Outro ponto levantado pelo estu-
ficuldades de alcançar escala e susten- tos e liberação de recursos. do é sobre quem faz o trabalho social.
tabilidade. “É uma área em que é pre- “Esse é um processo de longo prazo”, Conforme Villarosa, há casos em que a
ciso trabalhar com diagnósticos mais avalia. De acordo com ele, foram vistas equipe é contratada pelo mesmo órgão
rigorosos das vocações e dos mercados situações com grande participação da que executa a obra e há outros casos de
locais.” Ele relata que, normalmente, população, mas, com a conclusão do terceirização e de situações mistas. Das
são capacitados milhares de trabalha- programa, ela foi se diluindo e até desa- análises, algumas lições foram levanta-
dores da comunidade, porém, rara- parecendo. Nesse ponto, a articulação das: “A terceirização pode ser apoio, não
mente é feito um levantamento sobre do programa de urbanização com as po- referência. A referência deve ser uma
o que aconteceu com as pessoas que líticas públicas locais é positiva, princi- equipe da prefeitura ou do estado.” Em
receberam a qualificação profissio- palmente as que tenham instâncias ins- caso de terceirização, ele entende que só
nal. Não se sabe se os trabalhadores titucionalizadas de participação. funciona quando há uma seleção e uma
13
Arquivo/Ministério das Cidades
Morro das Pedras - Belo Horizonte (MG)

supervisão adequada. “Registrou-se, Villarosa considera que são neces- exatamente porque na linha de frente
em muitos casos, a falta, no mercado, de sárias mudanças também na parte de está a equipe social”, completa.
recursos humanos capacitados para o diagnósticos e uso da informação na O último ponto crítico levantado é a
trabalho social na área de habitação de elaboração de relatórios. Ele concorda questão da violência, que, diz Villarosa,
interesse social”, comenta. com a tese de que inovações metodo- representa um obstáculo ao trabalho so-
A formação do trabalhador social e lógicas são bem-vindas, como o auto- cial. Muitas vezes a equipe é impedida
as competências necessárias, mudaram. cadastramento e diagnóstico rápido de entrar na comunidade em determi-
Atualmente, Villarosa avalia que faltam participativo, com a conscientização nados horários e dias da semana. Mas
conhecimentos e práticas gerenciais às das comunidades sobre a importância além de prejudicar o trabalho em si, a
equipes sociais. “A função da equipe gerarem e gerirem informações como população é intimidada a participar.
não é somente a interação com a popu- um meio para criar lideranças. Ele ressalta que há experiências promis-
lação, o atendimento, mas a gestão de A pós-ocupação foi outro item discu- soras de articulação com a segurança
processos e recursos.” tido nos grupos. Villarosa destaca, no- pública. “Vimos algumas situações com
Para ele, é preciso dar um salto de vamente, a importância da intersetoria- as quais a equipe social conseguiu lidar.
qualidade no sentido de uma maior pro- lidade: “A articulação com as políticas Claro que não resolveu o problema, mas
fissionalização do trabalhador social. Por locais é algo que deveria começar antes pelo menos se conseguiu avançar com o
outro lado, há necessidade de detalhar do início do projeto, mas que é absolu- trabalho, com a obra e, de alguma for-
quais são os produtos desse trabalho. tamente vital que seja efetivada depois ma, beneficiar a população”, conta.
“Em muitos casos, o TS se limita a criar da conclusão da pós-ocupação para ha- Para isso, Villarosa pontua algumas
um ambiente favorável para as ações de ver continuidade.” Nesse ponto, fica a condições que permitiram a atuação:
urbanização. Não que isso não seja im- questão: até onde vai a responsabilidade a existência de lideranças locais enrai-
portante, muito pelo contrário. Mas, pode do trabalho social na pós-ocupação? De zadas e não cooptáveis; intimidade da
faltar nisso uma visão de desenvolvimen- acordo com ele, há uma “tendência de equipe social com a área; uma equipe que
to de longo prazo e de ampla escala. Isso considerar como tarefa do social a ‘tu- tenha capacidade de negociação. “Com
tudo indica, provavelmente, a necessida- tela’ indefinida da comunidade”. “Cla- essas condições, provavelmente, mesmo
de de algumas mudanças na estrutura ro que tem que contribuir, mas existem em situações de elevada violência, as
curricular dos cursos universitários e ne- responsabilidades institucionais de ou- equipes sociais podem conseguir avançar
cessidade da educação continuada.” tros setores, que muitas vezes se retiram no trabalho”, finaliza.
14
Direito à moradia

Mais que uma casa


Intervenções habitacionais buscam garantir o acesso
a direitos sociais e integrar assentamentos à cidade.
Para isso, há uma série de etapas a serem cumpridas,
que se iniciam com a elaboração de um plano,
envolvendo a questão física, fundiária e social
Arquivo/Ministério das Cidades

Londrina (PR)

A
moradia foi alçada a direito dadão tem acesso a outros bens e serviços, “A periferia é geograficamente compos-
social, em 2000, pela Emenda tem direito à cidade como um todo. ta pelas áreas que ficam nas extremidades,
Constitucional 26, somando-se Com 84% da população do País viven- mas no Brasil está ligada à condição social
aos outros direitos listados no do em áreas urbanas (Censo 2010), é cada e material”, define Maria da Conceição
artigo 6º da Constituição Federal. A mora- vez maior o número de intervenções de habi- Freitas, da Central Única das Favelas
dia também é considerada um direito fun- tação nas cidades, incentivadas por progra- (Cufa). As favelas são fruto da desigual-
damental da pessoa humana, constando na mas como o PAC. O objetivo é fazer valer dade social, que leva pessoas a espaços
Declaração Universal dos Direitos Huma- esse direito, dando dignidade a quem mora desprovidos dos outros direitos sociais, as-
nos de 1948. No Brasil, a Política Nacional em habitações precárias. As Nações Unidas sim, para Maria da Conceição, quando se
de Habitação considera que esse direito vai estimam que aproximadamente 26% da po- pensa em desigualdade, “é preciso validar
além de uma casa para morar. O verdadeiro pulação urbana brasileira vive em favelas, a comparação entre os diferentes espaços
direito à moradia se concretiza quando o ci- em geral nas periferias das cidades. sociais e territoriais de uma cidade”.
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habitacionais em assentamentos pre-

Arquivo/Ministério das Cidades


cários é a regularização fundiária, ga-
rantindo o acesso a serviços nos novos
reassentamentos. Na opinião de Clau-
dius Vinicius Leite Pereira, da Compa-
nhia Urbanizadora de Belo Horizonte
(Urbel), é preciso intervir qualitativa-
mente, ou seja, dentro das vilas e fave-
las, “recuperando esses espaços para a
moradia, no sentido de manter as vilas
onde estão”. A exceção é quando as
comunidades estão em áreas de risco.
Geralmente, lembra ele, os habitantes
têm atividades ligadas à comunidade.
Para garantir o direito à moradia é
preciso intervenções estruturais, com
medidas que deem sustentabilidade e
recuperem o espaço urbano. “Precisa-
mos promover transformações profun-
Sururu do Capote - Maceió (AL) das em um assentamento existente e
integrá-lo à cidade, reconhecê-lo como
cidade. A arquitetura deve acompa-
As favelas, como afirma a ativista, candidatos a visitam como curral eleito- nhar esse conceito”, explica Claudius.
“são aglomerados habitacionais, com dis- ral; instâncias de poder muitas vezes não “Encaramos isso como um direito cons-
posição visivelmente irregular e desprovi- a enxergam; a classe média a estigmatiza, titucional. Nós estamos construindo
dos de acessos básicos que determinam a como uma ameaça à sua paz, e os favela- cidadãos, nosso objetivo é que as pes-
qualidade de vida”. Em qualquer região dos a veem como alternativa de moradia soas se emancipem”, finaliza.
do País, elas apresentam as mesmas ca- distante do asfalto.” Milton Botler, da Prefeitura de Reci-
racterísticas, ou seja, a mesma realidade Maria da Conceição vai fundo na fe, chama a atenção para o fato de que
socioeconômica. “O abandono, o descaso crítica e analisa que uma minoria bene- as pessoas das áreas de assentamentos
e as ausências fazem desses espaços luga- ficiada da sociedade brasileira, abastada encontram-se numa situação de margi-
res com altos índices das mais variadas materialmente, reproduz a grande con- nalidade. É um desafio para o trabalha-
formas de violência”, afirma. tradição que contorna as zonas periféri- dor social, que, como ele destaca, muitas
A principal consequência, segundo cas. “As favelas, com seus becos e vielas, vezes se depara com problemas relacio-
Maria da Conceição, é a contradição des- são fruto de uma construção social que nados ao vício, como o alcoolismo. Daí a
ses espaços, pois ao mesmo tempo em que segregou a pobreza à margem da socieda- importância do preparo da comunidade
são vistos como fora do padrão de norma- de, como forma de mantê-la distante para antes da intervenção e no acompanha-
lidade, o padrão de quem vive neles é nor- a manutenção da ordem social e assegu- mento após a mudança. “Até que pon-
malizado. Os estigmas negativos prevale- rar riqueza de poucos”, dispara. to ele [o trabalhador social] tem uma
cem em relação à dignidade. De acordo com Maria da Conceição, dimensão mesmo do cotidiano ou uma
“A favela abarca sujeitos anônimos, é preciso superar a ideia de favela como pretensão de ensinar as pessoas a viver
desfavorecidos, em total invisibilidade e um contraponto da cidade. Ela remete a de forma diferente?”, questiona Botler.
nivelados horizontalmente como iguais. Roma antiga para indicar um caminho Mas ele reconhece que, na verdade, é
São escravos da contemporaneidade, em nesse sentido. “Lá, a condição para ser uma situação conflituosa para o traba-
contínuo processo de negação da sua cida- cidadão estava ligada à posse da terra. lho social, pois a intervenção implicará
dania”, diz. Para Maria da Conceição, a Quem não possuía a terra era destinado uma mudança. “Nem sempre isso se dá
favela é vista sob diversos olhares: “A aca- à escravidão”, explica. de uma forma saudável ou amigável.”
demia faz cortes para dialogar com as fon- A capacitação para o trabalho, confor-
tes e pressupostos teóricos; a força policial Integração para evitar me Botler, também deve fazer parte do rol
a vê como um espaço para aplicar repres- cidades partidas de programas para fazer valer o direito à
são; o crime organizado nela atua como Na contemporaneidade, um dos cidade. “As pessoas têm que se integrar
território de disputa de facções; alguns grandes desafios das intervenções na sociedade e na cidade”, entende.
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Territórios e vulnerabilidades

Rompendo as barreiras
da desigualdade
“E
Habitações precárias compõem stamos num contexto de
mundo globalizado, cuja
o cenário de grande parte do marca é a desigualdade. É
Hemisfério Sul. Integrar essa desse cenário que estamos
falando quando se trata da questão do
enorme população é o desafio trabalho social na política de habitação
das políticas públicas no nosso País.” Assim a assistente social
Dirce Koga, doutora em serviço social pela
PUC/SP, contextualizou onde se inserem
os diversos programas desenvolvidos
Morro do Alemão - Rio de Janeiro (RJ)
no Brasil. Para ela, é preciso observá-los
numa visão de totalidade, onde os casos
estão inseridos, e não o contrário.
A professora faz uma reflexão sobre a
raiz do problema habitacional. Famílias
que vivem em morros, em áreas de risco,
em condições precárias, sujeitas a todas
as intempéries, enquanto outras residem
em mansões de luxo. Dirce cita Ladislau
Dowbor, economista, doutor e professor
da PUC/SP. Ele destaca que os 20% mais
ricos do planeta concentram quase 83%
das riquezas do mundo. Para dois terços
da população mundial, restam 16% das
riquezas, o que produz uma intensa con-
centração de populações em determinados
territórios, e com as mudanças climáticas,
os mais pobres serão mais prejudicados
por seus impactos.
“Um terço dos nossos moradores das
áreas urbanas sociais, cerca de 1 bilhão
de pessoas, se encontra em situações de
extrema pobreza e morando em assenta-
mentos precários”, afirma Dirce. No caso
do Brasil, ela aponta desafios específicos
para políticas públicas, como a dimensão
continental do país, a diversidade regional
Arquivo/Ministério das Cidades

e cultural e a alta desigualdade social.


Diante desses desafios, Dirce observa
a existência de distâncias ou descone-
xões. A primeira, é entre a política pú-
blica e o cotidiano do território. “Vivemos
17
Cities Alliance
São Paulo (SP)

uma síndrome entre o telescópio e o mi- em disputa cotidiana”, diz. “Quando se desenvolvimento de um território dentro
croscópio”, compara, indicando que se observa a desigualdade nos nossos terri- de um município.
deve considerar a multiplicidade de agen- tórios, vemos que ela se repete em escala.” Nos projetos brasileiros, Pellicelli
tes, de práticas e redes, sem desconhecer Dirce salienta que em praticamente calcula que a parte social corresponda a
a visão social, regional e global dos pro- todas as cidades brasileiras há bolsões 25% da obra física e que se trata de um
blemas. “No cotidiano, muitas vezes, nós de pobreza e de riqueza. Mas há cidades trabalho para garantir um processo parti-
vivemos esse dilema, entre aqueles que onde a desigualdade é tamanha que a cipativo e o desenvolvimento de pessoas.
parecem enxergar a mesma realidade só exclusão é quase homogênea. “São ques- “O homem precisa de um desenvolvimen-
que sobre lentes diferentes.” tões estruturais, de médio e longo prazos, to integrado.” Essa integração, segundo
Para a pesquisadora, esse distancia- não será um programa ou uma política ele, é fundamental para que a pessoa
mento é muito sério, pois não permite en- que vai resolver.” inicie uma transformação, um percurso
xergar a complexidade do País. Em relação A Fundação AVSI atua há 27 anos no para o desenvolvimento.
à distribuição demográfica, por exemplo, Brasil, em 11 estados, e está presente em Rômulo Paes de Sousa, secretário do
no estado de São Paulo, há a capital, com 39 países. Diversos projetos de desenvol- Ministério do Desenvolvimento Social e
11 milhões de habitantes, e Borá, com 800. vimento urbano já foram realizados aqui, Combate à Fome (MDS), a resposta para
Ambas as cidades são consideradas iguais em parcerias e cooperação internacional essa situação de desigualdade está na inte-
do ponto de vista político-administrativo, com o governo da Itália, Aliança de Ci- gração. Ele defende que se aprofundem as
mas do ponto de vista de gestão existe dades, Banco Mundial e União Europeia, parcerias entre governos federal, estaduais
uma grande distância. além de instituições públicas locais. Para e municipais. Mas considera que o Brasil
Além da diversidade dos territórios, o diretor da AVSI no Brasil, Fabrizio está passando por uma mudança, tanto
Dirce ressalta que, no Brasil, a questão Pellicelli, a pobreza alcançou uma dimen- em relação à expectativa de vida crescente
fundiária não está resolvida, o que produz são muito grande. Ele defende que os pro- quanto ao aumento da renda da população,
intensos conflitos. Para ela, tocar nesse jetos pontuais ganhem escala e ressalta que mudou a sua capacidade de compra e a
ponto é falar das relações de poder que es- que não se trata apenas de uma questão sua aspiração, e também ao impacto muito
tão em jogo. “Os nossos territórios estão ligada à urbanização de favelas, mas ao grande na construção de habitações e de ou-

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tros equipamentos. No entanto, Paes avalia brecidas, o Estado tem um papel fundamen- que havia muito preconceito e mitos de
que as demandas em termos de políticas tal. Porém, mais difícil do que chegar com que aquelas pessoas eram inúteis, desem-
sociais são mais complexas: “A questão é serviços é prestar serviços de qualidade.” pregadas, responsáveis pelos crimes da ci-
como converter políticas para que elas se Se, no Brasil, a dimensão do país e a dade, prostitutas, e assim por diante. “Era
encaminhem em uma mesma direção de desigualdade são desafios para o traba- pior ainda para os habitantes das ruas,
forma integrada, como resposta a esse con- lho social, na Índia, essa realidade é ainda porque pelo menos os habitantes das fave-
texto mais complexo, e, ao mesmo tempo, mais complexa. Na região metropolitana las tinham o seu terreno, o seu território.”
mais pleno de oportunidades.” de Mumbai, por exemplo, 60% da popu- A busca por soluções começou com te-
A integração, de acordo com Paes, lação vive em favelas. Segundo a indiana mas menos controversos. A equipe perce-
começa no nível jurídico. Em seguida, é Celine D’ Cruz, representante da Aliança beu que era possível falar sobre questões
necessário um compartilhamento dos de Cidades e que, no início da década de da comunidade, como saúde e educação,
meios, por exemplo, a utilização do ca- 1980, coordenou um programa buscando antes de chegar à habitação. Segundo Ce-
dastro único como referência para pro- soluções para aquela população, “a habi- line, parte das famílias sofria de tuberculo-
gramas de habitação social. Por fim, tação não é um problema para um partici- se. O trabalho começou encontrando essas
deve-se chegar a uma etapa de ações co- pante somente. O presidente não consegue pessoas e tentando ajudá-las a seguir um
ordenadas. “Isso implica que os objetivos resolver esse problema sozinho, os traba- tratamento. A equipe foi até uma clínica
estejam definidos, que as atribuições de lhadores sociais também não, a própria e perguntou: “Suponhamos que a popu-
papéis sejam claras, que as instâncias comunidade também não”. Para ela, “está lação da favela se organize. Se ela vier até
de coordenação existam, para aproximar claro que todos precisam trabalhar juntos vocês, há possibilidade de cadastrar as
conflitos e processos. Ou seja, que tenha- para resolver essa questão”. pessoas, fazer o teste de tuberculose e o
mos de fato o funcionamento disso.” De acordo com Celine, na Índia, além tratamento necessário?”. A clínica aceitou.
das pessoas em habitações precárias, há E, assim, a equipe foi buscando apoio em
Outros serviços milhões de indivíduos vivendo nas ruas. outras áreas, aproximando a população
e habitação Um dos problemas no início do programa dos serviços e do poder público.
O trabalho social, para Paes, também era a demolição das casas pelo governo, O próximo passo foi fazer um levanta-
depende dessa integração de vários setores, a cada 20 ou 30 dias, o que obrigava as mento de quem morava nas favelas, quantos
como educação, saúde, segurança pública, pessoas a reconstruírem. Por outro lado, assentamentos existiam na cidade, quem
transporte e outras necessidades. “É mais ela diz que os trabalhadores sociais não eram aquelas pessoas, de onde vieram, há
fácil chegar com a moradia do que com o sabiam como resolver os problemas e nem quanto tempo moravam ali, entre outras
entorno de serviços, a não ser que haja for- como buscar uma solução possível. questões. “Ao realizarmos esse levanta-
tes motivações econômicas, mas quando “Não havia nenhuma informação so- mento do perfil dos assentamentos, identi-
estamos falando de populações mais empo- bre os habitantes das favelas.” Celine diz ficamos os líderes dessas comunidades, que
ficaram muito interessados e queriam saber
o que estávamos fazendo”, relata.
Breno Pataro - Portal PBH

Celine ressalta a importância da pró-


pria população ser protagonista e diz que
o trabalhador social tem que ajudar a
organizá-la. “Temos que redefinir nossos
papéis, porque podemos ser uma gran-
de força e causar uma grande diferença,
especialmente na habitação”, sustenta.
Para ela, o Brasil passa por um momento
único, quando estão sendo construídas
e entregues muitas casas. “Se vocês não
sabem o quão especial e importante isso
é, devem ir à Índia, porque isso não está
acontecendo por lá.” O fundamental, em
sua opinião, é que o trabalho continue
após as pessoas se mudarem, para que
cuidem de suas novas casas, sem que te-
nham de vendê-las ou que a área se trans-
Belo Horizonte (MG) forme numa nova favela.
19
Projetos

Conhecer o território
é o primeiro passo
Para especialistas, projetos Santos. “Ele dizia, por exemplo, que o
território em si não é um conceito, ele
devem contar com a participação só se torna um conceito utilizável para
de toda a equipe social, com análise social, quando se considera seu
uso”, explica. “Quando fazemos a leitura
um bom diagnóstico, e ter como do território, fazemos a leitura da relação
objetivo a inclusão social sujeito-espaço”, completa.
Kátia destaca que devem ser consi-

T
derados o ritmo de vida, as histórias de
oda intervenção habitacional participar da sua elaboração ou, pelo vida, as trajetórias, vínculos sociais, en-
começa com a elaboração do menos, da discussão dos grandes itens tre outras questões subjetivas. Para ela, a
projeto. Mas como construí-lo? e objetivos. Além disso, ele deve ser abordagem do trabalho deve ser socioter-
Kleyd Taboada, assistente so- um pacto entre a equipe e a população. ritorial. É necessária a articulação em rede
cial e especialista em habitação de interes- Não se trata de cumprir uma formalida- entre os diversos atores que compõem esse
se social, afirma que, antes de mais nada, de para obter recursos, precisa ser um território, integrando um conjunto de pro-
o projeto deve estar ancorado na “Política compromisso com objetivos claros, sim- gramas e de ações. “Isso significa deixar
Nacional de Habitação, nos planos locais ples e mensuráveis. Nele deve constar de pensar setorialmente, por secretaria,
de habitação ou de desenvolvimento urba- a descrição do método de trabalho e as e começar a pensar quais são, de fato, as
no e nas diretrizes do governo local para o referências teóricas. Os tempos e modos necessidades e as potencialidades daquele
setor de habitação de interesse social”. de trabalho, com etapas e fases, também território. É o território que demanda as
Outra questão fundamental para um devem ser explicitados. Vale lembrar suas necessidades.” Na sua opinião, os
bom projeto é o diagnóstico, que deve que o cronograma tem que estar ajusta- projetos habitacionais devem trabalhar
conter o máximo de informações sobre o do com a engenharia das obras. com quatro dimensões: socioeconômica;
território, sobre as famílias e como elas se As ações de remanejamento e assenta- urbanístico-ambiental; jurídico-fundiária;
relacionam com o espaço. Na opinião de mento, segundo Kleyd, também devem es- e socio-organizativa.
Kleyd, com um bom diagnóstico, produz- tar descritas, informando quando e como Ela ressalta, ainda, que essa aborda-
se um bom projeto. Ele deve fornecer con- elas serão executadas. Por fim, o projeto gem com base no território significa rom-
dições para quem for executá-lo e monito- deve indicar formas de avaliação e de afe- per com muitas lógicas: “Saímos da lógica
rá-lo entender as situações do território, rição de resultados. da proximidade física, por exemplo, para
bem como indicar o caminho para atingir as lógicas das aproximações sociais. Da
o objetivo proposto. Foco no território lógica da emergência social, para a lógica
Kleyd levanta duas questões funda- Para Kátia Melo, da Diagonal Urbana, do desenvolvimento social. Da lógica da
mentais: a integração das equipes e a a referência do projeto deve ser o território. homogeneidade, de que são todos pobres,
transparência de informação. “Quanto A intervenção deve ter uma abordagem portanto, têm as mesmas características,
mais a nossa ação e o nosso propósito pu- integrada, com uma equipe multidiscipli- para a lógica das complexidades, das di-
derem ser conhecidos, discutidos, levados nar. Assim como Kleyd, para ela, a base é ferenças. Da lógica de uma negociação
e enriquecidos com a contribuição das um diagnóstico integrado, que possibilite unilateral, em que o agente promotor vem
pessoas para quem ele [projeto] se destina, um plano global, permitindo hierarquizar, com uma proposta pronta, para a lógica do
melhor”, ressalta. priorizar e definir, em conjunto com as co- diálogo social.”
O projeto deve contar com a cola- munidades, quais são as intervenções. Kátia explica que se trata de pensar
boração de toda a equipe que nele irá A visão do território, de acordo com numa gestão em rede, compartilhada,
atuar. Kleyd destaca que todos devem Kátia, é baseada nas ideias de Milton em que ações isoladas são substituídas
20
Arquivo/Ministério das Cidades

Rio Anil - São Luís (MA)

por ações integradas. “Se queremos das famílias, mas também “expectati- por um governo comprometido com pro-
uma mudança social, uma transforma- vas, esperanças, medo, tensão, resistên- cessos de inclusão social.
ção daquele território, precisamos mu- cia, conflito, ruído, negação...”. O trabalho social é desenvolvido de
dar a nossa lógica”, afirma. No entanto, A recomendação é realizar um traba- forma diferenciada em cada cidade. De
para esse enfoque de trabalho social, “a lho socioeducativo pensando questões acordo com Rosana, os municípios têm
complexidade cresce, mas as respostas fundamentais como autonomia e recu- arranjos institucionais variados, sendo
também crescem”. peração da autoestima da comunidade. que em alguns é mais fácil trabalhar a
Kátia também destaca o papel de uma “Isso requer do técnico social, dos técni- interdisciplinaridade e a integração de
outra ciência: a Comunicação Social. “Ela cos físicos de engenharia e de quem es- políticas, e em outros, não. “Para elaborar
é extremamente complementar e impor- teja na escuta daquela população, uma o plano de trabalho, necessariamente, de-
tante para o trabalho social”, avalia. Mas disposição muito grande de ouvir e a veríamos pensar que temos que construir
que se trata de uma comunicação capaz capacidade de dar respostas. Isso é uma uma cultura interdisciplinar. E a estratégia
de estabelecer um diálogo social, como grande ousadia quando há várias ações do quadro do trabalho social deve buscar a
formação, dando voz ao território, identifi- que dependem, muitas vezes, de outros interdisciplinaridade.”
cando as complexidades, tensões e confli- organismos. Mas é preciso a abertura e Rosana avalia que o foco do plano de
tos. Trabalhando há 20 anos na área, Kátia confiança, tendo o diálogo como valor.” trabalho social deve ser “a viabilização
Melo considera que, no País, as experiên- da intervenção na área de habitação e a
cias de gestão integrada têm crescido. “É Arranjos institucionais estratégia do ponto de vista da inclusão
uma construção conjunta, que depende de Para Rosana Denaldi, professora da social dessas famílias, do acesso à mo-
muitos esforços e do trabalho de todos. E Universidade Federal do ABC, ainda há radia digna, da sustentabilidade dessa
o protagonismo da área social é extrema- uma integração insuficiente entre as equi- intervenção e da integração de políticas
mente importante.” pes de projeto, obra e regularização. “O e programas sociais”.
Segundo Kátia, a intervenção gera trabalho social ainda é entendido como Para Emeri Ângels, coordenadora de
melhoria na qualidade de vida, transfor- tema do assistente social ou do técnico so- Sustentação ao Negócio da Caixa Econô-
mação na dinâmica de ocupação do ter- cial.” Às vezes, na sua opinião, o trabalho é mica Federal em São Paulo, por conta da
ritório, demandas para o setor público, deslocado de uma política social e urbana dimensão do Brasil, as realidades são mui-
novos custos para o orçamento familiar mais ampla e nem sempre é desenvolvido to distintas e, por isto, vários municípios
21
Arquivo/Ministério das Cidades
Manguinhos - Rio de Janeiro (RJ)

não dispõem nem de assistentes sociais, tidiano do território. A segunda, entre os pulacional: cerca de 80% dos habitantes do
nem de pessoas no quadro para desenvol- próprios territórios. Já a terceira, entre as País moram em 4 mil cidades pequenas; por
ver esse trabalho. “A Caixa procura inte- tipologias dos territórios e as dinâmicas outro lado, 20% da população brasileira
grar as cidades que não têm essa dinâmi- territoriais presentes nesses territórios. “Vi- mora em metrópoles, nas cidades com mais
ca. O que precisamos é cada vez mais do vemos uma síndrome entre o telescópio e o de 1 milhão de habitantes, ou seja, em torno
desenvolvimento institucional das prefei- microscópio”, comenta ela sobre a distân- de 15 municípios”, descreve. Essa diferença
turas”, observa. cia entre a administração, a gestão e quem populacional e demográfica reflete-se na
Com o objetivo de contribuir com as está diretamente envolvido nos processos. gestão, que é diferente num município como
prefeituras, a Fundação Vale atua onde “No cotidiano, muitas vezes, nós vivemos Borá, com 700 habitantes, e em São Paulo,
há operação da empresa. A ideia da esse dilema, entre aqueles que parecem en- com 11 milhões.
companhia, segundo Andréia Rabetim, xergar a mesma realidade só que sobre len- Sobre as tipologias territorializadas
gerente de Relações Intersetoriais, é con- tes diferentes. Ora aparece o telescópio, ora e as dinâmicas territoriais, Dirce anali-
tribuir de forma estruturante com esses aparece o microscópio, e parece que essas sa que atualmente vive-se um boom de
territórios. “Procuramos reforçar o papel duas lentes não conversam, não dialogam.” índices. Por um lado, é positivo, mas ela
do Estado”, afirma. “A mineração tem De acordo com Dirce, o território, às ressalta: “As tipologias são retratos de
data marcada para entrar e para sair, o vezes, é “mais um espaço geográfico ad- determinado momento e de determinadas
minério é finito, o nosso compromisso é ministrativo para identificar as famílias, os características que os dados estatísticos
além da gestão de impacto.” usuários ou, enfim, aqueles que serão bene- são capazes de captar. O território tem
ficiados ou assistidos pelas políticas e não vida, é muito mais do que uma tipologia
Desconexões como um local de vivência”. Essa situação é de vulnerabilidade, ou de pobreza, ou de
A assistente social e professora da agravada pela dimensão territorial do Bra- exclusão”, explica. “É fundamental que o
PUC/SP Dirce Koga sustenta que há três sil, que oculta a complexidade e diversidade trabalho social compreenda o que está por
tipos de desconexões nas intervenções. A dos territórios nacionais. “Nós temos uma trás dessas tipologias, que são dinâmicas
primeira, é entre a política pública e o co- grande diversidade do ponto de vista po- de vida diferenciadas”, finaliza.
22
Reassentamentos

Um processo Tássia lembra também que é preciso


garantir a assistência às famílias durante
as obras, já que normalmente os programas

de intervenção
buscam evitar remoções. Ainda no caso de
São Bernardo, a solução transitória adotada
é o auxílio-aluguel. Diante dos desafios, o
fundamental, para ela, é elaborar um bom

física e social
projeto, que contemple o conjunto de ati-
vidades que serão desenvolvidas detalha-
damente, seguindo as condicionalidades
determinadas tanto pela normativa do Mi-
nistério das Cidades como as dos bancos
internacionais (BID e Banco Mundial), exi-
Reassentar famílias em novas gências para obtenção de financiamentos.

moradias envolve diversas Créditos


atividades, que são levadas em De acordo com o especialista do Ban-
conta na obtenção de empréstimos co Mundial, Thadeu Abicalil, as primei-
ras operações de crédito no Brasil come-
çaram na década de 1970 e, em seguida,

U
ma série de programas habi- trabalha com a reposição de moradia por “veio se construindo uma parceria no
tacionais tem se espalhado moradia. “Isso significa que os locatários desenvolvimento urbano brasileiro”. Em
pelo País afora. Relatório da são atendidos, o que gera um contencioso 2004, a instituição proveu assistência téc-
ONU, divulgado em 2010, enorme entre o proprietário e o ocupante.” nica e financeira para a reforma da polí-
aponta que a população favelizada dimi- Mas essa é apenas uma das questões tica habitacional, com um empréstimo de
nuiu 16% em relação a 2000. Aliadas ao práticas enfrentadas para fazer valer o direi- US$ 500 milhões. O Banco atua nas esfe-
crescimento econômico, iniciativas têm pro- to à moradia digna. Para Tássia, é preciso ras federal, estadual e municipal e busca
vocado mudanças e amadurecido as práti- assegurar, durante a obra, a minimização soluções para os mais pobres, que rece-
cas e critérios dos trabalhos desenvolvidos, de deslocamentos temporários e garantir bem até até dois ou três salários mínimos.
inclusive o social. que o plano de reassentamento seja execu- É com foco no desenvolvimento que o
Tássia Regino, secretária de Habitação tado de forma harmônica com as obras de Banco Mundial tem selecionado seus pro-
de São Bernardo (SP), avalia que todas as infraestrutura. Ela ainda elenca uma série jetos. Segundo Abicalil, o Banco passou
propostas buscam cumprir o direito à mora- de critérios e diretrizes, como: incorporar a de uma abordagem restrita à infraestru-
dia como consta na Constituição. No entan- ação social no conjunto de atividades que tura e condições habitacionais para uma
to, há diversos desafios a serem vencidos e, antecedem o processo de reassentamento estratégia que considera a complexidade
entre eles, está a questão do tratamento dos das famílias; planejar momentos de forma- das cidades. A instituição também pas-
proprietários não residentes. “Como tratar ção e discussão com as famílias; envolver sou a valorizar o trabalho social, geração
as situações em que o direito à moradia está as entidades locais, prover atividades de de trabalho e renda, acesso e mobilidade
desvinculado da propriedade que gerou desenvolvimento econômico; prever unida- urbana e programas mais proativos com
aquele direito, porque é aquela benfeitoria des de comércio no projeto físico antecipa- urbanização combinada com melhorias
que vai ser reassentada?”, questiona. damente, entre outras. de regulação e microcrédito. O Banco
Nesse sentido, o Programa Social e passou a evitar abordagens top-down, de
Ambiental dos Igarapés de Manaus (Pro- cima para baixo, ou seja, sem entender as
samim), adota a indenização ao proprie- É preciso peculiaridades de cada local antes da in-
tário morador e também ao não morador, assegurar, tervenção e sem priorizar a participação
sendo que para cada moradia existe um e envolvimento das famílias, bem como
tipo de solução. Já Tássia considera que o durante a obra, a as organizações comunitárias e ONGs lo-
bônus-moradia é uma boa solução, pois minimização de cais. O Banco acredita que a qualidade do
oferece agilidade ao processo, mas muitas
vezes é inviável economicamente. No caso
deslocamentos trabalho social é um dos pontos-chaves
para o sucesso de projetos de habitação,
de São Bernardo, por exemplo, o programa temporários urbanização e reassentamentos.
23
Participação social

Aprofundar o controle
social e os mecanismos
de democracia
O horizonte do trabalho social é mento participativo. Esse processo acaba
formando lideranças nas comunidades, o
a melhoria da qualidade de vida que é positivo para a democracia.
das pessoas, a defesa dos direitos A Constituição Federal de 1988 intro-
duziu instrumentos de democracia semi-
sociais, o acesso à cidade, à direta, que prevê o incentivo à participação
moradia, aos serviços públicos, popular, criando mecanismos da chamada
democracia participativa. A Carta Mag-
o incentivo e o fortalecimento da na também descentraliza a competência
participação e da organização político-administrativa nas três esferas de
autônoma da população governo, incentivando a maior participa-
ção da sociedade civil organizada através
de mecanismos de controle social locais.
Porém, Rosângela explica que há al-

J
á é consenso: o trabalho social que efetiva um amplo leque de afirmações, guns mitos em relação à participação de
não é simplesmente um apoio da permeado por uma perspectiva socioedu- parcela da população, que sempre esteve
obra. É um componente estra- cativa e política, pautada em valores de- excluída dos processos decisórios. Um de-
tégico da política habitacional e mocráticos e de justiça social. A atuação les é que as pessoas não estariam prepara-
urbana. Com a escala das intervenções no da equipe social envolve, entre outras eta- das para decidir qual a melhor solução ha-
Brasil e com o financiamento do trabalho pas, planejamento, gestão, articulação e bitacional e urbanística para a sua família e
social, hoje não se trata mais de projetos integração das ações públicas, supervisão, a sua área. “Esse mito está baseado no pre-
pilotos. O conceito se consolidou e seus monitoramento e avaliação. conceito do saber técnico, em que a burocra-
objetivos vão além da moradia. O trabalho Para a pesquisadora, com a partici- cia e/ou o político detêm o saber e a delega-
social (TS) busca garantir a organização, a pação e o controle social se aprofundam ção para a decisão. Ele justifica a tutela do
participação e a mobilização popular. os mecanismos de democracia e de ges- Estado sobre a sociedade civil, o que leva,
“Não há uma dicotomia entre a obra tão pública democrática. A participa- por exemplo, o Estado a indicar, escolher
e o TS”, diz Rosângela Paz, doutora em ção, ela diz, ocorre em duas dimensões: e determinar quem são as lideranças mais
Serviço Social, professora e pesquisadora no território, ou seja, nas áreas de in- convenientes para estar no projeto.”
da PUC/SP e coordenadora do curso a tervenção, e nas instâncias de gestão e O segundo mito é a sociedade não estar
distância de TS do Ministério das Cida- controle social. “Nas duas, há conflitos preparada para ser protagonista, ou seja, o
des. Segundo ela, o trabalho social envol- e projetos políticos em disputa, que per- sujeito político das políticas públicas, ba-
ve uma multiplicidade de profissionais, passam questões partidárias, questões seado numa cultura política antidemocrá-
inclusive o assistente social. “O horizonte locais e de interesse da população.” tica. “O movimento popular tem mostrado
do TS é a melhoria da qualidade de vida O trabalhador social deve desenvolver exatamente o inverso, ele pauta o governo
das pessoas, a defesa dos direitos sociais, uma série de atividades com os moradores e tem condição para decidir os rumos.”
o acesso à cidade, à moradia, aos serviços para incentivar a organização local, esti- O terceiro mito é a sociedade não poder
públicos, o incentivo e o fortalecimento da mulando articulações com outros grupos e compartilhar da governabilidade, do pro-
participação e da organização autônoma movimentos da cidade, além do território. cesso decisório. Essa concepção, conforme
da população”, explica. Nesse sentido, a população é motivada a Rosângela, parte de uma visão de Estado
Rosângela avalia que o TS é um proces- participar de movimentos sociais, fóruns, como espaço privado. O último mito é que
so que ocorre em determinados territórios, conselhos gestores, conferências, orça- a sociedade dificulta a tomada de decisões,
24
seja pela questão do tempo (demora para soas, a sociedade organizada que está no “Recife, sem palafitas”, com o objetivo de
tomar decisão, ter que convocar reuniões entorno e todo o conjunto daquela região. atender a população em situação de risco.
etc), seja pela questão de posicionamento Porque senão nós estaremos produzindo, Para Milton Botler, da Prefeitura de Recife,
crítico diante das propostas ou ausência mais uma vez, as favelas de concreto, e va- o aspecto mais conflituoso está ligado à ca-
delas por parte do Estado. mos botar lá cidadãos que não conhecem pacitação, ao preparo da comunidade, para
seus direitos. E, depois, eles não vão saber a construção do conjunto. “Por que até que
Fruto da luta que foi fruto de uma conquista.” ponto ele tem uma dimensão do cotidiano
A participação social, para Edymar A participação popular, segundo Edy- ou de uma pretensão de ensinar as pessoas
Fernandes Cintra, do Movimento Nacio- mar, ajuda a construir efetividade nos a viver de forma diferente?”, questiona.
nal de Luta pela Moradia, foi conquista- programas e a garantir a permanência das Botler considera que é preciso superar
da na luta. “Não foi uma concessão.” De famílias. Ela explica que é preciso acabar esse conceito de construir conjuntos, para
acordo com ela, desde a década de 1980, com o círculo vicioso, que faz as famílias construir cidades. “Quando eu falo em
há uma história de resistência pela imple- voltarem às moradias precárias, sem re- construir cidades, entra toda a nossa Polí-
mentação do Estatuto da Cidade e pelo solver o problema. A reforma urbana que tica de Saúde, de Habitação, de fazer com
Fundo Nacional de Habitação de Interes- o Movimento Nacional de Luta pela Mo- que essas pessoas se integrem na sociedade
se Social, o qual considera uma forma de radia defende é uma reforma urbana sem, e na cidade. O espaço sobre o social tem que
garantir o controle social. A criação do o que chama de “favelização”. “É ruim ser compartilhado, e não segregado, como
Ministério das Cidades, as conferências para o meio ambiente, para a família, para eu acho que os conjuntos habitacionais ten-
e os instrumentos de gestão e controle so- a saúde, para tudo. Queremos transformar dem a simbolizar.”
cial também são conquistas. isso. Mas é um processo lento, não dá para Outro desafio é organizar e ordenar a
Edymar avalia que o movimento não destruirmos as cidades, temos que levar esfera pública nos novos assentamentos,
tem tido dificuldade de participar da ela- em questão que a sociedade civil precisa especialmente a questão do logradouro
boração de políticas, diretrizes e metas, por quebrar paradigmas e mostrar que é pos- versus vias condominiais. “Todas aque-
conta da “vontade política do governo”. “A sível fazer uma moradia digna. Não é só las vias de acesso entre um bloco e outro
participação social aflorou no governo do a casa, ela vem calcada dos outros bene- foram concebidas para serem vias con-
presidente Lula, é fundamental dizer isto.” fícios e serviços, que têm que garantir a dominiais. Uma população que não tem
No entanto, ela alerta: “Não somos permanência da família.” recurso para pagar uma conta de água,
um apêndice de política governamental. uma conta de luz, vai conseguir manter
Nós somos cogestores desse processo.” As Desafios um condomínio para essas outras áreas
dificuldades de serem reconhecidos nos Em Recife, a produção de conjuntos comuns?”, pondera. “E, depois, sendo
conselhos municipais e estaduais perma- habitacionais foi votada como prioridade um condomínio, a prefeitura não entra
necem. “O diagnóstico não é só levantar do orçamento participativo. Assim, um para fazer um controle urbano, por que
a demanda, não é colocar o rosto das pes- dos primeiros programas formatados foi o eu não posso invadir aquela passagem e
botar a minha vendinha, minha forma de
vida? Então, começa a ter não simples-
Arquivo/Ministério das Cidades

mente a favelização, mas a recuperação


de uma prática social que ele tinha, que
não foi devidamente trabalhada dentro
desse trabalho social de compreensão
das mudanças.”
Botler ainda ressalta que antes havia
uma série de programas habitacionais,
mas todos vão migrar para o Minha Casa,
Minha Vida, que pressupõe que cada fa-
mília vai pagar pela sua moradia. “Em Re-
cife, nós construímos moradias para quem
recebe de zero a três salários mínimos, e o
município arca com todos os custos. No
Minha Casa, Minha Vida, passa a ser
diferente: nós não temos ainda a solução
Porto Alegre (RS) ou um horizonte de como vamos tratar, de
fato, a manutenção desses conjuntos.”
25
Experiências

Intersetorialidade
e gestão garantem êxito
nas intervenções
De Norte a Sul do Brasil, disseminam-se melhorias
habitacionais, que alcançam êxito ao garantir a
participação da população e a articulação entre
órgãos, secretarias e esferas de governo, além
de ações como investimento no diagnóstico e na
elaboração do projeto. Em todos os casos, o trabalho
social é fundamental antes e após a obra física

B
elo Horizonte tem cerca de 2,5 O Programa Vila Viva, iniciado em
milhões de habitantes, sendo 2005 no Aglomerado da Serra, tem se es-
que 19,5%, ou seja, 471 mil palhado pelo município. Hoje já é aplicado
pessoas vivem em assenta- em 12 intervenções. No caso de Aglome-
mentos precários. No entanto, as mora- rado da Serra, foram atendidas 13 mil fa-
dias ocupam 5% do seu território, o que mílias, e 74% ficaram no local, mas 2 mil
representa uma alta densidade popula- tiveram que ser removidas para o entorno.
cional. “Os assentamentos estão, é claro, O programa consta na Política Nacional de
nas áreas menos nobres, que têm maior Habitação e o objetivo é promover transfor-
complexidade de intervenção, em relação mações profundas nos assentamentos exis-
aos aspectos geológicos, com inclinações tentes para integrá-los à cidade. Conforme
e rampas”, define Claudius Vinícius Leite com Pereira, em 1994, havia 15 mil mora-
Pereira, presidente da Companhia Urba- dias em risco; hoje, 3.789 estão em perigo.
nizadora de Belo Horizonte (Urbel). A Urbel, além de recuperar o espaço,
De acordo com Pereira, enquanto cabe adota medidas de sustentabilidade, para
à Secretaria Municipal de Habitação lidar garantir que os investimentos, no futuro,
com o déficit habitacional quantitativo, ou não sejam perdidos e não haja novas ocu-
seja, produzir novas moradias, a Urbel é pações em áreas de risco. Para cada assen-
responsável pelo déficit qualitativo. A in- tamento precário é elaborado um Plano
tervenção busca recuperar os espaços já Global Específico (PGE), uma espécie de
existentes, mantendo as moradias onde miniplano diretor. “Ele tem funcionado
elas estão. “Há casos em que não é pos- como um captador de recursos do PAC,
sível manter a vila onde está, pois ela se apesar de entrar no nível de detalhamen-
encontra numa área de inundação, daí é to de um projeto básico. É uma referência,
preciso removê-la e reassentar as famílias principalmente por ser um acordo com a
em um lugar seguro”, afirma. Em Belo comunidade e ser participativo.”
Horizonte, o princípio é evitar a movimen- Para a elaboração do PGE, a equipe
tação, por conta da grande vulnerabilida- faz um diagnóstico profundo da comu-
de das famílias, cuja economia, às vezes, nidade, que abrange um levantamento
está totalmente ligada à comunidade. de dados ambientais, urbanísticos, ju-
26
rídicos e socioeconômicos. Em seguida, A participação com intersetorialidade um escritório de gestão compartilhada,
é realizado um diagnóstico integrado, também se dá no Norte do País, onde o go- composto por uma equipe interdisciplinar,
com propostas de intervenções e hie- verno do Amazonas desenvolve o Programa formada por assistentes sociais, arquite-
rarquização das ações. São realizadas Social e Ambiental dos Igarapés de Manaus tos, engenheiros, advogados, nutricionis-
reuniões temáticas com as diversas se- – Prosamim. O plano de atuação do trabalho tas. “Temos um departamento específico
cretarias do município. Depois, são for- social está estruturado em alguns eixos, en- de comunicação social dentro do trabalho
mados Grupos de Referência (GR) nas tre eles, a mobilização. Para Bárbara Araújo social. Consideramos importante que a in-
comunidades. No Aglomerado da Ser- dos Santos, subcoordenadora setorial de pro- formação chegue com a mais perfeita cla-
ra, a maior favela da cidade, com 46 mil jetos sociais, essa é etapa mais importante reza, para que a comunidade tenha enten-
habitantes, foi detectado que o índice de para garantir o sucesso do reassentamento. dimento do que está acontecendo”, diz ela.
analfabetismo era de 24%. Neste caso, Antes mesmo de o projeto começar, a equipe A participação popular também teve
foi feita uma articulação com a Secreta- identifica todas as organizações da comuni- êxito em Guarulhos (SP), onde 10% do
ria de Educação. “Não temos fantasia dade para formar o comitê de representantes. 1,3 milhão de habitantes vivem em assen-
de que, com o trabalho social da inter- Como há dificuldade de encontrar organi- tamentos precários. De acordo com Carla
venção, vamos combater todos os pro- zações em toda a área de intervenção, as li- Barcellos, da prefeitura, há 370 ocupações
blemas que aparecem. Mas articulamos deranças informais criam o grupo de apoio identificadas, sendo 33 sob intervenção
com outras secretarias, para que elas, local. São realizadas reuniões e a população urbanística, atendendo aproximadamen-
depois da intervenção, encontrem um escolhe seus representantes. te 6,5 mil famílias. Vila Nova Cumbica
terreno aplainado para implantar suas Outra estratégia adotada nas inter- e Cidade Jardim Cumbica II foram duas
políticas com maior profundidade.” venções foi implantar, em cada igarapé, grandes áreas, cujos projetos foram finan-
ciados pelo Projeto de Assistência Técni-
ca a Projetos e implantação de obras de
Saneamento Integrado em Assentamento
Chii Akporji/Cities Alliance

Precário – o PAT-Prosanear. Hoje as duas


obras estão inseridas no PAC. “O projeto
foi participativo, porque tivemos acesso
a recurso para elaborá-lo. É um momento
muito importante de envolvimento, de to-
das as equipes se debruçarem sobre aque-
la área, discutir com a população todas as
questões, fazer um levantamento e diag-
nóstico conjunto e participativo”, relata.
Para ela, é necessário que o trabalhador
social se aproprie do roteiro do projeto,
bem como do conjunto da intervenção.

Equipe terceirizada
Outra experiência baseada na partici-
pação popular e intersetorialidade é reali-
zada em São José, na região metropolitana
de Florianópolis (SC). No entanto, lá a
equipe foi contratada pela Universidade
do Sul de Santa Catarina (Unisul). Sob
a coordenação da professora doutora em
Serviço Social Darlene de Moraes Silveira,
o objetivo era atuar na mobilização e orga-
nização comunitária e educação sanitária
e ambiental para o projeto que construiu
600 unidades habitacionais.
De acordo com Darlene, uma das difi-
São Paulo (SP) culdades era a falta de uma equipe de base,
para articular e somar ações na atuação do
27
trabalho social. “Como era um contrato de acordo com Barcellos, foi possível reunir cipal de Habitação, em debate no muni-
consultoria, imaginava-se que não caberia todos os atores em vários momentos. A co- cípio, teve por base esse diagnóstico.
a total responsabilidade por todas as ações munidade, a igreja, as lideranças, as organi- Mas Violeta Kubrusly, arquiteta e
para a terceirizada”, afirma. Outro entra- zações sociais, entre outros, participaram do urbanista da Prefeitura de São Paulo,
ve era a ausência de qualquer iniciativa no diagnóstico, cujo primeiro passo foi elabo- avalia que, para alcançar o objetivo de
eixo de geração de trabalho e renda. rar um cadastro. Ela conta que a prefeitura qualquer política na habitação, é funda-
Durante o trabalho, que durou cerca de conseguiu incluir cerca de 3 mil famílias no mental a intersetorialidade. “É mais que
três anos, buscou-se o apoio de outros seto- Cadastro Único. “Fizemos um movimento uma estratégia para conseguir instru-
res na universidade. A Naturologia aplica- institucional que antecedeu isso.” mental para mobilizar e obter recursos.
da implantou um projeto de fitoterapia. A Como o CAD Único é uma exigência É a chave para garantir a transformação
Comunicação esteve presente, realizando para a família participar de diversos pro- territorial que desejamos.”
oficinas, e muitos projetos de conclusão de gramas, as secretarias se uniram para de-
curso com a produção de documentários fo- bater o que era necessário para o dia a dia Vontade política
ram desenvolvidos na intervenção. A Psico- do cadastramento. “A Habitação está se Manaus é cortada por 11 bacias hi-
logia trabalhou com a Unidade de Saúde; a apropriando agora do CAD Único”, afir- drográficas e seus igarapés começaram a
Pedagogia, no centro de Educação Infantil. ma. “Extraímos dados do cadastro que ser ocupados desde o surgimento da zona
Mensalmente, eram realizadas exposições foram complementados com os específicos franca, por famílias que só lá encontravam
fotográficas. Mas a ampliação, no âmbito de cada secretaria.” um local para morar. Segundo Bárbara dos
da universidade, precisava atingir a admi- Com base nesse diagnóstico, buscam-se Santos, há 20 anos, governos tentavam im-
nistração pública. “Observamos que esse entender quais são os maiores problemas plementar um programa que solucionasse o
processo de capacitação tinha que aconte- que a população enfrenta. Assim, explica problema. Com tantas tentativas, a equipe
cer com os técnicos que compunham a ad- Darlena, é possível hierarquizar as de- do Prosamim encontrou dificuldade de ade-
ministração municipal.” mandas conjuntamente. “A população se são e credibilidade por conta da população,
Já em Belo Horizonte, há algumas ex- reconhecia com a demanda que ela apontou já descrente. Hoje, já foram reassentadas
periências interessantes, de iniciativa da como prioritária, que ela hierarquizou para 6.137 famílias. “Para que isso fosse possí-
equipe da prefeitura, na questão de traba- que fosse resolvida para a área.” vel, foi preciso fazer uma grande articulação
lho e renda. Na Vila São José, há uma uni- Na cidade de São Paulo, a prefeitu- institucional”, afirma. “Colocar todas as
dade de Fábrica Social, de costura e silk, ra, em conjunto com a Aliança de Cida- secretarias do Estado para fazer um plano
que já produziu 58 mil peças, entre lençol, des, realizou um trabalho que pode ser integrado é uma decisão política.”
uniformes, sacolas ecológicas e outras pe- visualizado no site www.habisp.inf.br. O Banco Interamericano de Desenvol-
ças. Outra estratégia é empregar a mão Trata-se do diagnóstico de todo o muni- vimento (BID) foi um parceiro importante,
de obra da comunidade durante as obras. cípio, que hierarquiza os assentamentos conforme Bárbara. “Além de emprestar
O oferecimento de trabalho, para Pereira, em função da sua precariedade urbana dinheiro, transfere tecnologia.” Os órgãos
tem sido positivo para, inclusive, diminuir e social, classificando-os pelo grau de municipais também tiveram relevância.
índices de criminalidade. “Com a inter- prioridade. A proposta de Plano Muni- “O município tem uma participação ativa
venção em Aglomerado da Serra tivemos e efetiva no processo, inclusive, para poder
80% de redução de homicídios e 50% de absorver esse espaço, tomar conta dele e
redução da criminalidade violenta, segun- Uma estratégia é garantir a sustentabilidade.” Mas, ela aler-
do dados da Polícia Militar”, afirma. empregar a mão de ta, que ao decidir implantar o programa, a
equipe social é a primeira a chegar à área
Levantamentos obra da comunidade para iniciar o trabalho com a população.
e diagnósticos durante as obras. Assim como outros programas de su-
Sujeitos a atrasos, ajustes e realinhamen- cesso, o trabalho começa antes da inter-
to de empresas, Carla Barcellos da Prefeitu-
O oferecimento de venção e se mantém após a ocupação, com
ra de Guarulhos, ressalta que é fundamental trabalho, a discussão sobre o novo modo de morar.
o trabalhador social conhecer o cronograma
do projeto e prever qual atividade será pro-
para Pereira, Em São José (SC), o tamanho das uni-
dades habitacionais favoreceu a adapta-
movida de acordo com o estágio da obra. tem sido positivo ção. De acordo com a professora Darlene,
“Temos que lembrar que não estamos des- para diminuir elas tinham 43 m2, enquanto o comum era
colados da intervenção física. O nosso re- 35m2. “Isso contava em favor de todo o
curso vem em função de uma intervenção índices de trabalho social, porque as pessoas tinham
maior. Nas experiências de Guarulhos, de criminalidade zelo e apego a esse novo espaço.”
28
Metodologias

População é protagonista
das intervenções
Em todas as etapas de uma Essa etapa conta necessariamente com o
acompanhamento da comunidade, afinal,
intervenção, a participação social trata-se de um método participativo.
de quem será atendido é cada O objetivo desse diagnóstico é que
a comunidade participe da elaboração
vez mais importante. E cada vez de projetos urbanísticos e de desenvol-
mais os moradores têm definido as vimento social em um curto espaço de
tempo. São levantados os saberes da
prioridades dos projetos comunidade através do diálogo com os
técnicos e o poder público.
O diagnóstico fornece subsídio para

A
participação da população Os resultados do levantamento são o planejamento territorial e social, in-
em todas as etapas das in- aceitos como dados oficiais do poder pú- corporando os anseios e sentimentos da
tervenções habitacionais tem blico. Segundo moradores que participa- comunidade. “Conhecemos a realidade
sido o principal componente ram da experiência, os dados são até mais do território pela visão dos moradores”,
do trabalho social. Hoje em dia, é inad- confiáveis do que quando o levantamento afirma Márcia. É uma espécie de auto-
missível um projeto sem a participação é feito por pessoas de fora. Além disso, Al- gestão, que possibilita a transparência de
efetiva dos moradores. Para garantir meida destaca que a comunidade é a pro- todo o processo e potencializa a organiza-
esse envolvimento, há uma série de ins- tagonista do processo, e são descobertos ção comunitária.
trumentos, desde o diagnóstico até a talentos e potencialidades. Para alcançar esse objetivo, realizam
pós-ocupação da área. reuniões, em que são debatidas as rela-
A organização não governamental Instrumentos ções no território, o que as pessoas gosta-
Rede Interação, por exemplo, adota três Mapas, fotografias, desenhos e histó- riam que houvesse no local, as diferenças,
eixos para promover a mobilização: a rias da ocupação são algumas das estra- o comércio local, o que é perto e o que é
poupança comunitária, o intercâmbio en- tégias utilizadas nos encontros da comu- distante, por exemplo,a igreja, o hospital,
tre comunidades e o autorrecenseamento. nidade com a equipe social. O objetivo é a escola. O interessante, na opinião de
A poupança nada mais é do que um sempre ouvir, dialogar, conhecer a histó- Márcia, é a horizontalidade entre os mo-
fundo da própria comunidade, gerido ria da ocupação e traçar um diagnóstico. radores e os técnicos.
por representantes eleitos por ela, que o Esses instrumentos também são uti-
movimentam em conta bancária. “Cria- lizados no Diagnóstico Rápido Urbano Transformações
se um estimulo à poupança diária. E os Participativo (Drup). Márcia Gesina Processo similar se deu em Itapece-
impactos são o fortalecimento e a cria- trabalhou com a experiência em São Ber- rica da Serra, na região metropolitana
ção de vínculos”, diz Altemir Almeida, nardo e agora atua em Santo André, duas de São Paulo. A intervenção no Jardim
membro da entidade. cidades na região do ABC em São Paulo. Branca Flor beneficiou 498 famílias,
Já em relação ao intercâmbio, Almeida O Drup começa com a aprovação da num total de 1.724 pessoas. Numa área
ressalta que é uma oportunidade de troca urbanização no Conselho Municipal do de manancial, a cada chuva a comuni-
de experiências e capacitação. O inter- Orçamento Participativo. Para Márcia, dade sofria com os alagamentos. Com o
câmbio acontece entre cidades e até entre isso significa que a organização comu- objetivo de recuperar a área ambiental e
países. O eixo mais difícil de ser realizado nitária vai até a plenária e reivindica as melhorar a qualidade de vida daquelas
é o autorrecenseamento, que necessita do melhorias para o local. pessoas, o projeto foi lançado.
envolvimento de toda a comunidade. “Não Após a aprovação do orçamento, a equi- De acordo com Débora Pastro, da
é um trabalho fácil, pois não se trata sim- pe da Habitação começa a desenvolver um prefeitura da cidade, o bairro foi o pri-
plesmente de um cadastro”, explica. trabalho para colher os dados das famílias. meiro do Brasil a ter um plano diretor, o
29
Arquivo / Fundação AVSI
Projeto Comunidade Viva, Olinda (PE)

que significou um passo para conseguir Recife (PE), que atendeu 400 famílias. O professores, agentes de saúde, de vigilância
recursos do Ministério das Cidades e bairro, localizado numa Macrozona de sanitária, entre outros. O projeto se desen-
implantar o programa. A elaboração do Proteção Ambiental, contava com dois volveu em basicamente quatro etapas. Na
projeto teve início em 2000 e sua execu- assentamentos precários, o do Rio Pacas primeira, foram identificadas as lideranças,
ção durou até 2006. e o do Córrego do Sapo. Eduardo Mou- realizadas entrevistas com os moradores,
Uma comissão de moradores acom- ra, que era secretario de Planejamento do feitas oficinas de sensibilização com líderes
panhou todo o trabalho da prefeitura. município e hoje é docente da Faculdade e definido o perfil da comunidade.
Mensalmente eram realizadas reuniões, do Vale do Ipojuca, conta que o envolvi- Na segunda, formou-se um Núcleo de
e o grupo verificava como estava o anda- mento da comunidade foi a principal es- Apoio Local com lideranças, realizaram
mento das obras. Através da participa- tratégia para o sucesso do programa. oficinas de capacitação e elaborou-se um
ção dos moradores foram identificadas De acordo com Moura, também se bus- diagnóstico com a hierarquização dos
as necessidades. O bairro ganhou um cou trabalhar com as pessoas que conhe- problemas identificados. Em seguida, foi
espaço de cultura, uma escola de edu- ciam o dia a dia da comunidade, como os o momento da pactuação da comunidade,
cação infantil e um parque. “As crianças que envolveu mutirões de serviços e a de-
começaram a pedir cinema, iniciamos finição de um Plano de Ação Local.
o projeto Cinema com Pipoca, mantido
O diagnóstico Por fim, o plano foi executado. De
até hoje”, relata Débora. fornece subsídio acordo com Moura, houve muitos resul-
Eram publicados boletins informati-
vos mensais, que também contavam com
para o tados positivos. A praça da comunidade,
que era palco de prostituição e ponto de
a participação dos moradores na sua ela- planejamento drogas, foi revitalizada, a obra foi descen-
boração. Após a entrega das moradias, o territorial e social, tralizada em cinco regiões, entre outros
trabalho de pós-ocupação se mantém com benefícios. Restam muitos desafios para
os “Zeladores do Pedaço”, os “Guardiões incorporando efetivar ainda mais a participação demo-
do Meio Ambiente” e toda a comunidade. os anseios e crática. Moura deixa a questão: “Será
A participação popular também foi que a participação vivenciada por esses
essencial na experiência de Vera Cruz,
sentimentos da atores estaria proporcionando transfor-
em Camaragibe, região metropolitana de comunidade mações na cultura política local?”
30
Trabalho e renda

Desafio para manter famílias


nas moradias passa pelas
novas despesas
A articulação cidadã e o desenvolvimento econômico,
social e cultural, com maior sustenta-
“Nada mais justo do que darmos condi-
ções para esse sujeito avançar”, afirma,
institucional bilidade, equidade e democracia. “Não sem esquecer que as atividades devem
de alternativas estamos falando em economia solidária
como a tábua de salvação, ela é uma das
ter qualidade. Dulce entende que é pre-
ciso investir em tecnologia, a política pú-
para promover possibilidades, e tem que ser trabalhada blica deve proporcionar acesso aos bens e
geração de e estimulada”, adverte. recursos públicos, e o gestor que trabalha

trabalho e Dulce sustenta que não existe uma


“receita pronta” que se encaixe em to-
com política pública de renda deve estar
ligado à Habitação, à Educação e à Secre-
renda é um das as áreas e que é preciso perceber a taria de Obras, que está na ponta.
dos caminhos diversidade dos sujeitos e de suas de-
mandas. Ela acredita que outro aspecto
Apesar de não haver um método único
para ser aplicado em diferentes regiões,
para garantir importante é a redistribuição de renda Dulce ressalta que os problemas são os
sustentabilidade através de programas, como o Bolsa
Família. “A transferência de renda deve
mesmos, em qualquer cidade. A troca de
experiências é fundamental na busca de
às comunidades ser uma ferramenta para que se possa soluções que podem ser uma “estratégia

A
chegar, oferecer bens e serviços e dar o emancipatória” para os beneficiários das
intervenção terminou, as próximo passo.” intervenções. “Não dá para pensar a inter-
unidades habitacionais fo- Dulce também avalia que não há venção apenas na habitação, é preciso pen-
ram entregues, mas como a como pensar numa política de geração sar em todas as dimensões, mesmo porque
população vai seguir a vida, de trabalho e renda sem pensar na edu- o sujeito não vai ter sustentabilidade para
com as novas contas a pagar? Como cação. Segundo ela, essas famílias já vêm pagar água, luz, entre outras despesas.”
gerar postos de trabalho para aquelas de um longo histórico de exclusão social Da mesma forma, elenca os instru-
famílias, muitas vezes chefiadas por e vulnerabilidade. São pessoas com es- mentos necessários para uma política
mulheres? Diante do desafio, o trabalho colaridade baixa, que, como ela afirma, de trabalho e renda: formação social e
social incorporou ações com o objetivo têm dificuldade de ir ao mercado de tra- política, educação básica e capacitação
de gerar trabalho e renda em seu escopo balho formal e até mesmo de participar ocupacional/profissional; qualificação,
de atividades. As iniciativas dependem de iniciativas de autogestão. Na grande assessoria e assistência técnica para
da intersetorialidade e crescem experi- maioria dos programas, é oferecida a constituição, incubação e consolidação de
ências de economia solidária nos assen- elevação da escolaridade, no entanto, ela empreendimentos populares solidários,
tamentos urbanos. “Um desafio que fica alerta: “Percebo que o indivíduo tem di- bem como para a articulação de cadeias
para o próximo governo é estreitar mais ficuldade para deixar o filho à noite para produtivas solidárias e para estratégias
a relação entre políticas de habitação e ir à escola. Como garantir o acesso dele à de desenvolvimento local e territorial; de-
economia solidária”, afirma Maurício escolaridade? É preciso ter a preocupação senvolvimento de tecnologias aplicadas e
Sardá de Faria, da Secretaia Nacional de imediato, do que se pode oferecer para democratização do acesso.
de Economia Solidária do Ministério do essa comunidade em termos de cuidado “É preciso lembrar que os marcos
Trabalho e Emprego. das suas crianças, para que os pais te- legais são importantes. Muitos progra-
Para Dulce Cazzuni, secretária de nham acesso à educação.” mas existem na cabeça do gestor, e não
Desenvolvimento, Trabalho e Inclusão Trata-se de uma dívida histórica, pois existe nenhuma lei que regularmente ou
do município de Osasco, é preciso uma quando esse sujeito estava em idade es- que crie isso efetivamente nas estruturas
política pública para promover a inclusão colar, ele precisou de ocupação e renda. da prefeitura ou do governo do estado ou
31
do federal”, diz Dulce. Ela destaca que a
grande maioria da população atendida
nos programas de transferência de renda
está em projetos habitacionais. Mas, em
geral, a população acaba sendo atendida
por secretarias diferentes , entre as quais
não há articulação. “Precisamos de es-
paços articulados, pois eles são grandes
portas de entrada”, afirma.

Comitê e participação
A Universidade de Caxias do Sul
(RS)foi contratada pela prefeitura da
cidade para desenvolver o trabalho so-
cial no reassentamento do bairro Fátima
Baixo. Uma das ações era gerar traba-
lho e renda. “Trata-se de desenvolver
uma ação com quem não tem ensino fun-
damental completo, porque a pessoa foi
excluída da escola e não consegue entrar
no mercado de trabalho”, diz Rosane
Fátima do Nascimento, coordenadora
de TS da Universidade. “Em até 30 me-
ses, o trabalhador social tem que tentar
formar uma cooperativa e trabalhar a
questão do associativismo”, explica.
Em busca da participação da comu-
nidade, em Fátima Baixo, foram cria-
dos comitês temáticos. Um deles foi o geração de trabalho e renda, estimulando ministrados 26 cursos e oficinas, como
de Capacitação de Geração de Trabalho a cooperação e o associativismo”. as ligadas à questão ambiental. Por
e Renda. A equipe dividiu a população No Comitê, foi elaborada uma cartilha exemplo, fabricação de sabão ecológico
por faixa etária separadas em salas. do cidadão, que trazia informações sobre com óleo e como comercializá-lo ou a de
“Separamos em vários segmentos da os direitos desde o acesso à pensão alimen- restauro de móveis. Para o sucesso do
comunidade e pedimos que elegessem tícia até o estatuto do idoso. A formação trabalho, a equipe investiu na comuni-
dez líderes em cada um, para nos au- do comitê conta com: um representante da cação, criando um boletim mensal e um
xiliar a desenvolver o trabalho técnico comissão de moradores; uma, do clube de mural informativo.
social. Eles elegeram, depois, todos os mães; um, dos idosos; duas, das mulheres;
eleitos foram colocados na chamada dois, dos homens; dois, dos adolescentes; Inclusão digital
sala dos líderes. Eles, então, escolheram e representantes das secretarias afins. Foi Diferente de Caxias do Sul, no bairro
em qual dos cinco comitês propostos traçado um calendário fixo anual, e todo de Cidade Tiradentes, periferia de São
queriam participar”, conta Rosane. primeiro sábado do mês todos os comitês Paulo, a inclusão digital foi o enfoque
“Depois de tudo, a comunidade estava se reúnem. “Isso gerou uma sincronia entre adotado para debater trabalho e renda.
numa efervescência e se criou o comitê a demanda da comunidade e a participação “Nossa população ainda não se apro-
de integração comunitária, que podia das secretarias afins”, relata Rosane. priou da verdadeira inclusão digital”,
fazer a socialização de todas as ativida- Na questão de trabalho e renda, fo- avalia João Armindo Coelho Vargas, pre-
des dos comitês.” ram realizados cursos de capacitação, sidente da Comunidade Ativa no Desen-
O Comitê de Trabalho e Renda bus- através de seleção pelo Cadastro Úni- volvimento Sociocultutal Educacional de
cava “proporcionar espaços de capacita- co, nos quais se aplicou um comple- Cidade Tiradentes (Cadesc).
ção, informação e formação permanente mento questionando se a pessoa queria A entidade está localizada num dos
de líderes e multiplicadores dos direitos se capacitar e em quê. Rosane conta maiores complexos de conjuntos habita-
fundamentais e a otimização de recursos que o trabalho se integrou às redes Se- cionais da América Latina, com 220 mil
públicos para atividades que propiciem nai/Senac existentes na cidade. Foram habitantes. Lá, 43% da população é jovem,
32
entrou na vertente da inclusão digital, centro cultural ou conheceu um museu.

Arquivo/Ministério das Cidades


inclusive porque na região foi instalado O programa pretende democratizar o
o primeiro telecentro. “As pessoas acham acesso à cultura. Ele é baseado em três
que inclusão digital é ter acesso a um eixos: Cultura e Cidades; Cultura e Ci-
computador, simplesmente. O nosso con- dadania e Cultura e Economia.
ceito de inclusão digital, até para poder O programa foca na participação social
gerar trabalho e renda, parte do princípio e na intersetorialidade das políticas. Como
que tem que se permitir qualificar e ca- exemplo, Mônica afirma que o Ministério
pacitar de forma técnica, que os jovens e da Cultura tem atuado com esportes e
os adultos possam se apropriar das ferra- saneamento, entre outras áreas. “Eram
mentas tecnológicas”, explica. grupos que muitas vezes não dialogavam
Na entidade, há um laboratório digi- entre si. A integração é difícil nos níveis fe-
tal, onde só no ano passado 120 jovens deral, estadual e municipal.” Outro aspec-
tiveram curso de qualificação. Desses, to do Programa Mais Cultura é a gestão
30 já são consultores técnicos, monitores compartilhada, em que todos são respon-
de algumas empresas da região e pres- sáveis pelos equipamentos.
tam serviço na área de tecnologia, são O grande mérito do programa é o re-
empreendedores. O foco do trabalho é a conhecimento e o apoio às iniciativas cul-
cultura digital, que, segundo Vargas, “é turais. “Trabalhamos como um observa-
a que vivenciamos hoje”. “Dentro dessa tório, tentando identificar o que acontece
cultura, nós temos jovens que produzem neste imenso Brasil.” Nessa perspectiva,
muito com esses equipamentos tecnológi- o Ministério da Cultura criou, em 2004,
cos. Temos parceria com o Ministério da os Pontos de Cultura, que como explica
Cultura, através da cultura digital. Há Mônica, nada mais é do que reconhecer
jovens do nosso coletivo que foram quali- iniciativas que já existem. Os cerca de
ficados há dois anos, que já têm uma pro- 3 mil pontos já selecionados hoje rece-
Porto Alegre (RS)
dutora digital. Eles têm a independência bem apoio financeiro. “Eles nasceram
financeira deles, têm seu próprio negócio, independentes do governo, o MinC pas-
entre 12 e 29 anos, de acordo com Censo sem depender de patrões.” sou somente a reconhecer esse protago-
de 2000. “Logicamente, da década de 1990 nismo”, diz. “É um fortalecimento do
para hoje, esses jovens já são pais e estão Integração com a cultura sistema nacional de cultura e mais uma
sempre na expectativa de serem inseridos Outra forma de gerar renda é através vez a compreensão de que a cultura vai
no mercado de trabalho”, observa. da economia da cultura. Mônica Mon- tomando corpo e vai, assim como a saúde
Vargas diz que os processos de inter- teiro, coordenadora-geral de Ações do e a educação, começando a ser pensada
venções sociais em Cidade Tiradentes Programa Mais Cultura do Ministério como um direito”, completa.
começaram entre 2000 e 2004, numa par- da Cultura, relata como esse setor tem Buscando incentivar a cultura como
ceria entre o governo e a Prefeitura de São ligação com a questão de geração de uma possibilidade de renda, o Programa
Paulo. A ONG dispõe de projetos emba- trabalho e renda. “A cultura começa a se Mais Cultura tem estimulado jovens de
sados na economia solidária, buscando consolidar como estratégia importante 17 a 29 anos a apresentarem projetos cul-
com que o jovem se torne um empreen- de atuação e de integração de políticas turais, desde quem faz cordel até quem
dedor. “Ele não precisa ficar limitado ao no âmbito federal, estadual e municipal. faz um filme com um celular. Criou-se e
mercado tradicional de carteira assinada Isso é extremamente benéfico para a so- fomentou-se um mecanismo de financia-
e que se torna às vezes até humilhante, ciedade, porque a cultura une as pessoas, mento simplificado e lançou-se um edital.
racista e preconceituoso. Porque quando reforça o convívio, estimula a solidarie- No ano passado, um edital na região do
o jovem da periferia tem a expectativa dade e, por fim, possibilita a geração de semiárido recebeu 4 mil inscritos e 1,2
de ter sua independência financeira, a emprego e renda.” mil projetos foram financiados. Na Ama-
cidade Tiradentes está a 36 quilômetros Lançado em 2007, o Programa Mais zônia Legal, um edital deste ano recebeu
do centro da cidade, uma média de tempo Cultura reúne esses aspectos, de acor- 2,7 mil inscritos e premiou 928 iniciati-
de transporte de quase duas horas e meia do com Mônica. O foco do programa vas. O objetivo com os editais, conforme
para chegar até a região central.” é o cidadão que não frequenta uma Mônica, é fazer uma mapeamento para a
Por outro lado, em Cidade Tiraden- biblioteca, um cinema, que mora pre- partir daí se desenhar políticas públicas
tes, não há postos de trabalho. A Cadesc cariamente, que jamais entrou num inspiradas no programa.
33
Violência

A presença do Estado
As ações habitacionais em tica, ausência de infraestrutura, excesso
de densidade e precariedade na habitação.
assentamentos precários levam Ou seja, muita pobreza.
o poder público a territórios Ruth diz que as ruas da Rocinha, por
exemplo, tinham 60 centímetros, e lá se en-
dominados pelo crime, enquanto contrava o maior índice de tuberculose do
as equipes sociais buscam País. Em nenhuma das três comunidades
havia uma escola de ensino médio.
melhorar a qualidade de vida da Nesse cenário, foram lançadas as
população e integrá-la à cidade obras sociais do PAC com o objetivo de
atender 11.761 famílias em Manguinhos,
15.520, no Alemão e 34 mil, na Rocinha.

A
rmas, drogas, tráfico, milícias. nava um depósito do Exército, que cedeu o Segundo ela, a estratégia para trabalhar
As equipes sociais, em geral, se espaço desocupado por conta da violência. nas comunidades foi a equipe social es-
deparam com essas presenças No campo social, as comunidades tar presente todos os dias, para atender
nos espaços das intervenções apresentavam, em comum, baixo Índi- a demanda da população. Por isso, foram
habitacionais. O trabalhador social tem, ce de Desenvolvimento Humano (IDH), criados os canteiros sociais. O objetivo
assim, um desafio maior: lidar com a vio- presença do crime organizado e lideran- era garantir a participação cidadã e apro-
lência. A entrada nas favelas muitas vezes é ças pontuais, muitas vezes indicadas pelo veitar todas as oportunidades de melho-
limitada a certos horários e dias. A partici- tráfico. Do ponto de vista econômico, alto ria da qualidade de vida da comunidade
pação dos moradores, em geral, é pautada índice de desemprego e de pessoas que não por meio da intervenção.
pelo medo. Há casos em que negociar com o tinham capacitação sequer para trabalhar “O canteiro social funciona como um
tráfico e milícias pode significar uma saída nas obras. Em relação à dinâmica urbanís- espaço de debate, de capacitação, de aco-
para conseguir realizar um trabalho. Mas
Marcelo Casal Jr./Abr

há muitos projetos em execução, tentando


superar o problema da criminalidade.
O trabalho social em Manguinhos,
Complexo do Alemão e Rocinha, três das
maiores favelas do Rio de Janeiro (RJ), é
exemplo disso. A urbanista Ruth Jurberg,
coordenadora dos projetos sociais do PAC
nas três comunidades, considera as áreas
complexas de se trabalhar. A equipe social
entrou no território após o início da obra,
enfrentando uma resistência muito grande
dos moradores, receosos devido à ausência
do poder público havia 20 anos. “O projeto
urbanístico foi apresentado ao governo fe-
deral sem a participação da sociedade, que
foi construída ao longo do processo.”
A situação encontrada não era fácil. Em
Manguinhos, por exemplo, Ruth relata
que, com as casas na beira do rio, em pala-
fitas, “a cada chuva a equipe rezava”. Hoje,
a população que morava nas palafitas vive
em um conjunto com 416 unidades habita- Rio de Janeiro (RJ)
cionais, construído numa área onde funcio-
34
lhimento da população que nos procura ocupa, pode ser o crime ou pode ser sim-
para absolutamente tudo: tirar suas dú-
A primeira coisa plesmente o vazio.”
vidas, receber informação, fazer recla- que vai reduzir Os moradores participam de todo o
mação, participar de comitê de acompa-
nhamento de obra, de remanejamento, de
e prevenir processo, inclusive da construção. Todos
os grupos são chamados, o que, segundo
geração de emprego e renda”, explica. violência na Mizne, é importante, pois quanto maior
No início, quem participava das comunidade é a diversidade de públicos e de estilos,
reuniões eram as lideranças, “absolu- maior a segurança. “É também através
tamente desconfiadas, porque estavam a presença do da diversidade que se trabalha a lógica
perdendo o poder. O Estado estava Estado, diz Ruth da convivência pacífica”, explica.
voltando e entrando nesses lugares”, Algumas etapas de acabamento são
relata. A estratégia utilizada foi buscar feitas em mutirão, com a participação da
o diálogo. Para isso, surgiu o canteiro comunidade. Dessa forma, cria-se a ló-
itinerante, que vai até a comunidade, nidades abandonadas pelo Estado. “Isso gica do pertencimento. “Não se trata de
assim as informações do trabalho social é um sinal de que estamos mudando. É um presente para a comunidade, é uma
estariam presentes em todos os locais. o primeiro passo para incorporar essas construção coletiva”, diz o diretor do
Ruth afirma que assim como em Me- zonas periféricas, para fazerem parte da Instituto. Seguindo esse modelo, há mais
dellín, na Colômbia, cujas comunidades cidade”, reflete. Ruth destaca que, com a probabilidade de a comunidade passar a
estão no morro, a dificuldade de acesso presença da Unidade Pacificadora de Polí- cuidar da preservação do espaço.
facilita a violência. “No Alemão, havia cia (UPP), “será muito mais simples para Paralelamente à obra da praça, a equi-
pessoas, principalmente idosas, que não as equipes sociais poderem trabalhar”. pe de trabalho desenvolve um processo de
desciam o morro havia sete anos, porque Na opinião de Mizne, “a mesma formação com os moradores, sobre como
não tinha escada, não tinha rampa. Com lógica dos condomínios, de se trancar dialogar com o poder público, exigir di-
o teleférico [previsto para começar a fun- dentro de casa, que prevalece nas áreas reitos, qual é órgão responsável por cada
cionar em março de 2011], elas vão reali- ricas, também se dá nas áreas pobres. parte, entre outras demandas. Nessa
zar esse trajeto em 17 minutos, o que muda As pessoas vão abandonando os espa- fase, são debatidos conteúdos como a
tudo. Isso integra a comunidade, incorpora ços públicos e fugindo dele por medo”, cultura da paz, de convivência, da não
a favela ao tecido urbano da cidade, com in- explica. Por outro lado, surge outro es- violência. Com a praça pronta, inicia-se o
tegração de metrô e de trem. Acho que isso paço de convivência, o bar. Mas é no processo de ocupação com a realização de
é realmente buscar diminuir a violência.” entorno desse espaço, diz ele, que se eventos, oficinas, shows, torneios esporti-
Em Medellín, na Colômbia, a popula- concentra a maioria dos homicídios. “A vos, festivais culturais. A instituição fica,
ção pobre habita as montanhas. Antes de busca pela convivência existe, a pre- em média, quatro anos em cada projeto.
chegar ao Alemão, o teleférico integrou sença da população jovem é enorme, há Cada praça tem entre 5 e 7 mil m2 e
aquela população ao restante da cidade. demanda por espaços públicos, onde contém equipamentos, campo de futebol,
De acordo com Carlos Alberto Montoya o direito ao lazer, ao esporte, à cultura quadras street ball, pista de caminhada,
Correa, da Empresa de Desarrollo Urba- possa ser exercido.” playground, palco para atrações cultu-
no de Medellín, a ideia surgiu em 2002. Daí surgiu a ideia da ONG de viabili- rais, um espaço coberto para reuniões e
Os metro cables saem do centro e vão zar as “Praças da Paz”, com parcerias da encontros da comunidade – e nenhuma
até o alto das montanhas. Atualmente já iniciativa privada e, agora, com a Secre- delas tem muros ou cerca. A aposta do
existem dois instalados, e até 2011 have- taria de Habitação do Município de São projeto é que com a praça, a população
rá mais dois, totalizado 23 linhas. Paulo. O objetivo é recuperar esses espa- seja estimulada a lutar por outros proces-
Correa ressalta que aos pobres so- ços, tornando-os um local público seguro, sos de melhoria urbana, principalmente
bram habitações nas regiões extrema- de convivência democrática e gerido pela no entorno daquele espaço.
mente íngremes e difíceis de chegar, onde própria comunidade, em parceria com o Para Mizne, a construção de espaços
o “território é mais hostil, onde a topo- poder público. O projeto começa a partir públicos de convivência deve ser política
grafia, a engenharia, os deslizamentos, o do diálogo com a população, quando os pública. “A primeira coisa que vai reduzir
inverno se expressam dramaticamente”. técnicos passam a discutir como um lu- e prevenir violência na comunidade é a pre-
gar pode ser utilizado de outra maneira sença do Estado. A segunda, é que esse Es-
Espaços públicos pela comunidade. “O espaço que tradi- tado se faça presente também, quando seja
Denis Mizne, diretor do Instituto Sou cionalmente é evitado ou é dominado pelo necessário, com a polícia, como está acon-
da Paz, lembra que há duas décadas nin- tráfico, ou pelo medo, porque quando tecendo nas UPPs [Unidades Pacificadora
guém teria coragem de entrar nas comu- abandonamos o espaço público, alguém de Polícia]”, salienta Ruth.
35
Minha Casa, Minha Vida

Trabalho social para


4 milhões de famílias
Programa
expande Arquivo/Ministério das Cidades

construção
de habitação
para população
de baixa
renda e inclui
trabalho social,
ainda que
com recursos
limitados e com
duração de
seis meses

L
ançado em 2009, o Progra-
ma Minha Casa, Minha Vida
(PMCMV) surgiu com o obje-
tivo de incentivar a produção e
a aquisição de moradias para a população
com renda mensal de até dez salários míni-
Nossa Senhora da Apresentação - Natal (RN)
mos. Gerido pelo Ministério das Cidades
e operacionalizado pela Caixa Econômica
Federal, o programa utilizou o Fundo de salários mínimos e as 600 mil restantes, até é acordado entre a empresa e a prefeitura.
Arrendamento Residencial (FAR), que con- dez salários. E o trabalho técnico-social faz No caso, do FDS, quando a construção é
trata construtoras para erguer as moradias parte do programa. Coube à área social da organizada de forma coletiva, são destina-
destinadas às famílias com renda de até R$ Caixa construir uma proposta de trabalho dos R$ 250,00 por família. Já em relação
1.395,00, selecionadas pela Caixa. para o PMCMV. Até 2014, o objetivo é con- ao financiamento do Orçamento Geral da
“O PMCMV foi criado no âmbito da tratar 3 milhões de habitações populares. União (OGU), o público-alvo é o agricultor
crise internacional. O governo federal re- Com fontes de recursos diferenciadas familiar, e R$ 200,00 são para o trabalho so-
solveu investir em um dos setores que mais para a construção das moradias – FAR, cial, por unidade.
dinamismo tem para a geração de emprego FGTS, FDS OGU –, o recurso previsto “O nosso foco são as famílias aten-
e renda e a movimentação da economia, que para o trabalho social varia. No caso de didas com recursos do FAR”, diz Meg
é a construção civil”, explica Marta Garske, famílias com renda de até R$ 1.395,00, são Galiza, gerente executiva da Caixa Eco-
diretora do Departamento de Produção Ha- reservados 0,5% sobre o custo da unidade nômica. “Temos 270 mil unidades habi-
bitacional do Ministério das Cidades. De habitacional para o trabalho social. No caso tacionais contratadas. São famílias de
acordo com ela, a meta inicial era a constru- da obra financiada pelo FGTS, que atende baixa renda, com histórico de exclusão e
ção de um milhão de moradias, sendo 400 famílias com renda entre R$ 1.395,00 até que estão dispersas no município.”
mil para a faixa de renda entre zero e três R$ 4.900,00, não existe recurso fixo, o valor Diante desse desafio e com um volume
36
de recursos pequeno para o trabalho social, rencial, porém, é incluí-la no mercado Moradia em massa
a Caixa construiu uma proposta metodoló- formal de habitação. “A habitação de Na opinião de Ricardo Gouvêa, di-
gica para ser aplicada no PMCMV. “O foco interesse social no Brasil sempre esteve retor executivo da Fundação Bento Ru-
do trabalho é a fixação desses beneficiários associada a dois grandes desafios: seu bião, nos próximos quatro anos haverá
nas unidades. Com o Programa atendemos provimento na quantidade e na quali- uma produção habitacional massiva.
a política habitacional, mas é necessário dade necessárias e também em relação “Vamos, em cinco anos, nos equiparar
levar outras políticas para que essas famí- à sua sustentabilidade”, analisa. à produção de 20 anos do BHN, sendo
lias se fixem nessas unidades. É uma nova O que pode dificultar a superação des- que o BHN não teve essa proporção
forma de vida, que exige compartilhamento ses problemas, na opinião de Maria, é a concentrada na faixa de zero a três sa-
de espaço e de responsabilidade, elas vão construção de conjuntos habitacionais lários como o PMCMV”, aponta.
ter alguns gastos que anteriormente não com padrões arquitetônicos sem levar em Para Gouvêa, o programa aconte-
tinham”, afirma Meg. conta as reais necessidades da população ce num momento macroeconômico de
Nesse sentido, o plano de interven- a ser atendida. Ela lembra que, geralmen- crescimento. Mas as fragilidades de in-
ção técnico-social da CEF tem como foco te, são moradias em territórios desassis- serção da população no tecido urbano
preparar essas famílias para a vida em tidos de infraestrutura. continuam. Por isso, ele considera que é
comum e a sua permanência no imóvel. Outra questão desafiante em rela- fundamental avaliar qual o objetivo do
“Em função do limite de recurso, o traba- ção à sustentabilidade dos programas trabalho social. “Senão vira uma imple-
lho está direcionado para a vida em con- habitacionais é a regularização fundi- mentação de cardápio, de instrumentos,
domínio e em comunidade”, sustenta. ária. Maria cita experiências de proje- de atividades, sem objetivos estratégicos
A implantação do plano é realizada por tos, que foram encerrados, e não houve claros, sem o norte. Vira uma coisa cheia
empresas credenciadas pela Caixa, com du- a regularização. “A população não se de meios e sem um fim.”
ração prevista de seis meses. Segundo Meg, sente proprietária do imóvel, nem res- Entre as finalidades, Gouvêa consi-
o início se dá cerca de dois meses antes da ponsável pela manutenção e conserva- dera que o trabalho social com o objeti-
assinatura do contrato (pré-ocupação) e ção, seja da unidade habitacional, seja vo de servir à obra é reducionista. Para
quatro meses após a mudança (pós-ocupa- das áreas comuns.” ele, o trabalho deve seguir o caminho
ção). Na primeira etapa, são feitas ativi- A dimensão do PMCMV também do que alguns autores denominam de-
dades informativas sobre o programa, por é um desafio, pois o programa preten- senvolvimento sócioespacial. “Ou seja,
exemplo, critério de participação, condições de estar em todo o território nacional, de direito à cidade, para usar uma lin-
de contrato, orientações sobre os procedi- diferente de outros projetos concen- guagem de bandeira de luta mais atu-
mentos de entrega de imóveis, noções bási- trados em um espaço específico. Ma- al”, observa. Trata-se de um trabalho
cas para a convivência em condomínio, se ria destaca a importância do trabalho que não se restringe à moradia, pois “a
necessário. Já na segunda fase, as ações são social, mas acredita que os prazos e os conquista da casa não encerra uma tra-
voltadas à organização e á integração dos recursos viabilizados, como diz Meg, jetória de luta maior”.
beneficiários, regras de convivência, educa- não são ideais. “Haverá uma diversi- Gouvêa avalia que os planos lo-
ção financeira e uso do espaço construído. dade de atores fazendo esse trabalho, o cais de interesse em habitação social
Meg explica que o objetivo é fortalecer que vai exigir um processo de acompa- deveriam incorporar qual é o objeti-
os laços com os moradores, e deles com a nhamento e monitoramento muito bem vo estratégico do trabalho social. Os
nova moradia. “É uma proposta possível, pensado pela Caixa, para que efetiva- planos devem ir além do componente
e não ideal”, avalia. Ela ressalta que para mente se avalie minimamente os resul- urbanístico, territorial, econômico, so-
garantir a permanência das famílias nas tados obtidos”, afirma Maria. cial e institucional. Diante do pouco
novas unidades é necessária a integração Para ela, o trabalho ideal deveria tempo de trabalho social e da limitação
de outras políticas públicas no novo espaço. começar no momento em que o projeto de recursos, Gouvêa questiona como
“Senão, com o tempo, as pessoas acabam é aprovado e a obra, iniciada. Em sua conseguir contar com a participação da
saindo, vendendo seus imóveis.” proposta, para cada fase de execução população. “A questão da informação é
do conjunto habitacional, deveriam fundamental na participação”, sugere.
Sustentabilidade e desafios ser desenvolvidas algumas etapas do Ele conclui que o trabalho social
Para Maria Albuquerque, da Sy- trabalho social. “Outra preocupação “não deve servir à obra, mas incluir a
nergia Socioambiental, o PMCMV é o é pensar ações organizativas voltadas obra”. O PMCMV, para ele, não é ape-
primeiro projeto público habitacional para a implantação da gestão condomi- nas uma política de infraestrutura, ou
voltado à população de baixa renda de- nial, ações educativas e de geração de uma estratégia vitoriosa para salvar o
pois da experiência do Banco Nacional renda, por exemplo, redes de solidarie- País de uma crise econômica, mas se
de Habitação (BNH). O grande dife- dade nos territórios”, informa. trata de uma política social.
37
Meio ambiente

Rumo a
habitações
sustentáveis
Educação ambiental em projetos de
intervenções contribui para colocar
temas socioambientais em debate
nas comunidades São Paulo (SP)

A
s questões ambientais têm
ganhado cada vez mais des-
taque por conta das evidên-
cias empíricas e cientificas
de que o ser humano está causando
impactos na Terra. Em assentamentos
precários, muitas vezes sob córregos e
sem coleta de resíduos, as questões am-
bientais precisam fazer parte dos proje-
tos de intervenção.
Seguindo o princípio da interseto-
rialidade, a Habitação e a Secretaria
de Meio Ambiente podem desenvolver
ações conjuntas neste sentido, que se
iniciam antes da obra física. “Os pro-
jetos têm começo, meio e fim, mas a ci-
dade continua permanente com as ques-
tões urbanas, e as famílias também, esse
é o nosso desafio hoje, trabalhar com as
famílias esse contexto das cidades”,
diz Rosângela Gomes, da Secretaria de
Meio Ambiente de Curitiba (SMMA).
A secretaria de Curitiba realiza um
trabalho de educação ambiental em
parceria com a Companhia de Habita-
ção Popular de Curitiba (Cohab), com
diversas ações socioambientais, como,
por exemplo, relacionadas a resíduos
e recuperação de rios. O projeto está
São Paulo (SP)
alinhado à Política de Meio Ambiente
38
social se depara. Para Miriam, todo tra-

Fotos: Arquivo / Cities Alliance


balho deve ser socioambiental e a respon-
sabilidade deve ser compartilhada.
Conforme sua metodologia, a pri-
meira etapa a fazer no assentamento é
um diagnóstico socioambiental. Nele,
devem constar os equipamentos públi-
cos disponíveis, as políticas públicas
aplicadas, os projetos sociambientais
desenvolvidos na comunidade e as
tecnologias sociais existentes, entre
outras informações. Em seguida, Mi-
riam propõe a execução de ecomapas
sistêmicos. Trata-se de uma visão grá-
fica que contém as redes estabelecidas
na comunidade. A seguir, são propos-
tas atividades práticas, como oficinas
do futuro e temáticas, nas quais são
disponibilizados os repertórios nos te-
mas socioambientais escolhidos pela
própria comunidade.
Segundo Miriam, são seguidos três
do município. “Nas áreas em que se Miriam Dualib, presidente do Instituto princípios básicos: foco em parcerias, na
realizam as realocações, são contrata- Ecoar para a Cidadania, concorda e enten- participação social e na responsabilida-
dos técnicos de meio ambiente, sob a de que devem ser construídas sociedades de compartilhada. Com o processo, é fo-
coordenação do Centro de Educação sustentáveis. Ela acredita que a Agenda 21 mentada a participação da comunidade,
Ambiental da SMMA, para a orien- ainda é um dos instrumentos mais eficazes o que gera um senso de pertencimento e
tação educativa às famílias sobre as de planejamento participativo. cooperação entre os moradores para re-
questões ambientais, antes, durante e O instituto desenvolveu uma metodo- solver os problemas locais.
depois do processo da mudança.” logia para aplicar o documento: a “Agen- Uma das ações importantes, que
Para Leny Toniolo, também da da 21 do pedaço”. “Entendemos o pedaço também consta na metodologia do
SMMA, a educação ambiental não se como um território físico, onde se trabalha, Ecoar, é agregar a sustentabilidade à
contrapõe a outra educação, não am- se intervém. Pode ser uma escola, uma geração de trabalho e renda. Diversas
biental. “Temos que partir do entendi- empresa, uma favela, uma comunidade, iniciativas têm sido adotadas nos re-
mento de que toda educação é ambiental até um condomínio.” De acordo com a me- assentamentos, como a formação de
e que nascemos, vivemos e morremos, todologia, a agenda local é elaborada de cooperativas de reciclagem. No caso
e somos educados para viver nesse forma horizontal e participativa. de Belo Horizonte, por exemplo, Clau-
ambiente. Não se trata de agregar um dius Vinicius Leite Pereira, da Compa-
modo compartimentado, mas de perce- Etapas socioambientais nhia Urbanizadora da cidade (Urbel),
ber o mundo com um outro entendimen- Os objetivos são contribuir para for- a educação sanitária e ambiental faz
to, uma outra lógica”, explica. talecer o sentimento de pertencimento e parte da intervenção. Lá, são realizadas
Construir essa outra lógica é o desafio compromisso da população em relação ao atividades econômicas relacionadas às
da educação ambiental. Segundo Leny, o meio ambiente, promover uma compreen- ações ligadas à recuperação do espaço.
objetivo é que esses novos entendimentos são ampla, crítica e geral das condições Entre as ações, estão a recuperação de
e saberes possam ser incorporados à cul- socioambientais, formar agentes de sus- nascentes e transformação de cursos
tura local, por meio de uma efetiva par- tentabilidade e capacitar atores sociais de água em parques lineares. Já em ter-
ticipação da população. “É um processo para a construção de comunidades sus- mos de geração de trabalho e renda, são
permanente de construção de um outro tentáveis. “O que é responsabilidade da desenvolvidos cursos de formação de
jeito de estar no mundo.” Ela afirma que comunidade, o que é da prefeitura, o que jardinagem e produção de mudas, entre
cada comunidade constrói o seu conceito é da concessionária?”, essas são algumas outros. Isso mostra que a sustentabili-
de sustentabilidade com base no espaço das questões práticas apresentadas pela dade é mais do que uma preocupação,
físico em que vive e da sua história. educadora, com as quais o trabalhador pode ser uma possibilidade.
39
Desafios

Recomendações propostas
para o trabalho social no
desenvolvimento urbano
Por Francesco di Villarosa*
Arquivo / Fundação AVSI

E
sta nota é o produto da sín-
tese e sucessiva elaboração
(i) dos resultados de grupos
focais e entrevistas condu-
zidas com operadores e especialistas
em trabalho social (TS) em favelas, em
Salvador, São Paulo e Rio de Janeiro, e
(ii) dos conteúdos e conclusões do Se-
minário Internacional sobre TS em In-
tervenções Habitacionais, realizado em
Brasília de 31/8 a 2/9 de 2010.
A finalidade deste texto conclusivo
é ressaltar alguns assuntos-chave an-
teriormente discutidos, estabelecendo
ligações entre eles, de forma a poder
apresentar, no lugar de sugestões pon-
tuais, um conjunto coerente de diretrizes
– uma “agenda” – passível de aprofun-
damentos analíticos e eventuais encami-
nhamentos institucionais e normativos.

I. O conceito do territó-
rio é central para o TS
território com as suas es-
pecificidades, mas também com a sua
Projeto Comunidade Viva, Olinda (PE)

articulação com a cidade como um todo.


Foram sugeridas metodologias partici- planos de desenvolvimento local, que de elegibilidade das mesmas, pode ser
pativas para uma maior “apropriação” articulem as demandas e potenciali- um poderoso estímulo à intersetoriali-
desse território, a realização de mini- dades especificamente locais com as dade. Entretanto, tal estrutura deverá
diagnósticos para identificação e carac- políticas públicas da cidade. Tais pla- ser suficientemente flexível para poder
terização das áreas de vulnerabilidade, nos devem ser adequadamente instru- se adaptar a diversos estágios de de-
assim como a sua adequada inserção em mentalizados para que não fiquem só senvolvimento institucional local e a
processos de planejamento municipal. no papel. Claramente, não é função do diversas prioridades políticas e arran-
TS – nem do setor da Habitação – re- jos de gestão. Deverão ser avaliadas

II. É no território que se deve


concretizar a focalização e
a integração de políti-
cas intersetoriais, por meio de
alizar ações extrassetoriais, mas uma
estrutura adequada de incentivos e
condicionalidades, embutida no dese-
nho das intervenções e nas condições
previamente (i) a capacidade de gestão
integrada e (ii) a presença e efetividade
de programas setoriais, das diversas
esferas de governo, no município.
40
III. Essas considerações va-
lem especialmente para
a geração de tra-
balho e renda – um dos assuntos
necessidade de “apropriação” do terri-
tório já citado. Para além do desejado
fortalecimento das instâncias de partici-
pação – sejam aquelas promovidas pelas
mais complexos identificados. Não se intervenções habitacionais, sejam as já
pretende aqui reduzir o desemprego do institucionalizadas –, é oportuno concei-
País, mas é legitimo esperar incorporar tuar e promover um papel mais proativo
as ações que a União, as prefeituras e os das entidades comunitárias, seja na ins-
estados já estão fazendo. A GTR deve (i) trumentalização do próprio TS, seja no
ser planejada com base em diagnósticos fortalecimento do “saber fazer” da pró-
aprofundados feitos por especialistas, pria comunidade. Essa abordagem requer
inclusive das bases educacionais ne- uma nova divisão do trabalho entre TS
cessárias para dar andamento à quali- e comunidade, assim como uma revisão
ficação dos trabalhadores, (ii) financiar dos respectivos papéis. Foi também su-
ações compatíveis com vocações e mer- gerida a elaboração de uma checklist de
cados previamente identificados, (iii) responsabilidades e compromissos para
buscar a articulação com o mercado for- a pactuação com os moradores.
mal, e (iv) ser objeto de avaliação rigoro-
sa, que permita aprender sobre tempos e
modos da eventual inserção dos traba-
lhadores atendidos no mercado. VII. Perante a crescen-
te complexidade,
maior volume de
recursos a serem administrados, e no-

IV. Outra área, onde a ar-


ticulação intersetorial é
crucial, é a do controle
e prevenção da violência. A ação
vas tarefas a serem executadas pelo
TS, recomenda-se incluir entre os com-
ponentes financiáveis das intervenções
um Componente de Gestão (no
de equipes sociais experientes e de li- molde dos financiamentos do BID e do
deranças locais legitimadas pode pro- Bird). Isso faria com que, inclusive, fos-
duzir paliativos que permitam a viabi- se exigido para o TS pessoal com com-
lização da intervenção, mas – sozinha petências adequadas, a serem oportu-
– não pode realizar um controle efeti- namente estimuladas, seja por meio da
vo do crime. É imperativo fortalecer e articulação com o setor acadêmico, com
aprofundar as experiências de sucesso iniciativas formativas pelo Ministério
de policiamento comunitário. das Cidades e pala Caixa.

V. Nesse quadro, em que a


articulação intersetorial
deve ser calibrada à ava-
liação da capacidade local, é ainda mais
VIII. Uma das respon-
sabilidades cru-
ciais a serem assu-
­midas por esse componente de gestão
Sistemas e importante dar prioridade ao TS é a implantação de sistemas e proce-
ligado à habitação, inclusive a re- dimentos de monitoramento
procedimentos gularização fundiária. Se não houver con- e avaliação adequados da inter-
de monitoramento dição para a articulação intersetorial para venção, nas suas diversas dimensões,
e avaliação o desenvolvimento local, não são o TS ou inclusive a dimensão sócioeconômica
a Habitação que podem se substituir às dos beneficiários. É fundamental que
seriam uma das setoriais institucionalmente responsáveis. a SNH assuma a liderança desse pro-
responsabilidades cesso, produzindo diretrizes, manuais e
a serem assumidas
pelo componente
de gestão
VI. Outra área onde é neces-
sário avançar e inovar
é aquela do capital
social local – também em relação à
instrumentos para M&A.

* Francesco di Villarosa é
consultor na área de habitação.
41
Seminário Internacional Trabalho Social
em Intervenções Habitacionais

Palestrantes:

Alexandre Furlanetto Kleyd Taboada


Altermir Almeida Leny Toniolo
Andréia Rabetim Márcia Gesina
Bárbara Araujo dos Santos Maria Albuquerque
Carla Barcellos Margareth Coelho
Carlos Alberto Montoya Correa Meg Galiza
Carlos Medeiros Milton Botler
Celine D’Cruz Miriam Badin
Claudius Vinicius Leite Pereira Miriam Dualib
Darlene de Moraes Silveira Mônica Monteiro
Débora Pastro Neusa Enokihara
Denis Mizne Ricardo Gouvêa
Dirce Koga Rômulo Paes de Sousa
Dulce Cazzuni Ronaldo Teixeira da Silva
Eduardo Moura Rosana Denaldi
Edymar Fernandes Cintra Rosane Fátima Hambsch do Nascimento
Emeri Ângela Rosângela Dias Oliveira da Paz
Evaniza Lopes Rodrigues Rosângela Gomes
Fabrizio Pellicelli Ruth Jurberg
Francesco Villarosa Sérgio Gonçalves
Inês Magalhães Tássia Regino
João Armindo Coelho Vargas Thadeu Abicalil
Kátia Melo Violeta Kubrusly

Arquivo/Ministério das Cidades

Barroso (MG)

42
Dicas de leitura
Trabalho Social em Programas Ações integradas de
e Projetos de Habitação de urbanização de
Interesse Social assentamentos precários
Apresenta, na Apresenta, na íntegra,
íntegra, o material o material utilizado
utilizado no no desenvolvimento
desenvolvimento da segunda edição
do curso de curso de ensino a
ensino a distância distância Urbanização
Trabalho Social em de Assentamentos
Programas e Projetos Precários (EAD-
de Habitação de UrbFavelas)
Interesse Social promovido pela
(EAD-Trabalho Social), promovido pela Secretaria Nacional
Secretaria Nacional de Habitação do de Habitação do
Ministério das Cidades em parceria com Ministério das Cidades em parceria com
a Aliança de Cidades. o Instituto do Banco Mundial (WBI).

Disponível no site do Ministério das Cidades Disponível no site do Ministério das Cidades
(www.cidades.gov.br) em http://www.cidades. (www.cidades.gov.br) em http://www.cidades.
gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ArquivosPDF/
ArquivosPDF/Livro_EAD_19-10-10.pdf PNUD_Curso_a_distancia_Miolo.pdf
Arquivo/Ministério das Cidades

São Luís (MA)

43
Secretaria Nacional de
Habitação

44