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Carlos Gaspar 

A China depois do 11 de Setembro


Mundo em Português | Março de 2002
Segurança Internacional 
Estudos Regionais - Ásia 

No dia 21 de Fevereiro, George Bush e Jiang Zemin celebraram, em Pequim, a assinatura do


comunicado de Shanghai, que marcou, há trinta anos, o inicio do processo de normalização das
relações diplomáticas entre os Estados Unidos e a República Popular da China.

Tudo mudou nesse intervalo. Em 1972, a cimeira


entre Mao Tsetung e Richard Nixonrepresentou uma viragem decisiva na politica internacional,
porque traduziu numa equação estratégica sem precedentes a cisão politica e ideológica entre as
duas grandes potências comunistas. O primeiro passo pertenceu à China, quando passou a
considerar o seu rival ideológico como o  inimigo principal e, desse modo, abriu caminho a uma
convergência com os Estados Unidos para ultrapassar o seu isolamento e conter a ameaça da
União Soviética. Essa mudança tornou possivel a estratégia norte-americana de détente, pela
qual os Estados Unidos demonstraram poder tratar com ambas as principais potências
comunistas, divididas entre si : depois da cimeira histórica com Mao, o presidente Nixon foi
reunir-se com LeonidBrezhnev, em Moscovo. Tirando partido dos paradoxos da ideologia, essa
estratégia assentava a preponderância norte-americana no sistema internacional na sua
capacidade para desdobrar a competição bipolar numa dupla guerra fria que opunha a União
Soviética, por um lado, aos Estados Unidos e, por outro lado, à China.

As duas guerras frias terminaram com o fim sucessivo do regime comunista russo e da União
Soviética, em 1991. Os Estados Unidos prevaleceram sobre o seu adversário estratégico e
tornaram-se a única grande potência internacional, enquanto a China sobreviveu ao seu rival
ideológico e passou a ser a última grande potência comunista. O sucesso de ambos não só fez
desaparecer as razões de uma quase-aliança, como acentuou as  clivagens entre as duas maiores
potências do post-guerra fria, que se transformaram em competidores estratégicos.

Trinta anos depois, os sucessores de Mao e Nixon podem ter pela frente uma oportunidade para
imprimir a sua marca no sentido da história. Os trágicos atentados terroristas de Nova York e
Washington provocaram uma mudança súbita nas prioridades norte-americanas e a resposta
dos Estados Unidos à agressão terrorista começou a mudar a politica internacional, forçando a
China a adaptar as orientações estratégicas definidas nos últimos dez anos.

A “asianização” da China

O fim da guerra fria alterou, significativamente, o estatuto e a posição internacional da China.


Desde logo, deixou de existir o jogo triangular da bipolaridade e, nesse sentido, a China, tal
como a Rússia, perdeu o seu lugar no centro do sistema internacional, preenchido
exclusivamente pelos Estados Unidos, pelo menos durante um “momento unipolar”. Por outro
lado, as circunstâncias da dupla transição post-soviética, entre o fim do velho império e a
mudança de regime politico, impuseram um declinio acentuado da Rússia, cuja posição como
segunda potência na hierarquia internacional passou a ser ocupada pela China, onde a
estabilidade politica garantiu a continuidade de um ciclo de crescimento económico acelerado
nos últimos vinte anos. Por último, o fim da União Soviética não só removeu a principal ameaça
à segurança chinesa, como tornou possivel a transferência do seu centro de gravidade para a
orla maritima, inserindo a República Popular da China numa dinâmica estratégica asiática.

A “asianização” da China serviu, em primeiro lugar, para confirmar a tendência de


regionalização do sistema internacional no post-guerra fria e, nesse caso, restaurou a unidade
estratégica da Asia Oriental como uma das grandes regiões internacionais, centrada  na
principal potência continental e estruturada ao longo do arco maritimoque liga o Japão à
Birmânia. Em segundo lugar, a inserção regional da China tornoupossivel realizar as “quatro
modernizações” de Deng Xiaoping, com a abertura às economias capitalistas asiáticas e
beneficiando de uma mobilização única dos investimentos de Taiwan, Hong Kong, Macau e
Singapura. Paralelamente, a regionalização da China coincidiu com uma evolução mais
nacionalista do regime comunista, que revelou as suas afinidades com o tipo de regimes
autoritários dominante no Extremo Oriente. Em terceiro lugar, o regresso ao enquadramento
asiático transformou a China numa grande potência regional, numa balança bipolar que a opõe,
mais uma vez, ao Japão na disputa pela hegemonia na Asia. A divisão entre essas duas grandes
potências garante aos Estados Unidos a sua capacidade de intervenção na Asia Oriental como
potência equilibradora externa, cujo sentido essencial tem sido o de conter a ressurgência da
preponderância chinesa. Nesse contexto, a aliança internacional do periodo da coligação anti-
soviética transformou-se numa competição estratégica regional no post-guerra fria. 

Os dilemas do poder

A mudança na equação estratégica chinesa, nas dinâmicas regionais e nos equilibriosasiáticos


no post-guerra fria co-existe com uma permanência dos conflitos regionais herdados da guerra
fria.

Os principais focos de tensão na Asia Oriental continuam a ser a divisão da Coreia e, sobretudo,


a questão de Taiwan, dois conflitos que envolvem directamente a China, bem como os Estados
Unidos e o Japão. De certo modo, ambos se tornaram mais perigosos e dificeis nos últimos anos.
A Coreia do Norte, presa numa versão sultânicados regimes comunistas, ficou reduzida à sua
aliança com a China. Fechado num isolamento extremo, o regime norte-coreano, pela
sua imprevisibilidade e pela capacidade de produção e exportação de armas de
destruição massiça, passou a ser o paradigma dos rogue states, os perturbadores internacionais
do post-guerra fria. O problema de Taiwan é mais sério e mais interessante. Por um lado, a
República Popular da China é a única grande potência cujo território nacional ainda está
dividido, em consequência dos efeitos remotos da guerra civil e da guerra da Coreia. Por outro
lado, Taiwan, um dos “tigres asiáticos” e o principal investidor externo na economia continental
chinesa, tornou-se uma democracia pluralista, realçando a diferença entre o seu regime o
autoritarismo comunista e fortalecendo as suas alianças com os Estados Unidos e o Japão.

A República Popular da China não pode deixar cair o regime comunista coreano, nem tem os
meios para o controlar, nem para comandar uma estratégia de unificação, e partilha com os
Estados Unidos os riscos da paralisia num conflito instável, onde uma escalada envolveria,
contra a sua vontade, três ou quatro grandes potências. A China não pode admitir,
indefinidamente, a persistência de Taiwan como uma entidade autónoma separada, nem impor
a sua vontade pela força à primeira democracia chinesa, pois uma invasão da ilha Formosa
significaria uma escalada com os Estados Unidos e a possibilidade real de um confronto nuclear.
A divisão prejudica o prestigio da China e a sua projecção asiática : o status quo em Taiwan
éimpossivel, e a sua mudança improvável, mesmo apesar da elegância da fórmula “um pais, dois
sistemas”. Esses dilemas resumem os parâmetros da relação entre a China e os Estados Unidos,
que não se alteraram com o 11 de Setembro.

A resposta chinesa

A China, tal como as outras potências relevantes, não hesitou em tomar o partido dos Estados
Unidos contra os massacres terroristas do 11 de Setembro. No dia seguinte, com o seu voto, o
Conselho de Segurança das Nações Unidas deu carta branca à administração norte-americana
para responder à agressão terrorista e, um dia depois,Jiang Zemin reiterou a solidariedade
chinesa em contacto telefónico directo comGeorge Bush.

O tom estava dado e, nos últimos seis meses, multiplicaram-se os sinais de détente. O presidente
dos Estados Unidos esteve na China duas vezes nesse curto intervalo e omitiu a condenação,
mesmo abstracta, do comunismo no seu primeiro discurso ao Congresso depois dos atentados. A
descrição da grande potência asiática como um “competidor estratégico” desapareceu da
retórica oficial norte-americana, que aceitou a fórmula chinesa da “cooperação construtiva” para
descrever as relações bilaterais, acrescentando apenas um terceiro termo - “candid”, ou francas -
para lhe dar um pouco de sal. No mesmo periodo, a China assinou uma série de convenções
internacionais contra o terrorismo e começou a trabalhar com as agências norte-americanas na
luta contra as redes do terrorismo internacional pan-islâmico, enquanto as potências ocidentais
respeitam uma trégua na sua pressão sobre o regime comunista no terreno dos direitos
humanos e das minorias.

O interesse próprio da China na campanha anti-terrorista é evidente. O seu empenho na


formação da Organização de Cooperação de Shanghai, com a Rússia e a maioria das antigas
repúblicas soviéticas da Asia Central,  antecede os atentados de 11 de Setembro, numa tentativa
de conter a expansão quer dos movimentos separatistas islâmicos no Sinkiang, quer a sua
penetração pelas organizações terroristas instaladas no Afeganistão. Por outro lado, a realização
dos Jogos Olimpicos de 2008 em Pequim, que constitui um momento crucial para a projecção
externa e o prestigio nacional da China, é um importante factor adicional de mobilização das
autoridades para a cooperação internacional contra as ameaças terroristas.

Por boas e por más razões, existe uma congruência real dos interesses de segurança entre as
principais potências na luta contra o terrorismo, incluindo a China, cujo efeito imediato se
traduz numa forte moderação e numa convergência com os Estados Unidos.

Essa convergência entre as principais potências, sem precedentes nos últimos cem anos,
pode durar ? A resposta não depende só de uma das partes. A pressão para a China se reunir a
esse concerto internacional será tanto maior quanto mais sólida for a relação entre os Estados
Unidos e a Rússia, que limita as  fórmulas de aliança alternativas. Mas a consolidação dessa
convergência exige um quadro institucional onde a China possa aparecer com um estatuto de
igualdade e, no minimo, um recursopolitico relevante ao Conselho de Segurança das Nações
Unidas na definição das estratégias de intervenção internacional. Por outro lado, a China, se
quer, muito obviamente, evitar os riscos de isolamento, mostrou, no passado, ser capaz de os
suportar e escolheria essa via no caso de estar em causa a questão de Taiwan.

Dito isto, a resposta depende também da China, onde se nota, nos debates públicos dos peritos
das relações internacionais, uma oposição entre uma linha determinada em denunciar o cerco
norte-americano, fechado na Asia Central depois da intervenção no Afeganistão, e outra
empenhada em conter a radicalização nacionalista e em moldar, com paciência, os interesses da
grande potência asiática às regras do jogo internacional.

Segundo as actas norte-americanas, quando Zhou Enlai recebe Henry Kissinger, em Pequim,


explica-lhe que a “Nova China”, com vinte e dois anos, é mais nova do que os Estados Unidos,
que tem duzentos anos, embora a China tenha uma longa história, registada desde há mais de
quatro mil anos. Talvez o sentido das palavras de Zhouantecipasse um momento em que essa
dualidade fosse ultrapassada e a China pudesse recuperar a sua vocação civilizadora, e talvez o
11 de Setembro a tenha aproximado desse momento.

Carlos Gaspar 

Lições Chinesas
In Jornal Público, 15|Fevereiro|2007
O “Documento de reflexão” apresentado por Javier Solana aos ministros dos Negócios Estrangeiros da União
Europeia reconhece que nenhuma das iniciativas diplomáticas da troika – a Alemanha, a França e a Grã-
Bretanha – teve o menor efeito para sequer atrasar o programa nuclear militar iraniano.

A estratégia da troika falhou redondamente. Se o Irão se tornar uma potência nuclear, o regime teocrático impõe
uma mudança crucial no ordenamento internacional. Os riscos de cadeia de proliferação são evidentes e podem
multiplicar os centros de decisão nuclear no Médio Oriente e na Europa. O Egipto e a Arábia Saudita deram os
sinais nesse sentido e, se a Turquia seguir o exemplo, é difícil impedir que a Ucrânia ou a Alemanha integrem uma
“segunda era nuclear”.

As elites bem-pensantes detestam cenários de catástrofe. O presidente Chirac exprimiu a sua posição quando
disse que a possibilidade de o Irão ter duas ou três armas nucleares não importava. Para os neogaullistas, a
prioridade é a oposição à escalada iniciada pelo presidente Bush, cuja estratégia de ameaça não exclui uma
intervenção armada contra o Irão. Pelo contrário, para a chanceler alemã e para o primeiro-ministro britânico, é
essencial neutralizar o revisionismo nuclear iraniano. Para europeístas, sociais-democratas e democratas-cristãos,
trata-se de defender ostatus quo que tornou possível unificar a Alemanha como uma potência não-nuclear e
conter os riscos de proliferação desde o fim da Guerra Fria, bem como de impedir uma segunda crise
transatlântica e o fim definitivo da aliança ocidental.

A escolha do momento para apresentar o “Documento de reflexão” foi um lapso calamitoso. Na mesma altura, em
Pequim, estava a ser anunciado um primeiro acordo nos termos do qual a Coreia do Norte aceitava desmantelar o
seu programa nuclear militar. Se o acordo se concretizar, o “Eixo do Mal” fica reduzido ao Irão.

Qual é a diferença entre a questão coreana e a iraniana? No primeiro caso, os EUA têm como parceiro a China,
determinada a manter-se única grande potência nuclear da Ásia Oriental, enquanto no segundo, os aliados
europeus dos EUA estão divididos perante a determinação do Irão em ser potência nuclear no Médio Oriente.

Ironicamente, são precisas lições chinesas para mostrar como a força do realismo é necessária nas relações com
os regimes despóticos.