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A CRISE DA UNIPOLARIDADE

Os primeiros anos da transição desde o fim da Guerra Fria têm sido marcados
por crises sucessivas, onde a indefinição, a incerteza e a impotência
substituíram a simplicidade, a previsibilidade e a constância que caracterizaram
a competição entre Estados Unidos e a União Soviética depois da estabilização
da divisão bipolar.

A primeira crise é uma crise das teorias de relações internacionais. As teorias


correntes – realistas, liberais, idealistas – não puderam prever o fim da Guerra
Fria e têm dificuldade em definir a natureza da mudança do sistema
internacional post-bipolar e o significado da preponderância norte-americana.

A segunda crise é uma crise das estratégias da super-potência restante, que


mostrou, de inicio, uma relutância em assumir as responsabilidades
correspondentes a esse estatuto inédito e, mais tarde, revelou uma ambição
imperial, ambas prejudiciais para os interesses nacionais e o prestigio
internacional dos Estados Unidos.

A terceira crise é uma crise de legitimidade, acentuada pelas expectativas


excessivas sobre a capacidade dos Estados Unidos para impor um modelo de
ordenamento liberal e pela divergência crescente entre o poder e a legitimidade
no sistema internacional, agravada por um resistência crescente às posições
ocidentais.

As crises da teoria

O fim da União Soviética e da distribuição bipolar do poder internacional foi


recebido pelos teóricos realistas e neo-realistas como o início de uma
transição: o “momento unipolar” devia dar lugar, com toda a brevidade, à
restauração da “normalidade” multipolar. Paralelamente, a ala liberal anunciava
a vitória ocidental e a consolidação do seu “modelo constitucional”, enquanto a
vanguarda kantiana antecipava o advento da “paz democrática” e o princípio da
realização do programa cosmopolítico.
A recusa teórica da unipolaridade, que não era reconhecida como um sistema
internacional estável a par dos sistemas bipolares ou multipolares, só começou
a ser posta em causa no fim da primeira década do post-Guerra Fria. Depois, o
“11 de Setembro” marcou a interrupção do programa kantiano, mostrou os
limites da pretensão de domínio internacional das democracias liberais e
provocou um reconhecimento geral da unipolaridade. A súbita inversão de
tendência transformou a unipolaridade em hegemonia  e a potência
hegemónica num império.

A relutância dos estruturalistas em reconhecer a unipolaridade é inseparável da


dificuldade em separar a redução extrema do número de pólos e a mudança na
natureza do sistema internacional. A sobrevivência dos Estados Unidos, a
extraordinária concentração de poder na última superpotência e a aparente
paralisia dos mecanismos de equilibração podiam significar uma transição
inédita da anarquia para a hierarquia, em que as unidades do sistema deixam
de ser do mesmo tipo (like-units) – os Estados nacionais no modelo
westphaliano dominante nos últimos trezentos e cinquenta anos - e passam a
diferenciar-se radicalmente entre si. Nesse quadro, a mudança do post-Guerra
Fria representaria uma mudança sem precedentes na natureza do sistema e
não só uma mudança na estrutura de distribuição de poder ou, noutros termos,
uma mudança de sistema e não apenas uma mudança sistémica.

Por outras palavras, os estruturalistas tinham, e continuam a ter, dificuldade em


decidir se a unipolaridade pode existir num sistema internacional anárquico por
não conseguirem traçar uma fronteira rigorosa entre a unipolaridade e a
hierarquia imperial. O sistema internacional e a sua ordem anárquica só admite
dois tipos de estruturas de distribuição do poder – bipolar e multipolar. A
hierarquia é um outro sistema – o regresso a um sistema mundial – onde a
principal potência, ou uma instância superior, pôde impor a sua autoridade ao
conjunto das outras unidades e estabeleceu uma ordem centralizada,
incompatível com a regra westphaliana do sistema internacional.

A tese de referência sobre a unipolaridade como um sistema internacional


estável valoriza as dimensões que estabelecem a excepcional assimetria de
poder no post-Guerra Fria, bem como a importância da posição geográfica dos
Estados Unidos e do regime político norte-americano, que asseguram a
durabilidade da nova estrutura de distribuição do poder e a sua capacidade
para garantir a estabilidade internacional. A unipolaridade é definida como um
sistema internacional em que é impossível formar uma coligação com
condições para contrabalançar o pólo solitário e no qual a balança do poder só
funciona em contextos regionais. Esta tese não se filia na escola estruturalista
waltziana e os seus termos de referência remetem para a teoria da estabilidade
hegemónica, ou para a teoria da “power transition”, na medida em que
reconhece os Estados Unidos como a potência hegemónica e admite que a sua
capacidade para transcender a balança do poder significa a imposição de uma
hierarquia no sistema internacional. Numa versão mais impressionista, a
unipolaridade, descrita como uma combinação entre um hard
power incontestável e uma grande ambição, aparece como um sinónimo de
hegemonia: a potência hegemónica é, por definição, a única grande potência e
pode fazer com que o sistema internacional se torne menos anárquico e mais
hierárquico.

Nesse sentido, as escolas realistas e neo-realistas começaram por se dividir


entre, por um lado, os que tinham uma forte relutância em admitir a existência
da unipolaridade como um sistema internacional e em reconhecer a
preponderância dos Estados Unidos como uma estrutura de distribuição
unipolar do poder e, por outro lado, os que propunham uma definição da
unipolaridade como um sistema internacional estável em que os Estados
Unidos assumem o estatuto de potência hegemónica.

As divisões acerca da natureza do sistema internacional acentuaram-se


quando, depois do “11 de Setembro”, surgiram novas teses que definiam os
Estados Unidos não apenas como uma potência hegemónica, mas como um
império.

A persistência da preponderância dos Estados Unidos e a sua capacidade para


assegurar uma relativa estabilidade internacional jogou a favor do
reconhecimento empírico da unipolaridade. A posição mais corrente entre os
realistas define a unipolaridade norte-americana como uma forma de
hegemonia - liberal, benigna, ou nem por isso[21]. Porém, a hegemonia – um
estatuto intermédio entre uma preponderância limitada e a glória do império -
tem fronteiras difíceis de definir. Os seus defensores reconhecem que a
preponderância norte-americana representa um poder sem precedentes, mas
não é a omnipotência[22]. Essa distinção, todavia, é curta, pois nem os
impérios, nem mesmo os impérios universais, são omnipotentes.

Noutra interpretação, a hegemonia é tão só a supremacia inter pares de uma


grande potência, por oposição ao império, onde o centro domina as outras
unidades e em que deixa de existir qualquer pretensão de igualdade formal
entre os Estados[23]. A supremacia hegemónica, como um “potencial imperial
não realizado”, é uma forma de transição ou para a dominação imperial, ou
para a competição tradicional entre as grandes potências[24]. No caso dos
Estados Unidos, o sentido imperial da transição parece ter sido confirmado na
resposta ao “11 de Setembro” : nessa interpretação, o novo império deixou de
reconhecer as fronteiras que definem a autonomia das outras unidades, deixou
de respeitar a vontade dos seus (velhos) aliados e deixou de ocultar a sua
missão universalista por detrás das regras internacionais.

As divergências expressas nas teses sobre a unipolaridade, a hegemonia e o


império, reflectem as diferenças entre registos teóricos distintos.

Desde logo, não é evidente que uma potência hegemónica possa impor a
hierarquia no sistema de Estados, enquanto estes continuarem a ser entidades
autónomas, separadas e soberanas, avessas, por definição, a reconhecer a
autoridade superior de um dos seus pares. Por outro lado, também não é
evidente que se possa definir a natureza do sistema de uma forma instável,
como se existisse um continuum entre hierarquia e anarquia, em que a
hegemonia seria uma estação de passagem entre a concentração total do
poder e a sua completa descentralização. Para os realistas estruturalistas, o
sistema internacional é, por definição, uma anarquia – mais temperada ou
menos temperada - enquanto a hierarquia exige a formação de um centro
imperial – no sentido etimológico da capacidade para impor a lei - e não
apenas a hegemonia de uma grande potência, por maior que possa ser o seu
poder e o reconhecimento geral da sua preponderância[25]. (No mesmo
sentido, para a escola inglesa, ou para os institucionalistas liberais, o sistema
internacional é uma sociedade de grandes potências e a alternativa é um
sistema mundial comandado por um centro normativo clássico – um império
unificado – ou post-moderno – um império federativo ou uma instituição
multilateral[26]). Por último, por mais banalizada que possa ser a definição de
império[27], não é evidente que a preponderância internacional dos Estados
Unidos imponha a sua transformação num império, nem há sinais de uma
metamorfose autoritária da “república imperial”[28] que deveria acompanhar
essa mutação, e nada indica que a super-potência sobrante se tenha
constituído como um centro de autoridade comparável ao império romano ou
ao império chinês das primeiras décadas da era cristã, pese embora a força
persistente da sua vocação universalista na tradição wilsoniana.

As divergências teóricas são empiricamente relevantes, no sentido em que a


ausência de um consenso nas interpretações teóricas é uma característica
própria dos debates do post-Guerra Fria. A primeira crise da unipolaridade
refere-se a uma indefinição persistente sobre a sua existência, a sua identidade
e a sua natureza.

As crises da estratégia

A evolução estratégica dos Estados Unidos no post-Guerra Fria tem três


tempos distintos.

Numa fase inicial, entre 1991 e 2001, os Estados Unidos adiaram o


reconhecimento das consequências da sua preponderância internacional e não
houve uma transformação profunda das estratégias norte-americanas. A
grande potência sobrevivente procurou preencher o vazio aberto pelo fim da
competição bipolar[29]com as mesmas alianças e os mesmos métodos – a
reprodução das instituições multilaterais, ou do “sistema americano” – que
tinham assegurado a sua vitória na Guerra Fria, sem poder, ou sem querer,
assumir a transformação radical do seu estatuto internacional. (A vitória na
Guerra Fria implicava uma desmobilização estratégica e a concentração de
recursos na resolução dos problemas económicos e sociais dos Estados
Unidos). As excepções (parciais) à regra foram provocadas por crises
secundárias, designadamente as intervenções humanitárias dos Estados
Unidos e dos seus aliados europeus na Bósnia e, sobretudo, no Kosovo, bem
como, de certa maneira, também em Timor. Essas acções demonstraram, por
um lado, a ausência de uma orientação coerente e estável nos critérios de
intervenção militar dos Estados Unidos[30] e, por outro lado, a importância da
dimensão ideológica, ou normativa, na resposta da potência hegemónica às
crises periféricas em que não estavam em jogo interesses estratégicos
relevantes[31].

Numa segunda fase, entre os ataques terroristas contra Nova York e


Washington, em 11 de Setembro de 2001, e a invasão do Iraque, em Março de
2003, a estratégia dos Estados Unidos mudou rápida e radicalmente. Os
atentados terroristas da Al Qaida revelaram a ameaça invisível do “terrorismo
catastrófico” e criaram as condições politicas internas e externas para realizar
as mudanças no próprio modelo de ordenamento internacional, adiadas desde
o fim da Guerra Fria. (Essa vontade ficou expressa nos primeiros dias com a
alusão à necessidade de destruir os Estados inimigos – “ending states” -, mais
tarde substituída pela fórmula mais moderada do “regime change”). A
administração norte-americana assumiu expressamente a consolidação da sua
preeminência internacional como uma prioridade estratégica e passou a
procurar novas alianças, a recusar os limites à sua capacidade de acção
externa impostos pelas instituições multilaterais e a defender a guerra
preventiva como doutrina de intervenção[32].

Nesse exercício, as alianças tradicionais foram postas à prova, não só pela


imposição unilateral dos objectivos estratégicos, políticos e militares dos
Estados Unidos, mas também pelo recurso aos métodos clássicos de divisão
dos aliados para neutralizar todas as formas de oposição, expresso na
resposta liminar à recusa da França e da Alemanha – a “velha Europa” - de
apoiar a invasão do Iraque nas Nações Unidas ou no terreno[33]. A incerteza
sobre as ameaças – resumida na formulação sobre a necessidade de
responder aos “known unknowns” e aos “unknown unknowns”[34] – passou a
fundamentar a guerra preventiva e a intervenção pre-emptiva, sobretudo depois
de se ter tornado claro que os Estados Unidos tinham invadido o Iraque sob
falsos pretextos. A defesa da mudança de regime como uma forma de legitimar
a intervenção unilateral no Iraque confirmou a tentação imperial dos Estados
Unidos, cuja missão democrática pode prevalecer na definição dos interesses
nacionais[35].

Numa terceira fase, enquanto a acumulação de problemas no Golfo Pérsico,


nomeadamente as dificuldades em conter a violência e impor a legitimidade
das novas instituições no Iraque, tornava ainda mais opaca a estratégia
regional dos Estados Unidos, começou, finalmente, um grande debate sobre as
estratégias norte-americanas. Esse debate prolongou-se e tende a coincidir
com a próxima eleição presidencial, marcada pelo signo da mudança na
política interna, com a crise das velhas coligações internas dominantes no
partido republicano e no partido democrático. O resultado das eleições, como é
próprio de uma grande potência democrática, será decisivo para determinar as
condições de continuidade da estratégia que se iniciou no post-11 de Setembro
e com a invasão do Iraque.

No debate presidencial, os dois principais candidatos democráticos querem


retirar as forças militares norte-americanas do Iraque, estão disponíveis para
iniciar conversações com o Irão e defendem o regresso às velhas alianças[36].
O candidato republicano procura impedir um recuo precipitado no Iraque que
ponha em causa uma estratégia de estabilização do Médio Oriente, enquanto
tenta recuperar as oportunidades perdidas pelos seus predecessores desde o
fim da Guerra Fria para consolidar e alargar a aliança entre as democracias,
indispensável para conter a ascensão de novas grandes potências. Nenhum
dos candidatos se propõe continuar a estratégia inicial de George W. Bush no
Médio Oriente, demasiado marcada pelo espírito de missão do
“internacionalismo democrático” e pelas práticas ilegais de detenção e tortura,
que prejudicaram a credibilidade dos Estados Unidos como uma potência
liberal. Em geral, todos reconhecem a necessidade de consolidar a
aproximação com a Índia e de integrar a China no sistema internacional, sem,
todavia, partilharem uma visão comum sobre o significado dessas mudanças
nos equilíbrios internacionais[37].
No debate académico, também ninguém defende a continuidade da estratégia
imperial do “internacionalismo democrático”, posta em causa por uma parte
importante dos realistas conservadores[38]. A clivagem mais interessante
separa uma linha internacionalista moderada, concentrada nas alianças e nas
instituições multilaterais[39], de uma linha de mudança que defende uma
orientação mais nacionalista e uma redução das responsabilidades
internacionais dos Estados Unidos[40]. A linha internacionalista quer consolidar
e alargar as alianças tradicionais, manter uma presença de primeira linha nas
três frentes prioritárias, incluindo o Golfo Pérsico[41], e conter a ascensão de
novas grandes potências, com a possibilidade de institucionalizar a posição dos
Estados Unidos como potência asiática num quadro multilateral regional[42]. A
linha de mudança admite dispensar as velhas alianças, incluindo mesmo a
Aliança Atlântica e o Japão[43], para recuperar a margem de autonomia
estratégica de que os Estados Unidos precisam para responder às mudanças
dos equilíbrios internacionais e, ao mesmo tempo, quer limitar a intervenção
militar norte-americana aos casos em que os seus interesses nacionais
estejam directamente postos em causa.

Os primeiros procuram consolidar a “hegemonia liberal” dos Estados Unidos


como um sistema de “unipolaridade multilateral”, enquanto os segundos
entendem que o primado da grande potência hegemónica se defende melhor
com um "unilateralismo multipolar". Mas nem uns, nem outros, liberais ou
conservadores, estão preparados para admitir que os Estados Unidos
perderam a oportunidade para reconstituir um modelo estável de ordenamento
internacional.

Porém, não existe outra forma de consenso interno para lá da vontade de


prolongar a preponderância dos Estados Unidos. As clivagens nos debates
políticos e estratégicos confirmam a segunda crise da unipolaridade, a
incerteza quanto às prioridades internacionais norte-americanas que persiste
desde o fim da Guerra Fria.

As crises de legitimidade
Em 1991, no Golfo Pérsico, os Estados Unidos travaram a “primeira guerra da
unipolaridade”[44], em nome de uma “nova ordem internacional”[45] cujos
princípios não só confirmavam a velha regra westphaliana, como reconheciam
as Nações Unidas como a principal instância de legitimação das intervenções
militares externas.

A última guerra da unipolaridade, doze anos depois, foi o oposto da primeira,


no sentido em que serviu para pôr em causa não só os princípios da soberania
e da integridade dos Estados, como dispensou um mandato multilateral para
legitimar a invasão do Iraque.

No primeiro caso, os Estados Unidos comandaram um exército multinacional


para impor o cumprimento de um mandato do Conselho de Segurança das
Nações Unidas e assegurar a restauração da independência do Koweit, com a
expulsão das forças iraquianas que tinham invadido o Estado vizinho, em
Agosto de 1990. A administração norte-americana formou uma grande
coligação, com a participação de quase todos os Estados árabes, e garantiu o
apoio das Nações Unidas e do Conselho de Segurança, incluindo a União
Soviética e a China, à sua estratégia de intervenção militar no Golfo Pérsico,
que assegurou a instalação permanente na região de cem mil soldados norte-
americanos, estacionados na Arábia Saudita. (Uma das grandes bandeiras da
Al Qaida contra o regime saudita, guardião de Meca e de Median, e contra os
Estados Unidos, era a presença de tropas norte-americanas “infiéis” na Arábia
Saudita, onde se encontram os lugares mais sagrados da religião islâmica).

No segundo caso, os Estados Unidos invadiram o Iraque, a pretexto de


neutralizar as suas armas de destruição massiva, com um apoio militar
reduzido (e instável) de uma parte dos seus aliados e sem mandato do
Conselho de Segurança das Nações Unidas, por oposição não só da Rússia e
da China, mas também da Alemanha e da França. A administração norte-
americana dividiu os aliados ocidentais, não conseguiu o apoio de Estados
árabes, não pôde obter um mandato internacional, não foi capaz de
encontrar in loco o objecto da sua intervenção, provocou uma vaga de anti-
americanismo sem precedentes e não é certo que tenha conquistado um
aliado, nem assegurado a permanência das forças militares dos Estados
Unidos que se deslocaram da Arábia Saudita para o Iraque.

A mudança nas prioridades norte-americanas depois do “11 de Setembro”


revelaram uma vontade e criaram uma oportunidade – uma segunda
oportunidade, depois do fim da Guerra Fria - para rever o modelo de
ordenamento internacional. A invasão do Iraque, sob pretextos falsos, a
violação das leis da guerra e o caos da ocupação militar, comprometeram esse
exercício e puseram em causa os princípios da legitimidade internacional sem
definir regras alternativas reconhecidas como necessárias e justas.

O “11 de Setembro” representa uma oportunidade clássica de legitimação da


preponderância internacional de uma grande potência. A Al Qaida revelou a
existência de uma ameaça excepcional – o “terrorismo catastrófico” – que
tornou necessária uma resposta robusta dos Estados Unidos como garante da
segurança internacional. Todas as outras grandes potências – praticamente
todos os Estados – reconheceram a legitimidade da “guerra contra o
terrorismo”, incluindo a invasão (unilateral) do Afeganistão, a deposição do
regime dos Taleban, a instalação de bases militares ocidentais na Ásia Central
e a ocupação militar do território afegão, por mandato das Nações Unidas. A
principal contra-partida da participação da Rússia e da China na grande
coligação anti-terrorista foi o reconhecimento da repressão dos separatismos
na Chechnia e no Sinkiang como parte integrante da luta contra as
organizações terroristas pan-islâmicas, o que os Estados Unidos aceitaram
sem dificuldade.

A “guerra contra o terrorismo”, em todas as dimensões, parecia ser um factor


estável de concertação entre as grandes potências no domínio da segurança
internacional.

No mesmo sentido, seguindo a posição dos Estados Unidos, todas as grandes


potências reconheceram como problemas prioritários os riscos de proliferação
das armas de destruição massiça e a necessidade de neutralizar os rogue
states, nomeadamente a tríade do "Eixo de Mal". A China, a Rússia e o Japão
participam na Conferência dos Seis (Six Party Talks) para tentar desarmar a
Coreia do Norte, a Alemanha, a França e a Grã-Bretanha são supostas estar
na primeira linha dos esforços para pôr fim ao programa nuclear militar do Irão.
Porém, nem a China, nem a Rússia, por razões óbvias, aceitam a estratégia
dos Estados Unidos que inclui a mudança dos regimes autoritários dos rogue
states como parte integrante da contenção da proliferação nuclear.

A invasão do Iraque também podia ter sido uma oportunidade para consolidar o
concerto das grandes potências na sua oposição aos rogue states, mas essa
possibilidade foi prejudicada pela forma como os Estados Unidos quiseram
intervir e pela ausência de vestígios das armas de destruição massiva.

A demonstração impressionante da superioridade militar norte-americana e a


prova de força implícita na decisão unilateral de invadir o Iraque – o primeiro
exercício concreto da nova doutrina da guerra preventiva e da mudança de
regime – serviram para refutar as teses sobre o declínio dos Estados Unidos e
para consolidar a sua posição militar no Golfo Pérsico, mas não puderam impor
o reconhecimento geral da necessidade da intervenção militar.

A rejeição das regras westphalianas, se bem que a titulo excepcional, parecia


dar razão às teses sobre a transformação imperial da republicana norte-
americana. A soberania e a integridade territorial dos Estados estavam postas
em causa pela doutrina da guerra preventiva[46]. A tentativa de legitimar a
intervenção a posteriori em nome da mudança de regime confirmava a crise do
princípio westphaliano e pressupunha que os Estados Unidos praticavam uma
“teoria da soberania limitada” e só reconheciam como soberanas as
democracias de tipo ocidental.

Nesse contexto, a invasão do Iraque não foi um terceiro momento de


concertação, mas acabou por ser a oportunidade para uma parte importante
das potências relevantes - a China e a Rússia, mas também a França e a
Alemanha - se demarcarem dos Estados Unidos e contestarem a sua tentativa
de revisão das regras internacionais.

A China e a Rússia reconhecem a necessidade de lutar contra as organizações


terroristas internacionais e conter a proliferação de armas de destruição
massiva, mas não aceitam a estratégia de democratização, nem a definição
das tiranias como uma ameaça à segurança internacional. Sem ser
excessivamente militante da estratégia de democratização, a Índia valoriza a
dimensão internacional do seu estatuto como uma democracia e reconhece
méritos na avaliação dos despotismos como uma ameaça, mas alinha com as
outras grandes potências continentais na defesa estrita da soberania e da
integridade territorial dos Estados. As objecções da França, da Alemanha e da
Grã-Bretanha tendem a reduzir-se à necessidade de assegurar a legitimidade
multilateral das intervenções militares internacionais, embora as suas divisões
internas não garantam a estabilidade do seu alinhamento tendencial com as
posições dos Estados Unidos.

Provavelmente, as divisões reveladas na crise iraquiana existiriam em qualquer


caso, se e quando os Estados Unidos, isoladamente ou em conjunto com os
seus aliados democráticos, quisessem rever as regras da ordem internacional.
A oposição de uma parte significativa das grandes potências não consegue
impedir que a principal potência internacional ponha em causa os princípios
westphalianos, mas pode recusar reconhecer a legitimidade dos seus actos.
Quando normas internacionais relevantes deixam de ser reconhecidas pelo
conjunto das principais potências, a divergência entre o poder e a legitimidade
tende a aumentar.

A terceira crise da unipolaridade é uma crise de legitimidade que limita a


capacidade dos Estados Unidos para reconstituir um modelo de ordenamento
internacional à sua imagem e semelhança, indispensável para consolidar a sua
preponderância.

O caso do Kosovo serve para demonstrar que a crise de legitimidade não se


reduz à questão excepcional do Iraque, nem às posições dos Estados Unidos.
Retrospectivamente, parece claro que a intervenção humanitária da Aliança
Atlântica no Kosovo, em 1999, não teve só como objectivo proteger a maioria
albanesa da repressão interna, mas quis também punir a Sérvia e derrubar o
seu regime autoritário. Por outro lado, a ocupação internacional do Kosovo, sob
mandato das Nações Unidas, foi o inicio de um processo de auto-determinação
da comunidade albanesa maioritária na província sérvia, sustentado pelos
Estados Unidos, pela Alemanha, pela França pela Grã-Bretanha e pelo
conjunto dos Estados membros da Organização do Tratado do Atlântico Norte
e da União Europeia. A decisão das potências ocidentais a favor da separação
do Kosovo não foi travada nem pela transição democrática na Sérvia, nem pelo
início das conversações para a sua adesão à União Europeia. A oposição da
Rússia (e da China) à secessão do Kosovo garantiu que as Nações Unidas
continuam a reconhecer a integridade territorial da Sérvia, mas isso não
impediu as potências ocidentais de reconhecer sem demoras, em Fevereiro de
2008. a validade da declaração unilateral de independência do Kosovo.

A ocupação prolongada da Bósnia-Hercegovina, de Timor-Leste e do


Afeganistão, a invasão do Iraque, a multiplicação das missões militares nas
periferias ou o reconhecimento da independência do Kosovo, bem como os
regimes ad-hoc de concertação entre grandes potências que regulam a sua
acção nas crises balcânicas ou na contenção da proliferação de armas de
destruição massiva, são outros tantos sinais de mudança nas regras
internacionais.

O primado internacional dos Estados Unidos está a transformar as alianças, as


instituições e as regras da Guerra Fria, para dar origem a um “regime semi-
constitucional misto” no sistema internacional[47].

O regime internacional é constitucional, no sentido em que prevalece uma


exigência geral de consenso e de limitação dos comportamentos arbitrários das
grandes potências, incluindo, naturalmente, os Estados Unidos. É semi-
constitucional uma vez que não é possível garantir nem a emergência de uma
potência revolucionária, nem mesmo uma subordinação permanente das
grandes potências às normas internacionais e aos procedimentos das
instituições multilaterais. Em menor ou menor grau – mais os Estados Unidos,
a China, a Índia e a Rússia do que o Japão ou a Alemanha – as potências
relevantes tendem a defender a sua autonomia como Estados soberanos, se
necessário contra as limitações impostas pelos princípios, constitucionais da
sociedade internacional. Nesse contexto, a oposição entre unilateralismo e
multilateralismo não deve ser tratada de uma forma dogmática. Nenhum
Estado pode recusar a necessidade de agir unilateralmente, no exercício de um
direito próprio de legitima defesa ou se estiver em causa um interesse nacional
incontornável, mas as instituições multilaterais continuam a ser necessárias
para legitimar as acções unilaterais.

As regras internacionais devem respeitar os princípios e os valores, mas


também devem ter em conta os interesses das principais potências, bem como
estimular a sua convergência e criar as condições necessárias para a
concertação e o compromisso em defesa do status quo internacional. As
grandes potências devem reconhecer que as suas acções, nomeadamente as
intervenções prolongadas em conflitos periféricos, não podem dispensar,
mesmo que seja a posteriori, uma forma de legitimação multilateral.[48]

O regime internacional emergente é misto, no sentido em que admite a co-


existência entre princípios de ordenamento divergentes. Desde logo, a
concertação entre as grandes potências não pode excluir a competição
internacional. O fim da Guerra Fria e as principais crises do post-Guerra Fria
revelaram essa competição, mas também a possibilidade de regressar a
formas, imperfeitas e parciais, de concertação entre as grandes potências, por
exemplo no Grupo de Contacto para as crises balcânicas, nosSix-Party
Talks para a Coreia do Norte, na Troika da União Europeia para o Irão ou no
Quarteto do Processo de paz no Médio Oriente. Por outro lado, a sociedade
internacional das grandes potências deve poder co-existir com a aliança das
democracias. Os Estados Unidos estão no centro dos quadros formais que
institucionalizam as relações entre as grandes potências – o Conselho de
Segurança, o Grupo dos Oito - tal como estão no centro de uma aliança entre
as democracias, no sentido em que são o aliado principal de todas as
potências democráticas relevantes. Por último, o sistema internacional tem de
existir entre a preponderância “unipolar” dos Estados Unidos e a resistência
“multipolar” de outras grandes potências, num regime misto que oscila entre a
tentação imperial para a monarquia republicana e a vontade de restaurar a
anarquia oligárquica.

A questão mais difícil é avaliar o sentido geral da transição unipolar. A


catástrofe totalitária do século XX destruiu a “unidade moral” do sistema
internacional e impôs uma divisão radical, que se exprimiu, durante a Guerra
Fria na competição bipolar, entre dois blocos, irremediavelmente separados,
que não reconheciam os mesmos princípios de legitimidade[49]. O fim dos
totalitarismos e da bipolaridade é uma oportunidade para restaurar essa
“unidade moral” perdida, mas também pode significar uma nova divisão
civilizacional que pode isolar os Estados Unidos e o que resta da comunidade
ocidental.

[1] Christopher Layne (1993). “The unipolar illusion. Why new great powers will
rise”.International Security 17 (4) : 5-51.

[2] Kenneth Waltz (1994). “The emerging structure of international


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[3] Charles Krauthammer (1990). “The unipolar moment”. Foreign Affairs

[4] Charles Kupchan (1998). “After Pax Americana ; benign power, regional


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(3). De caminho, Samuel Huntington admitia a “uni-multipolaridade”. Samuel
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[5] Francis Fukuyama (1989). “The End of History”. The National Interest 16 :


3-18. G. John Ikenberry (2000). After victory : institutions, strategic
restraint, and the rebuilding of order after major wars. Princeton : Princeton
University Press.

[6] Michael Doyle (1999). A liberal view : expanding and preserving the liberal
pacific union inT.V.Paul, John Hall, editorees (1999). International order and
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Ver também Michael Brown, Sean Lynn-Jones, Steven Miller, editores
(1996). Debating the Democratic Peace. Cambridge : MIT Press.

[7] William Wohlforth (1999). “The stability of a unipolar world”. International


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[8] Pierre Hassner (2006). “The fate of a century”. The American Interest 2 :

[9] Ver inter alia G.John Ikenberry, editor (2002). America unrivaled. The


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[10] Christopher Layne (2006). “The unipolar illusion revisited. The coming end
of the United States’ unipolar moment”. International Security 31 (2) :7-41.

[11] Niall Ferguson (2006). The Colossus. Herfried Munkler (2007). Empires.


Londres : Polity Press. Ver também. Pierre Hassner (2002). The United
States : the empire of force or the force of empire ? Paris : Chaillot Papers
54. Stanley Hoffmann, Frédéric Bozo (2003). L’Amérique vraiment
impériale ? Paris : Audibert.

[12] Entre outros, Robert Pape entende que há estratégias de soft


balancing contra a preponderância dos Estados Unidos, o que é contestado
por Keir Lieber e por William Wohlforth. Robert Pape (2005). “Soft balancing
against the United States”. International Security 30 (1) : 7-45. Keir Lieber,
Gerard Alexander (2005). “Waiting for balancing : why the world is not pushing
back”. International Security 30 (1) : 109-139. William Wohlforth (2007).
“Unipolar stability. The rules of power analysis”. Harvard International
Review : 44-48. Ver também T.V. Paul, James Wirtz, Michel Fortmann, editores
(2004). Balance of power. Theory and practice in the 21rst century.
Stanford : Stanford University Press.

[13] Kenneth Waltz (1979). Theory of International Politics.


[14] Robert Gilpin (1982). War and change in world politics.

[15] Hedley Bull (1977). The Anarchical Society.

[16] William Wohlforth (1999). Ver também William Wohlforth (2007). U.S.


strategy in a unipolar world in G.John Ikenberry (2002) : 98-120.

[17] Robert Gilpin (1982).

[18] A.F. K. Organski (1958). World Politics. Nova York : Knopf. Ver também


Ronald Tammen, editor (2000). Power transitions : strategies for the 21rst
century. Nova York : Chatham House.

[19] William Wohlforth (2002). Hierarchy, status and war. Ms. APSA.

[20] Christopher Layne (2006) : 11-12.

[21] Ver, respectivamente, G. John Ikenberry (2001). “Getting hegemony


right”. The National Interest. Charles Kupchan (1998). Christopher Layne
(2006).

[22] Robert Kagan (2007). “End of dreams, return of history”. Policy Review 4.

[23] Herfried Wunkler (2007).

[24] John Mearsheimer (2001). The tragedy of great power politics.

[25] Kenneth Waltz (1979).

[26] Hedley Bull (1977). Ver também Michael Walzer (2000). “Governing the


globe”. Dissent3 : 44-52.

[27] Sobre as definições de império, ver inter alia Michael Doyle


(1984). Empires. Ithaca : Cornell University Press.

[28] A tese clássica de Montesquieu sobre os riscos que resultam para o


regime republicano da expansão imperial é evocada pela fórmula de Raymond
Aron sobre a posição internacional dos Estados Unidos. Raymond Aron. La
République impériale. Paris : Fayard.

[29] Kenneth Waltz (2002). “Structural realism after the Cold


War”. International Security25 (1) : 30.

[30] Andrew Bacevich (2003). American empire. The realities and


consequences of U.S. diplomacy. Cambridge : Harvard University Press.

[31] Coral Bell. “The normative shift”. The National Interest.

[32] Ivo Daalder, James Lindsay (2003). America unbound. The Bush


revolution in foreign policy. Washington : The Brookings Institution. Philip
Zelikow (2003). “The transformation of national security. Five redefinitions”. The
National Interest 71 : 17-28. John Lewis Gaddis (2005).

[33] Philip Gordon (2004). Allies at war. Washington : The Brookings


Institution.

[34] Segundo a expressão eloquente do Secretário da Defesa, Donald


Rumsfeld.

[35] G. John Ikenberry. “America’s imperial ambition”. Foreign Affairs 81 (5) :


44-60.

[36] Philip Gordon (2007). Winning the right war.

[37] John McCain (2007). An enduring peace built on freedom”. Foreign


Affairs 86 (6) :19-35. Hilary Clinton (2007). “Security and opportunity for the
twenty-first century. Foreign Affairs 86 (6) : 2-18. Barack Obama (2007).
“Renewing American leadership”. Foreign Affairs 86 (4) : 2-16.

[38] Francis Fukuyama (2004). “The neo-conservative moment”. The National


Interest. Richard Haass (2006). The Opportunity. Robert Kagan (2007).

[39] Robert Art (2003). A grand strategy for America. Ithaca : Cornell


University Press. Stephen Walt (2004). Taming American Power. Nova York :
W.W. Norton. William Odom, Robert Dujarric (2004). America’s inadvertent
empire. New Haven : Yale University Press. G. John Ikenberry, Francis
Fukuyama (2006). The Princeton Project. Report of the Working Group on
Grand Strategic Choices.

[40] Christopher Layne (2006). Peace of Illusions. American grand strategy


from 1940 to the present. Ithaca : Cornell University Press.

[41] Robert Art (2003).

[42] G.John Ikenberry, Anne-Marie Slaughter (2006). Forging a world of


liberty under law. Princeton : The Princeton Project Papers.

[43] Christopher Layne (2006).

[44] James Baker

[45] Foi nesses termos que o Presidente George Bush interpretou a sua vitória
no Golfo Pérsico em Março de 1991.

[46] Henry Kissinger (2002). “Pre-emption and the end of Westphalia”. New


Perspectives Quarterly 19 (4).

[47] Pierre Hassner. Des dilemmes de l’action aux contradictions des


institutions : les ambiguités de l’ordre in Pierre Hassner, Gilles Andréani, dirs.
(2005). Justifier la guerre ?Paris : Presses de SciencesPo.

[48] Ward Thomas. La légitimité dans les relations internationales in Pierre


Hassner, Gilles Andréani, dirs. (2005). Ver também Ian Clark
(2004). Legitimacy in international society. Oxford : Oxford University Press.

[49] Hans Morgenthau (1948). Politics among nations : 8. Nova York : Alfred


Knopf.

Carlos Gaspar 

O “momento Sputnik” e a transição unipolar


Público, 27|Janeiro|2011
Estudos Regionais - América do Norte 
O Presidente Barack Obama fez o seu primeiro discurso sobre o Estado da União perante um
Congresso de maioria republicana e confirmou a sua nova linha centrista com uma visão
consensual sobre as prioridades dos Estados Unidos. 

A sua mensagem está resumida numa frase, em que o Presidente diz que “Este é o momento
Sputnik da nossa geração”. A referência evoca uma crise dramática da Guerra Fria. Em 1957,
a União Soviética lançou o primeiro satélite (Sputnik, em russo) para o espaço e pôs em
causa a superioridade estratégica nuclear dos Estados Unidos. Aparentemente, os soviéticos
eram capazes de construir um missil balistico intercontinental mais avançado do que os
vectores equivalentes no arsenal norte-americano. A resposta ao “missile gap” foi lançada
pelo General Eisenhower - um Presidente republicano - que criou a NASA e abriu as portas a
um investimento público massiço em ciência e tecnologia indispensável para restaurar a
segurança nacional e a balança do poder. 

Barack Obama assumiu a mesma responsabilidade de assegurar que os Estados Unidos


conseguem manter o seu estatuto como garante da ordem internacional perante a
emergência de novas grandes potências, designadamente a China, que querem pôr em
causa a preponderância estratégica norte-americana e estão a competir significativamente
nos dominios da investigação cientifica e tecnológica e na educação. O Presidente democrata
quer investir na inovação, incluindo a investigação bio-médica e as tecnologias da informação
e das energias limpas, na educação e nas infra-estruturas para consolidar a posição dos
Estados Unidos.

O programa do Presidente é consistente com as prioridades que enunciou nos últimos meses,
desde a publicação da sua doutrina de segurança nacional. Tal como nesse documento,
Barack Obama voltou a insistir nas mudanças profundas na politica e na economia
internacional, que definem uma nova fase na transição unipolar. No seu discurso, o
Presidente democrata sublinhou que continua a não existir “nenhuma superpotência rival” : o
“momento Sputnik” não marca o fim do “momento unipolar”, mas reconhece a necessidade de
“construir coligações” para lá das clivagens regionais, raciais e religiosas : a continuidade da
preponderância norte-americana depende da qualidade das suas alianças e da sua
capacidade para re-construir as instituições multilaterais. 

Os aliados europeus, que temem o retraimento estratégico dos Estados Unidos tanto como a
projecção da sua força, deviam reflectir sobre o discurso do Estado da União. Há nove anos,
o “Eixo do Mal” de George W. Bush dividiu os aliados e abriu a pior crise transatlântica de
sempre. O “momento Sputnik” e a nova estratégia norte-americana têm um lugar para as
democracias europeias, se estas se quiserem empenhar, com o seu principal aliado, na
reconstituição da ordem internacional. Se não conseguirem ultrapassar a sua paralisia,
correm o risco de se tornar irrelevantes, num momento crucial da politica internacional.