Você está na página 1de 30

COLÉGIO

ESTADUAL
CELESTINO
DA
SILVA

FAMÍLIAS

PRODUÇÃO
DE
TEXTO
TURMAS
1001
1002
1003
PROFª SURAIA
TRAJTENBERG 1
Apresentação
As histórias que aqui criamos
São fruto do nosso pensar
Sobre outras histórias
Que ouvimos contar
Da vida real
Ou da literatura
São tramas urdidas
Em qualquer cultura
Recortes de vidas
Em tempos diversos
Imagens de olhares
Pelo mundo dispersos
São os cacos do mundo
Que tentamos juntar
Para uma outra História
Podermos forjar.
Suraia El-Kaddoum Trajtenberg
2
Família Brasileira - Tarsila do Amaral

3
A grande família
Eu sou um pequeno menino, meu nome é Jamil e
minha família é bem grande. Meus irmãos são bem
diferentes de mim, pois eu sou magrelo e eles são
gordinhos.
Minha irmã Ana está sempre com sua boneca na
mão, e meu irmão João que é maior que eu só vive
sentado segurando um brinquedo. Joel, o menorzinho de
todos, ainda mama e vive pendurado na minha mãe.
Joana e Joelma são gêmeas, mas são bem diferentes:
Joana é calma e tranqüila e Joelma é muito agitada.
Minha mãe é muito calma e tem sempre uma
palavra carinhosa para todos.
Joarez e Joaquim, os dois mais velhos, são
trabalhadores e sérios.
O meu pai, apesar da cara amarrada, é muito
paciente.
A minha avó é bem boazinha e eu gosto de ouvir
suas histórias e causos. Ela tem um cheirinho gostoso nas
roupas por causa do fumo do seu cachimbo.
Ah! E ainda temos em casa um gato e um cachorro,
com quem brincamos bastante.
Afinal, acho que temos uma família feliz.
Maria José Moncores Fachas

4
Serenata em família - Augusto Malta - 1920

5
Serenata em família
Essa história fala de um grupo de amigos que
realizaram uma grande comemoração, no morro
da favela.
Estamos comemorando o aniversário de minha
filha querida Jéssica.
Meu marido Roberto está tocando violão. Os
colegas da minha filha estão curtindo muito a
comemoração. Meus amigos e amigas estão muito
bem alinhados e felizes.
Apesar de morarmos na favela, e todos serem
de classe média baixa, isso não nos intimida.
Somos felizes com o que temos, pois o pouco com
Deus é muito, e o muito sem Deus é nada.
Eu me sinto feliz e realizada. No próximo ano
espero reunir de novo todos os amigos, e
comemorar o aniversário de 3 anos de minha
querida e amada filha Jéssica.
Agradeço a todos por participarem deste
momento feliz com a minha família.
Joseli Barros Viana

6
Eu sou Paulo vou para uma
festa de família. Vai ter muita
gente. Quem vai tocar sou eu e
meu primo Roberto.
Ele perguntou pra mim o que
eu toco e falei para ele que toco
violão e sanfona. O meu talento é
fazer personagens, mas eu só
gosto de fazer meu trabalho em
lugar humilde e de pessoas boas.
Gosto muito do meu trabalho e
dos personagens que faço com as
crianças que ficam do meu lado
me dando alegria...
Edivaldo Dantas
7
Lembranças
Será que vou lembrar este momento quando eu estiver
com 20 anos? Acho que sim...
Todo domingo pela manhã é a mesma coisa, meu pai
reúne toda a família pra cantar a música que meu bisavô fez
para minha bisavó quando eles se casaram. Isso é chato,
traumatizante, e ai de quem não vier escutar ele cantando a
música, ainda mais tocada em um violão velho que falta uma
corda, ninguém reclama com medo de apanhar e eu é claro que
não falo nada, fico no meu canto e quieta de braços cruzados.
Tenho vontade de fugir por aí, mas para onde vou? Prefiro
aturar a música velha e chata do que morar na rua, apesar de
que entre minha casa e a rua não tem muita diferença. Às vezes
acho que isso vai acabar no próximo domingo, mas não acaba.
Sonho em um dia ter bastante dinheiro e tirar minha
família daqui. Só levo meu pai se ele parar de cantar essa
música irritante e jogar esse violão no lixo.
20 anos depois...
Nossa, como as coisas aqui mudaram, parece que o morro
ficou mais alto. As casas não são mais de madeira, nem a casa
onde morei. Infelizmente meu pai não quis ir embora com o
resto da família. Ali está ele, sentado no sofá, tocando o antigo
violão que agora faltam duas cordas, e logo ao lado, o meu
vestidinho branco que eu usava todo domingo e ainda está a
marca dos meus braços cruzados.
Douglas Alves da Silva

8
Meu nome é João. Estávamos
reunidos em uma festa em
família. De pé pude reparar como
minha família é grande. Meu neto
já está com cinco anos de idade.
É uma pena que não podemos
mexer na nossa cozinha, tão
humilde ainda de estoque.
Juntarei com meus irmãos para
fazermos uma melhora e, assim,
ano que vem estaremos juntos
numa casa melhor. Assim espero
se Deus quiser.
José Nei Campos.

9
Sou uma mulher alegre e de bem
com a vida e tenho uma filha que se
chama Júlia e moro aqui nessa
favela. Gosto de sair para conversar
com os meus amigos e ouvir música
e dançar muito a noite toda.
Eu gosto de fazer as crianças rir,
contar piadas e histórias bem
engraçadas. Gosto de sair à noite
com a filha pra passear e conhecer
lugares legais e bonitos.
Eu trabalho de cozinheira para
sustentar minha filha, para comprar
roupa e sapatos para ela.
Renata

10
Serenata em família
Olá pessoal! Essa aí do lado esquerdo com
uma cara um pouco feia sou eu. O meu nome é
Paula. Tenho 10 anos e como vocês podem ver
estou em uma serenata. A mulher com um bebê no
colo é a minha mãe com a minha irmã mais nova
Juliana. Na frente é o meu pai, esse moço com um
violão é o meu tio João, homem bom. As crianças
do seu lado direito são seus filhos Ana, Júlio,
Jordão e Fabiá, o do lado é o Pedro meu primo.
Esse na frente do Júlio não conheço. Essa menina
aí do lado é a Talita, sua irmã é o bebê e Mateus o
irmão mais novo.
Sempre nos reunimos aqui na casa da minha
vó Genir, aquela senhora lá do lado direito com
um bebê que chora no colo.
A minha mãe é muito legal, faz de tudo para
nos fazer feliz.
Essa serenata que fazemos é para reunirmos a
família e eu gosto muito. Família é tudo em nossa
vida...
Silvana Paula Soares Marcelino

11
Sebastião Salgado - 1999

12
Uma família com necessidade
Meu nome é Josefa, sou mãe de
Gabriel, Carolina e de Pedro. Somos uma
família humilde, mas somos muito felizes.
Meu marido me deixou quando meus
filhos eram muito pequenos. Mesmo assim,
eu consegui sustentar meus pequeninos.
Sofremos bastante, mas demos a volta
por cima, daí pra frente nossas vidas foram
só alegria. Tivemos um pouco de
sofrimento, como toda família, mas ainda
bem que tudo passou. Hoje meus filhos são
felizes, correm, brincam bastante como
qualquer outra criança.
Eu hoje estou bem mais feliz que antes,
tenho coragem e força para vencer todos os
obstáculos da vida.
Kátia Regina Sousa Costa.

13
Sem Terra
A briga por terra é sem fim. Ser um sem terra
não é dizer que a pessoa seja um pobre coitado,
não. Há pessoas de bem que brigam para ter um
canto para trabalhar.
A culpa não é dos sem terra não, é dos nossos
governantes que não fazem uma reforma agrária
que possa dar condições de trabalho para as
pessoas.
Por isso é que eles invadem as fazendas que
acham que tem condição de dar trabalho.
Algumas famílias estão lutando para conseguir
um lugar para trabalhar a terra e tirar o sustento
dos seus filhos.
Eu tenho parentes que já foram sem terra,
mas não conseguiram nada por isso desistiram de
acompanhar os sem terra.
Covardia deles. Nunca se desiste de nada
dessa vida. Se você luta, você consegue o que
quer por isto falo: lute por tudo que queira que
você vai conseguir. Tenha fé.
Ailton Eugênio de Almeida Gomes.

14
Desigualdade
Logo cedo chegamos ao nosso local de
concentração para fazermos o nosso protesto,
reivindicando melhores condições de trabalho e assim
poder oferecer uma vida digna aos meus dois filhos,
que estavam atentos a tudo que ocorria naquele lugar.
Eram milhares de trabalhadores, todos num só
objetivo: mudança. Vivíamos uma situação precária,
num alojamento pequeno que mal dava para nos
abrigar. Imagine várias crianças buscando o seu
espaço.
Cada trabalhador que chegava ia se
“acomodando” onde encontrava lugar parar ficar,
inclusive no alto das árvores para visualizar melhor
tudo o que estava acontecendo naquele local.
Foram se passando os minutos, as horas e a
multidão ansiosa esperava por uma definição dos
representantes sindicais. Finalmente, puder erguer os
braços e comemorar juntamente com os
companheiros a tão sonhada vitória sobre essa
desigualdade.
Estamos felizes por ter conquistado esses
benefícios através da nossa união e da nossa luta.
José Henrique Estrela

15
Una família - Botero – 1989

16
Uma família de classe média
Em um lindo domingo ensolarado, esta
linda família de pessoas enormes saiu para o
tradicional almoço de domingo em uma
churrascaria nobre. Comeram e beberam o
do bom e do melhor que havia na casa.
Depois, Joãozinho lembrou da promessa
do seu pai de levá-lo a um lugar especial. O
pai falou que seu avô o levou a esse lugar
quando tinha a idade do menino e que foi lá
que ele conheceu Joaquina, sua mãe.
Chegando ao parque Joaquina falou:
– Que bela surpresa a preservação do
parque!
E mais ainda, lá estava uma goiabeira
que Manoel e Joaquina plantaram na
infância. A árvore estava cheia de frutos
maduros e eles ficaram maravilhados e
comeram dos frutos.
Jorge Henrique Ferreira
17
Cecília
Eu me chamo Cecília. Tenho uma família linda
e feliz. Meus dois filhos tem o nome de Victor e
Ana Paula, meu esposo se Chama Constantino.
Somos pessoas simples, adoramos reunir
nossos amigos nos finais das tardes para colocarmos
nossos assuntos em dia.
Sou uma esposa dedicada, passo a maior parte
do meu tempo cuidado dos afazeres da casa. Meu
esposo quase não fica em casa pois trabalha muito
para que assim possamos dar uma vida justa aos
nossos filhos.
Mas não deixamos de nos divertir: sempre
vamos ao bosque passear com nossos filhos. Eles
adoram brincar com os pássaros, correr na grama,
enfim, tudo o que uma criança normal faz.
Também temos um lindo gato que foi nomeado
de Félix. Meus filhos o adoram porque é um animal
muito amável.
Em nossa casa gostamos de comer muito bem.
Por isso somos uma família bem fortinha, mas
também muito feliz!…
Josefa Coravieto Martins Cabral

18
Família Nobre
Eu sou um homem de família nobre. Em
todos os lugares costumo estar ao dado da minha
família. Aqui estão minha mulher e meus filhos.
Também está o meu gato Charque. Neste
momento tiramos uma foto comemorando a
chegada de um novo membro ao lar.
Nossa casa tem um belo jardim, onde meu
filho João costuma correr e brincar com a sua
irmã Maria.
Nós às vezes comemos muito, passando dos
limites. É por isso que estamos acima do peso
ideal. O médico já nos alertou sobre a obesidade,
mas eu falei que esse problema de ser gordinho é
de família.
Acabamos de nos mudar e a partir de hoje
começamos a fazer regime para que daqui a
alguns meses possamos participar de várias festas
e casamentos a que nos convidam pois como
estamos muito acima do peso, preferimos ficar
mais tempo em casa reunidos em família
Francisco Antônio Félix Clemente

19
A família de Sueli
Esta família é a de Dona Sueli. Ela vai
contar a sua história de vida.
Aos vinte anos conheceu seu marido
que se chama Manoel. Um ano depois, teve
o seu primeiro filho que se chama Vítor.
Oito anos depois teve o Eduardo. Para a
sua felicidade ficar completa, decidiu
adotar um gatinho gordinho como todos da
sua família.
Então ela decidiu que era hora de ter um
retrato de todos juntos. Foi quando
encontrou o artista plástico Fernando
Botero, que costuma realizar o sonho de
pessoas gordinhas mas felizes.
Esta é a história de Dona Sueli que com
quarenta e nove anos já tinha sua família
completa.
Rosa Maria Santos Reis
20
Família de fuzileiro naval - Alberto da Veiga Guignard - 1938

21
Marinha na Família
Tudo começou assim: meu pai é esse que está em pé e
minha mãe sentada e o meu tio também sentado, eu sou o de
camisa branca e chapéu branco e os outros dois são meus
irmãos.
Meu pai conta que na época que foi para a marinha
ainda tinha muita discriminação racial. Ele contava para a
gente que apesar de todos esses problemas tinha o outro lado
bom: viagens e ter o prazer de mostrar à nossa família que
poderia ser muito mais do que um simples marinheiro.
O tempo passou, meu pai foi promovido a cabo da
marinha e assim o meu tio resolveu optar pela mesma
profissão. Meu tio ficou muito orgulhoso e viu que o
sofrimento que meu pai passou já estava começando a
diminuir.
Minha mãe sempre ali do lado do meu pai e cuidando de
mim e dos meus irmãos, dando o meu pai como exemplo:
por isso eu e meus irmãos estamos muito felizes com o
sucesso do meu pai e do meu tio.
O tempo passou, hoje já estou com 85 anos aposentado
pela marinha mercante brasileira. Meu pai antes de morrer
me deu esse quadro para eu guardar, mostrar e dar
continuidade à nossa família. Que sempre temos que lutar em
busca de um caminho melhor e acabar de vez com o
preconceito racial não só na marinha, como no mundo todo.
Saulo Adelino dos Santos

22
A luta por igualdade
Morava Dona Isaura com seus quatro
filhos e seu marido.
Eles eram de descendência africana e
lutaram por igualdade social!
Com o fim da escravatura, eles sofriam
muito preconceito pela sua cor negra.
Mesmo livres eram tidos por escravos pela
sociedade.
Os filhos de Dona Isaura sofriam muito
preconceito quando iam para a escola: eram
afastados das crianças, não podiam comer no
mesmo lugar que elas.
O seu marido Roberto começou a estudar e
trabalhar e também a fazer concurso público
para a marinha.
Ele gostaria muito de ser da marinha e se
entregou aos objetivos de ser aprovado, de
comprar uma casa para a família morar e ser
muito feliz.
Giovane Duarte e Lima
23
Família, família
Em todos os setores e órgãos públicos. Há sempre
alguém representando uma família.
No colégio, no teatro, no cinema, e também nas
empresas onde trabalham. Há sempre um representante
da família.
Há os que se preocupam em honrar a família e se
confortam de maneira reverente na intenção de não
provocar escândalos para não expor a família à vergonha,
ao ridículo.
E não são poucos os que tentam fazer bonito. Há
membros da família que honram sua família nas forçar
armadas: no exército, na marinha e na aeronáutica.
Conheço um exemplo de família que com muito
trabalho e, porque não dizer, com muito talento,
superando muitos obstáculos e muitas vezes preconceito,
alcançou o que tanto queria, o lugar ao sol.
Na marinha três componentes de uma família
conseguiram destaque.
Mas quando um, dois ou três sobressaem, não
importa quantos há na família, a alegria contagia a todos
pela vitória. A mãe, o pai, os irmãos, todos se alegram
com muita união, amor e carinho.
Jocivaldo Vieira Nunes

24
Sebastião Salgado

25
Meus irmãos
Eu tinha 13 anos quando meus irmãos foram para a
guerra.
Paulo, que tinha 28 anos, morreu tentando proteger Pedro.
Pedro, que tinha 25 anos, não agüentou, morreu no meio
da batalha, deixando minha mãe desesperada de dor e angústia.
Paulo tinha imenso carinho e amor por minha mãe e por
mim, porque eu era a caçula e única filha mulher.
Ele me protegia tanto que quando soube da sua morte eu
não queria acreditar.
Depois de tanta perda, só nos restava seguir a vida, já que
meu pai também morreu antes de eu nascer, por isso meus
irmãos foram para a guerra, lutando para sustentar nossa
pequena família.
Hoje, na minha casa, só há tristeza. Minha mãe morreu
logo depois com depressão e eu só faço lembrar a vida triste
que vivi.
Hoje tenho 44 anos, tenho saudade de todos, mas ninguém
para compartilhar comigo um pouco da minha felicidade e da
minha vida.
Na nossa vida temos momentos bons, ruins e
maravilhosos, mas temos que agradecer a Deus por todas as
coisas que ele nos dá.
Eu sou Mercês, e essa é uma parte da história.
Hoje sou feliz, porque batalhei por isso.
Se não houver batalha, não haverá sucesso.
Maria das Mercês da Silva

26
Retratos da Vida
Eu, Malika, nasci no Afeganistão em uma
cidadezinha onde cresci e casei com Arub Asima
Muriggoh
Ao passar o tempo, meu marido foi
convocado para trabalhar na guerra e lá ele lutou
durante 10 anos. Sempre que ele saía de casa me
dava um aperto no coração, pois não havia
certeza de que ele voltaria.
Até que no dia 12/04/1996 ele saiu bem cedo
de casa, me deu um abraço como fazia todos os
dias, me olhou nos olhos e senti um calafrio, algo
estranho, parecia saber de algo. Pois foi nesse
mesmo dia que eu recebi a notícia que ele tinha
levado um tiro numa batalha.
Como sofri! Ainda depois de tanto tempo,
não consigo apagar esse acontecimento de minha
memória.
Hoje sou exposta ao trabalho pesado, para eu
sobreviver e para alimentar eu e meus filhos.
“Quando teremos a verdadeira paz?”
Dartagnhan
27
Retirantes - Cândido Portinari 1958

28
O que vejo é uma família nordestina
retirantes da seca com suas fisionomias
um tanto tristes e cansadas pelo
sofrimento.
O casal aparentando ter mais idade do
que realmente tem, mas com a esperança
de um lugar com terra em abundância para
o plantio.
A criança, aparentando desnutrição, já
tão pequena com tristeza no olhar pedindo
a Deus ter uma vida melhor.
O avô sonhando com um pedaço de
chão onde possa esperar uma vida melhor
e também sofrendo por toda a família,
com medo que tenham o mesmo destino.
Todos vão embora procurar onde
possam ter comida pelo menos, e viver
com dignidade, tendo saúde e educação.
Rosane Ventura

29
A família
Essa família sofreu muito na seca no nordeste.
Trabalhamos muito, plantando na esperança de ter
uma boa colheita. Mas vinha a desesperança, a
chuva que não vinha, e tudo se perdia porque não
tinha água, e o sol queimava tudo.
É doloroso demais você ver seu filho passar
fome e não ter o que comer nem o que vestir. E não
poder levá-lo ao médico porque nós não tínhamos
condição nenhuma. Essa criança é desnutrida, só
tem barriga, a água que nós tínhamos para beber era
do açude, onde se lava roupa e os animais bebem
água. O meu sogro também, coitado, precisando de
tudo, ele está passando por uma velhice sem recurso
nenhum. Ele me ajudou muito no roçado.
Eu estou cansada de plantar e ir ao açude levar
trouxas e mais trouxas de roupas na cabeça. Então
eu e meu esposo chegamos à conclusão de que o
único jeito era fazer as trouxas e ir pela estrada atrás
de carona até chegar ao Rio de Janeiro onde mora a
minha outra família.
Ana Lúcia dos Anjos

30