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Ribeiro, Laura C. et alii. Relatório de pesquisa sobre o teste do Desenho da Figura Humana (DFH/Machover) 40 p.

Relatório de pesquisa sobre o teste do Desenho da Figura


Humana (DFH/Machover)
Apresentação para este site
Este relatório se refere a uma pesquisa que coordenei sobre o desenho da Figura Humana. Figura
é um termo que se refere à pessoa desenhada por PSJ (PSJ é o nome que dou à pessoa-sujeito da pesquisa).
O relatório está reproduzido quase na íntegra, apenas com pequenas modificações, para a leitura ficar
menos árdua. Decidi inseri-lo neste site, por serem raras as pesquisas sobre testes gráficos projetivos em
clínica1. O relatório pode ter interesse histórico, ou interesse clínico para quem trabalha com desenhos,
ou com desenhos de Figura Humana. O material pode ajudar psicólogos, ou outros profissionais de saúde,
a compreenderem melhor como uma pessoa humana se vê e se expressa sobre si mesma e sobre o Outro,
pelo desenho.
Se aqui o DFH é tratado como teste, isso se deve exclusivamente ao contexto da pesquisa, em
que era “permitido” tratá-lo assim. Ao lê-lo, lembre-se do contexto histórico: usava-se o DSMIII-R, o
Manual do MMPI (e não os mais recentes), etc. Como se trata de um relatório técnico, não traz explicações
sobre os vários conceitos que fizeram parte do referencial teórico, nem explicações específicas sobre
metodologia ou estatística. Se você quiser, busque, por conta própria, preencher as lacunas de
compreensão.
Na verdade, Amanda Avelin Ribeiro, estagiária colaboradora deste Site, sugeriu pequenos vídeos
explicativos — mas achei que se tornariam um curso! Portanto, disposição e mãos à obra!
Resumo
Visando possibilitar maior confiabilidade na avalição de traços gráficos presentes no Desenho da
Figura Humana (DFH), e verificar se existiam traços gráficos que fossem característicos de determinadas
psicopatologias (aqui denominados I.P.: indicadores psicopatológicos), fez-se: (a) leitura analítica da
literatura sobre o DFH e sistematização dos traços considerados I.P. pelos autores; (b) aplicação do DFH
em amostra psiquiátrica e em amostra-controle. A amostra psiquiátrica foi de 55 sujeitos selecionados
segundo critérios do DSM-III-R em hospitais e clínicas de Belo Horizonte. A amostra de controle foi
composta de 23 protocolos obtidos de sujeitos de curso supletivo pareados aos pacientes psiquiátricos
por sexo, faixa de idade e nível educacional, e que declararam não terem tido problemas psiquiátricos ou
psicológicos.
Resultados obtidos. A pesquisa inicial evidenciou um grave problema metodológico: definir
adequadamente cada traço gráfico para permitir cotação adequada. Após outra pesquisa para solucionar
esse problema, (1) construiu-se um Quadro de Definições (Atlas) que sistematiza e define com clareza
traços do desenho da Figura humana descritos na literatura revisada sobre o DFH. Obteve-se de 85 a 95%
de acordo entre avaliadores na hora de identificar os traços gráficos, demonstrando ser possível cotar
traços gráficos de forma confiável. Usando o Atlas (2) identificaram-se I.Ps. no DFH comuns a dificuldades
mais graves, e indicadores específicos, que discriminaram, em níveis estatisticamente significativos, os
protocolos do grupo de controle dos grupos clínicos de depressão, esquizofrenia paranoide, psicose
afetiva em fase maníaca (distúrbio bipolar), psicopatia e histeria grave. (3) outros indicadores, com menor
potencial de discriminação, enriqueceram os perfis relativos a cada quadro nosológico. (4) os conjuntos
de IP encontrados mostram consistência interna para cada quadro, formando um conjunto de símbolos

1 Posteriormente, o CFP não considerou que o Manual originado dessa pesquisa e de outros trabalhos, tivesse a precisão
necessária a um teste; assim, reduzi o status do material acumulado a uma simples técnica clínica.

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descritivos diferenciados entre si, coerentes com as descrições psicanalíticas e psiquiátricas de cada
quadro.
Equipe de pesquisa
O projeto original foi elaborado por Andréa V. Bazolli, Paola M. Gomes, Andréia S. Silveira e Simoni
R. Alves, sob orientação da Responsável Laura Cançado Ribeiro. As duas primeiras alunas foram agraciadas
com Bolsa Aperfeiçoamento do CNPq e as duas últimas, com BIC CNPq. A pesquisa original chegou a
resultados inconclusivos. O acordo entre avaliadores era de 35%! Só havia concordância em traços óbvios.
Assim, a Responsável decidiu trabalhar as definições operacionais dos traços, para então repetir
os procedimentos de análise. Nesse segundo projeto de pesquisa foi feito o aperfeiçoamento das
definições para cotação. Nele trabalharam, sob a coordenação e orientação da Responsável, como
estagiários de pesquisa, os alunos Alex Reuter, Alexandre Lana Reis, Ana Karine Carneiro, Guilherme A.
Carvalho e Zuleika H. Vieira; Juliana Garcia Gonçalves, como monitora. Trabalharam, gratuita e
responsavelmente, por mais de um ano, na correção das fichas feitas anteriormente, na elaboração das
definições operacionais dos traços gráficos para o Quadro, na organização e sistematização dos traços
gráficos, e no aperfeiçoamento do processo de cotação, até se conseguir acordo entre juízes. Fizeram
também a cotação dos traços dos protocolos originais, com base no Atlas (Quadro de Definições
Operacionais) conseguido.
De posse disso, a Responsável fez o trabalho de análise e de elaboração do relatório técnico.
Portanto, este Relatório se refere na verdade a duas pesquisas.
Origem da pesquisa
As inquietações que deram origem à pesquisa foram: primeiro, a inexistência de “regras escritas”
para aprender a trabalhar com a projeção gráfica, faltando ao estudante referencial teórico, visão global
do sentido das práticas, e procedimentos seguros que amparassem o trabalho técnico da cotação e
avaliação de resultados. Segundo, a maioria dos trabalhos sobre testes gráficos eram observações
derivadas da prática, e hipóteses que ainda aguardavam investigação e verificação experimental (Hammer,
1981). Terceiro, partíamos da premissa de que o teste auxiliava o diagnóstico, e de que testes projetivos
adicionam a qualquer diagnóstico nosológico elementos de conhecimento global e singular sobre a
personalidade do cliente. Os dados empíricos obtidos em Belo Horizonte permitiram estudar o
DFH/Machover de forma mais analítica, tornando- o um instrumento mais apurado para subsidiar um
psicodiagnóstico, ao compreender a dinâmica subjacente ao funcionamento psicopatológico.
Pressupostos sobre o DFH/Machover
O Dicionário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis (1967) apresenta a amplitude e mudanças no
conceito de projeção. O significado de interesse para o DFH é o primeiro, que faz referência ao processo
pelo qual a percepção do ambiente se dá em função dos estados, ou estruturas do mundo interno do
sujeito que percebe. O sujeito percebe seletivamente e codifica as imagens visuais à sua disposição, e,
depois, desenha, também seletivamente; e cria e narra seletivamente0 uma história, de modo que algo
de dentro de si é projetado, colocado para fora de si, sob forma de percepto, desenho feito, história.
Segundo Anzieu (1968), testes de construção de narrativas remeteriam o sujeito à segunda
infância, já que exigem a utilização de linguagem verbal sintática sobre vivências emocionalmente
significativas de sua história. As provas que recorrem aos borrões ou aos desenhos, por outro lado, fazem
retornar a períodos infantis pré-verbais, onde o mundo é percebido e experienciado através do corpo e
suas funções. O DFH atingiria os dois momentos evolutivos, pelo desenho e pela construção de uma
história sobre os dois personagens. A literatura consultada afirma que o DFH é técnica projetiva rica e
relevante para o estudo da personalidade, mas afirma também que é técnica fugidia a análises mais
precisas.
O tema do desenho de uma Figura humana foi explorado, inicialmente, sob o aspecto intelectual.
Como a representação da pessoa humana pelo desenho era universal, iniciaram-se estudos sobre a
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complexidade gradativa dessa representação, em função da idade da criança. (Goodenough, em 1924!).


Essa vertente de pesquisa se mantém, e o DFH é visto como bom instrumento para a projeção de
habilidades cognitivas.
Como técnica gráfica de projeção “de aspectos afetivo-emocionais”, o DFH nasceu quando Karen
Machover, por volta de 1940, observou como os desenhos feitos para avaliação cognitiva pela técnica de
Goodenough eram qualitativamente diferentes. Quando é usado com adolescentes e adultos, o
examinando é solicitado a desenhar uma Figura humana e, em seguida, outra Figura humana, de sexo
oposto à primeira Figura desenhada, e a criar uma história que fale da primeira Figura desenhada, da
segunda Figura desenhada, e de tudo que aconteceu aos dois.
O teste parte da premissa de que a ideia de si está ancorada primordialmente na própria imagem
corporal. Postula-se que a imagem corporal foi forjada no âmbito de experiências perceptivas, motoras,
afetivas e sexuais; assim, sentimentos sobre si e sobre suas relações se vinculam não somente à ideia de
eu, mas à ideia do próprio eu corporal (Lourenção Van Kolck, 1984). Nessa ideia do eu corporal, as
representações funcionais construídas no uso do corpo, entrelaçam-se com as representações das relações
e sentimentos vividos, sendo, nessas interações, investidas pelo sujeito de modo próprio. Por exemplo, os
braços e mãos, que são funcionalmente prolongamentos anatômicos usados ao pegar coisas, tocar
pessoas ou coisas, sentir pelo tato delicado as texturas, segurar, lutar, abraçar, passam a depositários, na
representação do corpo, dos sentimentos, anseios e relações vividas no buscar coisas/pessoas, abraçar,
segurar, agredir, etc. Dessa forma, cada parte da imagem corporal é construção simbólica que remete às
funções daquela parte, e também às relações sociopessoais vividas que envolveram aquela parte. Pode-se
acrescentar a essa construção simbólica a imagem coletiva do corpo humano, recebida no contato amplo
com a cultura (portanto, contendo elementos simbólicos pertencentes a uma categoria social, uma
cultura, ou à simbologia universal). A pesquisa sobre o DFH tem mostrado que todas essas vertentes,
simbolizadas (conscientemente ou não) pela pessoa, contribuem para formar uma imagem-de-corpo-da-
pessoa-humana. Imagem que se solicita a PSJ que, adaptativamente, projete e expresse no teste.
Vejamos. Sobre o desenho do corpo como símbolo do corpo vivido, além das observações de casos
clínicos, a literatura de pesquisa já registrou que a presença de determinada doença ou anomalia física
leva à representação, consciente ou não, desses elementos na Figura desenhada. Raso (1980) comparou
dois grupos de pacientes femininas internadas, portadoras de patologia de pernas: um grupo de patologia
crônica (grupo IVC: insuficiência venosa crônica) e outro de patologia aguda (ortopédica). Sinais claros
foram encontrados em relação aos concomitantes da doença crônica; por exemplo, 57% do grupo IVC
apresentaram tamanho de desenho reduzido (grupo ortopédico: 35%), como símbolo de mais forte
pressão do ambiente; 82% do grupo IVC mostrou pouco movimento na Figura desenhada, em comparação
com 59% no grupo ortopédico; além disto, observaram-se, no desenho das pernas, que 65% do grupo IVC
as representaram só esboçadas, pouco definidas ou muito pequenas, enquanto, no grupo ortopédico, as
pernas estavam sempre presentes e somente 35% apresentavam imprecisões.
Sobre o desenho do corpo como símbolo do psiquismo, Miglio (1984), numa direção mais sutil de
pesquisa, abordou a noção de limites corporais usando uma pequena escala baseada na estrutura da
Figura desenhada no DFH, na presença de detalhes no desenho, e na presença de identidade sexual da
mesma. A hipótese, confirmada, é de que há relação entre os limites corporais e a dimensão psicológica
da dependência do campo/independência do campo. A presença de delimitação mais precisa na Figura
desenhada corresponde a um maior nível de independência do campo, no nível psicológico, medida por
outros indicadores. Essa pesquisa ilustra a transposição simbólica de que se falou acima, do nível do "corpo
representado" para o "espaço simbólico da representação do psiquismo".
Bonilha (1974) buscou relações estatisticamente significativas entre traços bem específicos nos
desenhos, e sentenças, também específicas, nas áreas de catexe corporal: contato, aversões, etc.
Encontrou, por exemplo: na área de contato, menos largura da Figura (menor ocupação de espaço) e mais

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proximidade da margem superior corresponderam a mais restrição social e mais dependência; tamanho
de cabeça menor, mais restrição social (veja-se que o mesmo traço também correspondeu a maior
insatisfação com o rosto, simbolicamente o meio maior da comunicação social); desenho de braços
menores, maior restrição social e dependência. Na área de aversões (na verdade, medos), observou um
quadro de correlações inteiramente consistente com a simbólica (idem, p.46). Maior medo declarado
estava correlacionado com altura e largura menor da Figura (menos ocupação de espaço), braços menores
(menos possibilidade de pegar, de atingir), espessura de linha fina (delimitação frágil entre Figura e folha
de papel externa a ela), e linha média mais marcada (o eixo central do desenho como um eixo de
referência presente e definido). Na área de regulação, a leitura também foi coerente com a simbólica. Por
exemplo, mais possibilidade de perda de controle declarada estava correlacionada a cabeça menor, braço
menor, espessura fina das linhas e mais descontinuidade nas linhas (simbolizando delimitação mais frágil
com o exterior da Figura). Ao contrário, mais sombreamento (que indica maior trabalho sobre a Figura),
se associa a menor perda declarada de controle.
Sobre as diferenças no corpo sexuado desenhado como símbolo da psicossexualidade vivida, a
pesquisa buscou avaliar o que se projeta na “Figura do sexo oposto”, e o DFH foi instrumento bastante
usado para se abordarem as identificações e a identidade de gênero. Schiavi et alii (1988) estudaram uma
amostra não psiquiátrica de homens sem anomalias cromossômicas versus com anomalias cromossômicas
XYY e XXY. Usaram os itens ordem dos sexos ao desenhar, tamanho relativo das duas Figuras, problemas
de proporção e lacunas nos detalhes, entre outras análises. E verificaram que os desenhos dos homens
XYY expressavam maior diferenciação sexual entre as Figuras feminina e masculina, os controles normais
estavam numa faixa mediana, e os homens XXY faziam desenhos menos diferenciados. Como os XYY
declararam ter atividade sexual muito maior que os outros dois grupos, maior número de parceiras/os, e
tinham desejo maior por experiências pouco convencionais, os resultados, como conjunto, confirmaram a
teoria acumulada clinicamente de que, quando há expressão exacerbada de indicadores de diferenciação
sexual nos desenhos, como no caso dos sujeitos XYY, esta pode corresponder exatamente a vida sexual
menos seletiva. Alguns estudos se centraram em características dos desenhos que indiretamente se ligam
às relações de gênero. Por exemplo, Delatte (1985) verificou que um tamanho maior de Figura masculina
corresponde a um autoconceito mais elevado em homens; posteriormente, verificou que, nas mulheres,
o autoconceito mais elevado expressava-se em desenhos com maior acentuação de "feminilidade"
(definida como Figura "atraente”, "graciosa", "suave" e "delicada").
Lourenção Van Kolck (1984, p.16) lembra que o fenômeno da projeção é complexo. E que o DFH
pode expressar um tipo de aspiração do eu, o que a pessoa gosta e/ou desgosta, uma atitude em relação
a alguém do ambiente, um resultado de circunstâncias exteriores, uma expressão de um padrão de
hábitos, uma tonalidade emocional, atitudes para com o examinador ou a prova, com a vida e a sociedade.
Essa afirmativa dirige o raciocínio, de imediato, para o problema do tratamento científico dessa realidade
complexa. Em que medida determinado protocolo expressa uma ou outra das variáveis mencionadas?
Pressupostos sobre método e medida
Margenau define ciência como uma organização peculiar da experiência cognitiva, experiência
relativa a elementos sensoriais e experiência relativa a conceitos. Os dados de primeira mão aguardam o
trabalho científico para se transformarem, de elementos avulsos e desorganizados, em peças de uma
construção conceitual que passará a organizar a futura experiência sensorial do homem. A princípio, as
correspondências criadas pelo homem entre os dois campos de experiência ― a experiência imediata, o
fato, e a conceituação ― são livres. Vão deixando de ser tão livres à medida que vai havendo essa
"organização", cumulativa, da experiência cognitiva sobre um determinado campo de experiência.
Na obra original de Machover, depreende-se que a variação qualitativa dos desenhos foi o fato
efetivamente observado, que desencadeou a busca de evidências clínicas. Mas as afirmações sobre as
relações entre fatos observados e conceitos são, de acordo com a época, de fundamentação pobre. Falta
esclarecimento metodológico sobre a comparação com dados de outros testes, falta precisão de
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informação (e.g., "vários estudos 'cegos'... resultaram em surpreendente harmonia" (p.26), ou "em um
breve experimento... fez-se esforço para comparar ... desenhos... com dados pertencentes a casos...
logrou-se certo grau de emparelhamento exato, muito melhor do que … o emparelhamento ao acaso"
(p.29).
Em 1984, Lourenção Van Kolck disse, depois de 30 anos de estudo, que a pesquisa na área, ainda
contraditória, não podia afirmar, sem a liberdade de negar a afirmação, que o desenho expressa a imagem
corporal do sujeito. É difícil ter acesso à imagem corporal que cada sujeito formou. E como precisar a
parcela de projeção emocional e de expressão cognitiva na variabilidade do teste? Qual a parcela de
influência da habilidade artística, do examinador na hora da aplicação, da constituição do grupo na
aplicação coletiva, da familiaridade com lápis e papel, e outras variáveis? Ou o DFH é teste de
personalidade adequado, exatamente por refletir a personalidade, que é uma resultante de interações
variadas?
Esses argumentos questionam a fidedignidade e a validade ― e por extensão a cientificidade ―
do DFH. E esses aspectos estão permeados pelo problema, anterior e interligado, da abordagem molecular
ou analítica, versus abordagem geral ou molar, do desenho, na hora da interpretação. A abordagem
molecular ou analítica refere-se ao tratamento do teste atentando para a presença de traços, ou
características, específicos no protocolo. A abordagem molar ou global refere-se ao tratamento do teste
atentando para configuração de conjunto do desenho, que informaria sobre a configuração global de
personalidade do sujeito. No caso específico deste trabalho de pesquisa, o problema da "avaliação de
conjunto" em contraposição à "avaliação de traços" esteve presente durante todo o tempo, direcionou o
trabalho crítico sobre a bibliografia, e redirecionou o trabalho empírico de análise e interpretação dos
dados.
Kerlinger (1981) definiu fidedignidade como um conceito que condensa estabilidade, acuidade, e
erro de medida. A estabilidade refere-se ao fato de que um resultado de um teste de um sujeito A deve se
manter constante por um período de tempo razoável. Realmente, é intuitivo que, se os resultados de A se
mostram variáveis no tempo, o teste a que ele se submeteu estará medindo características de momento,
e não a personalidade de A, que é conceito ligado à ideia de permanência. A acuidade ou precisão refere-
se ao fato de um teste do sujeito A medir sempre de um mesmo modo a mesma coisa ― isto é, a medida
obtida não varia muito, não sofre muitas influências espúrias que a tornam flutuante. E erro de medida
refere-se ao montante de variância de um teste que se deve ao acaso (influência de variáveis aleatórias),
e que denominado em estatística de variância devida a erro. Erro de medida envolve acaso, pouca
acuidade e pouca estabilidade.
Na teoria matemática da fidedignidade, a variância total de um teste engloba um montante de
variância sistemática, devida à propriedade que se está medindo, e um montante de variância devida a
fatores aleatórios. Ou seja, em teoria, em repetições infinitas de um teste, poderíamos obter uma média
dos resultados de um sujeito naquele teste, que seria o "seu" resultado em relação àquela propriedade;
teríamos também uma média de suas variações ao longo das aplicações, que seria a sua "margem de erro".
Como esta situação é teórica e impossível, usam-se meios possíveis para se estimar a
fidedignidade de um teste. O método do teste-reteste substitui a comparação infinita de um sujeito com
ele mesmo ao longo de um tempo x pela comparação de resultados de uma grande amostra de sujeitos
diferentes em duas situações diferentes no tempo; isto é, verifica-se se o teste mediu a propriedade do
mesmo modo, de modo que os numerosos sujeitos “ficaram na mesma posição em relação a ela”, em dois
momentos diferentes. O método da consistência interna compara esse grande número de sujeitos em dois
subconjuntos de um mesmo teste, verificando se o teste mediu a mesma coisa em dois "momentos"
diferentes, embora simultâneos.
Portanto, a fidedignidade é referente à confiabilidade da operação de medida que se criou para
uma propriedade qualquer. Já a validade de um instrumento indica quanto um teste mede aquilo que ele
pretende medir. Portanto, a validade informa o montante em que essa operação de medida espelha, na
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realidade, o conceito abstrato que se pretendeu concretizar com essa operação de medida. Transpondo
para a linguagem de Margenau, o índice de fidedignidade mostra se um teste proporciona repetidamente
os mesmos “fatos”, e o índice de validade é diretamente ligado à criação de correspondências entre o
domínio dos fatos e o domínio dos conceitos.
Podemos criar um teste e dizer que ele descreve a personalidade das pessoas ― essa liberdade de
criação científica existe. Mas somente o acúmulo da experiência cognitiva vai dizer se, realmente, aquele
teste descreve a personalidade. Ou vai restringir essa liberdade ― dizer que o teste descreve bem alguns
aspectos da personalidade, mas não outros. Assim, o conceito de validade se relaciona diretamente ao
questionamento da natureza da realidade, como bem lembra Kerlinger (1981, p. 456), e é problema de
ordem lógica, de ordem empírica e de ordem matemática.
Há tipos de validade. O instrumento de medida deve inicialmente demonstrar que seus itens (seu
conteúdo) têm relação lógica com a propriedade medida. A pergunta é: "a substância, ou conteúdo, dessa
medida é representativa (o) do universo de conteúdo da propriedade que está sendo medida?" (p. 458).
Na prática, a validade de conteúdo é conseguida através da avaliação de juízes de reconhecida
competência no campo de estudos em que se insere a propriedade mensurada. Em segundo lugar, o
instrumento de medida deve permitir a emergência de resultados, que permitam ao examinador dizer
algo a respeito da conduta da pessoa em outra situação, e assim tomar decisões que a afetem (validade
preditiva). Esse é um aspecto de ordem empírica, e, como tal, ligado à organização da atividade social; um
mesmo instrumento é usado de formas diferentes e para objetivos diferentes.
Finalmente, o instrumento de medida deve permitir configurar a propriedade que ele pretende
medir: quais variáveis ali estão subjacentes e o que fazem para que o resultado emergente seja aquele, e
não outro. Essa é a validação de construto; ela busca mais a compreensão, o significado, do que um mero
resultado estatístico, embora naturalmente os procedimentos sejam lógico-empírico-matemáticos. As
evidências que validam se inserem na estratégia geral de definir indicadores que convergem para o
construto e sua discriminação de outros construtos. Empírica e matematicamente, englobam estudos
correlacionais, comprovação do mesmo conceito vinda de métodos totalmente diferentes, análises
fatoriais (preferencialmente revisadas por outros analistas fatoriais), testes de hipóteses (derivados da
teoria construída), experimentos destinados a alterar por manipulação de variáveis o resultado de um
teste, análise de variância, e outros.
A abordagem analítica versus a abordagem molar do desenho
Esclarecidas as noções sobre medida que nortearam esse estudo, podemos voltar à discussão
sobre a abordagem analítica do DFH, que privilegia o levantamento de traços, em contraposição à
abordagem de conjunto, que privilegia a "impressão" geral produzida no analista de desenhos pelo
desenho a ser avaliado. Esta última é considerada pelos especialistas como um trabalho clínico, de nível
de especialização equivalente ao da condução de um processo psicoterapêutico. É considerada também a
"melhor", a que demonstra maior nível de competência.
Esse problema foi colocado em pesquisa por Scribner e Handler (1987). Qualificaram a abordagem
de "traços" como mais cognitiva, quantificada, e normativa, e a abordagem mais molar como mais
impressionística, ligada a um "feeling", que enfatiza a experiência fenomenológica do clínico quanto ao
desenho: suas reações mais afetivas ou viscerais a ele. Sem perguntar se os desenhos da Figura humana
são válidos "per se" (p. 113), decidiram pesquisar o clínico como intérprete. Segundo essa revisão, desde
1950 a pesquisa mostra que a personalidade do intérprete influencia na interpretação do desenho e que
pessoas “leigas” podem avaliar desenhos tão bem como psicólogos clínicos experientes, desde que
apresentem as habilidades "intrínsecas" de "orientação afetiva", criatividade, intuição, empatia, suavidade
e cooperatividade no relacionamento interpessoal (affiliative orientation).
Scribner e Handler encontraram diferença estatisticamente significativa ( de 0,02 a 0,005) na
habilidade de interpretação dos desenhos entre o grupo de orientação interpessoal "afiliativa" e o grupo
que se caracterizava por competitividade, dominância e busca de poder, ordem e precisão (disaffiliative
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orientation). Essas últimas características caracterizavam os intérpretes fracos. Para os autores, há níveis
profundos da personalidade envolvidos na interpretação dos desenhos, e, para o trabalho molar com o
DFH, a orientação afiliativa seria uma condição necessária. O enfoque de sinais pode, então, “ser usado
para suplementar e refinar a impressão assim obtida" (idem, p.120). Van Kolck (1984, p. 4)
parcimoniosamente recomendou: "a interpretação molar pode e deve ser enfatizada, mas o treinamento
inicial na técnica começará mais eficientemente pela interpretação analítica ou molecular". Mais adiante
(p.19), entretanto, lembrou que a validade está relacionada diretamente à precisão ou fidedignidade do
teste, e afirmou que "as avaliações globais são mais fidedignas e válidas que a interpretação de sinais
gráficos isolados".
Se olharmos essa situação do ponto de vista da fidedignidade, ela fica estranha, porque, na
verdade, não se estão olhando as qualidades de precisão e estabilidade do instrumento de medida, mas
do avaliador de desenhos. Com o tempo, e com treinamento, o avaliador de desenhos atinge um ponto
tal de "confiabilidade" no uso do instrumento, que este se torna confiável! Nesse caso, como fica a medida
- o teste do DFH - em relação à sua fidedignidade e validade?
Ao fazermos a revisão da literatura do estado da arte do DFH para avaliar criticamente os aspectos
de objetividade de cotação, fidedignidade, validade, e a “aceitação” e avaliação crítica global sobre o
mesmo, vimos que a pesquisa se dividia à época, em relação ao estado da arte. Se o contexto de pesquisa
era a prática clínica, baseando-se em evidências mais qualitativas sobre o DFH, ou apoiando-se no tipo de
validação que ocorre pelo acordo entre o aplicador do DFH e o sujeito que a desenhou, a conclusão é de
abono à técnica. [Também na experiência de dez anos no Departamento de Psicologia da UFMG, tanto no
trabalho clínico como na orientação de alunos, ocorria um acordo intersubjetivo "clínico", entre as
características reveladas pelo desenho (a “interpretação”) e a confirmação das características pela pessoa
que recebia a análise. Entendíamos que o teste havia objetivado para o sujeito uma "realidade subjetiva”.
E isso era visto como valioso para ele, pois lhe permitia ampliação de perspectivas sobre si mesmo e sua
autocolocação no ambiente. ]
Numa tentativa de sistematizar sua prática clínica, Sarrel, Sarrel e Berman (1981), na época
trabalhando com terapia sexual na Medicina da Universidade de Yale, consideraram o DFH um
instrumento muito valioso, fidedigno, minimamente intrusivo e que não feria o cliente; e o recomendaram
para acesso à personalidade, às relações interpessoais e acesso à mudança que se dá durante o curso da
terapia sexual. Para o acesso à personalidade, os autores indicaram que o DFH pode ser útil para identificar
psicopatologia, a imagem corporal, a orientação sexual, a identidade de gênero, o comportamento sexual
e a motivação e estilo de personalidade. Fizeram revisão de literatura e declararam experiência com
desenhos obtidos de 300 casais, e 250 pessoas, homens ou mulheres, vistos individualmente. No artigo foi
apresentada uma casuística para cada um dos sete aspectos mencionados, além dos traços gráficos que
foram observados para cada um deles. A conclusão dos autores é que os desenhos "são sempre
consistentes com a história do paciente, a impressão clínica do terapeuta e o comportamento subsequente
do paciente". E chegaram a afirmar: "onde tem havido discrepância, pensamos que o DFH tenha sido mais
preciso que a primeira impressão clínica".
Sob o prisma da pesquisa em clínica, Maloney e Glasser (1981) fizeram uma avaliação da utilidade
clínica do DFH e afirmaram que era bastante usado (era o 4º mais usado), mas que não gozava de status
científico que justificasse ser tão difundido. Mencionaram sua carência de validade diagnóstica preditiva,
mesmo como meio adicional; a pobreza metodológica das pesquisas sobre ele; a ausência de métodos de
cotação confiáveis, simples e uniformes; a baixa fidedignidade conseguida com os sistemas de cotação
disponíveis. E afirmaram que avaliações globais do desenho (e.g., qualidade global, diferenciação sexual
aparente entre as Figuras, perturbação da imagem corporal) apresentavam mais alta fidedignidade e
melhor validade preditiva, especialmente no que se referia à percepção de desajustamentos sérios de
personalidade. Os autores colocaram então a importância de se criarem escalas estandardizadas e

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validadas, que especificassem "o que" entraria nessas avaliações globais. Portanto, de certa forma,
colocaram uma demanda de que se analisasse a "avaliação global"!
Quando o contexto de pesquisa é de busca de relação entre variáveis, ou busca de uma avaliação
mais substantiva dos elementos que influenciam no próprio teste, a avaliação em geral continha mais
críticas à técnica, dizendo da necessidade de aprimorar-se o instrumento.
Uma crítica rara — aquela que, após a crítica, desencadeia esforços de superação dos elementos
criticados — foi a de Oas (1985). Em uma revisão da avaliação psicológica da impulsividade pelo DFH,
menciona que a pesquisa com o DFH é pobre, do ponto de vista metodológico. E associa essa má qualidade
à abordagem por simples sinais, em vez da abordagem se centrar nas relações entre esses sinais. Outras
críticas feitas por Oas à metodologia de pesquisa com o DFH incluem: o uso de rótulos diagnósticos amplos
e grupos heterogêneos de sujeitos, em vez de comportamentos específicos e grupos homogêneos; a baixa
fidedignidade dos sinais específicos; a ausência de validação cruzada; e a ausência de controles para
organicidade, QI, capacidade artística e idade, além de amostras muito pequenas.
Mais seriamente ainda, ele indica que não se sabe o rationale teórico que justifica a escolha dos
ditos sinais, como, por exemplo, "sinais de agressividade". O próprio Oas decidiu fazer estudos
controlando as variáveis acima, e que mostraram que a impulsividade (um comportamento específico)
acarreta mudanças no desempenho de desenho. Oas (1985b) conseguiu identificar corretamente pelo DFH
adolescentes impulsivos em 93% de uma amostra psiquiátrica, 95% da amostra escolar e 100% dos
delinquentes. Seus índices, embora muito precisos e específicos, expressam e compartilham uma noção
geral teórica (o rationale teórico mencionado acima) de inabilidade geral para adiar respostas e de falhas
na mediação cognitiva. Vejam-se seus índices.
"Um ponto para cada variável num protocolo gera um escore de 0 a 6: a) tempo de completação em menos
de 5 minutos; b) escore de HARRIS (1963) inferior a 36; c) linhas que se superpõem em pelo menos duas das partes
do corpo seguintes: cabeça, pescoço, tronco, braço, perna, pé; d) representação de Figuras com assimetrias; e)
lacunas em detalhes, com inclusão de somente dois dos seguintes: óculos, sobrancelhas, pestanas, detalhes dos olhos
(íris, pupila), sombreamento nos olhos, fivela no cinto, maquiagem, joias, roupa, estilo específico de cabelo; f) omissão
de uma pupila, ou de um dedo de qualquer das mãos, ou do nariz. Escores maiores do que 3 indicam impulsividade.").
Pesquisas que chegaram a resultados que permitem delimitação, como a de Oas, são raras, no
conjunto de pesquisa sobre o DFH.
Outro aspecto que chamou a atenção no estudo que fiz sobre a pesquisa sobre o DFH é que não
se trabalhava o teste sistematicamente, como um conjunto, provavelmente porque ele é uma produção
altamente complexa. A tendência geral da pesquisa era a da "interpretação global" clínica, ou a da
"avaliação da qualidade global", ou, ainda, a de isolar poucos, ou até somente um único aspecto do teste
― e.g., o sujeito desenhar em primeiro lugar o próprio sexo ou o sexo oposto ― e, a partir daí, desenvolver
a análise das relações entre variáveis, fazendo-se em seguida também, colocações sobre "o teste" (!!!).
O aspecto ― sexo da Figura desenhada em primeiro lugar ― serve bem ao propósito de análise
da complexidade do trabalho de validação do DFH. As evidências indicavam que a "seleção" da Figura a
ser desenhada em primeiro lugar não era aleatória — ou seja, havia lógica em se continuar a pesquisar
esse item e, por extensão, o teste da Figura Humana (Paludi, 1978; Buhrich e McConaghy, 1979; Fleming,
Koocher e Nathans, 1979; Bauer e Paludi, 1979; Jensen, 1985). Entretanto, Farylo e Paludi apontaram,
somente em relação a esse item (sexo da Figura desenhada em primeiro lugar), as seguintes deficiências
de procedimento, que interferem diretamente na confiabilidade do teste: “não se tem um método
consistente de avaliar o sexo da Figura desenhada; a maioria das pesquisas não indica como isso foi feito;
a observação sistemática da situação de aplicação do DFH tem sido pobre; tem-se colhido evidências da
influência do sexo do examinador, e da composição sexual do grupo na seleção da Figura a ser feita em
primeiro lugar. Do ponto de vista mais teórico, o conceito de orientação de gênero tornou-se mais
complexo; finalmente, e entre outros elementos de crítica, grande parte da pesquisa sobre o DFH tem sido
feita usando amostras casuais e não aleatórias”.

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Ribeiro, Laura C. et alii. Relatório de pesquisa sobre o teste do Desenho da Figura Humana (DFH/Machover)

Em algumas pesquisas se fazia, inclusive, uma equalização metonímica entre esse aspecto do teste
― Figura desenhada em primeiro lugar ― e o próprio teste como um todo. Veja-se esta afirmação de
Downs e Langlois (1988): "dada a falta de associação entre o DFH e qualquer outra das medidas usadas,
fica pouco claro se o DFH reflete ou não realmente algum aspecto do processo de tipificação sexual". O
"DFH", nessa pesquisa, referia-se somente a uma pequena escala construída pelos autores para identificar
o sexo desenhado em primeiro lugar, e a clareza da identidade sexual da Figura desenhada em segundo
lugar!
Vê-se, pela pesquisa que nos foi possível revisar, que o trabalho com o DFH é bastante difícil,
exatamente porque o examinador se defronta com uma produção aparentemente simples, mas complexa.
Se um simples item, como o "desenhar em primeiro lugar uma Figura do próprio sexo (ou do sexo oposto)",
é comportamento comprovadamente motivado e sujeito a determinações ambientais ou de motivação
tão complexas, pode-se imaginar como a produção total é fugidia a um estudo exaustivo. Entretanto, no
conjunto, pensamos que Kerlinger (op.cit., p. 521) coloca bem a questão. Lembra que os métodos
projetivos são métodos de observação e medida, exatamente como qualquer outro método, e que devem
ser submetidos a processos de avaliação de fidedignidade e validade, exatamente como outros métodos,
buscando primeiramente "objetivar o subjetivo", sendo objetividade definida como "acordo entre
observadores". Isto é, avaliadores independentes precisam concordar na avaliação e interpretação dos
dados produzidos por um método de observação.
Essas considerações: necessidade de se trabalhar com um nível de inferência baixo, que fosse
acessível a principiantes, e que permitisse acordo intersubjetivo entre avaliadores independentes do DFH,
definiram o trabalho na direção molecular de abordagem dos traços gráficos presentes no desenho.
Embora as abordagens "globais" sejam consideradas mais válidas para avaliação clínica, o estudo
molecular tem-se mostrado viável, e tem sido o mais comum na literatura. Além disso, estudos como os
de Oas (1985 a;b) mostram o potencial da abordagem de sinais, desde que esses estejam integrados em
conjuntos mais significativos. Mas, esses conjuntos de sinais pedem sinais bem estudados e definidos.
Como ainda não havia um material que revisasse a abordagem molecular existente na literatura,
pensei que uma revisão que sistematizasse os vários traços descritos na literatura seria potencialmente
enriquecedora para a pesquisa sobre o teste e para seu uso clínico. Além disso, se a avaliação
impressionística depende de empatia e "feeling", e é estreitamente ligada à orientação interpessoal
afiliativa, como ficariam os que não a possuem? Mais ainda, se as características do intérprete influem na
avaliação, não seria adequada uma abordagem que fosse mais exaustiva e que “contivesse” o intérprete
e lhe fornecesse parâmetros mais firmes para a análise?
O primeiro dos objetivos desta pesquisa ― identificar na literatura sobre o DFH os traços gráficos
que tenham sido considerados indicadores psicopatológicos por autor(es) ― foi o de contribuir para a
abordagem clínica e de pesquisa sobre o DFH. Indicadores psicopatológicos são definidos nesta pesquisa
como os traços gráficos gerais (e.g., linha interrompida) ou específicos (e.g., ausência de mãos) sobre os
quais se afirme que estão presentes em determinada(s) patologia(s). À medida que se foi revendo a
literatura, aumentou a preocupação de que os traços permitissem avaliação similar por avaliadores
independentes, pois, quando se lia um relato de pesquisa, havia dúvida sobre a forma de operacionalizar
e medir a presença (ou ausência) de determinado traço.
O interesse pelos indicadores psicopatológicos pode ser considerado histórico — decorreu da
abordagem de personalidade prevalente nos estudos do DFH, pois os dados do DFH surgiram de trabalho
em hospitais e clínicas e a direção clínico-psicodiagnóstica é clara: destina-se aos "padrões de traços"
gráficos, "enquanto estes possam refletir a dinâmica da organização sintomática em uma categoria
diagnóstica particular" (p. 22). Seus “casos” são apresentados sob rótulos clínicos, e alguns são
apresentados como "normais" (casos 4, 7 e 8).

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Ribeiro, Laura C. et alii. Relatório de pesquisa sobre o teste do Desenho da Figura Humana (DFH/Machover)

Hoje, considero que essa pesquisa teve esse vício de origem – na época, pensava que
psicodiagnóstico “era”, em primeiro lugar, identificar a patologia, ou as tendências psicopatológicas. Hoje,
penso que o psiquiatra faz isso melhor, com suas entrevistas, prática contínua, estudo específico, escalas
e inventários. Já o diagnóstico feito por psicólogos é de natureza dinâmica, podendo ser, inclusive,
solicitado por psiquiatras. E essa é a contribuição específica do psicólogo ao diagnóstico ― o trabalho
específico do psicólogo é auxiliar com a perspectiva da compreensão e da saúde: — Como tudo está
entrelaçado? — Como a pessoa tende a “funcionar”? —Como pode sentir-se melhor e funcionar melhor? — Quais
recursos podem ser utilizados para construir seu bem-estar?
Vertentes clínicas para identificar patologias e sua aplicação ao DFH
As vertentes clínicas que foram referência para a pesquisa foram a da psiquiatria clássica
tradicional (expressa nas pesquisas sobre o DFH anteriores aos DSM e no Manual do MMPI), a psicanalítica,
e a da psiquiatria sistematizada pelo DSMIII-R.
As pesquisas derivadas da psiquiatria clínica clássica estão sintetizadas em informações de livros,
sem muita especificação (anteriormente ao esforço dos DSM, “supunha-se” que havia acordo sobre o que
era pertinente a cada patologia) – e assim era nos livros sobre o teste DFH. Na abordagem da psiquiatria
clássica, lentamente, ao longo do tempo, foram sendo construídas descrições de sintomas observáveis
que, associados, formam determinados "quadros" — isso acaba por se tornar um corpo de conhecimentos,
mas sem boas hipóteses de por que esses sintomas ocorrem simultaneamente. Esses quadros
sintomáticos recebem validação externa por correlatos de história familiar, resposta a medicação, curso
da doença, testes laboratoriais e adequação posterior a prognósticos aventados. Na abordagem da
psiquiatria clássica, saúde é vista como algo diferente de doença e busca-se nomear corretamente cada
síndrome, para buscar mais consistentemente o aprimoramento do estudo dos correlatos mencionados
acima, e para não estigmatizar pessoas, por previsão inadequada de cursos de deterioração.
Na abordagem psicanalítica, há um conjunto de concepções gerais, derivadas da teoria básica, que
orienta os raciocínios sobre como "funciona" uma pessoa com tal ou qual "estrutura" clínica. A psicanálise
argentina representa a vertente psicanalítica mais forte a que tivemos acesso, especialmente o trabalho
de Elsa Grassano (1977). Suas referências teóricas são estudos sobre inveja e identificação projetiva,
baseados em Melanie Klein, Wilfred Bion, teorias das fases libidinais, dos vínculos, e da comunicação.
Nessa vertente psicanalítica, saúde e doença são vistas como polos dialéticos da personalidade, podendo
o sujeito pender mais, ou menos, para um deles, e, inclusive, havendo em todos os sujeitos a coexistência
de núcleos psicóticos, neuróticos e de saúde. Consequentemente, na abordagem psicanalítica do
psicodiagnóstico está-se buscando uma avaliação mais compreensiva do sujeito, com suas várias
possibilidades (psicóticas, neuróticas, adaptativas) de reação, quanto aos seus modos de funcionar
interpessoalmente: seu modo de se vincular, de se defender, seu tipo de ansiedade.
Assim, na abordagem da psiquiatria busca-se uma avaliação da semelhança e ou da pertinência
de um determinado sujeito a um grupo clínico, com vistas à previsão de consequências e ocorrências, a
curto e longo prazo. Naturalmente, no exercício clínico, os enfoques clássico e psicanalítico não são
mutuamente exclusivos. De posse de um diagnóstico clínico-psiquiátrico, pode-se ver na teoria o
funcionamento dinâmico e a organização psicológica do sujeito. De posse de um psicodiagnóstico
psicanalítico, podem-se estudar os correlatos clínico-psiquiátricos registrados para aquela patologia que o
paciente apresenta.
Elsa Grassano (1977) pesquisou 250 produções gráficas de sujeitos previamente diagnosticados,
com o intuito de sistematizar e organizar os indicadores psicopatológicos ligados a cada diagnóstico.
Os indicadores psicopatológicos, no seu trabalho, constituem grupos coerentes de respostas
projetivas, e que permitiriam agrupar e diferenciar as produções segundo três categorias. Primeiramente,
pelo grau de patologia, isto é, qualidades de integração da personalidade, diferenciando modos de
funcionamento neuróticos, psicóticos ou psicopáticos como estruturas clínicas e/ou como áreas
coexistentes numa mesma personalidade. Segundo, pelos quadros psicopatológicos ou tipos de
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personalidade, isto é, características diferenciais quanto aos vínculos, ansiedades e defesas dominantes.
Por último, pela dinâmica individual, isto é, respostas dentro do material projetivo enlaçadas com a
biografia pessoal. Assim, para essa autora, os níveis de integração da personalidade iriam da psicose à
neurose, havendo diferenças evolutivas entre eles. Além disto, a predominância de funcionamento
destrutivo ou adaptativo é que define a maior ou menor atuação dos referidos núcleos numa
personalidade. O funcionamento psicótico coexiste, pois, ao neurótico em todas as pessoas; e as estruturas
clínicas "psicose", "neurose" e "psicopatia" configuram somente uma situação de exclusivismo ou maciço
predomínio de um deles. [Passaremos, a seguir, a uma pequena exposição dessas estruturas.]
Para Grassano, o funcionamento psicótico é muito primitivo e se caracteriza por indiferenciação
entre objetos internos, objetos externos e o eu; não há vínculos de contenção (fronteiras que contenham),
o que acarreta identificação projetiva evacuativa maciça. Para ela, a possível origem do funcionamento
psicótico seria um montante elevado de inveja constitucional, que se encontrou numa relação de total
dependência com um objeto não perceptivo, não receptivo e incapaz de lidar com o pânico assim gerado,
o que retorna para o sujeito sob a forma de terror não nomeado.
A solução de desenvolver um aparelho mental que permita a simbolização traria a percepção da
situação doentia intolerável, e da dor. Para evitar isso, suspendem-se as funções de percepção e de
relação, os vínculos e a função simbólica efetiva. O funcionamento mental fica, dessa forma, sem níveis de
diferenciação; passa a se basear em identidades entre o interno e o eu, o externo e o eu, e entre o símbolo
e as coisas, ocasionando os fenômenos da equação simbólica e do pensamento concreto, em que as
palavras ou as imagens mentais são as coisas, ou são as outras coisas a que remetem.
Já, para a Autora, o funcionamento neurótico é posterior, conseguido por elaboração da “posição
depressiva” (no sentido kleiniano). Caracteriza-se por uma relativa diferenciação entre os objetos internos,
objetos externos e o eu, e pela formação de vínculos em que existem fronteiras de contenção. Isso significa
que os símbolos foram diferenciados dos objetos externos, adquiriram o poder de fazer lembrar a situação
de contato emocional com a realidade, mas não são a coisa. Isso significa também que começou a haver a
substituição da identificação projetiva evacuativa maciça, pelos controles obsessivos adaptativos, e se
instalou o processo do recalcamento. Esse, como ganho evolutivo adaptativo, permite a clivagem [com
certo grau de permeabilidade] entre inconsciente e consciente, mantendo inconscientes as fantasias
primitivas.
O conflito psíquico passa a ser, assim, o de reparar o objeto bom que se encontra ameaçado pelos
sentimentos ambivalentes do sujeito. E a função simbólica se desenvolve, permitindo distinguir a
realidade, embora a percepção dos objetos esteja ainda sujeita a dissociações e parcializações menores,
supervalorização de alguns elementos e subvalorização de outros, em alguns setores do funcionamento.
O funcionamento psicopático é visto por Elsa Grassano como tendo características específicas, que
o situam num nível intermediário entre o psicótico e o neurótico. Permanece no funcionamento
psicopático a identificação projetiva evacuativa dos próprios conflitos e ansiedades que o sujeito não
consegue elaborar, sob a forma de identificação projetiva indutora. Esses conflitos, cindidos da
personalidade própria, são depositados nos outros que o cercam, que são induzidos a sofrê-los, ficando o
sujeito livre deles. O objetivo dos vínculos é então o de manter ativamente nos depositários esses conflitos,
impedindo assim sua reintrojeção no sujeito. Essa ação é abonada por um código de conduta que não
discrimina bem de mal.
No funcionamento psicopático, a função simbólica mantém as características cognitivas do
processo secundário, sendo os símbolos formalmente símbolos, mas conservando o significado de
equações simbólicas para o sujeito. A comunicação serve para depositar nos objetos externos o não
tolerado, as palavras sendo usadas como meio de ação, objetos concretos persecutórios portadores de
emoções violentas ou ações, destinadas a promover emoções nos depositários, ou ações dos depositários.
O uso das palavras mostra que a equação simbólica permanece como pano de fundo da comunicação,

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conservando a identificação com o objeto e a incapacidade de elaborar o luto pela “perda do objeto”, que
antecede a comunicação saudável.
A autora não distingue especialmente o funcionamento adaptativo. Inclusive, ao longo de seu
livro, fala de características das produções "adaptativas ou de predomínio neurótico", como um conjunto
único. Contudo, pode-se inferir de seu texto que um funcionamento adaptativo se distingue do
funcionamento neurótico por maior qualidade de integração. Os processos reparatórios são mais bem
conduzidos, há mais harmonia no vínculo conseguido com os objetos. Consequentemente, as produções
do sujeito, como objetos externos reconstruídos e recriados ativamente por ele, são mais harmoniosas,
também. A autora descreve claramente a atitude do sujeito que tem a conduta adaptativa: é preocupado
pelo resultado de seu trabalho (compromete-se com o que faz), o que, no nível mais profundo, mostra a
preocupação depressiva ligada à tarefa reparatória. Tem "atitudes de reflexão e busca interna, interesse
em descobrir as motivações que deram lugar às suas associações e necessidade de dar sentido completo
à produção" (p.35).
Desse quadro teórico Elsa Grassano deriva sua análise dos testes gráficos, entre os quais se inclui
o da Figura Humana. Há um movimento do geral para o particular: primeiramente, analisam-se os
indicadores de grau de psicopatologia, ou de estrutura de base; posteriormente, avaliam-se os indicadores
das formas de comunicação ou vínculo sujeito—mundo: forma esquizoide, histérica, obsessiva, etc., essas
dentro de gradações das estruturas de base.
No caso do grau de psicopatologia, a autora examina primeiramente a delimitação do objeto
gráfico em relação a seu espaço externo, a folha, e em seguida as características estruturais de cada objeto
gráfico. O tratamento dado à folha permite ver a emergência de identificação projetiva evacuativa maciça,
que se revela pelo "povoamento" da folha por minúsculos pequenos objetos. As características estruturais
envolvem a ausência ou presença de traços:
a) a não/integração das partes; b) a não/delimitação em relação à folha por limites precisos e não
fragmentados (que revelam pequenas zonas de identificação projetiva) nem excessivos (que revelam medo da
identificação projetiva possível); c) a não/presença das partes que exercem funções de comunicação (olhos, mãos,
boca); d) a não/presença de diferenciação sexual e pessoal; e) a presença de movimento harmonioso, ou de rigidez,
até um nível em pode haver desvitalização ou desumanização; f) a não/omissão de partes, a (in)completude dos
desenhos; g) a (in)adequação lógico-formal das Figuras (perspectiva, tamanho).
É interessante observar que Freitas Júnior (1979) elaborou no Brasil uma Escala para avaliação da
deterioração do desenho da pessoa humana (EDDP), empiricamente, "sem base psicanalítica" (p. 3), que
consiste num total de 18 traços, destinados a identificar patologia grave. Vê-se uma marcada superposição
de seus 18 indicadores com os de ELSA GRASSANO, com exceção da análise do tratamento dado à folha
de papel. Vejam-se seus indicadores, para comparação:
grande distorção e perda da estrutura humana; ausência de olhos, nariz, boca; ausência de ou tronco
irreconhecível; perda de proporções e assimetrias acentuadas; sexo da Figura não identificável; linhas muito
recobertas ou fragmentadas; braços, mãos e/ou pernas em uma dimensão, ou ausentes; tronco aberto em baixo;
representação dos órgãos genitais e de órgãos internos; espaço interno cheio; desvio axial maior que 10º; linha axial
quebrada; braços perpendiculares ao solo; rótula representada por círculo.
O trabalho de Elsa Grassano transmite uma impressão de consistência, especialmente pela análise
detalhada da casuística e pela apresentação que faz de mais dois testes ― o TRO de Phillipson e o
Desiderativo ― dentro da mesma abordagem teórica. Contudo, a riqueza de sua análise está, a nosso ver,
exatamente na transposição do nível do fato observado (o desenho) para o nível teórico-psicanalítico. Do
ponto de vista da identificação dos traços de desenho propriamente ditos, seu trabalho deixa a desejar
em precisão ― é difícil identificar, por exemplo, o que seria uma Figura humana que expressa movimento
harmônico expandido, carência oral ou, de modo mais simples, tamanho pequeno, ou Figura observando
quieta. Do ponto de vista dos indicadores em si, não apresenta novidades ― o que é vantagem, pois
mostra que o teste, analisado por perspectivas teóricas diferentes, apresenta concordâncias. Isso indica
consistência, e valida o teste como construção científica.
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Nesta pesquisa, decidiu-se trabalhar, como faz Grassano, distinguindo psicose, neurose e
psicopatia. Contudo, a definição dos quadros nosológicos não obedeceu ao seu enfoque teórico, pois já
havia, a respeito do DFH, um conjunto de informações que usa a nomenclatura da psiquiatria clássica.
Portuondo (1973) agrupou em um "ensaio de diagnóstico nosológico" os traços gráficos que
poderiam ser característicos de cada quadro de sintomas (p. 45-58), embora não informasse como os
indicadores foram obtidos ou seu grau de confiabilidade (havia ilustrações para facilitar cotação).
Apresenta 20 diagnósticos nosológicos da psiquiatria clássica, cada um com um número variado de
indicadores a ele associados, a saber: neuróticos (7 i); deprimidos (4 i); ansiosos (2 i); obsessivo-
compulsivos (5 i); histéricos (7 i); inadaptados sociais (5 i); alcoólatras (6 i); psicopatas (6 i); infantis (8 i);
deficientes mentais (9 i); senis (2 i); orgânicos (6 i); agressivos (20 i); dependentes (8 i); com dificuldades
sexuais (31 i); paranoides (7 i); maníacos (7 i); psicóticos (8 i); esquizoides (9 i); esquizofrênicos (20 i).
Algum tempo antes, testamos na UFMG esses indicadores, tendo como amostra casual os alunos
matriculados nas disciplinas de Psicologia da Personalidade. Os resultados brutos por síndrome foram
baixos (quase todos ≤ 4) e os gráficos por síndrome forneceram curvas em jota invertido. Esses resultados
indicaram homogeneidade do grupo, na direção da normalidade, o que seria de se esperar de uma
população universitária. Entretanto, o teste MMPI aplicado ao mesmo grupo, apesar de revelar uma
amostra também normal, foi sensível a um aumento significativo do número de indivíduos na zona de
psicopatologia de cinco escalas, em relação ao que seria de se esperar de uma população normal. Isso se
confirmou pela escala de C – Força do Ego ― do teste 16PF, que identificou em que a média de Força do
ego do grupo se localizou ½ desvio padrão abaixo da média da população universitária e a curva com
assimetria positiva: concentração de resultados na direção de resultados mais baixos em força do ego.
Ainda na mesma pesquisa, tentamos avaliar o poder global de discriminação dos indicadores
psicopatológicos DFH de Portuondo (conjunto de indicadores de Portuondo, eliminados os repetidos). De
uma curva única dos resultados dos universitários extraímos os dois grupos extremos da distribuição. O
grupo PI, Poucos Indicadores, grupo mais livre de problemas, era formado pelos 20% de alunos com menor
número de indicadores psicopatológicos no DFH-Portuondo (n=7) e se situava a 0,88 s de distância da
média. O grupo MI, Muitos Indicadores, grupo supostamente, mais problemático, era formado pelos 20%
de alunos com maior número de indicadores psicopatológicos no DFH-Portuondo (n=7), situava-se a 1,5 s
de distância da média, dada a assimetria da distribuição. Aproveitando a base de dados de que
dispúnhamos sobre o MMPI, decidimos fazer um cruzamento dos dados. Para os dois grupos, o
aparecimento no MMPI de resultados indicadores de "desajuste" foi o seguinte.
Desempenho comparado no MMPI dos grupos extremos A e B do DFH
Universitários de Psicologia, FAFICH-UFMG, 1982
Resultados nas escalas Grupos extremos do DFH Significância pelo teste de
clínicas do MMPI PI (n=7) MI (n=7) Fisher
Resultados T  60 08 20 p  0,001
Resultados T  50 16 03 p = 0,002

O grupo MI mostra 20 elevações nas escalas clínicas do MMPI, enquanto o grupo PI somente 8
elevações em escalas clínicas (a probabilidade estatística de isso ocorrer ao acaso é de menos de 1 em
1000). Na direção da saúde mental, a situação é inversa. O grupo MI mostra somente 3 presenças de níveis
mais baixos do MMPI, enquanto o grupo PI tem 16 presenças de resultados baixos no MMPI (a
probabilidade estatística de isso ocorrer ao acaso é de 2 em 1000).
Como o significado lógico desse fato é que algum fator que não o acaso fez com que os grupos se
mostrassem tão diferentes, inferiu-se que uma lista de indicadores psicopatológicos do DFH poderia ser
potencialmente discriminativa.

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Razoabilidade da pesquisa e direção da mesma. Viu-se também que haveria sentido em se


viabilizar um conjunto de indicadores mais confiável e com maior abono da literatura, para complementar
as análises qualitativas que o teste possibilita. Dessas análises ressaltou que:
1. Há um trabalho científico sobre o DFH, que vem mostrando a possibilidade de trabalhar com dados
de desenho, mas há dificuldades especiais para se operacionalizar a forma de identificar traços
gráficos e de validar os significados a eles atribuídos, dando assim aval científico ao trabalho
clínico.
2. Não tem havido um esforço para se descrever adequadamente cada traço gráfico, e com isso criar
parâmetros de controle das inferências mais impressionísticas.
3. Embora a descrição de personalidade com base no DFH tenha surgido e se desenvolvido num
contexto clínico, a sistematização sobre indicadores psicopatológicos observados empiricamente
é precária e os dados encontram-se dispersos na literatura.
4. A sistematização deles é potencialmente discriminativa para processos psicodiagnósticos e
enriquecedora para a tarefa clínica em Psicologia.
Decidiu-se assim investir numa sistematização mais apurada dos indicadores psicopatológicos
possivelmente presentes no DFH, a partir de uma busca mais extensa na literatura. Optou-se por um
levantamento amplo e sistematizado dos traços descritos, sua incidência, e relação com quadros
psicopatológicos de psicoses, neuroses e psicopatias, em geral, e com outros quadros mais específicos
descritos na literatura. Como resultado prático, teríamos material para um manual técnico sobre o DFH, e
material ilustrativo para ele.
A visita teórica à psiquiatria clássica se deu com o objetivo de especificar as síndromes que seriam
estudadas e conhecê-las melhor. Contudo, a psiquiatria não chegou ainda à etiologia, e tem ainda o
problema da linguagem comum que permita intercâmbio e acúmulo de conhecimentos. Essa "linguagem
comum" começou com o uso do código internacional de doenças, e depois com os DSM da Associação
Psiquiátrica Americana. Em 1983 constituiu-se um grupo, para revisão do DSM-III e melhor especificação
e discriminação das síndromes clínicas. Foi esse o Manual usado para compor a amostra psiquiátrica dessa
pesquisa.
Essas considerações apontam para um problema que atravessa todos os dados acumulados sobre
o DFH, a saber: a literatura clássica, a literatura psicanalítica e a literatura clínica sobre ele não informam
como foi feito o diagnóstico dos sujeitos que compuseram as amostras. Ou seja, quando se diz que
"histéricos" apresentam tais sinais, não se pode ter certeza de que os sujeitos estudados pelo autor
apresentam as mesmas características da "histeria" estudada por Grassano, ou a qual tipo de “histeria” se
está referindo no DSM-III-R. Temos, de um lado, um conjunto de traços gráficos do DFH sobre os quais se
tem algum nível de concordância, que no fundo não sabemos avaliar; no outro temos nomes de síndromes
sobre as quais se tem algum nível de concordância, que não podemos também ao certo avaliar.
Decidimos, pois, trabalhar empiricamente com uma amostra obtida em hospitais psiquiátricos,
tomando como referência os critérios do DSM-III-R, para que os dados de nossa população possam ser
mais facilmente confrontados com dados de pesquisa posteriores. No DSM-III-R, um distúrbio mental é
conceituado como uma síndrome ou padrão que uma pessoa apresenta, de natureza psicológica ou
comportamental, que tem significação clínica (isto é, associa-se a sofrimento ou incapacitação pessoal, ou,
ainda, a um risco aumentado de morte, dor, incapacitação, ou perda de liberdade e sem que esse padrão
possa ser visto como resposta previsível a um evento natural, como a morte de uma pessoa querida). A
noção fundamental é a de disfunção pessoal. Olhamos também as definições do MMPI, sobre o qual já
dispúnhamos de base de dados incipiente.
Psicoses. Não há no DSM da época da pesquisa uma definição estrita para o termo psicose. Mas,
vemos que pertencem a um grande grupo, embora não nomeado, a esquizofrenia, a paranoia e os
distúrbios do humor com sintomas psicóticos. Já no MMPI, a tétrade psicótica era definida pelas escalas

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de paranoia, esquizofrenia, psicastenia e hipomania. Os sintomas psicóticos são aqueles que afetam a
relação da pessoa com a realidade, desorganizando radicalmente seu funcionamento habitual. Esse último
critério foi o critério básico de psicose, e decidimos focalizar a esquizofrenia paranoide e o distúrbio de
humor que mais afeta a relação com a realidade: a fase eufórica do distúrbio bipolar, então denominada
Psicose afetiva em fase maníaca.
Neuroses. O termo neurose foi também abandonado como classificação genérica no DSM-III-R,
para definir mais especificamente as síndromes. As "neuroses" clássicas estão assim, disseminadas em
categorizações e classificações diversas. Suas características compartilhadas são o fato de que não há base
orgânica para o distúrbio; a relação com a realidade permanece íntegra, a personalidade não se
desorganiza, mas o comportamento pode estar bastante afetado, embora dentro de limites aceitáveis
socialmente.
As manifestações principais incluem ansiedade excessiva e/ou fobias, sintomas histéricos (classes
Somatoform Disorders, Dissociative Disorders, e Personality Disorders - cluster B), obsessões e sintomas
compulsivos e sintomas de humor depressivo. Esses sintomas podem mesmo se fixar em traços inflexíveis,
de natureza desadaptativa, que acarretam incapacidade ou queda funcional, e infelicidade subjetiva. No
MMPI, as neuroses são definidas, como conjunto, por uma tríade de escalas, que engloba as escalas de
hipocondria, depressão e histeria. Elegemos, para pesquisar, as neuroses depressivas e histéricas, pela
possibilidade de comparação com o MMPI.
As neuroses depressivas, distimias, pertencem ao espectro depressivo. Um episódio depressivo se
caracteriza por humor depressivo e/ou perda de interesse e prazer em todas ou quase todas as atividades,
por um período mínimo de 15 dias, vivido como mudança em relação a um padrão anterior. Há sintomas
associados: distúrbios do apetite, mudança de peso, do padrão de sono, do padrão psicomotor, baixa de
energia, sentimentos de culpa excessivos ou inapropriados, além de dificuldade de concentração ou
pensamento, e pensamentos de morte ou suicídio. Já a neurose depressiva (distimia) se caracteriza por
um distúrbio crônico do humor que envolve humor depressivo, de duração mínima de dois anos, e que é
acompanhado por alguns dos sintomas descritos acima; mas o processo deve ser crônico, não havendo
interrupção do aparecimento dos sintomas por dois meses. Os limites entre essa neurose e a doença
depressiva são considerados pouco nítidos.
No MMPI, a escala D (Depressão) pretende medir "a profundidade do complexo de sintomas
clínicos conhecido como depressão" (p. 21, Manual). Resultado alto indica "moral baixa de natureza
emocional, com sentimentos de inutilidade e inabilidade para sentir otimismo natural em relação ao
futuro". A propriedade que o MMPI tenta medir tem semelhança geral com o DSM, mas é menos
específica: não é possível distinguir episódio depressivo, de síndrome depressiva, de doença depressiva e
de neurose depressiva. Pela observação clínica acumulada, essa escala se mostra elevada sempre que está
em ação um processo depressivo, de que natureza ou duração for, tenha ou não fatores desencadeantes
externos (como luto, por exemplo). A escala faz parte da tríade neurótica.
A neurose histérica do tipo conversivo, no DSM-III-R, é definida como uma "alteração do
funcionamento físico que sugere doença física, mas que, ao contrário, é aparentemente uma expressão
de um conflito ou necessidade psicológica." Os sintomas não são intencionalmente fabricados pelo sujeito,
fazendo parte do "ganho primário" a pessoa manter o conflito, ou necessidade, fora da consciência. Nesses
casos, há uma associação temporal entre eventos do meio ambiente e a iniciação ou exacerbação do
sintoma. Reconhece-se também que o sintoma tem um valor simbólico e é uma representação e solução
parcial do conflito. A pessoa tem também um "ganho secundário", por evitar uma atividade particular que
é desagradável para ela, e por receber suporte e apoio do ambiente, que de outra forma não seria obtido.
Geralmente, o sintoma aparece subitamente numa situação de estresse psicológico. Em geral, traços de
personalidade histriônica costumam estar presentes. Esses traços incluem um padrão de emocionalidade
excessiva, e de busca de atenção, aprovação, segurança, elogio, com expressão pouco profunda e vazia e

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com emoções expressas de forma intensa e teatral, e atitudes de sedução ― seria a personalidade
histérica de outras descrições.
No MMPI, a escala HY (histeria) faz parte da tríade neurótica e essa tríade se apresenta com a
configuração de um V (o V conversivo). A escala pretende medir a semelhança de pessoas com os
comportamentos, emoções e pensamentos próprios do quadro de histeria de conversão. É considerada
uma escala que não consegue identificar pequeno número de casos, não complicados. O manual do MMPI
acrescenta que as pessoas que apresentam essa escala elevada são imaturas; essa característica de
“imaturidade” corresponde, de modo grosseiro, à característica do DSM-III-R "self-centered" (egocêntrica,
em português), assim descrita: "suas ações se dirigem a obter satisfação imediata e tem pouca tolerância
à frustração ou ao adiamento de gratificações".
Psicopatias. As psicopatias (Antisocial Personality Disorders) se caracterizam por conduta de
irresponsabilidade e comportamento antissocial que começam a se manifestar na criança ou no jovem
adolescente e continuam no adulto. Para esse diagnóstico ser feito, a pessoa deve ter um mínimo de 18
anos de idade. Mentiras, roubos, vandalismos, recorrente fuga de casa, atividade sexual precoce e
promíscua, com uso de força, e crueldade física são sinais típicos da infância e pré-adolescência. Nos
adultos, as condutas antissociais incluem um padrão de conduta irresponsável, como fracasso em honrar
obrigações financeiras, e em assumir funções de responsabilidade, como paternidade, além de
incapacidade de manter comportamento consistente no trabalho ou estudo. Essas pessoas não se
conformam às normas sociais e cometem atos antissociais repetidamente, que acarretam prisão ou
problemas legais de outras ordens. Manifestam também certa imprudência em relação à segurança
pessoal, agressividade aumentada, promiscuidade; finalmente, de modo geral, não apresentam culpa ou
remorso acerca de sua conduta para com outros, podendo mesmo sentir-se justificados com o sofrimento
causado a outros. Uma característica geralmente associada é o uso de drogas.
A escala PD do MMPI (desvio psicopático) mede a semelhança do sujeito com esse tipo de pessoas.
O Manual do MMPI as caracteriza mais psicologicamente, como pessoas "cuja principal dificuldade se
encontra na ausência de respostas emocionais profundas, inabilidade de participar psicologicamente das
experiências a que está sendo submetido e no desrespeito aos costumes sociais" (p.23). Como o Manual
diz que embora essas pessoas sejam potencialmente perigosas, são divertidas e inteligentes, e que não
seriam percebidas como problemáticas se "não fosse usado um instrumento objetivo como esse", a escala
pressupõe que identifica inclusive psicopatia dissimulada, ou não aparente.
Objetivos de pesquisa
(1) Identificar na literatura sobre o DFH traços gráficos que tenham sido considerados indicadores
psicopatológicos por autor(es). (2). Identificar em protocolos de DFH de pacientes psiquiátricos traços
gráficos que pudessem ser considerados indicadores psicopatológicos. (3). Analisar comparativamente os
indicadores psicopatológicos obtidos em pesquisas anteriores, visando sistematização, para posterior
elaboração de material técnico sobre o DFH. (4). Obter casuística ilustrativa para material técnico em
desenvolvimento.
Havia dois outros objetivos, sobre incidência de indicadores psicopatológicos em sujeitos que
apresentassem resultados elevados, na média ou muito baixos no MMPI, bem como outras comparações
previstas com esse teste. Eles foram abandonados, por razões que vamos esclarecer adiante.
Metodologia
Para o objetivo (1), fez-se pesquisa bibliográfica, com procedimento de identificação de cada
indicador psicopatológico, sua descrição e a evidência empírica que lhe dá sustentação. Para o objetivo
(2), foi feito estudo de campo em hospitais psiquiátricos, composto de entrevista clínica e aplicação e
análise de DFHs, seguido de levantamento descritivo dos indicadores obtidos por síndrome. Os objetivos
(3) e (4) foram produtos indiretos da pesquisa, atingidos por análise comparativa e estudos de caso e se
tornaram o material que compõe esses textos e que pode ser lido neste site.

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Variáveis e medida. Indicador psicopatológico, no que se refere à literatura, é o traço gráfico geral
ou específico sobre o qual qualquer autor afirme que está associado a determinado quadro nosológico.
No que se refere ao trabalho de campo, é o traço gráfico que apresentar maior frequência de ocorrência
no grupo psiquiátrico relativamente aos grupos de controle.
Quanto às síndromes nosológicas de neuroses, psicoses e psicopatia, no que se refere à literatura
sobre o DFH, optamos por aceitar a denominação geral ou específica dada pelo autor, independentemente
de possíveis variações terminológicas, ou de inclusão ou exclusão de sintomas particulares em sua
descrição, para não abandonar a literatura acumulada.
No que se refere ao trabalho de campo, as neuroses foram definidas pela neurose depressiva e
histeria. Os critérios operacionais de definição dessas variáveis foram os do DSM-III-R, tanto para as
histerias de conversão dos hospitais psiquiátricos, como para as neuroses depressivas. [Limitação: Todos
os sujeitos que se encaixavam no diagnóstico de neurose depressiva estavam passando por um episódio
de depressão maior, razão pela qual estavam hospitalizados. ] Não tivemos acesso a pessoas que
apresentassem unicamente o diagnóstico de distimia.
Ainda no que se refere ao trabalho de campo, as psicoses foram definidas pelas síndromes
nosológicas de esquizofrenia paranoide e da então denominada psicose afetiva em fase maníaca (distúrbio
bipolar em fase eufórica). Os critérios operacionais de definição foram os do DSM-III-R, tanto para os casos
selecionados de esquizofrenia paranoide como para os de distúrbio bipolar em fase eufórica.
E para a psicopatia, os critérios operacionais de definição foram os do DSM-III-R, para os sujeitos
internos. [Limitação: nos internos, registrou-se o diagnóstico adicional de drogadicção, para todos os
casos.]
Amostra. A amostra de protocolos de sujeitos que apresentavam diagnóstico de neurose, psicose
e psicopatia foi obtida em hospitais psiquiátricos e em uma clínica de recuperação de drogadictos de Belo
Horizonte. Contou-se com o auxílio de médicos psiquiatras que selecionavam o caso com base nos critérios
previamente estabelecidos (DSM-III-R).
A amostra de 20 protocolos DFH de neurose supunha 10 protocolos de neurose depressiva, e 10
de histeria. Por dificuldades ligadas a internações e greves nos hospitais durante o período de pesquisa,
ela foi reduzida a 6 protocolos de sujeitos com diagnóstico de distimias, que estavam passando por
episódio de depressão maior, e 9 protocolos de histeria. Os 20 protocolos de psicose compreendem 10 de
esquizofrenia paranoide e 10 de psicose afetiva em fase eufórica.
Os 20 protocolos de psicopatia foram obtidos numa clínica de recuperação de drogadictos. Foi
adotada essa conduta por ter-se antecipado, teoricamente, a dificuldade de se ter acesso à síndrome
"pura", pois o psicopata é considerado quase sempre um fardo para a família, mas não um doente. Foi
realizada uma entrevista clínica extensiva com os internos, que levantava a história pessoal desde a
infância, para ser cotejada com os indicadores. Os critérios do DSM-III-R para psicopatia, além da idade
mínima de 18 anos e da ocorrência de conduta antissocial, exigem 3 indicadores como evidência de
Distúrbio de Conduta antes da idade de 15 anos e 4 indicadores de um padrão de conduta irresponsável e
antissocial após os 18 anos. Apenas 5 dos sujeitos se encaixavam em todos os critérios. Foram incluídos
na amostra todos os que se encaixavam no critério de idade, de conduta antissocial clara e de padrão de
irresponsabilidade após os 18 anos (com o mínimo de 4 indicadores, como exige o DSM-III-R); todos
apresentavam também pelo menos uma evidência de Distúrbio de Conduta na infância (mas não três). Um
protocolo foi abandonado porque não foi identificado o sexo de cada Figura desenhada. Obteve-se um
conjunto de 19 protocolos.
Para orientar a composição da amostra de controle, fez-se levantamento do sexo, nível
econômico, social, etário, e educacional dos pacientes psiquiátricos, e obteve-se em dois cursos supletivos
de Belo Horizonte uma amostra de 23 protocolos de sujeitos de caracterização aproximadamente
equivalente, em relação a percentuais globais. Usou-se um procedimento combinado de formação de

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amostra aleatória, sendo sorteados sucessivamente sujeitos que eram escolhidos ou abandonados,
conforme se encaixassem ou não nos critérios acima.
Deu-se a maior importância à equalização do nível educacional, pois esse diminuiria a variabilidade
do nível socioeconômico (já indiretamente equalizado através da seleção dos sujeitos em hospitais
públicos e em curso supletivo gratuito noturno), porque o controle das variáveis cognitivas é importante
quando se trabalha com o DFH. Esse foi o único controle cognitivo considerado viável, pois é sabido que
sujeitos em crise e em tratamento medicamentoso, como os do Hospital psiquiátrico, não teriam seu
desempenho cognitivo adequadamente avaliado, e não pertence à nossa cultura a avaliação sistemática
de indivíduos, nas escolas, por QI. Obtivemos 10 protocolos de sujeitos de primeiro grau (7 homens e 3
mulheres) e 13 protocolos de sujeitos de 2º grau.
Para definição da normalidade psiquiátrica dessa amostra de controle, fez-se entrevista sumária,
individual, posteriormente à seleção do sujeito para a amostra, mas previamente à testagem, em que se
perguntava ao sujeito se já havia feito atendimento psicoterápico, psiquiátrico, ou hospitalar-psiquiátrico,
e se já tinha tomado medicação controlada. Nenhum dos indivíduos declarou qualquer dessas situações,
o que atesta ou a normalidade do grupo, ou o receio de autoexposição por parte dos sujeitos, na nossa
cultura, diante do inusitado de uma pesquisa.
É importante esclarecer que a amostra controle teve essa semelhança global em relação ao
conjunto dos sujeitos psiquiátricos, mas não a teve por síndrome. No conjunto, temos 25 protocolos
psiquiátricos masculinos e 30 femininos (45/55%) e a proporção nos controles de 12 masculinos/ 11
femininos (52/48%), ambas as variações inteiramente aceitáveis da proporção 0,50/0,50. Mas as
síndromes psiquiátricas apresentam uma prevalência diferente por sexo. Para distimias, mais comum em
mulheres, os 6 protocolos são femininos. Há também mais protocolos femininos de neurose histérica (7
mulh/3 hom), de distúrbio bipolar (9 mulh/1 homem) e de esquizofrenia paranoide (7 mulh/1 hom). Não
sabemos a causa dessa discrepância de nossos dados em relação à literatura psiquiátrica, e
desconhecemos se se trata de diferença regional, de amostra do hospital público ou um acaso. De
psicopatia, cuja prevalência é muito maior no sexo masculino, obtiveram-se 19 protocolos masculinos e 1
feminino. Essa é uma limitação séria da amostra, porque o trabalho empírico de comparação se tornou
geral, e em relação a grupos heterogêneos, não contribuindo assim para a maximização das variáveis.
Entretanto, tem-se, em contrapartida, a ideia de que, como o processo de seleção foi o aparecimento e
diagnóstico nos hospitais psiquiátricos públicos, por médicos de plantão, essa composição expressa "o que
aparece e como aparece" para atendimento.
A amostra de universitários foi composta de forma casual, por universitários de Psicologia testados
pelo MMPI. Por se tratar de disciplina obrigatória, a amostra é provavelmente representativa do alunado
do curso na época, mas com as especificidades de ser população predominantemente feminina, e jovem.
Foi feito o perfil psicodiagnóstico desses sujeitos pelo MMPI, por síndrome. O Quadro abaixo mostra os
critérios de seleção. O número de protocolos por síndrome varia, pela amostra ser casual.
Depreende-se da leitura do Quadro os motivos pelos quais parte do trabalho previsto foi
abandonado: não houve grupo de perfis altos por síndrome e os protocolos desviantes não formavam
conjunto homogêneo. Fizemos a cotação de todos os DFH do grupo, mas procuramos trabalhar o material
de forma consistente com o restante dos protocolos em estudo. Optamos por não incorporar os
protocolos de DFH de universitários com MMPI elevado às amostras por síndrome que já tínhamos, porque
todos esses sujeitos seriam definidos como "normais", pela entrevista feita com a amostra de supletivo.
Além disso, não se pode comparar um grupo de pacientes de hospital psiquiátrico com um grupo de
pessoas que, embora com um teste indicando potencial para desequilíbrio, se encontra numa vida
produtiva de estudo. Finalmente, não seria adequado comparar universitários com pessoas de supletivo
noturno. Decidimos reservar essa base de dados para estudos posteriores, qualitativos.

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Composição das amostras de universitários


Quadro nosológico N Critérios para inclusão na amostra
(a padronização do teste é por notas T, com média 50 e desvio-padrão 10)
Neurose depressiva* 03 Escalas da tríade neurótica em V invertido, com elevação em Depressão (D), sendo D  66.
As elevações na tétrade psicótica estavam abaixo de 66 (exceto em um dos casos).
Neurose histérica * 02 Presença clara do V conversivo na tríade neurótica, com Hipocondria (HS) e Histeria (HY)
acima de 76 e D  66. Sem elevações na tétrade psicótica, com exceção de Psicastenia, cuja
elevação é compatível com o quadro.
Personalidade histérica 06 Presença clara do V conversivo na tríade neurótica, mas notas T acima de 66 e menores
que 75 nas escalas HS e HY; sem grandes elevações na tétrade psicótica. Um dos protocolos
c/ Desvio psicopático (PD)=72, mas resultado em HY maior.
Traços histéricos 03 Presença do V conversivo, mas Histeria entre T 60 e T 65. Sem elevações na tétrade
psicótica.
Neuroses em geral 14 Sub total dos acima.
Esquizoparanoide* 05 Escala de F (falta de senso comum) alta. Resultados de paranoia (PA) e esquizofrenia (SC)
acima de 65 e somente um protocolo com psicastenia (PT) aumentado. Todos os protocolos
com alguma elevação na tríade neurótica. Dois, c/ resultado de PD 80. Obs.: Um diagnóstico
foi feito clinicamente.
Hipomania elevada 02 Perfil em ponta na escala Hipomania (MA), com nota T 70.
Tendência psicótica 03 Pelo menos duas escalas da tétrade psicótica acima de T 60 e tríade neurótica sem
com baixa de defesas elevação. Dois protocolos com Defensividade baixa (40) e Falta de senso comum
aumentada (60).
Dificuldades psicóticas 10 Subtotal das três últimas categorias.
Protocolo normal 60 Protocolos em que não havia resultados acima de nota T 66 nas escalas clínicas, mas
podendo haver elevação de defesas (K ou L acima de 60) e uma ou outra escala isolada,
entre 60 e 65; escalas clínicas muito baixas eram comuns, com elevação das defesas (perfis
submergidos). Incluem os protocolos elite.
Protocolo elite 13 Entre os protocolos normais, selecionaram-se os protocolos com escalas de validade abaixo
de 55, escalas clínicas de nota 58 ou menos, e a distância entre o maior e o menor resultado
menor do que 20 T. Em suma, os 13 protocolos mais próximos de 50T.

Usamos a amostra de protocolos de DFH de estudantes para auxiliar na identificação de traços


mais comuns e mais raros, para avaliar diferenças entre os indivíduos de curso supletivo e de 3º grau, e
para estabelecer padrões mais relativos e amplos de comparação, pois, em relação aos sujeitos
universitários, dispusemos de um grupo normal de 60 sujeitos. Contudo, após a etapa da identificação dos
indicadores psicopatológicos nos DFH, adicionaram-se à amostra original os 10 protocolos assinalados
acima com asterisco, como protocolos de sujeitos que apresentam dificuldades psicológicas, e, na outra
direção, e adicionaram-se os 13 protocolos denominados de elite às amostras de supletivo. Assim ficou-se
com um grupo de 65 sujeitos que apresentavam dificuldades psicológicas (os psiquiátricos e os acima
assinalados) e um grupo de sujeitos controle, de 36 sujeitos (os 23 de supletivo, mais os 13 de perfil elite).
Estes dois grupos maiores foram utilizados para comparação mais ampla dos indicadores psicopatológicos.
Como foi feito o levantamento de IPs na literatura sobre o DFH
Fizemos uma leitura analítica dos livros e capítulos de livros sobre o teste DFH, além da literatura
mais recente na época sobre o teste a que foi possível ter acesso, com as limitações inerentes à pesquisa
bibliográfica em nosso país (ver bibliografia no Texto 12). Esforçamos por obter a listagem de indicadores
mais abrangente e completa possível. O trabalho consistia em leitura da fonte e extração de cada traço
gráfico descrito, com sua descrição ou definição (se existisse), qual a circunstância psicológica em que
havia sido observado (quadro caracterológico, síndrome, ou situação, como p. ex. desajuste matrimonial)
e "porque" o autor achava que aquele traço se manifestava. Foram desconsiderados os dados relativos a
crianças e adolescentes, pois a classificação teria de levar em conta a evolução do grafismo, o que excedia
o âmbito do projeto. Foram também de início desconsiderados traços muito pouco informativos, muito
literários, ou irrelevantes já à primeira vista.
O arquivamento de informações foi feito em fichas, conforme modelo a seguir.
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Exemplo do modelo de ficha de traço gráfico para organização do arquivo


Título de cada Conteúdo de cada coluna
coluna
1. Código PF1.04
2.Traço gráfico cabeça grande
3. Definição cabeça excessiva ou exagerada em relação ao corpo; cabeça medindo mais de 5 cm; a área da cabeça ocupa
operacional de 60 a 90% da área do tórax
4. Quadro/ deficiência mental; problema cerebral; doenças relativas à cabeça; infantilidade; paranoia; narcisismo;
circunstância pessoa vaidosa; dependência: traços; frustração intelectual, problemas de aprendizagem ou com aspirações
psicológica intelectuais.
5. Expressão (Símbolo de) Supervalorização do cérebro e sua função.
simbólica (Símbolo de) Supervalorização do eu (inflação egoica), com ênfase nas funções social, ideacional e de
controle, e subestima do corpo e suas funções.
6. Frequência “Pesquisa” (n da amostra, probabilidade estatística de ocorrência e de ser traço que discrimine grupos). ou:
Caso clínico ou Afirmação de um autor ou Citação de autor.
7. Fonte Fonte de informação: autor, livro/artigo, data, página.
A primeira linha informava um código, referente à categorização do traço: no exemplo, "PF (partes
da Figura) e 1, (cabeça)." A segunda linha informava o nome do traço, para se poder arquivar dados sobre
um mesmo traço vindo de fontes diferentes. A terceira linha informava as definições operacionais do traço,
registradas na literatura sobre o DFH, para possibilitar discriminação em relação a outros traços
semelhantes. Essa definição podia ser uma forma de medida, ou uma descrição detalhada. Nesse
momento, foi feito o registro nas fichas de todas as definições apresentadas na literatura.
A definição operacional demonstrou ser um dos pontos mais difíceis do trabalho, desde o início,
porque boa parte dos autores somente nomeia o traço gráfico, mas não o define e descreve, ou o descreve
muito mal. Se a definição não possibilitasse cotação precisa, não haveria acordo entre os juízes, e a
fidedignidade estaria comprometida, o que ocorreu na primeira dessas duas pesquisas. Penso que essa é
a maior das falhas das pesquisas com o DFH, e que é responsável pelos resultados aleatórios. O trabalho
com as definições operacionais redirecionou as prioridades de toda a pesquisa e exigiu um trabalho
iterativo de definição, cotações, avaliação de concordância, aprimoramento de definição, até se atingir
uma concordância adequada entre juízes.
A quarta linha foi reservada para indicar em que situações o traço apareceu: as circunstâncias
psicológicas de ocorrência do traço. No exemplo, você pode ler síndromes (como paranoia, ou deficiência
mental) ou quadros caracterológicos (como o de traços de dependência) em que a literatura registrou o
aparecimento da representação do traço "cabeça grande". Mas o mesmo traço apareceu também em
situações de frustração intelectual, de dificuldades de aprendizagem, ou de problemas com aspirações
intelectuais (em itálico), que são circunstâncias psicológicas que envolvem e colocam em evidência a
"cabeça" do sujeito (como representação da parte do corpo que contém o cérebro), a qual recebe, então,
ênfase no desenho. Então as circunstâncias psicológicas que levam à representação do traço podem ser
“estruturais”, duradouras, ou de menor duração.
A quinta linha foi reservada à "expressão simbólica". Sob esse rótulo, registramos as
interpretações possíveis dos traços, dadas pelos diferentes autores. Essa linha aponta para a "razão
psicológica” do aparecimento do traço (por que aquele traço específico, e não outro). O desenho de uma
"cabeça grande" pode ocorrer, porque o traço se torna símbolo do cérebro (caso dos três
quadros/síndromes e das circunstâncias psicológicas mencionadas) e aí o tamanho revela sua importância,
ou porque a cabeça se tornou símbolo do próprio eu (caso da paranoia, do narcisismo, da vaidade). Optou-
se por adotar a terminologia símbolo de, por acharmos que esta se mostra mais conservadora, não
colocando causalidades não observáveis. No próprio exemplo acima registram-se dois dos níveis
simbólicos mencionados anteriormente: o traço como símbolo do corpo vivido e o traço como símbolo do
psiquismo. Esse traço como símbolo de diferenças de gênero também ocorreu, mas foi codificado como
"Tamanho da cabeça de uma Figura maior que a da outra". Observe-se que a infantilidade e a dependência
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podem influenciar na representação desse traço gráfico por enfatizarem o eu, ou pela representação de
uma "proporção corporal" vivida na infância, ou pela manutenção dos modos infantis e não raciocinados
de representação da Figura humana. Na verdade, a interpretação simbólica é sempre uma hipótese sobre
um modo de funcionamento psíquico; optou-se por registrar todos os “símbolos de” que a literatura
registrara. A análise da consistência da interpretação do traço em várias fontes foi também um dos
referenciais usados na etapa de seleção e organização das fichas.
A sexta linha era reservada à "frequência" com que o traço foi observado, como meio de pesar a
evidência. Mas a informação de pesquisa não era suficientemente detalhada. Optamos então por assinalar
de modo qualitativo a força da evidência. Passamos então a registrar se a informação sobre o traço (com
base no nome do traço, ou em pequenas descrições) era derivada de pesquisa, se era uma simples
afirmação do autor, um exemplo clínico, ou uma citação ou referência mencionada. A última linha
registrava a fonte.
Foram preenchidas cerca de 2600 fichas, inicialmente, de forma manual. Por um acidente técnico-
operacional e problemas de manuseio das fichas pelos então técnicos do Setor de Informática da FAFICH,
perdeu-se parte do arquivo; calcula-se que se tenha perdido cerca de 1/4 do material bruto de informação
de que se dispunha inicialmente. Refazer o trabalho era impossível...
Posteriormente, analisamos cada ficha, visando reduzir o número de fichas, agrupando-as por
identidade ou semelhança. Eliminamos as que nos pareceram irrelevantes ou inconsistentes, como
"queixo fugidio" ou "boca cheia" (com comida dentro? Com área dos lábios recoberta ou gorda?) Outros
critérios foram inconsistência entre expressão simbólica e circunstância/quadro psicológico, ou relevância
somente para crianças. Foram eliminadas 142 fichas.
Ilustração do procedimento de agrupamento de traços
Traços agrupados Nome final do traço Razão do agrupamento
"Cabeça mais bem desenhada que o resto" e Cabeça com traçado bem feito em O segundo traço tinha mesmo
"cabeça com muita ênfase em contraste com comparação com corpo esquematizado. sentido, mas englobava
corpo vago e esquematizado" (Esclarece-se a natureza da "ênfase") logicamente o primeiro.
"Rosto com contorno reforçado" e "contorno Cabeça com contorno reforçado. Mesma definição operacional.
da cabeça reforçado".
"Mãos em garra" e "mãos em garfo" Mãos em garfo. Mesma definição operacional.
"Pernas em sinal de movimento" e Movimento de caminhar. Mesma definição operacional.
"movimento de caminhar"
"Rosto de perfil" e "Figura em perfil parcial Figura de frente com cabeça em outras O segundo traço engloba
com cabeça para a esquerda ou direita" direções. logicamente o primeiro.
"Linhas repetitivas" e "linhas com avanços e Linhas em avanços e recuos. O segundo nome é mais claro.
recuos"
"Guerreiro ou soldado" e "guarda" e Figuras combativas. São exemplares de um mesmo
"boxeador" e "gladiador" e "caçador" conceito.
O agrupamento ocorreu sempre em que se verificava compatibilidade de definição operacional
(ou, na falta dela, do nome dado ao traço), quadro/circunstância psicológica, e expressão simbólica. O
procedimento envolveu seleção dos traços a serem agrupados e avaliação da compatibilidade do
agrupamento por três juízes, sem que houvesse prejuízo da informação. O nome finalmente dado ao traço
era eleito de forma a englobar os aspectos mais representativos do que havia nas descrições, sendo a
expressão retirada incorporada à definição operacional. Em seguida, passamos a agrupar os traços em
categorias logicamente organizadas, que facilitassem a manipulação do material e a análise do teste. Ao
final dessa etapa, para uso no processo de cotação dos traços, chegamos ao Quadro de Definições de
Traços mencionado na página seguinte. São 859 códigos diferentes, relativos a traços gráficos, para os
quais se tinha definição ou descrição, uma descrição do quadro/ circunstância psicológica em que ocorria
e/ou uma interpretação de seu significado simbólico.
A classe Partes da Figura engloba as categorias relativas às várias partes do corpo, mais as relativas
a vestuário e detalhes da Figura. A classe Apresentação da Figura engloba categorias mais gerais de tema,
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movimento, tamanho, etc., cuja simbólica se refere a aspectos mais globais de autocolocação do sujeito
no ambiente. A classe Estrutura da composição e da Figura refere-se a aspectos básicos de esquema
corporal e representação da Figura humana pelo desenho, que têm sido associados à organização
estrutural da personalidade do sujeito. A classe Tratamento diferencial entre as Figuras envolve a
comparação das diferenças de representação das Figuras dos dois sexos/gêneros, associada à
representação das relações do sujeito com o outro sexo/gênero e, por extensão, com o Outro psicológico.
As características de Traçado e estilo referem-se à expressão psicomotora e aos padrões de
comportamento observados ao longo do teste.
Definições de Traços para Cotação do DFH
Categoria Nº de Categoria Nº de
Traços Traços
PARTES DA FIGURA APRESENTAÇÃO DA FIGURA
Cabeça 24 Tema da Figura 25
Rosto e traços faciais 18 Movimento expresso 16
Olhos 28 Postura 16
Nariz 19 Tamanho da Figura 13
Boca e lábios 24 Expressão da Figura 25
Queixo 05 Localização da Figura na folha 11
Cabelo 26 Ambientação da Figura (fundo) 15
Orelha 05
Outros pelos do rosto 13 ESTRUTURA (da composição e Figura)
Pescoço 12 Sucessão ao desenhar 13
Tronco 22 Simetria do desenho 08
Seios 11 Perspectiva básica 06
Cintura 07 Perspectiva por sombreamento 06
Quadris e nádegas 06 Esquema corporal e detalhes 23
Genitais ou área genital 06
Indicações anatômicas 16 TRATAMENTO DIFERENCIAL ENTRE AS
(externas e internas) FIGURAS
Ombros 10 Semelhança e diferenciação geral 10
Braços 26 Diferenças específicas entre as fig. 46
Mãos 23 Semelhanças específicas 05
Dedos das mãos 22 Adeq. de caracteres secundários 10
Pernas 27 Valorização relativa das Figuras 15
Pés 23 Relações projetadas 21
Articulações 07
Roupa em geral 14 CAR. DE TRAÇADO E ESTILO
Vestido 04 Traçado em geral 12
Blusas e/ou camisas 07 Pressão 06
Paletó ou jaqueta 05 Amplitude das linhas 03
Calças 11 Espessura das linhas 03
Saia 11 Forma das linhas do desenho 07
Peças adicionais de vestuário 19 Tipo e modo de fazer as linhas 13
Calçado 07 Correções e retoques 09
Detalhes: botões 11 Estilo de ação (reações ao teste) 26
Detalhes: bolsos 05
Acessórios 21

O problema da concordância entre juízes e a elaboração de definições operacionais


Nas primeiras cotações, o índice de concordância de cotação, por teste, era de ± 35%, quando se
levavam em conta as discordâncias e omissões de dois juízes que usavam as descrições e definições do
Quadro. Discordâncias eram situações em que os dois juízes assinalavam traços divergentes e
mutuamente exclusivos dentro de uma categoria; e.g., na categoria "olhos", um assinalava olhos pequenos
e outro, olhos: representação modal. Omissões eram situações em que um avaliador assinalava um código,

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que se aplicava ao desenho, e o outro não o assinalava. Uma concordância da ordem de 35% é
inteiramente insuficiente, para fins clínicos ou de pesquisa. Decidimos então usar somente os códigos
concordantes; mas eram óbvios (e.g., “presença de cabeça”, “presença de mãos”). Certamente não
levariam a resultados significativos. Realmente, o DFH não era confiável – depois de 2 anos, nada!
Redirecionamento da pesquisa. Entretanto, pensei que a fidedignidade do DFH comprometia
qualquer pretensão de validade. Tinha um material muito rico dos hospitais, “apostava” no que percebia
clinicamente nos desenhos: abandonando o DFH, estaria jogando fora o bebê junto com a água suja do
banho? Pensei que era necessário um trabalho sistemático em torno das definições dos traços, o que não
tinha ocorrido nas pesquisas relatadas! Decidi investir mais tempo e esforço nesse trabalho, por todas as
razões mencionadas anteriormente sobre os problemas de fidedignidade e validade do DFH. Isso só foi
possível porque contei com a ajuda generosa, gratuita e sistemática de uma equipe de universitários de
Psicologia durante um ano e meio.
Os estagiários de pesquisa cotavam testes, comparavam suas cotações, e viam o que, na definição
ou no nome dado ao traço, havia ocasionado a discordância. Avaliavam também se tinha havido falha de
atenção de algum deles. Os problemas com os nomes ou com as definições eram discutidos comigo
(Coordenadora), em reuniões semanais, analisando-se as críticas e sugestões de modificações. Essas eram
então incorporadas às definições, que eram novamente usadas em cotações pela equipe de estagiários,
até que se eliminasse a dúvida ou erro.
Um exemplo de descrição e definição de traços dará noção da dificuldade de cotação e análise de
um teste gráfico. Tomemos o traço cabeça grande. A avaliação do traço cabeça grande supõe que cada
analista diferencie uma cabeça de tamanho normal, do que seria uma cabeça grande, ou cabeça muito
grande. A primeira definição que coletamos na literatura usava a palavra “excessiva”, em si pouco
clarificadora; a segunda dava um valor absoluto (“maior do que 5 cm”), independentemente do tamanho
da Figura desenhada! A terceira era baseada em proporção. Qual a melhor definição? Elas não são
equivalentes, e levam a cotações diferentes.
Na equipe, todos pareciam ter uma noção do que seria uma “cabeça proporcional” ao corpo — o
que fazia supor que haveria consistência de cotação. Entretanto, os juízes avaliavam diferentemente, e
um mesmo juiz era influenciado por características de cada desenho, ou do contexto de avaliação. Por
exemplo, se o juiz havia avaliado um desenho em que a Figura humana era muito grande (e por
consequência com uma cabeça “grande”) e, em seguida, se defrontava com um desenho de tamanho
pequeno cuja Figura apresentava cabeça muito grande, ele tendia a não identificar esse traço como tal,
talvez por uma comparação, implícita, com o tamanho da cabeça que havia examinado logo antes.
Além disso, uma cabeça deveria ser considerada "grande", quando se afastava do padrão
“intuitivo” de uma cabeça proporcional? Ou quando se afastava do padrão ideal de tamanho de uma
cabeça? Ou, quando se afastava do tamanho mais frequente, modal, desenhado pelas pessoas da amostra
à qual pertencia o protocolo? Esses padrões não coincidem.
Há também a considerar a proporção vertical e a horizontal. Há desenhos em que o tamanho
excessivo da cabeça é dado pela sua desproporção na horizontal e não na vertical. Os padrões ideais sobre
proporção da Figura humana indicam que a cabeça deve representar ± 1/7 da altura total do corpo, na
pessoa de pé, e a largura da cabeça deve representar ± ½ da largura do tórax da pessoa. A proporção
vertical média obtida foi de ± 1/5, dada pela relação altura da cabeça/altura do corpo como um todo, tanto
na amostra de curso supletivo noturno como na de universitários. Entretanto, a largura das cabeças de
orelha a orelha desenhadas pelos sujeitos universitários era de cerca de ½ da largura do tórax em média,
como o previsto. Mas a largura da cabeça, nos desenhos de sujeitos de menor instrução, era muito maior,
o que tornava o desenho desproporcional.
Foi necessário definir até o que era "cabeça"! A indefinição do que é "cabeça" levava o avaliador
a definir como "cabeça muito grande" uma cabeça com área de cabelo muito grande. E isso seria
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inadequado do ponto de vista teórico, porque o significado simbólico de cabeça é um, e o de cabelos é
outro, muito diferente.
Por processo iterativo, as definições dos traços foram redigidas pela equipe, para quase todos os
traços, adotando-se os seguintes critérios: a) ser o mais fiel possível à literatura; b) onde havia descrições
diferentes, mas comparáveis, colocar as várias descrições, para definir melhor o sentido do traço; c)
descrever cada traço de modo que este pudesse ser identificado por seus atributos, independentemente
de visualização intuitiva.
Como exemplo, continuando com o exemplo da cabeça grande, veja-se como foi resolvido o
problema de avaliar os vários tamanhos de cabeça. Isso tem significado teórico. A literatura registra que
crianças apresentam o traço cabeça grande como norma. Além disso, sabe-se que há um fator de
maturidade cognitiva permeando o desempenho no DFH, para além dos significados simbólicos
mencionados anteriormente. Assim, o traço do tamanho da cabeça, como talvez outros ligados à ideia de
proporção, seja, em especial, influenciado por processos cognitivos e acesso à instrução, e isso deve ser
levado em conta. De qualquer forma, essas considerações levaram, no nosso trabalho, à distinção de um
traço que foi definido como cabeça grande, que é frequente, e outro, definido como cabeça
desproporcionalmente grande, mais incomum nas amostras trabalhadas.
Aqui acessamos o problema da popularidade ou da infrequência do traço, que termina por ser
ligado ao significado clínico. Se um traço gráfico é popular, não haveria como atribuir significado clínico
especial a ele (todos os sujeitos seriam englobados). Contudo, desenhar uma cabeça grande demais
remete a uma valorização especial da cabeça por parte do sujeito, por algum motivo particular de sua
personalidade ou história — e, nesse caso, temos de identificar o porquê dessa valorização. Essas
considerações levaram a um trabalho de levantamento dos tamanhos de cabeça nas amostras de controle,
medidos de várias formas, para se estudar a melhor forma de definir os traços relativos ao “tamanho da
cabeça”, e também a popularidade de cada um deles. Terminamos por escolher a proporção "área
ocupada pela cabeça"/"área ocupada pelo tórax" como a mais adequada para a classificação desse traço.
Essa proporção foi dada na pesquisa pela fórmula "altura da cabeça ÷ altura do ombro à cintura" x “largura
da cabeça ÷ largura do tórax". Buscou-se depois definir de forma mais rápida e visual essa proporção,
como proporção da área da cabeça em relação à área do tórax, ou, de forma mais simples, "número de
cabeças que podem ser visualizadas dentro da área do tórax".
As vantagens dessa última forma de definição do traço são muitas. Trata-se de uma comparação
de área com área, e próximas uma da outra no desenho; portanto, facilmente identificáveis com o olhar.
Segundo, é uma proporção que contempla tanto a dimensão altura, quanto a dimensão largura da cabeça,
captando os dois tipos de desproporção mais frequentes. A medida somente na vertical deixava de fora
muitos desenhos que eram desproporcionais à primeira vista; com essa forma de medida isso não ocorria.
Terceiro, a proporção em relação ao tronco como um todo era prejudicada nos desenhos que não tinham
fechamento do tronco, ou nos desenhos com saias ou vestidos, onde o analista teria de imaginar por si
onde estava o "final" do tronco; mas quase todos os desenhos têm uma indicação de cintura. Finalmente,
a proporção em relação à área total da Figura envolvia o problema da posição de braços e pernas.
Uma vez escolhida a forma de descrição do traço, fizemos um levantamento da popularidade da
proporção nas amostras de controle, do supletivo noturno, e de universitários. Viu-se que a proporção
mediana se situa em 0,50 — 0,55 da cabeça em relação ao tronco. A proporção artística, “ideal” é de 0,20,
que é relativamente rara. Contudo, pensamos que não poderíamos definir como cabeça pequena aquela
que apresentasse o padrão ideal de proporção; assim, definimos como critério para cabeça pequena a
área de cabeça menor que 20% da área do tórax, e como cabeça de tamanho adequado as que iam de
0,20 a 0,59. A cabeça grande — de 0,60 a 0,90 da área do tórax — é considerada, nessa pesquisa, normal
para sujeitos de primeiro grau, por ser o tamanho modal, e é muito frequente também nos mais
escolarizados; logo, não pode ter significado clínico. A cabeça desproporcionalmente grande foi definida

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como “a que é maior que a área do tórax”. Essas definições levaram em conta os critérios intuitivo, modal
segundo a escolaridade e o ideal.
O procedimento de se levar em conta o critério ideal foi abandonado posteriormente, em função
dos protocolos obtidos em hospitais.
As definições conseguidas com tanto trabalho, do ponto científico, representam apenas uma
aproximação, a ser trabalhada depois por outros pesquisadores, pois não tivemos uma amostra aleatória,
de tamanho grande, com normalidade psicológica atestada por critérios claros. Além disso, os pontos de
limite foram estabelecidos com base somente em distribuição de frequência, e não por critérios
estatísticos rígidos, que teriam sido usados numa aproximação normativa geral para o DFH.
Com esse processo iterativo de aperfeiçoamento, conseguiu-se um Quadro de 859 Definições que
foi considerado suficiente para esta pesquisa, e que consideramos (mesmo hoje, em 2013) como uma
contribuição significativa para a pesquisa e para o trabalho clínico com os desenhos de Figura humana,
como prática expressiva (mesmo que sem status de teste). A listagem exaustiva do Quadro permite o
controle da influência de traços mais proeminentes de personalidade (ou de características marcantes do
avaliador) na identificação dos traços. Por exemplo, há tendência dos avaliadores com personalidades
agressivas a ver nos testes mais indicadores de agressividade, ou tendência dos sexualmente tipificados
de atentar somente aos indicadores de (in)diferenciação sexual nos protocolos.
Para fins desta pesquisa, as discordâncias e omissões remanescentes foram revistas por mim e
discutidas em reunião, até se chegar a consenso. As definições feitas estão no Texto 5 da Coletânea, que
contém um Atlas para identificação dos traços específicos do desenho de figura humana. Um segundo
Atlas, no Texto 6 desta Coletânea, também neste site, apresenta os significados simbólicos que têm sido
associados a características gerais dos desenhos.
Ao fim do trabalho de redefinição, e de treinamento sistemático com 10 testes, conseguiu-se um
acordo entre juízes entre 0,90 e 0,95 se se consideram somente as discordâncias, e uma concordância
global em torno de 0,85 para cada par de juízes (com 5 membros de equipe), quando se consideram
também as omissões. Essa concordância é considerada muito boa, principalmente porque, como a
listagem de traços é exaustiva, cada desenho recebe de 45 a 55 cotações diferentes.
Resultados obtidos na pesquisa empírica
O Atlas de Definições já continha a informação sobre psicopatologia ligada a cada indicador, pela
Literatura. Os resultados apresentam, em relação às amostras estudadas: (a) os traços considerados
indicadores mais confiáveis, em relação a cada quadro nosológico; e (b) informação sobre a concordância
ou discordância entre os dados obtidos nos hospitais psiquiátricos e a literatura revisada.
Em relação aos traços mais confiáveis como indicadores psicopatológicos, fez-se comparação da
frequência proporcional de cada traço nos desenhos de pessoas que apresentavam determinado quadro
psicopatológico e nos desenhos das pessoas do grupo de controle, do supletivo. Se, à primeira vista, as
proporções divergissem, fizemos testes de hipótese para maior precisão.
O grupo de universitários, testados pelo MMPI, serviu como referência adicional. Fez-se
observação de seus resultados, para levantar hipóteses adicionais, a serem posteriormente trabalhadas.
Por exemplo, o traço PF5.01 -- Boca enfatizada -- mostrou-se frequente no grupo de protocolos de
psicopatias, numa proporção estatisticamente significativa; entretanto, é também frequente no grupo de
moças universitárias, quase na mesma proporção. Isso nos fez ir aos protocolos para analisar as diferenças
de “ênfase” e fazer a análise comparativa somente em relação aos homens da amostra de controle, pois
95% dos protocolos de psicopatia eram de homens (19/1).
Para análise dos resultados obtidos, como se tratava de nível de medida nominal e de duas
amostras independentes, usou-se o teste de χ2 para duas amostras independentes com df=1; se uma das
caselas apresentava frequência menor do que 5, usou-se o teste de probabilidades exatas de Fisher para
duas amostras independentes (Siegel, 1956). Tivemos amostras pequenas e usamos testes estatísticos

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para amostras pequenas. Entretanto, o objetivo era incentivar pesquisas posteriores com desenhos da
Figura humana e com expressões gráficas; por isso, usamos de procedimento para potencializar a
informação contida nos dados. Além das diferenças estatisticamente significativas, ao nível 0,05 ou 0,01
(pelo χ2 ou Fisher), adicionei informação sobre tendência, com rótulo MT -- marcada tendência – se a
probabilidade de ocorrência era maior do que 0,05 mas menor do que 0,10. E tendência (T), no caso de a
probabilidade de ocorrência situar-se entre 0,10 e 0,20.
Em relação ao segundo tópico ― informação sobre a concordância ou discordância entre os dados
obtidos nos hospitais psiquiátricos e a literatura revisada ―, optou-se pelo tratamento descritivo e sem
quantificação dos dados, porque parte da literatura sobre o DFH menciona casos clínicos e, nesse sentido,
cada DFH pode ser considerado um caso clínico. Para tal, como na ocasião da revisão da literatura
anotamos as psicopatologias associadas a cada traço, nos traços levantados nessa pesquisa verificamos se
havia concordância com o que a literatura havia registrado.
A tabela a seguir contém os dados relativos a cada traço sobre o qual se identificou algum
potencial como indicador psicopatológico. A coluna 1 menciona o nome do traço, antecedido do seu
código no Quadro de Definições do Atlas. As letras PF significam partes da Figura, as letras AP,
apresentação da Figura, as letras ES, estrutura da composição e da Figura, as letras TD, tratamento
diferencial entre as Figuras, e as letras TE, traçado e estilo. Um asterisco indica significância de 0,05 e dois
asteriscos, significância de 0,01. A coluna 2 informa sobre as proporções de presença do traço no grupo
de controle; a coluna 3 informa as proporções de presença do traço nos grupos psiquiátricos. A coluna 4
informa o Quadro clínico a que se referem as proporções. A coluna 5 informa o nível de significância
estatística em que se baseou a afirmação sobre a diferença entre o grupo controle e o psiquiátrico, e dá
outras informações consideradas relevantes. A última coluna informa se esta associação traço-
psicopatologia já havia sido registrada na literatura que revisamos (sim) ou não havia sido registrada (não).

Indicadores psicopatológicos identificados no DFH


Nome do Traço Proporção Proporção Quadro Associação entre A Literatura
no grupo no grupo Caracterológico traço e quadro registra a
controle psicopato- caracterológico associação?:
lógico Sim ou não
PF --Partes da Figura 0,00 0,16 Psicopatia MT Não
PF1.01.Cabeça somente 0,20 Psicose em geral MT Sim
PF1.02.Cabeça de tamanho Normal. 0,26 0,47 Psicopatia N. S. Não
Obs: Comparar com traço seguinte! Tamanho 0,50 Psicose Afetiva: mania
“normal” corresponde a menos controle?
PF1.04.Cabeça de tamanho grande* 0,57 0,05 Psicopatia p = 0,05 : traço Não
Obs.: Cabeça grande: frequente no grupo 0,20 Psicose Afetiva: mania raro no grupo
normal. Tamanho grande indica presença de psicopatológico
controle?
PF1.05.03 Cabeça de tamanhoº grande com 0,00 0,66 Depressão p = 0,00063 Não
membros pequenos**
PF1.07 Cabeça bem-feita e corpo esquematizado 0,00 0,11 Psicopatia T Sim
PF1.14 Cabeça com forma geométrica 0,00 0,11 Psicopatia T p = 0,198 Sim
PF2.04 Traços faciais sombreados 0,00 0,11 Psicopatia T p = 0,198 Não. Liter. indica
dissociação
PF2.08.01 Rosto com expressão ameaçadora 0,04 0,16 Psicopatia T Não
PF2.08.05 Rosto com expressão dura 0,00 0,16 Psicopatia MT p = 0,08 Não. Lit. indica
obsessividade
PF2.08.06 Rosto com expressão vaga* 0,26 0,83 Depressão p = 0,019 Não. Lit. indica
0,60 Psicose afetiva: mania T obsessividade e
0,50 Esquizofrenia Paranoide N.S. esquizoidia
PF3.05 Olhos pouco detalhados 0,39 0,83 Depressão T. Não. Lit. indica
Foram colocadas as proporções todas em 0,80 Psicose afetiva: mania MT defesas de
relação a este traço. Observar a ordem 0,67 Histeria N.S.

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decrescente da presença de olhos pouco [Amostras] evasão, negação


detalhados. 0,50 Supletivo 1º grau e repressão
Observar também a diferença entre 0,31 Supletivo 2º grau
universitários e universitários com MMPI elite. 0,21 Universitários normais
“Olhos mais bem detalhados” seria um traço 0,07 Universitários Gr. “elite”
ligado a maior elaboração pessoal?
Continuação: Nome do Traço Proporção Proporção Quadro Associação entre A Literatura
no grupo no grupo Caracterológico traço e quadro registra a
controle psicopato- caracterológico associação?:
lógico Sim ou não
PF3.07 Olhos vazios * 0,22 0,83 Depressão p = 0,0117 Não. Lit. indica
várias patologias
PF3.09 Olhos representados por ponto 0,04 0,33 Histeria MT p = 0,07 Não. Lit. indica
esquizofrenia
PF4.10 Nariz em um só traço** 0,00 0,44 Histeria p = 0,0035 Não
PF 4.04 Nariz pequeno 0,13 0,55 Obs.: Frequente em Não. Lit. indica
moças universitárias infantilidade
PF5.01 Boca enfatizada* 0,22 0,53 Psicopatia (em des. Nível 0,02. Sim. Lit. indica
feitos por homens) adição e
0,48 Obs.: Frequente em dependência.
moças universitárias
PF8.01 Cabelo enfatizado 0,13 0,37 Psicopatia T Não. Lit. indica
narcisismo
PF8.02 Cabelos enfatizados por sombreamento* 0,22 0,63 Psicopatia p = 0,02 Não. Lit. indica
defesas de identi-
0,48 Obs.: Frequente em ficação projetiva
moças universitárias anal-expulsiva
PF8.06 Cabelo desordenado* 0,22 0,63 Psicopatia p = 0,02 Sim
PF8.09 Cabelo omitido* 0,00 0,30 Esquizofrenia paranoide p = 0, 022 Não
0,40 Psicoses p = 0, 039
PF8.10 Cabelo ralo** 0,08 0,83 Depressão p = 0,002 Sim
0,45 Psicoses Sign. a 0,05
PF8.11 Cabelos destacados da cabeça 0,35 0,66 Depressão T. Sim, + outras
PF9.08 Pelos do rosto desordenados* 0,00 0,21 Psicopatia p = 0,034 Não
PF9.12 Sobrancelhas peludas e grossas 0,00 0,16 Psicopatia MT Não
PF10.08 Pescoço fechado* 0,00 0,33 Histeria p = 0,0169 Sim
PF11.14 Tronco anguloso 0,22 0,60 Psicose afetiva (man.) MT Não
Obs.: Frequente em quadros psicopatológicos e 0,56 Histeria T
em universitárias: há diferenças nestes troncos? 0,48 NS

PF11.16 Tronco enfatizado por músculos 0,04 0,16 Psicopatia T Não


PF12.07 Seios enfatizados na Figura feminina 0,00 0,32 Psicopatia p = 0,0052 Não. Lit. indica
desenhada por homens**. dependência
PF13.04 Cintura com traço sombreado, 0,08 0,37 Psicopatia P = 0,03 Não
reforçado ou interrompido*
0,44 Histeria MT p = 0,053
PF17.06 Ombros ausentes 0,17 0,50 Esquiz. paran. T. Para Não
universit.,
signif. a 0,05
PF 17.07 Ombros geométricos 0,13 0,50 Psicose afetiva (man.) MT Não (def ment.)
PF20.01 Mãos omitidas* 0,04 0,16 Psicopatia T Não
0,66 Depressão p = 0,0290 Sim
PF20.04 Mãos escurecidas 0,04 0,21 Psicopatia T Não
(Histeria)
PF 21.01 Dedos sem mãos* 0,17 0,66 Depressão Sign. a 0,05 Não
PF21.07 Mais de cinco dedos 0,00 0,20 Esquizofrenia paranoide MT Sim
PF21.10 Dedos delineados vagamente 0,08 0,50 Depressão MT Não
PF21.12 Polegar ou indicador c/ traçado 0,08 0,37 Psicopatia Nível 0,05 Não
especial*
PF21.14 Dedos deformados ou rígidos* 0,00 0,30 Esquizofrenia paranoide Nível 0,05 Não
PF21.16 Dedos em lança*ou garra 0,04 0,30 Esquizofrenia paranoide MT Sim
PF22.03 Pernas esquematizadas 0,00 0,20 Psicose afetiva MT Não
(Vários)
PF22.05 Pernas desproporcionais* 0,0 0,30 Esquizofrenia paranoide Nível 0,05 Não

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Continuação: Nome do Traço Proporção Proporção Quadro Associação entre A Literatura


no grupo no grupo Caracterológico traço e quadro registra a
controle psicopato- caracterológico associação?:
lógico Sim ou Não
PF22.08 Pernas longas e finas 0,00 0,20 Histeria MT Não
011 Psicopatia T
PF22.12 Pernas mal colocadas 0,35 0,66 Depressão T Não
PF22.14 Pernas com sombreamento ou reforço* 0,04 0,26 Psicopatia Nível 0,05 Não
PF23.01 Pés omitidos 0,00 0,20 Psicose afetiva MT Não
(Esquizofrenia)
PF23.08 Pés borrados ou distorcidos* 0,08 0,66 Depressão Nível 0,05 Não
PF23.10 Pés malparados * 0,08 0,83 Depressão Nível 0,01 Não
Obs. Comparar desenhos pois é frequente em 0,40 Histeria MT Sim
universitárias 0,40 Esquizofrenia paranoide T Sim
PF23.18 Pés com calcanhares acentuados. 0,04 0,16 Psicopatia T Não
PF25.01 Poucas indicações de roupa 0,26 0,66 Depressão MT Não
(PP)
PF25.06 Roupa sombreada. 0,08 0,33 Histeria T Não
PF29.06 Calças c/ sombreamento 0,04 0,16 Psicopatia T Não
PF29.01 Calças enfatizadas ou com ênfase na 0,04 0,26 Psicopatia T Não
braguilha
PF30.02 Saia ampla 0,13 0,83 Depressão Nível 0,01 Não
0,56 Histeria Nível 0,05 Sim
PF32.06 Sapatos com forma de pênis 0,00 1,00 Histeria (para homem) Nível 0,01 Não
0,40 Esquizofrenia paranoide Nível 0,05
(somente para mulheres)
AP Apresentação
-AP 1.00 Figura humana 1,00 0,65 Psicoses Obs.: Sentido
0,50 Esquizofrenia paranoide contrário!
0,50 Depressão P  0,003.
0,48 Psicopatia
AP 1.23 Perfil 0,00 0,16 Psicopatia MT Não
AP2.05 Figura em posição de ação 0,00 0,16 Psicopatia MT Não
AP3.01 Figura inclinada 0,13 0,44 Histeria T Não (Várias.)
AP3.13 Figura com cabeça em outras direções 0,00 0,16 Psicopatia T Não
(Histeria)
AP4.02 e 4.03 Figura grande ou muito grande**. 0,00 0,40 Esquizofrenia paranoide p = 0,005 Sim
0,33 Histeria p = 0,02 Não
(estatíst. não
válidas p/
universitários)
AP4.10 Figura pequena no alto da página 0,00 0,40 Psicose afetiva (mania) p = 0,005 Não (Várias)
0,21 Psicopatia T
AP4.11 Figura pequena com traços simples e 0,00 0,50 Depressão Nível 0,01 Não
falta de proporção 0,40 Psicose afetiva (mania) Nível 0,01 (Esquizofrenia)
AP5.02 Figura inexpressiva* 0,13 0,66 Depressão Nível 0,05 Sim
0,40 Psicose afetiva (mania) T Não
AP5.03 Figura com debilidade dos traços de 0,08 1,00 Depressão Nível 0,01 Sim
contato 0,50 Psicose afetiva (mania) Nível 0,05 Sim
0,44 Histeria MT Sim
AP5.04 Figura com aspecto ameaçador 0,04 0,16 Psicopatia MT Não
-AP5.13 Figura com aspecto dócil* 0,30 0,00 Psicopatia Nível 0,05 Não
Esquizofrenia paranoide T
Obs.: sentido
contrário!
AP5.21 e 5.22 Figuras tristes ou fracas * 0,00 0,83 Depressão Nível 0,01 Sim
AP5.23 Figuras bizarras* 0,00 0,50 Esquizofrenia paranoide Nível 0,01 Sim
AP5.25 Figura pouco humanizada* 0,08 0,50 Psicose afetiva (man.) Nível 0,05. Não
0,50 Esquizofrenia paranoide Sim
AP6.05 Figura na metade inferior 0,00 0,20 Esquizofrenia paranoide MT Não
AP6.10 Figura no quadrante inferior esquerdo** 0,00 0,50 Depressão Nível 0,01 Não
AP 7.08 Desenho de grafismos junto à figura 0,00 0,20 Psicose afetiva (mania) MT Sim
Estrutura
ES1.02 Sucessão desordenada* 0,00 0,30 Esquizofrenia paranoide Nível 0,05 Sim

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ES2.02 Simetria confusa* 0,08 0,40 Depressão Nível 0,05 Sim


0,37 Psicopatia Nível 0,05 Não
0,30 Psicose afetiva (mania) T Sim
0,30 Esquizofrenia paranoide T Sim
ES3.03 Perspectiva confusa * 0,17 0,53 Psicopatia Nível 0,05 Sim
0,50 Psicose afetiva T Sim
0,50 Esquizofrenia paranoide T Sim
ES4.03 Presença de sombreamento vigoroso 0,08 0,26 Psicopatia T Sim
ES5.00 Des. com gestalt preservada e aparência 0,08 0,33 Histeria T. Obs: categ. Não
harmoniosa pensada como
"ideal"!
ES5.05 Desenho com detalhes pobres** 0,13 0,83 Depressão Nível 0,01 Sim
0,44 Histeria T Sim
0,40 Psicose afetiva T Não
ES5.11 Desenho com desproporções grosseiras* 0,26 0,83 Depressão Nível 0,05 Não
0,60 Esquizofrenia paranoide T Sim
ES5.13 Desenho de figura parcial * 0,00 0,21 Psicopatia Nível 0,05 Não

Tratamento diferencial entre as Figuras


TD3.36 Braços com maior alcance no sexo 0,04 0,40 Psicose afetiva (mania) Nível 0,05 Não
oposto* 0,16 Psicopatia T Não
TD3.39 Dedos com forma especial no sexo 0,04 0,16 Psicopatia T Não
oposto
TD4.01 Indiferenciação sexual 0,35 0,70 Esquizofrenia paranoide T Sim
0,66 Depressão T Sim
TD4.04 Ind. masculinos excessivos na figura 0,00 0,16 Psicopatia MT Não
masculina feita por homens
TD5.08 Desenho do sexo oposto em 1º lugar* 0,30 0,83 Depressão Nível 0,05 Não
0,60 Psicose afetiva (mania) T Não
TD6.01 Desenho de par antitético** 0,00 0,32 Psicopatia Nível 0,01 Sim
TD6.03 Par antitético quanto à reparação* 0,00 0,21 Psicopatia Nível 0,05 Sim
Obs.: Pares antitéticos em geral 0,13 0,75 Psicopatia Nível 0,001 Sim
Exs.:Desprotegido x perseguidor; reparado x
destruído; exibicionista x recatado; ativo x
passivo
TD6.07 Figura feminina robusta e viril 0,17 0,40 Esquizofrenia paranoide T Não
TD6.13 Figura feminina com braços e mãos 0,04 0,16 Psicopatia T Não
proeminentes feita por homem
Traçado e estilo
TE2.02 Pressão fraca 0,08 0,50 Depressão MT Sim
TE2.04 Pressão flutuante 0,08 0,33 Histeria T Não
0,30 Esquizofrenia paranoide T Não
TE5.01 Predominância de linhas retas e ângulos* 0,04 0,50 Histeria (mulheres) Nível 0,05 Não
0,40 Psicose afetiva (mania) Nível 0,05 Não
TE5.02 Predominância de linhas curvilíneas 0,22 0,42 Psicopatia (homens) T Não (mania)
TE 6.06 e 6.07 Linha com tremor 0,08 0,66 Depressão Nível 0,05 Obs.: remédios
0,50 Psicose afetiva (man.) Nível 0,05 atuam no SNC
0,40 Esquizofrenia paranoide T
0,33 Histeria T
TE6.09 Linha dentada 0,00 0,16 Psicopatia MT Não
TE6.11 Linha confusa* 0,00 0,21 Psicopatia Nível 0,05 Não
TE7.01 Ausência de correções e retoques (em 0,30 0,90 Psicose afetiva (mania) Nível 0,01 Não
produção medíocre ou menos)* 0,74 Psicopatia 
Nível 0,05 (X = Não
0,67 Histeria 6,15) Não
0,60 Esquizofrenia paranoide T Não
T
TE8.07 Temor de realizar a prova* 0,00 0,30 Depressão Nível 0,05 Não
TE8.10 Alegria excessiva ao realizar a prova teste 0,00 0,20 Psicose afetiva (mania) T Sim
TE8.11 Comentários absurdos 0,00 0,20 Psicose afetiva (mania) T Sim
TE8.17 Recusa ou incapacidade de terminar 0,00 0,30 Psicopatia MT Não
tarefa

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Discussão dos resultados


Os resultados são discutidos considerando-se a maior ou menor generalidade do indicador. Há
traços presentes em vários quadros caracterológicos e traços específicos de determinadas patologias.
Alguns traços merecem um estudo especial.
Para se avaliar a consistência teórica dos indicadores encontrados, tomar-se-á como base o
Quadro da Simbolização usualmente associada na literatura à presença do traço no desenho, e que havia
sido arquivada no fichamento feito, por ocasião da pesquisa bibliográfica. A análise detalha os indicadores
estatisticamente significativos, e menciona as tendências.
Traços presentes em quadros de grave dificuldade psicológica
A Tabela 7.1 apresenta traços presentes em várias psicopatologias graves, seguidos da
simbolização associada pela pesquisa acumulada à presença de cada traço. São consideradas graves as
psicoses e a psicopatia. A tabela segue dos traços mais gerais para os mais específicos. O asterisco indica
significância estatística do traço como indicador psicopatológico, desde que o indicador tenha
discriminado pelo menos uma das patologias e tenha revelado tendência em relação às outras.
Traços e símbolos compartilhados por vários quadros psicopatológicos graves
Traço (s) Simbolização usualmente associada ao traço
1.Fuga ao padrão Figura Humana** Símbolo de perda do padrão simbólico de pessoa humana.
(todas as psicopatologias graves)
2.Ausência de correções e retoques em Símbolo de limitação das faculdades de avaliação e correção, com possível critério
produção medíocre ou menos* (todas as pobre de realidade e reação impulsiva ou lábil aos estímulos.
graves)
3.Simetria confusa* Símbolo de labilidade, falta de equilíbrio emocional e transtorno no controle dos
(todas as graves) impulsos.
Símbolo de debilidade de defesas, com pouca crítica e discriminação.
4.Perspectiva confusa* Indicador de distúrbio na capacidade de discriminação e julgamento, com
(todas as graves) debilidade de funções adaptativas e de ajuste à realidade.
Símbolo de mecanismos de splitting unidos a mecanismos de identificação
projetiva excessiva.
5.Desenho com desproporções Símbolo de integração pobre e desarmonia na personalidade e no
grosseiras* comportamento, com dificuldade de manter o equilíbrio entre os impulsos e o
(psicoses) domínio deles.
6.Indiferenciação sexual entre Figuras Símbolo de dificuldades com a identidade sexual, por confusão ou indefinição.
(psicoses) (Tendência)
7.Figura com debilidade dos traços de Símbolo de pouca capacidade para as relações interpessoais, e retraimento.
contato (psicoses afetivas)* Símbolo de certo grau de narcisismo e contato débil com o mundo exterior.
8.Linha com tremor (todos os Indicador de algum nível de comprometimento do sistema nervoso, por causa
hospitalizados)* orgânica ou psíquica.
Símbolo de insegurança, ansiedade sem controle.
9.Figura pouco humanizada** (psicoses) Símbolo de mecanismos de splitting unidos a mecanismos de identificação
projetiva excessiva.
Símbolo de desorganização do ego e do objeto e vivências de esvaziamento e
despersonalização.
10.Reações que fogem ao comum ao Símbolo de alguma idiossincrasia que está manifesta todo o tempo, ou que tende
realizar a prova (Obs.: nenhum controle a se manifestar em situação levemente geradora de stress.
as apresentou; variam as reações; ver
alguns exemplos no Atlas).
11.Cabelos omitidos ou ralos* (O cabelo é símbolo do que tem vida e cresce, e, por extensão, de eros e vitalidade,
(psicoses) poder de crescimento).
Símbolo de sentimento de impotência ou inadequação, ou passividade ressentida,
ou de debilidade pessoal.
Símbolo de sentimento de perda de vitalidade ou capacidade erótica, ou de
conflitos de virilidade, ou de insegurança.
12. Tendência: Cabeça somente. Símbolo de censura ao corpo ou às funções corporais.

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Observe-se inicialmente que os protocolos dos sujeitos com depressão apresentaram os mesmos
traços gerais que os outros protocolos de psicopatologias graves; pode-se supor, portanto, que as
características de neurose depressiva foram superadas pelas características do episódio de depressão
maior.
Vê-se com clareza a consistência teórica dos achados, na medida em que se comparam os traços
escolhidos pelos sujeitos para sua expressão ― que equivalem a uma seleção de símbolos que os sujeitos
manipularam ― com o conjunto de conceitos expressos sobre as várias patologias. O conjunto indica com
clareza a perda da noção de realidade, humana em especial (indicadores 1, 2, 3, 4). A desorganização
pessoal se mostra também através da pouca integração (indicadores 5 e 9), da clivagem e identificação
projetiva (4, 9). A individualização incompleta se revela na indiferenciação psicossexual (indicador 6), no
narcisismo e pobreza de relações interpessoais (indicadores 7 e 10) e no sentimento de perda de vitalidade
e crescimento, com impotência (indicador 11). O corpo como problema aparece na impulsividade, no
sentimento de recusa do corpo, e na organicidade (indicadores 2, 3, 12, 8).
É significativo que os protocolos de psicopatia compartilhem com os dos psicóticos em crise os
traços que indicam a perda da noção de pessoa humana, o transtorno do controle de impulsos e a perda
da capacidade de julgamento por identificação projetiva excessiva ou por impulsividade, mas não a perda
da vitalidade.
As listas de indicadores que apontam "gravidade do problema psíquico", de Elsa Grassano e Freitas
Jr, mostram superposição com os indicadores que encontramos. Os indicadores 2, 8, 10 e 11 acima não
são apontados por eles; mas a linha com tremor é um sinal de alteração neurológica reconhecido. Os
indicadores comuns aos dois e a esta pesquisa são: ausência das partes que exercem funções de
comunicação; indiferenciação sexual; afastamento do humano; desproporção das Figuras, nos seus vários
aspectos, e desvios flagrantes de simetria e perspectiva. Vê-se também que há razão lógica para se afirmar
que uma avaliação de conjunto do DFH informa sobre a situação psicológica do sujeito, pois os traços
observados referem-se ao desenho globalmente considerado.
Outros traços que os dois autores apontam como próprias de dificuldades graves, como "não
integração de partes" (por espaço entre elas? por distorção? por diferenças de alinhamento?), "espaço interno cheio
com traços não representativos, exceto estampado" (sombreado? na aplicação coletiva, como saber se rabiscos eram
estampado?) e "braços perpendiculares ao solo sem postura intencional" (braços duros? o que é sem postura
intencional?), foram considerados traços mal definidos e não puderam ser comparados. Os traços de "tronco
irreconhecível ou ausente", "membro(s) em uma dimensão", "tronco aberto em baixo", "omissão de
partes", "Figura inclinada" e "rótula representada por círculo" foram encontrados nesta pesquisa, e na
direção da psicopatologia, somente que não num nível estatisticamente significativo. Não houve
frequência alta no grupo controle (o que seria contraprova aos seus achados), mas a frequência também
rara no grupo psicopatológico não tornou os resultados significativos.
Os dois autores apontam também "linhas fragmentadas no contorno ou limite da Figura", e Freitas
Jr aponta "linhas repassadas". "Linhas repassadas" apareceram em 52% de grupo controle e do grupo de
protocolos elite dos universitários. Pode ter ocorrido problema de definição quanto ao montante de
repasse. As "linhas fragmentadas" foram raras, mas presentes em porcentagem equivalente também nos
controles (em torno de 10%). Dos traços de Freitas Jr, também não confirmamos a linha axial quebrada,
que foi encontrada com frequência nos protocolos normais de universitários.
Traços próprios ao quadro de episódio de depressão maior
A tabela a seguir apresenta os traços que caracterizaram os protocolos de depressão maior; a
apresentação se dá nos mesmos moldes da tabela anterior. Sempre se inicia pelos traços de mais elevada
significação estatística (assinalados com dois asteriscos - nível 0,01) e segue-se para os de menor
significação estatística (* = nível 0,05) como discriminantes dos quadros caracterológicos.

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Traços e símbolos característicos de episódio de depressão maior


Traço (s) Simbolização usualmente associada ao traço
1. Fuga ao padrão Figura Humana** Símbolo de perda do padrão simbólico de ser humano.
2. Cabeça de tamanho grande com membros Símbolo de internalização da necessidade de ser observada e admirada,
pequenos** simultânea à repressão das necessidades de poder, ambição e autonomia.
3. Desenho com detalhes pobres** Indicador de diminuição da eficiência intelectual e do conhecimento realista
do eu.
Símbolo de retraimento, isolamento, ou anulação, com inquietude sobre o
conceito de eu e sua atuação.
Símbolo de uso de mecanismos de repressão, negação, e controle, com
inquietude pela impulsividade, ou pela sensualidade e sua expressão.
4. Pés malparados** Símbolo de insegurança, e de fragilidade na adaptação social e/ou sexual.
5. Figura pequena com traços simples e falta Símbolo de baixo nível de energia e diminuição da força egoica.
de proporção**
6. Figura no quadrante inferior esquerdo** Símbolo de conflitos, inadequação pessoal e fixação em problemas primitivos
e egocêntricos.
7. Cabelos ralos ou destacados da cabeça.** Símbolo de sentimento de perda de vitalidade ou capacidade erótica, ou de
(O cabelo é símbolo do que tem vida e conflitos de virilidade, ou de insegurança.
cresce, e, por extensão, de eros e vitalidade, Símbolo de distanciamento entre os impulsos vitais e a personalidade como
poder de crescimento). um todo.
8. Figura com debilidade dos traços de Símbolo de pouca capacidade para as relações interpessoais, e retraimento.
contato (psicoses afetivas)** Símbolo de certo grau de narcisismo e contato débil com o mundo exterior.
9. Rosto com expressão vaga* Símbolo de falta de espontaneidade e do contato débil com o mundo exterior.
10. Olhos vazios* Símbolo de rejeição à realidade, ou percepção vaga do mundo, como massa
indiferenciada, com poucos detalhes.
11. Mãos omitidas* Símbolo de ausência de confiança nos contatos sociais, na produtividade, ou
em ambos, com limitação da capacidade de dar e receber, e repressão da
agressividade.
Símbolo de dano egoico (vivência de castração) e culpabilidade por uso
indevido (real ou fantasiado) das mãos.
12. Dedos sem mãos* Indicador de falha no trato com a realidade concreta, com infantilidade.
Símbolo de agressividade infantil, se houver outros símbolos associados à
agressividade no desenho.
13. Pés borrados ou distorcidos* Símbolo de insegurança no caminhar, ou no estar no mundo ou no relacionar-
se sexualmente.
14. Figura inexpressiva* Símbolo de insegurança e dependência e de mecanismos de isolamento do
afeto.
15.Figuras tristes ou fracas* Símbolo de baixa de tônus vital e humor.
Símbolo de vivências de impotência e inadequação, com inibição ou restrição
do ego.
16.Desenho do sexo oposto em primeiro Símbolo de valorização do sexo oposto, em especial, e do outro, em geral.
lugar*
17.Simetria confusa* Símbolo de labilidade, falta de equilíbrio emocional e transtorno no controle
dos impulsos.
Símbolo de debilidade de defesas, com pouca crítica e discriminação.
18. Reações excepcionais à prova: temor de Símbolo de falta de confiança em si e em seus recursos reparatórios, com
realizá-la* autocrítica exagerada.
19. Tendências: Símbolos de:
a) Olhos pouco detalhados a) modo evasivo de lidar com realidade
b) Dedos delineados vagamente b) sentimentos de menos-valia e culpabilidade
c) Pernas mal colocadas c) (não há dados consistentes)
d) Poucas indicações de roupa d) menor adequação à realidade e parcas defesas sociais
e) Pressão fraca e) ansiedade

A consistência teórica desses dados está também evidente. A segunda coluna pode ser
considerada como uma descrição, em símbolos, do quadro clínico depressivo, com perda e recusa da
realidade (indicadores 1, 10, 12, 19a), as vivências maciças de impotência e inadequação (indicadores 2,
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3, 6, 13, 15, 16, 18), o empobrecimento intelectual e social, a perda do interesse e prazer na vida e nas
relações pessoais (indicadores 3, 4, 5, 8, 9, 11, 19b), a baixa do humor e sentimentos subjetivos de falta
de vitalidade e erotismo (indicadores 7 e 15), a culpabilidade (indicadores 11 e 19b), além da baixa das
defesas (17, 19d).
Contudo, é importante notar-se que este quadro pode ser considerado consistente relativamente
ao episódio de depressão maior, mas não pode ser considerado como relevante para as neuroses
depressivas, cujo estudo o projeto inicial previa. São necessários estudos posteriores para esta
discriminação.
Traços característicos de psicose afetiva, fase maníaca
A tabela a seguir sumariza os traços específicos da psicose afetiva com crise maníaca (distúrbio
bipolar, fase eufórica). A forma de apresentação da tabela é a mesma da anterior.
Traços característicos de psicose afetiva em fase maníaca
Traço (s) Simbolização usualmente associada ao traço
1. Fuga ao padrão Figura Humana** Símbolo de perda do padrão simbólico de ser humano.
2. Figura pequena e no alto da página** Símbolo de baixa autoestima, e inferioridade, com desejos frustrados de
destaque. Símbolo de euforia induzida por agentes externos (álcool, etc.).
3. Figura pequena com traços simples e falta Símbolo de baixo nível de energia e diminuição da força egoica.
de proporção**
4. Figura com debilidade dos traços de Símbolo de pouca capacidade para as relações interpessoais, e retraimento.
contato (psicoses afetivas)** Símbolo de narcisismo e contato débil com o exterior.
5. Predomínio de linhas retas e angulosas* Símbolo de agressividade, crítica, tensão e rigidez.
6. Braços com maior capacidade de alcance Atribuição de maior capacidade de satisfação de desejos ao sexo oposto em
no sexo oposto* especial e, por extensão, ao outro.
7. Cabelos omitidos ou ralos* (psicoses) Símbolo de sentimento de impotência ou inadequação, ou passividade
(O cabelo é símbolo do que tem vida e ressentida, ou de debilidade pessoal.
cresce, e, por extensão, de eros e vitalidade, Símbolo de sentimento de perda de vitalidade ou capacidade erótica, ou de
poder de crescimento). conflitos de virilidade, ou de insegurança.
8 Tendências: Símbolos de:
8a) Rosto com expressão vaga a) pouca espontaneidade e contato débil com o exterior
8b) Ombros geométricos b) infantilidade e pouco cuidado no desenhar
8c) Pernas esquematizadas c) dificuldades nos processos de separação e autonomia
8d) Pés omitidos d) falta de autonomia e cerceamento da autocolocação
8e) Figura inexpressiva e) insegurança e uso de mecanismos de isolamento do afeto
8f) Desenho do sexo oposto em primeiro f) valorização e idealização do outro sexo e do outro em geral
lugar
8g) Simetria confusa g) labilidade, falta de equilíbrio emocional e transtorno no controle dos
impulsos
8h). Perspectiva confusa h) debilidade de ajuste à realidade e distúrbio no julgamento
8i) Desenho com pobreza de detalhes i) impulsividade e diminuição da eficiência do eu

8j) Reações excepcionais ao teste: alegria j) presença de defesas maníacas contra depressão e perda de noção da
excessiva e comentários absurdos durante o realidade social
teste
8k) cabeça diminuída k) diminuição do controle
l) desenho de grafismos junto à Figura l) esforço para compensar a sensação de ruptura da capacidade de
comunicação básica
O conjunto de traços acima mostra-se rico, embora grande parte dos traços não tenha
discriminado a crise eufórica num nível estatisticamente significativo. O afastamento psicótico da
realidade está claro (indicadores 1, 3, 8a, 8h, 8l), mas com as características compensatórias do esforço
eufórico. No nível interpessoal, vê-se o empobrecimento social (indicador 4), conjugado a dificuldades com
separação e autonomia (8c, 8d). Contrastam as vivências de inadequação (indicadores 6, 7, 8e, 8f) e os
fortes transtornos no controle dos impulsos ― euforia, agressividade, labilidade (indicadores 2, 5, 8g, 8i,
8j, 8k).
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Quanto aos traços, a Figura pequena e no alto da folha (indicador 2) é consistente, e contrasta
com a Figura pequena e na parte inferior da página, dos protocolos depressivos. É vista na literatura como
símbolo de inferioridade e baixa estima, mas com desejos compensatórios de destaque ― esta colocação
é consistente com a literatura psicanalítica, que descreve as defesas maníacas como defesas contra a
depressão. É importante observar-se que, quando se faz esta colocação, não se está negando o quadro
orgânico responsável pela síndrome e já sobejamente estudado ― mas conhecer-se o quadro, e sua
natureza orgânica, não invalida o conhecimento dos processos psicológicos nele expressos. Inclusive, pode
auxiliar a compreensão de quadros incipientes, e de quadros em que possam estar presentes somente os
aspectos psicológicos, desacompanhados dos sintomas que configuram a síndrome. Ainda quanto a esse
traço, a afirmativa euforia induzida por agente externo decorre do contexto em que foi feita (na literatura)
a observação do traço ― de alcoólatras. Considerou-se, pois, que a literatura está com a informação
incompleta; trata-se de euforia, ou induzida por agentes externos, ou desencadeada internamente.
O terceiro traço, também compartilhado com os protocolos de depressão, é visto como símbolo
de baixo nível de energia e diminuição da força egoica. O baixo nível de energia poderia parecer
contraditório ao excesso de energia, de caráter maníaco. E analisando-se o traço - desenhar uma Figura
pequena, com traços simples e com falta de proporção ― é-se levado a pensar que esta atitude decorre
de, realmente colocar-se pouca energia na ação. O exame dos traços ligados aos episódios maníacos que
configuram tendências auxilia a compreensão: "ombros geométricos", "pernas esquematizadas", "rosto
sem expressão", "pés omitidos", "falta de detalhes"; todos estes traços indicam, para além de seus
significados simbólicos particulares, também uma esquematização da Figura humana, um modo rápido e
infantil de desenhar. Parece, pois, que o baixo nível de energia se refere a uma incapacidade de manter
um nível de energia dirigida para uma ação mais complexa.
O último traço digno de observação refere-se às linhas angulosas, que têm sido vistas como
símbolo de agressividade, crítica, tensão e rigidez. A consulta às tendências também esclarece. Vê-se que
"ombros geométricos" e "tronco anguloso" estão associados à síndrome maníaca. Voltando-se aos
desenhos, verificou-se que sete deles (0,70) apresentam troncos angulosos, mas de tipo geométrico, e não
angulosos "fortes", dando impressão de maciços ou musculosos. São desenhos que lembram mais
esquematizações; as linhas retas e angulosas se mostram como um dos aspectos do desenho pobre de
detalhes, de simetria e perspectiva confusa e com desproporções grosseiras, de que se falou
anteriormente. Pode-se supor, pois, que neste caso se trata de uma agressividade de características
infantis, primitiva, e não de uma conduta obstinada de crítica e rigidez.
Traços associados ao quadro de esquizofrenia paranoide
A Tabela seguinte apresenta os traços que discriminaram os protocolos de esquizofrenia
paranoide dos protocolos controle, também por ordem decrescente de significância estatística.
Traços e símbolos próprios da esquizofrenia paranoide
Traço (s) Simbolização usualmente associada ao traço
1. Fuga ao padrão Figura Humana** Símbolo de perda do padrão simbólico de pessoa humana.
(todas as psicopatologias graves)
2. Figura grande ou muito grande** Símbolo de autoestima elevada, podendo haver tendência à fantasia e megalomania.
Símbolo de expansão e agressividade, com falta de controle e de inibição, que podem
significar retaliação por sentimentos de rejeição social ou de inadequação.
3. Figura pouco humanizada* Símbolo de mecanismos de splitting unidos a mecanismos de identificação projetiva
excessiva.
Símbolo de desorganização do ego e do objeto e vivências de esvaziamento e
despersonalização.
4. Figuras bizarras* Símbolo de insensibilidade.

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5. Sucessão desordenada* Indicador de incapacidade de ordenação do pensamento.


Símbolo de carência de autocrítica e desorganização da personalidade, ou de
desordens impulsivas do pensamento ou da ação. (O procedimento do desenho passou
a seguir a importância afetiva das zonas do corpo, segundo uma "ordem"
idiossincrásica.)
6. Dedos deformados ou rígidos* Símbolo de conflitos na forma de satisfazer necessidades, ou símbolo de problemas de
ordem sexual.
7. Dedos em lança ou garra* Símbolo de agressividade ou sadismo.
8. Pernas desproporcionais* Símbolo de ambivalência frente ao impulso para autonomia.
9. Sapatos em forma de pênis (só Símbolo de dificuldades sexuais.
para mulheres)*
10. Cabelo omitido ou ralo* Símbolo de sentimento de impotência ou inadequação, ou passividade ressentida, ou
(O cabelo é símbolo do que tem de debilidade pessoal.
vida e cresce, e, por extensão, de Símbolo de sentimento de perda de vitalidade ou capacidade erótica, ou de conflitos
eros e vitalidade, poder de de virilidade, ou de insegurança.
crescimento).
11. Tendências: Símbolos de:
11a) ombros ausentes a) falha no sentido da realidade
11b) mais de cinco dedos b) falha no senso de realidade com ambição e agressividade
11c) ausência de aspecto dócil c) agressividade
11d) figura na metade inferior d) sentimento de impotência, inatividade, ansiedade e insegurança frente ao meio
ambiente
11e) simetria confusa e) labilidade, falta de equilíbrio emocional e transtorno no controle de impulsos
11f) perspectiva confusa f) distúrbio na capacidade de julgamento e mecanismos de splitting e de identificação
projetiva excessivos, com desorganização do ego e do objeto e possibilidade de
vivências de esvaziamento e despersonalização
11g) desenho com desproporções g) integração pobre e desarmonia
grosseiras
11h) figura feminina robusta e viril h) forte ligação e identificação com a imago materna
11i) pés mal parados i) insegurança
11j) pressão flutuante j) instabilidade e impulsividade
O conjunto de traços acima mostra-se rico, embora grande parte dos traços não tenha chegado
ao nível da significância estatística. Vemos que o quadro simbólico dos protocolos de sujeitos que
apresentam esquizofrenia paranoide, além dos aspectos globais de desorganização, mostra uma
personalidade com transtornos na capacidade de planejamento e simbolização (5 indicadores diferentes:
2
1, 3, 11a, 11f, 11g), com dificuldades na ordenação do pensamento (indicador 5) , problemas de afeto
rígido ou conflitivo (3 indicadores: 4, 6, 9), além de marcada presença de agressividade (4 indicadores: 2,
7, 11b, 11c), com parco controle (2 indicadores: 11e, 11j). Há 3 indicadores diferentes (2, 3, 11f) que
remetem à clivagem de objeto descrita pela psicanálise, um deles sendo o objeto bom tratado como
interno e o objeto mau tratado como externo. Outros indicadores lembram a dificuldade na aquisição da
autonomia e separação (8 e 11h), sentimentos de inadequação e impotência (10, 11d, 11h) e a
agressividade que se expressa sob forma de identificação projetiva sobre o outro (em outras orientações
teóricas, vista como agressividade sádica.).
Traços associados ao quadro de psicopatia
A Tabela seguinte apresenta os traços que discriminaram os protocolos de psicopatia dos
protocolos controle, também por ordem decrescente de significância estatística.
Tabela 7.5 Traços e símbolos próprios da psicopatia
Traço (s) Simbolização usualmente associada ao traço
1. Fuga ao padrão Figura Humana** Símbolo de perda do padrão simbólico de pessoa humana.

2 É interessante que o indicador 5, sucessão desordenada, seja também característico da mesma psicopatologia no Rorschach.
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2. Desenho de par antitético**(como Símbolo de funções pessoais (que são padrões mentais) existentes no sujeito,
desprotegido x perseguidor, exibicionista x baseadas em relações objetais, e que estão dissociadas no sujeito.
recatado, ativo x passivo, animal x humano) Indicador do uso de defesas primitivas, paranoides e/ou maníacas.
3. Desenho de par antitético quanto à Símbolo de idealização maníaca.
reparação*
4. Seios enfatizados na Figura feminina, Símbolo de conflitos ou dificuldades nas relações de dependência, por forte
desenhados por homens** apego à imago materna, em geral com culpabilidade e/ou ansiedade.
5. Cintura sombreada, reforçada ou Símbolo de problemas com o controle dos impulsos, com ansiedade em relação
interrompida. a esta divisão.
6. Boca enfatizada* Símbolo de dificuldades nas relações captativas e/ou de troca.
7. Cabelo enfatizado por sombreamento* Símbolo de conflito em relação à virilidade ou sexualidade, acompanhado de
ansiedade em relação às fantasias e/ou pensamentos que o acompanham, ou
a conduta sexual desviante.
Símbolo associado ao controle intelectual, à inibição egoica e à vivência de
inadequação.
Indicador de mecanismos anal-expulsivos por excesso de identificação
projetiva.
8. Cabelos desordenados* Símbolo de conflito ou desordem sexual.
9. Pelos do rosto desordenados* Símbolo de desordens e dificuldades sexuais
10. Polegar ou indicador com traçado Símbolo de sentimento de castração, ou preocupações e dificuldades sexuais.
especial**
11. Pernas com sombreamento ou reforço* Símbolo de conflito, ou preocupação e consciência sexuais exageradas.
12. Ausência de aspecto dócil na Figura* Símbolo de agressividade que não é controlada.
13. Desenho de Figura parcial* Símbolo de falta de sentido de integridade ou plenitude.
14. Cabeça de tamanho diminuído* Símbolo de problema com controle de impulsos.
15. Simetria confusa* Símbolo de labilidade, falta de equilíbrio emocional e transtorno no controle
dos impulsos, com debilidade de defesas.
16. Linha confusa* Símbolo de mistura de agressividade, insegurança e ansiedade.
17. Tendências: descritas no texto

Vê-se que o quadro de símbolos próprios à psicopatia é consistente com a descrição psicológica
que se vem acumulando sobre a personalidade antissocial e sobre o usuário de drogas. O indicador mais
fortemente presente (75% do grupo)3 é o desenho de par antitético, que mostra uma cisão básica de
personalidade, com divisão e oposição de objetos internos (indicadores nº 1, 2, 3, 13) associada ao uso de
mecanismos de identificação projetiva maciça (indicador 7). O restante do quadro aponta para a
dificuldade no controle de impulsos (indicadores 5, 14, 15, 16), para a agressividade não controlada (12) e
a problemática sexual e nas relações de troca (indicadores 7, 8, 9, 10 e 11), aspectos descritos pela
psicopatologia psicanalítica e expressos nos sintomas comportamentais descritos pela psiquiatria clássica.
A dependência e forte apego à imago materna são traços que a literatura associa ao usuário de
drogas. Os indicadores 4 e 6 presentes nos protocolos de psicopatia podem refletir a adição a drogas
também presente na amostra pesquisada, e não necessariamente a psicopatia.
Se se faz a análise simbólica das tendências4, o quadro se reforça e se enriquece ainda mais: a não
aceitação do corpo (PF1.01- cabeça somente e PF1.07-cabeça bem feita com corpo esquematizado), a
coartação da capacidade de pensamento muitas vezes colocada chistosamente como depósito no
psicólogo (PF1.14- cabeça com forma geométrica), a dissociação (PF2.04- traços faciais sombreados
fortemente), a dificuldade de contato e desejo de poder (PF2.08.05- rosto com expressão dura, PF2.08.01-
rosto com expressão ameaçadora, 20.02- mãos muito grandes, AP5.04- Figura com aspecto ameaçador),
a falta de inibição e primitivismo (PF9.12- linha dentada, ES4.03-sombreado vigoroso), o sentimento
compensatório e preocupação com força física (PF11.16- tronco enfatizado ou destacado por músculos,

3 Um dos protocolos de psicopatia, o mais extremo dos antitéticos, apresentava um inseto ― tipo percevejo, barata ou besouro ―
e uma segunda figura, humana, do sexo feminino.
4 Nos parênteses indicam-se os indicadores pelos seus códigos originais (vide seção 6 deste Relatório).
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AP2.05- Figura em posição de ação, TD4.04- indicadores masculinos excessivos na Figura feita por homem),
a falta de confiança nos contatos sociais (PF20.01- mãos omitidas, TD3.36- mãos com maior possibilidade
de contato no sexo oposto), a evasividade (AP1.23- perfil humano e AP3.13-corpo de frente com cabeça
em outras direções), além dos vários outros indicadores de dificuldades com a sexualidade (PF8.01- cabelo
enfatizado, PF23.18- pernas como saias divididas ao meio, TD3.39- mãos ou dedos com formato especial
no sexo oposto, TE5.02- predomínio de linhas curvilíneas em desenho de homens, PF29.01- calças
enfatizadas ou com ênfase na braguilha), dificuldades com autonomia e dependência (PF22.08- pernas
longas e finas, TD6.13- Figura feminina com braços ou mãos proeminentes desenhada por homem), além
do negativismo (TE8.17- recusa ou incapacidade de completar o teste).
Traços associados ao quadro de neurose histérica
A Tabela seguinte apresenta os traços que discriminaram os protocolos de neurose histérica dos
protocolos controle. A forma de apresentação é a mesma das tabelas anteriores.
Tabela 7.6 Traços e símbolos próprios da neurose histérica
Traço (s) Simbolização usualmente associada ao traço
1. Sapatos com forma de pênis (só para Símbolo de dificuldades sexuais, nos homens em geral por sentimento de
homens)** insuficiência.
2. Nariz em um só traço** Sendo o nariz um símbolo fálico e sexual, o nariz em um só traço, próprio
dos desenhos infantis, associa-se à repressão da sexualidade e da
agressividade infantis.
3. Pescoço fechado* Símbolo de controle estrito da expressão dos impulsos.
4. Figura grande ou muito grande* (não válido Símbolo de acentuação de si com desvalorização do meio, de caráter
para universitário/as) compensatório, egocêntrico e narcísico.
5. Predomínio de linhas retas ou angulosas Símbolo de agressividade, crítica, e rigidez (consideradas como traçado de
(des. de mulheres)* características masculinas)
6. Tendências: Símbolo de:
6a) olhos representados por ponto a) imaturidade afetiva regressiva ou campo limitado de visão adicionado a
cautela penetrante
6b) pernas longas e finas b) necessidade de autonomia, mas com inadequação para conseguir
autonomia pessoal
6c)Figura com debilidade dos traços de contato c) pouca capacidade para as relações pessoais, e retraimento, e certo grau
de narcisismo e contato débil com o exterior
6d) desenho com detalhes pobres d) diminuição da eficiência intelectual, impulsividade, e uso de mecanismos
de repressão, negação, controle.
6e) pressão flutuante e) impulsividade e instabilidade
6f) desenho com gestalt preservada e f) presença de organização pessoal básica, com aquisição dos mecanismos
aparência harmoniosa de repressão como ganho evolutivo, percepção, discriminação, e reparação
e sublimação.
6g) tronco anguloso (frequente em protocolos g) agressividade e masculinidade
normais de universitárias)
6h) pés malparados (frequente em protocolos h) insegurança e fragilidade na adaptação social e/ou sexual
normais de universitárias)
6i) roupa sombreada (relativamente frequente i) insegurança na autoexposição
em protocolos normais de universitárias)
6j) saia ampla j) tendências exibicionistas mantidas sob controle
(relativamente frequente em protocolos
normais de universitárias)
O quadro obtido para a neurose histérica, embora teoricamente consistente, mostrou-se menos
bem delineado que os anteriores, referentes a patologias graves. Além de menor número de indicadores
psicopatológicos estatisticamente discriminativos, os indicadores que tenderam a discriminar os grupos
são frequentes, ou relativamente frequentes, nos protocolos normais de universitárias. Para efeito da
análise da consistência teórica, optamos por excluir estes traços comuns aos universitários.

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É importante lembrar que Elsa Grassano não diferencia, em relação à gravidade da psicopatologia,
os desenhos de neuróticos dos desenhos de normais, pois todos esses apresentam o mecanismo de
recalcamento como ganho evolutivo. Neste trabalho, inclusive, o indicador "desenho com gestalt
preservada e aparência harmoniosa" surpreendeu, pois apresentou-se como mais característico de
protocolos de histeria (0,33), sendo raro no grupo controle e relativamente raro no grupo de
universitário(a)s (menos de 0,10). Nestes, foram modais os "desenhos com esquema corporal preservado,
com detalhes adequados ou com poucos detalhes essenciais", mas sem a preocupação com a aparência
harmoniosa.
A característica psicológica que emerge com mais força desses dados sobre os protocolos do DFH
de histeria é a repressão dos impulsos e da sexualidade (indicadores 2, 3, e 6d), coerentemente com a
teoria psicanalítica. O indicador 1 também é consistente com a teoria psicanalítica, mostrando a
preocupação fálica que afeta o homem com protocolo de histeria. Sobre o indicador 5, referente às linhas
retas e angulosas, pode-se levantar a hipótese de que seja, simbolicamente, um equivalente feminino
dessa preocupação fálica. Isso porque temos, no conjunto das tendências, um "tronco anguloso"
desenhado por mulheres e também frequente nos protocolos da população feminina universitária ― se o
desenho obtido em hospitais é mais geométrico e primitivo, o desenho dos protocolos universitários
mostra troncos angulosos fortes e masculinos. Podemos, pois, supor um desenho fálico, o mais primitivo
expresso por linhas e ângulos, o mais elaborado por força física.
A análise das tendências acrescenta a labilidade e impulsividade que se alternam ao controle dos
impulsos (indicadores 6d e 6e), a imaturidade afetiva regressiva e inadequação para consecução da
autonomia (indicadores 6a e 6b) e a pouca capacidade de relação interpessoal, decorrente da
intensificação do narcisismo (6c).
Análise dos traços gráficos que apresentaram especificidades
Tamanho da cabeça. Um problema que voltou a ser problematizado foi o do tamanho da cabeça
desenhada, pois os protocolos controle apresentaram a cabeça de tamanho grande. Na definição de
cabeça de tamanho "normal", havia-se fugido ao critério estatístico, para levar-se em consideração o
"ideal", pois os livros de desenho e de anatomia indicam que a cabeça humana corresponde a 1/7 da altura
do corpo e metade da largura do tronco; pensou-se que seria inadequado considerar-se de "tamanho
pequeno" uma cabeça "ideal". Simbolica e teoricamente, a proporção das partes do corpo revela a
importância relativa de cada uma, para quem desenha. Portanto, uma cabeça grande em corpo menor
simboliza um maior controle da cabeça sobre o corpo. Pelo nosso raciocínio anterior, o tamanho ideal diria
do montante de controle ideal. Entretanto, vimos que o tamanho grande foi modal para o grupo controle
(0,57), e raro na psicose maníaca (0,20) e mais raro ainda na psicopatia (0,05); na direção oposta, a cabeça
de tamanho "normal" foi mais frequente no grupo de psicopatas e de psicoses maníacas. Os protocolos
de psicopatia e de psicose maníaca, teoricamente, deveriam apresentar cabeças de tamanho menor,
demonstrando maior predomínio do resto do corpo sobre a cabeça. Colocou-se, pois, o problema de
redefinir o critério de normalidade por critérios somente estatísticos, para voltar-se posteriormente a
analisar esses dados. Cabe uma reserva para quando estão sendo avaliados protocolos de artistas.
Olhos pouco detalhados. A estatística das
Quadro caracterológico Proporção proporções para esse indicador expressa na Tabela ao lado
Depressão 0,83 mostra-se claramente decrescente. Este traço é considerado
Psicose afetiva (mania) 0,80
na literatura como símbolo de um modo evasivo ao lidar com
Histeria 0,67
Supletivo de 1º grau 0,50 os choques da realidade, pelo uso das defesas de repressão,
Supletivo de 2º grau 0,31 negação da realidade e evitação da mesma. Esta pesquisa
Universitários/as normais 0,21 apresenta evidência adicional a estas colocações, pois o traço
Universitários/as com MMPI 0,07 se mostrou sensível à psicopatologia e ao nível educacional,
elite
porque, se somente o aspecto educacional fosse relevante,

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não haveria a diferença de proporção entre os universitários com protocolos normais e os com protocolo
MMPI elite.

Síntese e conclusões
Atingiu-se o primeiro objetivo de pesquisa, construindo-se um Quadro de Definições (Atlas) que
sistematiza e define com clareza os traços do DFH descritos na literatura revisada sobre o mesmo. O Atlas
construído e os níveis obtidos de acordo entre avaliadores demonstra ser possível trabalhar-se com traços
gráficos de forma confiável, mesmo numa abordagem molecular.
Atingiu-se o segundo objetivo, tendo-se identificado indicadores psicopatológicos no DFH comuns
a dificuldades mais graves. A qualidade geral dos traços gráficos que se observam nas patologias graves
confirma a observação de que a qualidade geral de um DFH pode indicar a presença de dificuldades
psicológicas. Encontraram-se também indicadores específicos que discriminaram os protocolos do grupo
de controle dos quadros de depressão, esquizofrenia paranoide, psicose afetiva em fase maníaca,
psicopatia e histerias graves, em níveis estatisticamente significativos.
Foram encontrados outros indicadores, com menor potencial de discriminação, que ajudam a
enriquecer os perfis de cada quadro clínico. Os conjuntos de traços encontrados mostram consistência
interna para cada quadro, formando um conjunto de símbolos descritivos que se mostram coerentes com
as descrições psicanalíticas e psiquiátricas de cada quadro. Esses conjuntos mostram-se também
diferenciados entre si, de forma consistente, formando descrições diferentes de psicopatologias
diferentes.
Não se conseguiu uma discriminação adequada entre neuroses e psicoses globalmente
consideradas, talvez porque havia episódio de depressão maior superposto às neuroses depressivas. Não
se fez a análise comparativa de perfis do MMPI e de protocolos de DFH, conforme se previa no projeto
original, por problemas ligados à amostra de universitários.

Bibliografia
A bibliografia utilizada se encontra no Texto 12 dessa Coletânea de Textos sobre o desenho da
pessoa humana.

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