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Disciplina: Ética na saúde

Aula 10: Maus-tratos, abusos e sanções legais

Apresentação
Nesta aula, trataremos da humanização do ambiente hospitalar, veremos como o avanço nas
tecnologias de saúde trouxe inicialmente o abandono de uma atitude mais humanista das
relações com os pacientes. Entenderemos como a humanização destes ambientes depende
também da humanização das relações institucionais internas e analisaremos alguns aspectos da
legislação brasileira que garante os direitos dos pacientes.

Em seguida, falaremos sobre maus-tratos, abusos e sanções legais -, analisaremos o conceito de


violência e como os profissionais de saúde estão expostos diretamente às consequências das
diversas formas de violências presentes na sociedade. Entenderemos porque idosos e crianças
são as vítimas mais frequentes de abusos e de que maneira os profissionais de saúde têm
responsabilidades na notificação destes casos.

Para finalizar esta nossa última aula, faremos uma análise do Estatuto da Criança e do
Adolescente (ECA) e veremos como ele tipifica e qualifica os diferentes tipos de violência contra
a infância.

Bons estudos!

Objetivos
Identificar a evolução histórica dos direitos humanos em relação à pacientes internados ou
em tratamento ambulatorial;
Reconhecer o conceito de humanização do ambiente hospitalar;
Analisar a legislação sobre sanções legais a abusos e maus-tratos;
Verificar as definições e conceituação de violência.
Humanização do ambiente hospitalar
A valorização da ciência, a partir essencialmente do século XVIII, produziu muitas
mudanças na vida e na rotina das pessoas, independente destas serem ou não
diretamente interessadas em ciência.

 Cientista manipulando alguns equipamentos | Fonte: Pixabay


Vejamos como se deu a evolução da humanização do ambiente hospitalar:

Antes do apogeu positivista da ciência, os hospitais eram locais de exclusão social


onde apenas os pobres recorriam (uma vez que os mais abastados traziam os
médicos e demais cuidados de saúde para o interior de suas residências) e, na
maioria das vezes, a atenção assistencialista do hospital se direcionava para os
cuidados materiais e espirituais, uma vez que a cura das doenças não aparecia como
alternativa prioritária aos ali internados.

(Fonte: Pixabay)
A partir do desenvolvimento da ciência, esta situação se altera em função do grande
interesse experimental na análise de patologias e medicamentos. O hospital passa a
ser um local de estudo, de aprimoramento de meios de diagnóstico e tratamento.
Assim, o foco passa a ser a abordagem técnica e científica das doenças.
(Fonte: Pixabay)
Se por um lado esta nova perspectiva faz com que o hospital deixe de ser um local
de morte e passe a ser visto como uma instituição de recuperação, por outro,
condutas associadas ao conforto espiritual ou ao assistencialismo ficaram esquecidas
em detrimento da nova abordagem científica.

Nomes passam a ser substituídos por diagnósticos e a maioria dos profissionais de


saúde passa a ignorar cuidados básicos de atenção à pessoa do paciente, em
detrimento de um profundo rigor na percepção do traçado eletrocardiográfico e da
pressão venosa. Assim, houve aparentemente uma inversão de valores associados
aos cuidados em saúde.

Como em uma gangorra, se até o século XVIII a atenção pessoal parecia compensar
a carência de possibilidades que a ciência tinha a oferecer, a partir daquele momento
os conhecimentos técnicos referentes aos problemas de saúde pareciam tornar
desnecessários qualquer atenção pessoal mais cuidadosa com a pessoa do doente.

A abordagem contemporânea de saúde, impregnada de uma perspectiva mais


holística, entende que as patologias não podem ser interpretadas exclusivamente
através dos órgãos nos quais os distúrbios se exibem, mas precisam ser analisadas
sob uma concepção mais global do ser humano, deixando de lado a percepção
dualista e compreendendo a pessoa como uma unidade.

(Fonte: Pixabay)
Assim, por definição, esta nova abordagem assume um caráter mais humanístico e a
atenção aos componentes subjetivos da doença, seus aspectos emocionais,
componentes mórbidos, além da fisiopatologia e demais aspectos das dimensões
sociais e psíquicas passam a ser valorizados. Busca-se hoje dosar novas tecnologias
e medicamentos de última geração com o relacionamento entre as pessoas,
procurando equilibrar ciência e ética através da noção de valores humanos.
A dificuldade na instalação desta humanização do ambiente hospitalar, no entanto,
começa pela própria incongruência das circunstâncias. Como em qualquer outra
instituição, o hospital convive com objetivos financeiros, políticos, pessoais e uma série
de situações de vida que frequentemente se conflitam e transformam ações em
instrumentos de anseios nem sempre éticos ou coletivos.

Assim, a humanização do atendimento de saúde passa,


primordialmente, pela humanização das próprias relações
institucionais.

 Médico atendendo a uma paciente. (Fonte: Pixabay)


Os profissionais de saúde submetem-se em sua atividade a tensões psicológicas
provenientes do contato permanente com a dor alheia, tensões relativas ao seu
desempenho que pode representar a diferença entre a vida e a morte de pessoas, além
das pressões que muitos trabalhadores vivenciam, independente de suas áreas de
atuação, como as condições salariais e de trabalho.

Cuidar destes profissionais e humanizar suas relações de trabalho é o passo inicial de


qualquer processo de atenção.

Outro importante aspecto diz respeito à consciência de que um trabalho bem sucedido
depende:

1

Tanto da qualidade técnica do profissional.


2

Quanto da qualidade interacional entre profissional e paciente.

Há uma profunda melhora no desempenho dos profissionais de saúde quando estes são
capazes de interpretar aspectos emocionais de seus pacientes.

Com isso, conseguem também minimizar resistências, otimizar relatos e adesões aos
tratamentos.

É fundamental que o profissional de saúde aprimore seus conhecimentos dos aspectos


interpessoais da tarefa assistencial e conheça estratégias profissionais de lidar com estas
situações.


Leitura

Para saber mais sobre esse assunto, leia o texto “A Humanização hospitalar
<galeria/aula10/anexo/pdf1.pdf> ”.

Violência
Uma das características mais marcantes das sociedades é a violência. Em todas as
camadas sociais das mais diversas culturas, vemos historicamente este grave problema
social atingindo indiscriminadamente a todos.

Reconhecer e repudiar um comportamento violento está diretamente associado à


existência de valores éticos.
A violência pode ser:

Cotidiana

Institucional

Do Estado

Praticada por marginais

Praticada nos programas de TV

Doméstica

Praticada no trânsito de grandes centros

De muitas outras formas


Apenas o cultivo destes valores nos indivíduos é capaz de fazer
frente a este tipo de prática que se dissemina como um vírus nas
sociedades.

Os profissionais de saúde, no exercício de suas funções, também estão expostos a


presenciar situações de violência e precisam pautar suas condutas e respostas a estas
situações em padrões éticos que os impeçam de compactuar com qualquer espécie de
covardia ou injustiça contra o outro.

Profissional de saúde | Fonte: Pixabay


Se o profissional estiver atento a estas situações e imbuído da convicção de não
compactuação, certamente também estará isento da prática de negligência, abusos e
desrespeitos que, infelizmente, ainda estão presentes no exercício profissional de alguns.

A Organização Mundial de Saúde (OMS), em seu Relatório Mundial sobre Violência e


Saúde, um extenso documento publicado em Outubro de 2002, define violência como
sendo:

O uso intencional de força física ou poder, real ou em forma de

ameaça, contra si próprio, contra o outro, ou contra um grupo


ou comunidade, que resulte ou tenha probabilidade de resultar
em lesão, morte, dano psicológico, deficiência de
desenvolvimento ou privação.

Assim, um ato violento é um comportamento que se opõe à ética, na medida em que


nega os valores e direitos básicos da pessoa, a “coisifica” e a suprime de sua dignidade e
condição de igualdade. Desta forma, tendo o profissional de saúde o reconhecimento da
dignidade das pessoas, o respeito pelo outro e a consciência dos valores e direitos
humanos, estará moralmente preparado para o enfrentamento destas situações.

Em 1982, a ONU (Organização das Nações Unidas) em assembleia geral instituiu a


Resolução 37/194 <http://translate.google.com.br/translate?hl=pt-
BR&langpair=en%7Cpt&u=http://www.un.org/documents/ga/res/37/a37r19
4.htm> que trata de princípios de ética médica aplicáveis à função do pessoal de saúde,
especialmente aos médicos, na proteção de prisioneiros ou detidos, contra tortura e
outros tratamentos cruéis.

Nesta Resolução, composta por uma série de princípios que não se limitam às pessoas
em condição de presos formais, mas se estendem a qualquer indivíduo em condição de
privação de sua autonomia de liberdade consta, dentre outros de:

Uma grave violação da ética médica, bem como uma ofensa aos
instrumentos internacionais aplicáveis na área da saúde,
participar ativa ou passivamente nos atos que constituem
participação, cumplicidade, incitamento ou tentativa para

cometer tortura ou outros tratamentos cruéis, desumanos ou


degradantes.

Deixa claro, assim, a concepção de que presenciar maus-tratos, abusos ou


comportamentos degradantes, não os denunciar ou evitar, transforma o profissional de
saúde em cúmplice de crime contra o outro.

Vítimas frequentes de abusos e maus


tratos
As vítimas mais frequentes de abusos e maus-tratos, por sua própria natureza de
fragilidade, são:


Crianças

Idosos
Estas características promovem exclusão social e familiar, favorecendo as mais diversas
formas de violência.

Violência contra o idoso

O estudo mais sistemático da violência contra o idoso começa a surgir em meados da


década de 70 e, inicialmente, foi caracterizado apenas em situações de danos físicos
intencionais (lesões corporais) produzidos por outros em pessoas com mais de 65 anos.

Posteriormente, o tema “abuso” foi estendido também a ações que viessem a provocar
danos psicológicos, sociais, financeiros ou que demonstrassem situações de negligência,
omissão e abandono.

 (Fonte: Pixabay)

A legislação brasileira já possui uma série de dispositivos de amparo ao idoso. Vejamos:

 (Fonte: Pixabay)
Constituição Federal
Assegura o impedimento de qualquer forma de descriminação por idade e garante ao
idoso o amparo obrigatório pela família e pelo Estado.

Estatuto do Idoso
A Lei nº 10.741/2003
<http://www.planalto.gov.br/Ccivil_03/Leis/2003/L10.741.htm> , dentre
muitas garantias constitucionais, estabelece em seu artigo 19 que é obrigatória a
comunicação, por parte dos profissionais de saúde, nos casos de suspeita ou confirmação
de maus tratos contra o idoso à autoridade policial e ao Ministério Público, assim como
aos conselhos municipal, estadual e nacional do idoso.

Violência contra a criança


Condição semelhante à do idoso vivenciam as crianças, em particular as com menos de
quatro anos, casos mais frequentes de abuso.

Apesar de a violência atingir de modo indiscriminado crianças de todas as idades, sexos,


cor da pele ou renda familiar, as estatísticas demonstram que crianças pequenas de
famílias de baixa renda, em situação de desagregação ou crise, são as mais atingidas.

Além de episódios de agressão física, é frequente evidências de negligência e abandono.


Dentre as crianças de rua, as estatísticas apontam adolescentes do sexo masculino como
os mais atendidos por traumas e efeitos relacionados a drogas, sempre com elevados
índices de evasão hospitalar.

 Menino de costas | Fonte: Pixabay


De modo geral, há a ideia de que a violência urbana é maior do que a doméstica. Estudos
recentes, no entanto, demonstram que no que se refere à violência infantil este dado não
procede.
Segundo alguns autores, a violência urbana vem aumentando inclusive como
consequência da violência vivenciada em casa pelas novas gerações, que incorporam
procedimentos violentos à sua forma de relação social.

Esta situação, de fato, não é nova. A criança sempre foi percebida como uma propriedade
dos pais mais do que como uma pessoa de fato e de direito.

ECA

A Lei Federal 8.069/1990


<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/l8069.htm> em seus artigos 3º e 5º,
define a prática de maus-tratos como sendo toda ação ou omissão que prejudique o
desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social, em condições de dignidade e de
liberdade.

A violência doméstica, por sua vez, é concebida como aquela praticada por ato ou
omissão dos pais, parentes ou responsáveis, contra a criança ou adolescente que possa
vir a promover dano físico, sexual ou psicológico à vítima.

Vejamos quais são os tipos de dano à criança:

Físicos

Produzidos por uso de força física, de modo intencional ou acidental, com o objetivo
de ferir independente da motivação. Este tipo de dano é configurado como delito de
lesão corporal, artigo 129 do Código Penal ou homicídio, artigo 121.

Psicológicos
Produzidos por influência ou interferência negativa, capaz de formar no menor
sentimentos autodestrutivos, deformações de caráter ou morais. Este tipo de dano
se configura através de condutas de rejeição, hostilidade, frieza, agressões verbais,
depreciação, discriminação, exigências incompatíveis com a idade ou condições da
criança ou adolescente, dentre outros.

Sexuais

Produzidos por ação de cunho sexual ou erótico, utilizadas para gratificação sexual
de adulto ou pessoa de mais idade que o menor. Esta prática envolve qualquer tipo
de contato em área erógena, abusos verbais, indução à prostituição, exibição de
material pornográfico e quaisquer outras formas de exploração sexual, independente
do uso ou não de violência física ou coerção. O Código Penal tipifica esse tipo de
conduta no capítulo que trata dos crimes contra a liberdade sexual (artigos 213 a
216-A) e o Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo 244-A, como crime
de exploração sexual.

Por negligência

Produzidos por omissão do responsável que, por ato intencional ou não, deixa de
prover adequadamente as necessidades da criança ou adolescente para o seu
perfeito desenvolvimento. Consideram-se as necessidades referentes à alimentação,
supervisão emocional e psicológica, proteção e cuidados com saúde, higiene e
educação. Estes danos podem acarretar perda do pátrio poder e são definidos como
abandono pelo Código Penal nos artigos 244 e 246, referentes ao abandono material
e intelectual e 133, referente a abandono de incapaz.

É importante frisar que, apesar da denúncia de maus-tratos ser antes de tudo um dever
cívico de qualquer cidadão na defesa dos direitos de seu semelhante, por força de lei
alguns profissionais em função de sua atuação social são considerados responsáveis
específicos por este tipo de notificação.

Veja quais são:


1

Artigo 56 do ECA

Aponta os dirigentes de estabelecimentos de ensino fundamental como tendo o dever de


informar ao Conselho Tutelar os casos de maus-tratos envolvendo seus alunos.

Artigo 245 do ECA

Especifica o médico, o professor de ensino fundamental, pré-escola ou creche e o


responsável por estabelecimento de atenção à saúde como responsáveis pela denúncia.

Vale ressaltar que estes profissionais, apesar da incumbência legal

em notificar, não precisam investigar os responsáveis pelos maus-


tratos ou descobrir qualquer motivação, cabendo a eles

exclusivamente o ato de comunicar o fato à autoridade legal e

desenvolver as ações de sua especialidade para o tratamento e


recuperação da vítima.
Atividade
Leia o texto “Humanização do atendimento hospitalar
<galeria/aula10/anexo/pdf2.pdf> ”, que se refere a um treinamento necessário
para que o ambiente hospitalar se torne mais humanizado.

Em seguida, responda à questão:

Este treinamento, em seu entendimento, está centrado prioritariamente em qual


destas concepções?

a) Aprimoramento dos conhecimentos técnicos, pois a humanização implica em


melhor qualificação tecnológica e aprimoramento científico.
b) Aprofundamento dos aspectos interpessoais das relações, pois há uma
profunda melhora no desempenho dos profissionais de saúde quando estes são
capazes de interpretar aspectos emocionais de seus pacientes.
c) Aperfeiçoamento dos procedimentos de gestão, pois a burocracia nas relações
institucionais é o que mais caracteriza a desumanidade com que o usuário é tratado
no SUS.

Notas
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Explore mais

Leia os textos:

O cuidado do enfermeiro ao idoso hospitalizado: uma abordagem bioética;


<http://revistabioetica.cfm.org.br/index.php/revista_bioetica/article/view/615>
O processo de humanização do ambiente hospitalar centrado no trabalhador;
<http://www.scielo.br/pdf/reeusp/v40n2/09.pdf>
Papel dos profissionais de saúde na política de humanização hospitalar;
<http://www.scielo.br/pdf/pe/v11n2/v11n2a10.pdf>
Violência: um problema global de saúde pública;
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-
81232006000500007&script=sci_arttext>
Cartilha de Abuso Sexual e Maus-tratos na Infância.
<http://www.conselhodacrianca.al.gov.br/sala-de-
imprensa/publicacoes/Cartilha-abuso.pdf>