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NOME: Henrique Melati Pacheco

O texto Estudo Introdutório, escrito pelos historiadores Feitler e Souza (2010), abre e
apresenta a edição das Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia publicada pela
coleção “Documenta Uspiana” da editora EDUSP. Nele, a história do 5º Arcebispo da
Bahia: D. Sebastião Monteiro de Vide, é reconstituída com a finalidade de contextualizar
o momento histórico da elaboração e publicação do primeiro texto de legislação canônica
do Brasil. Já o exame do próprio texto das Constituições Primeiras do Arcebispado da
Bahia, teve como finalidade demonstrar a potencialidade desta fonte para história do
Brasil.
Na primeira grande sessão do texto: “D. Sebastião Monteiro de Vide, quinto
Arcebispo da Bahia”, somos apresentados ao principal personagem (e idealizador) das
Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia: Sebastião Monteiro de Vide. Padre-
Jurista, português de nascimento, Vide viveu entre os sécs. XVII e XVIII, tornou-se
clérigo e iniciou sua missão nas conquistas (colônias) Luso Americanas durante o início
do séc. XVIII. Antes disso, em meados do séc. XVII, Vide acumulou inúmeras funções
eclesiásticas e políticas no estado lusitano. No Brasil, foi no ano de 1701 que Vide foi
nomeado pelo monarca português D. Pedro II ao cargo de Arcebispo da Bahia, posição
que ocupou até sua morte, em 1722. Naquele momento, o cargo de Arcebispo da Bahia
ganhava projeção na hierarquia de honra dos cargos eclesiásticos lusitanos do Antigo
Regime, na mesma medida que a conquista do Brasil tornava-se mais importante para o
Império Atlântico de Portugal.
Como Arcebispo da Bahia, a atuação de Vide seguiu o modelo tridentino,
adaptando o cânon, contudo, aos anseios e necessidades do Brasil (em particular a sua
população majoritária, composta por comunidades escravizadas). Na verdade, as ações
pastorais de Vide demonstram certa “tolerância”, por parte do 5º Arcebispo da Bahia,
para com modelos mais “fluídos” de devoção cristã. Atitude coerente ao universo
devocional Luso Americano, formado majoritariamente por “recém-conversos”. O
modelo de atuação tridentina de Vide, portanto, conciliou o sentimento religioso (de
muitas devoções aos santos e santas) com a racionalidade ilustrada no universo “barroco”
da colônia. Assim, para Vide, discussões teológicas “eruditas” e devoções marianas
“populares” compuseram uma mesma esfera do que foi o religioso brasileiro setecentista.
Na segunda grande sessão do texto “O Sínodo e as Constituições do Arcebispado
da Bahia”, os historiadores Feitler e Souza (Ibid) abandonaram a biografia de Vide e
partem para reconstituição da história da igreja no Brasil, e, em seguida, para a
reconstituição histórica e análise do texto das Constituições Primeiras do Arcebispado da
Bahia. No que diz respeito a história da Igreja, cabe salientar as dificuldades enfrentadas
pelos clérigos do Brasil para se realizar os sínodos e concílios indicados pela norma
tridentina. Extensas distâncias territoriais, baixa presença de clérigos e sertões povoados
por comunidades indígenas, quilombolas etc. foram alguns fatores que dificultaram a
realização de encontros político-eclesiásticos na América Lusitana. O próprio encontro
do qual as Constituições foram o resultado, foi originalmente idealizado pelo Arcebispo
Vide como um Concílio, porém, Vide teve de alterar o seu intento (devido a falta de
párocos) e planejou o Sínodo de 1707 (único realizado na América Lusitana), para o qual
todo a colônia se preparou, com solenidades e liturgias prévias.
Foi no Sínodo de 1707 que as Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia
foram apresentadas. Como um instrumento jurídico-pastoral, o texto eclesiástico
normativo das Constituições vigorou por quase duas centúrias como documento oficial
da colônia, depois Império brasileiro. Seguindo e ampliando o modelo das constituições
europeias, o texto das constituições ultrapassou 600 páginas. Dividas em 5 livros de
parágrafos normativos e mais anexos, as Constituições apresentaram uma estrutura
textual comum aos outros documentos político-eclesiásticos do período, excetuando-se,
contudo, o fato de que o Padroado Régio diminuiu a autonomia da Igreja-instituição
brasileira. O primeiro livro das constituições tratou sobre a profissão da fé católica, os
direitos e deveres dos clérigos; o segundo livro tratou sobre a organização da santa missa
e do calendário religioso da colônia, além dos pagamentos que deveriam ser realizada
para Igreja-instituição; o terceiro livro tratou sobre a liturgia e cerimonialística
eclesiástica, bem como do modelo de devoção cristã; o quarto livrou tratou das
imunidades e isenções dos párocos e das Igrejas, bem como as formas de se fazerem
cumprir os sacramentos; o quinto e último livro tratou da maneira como seriam
executadas as ordens arquiepiscopais, bem como os delitos e as censuras de quem nãos
as cumprisse. Assim, o texto das Constituições regulamentaram uma ampla esfera da
vida político-religiosa e cotidiana do Brasil. A preocupação com os sacramentos
eclesiásticos, a regulamentação da conduta moral dos habitantes e dos apropriados
ensinamentos católicos para as comunidades escravizadas, entre outros assuntos,
marcaram presença no texto das constituições.
Por fim, grosso modo, pode-se destacar que as constituições marcaram um intento
de tradução das normas canônicas para uma realidade local (colonial brasileira). Sua
disseminação, entre as paróquias e lugarejos do Brasil, contudo, foi ainda adaptada pelos
vigários e outros clérigos de cada Vila, Freguesia ou Capela. Pensando na nossa
disciplina, vale dizer, as Constituições estabeleceram as diretrizes para produção
documental (sacramental/patrimonial/ litúrgica etc.) pelas penas dos agentes da Igreja.
Essa produção, por sua vez, foi marcada pela heterogeneidade das experiências
biográficas e sociais de seus atores e personagens.