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Capítulo I

Emoções por meio


das culturas

Neste livro, incluí tudo que aprendi a respeito de emoções durante os últimos
quarenta anos. Tudo que acredito ser útil para melhorar nossa vida emocional.
A maior parte do que escrevi tem o respaldo de minhas experiências científi-
I18 ou da pesquisa de outros cientistas, mas não tudo. Minha especialidade foi
pesquisar a leitura e mensurar as expressões faciais das emoções. Assim equi-
pado, tenho sido capaz de ver — nas fisionomias de estranhos, amigos e fami-
liares — sutilezas difíceis de perceber. Dessa maneira, aprendi muito, e aprendi
i pisas quase impossíveis de se provar por meio de experiências. Quando
M( revo com base em minhas observações, utilizo frases como "eu observei",
• li acredito", "tenho a impressão de que". Quando escrevo a partir de expe-
i i ' I H ias científicas, cito as fontes em notas finais.
Muito do que escrevi aqui foi influenciado por meus estudos intercultu-
i.iidc expressão facial. A evidência mudou para sempre minha perspectiva da
I o l o g i a , em geral, e da emoção, em particular. Essas constatações, em luga-
| i . i o diversos como Papna-Nova G u i n é . Estados U n i d o s , J a p ã o , Brasil,
\' ni ma, Indonésia e a. ex-Uniâo Soviética, conduziram minhas ideias a res-
Mltoda natureza da emoção.
No final dos anos 1950, início de minha pesquisa, n ã o estava interes-
||d() em expressões faciais. O que chamava minha atenção era a movimen-
lm IH <las mãos. Meu m é t o d o de classificar essa movimentação distinguia os
I' i. i.-iilcs neuróticos dos psicóticos deprimidos, indicando o quanto melho-
• i* m i com o tratamento . No início dos anos 1960, n ã o havia ferramentas
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A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES EMOÇÕES POR MEIO DAS C U L T U R A S

para medir direta e precisamente os complexos e variáveis movimentos I ni.mto, empolguei-me com o debate com relação ao argumento e de que não
faciais apresentados pelos pacientes deprimidos. Eu n ã o sabia por onde « i a apenas Darwin, cem anos antes, que se opunha a Mead, Bateson, Bir-
começar, n ã o tinha a menor ideia. Assim, n ã o prossegui com a pesquisa. ilwliistell e Hall. Não era uma questão morta. Havia u m argumento real entre
Vinte e cinco anos depois, após desenvolver uma ferramenta para medir o i lentistas famosos e respeitados. Aos trinta anos, eu tinha a oportunidade e os
movimento facial, voltei para aqueles filmes dos pacientes e fiz importantes recursos financeiros para tentar solucioná-lo: expressões são universais ou são,
descobertas, descritas no quinto capítulo. como os idiomas, específicas a cada cultura? Irresistível! Realmente n ã o
No ano de 1965, não teria começado a pesquisar expressão facial e emo- i m portava quem tinha razão, embora não achasse que seria Silvan*.
ção se não fossem dois golpes de sorte. Por acaso, a Agência de Projetos de No primeiro estudo, mostrei algumas fotografias para pessoas de cinco
Pesquisa Avançada (Advanced Research Projects Agency — Arpa), do Depar- países — Chile, Argentina, Brasil, Japão e Estados Unidos — e pedi para que
tamento de Defesa dos Estados Unidos, concedeu-me uma subvenção para li ligassem a emoção exposta em cada expressão facial. A maioria das pessoas
realizar estudos interculturais a respeito de comportamento n ã o verbal. Eu i liegou a uma mesma conclusão, o que indicou que as expressões podem real-
não tinha pedido a subvenção, mas, devido a u m escândalo — uma pesquisa mente ser universais . Carrol Izard, outro psicólogo que tinha sido orientado
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utilizada para camuflar atividades de contrainsurgência —, u m projeto impor-


por Silvan e estava trabalhando em outras culturas, fez quase a mesma expe-
tante da Arpa foi cancelado e o recurso destinado a ele tinha de ser gasto
riência e obteve os mesmos resultados . Tomkins não falou a nenhum de nós
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durante aquele ano em uma pesquisa no exterior e em algo não polémico. Por
a respeito do outro. Inicialmente, nos ressentimos quando descobrimos que
casualidade, fui ao escritório do homem que tinha de gastar o recurso. Ele era
não estávamos fazendo esse trabalho sozinhos, mas era melhor para a ciência
casado com uma tailandesa e estava impressionado com as diferenças referen-
que dois pesquisadores independentes descobrissem a mesma coisa. Aparen-
tes à comunicação não verbal. Quis que eu descobrisse o que era universal e o
lemente, Darwin tinha razão.
que era culturalmente variável. Inicialmente fiquei relutante, mas não conse-
Havia u m problema: como assumir que pessoas de diversas culturas che-
gui escapar do desafio.
garam à mesma conclusão a respeito de uma emoção quando tantas outras pes-
Elaborei o projeto acreditando que as expressões e os gestos eram social-
soas constataram exatamente o oposto? Não foram somente os viajantes que
mente aprendidos e culturalmente variáveis; pensamento compartilhado com
sustentaram que as expressões dos japoneses, chineses ou de outros grupos cul-
o primeiro grupo de pessoas que consultei: Margaret Mead, Gregory Bateson,
I urais tinham significados bem diferentes. Birdwhistell, respeitado antropólogo
Edward Hall, Ray Birdwhistell e Charles Osgood. Lembrei que Charles Darwin
especializado no estudo das expressões e gestos (pupilo de Margaret Mead),
tinha feito uma afirmação contrária, mas tinha tanta certeza de que ele estava
escreveu que abandonou as ideias de Darwin quando constatou que, em diversas
errado que não cheguei a ler seu livro.
culturas, as pessoas sorriam quando estavam tristes . A afirmação de Birdwhis- 5

O segundo golpe de sorte foi conhecer Silvan Tomkins. Ele tinha aca-
tell combinava com a visão dominante na antropologia cultural e em grande
bado de escrever dois livros a respeito de emoções, em que sustentava que as
expressões faciais eram inatas e universais à nossa espécie, mas ele não tinha
evidências para respaldar suas afirmações. Acho que nunca o teria conhecido
' I lescobri exalamente o oposto do que a c h e i que d e s c o b r i r i a . É o ideal. A s descobertas d a c i ê n -
se nós dois não tivéssemos apresentado artigos a respeito de comportamento r i n m m p n r t a t n e n t a l s ã o rn^is ronfiáypig q " ; " ^ " c« » p A « m ^ yf-fi r|e c o n f i r m a r as expectativas
dos cientistas. N a m a i o r i a dos c a m p o s c i e n t í f i c o s , o c o r r e exatamente o c o n t r á r i o ; as descobertas
não verbal para a mesma publicação ao mesmo tempo: u m estudo da fisiono-
M T . I O mais c o n f i á v e i s se previstas. Isso acontece devido à possibilidade de tendenciosidade ou
mia, de Silvan, e u m estudo do movimento corporal, de minha autoria . 2
ci ro ser verificada pela t r a d i ç ã o dos cientistas repetindo as e x p e r i ê n c i a s uns dos outros p a r a ver

Fiquei muito impressionado com a profundidade e amplitude do pensa- se o b t e r ã o os m e s m o s resultados. Infelizmente, a t r a d i ç ã o n ã o existe nas c i ê n c i a s c o m p o r t a m e n -
i.ns. A s e x p e r i ê n c i a s r a r a m e n t e se repetem, quer p o r cientistas que o r i g i n a l m e n t e r e a l i z a m o t r a -
mento de Silvan, mas considerei que sua convicção de que as expressões eram li.illio ou p o r outros. S e m essa salvaguarda, os cientistas c o m p o r t a m e n t a i s s ã o m a i s v u l n e r á v e i s
inatas e, portanto, universais pudesse estar errada, como a de Darwin. No a descobrir i n v o l u n t a r i a m e n t e somente o que eles q u e r e m achar.

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A I I N G U A G I M DAS t M O Ç O l S I Mi li, l II l'OR Ml l( > DAS l III I URAS

parte da psicologia: algo socialmente importante, tal como a expressão emocio- Minha iniciação na Idade da Pedra se deu por meio de Carleton Gajdu-
nal, deve ser fruto do aprendizado e, dessa maneira, diferente em cada cultura. i k, neurologista que vinha trabalhando há mais de uma década em lugares
Conciliei nossos resultados de que as expressões são universais com a i .tilados, nas regiões montanhosas de Papua-Nova Guiné. Ele estava tentando
observação de Birdwhistell de como elas diferem de uma cultura para outra, dtKObrir a causa de uma estranha doença (kuru) que estava matando quase a
criando a ideia de,rggras d'ê eiilbl^tt^. Essas, propus, são socialmente aprendi- metade da população. As pessoas acreditavam que era efeito de feitiçaria.
das, muitas vezes culturalmente diferentes, a respeito do controle da expres- I «liando cheguei ao local, Gajdusek já sabia que a causa era u m vírus lento, que
são, de quem pode demonstrar que emoção para quem e de quando pode fazer licava incubado por muitos anos antes da manifestação dos sintomas (a Aids é
isso. Eis por que, na maioria das competições esportivas públicas, o perdedor um vírus assim). Ele ainda não sabia como o vírus era transmitido; ao que se
não demonstra a tristeza e o desapontamento que sente. As regras de exibição constatou, era por meio do canibalismo. Essas pessoas não comiam os i n i m i -
estão incorporadas na advertência dos pais: "pare de parecer contente". Essas gos, que provavelmente gozavam de boa saúde se morriam em combate, mas
regras podem ditar a diminuição, o exagero, a dissimulação ou o fingimento os amigos, que morriam de algum tipo de doença, muitos dos quais vítima de
da expressão do que sentimos . 6 kuru, por exemplo. Elas não coziam os mortos antes de comer e, assim, as
Testei essa formulação em uma série de estudos que mostram que, doenças eram transmitidas de imediato. Alguns anos depois, Gajdusek
quando sozinhos, japoneses e norte-americanos exibem as mesmas expressões ganhou o prémio Nobel pela descoberta dos vírus lentos).
faciais ao assistir a filmes de cirurgias ou acidentes, mas quando um cientista Gajdusek percebeu que as culturas ancestrais desapareceriam em breve
estava perto, os japoneses, mais que os norte-americanos, mascaravam as e, assim, ele registrou a rotina das pessoas de duas dessas culturas em muitas
expressões negativas com u m sorriso. Em particular, expressões inatas; em horas de filme. Ele nunca tinha visto a projeção; levaria quase seis semanas
público, expressões controladas . Como o comportamento público é o mais
7 para assistir a somente uma delas. Foi quando apareci.
observado pela maioria dos antropólogos e viajantes, tive minha explicação e Satisfeito HP qnp alguém tivesse uma razão científica para querer exami-
evidência de seu funcionamento. Em comparação, os gestos simbólicos — tais nar seus filmes, Gajdusek emprestou-me as cópias^ Meu colega Wally Friesen
como a cabeça que faz que sim com um movimento, a que faz que não com u m e eu passamos seis meses examinando-os cuidadosamente. Os filmes conti-
balanço e o gesto de positivo com o polegar — são realmente específicos à nham duas provas m u i ^ ç o n y i n c e n t e s da universalidade das expressões
cultura . Nesse caso, Birdwhistell, Mead e a maior parte dos outros cientistas
8 faciais das^ vimos uma expressão estranha. Se as
comportamentais tinham razão, ainda que estivessem errados a respeito das expressões faciais fossem completamente aprendidas, então esses povos isola-
expressões faciais das emoções. dos deveriam ter as próprias expressões originais, que nunca tínhamos visto
Havia uma brecha capaz de afetar minhas descobertas, e, se pude antes. Não havia nenhuma.
enxergá-la, Birdwhistell e Mead também poderiam. Todas as pessoas que eu e Ainda era possível que essas expressões familiares representassem emo-
Izard havíamos estudado podiam ter aprendido o significado das expressões ções muito diferentes. No entanto, embora os filmes nem sempre revelassem o
faciais ocidentais assistindo a Charlie Chaplin e John Wayne numa tela de antes e o depois de uma expressão, quando revelavam, confirmavam nossas
cinema ou tevê. O contato com a mídia ou com outras culturas pode explicar interpretações. Se as expressões indicassem emoções diferentes em cada cul-
por que pessoas de culturas diferentes chegaram a uma mesma conclusão a res- tura, essas sociedades isoladas, sem nenhuma familiaridade com qualquer
peito das emoções das fotografias que eu mostrava. Eu precisava de uma cultura cultura a não ser a própria, não deveriam ser capazes de interpretar as expres-
visualmente isolada, onde as pessoas nunca tivessem visto u m filme, um pro- sões corretamente.
grama de tevê ou uma revista e que possuíssem pouco conhecimento de estran- Procurei imaginar como Birdwhistell e Mead questionariam essas afir-
geiros. Se chegassem às mesmas conclusões das pessoas do Chile, da Argentina, mações. Achei que eles diriam: "Não importa que não haja novas expressões;
do Brasil, do Japão e dos Estados Unidos, eu teria acertado em cheio. aquelas que vimos realmente possuem significados diferentes. Percebemos

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porque estávamos prevenidos pelo contexto social em que ocorreram. Nunca .lados por Silvan para meus estudos de culturas letradas. (Abaixo, na página
vimos uma expressão removida do que estava acontecendo antes, depois ou ao 17, h á três exemplos.) Também levei fotografias de algumas pessoas do po-
mesmo tempo. Se tivéssemos visto, não saberíamos o significado dela". Para vo.ido, selecionadas do filme, achando que eles poderiam sentir alguma difi-
fechar essa brecha, trouxemos Silvan, da costa Leste, para passar uma semana • ii l« I .ii lo para interpretaras expressões dos caucasianos. Preocupei-me que eles
em meu laboratório. talvez não fossem capazes de entender as fotografias, uma vez que nunca as
Antes de sua chegada, editamos os filmes. Dessa maneira, ele veria ii i i . m i visto antes. Alpuns antrppójripas_sustentavam que as pessoas que
somente a própria expressão, removida do contexto social, apenas doses de um nunca tinham visto fotografias precisavam aprender a interpretá-las. Mas os
rosto. Silvan não teve nenhum problema. Todas as suas interpretações combi- lure nào tiveram esse problema. Imediatamente, eles entenderam as fotogra-
navam com o contexto social que ele não havia visto. Além disso, Silvan sabia n i . , c, aparentemente, não fez muita Hifprpnra ajTSHoTTaTTflade ua pessoa, fore
exatamente como obteve a informação. Wally e eu podíamos perceber a men- mi i r americana. O problema foi o que pedi para eles fazerem.
sagem emocional transmitida por cada expressão, mas nossos julgamentos se fl^^fjpjjjjjãjgjmJtam Assim, não podia pedir que eles
baseavam na intuição. Em geral, não podíamos especificar o que, na fisiono- I I I iilhessem, entre uma lista, uma palavra que combinasse com a emoção
mia, transmitia a mensagem, a não ser que fosse um sorriso. Silvan caminhou I X D i » t a . Se fosse para eu ler para eles uma lista de palavras, teria de me preo-
até a tela de projeção e mostrou exatamente os movimentos musculares espe- i up.ii com a memória deles, e se a ordem de leitura das palavras influenciava
cíficos que indicavam a emoção. i .i o l h a . Em vez disso, nedi que ejf <= r r i a s s e m upst história a respeito de cada
Também perguntamos a respeito da impressão geral dele sobre essas duas expressão facial. "Djga_-rne o que está acontecendo, agora, o que aconteceu
culturas. Um grupo parecia muito amistoso, Silvan disse. O outro era explosivo, untes para fazer essa pessoa mostrar essa expressão e o que vai acontecer
de caráter muito desconfiado, paranóico e homossexual. Ele estava descrevendo drpoix." Foi extremamente difícil. Não tenho certeza se foi o processo de tra-
o grupo dos anga. Sua descrição combinava com a de Gajdusek, que tinha tra- .IIK,.IH, ou o fato de que eles sequer imaginavam o que eu queria ouvir ou o
balhado junto com eles. Os anga tinham atacado seguidamente os representan- mui Ivo de tudo aquilo. Talvez criar histórias a respeito de estranhos era ape-
tes do governo australiano que tentaram manter um posto ali. Eles eram conhe- n a s algo incomum entre os fore.
cidos por sua desconfiança feroz. Os homens eram homossexuais até o Eu consegui minhas histórias, mas as pessoas levaram muito tempo para
casamento. Alguns anos depois, o etnólogo Irenáus Eibl-Eibesfeldt teve literal- elaborá-las. Ficávamos exaustos após cada sessão. No entanto, não faltaram
mente de correr para salvar sua vida quando tentou trabalhar com eles. Voluntários, ainda que tenha se espalhado a notícia de que o que estava
Depois desse encontro, decidi me dedicar ao estudo das expressões Btdlndo não era fácil de fazer. Havia u m poderoso incentivo para observar
faciais. Iria para a Nova Guiné e procuraria evidências para respaldar o que minhas fotografias: eu oferecia para cada pessoa uma barra de sabão ou u m
supunha, ou seja: ao menos algumas expressões faciais são universais. Além maço de cigarros pela ajuda. Eles não tinham sabão e cultivavam seu próprio
disso, trabalharia para desenvolver um modo objetivo de medir o comporta- tabaco, que fumavam em cachimbos, mas, aparentemente, gostaram mais dos
mento facial, para que qualquer cientista pudesse objetivamente obter desse meus cigarros.
movimento aquilo que Silvan conseguia ver de forma tão aguçada. A maioria das histórias combinava com a emoção descrita em cada foto-
No final de 1967, fui para South East Highlands, Nova Guiné, para pes- I.I.Ilia. Por exemplo, ao observar u m retrato descrevendo o que as pessoas em
quisar o povo fore, que vivia em pequenas aldeias dispersas, em uma região . iilimas letradas julgariam tristeza, os fore afirmavam com frequência que o
montanhosa a dois m i l e cem metros de altitude. Não sabia a língua dos fore, Alho da pessoa tinha morrido. No entanto, o ato de contar histórias era desa-
mas, com a ajuda de alguns meninos que tinham aprendido pidgin em uma ii Itado, e provar que histórias diferentes combinavam com uma emoção espe-
escola missionária, conseguia ir do inglês ao fore, passando pelo pidgin, e iln i não seria fácil. Eu sabia que tinha de fazer de modo diferente, mas não
vice-versa. Levei comigo retratos de expressões faciais, a maioria dos quais sabia como.
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Eu t a m b é m filmei expressões espontâneas e fui capaz de captar o olhar nenhuma faca, machado ou arco. U m porco-do-mato está parado na porta
alegre dos moradores de uma aldeia vizinha quando encontravam seus ami- d l casa e o homem(mulher) está olhando para o animal e sente muito medo.
gos. Registrei dois homens tocando instrumentos musicais e, em seguida, fil- () porco-do-mato já está parado na entrada há alguns minutos e a pessoa o
mei sua surpresa e encanto quando, pela primeira vez, ouviram suas vozes e a observa com muito temor, e o animal não se afasta da porta e ele(a) receia
música saindo de u m gravador. Até apunhalei um menino com uma faca de que o porco vá mordê-lo(a)".
borracha que tinha trazido comigo, enquanto minha câmera registrava sua Criei conjuntos de três retratos, que seriam mostrados durante a leitura
reação e as de seus amigos. Eles consideraram uma boa brincadeira (tive o de uma das histórias (exemplo abaixo). O entrevistado só teria de indicar o
bom senso de não tentar travessuras com um dos adultos). Essas cenas podiam retrato. Criei diversos conjuntos de retratos; não queria que nenhum apare-
não servir como evidência, pois quem concebe as expressões como diferentes l eiSC mais de uma vez, para que a escolha da pessoa não fosse feita por exclu-
em cada cultura poderia sustentar que eu havia selecionado poucas ocasiões são: "Ah, essa foi quando a criança morreu e essa foi quando eu disse que ela
em que as expressões universais eram expostas. •Stava a ponto de lutar; então, essa deve ser a respeito do porco-do-mato".
Deixei Nova Guiné depois de alguns meses. Não foi uma decisão difícil,
pois estava sedento de conversa, algo que não conseguia ter com ninguém dos
fore, e de comida — errei ao pensar que apreciaria a culinária local. Inhames
e algo parecido com a parte do aspargo que descartamos brotavam em todos
os cantos. Era uma aventura, a mais empolgante da minha vida, mas ainda me
preocupava, pois não havia sido capaz de obter evidências definitivas. Sabia
que essa cultura não ficaria isolada por muito mais tempo, e já não existiam
muitas como essa espalhadas pelo mundo.
De volta para casa, encontrei uma técnica usada pelo psicólogo John
Dashiel, na década de 1930, para estudar como as crianças conseguiam inter-
pretar as expressões faciais. Elas eram muito novas para ler e, assim, ele não
podia apresentar-lhes a uma lista de palavras. Em vez de pedir uma história
—^como havia feito em Nova Guiné —, Dashiel, de moao inteligente, leujfera
as crianças uma história e lhes mostrou um conjunto rir rrtrntm Turln o qnr- N o final de 1968, voltei para Nova Guiné com minhas histórias e retratos
elasjinham de tazerera escolher aquele que combinava com a história. Sabia I uma equipe de colegas para ajudar na coleta de dados (dessa vez, t a m b é m
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que, no meu caso, isso funcionaria. Reli as histórias que os fore tinham criado, levei comida enlatada). Suponho que nosso retorno foi anunciado, pois, além
selecionando aquelas que tinham aparecido com mais frequência para cada de ' íajdusek e seu cineasta, Richard Sorenson, que me ajudara muito no ano
tipo de expressão emocional. Eram muito simples: "Os amigos chegaram e ele IDtei ior, pouquíssimas pessoas de fora visitavam os fore. Viajamos para algu-
está feliz; ele está furioso e prestes a lutar; o filho morreu e ela está muito triste; mas aldeias, mas, assim que se espalhou a notícia de que o que estávamos
ele está olhando para algo que não gosta; ela está olhando para algo que cheira pedindo era muito fácil de fazer, pessoas de aldeias mais distantes começaram
mal; ele agora está olhando para algo novo e inesperado". .i .i pa i ocer. Elas gostavam da tarefa e ficaram encantadas também com o sabão
Houve u m problema com a história mais frequente, referente ao medo, • >i', igarros.
(

a respeito do perigo representado por u m porco-do-mato. Tive de mudá-la, Tomei especial cuidado para assegurar que n i n g u é m em nosso grupo
para reduzir o impasse entre surpresa e raiva. Ficou assim: "Ele(a) está em lUgei Isse involuntariamente o retrato correto aos entrevistados. Os conjuntos
sua casa sozinho(a) e não há mais n i n g u é m na aldeia. Ele(a) n ã o tem de retratos foram montados sobre páginas transparentes, com um código

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EMOÇÕES POR MEIO DAS C U L T U R A S
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escrito no verso de cada um, que podia ser visto na face posterior da página. 11 n i versitários nos Estados Unidos. Se as expressões fossem específicas à cultura,
Não sabíamos e fazíamos questão de n ã o descobrir os códigos referentes a esses estudantes não seriam capazes de interpretar corretamente as expressões.
cada expressão. Em vez disso, a página seria virada na direção do entrevistado, M . i s eles identificaram corretamente a emoção, exceto as poses de medo e sur-
arranjada de modo que o coletor de dados não fosse capaz de ver o que havia presa, que também tendiam a denominar medo ou surpresa, da mesma forma
na frente. A história seria lida, o entrevistado indicaria o retrato e u m de nós que os fore. A seguir, quatro exemplos de poses de emoções dos fore.
anotaria o número do retrato escolhido pelo entrevistado*.
Em poucas semanas, entrevistamos mais de trezentas pessoas, cerca de 3%
de indivíduos pertencentes a essa cultura, u m número mais que suficiente para
uma análise estatística. Os resultados foram muito bem definidos para felici-
dade, raiva, aversão e tristeza. Medo e surpresa não se distinguiram um do
outro. Quando as pessoas escutavam a história a respeito do medo, escolhiam
muitas vezes a surpresa como uma expressão de medo, e vice-versa. Mas esses
sentimentos eram diferenciados com relação à raiva, aversão, tristeza e felici-
dade. AjéJiQJe, não sei por que medo e surpresa não eram diferenciados entre si.
pode tffr sido " m problema com as histórias, ou talvez essas duas emoções se
m^stui^DiJãpJ^ vida dessas pessoas que n^o são tj j|erenaadãS.
Nas culturas letradas, medo e surpresa são diferenciados u m do outro . 10

Nenhum dos nossos entrevistados, exceto vinte e três, tinha visto filmes,
televisão ou fotografias. Eles n ã o falavam ou entendiam inglês ou pidgin,
nunca tinham vivido em nenhum povoamento ocidental ou cidade com
governo e nunca tinham trabalhado para um caucasiano. As vinte e três exce-
ções tinham visto filmes, falavam inglês e tinham frequentado uma escola
missionária por mais de u m ano. N ã o ^ d s t i a m diferenças entre os entrevista-
dos^que tinham pouco contato com o mundo, exterior e os que tinham, nem
entre homens e mulheres.
Fizemos mais uma experiência, que não foi tão fácil para nossos entrevis-
tados. JJrrijtasjx^aj^^ leu para os entrevistados uma
dasjustórtas e pe4iuj3ara que eles mostrassem sua fisionomia se fossem a pessoa
n3 friglória Pu filmpi j ^ £ g j i o v e _ h o m e n s ta^finrlo ' A ; nenhum deles havia
c e

participado do primeirojestudo. Os vídeos, sem edição, foram apresentados a

* A p e s a r de nosso c u i d a d o , u m desses estudiosos c o m p r o m e t i d o s c o m a c o n c e p ç ã o de que as


e x p r e s s õ e s s ã o a p r e n d i d a s e m vez de inatas a f i r m o u , q u i n z e anos depois, que, de a l g u m a forma,
p r e v e n i m o s aos nossos entrevistados a respeito de qual retrato escolher. E l e n ã o sabia c o m o ,
apenas a c h a v a que fizemos isso, pois n ã o conseguia r e n u n c i a r ao seu c o m p r o m i s s o de acreditar
que as e x p r e s s õ e s s ã o e s p e c í f i c a s à cultura. RAIVA AVERSÃO

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Em 1969, na conferência nacional anual de antropologia, comuniquei < hitra crítica desmereceu nossa pesquisa na Nova Guiné, alegando que
nossas descobertas. Muitos pesquisadores ficaram insatisfeitos. Eles estavam Utilizamos histórias descrevendo uma situação social, em vez de palavras úni-
convencidos de que o comportamento humano é todo aprendido e nada tem a I s s a crítica presumiu que emoções são palavras, o que, é claro, não são.
ver com a natureza; as expressões devem ser diferentes em cada cultura, ape- \s são representações das emoções e não as próprias emoções. A
sar de minhas evidências. O fato de que eu tinha descoberto diferenças cultu- • IH' i n é um processo, u m tipo específico de avaliação automática, influen-
rais no controle das expressões faciais em meu estudo a respeito dos japoneses Irtdo por nosso passado evolucionista e pessoal, em que sentimos que algo
e norte-americanos não foi o suficiente. Importante para nosso bem-estar está acontecendo e um conjunto de mudan-

A melhor maneira de dissipar as dúvidas seria repetir todo o estudo em i ii n ilógicas e comportamentos emocionais influenciam a situação. As pala-

outra cultura isolada e pré-letrada, e o mais indicado era que outra pessoa •' In uma maneira de lidar com nossas emoções. Usamo-las quando nos

fizesse isso, de preferência alguém que quisesse demonstrar meus erros. Se IHi.imos, mas não podemos reduzir a emoção a palavras.
essa pessoa descobrisse o que eu descobri, isso reforçaria muito nosso argu- Ninguém sabe exatamente a mensagem que obtemos automaticamente
mento. Mais u m golpe de sorte, e o antropólogo Karl Heider fez exatamente i " M I a expressão facial de alguém. Desconfio que palavras como raiva e
isso. Voltou depois de passar alguns anos estudando os dani, outro grupo iso- In não sejam as mensagens usuais transmitidas quando estamos na si-
lado localizado no que é atualmente denominado Irião Ocidental, parte da iii i.,.IH Utilizamos essas palavras quando falamos acerca das emoções. Na
Indonésia". Ele me disse que devia haver algo errado com minha pesquisa, i " iloi ia dos casos, a mensagem obtida é mais parecida com a que temos em
pois os dani não tinham nem mesmo palavras para as emoções. Dei-lhe todos Itii as histórias; não uma palavra abstrata, mas algum indício do que a pessoa
os meus materiais de pesquisa e o ensinei a realizar a experiência quando ele n i i i i a seguir, ou o que fez a pessoa sentir a emoção.
voltasse aos dani. Seus resultados reproduziram perfeitamente minhas desco- i lutro tipo muito diferente de evidência também respalda a afirmação de
bertas, até mesmo a incapacidade de diferenciar o medo e a surpresa . 12 i ' ii w iii d e que as expressões faciais são universais, produtos de nossa evolução.

Njjç^obstante, atéhpjf, nem t " ^ " " antrpp" "g"s, s,p r


6 c 1 n n v p nferam Sa uw «»qn< «M~M n - o ã o p r e r i s a r p ser aprendidas. aqueles que nasceram^éjjos^

tjLmbén^dgUnS psicólogos, interessados p r j p r í p a W n t e Pm qnpstõ^ linha-


^^PUiianifestar expressões similares às daqueles indivíduos dotados de visão. £_$LÍyS~)
gem, quê reclamam Q U e n O S S » trflpalhp n « /-iilfnrac ]pjj^HagjF»rnj^|p p p H i m n s Diversos estudos foram realizados nos q|timos sessenta anos, e isso foi consta
para as pessoas identificarem as palavras assQaadas^^m"cfje< nas expressões, repetidamente, em partienfrr para expressões feg|fc f T " " ^ " " ^ ' 4

não respaldam uma proposição universal, poisas palavras para cada emoção não Nossas descobertas interculturais impulsionaram investigações referen-
apresentam traduções perfeitas Naturalmente, o modo pelo qual as emoções são
s
i. i dlvei sas outras perguntas a respeito de expressões faciais: quantas expres-
representadas na língua é produto da cultura, e não da evolução. No entanto, em r. pessoas podem fazer? As expressões fornecem informações precisas ou
estudos atuais de mais de vinte culturas letradas ocidentais e orientais, o julga- it)l Mi'.-.as? Todo movimento facialé sinal de uma emoção? As pessoas podem
mento da maioria sobre qual emoção corresponde a tal expressão é o mesmo. u m i oin suas fisionomias do mesmo jeito que com as palavras? Havia
Apesar dos problemas de tradução, nunca houve um caso em que a maioria, em i i oisa a fazer, muita coisa a descobrir. Atualmente, há respostas para
duas culturas, atribuísse uma emoção diferente à mesma expressão. Nunca. luil is essas perguntas, e outras mais.
Obviamente, nossas descobertas não se limitam a estudos em que as pessoas I )cscobri quantas expressões uma face é capaz de fazer: mais de dez m i l . •>#
rotulam uma fotografia com apenas uma palavra. Na Nova Guiné, utilizamos i MI disso, identifiquei aquelas que, aparentemente, sao mais centrais para as
histórias a respeito de um evento emocional. Também apresentamos poses de ,(" •• Mais de vinte anos atrás, Wally Friesen e eu escrevemos o primeiro
emoções. No Japão, medimos o próprio comportamento facial, mostrando que, ii! i .l.i lace, uma descrição sistemática em palavras, fotografias e filmes de
quando as pessoas estavam sozinhas, os mesmos músculos faciais se moviam ao uniu o movimento facial em termos anatómicos. Como parte dessa
assistir uni filme desagradável, quer a pessoa fosse japonesa ou norte-americana. 1 tive de aprender a lazer cada movimento muscular em minha própria
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES EMOÇÕES POR MEIO DAS C U L T U R A S

face. Às vezes, para verificar que o movimento feito devia-se a u m músculo Quando já tinha escrito mais da metade deste livro, tive a oportunidade
específico, ^nfiavajima agulha_ejn,mJBhafa£e_para estimular eletricamente e dl i onversar por cinco dias a respeito de emoções destrutivas com Sua Santi-
contrair o músculo, produzindo uma expressão. Em 1978, nossa ferramenta dade, o Dalai Lama. Havia seis outros participantes — cientistas e filósofos
para medir a face — o Sistema de Codificação da Ação Facial (Facial Action que apresentaram suas ideias e participaram da discussão . O aprendizado
18

Coding System — FACS) — foi publicada, e, atualmente, está sendo usada por .1 respeito do trabalho deles e as discussões forneceram-me novas ideias, que
centenas de cientistas de t õ a o o m u n d o com a mesma finalidade, e os cientis- nu liu aqui. Pela primeira vez, aprendi a respeito da concepção budista tibe-
tas da computação estão trabalhando ativamente para automatizar e acelerar i .H ia da emoção, uma perspectiva muito diferente da que sustentamos no Oci-
essa medição . 15 dente. Fiquei surpreso com o fato de que as ideias que desenvolvi nos Capítu-
Desde então, utilizei o Sistema de Codificação da Ação Facial para estu- los 2 e 3 eram, em parte, compatíveis com a concepção budista, e essa
dar milhares de fotografias e dezenas de milhares de expressões faciais filma- " i n epção sugeriu ampliações e refinamentos de minhas ideias, que me leva-
das ou gravadas em vídeo, medindo cada movimento muscular em cada I.IIII a reescrever aqueles capítulos em alto grau. Mais que tudo, aprendi a
expressão. Aprendi a respeito da emoção medindo as expressões de pacientes ftipeito dos diversos níveis, do experiencial ao intelectual, e acredito que o
psiquiátricos e as de pacientes com doenças coronárias do coração. Estudei li \i s e beneficiou de todo esse aprendizado . Este não é u m livro a respeito
19

pessoas saudáveis, quando aparecem em telejornais, tais como os da C N N , e • la i oncepção budista da emoção, mas, às vezes, menciono pontos em comum.
em experiências em meu laboratório, nas quais provoquei emoções. Uma das novas áreas de pesquisa em evidência é a observação dos meca-
Nos últimos vinte anos, colaborei com outros investigadores para apren- in|mos cerebrais da emoção . O que escrevi é permeado por esse trabalho,
20

der o que ocorre dentro do corpo e do cérebro quando uma expressão emocio- pai ainda não sabemos o suficiente a respeito do cérebro para responder mui-
nal se manifesta na face. Assim como existem diferentes expressões para raiva. tas d a s perguntas aqui discutidas. Sabemos muito acerca do comportamento
medo, aversão e tristeza, aparentemente h á perfis diferentes de m u d a n ç a s < m i n ional, o bastante para dar respostas a algumas das perguntas mais fun-
fisiológicas riosórgãos que geram ggatiaaaBtol 'íni^"" pa,™ cada emoção. il.mu-ntais a respeito do papel das emoções em nossa vida cotidiana. Os pró-
Nesse momento, a ciência está determinando os padrões da atividade cerebral nmos capítulos estão baseados em minha pesquisa sobre o comportamento
que são a base de cada emoção . 16 • i i H H ional, depois de examinar pessoas em diversas situações emocionais e
Ao utilizar o Sistema de Codificação da Ação Facial, identificamos os . t u diferentes culturas. A partir disso, refleti sobre o que considero que as
sinais faciais que denunciam a mentira. O que denomineffifcroexpressões^y- pessoas precisam saber para entender melhor suas emoções.
movimentos faciais muito rápidos, que duram menos de u m quinto de Embora minhas pesquisas e as descobertas dos outros forneçam a base
segundo — são fonte importa.p*" * ^ç.aname.nto
H< revelando uma emoção que • lo que descrevo neste livro, f u i além do que foi provado cientificamente,
\ pessoa está tentando ocultar. Uma(^xpressão fals^node ser denunciada de nu luindo t a m b é m o que acredito ser verdade, mas que ainda não está pro-
diversas maneiras: em geral, é levementeassimétrica e carece de uniformjdade vado. Tratei de algumas questões acerca do que desejam saber as pessoas que
dajçrrma que flui ae vez em quando da face. Meu trabalho a respeito da men- pioi uram melhorar sua vida emocional. A elaboração deste livro me deu
tira me colocou em contato com juízes, policiais, advogados, o FBI, a CIA, o novos entendimentos acerca das emoções, e espero que aconteça o mesmo
ATF (Bureau ofAlcohol Tobacco and Firearms) e órgãos similares, em alguns você.
países amistosos. Ensinei a todas essas pessoas como determinar com mais
precisão se alguém está dizendo a verdade ou mentindo. Esse trabalho tam-
bém me deu a oportunidade de estudar as expressões faciais e emoções de
espiões, assassinos, fraudadores, criminosos, líderes nacionais estrangeiros e
outros, que u m professor não teria contato normalmente . 17

32 33
Q U A N D O NOS EMOCIONAMOS?

Capítulo 2 Sl não pudermos eliminar ou mudar nossa reação com relação a um gatilho,

Quando nos emocionamos?


I " ideremos, ao menos, enfraquecer seu poder e não reagir inadequadamente?
Hssas perguntas não surgiriam se nossa reação fosse a mesma diante de
l l g u m acontecimento; se todo evento ativasse a mesma emoção em todos
IH ii Sem dúvida, esse não é o caso: algumas pessoas sentem medo de altura,
DUtras, não; algumas pessoas choraram a morte da princesa Diana como se
• la losse u m parente p r ó x i m o , enquanto outras n ã o se importaram. No
• ni.i n l o , há alguns gatilhos que geram a mesma emoção em todos. Acidentes
i l , ,n r o eminentes, por exemplo, invariavelmente desencadeiam u m ins-
JÊÊÊÊÊÊ i.inic de medo. Como isso acontece? Como cada u m de nós adquire o p r ó -
|n IH i onjunto de gatilhos emocionais e, ao mesmo tempo, apresenta a mesma
i. içfto emocional das outras pessoas em relação a outros gatilhos? Quase
iiiilos sentem medo se a cadeira em que estão sentados quebra repentina-
Durante quase todo tempo (para algumas pessoas, o tempo todo), nossas ir. mas algumas pessoas sentem medo de avião, outras, não. Comparti-
emoções nos atendem bem e nos mobilizam para lidar com o que é mais lli.unos alguns gatilhos da mesma forma que compartilhamos as expressões
importante na vida, permitindo-nos diversos tipos de satisfações. No I Li i .i i .ida emoção. No entanto, há gatilhos que não são específicos à cultura,
entanto, às vezes, nossas emoções podem nos deixar em apuros. Isso acon- m a s ,io indivíduo. Como adquirimos gatilhos emocionais indesejados? Essas
tece quando temos reações emocionais i m p r ó p r i a s : podemos sentir e |0 ai perguntas abordadas neste capítulo. Precisamos saber as respostas
demonstrar a emoção correta, mas com intensidade errada, por exemplo: a m i ' i de enfrentar a questão prática do próximo capítulo: podemos mudar o
preocupação se justifica, mas reagimos exageradamente e nos apavoramos. qui al iv.i nossas emoções?

Ou, então, podemos sentir a emoção apropriada, mas a demonstramos de I ilifícil responder a essas perguntas, pois não temos acesso à cabeça de

modo errado, por exemplo: a raiva era legítima, mas ficar em silêncio foi IH na p e s s o a para encontrar as respostas, e nem sempre podemos encontrar as
n ipoitas simplesmente perguntando por que ou quando as pessoas se emo-
contraproducente e infantil. No quarto capítulo descrevo como podemos
a n i . Há técnicas de imagens cerebrais, como a Imagem por Ressonância
mudar essas reações emocionais impróprias: intensidade ou modo errado de
Magnética funcional (IRMF), em que a cabeça é posta dentro de uma bobina
expressar a emoção. Aqui, e no terceiro capítulo, destaco u m terceiro tipo de
magnética e são produzidas imagens das partes ativas do cérebro em períodos
reação emocional inadequada, que é mais difícil de mudar, e que é ainda
ili iliir, a três segundos. Infelizmente, é u m tempo muito longo para o estudo
pior que as duas primeiras. N ã o que a reação seja muito intensa, nem que o
• I. gem das emoções, pois elas frequentemente começam em menos de u m
modo de expressá-la seja incorreto. Acontece que, em geral, sentimos a emo-
|Undo. E mesmo se a IRMF tivesse a resolução de tempo correta, não adian-
ção errada. O problema não é que ficamos muito assustados ou que demons-
i H 11 puis ela simplesmente identifica que estruturas cerebrais estão ativas, e
tramos isso de forma errada; o problema é, como percebemos depois, que
n i " a ahvidade específica.
não deveríamos ter ficado com medo.
Embora ainda não exista a evidência científica para responder como os
Por que uma emoção imprópria seria ativada? Podemos eliminar com- i 11111H is emocionais se estabelecem em nosso cérebro e se podemos eliminá-los
pletamente u m gatilho emocional? Por exemplo, quando alguém fura a fila na i l.iIvo/ essas respostas só surjam daqui a décadas —, algumas aproxima-
nossa frente, não nos enfezamos? Ou podemos mudar nossa reação emocio- va podem sor feitas a partir da análise criteriosa de como e quando as pes-
nal, ficando desdenhosos ou satisfeitos em vez de irritados em situações assim? niii'. •!• l o m p o r t a m de modo emocional. As respostas que posso sugerir,

34 35
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES Q U A N D O NOS EMOCIONAMOS?

embora tentativas, podem nos ajudar a lidar melhor com nossas emoções e Ml 1 01 grandes músculos das pernas. Observe que você teria feito aquela
com as reações emocionais dos outros. • (| ircHsão facial mesmo se não houvesse ninguém sentado no carro, da mesma
Não nos emocionamos com tudo; não estamos sob o domínio das emo- l .i que seu coração bateria mais rápido se você não se envolvesse em algum
ções todo o tempo. As emoções vão e vêm. Sentimos uma emoção em u m i ilorço físico repentino, exigindo maior circulação sanguínea. Essas respostas
momento e podemos não sentir nenhuma em outro. Algumas pessoas são bem '.(iii porque, ao longo de nossa evolução, se tornou útil para os outros
mais emocionais que outras (ver a conclusão), mas, mesmo as pessoas mais i l " i quando sentimos perigo e, também, estar preparado para fugir em oca-
emotivas têm momentos em que não sentem nenhuma emoção. Alguns cien- HIIH-. assim.
tistas afirmam que sempre há alguma emoção ocorrendo, mas ela é muito sutil \ e m o ç õ e s nos preparam para lidar çom eventos importantes sem pre-
para que a percebamos ou para que afete nossas ações. Se for tão pequena, g a i m o s pepifia/ q»" tàiU, V r " ^ não teria sobrevivido ao acidente automo-
imperceptível, penso que podemos muito bem dizer que esses são momentos i 11' tico se parte de você não estivesse monitorando o mundo continuamente
em que não há emoção (casualmente, mesmo aqueles que acham que estão • in busca de sinais de perigo. Nem teria sobrevivido se você tivesse de pensar
sempre sentindo alguma emoção reconhecem que nem sempre é a mesma. • • mm lentemente a respeito do que deveria fazer para enfrentar o perigo assim
Assim, eles também enfrentam o problema de explicar por que sentimos uma • |n. • Ir IK ou evidente. As emoções fazem isso sem seu conhecimento, e, na
emoção em um momento e outra depois). Mi das vezes, isso é bom para você.
Dado que nem todo minuto da vida é emocional, a pergunta permanece: 11 ig<> q u e o perigo passou, você ainda sentiria o medo. O tempo necessário
Por que nós nos emocionamos? As emoções normalmente ocorrem quando l i r a j u e a intepsidade dessas sensações diminua é de dez a quinze segundos, e
sentimos, justificaidamente ou por engano, que algo que afeta seriamente M i " luiveria muito que fazer para interromper esse processo. jAjmmgáai p KÍp- rr

nosso bem-estar, paia llielliui uu plUl, 6Stà acontecendo ou prestes a acontecer. lewyflud^nças nas partes do rérebrq q u e nos mobilizam para lidar com o que
Não é o único motivo de emoção, mas é muito importante, talvez o mais ^ B a g r o u a erupção assim como mudanças em nosso sistema nervoso autô-
básico. Assim, enfoquemos esse caminho (posteriormente, descrevo oito n que regula o batimento cardíaco, a respiração, a transpiração e muitas
outros para geração da emoção). É uma ideia simples, mas fundamental: as itlti ' alterações corporais, preparando-nos para diversas ações. As emoções
emoções se desenvolvem e nos preparam para lidar rapidamente com eventos I " tu enviam sinais, mudanças nas expressões, na face, na voz e na postura
essenciais de nossas vidas. tu poial. Não escolhemos essas mudanças: elas simplesmente acontecem.
Lembre-se de u m momento em que você estava dirigindo e, de repente, Quando a emoção é forte e surge repentinamente, como no exemplo do
outro carro apareceu, em alta velocidade, prestes a colidir com o seu. Sua i, n o s s a memória do episódio emocional, depois disso, não será muito
mente consciente estava concentrada em uma conversa interessante com u m i- i i \H r não consegue saber o que seu cérebro fez, que processos foram
amigo no assento do passageiro ou em um programa de rádio. Em u m ins- livob Idos no reconhecimento do perigo representado pelo outro carro. Você
tante, antes de você ter tempo para pensar, antes da parte consciente de sua i Hl q u e virou o volante e pisou no freio, mas provavelmente não perceberia
mente poder considerar a questão, o perigo foi sentido e o medo apareceu. i i expressão atravessou seu rosto. Você teria sentido algumas das sen-
No momento em que uma emoção começa, ela se apodera de você nos iii seu corpo, mas seria difícil encontrar palavras para descrevê-las. Se
primeiros milésimos de segundo, comandando o que você faz, diz e pensa. • " • quisesse saber como conseguiu sentir o perigo enquanto estava concen-
Sem escolher fazer isso, você vira o volante automaticamente para evitar a i' i d o ii.i n a conversa ou na música do rádio do carro, você não seria capaz de
colisão, pressionando o pedal do freio com o pé. Ao mesmo tempo, uma 1 "' l i a como testemunhar ou direcionar os processos que salvaram sua
expressão de medo atravessa seu rosto: sobrancelhas levantadas e unidas, iil i l sua característica maravilhosa de nossas emoções — que elas podem, e
olhos arregalados e boca esticada para trás, na direção das orelhas. O coração Mni.ilmpnt»rnm<»i-am tem nossa consciência — também pode nos afetar nega-
começa a bater aceleradamente, você começa a transpirar e o sangue corre fcajnfnte, causando reações impróprias. Mais adiante, entrarei em detalhes.

36 37
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES Q U A N D O NOS E M O C I O N A M O S ?

Se o processo fosse mais lento, poderíamos ter consciência do que estava A s respostas t a m b é m nos dirão se é possível mudar o que produz uma
acontecendo em nosso cérebro. De fato, poderíamos saber as respostas para as .K i. Se podemos, por exemplo, fazer algo para deixarmos de sentir medo
perguntas deste capítulo. No entanto, não sobreviveríamos a acidentes de car- quando um avião enfrenta uma turbulência. Os pilotos de avião relatam que
ros quase certos, pois não seríamos capazes de agir com a rapidez necessária. i miram isso, pois quase sempre os instrumentos os informam antecipa-
No primeiro instante, a decisão ou avaliação que produz a emoção é extraor- • I i n i , iHe a respeito das turbulências, mas se n ã o houvesse avisos, eles senti-
dinariamente rápida e ocorre inconscientemente. Devemos ter mecanismos i iiIH medo? Nenhum dos pilotos me respondeu, mas os comissários de bordo
automáticos de avaliação, rastreando continuamente o mundo qo redor de nos >• i lideram que sentiriam medo m o m e n t â n e o . O que precisaríamos fazer
e detectando quando algo importante para nosso bem-estar e para nossa |i.n .1 deixar de sentir o impulso de retribuir raiva com raiva? Esse é u m obje-
sobrevivência está acontecendo. • possível? Talvez tudo o que seja possível fazer é mudar a sensibilidade

Quando passarmos a observar a operação da avaliação automática no i iiiin.ivaliadores de certos gatilhos. Pode ser que, mesmo isso, seja mais do
llli podemos conseguir. Voltaremos a esse assunto.
cérebro, suponho que encontraremos muitos mecanismos. Assim, de agora em
rodemos deduzir a quais eventos nossos autoavaliadores são sensíveis
diante, usarei a forma plural para me referir aos mecanismos automáticos de
ii.mdo quando as emoções acontecem. A maior parte do que sabemos
avaliação, os autoavaliadores*.
11 |(i elo da observação efetiva de quando as pessoas sentem uma ou outra
Atualmente, quase todos que realizam pesquisas a respeito das emoções
- i o . Veio, sim, de suas respostas a questionários sobre o que eles se lem-
concordam com o que descrevi até aqui: primeiro, que as emoções são reações
i ri a nulo uma ou outra emoção. O filósofo Peter Goldie, em seu instru-
a questões que parecem muito importantes para nosso bem-estar e, segundo,
n h \, designa esse tipo de informação como pós-racionalização . Essa 2

que as emoções frequentemente começam tão rápido que n ã o temos cons-


• ai ao, porém, não rejeita a informação. As respostas que as pessoas dão
ciência d^s processos mentais oue as deflagram . A pesquisa acerca do cérebro 1

questionários, assim como as explicações que damos a nós mesmos


é consistente com o que sugeri até aqui. Podemos realizar rapidamente avalia-
• I.- u m episódio emocional para justificar nossos atos, pqíj.em. ser
ções muito complexas, em milésimos de segundo, sem tomarmos consciência
• • >i • I• i • c i.ilvez estereotipadas, pois passam por filtros a respeito do que
dos processos de avaliação.
i i, I H • onsciência e se lembram. Nos questionários, outra questão é
Nesse momento, podemos reformular o primeiro conjunto de perguntas
HUMULdlsposição das pessoas de revelar certas coisas. No entanto, as respos-
a respeito de como podem existir gatilhos emocionais universais e específicos.
iluila podem nos ensinar muito.
Quais são os autoavaliadores sensíveis a esses gatilhos e como eles se tornam
• déi ada de 1970, o psicólogo Jerry Boucher, meu ex-aluno, fez essas
sensíveis? Como os gatilhos emocionais se estabelecem? As respostas nos
, i (Hinlas a pessoas da Malásia e dos Estados Unidos . Alguns anos depois,
3

dirão por que nos emocionamos. Também nos ajudarão a responder à seguinte Kl»«ii i herer, um colega psicólogo, e seus colaboradores fizeram uma pes-
4

pergunta: por que, às vezes, temos emoções aparentemente inapropriadas para i -Diante com estudantes de oito culturas ocidentais. Os dois encon-
nós, enquanto, em outras vezes, nossas emoções estão perfeitamente sintoni- H l idêiicias de uma proposição universal: os mesmos tipos de gatilho
zadas com o que está acontecendo e podem até salvar nossas vidas? M M p rtlatados para evocar as mesmas emoções através de diferentes cultu-
M. i onbém encontraram evidências de diferenças culturais nos eventos
i ih. o s que trazem à tona uma emoção. Em todas as culturas, a perda de
* H á t r i n t a anos, q u a n d o escrevi pela p r i m e i r a vez a respeito d o s autoavaliadores, n ã o especi-
fiquei os sentidos que p o d i a m estar envolvidos. A p a r e n t e m e n t e , p o d i a ser q u a l q u e r u m : v i s ã o ,
linpoi lanie foi o gatilho para a tristeza, mas a perda relatada variou de
a u d i ç ã o , tato, olfato, paladar. Suspeito que o v i s u a l é especialmente importante, m a s que p o d e re- H li I H a pai a outra.
fletir m i n h a p r ó p r i a p r e d i s p o s i ç ã o . S e m p r e fui m a i s s e n s í v e l ao que vejo. Portanto, m e u interesse
n a e m o ç ã o c o m e ç o u c o m u m a f a s c i n a ç ã o pela e x p r e s s ã o facial. Por enquanto, d e v e m o s p r e s u m i r
• i mio de Boucher, um dos malaios narrou a história de u m homem
que c a d a ó r g ã o s e n s o r i a l fornece e s t í m u l o s p a r a os autoavaliadores. i luivlii ai abado de escutar o chamado à oração de um importante feriado

38 39
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES QUANDO NOS EMOCIONAMOS?

religioso muçulmano. "Isso o deixou triste, pois pensou na mulher e nos filhos I H 1.1 M I l I, . ..Hi adicionados aos eventos universais antecedentes, expan-
no povoado, para celebrar [o feriado]. Nesse momento, ele está na selva densa ilihilii i | n , I, . que os autoavaliadores estão alertas e podem se assemelhar aos
para defender seu país. Ele está em serviço, como soldado, e não pode celebrar 11 c 111 ,i I mente armazenados. São elaborações ou adições referentes aos
[a data religiosa] com sua mulher e seus filhos [que estão em casa, no po- mu universais antecedentes. N ã o são os mesmos para todas as pessoas,
voado]." No estudo de Scherer, u m europeu disse: "Estava pensando a respeito h ,n urdo com a experiência de cada um. Quando estudei membros da
de algo que ativou a memória acerca de um amigo da escola, que morreu em H I,i Idade da Pedra, na Nova Guiné, no fim da década de 1960, descobri
um acidente de carro. Ele era u m aluno brilhante e tinha uma personalidade i . • I, Unham medo de ser atacados por u m porco-do-mato. Na América
maravilhosa. Perdeu a vida. Por quê?" A perda é o tema das duas histórias, III pessoas têm mais medo de assaltantes, mas os dois casos represen-
mas são tipos diferentes de perda. liiin um ameaça de dano . 5

As próprias entrevistas que fiz com pessoas de minha cultura documen- i I H um livro anterior , Wally Friesen, eu e meu copesquisador descreve-
6

tam diversas diferenças entre os norte-americanos naquilo que os deixam tris- llliIH , ,, nas que consideramos universais para sete emoções. Posteriormente,
tes, irritados, medrosos, desgostosos etc. Não que não haja sobreposições. Algu- i l i ó l o g o Kii harcl^zarusVpresentou uma proposta semelhante . Ele utili-
7

mas coisas fazem quase todos sentirem a mesma emoção: uma pessoa li | <i., ^r<,fc?l™nic:
r ZZtfrn&iparn rppprrntir sua v i s ã o p|e qqe as
ameaçadora, carregando u m porrete, que aparece de repente em uma rua se relacionam principalmente à forma como lidamos com as outras
escura, quase sempre causa medo. Contudo, minha mulher tem medo de ^ E y T u m a ideia com a qual concordo bastante (ainda que eventos impesso-
camundongos, e eles não me assustam. Fico nervoso quando o serviço em um m pôr do sol ou u m terremoto, t a m b é m possam desencadear emo-
restaurante é lento, e ela não se importa. Nesse caso, o problema volta a aparecer: ,) A palavra temas é boa, pois podemos falar de temas universais e varia-
como os autoavaliadores se tornaram sensíveis tanto aos gatilhos emocionais de li v . r s lemas que se desenvolvem nas experiências individuais.
todas as pessoas (uma proposição universal) como aos que despertam emoções Quando identificamos u m tema, como a sensação quando uma cadeira
diferentes entre os indivíduos, mesmo dentro de uma mesma cultura? peiadamente desaba conosco, isso ativa uma emoção com pouca avalia-
Tratando de decifrar isso, fica claro que os autoavaliadores devem estar 1'ode levar mais tempo para os autoavaliadores identificarem algumas
atentos aos dois tipos He p i l h o u FIPS têm de examinar os eventos que todas . I n ada tema, aquelas que aprendemos ao longo do processo de cres-
as pessoas se deparam, que são importantes para o bem-estar ou para a sobre- lllticntu Quanto mais a variação estiver afastada do tema, mais tempo pode
vivência de todos os seres humanos. Para cada emoção, pode haver alguns lyv.tr »lc que alcancemos o momenfo em nne ocorre a ava\\acão reflexiva*.
eventos armazenados no cérebro de todos os seres humanos. Pode haver u m i I, ,, | , i , „ .''.sii, lemos consciência dos percursos avaliatórios: estamos pen-
esquema, u m esboço abstraio ou a intuição simples de uma cena, tal como, lo i , . msiderando o que está acontecendo. Suponhamos que alguém escute
com relação ao medo, à ameaça de dano, ou, com relação à tristeza, a alguma u haver um corte de m ã o de obra na empresa. A pessoa reflete se pode
perda importante. Outra possibilidade igualmente provável é de que o arma- i ili i h l a . c á medida que crê nessa possível ameaça, começa a sentir medo.
zenado não seja abstrato, mas u m evento específico, tal como, com relação ao i i , mio pode perder o emprego, pois precisa do salário para se manter. O
medo, a perda de apoio ou algo que se aproxima tão rapidamente que possa se assoe ia ao tema da perda de apoio — u m dos temas associados ao
nos atingir. Com relação à tristeza, o gatilho universal pode ser a perda de um lo mas está tão afastado desse tema que a avaliação não seria automá-
ente querido, de uma pessoa a quem se está fortemente ligado. Ainda não há || . ma. reflexiva. A mente consciente da pessoa está envolvida.
base científica para escolher entre essas duas possibilidades, mas não faz dife- g g y ^ ç n l e como as variações idiossincráticas, ou seja, os gatilhos emo-
rença a respeito da condução de nossas vidas emocionais. III , i . de cada pessoa, são adquiridas. Elas são apreendidas, refletindo a
Ao longo de nossas vidas, deparamo-nos com diversos eventos que IH .a de c ada um de nós (um assaltante ou u m porco-do-mato). Mas como
aprendemos a associar ao medo, à raiva, à aversão, à tristeza, à surpresa ou à lemas universais sao adquiridos? Como eles se armazenam em nossos cére-

40 41
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES Q U A N D O NOS EMOCIONAMOS?

bros, de modo que os autoavaliadores sejam sensíveis a eles? Eles t a m b é m i li | >c K ebido quando as pessoas tentam disfarçar suas expressões. O
podem ser herdados, produtos de nossa evolução? Vale a pena dedicar u m i • ii.li , i istantedaespécietambéméincapazdeexplicarclaramentenos-
tempo a essa análise, pois a resposta — como os temas universais são adquiri- i . , , instalações de que a raiva, o medo, a tristeza e a aversão são mar-
dos? — possui implicações a respeito de quão prontamente eles podem ser i id.inças diferentes de batimento cardíaco, transpiração, tempera-
modificados ou eliminados. Infelizmente, não há evidência de como os temas la pr d i iluxo sanguíneo (todas essas descobertas são descritas no Capítulo
universais são adquiridos. Explicarei claramente duas alternativas e elucidarei lai ações me conduziram à conclusão de que nossaJieraiji^a_Êi!olu-
por que penso que apenas uma delas tende a ser verdadeira. n ilmi definitivamente para modelar nossas respostas emocionais. Se
A primeira explicação sustenta que não apenas as variações são aprendi- . •. a s o , parece provável que a evolução t a m b é m desempenharia u m
das; os temas associados a cada emoção t a m b é m o são. Como foi descoberto iiiipoiiante na determinação dos temas universais queativam as emoções.
que os mesmos temas ocorrem em muitas culturas diferentes, eles devem se BpjH, IMIIIUM >%) dados, não adquiridos: somente as variações e as elaborações
basear nas experiências que todas as pessoas, ou quase todas, têm por inter- ijllf IUIIIUM >.ao aprendidas . 10

médio do que é designado aprendizado constante da espécie. I i ideiilemente, a seleção natural moldou diversos aspectos de nossas
Consideremos, como exemplo, a raiva. Todo ser humano se sente contra- • m i sideremos a característica de ter um dedo polegar opositor. Essa
riado quando alguém interfere em algo que ele quer muito fazer ou está 11.1 u a não é encontrada na maioria dos outros animais. Então, por que
fazendo. E toda pessoa aprende que, ao ameaçar ou atacar a fonte de interfe- II humanos a apresentam? Presumivelmente, há muito tempo, os nossos
rência, ela, às vezes, tem sucesso em eliminar essa fonte. Toda essa explicação ni i ' idosque, por variação genética, nasceram com essa característica fun-
supõe que a natureza humana tem incorporado o desejo de perseguir objeti- il liH a n i mais bem-sucedidos em ter e cuidar da descendência e em lidar
vos, a capacidade de ameaçar ou atacar e a habilidade de aprender a partir da i i is e predadores. Assim, teriam contribuído com as gerações seguintes,
superação de obstáculos. Se admitirmos que o desejo, a capacidade e a habili- |in I . I longo do tempo, todos tivessem essa característica. Ter um polegar
dade existem, podemos esperar que as pessoas aprendam que será proveitoso li. a L u ficcionado e, atualmente, integra nossa herança genética.
tentar remover u m obstáculo ameaçando ou atacando a fonte dele. Essa ativi- r..i i a . iocínio similar, sugiro que aqueles que reagem à interferência
dade requer u m aumento do batimento cardíaco, com o sangue indo para as mi i nlativas vigorosas de eliminá-la e que apresentam um sinal claro de sua
mãos para atacar o obstáculo, ou seja: todos os componentes conhecidos da Inli . i a m mais propensos a vencer competições por alimentos ou cônju-
resposta emocional da raiva . 9 , i l . . tenderiam a gerar mais descendentes e, ao longo do tempo, todas as
Se os temas universais são aprendidos, deve ser possível desaprendê-los. Se . apiesentariam esse tema associado à raiva.
aprendermos o tema associado à raiva, então talvez seja possível desaprendê-lo. \a entre as duas explicações a respeito de temas universais —
Comecei minha pesquisa acreditando que isso acontecia. Achava que cada Il/.ado constante da espécie e evolução — é sua descrição de quando
aspecto da emoção, incluindo o que ativa as emoções, era socialmente apren- i i pi-i i liças acontecem. A explicação evolucionista aponta para nosso
dido. Minhas constatações a respeito da universalidade das expressões faciais, i d o i i i , estiai como o tempo em que esses temas (e outros aspectos das
bem como as constatações de outros estudiosos, mudaram minha opinião. C) q u e descreverei posteriormente) foram desenvolvidos. O aprendi-
aprendizado não é a única fonte daquilo que transpira durante a emoção. O 1.1. • • , i n s t a n t e d a espécie admite que certas partes do tema associado à raiva
aprendizado constante da espécie não consegue explicar por que as expressões |iii n i p e i seguir objetivos) passaram a vigorar ao longo do curso da evolução,
faciais em crianças congenitamente cegas são semelhantes às apresentadas por ',, i |.in o u t r o lado, outras partes desse tema (eliminar obstáculos em relação
crianças normais. Nem consegue explicar que músculos são acionados em n • objetivos por meio de ameaças ou ataques) são aprendidas na vida de
expressões específicas; por exemplo, por que, nas emoções agradáveis, a boca se i d a pi ... .a () lato é que todas as pessoas aprendem as mesmas coisas e, por-
ergue em vez de abaixar e o músculo em torno dos olhos se contrai, ainda que i mio, l i o universais.

42 43
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES Q U A N D O NOS EMOCIONAMOS?

Acho muito improvável que a seleçâo natural não agisse sobre algo tão • In nosso ambiente atual, tais como armas de fogo e tomadas elétricas, da
importante e fundamental para nossas vidas como o que ativa nossas emo- mesma forma que fazem com relação a cobras e aranhas. No entanto, Ohman
ções. Nascemos preparados, com uma sensibilidade em desenvolvimento para ii.io constatou isso. Levou tanto tempo para condicionar o medo com relação
os eventos que foram relevantes para a sobrevivência de nossa espécie em seu i n mas de fogo e tomadas elétricas quanto para condicionar o medo relacio-
ambiente ancestral como caçadores e coletores. O j temas qnp m auroavaliadn- iiido a flores, cogumelos e objetos geométricos. N ã o estivemos expostos a
res examinam constantemente em nosso ambiente, em geral sem nosso conhe- ai mas de fogo e tomadas elétricas por u m tempo suficiente para a seleção
cimento, foram selecionados ao longo de nossa evolução! ii a mal desenvolvê-los como gatilhos universais . 12

A evidência que atesta essa concepção vem de uma série brilhante de Em seu visionário livro, A expressão das emoções no homem e nos ani-
estudos de Arne Ohman, psicólogo sueco". Ele ponderou que, ao longo da in,IIS. Charles Darwin descreveu uma experiência com uma cobra realizada
maior parte de nossa história evolucionista, as cobras e as aranhas eram peri- L i mais de cem anos, muito semelhante ao recente trabalho de Ohman.
gosas. Os nossos ancestrais que aprenderam isso rapidamente e evitavam esses "Encostei meu rosto no vidro grosso, na frente de uma cobra venenosa, no
animais foram mais propensos a sobreviver, a ter filhos e cuidar deles em com- i . i • 111 n zoológico, determinado a não saltar para trás se ela me atacasse, mas,
paração com os que demoraram em aprender a ter medo desses animais. Se, que ela deu o bote, minha decisão perdeu o efeito, e recuei de u m a
de fato, a evolução nos preparou para ter medo do que foi perigoso no passado, i l m . melros com impressionante rapidez. Minha vontade e razão foram inú-
então, atualmente, as pessoas aprenderiam mais rapidamente a temer cobras e i ' lace à sensação de u m perigo que nunca tinha experimentado" . A ex- 13

aranhas do que flores, cogumelos ou objetos geométricos. Ele constatou exa- I " I H I H ia de IXaxMàn. mostra,.quuo,.p .pensa mento racional é incapaz de
tamente isso. Impedir uma resposta temerosa a um t p r n a inatn associado ao medo, assunto
Ohman deu u m choque elétrico (tecnicamente denominado estímulo que voltarei em breve.
não condicionado, pois produz excitação emocional sem que haja aprendi- Nao é comprovado que esses temas associados a emoções atuem como
zado), juntamente com um estímulo relevante — que desperte medo — (cobra l H is antes da experiência relacioná-los a um resultado emocional. Lembre-
ou aranha) ou irrelevante (cogumelo, flor ou objeto geométrico). Após a apli lllon que, na experiência de Ohman, era necessária alguma experiência para
cação de apenas u m choque em combinação com u m dos estímulos relevantes, i| unais se tornassem gatilhos associados ao medo. Eles não eram ame-
asjTPssoas sentiram medo quando uma cobra, o" a r a n h í t fríl mostrada sem a l a. I. ii r s em uma exposição inicial. Bastou uma associação com um resul-
aplicação do choque, ao passo que, com relação aos e.stímiilos não relevantes i ido di n , i adável para que esses animais se tornassem gatilhos relacionados
ín,pr. cogumelo OU objeto geométrico^ foram r|ffpcc*«-i<,c r ^ j c « o n n - r à « In, mas, ainda assim, essa associação foi necessária. Talvez isso não seja
com o choque para que o medo se manifestasse sem a aplicação do estímulo. inpii lundamental, pois Darwin escreveu que teve medo de cobras sem
As pessoas também continuavam com medo de cobra ou aranha, enquanto o |ii ilqui i experiência direta anterior com elas. De um ponto de vista prático,
medoda tlor, do cojmmelo ou do objeto geométrico se desvanecia*. ml porta se algum aprendizado busca estabelecer u m tema associado à
Obviamente, temos medo de cobras e aranhas em nosso ambiente atual. ou se alguns temas não requerem experiência para que nos tornemos
É a evolução, então, que explica os resultados de Ohman? Se esse contra-argu- III . . i . om sua ocorrência. Nos dois casos, beneficiamo-nos da experiência
mento fosse verdadeiro, as pessoas deveriam reagir a outros objetos perigosos ii péi le nesse planeta, respondendo rapidamente a gatilhos que foram
i i l i vantes paia nossa sobrevivência.
HjjQU convencido de que uma das características mais distintivas das
* E . O . W i l s o n d i s c u t i u o m e d o de cobras e m t e r m o s m u i t o consonantes c o m os apresentados
• • • t ó c H j W j u c os eventos que as ativam são influenciados não só por nossa
E m b o r a ele n ã o aplique s e u a r c a b o u ç o especificamente à e m o ç ã o , é m u i t o consistente c o m o que
estou sugerindo a respeito do b a n c o de d a d o s d a s e m o ç õ e s . ( V e r Consilience, R a n d o m I [oUM, léntla Individual como também por nosso passado ancestral' . As emo- 4

1998, e m particular as p á g i n a s 136-40).


iirt Irli/. expressão de Richard Lazarus, refletem a "sabedoria das gera-

44 45
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES Q U A N D O NOS EMOCIONAMOS?

ções", tanto nos temas associados à emoção como nas respostas emocionais. Esse banco de dados é aberto; as informaçõesjão.adifinnaíljis a ele o
Os autoavaliadores estão examinando o que foi importante para a sobrevivên- [miyu-OSÚo^ . Ao longo da vida^entramos êim^ontato^om novos eventos que
6

cia não só em nossa vjda individualmente rnmo tam bé m na vida dos ances- jK>dem ser interpretados por avaliação automática, semelhante ã nm tema „ n

trais cacadores-coletores. a uma variação armazenada no bancode*cErrJrert3uando isso aconte7è*"n7na


Às vezes, respondemos emocionalmente a questões que foram impor- emoção e ativada. O psicólogo Nico Frijda enfatizou que aquiloa que chamo
tantes para nós, mas que n ã o são mais relevantes. As variações sobre cada variação não são apenas resultados da experiência^ dirpfa préviaTmas t a m b é m ^
tema que adicionam e fornecem detalhes ao que é identificado por meio de 7^nj| lir. ~r.w oc c parecem relevantes para questões de nosso interesse:
avaliação automática c o m e ç a m a ser aprendidas muito cedo: algumas na
nossas preocupações . 17

infância, outras na puberdade. Podemos identificar nossas próprias respos- Desde que não precisemos desviar nossa atenção consciente para prestar
tas inadequadas a coisas que nos irritaram, nos assustaram ou nos repugna- Itenção nos eventos que se tornaram gatilhos emocionais, podemos utilizar
ram antes. Reações que, nesse momento, consideramos incompatíveis com
nossos processos conscientes para realizar outras ações. Isso seria um sinal de
nossa vida adulta. Há maior prohahifiHaHp AP cometermos erros^ er» "Qff cn
distúrbio mental, como explicarei posteriormente, se nosso consciente esti-
aprpnHi7adnr<»mntp dp< gatilhos, fmocionais, pois nossos mecanismos são
\e preocupado com possíveis eventos emocionais. Depois que aprendemos
jnenos desenvolvidos. No entanto, o que aprendemos cedo na vida podeter
i dirigir u m carro, fazemos isso automaticamente e nos sentimos livres para
mais potencia e resistência ao desaprendi zado que n.gne aprendemos poste-
i entrar nossa atenção em uma conversa, em uma música no rádio, em um
riormente (essa suposição é comum em diversas formas de psicoterapia, e é
pensamento a respeito de algum compromisso etc. Quando fazemos uma
respaldada por algumas pesquisas).
• I H v,i à esquerda, n ã o temos de parar de escutar o rádio para pegar a pista
Nossos autoavaliadores são poderosos e examinam continuamente, fora GOn i l.i. Mesmo se algo perigoso acontecer, ainda faremos a coisa certa. Essa é
de nosso conhecimento consciente, os temas e as variações dos eventos rele- Uma das grandes forças das emoções, o motivo pelo qual são funcionais.
vantes para nossa sobrevivência. Utilizando uma metáfora informática, os
Infelizmente, o modo como reagimos pode n ã o ser sempre apropriado
mecanismos automáticos de avaliação estão buscando em nosso ambiente algo
to ambiente. Se visitarmos um país onde a m ã o de direção é outra, nosso
que se assemelhe ao que está armazenado em nosso banco de dados de alerta
proi essamento a u t o m á t i c o p o d e r á nos colocar em perigo, uma vez que
emocional, escrito, de u m lado, por nossa biologia, mediante a seleção natural,
|...ilemos errar facilmente ao alcançar uma rotatória ou fazer uma curva.
e, de outro, por nossa experiência individual .
15

Nilo podemos manter uma conversa ou escutar o rádio. Conscientemente,


Lembremos que aquilo descrito pela selecáo natural talvez não seiam ili vemos nos manter alerta às decisões que, antes, eram automáticas. Às
gatilhos erg si, mas preparações que permitem que alguns gatilhos se estabe- • s podemos achar que, emocionalmente, estamos vivendo em outro
leçam rapirla -|PntP Mnitnc psicólogos destacaram conjuntos de casos afins,
n |
JJmf" outro ambiente em relação àquele que nossQâJ&ecanismos de avãTia-
t

mas diferentes, de como os avaliadores automáticos classificam u m novo


*fl|n automática são sensíveis. Assim, nossas reações emocionais podem ser
evento, para determinar, em meus termos, se eles correspondem a u m item
IH i.li i | i i . u l . i s ao contexto.
presente no banco de dados de avaliação emocional. Tenho dúvidas a respeito
[|S0 nâo seria um problema não fosse o fato de que nossos mecanismos
da validade dessa sugestão, pois ela se baseou no relato das pessoas, e nenhum
• I. o d u ç à o emocional atuam de modo inacreditavelmentêlrapido. j u f t l i i t i n
de nós tem consciência do que nossa mente faz enquanto processa a avaliação
n li n i u s , H' '-'H1
r "teis, mas fra-veria tempo para nos conscientizar-
automática. Essa pesquisa forneceu bons modelos para explicar a descrição do
i i . priiu d o que nos está emocionando. Nossas avaliações conscientes
modo como as pessoas se emocionam. Em todo caso, suas sugestões não são
i l is permitir interromper o processo quando o consideramos inade-
diretamente relevantes para a teoria a respeito de como nos emocionamos que
lo o i 1111 para nós, antes de uma emoção começar. A natureza não nos
proponho no decorrer deste capítulo.
i opção. Se losse mais útil ter mecanismos de avaliação lentos ao invés
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES Q U A N D O NOS EMOCIONAMOS?

de rápidos ao longo da história da nossa espécie, não teríamos esses mecanis- ini Mn,lai a compreender nossos gatilhos e os das pessoas ao redor. Se os
mos rápidos de avaliação automática e fora da consciência. impo ' miarmos, poderemos nos esforçar para não permitir que eles condi-
Embora as emoções sejam ativadas com mais frequência por avaliadores i s s a interpretação do que está transpirando.

automáticos, essa não é a única maneira pela qual elas podem começar. Nesse Suponha que o gatilho da sua reação de tristeza/angústia seja a sutil indi-
momento, vamos considerar outrofofta caminhos que geram emoção. Alguns • In ile que uma mulher vai abandoná-lo pois ela descobriu seu segredo mais
deles dão mais oportunidade de controlar se vamos ou não nos emocionar. lulu seus sentimentos (aprendidos) de baixa autoestima. Se houvesse
^ ^ O c a s i o n a l m e n t e , as emoções começam depois de umz&valiação refle- |in M U I poderia usar a avaliação reflexiva para se prevenir contra o julga-
xivaSem que consideramos conscientemente o evento, mas ainHa pàn tpmm le que está sendo abandonado. N ã o seria fácil, mas, com a prática, seria
certeza de seu significado. À medida que a situação se desenvolve ou nossa • I i eiluz.ir a chance de você cair na tristeza/angústia quando não estiver
compreensão progride, algo entra em sintonia, encontra correspondência em • f IH lo lealmente abandonado. A avaliacãojeflexiva dá mais de umrf*ftnTeão a
nosso banco de dados de alerta emocional e, então, os mecanismos de avalia- iJU consciente. Você pode aprender corgo se prevenir contra a probabilidade
ção automática assumem o controle. A avaliação reflexiva lida com situações M Interpretar mal o que está acontecendo.
aimbjguas, situações em que os mecanismos de avaliação automática ainda não I anibém podemos nos emocionar quando lembramos uma cena emocio-
estão sintonizados. Suponha que voce encontre uma mulher que comera a II il do passado. Podemos escolher lembrar a cena reformulando-a em nossa
falar sobre sua vida, mas não fica claro por que ela está falando com você. Você evisando para entendermos o que ou por que aconteceu, ou como
pensa a respeito do que ela diz, tentando entender o que isso significa para liamos ler agido de modo diferente. Talvez a memória possa não ser uma
você. Em certo momento, você percebe que ela está ameaçando seu emprego. illi i n a t i v a ; ela pode ser espontânea e v i r de repente a nossa mente. Indepen-
Então, os mecanismos de avaliação automática assumem o controle, e você I, ' nie de como a memória é ativada, quer por escolha ou não, ela pode
começa a sentir medo, raiva ou outra emoção pertinente. In luli nao apenas a cena e o roteiro do que transpirou emocionalmente como
i " i n uma reação emocional. Podemos repetir as emoções que sentimos na
E s s e é o p r e ç o daavaliação reflexiva: tempo_Os mecanismos de avaliação
i iginal ou sentir uma emoção diferente. Por exemplo, uma pessoa pode
automática nos poupam esses minutos. Frequentemente, nossas avaliações^.
lesgostosa consigo mesma por ter sentido medo na cena original, mas
automáticas podem nos salvar do desastre, e fazem isso cortando aqueles
i .1 ni ir somente aversão, e não o medo original. Também pode acontecer,
momentos requeridos pela avaliação reflexiva.
I dmente, de nos lembrarmos dos eventos emocionais, mas não sentirmos
Do lado positivo, há a possibilidade de influenciarmos o que transpira no
a nte aquelas ou outras emoções. As emoções t a m b é m podem ser des-
momento em que as emoções começam, como consequência da avaliação
onforme a cena se desenvolve em nossa mente.
i idas i
reflexiva*. Para isso, precisamos estar familiarizados com nossos gatilhos Uohert l.evenson e eu temos usado uma tarefa de memória para produzir
emocionais quentes: as variações específicas em relação a temas universais, •" . n o laboratório, a fim de estudar expressões e reações fisiológicas que
que são mais proeminentes em nossas vidas para cada emoção. Entre o quinto nu , ada uma. Achávamos que seria difícil para as pessoas vivenciar
e o nono capítulo, a leitura a respeito dos temas e das variações comuns pode "in nte u n a s emocionais do passado, sabendo que estavam sendo filma-
i' • Unham lios ligados a diversas partes de seus corpos para medir o bati-
llii irdíai o, a respiração, a pressão arterial, a transpiração e a temperatura
c^Z T,A T L 7 3 3 r e S p d t 0 d ° q U C d e d e n ° m i n a àestruthm e das ini In prli A i onteceu exatamente o contrário. A maioria das pessoas pareceu
c.atwas adotadas pelas p r á t i c a s budistas para se livrar delas, tive a i m p r e s s ã o de o que ele e «,„,r„s
consegu.ram fo, substituir a a v a l i a ç ã o reflexiva pela a u t o m á t i c a . C o m muitos anos de p r á t u . , ., • Ida p u i uma oportunidade de repetir e vivenciar novamente uma cena do
o p ç ã o de nao se tornar emotivo parece p o s s í v e l , o u , caso c o n t r á r i o , agir e falar de m o d o , „ . „ , m
i i d o ( Hei ei ida essa chance a elas, isso aconteceu quase imediatamente, em
prejud.cial aos outros. Nos p r ó x i m o s anos, espero ser capaz de realizar pesquisas para aprv.,,1,,
m a . s a r e s p e . t o d e c o m o o b t e r i s s o . e s e h á outros meios de chegar a isso e m u n p e n i l . n a s , , , , , , , i. 11. .IH a algumas, senão todas, emoções.

48 49
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES Q U A N D O NOS EMOCIONAMOS?

Pedimos para as pessoas se lembrarem da própria versão de u m dos il esmo se ele esperasse isso. Na maior parte do tempo, n ã o temos
eventos considerados como universais para cada emoção. Por exemplo, para Igulmlc ijuando a emoção toma conta de nós. Quando isso acontece, nossa
trazer à tona a tristeza, pedimos para as pessoas se lembrarem da morte de ii i | u i ivavelmente revela isso aos outros, e eles podem se enfezar, por-
alguém muito próximo. Pedimos que visualizassem u m momento em que sen- i Ii,imos a nos enfezar.
tiram a tristeza mais profunda e, em seguida, para tentarem sentir novamente ',oponha que você esteja contando a alguém quão mal você se sentiu
a mesma emoção da ocasião do falecimento. | i • ii veterinário revelou que seu amado cão n ã o sobreviveria à doença.
Pouco antes do t é r m i n o dessas curtas instruções, a fisiologia, os senti- IH i historia faz você vivenciar novamente a emoção e revelar seu sofri-
mentos subjetivos e, em certas pessoas, até as expressões faciais das emoções in \ s s i m , enquanto sua amiga escuta, ela t a m b é m começa a parecer
mudaram. Isso deveria ser previsível, pois todas as pessoas já tiveram a ex- i 111 i, I sso é comum, ainda que não seja uma perda dela. Todos pode-
periência de sentir alguma emoção ao se lembrar de u m evento importante. partilhar emoções, isto é, senti-las de modo empático. Esse é o^fexí^
O que n ã o se sabia antes da nossa pesquisa é se as m u d a n ç a s que derivam ^ ^ B t j i orno as emoções podem começar: presenciar a reação emocional de
das lembranças se assemelham às que ocorrem quando as emoções são des-
' i.'pM>a-
pertadas por outros meios. De fato, isso acontece. A m e m ó r i a acerca dos
i ii' nem sempre acontece. N ã o acontecerá, por exemplo, se você n ã o se
eventos que escolhemos recordar, que n ã o nos conduzem a uma pova vivên-
ião se identifica com o interlocutor. Além disso, às vezes presen-
cia das emoções origi.naIiTiéi ui^iêm possibilita aprender corgo re^ons-
i emoções de alguém e sentimos uma completamente diferente. Por
!

f t r u i r o que está acontecendo em nossa vida e temos, assim, a chance de


pln. pudemos ficar desdenhosos com relação a uma pessoa irritada ou
^imudar o que nos emociona.
I lula. ou ter medo da irritação que ela demonstra.
A imaginação é ainda outro meio de provocar uma reação emocional. Se
\i ..na nao precisa ser nossa amiga para que sua falta de sorte desen-
usarmos a imaginação para criar cenas que sabemos que nos emocionam,
i i i cação empática. Pode ser u m estranho completo, que pode nem
poderemos ser capazes de suavizar u m gatilho. Em nossas mentes, podemos
i 1 i I H em nossa presença. Podemos vê-lo na tela da tevê, ou em u m
interpretar de outras formas o fato para que não combinem com nossos gati-
lhos habituais. ou lei sobre, em um jornal ou livro. Embora n ã o haja dúvida de que
nos emocionar com a leitura apenas, é surpreendente que algo que
Falar a respeito das experiências emocionais do passado t a m b é m pode
iii|iin i io tarde na história de nossa espécie — a escrita — possa gerar emo-
ativar emoções. Podemos falar com a pessoa com quem tivemos uma reação
Imagino que a linguagem escrita seja convertida em sensações, visões,
emocional a respeito de como nos sentimos e por que achamos que nos senti-
i heuos ou até sabores em nossa mente e, depois que isso acontece, essas
mos daquela maneira. Podemos conversar com u m amigo ou u m psicotera-
n i.uil ratadas como qualquer outro evento pelos mecanismos de ava-
peuta. Às vezes, o simples ato de falar acerca de um episódio emocional nos
intom.it ica, para originar emoções. Se conseguíssemos bloquear a cria-
induzirá a uma nova vivência da emoção, da mesma forma que acontece com
frJLfdtlMii Imagens, acredito que as emoções n ã o seriam evocadas somente
nossas experiências quando pedimos para as pessoas tentarem fazer isso . 18

H i l lllltlll " | i " ' "


Voltar a vivenciar os sentimentos de um episódio emocional do passado
' ' outros podem falar a respeito do que seja ter medo, enfezar-se, sentir
pode trazer benefícios ao nos dar a chance de elaborar u m final diferente para
h I ni geral, esse caminho simbólico envolve u m instrutor no início
as questões e inspirar o apoio ou compreensão da pessoa çoin ouem falamos.
IH ida, e seu impacto será reforçado se a emoção à qual fomos instruídos for
Claro que, às vezes, voltar a vivenciar as emoções nos coloca em apuros. Por
Hl sa. lambem podemos observar como pessoas importantes em
exemplo, u m marido se acha capaz de falar desapaixonadamente com sua
iila nos geram emoções e, involuntariamente, adotamos suas varia-
esposa a respeito de um mal-entendido ocorrido alguns dias antes, mas con-
m i a r . , ouio nossas próprias variações. Uma criança cuja mãe tem
clui que ainda se irrita, tão ou ainda mais do que originalmente. Isso poderia
i di aglomei ações pode também desenvolver essa fobia.

5 I
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES Q U A N D O NOS EMOCIONAMOS?

A maioria dos autores que escreveram a respeito de emoções discutiu vio- i As pessoas tiveram de fazer movimentos musculares que nossa pes-
lações de regras, isto é, as emoções que sentimos quando nós mesmos ou outra I|MI i |>n x I.I i onstatou como expressões universais de emoção . 21

pessoa infringe uma regra social importante . Podemos ficar irritados, indigna-
19 I i n outro estudo, cujo foco era somente sorrisos, Richard Davidson, psi-
dos, desdenhosos, envergonhados, culpados, surpresos, talvez até satisfeitos. • 11ii- estuda o cérebro e a emoção, e eu descobrimos que o ato de sorrir
Depende de quem violou e que regra era. As regras não são universais, obvia- i • I n / m diversas mudanças no cérebro, que acontecem quando temos sensa-
mente; podem nem mesmo ser compartilhadas completamente dentro de um laveis. Não foi com qualquer tipo de sorriso, mas com aquele que,
grupo ou de uma cultura nacional. Considere, por exemplo, a diferença entre as descobrira previamente, significava verdadeiramente satisfação (ver
gerações mais novas e as mais velhas a respeito do sexo oral. Aprendemos regras t «Jilllllo'>)•'•'.
acerca do que as pessoas devem fazer cedo e ao longo da vida. s s a pesquisa, pedimos para que as pessoas fizessem determinados
Eis a última maneira pela qual as emoções podem começar: uma maneira mu nios faciais. No entanto, acho que t a m b é m teríamos obtido os mes-
original, inesperada, que descobri enquanto eu e meu colega Wally Friesen m o n ult.idos se as pessoas tivessem emitido algum som relacionado a cada
desenvolvíamos nossa técnica de medir os movimentos do rosto. Para apren- lo I muito mais difícil para a maioria das pessoas produzir sons vocais
der como os músculos faciais mudam a aparência da face, gravamos u m vídeo i,.10 intencionalmente que fazer a expressão facial. Constatamos,
nosso fazendo sistematicamente diversas combinações de movimentos. Come-
i I H , que uma mulher conseguia fazer isso e, de fato, ela produziu os mes-
çamos com ações musculares únicas e progredimos até combinações de seis
Ull • n adiados com a voz e com a face.
diferentes músculos agindo ao mesmo tempo. Não foi fácil fazer todos esses
i >n .11 ,i experiência emocional mudando a fisiologia através da aparência
movimentos, mas, depois de alguns meses de prática, aprendemos e registra-
l. IHii emoção não é, provavelmente, o modo mais comum de sentir uma emo-
mos dez m i l combinações diferentes. Ao estudar os vídeos mais tarde, apren-
M Q , N O entanto, pode acontecer com mais frequência do que imaginamos.
demos como reconhecer, a partir de cada expressão, os músculos que as
1 1 • AIlan I>oe sabia disso, como podemos observar no conto A carta roubada:
tinham produzido. Esse conhecimento tornou-se a base de nosso sistema de
medição, o Sistema de Codificação da Ação Facial (Facial Action Coding Sys- i MI.oulo desejo descobrir quão sábia ou quão estúpida ou quão boa ou
tem — FACS) , discutido no primeiro capítulo.
20
. | u . I H má é uma pessoa, ou quais são seus pensamentos no momento,
Verifiquei qne. guando fazia determinadas expressões, ficava tomado de amoldo a expressão da minha face tão perfeitamente quanto possível,
fortes sensações emocionais. Isso não acontecia com qualquer expressão, mas de acordo com a expressão dessa outra pessoa, e, em seguida, espero
com aquelas que já sabia universais. Quando perguntei a Friesen se isso também pa i a ver quais pensamentos ou sentimentos resultam em minha mente
estava acontecendo com ele, ele relatou que também estava sentindo emoções . I H , oração, como se para combinar ou corresponder com a expressão.
enquanto fazia algumas das expressões, e elas muitas vezes eram desagradáveis.
Alguns anos depois, Bob Levenson passou u m ano em meu laboratório. ais r
I )escrevi nove caminhos para acessar ou ativar as emoções. O mais
Pareceu-lhe perfeitamente apropriado, estando em São Francisco e em u m ano ,,,, é mediante a ação dos autoavaliadores, isto é, mecanismos de avalia
ia-

sabático, passar seu tempo ajudando a testar nossa ideia maluca de que o sim- li i lulomática. U m segundo caminho começa na avaliação reflexiva, que, em
ples ato de fazer uma expressão produziria mudanças nos sistemas nervosos .iili. desencadeia os autoavaliadores. A memória de uma experiência emo-
autónomos das pessoas. Nos dez anos seguintes, fizemos quatro experiências, nl do passado é u m terceiro caminho, e a imaginação, u m quarto. Falar
incluindo uma em uma cultura n ã o ocidental, a Minangkabau, de Sumatra a de um evento emocional do passado corresponde ao quinto caminho.
Ocidental. Quando as pessoas seguiram nossas instruções a respeito de que | . mp.ii ia é o sexto. As instruções de outras pessoas a respeito da geração da I
músculos mover, a fisiologia delas mudou e a maioria relatou sentir a emoç to. , a o . onstituem o sétimo caminho. O oitavo é a violação das regras sociais. /
Novamente, n ã o foi somente u m movimento facial que produziu essi i > ultimo inclui assumir voluntariamente a aparência da emoção.

52 53
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES

O próximo capítulo se baseia no que temos aprendido acerca de como a<


I npllulo 3
moções sao ativadas, considerando por que e quando é tão d i f L d mudar o

ZZZ :/
e m O Ç Õ e S ~
n d U Í - e l a ç ã o ao que p o d e m ! a^e
para criarmos consciência a respeito de quando as emoções c o m e ç a m
Mudando o
mediante a avaliação automática, Já que é quando, com mais f r e q u ^ n l
vemo-nos em apuros e nos arrependemos de nossos comportamentos que nos emocionou

1 i liar perto da beira de um precipício pode ser assustador, apesar de uma


f f l i n bem visível impedir a queda. Não importa se o caminho não seja escor-
Pl r i • 11«>. nem que a cerca não seja frágil. Ainda assim, o coração bate mais
| ipliln e as palmas das mãos ficam suadas. O conhecimento de que não há
i h h l . i ,i lemer não elimina o medo. Mesmo que a maioria das pessoas consiga
I n ilar suas ações, mantendo-se no caminho, elas muitas vezes são capazes
>i H l . de dar uma rápida olhada na vista maravilhosa. O perigo é sentido,
ii de não existir objetivamente'.
\ aminhada na beira do precipício revela que nosso conhecimento nem
II i n p i c pode anular os autoavaliadores que respondem emocionalmente,
i li pois da ativação de nossas respostas emocionais, podemos perceber cons-
. |i nii incute que não precisamos nos emocionar, mas, no entanto, a emoção
Iode persistir. Minha proposição é de que isso ocorra quando o gatilho é u m
i emocional desenvolvido ou u m gatilho aprendido, muito similar ao
Irma Quando o gatilho aprendido está mais afastado em relação ao tema.
ININSO conhecimento consciente pode ser mais capaz de intprrnjnne.r a expe-
fjência emocional. Em outras palavras, se nossas preocupações são levemente
Wliclonadas a u m tema, podemos ser capazes de anula- ]*; pnr f"< -~" "
1- 1k

I lá uma maneira mais séria em que as emoções anulam o que sabemos.


\ emoções podem nos impedir de ter acesso a tudo que conhecemos, a
iiilui mações que teríamos na ponta da língua se não estivéssemos tomados
pui u m a emoção, mas que durante a e m o ç ã o são inacessíveis para nós.

54
„ ^ ^->UE NOS E M O C I O N O U
MUDANDO O C J u t 1 N U

A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES

^ H N desarmar esse gatilho. Assim, ela n ã o estaria s ujeita a longos pe-


desaparecerá. Contudo, há diversos motivos pelos quais um período refratário
!• M I I . I C não distorceria os motivos das outras pessoas para que
pode ser longo, mantendo Helen irritada até Jim dar a informação que poderia
DMHM ni em aiordo com suas emoções.
reverter a situação. Talvez ela não tivesse dormido bem na noite anterior. Tal-
i | assoas gostariam de ter esse controle quand o t ê m uma reação
vez ela esteja sendo muito pressionada no trabalho e tenha dificuldades de
i I l hn dos motivos pelos quais as pessoas procurar"" o s psicoterapeu-
lidar com isso, descarregando, assim, suas frustrações sobre Jim. Talvez eles
j i S luto .11o iciein continuar se emocionando ç õ certas çToisas. No entanto,
m

estejam discutindo há muitos meses a respeito de u m assunto sério, como ter


^ ^ P n T q u c r repelir de modo completo e irrevogável toc^ as a s emoções. A
outro filho, e Helen guardou sentimentos de raiva a respeito da atitude aparen-
^ ^ ^ T t r d i o s a , menos emocionante, ménoS IntéféJSSâhte rJI*UVav lrnéhfè, n
temente egoísta de Jim. Helen pode ter o tipo de personalidade em que a raiva
desempenha um papel dominante (no Capítulo 6, descrevo minha pesquisa a ^ ^ p i í t H u r a se tivéssemos o poder de fazer isso.
,

protege: nossa vida é salva porque somos» capazes de reagir


1

respeito de pessoas que possuem um traço de personalidade hostil). Ou, ainda,


IH ai, a d , nioilo protetor e instantâneo, sem o pensamento. As reações de
Helen pode estar trazendo para essa situação u m roteiro de outro setor de sua
deixam cautelosos a respeito de atividades que, literal ou figurati-
vida, um roteiro muito carregado emocionalmente.
podem ser tóxicas. A tristeza e o desespero vindos das perdas podem
Um roteiro possui um elenco de personagens — a pessoa que estabelece 1 n ' " l i d o s outros. Mesmo a raiva — emoção que a m aioria das pessoas
a relação e as pessoas que se relacionam com ela — e u m enredo do que.açon- I' iipelir — é útil para nós. Ela previne os outrc^s, e n ó s mesmos,
teceu no passado. Nem todas as pessoas trazem roteiros passados para situa- id" ' i oisas estão nos frustrando. Essa a d v e r t ê n c i a P ° d e conduzir
ções atuais de forma efetivamente correspondente. O pensamento convencio- ' embora t a m b é m possa produzir embates. A rg^iva nos motiva a
nal nas teorias psicanalíticas da personalidade determina que os roteiros são
áHUst iniular o inundo, a promover a justiça social e a lu*tar pelos direitos
reincorporados quando as pessoas têm sentimentos não resolvidos, isto é, que
não foram completa ou satisfatoriamente expressos ou, se expressos, não leva- " ' pi udente e eficiente eliminar essas motivações ? A vida valeria a
ram ao resultado desejado. Os roteiros distorcem o presente, provocando rea-
" i i iiiiisiasmo, prazer sensorial, orgulho de nossas? conquistas e das
gSe" modonais inadequadas e prolongando o período refratário.
p
|ui I . I S de nossos descendentes e sem a surpresa d i a n t e das coisas estra-
Suponhamos que Helen fosse a caçula da família e seu irmão, Bill, um nha , ou .peiadas? As emoções n ã o são como u m a p ê n d i c e s u r r > órgão resi-
molestador, sempre a dominando. Se Helen tivesse se tornado insensível pela tJMfJjfJTI Utilidade e que devemos remover. Elas estão nr- r e r " ^ rr> M P n n > ! < : •*YJf 13

experiência, se seus pais tomassem partido de Bill e achassem que ela exage-
I• lm num a vida suportável.
rava, muitas vezes Helen poderia trazer o roteiro de estar sendo dominada a
I m ve/ de repelir as emoções completamente, a m a i o r i a de nós gostaria
situações que, mesmo sutilmente, parecessem semelhantes. Uma das preocu-
• 111 repelir seletivamente as reações emocionais e m » relação a gatilhos
pações mais pungentes de Helen é não ser dominada, e isso faz que ela se sinta
i 1 instaríamos de simplesmente apagar u m gatilhc^> específico ou um
assim mesmo quando não há dominação.
o i leles, um roteiro ou uma preocupação armazenadas em nosso banco
Também pode ser que Helen não queira importar esse roteiro. Ela é uma
1 liados de alerta emocional. Infelizmente, n ã o há e v i d ê n c i i a definitiva a res-
mulher inteligente e aprendeu, a partir do feedback daqueles com quem tem
intimidade, que é propensa a esse tipo de interpretação equivocada e reação I • iln dessa possibilidade.

exagerada. No entanto, no período refratário, ela não pode fazer muita coisa a Um dos principais estudiosos do cérebro e das e m o » Ç ° > o psicólogo es

respeito. Ela sequer tem consciência de que está em um período refratário S i ph I el Idiin escreveu recentemente: "O aprendizado dcO medo condicio-
IIHIIIM pai tu ul.ii mente resilientee.de fato, pode representar*" uma forma inde-
depois, refletindo, Helen percebe que agiu inadequadamente e lamenta seu
comportamento. Ela gostaria de eliminar o gatilho "ele está tentando me di aprendizado'. A indelebilidade do medo aprendid* ° possui u m lado

dominar" de seu banco de dados emocional. A vida dela seria melhor se ela i IIIvo e um negativo. Sem dúvida, é muito litil para nosso • cérebro ser capaz
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES M U D A N D O O Q U E NOS E M O C I O N O U

de manter registros daqueles estímulos e situações que foram associados ao |iie seus resultados podem ser generalizados a respeito de outras
perigo no passado. Mas essas memórias potentes, geralmente formadas em i . i e/ a l e mesmo de emoções que causam sensações agradáveis*.
circunstâncias traumáticas, t a m b é m podem achar seu caminho na vida coti ^^MB f l f l t m a nervoso não altera facilmente o que nos deixa emociona-
diana, intrometendo-se em situações em que não são especialmente úteis" . 4 imples desaprender a conexão entre uma assembleia de células
Felizmente, tive a oportunidade de conversar com LeDoux durante a • n a l i u ma resposta, ou entre um gatilho e uma assembleia. O banco de
redação deste capítulo e de pressioná-lo u m pouco com relação ao significado i • I• 11.i emocional é um sistema aberto, em que variações se adicio-
de tudo isso. Em primeiro lugar, devo deixar claro que LeDoux se refere ^^KÕJ^uucnte, mas não é um sistema que permite facilmente a remoção
somente a gatilhos aprendidos, o que denominei variações. Tanto ele como eu i l t l d " ! Iiu 1 orporados. Nosso sistema emocional toidesenvolvido para man-
acreditamos que os temas, produtos de nossa evolução, são indeléveis^ tais IMUIII iiii. > . nao p a r a se l i v r a r deles, mobilizando as respostas emocionais
como as constatações a respeito de ratos nascidos em laboratório, que nun< I i .1 imento. Somos biologicamente c o n s t r u í d o s para n ã o inter-
tiveram qualquer experiência com gatos, mas, mesmo assim demonstram
iipi 11 .1. imediato.
medo no primeiro contato. É u m tema inato, um gatilho de medo que já nao
i lo os novamente o exemplo do acidente de carro para ver como os
requer aprendizapem. O poder de u m tema para deser|c r]far " m a|M emp^-Qo
Illtri In di I el >oux nos ajudam a entender o que acontece quando tentamos
pode ser enfraquecido, mas não eliminado tota|rr|ente Enfim, podemos desa-
il |u. n o s emociona. Todo motorista, ao estar no banco do passageiro,
prender as variações, os gatilhos, que adquirimos durante a vida?
nu ai automaticamente o p é n u m pedal de freio inexistente quando
Sem entrar em detalhes técnicos da pesquisa de LeDoux sobre o cére-
in em sua direção. Pisar no freio é uma resposta ao medo de ser
bro, precisamos saber que, quando u m gatilho emocional se estabelece,
i l i o carro. Não só a resposta — pressionar o pedal — é apren-
quando aprendemos a sentir medo de algo, ocorrem novas conexões entre
também o gatilho. Os carros não integravam o ambiente de nossos
um grupo de células, constituindo o que LeDoux denomimi asscniblTiuJi'
i. o i i n automóvel vindo em nossa direção não é um tema interno, mas
^célulaslPEssas assembleias, que carregam a memória daquele gamHo apren-
... \piendemos isso rapidamente, pois está muito próximo de um
dido, parecem ser os registros psicológicos permaiT^mej^dojgu^
i lemas associados ao medo: algo que se move rapidamente à
.
Elas constituem o que chamo à^fíàncocbeclaclos
-
de alerta emociÕTltÃ. No
. ' M I ipioxmiando-se de nós como se estivesse prestes a nos atingir.
entanto, pjjflejnos aprender a interromper a conexão enireessas assembleia'. 1 liiboin a maioria de nós, ao estar sentada no assento de passageiros,
e nosso comportamento emocional. O gatilho ainda aciona a assembleia ivoluntariamente um pedal de freio inexistente quando sente
mas a conexão entreelae nosso comportamento emocional pode^ser que- || a i i i t o i e s de autoescola aprendem a n ã o fazer isso. Eles podem
brada, pelo menos por u m tempo. Sentimos medo, mas agimos como se n a o 1 i romper a resposta: nesse caso, eles ainda sentem medo, mas
estivéssemos com medo. T a m b é m podemos aprender a quebrar a conexão i .n.l. I H lisii a mente (suspeito que deva haver u m traço de medo no
entre o gatilho e as assembleias de células, para não ativar a emoção. Porém,
a assembleia de células ainda existe, o banco de dados n ã o é eliminado e s e u
potencial de ser reconectado ao gatilho e à resposta continua dentro de n ó l nl.i i i . In indo . 111. n o s e m o c i o n a é fruto d o c o n d i c i o n a m e n t o . F r i j d a m o s t r a que alguns
luil n . i. M I "pouco a ver c o m ter v i v e n c i a d o c o n s e q u ê n c i a s aversivas o u p r a z e r o -
Sob certas c i r c u n s t â n c i a s , quando estamos sob estresse, o gatilho ficará inli . i i . I n u n i e s t í m u l o específico". A s e m o ç õ e s resultam "de c o n s e q u ê n c i a s o u c a u s a s
novamente ativo e se conectará à assembleia de células, e a resposta emm lo llilu IVnl ii emprego, receber c r í t i c a s , notar sinais de ser negligenciado o u desprezado,
iluglitil pi. . . o . i.n v i o l a ç õ e s de regras ( a ç õ e s q u e c o n t r a d i z e m nossos valores) s ã o even-
nal entrará novamente em ação.
III. I n i l l i r l . i n i ou remotamente conectados à s c o n d i ç õ e s reais aversivas o u prazerosas
Embora toda a pesquisa de LeDoux fosse sobre medo, ele considera q u e li>i III.I s i n a l i z a m e llies d ã o vida emocional". C o n s i d e r o esses casos exemplos
não há motivo para acreditar que seria diferente em relação à raiva o u à a l h r, .i niclliani a lemas universais, a i n d a que alguns estejam relacionados de

ção. Isso corresponde à minha experiência e ao que observei nas pessoas. ( I o n

6I
MUDANDO O Q U E NOS E M O C I O N O U
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES

rosto deles ou no tom de voz). Eles podem aprender a quebrar a conexão enl 1i /, . //n>/rn/(). Quanto mais próximo o gatilho aprendido estiver
o gatilho — aquele carro avançando em direção a eles — e a assembleia dl pi e u d i d o , mais difícil será reduzir seu poder. A fúria no trân-
células, estabelecida para esse gatilho do medo*. Talvez eles façam a sintonll i | ' l o ile evento que se assemelha muito a um tema e não a uma
fina da conexão entre o gatilho e a assembleia de células, de modo que o medo u lula Isso é exemplificado no seguinte quebra-cabeça. No
seja despertado e a resposta protetora do pedal de freio seja ativada somentt I l ' o a ,i universidade que faz diariamente, meu chefe de departa-
quando o perigo é iminente. No entanto, se o instrutor dormiu mal à noite OU i.• i i i lugar em que duas faixas de trânsito se juntam. Há uma
se ainda está refletindo a respeito de uma discussão inacabada com sua esposai M i a . | u e determina o revezamento dos carros para entrar, mas,
o pé se projetará novamente, da mesma forma que aconteceria com qualquei % • iieun motoristas violam essa regra bem na frente do meu chefe.
um que não seja instrutor de autoescola, que não aprendeu a interromper esse so. ainda que isso n ã o tenha muita i m p o r t â n c i a : o atraso é
gatilho. As ligações entre o gatilho, as conexões celulares e a resposta iu<> • I. il|.uns segundos. No entanto, no trabalho, quando alguém da
foram eliminadas, somente enfraquecidas. il.l-iil o M uma crítica a respeito de um de seus planos para o depar-
anilo em que ele trabalhou muito e que é realmente impor-
No decorrer deste capítulo, destacarei o enfraquecimento dos g a t i l h o - ,
In ii latamente se irrita. Por que a irritação com relação a u m
emocionais, tanto os estabelecidos diretamente por condicionamento, ou buli
retamente, através de uma conexão com u m dos temas emocionais. No pró- temente trivial, e não a u m importante?
niei e 1'oroue as ações dos motoristas se assemelham ao tema pro-
ximo capítulo, explico como é possível enfraquecer a conexão entre um evento
^^MM|fl| universal associado à raiva de ser contrariado, não pôr palavras.Tnas
fl
emocional e nossas respostas. Nenhum dos dois é fácil. Explicarei como i s s o
o n i I » i le alguém na busca dejtmobj^etivo. As ações indelicadas dos
pode funcionar no contexto de outro exemplo.
i n ' niuilo mais próximas do tema que um colega que escreve uma
Imagine u m garoto. Vamos chamá-lo de Tim. Ele foi importunado poi
i na ,i.|neles que se perguntam por que a fúria no trânsito parece ter
seu pai, que o provocava e zombava de seus desempenhos inadequados com
II to p n | d e i ante hoje em dia, suspeito que ela sempre existiu, porém,
piadas cruéis. Provavelmente, antes dos cinco anos de idade do garoto, o
o " to q u i n. ia, pois havia menos trânsito. Além disso, a mídia não tinha
roteiro de uma pessoa poderosa o rebaixando com provocações entrou em s e n
lo i s s o , o que concentra atenção sobre o fato.
banco de dados de alerta emocional. À medida que crescia, T i m respondia
i I. oi, lo e s s a s ideias aos problemas de T i m , podemos imaginar que ele
com irritação quase imediata às provocações, mesmo quando elas não eram
la m a i s l.icil enfraquecendo u m gatilho distante do tema univer-
intencionais. Isso deleitava seu pai, que zombava ainda mais ao ver a irritas•"'
h próximo. Ser provocado e humilhado pelas palavras paternas
dele. Cerca de vinte anos depois, T i m ainda reage com irritação ao primeiro
i li uige d o tema do que se seu pai fizesse "piada" ao imobilizar
sinal de provocação. Isso não significa que T i m sempre aja movido por s u a
h h m . iinpcdindo-o de se mover. Q ^ a i o t e ^ é r i a / n a i s chance de
raiva, mas que ele estaria em uma situação melhor se não precisasse lutar con
lij j •.. 11 llllO, depois de adulto, Se aS experiências nripinaig f j v e s s p m
tra seu impulso de revide.
i .11 \ a s , e não coação física, para provocá-lo e humilhá-lo.
Seis fatores diferentes tendem a determinar quão bem-sucedido alguém ilia questão a considerar é ^ õ m o os casos mais atuais do eventõ~sé
i ini
pode ser em reduzir o poder de u m gatilho emocional e a extensão do pe- tltuaçâo origin^t^em que o gatilho foi aprendido. Foi o pai
r í o d o refratário quando somos capazes apenasde utilizar as informações ! liu |n o provocou cruelmente — u m homem forte, dominante. A
que fundamentam a emoção que sentimos. O ^ i m e i o » fator é d/proximidmlc le u m i olega ou de um subordinado não é como a provocação
1 um h o t i que tem autoridade sobre ele. Assim, seria mais fácil para
i p o gatilho quando provocado por a l g u é m que n ã o seja
* P o d e m o s descobrir o que eles f a z e m m e d i n d o s u a fisiologia q u a n d o isso acontece, mas n a l
mente isso n ã o i m p o r t a p a r a m i n h a a r g u m e n t a ç ã o . i i | . i n a d e autoridade.

62 63
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES MUDANDO O Q U E NOS E M O C I O N O U

Uma(erceirpquestão é(quão cedo)ia vida da pessoa o gatilho foi apren< • li n i r . o i .1 como T i m pode enfraquecer o gatilho relativo à provo-
dido. Aparentemente, quanto «TõTs cedo u m gatilho foi aprendido, mais difíi l | ^ ^ M t o | | f " passo deve ser identificar o que o deixa t ã o i r r i t a d o Ele
será enfraquecê-lo. Por um lado, isso ocorre porque a capacidade de controlar i |ur . r i provocado por uma pessoa de autoridade é u m gatilho
as reações emocionais referentes a u m gatilho n ã o é tão bem desenvolvida nu i i ido â raiva. A ayalifção a u f n m á t i r a atua m milésimos de

míciodlTv1d<ã7 Portanto, haverá uma reação emocional mais forte associada ^ f c n y ^ g i da autoconsciência, antes de ele ser capaz de ficar sabendo o
com gatilhos aprendidos cedo, em comparação com os aprendidos na idade ^ ^ ^ f c i » deixa tão furioso. Talvez ele saiba que é a provocação, mas não
adulta. Por outro, existe a possibilidade (sugerida por alguns psicólogos da [•iii a i i o poder que esse alguém exerce sobre ele. Ele pode n ã o
desenvolvimento e todos os psicanalistas, atualmente, apoiada pela evidência |iu ipiesenta uma conexão com sua experiência infantil de ser pro-
crescente dos estudos do cérebro e da emoção ) de que a primeira infância c
6
in d o p o i s e u pai. T i m pode assumir uma postura defensiva, não
decisiva na formação da personalidade e da vida emocional. O que é apren Hltn a ai i li a i que está ficando irritado ou a enfrentar o fato de que seu pai
dido nessa época é mais forte e resistente à mudança. Os gatilhos adquiridos • II i Mt . i l m e n i e , o primeiro passo é ele se conscientizar da raiva que está
em período tão decisivo podem produzir u m período refratário mais longo. ihi i c r as sensações em seu corpo (sugestões de como fazer isso
Adarga emocional iniciãj)é o quarto fator-chave. Quanto mais forte ai li • q l o D r entender o efeito que ele exerce sobre as outras pessoas.
e m o ç õ e s forem vivenciadas no aprendizado do gatilho, mais difícil será iq I q u e Tim comece a reconhecer que fica muito irritado de
debilitar seu impacto. Se o episódio de provocação fosse suave ou moderado lo m a s n a o entende quando o u por que isso acontece. O próximo
em vez de forte, se os sentimentos de humilhação, de falta de valor e ressen- ^ ^ ^ ^ B É p M j f t U » episódios associados à raiva. Ele deve anotar essas oca-
timento em relação à perda de poder fossem suaves, seria mais fácil mitigai i ihece a irritação ou em que os outros falam sobre isso com
o gatilho. 1 1 t leve . o n t e r o máximo de informações possíveis a respeito do que
AQçnsidade da e x p e r i ê i T c i < í j é o quinto fator, contribuindo para a força MM n n i i * linimentos anteriores à irritação. U m amigo ou um psicoterapeuta
e indelebilidade~do gatilho. Adensidade se refere a episódios repetidos, c o m i i lo a i ompieender a situação escutando esses episódios, que signi-
alta carga emorjopal, q"e o r n r e m r n t ? u m curto p e r í o d o , mas com
f , l i r a i i lerpretada como humilhação, que é o gatilho quente de
efeito de subjugar a pessoa. Assim, se houvesse u m período em que I im ini l l
• d o a11 •.| *11 IOSO, quando ele pensa a respeito disso, pode se dar conta
provocado sem dó,'7níêrisamente e repetidas vezes, esse seria u m gatilho lá 11 a/.endo à tona, daquelas cenas terríveis com seu pai. N ã o
muito difícil de atenuar. ituli i • ele deve saber isso para enfraquecer esse roteiro. Pode ser
Quando a carga emocional inicial é muito forte e densa, minha expecta IMpjLyt—<«àn de que está reagindo de forma exagerada à provocação,
tiva é de que o período refratário em reações posteriores a esse gatilho será jjâ^^UiiifocoiiH)se ela sempre fosse sinónimo de numilhação.
longo, dificultando a percepção rápida a respeito das reações inadequadas. Sc i i i |iiea solução mais simples fosse evitar as situações em que
a carga emocional inicial foi muito forte, esse fato pode, sozinho, ser suficiente • ' i • ado Isso pressupõe que ele pode escapar, sem comparecer a
para estender o período refratário com relação ao gatilho, mesmo se não foi inpiesa, n o s quais ele tende a ser criticado, e que ele pode prever
denso ou se n ã o se repetiujíáiiâs^vezes. i n i que pode ser provocado. Uma opção melhor seria tentar
O sexto fator é omstilo afetivo\JCada u m de nós difere na velocidade, na D il I I I H '

força de nossas respostas e no tempo de recuperação de um episódio emocio- i n i i de « o n s i d e r a r a frequência com que percebia a provocação,
nal. Nos últimos dez anos, minha pesquisa enfocou essas questões, cuja con- MM|U llflo era intencional qo^nrlr, n i n pretendia h u m i l h á - l o . Ele
clusão descreve quatro outros aspectos do estilo afetivo além da velocidade, l i u i i u l t r • f f avaliar o rpotiv^ a p r Q v ^ s ç ã r , g s s a cuidadosa consi-
força e duração. Quem geralmente apresenta respostas emocionais mais rápl i i a anulai se l ó i feita repetidamente . T i m pode fazer isso refle-
8

das e intensas enfrentará mais dificuldade para esfriar u m gatilho quente. laidi a ie .peito de cada episódio de provocação, levando em con-

64 65
M U D A N D O O Q U E NOS E M O C I O N O U
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES

i d o di 11 u i n o desdenhoso envolve as emoções de aversão e desprezo; um


sideração explicações sobre o motivo da provocação, sem envolver o tema
volve entusiasmo e prazer; e um apreensivo envolve medo.
referente à h u m i l h a ç ã o .
i i d o cie â n i m o ativa emoções específicas. Quando estamos irrita-
Ao longo do tempo, ele pode aprender a reavaliar mais rápido, ainda
11amos uma oportunidade de ficar irritados- interpretamos o
durante a situação. Ele t a m b é m pode aprender a perceber quando pode sei
3 i um modo que perrnite^ou até mesmo exige, que fiquemos irritados.
provocado e se preparar para não interpretar isso como um insulto ou uma
los com assuntos que, em geral, n ã o nos alteram, e a irritação
tentativa de humilhação. Ao longo do tempo, provocações podem se tornar
o s forte e durar mais do que se n ã o estivéssemos irritadiços. Os
um gatilho mais frio. No m í n i m o , se T i m aprender que a provocação é um
• t ^ n l l n o não apresentam sinais próprios no rosto ou na voz. Em vez
gatilho e que é aJium4ti^à<xJLnJencional que o ativa, ele ficará mais preparado
'mil mos dizer que uma pessoa está em determinado estado de â n i m o
para controlar sua raiva quando ficar irritado'' (mais detalhes sobre o controle
mos os sinais da emoção que o saturam. Os estados de â n i m o
das respostas emocionais no Capítulo 4).
tji niiHsa llexibilidade, pois nos deixam menos responsivos às nuances
Se minha sugestão n ã o funcionar, se o gatilho emocional continuar a
• . mjuvsso amfrjente. rondirionando nossa interpretação e reação.
provocar respostas emocionais de difícil controle, há outras abordagens pos
in,oi t a m b é m fazem isso, mas somente por instantes, se o período
síveis. A psicoterapia é uma possibilidade, embora, de acordo com minha ex
i lo nao loi estendido; os estados de â n i m o duram horas,
periência, seja muitas vezes limitada na capacidade de conscientizar o paciente
luliii dllerimça entre os estjKJns. MV ^nj™" emproes é que, depois
a respeito do que é o gatilho e de que roteiro está sendo importado, sem ser út il
H^rnnrflo enmera e nns damos conta dela, podemos em peral, identi
em seu enfraquecimento. A terapia comportamental é outra abordagem pos
lYlllll' 'I"" CMMQM R ^ m e n r o sabemos por que estamos em determi-
sível, assim como a meditação . 10

Imio di ânimo. Parece simplesmente que "aconteceu". Certa m a n h ã ,


Vamos supor que T i m identificou o gatilho, dedicou u m tempo para a na
nl.o num estado de â n i m o específico, ou, sem motivo aparente,
lisar as situações em que percebe a provocação incorretamente, quando elu
i d o di.i, p e u ebemo-nos melancólicos. Embora devam existir mudan-
não existe, e t a m b é m praticou reavaliações, de modo que pode aceitar uma
i neuroquímicas, que deflagram e m a n t ê m estados de â n i m o ,
provocação como brincadeira, e não como u m insulto e humilhação. Reco
I l|ili rli também possam ser causados por experiências emocionais
nhece, ainda, que isso ficou mais fácil porque em sua infância existiram pou
A i ai\ intensa pode resultar em um estado de â n i m o irritadiço,
cos episódios de provocação, espalhados ao longo de meses, e nenhum deles
"i i i i a que uma alegria intensa pode resultar em u m estado de
continuou por muito tempo: carga e densidade baixas. Além disso, T i m não
lilú I ni,io, claro, sabemos por que estamos em determinado
apresenta um perfil de raiva muito forte e duradouro. Agora ele raramente tem
de lutar contra a fúria que vem da provocação. Mas isso pode acontecerj 1 Ir animo

provavelmente acontecerá, quando T i m estiver, por algum outro motivo, em ie, sustentei que as emoções são necessárias para nossas vidas

um estado de ânimo irritadiço. i iríamos de nos livrar delas. Estou menos convencido de que os
i ih i i n i lêm algum uso para nós". Os estados de â n i m o podem ser
Esta é uma boa hora para diferenciar emoções de estados de ânimo. T a l< i |
i.m Involuntárias de nossas estruturas emocionais, não seleciona-
nós temos os dois. São coisas diferentes, ainda que ambos envolvam sentimen-
« evolução, pois são adaptativas^ . Os estados de â n i m o estreitam nos-
2
tos. A diferença mais evidente é que as emoções são mais curtas que os estadon
I ihith a ile.ioijjeiíuiossos pensamentos e tornam mais difícil contro-
de ânimo. Esses podem durar u m dia inteiro, às vezes dois, enquanto as emo
• 1 il por algum motivo que não faz sentido para nós.
ções podem ir e vir em minutos ou em segundos. Um estado de ânimo se ftsgfj
o i•iiiiientar que, quando os estados de ânimos são causados por uáia
melha a u m estado emocional leve, mas contínuo. Se for irritabilidade, M f l
IH i i i min ional densa, eles têm a função de nos manter preparados
como ficar um tanto irritado todo tempo, pronto para ficar furioso. Se for
Ília tiuiaiao semelhante. Pode ser, mas, para mim, esse é um benefício
melancolia, ficaremos levemente tristes, prontos para ficarmos muito tristes

67
A LINGUAGEM DAS EMOÇÕES

pequeno em comparação com os problemas causados por estados de ânimo.


• lido 4
i Se pudesse, eu abriria m ã o de qualquer estado de â n i m o e viveria apenas com
I minhas emoções. Renunciaria satisfeito aos estados de â n i m o eufóricos para
í ficar livre dos irritadiços e melancólicos. Mas ninguém tem essa escolha.
Comportando-se
Os gatilhos que, por meio de trabalho duro, arrefeceram, voltam a ficar
quentes quando uma pessoa esfá p r " " T l -«tado de â n i m o pprtinpnte à^flt» tmocionalmente
gatilho. Quando T i m estiver em u m estado de â n i m o irritadiço, a provocação
pode, de novo, deflagrar sua raiva. Não é apenas uma situação estressante,
como sugeriu LeDoux, que ligará novamente u m gatilho à emoção; u m estado
de â n i m o t a m b é m pode fazer isso. Mesmo quando um gatilho foi enfraque-
cido ou arrefecido, de modo que não produza uma emoção, voltará a ficai
quente quando o estado de â n i m o correspondente vier à tona.
Mesmo quando n ã o nos tornamos especialmente vulneráveis a um
estado de â n i m o , muitos de n ó s ainda vamos ter, ao menos durante algum
tempo, emoções ativadas a respeito das quais não queremos agir. O próximo i .1 p i e s t e s a ir a uma reunião com seu chefe. Você não sabe do que se
capítulo considera as respostas emocionais involuntárias e como podemos > uiiliece a pauta nem solicitou essa reunião. A secretária dele disse,
controlar o que fazer quando nos emocionamos. • lit in o i reunião, que era "muito importante". Sua reação — quer você
, iedi(miado, irritado ou triste, quer mantenha sua serenidade ou apa-
i m i l ies.se, o que você diz e como age — pode ser fundamental para o
• ull i d o \H c confiaria em sua reação ou na capacidade de controlar seu
ah 11to emocional? Ou tomaria um drinque ou u m tranquilizante
l l l i l i ii d a I i i I I a marcada?
I difícil n a o se comportar emocionalmente quando os riscos são altos,
i... q . I . i tendemos a sentir emoções fortes. Muitas vezes, nossas emoções
IIH ii es guias, direcionando-nos e dizendo o que é correto para a si-
mas isso nem sempre acontece. Há vezes em que desejamos não ter
• o lalado sob influência de nossas emoções. Mas, se pudéssemos desli-
giti i omplclainente nossas emoções por um tempo, isso poderia piorar as coi-
!•«, poli t i pessoas ao nosso redor poderiam reprovar nosso desinteresse ou
1 ih . -i. p.u \ lo. Poderíamos, também, ser considerados desumanos, o que não
u n a l)cm\r nossas emoções, ter preocupações com o que acon-
' n.|i I H iio n o s comportamos de um jeito que as pessoas consideram muito

i. .1. i n j e ç o e s .le IHI(QX para r e d u z i r os sinais de e n v e l h e c i m e n t o acaba por deixar


II m i l «pressão, com a aparência menos animada c sem e m o ç ã o ; e (paradoxalmente)
nos a n i m a d a s s.io m e n o s atraentes aos outros.

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