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RESUMO DO TEXTO: AFFECTIO SOCIETATIS

1. Introdução

 A evolução do pensamento jurídico pode naturalmente distanciar sistemas


jurídicos fraternos.
 Assim como o estudo do direito comparado e a transposição de soluções
estrangeiras para o direito nacional devem ser feitas com cuidado, a utilização
de soluções forjadas noutros tempos demanda igual ou maior cautela, haja
vista que a aplicação, na atualidade, de lições e de institutos elaborados em
tempos remotos, certamente conduzirá a equívocos ou, pelo menos, a
construções pouco esclarecedoras.
 A aplicação acrítica e abusada da noção de affectio societatis, ainda em voga
no direito societário brasileiro, é, em larga medida, incompatível com a
evolução da ciência jurídica universal.

2. Origem da expressão no direito romano

 A Affectio Societatis é a intenção, a vontade dos sócios, da união e da


aceitação das normas de constituição e funcionamento da sociedade.
 Ela é um traço distintivo da sociedade em relação à comunhão ou
condomínio.

3. "Affectio societatis" em direito comparado e no direito brasileiro

 O conceito de affectio societatis é desprezado pelas obras de direito


societário mais conhecidas da Itália, Espanha ou Portugal, assim como é
completamente abandonado na Alemanha e na Suíça.

4. Conceitos e críticas

 Traduzida literalmente, a expressão “affectio societatis” é oca e desprovida de


alcance, pois o elemento voluntário existe em todo e qualquer contrato.
 Segundo Joseph Hamel, “o contrato de sociedade não pode ter por critério
uma affectio societatis que seja 'a vontade de constituir uma sociedade’ ”.
 Prevaleceu na doutrina e nos tribunais franceses o entendimento de que a
affectio societatis seria “o desejo, a vontade, a intenção de colaboração
voluntária e ativa, interessada e igualitária”.
 Essa concepção, no entanto, está longe de se revelar satisfatória. Por
exemplo, é incoerente classificar como colaborador ativo um dentre os
milhares de acionistas, que sequer comparecem às assembleias gerais e não
têm nenhum conhecimento dos negócios da sociedade. Entretanto, ninguém
deixa de reconhecer que são sócios.
 A vontade de união é um elemento essencial, mas não é o único nem
exclusivo das sociedades: encontra-se também em vários outros contratos.
 Segundo a visão de Hamel, a affectio societatis, a vontade de ligar-se a
contrato de sociedade, teria o elemento da intenção de união juntamente com
a intenção de riscos comuns. Não significaria, portanto, uma necessária
colaboração ativa e igualitária.
 A primeira crítica que se pode fazer ao conceito de affectio societatis é a de
que se trata de conceito equívoco, cuja obscuridade é ainda robustecida pelo
emprego da mítica expressão latina. Alguns autores usam o conceito para
designar o consenso exigido dos sócios, outros para apontar elemento
constitutivo e essencial do contrato de sociedade, e outros ainda para tratar
dos deveres dos sócios.
 A segunda crítica é a de que a affectio societatis não é especial modalidade
de consentimento, distinta da exigida para qualquer contrato.
 A terceira crítica é a de que a affectio societatis não é elemento constitutivo
do contrato de sociedade. O que particulariza a sociedade não é o
consentimento, mas a causa do contrato: a consecução de um fim comum.
 A quarta crítica é de que a affectio societatis não é elemento que causa a
extinção automática do contrato de sociedade no momento em que
desaparece. O que pode determinar a extinção da sociedade é a
impossibilidade de consecução do fim social ou o seu atingimento, o exercício
do direito potestativo de retirada, ou a recusa na prorrogação do prazo de
duração do contrato de sociedade.
 A quinta crítica é de que a affectio societatis não é elemento de determinação
da extensão dos deveres dos sócios. Quem define os deveres dos sócios é o
objetivo comum.

5. Rumo ao conceito de fim comum em sentido lato

 A superação do termo affectio societatis já deveria ter se dado com a teoria


do contrato plurilateral, a qual já deixou claro que, diferentemente dos
contratos de escambo, no contrato de sociedade as partes têm não apenas
interesses contrastantes, no ato de constituição, mas visam sobretudo um fim
comum.
 O objeto (atividade à qual a organização se dedica) serve, entre outras
coisas, para distinguir as sociedades empresárias das sociedades não
empresárias. O objetivo serve para distinguir as sociedades (tem como
finalidade a partilha dos resultados da atividade social) das associações em
sentido estrito (sem fins econômicos).
 O fim social é elemento constitutivo, pois sem ele não há sociedade, e
elemento funcional, pois fixa as diretrizes da política da sociedade, determina
os direitos e deveres dos sócios e dirige os estágios da vida da sociedade.

6. As críticas às tradicionais aplicações da "affectio societatis" no direito brasileiro e


a sua substituição por um novo paradigma

6.1 "Affectio societatis" e exclusão de sócio

 Exclusão = extinção do vínculo societário do sócio em relação à sociedade e


aos demais sócios. Só se legitima quando atendidos os pressupostos
estabelecidos no CC.
 No atual direito societário brasileiro a exclusão tem, como elemento comum
de justificação, o não cumprimento ou a impossibilidade de o sócio adimplir os
seus deveres essenciais.
 A doutrina mais moderna passou a considerar que a simples quebra da
affectio societatis não pode autorizar a exclusão do sócio. Se pudesse, estaria
instalada a possibilidade de exclusão de sócio por mera vontade ou capricho
dos demais sócios. Alegando a maioria que não há mais affectio societatis em
relação a algum sócio, não teria o juiz quaisquer condições de averiguar o
fato.

6.2 "Affectio societatis" e retirada de sócio

 Poder de autodesvinculação que assiste aos sócios nos casos previstos no


CC.
 O que pode embasar o pedido de dissolução parcial da sociedade pelo sócio
que deseja se retirar não é propriamente a quebra da affectio societatis, mas
a inviabilidade de o sócio nela continuar (justa causa reconhecida
judicialmente).
 Ainda assim, a persistência ou não da intenção, do desejo, do ânimo de
associar-se ou se manter associado, é dado irrelevante para conceder ou não
a dissolução parcial da sociedade.
 Os casos de retirada às vezes impedem o próprio prosseguimento da
atividade, em razão da liquidação da quota do retirante. Por isso os sócios
não podem simplesmente retirarem-se no momento em que quiserem, sem
motivo judicial.

6.3 "Affectio societatis" e sociedade anônima "de pessoas"

 A noção de affectio societatis é muitas vezes utilizada para evidenciar a


diferença entre sociedades de pessoas e sociedades de capital. Nesse
sentido, afirma-se que nas sociedades de pessoas se consideram as
qualidades pessoais dos sócios, de modo que os deveres de colaboração e
lealdade entre eles seriam mais estritos e marcantes do que nas sociedades
de capitais.
 Para essa classificação das sociedades, a noção de affectio societatis não é
operacional: é antes descritiva, ao invés de instrumental. Ela não auxilia o
intérprete a solucionar os problemas concretos, mas, pelo contrário, aparece
como fruto da sua constatação.
6.4 "Affectio societatis" e caracterização da sociedade

 Por último, a affectio societatis é invocada para diferenciar certas relações


jurídicas do contrato de sociedade. Como já destacado antes, a affectio
societatis não é elemento constitutivo da sociedade.