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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS


PÓS-GRADUAÇÃO EM ADMINISTRAÇÃO

Protótipo de MQ1 – Impacto do uso de redes sociais no resultado de eleições

Discente: Leonardo Medeiros Martins.


Disciplina: Métodos Quantitativos.
Docente: Luciano Sampaio.

INTRODUÇÃO

Atualmente as interações sociais através de plataformas digitais vem ficando


mais incorporado em nossa rotina. Isso acaba por afetar em vários setores da sociedade,
seja sobre lazer, esporte, cultura, ciência, economia, política etc. No caso deste último, a
política vem se tornando um meio de atrair novos partidários e/ou eleitores.
Demonstração de tal capacidade pode ser exemplificada, no Brasil, pela campanha do
candidato presidencial do estreante em eleições (assim como seu partido) João
Almoedo, do NOVO. Devido ao pequeno porte do partido, o candidato não tinha direito
a espaços em debates televisivos, fato que conduziu a estratégia de campanha
fortemente direcionada via redes sociais, trazendo pouco mais de 2 milhões e 600 mil
votos (EXAME, 2018)1. Entretanto, no mundo globalizado que vivemos, fenômenos
como esse não são exclusivos do Brasil, mas ocorrem também em outras localidades,
especialmente no mundo ocidental, a exemplo dos Estados Unidos e da Grã-bretanha,
conforme ilustrado na literatura. Assim, isto faz com que, em uma abordagem científica,
pesquisadores questionem-se e investiguem se realmente essas novas tecnologias
favorecem os candidatos ou apenas são meios de exibição de outros fatores que
realmente impactam em uma eleição.

O trabalho de Bright et al. (2018), analisou o uso do Twitter nas eleições de


2015 e 2017 no Reino Unido, mas, com o intuito de averiguar se o uso desse meio de
comunicação faz diferença ou não, isto é, se possui algum impacto nos votos dos
candidatos. A pesquisa foi baseada em 631 distritos eleitorais entre Inglaterra, País de
Gales e Escócia, totalizando próximo de 6 mil candidatos observados no Twitter.
A metodologia adotada foi o uso de regressão linear múltipla através de dados de
painéis para dois períodos. A variável dependente para o estudo é o percentual de votos
globais ganho por cada candidato em seu respectivo distrito. Enquanto para as variáveis
explicativas, adotou-se os padrões de atividade do candidato.
Para isso, foram criados 5 modelos para estudar o impacto. O modelo 1.1 é uma
relação simples entre o uso do Twitter e o número de votos. Já o modelo 1.2 adiciona
outras variáveis de controle, como dados de gastos, incumbência 2 e partido do
candidato. Enquanto isso, o modelo 1.3 é restrito ao extrato de candidatos com conta no
Twitter, sendo a principal variável independente a quantidade de vezes que foram
enviadas mensagens a partir das contas. O modelo 1.4 adiciona uma variável dummy

1
Disponível em: <https://exame.abril.com.br/brasil/novato-amoedo-surpreende-e-vira-ativo-eleitoral/>.
2
Incumbência, do inglês incumbency, trata da condição de o candidato estar em um posto de dominância
ou grande expressividade na cena eleitoral.
para se a análise foi em 2015 ou 2017, assim como um termo de interação entre o ano e
a quantidade de tweets enviados. Por último, o modelo 1.5 usa um modelo de diferença
entre candidatos que competiram em 2015 e 2017 e aqueles que tinham uma conta no
Twitter.
De modo mais claro, a figura 1 traz a tabela dos resultados obtidos pelos autores:

Figura 1 – Regressão MQO da relação entre uso do Twitter e resultados de votos.

Fonte: Bright et al. 2018.

Quando é levado em conta apenas o uso do Twitter (modelo 1.1) percebe-se


haver um maior impacto para o ano de 2017 em relação à 2015. Todavia, o modelo 1.5,
mais completo, ilustra que a quantidade de tweets (indicando o uso do Twitter) impacta
os votos, mas não na mesma medida do que fatores como a incumbência do candidato
ou o seu partido.

Em outra análise, o artigo de Gibson e McAllister (2011) buscou entender o


efeito das plataformas de Web 2.0 na escolha do voto para partido. Os autores destacam
o crescimento do Google, Facebook e Youtube entre os australianos e, em razão disso, a
pesquisa atentou-se em analisar as eleições australianas de 2007. Os dados da pesquisa
foram obtidos pelo Australian Election Study (AES), o qual possui a amostra para
eleitores, e pelo Australian Candidate Study (ACS), compondo a amostra dos
candidatos à eleição. O trabalho de Gibson e McAllister (2011), utilizou como método
as regressões de logística multinomial e mínimos quadrados ordinários (MQO), com o
intuito de analisar as intenções de votos para um partido específico dadas condições de
uso da internet específicas.
Nesse sentido, será estudado a parte do trabalho concernente ao método de
MQO, a título de enquadramento com o método do trabalho anterior, de Bright et al.
Logo, Gibson e McAllister elaboraram um modelo em que a variável explicada são os
votos por tipo de campanha web. Enquanto que as variáveis explicativas são idade,
gênero, tamanho do partido, trabalhadores do partido, atividades de campanha,
incumbência e oscilação de votos de 2004 para 2007. Ainda, o modelo foi aplicado para
três diferentes partidos australianos. Portanto, de modo mais claro, seguem os resultados
encontrados pelos pesquisadores, na figura a seguir:
Figura 2 – Regressão MQO dos votos e campanha web dos candidatos, por partido.

Fonte: Gibson e McAllister (2011).

Através desse modelo, ficou mais forte a evidência de que membros de partidos
alternativos, como o Verde (Green) foram mais beneficiados pelo uso de meios
alternativos de campanha, no caso da Web 2.03, visto que o impacto nos votos é positivo
apenas para esse partido. Entretanto, quando se considera meios de comunicação via
internet mais tradicionais, como as páginas próprias de candidatos na web, os partidos
mais conservadores possuem resultados melhores, sendo o impacto maior captado pelo
partido do trabalho (labor).

Nesse sentido, o uso correto de variáveis pode indicar de modo eficaz os


impactos das redes sociais no desempenho eleitoral, por isso foi escolhido como modelo
de protótipo algo que contemplasse esse universo. Especialmente, no próximo ano,
haverão as eleições para prefeitos e vereadores o que, em uma situação hipotética da
qual este protótipo atende, poder-se-ia utilizar o conhecimento dos métodos
quantitativos nas campanhas eleitorais para orientar candidatos, sobretudo aqueles em
partidos de menor infraestrutura, pois, como demonstrado no trabalho de Gibson e
McAllister (2011), partidos alternativos possuem impacto maior ao utilizar Web 2.0.
O presente trabalho poderia analisar o impacto do uso de redes sociais nos
resultados das eleições anteriores, do ano de 2016, como meio para identificar quais
ações, recursos e linhas de atuação são mais eficazes (mais impactantes).

3
No âmbito da pesquisa, considerou-se uso de web 2.0 para a campanha o estabelecimento de perfis de
redes sociais, criação de blogs e configuração de canais interativos de vídeo.
Uma lacuna que poderia ser resolvida no modelo do protótipo é a inserção do
tempo de existência ou uso da rede social para sopesar a influência de redes sociais que
só funcionam em períodos eleitorais das outras.

METODOLOGIA

Portanto, o presente trabalho possui o objetivo de elaborar um modelo


econométrico, cuja variável explicada é a quantidade de votos e as variáveis
explicativas são o número de seguidores na rede social, o número de postagens por dia,
o número de interações por dia (comentários, compartilhamentos/reposts,
curtidas/likes), o tempo de rede social4 e a diferença entre as eleições de 2016 e 2012.
Para testar esse modelo, construiu-se a seguinte equação:

votos = β0 + β1seguidores + β2publicações + β3interações + β4tempo + β5diferença + u

em que votos representa a expectativa da quantidade de votos que um candidato pode


obter, seguidores é a quantidade de seguidores em sua rede social, publicações são a
quantidade de postagens da rede social, interações são as ações dos usuários perante as
atividades do candidato na página, tempo é o tempo em que o candidato utiliza a rede
social (medido em semestres) e diferença é a oscilação da quantidade de votos obtidos
entre as eleições municipais de Natal/RN de 2012 e 2016, para candidatos que
concorreram em ambas.
Desse modo, este é um modelo de regressão linear múltipla, o qual utiliza quatro
variáveis para captar o efeito na quantidade de votos.
Ainda, para testar esse modelo, seriam utilizados o os dados obtidos nos próprios
perfis das redes sociais dos candidatos pesquisados. Assim, utilizar-se-ia programas de
interface com a web para extrair e compilar as informações dos perfis dos candidatos
para tabelas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
4
Este fator é interessante, pois, conforme a literatura ilustra, um dos problemas de redes socias para
campanhas políticas é que muitos políticos criam um perfil apenas durante o período eleitoral e depois o
excluem. Isto é a estratégia de “campanha e retirada” (Bright et al. 2018) Assim, o tempo de rede social
seria para captar o efeito de políticos que possuem a rede a mais tempo: pressupondo assim que tem um
trabalho mais sério com seu público.
BRIGHT, J. HALE, S. GANESH, B. BULOVSKY, A. MARGETTS, H. & HOWARD,
P. Does Campaigning on Social Media Make a Difference? Evidence from
candidate use of Twitter during the 2015 and 2017 UK Elections. Social and
Information Networks, Cornell University, 2018.

EXAME. Novato, Amoêdo surpreende e vira ativo eleitoral. 8 out. 2018. Disponível
em: <https://exame.abril.com.br/brasil/novato-amoedo-surpreende-e-vira-ativo-
eleitoral/>. Acesso em 15 jul. 2019.

GIBSON, R. K. & MCALLISTER, I. Do online election campaigns win votes? The


2007 Australian “Youtube” election. Political Communication, n. 28, p. 227-244,
2011.