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Sociologia do Turismo

Prof.a Soraia Daiane Kraisch Daniel

2011
Copyright © UNIASSELVI 2011

Elaboração:
Prof.ª Soraia Daiane Kraisch Daniel

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

338.4791
D184s Daniel, Soraia Daiane Kraisch
Sociologia do turismo / Soraia Daiane Kraisch Daniel.
Indaial : Uniasselvi, 2011. 211 p. : il.

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7830-503-1

1. Turismo - Sociologia.
I. Centro Universitário Leonardo da Vinci

Impresso por:
Apresentação
Prezado(a) acadêmico(a)!

A Sociologia do Turismo é uma especialidade reconhecida atualmente


pela literatura internacional e vem ao encontro da necessidade de a Sociologia
compreender não só o turismo, mas também a sociedade atual. Faremos
algumas reflexões sobre a construção do campo de conhecimento do turismo
a partir do olhar da Sociologia.

Primeiramente na Unidade 1 faremos uma introdução ao estudo da


sociologia considerando alguns conceitos e discussões básicas. Para tanto
estudaremos a sociologia a partir da compreensão do modo de vida da
sociedade ao longo do tempo, principalmente na sociedade moderna. Também
identificaremos o conceito de turismo e seu desenvolvimento, relacionando-o
à nossa discussão sobre a sociologia. Compreender o turismo sob o âmbito
social, buscando relacionar a importância dos hábitos da comunidade
receptora, principalmente na sociedade pós-industrial, será a última reflexão
desta unidade.

Posteriormente na Unidade 2 faremos uma relação entre lazer e


sociedade. Para isso continuaremos a reflexão sobre o estudo da sociologia
levando em consideração os pensamentos clássicos como os de Durkheim,
Marx e Weber. Continuando esta reflexão serão abordados assuntos como
os movimentos sociais, incluindo a luta pela cidadania e os sistemas de
estratificação social, divididos em estratificação econômica, política e
profissional. Quanto ao lazer iremos, primeiramente, relacioná-lo e diferenciá-
lo de trabalho, ócio e tempo livre. A partir desta relação compreenderemos
que a discussão sobre lazer é muito ampla, podendo o turismo ser uma de
suas formas.

Na última unidade, classificada como Turismo e Sociedade, faremos


novamente uma reflexão sobre a sociedade, mas agora no âmbito do turismo.
Isto significa dizer que abordaremos temas como a internacionalização do
turismo e a globalização no contexto turístico. Buscaremos, desta forma,
ilustrar a importância do turismo na sociedade atual, já que realizamos ao
longo das outras unidades uma evolução histórica deste setor. Por último
abordaremos as tendências do turismo sob vários ângulos como econômico,
ambiental, cultural, mas principalmente social.

De um modo geral, todos estes temas apresentados nos levam à


compreensão do turismo sob um enfoque sociológico. O objetivo deste caderno,
porém, é servir como um guia para que você, caro(a) acadêmico(a), possa fazer
uma análise crítica a respeito de toda esta discussão.
III
Desse modo, os conteúdos apresentados abordam tópicos principais
que devem ser complementados com estudos mais aprofundados em
bibliografia específica, sugeridas no final deste caderno, e em tópicos
disponíveis no Ambiente Virtual de Aprendizagem.

Vamos ao estudo não somente das viagens, mas acima de tudo das
relações da sociedade e suas formas de lazer. Bons estudos!

Prof.ª Soraia Daiane Kraisch Daniel

UNI

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades
em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o


material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato
mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação
no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir
a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 - INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO ................................................ 1

TÓPICO 1 - O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA .......................................................................... 3


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 3
2 ENTENDENDO A SOCIOLOGIA .................................................................................................... 3
2.1 CONJUNTURA HISTÓRICA . ....................................................................................................... 3
2.2 DEFINIÇÃO ..................................................................................................................................... 5
2.3 FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ....................................................................................... 7
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 13
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 15
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 16

TÓPICO 2 - O TURISMO ....................................................................................................................... 17


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 17
2 O TURISMO .......................................................................................................................................... 17
2.1 ANTECEDENTES HISTÓRICOS .................................................................................................. 17
2.2 CONCEITOS . ................................................................................................................................... 20
2.3 DESENVOLVIMENTO ................................................................................................................... 21
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 24
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 25
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 26

TÓPICO 3 - O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL .............................................................. 27


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 27
2 O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL ................................................................................. 27
2.1 DEFINIÇÃO DO TURISMO EM ÂMBITO SOCIAL .................................................................. 27
2.2 IMPACTOS SOCIOCULTURAIS POSITIVOS E NEGATIVOS ................................................. 33
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 37
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 41
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 42

TÓPICO 4 - SOCIOLOGIA DO TURISMO ....................................................................................... 43


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 43
2 SOCIOLOGIA APLICADA AO TURISMO .................................................................................... 43
2.1 RELAÇÃO HISTÓRICA ENTRE SOCIOLOGIA E TURISMO ................................................. 43
2.2 DEFINIÇÃO E OBJETIVOS . .......................................................................................................... 45
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 49
RESUMO DO TÓPICO 4 ....................................................................................................................... 51
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 52

TÓPICO 5 - O TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL ................................................ 53


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 53
2 CONCEITO DE SOCIEDADE ............................................................................................................ 53
3 O PAPEL DO TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL ............................................... 55

VII
4 O TURISMO E A CULTURA .............................................................................................................. 59
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 62
RESUMO DO TÓPICO 5 ....................................................................................................................... 64
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 65

UNIDADE 2 - O LAZER E A SOCIEDADE ........................................................................................ 67

TÓPICO 1 - OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS ................................................................................ 69


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 69
2 ÉMILE DURKHEIM ............................................................................................................................. 69
3 KARL MARX ......................................................................................................................................... 72
4 MAX WEBER ......................................................................................................................................... 76
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 80
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 83
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 84

TÓPICO 2 - OS MOVIMENTOS SOCIAIS ........................................................................................ 85


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 85
2 OS MOVIMENTOS SOCIAIS ........................................................................................................... 85
3 A LUTA PELA CIDADANIA .............................................................................................................. 93
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 95
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 97
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 98

TÓPICO 3 - SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL ............................................................. 99


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 99
2 SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL ................................................................................ 99
2.1 ESTRATIFICAÇÃO ECONÔMICA .............................................................................................. 101
2.2 ESTRATIFICAÇÃO POLÍTICA ..................................................................................................... 103
2.3 ESTRATIFICAÇÃO PROFISSIONAL ........................................................................................... 105
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 106
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 108
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 109

TÓPICO 4 - LAZER ................................................................................................................................. 111


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 111
2 TRABALHO ........................................................................................................................................... 111
3 ÓCIO ....................................................................................................................................................... 114
4 TEMPO LIVRE ...................................................................................................................................... 115
5 LAZER ..................................................................................................................................................... 116
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 120
RESUMO DO TÓPICO 4 ....................................................................................................................... 122
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 123

TÓPICO 5 - AS VIAGENS COMO FORMA DE LAZER ................................................................. 125


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 125
2 AS VIAGENS E O LAZER ................................................................................................................... 125
3 HUMANIZAÇÃO DO LAZER ........................................................................................................... 127
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 132
RESUMO DO TÓPICO 5 ....................................................................................................................... 136
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 137

VIII
UNIDADE 3 - TURISMO E SOCIEDADE .......................................................................................... 141

TÓPICO 1 - TURISMO, SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO ................................................. 143


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 143
2 RELAÇÃO TURISMO E SOCIEDADE ............................................................................................ 143
3 O DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA .................. 146
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 149
RESUMO DO TÓPICO 1 ....................................................................................................................... 151
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 152

TÓPICO 2 - TURISMO E GLOBALIZAÇÃO ..................................................................................... 153


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 153
2 GLOBALIZAÇÃO ................................................................................................................................. 153
2.1 HISTÓRIA E CONCEITUAÇÃO . ................................................................................................. 153
2.2 PROCESSOS DA GLOBALIZAÇÃO ............................................................................................ 157
2.3 DIFERENTES INTERPRETAÇÕES DA CULTURA GLOBAL . ................................................ 159
3 DIMENSÃO DA GLOBALIZAÇAO NO CONTEXTO TURÍSTICO ......................................... 161
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 165
RESUMO DO TÓPICO 2 ....................................................................................................................... 169
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 170

TÓPICO 3 - TURISMO INTERNACIONAL ...................................................................................... 171


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 171
2 A INTERNACIONALIZAÇÃO DO TURISMO ............................................................................. 171
3 O BRASIL NO CENÁRIO TURÍSTICO INTERNACIONAL ...................................................... 176
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 181
RESUMO DO TÓPICO 3 ....................................................................................................................... 183
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 184

TÓPICO 4 - TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO .......................... 185


1 INTRODUÇÃO ..................................................................................................................................... 185
2 TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO .............................................. 185
2.1 TENDÊNCIAS E DESAFIOS PARA O TURISMO INTERNACIONAL .................................. 187
2.2 PERSPECTIVAS PARA O TURISMO NO BRASIL ..................................................................... 192
LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................... 200
RESUMO DO TÓPICO 4 ....................................................................................................................... 203
AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................. 204
REFERÊNCIAS ......................................................................................................................................... 205

IX
X
UNIDADE 1

INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA
DO TURISMO

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade, você será capaz de:

• conceituar a sociologia e relacioná-la ao longo da história;

• interpretar os conceitos básicos do turismo para obter o conhecimento da


área;

• interpretar os impactos socioculturais do turismo;

• entender a relação do turismo com a sociologia;

• compreender o turismo na sociedade pós-industrial.

PLANO DE ESTUDOS
Esta primeira unidade está dividida em cinco tópicos. Ao final de cada um
deles você encontrará atividades que contribuirão para a reflexão e análise
dos conteúdos explorados.

TÓPICO 1 – O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA

TÓPICO 2 – O TURISMO

TÓPICO 3 – O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL

TÓPICO 4 – SOCIOLOGIA DO TURISMO

TÓPICO 5 – O TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico iremos entender o processo histórico da sociologia, bem como
sua definição, tipologias e outras discussões importantes acerca do tema.

2 ENTENDENDO A SOCIOLOGIA
Você, acadêmico(a), pode estar se fazendo algumas perguntas a respeito do
estudo da sociologia. Por exemplo: Por que estudar a sociedade em que vivemos?
Não basta vivê-la? A sociologia serve para quê? Ao longo deste tópico e dos que
seguirem procuraremos responder a esses questionamentos.

Podemos afirmar que a Sociologia, assim como as demais ciências humanas


(História, Ciência Política, Economia, Antropologia etc.) tem como objetivo
compreender e explicar as mudanças ocorridas na sociedade, indicando possíveis
rumos.

2.1 CONJUNTURA HISTÓRICA


Para entendermos melhor o conceito de sociologia é interessante fazermos
um levantamento histórico acerca do surgimento da sociologia. Bedone (2006, p.
27) afirma que

A Sociologia surgiu num momento de desagregação da sociedade


feudal e consolidação da sociedade capitalista. O que propiciou o seu
nascimento foram as transformações econômicas, políticas e culturais
que ocorreram no século XVIII, como consequência das Revoluções
Francesa e Industrial, que iniciaram e possibilitaram a formação de um
processo de instalação definitiva da sociedade moderna.

Para Tomazi (2010), a sociologia nasceu em resposta à necessidade de


entender as mudanças ocorridas no final do século XVIII e o início do século
XIX, no contexto da Revolução Industrial, decorrentes do desenvolvimento do
capitalismo.

A expansão da indústria ocasionou o êxodo rural, transformando muito


o modo de vida das pessoas, afetando as relações familiares e de trabalho. Com
isso aos poucos as normas e valores também passaram a mudar, com novas bases.

3
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Também grandes transformações políticas ocorreram nesta época, impulsionadas


por movimentos como a Independência dos Estados Unidos da América e a
Revolução Francesa.

Procurando entender essas transformações e mostrar caminhos para a


resolução de problemas gerados pelas incertezas desta nova fase, alguns pensadores
escreveram suas teorias sobre a sociedade anterior e a constituição desta nova
sociedade. Criaram-se assim as bases para o desenvolvimento da sociologia como
ciência específica.

Fazendo um levantamento histórico sobre os principais pensadores de cada


época, Tomazi (2010) afirma que, entre o final do século XIX e o início do século
XX, os pensadores que mais influenciariam o desenvolvimento da sociologia
estavam na França, Alemanha e Estados Unidos. Na França podemos destacar
Émile Durkheim (1858-1917), na Alemanha, o mais conhecido foi Max Weber (1864-
1920). Nos Estados Unidos da América, os estudos da sociologia desenvolveram-se
principalmente nas universidades de Chicago, Colúmbia e Harvard, destacando-
se os sociólogos Robert E. Park (1864-1944) e George H. Mead (1863-1932).

Ao longo do século XX a sociologia passou a ser reconhecida em todo o


mundo, não somente nas universidades, mas também nos meios de comunicação,
discutindo sobre questões específicas ou gerais que envolvem a sociedade.

Desde o seu surgimento a sociologia tem se preocupado com os


acontecimentos ocorridos no interior da sociedade, ou seja, os conflitos entre as
classes sociais. Como veremos mais adiante, a sociedade industrial, que estava
em seu início, trouxe uma necessidade de reflexão sobre as transformações, as
crises e os antagonismos de classe. Mas o que são antagonismos de classe? Em
uma explicação breve antagonismos de classe são as contradições existentes entre
as diferentes classes sociais, como, por exemplo, a acentuada desigualdade social,
política e econômica entre pobres e ricos.

Essa nova forma de pensar caracterizou-se como Positivismo, que teve


como maior preocupação a organização e a reestruturação da sociedade, buscando
a preservação e manutenção da nova ordem capitalista. (BEDONE, 2006).

TUROS
ESTUDOS FU

Sobre o positivismo falaremos mais daqui a pouco quando o relacionarmos à


definição de sociologia.

4
TÓPICO 1 | O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA

2.2 DEFINIÇÃO
Após entendermos o processo histórico e o surgimento da sociologia
podemos iniciar a discussão sobre o que é a sociologia. Embora talvez você já saiba
o que é, faremos algumas considerações importantes sobre o tema, inclusive a
existência de algumas tipologias de sociologia.

O termo sociologia vem da junção de duas palavras: socius, que vem do


latim, significa companheiro, sócio, e lógos, que vem do grego, significando estudo.
Na origem de sua palavra, significa estudo do social, ou da sociedade, ou de tudo
o que se refira a mais pessoas e não somente a uma só. A sociologia tem a ver com
grupos de pessoas, sociedades, organizações sociais e sistemas. (GUARESCHI,
1997).

Paulini e Silva (2004, p. 14) começam o conceito de sociologia com a seguinte


frase sobre a realidade brasileira:

É preciso dar prioridade à questão social porque caso contrário vamos


ter a moeda mais forte do mundo juntamente com a maior miséria
do mundo. Nós não somos palhaços, nós somos cidadãos e temos de
ser respeitados nos nossos direitos, assim como nos compromissos de
campanha que são estabelecidos a cada quatro anos. É preciso aprender
a ser mais indignado, a cobrar mais; não podemos ficar tão passivos e
tão pacíficos diante de tanta miséria. (Sociólogo Betinho).

Falando sobre o estudo da sociologia é inegável a sua importância na


sociedade moderna, pois nos deparamos a todo o momento com situações extremas
de riqueza e miséria; paz e guerra; famílias sem teto, sem terra, sem alimento e sem
direito a atendimento de serviços básicos como saúde e educação. “A sociologia
estuda a vida social humana, dos grupos e das sociedades. [...] Uma das funções
da Sociologia é estudar como as sociedades continuam funcionando ao longo do
tempo e as mudanças que sofrem”. (PAULINI; SILVA, 2004, p. 15).

Você já deve ter relacionado várias vezes a sociologia a levantamentos de


dados, pesquisas, estatísticas, gráficos, grande número de tabelas. Não que isso
não seja importante, claro que é necessário ter dados e números concretos para
podermos nos situar e entender a sociedade em que vivemos. Até porque muitas
vezes convivemos com pessoas somente da nossa realidade, desconhecendo
realidades diferentes da nossa que podem ser de classes mais baixas ou altas.
Porém somente isso é o suficiente? A sociologia vai muito além. Para entendermos
melhor, Guareschi (1997) faz algumas considerações sobre as duas grandes teorias
da sociologia:

a) A teoria positivista-funcionalista: também bem conhecida como teoria


positivista, a primeira corrente teve alguns nomes, procuraremos relacionar os
nomes e entender o significado de cada um. A palavra positivismo vem do latim
positum e significa posto, colocado. Esta teoria possui esse nome porque acredita
que a realidade é o que está aí, o que está colocado, posto, na nossa frente. A

5
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

realidade seria aquilo que nós vemos, apalpamos, no que existe aí. Pergunte a
você mesmo(a): o que é realidade? Veja se sua resposta é parecida com a definição
apresentada.

Outro nome dado a essa teoria foi “funcionalista”: acrescenta algo à teoria
anterior, mas não a modifica fundamentalmente. O funcionalismo acrescenta à
primeira teoria que a realidade, e, principalmente, a sociedade, é o que está aí
também, mas tudo o que existe tem sua função. Para os seguidores dessa teoria
o mundo é organizado, por isso também recebe o nome de funcionalismo, pois,
assim como na natureza, na sociedade todos também têm sua função, em um
organismo social equilibrado.

Falando em equilíbrio, para a teoria positivista-funcionalista o normal é a


coisa que funcione. Se funciona, é bom. Se não funciona, não é bom. Pela própria
natureza, tudo se equilibra e chega a uma perfeita harmonia. Também há um
aspecto ético nessa teoria, pois o ideal é tudo permanecer como está. E mudança,
como é vista pelos seus seguidores? Só pode haver mudança se tudo mudar,
ou seja, se tudo deixar de existir. A mudança só pode vir de alguém que queira
destruir ou matar o que existe.

Alguns seguidores também chamam essa teoria de absolutista porque


cada grupo é absoluto, ou seja, fechado em si mesmo. Outro nome ainda é teoria
acadêmica, pois, para o sistema sobreviver, tem que se garantir, legitimar, explicar.
O mecanismo principal são as universidades e escolas.

Você deve estar se questionando: a quem e para que serve essa teoria?
Obviamente ela interessa a quem está por cima, está muito bem e não precisa nem
quer qualquer mudança. Prefere que tudo continue como está. Não é interessante
que alguém tente imaginar uma realidade diferente da atual. Podemos dizer que
quem domina as teorias domina a sociedade, pois estas são as possibilidades de
pensar (ou não) de forma diferente.

b) Teoria histórico-crítica: existe outra forma de ver o mundo, porém esta


teoria não é tão divulgada por ser muito perigosa e já veremos por que. O primeiro
nome dado foi de teoria histórica porque tudo que é criado é histórico, não é eterno,
apareceu, mas irá desaparecer. Se for histórico também é relativo, isto é, houve um
tempo em que não foi aceito ou um dia não será mais aceito. Essa teoria é oposta à
anterior, pois, se algo é relativo, não é absoluto, é incompleto.

Essa teoria histórica nos leva a refletir sobre o lado negativo das coisas: tudo
é precário, vazio e precisa ser preenchido. Essa postura histórica deixa as pessoas
bem mais atentas e alertas. Por exemplo, em um discurso político, são citadas
tantas coisas boas, porém, por mais ações positivas que haja, ainda há algumas
ações que precisam ser realizadas, mas os problemas geralmente não são citados.
Essa teoria explica que por mais absoluto que algo seja não será totalmente.

6
TÓPICO 1 | O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA

O nome de teoria crítica vem do grego kritein, que significa julgar. A pessoa
que tem uma visão crítica é aquela que, antes de ver, ouvir ou ler qualquer coisa,
sabe que tudo tem dois lados. Essa teoria também recebe o nome de utópica.
Utópico é algo que ainda não existiu em lugar algum, mas que poderá existir. O
conceito de realidade para esta teoria é bem mais amplo que o da teoria positivista-
funcionalista, pois incorpora o projeto, o futuro. Levando em consideração esse
conceito, as pessoas são mais transformadoras, diferentes da teoria anterior em
que as pessoas são fechadas no presente. Já na teoria histórico-crítica as pessoas
acreditam nas mudanças, pois as coisas nunca estão prontas, acabadas.

Novamente faço a pergunta: a quem interessa essa teoria histórico-crítica?


A toda pessoa que tem uma visão global, que não se conforma com a realidade
presente, e quer algo melhor e diferente.

Se alguém perguntar que tipo de sociologia gostaríamos de promover


e patrocinar é óbvio que é uma sociologia histórico-crítica. Porém, na nossa
sociedade ainda persistem traços de uma sociologia positivista-funcionalista,
onde observamos muitas desigualdades e conformismo, em fatos simples como:
educação, saúde, segurança pública, lazer etc. É preciso criar um novo hábito de
ver as coisas com uma perspectiva histórica, antevidente e transformadora.

2.3 FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO


Quando falamos em sociedade, referimo-nos a sistemas sociais específicos,
determinados por diferentes fatores, que distinguem um sistema social do outro.
Se partirmos desse conceito de sociedade, veremos que sistema é o conjunto inter-
relacionado de coisas ligadas e dependentes umas das outras. Quando se diz
que uma sociedade é um sistema, quer dizer que nesse país há um conjunto de
elementos diferentes, formando um todo que seria a sociedade. (GUARESCHI,
1997).

Falando em sociedade é importante relacionar o conceito de grupo. Para a


sociologia grupo é um sistema de relações sociais, de interações recorrentes entre
pessoas. Também pode ser definido como um conjunto de várias pessoas que
compartilham certas características, interagem uns com os outros, aceitam direitos
e obrigações como sócios do grupo e compartilham uma identidade comum. Para
haver um grupo social, é preciso que os indivíduos se percebam de alguma forma
afiliados ao grupo. Entretanto, a diferença entre grupo e sociedade não é apenas
quantitativa, ou seja, um grande grupo não é necessariamente uma sociedade.
A sociedade é algo mais abrangente: deve ter aspectos não essenciais ao grupo,
como uma localização espacial, uma cultura autossuficiente e um mecanismo de
reprodução e renovação dos membros. Uma das mais belas funções de um grupo
é ser unido em um só propósito. (GALLIANO, 1981).

7
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Nos últimos anos também está se utilizando um termo para ajudar a


definir sociedade que seria o modo de produção. Utilizando o termo sistema
consideramos a sociedade somente como ela é atualmente, bem diferente
do modo de produção que considera alguns pressupostos específicos
como dizer que toda a sociedade se estrutura a partir de sua sobrevivência.
Isto acontece pela maneira como se conseguem as coisas para viver: comida,
bebida, vestuário, moradia etc.

TUROS
ESTUDOS FU

Faremos uma discussão mais abrangente sobre sociedade no Tópico 5 desta


unidade.

Se o modo de produção determina a sobrevivência de uma sociedade, isto


pode ocorrer de diferentes formas? Sim, e já que estamos falando de sociedade
é importante vermos de forma sucinta os três tipos de sociedade mais comuns
encontrados atualmente: capitalista, socialista e comunista. (GUARESCHI, 1997).

a) Capitalismo: a relação é de apropriação do capital e dos lucros,


estabelecendo uma relação de posse. Se compararmos o capitalismo com o sistema
cooperativo, este possui a relação de cooperação entre as pessoas envolvidas,
enquanto naquele existe a relação de apropriação entre as pessoas (trabalho) e o
capital (terras e fábricas). Resumindo: o capitalismo separa os meios de produção
(capital) do trabalho. Veja as diferenças no quadro a seguir.

QUADRO 1 – SISTEMA COOPERATIVO E CAPITALISTA


Sistema cooperativo Sistema capitalista
Relações entre as pessoas Cooperação Dominação
Relações entre o trabalho e o capital Apropriação Exploração
FONTE: Guareschi, 1997, p. 40

b) Socialismo: é preciso, antes de qualquer discussão, verificar duas distinções


de socialismo: o científico e o utópico. Você sabe a diferença entre os dois?
Vejamos: o socialismo utópico é aquele que muitos pensadores imaginam
como uma sociedade justa, sem problemas sociais, com as pessoas vivendo nas
mesmas condições, sendo respeitadas igualmente, enfim tudo perfeito. Alguns
até imaginam que isto já aconteça em alguns locais, porém na prática não fazem
nada de concreto para mudar a situação atual e só ficam na imaginação. Já o
socialismo científico é aquele iniciado por Marx e Engels, que é realista, ou seja,
passível de colocar em prática. Tem como principais ideais: a convicção de que é
possível mudar; a teoria do trabalho, que diz que é o trabalho que produz tudo;
e a igualdade de todos, que é o principal objetivo do socialismo.
8
TÓPICO 1 | O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA

TUROS
ESTUDOS FU

Os pensadores clássicos da Sociologia como Durkheim, Marx e Weber veremos


na Unidade 2.

A principal luta do socialismo é contra o capitalismo, pois a sociedade


socialista seria aquela onde todos têm os mesmos direitos. O socialismo nasceu
com as pessoas que estavam sendo exploradas, ou seja, os trabalhadores que
acreditavam que era possível mudar, queriam igualdade e justiça, e eram contra
a dominação do capitalismo e a exploração do trabalho. O socialismo quer
concretamente que o fruto do trabalho do trabalhador fique com ele, pois só assim
haverá justiça e igualdade. Mas há uma consideração importante a respeito do
socialismo: ele pretende a socialização dos bens de produção, ou seja, do que
produz (como terras e fábricas) e não do que é produzido, como bens de consumo.

Como esta discussão é bastante complexa, já que podem existir vários tipos
e graus de socialismo, não nos aprofundaremos, pois o importante é que façamos
alguns questionamentos sobre o tema:

1) Há mobilização, organização do povo? O povo quer progredir ou


está acomodado? Quanto mais mobilização, participação e vontade (fé
e esperança) do povo em progredir, mais socialismo. 2) O povo está
recebendo o justo preço do seu trabalho? O que ele faz realmente fica
para ele? Quanto mais o fruto do trabalho fica com quem trabalha,
isto é, quanto menos alienação (separação entre o trabalho e o fruto do
seu trabalho) houver, mais socialismo. 3) Há realmente democracia na
sociedade, isto é, os direitos de cada um são respeitados, e todos são
tratados igualmente, ou há enormes diferenças, privilégios, injustiças?
Quanto mais igualdade (não uniformidade) houver, mais essa sociedade
é socialista. (GUARESCHI, 1997, p. 45).

9
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

FIGURA 1 – CAPITALISMO X CAPITALISMO

FONTE: Disponível em: <http://bielleite.wordpress.com/2009/09/05/capitalismo-x-


socialismo/>. Acesso em: 10 set. 2011.

A história em quadrinhos, apesar de possuir uma linguagem humorística,


ilustra a relação entre o trabalhador, o que faz o produto, e o proprietário do
capital, que detém o poder.

Para concluir esta pequena discussão sobre o socialismo é importante


entender que nunca haverá uma sociedade socialista perfeita, pois tudo que é
histórico é imperfeito, estando em constante transformação. Outra consideração:
o que se pretende evitar neste sistema é a dominação e exploração, por isso, se
alguém possui um meio de produção, mas paga aos trabalhadores um preço
justo pelo seu trabalho, não há problema. A nossa discussão aqui não é sobre um
socialismo radical, como alguns pensadores utópicos pregam.
10
TÓPICO 1 | O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA

c) Comunismo: é preciso tomar cuidado para não confundir socialismo com comunismo.
O comunismo refere-se a uma teoria revolucionária de Karl Marx, enquanto que o
socialismo trata-se de uma corrente histórica reformista, que ficou mais conhecida
com a Revolução Russa e a experiência da União Soviética. A razão ideal do
comunismo é de não haver mais exploradores e explorados, ou seja, não existiriam
mais classes sociais dominantes ou separadas, e a figura do Estado desapareceria.
Teoricamente, com a realização do comunismo, o poder não estaria mais nas mãos
de alguma classe dominante específica, o que resultaria numa sociedade ideal, sem
classes, sem injustiças e livre de todo tipo de opressão. Dessa maneira, poderíamos
considerar que, até agora, nenhum país fora realmente comunista.

Para esclarecer melhor, vamos ver o que se entende por classe social. Para
Marx, existem duas classes: aquela que detém os meios de produção (o capital) e
aquela que só tem o seu trabalho. De um modo geral, o comunismo busca fazer com
que os meios de produção passem a ser de todos, comuns. Então, se não houver
mais meios de produção, não haverá mais classes. O Estado, no sistema comunista,
é controlado e só faz o que os donos dos meios de produção querem. Mas isso não
acontece de forma rápida: existem algumas etapas como a conquista do Estado
pela classe operária, instalação da ditadura do proletariado, término da burguesia
e por fim o desaparecimento do Estado. Observamos que este comunismo puro, na
prática, não existe em nenhuma sociedade atual.

Veja a distinção entre capitalismo, socialismo e comunismo no que se refere


aos meios de produção e bens de consumo.

QUADRO 2 – TIPOS DE SOCIEDADE


Capitalismo Socialismo Comunismo
Alguns nas mãos de Nas mãos de todos (na
Nas mãos de alguns
MEIOS DE particulares (alguns prática, por enquanto,
(sempre menos). A
PRODUÇÃO serviços essenciais nas nas mãos do Estado ou
maioria só trabalha.
mãos do Estado). do partido).
Na maioria das vezes Os coletivos são de todos
BENS DE Os coletivos, em geral
são de particulares, (do Estado): os privados
CONSUMO são do Estado.
mesmo os coletivos. são de cada um.
FONTE: Guareschi, 1997, p. 48

NOTA

Se você quiser aprofundar essa discussão sobre a sociologia e a organização


da sociedade, é interessante fazer a leitura integral do livro Sociologia Crítica: alternativa de
mudança, de Pedrinho A. Guareschi, 1997.

11
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Embora tenhamos relacionado no sistema comunista o termo classe social,


pela sua importância neste contexto, iremos ver mais algumas considerações, pois
é desta compreensão que nascem as possibilidades concretas de mudanças da
sociedade.

Começaremos essa discussão com as três principais teorias de classe social,


citadas por Guareschi (1997):

• a classe é determinada pela renda da pessoa, a que se pode acrescentar também


a educação e a profissão;

• a classe é determinada pelo padrão de vida e padrão cultural;

• a classe é determinada pelas causas do fenômeno, ou seja, deve-se compreender


por que as coisas são assim e não haver simplesmente uma teoria descritiva e
estática como as anteriores.

Obviamente que quem quer manter as coisas como elas estão com mudanças
somente para os trabalhadores adotará a primeira ou a segunda teoria de classe
social, porém, quem quer mudar as estruturas da sociedade, com certeza adotará
a última teoria.

De um modo geral, como vimos, a sociedade está em constante transformação


e o papel da sociologia é acompanhar a sociedade ao longo do tempo, conforme
as suas próprias necessidades. O seu enfoque também pode variar conforme a
realidade de cada país, estado ou local.

DICAS

Agora que você já viu algumas considerações importantes sobre o estudo da


sociologia, faça uma reflexão sobre a realidade da sociedade brasileira.

12
TÓPICO 1 | O SURGIMENTO DA SOCIOLOGIA

LEITURA COMPLEMENTAR

A RELAÇÃO INDIVÍDUO E SOCIEDADE: OBJETO DA SOCIOLOGIA

Iramar Ricardo Paulini


Everaldo da Silva

Os cientistas sociais, ao trabalharem com a realidade social, estavam


interessados em explicar como ações vindas da motivação individual podiam ser
cotejadas com ações coletivas, como normas de conduta coletiva eram incorporadas
e internalizadas pelos indivíduos, e como a práxis coletiva determinava o
comportamento de diferentes grupos sociais. Em todas essas variantes estava em
jogo a necessidade de compreensão da relação indivíduo/sociedade, que se tornou
objeto central dos primeiros estudos realizados.

É relevante observar que não existe um conceito único de indivíduo válido


para toda a História. Este varia de uma cultura para outra, sendo determinado por
condicionantes históricas e locais específicos. As sociedades tratam a questão da
individualidade de modos distintos, algumas a submetendo aos imperativos da
primazia do coletivo e outras permitindo mais espaço para sua manifestação.

O conceito de indivíduo, tal como ainda é conhecido nos dias de hoje, é


fruto da moderna burguesia europeia, que cunhou o individualismo como uma
das marcas essenciais de sua expressão cultural, a partir da concepção geral de que
este é independente e não está sujeito essencialmente à sociedade da qual faz parte.
Os fundamentos dessa visão são encontrados na maioria dos teóricos do Estado
Moderno e na compreensão de ciência proposta por Bacon, passando pela filosofia
científica de Descartes, pela física de Newton e pela teoria evolucionista de Darwin.

No livro O Ponto de Mutação, Capra (1987, p. 44) coloca que:

Desde o século XVII, a física tem sido o exemplo brilhante de uma


ciência exata, servindo como modelo para todas as outras ciências.
Durante dois séculos e meio, os físicos se utilizaram de uma visão
mecanicista do mundo para desenvolver e refinar a estrutura conceitual
do que é conhecido como física clássica. Basearam suas ideias na teoria
matemática de Isaac Newton, na filosofia de René Descartes e na
metodologia científica defendida por Francis Bacon, e desenvolveram-
nas de acordo com a concepção geral de realidade predominante nos
séculos XVII, XVIII e XIX. Pensava-se que a matéria era a base de toda a
existência, e o mundo material era visto como uma profusão de objetos
separados, montados numa gigantesca máquina. Tal como as máquinas
construídas por seres humanos, achava-se que a máquina cósmica
também consistia em peças elementares. Por conseguinte, acreditava-
se que os fenômenos complexos podiam ser sempre entendidos desde
que se os reduzisse a seus componentes básicos e se investigasse os
mecanismos através dos quais esses componentes interagem. Essa
atitude, conhecida como reducionismo, ficou tão profundamente
arraigada em nossa cultura, que tem sido frequentemente identificada
como método científico. As outras ciências aceitaram os pontos de vista
mecanicista e reducionista da física clássica como a descrição correta

13
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

da realidade, adotando-os como modelos para suas próprias teorias.


Os psicólogos, sociólogos e economistas, ao tentarem ser científicos,
sempre se voltaram naturalmente para os conceitos básicos da física
newtoniana.

No entendimento de Tomazi (2010, p. 16), a existência de um mercado na


sociedade capitalista, no qual os proprietários individuais produziam e comerciavam
suas mercadorias, criou as condições para que se reduzisse toda a sociedade apenas
ao conjunto de interesses individuais daqueles agentes privados.

Pelo lado dos cientistas sociais foi aceito o paradigma que definiu o indivíduo
como um ser sócio-histórico, livre em certo sentido, ou seja, até o ponto em que
o exercício dessa liberdade não afetasse a ordem estabelecida pelo alto para a
coletividade.

A Sociologia, ainda segundo Tomazi, sem ser essencialmente antagônica ao


que estava estabelecido pela ordem burguesa, nasceu como uma tentativa de reação
ao individualismo predominante na Europa capitalista. Ela apôs, ao primado da ação
individual, no qual se baseava grande parte da teoria econômica liberal da época,
a ação coletiva e social. O homem passou a ser visto, do ponto de vista sociológico,
a partir de sua inserção na sociedade e nos grupos sociais que a compõem.

Nesse sentido, produto dessa modernidade, os estudos clássicos da Sociologia


ora enfatizam a ação individual, ora a ação coletiva. Alguns autores privilegiam o
papel ativo do indivíduo na escolha das ações sociais, enquanto outros enfatizam o
papel da sociedade e de suas instituições, e outros ainda ressaltam a importância do
conjunto das práticas que definem as próprias relações entre indivíduo e sociedade.

FONTE: PAULINI, Iramar Ricardo; SILVA, Everaldo da. Cadernos de Sociologia: módulo 1. Indaial:
ASSELVI, 2004. p. 16.

14
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico você estudou que:

• O estudo da sociologia surgiu no contexto da Revolução Industrial, com o


desenvolvimento da sociedade capitalista.

• A sociologia estuda a vida social humana, tanto individual quanto em grupo.

• Uma das funções da sociologia é estudar o funcionamento das sociedades ao


longo dos anos e suas transformações.

• Há duas principais teorias da sociologia: a teoria positivista-funcionalista e a


teoria histórico-crítica.

• Para a teoria positivista-funcionalista não devem ocorrer mudanças, pois tudo


está perfeito e em harmonia. Esta teoria é defendida por aqueles que estão no
poder e não querem que haja transformações para continuarem sendo os líderes.

• Para a teoria histórico-crítica, ao contrário da primeira, tudo é incompleto


e imperfeito e por isso precisa estar em constante transformação. Os seus
seguidores têm uma visão crítica da realidade e não alienada como na positivista-
funcionalista.

• Atualmente encontramos três tipologias principais de sociedade: capitalismo,


socialismo e comunismo.

• O capitalismo se caracteriza pelo sistema de dominação de proprietários do


capital (meios de produção) sobre os trabalhadores; o socialismo prega igualdade
e a socialização dos meios de produção; o comunismo prega o fim do Estado e
que os meios de produção sejam de todos.

• A classe social pode ser explicada por três principais teorias: a) renda, trabalho
e profissão; b) padrão de vida e de cultura; c) causas dos fenômenos (crítica).

15
AUTOATIVIDADE

1 Baseando-se nas discussões deste tópico faça sua própria definição de


sociologia e relacione sua importância para a sociedade brasileira.

2 Já vimos que há duas principais teorias da sociologia: a positivista-


funcionalista e a histórico-crítica. Relembrando o conceito de cada uma, faça
uma análise: sobre qual dessas teorias você está posicionado na sociedade?
Por quê?

3 Diferencie as sociedades capitalista, socialista e comunista e faça uma


pesquisa em livros ou na internet, relacionando exemplos de países que
possuem atualmente o sistema de cada uma delas.

16
UNIDADE 1
TÓPICO 2

O TURISMO

1 INTRODUÇÃO
Há diferentes versões sobre a origem da palavra turismo. Alguns estudiosos
acreditam que sua origem seja francesa, devido à ocupação francesa na Inglaterra
durante o século X até o século XIV, obrigando os ingleses a falar o francês. Outros
afirmam que a palavra deriva de tour, da língua inglesa, que quer dizer volta. Já
o pesquisador suíço Arthur Haulot acredita que a origem é hebraica da palavra
tur que aparece na Bíblia com o significado de viagem de reconhecimento. Antes
de estudarmos o turismo sob um âmbito social, é importante relembrarmos
alguns conceitos básicos. Por isso, neste tópico estudaremos a história, definição e
considerações sobre o desenvolvimento da atividade turística.

2 O TURISMO

2.1 ANTECEDENTES HISTÓRICOS


Ao longo do tempo muitas foram as manifestações de viagens feitas por
vários povos e com diferentes objetivos. Mas você sabe como essa importante
atividade econômica e de lazer surgiu? Segundo Goeldner, Ritchie e McIntosh
(2002), várias teorias sobre as jornadas realizadas por povos pré-históricos foram
levantadas. Muitos acreditam que os primeiros deslocamentos aconteciam pela
busca de alimento e para escapar de perigos. Outros acreditam que aconteciam
devido à observação dos pássaros. O fato é que algumas descobertas já foram
realizadas no mundo, comprovando a necessidade de deslocamento do ser
humano há muito tempo.

A OMT (2003) afirma que no início o deslocamento das civilizações pré-


históricas era motivado pela procura de climas mais amenos e agradáveis. A partir
do aperfeiçoamento da humanidade através de habilidades e técnicas, as pessoas
deixaram de ser nômades, sendo grandes motivadores de viagens o transporte e a
troca de mercadorias.

17
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

E
IMPORTANT

OMT é a sigla para a mais importante e reconhecida organização internacional de


turismo e significa Organização Mundial do Turismo.

É interessante também observar como as primeiras civilizações se


comportavam com relação às viagens, como, por exemplo, os gregos, que foram
verdadeiros pioneiros na arte de viajar. Um fator muito importante foi a difusão
da língua grega por toda a extensão do Mediterrâneo, o que gerou facilidade de
comunicação entre os viajantes. Os gregos gostavam de visitar outros lugares por
prazer, com destaque para Atenas. Além disso, participavam de festas religiosas e
eventos como os Jogos Olímpicos, em Olímpia, um dos grandes precursores das
viagens. Em 170 a.C., foi publicado um guia de viagens de 10 volumes, com o título
de “Um Guia para a Grécia”, com objetivo de atingir o mercado romano.

Goeldner, Ritchie e McIntosh (2002) destacam que há muitos anos as pessoas


vêm migrando para outros locais com o objetivo de exploração e conhecimento.
Entre os exploradores pioneiros, podem-se destacar Marco Polo, Ibn Battuta,
Cristóvão Colombo, Fernão de Magalhães, Pedro Álvares Cabral e James Cook.

Você sabe o que foi o Grand Tour? Este foi um dos marcos da história do
turismo, famoso em todo o mundo, pela forma organizada de se viajar e que deu
origem às agências de viagens. A OMT (2003) explica que o grand tour começou em
meados de 1600 e era um giro pela Europa, destino na época obrigatório aos jovens.
Os participantes do grand tour tinham como objetivo obter novos conhecimentos
e experiências, que, na época, eram forma de status das classes sociais superiores,
e tinham caráter principalmente educacional e cultural. Estas visitas às ruínas e
sítios arqueológicos também incluíam o estudo de arte, arquitetura e história.

Barretto (1995, p. 51) destaca que “O turismo sempre esteve ligado ao


modo de produção e ao desenvolvimento tecnológico. O modo de produção
determina quem viaja, e o desenvolvimento tecnológico, como fazê-lo.” Quando
iniciou o turismo moderno? Após a Revolução Industrial no século XVIII, com o
desenvolvimento do capitalismo e o avanço tecnológico, quando começaram a ser
organizadas as primeiras viagens. “O turismo do século XIX esteve marcado pelo
trem em nível nacional, e pelo navio em nível internacional.” (BARRETTO, 1995,
p. 52).

A partir da Revolução Industrial, muitas mudanças foram sentidas,


o que repercutiu no desenvolvimento turístico. Por isso, Goeldner, Ritchie e
McIntosh (2002) consideram que no século XX houve o crescimento das viagens,
impulsionadas pela invenção do automóvel e as estradas trafegáveis para tais.
Após a Segunda Guerra Mundial, a invenção do avião a jato e as rotas aéreas

18
TÓPICO 2 | O TURISMO

internacionais possibilitaram rapidez nas viagens para muitas pessoas. Cresceram


as viagens nacionais e internacionais, houve melhoria nos equipamentos de
hospedagem e surgiram navios luxuosos de cruzeiros, ônibus confortáveis,
modernos trens de passageiros, resorts e hotéis de boa qualidade.

O século XX trouxe uma série de vantagens ao setor turístico através do


avanço tecnológico. Dentre as principais causas do desenvolvimento turístico
destacamos o aumento do tempo de lazer, renda adicional, intensificação das
telecomunicações e eficiência nos transportes.

O início da atividade turística na América Latina ocorreu alguns anos mais


tarde, trazida pelos imigrantes europeus. Os primeiros países que desenvolveram
o turismo receptivo foram Chile, Argentina e Uruguai, com núcleos de praia. Isto
se deve ao fato de que, apesar de esses países não serem tropicais, os imigrantes
europeus difundiram esta ideia de passar o verão à beira-mar. (BARRETTO, 1995).

E no Brasil, o turismo iniciou quando? No Brasil, o turismo teve início em


1920, vinculado ao lazer, diferente da Europa onde teve cunho educativo e de
aventura. Neste período destaca-se a criação da Sociedade Brasileira de Turismo,
em 1923, que mais tarde se tornaria o Touring Clube.

O meio de transporte mais usado para viagens de longa distância ou


duração é o avião, principalmente nas viagens internacionais, em seguida vem
o carro particular, utilizado em viagens realizadas dentro do país. O turismo
aquático está em expansão com o aumento da oferta de cruzeiros marítimos pela
costa brasileira e, com pouca expressão, existe ainda o turismo ferroviário.

TUROS
ESTUDOS FU

O turismo pós-industrial estudaremos no Tópico 5 desta unidade.

Embora o número de pessoas que utilizam os equipamentos turísticos


esteja aumentando no mundo e no Brasil, percebemos que esta atividade ainda
está restrita a uma parcela da sociedade brasileira privilegiada economicamente,
devido a vários fatores, mas principalmente pelas desigualdades sociais.

19
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

TUROS
ESTUDOS FU

O assunto do turismo sob um âmbito social será estudado no Tópico 3 desta


unidade.

2.2 CONCEITOS
Apesar de a maioria das pessoas conseguir vincular a atividade turística à
outra atividade, você sabe responder à pergunta: o que é o turismo? Mesmo que
pareça óbvio, muitas vezes esta pergunta nos deixa sem saber por onde começar!
Então buscaremos alguns conceitos de autores para obter uma definição mais
completa sobre o tema.

Algumas das primeiras coisas que nos vêm à mente são férias, passeio,
diversão, família, amigos. Com certeza se você fizer uma pesquisa em livros,
revistas e na internet, vai encontrar vários conceitos. Aqui, porém, começaremos
com aquele da OMT que considera o turismo um “[...] fenômeno que ocorre
das relações quando um ou mais indivíduos se transladam a um ou mais locais
diferentes de sua residência habitual, por um período maior que 24 horas e
menor que 180 dias, sem participar dos mercados de trabalho e capital dos locais
visitados.” (OLIVEIRA, 2000, p. 31).

Se levarmos em consideração que o turismo atualmente tornou-se uma


atividade econômica e social muito importante, podemos admitir que seu conceito
vai muito além, sendo a soma de fenômenos e relações entre turistas, empresas,
governos locais e comunidades anfitriãs. (GOELDNER; RITCHIE; MCINTOSH,
2002).

Considerando os vários conceitos, podemos verificar que o turismo é


caracterizado principalmente por dois aspectos: a viagem e o tempo de permanência
no lugar visitado. Dentre os objetivos de quem viaja, podemos destacar o descanso
e o entretenimento. Aqui vale destacar que, apesar de alguns autores considerarem
o uso da terminologia turismo de negócios, não entraremos nesta discussão e
levaremos em consideração as definições tradicionais de turismo como a de Oscar
De La Torre:

Um fenômeno social que consiste no deslocamento voluntário e


temporário de indivíduos ou grupos de pessoas que, fundamentalmente,
por motivos de recreação, descanso, cultura ou saúde, se deslocam de
seu lugar de residência habitual a outro, no qual não exercem nenhuma
atividade lucrativa nem remunerada, gerando múltiplas inter-relações
de importância social, econômica e cultural. (DE LA TORRE, 1994, p.
19).

20
TÓPICO 2 | O TURISMO

Entenda por que é difícil obter um conceito sobre o turismo: trata-se de


uma atividade que possui aspectos multidimensionais e está direta e indiretamente
ligada a outras atividades. “O turismo não é uma disciplina e, sim, um objeto de
estudo pertencente a várias disciplinas”. (DENCKER, 1998, p. 32). Esta falta de
conceitos uniformes tem dificultado o estudo do turismo como disciplina, que
ainda é recente dentro da área acadêmica. No entanto, você deve entender que
este processo é positivo, pois a atividade está em constante aprimoramento e
desenvolvimento.

2.3 DESENVOLVIMENTO
Já estudamos o surgimento e conceito de turismo, porém fica o desafio:
como esta atividade deve ser ou é desenvolvida? Logicamente não há uma fórmula
pronta e que garanta o sucesso integral da atividade, mas iremos considerar alguns
aspectos importantes a respeito desse tema.

Primeiramente devemos considerar que o turismo envolve o respeito às


diferenças, já que uma das principais motivações dos turistas é conhecer lugares
e culturas diferentes de seu local de origem. Para tanto, faz-se extremamente
necessário o planejamento dos espaços turísticos e da atividade turística
propriamente dita.

O planejamento turístico deve compreender conhecimento prévio do meio


físico, suas aptidões e limitações naturais, dos fenômenos culturais e sociais, dos
aspectos econômicos da região e a análise da inserção do turismo nesse contexto.

Um dos documentos mais importantes para o planejamento turístico é o


plano de desenvolvimento turístico. Ruschmann (1997, p. 159) o define como “[…]
conjunto de medidas, tarefas e atividades por meio das quais se pretende atingir
metas, o detalhamento e os requisitos necessários para o aproveitamento de áreas
com potencialidade turística”. Suas etapas são: inventário, diagnóstico, objetivos,
metas, prognóstico, estratégias e diretrizes.

Percebemos, portanto, que a atividade turística constitui-se de uma área


ampla, mas que, se não estiver bem estruturada, poderá ocasionar uma série de
problemas. Assim, Ruschmann (1997, p. 127) afirma que:

O maior problema na ausência do planejamento em localidades turísticas


reside no seu crescimento descontrolado, que leva à descaracterização
e à perda da originalidade das destinações que motivam o fluxo dos
turistas, e o empreendimento de ações isoladas, esporádicas, eleitoreiras
e desvinculadas de uma visão ampla do fenômeno turístico.

Contudo, o turismo depende também de hospitalidade, ou seja, da
aceitação, do conhecimento e do apoio da população local. Caso contrário, todos
os esforços para o seu desenvolvimento serão desnecessários. Marques e Bissoli
(1999) destacam a importância que a comunidade local tem no desenvolvimento
da atividade turística, pois ela vive diariamente suas causas, suas consequências e

21
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

seus efeitos, independente do seu estágio de desenvolvimento. O planejamento tem


por objetivo o aprovisionamento de facilidades e serviços para que a comunidade
atenda seus objetivos e necessidades.

Para que a população local esteja inserida no desenvolvimento turístico,


este deverá significar melhorias nas condições de vida, através da qualidade do
crescimento econômico e social.

A atividade turística está centrada em compromissos com a sociedade


e o meio ambiente. Logo, torna-se de extrema importância a discussão de um
desenvolvimento turístico voltado ao planejamento em longo e médio prazo.

[...] a atividade turística pressupõe a devida estruturação do núcleo


receptor para receber visitantes nacionais e internacionais, o que
envolve um planejamento cujo objetivo seja racionalizar as providências
que serão desenvolvidas para fazer de uma cidade um grande destino
turístico. (BOITEUX; WERNER, 2002, p. 65).

Contudo, é necessário estabelecer diretrizes para orientar decisões, como


o tipo de turismo que se quer promover, os mercados que serão atingidos, a
posição que se deseja ter nesses mercados, as metas a alcançar e as estratégias dos
programas de ações. (PETROCCHI, 2001).

O planejamento turístico é um processo que analisa a atividade


turística de um determinado espaço geográfico, diagnosticando
seu desenvolvimento e fixando um modelo de atuação mediante o
estabelecimento de metas, objetivos, estratégias e diretrizes com os
quais se pretende impulsionar, coordenar e integrar o turismo ao
conjunto macroeconômico em que está inserido. (MARQUES; BISSOLI,
1999 p. 34).

A finalidade do planejamento turístico é definir as decisões básicas que


articulam políticas turísticas de um estado, região ou organização. (PETROCCHI,
2001). O planejamento turístico pode acontecer em vários aspectos do espaço,
podendo ser, conforme Marques e Bissoli (1999), internacional; nacional; estadual;
regional, quando diz respeito a uma ou mais regiões ou distritos; local, quando
abrange um município; setorial, em setores específicos, como, por exemplo,
equipamentos de hospedagem e alimentação.

No entanto, quando nos referimos ao planejamento turístico público, este


pode ocorrer em diferentes níveis do governo, sendo as questões mais amplas
e complexas tratadas em âmbito nacional, enquanto o planejamento local é
responsabilidade de órgãos específicos. O planejamento nacional de turismo tem
como função básica desenvolver políticas nacionais de turismo, mas a criação
de padrões nacionais em áreas como transporte, saúde, educação, segurança e
emprego também são sua responsabilidade.

O turismo vem ao longo dos anos ocupando o seu lugar na administração


pública. Como comenta Beni (2001), a posição do turismo na estrutura administrativa
pública pode ser encontrada desde 1975, quando a OMT desenvolveu um

22
TÓPICO 2 | O TURISMO

papel fundamental neste âmbito. Observamos também que ocorreram algumas


mudanças em 1985 como a coordenação e a regulamentação, pelo Estado, de
estruturas formais, destituídas de políticas, programas e estratégias de ação para
o desenvolvimento turístico integrado. No entanto, essas mudanças não são
suficientes para que a atividade turística possa desenvolver-se com competência e
de forma eficaz, visto que outras mudanças vêm acontecendo ao longo do tempo.

FIGURA 2 – ETAPAS DO PLANEJAMENTO TURÍSTICO

FONTE: Adaptado de: <http://www.marcionami.adm.br/pdf/gestao/Turismo_


planejamento_gestao.pdf>. Acesso em: 10 ago. 2011.

Quando falamos de planejamento, em qualquer situação, devemos levar


em consideração a situação atual e o caminho que será percorrido até uma
situação desejada. Como será realizado este processo é que compõe as etapas do
planejamento, inclusive o turístico.

De um modo geral, o planejamento do turismo deve estar em constante


transformação e atendendo as necessidades gerais, mas respeitando as
particularidades regionais. Esta é uma dificuldade muito frequente no Brasil,
devido à sua grande área territorial e às extremas diferenças regionais. Com certeza
este se torna um grande desafio para os responsáveis pelo desenvolvimento da
atividade turística no país, pois ainda observamos a utilização de políticas obsoletas
e inadequadas para determinadas regiões.

NOTA

Você sabia que o dia 27 de setembro é o Dia Mundial do Turismo?

23
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

LEITURA COMPLEMENTAR

OS IGUANAS E O ENFOQUE SISTÊMICO

Mario Petrocchi

O naturalista inglês Charles Darwin aportou nas ilhas de Galápagos, a bordo


do bergantim Beagle, na segunda metade do século XIX.

Darwin, no retorno dessa viagem, lançou na Inglaterra a sua teoria da seleção


natural, que teve intensa repercussão. É óbvio que àquela época a ciência ainda
não havia descoberto o DNA, algo como um supercomputador que cada indivíduo
possui e que comanda todo o seu sistema.

Darwin ficou impressionado com o que viu em Galápagos. Tartarugas da


mesma espécie que tiveram transformações de uma ilha para outra, para se adaptar
ao meio ambiente e, assim, sobreviver. Espécies de pássaros que tiveram tamanhos
e estilos de bicos modificados para melhor se alimentar. E o exemplo fantástico dos
iguanas... Os iguanas são lagartos que vivem no continente americano. Seus hábitats
é a terra firme e alimentam-se de grama e outros vegetais. Os iguanas de Galápagos
simplesmente mergulhavam no mar e comiam as algas abundantes existentes nos
ecossistemas marinhos das ilhas.

Em uma larga escala de tempo, o animal foi progressivamente alterando


seus hábitos. Seu organismo dependia de grama para sobreviver, um alimento
que é escasso ou inexistente em Galápagos. O DNA recebeu essas informações e
comandou uma solução alternativa. E a solução foi alterar o comportamento do
animal, fazendo-o enfrentar as águas do mar, nelas aprendendo a mergulhar e
comer as abundantes algas que ali existem.

Assim, quando Darwin visitou Galápagos, conheceu os iguanas como


hábeis mergulhadores, com hábitos incompreensíveis para seus semelhantes do
continente americano. Os exemplos entre os animais são numerosos e em alguns
casos exóticos, como o peixe da Amazônia, filmado em documentário da BBC de
Londres. Tal peixe saltava alguns metros acima da água e abocanhava insetos em
galhos de árvores ribeirinhas.
FONTE: PETROCCHI, Mario. Turismo: planejamento e gestão. 5. ed. São Paulo: Futura, 2001. p. 28.

24
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico você estudou que:

• O deslocamento das pessoas de um local a outro ocorre há muito anos, desde os


povos pré-históricos.

• O Grand Tour foi a primeira viagem organizada que tem registro e deu início às
agências de viagens.

• As viagens que aconteciam na Europa inicialmente tinham um caráter cultural.

• Turismo é o deslocamento de um ou mais indivíduos a um lugar diferente de


sua residência por um período superior a 24 horas e inferior a 180 dias.

• O planejamento é essencial para o desenvolvimento de qualquer atividade


turística.

• O plano de desenvolvimento turístico envolve uma série de etapas como:


inventário, diagnóstico, objetivos, metas, prognóstico, estratégias e diretrizes.

• O desenvolvimento turístico deve levar em consideração a realidade local e a


aceitação da comunidade local.

25
AUTOATIVIDADE

1 Baseando-se nos estudos e discussões anteriores, escreva sua definição de


turismo.

2 O desenvolvimento turístico terá sucesso mesmo sem a aprovação da


população local? Justifique sua resposta.

3 Cite as principais etapas do planejamento turístico.

4 Fazendo uma pesquisa na literatura ou na internet, sobre as etapas do plano


de desenvolvimento turístico, marque V para verdadeiro e F para falso nas
seguintes afirmações:

( ) O inventário leva em consideração a caracterização geral e os aspectos


turísticos do local pesquisado.
( ) O diagnóstico constitui a análise da situação atual do objeto ou objetos
que se pretende modificar e pode-se dividir em: pontos fortes e fracos;
oportunidades e ameaças.
( ) Os objetivos definem as prioridades, dividem-se em: geral e específicos e
são expressos de forma qualitativa.
( ) As metas baseiam-se nos objetivos e estabelecem um tempo pretendido
para alcançá-las, ou seja, são qualitativas, não sendo expressas em números
e valores financeiros.
( ) O prognóstico prevê e projeta o objeto de estudo para o tempo atual.
( ) As estratégias são ações, métodos e atividades para o alcance dos objetivos.
( ) As diretrizes são indicação dos rumos a tomar, com estabelecimento de
recursos e meios de execução. Além disso, são linhas-guia com prazos,
instrumentos e responsabilidades.

26
UNIDADE 1
TÓPICO 3

O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL

1 INTRODUÇÃO
Será que a história do turismo possui uma relação com a própria história da
humanidade? Sim, pois esta atividade está inteiramente ligada às pessoas. Apesar
de depender de uma série de fatores condicionantes para que possa desenvolver-
se, o turismo caracteriza-se ao longo do tempo na realidade de cada geração e
local em que está concentrado. Neste tópico estudaremos a relação entre turismo e
sociedade, bem como seus impactos socioculturais.

2 O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL


Para que o turismo possa se desenvolver, inevitavelmente ele irá provocar
transformações no espaço e na sociedade em que ocorre: as intervenções e mudanças
ambientais no uso do espaço e as socioculturais. Por vezes, estas transformações
extrapolam a capacidade de suporte do ambiente, criando impactos que exigem
um controle maior desta atividade. O grande desafio que temos atualmente neste
contexto é o de repensar a sustentabilidade de seu desenvolvimento considerando
fatores sociais, ecológicos e econômicos que são afetados pelo turismo. (DREHER;
KRAISCH, 2009).

2.1 DEFINIÇÃO DO TURISMO EM ÂMBITO SOCIAL


O turismo envolve atividades que proporcionam a aproximação dos
visitantes com o modo de vida local, paisagem, gastronomia, arquitetura, entre
outros atrativos. Já vimos o conceito de turismo sob uma ótica geral, iremos agora
estudar o turismo levando em consideração a sustentabilidade, especialmente sob
um âmbito social.

Se nos referimos a turismo, não podemos deixar de mencionar a participação


da comunidade local neste processo. Mas você já pensou em como essa participação
pode ocorrer? De várias formas, por isso Cordioli (2001, p. 18) afirma que a
participação dos sujeitos no processo de desenvolvimento do turismo é um dos
caminhos para seu alcance, assim como todas as dimensões da sustentabilidade,
principalmente, a social. “O desenvolvimento sustentável deverá ser decorrência
de um processo de planejamento participativo que assegure o crescimento de
ações conjuntas.”

27
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Mencionamos anteriormente o termo sustentabilidade, mas você sabe qual


sua origem e história? O termo sustentabilidade deriva de sustentável, do latim
sus-tener. Quando as discussões sobre sustentabilidade surgiram no Brasil, em
1970, prevalecia a questão da preservação e conservação. Uma visão mais integrada
sobre o tema só surgiu a partir de 1990, quando começaram a ser discutidas as
dimensões sociais, econômicas, ambientais e os direitos humanos. (BORN, 2003).

Observa-se que há uma falta de consenso social para definir o conceito de


sustentabilidade. Schultz, Moraes e Bach (2002) consideram que, atualmente, a
sustentabilidade enfatiza o respeito a três esferas principais: o meio ambiente, a
justiça social e a participação do cidadão.

E
IMPORTANT

Baroni (1992, p. 24) destaca a necessidade de responder às seguintes perguntas-


chave sobre o tema sustentabilidade: “O que deve ser sustentável? Por quê? Para quem?”

Mas e o que seria a sustentabilidade, não somente do turismo, mas de


qualquer atividade? Mesmo com a existência de várias correntes sobre o conceito
de desenvolvimento sustentável, ao longo de alguns anos, a mais reconhecida foi
elaborada na Conferência das Nações Unidas, no Relatório de Brundtland, em
1987: considera como modelo de desenvolvimento sustentável aquele que garanta
as necessidades presentes sem comprometer a capacidade de atendimento das
necessidades futuras. (SCHULTZ; MORAES; BACH, 2002). Destacamos que o
desenvolvimento, independente do segmento, deverá sempre ser sustentável.

Contudo a sociedade já conseguiu atingir a sustentabilidade? Não, por isso


fica difícil estabelecer um modo de vida ideal para garanti-la e harmonizar a relação
homem/natureza. A definição se torna complicada porque a sustentabilidade ainda
não é real, é apenas um anseio, um ideal, um grande desafio para o ser humano.

A sustentabilidade está restrita aos aspectos ambientais e sociais? Não,


pois é uma preocupação de diversas áreas, com dimensões variadas em cada uma
delas. Baroni (1992, p. 16), porém, ressalta que a sustentabilidade deve responder
a cinco requisitos: “integração da conservação e do desenvolvimento; satisfação
das necessidades básicas humanas; alcance de equidade e justiça social; provisão
da autodeterminação social e da diversidade cultural; e manutenção da integração
ecológica”.

Em uma abordagem mais ampla, a fim de obter um melhor entendimento do


conceito de sustentabilidade, estabeleceram-se algumas divisões que chamaremos
de dimensões.

28
TÓPICO 3 | O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL

NOTA

As dimensões da sustentabilidade estabelecidas por Sachs (1993) são: social,


econômica, ecológica, espacial e cultural.

A sustentabilidade social, segundo Sachs (1993), possui como objetivo


diminuir as desigualdades sociais, com distribuição equitativa de renda,
viabilizando o direito a condições favoráveis de vida a todas as esferas da sociedade.
Essas melhorias podem estar relacionadas com “[...] serviços básicos, água limpa e
tratada, serviços médicos, proteção, segurança e educação”. (BELLEN, 2005, p. 37).

Mas o grau de bem-estar e a qualidade de vida não são fáceis de serem


medidos e sua construção deve ser contínua. Fernandes (2002) ressalta que esta
sustentabilidade só obtém resultados através da participação mútua de todos os
envolvidos, ou seja, com a conscientização e empenho de toda a sociedade, dando a
esta uma maior autonomia no processo de desenvolvimento. Esta inserção deverá
ocorrer através da participação da sociedade civil organizada, e isto exige, segundo
Krippendorf (2000, p. 137), “[...] um novo modo de vida, através de mudanças nos
hábitos de cada indivíduo, de valores éticos e culturais, provocando uma mudança
favorável em todas as esferas da sociedade”.

Após essa discussão sobre a sustentabilidade social, afirmamos que houve


uma evolução em relação ao conceito de desenvolvimento, pois, atualmente, temos
mais consciência de que os seres humanos estão inseridos no meio ambiente, ou
seja, são parte dele. Daí a importância da harmonia entre todas as dimensões de
sustentabilidade mencionadas, afinal elas são interdependentes.

Sobre a sustentabilidade do turismo, Pires (2002) destaca alguns princípios


básicos como: ênfase na natureza e nos valores autênticos, a minimização dos
impactos ambientais, a geração de benefícios para a comunidade local, a difusão
da consciência, o compromisso com a conservação da natureza. Geralmente,
conceitua-se sustentabilidade turística como “[...] um modelo de desenvolvimento
turístico planejado no sentido de assegurar sua permanência por longo prazo,
integrando as comunidades locais e buscando a rentabilidade por meio da gestão
e otimização dos recursos” (p. 117). Por isso, o termo “turismo sustentável” vem
de uma discussão mais ampla, derivando de propostas e características do turismo
acerca da sustentabilidade. Para a OMT (2003), a manutenção da sustentabilidade
depende do gerenciamento dos impactos ambientais e socioeconômicos por meio
de um bom planejamento, desenvolvimento e gerenciamento do turismo, com
monitoramento constante.

Mas afinal, o que é a sustentabilidade para o turismo? Mesmo existindo


várias definições para a sustentabilidade no turismo, uma das mais aceitas,
segundo Swarbrooke (2000, p. 19), é a do Relatório de Brundtland, que a define

29
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

como: “Formas de turismo que satisfaçam hoje as necessidades dos turistas, da


indústria do turismo e das comunidades locais, sem comprometer a capacidade
das futuras gerações de satisfazerem suas próprias necessidades.” Apesar de terem
sido desenvolvidas muitas ideias sobre o turismo sustentável, verifica-se que este é
assunto amplo, complexo, e que ainda se encontra com muitas incertezas. “A chave
para os impactos socioculturais do turismo parece ser a relação entre comunidades
locais e turistas”. (p.115).

E
IMPORTANT

O turismo também possui alguns princípios básicos de sustentabilidade,


classificados por Pires (2002) como: ecológico, com a manutenção do entorno natural e a
integridade de seus ecossistemas; o cultural, com a valorização da cultura e a autenticidade;
e o econômico-local, que trata da real participação da população local e dos benefícios à
economia local.

Toda a atividade turística pode e deve ser sustentável, e o conceito de


turismo sustentável fundamenta-se no princípio universal da sustentabilidade, ou
seja, conservar os recursos para a utilização das gerações futuras; usar, mas não
esgotar os recursos locais naturais e físicos.

O turismo sustentável, como já conversamos, é uma forma diferente de


desenvolver turismo; assim não ocorrendo poderá haver consequências diversas.

30
TÓPICO 3 | O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL

FIGURA 3 – A IMPORTÂNCIA DO TURISMO SUSTENTÁVEL

FONTE: Disponível em: <http://madelineturismo11.blogspot.com/2011/05/turismo-


sustentavel.html>. Acesso em: 17 ago. 2011.

No turismo existem várias discussões e ações direcionadas para atender o


desenvolvimento sustentável, e essas iniciativas, muitas vezes, são denominadas
como turismo sustentável. Ruschmann (2001) destaca que o turismo sustentável
deve ter a preocupação de atender as necessidades dos turistas, da comunidade
local e dos prestadores de serviços turísticos, buscando um desenvolvimento em
longo prazo, por meio de um equilíbrio econômico e ambiental. A OMT (2003)
classifica as três características descritas a seguir.

• Qualidade: uma atividade turística bem desenvolvida proporciona ao visitante


uma experiência de qualidade, melhoras na qualidade de vida da comunidade
local e protege a qualidade do meio ambiente.

• Continuidade: o turismo deve garantir a continuidade dos recursos naturais,


bem como a cultura local. Preocupa-se com questões de longo prazo e garante
aos visitantes maior satisfação.

• Equilíbrio: proporciona um bom relacionamento entre as pessoas envolvidas


com o turismo, defensores do meio ambiente e a comunidade local, garantindo
a todos o alcance de seus interesses.

31
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

A despeito das inúmeras discussões, esforços e ações realizados em prol da


sustentabilidade turística e em vários outros segmentos, Pires (2002) afirma que a
sustentabilidade absoluta, verdadeira ou completa dificilmente é atingida. Por isso,
para um desenvolvimento turístico ambiental e socialmente aceitável, é preciso
considerar a equidade social, a eficiência econômica, a conservação ambiental e a
preservação cultural.

No desenvolvimento do turismo, é imprescindível que a comunidade


receptora seja consultada e tenha a possibilidade de opinar e avaliar o projeto,
levando em conta seus interesses e necessidades. Mas este apoio por parte da
comunidade deve ser conquistado mediante o esclarecimento dos benefícios que o
turismo pode trazer para a coletividade. Segundo a OMT (2003), as comunidades
locais podem apresentar boas ideias para o desenvolvimento turístico, pois são as
que melhor conhecem a área e a sociedade em que estão inseridas.

Seja qual for o segmento turístico, a implementação de todo o seu processo


deve levar em consideração a participação e o comprometimento da comunidade
receptora. Sabe-se, porém, que envolver a comunidade neste planejamento é um
grande desafio, por isso a OMT (2003) alerta para a necessidade de conscientização
turística da comunidade local.

Como o turismo envolve muitos profissionais trabalhando direta e


indiretamente com a atividade, também é necessário um bom relacionamento entre
esses profissionais e a comunidade. Desde o início do processo, o ideal é incentivar
a comunidade a buscar a atualização das informações e a organização de equipes
de trabalho locais. Isso contribuirá para que a comunidade receptora conquiste
mais autonomia e dê continuidade à atividade turística. Você sabia que, na maioria
dos casos, onde existe uma equipe de profissionais que realiza um planejamento
turístico local, a atividade acaba enfraquecendo ou morrendo na retirada dessa
equipe do local ao final do processo?

Muitas vezes, principalmente quando se trata de turismo de massa,


priorizam-se os aspectos econômicos – como a lucratividade do empreendimento
turístico – e deixam-se em segundo plano os aspectos humanos relacionados à
comunidade receptora. Conforme destaca Krippendorf (2000), o turismo deve
aproximar os povos, priorizando o ser humano ao invés da economia.

Mas será que isso realmente acontece? Em muitos casos, observamos uma
situação bem diferente, pois o turismo de massa dificulta o contato entre os turistas
e a população local. Isso ocorre porque poucos se dão conta de que é preciso buscar
alternativas para minimizar os impactos negativos do turismo sobre o cotidiano
da comunidade receptora que, muitas vezes, é chamada de autóctone muda por
ficar calada, sem poder reagir aos efeitos ocasionados pela atividade turística. É
preciso que a comunidade se manifeste e participe ativamente de todo o processo
de desenvolvimento turístico.

32
TÓPICO 3 | O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL

DICAS

Para aprofundar o conhecimento sobre o tema sustentabilidade em suas várias


dimensões você poderá fazer a leitura da seguinte obra: SACHS, Ignacy. Estratégias de transição
para o século XXI: desenvolvimento e meio ambiente. São Paulo: Studio Nobel, 1993.

2.2 IMPACTOS SOCIOCULTURAIS POSITIVOS E NEGATIVOS


Quando falamos em turismo devemos considerar que existem aspectos
positivos e negativos, inclusive em âmbito social. Por isso, faremos algumas
considerações acerca desse assunto, iniciando com os aspectos positivos.

Os impactos socioculturais, numa atividade turística, são o resultado das


relações sociais mantidas entre visitantes e comunidade local, cuja intensidade e
duração são afetadas por fatores espaciais e temporais restritos.

Segundo De Kadt (1979, p. 50), o encontro entre turistas e moradores ocorre


em três contextos principais:

• quando o turista compra um bem ou serviço do residente;

• quando ambos compartilham o mesmo espaço físico (praias, passeios etc.);

• quando ambos trocam informações e/ou ideias.

As duas primeiras relações são mais frequentes, principalmente no que diz respeito
ao turismo de massa.

Antes de destacarmos os aspectos positivos da atividade turística gostaria


de lhe fazer dois questionamentos: Você pode citar impactos econômicos positivos
do turismo? E impactos sociais? Garanto que na primeira pergunta sua resposta
foi bem mais rápida, pois vemos em jornais, televisão, livros etc. as vantagens
econômicas que o turismo pode trazer para uma cidade, região, estado ou país.
Se você não conseguiu encontrar rapidamente uma resposta à segunda pergunta,
não se preocupe, pois este não é um assunto tão discutido quanto o primeiro.
Geralmente, quando se menciona o turismo de um modo social, as considerações
são mais negativas. No entanto, o turismo pode contribuir com benefícios positivos
ao promover o contato entre comunidades diferentes.

Para que o turismo possa ser desenvolvido com qualidade, não são
somente os atrativos turísticos locais que devem ser considerados, mas também a
infraestrutura básica, de acesso e turística. Por isso, a atividade turística geralmente
traz algumas melhorias que podem ser usufruídas também pela comunidade local.

33
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Podemos destacar as condições sanitárias, como água tratada e esgoto; iluminação;


coleta de lixo; sinalização; conservação de estradas; melhoria nas comunicações
etc.

Outros benefícios do turismo, além dos empregos diretos, são os empregos


indiretos, por meio do desenvolvimento do comércio, transportes e bancos, dando à
população uma melhor qualidade de vida e diminuindo em muitos casos a pobreza.
Além disso, também citamos alguns benefícios ligados a fatores econômicos e que
estão interligados à questão social como: crescimento empresarial e rentabilidade;
diversificação da economia que evita a sazonalidade e gera menos dependência
da indústria; complementaridade da renda para permanecer na comunidade; e
aumento dos impostos para a melhoria dos serviços públicos.

O turismo também pode valorizar o território, despertando o interesse


das pessoas pela conservação do patrimônio cultural e ambiental, e promovendo
integração regional entre visitantes e comunidade local. (ALMEIDA; FROELICH;
RIEDL, 2001). Dessa forma o turismo pode ajudar a estimular o interesse dos
moradores pela própria cultura, por suas tradições, costumes e patrimônio
histórico. Porém, deve-se ter o cuidado para que os moradores não vendam seus
terrenos a preços baixos e somente investidores externos acabem lucrando com a
atividade.

O turismo pode estimular e acelerar as mudanças sociais positivas na


comunidade. São inúmeros os exemplos de destinos turísticos onde sua população
lutou ou trabalhou por melhores condições de vida, impulsionada pela vinda de
visitantes. Embora contestado sob a análise de alguns aspectos, o intercâmbio
cultural entre moradores e visitantes pode, sim, trazer impactos positivos.

Embora seja uma atividade de interesse global, o turismo pode trazer


benefícios locais, pois, convencida da importância das atividades, dos serviços
e do modo de vida local, a comunidade poderá tornar-se uma aliada nas ações
em prol da sustentabilidade. A valorização local faz com que a comunidade se
sinta inserida no processo de desenvolvimento turístico, busque modos de vida
alternativos e empenhe-se em garantir a harmonia entre as várias áreas. O objetivo
do desenvolvimento turístico é tornar as pessoas independentes e preparadas para
o trabalho e para a vida comunitária, na qual o mais importante é o desenvolvimento
da comunidade e do lugar. (CORIOLANO, 2003a).

Você sabe como o turismo pode ser forma de inclusão social? Isto pode
ocorrer por meio da valorização humana, da qualidade de vida e da igualdade
social. Esta inclusão no turismo pode acontecer com oportunidades a todas as
pessoas envolvidas direta e indiretamente, inclusive as menos favorecidas, isto por
meio da geração de emprego e complementação de renda; redução da pobreza;
melhorias nas áreas de educação, saúde, infraestrutura; e melhores condições de
vida.

34
TÓPICO 3 | O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL

O turismo pode trazer impactos sociais negativos? Se o desenvolvimento


turístico não for realizado de forma ordenada, pautada nos critérios e dimensões
da sustentabilidade e participação, já discutidas anteriormente, muitos são os
problemas ocasionados como veremos a seguir.

Apesar de o turismo ser importante para a geração de empregos e


rendimentos, vários dos empregos oferecidos não são tão atraentes, os salários
são baixos, os horários irregulares, e há sobrecarga de horas extras. O turismo
também pode se tornar uma atividade rotineira, dificultando a espontaneidade da
comunidade local e, muitas vezes, a alegria e a educação desta para com os turistas.
Em muitos casos, o turismo também reforçar preconceitos e ideias equivocadas
sobre o destino, pois o turista pode tirar conclusões precipitadas, sem conhecer
verdadeiramente o local. (KRIPPENDORF, 2000).

Segundo Krippendorf (2000, p. 63), “[...] as caravanas de turistas que passam


não imaginam o quanto podem transtornar o equilíbrio emocional, religioso,
cultural, econômico e ecológico das regiões visitadas e de suas populações.”
Assim como em um estágio de crise, o sistema é criticado também pelos habitantes
das regiões receptoras, que vivem os efeitos negativos das massas turísticas,
principalmente por se sentirem invadidos e excluídos de seu desenvolvimento.
No sistema econômico produção/consumo é comum que o trabalhador não tenha
condições de consumir o que produz.

O desenvolvimento real ocorre quando este abrange a sociedade em geral,


mas, especialmente, a comunidade local. Por isso, o desenvolvimento para a escala
humana e o turismo voltado ao local necessitam de políticas condizentes, ou seja,
de atividades que promovam a revalorização do lugar e das pessoas.

A atividade turística também pode provocar outros problemas que


Campanhola e Silva (1999) definem como: degradação ambiental ameaçando locais
naturais e históricos; descaracterização da cultura local; o aumento do trânsito de
pessoas e mobilidade populacional; o aumento da demanda por serviços públicos;
a inclusão e exclusão de áreas e regiões, podendo ocasionar o êxodo rural; aumento
da criminalidade; aumento dos custos de vida das comunidades residentes e do
preço das terras.

Além destes, há outros: poluição e problemas de saúde relacionados;


aumento dos custos de alojamento; congestionamento do trânsito; aumento da
demanda escolar e diminuição da capacidade dos serviços públicos, aumento do
crime, da prostituição, do jogo, do terrorismo e dos conflitos causados por drogas.

35
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

FIGURA 4 – IMPACTOS SOCIOCULTURAIS DO TURISMO

FONTE: Disponível em: < http://humorambiente.blogspot.com/2010/03/turismo.


html>. Acesso em: 17 ago. 2011.

O objetivo do turismo não é modificar o hábito de vida dos seres vivos que
habitam nos destinos, mas sim melhorar a sua qualidade de vida. Por isso é preciso
muito cuidado para que a atividade turística não seja uma mera encenação e faz
de conta.

Agora que você já viu alguns impactos negativos do turismo, você sabe como
podemos evitar ou amenizar alguns desses problemas? Com o desenvolvimento
do turismo é fundamental a participação dos sujeitos na definição dos limites
de exploração, visando garantir sua sustentabilidade. Por isso estamos fazendo
essa reflexão e discussão juntos, pois pretendemos alertar sobre os impactos do
desenvolvimento de uma atividade que possui lugar de destaque no cenário
econômico mundial e que necessita de prevenção quanto às propostas realizadas.

Então há possibilidade de desenvolver o turismo levando em consideração


a sustentabilidade, especialmente a social? Sim, acreditamos que a participação de
todos os sujeitos envolvidos no processo possa contribuir para o desenvolvimento
turístico, gerando benefícios para a comunidade receptora e causando o mínimo
de interferências nos hábitos de vida locais.
36
TÓPICO 3 | O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL

Você pode continuar a discussão sobre a sustentabilidade e a importância


social do turismo, conversando na universidade, no trabalho, na família, com os
amigos, pois este é um tema bastante abrangente e atual.

E
IMPORTANT

No início do processo de desenvolvimento turístico algumas questões devem ser


consideradas, como: Quem iniciará o processo de desenvolvimento? Quais as condições de
negociação? Quem poderá e conseguirá participar? Quem decidirá? Quais serão, na verdade,
os beneficiados e quem perderá com o processo de desenvolvimento? (DREHER; KRAISCH,
2009).

LEITURA COMPLEMENTAR

O TURISMO NA SOCIEDADE

Adriana Cristina Xavier

A maior clientela atual está inserida no turismo clássico, também conhecido


como turismo de massa. Em Urry (1990) pode-se analisar a afirmação de que:

Isolado de um ambiente acolhedor e das pessoas locais, o turismo


de massa promove viagens em grupos guiados e seus participantes
encontram prazer em atrações inventadas com pouca autenticidade,
gozam com credulidade de “pseudo-acontecimentos” e não levam
em consideração o mundo real em torno deles. Em consequência os
promotores do turismo e as populações nativas são induzidos a produzir
exibições cada vez mais extravagantes para o observador de boa fé que,
por sua vez, se afasta cada vez mais da população local. Ao longo do
tempo, através dos anúncios e da mídia, as imagens geradas pelos
diferentes olhares do turista passam a construir um sistema de ilusões,
fechado, que se autoperpetua e proporciona a esse turista uma base
para que ele selecione e avalie os lugares potenciais que visitará. Tais
visitas são feitas, afirma Boorstin, sob a proteção da “bolha ambiental”
do hotel familiar, de estilo americano, que isola o turista da estranheza
do ambiente que o cerca e o hospeda.

Pode-se perceber que vários autores já estão atentos aos danos que o turismo
clássico traz. Além de usar completamente o espaço físico e social da localidade, a
mão de obra, os serviços e equipamentos se isolam em seu mundo de “fantasias”
não interagindo com a população, deixando-a fora da atividade e cada vez mais
acarretando danos a ela. O turismo de massa é uma ilusão que destrói os mesmos
lugares que são visitados, isso também porque o espaço geográfico é limitado não
comportando a capacidade de carga que a ele se atribui. Visa também ao uso intenso
da localidade sem se preocupar com o turismo sustentável, fazendo com que haja a

37
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

saturação dos bens naturais e culturais. Isto pode ser percebido através dos impactos
mais visíveis que são: a poluição das águas de lagos (onde os esgotos de muitos
hotéis são soltos), a poluição visual, o desmatamento sem medidas de áreas naturais
para liberação de maiores espaços para comportar um maior número de turistas,
a venda de espécie de flores raras de forma intensa e desvalorizada etc. Tudo isso
começa a atingir o ambiente natural e rapidamente chega à civilização social. No
final das contas, o prejuízo é tão grande que a localidade não possuirá atrativos
para continuar atraindo os turistas de outra hora, e não haverá, a um “curto” prazo,
medidas favoráveis para assegurar a geração da renda local.

Onde o turismo de massa se instala, a primeira atitude da sociedade é tentar


tirar proveito do acontecimento. No primeiro momento parece que a sociedade local
está usufruindo do turismo, mas ao se perceber com cuidado a situação, poderá
ser observado que, na maioria dos casos, é o “turismo” que tira bastante proveito
da sociedade local e depois “vai embora”, deixando-a desamparada. O turismo
de massa causa na população uma sensação de lucro fácil. E quando a mesma não
tem preparo para iniciar esta atividade, se deixa levar pelo paradigma do turismo
relacionado ao lucro rápido. Só que aos poucos, com a saturação do local, o turista
troca imediatamente de destino, deixando a população em uma difícil situação,
já que o seu meio foi “destruído” e não existe um preparo para outras atividades
assim como não houve para o turismo.

A descaracterização da sociedade também vem de forma rápida, pois ela


tenta ao máximo se adequar aos costumes dos turistas para recebê-los melhor,
destruindo desta forma o meio natural que a rodeia, para aumentar a capacidade de
turistas. Muitas vezes esquece seus artesanatos optando pela produção de fábricas,
de modo a aumentar a produção e o número de vendas (mas ao mesmo tempo
perdendo o sentido original) e aumentando os preços de forma abusiva, a ponto de
até mesmo incompatibilizar o consumo da própria sociedade local.

Por isso é importante ressaltar a importância de um bom planejamento


turístico que trata de forma séria a sustentabilidade. É esta sustentabilidade que
irá garantir à população e sua cultura uma segurança quanto à preservação,
continuidade de renda e cuidados com o meio em que vive.

Na falta de planejamento a população fica cada vez mais exposta a problemas


sociais, causados muitas vezes pela própria atividade turística, como baixos salários,
destruição de recursos naturais e culturais, e resultados negativos do desvio de
investimentos. Muitos centros turísticos, ao invés de investirem primeiramente
na saúde e educação, ou seja, em infraestrutura básica, preferem investir em
infraestrutura turística, deixando assim a população ociosa. Só que quando o turismo
não é planejado e de repente termina naquela localidade, estes equipamentos se
tornam “desnecessários”, prejudicando a própria população.

Outro fator que se pode abordar nesta interação entre sociedade e turismo
são os conflitos de interesses, em que disputam aqueles que lutam por um lucro

38
TÓPICO 3 | O TURISMO COMO FENÔMENO SOCIAL

satisfatório (agências de viagem, transportes, serviços terceirizados etc.) e aqueles


que se preocupam em preservar o meio ambiente e optar por um turismo sustentável
mesmo com um retorno a longo prazo.

O desenvolvimento do turismo realizado por profissionais despreparados


e sem uma visão de toda a complexidade tem provocado, em vários lugares,
a degradação do meio ambiente e o desrespeito às comunidades locais e suas
culturas, tornando-se necessário entender essa atividade como um fenômeno que
requer múltiplos olhares. E pelo seu caráter interdisciplinar é fundamental que os
planejadores estejam bem preparados e busquem sempre contato com as diferentes
áreas que envolvem o turismo.

Algumas sociedades perante o desenvolvimento turístico tendem a se afastar


ou ser afastadas, como ocorre, por exemplo, na cidade de Ouro Preto - Minas Gerais.
Devido à importância que Ouro Preto possui por sua condição de cidade histórica
e por isso mais suscetível ao turismo, seria de se esperar que a população local
automaticamente se introduzisse nesta atividade. Na verdade o que ocorre é que a
grande maioria não se sente parte fundamental para o sucesso do turismo, gerando
insatisfação e aos poucos o aumento da exclusão social. Isso pode ocorrer tanto pela
falta de planejamento adequado quanto pelos interesses pessoais e individuais, de
forma a contribuir para a maximização das diferenças sociais. Segundo Cantarino,
em matéria publicada na Revista Eletrônica do IPHAN, intitulada “A Consciência
do Valor”, a antropóloga Lopes conclui em sua dissertação de mestrado que “Viver
em Ouro Preto significa experimentar um paradoxal sentimento de orgulho e de
exclusão social”.

É necessário compreender que a sociedade é a principal responsável pelo


sucesso do turismo, principalmente quando ele ocorre em espaços habitados
(cidades históricas, circuito de fazendas etc.). As sociedades que se fazem ou que
são estimuladas a participar da atividade turística se misturam com o mesmo, se
tornando o próprio turismo. Fazem-se presentes direta ou indiretamente. Trabalham
com o turismo e não para o turismo, fazendo-se parceiros.

Quando o turismo deixa de ser uma fonte alternativa e se transforma na


principal fonte de renda em uma determinada localidade, é necessário que a
sociedade local se una e colabore para o mesmo fim. Para Krippendorf (2000):

A voz da população local continua praticamente inaudível. Mesmo nas


regiões fortemente desenvolvidas com tradição turística, é muito raro
que a população local possa exprimir claramente a sua opinião. Nas
montanhas suíças, por exemplo, os habitantes das localidades turísticas
aprenderam a viver com o turismo. Eles satisfazem todos os desejos –
ou quase – de seus visitantes. Mas adoram o fato de esta estação e a
agitação turística não durarem o ano todo. Eles têm necessidade desses
meses que se estendem entre as épocas de alta e baixa estação para se
refazerem do turismo, para restabelecer o contato com os vizinhos e
amigos da aldeia e reencontrar o espírito comunitário.

39
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

De forma alguma se deve deixar a sociedade de lado em se tratando


principalmente de turismo. Ela deve ser preparada, orientada e deve ter poder de
decisão, pois é o seu próprio meio que será afetado. No entanto, isto não tem sido
levado em conta e talvez por este fato o turismo tenha sido motivo principal de
tantos impactos negativos.

A população deve aprender a maneira correta de receber o turista, sempre


o agradando e sem explorá-lo ou tratá-lo mal, mas deve saber também que é muito
importante que mantenha suas características culturais. Deve saber que o lucro
rápido através do turismo de massa pode ser bom, mas que o turismo sustentável
assegurará sua renda e bem-estar por muito mais tempo, conservando o meio
ambiente e garantindo saúde às próximas gerações.

Além do trabalho com a população é importante também realizar o mesmo


trabalho com o próprio turista, conscientizando-o de que deve respeitar o lugar
que visita e afastando dele a visão equivocada de que ele "pode tudo" no núcleo
receptor apenas porque está consumindo. A conscientização do turista para um
comportamento adequado que respeitará o ambiente visitado, sem ignorar a
população e principalmente respeitando os costumes locais, contribuirá para
que os impactos negativos sejam minimizados. Sendo este trabalho feito, contará
consideravelmente não só para a preservação cultural e social como também para
as boas relações entre recebidos e receptores.

FONTE: XAVIER, Adriana Cristina. O papel social do turismo. Caderno Virtual de Turismo, Rio de
Janeiro, v. 6, n. 1, p. 9-15, 2006.

40
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico você estudou que:

• O desenvolvimento sustentável é decorrência de um processo de planejamento


participativo.

• A sustentabilidade deve seguir três esferas principais: o meio ambiente, a justiça


social e a participação do cidadão.

• Desenvolvimento sustentável é utilizar os recursos naturais, suprindo


as necessidades da geração presente sem comprometer a capacidade de
atendimento das necessidades das gerações futuras.

• Dentre as principais dimensões da sustentabilidade podem-se destacar: social,


econômica, ecológica, espacial e cultural.

• O principal objetivo da sustentabilidade social, objeto de estudo deste tópico, é


diminuir as desigualdades sociais.

• A sustentabilidade turística consiste em desenvolver o turismo de forma que


atenda as necessidades dos turistas, da indústria do turismo e das comunidades
locais, preocupando-se com as futuras gerações.

• O turismo deve sempre levar em consideração a participação e o comprometimento


da comunidade receptora.

• A atividade turística pode ocasionar alguns impactos positivos e negativos, que


foram discutidos, principalmente os socioculturais.

41
AUTOATIVIDADE

1 Cite algumas formas de desenvolvimento turístico levando em consideração


os princípios da sustentabilidade.

2 O que você entende por sustentabilidade social? Qual a sua ligação com o
turismo?

3 Fazendo uma análise sobre os impactos socioculturais do turismo, reflita


sobre formas de desenvolvimento turístico que possam ocasionar menos
impactos negativos e potencializar impactos positivos.

42
UNIDADE 1
TÓPICO 4

SOCIOLOGIA DO TURISMO

1 INTRODUÇÃO
Faremos aqui algumas reflexões sobre o conhecimento do turismo a partir
do olhar da sociologia, reconhecendo a especialidade “Sociologia do Turismo”.

2 SOCIOLOGIA APLICADA AO TURISMO


Você deve estar se perguntando o que afinal é a sociologia do turismo?
Relembrando nossa discussão sobre o tema, pudemos ver até aqui o conceito,
desenvolvimento e outros assuntos sobre a sociologia, o turismo e o turismo
como fenômeno social. Guimarães (2008, p. 1) considera que “[...] a Sociologia é
importante para se compreender o turismo, mas também o turismo é fundamental
para se compreender a sociedade atual”.

2.1 RELAÇÃO HISTÓRICA ENTRE SOCIOLOGIA E TURISMO


Apesar de o turismo ser o movimento de pessoas, a relação deste com a
sociologia não é tão óbvia para todos. Barretto (2003) relaciona algumas obras
que evidenciam esta relação que nem sempre é tão aceita, como poderemos
observar. Na década de 1970 era difundida por organismos internacionais a ideia
de que o turismo iria salvar a economia dos países do Terceiro Mundo. A essa
visão economicista e até ingênua do processo social se opuseram antropólogos,
resultando no livro The Golden Hordes, 1976, sem tradução para o português.

ATENCAO

Apesar de a Sociologia e a Antropologia fazerem parte das Ciências Sociais e


serem ciências muito semelhantes, há algumas diferenças em seus estudos. Enquanto a
primeira procura compreender como se dão os processos de estruturação e relacionamento
dos indivíduos com as sociedades, entendendo o comportamento grupal/individual, a
Antropologia estuda o homem no que se refere a suas relações com a cultura, especialmente
sobre os costumes, a religião e a organização política. O eixo de conhecimento da Antropologia
procura ir do conhecimento do indivíduo (ou de pequenos grupos) para conseguir entender
as realidades sociais maiores.

43
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Seguindo esta linha do tempo existe um livro ainda mais polêmico que o
mencionado anteriormente, Los Mitos del Turismo, no qual é feita uma denúncia
do modelo de turismo espanhol, classificado como a venda de terra aos estrangeiros
e a renúncia à soberania nacional, afirmando que os turistas são invasores sem
exército. Na década de 1979 também aparece o primeiro livro teórico sobre
sociologia dedicado ao turismo, Sociologia do Turismo, Knebel, 1974. Mas para a
surpresa de muitos, o livro mais aceito pelos cursos de turismo não foi escrito por
um sociólogo, mas, sim, por um doutor em ciências econômicas, pesquisador e
assessor de organismos internacionais de turismo. Trata-se da obra Sociologia do
Turismo: para uma Nova Compreensão do Lazer e das Viagens, escrito na década
de 1980, por Jost Krippendorf.

DICAS

O livro mencionado de Krippendorf consta nas referências deste Caderno de


Estudos e é interessante que você o leia integralmente para que amplie seu entendimento
sobre o assunto.

Ainda na década de 1970, o sociólogo israelense Erik Cohen, em estágio


nos Estados Unidos, institui algumas tipologias turísticas, sendo o primeiro
pesquisador a demonstrar que é preciso diferenciar os turistas quanto ao seu
comportamento e às suas motivações em função de características socioeconômicas
e psicossociológicas. Suas tipologias são utilizadas até hoje e dão sequência ao
trabalho de John Urry, que é, atualmente, o responsável pela maior quantidade
de pesquisas sobre turismo, atitude dos turistas e condutas das pessoas que não
são turistas. Suas preocupações com o consumo dos lugares e paisagens o levaram
a escrever The Tourist Gaze (traduzido para o português: O Olhar do Turista),
considerado um clássico.

A escola sociológica inglesa é bastante rica em estudos sobre o turismo


também possuindo algumas obras com contribuições de vários autores da Europa.
Em 1994, destacamos um capítulo dentro do livro Economies of Signs and Space,
denominado Globalization and Modernity, escrito por Urry com Scott Lash, no
qual colocavam o turismo como um comportamento paradigmático da sociedade
pós-moderna, marcada pela mobilidade e o consumo reflexivo de lugares. Outros
cientistas sociais que marcaram as últimas décadas estudando o turismo como
manifestação da cultura foram Ian Munt e Dean MacCannel, este último com
uma discussão sobre a questão da autenticidade. A revista Annals of Tourism
Research, Estados Unidos, dedicou várias edições para as questões relacionadas
com sociologia e antropologia do turismo.

44
TÓPICO 4 | SOCIOLOGIA DO TURISMO

Na América do Sul, a revista Estudios y Perspectivas en Turismo, Buenos


Aires, coordenada por Regina Schlüter, dispõe de trabalhos de cientistas sociais
que estudam o fenômeno turístico. Temos como exemplos estudos realizados
em Cancún, que mostram que os benefícios do turismo não são distribuídos
equitativamente; análise dos mitos do turismo na República Dominicana; e os
impactos culturais nas Ilhas Canárias. Na atualidade, no Brasil, o interesse da
antropologia e da sociologia pelo turismo ainda é pouco expressivo, mas está em
ascensão, exemplo disso são coletâneas como Olhares Contemporâneos sobre o
Turismo.

Todas as obras relacionadas deram sua contribuição para a visão que temos
hoje da sociologia do turismo, porém Barretto (2003) alerta para o fato de a maioria
dos estudos do turismo, tanto no Brasil quanto no exterior, estarem focalizados nos
impactos da cultura, nos processos de aculturação e na questão da autenticidade.
Menos atenção têm recebido temas como: alteridade, constituição da diferença,
relações de gênero, relações interétnicas no trabalho, modos de produção e
representações sociais. Como no turismo encontramos alguns problemas tais como
emprego de muita mão de obra feminina e de minorias étnicas excluídas, sendo
uma atividade emblemática do capitalismo, os temas anteriormente elencados
encontram um rico campo de pesquisa para esses grandes temas das ciências
sociais.

Obviamente que aqui buscamos trazer as principais obras de autores


importantes da sociologia e do turismo ou então ligados à área, para entendermos
melhor a importância da relação entre essas duas áreas que estão bastante
relacionadas. Adiante iremos entender melhor a importância do tema na nossa
sociedade.

2.2 DEFINIÇÃO E OBJETIVOS


Agora que já fizemos um levantamento histórico acerca da sociologia do
turismo vamos entender melhor a sua definição e seus objetivos. Para Silva (2007),
o turismo é um mosaico de símbolos, formas do pensamento, racional e emocional,
que se apropria não só do espaço físico, mas se alimenta também dos conteúdos
simbólicos das paisagens, das formas identitárias produzindo imagens, mitos a
serem “vendidos” num espaço revestido de visões e símbolos numa construção de
representações sociais.

45
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

FIGURA 5 – SURGIMENTO DAS CIDADES

FONTE: Disponível em: <http://danielmartins.jimdo.com/disciplinas-2011-1/curso-de-


turismo-sociologia-do-lazer-e-turismo>. Acesso em: 14 set. 2011.

Como representado na imagem anterior, as cidades são a composição


de uma ampla e complexa estrutura social. Com isso procuramos interpretar a
complexidade da sociologia e do turismo, pois ambos buscam compreender o
movimento das pessoas destas cidades aqui representadas.

No Brasil, apesar de vermos anteriormente que os estudos sociológicos


ligados ao turismo estão em expansão, há uma preocupação muito maior de
antropólogos e geógrafos com o fenômeno turístico que de sociólogos.

No entanto, uma das mais importantes contribuições do turismo para a


sociologia é situar os fenômenos em seus contextos sociais e históricos, pois o
turismo, assim como outros fenômenos sociais, não é autônomo e não pode ser
entendido por si só.

A partir disso, o caminho que iremos percorrer envolve uma sociologia que
está entre o global e o local, mas o local não significa a ideia de uma comunidade
específica. Também envolve as emoções, que têm se constituído em objeto de estudo
sociológico, dimensão esta que se encontra no centro da experiência turística,
configurando-se um conjunto de relações específicas entre corpo e espaço. O
global, por outro lado, representa condicionantes estruturais que, para o turismo,
compreendem novas mobilidades espaço-temporais. (GUIMARÃES, 2008).

O turismo, apesar de ser de interesse global, pode trazer benefícios


locais, pois este, “Quando relativo aos objetos, técnicas, deve ser identifica como
progresso; quando visa à acumulação de capital, é considerado apenas crescimento
econômico; quando prioriza o homem trata-se do desenvolvimento social.”
(CORIOLANO, 2003b, p. 36).

Como vimos anteriormente, o estudo da sociologia do turismo é recente,


publicando os primeiros trabalhos somente na década de 1960. Mas podemos
observar que desde o seu início estes estudos tratam principalmente da questão
das motivações do fazer turismo. Muitos sociólogos, como Eric Cohen, têm
contribuído com temas como concepção de turista, tipos de turista e a natureza da
experiência turística.

46
TÓPICO 4 | SOCIOLOGIA DO TURISMO

Guimarães (2008) destaca a publicação do artigo de Wearing e Wearing


(2001), intitulado “Conceptualizing the Selves of Tourism”, que trata da relação
entre a experiência turística e o self (eu), sob uma perspectiva predominantemente
sociológica. Busca-se aí construir uma sociologia do turismo centrada na pessoa.
Em outras palavras: essa questão do “eu” nos estudos do turismo refere-se à pessoa
reflexiva e aberta a novas experiências como a viagens, por exemplo.

Nas discussões sobre a sociedade e turismo podemos acrescentar a


importância do corpo, pois este vivencia emoções específicas decorrentes da
experiência turística. Contudo, o que aqui estamos mencionando não é o isolamento
do indivíduo como objeto de análise, mas sim entender que a construção do “eu”
inclui o “outro”, outro este que deve também ser contextualizado socialmente.

Com essas reflexões você pode questionar, mas o turismo não é um negócio?
Obviamente que sim, porém, com essa discussão, estamos buscando alertar para
o cuidado que a sociedade capitalista deve ter em não tratar o turismo somente
sob os paradigmas econômicos. Você deve se lembrar da discussão no tópico
anterior sobre as dimensões da sustentabilidade. Analisar o turismo apenas como
um negócio é esquecer a dimensão social, ou seja, “enxergar os turistas não como
pessoas, mas como simples portadores de dinheiro.” (BARRETTO, 2003, p. 21).

O turismo precisa ser estudado como um sistema aberto, pois é um fenômeno


realizado por pessoas em sociedade. É impossível associar o turismo a uma pessoa
isolada e por isso é uma atividade imprevisível. Retomando a discussão sobre a
sustentabilidade e impactos do turismo, podemos prever quais serão os impactos
ambientais, ou seja, como a natureza irá reagir ao turismo. Isso já não acontece
com impactos sociais, pois mesmo que se tenha um bom planejamento do turismo,
nunca sabemos como a sociedade vai reagir à presença dos turistas, nem como os
turistas vão reagir à sociedade que os recebe.

Em relação aos serviços e equipamentos turísticos, estes vêm aumentando


em quantidade e também em criatividade. Isso resulta na dificuldade de
previsibilidade, ou seja, torna-se cada vez mais difícil realizar um planejamento
que atenda tantas necessidades. Uma das formas de procurar prever situações do
turismo é por meio das ciências sociais. Para Barretto (2003, p. 23), “Só conhecendo
muito profundamente a sociedade receptora e a sociedade emissora é que se podem
minimizar os impactos ou interferências negativas e potencializar os positivos”.

Algumas pessoas que não têm um conhecimento mais profundo do turismo,


muitas vezes influenciadas pelo marketing sempre positivo do setor, podem se
perguntar: Mas por que algumas comunidades receptoras são tão contrárias ao
desenvolvimento turístico? Vamos procurar, em algumas palavras, entender.
Primeiramente, os turistas na maioria das vezes são considerados pessoas fúteis:
esbanjam dinheiro com coisas supérfluas, possuem mau comportamento e invadem
o cotidiano da localidade visitada. Por outro lado os turistas se sentem superiores,
por estarem pagando pelos serviços: comportam-se como se tivessem somente

47
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

direitos e não deveres. Apesar de atualmente serem divulgadas formas de turismo


que promovam o intercâmbio, na realidade isto é contestado por sociólogos e
antropólogos, pois as duas partes, turista e comunidade receptora, não estão em
realidades iguais.

Em resumo, podemos afirmar que os principais objetivos da sociologia do


turismo são ajudar a entender as expectativas, desejos, satisfações e frustrações da
comunidade receptora e dos turistas. Com certeza pesquisas neste sentido estão
sendo e ainda serão uma grande contribuição da sociologia para o planejamento
equilibrado de um turismo responsável.

O objetivo deste tópico não foi aprofundar a literatura que trata da relação
entre sociologia e turismo, mas apenas partir de alguns pontos que instiguem você
para a discussão da contribuição da sociologia para o estudo do turismo.

DICAS

Cabe a você aprofundar este estudo, por isso recomendo a leitura da obra: DANN,
Graham; COHEN, Eric. Sociology and tourism. Annals of Tourism Research. USA: Pergamon
Press, 1991. p. 155-169. v. 18.

48
TÓPICO 4 | SOCIOLOGIA DO TURISMO

LEITURA COMPLEMENTAR

O TURISMO COMO INTERCÂMBIO SOCIOCULTURAL

Xerardo Pereiro Pérez

Desde esta perspectiva teórica, o turismo é pensado como uma relação de


intercâmbio entre turistas e receptores de turistas – “anfitriões” e “convidados”
– (SMITH, 1977; 1989, SMITH; BRENT, 2001), estabelecida num tempo de lazer
para os turistas, durante o qual os locais trabalham para os turistas. O turismo é
um veículo de intercâmbio cultural entre pessoas e grupos humanos, entre “nós” e
“outros”; um jogo de espelhos entre uns e outros, umas vezes atuando como espelho
côncavo, pelo que nos magnifica, e outras como convexo, pelo que nos minora.
Para a antropologia, o turismo é um fato social total e também um processo social,
econômico e cultural no qual participam vários agentes sociais, sendo fundamentais
os mediadores, isto é, políticos, planificadores, profissionais do marketing, hotéis,
transporte, guias, agências de viagem, escritores e investigadores.

Podemos afirmar que o turismo é um encontro entre culturas e sistemas


sociais que provoca mudanças. (SMITH, 1992). Mas, ao contrário de outros tipos de
viagens e deslocações, como, por exemplo, as migrações, o turismo é uma deslocação
voluntária na procura de algo – não estritamente material –.

Nesta perspectiva que entende o turismo como sistema, a antropóloga Valene


Smith (1992) considera o turismo como o conjunto de transações que estabelecem
compromissos entre anfitriões e convidados, e as consequências das mesmas. Entre
essas consequências destaca-se a diminuição das distâncias, tornando o mundo
mais pequenino (SANTANA, 1997, p. 9), isto é, contribuindo para o processo de
globalização (BAUMAN, 1999, p. 103-133), ao mesmo tempo em que a globalização
contribui para o desenvolvimento do turismo.

O turismo é uma forma de contacto intercultural do tipo “aculturação”. A


aculturação é um mecanismo de mudança que consiste no contacto entre duas ou
mais culturas. O conceito de aculturação foi criado em 1880 pelo antropólogo norte-
americano J. W. Powell (apud CUCHE, 1999, p. 92) para designar a transformação
dos modos de viver e de pensar dos imigrantes nos EUA. Este contato intercultural
pode provocar três efeitos (PANOFF; PERRIN, 1973):

a) Assimilação da cultura dominada pela dominante. É um processo de aculturação


ou perda através do qual um grupo culturalmente dominado se incorpora numa
cultura dominante. Implicaria uma hierarquia e uma assimetria entre as partes
da relação.

b) Integração ou combinação de culturas, que tem como resultado novas culturas


num certo plano de equidade.

49
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

c) Subculturas ou coexistência de culturas dominantes com dominadas. Implica


formas de resistência à dominação.

Resultado dos processos de aculturação ou contato intercultural, o turista


deixa de ter a experiência quotidiana do seu grupo de origem para se juntar a um
novo grupo temporário, o dos turistas, cheio de estereótipos e originando uma nova
forma cultural. Ao mesmo tempo, as culturas receptoras de turismo geram sistemas
de hospitalidade e adaptam-se aos visitantes, consciente ou inconscientemente,
através de estereótipos. Os estereótipos também são atribuídos pela indústria
turística e pelos próprios turistas, criando-se, assim, o que se denomina “cultura
do encontro”. (SANTANA, 1996, p. 289). Esta cultura do encontro é resultado da
interação entre turista e anfitrião, que, separados já dos seus universos culturais
de origem, realizam empréstimos uns aos outros e provocam mudanças culturais.
Neste encontro entre anfitriões e convidados, intervêm visões do mundo, estilos de
vida, modos de reagir e lidar com o outro, padrões culturais, relações de poder etc.

Os receptores de turistas acabam, por vezes, por imitar os turistas,


produzindo-se mudanças no sistema de valores, atitudes, linguagem, formas de
comer e vestir, e na procura de bens de consumo. Também pode acontecer que o
turista imite os locais. É um contato por meio do qual se produz uma conversão na
imagem do espelho. Segundo Nettekoven (1991, p. 218), os receptores de turistas
adotam uma imagem falsa sobre o bem que se vive nos países geradores de turistas.

FONTE: PÉREZ, Xerardo Pereiro. Turismo Cultural: uma visão antropológica. Tenerife: Aca
y Pasos, 2009. (Colección PASOS Edita, número 2). Disponível em: <http://www.
pasosonline.org>. Acesso em: 14 set. 2011.

50
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico você estudou que:

• A sociologia é importante para entender o turismo, mas o turismo é fundamental


também para entender a sociedade atual.

• O turismo não era bem aceito pelos primeiros estudiosos da sociologia e


antropologia, sendo relatado por meio de uma linha do tempo teórica.

• Os estudos em turismo têm recebido mais importância por parte dos antropólogos
e geógrafos que dos sociólogos, constituindo-se um rico campo de pesquisas na
relação turismo e sociologia.

• O turismo, apesar de ser de interesse global, pode trazer benefícios locais.

• Apesar de a sociologia do turismo ter apenas estudos recentes, sempre existiu a


preocupação com a questão das motivações do fazer turismo.

• O turismo não deve ser tratado somente como negócio e esquecer a dimensão
social, ou seja, das pessoas envolvidas.

• O turismo é uma atividade imprevisível, principalmente na dimensão social,


pois nunca poderemos saber como será a reação dos turistas ou da comunidade
receptora.

• A relação entre comunidades receptoras e turistas é muitas vezes cheia de


conflitos.

• O principal objetivo da sociologia do turismo é ajudar a entender as expectativas,


desejos, satisfações e frustrações da comunidade receptora e dos turistas.

51
AUTOATIVIDADE

1 Baseando-se na discussão deste tópico e realizando uma pesquisa em livros,


revistas, artigos e internet, explique o motivo do surgimento da sociologia do
turismo.

2 Comente esta frase: “A Sociologia é importante para se compreender


o turismo, mas também o turismo é fundamental para se compreender a
sociedade atual.” (GUIMARÃES, 2008, p. 1).

3 Faça uma reflexão sobre a relação entre turistas e comunidades receptoras:


qual é o papel de cada um no desenvolvimento turístico?

52
UNIDADE 1
TÓPICO 5

O TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

1 INTRODUÇÃO
Além da grande importância do turismo sob um aspecto socioeconômico,
ele se tornou também uma das forças transformadoras do mundo pós-industrial.
O turismo, juntamente com as novas tecnologias, vem redesenhando as estruturas
mundiais, influenciando a globalização, os novos blocos econômicos e a nova ordem
social. Houve uma ruptura com o passado, seja com as sociedades industrializadas,
com a modernidade, marcando os séculos XIX e XX, ou com antigas formações
sociais, culturais e econômicas. (TRIGO, 2000).

Com essas mudanças houve a necessidade de repensar inúmeros aspectos da


vida humana, sendo os principais a educação, como instrumento básico da cultura
e da civilização, e o turismo, como uma das forças propulsoras das mudanças.
Sobre estas mudanças ocasionadas pela atividade turística e este novo modelo
de sociedade é que iremos discutir neste tópico. Anteriormente, porém, faremos
uma reflexão acerca do conceito de sociedade para entendermos a sociedade pós-
industrial.

2 CONCEITO DE SOCIEDADE
A palavra sociedade está presente em nosso vocabulário e discussões
diárias, mas você é capaz de definir sociedade? Por ser um tema complexo e amplo,
muitas vezes esta resposta torna-se difícil. Então buscaremos algumas discussões a
respeito do conceito de sociedade.

Em geral, as expressões comunidade e sociedade são entendidas como uma


contraposição ao individualismo, tão presente no cotidiano atual. De acordo com
Schiochet (2005), o surgimento da sociedade somente acontece quando o homem
se torna um ser social, ou seja, adquire liberdade civil, propriedade, amor próprio
e igualdade por convenção e direito. Dentre as várias formas de organização
social, a sociedade civil foi uma forma de tentar visualizar, na pluralidade e
heterogeneidade de práticas e movimentos sociais, a possibilidade de constituição
de uma sociedade organizada politicamente. Esta forma de organização social na
qual estamos inseridos nos remete à vivência com normas, leis, regras e condutas,
que buscam tornar os direitos e deveres iguais para todos.

53
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

NOTA

Geralmente, a sociedade civil possui quatro concepções diferentes: associativista,


corporativista, movimentalista e comunitarista.

É comum mencionarmos o termo comunidade para nos referirmos às


pessoas que fazem parte do nosso convívio social mais direto, como, por exemplo,
familiares, amigos e vizinhos. Segundo Bauman (2003), ter uma comunidade, ou
estar numa comunidade, está relacionado à segurança, aconchego, a coisas positivas.
No entanto, esta é a definição de uma comunidade idealizada, bem diferente das
comunidades reais. Até o momento todos nós, no coletivo, permanecemos em
busca da comunidade ideal.

Na sociedade individualista em que vivemos, descrita por Schiochet (2005),


é na coletividade que, muitas vezes, abre-se mão da liberdade, da autonomia e da
identidade. Evidenciamos a necessidade de harmonizar os interesses individuais
com os coletivos por meio da segurança e da liberdade, associando os princípios
da organização em comunidade com a individualidade. Caso contrário, as
consequências poderão ser a ausência de comunidade, ou ainda as chamadas
comunidades cercadas.

Como esta é uma discussão muito complexa, podemos considerar que, para
se integrar e formar suas comunidades, os sujeitos participam voluntariamente, ou
não, do ambiente social. Souza (1990) chama atenção para a confusão decorrente
da participação em alguns processos de dominação, caracterizando o que o
autor chama de contraparticipação. Por causa dessas intitulações falsas, alguns
processos se encontram desgastados como, por exemplo, aqueles relacionados ao
poder público. Cordioli (2001, p. 23) destaca que a participação não é somente estar
presente em algum lugar, é, sobretudo, “[...] emitir opinião, analisar, questionar,
concordar, discordar, propor, decidir, avaliar, enfim ser elemento integrante”.

Mas você pode estar se questionando: qual a ligação entre participação


e turismo? Ou então: quem deve participar deste processo? No que se refere à
participação no turismo, ele se apresenta como uma das alternativas para melhorar
a qualidade de vida da comunidade local e do meio ambiente onde ela está inserida.
E será que isso é possível? Sim, pois existem algumas experiências bem-sucedidas,
que inserem atividades turísticas de forma integrada e proporcionam equilíbrio
econômico, social, ambiental e cultural para a localidade receptora. Contudo esta
é uma proposta bastante desafiadora.

Para Sampaio (2004), o processo participativo do turismo deve envolver


representantes do Estado, do mercado e da sociedade civil por meio de arranjos
institucionais e ações coletivas que produzam o bem-estar social. O ideal é a
integração dessas três esferas de poder, pois elas se complementam e, integradas,

54
TÓPICO 5 | O TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

podem trazer soluções para muitos problemas. Nesse processo de integração, não
se pode esquecer de que a comunidade local tem um profundo conhecimento do
espaço em que reside, por isso pode contribuir significativamente para que as
decisões governamentais correspondam às expectativas locais.

3 O PAPEL DO TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL


Você sabe qual é a origem da era pós-industrial? Podemos dizer que a
sociedade pós-industrial nasceu com e após a Segunda Guerra Mundial (1939-
1945), com o aumento da comunicação entre os povos, com a difusão de novas
tecnologias e com a mudança da base econômica. Um tipo de sociedade que já
não era baseada na produção agrícola, nem na indústria, mas na produção de
informação, serviços, símbolos (semiótica) e estética. Uma era marcada pelas
máquinas e computadores, mas onde o ser humano tem seu papel insubstituível:
ser criativo, ter ideias. (LUCCI, 2011).

A sociedade pós-industrial se diferencia da industrial principalmente por


causa do setor de serviços, que é o que mais cresce no mundo, absorvendo sozinho
mais que a indústria e a agricultura juntas.

A era pós-industrial é conhecida também como a era da informação e do


conhecimento. Mas você sabe qual é a diferença entre informação e conhecimento?
O trecho a seguir, extraído do livro Na Era do Capital Humano, de Richard
Crawford (1994 apud LUCCI, 2011), traz algumas considerações:

Um conjunto de coordenadas da posição de um navio ou o mapa do


oceano são informações, a habilidade para utilizar essas coordenadas e o mapa
na definição de uma rota para o navio é conhecimento. As coordenadas e o mapa
são as matérias-primas para se planejar a rota do navio. Quando você diferencia
informação de conhecimento é muito importante ressaltar que informação
pode ser encontrada numa variedade de objetos inanimados, desde um livro
até um disquete de computador, enquanto o conhecimento só é encontrado
nos seres humanos. [...] Somente os seres humanos são capazes de aplicar
desta forma a informação através de seu cérebro ou de suas habilidosas mãos.
A informação torna-se inútil sem o conhecimento do ser humano para aplicá-
la produtivamente. Um livro que não é lido não tem valor para ninguém. [...]
(LUCCI, 2011, [s.p.]).

Também é necessário lembrar os graves perigos no excesso de informação,


apontados pelo editor da Gazeta do Povo, de Curitiba, Wilson Gazino (apud
LUCCI, 2011), no artigo O "Esquecedor" e a Sociedade da Informação:

O homem, definido pelo poeta clássico grego Píndaro como "aquele que
esquece", "o esquecedor", pensou que a máquina poderia ajudá-lo a lembrar. Mas
a máquina multiplicou o número de informações com que o homem lida a cada
dia, chegando a níveis absurdos. Hoje uma pessoa pode ter acesso num só dia
a um número equivalente de informações que um sujeito teria a vida inteira na

55
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Idade Média. De acordo com uma pesquisa recente feita pela Price Waterhouse,
o volume de conhecimento necessário para se manter atualizado no mundo dos
negócios dobra a cada ano. [...] Os cérebros se tornam verdadeiras esponjas,
onde a informação entra num momento e, já descartável, é atirada ao lixo da
memória, logo em seguida. As pessoas se expõem ao estresse informativo,
recebendo esse bombardeio desordenado, sem ter controle sobre isso e sem
saber como se proteger, ou pelo menos, como selecionar de maneira correta.
(LUCCI, 2011, [s.p.]).

Obviamente que isto não quer dizer que o setor secundário (indústria) tenha
se tornado insignificante. É que, neste novo período, a economia internacional está
ampliando seus espaços para o setor terciário, que abrange comércio, finanças,
transporte, saúde, educação, publicidade e propaganda, administração pública e
privada, comunicações, artes e cultura, lazer e turismo etc. (TRIGO, 2000).

TUROS
ESTUDOS FU

Apesar de os temas lazer e turismo estarem interligados, iremos nos ater neste
momento somente à importância do turismo na sociedade pós-industrial. O lazer será
discutido na próxima unidade.

Antes de falarmos sobre a importância do turismo na sociedade pós-


industrial, é importante fazermos um levantamento histórico do crescimento da
atividade nos últimos anos. Por isso, Trigo (2000) afirma que os investimentos no
turismo começaram a aumentar depois de 1950, quando as marchas da Segunda
Guerra Mundial diminuíram e a economia começava a crescer novamente. Neste
momento o planejamento dos novos centros turísticos no mundo todo começou
a preocupar-se com a formação profissional, surgindo escolas e centros de
treinamento, para então conseguir acompanhar o crescimento do setor, que neste
período foi marcado pelo turismo de massa.

Fatos observados nos chamados “trinta anos gloriosos” (décadas de


1950, 1960 e 1970), período posterior à Segunda Guerra Mundial, fomentaram
o crescimento das ativi­dades turísticas. Têm destaque as elevadas taxas de
crescimento econômico mundiais, lideradas pela expansão do setor industrial e
pelo aumento do nível de emprego e renda.

Algumas transformações ocorridas no mundo propiciaram as conquistas


sociais em­preendidas pelos trabalhadores, entre as quais as férias remu­neradas,
que asseguraram condições para o usufruto do tempo de lazer. Em alguns países
como França, Suíça, Bélgica, Holanda, Austrália, Nova Zelândia, entre outros,
foram criados mecanis­mos para financiar os gastos com viagens.

56
TÓPICO 5 | O TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

A história do pós-Segunda Guerra Mundial foi marcada por muitos


conflitos, mudanças e incertezas, que puderam ser observadas também no
turismo, como, por exemplo: as tensões da Guerra Fria; as crises de 1968, que
envolveram jovens estudantes e trabalhadores; a fragmentação do socialismo; o
neoliberalismo selvagem da década de 1980 na América do Norte e na Europa
Ocidental, estendendo-se para a América Latina em 1990. (TRIGO, 2000).

Se, por um lado, o período pós-industrial teve alguns aspectos negativos


para o desenvolvimento turístico, você sabe quais foram os aspectos positivos que
impulsionaram o crescimento do turismo em grande parte do planeta? Podemos
destacar o desenvolvimento e a disseminação das novas tecnologias, a globalização
dos mercados internacionais e a abertura de novas áreas ao turismo.

Mas o fim dos trinta anos gloriosos, comentados anteriormente, não


resultou na estagnação do turismo mundial, pois as melhorias na rede hoteleira e
nos transportes aéreos, juntamente com uma extensa estrutura de comercialização,
trouxeram um novo ciclo de crescimento do turismo.

Observamos que o turismo mundial está em constante crescimento, pois,


de acordo com dados da OMT, o número de turistas no mundo pode ser analisado
na seguinte sequência: em 1950 havia 25 milhões de turistas, 166 milhões em 1970,
458 milhões em 1990, 697 milhões em 2000 e 763 milhões em 2004. (CARVÃO,
2009).

Com o aumento constante da atividade turística, algumas publicações


sobre o turismo no mundo começaram a aparecer, como a dos pesquisadores
Donald E. Hawkins e J. R. Brent Ritchie. Este documento continha as tendências
do turismo para a década de 1990 (algumas já comentadas aqui), sendo 11 grandes
tendências relacionadas aos seguintes pontos: meio ambiente; democratização
de alguns países que eram dominados por governos autoritários; nova ordem
mundial; globalização; aumento dos valores regionais; estabilização demográfica
nos países ricos e aumento da população nos países pobres; impacto das novas
tecnologias; investimentos financeiros; ética e turismo sustentável; aumento de
doenças e violência; formação de mão de obra especializada. (TRIGO, 2000).

ATENCAO

Embora vejamos o assunto “tendências do turismo” na Unidade 3, você já parou


para pensar que as tendências acima apontadas pelos pesquisadores foram realmente sendo
comprovadas em vários estudos desenvolvidos posteriormente?

57
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Neste contexto, uma das causas do crescimento do turismo no mundo ao


longo dos anos podem ser as condições de trabalho que, neste setor, tendem a ser
melhores e mais variadas que no setor industrial.

Mas você acredita que trabalhar com o turismo seja mais divertido,
tranquilo e fácil que em outras áreas, como, por exemplo, na indústria? No início
das atividades turísticas, provavelmente a grande maioria das pessoas tivesse este
pensamento, porém, ao longo do tempo, observamos que cada vez mais o turismo
necessita de mão de obra especializada. Não basta simplesmente ter boa aparência
e saber se relacionar com as pessoas, embora estes sejam requisitos importantes.

O setor turístico tem passado por constantes etapas de profissionalização


devido à nova conjuntura internacional e ao aumento das exigências dos clientes.
Com as facilidades ocorridas nos últimos anos e o número cada vez maior de
pessoas viajando, surgem cada vez mais destinos, e a concorrência deixa os clientes
mais informados e exigentes. Por isso, observamos que nos últimos anos tem-
se investido muito no setor turístico, que deixou de ser uma atividade amadora
para ser uma atividade econômica importante no mundo inteiro, responsável por
movimentar uma parcela significativa do PIB (Produto Interno Bruto) mundial.

Na sociedade pós-industrial o turismo passou a participar do campo maior


do lazer, interligando-se a várias opções destinadas ao tempo livre e aos aspectos
culturais, educacionais, da mídia e dos esportes. Nos últimos anos vários são os
exemplos de grandes investimentos financeiros em empreendimentos turísticos e
de lazer como: Walt Disney Company; MGM Grand Casino Hotel de Las Vegas;
estúdios da Universal, em Orlando; navios de cruzeiros marítimos; e aviões Boeing.
(TRIGO, 2000).

Com tanto dinheiro em jogo, é inevitável a preocupação com a qualidade


das pessoas que trabalham diretamente nestes equipamentos. Por isso, esta nova
etapa do turismo mundial é marcada, principalmente, por investimentos em
preparação dos profissionais da área.

No Brasil, o setor de turismo tem apresentado um relativo dinamismo e


crescente participação no PIB. Entretanto, esse desempenho permanece muito
abaixo do seu real potencial, sobre­tudo de desenvolvimento de regiões mais
pobres com enorme potencial de oferta e demanda turística.

O potencial brasileiro é muito grande, com vários roteiros turísticos


distribuídos por todo o território nacional, abrangendo diversos segmentos
como: ecoturismo, estudos e intercâmbio cultural (cívico, místico, arquitetônico,
esotérico, gastronômico, histórico, religioso), pesca, aventura, sol e praia, negócios
e eventos, esportes e rural.

58
TÓPICO 5 | O TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

4 O TURISMO E A CULTURA
Antes de falarmos sobre a relação entre turismo e cultura, é importante
relacionarmos as motivações dos turistas e viajantes. Para que, afinal, as pessoas
viajam?

Para responder a esta pergunta faremos algumas considerações. Uma delas


é a diferença entre turista e viajante. Você sabe responder qual é? Para explicar,
Trigo (2000, p. 27) cita o filme “O céu que nos protege”, de Bernardo Bertollucci.
Neste filme um casal e um amigo em uma viagem à África, ao desembarcarem do
navio, são questionados se são turistas europeus buscando o exótico ou a aventura
no continente africano. Neste momento respondem: “Não somos turistas, somos
viajantes. Turista é aquele que chega com um roteiro predeterminado e com data
certa de voltar. Viajante é o que chega sem saber ao certo aonde vai, quanto tempo
vai ficar e se mistura com as populações locais, bebendo seus costumes e vivendo
suas vidas.”

O chamado turismo de massa, iniciado na sociedade pós-industrial, tem


nos pacotes em ônibus ou voos superlotados, com pessoas aglomeradas em hotéis
de classe duvidosa e comprando em free shops, shoppings ou outlets, suas principais
características. Isto é horrível em termos culturais, antropológicos e sociais?
Obviamente que sim, mas como conseguir viagens econômicas de outra forma?
Com certeza esta é uma discussão bastante polêmica, assim como a distinção
entre turista e viajante, pois não há nada de errado em ser turista e nem realizar o
turismo de massa. Mas, como afirmam Mathieson e Wall (1992, p. 121), “O turismo
de massa está rodeado, mas não integrado na sociedade receptora”.

Quando questionados sobre o motivo de viajarem, a maioria dos turistas


responde: “Desligar, relaxar, fugir da vida diária etc.” Contudo a maioria das
pessoas se envolve em um mundo de faz de conta, onde, na maioria dos casos, as
viagens não satisfazem os desejos dos turistas, mas somente as vontades, que são
momentâneas e geralmente acabam no término da viagem. (TRIGO, 2000).

Afinal, o turismo é uma fuga, uma possibilidade cultural ou uma aventura?


Depende do caso, mas é inegável que em muitos casos se trata de uma fuga. Por
isso Trigo (2000, p. 34) alerta:

Quem sai de sua cidade e chega a outro país para se internar nos
shopping centers, comer fast food e ler seu jornal preferido ou assistir a
seu canal predileto viajou espacialmente e não saiu de “casa”, continua
sempre no mesmo lugar existencial e cultural, com uma mesma atitude
perante o mundo.

Agora que já fizemos uma reflexão sobre algumas motivações ou


possibilidades do turismo, entramos na questão cultural. Partimos inicialmente de
uma explicação breve sobre cultura.

59
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

Em uma relação mútua de dependência entre o ser humano e o meio que


o cerca ressaltamos que “[...] sem homens não existiriam manifestações culturais”,
mas que também “[...] sem manifestações culturais não haveria homens”. (GEERTZ,
1980, p. 6). O ser humano é o único ser capaz de demonstrar seus conhecimentos,
e pode ser por meio de ideias e emoções.

Você consegue definir cultura? Não é uma resposta tão fácil, porém Da
Matta (1981) afirma que a cultura é um conceito chave para a interpretação social,
a maneira de viver de um grupo, sociedade, país ou pessoa. Considerando a
realidade vivida atualmente, em uma sociedade globalizada e constituída por
princípios capitalistas, o conceito de cultura modificou-se, acompanhando os
demais avanços. Segundo Ortiz (1996), a cultura contemporânea e a tecnologia
fazem parte de uma mesma realidade, possuindo várias implicações. Exemplos
dessas manifestações técnicas e culturais são o cinema, a televisão, o vídeo, a
fotografia e o rádio.

Entretanto, apesar de o conceito de cultura mais moderno apresentar


uma proposta global, mundial, isto não significa a negação das culturas locais ou
nacionais. Devemos combinar uma variedade de manifestações, tanto em esferas
globais quanto nacionais e regionais. Contudo não podemos garantir que as
culturas locais não sejam afetadas, nem que este processo seja harmônico, pois
há uma tendência à homogeneização. Por isso esta questão ainda é um grande
desafio.

Coriolano (2003b, p. 28) afirma que “[...] o que globaliza separa” e, portanto,
“[...] só é possível humanizar a partir do local”. Contudo, o desenvolvimento para
a escala humana e o turismo voltado ao local necessitam de políticas condizentes,
ou seja, “[...] implementar atividades de revalorização do lugar e das pessoas.” (p.
30).

FIGURA 6 – A RIQUEZA CULTURAL DO BRASIL

FONTE: Disponível em: <http://www.infoescola.com/cultura/turismo-


cultural/>. Acesso em: 30 ago. 2011.

60
TÓPICO 5 | O TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

Falar em cultura em um país com uma diversidade de manifestações


culturais tão grandes quanto o Brasil torna-se uma tarefa complexa e um grande
desafio, mas ao mesmo tempo um grande atrativo turístico.

Já falamos sobre cultura, agora é interessante relacionarmos o tema
à sustentabilidade. Você já aprendeu que a sustentabilidade pode ter várias
dimensões, inclusive a cultural, mas você sabe o que é a sustentabilidade cultural?

NOTA

Em tempos de globalização, a sustentabilidade cultural possui o desafio de


preservar a identidade e os costumes locais. Os saberes, os conhecimentos e os valores locais
das populações devem ser analisados, compreendidos e utilizados como ponto de partida do
desenvolvimento. (CAPORAL; COSTABEBER, 2004).

E a sustentabilidade cultural voltada ao turismo, como pode acontecer?


Quando se trata de cultura e turismo, dois pontos são principais: valorização e
autenticidade. “O futuro e a sustentabilidade da atividade turística dependem da
qualidade do produto oferecido pela promoção dos valores locais e da estabilidade
da autenticidade cultural e da proteção ambiental.” (RUSCHMANN, 2001, p. 73).

O que não podemos esquecer é que, no desenvolvimento do turismo, o


envolvimento da população local é fundamental para que esta dê importância
a uma atividade sustentável. Neste sentido, os empreendedores turísticos têm o
papel de buscar a socialização da comunidade no turismo por meio de: incentivo
e apoio ao fortalecimento e organização da comunidade local; promoção de cursos
de capacitação e eventos culturais; compra e venda de produtos locais; e outras
ações de caráter socioambiental. (MENDONÇA; NEIMAN, 2005).

Um dos pontos positivos do turismo para a cultura local é despertar o


interesse das pessoas pela valorização e conservação do patrimônio cultural e
ambiental, além de costumes e tradições locais e promover uma integração regional
entre visitantes e comunidade local. (ALMEIDA; FROEHLICH; RIEDL, 2001).

Neste sentido, mesmo trazendo muitos benefícios para os turistas e a


comunidade receptora, o turismo cultural, quando não planejado e excedendo suas
limitações, pode ocasionar a degradação cultural e perder toda sua atratividade.
O aumento do interesse em vivenciar o dia a dia de determinada cultura pode
resultar em sua descaracterização ou reinvenção, conforme o interesse da indústria
turística, o que não é favorável nem aos turistas e muito menos à comunidade local.
Quanto à relação entre turistas e comunidade local, ela pode ser comprometida,

61
UNIDADE 1 | INTRODUÇÃO À SOCIOLOGIA DO TURISMO

pois, enquanto os primeiros estão a lazer e de férias, os segundos estão trabalhando


e nem sempre conseguem realizar as atividades com espontaneidade, tornando os
hábitos locais muito artificiais. (BRENNER, 2005).

Como vimos, o turismo apesar de ser de interesse global pode trazer


benefícios locais. Destacamos dois desafios principais. Por criar um produto/
serviço, o turismo transforma o dia a dia em um atrativo cheio de simbologia e
identidade cultural ao turista. O grande desafio é inserir a identidade local no
contexto turístico sem ela perder a sua essência, analisando os agentes turísticos e
seus atores sociais, suas ações sobre o espaço e uso da simbologia local.

O outro desafio é implementar políticas públicas que sensibilizem a


população local, turistas, órgãos públicos e privados da importância da preservação
e valorização da cultura e identidade local.

LEITURA COMPLEMENTAR

O PAPEL DO TURISMO NA SOCIEDADE ATUAL

Júlia Campos Florez

O turismo e o lazer existem atualmente em função da formação de nossa


sociedade pós-industrial. Eles servem de válvula de escape para o cidadão urbano.
O turismo e o lazer, apesar de terem praticamente a mesma função, têm significados
diferentes.

O lazer é uma atividade em que o indivíduo escolhe o que fazer, é a hora do


não trabalho. As pessoas podem usar esse tempo como elas quiserem. Tanto para
se divertir, como para relaxar. O lazer pode ocorrer em qualquer lugar, até na casa
do indivíduo.

O turismo é uma atividade de lazer que serve para relaxar, descontrair e


divertir as pessoas. Só que as atividades turísticas ocorrem em locais diferentes do
lugar em que as pessoas vivem. É a ação de viajar. Ir ao cinema é uma atividade de
lazer, não de turismo.

O turismo é considerado uma atividade de lazer, é uma das manifestações e


uma das alternativas do lazer contemporâneo, mas lazer não pode ser considerado
turismo.

Por que existem essas atividades hoje em dia?

Porque muitas pessoas necessitam se desconectar da rotina, dar uma “freada”


no dia a dia do trabalho, na luta social. E é aí que o turismo e o lazer entram.

62
TÓPICO 5 | O TURISMO NA SOCIEDADE PÓS-INDUSTRIAL

Em nossa sociedade pós-industrial, tempo é dinheiro. A maioria dos


aparelhos eletrônicos, fax, computador, celular foram feitos para contribuir com
esse modelo socioespacial atual. Mas as pessoas nem sempre aguentam trabalhar
sem parar dias e dias seguidos. Há um momento em que a paciência, a força e o
raciocínio se esgotam. Assim buscam um modo de se divertir, relaxar, através do
turismo e do lazer.

Há pessoas com boas condições financeiras, que viajam por prazer, mas elas
correspondem à minoria da população brasileira.

O turismo vem crescendo muito hoje em dia. Muitos lugares dependem


dele para sustentar sua economia. Um exemplo disso é o que ocorreu na região de
Alto Paraíso-Goiás, onde foi criado, em 1969, o Parque Nacional das Chapadas dos
Veadeiros. Desde então, 97% da população depende do ecoturismo.

O turismo em massa, onde se aglomeram vários turistas, pode prejudicar


vários lugares, pois a frequente visitação causa um grande impacto. É o que está
ocorrendo na Acrópole de Atenas, laguna de Veneza, muralha da China, pirâmides
do Egito etc. Esses famosos patrimônios culturais estão sendo depredados pelo
turismo em massa, apesar de gerarem lucro para a região.

Existem vários tipos de turismo: o predatório, que causa um grande impacto


no meio ambiente; o de negócio, onde a pessoa viaja a trabalho; o cultural e o
religioso, onde se conhece a cultura local e se participa de manifestações e eventos
religiosos e o ecoturismo que vem da ideia do desenvolvimento sustentável.

O desenvolvimento sustentável tem como objetivo conciliar desenvolvimento


econômico com a preservação ambiental. Essa ideia se desenvolve no turismo através
do ecoturismo que ocorre em áreas naturais e se preocupa tanto em preservar o
patrimônio local como desenvolvê-lo. Pode ser exercido, por exemplo, nos parques,
que são unidades de conservação preocupadas em preservar o patrimônio natural.

Assim, a ideia de desenvolvimento sustentável vem crescendo a cada ano.


O homem está começando a perceber que a Terra é esgotável, que seus recursos
naturais irão acabar algum dia.

O turismo e o lazer existem hoje por causa dos valores aderidos em nossa
sociedade. Através dessas atividades nós relaxamos e nos descontraímos. Mas,
mesmo que seja um momento de descanso, não podemos nos esquecer de que temos
de tomar conta do local em que estamos, seja em uma cidade turística, como Paris,
Sidney ou Natal, ou no meio ambiente, fazendo ecoturismo pelo Sertão Veredas,
Fernando de Noronha. Só que não se pode esquecer de que o local em que está é
um patrimônio. Se este for destruído, os animais, as árvores, o passado e a história
de diversas culturas se dissolverão no tempo e se perderão para sempre.

FONTE: Disponível em: <http://www.escolaviva.com.br/7serie/alazer_juliaf.htm>. Acesso em: 17


ago. 2011.

63
RESUMO DO TÓPICO 5
Neste tópico você estudou que:

• O conceito de sociedade e comunidade se contrapõe ao individualismo, e a


sociedade civil é uma das formas de organização social. Neste tipo de sociedade
encontramos normas, leis, condutas e regras que tentam garantir o direito e a
igualdade de todos.

• A sociedade pós-industrial nasceu após a Segunda Guerra Mundial (1939-


1945), com o aumento da comunicação entre os povos, com a difusão de novas
tecnologias e com a mudança da base econômica.

• A era pós-industrial é também conhecida por era da informação e do


conhecimento: a informação é encontrada em vários objetos inanimados,
enquanto o conhecimento somente é encontrado no ser humano, pois este é o
único capaz de transformar a informação em algo útil, ou seja, em conhecimento.

• A história pós-Segunda Guerra Mundial foi marcada por conflitos e clima tenso,
que também teve repercussão no turismo. No entanto houve aspectos positivos:
o desenvolvimento e a disseminação das novas tecnologias, a globalização dos
mercados internacionais e a abertura de novas áreas ao turismo.

• Com o aumento da atividade turística e as exigências dos clientes, a


profissionalização da mão de obra envolvida diretamente com o turismo tornou-
se uma grande necessidade.

• Algumas motivações dos turistas e o surgimento do turismo de massa.

• A diferença entre turista e viajante: o primeiro tem um roteiro predeterminado,


local e data marcada de chegada e partida. O segundo não possui um roteiro
definido e nem quanto tempo vai ficar no destino, pois isto será definido durante
a viagem. Neste caso participa e conhece os costumes e hábitos de vida locais.

• Cultura pode ser entendida como a maneira de viver de um grupo, sociedade,


país ou pessoa.

• Na relação turismo e cultura há dois fatores muito importantes: valorização e


autenticidade e a população local possui um envolvimento fundamental.

• O turismo ocasiona alguns pontos positivos para a cultura: valorização e


conservação do patrimônio cultural e ambiental, resgate e manutenção de
hábitos e tradições locais e o intercâmbio entre turistas e comunidade local.
Dentre os pontos negativos destacamos: degradação cultural, descaracterização
ou reinvenção, conforme o interesse da indústria turística, e a relação entre
turistas e comunidade local podem ser comprometidas.
64
AUTOATIVIDADE

1 Faça uma reflexão sobre o conceito de sociedade, abordando também a


questão da individualidade e da coletividade.

2 Você estudou a significativa evolução do setor de turismo, especialmente


a partir da metade do século passado. Quais os fatores que propiciaram tal
mudança?

3 Faça uma pesquisa na literatura ou na internet sobre as etapas do plano de


desenvolvimento turístico. Em seguida, marque V para verdadeiro e F para
falso nas afirmações:

( ) O turismo de massa procura respeitar a cultural local, por meio do


intercâmbio entre comunidade local e turista.
( ) O conceito de cultura vem tomando formas diferentes ao longo dos anos,
porém um conceito moderno relaciona cultura e tecnologia e tem como
exemplos de manifestações técnicas e culturais: o cinema, a televisão, o
vídeo, a fotografia e o rádio.
( ) Há vários exemplos de destinos turísticos que conseguiram resgatar hábitos
e tradições locais e conservar o patrimônio cultural, tudo isso devido ao
turismo.
( ) Mesmo que a comunidade local modifique seus hábitos para a chegada
de turismo, isto não irá comprometer a atividade turística e nem a sua
autenticidade.
( ) O poder público não possui envolvimento na relação turismo e cultura,
uma vez que é a comunidade local a responsável pelo desenvolvimento
turístico.

65
66
UNIDADE 2

O LAZER E A SOCIEDADE

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

A partir desta unidade você será capaz de:

• compreender as principais correntes do pensamento sociológico, identifi-


cando as diferenças e a importância dos pensadores clássicos;

• relacionar os movimentos sociais ao longo do tempo e sua contribuição


para o desenvolvimento da sociedade;

• diferenciar os diferentes sistemas de estratificação, enfatizando a questão


social e relacionando-a às demais dimensões;

• interpretar os conceitos básicos do lazer, relacionando o ócio, tempo livre


e trabalho ao contexto social;

• entender a relação das viagens com o lazer, reconhecendo o valor desta


relação para ambas as áreas.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em cinco tópicos. No final de cada um deles você
encontrará atividades que contribuirão para a reflexão e análise dos conteú-
dos explorados.

TÓPICO 1 – OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS

TÓPICO 2 – OS MOVIMENTOS SOCIAIS

TÓPICO 3 – SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

TÓPICO 4 – LAZER

TÓPICO 5 – AS VIAGENS COMO FORMA DE LAZER

67
68
UNIDADE 2
TÓPICO 1

OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS

1 INTRODUÇÃO
Como já vimos na unidade anterior, as revoluções francesa e industrial
provocaram uma série de transformações na sociedade. Novas situações, como o
aumento da urbanização, do número de suicídios, das epidemias, não conseguiam
ser explicadas pelos filósofos da época. Os que eram bem conservadores não
admitiam que a sociedade moderna não priorizasse valores como a família, religião
ou grupo social.

Estas ideias dos conservadores foram referência para os pioneiros da


sociologia, especialmente os positivistas, que procuravam preservar a nova ordem
econômica e política. Os autores têm maneiras diferentes sobre esta e outras
questões, como a divisão do trabalho, uma das características das sociedades
modernas.

Você conhece algum dos principais sociólogos? Neste tópico veremos


autores clássicos como Émile Durkeim, Karl Marx e Max Weber.

E
IMPORTANT

Apesar de não nos aprofundarmos no filósofo e matemático francês, Auguste


Comte (1798-1857), não podemos deixar de mencionar que ele foi o fundador do positivismo,
estudado na unidade anterior. Seu pensamento influenciou as teorias existentes. Suas principais
obras foram: Curso de Filosofia Positiva, 6 tomos (1830-1842); Discurso sobre o Espírito
Positivo (1844); Sistema de Política Positiva, 4 tomos (1851-1854); Síntese Subjetiva (1856).

2 ÉMILE DURKHEIM
Antes de falarmos sobre as principais ideias de Émile Durkeim, vamos
conhecer um pouco de sua vida. Nasceu em 15 de agosto de 1858, em Epinal, França,
e era filho de judeus. Formou-se em Direito e Economia, mas todas suas obras são
dedicadas à sociologia. Acredita-se que sua morte, ocorrida em 15 de dezembro de
1917, tenha relação com a tristeza pela perda do filho na guerra no ano anterior. Foi
com Durkheim que, na segunda metade do século XIX, a sociologia passa a existir
com objeto, método e objetivos claros e definidos. (PAULINI; SILVA, 2004).

69
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

FIGURA 7 – ÉMILE DURKHEIM

Nascimento 15 de abril de 1858, Épinal, França


Morte 15 de novembro de 1917 (59 anos), Paris, França
Nacionalidade Francesa
Ocupação Acadêmico, sociólogo, antropólogo, filósofo
Escola/tradição Positivismo, funcionalismo, evolucionismo
Principais Sociologia, antropologia, ciência, epistemologia,
interesses religião, suicídio, educação, direito, ética
Ideias notáveis Fato social, consciência coletiva, anomia
FONTE: DURKHEIM, Émile. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89mile_
Durkheim>. Acesso em: 26 out. 2011.

Conforme Paulini e Silva (2004), Durkheim destaca que a compreensão da


sociedade deve ser feita como um conjunto de ideias, que são alimentadas pelos
homens que fazem parte dela. Com o livro Regras do Método Sociológico, em 1895,
deu-se um caráter científico à sociologia. Durkheim defende que a sociologia deve
ser um instrumento científico da busca de soluções para os desvios da vida social,
tendo uma dupla finalidade: explicar os códigos de funcionamento da sociedade
e intervir nesse funcionamento por meio de antídotos que possam amenizar os
males da vida social.

Na concepção de Durkheim a sociologia é tratada como uma medicina


social, criando como objeto de explicação para os códigos de funcionamento da
sociedade: os fatos sociais. Você sabe o que é fato social? Nas próprias palavras de
Durkheim (1972, p. 11) fato social é

70
TÓPICO 1 | OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS

[...] toda a maneira de agir, fixa ou não, suscetível de exercer sobre


o indivíduo uma coerção exterior, que é geral na extensão de uma
sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente
das manifestações individuais que possa ter.

Em resumo podemos afirmar que, para Durkheim, o modo como o homem


age é sempre condicionado pela sociedade. Para melhor explicar este assunto os
fatos sociais possuem três características fundamentais, conforme Paulini e Silva
(2004):

 Coerção social: a força que os fatos exercem sobre os indivíduos, e estes se


conformam com as regras ditadas pela sociedade em que vivem, não levando
em consideração suas vontades e escolhas. São exemplos as forças quanto ao
idioma, tipo de formação familiar ou códigos de leis.

 Exteriores: força relacionada a aquilo que já existe ou atua sobre os indivíduos


independentemente de sua vontade ou adesão consciente. As regras sociais, os
costumes, as leis, os sistemas de moedas, os instrumentos de créditos, as práticas
profissionais existem antes do nascimento das pessoas.

 Generalidade: todo fato social deve ser geral, ou seja, se repetir em todos os
indivíduos ou na sua maioria. Neste sentido referem-se a um estado comum de
um grupo, como as formas de habitação, de comunicação, os sentimentos e a
moral.

Em outra obra, Da Divisão do Trabalho Social, escrita no final do século


XIX, Durkheim diz que a especialização do trabalho promovida pela produção
industrial moderna trouxe uma forma superior de solidariedade e não de conflito.
Para ele existem duas formas de solidariedade: a mecânica e a orgânica. A primeira
é bastante comum em sociedades menos complexas, onde as pessoas sabem
realizar todas as tarefas, não dependendo do trabalho do outro, mas permanecem
unidas pelas crenças, tradições e costumes comuns. Já a solidariedade orgânica é
fruto da diversidade entre os indivíduos, pois com a divisão do trabalho há uma
interdependência entre as pessoas e não uma identidade de crenças e ações. A
crescente divisão do trabalho cria solidariedade, pois faz a sociedade funcionar, é
o que chama de coesão social. (TOMAZI, 2010).

Émile Durkheim utilizou sua metodologia em algumas obras como O


Suicídio, em 1897, em que não procurou trazer as causas dos suicídios, mas sim
planejou o esquema da pesquisa, com dados necessários sobre as pessoas que
se suicidaram, construindo uma teoria do suicídio. Sua caracterização dos fatos
sociais, mencionados acima, foi fundamental para a observação científica e
metódica, tornando a sociologia uma ciência respeitada como as demais da área
de ciências naturais e exatas. (DIAS, 2000).

71
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

E
IMPORTANT

Suas principais obras são: Da Divisão do Trabalho Social (1893); Regras do Método
Sociológico (1895); O Suicídio (1897); As Formas Elementares de Vida Religiosa (1912). Fundou
também a revista L'Année Sociologique, que afirmou a preeminência durkheimiana no mundo
inteiro.

Segundo Émile Durkheim, todo fervor no final do século XIX causado pela
relação capital x trabalho era uma questão moral, pois o surgimento de tantos
conflitos era fruto da falta de instituições e normas integradoras. Esta seria a razão
para a não produção de solidariedade na divisão do trabalho.

Durkheim é visto como um “evolucionista”, pois defendia que a sociedade


seria mais justa e o indivíduo mais feliz se houvesse o sentimento de solidariedade,
assim como uma nova ordem moral.

3 KARL MARX
E sobre Marx, qual será sua história e seus princípios? Primeiramente
é interessante saber que Karl Marx nasceu no dia 5 de maio de 1818, em Tríer,
província alemã do Reno. Foi economista, historiador, sociólogo e socialista
alemão. Perdeu a razão de viver após a morte de sua esposa em 1881 e de sua filha
mais velha em 1882, vindo a falecer em 14 de março de 1883. Venerado por milhões
de operários de vários países, em sua lápide está escrito: “Operários de todos os
países, uni-vos!” (PAULINI; SILVA, 2004, p. 34).

72
TÓPICO 1 | OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS

FIGURA 8 – KARL MARX

Nome completo Karl Heinrich Marx


5 de maio de 1818, Tréveris, Renânia-Palatinado
Nascimento
Alemanha
14 de março de 1883 (64 anos) Londres, Inglaterra
Morte
Reino Unido
Nacionalidade Alemã
Ocupação Economista, sociólogo, historiador e filósofo
Magnum opus O Capital
Escola/tradição Marxismo (cofundador, com Engels)
Principais Sociologia, economia, história, política, teoria social,
interesses ideologia
Transição gradual para o comunismo, ditadura do
proletariado, materialismo histórico, materialismo
Ideias notáveis dialético, socialismo científico, modo de produção,
mais-valia, luta de classes, teoria marxista da ideologia,
teoria marxista da alienação
FONTE: MARX, Karl. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Karl_Marx>. Acesso
em: 26 out. 2011.

Dias (2000) relata um fato interessante ocorrido com Marx aos 17 anos: seu
professor pede para que faça uma dissertação sobre o seguinte tema: reflexões de
um jovem a propósito da escolha de uma profissão. Na dissertação desenvolveu
ideias que o acompanharam durante toda sua vida. Primeiramente menciona que
o homem feliz é aquele que faz os outros felizes, sendo a melhor profissão aquela
que consegue proporcionar a felicidade ao maior número de pessoas. Também
escreve que na vida das pessoas sempre haverá obstáculos e dificuldades, pois
são estes que fazem suas vidas se desenvolverem, mesmo sem ter condições para
resolvê-las.

73
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

Uma de suas primeiras obras foi O Manifesto Comunista, em 1848, porém seu
trabalho mais importante foi O Capital, que teve seu primeiro volume publicado
em vida, mas os demais volumes foram publicados por Engels após sua morte, seu
parceiro de vários trabalhos. Embora Marx não tenha vivido para ver a aplicação de
suas ideias na prática, seu trabalho influenciou a formação dos regimes comunistas
no início do século XX. Sobre o comunismo já comentamos na Unidade 1.

E
IMPORTANT

As principais obras de Marx: Manuscritos Econômico-Filosóficos (1844), A Ideologia


Alemã (1845), A Miséria da Filosofia (1847), Manifesto Comunista (1848), O 18 Brumário de Luís
Bonaparte (1852), Contribuição à Crítica da Economia Política (1857) e a sua maior obra, O
Capital (1867).

Conforme Paulini e Silva (2004), Karl Marx foi financiado pelo amigo
Friedrich Engels, pois o único emprego remunerado que teve foi de secretário de
ferrovia, mas foi demitido porque sua caligrafia era péssima. Tinha um grande
domínio sobre os assuntos relacionados à Ciência Econômica, contribuindo muito
para o campo da economia. Seus trabalhos mais importantes são anteriores aos de
Durkheim, mas, ao contrário deste, era discreto quanto à ideia de que a sociologia
pudesse englobar leis gerais e externas como as das ciências naturais. “Para Marx,
cada época histórica é construída em torno de um tipo específico de produção
econômica, organização de trabalho e controle de propriedade, criando sua própria
dinâmica”. (p. 36).

Mesmo que as obras de Marx não tenham relação direta com os estudos
das ciências sociais, ele proporcionou uma grande contribuição para a sociologia.
Trouxe para a teoria o método dialético, definido por Engels como aquele que “[...]
considera as coisas e os conceitos no seu encadeamento, suas relações mútuas,
sua ação recíproca e as decorrentes modificações mútuas, seu nascimento, seu
desenvolvimento, sua decadência”. (DIAS, 2000, p. 38). O método dialético de Karl
Marx possui quatro características fundamentais:

• tudo se relaciona: lei da ação recíproca e da conexão universal;

• tudo se transforma: lei da transformação universal e do desenvolvimento


incessante;

• a mudança qualitativa;

• a luta dos contrários.

74
TÓPICO 1 | OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS

Com relação à divisão social do trabalho, para Marx é realizada no processo


de desenvolvimento das sociedades, ou seja, conforme buscamos atender nossas
necessidades, formamos relações de trabalho e maneiras de dividir as atividades.
Por exemplo, com a formação das cidades, a divisão do trabalho ocorre entre
trabalho rural (agricultura) e trabalho urbano (comércio e indústria) ou ainda
com o desenvolvimento da produção, entre quem administra (diretor e gerente) e
quem executa (operário). “Para Marx, portanto, a divisão social do trabalho numa
sociedade gera a divisão em classes”. (TOMAZI, 2010, p. 45).

Você sabe o que é a mais-valia e acumulação de capital, mencionadas por Marx?


Vou tentar exemplificar: O primeiro termo refere-se ao fato de que o operário,
quando assina o contrato de trabalhador, assume geralmente uma carga horária
diária de oito horas ou quarenta horas semanais. Porém, na prática em quatro
ou cinco horas diárias produz o referente ao valor de seu salário total, sendo as
horas restantes apropriação do capitalista (empregador). Essas horas trabalhadas
e não pagas vão fazer com que o capitalista enriqueça às custas do trabalhador
rapidamente e isso acontece todos os dias em vários lugares do mundo. Esse
processo chama-se acumulação de capital.

Uma síntese sobre o trabalho de Karl Marx:

A partir dele a Sociologia assume uma postura mais crítica, buscando


desmascarar e criar um novo sistema que supere o sistema capitalista.
Além de sua vigorosa crítica ao sistema capitalista, Marx foi um modelo
de intelectual que soube muito bem unir a teoria com a prática. A
maioria de suas obras aborda os assuntos mais variados possíveis, desde
filosofia, política, história, religião e economia, por isso tentar entender
todo o seu pensamento é uma tarefa muito complexa. Podemos afirmar
que a contribuição teórica de Marx consiste, em síntese, na criação
de paradigmas que até o momento não haviam sido discutidos pelo
pensamento sociológico. (PAULINI; SILVA, 2004, p. 36).

Mas afinal você sabe o que é marxismo? Para que consiga entender
melhor vamos compará-lo com o positivismo, movimento já estudado na unidade
anterior. Enquanto o positivismo preocupa-se principalmente com a manutenção
e a preservação da nova sociedade capitalista, o marxismo irá criticar este tipo de
ordem social, destacando seus antagonismos e contradições.

O conceito mais significativo do conhecimento sociológico crítico radical da


sociedade capitalista foi formulado pelo marxismo. Isto se deve a Marx e Engels,
que consideram que o estudo da sociedade deve partir de sua base material, ou
seja, da estrutura econômica da sociedade.

Marx e Engels desenvolveram a teoria de que os fatos econômicos são a


base para outras realidades como a política, a cultura, a religião e a arte. Também
a teoria que considera que o conhecimento da realidade social deve ser convertido
em instrumento político, o que deve ter o papel de orientar os grupos e as classes
sociais para a transformação da sociedade. Neste sentido a função da sociologia
não era de solucionar os problemas sociais para restabelecer a ordem social

75
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

(positivismo), mas de contribuir para mudanças radicais na sociedade. “Para os


marxistas, a luta de classes, e não a “harmonia” social, constitui a realidade mais
evidente da sociedade capitalista”. (DIAS, 2000, p. 35).

No final de sua vida, Marx ainda se atualizava e ficava aborrecido com


as deficiências dos socialistas que se consideravam seus seguidores. Levando em
consideração as tolices que eram ditas e praticadas em seu nome, comentou com
Engels: “O que é certo é que eu – Marx – não sou marxista”. (DIAS, 2000, p. 39).

E
IMPORTANT

Friedrich Engels nasceu na Alemanha, em 28 de novembro de 1820, e faleceu em


Londres, no dia 5 de agosto de 1895. Foi um teórico revolucionário que, junto com Karl Marx,
fundou o chamado socialismo científico ou marxismo. Ele foi coautor de diversas obras com
Marx, sendo que a mais conhecida é o Manifesto Comunista, onde apresentam uma nova
concepção de história, afirmando que “a história da humanidade é a história da luta de classes”.
Também ajudou a publicar, após a morte de Marx, os dois últimos volumes de O Capital,
principal obra de seu amigo e colaborador.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Friedrich_Engels>. Acesso em: 24 nov.
2011.

4 MAX WEBER
Max Weber, você sabe quem foi? Nasceu em Erfurt, Turíngia, no dia 21 de abril
de 1864. Casou-se em 1893 e um ano mais tarde tornou-se professor de economia na
Universidade de Freiburg, transferindo-se para Heidelberg em 1896. Dois anos
depois teve que se afastar da docência devido a algumas perturbações nervosas,
voltando à atividade somente em 1903. Neste período somente lecionou aulas
particulares e raramente proferiu conferências. Faleceu em 14 de junho de 1920,
em Munique. (PAULINI; SILVA, 2004).

76
TÓPICO 1 | OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS

FIGURA 9 – MAX WEBER

Max Weber em 1894

Nascimento 21 de abril de 1864, Erfurt, Alemanha


14 de junho de 1920 (56 anos),
Morte
Munique, Alemanha
Nacionalidade Alemã
Cônjuge Marianne Schnitger
Ocupação Jurista, economista e sociólogo
Economia e sociedade, a ética protestante e o espírito
Principais trabalhos
do capitalismo
FONTE: WEBER, Max. Disponível em: <http://www.pt.wikipedia.org/wiki/Max_Weber>.
Acesso em: 26 out. 2011.

Max Weber foi um dos mais importantes pensadores do século XX. Além
de professor participou da comissão que redigiu a Constituição da República de
Weimar, sendo também diretor da revista Arquivo de Ciências Sociais e Política Social
e colaborador do Jornal de Frankfurt. (DIAS, 2000).

Conforme Paulini e Silva (2004), Weber, seguindo a mesma linha de Marx,


duvidava de quaisquer alegações de que a sociologia poderia, assim como as
ciências naturais, formular leis universais e eternas. Discordava de Marx no que se
referia à análise sociológica, pois para Weber esta deveria ser isenta de juízos de
valor ou objetiva e neutra em questões morais.

77
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

Para Max Weber “[...] o objetivo da sociologia é identificar e entender como


e por que nascem as regras na sociedade e como elas funcionam”. (PAULINI;
SILVA, 2004, p. 41). Também discordava de Marx no que se refere ao surgimento
do capitalismo, que não era unicamente devido às transformações econômicas.
As ideias e valores culturais também ajudam na constituição de uma sociedade,
influenciando as nossas ações individuais.

A análise sociológica deve ater-se a duas situações: primeiramente às


experiências dos atores e, segundo, aos sistemas culturais e sociais onde os atores
estão inseridos.

Weber desenvolveu estudo comparado da História da Economia e da


História das Doutrinas Religiosas, sendo considerado o fundador da disciplina
Sociologia da Religião.

Conforme Dias (2000), as contribuições mais importantes de Weber são os


estudos da burocracia; o sistema de estratificação social; a questão da autoridade;
uma metodologia para os estudos da sociedade, com instrumento de análise dos
acontecimentos ou situações concretas com conceitos precisos e claros, chamado
de tipo ideal. Entre as teses mais famosas estão aquelas que fazem relação do
capitalismo com o protestantismo.

Em geral a obra de Max Weber destaca-se pela análise teórica e empírica


dos fatos econômicos, históricos e culturais, assim como o seu compromisso em
fazer ciência, sem cair em pressupostos valorativos ou em concepções do mundo.
Muitas vezes essa forma eclética de pensamento gerou alguns conflitos com alguns
intelectuais. (PAULINI; SILVA, 2004).

E
IMPORTANT

As principais obras de Max Weber são: A Ética Protestante e o Espírito do


Capitalismo (1905) e Economia e Sociedade (1922), publicada após sua morte.

Sobre os trabalhos de Weber pode-se resumir:

Estudar os escritos de Max Weber é tentar compreender muito do que


está acontecendo no hodierno. Sem dúvida, ele continua a influenciar
a Sociologia em razão de seu interesse em isolar e entender as forças
motrizes das sociedades modernas. Preocupou-se com o surgimento
e funcionamento do capitalismo, a dominação da vida social pelas
burocracias, o poder crescente do Estado, o significado das leis nas
relações sociais, os processos de urbanização de população nas cidades,
as consequências dos sistemas de crenças e valores, ou seja, da cultura.
(PAULINI; SILVA, 2004, p. 42).

78
TÓPICO 1 | OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS

Em resumo a sociologia de Weber nascia, portanto, construindo como


objetos os problemas sociais e culturais mediados de alguma maneira pela
economia. Ressaltamos então duas observações relevantes. Em primeiro lugar,
tratava-se de uma Ciência Social, pois a dimensão econômica servia para
estabelecer o significado social dos fenômenos ou, em termos weberianos, o
sentido orientador das ações sociais em jogo. Em segundo lugar, mas não menos
importante, os problemas sociais não eram entendidos como questões provocadas
pela realidade imediata, mas constituíam uma ordem de fenômenos culturais,
como aqueles compreendidos pela relação entre ética protestante e capitalismo ou
pela emergência histórica da moderna burocracia. (SANTOS, 2005).

NOTA

Embora o Brasil tenha tido vários cientistas sociais que se destacaram na elaboração
teórica, destaco Florestan Fernandes (1920-1995), por ser o fundador e principal representante
da Sociologia crítica do Brasil. Nasceu em São Paulo e seu trabalho de professor é reconhecido
internacionalmente. Entre seus alunos mais conhecidos estão: Fernando Henrique Cardoso,
Octavio Ianni, Paul Singer e Eunice Durham.

79
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

LEITURA COMPLEMENTAR

EXÉQUIAS

Luis Fernando Veríssimo

Quis o destino, que é um gozador, que aqueles dois se encontrassem na


morte, pois na vida jamais se encontrariam. De um lado Cardoso, na juventude
conhecido como Dosão, depois Doso, finalmente – quando a vaidade e a bebida e as
mulheres erradas o tinham reduzido à metade – Dozinho. Do outro lado Rodopião
Farias Mello Nogueira Neto, nenhum apelido, comendador, empresário, um dos
pró-homens da República, grande chato. Grande e gordo. O seu caixão teve que
ser feito sob medida. Houve quem dissesse que seriam necessários dois caixões,
um para o Rodopião, outro para o seu ego. Já Dozinho parecia uma criança no seu
caixãozinho. Um anjo encardido e enrugado. De Dozinho no seu caixão, disseram:

– Coitadinho.
De Rodopião:
– Como ele está corado!

Ficaram em capelas vizinhas antes do enterro. Os dois velórios começaram


quase ao mesmo tempo. O de Rodopião (Rotary, ex-ministro, benemérito do Jockey),
concorridíssimo. O de Dozinho, em termo de público, um fracasso. Dozinho só
tinha dois ao lado do seu caixão quando começaram os velórios. Por coincidência,
dois garçons.

Tanto Dozinho quanto Rodopião tinham morrido por vaidade. Dozinho,


apesar de magro (“esquálido” como o descrevia, carinhosamente, Dona Judite,
professora, sua única mulher legítima), se convencera que estava ficando barrigudo
e dera para usar espartilho. Para não fazer má figura no Dança Brasil, onde passava
as noites. As mulheres do Dança Brasil, só por brincadeira, diziam sempre: “Você
está engordando, Dozinho. Olha essa barriga”. E Dozinho apertava mais o espartilho.
Um dia caiu na calçada com falta de ar. Não recuperou mais os sentidos. Claro que
não morreu só disso. Bebia demais. Se metia em brigas. Arriscava a vida por um
amigo. Deixava a vida por um amigo. Deixava de comer para ajudar os outros. Se
não fosse o espartilho, seria uma navalha ou uma cirrose.

Rodopião tinha ido aos Estados Unidos fazer um implante de cabelo e


na volta houve complicações, uma infecção e – suspeita-se – uma certa demora
deliberada de sua mulher em procurar ajuda médica.

E ali estava, Dozinho e Rodopião, sendo velados lado a lado. Dozinho, o


bom amigo, por dois amigos. Rodopião, o chato, por uma multidão. O destino etc.

Perto da meia-noite chegaram Dona Judite, que recém-soubera da morte


do ex-marido e se mandara de Del Castilho e Magarra, o maior amigo de Dozinho.
Magarra chorava mais que Dona Judite. “Que perda, que perda”, repetia, e Dona

80
TÓPICO 1 | OS PENSAMENTOS CLÁSSICOS

Judite sacudia a cabeça, sem muita convicção. A capela onde estava sendo velado
Rodopião lotara e as pessoas começavam a invadir o velório de Dozinho, olhando
com interesse para o morto desconhecido, mas sem tomar intimidades. Magarra quis
saber quem era o figurão da capela ao lado. Estava ressentido com aquela afluência.
Dozinho é que merecia uma despedida assim. Um homem grisalho explicou para
Magarra quem era Rodopião. Deu todos os seus títulos. Magarra ficou ainda mais
revoltado. Não era homem de aceitar o destino e as suas ironias sem uma briga.
Apontou com o queixo para Dozinho e disse:

– Sabe quem é ele ali?


– Quem?
– Cardoso. O ex-senador.
– Ah... – disse o homem grisalho, um pouco incerto.
– Sabe a Lei Cardoso? Autoria dele.

Em pouco tempo a notícia se espalhou. Estavam sendo velados ali não um,
mas dois notáveis da nação. A frequência na capela de Dozinho aumentou. Magarra
circulava entre os grupos enriquecendo a biografia de Cardoso.

– Lembra a linha média do Fluminense? Década de 40. Tatu, Matinhos e


Cardoso. O Cardoso é ele.

Também revelou que Cardoso fora um dos inventores do raio laser, só que
um americano roubara a sua parte. E tivera um caso com a Maria Callas na Europa.
Algumas pessoas até se lembravam.

– Ah, então é aquele Cardoso?


– Aquele.

A capela de Dozinho também ficou lotada. As pessoas passavam pelo


caixão de Rodopião, comentavam: “Está com um ótimo aspecto”, e passavam para
a capela de Dozinho. Cumprimentavam Dona Judite, que nunca podia imaginar
que Dozinho tivesse tanto prestígio (até um representante do governador!), os dois
garçons e Magarra.

– Grande perda.
– Nem me fale – respondia Magarra.

Veio a televisão. Magarra foi entrevistado. Comentou a ingratidão da vida.


Um homem como aquele – autor da Lei Cardoso, cientista, com sua fotografia no
salão nobre do Fluminense, homem do mundo, um dos luminares do seu tempo
– só era lembrado na hora da morte. As pessoas esquecem depressa. O mundo é
cruel. A câmara fechou nos olhos lacrimejantes de Magarra. A esta altura tinha
mais público para o Dozinho do que para o Rodopião. Pouco antes de fecharem os
caixões chegou uma coroa, para Dozinho. Do Fluminense.

81
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

O acompanhamento dos dois caixões foi parelho, mas a televisão acompanhou


o de Dozinho. O enterro de Rodopião foi mais rápido porque o acadêmico que ia
fazer o discurso esqueceu o discurso em casa. Todos se dirigiram rapidamente para
o enterro do Cardoso, para não perder o discurso de Magarra.

– Cardoso! – bradou Magarra, do alto de uma lápide. – Mais do que exéquias,


aqui se faz um desagravo. A posteridade trará a justiça que a vida te negou! Teus
amigos e concidadãos aqui reunidos não dizem adeus, dizem bem-vindo à glória
eterna!

Naquela noite, no Dança Brasil, antes de subir ao palco e anunciar o show


de Rúbio Roberto, a voz romântica do Caribe, Magarra disse para a Mariúza, a
favorita do Dozinho, que estranhara a sua ausência no cemitério àquela manhã.
Mariúza se defendeu:

– Como é que eu ia saber que ele era tão importante?

E chorou, sinceramente.

FONTE: PAULINI, Iramar Ricardo; SILVA, Everaldo da. Cadernos de Sociologia: Módulo 2. 2. ed.
Indaial: ASSELVI, 2004. p. 55-58.

82
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico você estudou que:

• Émile Durkheim, Karl Marx e Max Weber contribuíram muito para a sociologia.

• Foi a partir de Durkheim que a sociologia passou a ser vista como ciência.

• Para Durkheim o modo como o homem age é sempre condicionado pela


sociedade. Para explicar este assunto cria a discussão sobre os fatos sociais que
possuem três características principais: coerção social, exteriores e generalidade.

• Com Marx a sociologia assume uma visão mais crítica, buscando substituir o
sistema capitalista. Busca unir a teoria com a prática, abordando assuntos bem
variados como filosofia, política, história, religião e economia.

• Marx e Engels desenvolveram a teoria de que os fatos econômicos são a base


para outras realidades como a política, a cultura, a religião e a arte.

• Para Weber a sociologia era construída como objetos dos problemas sociais e
culturais mediados de alguma maneira pela economia.

• Weber discordava de Marx, pois para ele o surgimento do capitalismo não era
somente ocasionado pelas transformações econômicas, mas ideias e valores
culturais também ajudavam a constituir a sociedade, influenciada por ações
individuais.

83
AUTOATIVIDADE

1 Baseando-se na leitura deste tópico e realizando uma pesquisa, procure


descrever as principais ideias e aspectos da teoria sociológica de Émile
Durkheim.

2 Neste tópico comentamos brevemente sobre a “mais-valia”. Você consegue


definir com suas palavras o que seja?

3 Explique a visão weberiana e a relação indivíduo-sociedade.

4 Em uma pesquisa bibliográfica a fim de aprofundar o assunto, cite as


principais obras do socialista brasileiro Florestan Fernandes, mencionado
anteriormente.

84
UNIDADE 2 TÓPICO 2
OS MOVIMENTOS SOCIAIS

1 INTRODUÇÃO
Os movimentos sociais são, em geral, a reunião de pessoas em forma de
movimento lutando pela conquista de algum ideal em comum. Em uma concepção
política, são compostos pelo povo, que normalmente é excluído de algum direito,
como, por exemplo, os sem-teto e o MST (Movimento dos Sem-Terra). Iremos ao
longo deste tópico estudar outros conceitos, discussões e exemplos a respeito deste
tema.

2 OS MOVIMENTOS SOCIAIS
Primeiramente, vamos conhecer e definir os agrupamentos sociais, para
posteriormente relacioná-los com os movimentos sociais. Grupo, multidão,
público, massa. Quais são as características de cada tipo de agrupamento social?

Conforme o Novo Dicionário Aurélio (apud OLIVEIRA, 2004, p. 6), grupo


social significa: “Forma básica da associação humana; agregado social que tem
uma entidade (individualidade) e vida própria, e se considera como um todo, com
suas tradições morais e materiais”.

Uma das principais características de um grupo é a interação. Um exemplo


contrário disso são as pessoas em uma fila de ônibus ou de cinema, estão juntas,
mas não interagem, não se comunicam, portanto não formam um grupo.

Para a sociologia “[...] grupo social é toda reunião mais ou menos estável
de duas ou mais pessoas associadas pela interação. Devido à interação social, os
grupos têm de manter alguma forma de organização, no sentido de realizar ações
conjuntas de interesse comum a todos os seus membros”. (OLIVEIRA, 2004, p. 65).

Grupos sociais possuem normas, hábitos e costumes próprios, divisão de


funções e posições sociais definidas. Como exemplos podemos citar a família, a
escola, a igreja e o clube. Os principais grupos sociais de que as pessoas participam
ao longo da vida são: grupo familiar, grupo vicinal, grupo educativo, grupo
religioso, grupo de lazer, grupo profissional e grupo político.

Oliveira (2004) destaca que as principais características dos grupos sociais


são:

• pluralidade de indivíduos: há sempre mais de uma pessoa no grupo;

85
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

• interação social: é preciso que os indivíduos interajam uns com os outros no interior
do grupo;

• organização: para que o funcionamento aconteça bem é preciso ordem interna;

• objetividade e exterioridade: os grupos sociais são superiores e exteriores ao


indivíduo, ou seja, quando uma pessoa entra no grupo, ele já existe; quando sai,
ele continua a existir;

• conteúdo intencional ou objetivo comum: os membros de um grupo se unem


em torno de princípios ou valores em comum;

• consciência grupal ou sentimento de “nós”: são as maneiras de pensar, sentir e


agir próprias do grupo. Compartilham-se ideias, modos de agir e pensamentos;

• continuidade: é preciso que as interações que formam os grupos sejam estáveis,


ou seja, tenham certa duração. São exemplos de duração efêmera os mutirões
para construir casas populares.

FIGURA 10 – O GRUPO SOCIAL FAMILIAR

FONTE: Disponível em: <http://2.bp.blogspot.com/_XmwqyZV-xT8/SbaJw1RqU5I/


AAAAAAAAC0M/YiPH7PsBlKQ/s1600-h/simpsons1_mundoanimado.bmp>.
Acesso em: 2 nov. 2011.

86
TÓPICO 2 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS

A família é um dos grupos sociais mais primários e importantes no processo


de socialização dos indivíduos. Na foto está a família Simpsons, dos desenhos
animados, que faz uma sátira à típica família de classe média americana.

Conforme Oliveira (2004), quanto ao tipo, os grupos sociais podem ser


classificados em:

• Grupos primários: predomina o contato primário, ou seja, contatos pessoais


diretos. A família, os vizinhos e o grupo de lazer são exemplos.

• Grupos secundários: são grupos sociais mais complexos, pois os contatos


sociais acontecem de maneira pessoal e direta, mas sem intimidade ou então
de maneira indireta, por meio de cartas, internet. São exemplos as igrejas e os
partidos políticos.

• Grupos intermediários: aqui se alternam e se complementam as duas formas


anteriores, primárias e secundárias, como, por exemplo, a escola.

Outra denominação que podemos relacionar a esta discussão são os


agregados sociais. Você sabe o que são e como se diferenciam dos grupos
sociais? Pois bem, os agregados sociais, diferentemente dos grupos sociais, não
são organizados, não têm estrutura estável e hierarquia de posições e funções.
As pessoas participantes são quase que desconhecidas entre si, sendo o contato
entre elas limitado e de pequena duração. Mas apesar disso tudo, os indivíduos
participantes desses agregados sociais conseguem manter um mínimo de
comunicação e relação social entre si.

Os principais tipos de agregados sociais, conforme Oliveira (2004), são:

• Multidão: tem características marcantes como a falta de organização, apesar


de contar com um líder. Os componentes da multidão são anônimos, não
importando o nome, profissão ou posição social dos indivíduos participantes.
Os interesses, as emoções e os atos são coletivos. Não há espaço para que se
exponham as diferenças individuais, somente as coletivas. Os componentes das
multidões também ficam próximos uns dos outros, mantendo contato direto e
temporário. São exemplos os blocos de carnaval de rua ou pessoas observando
um incêndio.

• Público: é um agrupamento de pessoas com os mesmos estímulos. Não há


contato físico, mas sim comunicação, que é recebida pelos meios de comunicação.
A integração dos indivíduos, que forma um público, geralmente é intencional,
enquanto na multidão é ocasional. Os modos de pensar, agir e sentir do público
são conhecidos como opinião pública. Pessoas assistindo a uma competição
esportiva, uma peça teatral ou um show musical são exemplos de públicos.

• Massa: são indivíduos que recebem opiniões formadas, veiculadas pelos


meios de comunicação de massa, agrupamento grande de pessoas separadas e
desconhecidas umas das outras. O processo de formação é espontâneo, pois não

87
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

obedece a normas. A massa se assemelha ao público porque os componentes


estão unidos por um estímulo, mas se diferencia porque no público não há
uma atitude passiva diante da mensagem que recebe, opinando por meio de
palmas, críticas e discussões. Podemos afirmar que o grupo de pessoas que se
comporta como massa tende a ser manipulado, pois geralmente reage de forma
espontânea, impensada e sem ter consciência de grupo. Pessoas que assistem ao
programa de televisão ou à mesma propaganda constituem a massa.

Agora que já vimos a diferença entre grupos sociais e agregados sociais, é


importante que você entenda que toda sociedade precisa de forças que mantenham
os grupos sociais. Oliveira (2004) destaca os principais mecanismos de sustentação
dos grupos sociais.

• Liderança: é a capacidade de alguém chefiar, comandar ou orientar um grupo de


indivíduos em qualquer ação. Líder é aquele que dirige o grupo, transmitindo
ideias e conhecimento. Esta, com certeza, é tarefa para poucos, pois é muito
complexa.

TUROS
ESTUDOS FU

No texto complementar deste tópico você verá mais explicações sobre o carisma
e o sentido da liderança.

• Normas e sanções sociais: as normas presentes em toda sociedade buscam dar


coesão, orientar e controlar o comportamento das pessoas, ou seja, dizer o que
é permitido ou proibido. Relacionadas às normas sociais, as sanções sociais são
recompensas ou punições que a sociedade estabelece sobre o indivíduo diante
de seu comportamento social, por isso dizemos que as sanções sociais podem
ser aprovativas ou reprovativas.

• Símbolos: os símbolos tão presentes em nosso dia a dia nos auxiliam na


representação de determinadas coisas. Os símbolos são atribuídos pelas pessoas
para dar significado. Mas eles são convenções, pois cada sociedade ou grupo
social pode utilizar símbolos diferentes para manifestar o mesmo significado.
A linguagem é um conjunto de símbolos, sendo a expressão simbólica mais
importante, pois sem ela não haveria nenhuma organização social humana. Sem
os símbolos também não teríamos a cultura.

• Valores sociais: é a sociedade que estabelece o que é certo ou errado, o que


é bonito ou feio. Na vida social, as ideias, as opiniões, os fatos, os objetos
não são avaliados isoladamente, mas sim em um contexto social, que atribui
um significado, valor ou qualidade. Quanto maior o contexto social, maior a
variedade de opiniões, princípios e valores sociais, que muitas vezes podem ser

88
TÓPICO 2 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS

conflitantes. Os valores sociais podem variar conforme o espaço e o tempo, por


isso o que é aceito em um país, cidade ou região pode ser proibido em outro.
Ou o que era bem visto em uma determinada época da história, atualmente não
possui aprovação da sociedade. Obviamente que os conflitos sempre existiram,
mas como atualmente as informações mudam com muita rapidez, há a tendência
de eles aumentarem, principalmente das gerações mais jovens em relação às
mais velhas.

Diante de toda essa discussão, o que são os movimentos sociais, afinal?


Conforme Ribeiro (2011), o conceito de movimento social está relacionado à ação
coletiva de um grupo organizado que objetiva alcançar mudanças sociais por meio
do embate político, seguindo seus valores e ideologias dentro de uma determinada
sociedade e de um contexto específico, permeados por tensões sociais. Tem como
objetivos a mudança, a transição ou mesmo a revolução de uma realidade hostil a
certo grupo ou classe social. Este movimento torna-se porta-voz de um grupo de
pessoas que se encontra numa mesma situação, seja social, econômica, política,
religiosa, entre outras.

As relações sociais podem ocorrer tanto entre indivíduos quanto entre os


grupos sociais, por isso buscaremos então explicar o seu conceito. Para Dias (2000,
p. 46), “[...] a definição mais aceita de grupo social é a de que é qualquer número de
pessoas que partilham de uma consciência de interação e de filiação”. Em outras
palavras, “[...] grupo social é qualquer conjunto de pessoas em interação, que
compartilham uma consciência de membros”. (p. 46).

Um exemplo que traduz este conceito é o aumento da poluição do ar em


uma cidade que pode ocasionar a mobilização de um grupo de consumidores contra
este fato. Estes movimentos sociais, na verdade, são resultado da heterogeneidade
de grupos, dos mais simples aos mais complexos.

FIGURA 11 – EXEMPLO DE MOVIMENTOS SOCIAIS

FONTE: Disponível em: <http://blogbahianarede.files.wordpress.com/2011/04/


movimentos-sociais-no-brasil.jpg>. Acesso em: 30 out. 2011.

89
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

Os movimentos sociais podem ter abrangência local, regional, nacional


ou internacional. Além dos movimentos organizados como greves trabalhistas,
movimentos por melhores condições de vida na cidade e no campo, também
podem ser chamados de conjunturais. Estes são aqueles que duram alguns dias e
desaparecem, para surgir posteriormente em outro momento, com novas formas
de expressão.

Os movimentos sociais não são predeterminados, dependem das condições


específicas em que se desenvolvem sendo elas as forças sociais e políticas que
os apoiam ou confrontam, dos recursos existentes para manter a ação e dos
instrumentos utilizados para obter repercussão.

Na maior parte dos casos de movimentos sociais estes estão relacionados


ao Estado, seja de oposição ou de parceria, dependendo de seus interesses e
necessidades. Tomazi (2010) lista algumas formas de atuação desses grupos:

• contra ações do poder público que sejam consideradas prejudiciais aos interesses
da população, como, por exemplo, determinada política econômica ou uma
legislação que possa prejudicar os trabalhadores;

• para pressionar o poder público a resolver problemas relacionados à segurança,


educação, saúde etc. São exemplos ações que exigem do Estado medidas contra
a exploração sexual e o trabalho infantil;

• em parceria com o poder público lutando contra ações de outros grupos ou


poder privado, como no caso dos movimentos de proteção ambiental;

• para resolver problemas da comunidade, muitas das ações que caberiam ao


Estado, como, por exemplo, o trabalho das Organizações Não Governamentais
(ONGs) e associações de moradores de bairros.

E
IMPORTANT

Quando falamos dos movimentos sociais discutimos também a luta pelo poder,
pois nos grupos sociais pode haver pessoas que querem ter um papel de destaque. Alguns
líderes às vezes se aproveitam da situação, esquecendo-se da causa coletiva e acabam lutando
por causas pessoais. Neste contexto temos como conceito geral de poder a capacidade
ou a possibilidade de agir, de produzir efeitos. Tanto pode se referir a indivíduos e a grupos
humanos como a objetos ou a fenômenos naturais. Na questão social muitas vezes o poder
pode relacionar-se com a capacidade do homem em determinar o comportamento do outro.

90
TÓPICO 2 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS

Os movimentos sociais podem surgir em qualquer lugar, sempre que


um grupo de indivíduos sentir que seus direitos não estão sendo respeitados.
Por isso vamos refletir, conforme propõe Tomazi (2010), sobre dois movimentos
contemporâneos importantes: o movimento ambiental e o movimento feminista.

O movimento ambiental é fruto da sociedade industrial, com sua ação


destruidora na água, no solo e no ar. Este tipo de movimento surgiu no século
XIX, quando os primeiros impactos ambientais começaram a ser percebidos. Uma
característica interessante deste movimento é que pode ser tanto a ação de um
pequeno grupo em salvar uma árvore na área urbana, como a ação de grupos ou
instituições internacionais pela preservação de uma grande mata. Trata-se de um
movimento que pode ir do local para o global, com o conjunto de movimentos que
desenvolveu uma cultura ambientalista, criando um novo direito: o de viver em
um ambiente saudável.

Entre os questionamentos e motivações dos movimentos ambientalistas


podemos citar:

• a proteção da diversidade da vida na Terra contra a extinção de muitas formas


de vida animal e vegetal;

• a preservação da qualidade de vida dos habitantes do planeta;

• o controle da aplicação industrial de resultados do progresso científico e técnico


que possam trazer problemas à humanidade;

• o controle do uso de recursos naturais, principalmente aqueles não renováveis


como a água e o petróleo.

FIGURA 12 – MOVIMENTOS AMBIENTALISTAS

FONTE: O MUNDO ideal. Disponível em: <http://novomundoideal.blogspot.


com/2009/11/blog-post_19.html>. Acesso em: 3 nov. 2011.

91
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

As logomarcas são símbolos dos maiores movimentos ambientalistas


espalhados por várias regiões do mundo, WWF (World Wildlife Fund), no
português “Fundo Mundial da Natureza”, e o Greenpeace.

Quanto ao movimento feminista, a posição da mulher na sociedade


vem sendo discutida desde o século XVIII. Uma das primeiras iniciativas foi o
encaminhamento à Assembleia Nacional da França, em 1791, da Declaração dos
Direitos da Mulher e da Cidadã. Em meio a várias manifestações contra o poder
masculino, no século XIX a luta das mulheres organizou-se em movimentos e
campanhas pelo direito de votar. Mas este direito só foi adquirido na prática no
século XX, primeiramente nos Estados Unidos (1920) e depois na Inglaterra (1928).

Tendo um enfraquecimento, o movimento feminista retomou suas forças


somente na década de 1960. Nas décadas seguintes muitas foram as lutas das
mulheres, e tiveram como principais reivindicações:

• a crítica à sociedade patriarcal, o homem como centro da família;

• a igualdade de condições e de salários no trabalho;

• o direito à liberdade de uso do corpo, referente à reprodução, contracepção e


aborto;

• o questionamento da heterossexualidade como norma, podendo reconhecer


outras manifestações da sexualidade;

• a especificidade da visão feminina em todas as áreas do conhecimento;

• a discussão sobre a identidade corporal e a sexualidade feminina.

FIGURA 13 – MOVIMENTO FEMINISTA

FONTE: GEOMUNDO. Disponível em: <http://www.geomundo.


com.br/geografia-30197.htm>. Acesso em: 4 nov. 2011.

92
TÓPICO 2 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS

A foto ilustra de forma bem-humorada a luta das mulheres por direitos


políticos e civis iguais aos dos homens.

3 A LUTA PELA CIDADANIA


Primeiramente iremos refletir sobre o conceito e luta pela cidadania. “Ser
cidadão é ter a garantia de todos os direitos civis, políticos e sociais que asseguram
a possibilidade de uma vida plena”. (TOMAZI, 2004, p. 139).

A cidadania não é dada, mas sim construída por meio de um processo de


organização, participação e intervenção social de indivíduos ou de grupos sociais.

Baseada nessa luta pela democracia e atendimento dos direitos de todos,


surge a luta pela cidadania. Um exemplo disso é a luta de classes que, no Brasil,
muitas vezes é a ideologia dominante tentando forjar a imagem de que o povo
brasileiro é um povo “pacífico” e “ordeiro”. Mas será que realmente é isso? Apesar
dessa imagem, ao longo de vários períodos da história podemos observar que o
protesto popular sempre se fez presente de alguma forma. Em alguns momentos
até a reação popular se manifestou com radicalidade ou violência, como na Guerra
do Contestado (1912-1916) ou na revolta popular contra o aumento nas tarifas dos
transportes coletivos no Rio de Janeiro, em 30 de janeiro de 1987. (VITA, 1994).

Com isso podemos perceber que este traço de passividade da sociedade


brasileira está ligado às classes dominantes, pois é isto que elas querem que o povo
brasileiro acredite. A violência exercida pelo Estado em favor dos interesses das
classes dominantes pode diminuir as manifestações populares.

Para Vita (1994) apesar da repressão do regime militar nos anos 70, buscando
confirmar o mito da passividade das classes dominantes brasileiras, a população
urbana começou a ressurgir em duas frentes principais: nos movimentos grevistas
e de uma renovação no movimento social; e nos movimentos sociais que surgiram
para garantir melhores condições de vida nas cidades.

NOTA

Como os movimentos sociais no Brasil estão relacionados às causas urbanas,


temos como conceito de cidade uma aglomeração de pessoas (habitantes, visitantes) e de
objetos (edifícios, casas, ruas). Em função dessas pessoas e desses objetos, os espaços e a vida
urbana se organizam. Se você quiser se aprofundar no tema, a dica de leitura é: CAVALCANTI,
Lana de Souza. A geografia escolar e a cidade: ensaios sobre o ensino da geografia para a vida
urbana cotidiana. Campinas: Papirus, 2008.

93
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

Com relação ao movimento sindical no Brasil contemporâneo, o que você


entende por sindicalismo autêntico? Em resumo, sua manifestação ocorreu em 1973,
e veio fazer uma dura crítica à política social e trabalhista do regime autoritário.
Foi uma forma inovadora de reivindicar mudanças radicais. Era a voz do sindicato
dos metalúrgicos de São Bernardo do Campo, SP, que na época era responsável
por boa parte da moderna classe operária brasileira. O também chamado novo
sindicalismo se opôs à política de fixação pelo governo de reajustes anuais de
salário, defendendo a negociação coletiva entre sindicatos e empregadores. Para
isso exigia volta de greve e liberdade e autonomia sindicais. Você sabe quem foi
um desses porta-vozes dos metalúrgicos? Isso mesmo, foi o ex-presidente da
República, Luis Inácio Lula da Silva.

Além das ações grevistas e do movimento sindical, outra forma de luta


social que caracterizou a metade da década de 1970 foram os movimentos sociais
urbanos. Já vimos anteriormente o conceito de movimento social, mas agora iremos
discutir este assunto relacionado à realidade brasileira. Vejamos a definição.

São movimentos de moradores pobres de bairros periféricos, que lutam


contra a forma de ocupação do solo urbano e reivindicam o acesso aos
serviços públicos, como o fornecimento de água, o saneamento, a saúde,
os transportes coletivos. Entre as manifestações mais recentes dessa
forma de protesto urbano - e que mais publicidade conseguiram - estão
as invasões de terra e os movimentos exigindo soluções para a questão
da moradia popular. (VITA, 1994, p. 259).

E
IMPORTANT

Os movimentos populares que reivindicam melhores condições de vida urbana já


existiam antes de 1965, porém as questões urbanas eram consideradas secundárias. As ações
coletivas dos trabalhadores aconteciam nas fábricas, nos sindicatos e nos partidos políticos.

As maiores exigências começaram a vir de moradores da periferia, que não


mais lutavam somente por questões relacionadas ao trabalho ou à produção, mas
também lutavam por condições dignas de vida, baseando-se em problemas da
vida cotidiana como moradia.

Diferentemente da forma autoritária da política brasileira, os movimentos


sociais valorizavam a autonomia, privilegiando as bases, a ação direta e a igualdade
entre seus membros. Evidenciamos, sobretudo, laços comunitários entre os
participantes, que nos remetem à igualdade. Lembramos que você já viu um breve
conceito de comunidade no Tópico 5 da primeira unidade.

Uma característica importante, segundo Vita (1994), é a de que esses


movimentos populares contaram com dois tipos principais de suporte: os grupos de

94
TÓPICO 2 | OS MOVIMENTOS SOCIAIS

profissionais técnicos, o apoio da Igreja por meio de agentes pastorais e militantes


de alguns partidos políticos, destacando-se o PT (Partido dos Trabalhadores).

Apesar dessa ideologia pregada pelos movimentos sociais, bem diferentes


das formas autoritárias até então exercidas, não podemos ignorar as limitações
desses grupos. Começamos as limitações com o caráter comunitário, pois muitas
vezes a autonomia para os grupos pode levar ao isolamento.

Outra limitação é aquela relacionada à vivência de realidades semelhantes,


porém quando estão frente ao Estado competem entre si.

Mais uma crítica relaciona-se à extinção dos movimentos populares no


atendimento de suas reivindicações. Percebemos que esta descontinuidade é
apenas aparente, pois, em muitos casos, os líderes de novos movimentos são os
mesmos de movimentos anteriores. Por exemplo, vários líderes e militantes do
extinto Movimento de Moradores em Loteamentos Clandestinos na região leste
de São Paulo são os mesmos do atual Movimento de Moradores de São Miguel
Paulista.

Outra questão que levantamos é a difícil convivência dos movimentos


sociais com outras formas de organização importantes para os trabalhadores,
como os sindicatos e os partidos políticos.

Obviamente que os problemas que aqui apontamos sobre os movimentos


sociais não diminuem sua importância e seu significado, somente vêm servir a
você, caro(a) acadêmico(a), de alerta e reflexão sobre o tema.

LEITURA COMPLEMENTAR

O SENTIDO DA LIDERANÇA

Arthur M. Schlesinger Jr.

Costuma-se dizer que a liderança faz o mundo andar. O amor, sem dúvida,
facilita o caminho. Mas o amor é um compromisso privado entre duas pessoas
conscientes, enquanto a liderança é um compromisso público com a História.

O conceito de liderança ressalta a capacidade de alguns indivíduos


comoverem, inspirarem e mobilizarem as populações de seus países, de forma a
caminharem juntos na busca do mesmo objetivo. Algumas vezes, a liderança está a
serviço de fins dignos; outras não. Entretanto, independentemente de seus objetivos,
os grandes líderes deixam sua marca pessoal nos anais da História.

Mas a liderança pode melhorar ou piorar a condição dos povos. Alguns


líderes têm sido responsáveis pelas loucuras mais extravagantes e pelos crimes
mais monstruosos. Em contrapartida, outros têm sido vitais para a conquista de

95
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

alguns dos avanços da humanidade, como a liberdade individual, a tolerância racial


e religiosa, a justiça social e o respeito pelos direitos humanos.

Não há um modo seguro de reconhecer antecipadamente se um líder trará ou


não benefícios para seu povo. Um dos critérios de avaliação pode ser este: os líderes
comandam pela força ou pela persuasão? Pela dominação ou pelo consentimento?

No curso da História, durantes séculos, a liderança foi exercida pela


legitimação do direito divino. O dever dos seguidores era submeter-se e obedecer.
“Não perguntar por que, apenas fazer e morrer.”

A grande revolução dos tempos modernos foi a introdução do direito


da igualdade. A ideia de que todos os indivíduos podem ser iguais perante a
lei derrubou as velhas estruturas baseadas na hierarquia, ordem, autoridade e
submissão.

Um governo fundamentado na reflexão e na escolha passou a exigir um


novo estilo de liderança e uma nova qualidade de seguidores. Tornou necessária a
formação de líderes que respondessem aos anseios populares e, como seguidores
ativos desses desejos, suficientemente preparados para participar desse processo.

Um segundo critério para avaliar a liderança pode ser o objetivo do líder ao


procurar alcançar o poder. Quando alguns líderes pretendem impor a supremacia de
uma raça (como aconteceu entre 1933 e 1945 na Alemanha nazista, sob a liderança de
Adolf Hitler), a promoção de uma revolução totalitária, a aquisição e exploração de
colônias, a manutenção de privilégios, ou a preservação do poder pessoal, é muito
provável que suas lideranças resultem em retrocesso para a humanidade.

Quando o objetivo do líder é a abolição da escravatura, a libertação da


mulher, a justiça social, a proteção dos direitos das minorias, a defesa da liberdade
de expressão e de oposição, é provável que sua liderança dê uma importante
contribuição para o aumento da liberdade e o bem-estar humano.

Entretanto, mesmo líderes mais respeitados devem ser vistos com certa
cautela. Líderes não são semideuses: eles comem e se vestem como qualquer outro
ser humano. Nenhum líder é infalível, e cada líder dever ser lembrado disso o
tempo todo.

A crítica irreverente irrita os líderes, mas é o que os salva. A submissão


total corrompe o líder e degrada seus seguidores. O culto a um líder é sempre um
grande equívoco.

FONTE: Adaptado de: SCHLESINGER, Arthur M. Júnior. O sentido da liderança. In: VAIL, John J.
Fidel Castro. Boston: Houghton-Mifflin, 1978. p. 7-11.

96
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico você estudou que:

• A principal característica dos agrupamentos sociais é a interação entre os


indivíduos que os compõem.

• Diferentemente dos grupos sociais, os agregados sociais não são organizados,


não têm estrutura estável e nem posições ou funções. São exemplos: multidão,
público e massa.

• Liderança é a capacidade de alguém chefiar, comandar ou orientar um grupo de


indivíduos em qualquer ação.

• Movimento social é a ação de um grupo organizado, com o objetivo de mudanças


sociais.

• Os movimentos sociais podem ter abrangência local, regional, nacional ou


internacional.

• Entre os movimentos sociais que surgiram ao longo da História, podemos


destacar atualmente, em âmbito mundial, o movimento ambiental e o movimento
feminista.

• Cidadania é a garantia dos direitos civis, políticos e sociais a todos.

• No Brasil a população urbana começou a se manifestar e se organizar para


reivindicar seus direitos primeiramente com os movimentos grevistas e os
movimentos sociais, a partir da década de 1970.

• As maiores exigências dos grupos sociais, provindos na sua maioria da periferia


urbana, eram relacionadas a condições dignas de vida, com problemas simples
do dia a dia.

97
AUTOATIVIDADE

1 Relacione alguns dos grupos sociais a que você pertence.

2 Comente sua participação em:

a) multidão;
b) público;
c) massa.

3 Faça uma pesquisa explicando os principais tipos de liderança e exemplifique-


os.

4 Como você vê a questão dos movimentos sociais no Brasil atualmente?


Relacione alguns exemplos mais frequentes.

98
UNIDADE 2
TÓPICO 3

SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico, entre vários outros asuntos, abordaremos a relação entre
a estrutura social e a estratificação: as castas, os estamentos e as classes sociais.
Também veremos as várias formas de desigualdade social e a diversidade das
explicações teóricas.

2 SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL


Você já ouviu falar desse termo? O termo estratificação social não é muito
comum, porém você já deve ter escutado ou lido algo sobre desigualdade social,
não é? Iremos ver o significado desses dois termos, as semelhanças e as diferenças.

Como o termo estratificação vem da palavra estrato, que quer dizer


camada, temos por estratificação social a classificação dos indivíduos ou grupos
em camadas hierárquicas dentro de uma sociedade. Essa classificação pode ocorrer
de diversas formas, como pela posição social dos indivíduos, pelas atividades
que estes exercem ou então pelo papel que desempenham na estrutura social.
(OLIVEIRA, 2004).

Buscaremos também o conceito de estratificação social como aquele


relacionado à separação da sociedade em grupos de indivíduos (estratos sociais)
que apresentam características parecidas, como, por exemplo: negros, brancos,
católicos, protestantes, homem, mulher, pobres, ricos etc.

Floriani (2011) simplifica o assunto: estratificação social é um processo em


que os indivíduos e grupos sociais mais amplos são hierarquizados numa escala
do inferior ao superior. Considera ainda que:

• as estratificações são universais e representam a distribuição desigual de direitos


e obrigações na sociedade;

• a principal necessidade funcional da estratificação é a exigência de situar e


motivar os indivíduos na estrutura social;

• a desigualdade social não é um artifício desenvolvido inconscientemente. Sua


função é estimular as pessoas a exercerem os diversos papéis necessários à
sobrevivência da sociedade. (Ex.: os requisitos para ser presidente são maiores

99
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

do que para ser carteiro, logo, a sociedade determina como justo o salário de um
ser maior que o do outro).

Dentre os fatores que determinam a estratificação podemos destacar:

• importância funcional diferencial: importância do cargo (médico, jurista);

• escassez diferencial de pessoal: treinamento e talento demandados pela


sociedade (empresários, cientistas).

Você sabe como ocorre o processo de estratificação social na sociedade


capitalista contemporânea? A posição social das pessoas é determinada
principalmente pelo desempenho nas atividades produtivas. Logo os empresários,
donos de terras, banqueiros e grandes comerciantes, por exemplo, estão no topo
da sociedade porque dispõem de grande quantidade de capital ou meios de
produção. Os trabalhadores (funcionários), por sua vez, estão na base inferior da
sociedade porque somente dispõem de sua força de trabalho, e não de capital ou
meios de produção. (OLIVEIRA, 2004).

Se a sugestão é separar a sociedade, obviamente que a estratificação


expressa desigualdades. Por isso não podemos falar sobre o assunto sem discutir
o problema das desigualdades sociais.

Primeiramente buscaremos diferenciar, mas também relacionar, estes dois


termos: estratificação social e desigualdade social.

A desigualdade em uma sociedade é caracterizada pela distribuição


diferenciada de recursos de valor às variadas categorias de indivíduos. São
exemplos principais as categorias de classe, de etnia e de gênero.

A estratificação de classes ocorre quando a renda, poder, prestígio e outros


valores são dados aos membros de uma sociedade desigualmente. Quando
há essa desigualdade, variados grupos tornam-se cultural, comportamental e
organizacionalmente distintos.

Para Floriani (2011), existem várias propostas para o estudo da estratificação:

a) proposta marxista: enfatiza que a propriedade dos meios de produção é a


causa da estratificação de classe e mobilização para o conflito, com subsequente
mudança nos padrões de estratificação;

b) proposta weberiana: enfatiza a natureza multidimensional da estratificação


(que gira em torno não apenas da classe, mas de partido e grupos de status
também);

c) proposta funcionalista: argumenta que a desigualdade reflete o sistema de


recompensa para encorajar os indivíduos a ocupar posições funcionalmente
importantes e difíceis de preencher;
100
TÓPICO 3 | SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

d) proposta evolucionista: argumenta que, a longo prazo, partindo das


sociedades de caça e coleta, as desigualdades aumentaram, como refletem as
sociedades modernas.

E
IMPORTANT

Mobilidade social é a capacidade do indivíduo de mudar sua posição social dentro


de uma estratificação, ou seja, mudar ao longo da vida de uma camada social mais baixa para
uma posição social mais elevada.

Apesar de focarmos até aqui para a questão econômica, veremos adiante


que os indivíduos podem desempenhar outros papéis e alcançar novas posições
dentro da sociedade. Apesar destes diferentes papéis estarem interligados, iremos
dividi-los em estratificação: econômica, política e profissional.

2.1 ESTRATIFICAÇÃO ECONÔMICA


A estratificação econômica está relacionada à quantidade de riqueza, ou
seja, posses de bens materiais e renda, que as pessoas possuem.

A estratificação acontece quando a distribuição dessas posses e renda não


acontece de forma equitativa. Neste caso há as pessoas ricas, pobres e em situação
intermediária. (OLIVEIRA, 2004).

Para ilustrar melhor essa divisão de classes conforme as faixas de renda,


Oliveira (2004) elaborou uma pirâmide social dividida em estratos, conforme o
critério nível de renda (como ilustra a figura a seguir).

101
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

FIGURA 14 – PIRÂMIDE SOCIAL

FONTE: Disponível em: <http://histroberta.blogspot.com/2009/04/idade-


media-imperio-bizantino-ii.html>. Acesso em: 6 nov. 2011.

Seguindo o critério nível de renda, na figura anterior a camada mais


ampla representa as pessoas de baixa renda, chamadas de grupo C. Na camada
intermediária, estão as pessoas de renda média, pertencentes ao grupo B. A camada
mais estreita, no topo, são as pessoas que possuem maior renda, ou seja, o grupo A.

A representação acima mostra graficamente a estratificação social,


dividida em estratos ou camadas sociais. Dependendo do tipo de sociedade,
Oliveira (2004) menciona que esses estratos ou camadas podem se organizar em:

- castas sociais: característica da sociedade indiana, em que a posição social é


atribuída a cada indivíduo no seu nascimento, independente de sua vontade.
Carrega por toda sua vida a posição social herdada. Diferentemente das
sociedades ocidentais, na Índia o casamento só é permitido entre pessoas da
mesma casta social. Em resumo, as castas são grupos sociais fechados, cujos
membros seguem rigorosamente as tradições familiares.

- estamentos ou estados: típico da Europa durante o feudalismo (476-1453),


também se trata de uma camada social, porém menos fechada que a casta
porque, embora a mobilidade social seja difícil, não é impossível. Essa ascensão
ocorria quando: a Igreja recrutava seus membros entre os mais pobres; os servos
eram emancipados por seus senhores; o rei conferia um título de nobreza a um
homem do povo; ou a filha de um rico comerciante se casava com um nobre.

- classes sociais: mais comum que as anteriores, pois ocorre nas sociedades
capitalistas. Somente lembrando o que vimos no tópico anterior: para Marx
a história da humanidade é “a história da luta de classes”. Para ele há duas
grandes classes no capitalismo: a burguesia (proprietários do meio de produção)
e o proletariado ou classe operária (a força de trabalho). No entanto as classes

102
TÓPICO 3 | SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

sociais mudam ao longo da história conforme as circunstâncias econômicas,


políticas e sociais. Essa divisão em classes se baseia no regime de propriedade,
sendo uma dominante e a outra dominada. As classes sociais só existem devido
à relação que estabelecem entre si, pois uma depende da outra. Esta relação de
dominação e exploração, porém, faz com que haja conflitos permanentes.

NOTA

Há uma classe que oscila entre a burguesia e o proletariado, chamada de classe


média. Este setor está cada vez mais numeroso e abrange desde o dono de um pequeno
mercado até os pequenos e médios proprietários de terra, passando pelos assalariados,
funcionários públicos e profissionais liberais. Trata-se, portanto, de uma classe muito
heterogênea que cada vez mais chama a atenção de estudiosos.

2.2 ESTRATIFICAÇÃO POLÍTICA


A estratificação política traduz-se na quantidade de poder que as pessoas
ou grupos detêm nas relações de dominação de uma sociedade.

Para Oliveira (2004), a estratificação política é estabelecida pela posição de


autoridade na sociedade, divididos em: grupos que têm o poder e grupos que não
têm o poder.

103
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

FIGURA 15 – O CAPITALISMO MUNDIAL

FONTE: ECONOMIA solidária. Disponível em: <http://ecosolidariapr.blogspot.com/2011/06/o-


trabalho-do-futuro-ou-o-futuro-sem.html>. Acesso em: 8 nov. 2011.

O capitalismo nacional depende do capitalismo mundial, das decisões


tomadas pelos países cêntricos do sistema, seja na parte econômica, política,
cultural ou militar. Como ilustrado na figura anterior, trata-se também de um
sistema excludente: não considera as reais necessidades da população, mas valoriza
os grupos que detêm o capital e o acumulam de forma privada. O portador do
desenvolvimento no capitalismo e o destinatário não são o povo.

104
TÓPICO 3 | SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

2.3 ESTRATIFICAÇÃO PROFISSIONAL


Para Tomazi (2010), a estratificação profissional refere-se ao status ou
prestígio que os indivíduos ou grupos têm tanto no estilo de vida quanto na
profissão.

A estratificação profissional leva em consideração os diferentes graus de


importância que cada profissão possui na sociedade. Um exemplo disso são as
profissões de médico ou advogado, muito mais valorizadas em nossa sociedade
que a de pedreiro. (OLIVEIRA, 2004).

FIGURA 16 – ESTRATIFICAÇÃO PROFISSIONAL

FONTE: SOCIÓLOGOS. Disponível em: <http://augustocomtesociologo.


blogspot.com>. Acesso em: 8 nov. 2011.

A pirâmide anterior busca ilustrar que as profissões menos valorizadas


na sociedade são aquelas da base, constituídas pela massa, ou seja, onde há
um número maior de pessoas trabalhando. Um exemplo disso são os operários
ligados à produção. Nos níveis superiores estão os profissionais mais valorizados
pela sociedade como os médicos, advogados, engenheiros etc. No entanto não
podemos esquecer que esta divisão também leva em consideração a qualificação
profissional, pois os níveis mais elevados da pirâmide exigem maior qualificação
por parte dos profissionais. No Brasil, atualmente há carência desses profissionais
qualificados.

Além desses tipos principais de estratificação, Floriani (2011) destaca


também:

- estratificação étnica: quando alguns grupos étnicos conseguem mais recursos


de valor em uma sociedade do que outros grupos étnicos;

105
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

- estratificação de gênero: quando os homens e as mulheres em uma sociedade


recebem efetivamente parcelas desiguais de dinheiro, poder, prestígio e outros
recursos.

Como já vimos anteriormente, o aspecto econômico, político, social e


cultural de uma sociedade estão interligados, assim como os tipos de estratificação.
Ao longo da história, entretanto, principalmente após a ascensão do capitalismo,
o aspecto econômico tem sido mais determinante que os demais no processo de
estratificação social e na caracterização da sociedade.

LEITURA COMPLEMENTAR

TODOS OS HOMENS SÃO IGUAIS

Dimas Floriani

O grande debate que os padres dominicanos espanhóis travavam entre si,


durante o século XVI, era se os indígenas da América possuíam ou não alma. Rei
Bartolomeo de Las Casas, apelidado de “defensor dos povos indígenas”, apoiava
fervorosamente o princípio de Direito Natural que afirmava “serem todos os homens
iguais perante Deus”. Ora, este princípio era uma declaração de importância
fundamental para proteger os indígenas da matança indiscriminada praticada pelos
espanhóis e portugueses; reconhecia, assim, que os povos indígenas pertenciam à
espécie humana e eram, portanto, portadores de uma alma. Nesse sentido, poderiam
ser catequizados em nome da verdade divina e da fé cristã e eram reconhecidos
como humanos, contrariamente às teses de outros teólogos que não reconheciam
neles uma condição humana, não sendo pecado escravizá-los nem exterminá-los.

O princípio da igualdade dos seres humanos, perante Deus, foi um


importante passo para que dois séculos após se declarasse como inalienável,
inegociável e fundamental o princípio da igualdade entre os homens. As revoluções
norte-americana (1778) e francesa (1789) consagrariam esse princípio nos termos
da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Apenas substituíram o argumento
de fundo, que dava suporte e legitimidade ao princípio, isto é, humanizando a
referência da igualdade, não mais em nome de Deus, mas em nome da Lei (“todos
os homens são iguais perante a lei”). E esta lei deveria ser garantida pelo Contrato
Social que os homens selariam entre si, em sociedade, abdicando parcialmente de
sua liberdade, em nome da proteção e da segurança das instituições públicas, ou
seja, do Estado de Direito.

Devemos distinguir, portanto, dois aspectos ligados à questão da igualdade:


o primeiro, de caráter político-filosófico; o segundo, de natureza socioeconômica.

106
TÓPICO 3 | SISTEMAS DE ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL

Não se pode deixar de mencionar uma dimensão histórica, como pano


de fundo, em relação ao princípio de igualdade. Não se deve esquecer de que a
emergência da sociedade industrial foi impulsionada pelo surgimento de uma nova
classe social, a burguesia, defensora de valores e princípios, tais como:

• a liberdade de pensamento, de credo e de filiação política (a filosofia iluminista


e o racionalismo eram os principais apoios);

• a liberdade de comercializar, de trabalhar, de vender e comprar a força de trabalho


no mercado;

• a liberdade de ir e vir;

• o direito à igualdade social, sem distinção de origem social, e à crítica ao privilégio


social que diferenciava os homens em função de pertencerem a uma elite.

Do ponto de vista socioeconômico, porém, a sociedade de classes dificulta,


concretamente, a realização da igualdade entre os indivíduos de uma mesma
sociedade que se rebelou, justamente, contra a desigualdade social? Porque, do
ponto de vista do acesso aos bens materiais, há uma série de facilidades para alguns
indivíduos (dotados de capital, de poder e de títulos escolares) e de dificuldades para
outros alcançarem o topo do sistema (uma vez que não são detentores de capital,
nem de poder e de títulos escolares).

A contradição entre a declaração teórica da desigualdade e as dificuldades


práticas, de realização para todos, está presente ainda nas atuais sociedades de
classe. A frase de George Orwell, em seu livro “A Revolução dos Bichos”, não é
apenas válida para as sociedades socialistas, mas igualmente para as capitalistas, a
saber: “Todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que outros”.

FONTE: FLORIANI, Dimas. Indivíduo, identidade e socialização. Disponível em: <http://pt.scribd.


com/doc/7189750/Apostila-Sociologia-III>. Acesso em: 6 nov. 2011.

107
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico você estudou que:

• Estratificação social significa dividir os indivíduos em camadas hierárquicas na


sociedade.

• Na sociedade capitalista contemporânea a posição social é determinada pelo


desempenho nas atividades produtivas.

• Em geral, a desigualdade social ocorre quando os recursos são distribuídos de


forma desigual aos membros de uma sociedade.

• As principais formas de estratificação social são: econômica, política e


profissional.

• A estratificação econômica acontece quando a distribuição das posses e renda


não acontece de forma equitativa.

• Na estratificação política é estabelecida a posição de autoridade que os indivíduos


têm na sociedade; relaciona-se ao poder.

• A estratificação profissional divide os indivíduos conforme o grau de importância


de sua profissão.

• Além destes tipos principais de estratificação também podem existir outros


como de etnia e de gênero.

• Apesar da importância do estudo de todos os tipos de estratificação na sociedade


capitalista atual, a questão econômica se sobressai às demais.

108
AUTOATIVIDADE

1 Estabeleça a relação entre estratificação social e mobilidade social.

2 Considerando a ascensão da classe média e o destaque que ela merece no


estudo das classes sociais contemporâneas, comente mais sobre este assunto.

3 Pesquise dados que possibilitem formar uma ideia sobre a estratificação


social no Brasil de hoje.

109
110
UNIDADE 2
TÓPICO 4

LAZER

1 INTRODUÇÃO
Neste tópico estudaremos as questões mais conceituais relativas ao lazer,
relacionando e diferenciando o tema com conceitos de trabalho, ócio e tempo livre.
Como estes temas estão interligados, é muito comum ocorrer uma confusão de
compreensão, daí a importância deste estudo. Vamos lá!

2 TRABALHO
Não podemos deixar de estudar lazer sem falar primeiramente em trabalho,
pois, em geral, falamos que estamos fazendo alguma atividade de lazer quando
não estamos trabalhando. Veremos a evolução dessa discussão e alguns conceitos
sobre o tema.

A palavra trabalho possui vários significados. No sentido popular, a


palavra é quase sempre associada a esforço físico. Não é só o esforço físico, porém,
que é considerado trabalho, também se leva em conta o esforço mental. Como
uma definição básica, podemos dizer que trabalho é qualquer atividade física ou
intelectual, realizada pelo ser humano, cujo objetivo é fazer, transformar ou obter
algo.

Na Antiguidade as pessoas buscavam sua identidade com o trabalho, uma


vez que existiam grupos que se firmavam com os seus trabalhos. Hoje observamos
que esta situação não mudou muito. Antes o trabalho era visto somente como forma
de subsistência, hoje em dia, com o modo capitalista, ele passa a ser visto como
uma mercadoria e uma forma de sempre produzir mais e mais. (ALBORNOZ,
1992).

O trabalho é um dos propulsores da evolução, pois suas atividades vão se


transformando ao longo da história. Um exemplo são funções que já estão extintas
(ou praticamente) como datilógrafo e alfaiate, que acabam sendo substituídas por
outras mais importantes para a atual necessidade do mercado.

Contudo estas novas e rápidas tecnologias acabam por deixar os


trabalhadores em parte alienados: especializam-se em uma única função, não
sabem o que produzem e nem para quem estão produzindo. Perdemos a noção do
valor da nossa força de trabalho, sendo mais simples vendê-la e deixar tudo nas
mãos de quem a comprou.

111
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

Outro problema levantado por Albornoz (1992), mas que não


aprofundaremos, é a questão da família. Há alguns anos as famílias trabalhavam na
sua maioria juntas, sendo bastante comuns os “negócios da família”. Atualmente a
maior parte das pessoas trabalha em empresas, e o trabalhador perde este contato
com sua família. Esta situação complica a vida das mulheres por ser atribuída a
elas a responsabilidade da educação dos filhos e o cuidado com a casa.

Neste contexto o trabalho, que ocupou o lugar de atividade central na


inserção social e fator fundamental da produção subjetiva ao longo da sociedade
moderna, passa a ser considerada atividade dominante de uma minoria perante
a massa de trabalhadores, responsáveis pelos serviços de produção. (AQUINO;
MARTINS, 2007).

Que o trabalho é algo extremamente necessário em uma sociedade


capitalista todos concordamos, porém este se torna para muitos um sacrifício. Aí
vem o desafio da sociedade moderna de transformar o trabalho também em uma
fonte de prazer.

Podemos observar que nas sociedades pré-industriais não existia de fato


o lazer, pois o trabalho envolvia ludicidade e prazer criativo. Trabalho e lazer se
intercalavam no cotidiano das pessoas. Ainda hoje, mesmo que pouco, observamos
em sociedades onde a industrialização não se desenvolveu de forma hegemônica,
o lúdico e o criativo estão ligados a atividades laborais. Exemplos atuais dessa
relação são tribos indígenas e as atividades ligadas aos profissionais de publicidade.

Conforme Magalhães (2011), o lazer pode ser uma das opções de atividades
que realizamos no tempo libertado do trabalho, pois temos outras tarefas ditas
obrigatórias. Os trabalhos domésticos e as atividades de manutenção são exemplos
dessas tarefas.

Há uma concepção bem diferente daquelas que veremos a seguir e, levando


em consideração a dificuldade de consenso sobre o que seja o lazer de fato,
Magalhães (2011, p. 169) considera: “[...] toda a atividade resultante duma livre
escolha e própria a procurar um sentimento de liberdade na pessoa no exercício
duma atividade relevaria do lazer”.

Nesta concepção o lazer estaria ligado à questão psicológica do indivíduo


e neste caso até o trabalho poderia ser considerado uma forma de lazer, desde que
dê prazer, como já comentamos anteriormente.

112
TÓPICO 4 | LAZER

FIGURA 17 – A MECANIZAÇÃO DO TRABALHO

FONTE: GEOGRAFICAMENTE falando. Disponível em: <http://henriqvwgeo.blogspot.


com/2009/04/tempos-modernos.html>. Acesso em: 12 nov. 2011.

A figura anterior faz parte do filme Tempos Modernos, último filme mudo
de Charles Chaplin. Tenta ilustrar a realidade dos Estados Unidos após a crise
de 1929, quando a depressão atingiu toda sociedade norte-americana, levando
grande parte da população ao desemprego e à fome. O filme focaliza a vida na
sociedade industrial caracterizada pela produção, com base no sistema de linha
de montagem e especialização do trabalho. É uma crítica à modernidade e ao
capitalismo representado pelo modelo de industrialização, no qual o operário é
engolido pelo poder do capital e perseguido por suas ideias perturbadoras.

Podemos afirmar que na era capitalista na qual estamos inseridos as pessoas


são também julgadas pelo trabalho que desenvolvem no mercado dos negócios.
Na era do consumismo você precisa trabalhar para ter o seu dinheiro e conseguir
consumir uma quantidade grande de produtos e serviços disponíveis no mercado.
Quem não participa deste ciclo não é bem visto na sociedade. Exemplos dessa
situação são pessoas que têm algum problema de saúde e não podem participar
do mercado de trabalho. Elas muitas vezes não são bem vistas pela sociedade em
geral.

113
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

3 ÓCIO
Muitas vezes a palavra lazer é confundida com tempo livre e ócio. Pode-
se gastar o tempo livre sem executar nenhuma ação, é o tempo de puro ócio, de
contemplação. Já lazer consiste em ações desenvolvidas durante o tempo livre,
mas este conceito veremos mais adiante. (RODRIGUES, 1998).

Voltando para a definição de ócio, existe dificuldade para chegarmos a um


consenso. Para Cuenca (2003), o ócio constitui uma experiência gratuita, necessária
e enriquecedora da natureza humana. Desde Aristóteles e até hoje, filósofos e
teóricos, ao tentarem precisar a natureza do ócio, relacionaram-no à percepção de
felicidade. Na sua compreensão, o ócio, do ponto de vista individual, tem relação
com a vivência de situações e experiências prazerosas e satisfatórias.

Para compreender melhor o ócio, são necessárias algumas informações


sobre aspectos relacionados à sua essência: o jogo (lúdico), a festa, a criatividade,
a participação voluntária, a satisfação, a felicidade, o autodesenvolvimento, a
integração solidária etc. É também interessante refletir sobre as possibilidades
práticas de ócio: cultural, esportiva, recreativa, turística, a partir de sua concepção
e valorização através do tempo.

Na realidade brasileira, a palavra ócio resguarda valores negativos


apregoados pela influência religiosa puritana, pela própria história da
industrialização e modernização brasileira, ao longo da qual se pode observar,
claramente, o surgimento de uma nova ordem entre empresários e empregados,
operários e patrões e a necessidade de controle social no tempo fora do trabalho,
para garantir a ordem numa sociedade elitista, herdeira de valores colonialistas.
(DUMAZEDIER, 1979).

Por outro lado, o ócio representa algo mais do que essas categorias, ele
está no âmbito do liberatório, do gratuito, do hedonismo e do pessoal, sendo estes
fatores não condicionados inteiramente pelo social e, sim, pelo modo de viver de
cada um, relacionado com o prazer da experiência.

Atualmente, falar em ócio é algo complexo e nos remete a muitas


possibilidades:

Para uns o problema se reduz aos usos do tempo ou ocupação. Para


outros vem a ser práticas de atividades não obrigatórias, desejadas e
queridas. Outros, por fim, falam do ócio a partir dos parâmetros das
cifras econômicas. Os jovens entendem que viver o ócio é um direito
democrático, semelhante a outros cada vez mais utópicos, como é o
direito ao trabalho. Um cidadão de um país desenvolvido não saberia
viver sem televisão, esporte, cultura, viagens, música moderna ou férias.
O século XX desenvolveu um novo tempo social centrado no ócio, cuja
transcendência está, ainda, por ser descoberta. (CUENCA, 2003, p. 31).

Aquino e Martins (2007) organizam as funções do ócio em três grupos:


psicológicas, sociais e econômicas. No grupo das funções psicológicas, estão
as funções de desenvolvimento, diversão e descanso. Essas funções atendem,

114
TÓPICO 4 | LAZER

parcialmente, à compensação das perdas humanas pelo trabalho, possibilitando


equilíbrio psicológico ao indivíduo.

As funções sociais estariam relacionadas com a integração social, o


simbolismo e a terapia. Lembramos que atualmente as condições de trabalho, a
urbanização intensa e as novas formas de viver geraram um empobrecimento da
comunicação interpessoal trazendo por consequência o isolamento que, no ócio,
encontra um contraponto.

A função simbólica sinaliza que o ócio oferece a percepção de identidade,


pertencimento a uma categoria social, além da escolha de atividades de diversão.
A função terapêutica considera que o ócio oferece a possibilidade de contribuir
para a manutenção da saúde física e mental.

Dentro do grupo das funções econômicas, ressaltamos a crescente


observação de gastos pessoais, familiares com atividades de ócio, bem como a
incidência do ócio na economia e vice-versa.

Antes de partirmos para outros temas, podemos afirmar que uma das
características dos estudos de ócio é a carência de consenso generalizado em suas
abordagens básicas. No entendimento de Cuenca (2003), tal fato não representa
um problema, pois o ócio por si representa um objeto numa realidade complexa e
mutável com vínculos no social, no subjetivo e no tradicional.

4 TEMPO LIVRE
Você já deve ter ouvido a expressão: “Tempo é dinheiro”. Pois bem, cada
vez mais o tempo torna-se algo escasso para o homem urbano.

O tempo não é mais definido pelo indivíduo, mas sim pela sociedade.
O tempo de lazer é aquele dedicado quando já foram desempenhadas todas as
demais obrigações: profissionais, familiares, socioespirituais e sociopolíticas.

Observamos confusão ao diferenciar ócio de tempo livre: você sabe


distingui-los? São conceitos que possuem naturezas distintas. Quando falamos de
tempo livre, pergunto: Tempo livre de quê? O tempo livre do trabalho nos leva
à concepção negativa deste último, sendo um tempo que se opõe ao tempo de
trabalho.

Historicamente e pelo critério de atividade, o ócio se opõe ao trabalho. O


tempo livre vem da liberação do tempo que devia ser dedicado ao trabalho. Mas
para entendermos melhor o assunto, Aquino e Martins (2007) consideram algumas
variáveis.

A primeira delas é que a liberdade não podia ser exercida no trabalho,


pelo menos na concepção de trabalho industrial. A segunda é que a liberdade
de constituir-se como sujeito estava limitada pelo processo de alienação imposto

115
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

pela produção capitalista. O tempo livre surge da liberação de parcelas de tempo


do trabalho, quando poderiam ser desenvolvidas atividades relacionadas à
sobrevivência física e social do indivíduo, mas, ainda assim, atreladas à noção do
trabalho.

O tempo livre, partindo do seu viés industrial, dá passo também ao


surgimento da compreensão do lazer, que passa a ser concebido como uma
atividade que tem sua base ancorada na existência de um tempo livre, e que
poderia ser exercido de forma autônoma pelos trabalhadores, tendo por base sua
condição socioeconômica e seus valores sociais.

O tempo livre surge como uma interligação ao trabalho, isto é, o tempo


libertado do trabalho, já que a partir da Revolução Industrial tudo gira em torno
do trabalho. Também ao longo da história o tempo livre se tornou um tempo social,
uma vez que as pessoas dedicam pelo menos uma parte a atividades sociais como
esportes, recreação, estudo, voluntariado etc. (MAGALHÃES, 2011).

Esse tempo não pode ser só quantitativo, mas, sobretudo qualitativo,


com atividades heterogêneas, contemplando ocupações familiares, escolares e
recreativas, por exemplo.

NOTA

Não entraremos aqui na discussão dos movimentos sociais, pois já comentamos


isso no Tópico 2, mas vale lembrar a luta pela diminuição da carga horária de trabalho, fruto de
muitas reivindicações sindicais.

A discussão sobre o tempo livre é simultaneamente um tempo disponível e


um objeto de estudo. Você pode estar perguntando: mas como? Magalhães (2011)
explica que, enquanto o tempo livre é um agente de transformação social, diminui
algumas desigualdades, mas como o acesso a algumas atividades de lazer não está
disponível a todos, cria novas desigualdades.

5 LAZER
Continuando nosso estudo sobre o conceito dos termos, o que é o lazer?
Para responder a esta pergunta, precisamos entender um pouco da história
sobre o lazer. Primeiramente devemos lembrar que antes da era industrial as
pessoas moravam e trabalhavam na área rural, sendo o trabalho orientado pelas
estações do ano. Com isto surgiam períodos de pausa que, na época, davam vez
a manifestações religiosas (cantos, celebrações e cerimoniais) que ainda não eram
vistas como lazer.

116
TÓPICO 4 | LAZER

Com a industrialização, no século XIX, ocorre o êxodo rural, as pessoas


procuram melhores condições de trabalho e de vida. Com as atividades mecanizadas
surgem as longas jornadas de trabalho, e os operários não podem ditar suas pausas.
Quando estas acontecem servem somente para recuperar as forças.

Após algumas manifestações populares, as jornadas de trabalho são


diminuídas: oito horas diárias, com descanso semanal aos domingos e feriados.
Com o avanço tecnológico, entretanto, a sociedade urbana vive um momento de
stress, gerando um desgaste emocional.

É neste contexto que começam a surgir os primeiros espaços de lazer como:


praças, jardins, parques e clubes. Primeiramente eles eram restritos a uma elite da
sociedade, mas depois veio o reconhecimento de que o bem-estar e a recreação
eram necessários à sociedade.

A palavra lazer deriva do latim licere e significa ser lícito, ser permitido. Você
consegue definir lazer? Num primeiro momento posso dizer que lazer é a forma de utilizar
meu tempo com alguma atividade que eu gosto de fazer, podendo esta atividade
variar conforme vários fatores como: meu estado emocional, o clima, o tempo
disponível, o lugar etc.

O termo lazer é atualmente utilizado de forma crescente, podendo ser


empregado em sua concepção real ou associado a palavras como entretenimento,
turismo, divertimento e recreação. No entanto o sentido do lazer é tão polêmico
quanto a origem e o sentido do termo ócio.

O lazer é um fenômeno cultural recente porque nasceu com a Revolução


Industrial, produto das sociedades modernas. Apesar de sempre ter existido tempo
livre, o lazer é bem mais recente, pois é uma espécie de ocupação do tempo livre, ou
seja, após o cumprimento das tarefas obrigatórias e necessárias. (MAGALHÃES,
2011).

Uma das definições mais aceitas de lazer é:

Um conjunto de ocupações às quais o indivíduo pode entregar-se de livre


vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se,
ou ainda para desenvolver sua informação ou formação desinteressada,
sua participação social voluntária ou sua livre capacidade criadora após
livrar-se ou desembaraçar-se das obrigações profissionais, familiares e
sociais. (DUMAZEDIER, 1979, p. 34).

Ainda sobre o conceito de lazer, Camargo (1989) considera este um


conjunto de atividades que devem reunir certas características: devem ser
gratuitas, prazerosas, voluntárias e liberatórias centradas em interesses culturais,
físicos, manuais, intelectuais, artísticos e associativos, realizadas num tempo livre,
subtraído ou conquistado, historicamente, da jornada de trabalho profissional e
doméstica e que interferem no desenvolvimento pessoal e social dos indivíduos.

117
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

O tempo dedicado ao lazer torna-se um novo direito assumido em lei na


sociedade atual. A Constituição Federal (1988) estabelece no seu artigo 6º: “São
direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência
social, a proteção à maternidade e à infância aos desamparados, na forma desta
Constituição”. (BRASIL, 1988, p. 21).

Sobre a discussão de tempo, Dumazedier (1979, p. 92) tem uma reflexão


interessante distinguindo quatro períodos de lazer: “o lazer do fim do dia, o do fim
de semana, o do fim do ano (férias) e do fim da vida (aposentadoria)”.

FIGURA 18 – MANIFESTAÇÕES DE LAZER

FONTE: INFOESCOLA. Disponível em: <http://www.infoescola.com/sociologia/


lazer/>. Acesso em: 12 nov. 2011.

Atualmente são várias as formas e possibilidades de realizar atividades


de lazer. Isto também não depende mais da idade, sendo realizadas por crianças,
jovens, adultos e cada vez mais pela terceira idade.

Existe hoje uma classificação que divide o lazer em cinco tipos que,
conforme Sá e Cabral (2011), são:

• lazer contemplativo: predomina a beleza plástica, isto é, tudo aquilo considerado


bonito e agradável de ser visto. Este tipo de lazer é muito importante, pois vai
mostrar ao usuário o respeito pelo uso, diminuindo assim a degradação e/ou
depredação. Além disso, gera agradáveis sensações de repouso mental, de bem-
estar, de relaxamento, entre outras;

• lazer recreativo: é o tipo de lazer que faz uso da terapia ocupacional das pessoas.
Para as crianças, seriam os parquinhos, o playground, as praças, e, para os mais
velhos, os locais com bancos fixos e mesas para jogos de cartas, dominós, xadrez,
conversas etc.;
118
TÓPICO 4 | LAZER

• lazer cultural: envolve a cultura de alguma forma, seja por meio de apresentação,
de ensinamento ou de conhecimento. É o tipo de lazer que, além de satisfazer
o desejo de diversão e entretenimento, é indispensável para a produção de
conhecimentos que contribuam até para a solução dos graves problemas que
comprometem o desenvolvimento do país. Este tipo de lazer necessita de espaços
bem projetados para a realização de manifestações culturais, apresentações
teatrais, musicais, entre outros;

• lazer esportivo: é uma realidade que propõe benefícios à saúde física e mental
dos frequentadores. Esse tipo de lazer necessita de espaços como campo de
futebol, quadras poliesportivas, pistas de Cooper, área para ginástica, piscinas
e/ou qualquer equipamento para a realização da prática esportiva;

• lazer aquisitivo: seriam os equipamentos ou edificações destinados às compras


de objetos de uso pessoal ou doméstico como shoppings, feiras de artesanatos,
hipermercados, restaurantes, lanchonetes, barraquinha etc., que as pessoas
também frequentam para passear e trocar ideias.

De acordo com Dumazedier (1979), o lazer é exercido à margem das


obrigações sociais em um tempo que varia segundo a forma e a intensidade
de engajamento que temos em nossas atividades laborais. O lazer encontra-se
submetido a um lugar de destaque, com funções de descanso, desenvolvimento
da personalidade e diversão.

Observamos que no sistema econômico produção-consumo e consumo-


produção, segundo o autor, a economia distanciou-se do ser humano e apoderou-
se de sua liberdade. Krippendorf (2000, p. 33) questiona o fato de a economia
possuir papel principal de todas as questões: “É necessário sacrificar o bem-estar
do homem e do meio ambiente em nome do bom funcionamento da economia? É
necessário fabricar pessoas doentes para beneficiar uma economia saudável?”

DICAS

Uma discussão mais ampla sobre o lazer e sua ligação com outras áreas faremos
no Tópico 5 desta unidade.

Em resumo, Dumazedier (1979, p. 88-89) afirma:

O lazer não é uma categoria definida de comportamento social. Todo


comportamento em cada categoria pode ser um lazer, mesmo o
trabalho profissional. O lazer não é uma categoria, porém um estilo
de comportamento, podendo ser encontrado em não importa qual
atividade: pode-se trabalhar com música, estudar brincando, lavar a

119
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

louça ouvindo rádio, misturar o erotismo ao sagrado etc. Toda atividade


pode, pois, vir a ser um lazer. [...] Essa definição é mais psicológica do
que sociológica. Confunde lazer e prazer, lazer e jogo.

E
IMPORTANT

Conforme nossa discussão sobre trabalho, ócio, tempo livre e lazer, podemos
relembrar:
- atualmente as pessoas separam o tempo de trabalho e o tempo dedicado às atividades fora
dele, ou seja, tempo “preso” e tempo livre;
- pode-se gastar o tempo livre sem executar nenhuma ação, é o tempo de puro ócio, de
contemplação. Já lazer consiste em ações desenvolvidas durante o tempo livre.

LEITURA COMPLEMENTAR

LAZER E TRABALHO

Norberto Santos

Durante muito tempo, o tempo livre foi entendido apenas como o tempo
necessário para o trabalhador operário retemperar forças e descansar, de forma a
que, nos períodos de emprego que se seguissem, pudesse atingir o máximo da sua
prestação. Legado da revolução burguesa, esta relação entre tempo de trabalho e
tempo livre levou o proletário a lutar pelo trabalho e o burguês ao ócio continuado
e criou uma situação caricata: os donos do dinheiro eram poucos e tinham quase
tudo (tempo incluído), enquanto os proletários, que nada tinham a não ser a sua
força de trabalho, não conseguiam dinheiro para comprar o que produziam e não
tinham tempo para comprar ou consumir. Ficou-se à beira de uma superprodução
que não tinha como ser escoada, porque o mercado não funcionava devidamente.
A oferta excessiva não encontrava uma procura ajustada.

Ao longo dos tempos modernos a socioeconomia tem vindo ajustar esta


disfunção, embora de forma interesseira, mais envolvida no processo de obtenção
de lucro do que no de melhoria da qualidade de vida das populações. A redução
do tempo de trabalho, o aumento do tempo de lazer no seio do tempo livre (devido
à introdução nas diversas esferas de ação de produtos que reduziram o tempo
despendido em funções alienantes, especialmente no espaço-tempo doméstico),
o entendimento do lazer como valor social (fugindo à importância do descanso
e valorizando o divertimento e o desenvolvimento), o acesso a novas formas de
relação social (especialmente através do desporto, das artes, das sociabilidades e

120
TÓPICO 4 | LAZER

do turismo), a orientação democratizante do acesso aos lazeres (embora haja que


assumir a importância da ilusão igualitária) são algumas das adaptações de um
mundo que alguns denominam por civilização dos lazeres.

Hoje, o mundo global (sempre e ainda na exploração do mundo desenvolvido


pelo outro mundo em que o desenvolvimento se encontra apenas em projeto ou
processo virtuoso não atingido) dá aos lazeres significados no âmbito da intervenção
social, da valorização socioeconômica, do desenvolvimento local, da imagem dos
territórios, da qualidade de vida das populações, da organização espacial, e da
intervenção política, entre outros. Quer isto dizer que o LAZER precisa ter uma
organização similar àquela que nos é dada pelo trabalho, já que os seus impactos
vão muito para além do recreio, do divertimento, do desenvolvimento, do descanso
e do livre-arbítrio. O lazer cria empregos, o lazer desenvolve os lugares, o lazer
apresenta efeitos multiplicadores e mais-valias idênticas à de muitas das atividades
produtivas de referências da sociedade industrial.

A sociedade dos lazeres, imbricada na do consumo e na do espetáculo, está


a transformar o mundo, exponenciando a ação das tecnologias e moldando novas
esferas de atuação em que o mundo do emprego tem que se conjugar com a busca
crescente de um tempo de lazer. A sua importância é tal que estes tempos são de
uma diversidade capaz de aproveitar ou propor o uso cada minuto disponível
(fragmentando o dia, criando propostas para cada dia, criando eventos para os dias,
para os fins de semana, criando fins de semana especiais, criando períodos do ano
que lhe estão diretamente ligados, tempos de vida que precisam ser aproveitados,
não a trabalhar, mas a recrear).

É preciso absorver esta vontade, esta procura, esta forma de identidade


social. Novos projetos surgem continuadamente, por vezes coisas antigas com novas
roupagens, maneiras de fazer passadas com modos ajustados tecnologicamente,
espaços de ontem reabilitados, patrimônios integrados em procuras mais amplas,
tradições e costumes reavivados para novas gentes ou servindo de relembrança para
os que se tinham há muito esquecido. Este não parar de substantivação, adjetivação e
ação mostra a importância do lazer na nossa sociedade. Criar projetos (tanto de oferta
como de procura) em torno destas ideias, facilmente adequadas ambientalmente,
deve ser um propósito central de todos aqueles que têm no lazer o seu espaço-tempo
de trabalho. Ou será de desenvolvimento? Ou de diversão?

FONTE: SANTOS, Norberto. Lazer e trabalho. 2008. Disponível em: <http://tlpcoimbra.blogspot.


com/2008/09/lazer-e-trabalho.html>. Acesso em: 21 set. 2011.

121
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico você estudou que:

• Os termos trabalho, ócio, tempo livre e lazer estão interligados.

• O trabalho envolve atividades de esforço físico e intelectual.

• Na sociedade capitalista o trabalho tornou-se uma necessidade para que


possamos participar da sociedade de forma ativa.

• O trabalho pós-industrialização é visto por muitos como um sacrifício e o grande


desafio é torná-lo uma atividade prazerosa.

• O ócio é desenvolvido no tempo livre com atividades que não tenham nenhum
compromisso social, somente de relaxamento e distração consigo mesmo. Em
termos populares, é o “não fazer nada”.

• O ócio pode ser dividido em três funções: psicológicas, sociais e econômicas.

• O trabalho na era industrial não nos dá liberdade de fazer atividades que


desejamos; daí surge a importância atual do tempo livre.

• Outro fator importante do tempo livre é que nele podemos exercer nosso papel
de sujeitos livres, pois no modelo industrial, no tempo dedicado às atividades
laborais, muitas vezes precisamos assumir o papel de dominados.

• É no tempo livre que os indivíduos podem assumir papéis sociais, familiares,


religiosos, políticos etc.

• O sentido do lazer que temos atualmente nasceu com a Revolução Industrial,


devido ao trabalho mecanizado, jornadas longas de trabalho, cansaço emocional
e físico.

• O lazer consiste em atividades que realizamos após termos cumprido as tarefas


obrigatórias e necessárias. Envolve diversão, entretenimento, recreação, repouso
etc. tudo realizado de forma voluntária.

• Os principais tipos de lazer estudados são: contemplativo, recreativo, cultural,


esportivo e aquisitivo.

122
AUTOATIVIDADE

1 Conforme as discussões do tópico, conceitue lazer.

2 Levando em consideração que o lazer pode ser realizado por várias faixas
etárias, faça uma pesquisa sobre possibilidades de atividades para:

a) crianças;
b) jovens;
c) adultos;
d) idosos.

3 Faça uma análise dos espaços e equipamentos públicos de lazer em sua


cidade, levando em consideração as seguintes questões:

a) A variedade é suficiente?
b) A quantidade é suficiente?
c) A qualidade é adequada?
d) A divisão por bairros/regiões é justa?
e) Aponte sugestões.

123
124
UNIDADE 2
TÓPICO 5

AS VIAGENS COMO FORMA DE LAZER

1 INTRODUÇÃO
Como vimos no tópico anterior, o lazer é uma fuga das obrigações diárias
e as viagens podem ser uma das alternativas. Outra consideração importante a ser
feita é que lazer em áreas urbanas e em áreas rurais são coisas distintas. Apesar de
reconhecermos a importância de ambos, iremos focar a discussão na área urbana
por ser esta a realidade da maioria da população brasileira.

2 AS VIAGENS E O LAZER
Você sabe diferenciar lazer e turismo? Há uma relação grande entre estes
dois temas, mas devemos ressaltar que a maioria das pessoas que estão realizando
turismo tem o intuito de lazer. Não iremos aqui entrar na discussão sobre a
categoria aceita por alguns autores do “turismo de negócios”, que, com certeza,
muda esta discussão.

Para Rodrigues (1998, p. 12), “Lazer difere de turismo, porque para sua
prática não há necessidade de deslocamentos que excedam o período fixado em 24
horas e, portanto, incluam um pernoite, enquadrados na categoria de turismo pela
Organização Mundial de Turismo (OMT)”.

Devemos sempre lembrar que o lazer é algo mais amplo, ou seja, o turismo
pode ser uma forma de lazer, mas não é a única.

E as principais motivações que levam as pessoas a fazer viagens, você sabe


quais são?

O equilíbrio entre as necessidades do homem é um desafio constante. Para


tanto, o lazer, especialmente as viagens, buscam, segundo Krippendorf (2000,
p. 36), “[...] reconstituir, recriar o homem, curar e sustentar o corpo e a alma,
proporcionar uma fonte de forças vitais e trazer um sentido à vida”.

Na sociedade industrial, em que a maioria das pessoas não tem muito


tempo, especialmente para o lazer, a programação das férias e finais de semana
é para viagens e passeios longe dos lugares habituais. Atualmente isto se tornou

125
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

também uma imposição da sociedade e sinônimo de status. Contudo, nos últimos


anos as viagens massificadas saíram de moda e a elite da sociedade prefere ir a
lugares distantes e exóticos.

Seguindo a resposta de várias pesquisas feitas com turistas, a respeito


das motivações de suas viagens, desde a década de 60, há vários sentidos para
as viagens: descansar, refazer-se; compensar e integrar-se socialmente; fugir;
comunicar-se; alargar o próprio horizonte; ser livre e autônomo; partir para a
descoberta de si mesmo etc.

Em resumo, a motivação das viagens está mais ligada ao ego de quem viaja:
“[...] a viagem é muito mais motivada pelo desejo de deixar alguma coisa do que
pelo de ir para alguma coisa; o fato de escapar da vida cotidiana desempenha um
papel muito mais importante que o interesse pelas regiões e populações visitadas”.
(KRIPPENDORF, 2000, p. 50).

No atual modelo de vida, onde o tempo é condicionado pelo mercado de


trabalho e não pelo indivíduo, a questão das viagens tornou-se uma necessidade
quase unânime. O problema é que até as viagens se tornaram algo mecânico: você
tem somente o fim de semana para descansar ou fazer alguma atividade prazerosa,
somente aquele período de suas férias para viajar. É como se o restante do tempo
fosse um verdadeiro tormento.

NOTA

Jost Krippendorf (2000), em Sociologia do Turismo: para uma nova compreensão


do lazer e das viagens, faz uma ótima reflexão sobre o comportamento das pessoas atualmente
quando estão de férias, especialmente viajando. Destaco abaixo algumas considerações a
respeito, mas é interessante a leitura de toda a obra.

Nos períodos de férias da massa de trabalhadores, aqui no Brasil em


dezembro e janeiro, as pessoas não dão um tempo para que o corpo e a mente
se adaptem a essa fase e querem fazer tudo o mais rápido possível. Segundo
recomendações médicas, devemos respeitar as três etapas dessa fase: descansar/
descontrair/repousar. Por isso a recomendação é de que sejam reservados três dias
para o descanso, após o corpo estará pronto para as férias realmente e em seguida
acontece o chamado pelos médicos, “as férias das férias”. Neste período devemos
reservar dois ou três dias para a preparação ao trabalho novamente.

Nas pesquisas realizadas sobre a satisfação dos turistas em suas férias a


maioria das pessoas diz-se bastante satisfeita. Isto acontece devido ao fato de que
as pessoas transmitem para as férias a solução de seus problemas.

126
TÓPICO 5 | AS VIAGENS COMO FORMA DE LAZER

Como nessas pesquisas não é questionado especificamente o que satisfaz


ou não os turistas, de um modo geral, a resposta é positiva, pois mesmo que
tenham ocorrido problemas na viagem, só o simples fato de não trabalhar já traz
satisfação. A segunda observação realizada pelo autor a respeito do resultado
dessas pesquisas é o fato de poucas pessoas confessarem para os outros que as
férias não foram agradáveis, devido ao fato de terem investido dinheiro nelas e
não quererem admitir o seu fracasso perante os outros.

Observamos que as pessoas que têm um cotidiano agradável, estão


contentes com seu trabalho, casa, família etc. possuem mais chances de ter férias
mais agradáveis, do que aquelas que esperam solucionar todos os problemas de
um ano inteiro neste período e acabam retornando das férias muitas vezes mais
frustradas. O stress diário também é carregado por alguns para as férias.

Como escreve Krippendorf (2000, p. 94), “[...] a viagem poderia nos levar
a tomar consciência de nossa própria realidade, a relativizar as normas culturais
que assimiláramos, a descobrir que existem outras formas de vida comunitária
e a questionar nossas próprias condições de vida”. Porém, enquanto o turismo
for um artigo comercial, típico da sociedade industrial, este será um objetivo
exclusivamente teórico e longe de nossa realidade.

O ideal seria que as pessoas, quando saíssem de férias, também buscassem


algum aprendizado com as novas experiências, novas culturas, ou seja, buscassem
incorporar transformações ao seu dia a dia. Por exemplo, quando viajo para o
campo e vivencio o cotidiano mais tranquilo das pessoas e com hábitos de vida
simples, principalmente alimentação mais saudável, ao retornar à minha moradia
deveria buscar implantar hábitos mais saudáveis à minha vida também.

Concluindo esta reflexão sobre as viagens e o lazer, Krippendorf (2000)


ressalta a importância da “humanização da viagem”, sendo o ser humano a
peça central, onde o “homem-férias” não existiria mais, mas sim o “homem com
identidade absoluta”.

3 HUMANIZAÇÃO DO LAZER
Em tempos de mudança e inovação tecnológica reorganizam-se as relações
de trabalho, as relações familiares, as relações de amor e de amizade e também os
lazeres. Vive-se um momento de enclausuramento diário.

Na concepção de Rodrigues (1998), desaparece a rua como locus da


sociabilidade. Também desaparecem a família, as relações de vizinhança e de
compadrio, assim como o lugar, entendido como o “acontecer solidário da vida
cotidiana”. (SANTOS, 1988, p. 22).

Assistimos atualmente ao aumento da violência, terrorrismo, vandalismo,


prostituição e drogas, principalmente nas cidades, mas não exclusivamente nelas.

127
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

Neste contexto o lazer é também uma conquista. Acontece um movimento


em busca da valorização do lugar, da cultura local, do orgulho de pertencer.
Nos espaços periféricos mais populares, há a conquista dos lugares de lazer. As
conquistas muitas vezes são difíceis, mas sempre coletivamente são expressões da
identidade irredutível dos espaços empobrecidos, da ação solidária de homens,
mulheres e crianças. São exemplos as ruas fechadas para prática de esportes, os
bares clandestinos e os campos de futebol nos conjuntos habitacionais programados
sem sua presença e as praças conquistadas. (DAMIANI, 2002).

Vários são os exemplos de espaços degradados e abandonados que são


revitalizados e se transformam em espaços de lazer como: Porto Madero, em
Buenos Aires; antiga Estação Ferroviária de Santiago, no Chile; os antigos edifícios
fabris do SESC Pompeia e o Moinho Santo Antônio, em São Paulo; a Estação e Vila
Ferroviária de Araçatuba-SP etc.

A moradia, o lugar onde moramos, possui um grande significado, até


porque é aí que permanecemos a maior parte de nosso tempo. Contudo na
sociedade industrial, com a expansão das atividades comerciais e industriais
para os centros das cidades, as pessoas, com exceção da classe alta, tornaram-
se obrigadas a construir suas moradias em bairros e cidades mais distantes, as
chamadas “cidades dormitórios”.

Com esses avanços, não levando em consideração o ser humano, algumas


funções ocorreram, como destaca Krippendorf (2000): o trabalho nas cidades, as
moradias no subúrbio, férias nas zonas de veraneio, deslocar-se, com o aumento
grandioso e caótico do trânsito.

Durante muitos anos o trabalho foi considerado “o centro da vida”, porém


cada vez mais esta ideia está mudando. Atualmente as pessoas percebem que não
resolve ter muito dinheiro e não ter tempo para usufruí-lo. Conforme Krippendorf
(2000, p. 117), “[...] a consciência do dinheiro é pouco a pouco substituída pela
consciência do tempo”.

Listamos algumas mudanças de orientação:

• Orientação para o tempo livre: a expansão do tempo livre.

• Orientação para a experiência: a necessidade de ter uma vida intensa e ativa.

• Orientação para o prazer: destaca o prazer de viver.

• Orientação para o presente: dar mais valor ao “aqui e agora” e menos ao futuro.

• Orientação para a natureza e o meio ambiente: a natureza e o meio ambiente


possuem muita importância na vida das pessoas.

128
TÓPICO 5 | AS VIAGENS COMO FORMA DE LAZER

Silva (2011) menciona que o lazer tem o caráter de humanizar as cidades,


pois o lazer contém o lúdico como possibilidade; há o emprego do tempo variável,
que depende da disposição do tempo livre do usuário dos espaços de lazer.
Experimentam-se emoções particulares.

São inúmeras as formas de classificação dos espaços de lazer urbano: os


parques urbanos, os logradouros públicos (grandes avenidas com amplas calçadas),
lagos e lagoas urbanizados. Estes podem atingir diferentes camadas sociais e ser
utilizados de diversas formas.

FIGURA 19 – PISTA PARA CAMINHADA

FONTE: GOVERNO de São Bernardo do Campo. Disponível em: <http://www.


saobernardo.sp.gov.br/comuns/pqt_container_r01.asp?srcpg=noticia_
completa&ref=3803&qt1=0>. Acesso em: 13 nov. 2011.

Na foto anterior há um exemplo de espaço de lazer público na cidade de


São Bernardo do Campo com praça com playground, quadra e pista de caminhada
– espaço comum entre a classe média.

129
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

FIGURA 20 – RODA DE CAPOEIRA

FONTE: VILA Esperança. Disponível em: <http://www.vilaesperanca.


org/?attachment_id=1061>. Acesso em: 13 nov. 2011.

É nas praças que acontecem as principais atividades de lazer. Na figura


anterior mostra-se um exemplo de manifestação cultural como a capoeira, bastante
comum em todo o país. Também ocorrem outras manifestações culturais como
feiras de artesanato, apresentações artísticas variadas etc.

FIGURA 21 – PISTA DE SKATE

FONTE: SKATISTA Online. Disponível em: <http://www.skatistaonline.com/pico/


pista-publica-de-sao-bernardo-do-campo>. Acesso em: 13 nov. 2011.

130
TÓPICO 5 | AS VIAGENS COMO FORMA DE LAZER

As pistas de skate são muito comuns nas praças urbanas, servindo como
forma de lazer a adolescentes e crianças de variadas classes sociais.

Todos estes espaços mencionados podem também ser lugares de


prostituição, drogas, criminalidade etc., mas uma coisa é inquestionável, são
lugares democráticos, disponíveis a todos e com as mais variadas manifestações
sociais.

Apesar da tendência de as pessoas destinarem mais tempo ao lazer,


chegando a acreditar que algumas abrirão mão de ganhar um salário maior para
possuir mais tempo livre, é inevitável que o mercado exija das pessoas que o
trabalho seja o centro de suas atenções. Por isso trabalho e lazer devem caminhar
juntos e precisam de uma relação harmoniosa.

Como tentativa dessa harmonia entre trabalho e lazer, Krippendorf


(2000) sugere algumas opções para “humanizar o trabalho”: dar ao trabalho uma
substância mais rica; nova repartição do trabalho; organização flexível do tempo; e
o sistema binário da atividade econômica.

DICAS

Para ampliar essa discussão sobre a democratização do lazer, recomendo a leitura


da Unidade V: O Todo Inibidor, da obra de Nelson Carvalho Marcellino, Lazer e Humanização,
1983.

131
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

LEITURA COMPLEMENTAR

AS NOVAS IMAGENS DO IDOSO VEICULADAS PELA MÍDIA:


TRANSFORMANDO O ENVELHECIMENTO EM UM NOVO MERCADO DE
CONSUMO

Minéia Carvalho Rodrigues

Nas últimas décadas, assistimos a um interesse crescente pelos estudos


do lazer. Hoje visualizamos este mesmo interesse voltado para o estudo do
envelhecimento. Lazer e envelhecimento ganharam espaço no campo da investigação
científica, entretanto estudos que abordem a relação entre estas duas áreas ainda são
incipientes, necessitando de mais investigação. Procuraremos neste artigo lançar uma
semente para instigar os estudos conjuntos destas duas vertentes do conhecimento.

O lazer direcionado às pessoas idosas emerge como aquilo que Debert (1999a)
chama de “reprivatização do envelhecimento”, em que os indivíduos são convencidos
a assumir a responsabilidade pelo seu envelhecimento e, consequentemente, pela
sua saúde, pela sua aparência e pelo seu isolamento:

[...] se alguém não é ativo, não está envolvido em programas de


rejuvenescimento, se vive a velhice no isolamento e na doença é porque
não teve o comportamento adequado ao longo da vida, recusou a
adoção de formas de consumo e estilos de vida adequados e, portanto,
não merece nenhum tipo de solidariedade. (DEBERT, 1999a, p. 35).
 
O lazer aparece neste contexto seguindo esta mesma ideologia, como
sendo acessível a todos e como se todos pudessem usufruir de atividades de lazer,
principalmente os idosos, possuidores de grande quantidade de tempo livre. De
acordo com esta hipótese, o idoso que possui tempo livre, mas não procura uma
vida de lazer, é porque é acomodado. Entretanto, este ideal de vida de lazer, que
é acessível apenas a uma minoria, vem acompanhado de uma visão funcionalista,
procura encobrir os problemas sociais e econômicos que atingem a população idosa.
Como relata Magalhães (1989, p. 37), é um mito pensar a aposentadoria "como início
de uma época onde o indivíduo vai dispor livremente de sua vida e usufruir os bens
e serviços que a natureza e a sociedade lhe oferecem". Os bens e serviços de lazer
não são acessíveis a todos os idosos, "existem barreiras inter e intraclasses sociais,
formando um todo inibidor que dificulta o acesso ao lazer não só quantitativamente,
mas, sobretudo qualitativamente". (MARCELLINO, 2001, p. 9).

Dentre as barreiras que impossibilitam a concretização do ideal de lazer


podemos citar: estereótipos, fator econômico, tempo disponível e o acesso ao
espaço de lazer. Apesar dos esforços dos diversos estudiosos em demonstrar as
possibilidades de desenvolvimento e as potencialidades das pessoas idosas, alguns
estereótipos persistem e outros surgem no cenário contemporâneo. Foge ao escopo
de nosso trabalho traçar um histórico sobre o aparecimento e a construção desses
preconceitos, porém se torna importante situar alguns dos principais mitos sobre
o tema.

132
TÓPICO 5 | AS VIAGENS COMO FORMA DE LAZER

Podemos verificar duas formas de compreensão da velhice no contexto


brasileiro: numa delas a velhice é entendida como um momento de perdas,
decrepitude, inutilidade. Beauvoir (1990), discorrendo a respeito das sociedades e
as imagens construídas em relação aos velhos, relata que, nas sociedades ocidentais,
a velhice foi (e continua sendo) ligada a uma imagem estereotipada. Em nossa
sociedade, a velhice também tende a ser vista como um período dramático, associada
à pobreza e invalidez.

Na segunda forma de compreensão da velhice, a visão contemporânea


traz o entendimento da velhice como sendo uma fase de realizações, negando os
estereótipos acima relacionados. Esta nova visão do envelhecimento vem associada
ao lazer, como aborda Debert (1999a, p. 61), os signos do envelhecimento são
invertidos e assumem novas designações: "nova juventude", a "idade do lazer".
A aposentadoria deixa de ser um momento de descanso e recolhimento para
tornar-se um período de atividades de lazer. Neste contexto, o lazer aparece como
possibilidade de evitar o envelhecimento, dentro de uma visão funcionalista, mas
também compensatória, vem sob as vestes da saúde, trazendo a ideia da necessidade
de manter uma vida ativa, adotar novas formas de comportamento levantando a
bandeira da eterna juventude.

As novas formas de comportamentos veiculadas pela mídia criam um novo


estereótipo, de um idoso ativo, jovem que, de acordo com Debert (1999b), rejeita a
própria ideia de velhice, ao considerar que a idade não é um marcador pertinente
da definição das experiências. Se anteriormente os idosos eram homogeneizados
por uma visão de invalidez e perdas, hoje o são através da imagem de um idoso
ativo, saudável, em busca de atividades de lazer. Ambas as imagens afastam os
idosos do lazer, a primeira por desconsiderar as potencialidades da pessoa idosa e
a segunda por negar a velhice, trazendo novas formas de comportamento com as
quais os idosos não se identificam.

Estas novas formas de comportamento trazem como pano de fundo a


melhoria da qualidade de vida dos idosos, contudo, na realidade têm como objetivo
a busca de soluções para alguns dos problemas encontrados em nossa sociedade e
buscam atender a um novo mercado em expansão: a indústria do rejuvenescimento.

A indústria do rejuvenescimento, em grande expansão, vende mercadorias


por meio de imagens que prezam a juventude, saúde e beleza, apresentando um ideal
de corpo a ser atingido. A ideia da eterna juventude é a bandeira levantada pelos
mercados de consumo, que a cada dia lançam um novo produto, visando combater
o envelhecimento. O lazer não fica de fora. Na mídia, tende a impor ideias a serviço
do capital, veiculando informações que tendem também a impor novas formas de
comportamento, apagando o que previamente era considerado o comportamento
adequado à pessoa idosa. Segundo Debert (1999b, p. 43),

[...] este segundo modelo, também sem pretender, acaba fazendo coro
com os discursos interessados em transformar o envelhecimento em
um novo mercado de consumo, prometendo que a velhice pode ser
eternamente adiada através da adoção de estilos de vida e formas de
consumo adequadas.

133
UNIDADE 2 | O LAZER E A SOCIEDADE

É papel do lazer atender à lógica de produção do mercado e do Estado? Esta


gama de atividades de lazer que vem surgindo para pessoas idosas como: atividades
de turismo, bailes, bingos e excursões são realmente carências sociais e individuais
ou novas formas de gerar lucro em uma sociedade que necessita aumentar seu
consumo para manter o equilíbrio?

O consumismo no campo do lazer tende a gerar falsas necessidades. Não


podemos permitir que o lazer se torne uma necessidade inventada pela sociedade
do consumo, e que a indústria cultural, dentro de uma abordagem consumista,
influencie, interfira e se aposse do tempo disponível das pessoas com práticas de
lazer consumistas.

O lazer não é um produto a mais de consumo que se vende e se compra, não


é uma mercadoria. O acesso aos bens culturais de lazer é muito mais complexo que
uma simples relação de aquisição consumista. Este lazer visto apenas como produto
lucrativo deve ser repensado pela sociedade, uma vez que amplia as diferenças
entre as pessoas e gera exclusão.

Uma definição de envelhecimento mais adequada à realidade é a que vê o


envelhecimento como um período de perdas propício a novas conquistas. Contudo,
ver o envelhecimento dessa forma não soluciona todos os problemas, é necessário
um olhar crítico voltado para a sociedade para que as novas conquistas dos idosos
não sejam apenas novas formas de consumo.

Além dos estereótipos, o fator econômico se constitui outra barreira de


acesso ao lazer, sendo, segundo Marcellino (1996), socialmente determinante desde
a distribuição do tempo disponível entre as classes sociais até as oportunidades de
acesso à escola e contribui para uma apropriação desigual do lazer.

Com relação aos idosos, as condições econômicas são um entrave para o


lazer, uma vez que há uma queda em sua renda a partir do momento em que se
aposentam. As pessoas idosas que possuem apenas a aposentadoria como recurso
financeiro vivem em dificuldades econômicas sem acesso ao lazer, pois os gastos
com atendimento médico e remédios consomem boa parte de sua renda. Esse
acesso se torna ainda mais difícil quando consideramos a mercadorização do lazer
dominado pela iniciativa privada.

A quantidade de tempo livre é outro problema. Apesar de alguns estudiosos


considerarem os idosos como tendo tempo de sobra, esta realidade não abrange a
todos. Não podemos esquecer que estas pessoas em sua maioria possuem algumas
obrigações familiares, religiosas e sociais que limitam o tempo que poderia ser
destinado ao lazer. Além das obrigações, as condições econômicas desfavoráveis
fazem com que muitos idosos busquem trabalhos informais como vendedor de
sorvete, vendedor de pipoca e outros serviços braçais, não dispondo de tempo livre
para o lazer.

134
TÓPICO 5 | AS VIAGENS COMO FORMA DE LAZER

O acesso aos espaços de lazer é outro fator limitante. Ainda que o lazer, a
partir da Constituição de 1988, passou a ser direito de todos os cidadãos brasileiros e
uma das obrigações do Estado, o acesso da população aos diversos interesses do lazer
ainda está muito longe do ideal. Com isso surgem, com força total, os mais diversos
empreendimentos privados na área que, mesmo não satisfazendo as necessidades
humanas, criam novas. Conforme Marcellino (1996), no caso dos equipamentos de
lazer, dos espaços de convívio, parece haver uma tendência à privatização, na qual, os
espaços, inclusive as áreas verdes e o lazer propriamente dito tornaram-se produtos
do mercado. "Quem não pode pagar pelo estádio, pela piscina, pela montanha, pelo
ar puro, pela água, fica excluído do gozo desses bens que deveriam ser públicos
porque essenciais”. (SANTOS apud MARCELLINO, 1996, p. 32).

Aumentando ainda mais a lista dos entraves está a falta de informação em


relação à localização dos espaços e equipamentos de lazer. Além disso, a localização
destes espaços nem sempre oferece fácil acesso aos idosos. Em muitos casos o
transporte coletivo como única forma de locomoção se torna um grande obstáculo
para a pessoa idosa chegar ao local desejado.

Grande parte das pessoas idosas não tem acesso aos espaços de lazer,
desconhecendo a importância e os benefícios que estes podem lhe oferecer. Abrir
possibilidades de acesso é fundamental, uma vez que, por meio das experiências
de lazer, o idoso aprenderá a gostar tanto do lazer como de si mesmo. Desta forma,
faz-se necessário minimizar para o idoso as barreiras de acesso ao lazer, buscando,
neste trabalho, uma participação de todas as camadas da sociedade de diferentes
sexos, idades, etnias etc. Ações concretas são imprescindíveis para que a população
idosa sinta os benefícios do lazer.

FONTE: RODRIGUES, M. C. As novas imagens do idoso veiculadas pela mídia: transformando o


envelhecimento em um novo mercado de consumo. Revista da UFG, Goiânia, v. 5, n. 2,
dez. 2003. Disponível em: <www.proec.ufg.br>. Acesso em: 14 nov. 2011.

135
RESUMO DO TÓPICO 5
Neste tópico você estudou que:

• O turismo é uma das alternativas de lazer, sendo este último algo mais amplo.

• As pessoas viajam para sair de sua rotina de obrigações, buscando um equilíbrio


para o corpo e a alma. Muitas pessoas viajam também como forma de status; isso
possui ligação com o ego.

• Na sociedade atual as pessoas atribuem às viagens de férias a obrigação de


satisfazer todas suas frustrações de todo o ano de trabalho e obrigações.

• O ideal seria que as pessoas tivessem hábitos saudáveis física e mentalmente


durante todo o período de sua vida, não levando todos seus anseios e angústias
ao curto período de férias.

• Há atualmente aos poucos a substituição da consciência do trabalho para a


consciência do tempo.

• A violência muitas vezes pode atrapalhar as formas de lazer popular da


sociedade, como, por exemplo, nas praças.

• Muitos espaços abandonados e degradados são revitalizados e transformados


pela ação comunitária em espaços de lazer.

• Humanizar o lazer é tornar as atividades lúdicas acessíveis a todos, assim


acontece a democratização do lazer.

• Devemos saber equilibrar a relação trabalho x lazer em nossas vidas.

136
AUTOATIVIDADE
Leia o texto: AMPLIANDO PRÁTICAS DE LAZER EM
EQUIPAMENTOS PÚBLICOS, da professora Monica Monteiro.

A utilização de equipamentos públicos é objeto de pesquisa em


diversas áreas da ciência. No âmbito dos estudos do lazer são crescentes as
preocupações sobre o tema, principalmente no que diz respeito às relações
da construção destes equipamentos com as práticas de lazer da população.
Este trabalho é produto das pesquisas realizadas no Piscinão de Ramos, busca
compreensões acerca dos desdobramentos da intervenção do Projeto SESC
no Piscinão, interessado na relação do cidadão com a cidade, e traça algumas
reflexões acerca de mediações que contribuem para uma cidade mais inclusiva.

O Piscinão de Ramos foi idealizado pelo Governo do Estado do Rio de


Janeiro, como Projeto de Requalificação Urbana da Praia de Ramos. O Parque
envolveu, além das obras de infraestrutura, atividades de lazer, de esportes e
culturais. Em 2005 a operação dos equipamentos construídos foi acrescida com
propostas de qualidade.

Dentre as propostas está o Projeto SESC no Piscinão, uma intervenção


do SESC Rio em parceria com o Instituto Muda Mundo, que atua em atividades
mediadas por professores de educação física, enfermeira e assistente social.

No decorrer das intervenções observamos crescentes tensões


envolvendo os frequentadores do Piscinão, onde grupos de mulheres, jovens e
idosos aparecem em desvantagem sobre pessoas que se apropriam do espaço,
muitas vezes através da cultura do medo, tornando o espaço público em espaço
não democrático. Lembramos que atualmente estes grupos estão no foco das
políticas públicas em todo Brasil.

Nossa experiência traz reflexões que apontam um desgaste do tecido


urbano local, estimulado pela decomposição das relações sociais e pela
intensa crise de valores. Para compreendermos melhor esse processo de
desgaste consideraremos aspectos econômicos e culturais dos frequentadores
do Projeto. Considerações organizadas a partir da leitura de dados colhidos
através do “Perfil Socioeconômico e Cultural” dos usuários. Dentre as questões
destacamos a “hierarquização das necessidades humanas”, causada pela baixa
renda, o que causa impactos nos momentos de lazer.

No Piscinão de Ramos, uma das poucas possibilidades de lazer para


as comunidades que habitam a faixa entre a Baía da Guanabara e a Avenida
Brasil, diversos projetos sociais atuam com atividades esportivas que buscam
talentos que podem proporcionar ascensão social para poucos, seus impactos
são avaliados pelo quantitativo de pessoas que conseguem ser reconhecidas
pelo talento individual.
137
Atualmente somos o único projeto de atividades físicas intergeracional,
como também o precursor em organizar atividades esportivas que busquem
ampliação das possibilidades de vivência de lazer relacionadas à prática
esportiva, com objetivo de gerar organização comunitária em torno de interesse
coletivo. O lazer proporciona ao Projeto um campo de vivência social de muita
importância. Melo e Drummond (2003) defendem que

[...] o lazer não é um campo ingênuo ou isolado das outras esferas


da vida em sociedade, mas sim de tensão social, de diálogos e de
conflitos, compreendido a partir da ótica de circularidade cultural
(trocas mútuas e constantes de valores), onde a intervenção
profissional deve ser implementada de maneira consequente.

Ao adotar o lazer em sua base conceitual, o projeto contribui para


estimular novos olhares, novas perspectivas, novos valores e compreensão
nas relações com o outro, considerando os interesses mútuos resultantes
desta interação. Estamos falando de um processo de sensibilização coletiva,
promovendo a “educação da sensibilidade”. Este conceito abarca o duplo
aspecto educativo do lazer “educar para e pelo lazer”:

Podemos aproveitar os momentos de lazer para discutir valores,


normas, desenvolver uma perspectiva crítica dos indivíduos acerca
da realidade (educação pelo lazer). Porém, mais do que isso,
precisamos educar as pessoas para que compreendam as múltiplas
possibilidades de lazer que podem usufruir, oportunizando e
estimulando a busca das mais diversas alternativas de diversão
e prazer nos momentos de não trabalho (educar para o lazer).
(MELO; DRUMMOND, 2003, p. 7).

Os autores completam orientando que esse processo educacional não


deve ser feito em confronto com a formação cultural de cada grupo, mas
em um processo pedagógico prolongado de discussão, diálogo e mediação.
Assim o Projeto procura despertar em cada indivíduo a compreensão de que é
produtor de cultura. Mais ainda, que entenda como um direito básico o acesso
à multiplicidade de oportunidades que os espaços públicos devem oferecer.

Ainda há um grande contingente de pessoas que estão restritas a seus


espaços domésticos. Em função desse afastamento, alguns problemas são
bastante visíveis para todos, como a violência, e entendemos que não pode
ser reconhecida somente enquanto consequências da ordem econômica, mas
também como frutos da diluição (transformação) de valores.

Apenas construir equipamentos públicos de lazer, no caso o Piscinão


de Ramos, não fará com que a população desenvolva no espaço práticas
múltiplas e inclusivas de lazer. É preciso estimular projetos que contribuam
para a superação do distanciamento do cidadão de sua cidade, por meio de
atividades que incluam a maior diversidade de pessoas possível.

138
Assim, em médio prazo, seria possível vivenciarmos impactos
resultantes da ampliação do entendimento de cidadania pelo cidadão,
aumentando o acesso a bens sociais e o compromisso com a manutenção e a
construção do ambiente urbano (em todas as dimensões possíveis). No entanto,
seria questionável acreditar que por si sós as atividades de lazer tenham um
potencial suficiente para promover uma mudança da estrutura social, mas
podemos argumentar que o lazer pode ser uma boa alternativa de intervenção
para contrapor a forma de gestão (poder) e os usos dos equipamentos que, sem
uma mediação orientada, num primeiro momento, acabam por contribuir para
o esvaziamento dos espaços públicos pela maioria da população.

FONTE: MONTEIRO, Monica. Ampliando práticas de lazer em equipamentos públicos.


SESC na Praia, SESC no Piscinão. Disponível em: <http://www.lazer.eefd.ufrj.br/
projetosesc>. Acesso em: 12 maio 2011.

Baseando-se no texto responda às seguintes questões:

1 No caso da área mencionada quais foram as esferas da sociedade, entidades,


órgãos públicos ou privados que participaram da criação, implantação e
desenvolvimento? De que forma isto ocorreu?

2 O que significa “humanizar o lazer”? Isto ocorre na área do Piscinão de


Ramos? Justifique sua resposta.

3 O Piscinão de Ramos é um exemplo de espaço e equipamento público de


lazer, por isso defina espaço de lazer e equipamento de lazer.

139
140
UNIDADE 3

TURISMO E SOCIEDADE

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

A partir desta unidade você será capaz de:

• identificar os principais problemas da sociedade, inclusive a brasileira, in-


serindo o turismo nessa problemática;

• reconhecer a importância e a evolução do setor de turismo na economia


mundial;

• identificar o processo de globalização, analisando as implicações deste


processo para o setor de turismo;

• relacionar e compreender as principais tendências do turismo, reconhe-


cendo neste um mercado em expansão.

PLANO DE ESTUDOS
Esta última unidade possui quatro tópicos. No final de cada um deles você
encontrará atividades que contribuirão para a reflexão e análise dos conteú-
dos explorados.

TÓPICO 1 – TURISMO, SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO

TÓPICO 2 – TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

TÓPICO 3 – TURISMO INTERNACIONAL

TÓPICO 4 – TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

141
142
UNIDADE 3
TÓPICO 1

TURISMO, SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO

1 INTRODUÇÃO

Neste tópico iremos estudar a relação entre a sociedade contemporânea


e o turismo, ou seja, qual é a contribuição desta relação para o desenvolvimento
turístico, tal como conhecemos a atividade atualmente.

2 RELAÇÃO TURISMO E SOCIEDADE


Já vimos o conceito de turismo e de sociedade na primeira unidade deste
caderno, mas você ainda lembra? Caso esteja com alguma dúvida, recomendo
fazer novamente a leitura dos tópicos 2 e 5 da Unidade 1.

Como vimos na unidade anterior, muitas foram as lutas referentes ao


assunto trabalho. A relação trabalho, tempo livre e lazer foi motivo de muitas
discussões.

Será que com a flexibilização do trabalho as pessoas passaram a dedicar


mais tempo às atividades de lazer? Ou será que esta é uma pura ilusão da sociedade
moderna? Vamos descobrir como foi esse processo então.

Na sociedade moderna não são discutidas somente as novas tecnologias,


as mudanças econômicas e políticas, a flexibilização do capital e suas influências
no mercado de trabalho. Também se discute a sobrevivência de um sistema de
produção globalizado e interligado, onde os resultados de uma ponta podem ser
abrangentes, trazendo consequências grandiosas.

TUROS
ESTUDOS FU

Sobre a globalização do turismo estudaremos no Tópico 3 desta unidade.

143
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

Na época pós-industrial surgem novos problemas como a falta de dinheiro


da população para consumir as mercadorias que o próprio sistema capitalista
produz, ocasionando o desemprego.

Para Kurz (1993), quem se sobressaiu a esta realidade na sociedade moderna


são as economias do Japão e Alemanha, seguidos também em destaque pelos
Estados Unidos, Canadá, França, Itália e Reino Unido. Nestes países a pobreza e a
miséria aparecem em escala razoável.

O desemprego ainda continua sendo um grande vilão da sociedade


capitalista. A diferença está no fato de que muitos países que não tinham mão de obra
suficiente, como o caso da Europa e dos Estados Unidos (que chegavam a receber
muitos visitantes com visto temporário), atualmente sofrem as consequências que
antes eram vividas somente pelos países subdesenvolvidos. Já alguns países como
o Brasil e a China conseguiram reverter este quadro positivamente.

E
IMPORTANT

Vale lembrar que esta não é mais a realidade hoje, pois em épocas de globalização
a crise mundial acarreta efeitos em todo o mundo capitalista.

Os países da periferia do capitalismo seriam da América Latina e da África,


com poucas exceções para aqueles favorecidos pelo turismo. Kennedy (1993) faz
a mesma análise que Kurz, porém afirma que a Ásia se recuperou da miséria,
pois adotou o modelo de desenvolvimento capitalista. Estamos nos referindo aos
chamados “tigres asiáticos”: China, Hong Kong, Coreia do Sul, Cingapura e Taiwan.
Mas também podemos mencionar Indonésia, Malásia, Tailândia e Filipinas.

Nestes países, com o aumento da pobreza e desemprego, aumenta também


a revolta com os privilegiados, pois as injustiças sociais são bem acentuadas.
Embora não entremos em detalhes, essas não são características exclusivas dos
países subdesenvolvidos. Em países como os Estados Unidos, Reino Unido e
Espanha, houve uma queda de salários e revoltas raciais. Os regimes social-
democratas sofreram crises de ideologia, de liderança, e aconteceram escândalos
políticos na Espanha, França e Itália. (TRIGO, 2000).

Se as condições dos trabalhadores de países desenvolvidos e de uma


minoria de países subdesenvolvidos melhoraram no final do século XX, para a
maioria da população mundial a situação permanece estagnada há alguns séculos.

Dentre as causas apontadas por Kennedy (1993) para o crescimento da


pobreza no mundo, destacamos: as novas tecnologias, o crescimento das taxas
de natalidade dos países mais pobres, a crescente poluição ambiental, a redução

144
TÓPICO 1 | TURISMO, SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO

dos postos de trabalho causada pelas crises econômicas e pela informatização


das linhas de montagem industriais e por processos administrativos de empresas
prestadoras de serviços.

O chamado fenômeno do crescimento econômico nos países desenvolvidos


não veio acompanhado do aumento de emprego, e isto foi motivo de grande
preocupação para os líderes políticos. Para a Organização Mundial do Trabalho
(OIT), o avanço tecnológico é uma das principais causas desse problema.

Com a desaceleração das economias dos países desenvolvidos, observamos


surgir novos mercados econômicos ao longo dos anos espalhados pelo mundo, como
ilustra a figura a seguir.

FIGURA 22 – BLOCOS ECONÔMICOS

FONTE: FILOSOFANDO e historiando. Disponível em: <http://filosofandoehistoriando.


blogspot.com/2011/10/os-conflitos-no-oriente-medio-e crise_5713.html>. Acesso
em: 20 nov. 2011.

Os conflitos no Oriente Médio e a crise no socialismo provocaram aumento


da competição econômica entre países e empresas, possibilitando a formação de
blocos econômicos. Com a tendência de unificação dos mercados, surgiram novos
polos de industrialização, como, por exemplo, o Japão.

O crescimento do setor terciário da economia vem acompanhar as


transformações conjunturais internacionais. Surgem nesta época então algumas
dúvidas no que se refere à formação profissional em turismo no Brasil. “Como
é possível falar em perfil de profissional, a se formar a priori, diante de tantas
incertezas? Como estabelecer um perfil de profissional em uma atividade tão
pluralista, mutável e sensível às crises econômicas, políticas e sociais, como é o
caso do turismo e do setor de serviços em geral?” (TRIGO, 2000, p. 99).

145
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

3 O DESENVOLVIMENTO TURÍSTICO NA SOCIEDADE


CONTEMPORÂNEA
Como vimos, a sociedade moderna estava passando por muitos problemas,
especialmente econômicos e sociais, e algumas atividades foram vistas como
alternativas para essa crise. O turismo foi uma delas. A partir dos anos 60 o turismo
começou a ter um grande crescimento, sendo-lhe atribuída, após anos de guerra
e de crise, a tentativa de recomeço. Mas será que toda essa euforia durou muito
tempo?

Primeiramente vamos buscar entender como ocorreu o desenvolvimento


turístico na sociedade contemporânea, acompanhando a evolução deste setor nos
últimos anos.

NOTA

Por era contemporânea entende-se o tempo que compreende o final do século


XIX até os dias atuais.

Com o grande crescimento do turismo no século XX, foi considerado um


dos setores mais importantes da economia mundial. Aqui podemos destacar o
turismo de massa, que foi impulsionado pelas inovações nos meios de transporte e
nas tecnologias de informação e comunicação (internet).

E
IMPORTANT

O turismo de massa é caracterizado por ser realizado normalmente em grupos,


com gastos reduzidos e permanência de curta duração. Está associado à intensifi­cação da
utilização das infraestruturas e dos equipamentos turísticos; excessiva utilização dos espaços
(destruição); à degradação dos monumentos e centros históricos; destruição do patrimônio
natural mais sensível. É muito criticado, especialmente no que se refere à sustentabilidade e à
preservação do local visitado. (PINHO, 2011).

146
TÓPICO 1 | TURISMO, SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO

FIGURA 23 – TURISMO DE MASSA

FONTE: PROFISSÃO turismóloga? Disponível em: <http://www.


profissaoturismologa.com/2011/09/to-have-fun-turismo-de-massa.
html>. Acesso em: 6 dez. 2011.

O contexto mundial é propício às conquistas sociais em­preendidas pelos


trabalhadores, pois direitos adquiridos como férias remu­neradas asseguraram
condições para o usufruto do tempo de lazer. Para você ter uma ideia da tamanha
expansão do turismo, saiba que em alguns países como França, Suíça, Bélgica,
Holanda, Austrália, Nova Zelândia criaram-se financiamentos para gastos de
viagens.

NOTA

Os mecanismos de financiamento de viagens foram criados para o turismo social,


praticado por aqueles que não teriam recursos financeiros para arcar com os custos de uma
viagem sem a assistência de uma instituição (sindi­catos). (BEZERRA, 2003).

147
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

Mesmo com o fim dos considerados “trinta anos glo­riosos do turismo”,


nas décadas de 1950, 1960 e 1970, período posterior à Segunda Guerra Mundial,
isto não implicou a estagnação da atividade. As melhorias dos meios de
hospedagem mundial e dos transportes aéreos, bem como uma extensa estrutura
de comercialização, influenciaram e trouxeram um novo ciclo de crescimento do
setor de turismo.

Na metade do século XX houve um crescimento no turismo mundial.


Por ser uma atividade muito dinâmica, o turismo acaba se transformando em
impulsionador de outros setores da economia mundial, como a indústria e serviços.
Isto faz com que o turismo seja responsável por uma parcela considerável do PIB
(Produto Interno Bruno) mundial. Esta situação também não é diferente no Brasil.

TUROS
ESTUDOS FU

Sobre o turismo internacional e sua representação na economia trataremos no


próximo tópico desta unidade.

Embora haja muitos fatores positivos no turismo, Krippendorf (2000) traz


o outro lado da questão. No início da década de 70, começou-se a perceber que as
coisas não eram bem assim e as críticas da atividade turística começaram a surgir.
Críticas estas que ainda podem ser observadas atualmente, no mundo inteiro,
relacionadas principalmente aos custos e benefícios do turismo para a economia,
o meio ambiente e a sociedade. No desenvolvimento da atividade turística em
alguns destinos o discurso normalmente trata apenas das vantagens e das questões
econômicas e se esquece das preocupações, alertas e riscos. (KRIPPENDORF, 2000).

Em alguns casos a revolta com os problemas que o turismo traz (violência,


bagunça, desordem etc.) é tão grande que chegam a existir os movimentos chamados
de antiturismo. Estes movimentos têm grande participação da comunidade
local, mas geralmente possuem influência política e partidária, em que alguns se
aproveitam da situação em prol de interesses pessoais. Muitas vezes é mais fácil
criticar e apontar os erros, que sugerir mudanças e realmente transformar algo.

Considerando esta situação várias alternativas estão sendo formuladas


para amenizar os efeitos negativos, como destaca Krippendorf (2000): benefícios à
população; preservar a configuração da paisagem e capitais locais; preocupação com
as gerações futuras, por meio de projetos a médio e longo prazo; desenvolvimento
da comunidade; aumento dos preços de terra; liquidação da pátria; participação
da população local nas ações realizadas nos projetos turísticos.

148
TÓPICO 1 | TURISMO, SOCIEDADE E DESENVOLVIMENTO

Percebemos que algumas ações estão sendo realizadas a favor dessa


situação, a começar pela mudança de hábitos dos turistas, porém este processo
precisa ser agilizado, caso contrário alguns locais terão suas atividades turísticas
suspensas e extintas.

Uma mudança na cultura turística atual por parte dos turistas seria uma
alternativa para essa situação, mas, para Krippendorf (2000, p. 102), isto exigiria
“tempo, experiência e educação”. Infelizmente isto ainda está longe de ocorrer
na prática, pois a maioria dos turistas ainda é “passiva e ingênua” e apenas uma
minoria “ativa e consciente”.

LEITURA COMPLEMENTAR

AS SOCIEDADES NA CULTURA DO TURISMO

Christiane Barlera

A expansão das atividades relacionadas ao turismo tem sido grande no Brasil


e no mundo. Novos destinos são continuamente descobertos e aproveitados como
locais de potencial turístico, gerando novas atividades, oportunidades de trabalho e o
desenvolvimento local. Da mesma forma, polos receptores já consagrados continuam
se desenvolvendo e incrementando-se para melhor atender às necessidades e
expectativas dos visitantes.

Novas tendências, originadas da segmentação das modalidades do turismo,


também têm contribuído significativamente para o crescimento do setor, abrindo
um leque de atividades interdependentes. Desse modo, as dimensões do turismo
tornam-se cada vez mais amplas, abrangendo diversas destinações e envolvendo
mais comunidades, e locais até aparentemente inexpressivos adquirem, às vezes,
grande importância turística pelas suas peculiaridades e atrativos. 

No entanto, não podemos considerar essas comunidades como um todo, pois


cada uma delas possui seus próprios hábitos, sua cultura e identidade, lembrando
que uma sociedade não se faz superior ou inferior às outras, mas sim distinta delas.
Neste sentido, o turista, ao visitar um local, deve estar preparado para respeitar
o modo de vida da comunidade ali existente, adequando-se aos seus costumes e
tradições, e não promovendo, de modo algum, a descaracterização dessa sociedade.
Afinal, a riqueza cultural e o encanto das nações encontram-se justamente na
singularidade dos povos e de suas culturas. E é através disto que temos oportunidade
de conhecer, aprender e admirar toda essa diferenciação.

O próprio turismo está diretamente vinculado a este contexto. Ele ultrapassa


fronteiras, aproxima povos e possibilita o contato entre as diferentes culturas. Os
resultados deste intercâmbio são muito interessantes, tanto para as pessoas que
viajam como para aquelas receptoras, quer seja envolvendo-as enquanto indivíduos

149
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

singulares ou como componentes de uma nação. Todavia, não podemos ignorar


os estágios de desenvolvimento entre as nações e o fato de que, quando povos de
classificação distinta se encontram no mesmo local, podem ocorrer impactos culturais
e conflitos étnicos. Em virtude disso, o turismo se descaracteriza e perde seu valor.

Portanto, as próprias empresas envolvidas com a realização de atividades


turísticas (operadoras, agências de viagens e outros) precisam estar conscientes de
que, acima de visarem apenas ao lucro com a venda de viagens e comodidades,
é necessário desenvolver meios para que isto seja feito de forma responsável, de
modo a não ameaçar as sociedades participantes deste processo.

É evidente que o mundo capitalista no qual estamos inseridos dificulta


a formação dessa consciência, mas, ao mesmo tempo, é a preservação dos locais
turísticos e das suas peculiaridades que assegura a sua continuidade como atrativos
para os viajantes. Assim, torna-se inadmissível que hábitos e costumes de uma
população sejam sacrificados em função da presença do turista. Não é o local que
tem de se adaptar ao visitante, mas sim o contrário. A postura de que o turista exerce
superioridade no lugar que está visitando é completamente equivocada e precisa
ser revista. E não pode ser confundida com a cortesia e atenção que o visitante
merece. Ele, ao inserir-se numa sociedade, deve estar apto a respeitá-la como um
todo, tendo a consciência, além do mais, de que ele como indivíduo representa a
imagem de seu país ou região de origem.

FONTE: BARLERA, Christiane. As sociedades na cultura do turismo. Revista Turismo [on-line].


Disponível em: <http://www.revistaturismo.com/artigos/sociedades.html>. Acesso em: 19 nov.
2011.

150
RESUMO DO TÓPICO 1

Neste tópico você estudou que:

• Na sociedade moderna não são discutidas questões micro como as novas


tecnologias, mas sim a sobrevivência de um sistema de produção globalizado e
interligado.

• O desemprego foi e continua sendo um dos grandes vilões da sociedade


capitalista.

• Problemas como a pobreza e o desemprego geram revolta nas classes menos


favorecidas. As desigualdades sociais, embora mais acentuadas nos países
subdesenvolvidos, não são exclusividade destes.

• O turismo foi uma das alternativas encontradas por algumas sociedades diante
de problemas econômicos e sociais.

• Com o crescimento turístico, especialmente na década de 60, o turismo de massa


teve destaque.

• Os chamados “trinta anos glo­riosos do turismo” aconteceram nas décadas


de 1950, 1960 e 1970, mas um novo ciclo de crescimento do setor de turismo
aconteceu por causa de melhorias nos meios de hospedagem, ampliação do
transporte aéreo e estruturação da comercialização.

• Embora os benefícios do turismo sejam vários, existem movimentos antiturismo,


formados principalmente pela população local, que não concorda com a forma
de desenvolvimento da atividade atualmente.

151
AUTOATIVIDADE

1 Você estudou a evolução do setor de turismo, especialmente a partir


da metade do século passado até os dias atuais. Quais os fatores que
propiciaram tal mudança?

2 Levando em consideração a força econômica do Brasil nos últimos anos, em


especial após o Plano Real, em 1994, como você classificaria o desemprego
na sociedade brasileira atual?

3 Diante do desafio de estabelecer uma relação harmoniosa entre turismo e


sociedade, cite algumas recomendações.

152
UNIDADE 3
TÓPICO 2

TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

1 INTRODUÇÃO

Neste tópico, você estudará o processo de globalização observado em todo o


mundo, especialmente a partir da década de 1980, e suas pos­síveis implicações para o
setor de turismo.

Teremos dois momentos: o primeiro trata do processo de globalização,


sua definição, suas características e um balanço de benefícios e problemas para a
sociedade mundial. No segundo momento, você analisará o turismo no contexto
da globalização, com as implicações e conse­quências para esse setor.

2 GLOBALIZAÇÃO
A globalização é definida como um processo de integração de mercados
domésticos no processo de formação de um mercado mundial, trazendo várias
consequências para a economia e a socie­dade, como analisaremos a seguir.
(PINHO, 2011).

O termo globalização é muito utilizado na mídia com o sentido simplório de


“aldeia global”. Provavelmente você já ouviu falar muito sobre a globalização, não
é? Neste estudo faremos uma análise com ênfase no aspecto econômico, sob uma
visão crítica. O termo é, muitas vezes, utilizado como sinônimo de mundialização
do capital ou internacionaliza­ção econômica. Iremos ver que é muito mais além
disso.

2.1 HISTÓRIA E CONCEITUAÇÃO


No início do século XXI, assistimos ao crescimento da homogeneização
e universalização dos padrões de consumo, resultados da mundialização e da
globalização da economia. Vivemos em uma sociedade de consumo de massa
que teve início em fins do século XIX e início do século XX, conforme ressalta
Hobsbawm (1996, p. 107), para o historiador, “[...] a grande expansão da década
de 1850 marca a fundação de uma economia industrial global e de uma história
mundial única".

Podemos dizer que o processo de internacionalização do capital e a


retomada e expansão do capitalismo no mundo, após a Segunda Guerra Mundial,
foram fatores decisivos para questionamentos sobre ideologias, filosofias de

153
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

vida, hábitos e costumes de povos, situação nunca imaginada anteriormente.


Neste contexto deflagraram-se revoluções, houve o envolvimento de religiões e
movimentos sociais se posicionaram algumas vezes em defesa e outras contra este
novo processo da “aldeia global”. (BENI, 2003).

No entanto, antes de analisar o conceito da globalização, iremos entender


melhor como se dividiu o mundo a partir desse novo processo.

A globalização, dirigida pelos países do Norte, sobretudo pela hegemonia


de Estados Unidos e Canadá, Europa Ocidental e Japão, tem como seu representante
soberano os Estados Unidos.

A transferência do eixo financeiro mundial de Londres para Nova Iorque,


durante o período conhecido como entreguerras, só foi retardada pela crise de
1929 e o colapso econômico dos anos 30. A Segunda Guerra Mundial (1939-1945)
foi o golpe fatal para o fim de uma ordem econômica mundial já em processo de
fracasso desde a Primeira Guerra (1914-1918), balizada sob a barreira britânica.
(SILVA, 2004).

A nova ordem mundial após 1945 foi centrada e organizada nos Estados
Unidos, iniciando uma nova fase de reprodução da economia mundial capitalista.
Podemos considerar que no período de 1940 até 1970 a economia mundial passou
por um rápido crescimento, lembrando que geralmente nas regiões centrais do
capitalismo.

Menciono a recuperação que o Japão e a Europa Ocidental, com destaque


para a Alemanha, tiveram após sua devastação com a Segunda Guerra Mundial,
chegando a se tornar respectivamente, a segunda e terceira potências econômicas.

Mas todas estas transformações aqui discutidas não foram somente mérito
dos Estados, mas, sobretudo, das empresas que contribuíram no desenvolvimento
econômico e tecnológico. Nesse contexto as multinacionais tiverem uma grande
contribuição.

Silva (2004) também destaca que, a partir de 1970, a concorrência levou


essas grandes corporações, com o auxílio dos Estados, a investirem em pesquisa
e desenvolvimento, gerando importantes avanços científicos e tecnológicos. Esse
período ficou conhecido como Revolução Técnico-Científica ou Terceira Revolução
Industrial. O aumento da produtividade e da economia começou a se basear no
processamento de informações e na geração de conhecimentos.

Mas, afinal, quando de fato ocorreu o processo de globalização? Foi a partir


de 1980, com constantes e rápidas mu­danças econômicas mundiais. O conjunto
dessas rápidas transformações na economia mundial foi denominado globalização.

Para Pinho (2011), o contexto internacional de rápido desenvolvimento


tec­nológico e de adoção de políticas neoliberais, foi decisivo para a expansão da
globalização.
154
TÓPICO 2 | TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

NOTA

O aumento do número de empresas multinacionais foi uma das características


da globalização. Mas você sabe o que é uma empresa multinacional? Caracteriza-se por de­
senvolver uma estratégia internacional a partir de uma base nacional, sob a coordenação de
uma direção centralizada. Conhecidas também pela denominação de empresas internacionais
ou transnacionais, as multinacionais resultam da concentração do capital e da internacio­
nalização da produção capitalista. Normalmente, estruturam-se a partir de uma empresa matriz
ou sede e suas filiais. As empresas filiais podem produzir para a matriz ou para o mercado
doméstico onde estão inseridas. (PINHO, 2011).

Beni (2003) traz algumas conceituações de globalização, conforme


os estudos de alguns autores: a primeira seria a de que “[...] a globalização é a
aceleração das trocas de bens e serviços, das informações e comunicações, das
viagens internacionais e do intercâmbio cultural”. (p. 14). Outra característica
é a interdependência das nações devido ao aumento do fluxo de comércio e de
capitais, ou seja, os mercados comuns.

Outros estudiosos destacam a aceleração das mudanças tecnológicas, a


reorganização dos padrões de gestão e de organização da produção, distribuição,
consumo e competitividade.

Outros efeitos da globalização, destacados por Beni (2003), são a


desregulamentação dos mercados, a privatização do setor público, a alteração da
constituição do Estado a fim de privilegiar políticas sociais de combate a vários
problemas, muitos dos quais neste caderno já destacados.

E
IMPORTANT

Características da globalização:
• abertura político-econômica dos países;
• aumento das empresas multinacionais;
• intenso comércio global: através de exportações e importações entre países;
• aumento e intensa concorrência entre empresas e países;
• intensas transações financeiras;
• desregulamentação dos mercados;
• reestruturação econômica;
• aumento da riqueza mundial.

155
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

FIGURA 24 – NOVAS TECNOLOGIAS

FONTE: NOVAS Tecnologias. Disponível em: <http://elisenila.blogspot.


com/2011/04/globalizacao-e-um-fenomeno-social-que.html>.
Acesso em: 22 nov. 2011.

A globalização é a soma de muitas transformações, mas com certeza a


evolução das telecomunicações, juntamente com os transportes, se destaca. A
informática atualmente é essencial nas relações econômicas, mas também sociais,
culturais, pessoais etc. como procura ilustrar a figura acima.

Dentre os vários efeitos da globalização em médio e longo prazo, limitadas


pelas injustiças da livre concorrência do mercado, observamos muitas conquistas.
Surgem alguns questionamentos como: “o que, como, para quem e a que preço
produzir, e como e onde distribuir com ação estratégica, analisando todas as
variáveis que entram na escala de produção.” (BENI, 2003, p. 15).

Com a globalização novas prioridades fazem parte dos países: em primeiro


lugar as relações econômicas internacionais, antes mesmo da defesa nacional.

Alguns autores questionam se, mediante a diminuição do poder dos Estados


nacionais, algumas nações ainda possuem a sua própria governabilidade. Ou esta
diminuirá até a absorção de um Estado mais forte? Sugiro que você também reflita
a respeito.

156
TÓPICO 2 | TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

2.2 PROCESSOS DA GLOBALIZAÇÃO


Há diferentes formas de interpretação da globalização, pois se trata de coisas
distintas para variadas pessoas. Contudo para melhor entender este processo,
Pinho (2011) classifica o fenômeno em quatro linhas básicas de interpretação:

• globalização como uma época histórica;

• globalização como um fenômeno sociológico de com­pressão do espaço e tempo;

• globalização como hegemonia dos valores liberais;

• globalização como fenômeno socioeconômico.

Como nosso estudo é todo baseado na discussão social, iremos analisar


aqui a globalização sob o fenômeno socioeconômico.

Para Pinho (2011, p. 5), “A ideia de globalização, como fenômeno


socioeconômico, é definida como a interação de três processos distintos que têm
ocorrido ao longo dos últimos 20 anos e que afetam as dimen­sões financeira,
produtiva e comercial das relações econômicas internacionais”.

Levando em consideração esta definição podemos analisar o processo de


globalização em três processos que, na verdade, estão interligados. São eles:

• Globalização comercial: é a integração dos mercados nacionais através do


comércio internacional. Nas duas últimas décadas do século XX, observamos
um aumento significativo das transações comerciais, principalmente no aumen­
to dos fluxos de exportações e importações. A globalização comercial é a mais
facilmente mensurável: se o crescimento do comércio mundial é dado a uma taxa
média de crescimento anual mais elevada do que a do PIB mundial, podemos
afirmar que há globalização comercial. (PINHO, 2011).

157
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

GRÁFICO 1 – PIB BRASILEIRO

FONTE: REVISTA Ideias e Negócios. Disponível em: <http://www.revistaideiasenegocios.


com.br/IN/?p=304>. Acesso em: 23 nov. 2011.

• Globalização financeira: representada pela integração dos mercados


financeiros nacionais em um grande mercado financeiro internacional. Tem
como características os aumentos dos fluxos financeiros, das especulações, dos
investimentos e dos fluxos de capitais entre países.

• Globalização produtiva: é o processo de integração das estruturas produtivas


domésticas em uma estrutura produtiva internacional. Caracteriza-se por
mudanças nas empresas, especialmente observada na sua multinacionalização.

Para Silva (2004) a nova ordem mundial estava alicerçada numa base
tríplice:

- Financeiro: criação do sistema financeiro mundial com o Banco Internacional


de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), ou seja, o Banco Mundial; Fundo
Monetário Internacional (FMI); o dólar como uma moeda de reserva ou de
circulação mundial.

- Militar: novos alicerces militares com a supremacia do poderio bélico e militar


norte-americano, demonstrados através das explosões de bombas atômicas, nas
cidades de Hiroshima e Nagasaki, no Japão.

- Político: criação da Organização das Nações Unidas (ONU), com sede em Nova
Iorque.

158
TÓPICO 2 | TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

NOTA

Podemos também acrescentar a estes alicerces da nova ordem mundial o uso


corrente da língua inglesa como língua universal.

2.3 DIFERENTES INTERPRETAÇÕES DA CULTURA GLOBAL


Você consegue fazer um balanço da globalização? Dentre os estudos
sobre a globalização observamos muitos autores se posicionando positiva ou
negativamente em relação a este fenômeno. Eles consideram em suas análises
aspectos históricos, econômicos, sociais, entre outros.

De acordo com Pinho (2011), os indicadores de al­fabetização, matrícula


escolar, mortalidade infantil e expectativa de vida apresentaram enormes
progressos nas últimas décadas. A democracia disseminou-se por todo o mundo,
tomando o lugar de regimes autoritários. A globalização também foi benéfica para
o crescimento global da produção, para o lucro e para os detentores do capital e de
habilidades sofisticadas. Ninguém teve mais benefícios com a globalização que os
países asiáticos. Outros benefícios:

• aumento de lucro;

• aumento de indicadores econômicos;

• feroz competitividade e liberalização de mercados;

• reestruturação econômica.

Em contrapartida a globalização foi ruim principalmente para os países


po­bres (como os da África), para o emprego, para os que não pos­suem bens e
para os que têm pouca flexibilidade profissional. O aumento da competitividade
internacional por mercados e por empregos forçou os governos a reduzir a
tributação, o que resultou na redução dos serviços sociais de proteção aos pobres,
também cortes com os serviços públicos e regulamenta­ções que protegiam o
meio ambiente, forçando, também, governos e empresas a adotar medidas que
pudessem assegurar o baixo custo da mão de obra. (PINHO, 2011).

Dentre os danos causados por este fenômeno estão:

• aumento do empobrecimento;

• aumento das desigualdades;

• enfraquecimento das instituições públicas;

159
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

• aumento da insegurança no trabalho;

• desgaste das identidades e dos valores estabelecidos.

QUADRO 3 – BALANÇO DA GLOBALIZAÇÃO


BOM para RUIM para
Japão, Europa, América do Norte, Leste A maioria dos países em de­senvolvimento da
e Sudeste Asiático. África e da América Latina.
Produção. Emprego.
Pessoas detentoras de bens. Pessoas não detentoras de bens.
Lucros. Salários.
Pessoas com qualificação profissional. Pessoas com pouca qualificação profissional.
Pessoas com boa formação acadêmica. Pessoas com nenhuma ou pouca formação
acadêmica.
Pessoal técnico-administrativo. Operários.
Credores. Devedores.
Pessoas que não dependem dos serviços Pessoas que dependem dos serviços públicos.
públicos.
Grandes empresas. Pequenas empresas.
Homens. Mulheres e crianças.
Mercados globais. Comunidades locais.
Países e empresas que ven­dem produtos Países e empresas que ven­d em produtos
sofisticados. primários.
Cultura global. Culturas locais.
FONTE: Adaptado de: Pinho (2011, p. 75)

No Quadro 3, temos um balanço do processo de globalização de maneira


crítica. Observamos que a globalização foi boa para algumas pessoas, regiões e
países, mas teve resultados negativos para outros.

Sobre a massificação e a homogeneização cultural, Dreifuss (1996, p.136-138)


enfatiza que

A mundialização lida com mentalidades, hábitos e padrões; com estilos


de comportamento, usos e costumes e com modos de vida, criando
denominadores comuns nas preferências de consumo das mais diversas
índoles. Neste sentido, a mundialização lida com a massificação e
homogeneização cultural, evidente no consumo de hambúrgueres,
pizzas, sorvetes, iogurtes, refrigerantes, cigarros, jeans, tênis, cartões etc.
Da China à Dinamarca, da Finlândia ao Peru, são os mesmos produtos,
das mesmas marcas e modelos iguais. Mas a mundialização também
incorpora as particularidades - locais, regionais, nacionais, étnicas,
religiosas, de grupos sociais e culturais - subsumidas na dinâmica
mundial de consumo de uma heterogênea Terra.

160
TÓPICO 2 | TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

Podemos afirmar muitas coisas sobre os efeitos negativos da globalização,


mas neste novo mundo somos forçados a exercer a capacidade de compreensão
e a vontade de transformação. Vivemos em uma humanidade da esperança e em
busca de novos conhecimentos.

Neste processo de globalização obviamente os países desenvolvidos são


beneficiados. Dentre alguns dos efeitos negativos, em especial para os países
emergentes, Beni (2003) destaca os meios de troca, pois os países emergentes
produzem bens de baixo valor agregado e de grande oferta no mercado
internacional.

Em contrapartida e levando em consideração a atividade turística, estes


mesmos países têm a oportunidade de se inserir na economia internacional
mediante o turismo receptor, onde os bens são comprados e consumidos no local
de origem.

Entretanto precisamos entender que o processo da globalização é inevitável


e fica a sugestão de pensarmos maneiras de equilibrar os efeitos negativos. A
grande crítica dos estudiosos se concentra nas oportunidades extraordinárias, que
foram durante muito tempo e ainda serão, concentradas apenas para algumas
pessoas, grupos ou países.

DICAS

Para complementação do tema da globalização, recomendo a leitura dos seguintes


livros: M. Castells, A sociedade em rede – a era da informação, economia, sociedade e cultura;
T. Friedman, O lexus e a oliveira; e D. de Masi, A sociedade pós-industrial.

3 DIMENSÃO DA GLOBALIZAÇAO NO CONTEXTO TURÍSTICO


Vivemos em um mundo globalizado e este processo é irreversível. O futuro
se tornou incerto, mas também com mais oportunidades de trabalho e diversão.
Neste contexto o turismo não é um agente passivo, mas um ator central na
construção desse novo mundo.

Para Beni (2003, p. 15), o setor de turismo só perde para o setor de serviços
financeiros, quando se trata de globalização. Para ele isto se deve principalmente
aos seguintes fatores:

• aumento da liberalização do comércio mundial;

• incorporação de novas tecnologias como a informática e as telecomunicações;

161
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

• integração horizontal e vertical da empresas de turismo;

• difusão territorial do consumo;

• flexibilização do trabalho nos diversos setores produtivos, incluindo o próprio


setor de turismo.

De acordo com Rodrigues (1999, p. 9), "Não há como pensar em turismo


sem contextualizá-lo no processo de globalização-fragmentação, fenômeno da
contemporaneidade".

Não entraremos aqui na história do turismo, mesmo porque já mencionamos


isso na primeira unidade deste caderno, mas obviamente os avanços tecnológicos
foram muito importantes para o turismo, dentre os quais podemos mencionar os
meios de transporte ferroviário, marítimo, rodoviário e aéreo.

Além destes avanços, Pinho (2011) também destaca outros fatores que
influenciaram o crescimento do turismo: maior disponibilidade e acessibilidade
de serviços, instalações e produtos, liberação co­mercial, entre outros.

Para Silva (2004), a indústria do turismo e viagem configura-se no cenário


econômico e político mundial como uma forma de reprodução de capital.

Num mundo globalizado o turismo apresenta-se em inúmeras


modalidades, sob diversas fases evolutivas, que podem ocorrer
sincronicamente num mesmo país, em escalas regionais ou locais.
Expande-se em nível planetário, não poupando nenhum território - nas
zonas glaciais, nas cadeias terciárias, até nas regiões submarinas - na
cidade; no campo; na praia; nas montanhas; nas florestas, savanas,
campos e desertos; nos oceanos, lagos, rios, mares e ares. (RODRIGUES,
1999, p. 17).

Sendo o turismo um importante segmento da economia mundial, Rodrigues


(1999) traz alguns dados que comprovam esta afirmação. Conforme a OMT, o
turismo representa um terço da receita global do setor de serviços. O setor também
é responsável pelo emprego de mais de 212 milhões de pessoas no mundo todo,
movimentando mais de 3 trilhões e 400 bilhões de dólares.

Mas será que a distribuição do desenvolvimento turístico pelo mundo


é igual? Assim como existem desigualdades no processo de globalização, a
distribuição do turismo também está centralizada em países ou regiões que
oferecem maior infraestrutura para receber visitantes, ou seja, os países mais ricos.

A participação dos países no número total de turistas estrangeiros segue a


seguinte sequência: França 10,9%, Estados Unidos 8,1%, Espanha 7,2%, Itália 5,7%,
Reino Unido 4,4%, China 4,0%, México 3,8%, Canadá 3,0%. (SMITH, 1999, p. 32).

162
TÓPICO 2 | TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

TUROS
ESTUDOS FU

Não veremos muitos dados e nem detalharemos a posição do Brasil e dos demais
países no desenvolvimento turístico porque abordaremos este assunto no Tópico 3 desta
unidade.

Se quisermos analisar os efeitos negativos do turismo sob um âmbito global,


Pinho (2011) destaca o turismo de massa, pois visa somente ao lucro, preocupando-
se pouco com questões ambientais, sociais e culturais dos destinos visitados. Nesta
forma de turismo, bastante comum na sociedade atual, não se tem a preocupação
com viabilidade futura, justamente porque não se respeitam alguns critérios.

Dentre os benefícios do turismo destacamos a valorização e preservação


da cultural local, por meio de tradições, costumes e paisagens. O crescimento da
própria atividade propiciou o desenvolvimento de novos segmentos turísticos
como o turismo de negócios, o turismo da terceira idade, o turismo de saúde (spas),
o turismo de eventos, o agroturismo e ecoturismo.

Obviamente a globalização contribuiu muito para o turismo, porém devemos


ter o cuidado para que a atividade não se torne algo padronizado. Devemos ter
consciência de que a cultura local deve sempre permanecer ante as facilidades
do mundo moderno e global. Algumas tentativas vêm sendo desenvolvidas para
manter os hábitos específicos de determinados locais. Segue a representação de
um cluster turístico, exemplo de estruturas locais:

163
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

FIGURA 25 – REPRESENTAÇÃO DE UM CLUSTER TURÍSTICO

FONTE: CAJA de herramientas. Disponível em: <http://www.infomipyme.com/Docs/GT/Offline/


Experiencias/Aprendizaje_Casa_Santo_Domingo.html>. Acesso em: 22 nov. 2011.

E o Brasil, como está nesse processo todo? Pois bem, mesmo possuindo
tantas belezas naturais e culturais e com o fortalecimento da economia, o Brasil
não consegue ter uma boa posição no ranking do turismo internacional, pois ocupa
a posição 52 entre 139 países avaliados.

Embora o conceito do país no cenário internacional esteja se transformando,


durante muito tempo o Brasil foi considerado de periferia dentro do sistema global.
Portanto a análise da atividade econômica do turismo no Brasil sempre refletiu as
teorias geográfico-econômicas sobre centralidade, periferização e crescimento.

Não resta dúvida de que o turismo continuará a crescer no mundo inteiro,


e também no Brasil. No entanto, enquanto medidas concretas para problemas
sociais como educação, saúde e segurança pública não forem adotadas, será difícil
conquistar o lugar que o Brasil merece no cenário turístico mundial.

164
TÓPICO 2 | TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

LEITURA COMPLEMENTAR

PLANEJAMENTO TURÍSTICO REGIONAL

Poliana Fabíula Cardozo

O planejamento turístico é apontado como uma ferramenta indispensável para


o manejo sustentável da atividade, manejo este aqui compreendido em plataforma
ambiental, social, econômica e política. Pois é com medidas racionais e previstas que
se trabalha em harmonia – relativa – com o meio e a sociedade, de modo a preservar o
turismo do próprio turismo e para o turismo. Pois sem o planejamento, corre-se o risco
de o crescimento desordenado da atividade turística atentar contra a atratividade dos
recursos e das localidades, que por sua vez figuram como a matéria-prima do turismo.
(BENI, 1998).

O planejamento turístico pretende dispor positivamente as ações dos sujeitos


sobre uma localidade ou mesmo um recurso turístico com objetivos calculados, a fim
de proteger o recurso propriamente dito, ou mesmo de aperfeiçoar (tanto no sentido de
ampliar, como de refrear, ou ainda em sentido estrito) seu uso turístico. O planejamento
turístico é, pois, encarado como uma ferramenta racional da gestão de destinos, que
visa alterar uma realidade atual por um panorama futuro que se deseja.

Isto posto, cabe mencionar que o planejamento tem classificações próprias, e estas
interessam particularmente a esta reflexão sobre a regionalização do turismo: sabe-se
que pode ser classificado em vários tipos, dependendo da abordagem. Para tal, Barretto
(1991, p. 17-21) lista: aspecto temporal; aspecto geográfico, corresponde às seguintes
classificações: mundial; continental; nacional; estadual; regional; multirregional;
microrregional; municipal (ou local), e ainda duas subclassificações: rural e urbano;
aspecto econômico; aspecto administrativo; aspecto intencional ou teleológico; e aspecto
agregativo.

Barretto (1991, p. 21) ainda ensina que o planejamento turístico está elencado
em três níveis: 1º nível: federal; 2º nível: estadual; e 3º nível: municipal.

No que tange às dimensões do planejamento, Barretto (1991 p. 16) diz que são
quatro, a saber: racional; política (ou institucional) que se refere ao poder decisório;
técnico-administrativa que se evidencia no estabelecimento de um sistema de trabalho,
com definição de função e delegação de autoridade; e valorativa sendo a dimensão que
pesa os benefícios e os prejuízos que o planejamento pode ter.

Elucidadas as classificações, níveis e dimensões do planejamento turístico, faz-


se um recorte no que tange ao planejamento turístico municipal e suas especificidades.
Este planejamento, classificado com parâmetros geográficos, e alocado no terceiro nível,
atende a todas as dimensões supracitadas, e é sobre este que este texto dedicar-se-á.

Pensar o planejamento turístico regional é pensar não apenas em um destino


propriamente dito, mas em uma compósita de destinos agregados em uma única

165
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

região geográfica. A relevância de se refletir sobre estas questões justifica-se porque


a intervenção a ser realizada diz respeito a mudanças: na base econômica da região;
utilização do espaço urbano; e vida cultural dos residentes. Beni (2003) compreende
por região turística concentração urbana de lazer alinhada de forma linear, ou ainda
agrupamentos, roteiros ou circuitos promovidos por cidades limítrofes.

Regionalização do turismo é um modelo de gestão de política pública


descentralizada, coordenada e integrada, baseada nos princípios da flexibilidade,
articulação, mobilização, cooperação intersetorial e interinstitucional e na sinergia
de decisões. Regionalizar é transformar a ação centrada na unidade municipal em
uma política pública mobilizadora, capaz de provocar mudanças, sistematizar o
planejamento e coordenar o processo de desenvolvimento local e regional, estadual e
nacional de forma articulada e compartilhada. Adotar o modelo de regionalização do
turismo exige novas posturas e novas estratégias na gestão das políticas públicas; exige
mudanças de relacionamento entre as esferas do poder público e a sociedade civil; exige
negociação, acordo, planejamento e organização social. Supõe formas de coordenação
entre organizações sociais, agentes econômicos e representantes políticos, superando
a visão estritamente setorial do desenvolvimento. Incorpora, também, o ordenamento
dos arranjos produtivos locais e regionais como estratégico, dado que os vínculos de
parceria, integração e cooperação dos setores geram produtos e serviços capazes de
inserir as unidades produtivas de base familiar, formais e informais, micro e pequenas
empresas, que se reflete no estado de bem-estar das populações. (MTUR, 2004).

No Brasil, em termos de planejamento nacional do turismo, a descentralização do


turismo no país ocorreu em dois momentos, durante o governo FHC (1995-2002), quando
a Embratur lançou o Programa Nacional de Municipalização do Turismo (PNMT), que
visava à organização profissional, política e, sobretudo, turística de um município para
a recepção da atividade turística nos municípios. Um segundo momento encadeado
pelo já Ministério do Turismo, do governo Lula (2003-) diz respeito particularmente ao
Programa Nacional de Regionalização do Turismo, onde outra vez mais se pretende o
incentivo da emancipação turística, sobretudo em termos de políticas e planejamento,
de regiões determinadas.

O planejamento turístico regional deve prever a emancipação e descentralização


do turismo para a região em estudo, dessa forma, tem-se um planejamento mais flexível
que atende diretamente os interesses do setor da área, auferindo desta forma um olhar
para a comunidade local e com isso a possibilidade de ampliação dos benefícios que a
mesma pode auferir com o desenvolvimento desta atividade. E ainda mais, esse tipo
de planejamento eleva a região, valoriza seus aspectos culturais, naturais, seu mercado,
porque é um planejamento estudado particularmente para a região, por conhecedores
da mesma. É dizer que os pontos fortes e fracos serão considerados em sua extensão, e
podem tornar-se grandes diferenciais no mercado turístico competitivo.

Contudo, para tal planejamento obter sucesso é necessário que a localidade


tenha:

• estrutura administrativa em sua organização no que diz respeito ao turismo;

166
TÓPICO 2 | TURISMO E GLOBALIZAÇÃO

• políticas de turismo municipal, coadunando com a estadual e a nacional, e em relação


com as demais pastas da administração municipal;

• trabalhar com a comunidade e com o trade sobre a conscientização da importância


da atividade turística;

• conhecimento da demanda real, se existir, e potencial;

• inventário minucioso da oferta turística;

• diagnóstico; e

• conhecimento profundo do mercado, e isso inclui os mercados concorrentes.

Nas estratégias do processo de regionalização, o espaço territorial é concebido


como agente de transformação social e não meramente espaço físico. Assim,
planejar e estabelecer seu modelo de desenvolvimento implica o reconhecimento
das particularidades territoriais nos planos econômico, político, social, cultural e
ambiental. Nessa perspectiva, a participação representativa dos municípios e das
regiões é determinante, por se tratar de uma tarefa coletiva de interesses comuns. Desse
modo, o movimento de transformação se estabelece em espaços de debate, contínuo
e permanente, traduzido na formulação dos Planos Estratégicos de Desenvolvimento
do Turismo Regional, que se constituem objeto de negociação política. (MTUR, 2004).

Mediante esses aspectos é possível partir para a determinação de objetivos claros,


para os quais todo o processo de planejamento orientar-se-á. Não existe uma receita a
qual as localidades devem seguir para auferirem o planejamento turístico de sucesso,
pois cada uma está inserida em um contexto distinto, e deverá receber tratamento
diferenciado também. Contudo, o respeito pela comunidade e seu ambiente, bem como
as etapas técnicas e básicas do planejamento turístico devem ser observados, com vistas
à sustentabilidade do planejamento em si, e que dele originem objetivos a longo prazo
que possam garantir a sustentabilidade do destino turístico.

No primeiro momento a mobilização é o passo inicial para a ação de planejar,


pois exige legitimação para resguardar sua própria sobrevivência, tendo a cultura como
a base indispensável para fundamentar adequadamente os projetos de renovação e
modernização do país. Para isso, requer a ampla participação do maior número de
parceiros, sejam eles públicos ou privados, individuais e coletivos, formais e não
formais, e que constituam alianças. Considera-se o planejamento como um processo de
ação contínua, com o propósito de contornar dificuldades, tais como: incertezas, riscos,
descontinuidade, choques de interesses. A resistência à mudança, a estabilidade da
implementação e a legitimação tornam-se pontos sensíveis que devem ser negociados
prioritariamente. Para romper essa resistência, os princípios norteadores dos planos
estratégicos fundamentam-se em:

167
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

• unidade: integrar as partes componentes do plano – estratégias, objetivos, metas,


custos,
cronograma, avaliação – em um conjunto que oriente a ação futura;

• previsão: identificar tendências que possibilitem antever e neutralizar os conflitos


que asmudanças podem gerar;

• flexibilidade: reorientar as ações no processo de execução para enfrentar possíveis


mudanças no ambiente;

• descentralização: envolver efetivamente todos os níveis e setores da sociedade na


elaboração do plano;

• participação: valorizar o papel propositor dos segmentos turísticos na definição e


priorização das ações a serem contempladas nos planos e projetos;

• parceria: comprometer os parceiros institucionais e os movimentos sociais no


planejamento de ações orientadas para o desenvolvimento do turismo nacional;

• territorialidade: valorizar o território como base para a preservação da identidade


cultural, respeitando especificidades políticas, econômicas, sociais e ambientais.
(MTUR, 2004).

Pensar o planejamento turístico regional é pensar também uma região


predeterminada que tenha características de oferta turística similares, e por oferta
devem-se estender atrativos e serviços, que possa atrair demanda heterogênea. Pensar
desta forma é também pensar com vistas ao desenvolvimento do setor de viagens, onde
a demanda cresce e se diferencia cada vez mais, tornando-se exigente não apenas com
relação à qualidade da prestação dos serviços, mas também à variedade das experiências
turísticas possíveis que um destino pode oferecer. Da mesma forma, e até mesmo
motivada por esta razão, o mercado turístico se diferencia, diversifica e a concorrência
entre os destinos torna-se cada vez maior, no sentido de atrair a demanda. Para vencer
a concorrência, o planejamento turístico é escolhido como a ferramenta racional de uso
dos espaços e recursos a fim de trabalhar com eficiência a localidade. Contudo, nesta
linha de raciocínio algumas localidades se uniram pela atração da demanda, e trabalham
com planejamento integrado para a região. Esta intenção visa garantir mercado aos
produtos turísticos de uma região.

Desta forma, e a fim de promover mudanças satisfatórias, o turismo regional


deve adotar abordagens multidisciplinares, com enfoque para o gerenciamento de
mudanças e a natureza política da tomada de decisões. Mas não apenas, deve ser,
sobretudo participativo, com todos os setores do trade turístico, ou os atores envolvidos.
Só assim vai garantir a flexibilização, a captação de interesses para todos os envolvidos
e a valorização da base da região: sua gente, seu mercado, seu meio.

FONTE: CARDOZO, Poliana Fabíula. Planejamento Turístico Regional. Revista Virtual Partes,
Carapicuíba, 2004. Disponível em:<http://www.partes.com.br/turismo/poliana/
planejamentoregional.asp>. Acesso em: 23 nov. 2011.

168
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico você estudou que:

• O processo de globalização foi comandado pelos países do Norte, com a


hegemonia de: Estados Unidos e Canadá, Europa Ocidental e o Japão.

• A nova ordem mundial após 1945 foi centrada e organizada nos Estados Unidos.

• Com os avanços tecnológicos, a economia passou a se basear no processamento


de informações e na geração de conhecimentos, conhecida como Revolução
Técnico-Científica ou Terceira Revolução Industrial.

• Há várias definições para o fenômeno da globalização, mas de um modo geral é


o conjunto de várias transformações na economia mundial.

• A análise da globalização como um fenômeno socioeconômico é estudada por


meio das dimensões financeira, produtiva e comercial das relações econômicas
internacionais.

• Encontramos a nova ordem mundial alicerçada nas bases financeira, militar e


política.

• Em um balanço da globalização constatamos alguns aspectos positivos e


negativos: podemos destacar que, de um modo geral, houve mais benefícios
aos países desenvolvidos, gerando uma desigualdade com relação aos países
subdesenvolvidos ou emergentes.

• A globalização é um processo irreversível e por isso alguns países mais pobres


criaram maneiras de se inserir no mercado internacional; podemos afirmar que
o turismo é uma das formas mais bem-sucedidas.

• Com as facilidades nas telecomunicações e nos meios de transporte, houve uma


expansão muito grande do turismo, criando um segmento bastante comum
atualmente, o turismo de massa.

• Um dos problemas do turismo de massa, que explodiu no início da atividade,


é a padronização dos hábitos e cultura locais, gerando uma cultura universal.
Para amenizar estes efeitos, nos últimos anos vemos vários outros segmentos
surgirem como: turismo ecológico, ecoturismo, turismo rural, turismo cultural,
turismo religioso, agroturismo etc.

• O Brasil ainda caminha para uma posição justa dentro do cenário turístico
internacional, mas depende de serviços essenciais como saúde, educação e
segurança pública.

169
AUTOATIVIDADE

1 Leia o trecho do artigo de Prado a seguir e escreva sua opinião sobre a perda
do poder político dos países devido à glo­balização.

Uma vez que, no mundo contemporâneo, o direito interna­cional tem


como limite o caráter soberano dos estados na­cionais, o exercício de poder nessa
esfera exige um elevado grau de legitimidade para não caminhar rapidamente
para conflito armado. Nesse sentido, o uso popular do conceito de globalização
como uma expressão de uma mudança econômica, produzido pela dinâmica
das inovações tec­nológicas, sendo simultaneamente um fenômeno inevitável e
desejável, é um belo exemplo de um conceito que, embora impreciso, cumpre
seu papel de legitimar uma interpretação do mundo. Esta ideia sugere a perda
de poder dos Estados Nacionais e sugere, ainda, que isto é inevitável e bem-
vindo.

FONTE: PRADO, Luiz Carlos Delorme. Globalização: notas sobre um conceito controverso.
Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Disponível em:
<www.ie.ufrj.br/prebisch/pdfs/17.pdf>. Acesso em: 6 dez. 2011.

2 A partir da análise das consequências da globalização, liste os pontos positivos


e negativos que você achou mais signifi­cativos, inclusive acrescentando suas
considerações.

3 Faça uma análise da relação globalização e turismo, destacando as


contribuições da globalização para o turismo.

170
UNIDADE 3
TÓPICO 3

TURISMO INTERNACIONAL

1 INTRODUÇÃO
Como vimos no tópico anterior, o mundo está globalizado e o que
acontece em qualquer parte do mundo pode ser sentido por todos. Com o
turismo não é diferente. As viagens internacionais aumentaram nos últimos anos
consideravelmente e isto tem impulsionado o setor de turismo.

Vamos estudar as vantagens e desafios do turismo internacional, procurando


entender suas transformações, assim como o desenvolvimento turístico no Brasil.

2 A INTERNACIONALIZAÇÃO DO TURISMO
Antes de discutirmos detalhes sobre o turismo internacional, é importante
voltarmos a mencionar a importância da atividade atualmente no cenário
econômico mundial. O turismo deixou de ser uma atividade coadjuvante, para,
juntamente com novas tecnologias (telecomunicações, engenharia, genética etc.),
ajudar a redesenhar as estruturas mundiais, influenciando a globalização, os novos
blocos econômicos e a nova ordem internacional.

Vamos ver alguns dados que demonstram o que mencionei acima?


Rodrigues (1999, p. 55) afirma que "O número de pessoas empregadas no setor
de viagens e turismo, no mundo, é em torno de 212 milhões, participando de um
movimento de 3 trilhões e 400 bilhões de dólares. O turismo procura, desde as
chamadas cidades mundiais, as ilhas perdidas nos oceanos".

Como o turismo está organizado pelo mundo? Será que difere muito das
demais atividades econômicas? Infelizmente acontece com o turismo o mesmo que
com o restante do cenário econômico e político mundial, onde os viajantes são
considerados acima de tudo consumidores.

Podemos constatar que os países desenvolvidos também são aqueles que


se destacam no turismo, recebendo o maior número de visitantes. Isto acontece por
algumas razões, tais como: infraestrutura e serviços turísticos, básicos, de acesso
e de apoio adequados; investimentos em materiais de comercialização, bem como
divulgação dos destinos etc.

De acordo com Relatório das Nações Unidas, extraído da Conferência


Mundial realizada na cidade do Cairo, em 1994, dos 5,5 bilhões de
seres humanos, 3 bilhões são considerados pobres e estão no limite da
sobrevivência e mais de 1 bilhão de pessoas são miseráveis, estão abaixo

171
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

da linha da pobreza. O que quer dizer que estas pessoas estão excluídas
da possibilidade de consumo, inaptas às condições de produção e
sobrevivência exigidas pela vida moderna. As perspectivas eram ainda
mais assustadoras, pois naquela década, 1994, as projeções para a
próxima década, que é a atual, o crescimento populacional se daria acima
de 80%, principalmente em áreas urbanas de países subdesenvolvidos,
o que nos leva à triste conclusão, que, apesar de o capitalismo massificar
o consumo, a maioria da população do planeta, da aldeia global, jamais
conhecerá outros países, jamais participará do fluxo interno e mundial
de pessoas através do turismo. (SILVA, 2004, p. 5).

Para demonstrar muitos assuntos que serão abordados neste tópico


usaremos dados estatísticos como esses a seguir com os números de turistas
internacionais nos dez países mais visitados no mundo.

QUADRO 4 – TURISMO INTERNACIONAL


Chegada Chegada Chegada Chegada
de turistas de turistas de turistas de turistas
Posição
País Continente internacionais internacionais internacionais internacionais
mundial
em 2010 (em em 2009 (em em 2008 (em em 2007 (em
milhões) milhões) milhões) milhões)
1 França Europa 76,8 76,8 79,2 80,9
Estados
2 América 59,7 55,0 57,2 58,7
Unidos
3 China Ásia 55,7 50,9 53,0 54,7
4 Espanha Europa 52,7 52,2 57,9 56,0
5 Itália Europa 43,6 43,2 42,7 43,7
Reino
6 Europa 28,1 28,2 30,1 30,9
Unido
7 Turquia Ásia 27,0 25,5 25,0 22,2
8 Alemanha Europa 26,9 24,2 24,9 24,4
9 Malásia Ásia 24,6 23,6 22,1 21,0
10 México América 22,4 21,5 22,6 21,4
Total
940 882 917 904
mundial
FONTE: Adaptado de: WIKIPÉDIA. Turismo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Turismo>.
Acesso em: 29 nov. 2011.

Observamos que os países visitados são desenvolvidos, conforme já foi


dito, a maioria localizada na Europa. Um dado que merece destaque é o fato de
não encontramos nenhum país da América Latina.

Outro dado interessante é que em 2009 e 2008 muitos países, principalmente


aqueles nas primeiras posições como os europeus, tiveram uma pequena queda
na chegada de turistas internacionais. Isto se deve à chamada “crise econômica
2008-2011” ou “Grande Recessão”, que freou as maiores potências econômicas
mundiais, principalmente os Estados Unidos.

172
TÓPICO 3 | TURISMO INTERNACIONAL

NOTA

O turismo internacional está diretamente ligado à economia mundial. Por isso, se


ocorrem crises ou recessões, o turismo internacional também sofre quedas. O que fazer então?
Uma solução mais prática é investir no turismo doméstico.

Falando em turismo doméstico, você sabe a diferença entre turismo


internacional e doméstico e turismo receptivo e emissivo? Caso já tenha esquecido,
vamos relembrar:

• turismo internacional: quando residentes de dado país viajam para outro país
diferente de seu país de origem;

• turismo doméstico ou interno: quando residentes de dado país viajam dentro


dos limites do próprio país;

• turismo receptivo: é realizado por visitantes não residentes para nosso país;

• turismo emissivo: quando residentes viajam a outro país. Conforme a OMT


(2008), os principais mercados emissores são respectivamente, Alemanha,
Estados Unidos, Reino Unido, França, Japão, China, Itália, Canadá, Federação
Russa, República da Coreia.

Para entender melhor como funciona essa relação observe a figura a seguir
com as formas ou tipos de turismo.

FIGURA 26 – FORMAS OU TIPOS DE TURISMO

FONTE: SLIDESHARE. Disponível em: <http://www.slideshare.net/cursotiat/01-


conceitos-turismo>. Acesso em: 30 nov. 2011.

173
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

Conforme percebemos na figura anterior, há uma relação entre todos esses


tipos de turismo e qualquer destino turístico precisa concentrar seus esforços para
o desenvolvimento do turismo internacional. O turismo nacional e doméstico,
entretanto, também é importante, principalmente em baixas temporadas ou épocas
de crises mundiais.

Por que é importante medir o turismo internacional? Os governos nacionais,


independentemente do turismo, costumam monitorar o movimento de entrada
e saída de pessoas em seus países, isto para controle de saúde, segurança e de
imigração. Medir o movimento turístico é um procedimento que vem crescendo
consideravelmente nos últimos anos por causa da importância dos efeitos do
turismo na balança de pagamentos de um país.

NOTA

Para Cooper (2005, p. 108), “A balança de pagamentos consiste nas contas


financeiras nacionais. Há uma movimentação de entrada e saída de somas em dinheiro nessas
contas”.

O turismo tem grandes impactos sobre a balança de pagamentos devido


aos gastos dos turistas internacionais. Neste sentido podemos identificar dois
aspectos: um é referente aos residentes de um determinado país que viajam para
o exterior e gastam o seu dinheiro no destino visitado. Isto acaba produzindo
um efeito negativo sobre a balança de pagamentos do país de origem e um efeito
positivo sobre a balança de pagamentos do país visitado. Outro aspecto relaciona-
se aos residentes de um país estrangeiro que entram no país x como turistas,
gastam dinheiro em x coisas. O resultado é um efeito positivo sobre a balança
de pagamentos do país x, resultando num efeito negativo sobre a balança de
pagamentos do país de origem do turista.

DICAS

Há várias obras que detalham essa análise dos efeitos do turismo internacional
sobre a balança de pagamentos. Por isso sugiro uma leitura mais aprofundada do assunto no
livro de Chris Cooper, “Turismo: princípios e práticas”, que consta nas referências do caderno.

174
TÓPICO 3 | TURISMO INTERNACIONAL

QUADRO 5 – EVOLUÇÃO DO NÚMERO DE ENTRADA DE TURISTAS NOS CONTINENTES ENTRE


1995 E 2005 (EM MILHÕES)
Região 1995 2005 Participação (%) Variação (%) 1995-2005
Mundo 536 803 100 58
Europa 310,8 438,7 54,4 48
Ásia 82,5 155,3 19,8 103
Américas 109 133,2 16 25
América do Sul 11,7 18,2 2,2 61
Brasil 2 5,4 0,6 152
África 20,1 37,3 4,8 103
Oriente Médio 13,7 38,3 4,9 205
FONTE: Adaptado de: PINHO, Ivan. Disponível em: <http://www.ivanpinho.com.br/downloads/
economia_turismo/17417_Economia_e_Turismo_Aula_14_Vol_2.pdf>. Acesso em: 30
set. 2011.

O quadro anterior demonstra o crescimento do turismo mundialmente,


mas especialmente nos últimos anos no Oriente Médio, na África e na Ásia,
respectivamente. Mesmo que estes ainda não estejam nas primeiras posições de
visitantes, o seu crescimento é considerável. Também está destacado no quadro o
Brasil, que teve um crescimento considerável, assim como a América do Sul. Mas
sobre o Brasil falaremos mais adiante.

FIGURA 27 – TURISMO MARÍTIMO

FONTE: WIKIPÉDIA. Turismo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/


Turismo>. Acesso em: 29 nov. 2011.

Na figura anterior vemos o maior navio de cruzeiro do mundo, “Freedom


of the Seas”, símbolo da era das grandes viagens marítimas, com a explosão dessa
modalidade turística no mundo inteiro, especialmente em países com potencial
litorâneo como o Brasil.

175
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

Apesar de a dimensão econômica prevalecer sobre as demais dimensões,


algumas transformações já ocorreram com a atividade turística. O turismo é, ao
mesmo tempo, uma atividade globalizada e local: observamos que nos últimos anos
o turismo de massa está dando vez a outros segmentos do setor mais específicos
como aqueles ligados à natureza, à cultura, à história etc.

Com a massificação da atividade turística pensou-se que a cultura local


fosse desaparecer e realmente por muitos anos o que prevaleceu no setor foram
costumes dos países desenvolvidos. Atualmente ainda existe esse fascínio pela
cultura internacional e homogênea, mas culturas mais exóticas estão tendo
a oportunidade de mostrar-se. Este fato é muito importante para o turismo,
pois novos mercados vão surgindo e a atividade se expande para países antes
inimagináveis como destinos turísticos.

3 O BRASIL NO CENÁRIO TURÍSTICO INTERNACIONAL


O Brasil, mesmo com tantas belezas naturais como a Floresta Amazônica,
com 7.367 km de litoral, com lindas e exuberantes praias, cultura riquíssima, não
consegue ter uma participação expressiva no turismo internacional, ficando atrás
de países como a Polônia e a Argentina. (PINHO, 2011).

O estudo anual “Viagens e Turismo: Impacto Econômico” do World Travel


& Tourism Council (apud ECONOMIA BRASIL, 2011) confirma que, se levarmos em
consideração indicadores como a importância do turismo sobre o PIB, seu peso na
geração de emprego, as divisas geradas por turistas internacionais e o montante
dos investimentos públicos e particulares nesse sentido, a posição que o Brasil
ocupou em 2010 na indústria mundial do turismo é o décimo terceiro lugar.

O potencial turístico brasileiro é muito grande porque dispomos de variados


roteiros turísticos, espalhados por todo o país. Podemos desenvolver o turismo
em quase todos os cantos e durante o ano inteiro. Por isso o país possui potencial
para vários segmentos turísticos como: ecoturismo, estudos e intercâmbio, cultural
(cívico, místico, arquitetônico, esotérico, gastronômico, histórico, religioso), pesca,
aventura, sol e praia, negócios e eventos, esportes e rural.

Mas você deve estar se perguntando, como o Brasil ainda não despontou
para o turismo internacional?

A resposta não está na tecnologia, pois estamos nos aperfeiçoando nessa


questão, mas na infraestrutura turística que, apesar dos avanços, ainda necessita
de melhorias. Contudo os nossos maiores problemas referem-se a necessidades
básicas como educação, saúde e segurança pública de qualidade. O Brasil ainda
enfrenta muitas desigualdades sociais, muitos problemas ligados à pobreza
e miséria, e isto varia em cada região. O país possui uma área territorial muito
extensa e cheia de contrastes.

176
TÓPICO 3 | TURISMO INTERNACIONAL

E o turismo doméstico no Brasil, como está? O turismo doméstico, do ponto


de vista tanto do fluxo emissor quanto receptor de turistas e dos gastos com viagem
da oferta turística, é ainda bastante concentrado nas regiões Sul e Sudeste do país.
Consequentemente isso limita a capacidade de crescimento e de desenvolvimento
dos pontos turísticos das regiões mais po­bres e menos desenvolvidas, como o
Norte e o Nordeste.

As dificuldades de acesso às regiões menos desenvolvidas estão associadas


a vários fatores como extensão territorial, baixa capilaridade de serviços de
transporte, oferta turística e infraestrutura básica deficiente e inadequada.
Entretanto o baixo poder aquisitivo e a baixa participação do consumo turístico
nas despesas familiares certamente são os fatores mais limitantes do avanço do
turismo doméstico e da consolidação das atividades turísticas no país. (PINHO,
2011).

E
IMPORTANT

Não detalharemos aqui a discussão sobre a realização da Copa do Mundo de


Futebol de 2014 no Brasil, pois não é este o objetivo do caderno. Mas você vai ler sobre o
assunto no texto complementar deste tópico. Acredito que este evento possa alavancar o
turismo internacional no Brasil. Há alguns materiais e artigos relacionados ao tema, analisando
os impactos da realização deste megaevento para o turismo brasileiro.

O PIB do setor de turismo no Brasil foi estimado em US$ 24,9 bilhões em


2006, correspondente a uma participação no total mun­dial de 1,5%. Isto gerou 2,6%
dos empregos, o que representa 2,2 milhões de pessoas empregadas, diretamente
ligadas ao turismo. (PINHO, 2011).

Para compararmos o crescimento do turismo no Brasil nos últimos anos,


segue um quadro que apresenta alguns dados.

177
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

QUADRO 6 – EVOLUÇÃO DO MERCADO DE TURISMO NO BRASIL


Chegadas Receita
ANO % sobre PIB
(em milhões) (em milhões)
1990 1,0 1.444 0,29
1991 1,2 1.559 0,31
1992 1,6 1.307 0,26
1993 1,6 1.091 0,21
1994 1,8 1.925 0,35
1995 1,9 2.097 0,31
1996 2,6 2.469 0,36
1997 2,8 2.669 0,38
1998 4,8 2.800 0,39
1999 5,1 – –
FONTE: Adaptado de: PINHO, Ivan. Disponível em: <http://www.ivanpinho.com.br/
downloads/economia_turismo/17417_Economia_e_Turismo_Aula_14_Vol_2.
pdf>. Acesso em: 30 nov. 2011.

Nos dados do quadro anterior, observamos um constante e importante


aumento no número de chegadas de turistas ao Brasil, no aumento de receitas do
turismo na economia brasileira e na porcentagem do turismo no PIB brasileiro.

Apesar de o Brasil ainda ser insignificante no PIB mundial do turismo,


é certo que a cada ano vem aumentando. O turismo internacional é quase que
inexpressivo para a economia turística, sendo a maioria dos visitantes provenientes
do próprio país.

FIGURA 28 – FLUXO DE TURISTAS NO BRASIL

FONTE: Disponível em: <http://www.setur.ba.gov.br/guia-do-investidor/informacoes-


ao-investidor/indicadores/>. Acesso em: 18 nov. 2011.

178
TÓPICO 3 | TURISMO INTERNACIONAL

Para o presidente da Embratur, Mário Moyses, os investimentos voltados


ao turismo no Brasil devem seguir os seguintes fatores:

a) ampliação e melhoria de infraestrutura da rede hoteleira nacional, área que,


apesar da crise econômica, registrou investimentos estrangeiros diretos
significativos nos últimos três anos, em especial na construção de novos hotéis e
em processos de ampliação e reforma;

b) aumento da participação de capital estrangeiro nas companhias turísticas, que


estão se expandindo para acompanhar o ritmo da demanda;

c) inovação em modelos de negócios consagrados, com olhar voltado à classe C, o


que tem impulsionado a expansão do turismo e é um nicho com crescente apelo
no mercado;

d) desenvolvimento de atividades ligadas ao turismo, ou seja, produtos e serviços


como eventos, gastronomia, cultura e lazer.

QUADRO 7 – PRINCIPAIS 15 PAÍSES EMISSORES DE TURISMO PARA O BRASIL EM 2008


País de Turistas % País de Turistas
Posição Posição % total
origem estrangeiros total origem estrangeiros
1 Argentina 1.017.675 20,15 9 Espanha 202.624 4,01
Estados
2 625.506 12,39 10 Uruguai 199.403 3,95
Unidos
Reino
3 Itália 265.724 5,26 11 181.179 3,59
Unido
4 Alemanha 254.264 5.03 12 Colômbia 96.846 1,92
5 Chile 240.087 4,75 13 Peru 93.693 1,86
6 Portugal 222.558 4,41 14 Bolívia 84.072 1,66
Países
7 Paraguai 217.700 4,31 15 81.936 1,62
Baixos
8 França 214.400 4,25
FONTE: Adaptado de: WIKIPÉDIA. Turismo. Disponível em:< http://pt.wikipedia.org/wiki/Turismo>.
Acesso em: 29 nov. 2011.

Podemos observar no quadro que a maioria dos turistas estrangeiros que


visitam o Brasil é de países da América, mas os turistas europeus ocupam uma
parcela significativa também e isto vem crescendo nos últimos anos.

Quando se trata das cidades brasileiras que se destacam no turismo, na


maioria capitais, temos a seguinte posição:

179
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

QUADRO 8 – PERCENTUAL DE PROCURA TURÍSTICA PELAS CIDADES BRASILEIRAS -


2000

Cidade Percentual de procura turística (%)


Rio de Janeiro 34,13
São Paulo 19,65
Florianópolis 18,69
Salvador 13,47
Foz do Iguaçu 12,94
Balneário Camboriú 6,60
Porto Alegre 5,90
Recife 5,75
Fortaleza 5,39
Búzios 4,00
FONTE: EMBRATUR. Estudo da demanda turística internacional 2000. Disponível em:
<www.embratur.org.br/conheca/outrosassuntos/dem_inter00>. Acesso em20
nov. 2011.

O Rio de Janeiro lidera a lista das cidades mais visitadas no Brasil, tendo
uma diferença considerável para as demais. Isto se deve, além dos atrativos
naturais e culturais, também aos investimentos em divulgação.

FIGURA 29 – CRISTO REDENTOR

FONTE: WIKIPÉDIA. Turismo. Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/


Turismo>. Acesso em: 29 nov. 2011.

Na figura anterior há uma foto do Rio de Janeiro, conhecida


internacionalmente como a “Cidade Maravilhosa”. Em destaque aparece a
imagem do Cristo Redentor, no Corcovado, uma das Sete Maravilhas do mundo
moderno. Com certeza o Rio de Janeiro é a cidade brasileira que mais recebe
turistas internacionais.

O presidente da Embratur, Mário Moyses, aponta alguns desafios para o turismo


no Brasil:
180
TÓPICO 3 | TURISMO INTERNACIONAL

• reforçar o turismo doméstico;

• aumentar o número de visitantes estrangeiros;

• contribuir para ampliar a geração de divisas para o país.

O setor de turismo está em rápida evolução em todos os países, apesar de


influências externas que o acabam enfraquecendo. Devido aos avanços tecnológicos
e à globalização, o turismo já se tornou uma importante atividade internacional.
Mas para que o turismo se desenvolva de fato, são necessárias algumas ações em
todas as áreas e não somente econômicas.

TUROS
ESTUDOS FU

No Tópico 4 desta unidade veremos os principais desafios e tendências para o


turismo no mundo e no Brasil.

LEITURA COMPLEMENTAR

O LEGADO COPA DO MUNDO EM 2014

Antonio Carlos Estender


Almir Volpi
Marco Aurelio Fittipaldi

A humanidade executa projetos desde os primórdios da civilização. As


caçadas organizadas por nossos ancestrais e a construção das grandes maravilhas
do mundo, como as Pirâmides ou a Grande Muralha da China, podem ser
consideradas como tais. Guardadas as devidas proporções em relação à época
em que foram realizadas, essas obras podem ser comparadas a grandes projetos
atuais. Por serem temporários os projetos têm, obrigatoriamente, início e término
definidos, diferenciando-se de operações contínuas. Essa característica não indica,
necessariamente, que sejam curtos ou longos, mas apenas que são iniciados, evoluem
e, por fim, são finalizados.

No princípio da gestão de projetos, o sucesso era medido apenas em termos


técnicos, ou seja, o produto era avaliado como adequado ou inadequado. Contudo,
à medida que as empresas começaram a entender cada vez mais os processos do
gerenciamento, a definição de sucesso se alterou para englobar o cumprimento
dos prazos e os custos estimados. Além disso, a qualidade do produto passou a
ser definida pelo cliente e não mais pelo fornecedor. No entanto, nem mesmo essa

181
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

definição mais abrangente pode ser considerada completa. Atualmente, a definição


mais adequada é aquela que enuncia que um projeto pode ser considerado como um
sucesso se foi realizado dentro do prazo, orçamento e nível de qualidade desejado
e atendeu às expectativas do cliente e principais interessados stakeholders, incluindo
a equipe do projeto, órgãos reguladores e ambientais.

O maior e principal desafio para a cidade de São Paulo envolve os problemas


de acesso e mobilidade. A cidade pode e deve aproveitar o momento da Copa para
desenvolver projetos de sistemas de transporte e atrair investidores privados. Para
o evento de 2014, o desafio é construir a tempo a linha de trem rápido São Paulo-
Rio-Campinas. Mas o principal legado da Copa seria a constituição de sistemas de
transporte de massa na Região Metropolitana.

Um segundo ponto envolve a exposição que a cidade terá durante a Copa,


permitindo que São Paulo se consolide como um centro mundial de negócios,
especialmente nas áreas de serviços de tecnologia da informação, exploração
marítima de petróleo, transformação de carnes e biocombustíveis, entre outras. O
principal “gargalo” para esse objetivo são as instalações para abrigar megafeiras,
exposições e congressos internacionais. O complexo do Anhembi pode ser
considerado acanhado, diante das grandes feiras como as de Milão, Frankfurt, Nova
York ou Barcelona. Apenas para abrigar a Conferência Internacional da FIFA, que
acontece simultaneamente à abertura da Copa, será necessário um plenário para
pelo menos 5.000 congressistas, ainda inexistente em São Paulo. A prefeitura da
cidade já tem um projeto para a implantação de um complexo de grande porte em
Pirituba, zona norte da cidade, e a implantação desse conjunto até 2013 é um dos
principais desafios de São Paulo para sediar a Copa 2014.

Um terceiro desafio, que poderá ser um legado pós-Copa, envolve a


resolução dos problemas de degradação urbana no centro da cidade e que exige
tanto investimentos em projetos de urbanização e paisagismo, como maior rigor nas
áreas de limpeza pública e assistência social. Ainda cabe destacar a necessidade de
melhorar a qualidade do ambiente construído e enfrentar o problema da poluição
dos três principais rios que cortam a cidade, o que demanda investimentos pesados
em saneamento.

FONTE: ESTENDER, Antônio Carlos; VOLPI, Almir; FITTIPALDI, Marco Aurélio. O Legado da Copa
do Mundo em 2014. In: SIMPÓSIO DE ADMINISTRAÇÃO DA PRODUÇÃO LOGÍSTICA
E OPERAÇÕES INTERNACIONAIS, 14., 2011, São Paulo. Anais... São Paulo: Fundação
Getúlio Vargas, 2011.

182
RESUMO DO TÓPICO 3

Neste tópico você estudou que:

• O turismo atualmente é uma atividade que possui o poder de influenciar


estruturas mundiais, principalmente no que se refere à economia.

• A atividade turística está diretamente ligada a questões econômicas, pois


uma crise mundial (como a que ocorreu no período de 2008 a 2011) mudou a
configuração mundial.

• O desenvolvimento do turismo também possui desigualdades: os países


desenvolvidos se destacam por possuir infraestrutura e serviços de maior
qualidade.

• A Europa ainda possui destaque no turismo internacional, mas nos últimos anos
países do Oriente Médio e da Ásia têm crescido consideravelmente neste setor.

• Turismo doméstico é aquele realizado dentro das divisas do país e turismo


internacional é aquele realizado em outro país.

• Turismo emissivo é quando residentes viajam para outro país, enquanto o


turismo receptivo é realizado pelos visitantes não residentes em nosso país.

• O Brasil, apesar de grande potencial, com atrativos naturais e diversidade


cultural, ainda não conseguiu se destacar no turismo internacional, e isto se deve
a vários fatores, principalmente: infraestrutura inadequada, serviços básicos e
de turismo ineficientes e pouca divulgação turística.

• A cidade brasileira que mais recebe visitantes é o Rio de Janeiro.

• Entre os desafios para o turismo no Brasil destacamos: reforço no turismo


doméstico, aumento do turismo internacional e ampliação da geração de divisas
para o país.

183
AUTOATIVIDADE

1 Você estudou turismo internacional. Enumere os principais fatores que


incentivaram a internacionalização do turismo.

2 Ao longo deste tópico fizemos algumas análises de dados, apresentados em


gráficos e quadros. Observe o grá­fico a seguir e faça uma análise. Escreva
suas conclusões a partir das informações dadas.

FONTE: CONCURSOS Públicos On-line. Disponível em: <http://www.


concursospublicosonline.com/informacao/view/ApostilaEspecifica/
EMBRATUR/Diagnostico>. Acesso em: 2 dez. 2011.

3 Você viu algumas sugestões de melhoria para o turismo no Brasil. Aponte


mais sugestões, considerando também suas necessidades regionais/locais.

184
UNIDADE 3
TÓPICO 4

TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO


TURISMO

1 INTRODUÇÃO
O turismo é uma atividade complexa, pois está ligado a vários outros
segmentos. Apesar de os fatores econômicos na sociedade capitalista se
sobressaírem aos demais, não podemos nos esquecer do fator humano, ou seja, as
pessoas envolvidas com o turismo.

O nosso maior objetivo ao longo deste caderno foi o de envolver todas


as dimensões do turismo: econômica, ambiental, política, cultural, espacial, mas
tendo como foco central a dimensão social.

Espero que você, caro(a) acadêmico(a), tenha conseguido perceber esta


importância para a sociedade atual, onde muitas vezes o foco social fica em
segundo plano.

Neste último tópico buscaremos visualizar o turismo no mundo e no


Brasil no futuro, fazendo um prognóstico de algumas estratégias e ações. Para
isso faremos a análise e reflexão do que falam alguns autores e documentos sobre
tendências e desafios para o futuro desta atividade que, mesmo recente no cenário
mundial, possui uma grande importância.

2 TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO


Mesmo que o turismo ainda seja restrito a uma parcela privilegiada da
população mundial, Coriolano (1997) classifica a atividade turística como uma
das maiores seduções dos tempos modernos. Para a autora o turismo é “[...] umas
das atividades mais atraentes, envolvendo um conjunto muito grande de relações,
influências, motivações, desejos e representações”. (p. 119).

Até a expressão baixa temporada está desaparecendo, pois além de os


destinos turísticos estarem aproveitando os espaços e criando novos atrativos e
serviços como os eventos, os turistas estão se adaptando de várias formas. Com
isso o turismo internacional impulsiona a atividade o ano inteiro.

Como vimos na Unidade 2, a sociedade contemporânea valoriza muito o


prazer e o lazer. Foi a partir de 1990 que o turismo explodiu como uma atividade
de prazer. Por isso as viagens estão se tornando uma conquista, um direito, uma

185
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

possibilidade, um consumo. Esse consumo é impulsionado pela mídia globalizada


que internacionaliza o turismo. (CORIOLANO, 1997).

Todo esse fascínio de conhecer lugares, pessoas, culturas novas e exóticas


aumenta cada vez mais o desejo de viajar. Você já deve ter ouvido alguém falar que,
ao retornar de uma viagem, já está planejando a próxima. Isto é bastante comum
hoje em dia e cada vez mais as pessoas de classe média e da terceira idade estão
fazendo das viagens um hábito prazeroso. Baseando-se nessa realidade, Coriolano
(1997) afirma que todo ser humano é um turista em potencial.

Em muitos casos a viagem em si não é o melhor, pois pode ser desgastante


e frustrante, mas, sim, a preparação da viagem. Assim, quando o turista retorna
já está planejando uma nova viagem, um novo sonho, uma nova expectativa, o
desejo de conhecer outro lugar.

DICAS

Sugiro a leitura do livro “Viaje na Viagem”, de Ricardo Freire: é um livro interessante


para turistas e todos que gostam de viagens.

Como já mencionamos, o turismo é uma atividade essencialmente humana,


pois cria relações entre visitantes e visitados ou residentes e turistas.

Com as facilidades para viajar atualmente, os turistas se questionam:


“Qual o melhor destino a ser visitado?” Com tantas opções no mercado mundial
a concorrência entre os destinos está aumentando. Temos um exemplo na Bahia,
onde se desenvolvem quatro projetos para o turismo no estado. Estes seguem as
mudanças na economia, as novas tecnologias e a livre concorrência dos mercados,
assim, os produtos e os serviços devem ser lançados com estratégias e vantagens
competitivas. Beni (1996, p. 68) faz uma colocação interessante nesse sentido, “[...]
não existem países turísticos competitivos, mas produtos turísticos competitivos”.

Neste contexto o lazer também passou a ser visto pelos grandes investidores
como uma mercadoria. A cidade deixou de ser um espaço público, neutro, sem
querer chamar a atenção. A própria cidade é um produto a ser vendido para o
desenvolvimento de atividades lucrativas, como o turismo. (STOKOWSKI, 2000).

Pense em alguma cidade turística. Há cidades que possuem vários atrativos


turísticos, enquanto outras estão vinculadas somente a um ou poucos produtos
turísticos. Temos vários exemplos de cidades turísticas: Paris, Londres, Nova
Iorque, Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador, Florianópolis etc.

186
TÓPICO 4 | TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

De um modo geral a discussão está no fato de que não bastam os atrativos


naturais e culturais se todo o sistema de turismo (SISTUR) não estiver adequado
e em sintonia. Nesta questão aqueles que tiverem estratégias eficientes e mais
criativas terão destaque.

2.1 TENDÊNCIAS E DESAFIOS PARA O TURISMO


INTERNACIONAL
As pessoas viajam por diversos motivos e, conforme a OMT (2008), as
principais motivações dos viajantes estão representadas percentualmente da
seguinte forma: 51% lazer e férias, 27% visita a familiares e amigos, saúde, religião
e outros, 16% profissional e 6% não especificou.

Com estes dados podemos observar que a definição sobre turismo, vista na
primeira unidade deste estudo, está se modificando, pois apesar de lazer e férias
representarem um pouco mais da metade das motivações das viagens, outros
fatores estão levando as pessoas a viajar. Isto não pode ser ignorado pelos autores
quando buscam conceituar o turismo, por isso a questão profissional tão rejeitada
nos primeiros estudos passa a ter papel importante para o segmento turístico atual.

Você pode estar se questionando, qual a definição certa então? Como


já mencionamos, o turismo é uma atividade muito complexa e abrangente, por
isso não há definição correta ou errada, mas sim diferentes interpretações desta
atividade. Trata-se de fatores humanos e isto nos leva a concluir que sempre
existirão novos estudos. O turismo estará em constantes transformações, pois a
sociedade se modifica constantemente.

As previsões em longo prazo da OMT indicam que o número de turistas


internacionais será de 1,6 bilhão em 2020, ou seja, uma taxa de crescimento anual
de 4%. (CARVÃO, 2009).

187
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

GRÁFICO 2 – CHEGADA DE TURISTAS INTERNACIONAIS (SITUAÇÃO ATUAL E PREVISÕES 2020)

FONTE: COLUNA de turismo. Disponível em: <http://www.colunadeturismo.com.br/ver.


php?n_id=1900&u=Jeanine-Pires>. Acesso em: 5 dez. 2011.

QUADRO 9 – PRINCIPAIS DESTINOS MUNDIAIS PARA 2020


País Turistas (milhões) Crescimento (%)
1. China 130 7.8
2. França 106 2.3
3. EUA 102 3.5
4. Espanha 74 2.6
5. HK (China) 57 7.1
6. Reino Unido 54 2.1
7. Itália 52 3.4
8. México 49 3.6
9. Federação Russa 48 6.8
10. República Checa 44 4.0

FONTE: Carvão (2009, p. 26)

Atualmente a França está na primeira colocação do destino mundial mais


visitado, porém a previsão da OMT para 2020 é de que a China ocupe esta colocação.
Você imagina por quê? Alguns fatores levam a esta mudança, mas principalmente
pelo fato de a China ter despontado como país emergente, com um crescimento
econômico superior aos demais países.

Apesar de este documento ter sido publicado no final da década de 90,


muitas previsões estão se concretizando, com períodos de menor crescimento,
entre 2001 e 2003, seguidos por períodos de crescimento acima da média, entre os
anos 2004 e 2007 (+ 4,4% ao ano).

188
TÓPICO 4 | TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

Com relação às previsões para os destinos turísticos individuais, há uma


variação entre a tendência atual (1996-2005) e as previsões para 2020: a Espanha,
Itália, França, Rússia e China cresceram até então mais do que o previsto. Em
contrapartida, destinos como Estados Unidos, México e Canadá tiveram um
crescimento menor do que o esperado.

Em se tratando da América Latina o gráfico a seguir faz algumas previsões


para 2020.

FIGURA 30 – TENDÊNCIAS PARA O TURISMO NA AMÉRICA LATINA EM 2020

FONTE: GEONERATION. Disponível em: <http://geoneration.blogspot.


com/2011_08_01_archive.html>. Acesso em: 5 dez. 2011.

Quais são as tendências globais com o impacto no turismo internacional?


Para responder a esta pergunta, Carvão (2009) divide as tendências em áreas
distintas:

- Economia: o crescimento econômico é sem dúvida um dos fatores que possui


maior impacto no desenvolvimento turístico internacional. A chegada de
turistas internacionais vai ao encontro do crescimento econômico mundial, ou
seja, o PIB. O turismo internacional segue os indicadores econômicos globais
como o crescimento do PIB, as taxas de câmbio, as taxas de juro e a inflação.

- Demografia: nesta área devemos considerar três aspectos principais para


o planejamento estratégico de marketing e desenvolvimento de produto: o
envelhecimento da população e com isso o aumento dos turistas da terceira
idade; a mudança na composição das famílias com o aumento do número de
solteiros, de famílias monoparentais e de agregados familiares alargados com a
incorporação de avós; o aumento dos fluxos migratórios que tem levado a um
aumento significativo do tráfego de turistas por motivo de visitas a familiares e
amigos.

189
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

- Tecnologia: em poucas áreas o desenvolvimento tecnológico teve tantas


influências quantas teve no turismo, pois as tecnologias da informação e
comunicação no setor turístico trouxeram uma nova dimensão ao mercado
global das viagens. Essas transformações possibilitaram aos turistas facilidades
no acesso a serviços, o cliente passou a ter maior poder no processo de decisão
e compra do produto ou serviço. Isto pode ser percebido em todas as etapas
das viagens, desde o processo da procura de informações, com a internet
principalmente, até as recordações das viagens.

- Sustentabilidade: nos últimos anos percebemos que está crescendo uma


consciência ambiental, mas infelizmente isso não é muito percebido no momento
de decisão de compra dos serviços ou produtos. O mais importante é que isso se
reverta em ações sustentáveis na atividade turística, tanto de turistas como de
gestores de destinos e empresas.

- Segurança: nos últimos anos estamos sofrendo crescentes ameaças como


violência, ameaças sanitárias, desastres naturais e terrorismo. Por isso
várias medidas de segurança tiveram que ser tomadas, e novas forças foram
implantadas. Um grande desafio é o de garantir a segurança da comunidade
local e dos visitantes, mas sem comprometer o turismo. Um exemplo disso foi o
que ocorreu nos Estados Unidos após os atentados terroristas de 2001. O turismo
teve uma grande queda e muitas medidas, por vezes consideradas exageradas,
foram adotadas principalmente nos aeroportos e fronteiras.

- Parcerias público-privadas: projetos que têm a cooperação do poder público e


privado podem ser vistos nas áreas de desenvolvimento de produto, marketing,
venda e gestão de destinos.

- Mercados emergentes: o crescimento da economia mundial tem sido resultado


do crescimento de mercados emergentes como a Índia, a China e a Rússia.
Este crescimento levou ao aumento da classe média, com poder de compra e
rendimento disponível para viajar, numa primeira fase dentro do seu país, numa
segunda fase na sua região e, posteriormente, em outras regiões. Esta tendência
é particularmente clara nos mercados emissores asiáticos, mas o Brasil também
é exemplo de um mercado emergente.

- Transporte: os transportes, principalmente o aéreo, mudaram totalmente


o turismo no mundo. A liberação do transporte aéreo e a expansão das
companhias aéreas ocasionaram a queda nos preços das passagens aéreas. Isto
vem influenciando o aumento do turismo internacional.

- Consumidor: todas essas transformações que vêm ocorrendo nos últimos anos
podem ser percebidas no comportamento do consumidor, ou seja, nos turistas.
Estão bem mais informados, exigentes, experientes, sabem o que querem,
conhecem e lutam por seus direitos e são bem menos fiéis.

Uma das maiores tendências com relação ao turismo está relacionada


à concorrência, o que leva as empresas de turismo a adotarem estratégias para
190
TÓPICO 4 | TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

se manter no mercado. Com isso as pessoas ligadas ao turismo estão tendo a


necessidade de se aperfeiçoar cada vez mais.

As principais estratégias adotadas pelas empresas turísticas são:

• adoção de alianças estratégicas;

• fusões e aquisições (F&A) entre empresas;

• multinacionalização das empresas;

• integração entre empresas do setor.

Carvão (2009) identifica outras tendências além dessas:

- o aumento das comunidades de interesses, de atividades e comunidades on-line;

- o crescente nível de especialização da procura e como consequência, da oferta;

- a procura do bem-estar físico (com o desenvolvimento da procura/oferta de


produtos wellness) e psicológico (como exemplo os retiros de ioga);

- a procura da complementaridade que se verifica em todas as opções de viagens


(férias de praias complementadas com atividades de natureza etc.);

- o aumento das viagens “tailor-made” (em português, viagens sob medida),


facilitadas pelo conhecimento do consumidor e a facilidade de compra de
serviços diversos pela internet e compor o próprio “package” (pacote turístico);

- a procura do autêntico e a recusa do artificial levam ao desenvolvimento de


destinos novos e produtos em que o consumidor pode ter acesso a produtos
autênticos da cultura local como a gastronomia;

- o conceito de luxo está em transformação. Luxo é mais que um hotel cinco


estrelas e um restaurante sofisticado: é o acesso a algo que é único e exclusivo;

- o melhor de dois mundos, em que se combina, por exemplo, uma pesca na


Amazônia com a melhor oferta de alojamento;

- assim como há uma procura crescente por uma experiência autêntica dos destinos,
existe igualmente uma procura crescente de experiências e conhecimento da
cultural local, que representem para os turistas uma possibilidade de aumentar
e expandir os seus conhecimentos;

- o consumidor já não procura um produto, mas, sim, uma experiência em todos


os seus componentes (visão holística).

191
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

NOTA

Wellness é uma filosofia de vida que abrange sete dimensões: corporal, emocional,
ocupacional, intelectual, ambiental, familiar e espiritual.

2.2 PERSPECTIVAS PARA O TURISMO NO BRASIL


No Tópico 3 desta unidade vimos um pouco da situação atual do turismo
internacional e doméstico no Brasil. Aqui veremos algumas projeções e tendências
principalmente no que se refere a 2014 e 2016, com a realização da Copa do Mundo
de Futebol e as Olimpíadas no Rio de Janeiro.

FIGURA 31 – CRESCIMENTO DOS PAÍSES EM RELAÇÃO AO TURISMO

FONTE: Disponível em: <http://blogdojuniorcampos.blogspot.com/2010/08/brasil-e-oitava-


maior-economia-mundial.html>. Acesso em: 1 dez. 2011.

Como mostra a figura, o Brasil foi um dos países onde o turismo teve um
crescimento expressivo em 2010, com 5,5%. O Oriente Médio com a China e Índia
se destacaram, pois obtiveram 9,7% e 7,7%, respectivamente. Podemos observar
que os países que cresceram economicamente e sentiram menos os efeitos da crise
econômica, cujo auge foi em 2009, também foram os que tiveram destaque no
turismo.

192
TÓPICO 4 | TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

Apesar de considerar que o Brasil está crescendo no mercado mundial


do turismo, não podemos deixar de mencionar que o turista brasileiro também
está ganhando o mundo. Quantas pessoas você conhece que já fizeram alguma
viagem internacional? Obviamente há alguns anos esta resposta seria nenhuma
ou pouquíssimas, mas atualmente os brasileiros estão viajando para outros países
e isso é devido a vários fatores, principalmente ao crescimento da economia
brasileira.

Buscando um pouco da história, Coriolano (1997) lembra que os brasileiros


começaram a viajar em 1986 com o plano cruzado e posteriormente com o plano
real, que estabilizou a moeda brasileira.

GRÁFICO 3 – PREVISÃO DO TURISMO MUNDIAL, NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL


PARA 2020

FONTE: AQUARELA 2020. Disponível em: <http://aquarela2020.files.wordpress.


com/2010/09/planoaquarela.pdf>. Acesso em: 5 dez. 2011.

No gráfico podemos observar que o Brasil e a América Latina crescerão


no turismo até 2020 acima da média mundial. Outra consideração sobre os dados
anteriores se refere ao fato de o maior crescimento no turismo brasileiro ser em
2014 e 2016, ambos com 15%. Isto se deve à realização dos eventos internacionais.

NOTA

Obviamente há muitas coisas a ser analisadas, porém veremos somente aquelas


que consideramos as principais. Caso você queira ter mais informações sobre as previsões
do turismo no Brasil, pode consultar os documentos “Plano de Turismo 2011-2014” e o “Plano
Aquarela 2020: marketing turístico internacional no Brasil”, ambos materiais do Ministério de
Turismo.

193
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

No Plano Aquarela 2020 (BRASIL, 2011b) os cenários estão divididos em


três:

• Cenário 1: crescimento acelerado com ganhos de competitividade.

• Cenário 2: crescimento moderado com pequenos ganhos de competitividade.

• Cenário 3: crescimento inercial com problemas e competitividade.

Aqui neste estudo faremos a análise somente do primeiro cenário, por


considerar este mais interessante, mas você, caro(a) acadêmico(a), poderá verificar
todos os cenários vendo o documento na íntegra.

QUADRO 10 – PROJEÇÃO DAS VARIÁVEIS RELATIVAS AO CENÁRIO 1


Variáveis 2010 2011 2012 2013 2014
Taxa de Crescimento do PIB (%) 5,50 4,50 5,30 5,70 6,30
Taxa de Câmbio (R$ / US$) 1,86 1,98 2,05 2,19 2,29
Taxa de Juros (%) 11,25 11,00 9,25 8,25 8,00
Taxa de Inflação (%) 5,16 4,70 4,50 4,80 4,90
Taxa de Crescimento do PIB Mundial (%) 4,00 4,80 3,50 4,20 4,50
FONTE: Brasil, 2011a, p. 109

O turismo depende de vários outros fatores para o seu desenvolvimento,


conforme demonstra o quadro. As variáveis externas serão favoráveis para a
expansão das economias mundial e nacional, o que terá consequências positivas
para o crescimento turístico nos próximos anos.

As condições internas favoráveis também possibilitarão a expansão da


economia nacional, trazendo benefícios ao turismo interno. Mas por que em 2011
houve uma redução no crescimento? Devido à forte recuperação da economia
brasileira a partir do último trimestre de 2009, o Banco Central do Brasil aumentou
a taxa de juros em 2010 e também 2011, estando acima de 10% a.a.

A articulação das ações interministeriais para a realização de ações e


investimentos ligados direta e indiretamente ao turismo, juntamente com a
manutenção e aceleração dos programas de investimentos em infraestrutura e a
cooperação entre as três esferas do governo, serão fundamentais na construção
deste cenário, que terá como resultado o crescimento do turismo e a melhoria
expressiva da competitividade turística. (BRASIL, 2011a).

O documento Turismo no Brasil 2011-2014 (BRASIL, 2011a) divide os


cenários para o turismo no país em duas fases: a primeira corresponde ao período
de 2011 e 2012 e a segunda, 2013 e 2014. Na primeira fase observamos que o Brasil,
contrariando o mercado internacional, possui estabilidade econômica e solidez
financeira. Temos grandes investimentos públicos na infraestrutura básica devido
à preparação dos eventos internacionais. Isto traz efeitos também para a atividade
turística.

194
TÓPICO 4 | TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

A segunda fase deste cenário dependerá do desenrolar da primeira, isto


referente ao planejamento coordenado e cooperado das ações federais, estaduais e
municipais e dos investimentos feitos na primeira fase, além da eficácia e eficiência
do Estado na condução das reformas e regulação da economia nacional. Nesta fase
haverá uma melhoria na competitividade turística derivada dos investimentos
reali­zados na primeira fase.

Os empregos ligados ao turismo irão crescer, mas estima-se que para cada
emprego formal existirá mais de um emprego informal (1,3). Isto também será
resultado dos eventos internacionais que acontecerão no Brasil.

QUADRO 11 – PROJEÇÕES DE INDICADORES DO MERCADO DE TRABALHO EM 2011-2014


Indicador direto Unid. 2010 2011 2012 2013 2014
Empregos e ocupações
criadas nas atividades
Mil 345.043 300.319 372.172 424.869 500.641
características do
turismo.
Indicadores indiretos Unid. 2010 2011 2012 2013 2014
Número de
estabelecimentos Unid. 26.914 28.822 30.864 33.052 35.394
hoteleiros.
Financiamento
concedido para o setor R$
6,70 8,10 9,72 11,67 14,00
privado pelos bancos Bilhão
federais.
Empregos e ocupações
criados no setor Mil 103.981 89.427 109.733 123.831 144.121
turismo.
Empregos e ocupações
formais nas atividades
Mil 5.753,235 6.053,553 6.425,726 6.850,595 7.351,236
características do
turismo.
Prestadores de serviços
turísticos cadastrados
Unid. 160.173 208.225 270.692 351.900 457.470
no Ministério do
Turismo.
FONTE: Brasil, 2011a, p. 112

Conforme o quadro, o número de ocupações ligadas ao turismo direto e


indiretamente irá crescer consideravelmente nos próximos anos, ou seja, o nível de
emprego tende a crescer 16% acima da taxa do crescimento do PIB.

O quadro a seguir apresenta as projeções das viagens domésticas ou


internas e alguns indicadores indire­tos que podem influenciar ou representar o
desempenho do mercado turístico domés­tico.

195
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

QUADRO 12 – PROJEÇÕES DE INDICADORES DO MERCADO DE VIAGENS DOMÉSTICAS EM


2011-2014
Indicador direto Unid. 2010 2011 2012 2013 2014
Divisas
internacionais US$
5,74 6,26 6,79 7,42 8,89
geradas pelo Bilhão
turismo.
Indicadores
Unid. 2010 2011 2012 2013 2014
indiretos
Chegada
de turistas Milhão 5,10 5,44 5,76 6,18 7,21
estrangeiros.
Desembarques
em voos Milhão 6,93 7,29 7,80 8,58 9,44
internacionais.
Nº de assentos
ofertados
Unid. 9.550,319 10.505,351 11.555,886 12.711,475 13.982,622
para voos
internacionais.
Gastos com
cartão de crédito
US$
realizado 3.588 4.126 4.704 5.480 6.466
Milhão
por turistas
estrangeiros.
FONTE: Brasil, 2011a, p. 114

No quadro anterior podemos verificar que o crescimento das viagens


domésticas tem uma relação com o crescimento do PIB, porém estas viagens
domésticas crescem 24% acima da taxa de cresci­mento do PIB.

Fazendo um comparativo entre as viagens domésticas e as viagens


internacionais, temos os dados a seguir com algumas projeções para o período que
estamos estudando, 2011-2014.

196
TÓPICO 4 | TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

QUADRO 13 – PROJEÇÕES DE INDICADORES DO MERCADO DE TURISMO INTERNACIONAL EM


2011-2014
Indicador direto Unid. 2010 2011 2012 2013 2014
Viagens
domésticas Unid. 187.406.328 197.863.601 210.867.197 225.771.290 243.408.543
realizadas.
Indicadores
Unid. 2010 2011 2012 2013 2014
indiretos
Desembarques
em voos Unid. 59.697.092 63.055.053 67.232.450 72.022.763 77.694.555
nacionais.
Aluguel de
veículos para Unid. 179.759 201.199 225.197 252.056 282.120
turista.
Preço médio de
bilhete aéreo
R$ 325 338 351 365 387
- doméstico
regular (yield).
Desembarque
em transporte
Unid. 59.496.017 57.871.324 56.290.997 54.753.825 53.258.630
rodoviário
coletivo regular.
Veículos
licenciados – Unid. 2.801.347 3.089.647 3.407.618 3.758.314 4.145.100
automóveis.
FONTE: Brasil, 2011a, p. 115

Neste quadro podemos analisar as condições atuais das premissas e


as projeções das variáveis ligadas dire­ta ou indiretamente ao desempenho e
competitividade da atividade turística. Dentre todos os cenários aqui apresentados
podemos afirmar que este é o cenário com maior probabilidade de realização.
Contudo, é importante ressaltar que a concretização deste cenário dependerá
principalmente da eficiência e da eficácia das políticas governamentais que afetam
e afetarão a atividade turística.

O Ministério do Turismo, no documento Turismo no Brasil 2011-2014,


elenca também propostas para o fortalecimento do turismo nos próximos quatro
anos. Para tanto a proposta está dividida em eixos temáticos, subdivididos em
temas com o objetivo de facilitar o processo de acompanhamento e avaliação dos
resultados da sua implementação.

197
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

QUADRO 14 – QUADRO DE QUALIFICAÇÃO DAS PROPOSTAS DE FORTALECIMENTO DO


TURISMO EM 2011-2014

Eixos temáticos Temas


Planejamento, implementação, monitoramento e
Planejamento e gestão.
avaliação, legislação e relações institucionais.
Informação. Estatísticas, estudos, pesquisas e divulgação.
Regionalização e roteirização, segmentação e produção
Estruturação da oferta turística.
associada e desenvolvimento local.
Financiamento e acesso ao crédito, captação de
Fomento.
investimentos e política tributária.
Qualificação. Qualificação para o turismo, classificação e certificação.
Infraestrutura. Infraestrutura básica e infraestrutura turística.
Logística de transportes. Logística de transportes.
Promoção e apoio à Promoção institucional, promoção interna e promoção
comercialização. externa.
FONTE: Brasil, 2011a, p. 129

Os eixos apresentados no quadro exigem uma análise complexa e extensa e


não conseguiríamos neste caderno analisar todos os temas que cabem na discussão
como, por exemplo, a situação dos aeroportos, o acesso, as rodovias, a qualificação
dos profissionais de turismo etc.

Em resumo, podemos afirmar que até 2012 teremos um período moderado


de expansão do turismo, pois as atenções do mundo estarão voltadas às Olimpíadas
de Londres. Após este evento, o próximo grande atrativo será a Copa do Mundo
de 2014 no Brasil, quando o país atrairá toda a atenção da mídia internacional. Isso
vai propiciar um período de exposição intensa.

Conforme o Plano Aquarela 2020 (BRASIL, 2011b), em 2013, durante a


realização da Copa das Confederações no Brasil, o turismo brasileiro poderá fazer
um ensaio com a família esportiva, os convidados e patrocinadores, e também com
a imprensa internacional. Esse será um momento importante para fazer ajustes e
alinhamentos finais para 2014.

No período de 2012 a 2016, todos os temas relacionados à imagem do


Brasil deverão ser coordenados e voltados para uma estratégia única do país. Isto
envolverá ações especialmente nos setores de relações internacionais, exportações,
cultura, turismo, esporte e atração de investimentos.

Teremos neste período de eventos internacionais alguns tipos de públicos


em que destacamos:

• torcedores que seguem seus times e farão turismo na própria cidade dos jogos
e irão visitar lugares do Brasil segundo a classificação e os intervalos entre os
jogos;

198
TÓPICO 4 | TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

• a imprensa esportiva e generalista credenciada e não credenciada;

• as federações e times de futebol;

• os visitantes que podemos chamar de turistas da Copa.

Pela situação geográfica do Brasil no mundo, o turismo deverá ficar


concentrado no próprio país, diferente do que ocorreu, por exemplo, na Copa da
Alemanha, quando o visitante poderia facilmente chegar a outros países europeus.
Para esses turistas, o produto principal a ser trabalhado deverão ser os roteiros
formatados especialmente com as 12 cidades-sede dos jogos.

No planejamento da oferta de roteiros, é importante registrar que há um


primeiro “término” da Copa do Mundo quinze dias depois de seu início, quando
metade das seleções sai do campeonato. Nesse momento, restará apenas um
conjunto de torcedores que se deslocam para as outras cidades para assistir aos
jogos entre os países classificados para a próxima fase da Copa.

Os torcedores das seleções que forem eliminadas são o público potencial


que deve ser trabalhado no pré e durante o evento, incentivando a conhecer o
Brasil. Serão também trabalhados os públicos de países que irão passar com
certeza à segunda fase, com o mesmo objetivo de fazer com que pelo menos 25%
dos estrangeiros viajem pelo Brasil antes ou depois da Copa.

O marketing internacional das cidades-sede, organizado desde já e


atualizado anualmente com a grade de produtos de cada estado, será o principal
instrumento de trabalho envolvendo a Embratur, os órgãos de turismo e a
comunicação internacional. Serão trabalhados também os roteiros integrados para
o mercado internacional de acordo com os destinos brasileiros, as definições de
chaves dos jogos e as eliminatórias.

A atuação do Brasil no exterior para o período da Copa será por meio das
vendas dos operadores oficiais da FIFA, no sentido de apoiar a comercialização dos
produtos turísticos do Brasil e as possibilidades de roteiros que serão apresentadas.

Nos próximos anos o foco central do turismo no Brasil será, obviamente,


voltado aos eventos internacionais da Copa do Mundo de Futebol e das Olimpíadas,
mas não podemos esquecer que ações básicas ainda precisam ser realizadas para
garantir a vida dos próprios brasileiros.

Isto se refere à saúde, educação, segurança pública, infraestrutura básica


etc., pois melhorando a qualidade de vida da população brasileira, melhoramos a
imagem do turismo brasileiro.

Convido você, acadêmico(a), a ler mais sobre o assunto e discutir com seus
colegas, professores e demais pessoas sobre o assunto, pois é de interesse de todos.
Isto nos traz consequências diretas e indiretas, independentemente da região do
país em que estejamos.
199
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

E
IMPORTANT

Às vésperas da realização de grandes eventos internacionais no Brasil, a profissão


de turismólogo ou bacharel em turismo ainda não é reconhecida. Este é mais um dos desafios
para o turismo no Brasil.

LEITURA COMPLEMENTAR

A FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM TURISMO NO BRASIL

Luiz Gonzaga Godoi Trigo

Os bacharéis em turismo são profissionais formados em cursos reconhecidos


pelo Ministério da Educação, porém sua profissão não é regulamentada, a exemplo
do que também ocorre com os profissionais de informática e publicidade e
propaganda. Até mesmo áreas com “reserva de mercado”, que exigem diplomas,
como jornalismo e relações públicas, sofrem pressões empresariais para a contratação
de pessoas sem curso superior ou formadas em outras áreas.

Percebe-se, analisando-se as tendências de mercado no início da década de


1990, que procedimentos como terceirização, privatização e desregulamentação
inibem os esforços para que profissões ligadas ao turismo sejam reconhecidas e
regulamentadas. Em um mundo caracterizado por uma nova ordem econômica
internacional, novas tecnologias e forte competitividade em mercados atingidos
pelo desemprego, o profissional de turismo tem de se impor pela competência e
pela eficiência. É necessário também que esse profissional tenha uma postura ética
e não subestime a capacidade e as aptidões dos outros profissionais, graduados
em diversos cursos superiores e que disputam empregos no turismo. O setor é
extremamente mutável, dinâmico e, no caso do Brasil, ainda bastante instável.

A conjuntura atual e o profissional em turismo

O bacharel em turismo precisa de algumas habilidades fundamentais para


se tornar um profissional qualificado e realizado, individual e socialmente. Há
desde o aspecto vocacional (com parâmetros subjetivos de determinação) até outros
pontos como iniciativa, determinação, criatividade, persistência, autoconfiança,
conhecimentos técnicos e o sentido de profissionalismo, que é mais do que encarar
a profissão como uma simples ocupação destinada a garantir sua sobrevivência. Os
futuros profissionais, durante a graduação, devem ter acesso a uma visão abrangente
e completa do que a profissão e o mercado turístico representam. Para isso, o curso

200
TÓPICO 4 | TENDÊNCIAS PARA O DESENVOLVIMENTO DO TURISMO

todo (grade curricular, disciplinas e seus conteúdos programáticos, atividades de


laboratório, viagens, pesquisas), orientado por um projeto pedagógico consistente,
deve apontar para objetivos claros e desafiadores.

Os diversos relacionamentos com os quais os estudantes terão contato


também ajudarão no processo educacional. Desde os relacionamentos “intramuros”
universitários (entre professores, alunos e funcionários) até os relacionamentos
com o mercado de trabalho, os órgãos oficiais de turismo, a imprensa e editoras
especializadas e outras instituições de ensino. Tudo o que puder veicular informação
e cultura deve ser viabilizada para o curso.

O mercado de trabalho é bastante variado. O bacharel em turismo pode se


inserir em um conjunto bastante diversificado de atividades:

- setor privado em hotelaria e similares, agências de viagens e de turismo,


companhias aéreas e demais setores de transportes, setor de congressos e eventos,
exposições e feiras comerciais e industriais de caráter regional, nacional ou
internacional;

- centros de informações, documentação e pesquisas turísticas, em nível municipal,


estadual ou federal;

- órgãos oficiais de turismo, instituições de caráter misto (público e privado) para


fomento, planejamento, pesquisa e controle de atividades turísticas;

- guia receptivo, local, nacional ou internacional, desde que tenha feito curso
específico reconhecido pela Embratur (não é necessário ser bacharel em turismo
para ser guia, bastando a carteira da Embratur, porém, sem dúvida, um curso
superior capacita ainda mais o guia);

- marketing e vendas turísticas;

- formação profissional em instituições de Ensino Médio ou Superior de Turismo,


em instituições públicas ou privadas, nos campos de educação e pesquisa
(cursos de especialização e de pós-graduação são fundamentais para capacitar o
profissional dessas áreas);

- escritor de textos para jornais e revistas especializadas, livros e publicações


técnicas;

- setores de recreação e lazer programados;

- áreas de turismo de segmentos como turismo ecológico, turismo social,


infantojuvenil, para idosos, deficientes físicos, segmentos étnicos ou culturais
em geral.

201
UNIDADE 3 | TURISMO E SOCIEDADE

Não importa onde o profissional vai trabalhar, ele sempre encontrará novas
realidades em um mercado que se transforma rapidamente. As mudanças se referem
especialmente às novas tecnologias e à importância crescente do setor terciário na
economia.

Todas as grandes redes de transportes terrestres, marítimos ou aéreos, hotéis,


operadoras turísticas e agências de viagens estão informatizadas. Conhecimentos
de informática, aliados à necessidade de familiarização com línguas estrangeiras
(especialmente o inglês, no caso do Brasil), são requisitos básicos para quem vai se
aventurar no mercado e deseja ter sucesso.

Os principais “concorrentes” do bacharel em turismo no mercado de trabalho


são:

- profissionais com curso superior de administração de empresas, economia, direito,


sociologia, relações públicas etc.;

- profissionais de formação média que, pela atuação em empresas e órgãos públicos


de turismo, familiarizam-se com tarefas geralmente rotineiras e, com o tempo,
atingem postos de mais responsabilidade;

- graduados nas áreas de educação física, lazer e recreação;

- profissionais estrangeiros, especialmente nas grandes cadeias hoteleiras,


operadoras e agências de viagens internacionais e franquias de maior porte, em
que o controle administrativo pode ainda ser realizado no exterior.

FONTE: TRIGO, Luiz Gonzaga Godoi. A sociedade pós-industrial e o profissional em turismo. 4.


ed. Campinas: Papirus, 2000. p. 205-207.

202
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico você estudou que:

• Na sociedade atual o lazer é valorizado como uma necessidade e direito do ser


humano. Neste contexto o turismo exerce uma sedução muito grande sobre as
pessoas, atraindo um público cada vez maior.

• Atualmente o turismo se tornou uma atividade competitiva e muito profissional,


com vários produtos e destinos à disposição.

• Conforme previsões, o número de turistas internacionais crescerá 4% a.a. até


2020.

• Nos destinos do Oriente Médio, África e Ásia o turismo crescerá acima da média
mundial. Já a Europa e a América do Norte terão um crescimento abaixo da
média mundial.

• Há tendências globais do impacto do turismo internacional nas áreas da


economia, demografia, tecnologia, sustentabilidade, segurança, parcerias
público-privadas, mercados emergentes e transporte.

• As principais estratégias adotadas pelas empresas turísticas são: adoção de


alianças estratégicas, fusões e aquisições entre empresas, multinacionalização
das empresas, integração entre empresas do setor.

• Nos próximos anos a América Latina e o Brasil terão um crescimento do turismo


acima da média mundial.

• Além de o turismo internacional crescer no Brasil, nos últimos anos os turistas


brasileiros estão viajando mais para destinos internacionais.

• A tendência de expansão do turismo internacional no Brasil se deve à economia,


mas principalmente à realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e das
Olimpíadas de 2016.

• Com a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas, a tendência de


crescimento no turismo se reverte em várias áreas como: aumento dos empregos
ligados direta e indiretamente com o turismo, viagens domésticas e o turismo
internacional.

• Os eventos internacionais poderão ser uma oportunidade ímpar de o Brasil


despontar no mercado turístico internacional, mas isso depende de políticas
públicas eficientes nas mais diversas áreas e um planejamento adequado.

203
AUTOATIVIDADE

1 Quais foram as mudanças observadas nas empresas, no setor de turismo,


para conseguirem se manter no mundo globalizado?

2 Além dos desafios e perspectivas para o desenvolvimento turístico


comentados neste tópico, mencione outros que você considera importantes.

3 Com base no texto complementar “A Formação Profissional de Turismo no


Brasil”, analise o profissional de turismo que temos no Brasil atualmente
e quais são as tendências, levando em consideração a realização dos
megaeventos Copa do Mundo de Futebol e Olimpíadas.

204
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