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UNIVERSIDADE FEDERAL DO OESTE DO PARÁ

INSTITUTO DE CIÊNCIAS DA SOCIEDADE


PROGRAMA DE ANTROPOLOGIA E ARQUEOLOGIA
BACHARELADO EM ARQUEOLOGIA

Jaime Xamen Wai Wai

LEVANTAMENTO ETNOARQUEOLÓGICO SOBRE A CERÂMICA KONDURI E


OCUPAÇÃO DOS WAI WAI NA REGIÃO DA TERRA INDÍGENA TROMBETAS-
MAPUERA (PARÁ, BRASIL)

Santarém
Setembro de 2017
JAIME XAMEN WAI WAI

LEVANTAMENTO ETNOARQUEOLÓGICO SOBRE A CERÂMICA KONDURI E


OCUPAÇÃO DOS WAI WAI NA REGIÃO DA TERRA INDÍGENA TROMBETAS-
MAPUERA (PARÁ, BRASIL)

Trabalho de Conclusão de Curso


apresentado ao Programa de Antropologia e
Arqueologia, para obtenção do grau de
Bacharel em Arqueologia pela Universidade
Federal do Oeste do Pará.

Orientador: Dr. Claide de Paula Moraes


Co-orientadora: Dra. Camila Pereira Jácome

Conceito
Aprovado em / /

______________________________
Dr. Claide de Paula Moraes
Universidade Federal do Oeste do Pará

______________________________
Dra. Camila Pereira Jácome
Universidade Federal do Oeste do Pará

______________________________
Dr. Eduardo Soares Nunes
Universidade Federal do Oeste do Pará

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Resumo.

Esse trabalho tem como objetivo interpretar os vestígios arqueológicos cerâmicos,


denominados de Konduri (Hilbert, 1955), que ocorrem no rio Mapuera, afluente do Rio
Trombetas, e se situa na Terra Indígena Trombetas-Mapuera. Além disso, foi feito um
levantamento etnoarqueológico de duas aldeias desta mesma terra indígena, Inajá e
Mapuera. A metodologia deste trabalho buscou entender junto com os diversos grupos
que compõem os Wai Wai, a relação da ancestralidade Wai Wai, e como nossos
grupos viviam em seu tempo.
Além, da história dos ancestrais, precisa ser entendida a história do contato de
verdade que ocorria com dos espíritos do mato e de animais, de acordo com
moradores anciões Wai Wai hoje que moram no rio Mapuera.

Palavras-chave: Levantamento Etnoarqueológico, Terra Indígena Trombetas-


Mapuera, História Wai Wai

Abstract.

This work main objective is to interpret archaeological ceramic remains, known as


Konduri (Hilbert, 1955), which appear in the Mapuera River, a confluent of the
Trombetas River, that is located in the Indigenous Land Trombetas-Mapuera.
Furthermore, an ethnoarchaeological survey was conducted in two villages of the
same indigenous land, Inajá and Mapuera. The methodology used in this work aimed
to understand, alongside the different groups that form the Wai Wai, the relationship
of ancestrality of the Wai Wai, and how our groups lived in the past.
Besides the history of our ancestors, we need to understand the history of the contact
held amongst the forest spirits and animals with the Wai Wai, following the stories of
the Wai Wai elders, whom live nowadays in the Mapuera river.

Keywords: Ethnoarchaeological survey, Indigenous Land Trombetas- Mapuera, Wai


Wai History

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Agradecimentos
Primeiramente quero agradecer o professor Claide Paula Moraes, me orientou teve
paciência, até concluir acompanhar este trabalho.

Agradecer professora Camila Jacome, por ter me ajudado, compartilhando sua


experiência.

Professora Gabriela com quem fui fazer pesquisa primeira etapa de campo, me deu
muita contribuição para fazer pesquisa e desenvolver esse trabalho, a sua companhia
foi grande prazer professora!

Raoni Vale, meu amigo professor, obrigado convite trabalho de campo, pelas forças
dada.

Que me deram uma ideia maravilhosa, me animaram, queria agradecer com grande
coração, os demais pesquisadores, Eduardo Góes Neves, Fabiola Andrea Silva antes
não sabia fazer pesquisa, através de ler o texto de vocês que fui nascer, crescer agora
queria compartilha com vocês história dos meus ancestrais.

Este trabalho quero tentar reforçar minha experiência como indígena, em encontrar
caminhos de interpretação, nossa forma de interpretar diversos lugares e ocupações,
assim quero deixar alguns agradecimentos especiais, meus amigos arqueólogos e
parceiros acadêmicos.

Por fim agradecer todos da minha família pelo apoio com carinho e paciência. Peço
desculpas para meus pais, sempre sentiram minha falta, além disso queria agradecer
a Deus que me deu grande força durante estudo, me capacitou me ensinou durante
as minhas dificuldades.

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Sumário
Resumo.2
Agradecimentos4
5
Introdução6
1.1.Localização da região11
1.2.Discussão arqueológica13
1.4. Meu percurso na cidade e na universidade29
Capítulo 1 – Metodologia30
1.1. Problema30
1.2. Objetivo Geral30
1.3. Objetivo específico30
1.4. Hipótese30
1.5. Métodos31
Capítulo 2 – Entrevistas com os velhos e conhecedores das histórias antigas e ceramistas do
Mapuera33
1.1. Entrevista 133
1.2. Entrevista 237
1.3. Entrevista 340
1.4. Entrevista 442
1.5. Entrevista 543
1.6. Entrevistas com ceramistas45
Capítulo 3 – As aldeias e os objetos arqueológicos, exemplo das Aldeias Mapuera e Inajá48
1.1. Introdução48
1.2. Aldeia Mapuera48
1.3. Aldeia Inajá51
1.4. Interpretação dada pelos velhos aos objetos arqueológicos encontrados nas aldeias atuais53
Conclusão60
Bibliografia63

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Introdução
Este trabalho conta história sobre dois lugares, aldeia Mapuera e Inajá (Figura 3).
Embora conta e interpreta no tempo os lugares ocupados pelos indígenas conhecido
com Karib, este trabalho tem foco na interpretação das tecnologias antigas. O objetivo
principal é apresentar o entendimento dos Wai Wai nessa região sobre seu passado.
As duas aldeias, se situam no rio Mapuera, afluente do Rio Trombetas, e hoje estão
em uma terra indígena dermacada, T.I. Trombetas Mapuera. Outras três terras
indígenas abrigam os coletivos que são denominados Wai Wai, T.I. Nhamundá-
Mapuera, a T.I. Waiwai (em Roraima). Atualmente, encontra-se a espera de
homologação a T.I. Tunayana-Kaxuyana, que também pega parte do Rio Mapuera,
além do Trombetas e Cachorro (Figura 1,2).
A partir desta perspectiva busco apresentar informações e os significados da fase
arqueológicas Konduri, que aparece nos sítios importantes das atuais aldeias dos
grupos Wai Wai. Tentarei explicar o que significa estes tipos de tradição registradas
nos vasos antigos presentes nos sítios arqueológicos.
Segundo o velho conhecedor da história dos mais antigos, Poriciwi Wai Wai, os
vestígios arqueológicos dizem muito. Tem artefatos quebrados nas aldeias onde
moramos e eles resistem até agora. As pessoas que fundaram as aldeias já morreram,
mas os artefatos ainda estão presentes e indicam a existência destas pessoas.
Atualmente não existem muitos velhos Wai Wai na Aldeia Mapuera, alguns faleceram
e outros mudaram para outras aldeias.
Por isso, hoje muitas tradições da nossa história e mitos vem nos seguindo na
memória, alguns nós estamos perdendo. Com este trabalho quero relembrar e
registrar informações dos sítios arqueológicos. Nós, os Wai Wai, não somos um povo
só, somos vários grupos escrevendo sua história.
Escolhemos um tema para o qual aplicaremos etnoarqueologia nas aldeias Mapuera
e Inajá, além de entrevistas com velhos conhecedores de outras aldeias. Meu foco
principal está centrado no relato da chegada dos indígenas a estas aldeias, a
formação dos vários grupos de casamentos, de onde vinham a maior parte das
pessoas, de quem eles eram descendentes e o tempo da formação das aldeias.
Nesta introdução apresento um pouco sobre a região da pesquisa, a Bacia do Rio
Trombetas. E também sobre o conhecimento que arqueologia tem sobre as cerâmicas
arqueológicas desta região. Depois, falo um pouco como foi o contato histórico dos

6
povos Wai Wai com os brancos (karaiwa). Termino essa introdução, falando um pouco
sobre a minha trajetória na cidade e na universidade.

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Figura 1 – Mapa localizando as terras indígenas e protegidas do norte do Pará e os principais rios. Fonte: (Caixeta de Queiroz, 2008 apud
Jácome, 2017).

8
Figura 2– Principais terras indígenas demarcadas no Estado do Pará e na divisa com o Estado do Amazonas, localizando alguns dos grupos
citados ao longo deste capítulo. Mapa: Eduardo Kazuo Tamanaha (Jácome, 2017).

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Figura 3 – Localização das aldeias Mapuera e Inajá (identificadas em vermelho), no rio Mapuera, na Terra Indígena Trombetas-Mapuera. Mapa: Eduardo
Kazuo Tamanaha (Jácome, 2017)

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1.1.Localização da região
Neste capítulo apresento o rio Trombetas que se situa na região geográfica do
Planalto das Guianas. O rio se localiza no estado do Pará, e faz fronteira com Guiana
e Suriname esses áreas forma utilizadas pelos ancestrais dos Wai Wai para moradia,
roça, caminhos, lugar de coleta de fruta, madeira, material para artesanato e de caça.
Na explicação da geologia a região do Planalto das Guianas:

também conhecido como Escudo das Guianas, está localizado na região Nordeste da
América do Sul, com extensão de cerca de 5.000.000 m2 (IBGE 1961), mais
precisamente na região do extremo Norte do Brasil (Norte dos estados do Amazonas
e do Pará, praticamente todo estado de Roraima e parte ocidental do Amapá). Essa
formação se estende também para o sul da Venezuela, uma faixa no leste da Colômbia
e na totalidade da Guiana, Suriname e Guiana Francesa. A região é limitada ao sul
pelo rio Amazonas, a leste pela costa atlântica e ao norte pelo Orinoco (Jácome,
2017:56)

Figura 4 Localização do Escudo das Guianas. Fonte:


http://www.ebah.com.br/content/ABAAAgmBUAI/guianas-aspectos-fisicos-geograficos-
morfologicos-geologico-identificacao-caracteristicasEBAH. Fonte da ilustração: Jácome,
2017.

Sobre os rios da região das Guianas

A hidrografia da Guiana é formada por quatro rios principais: o Corentyne, o Berbice,


o Demerara e o Essequibo. Nesses rios há muitas quedas, cachoeiras e corredeiras,
entre as mais conhecidas estão as cataratas de Kaieteur (226 m de altura), no Rio
Potaro, e as de Kamaria. Entre os rios que correm de norte para sul está o Trombetas,
que faz parte da bacia do Amazonas. (Jácome, 2017:58)

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Figura 5 – Trecho de corredeiras no rio Essequibo. Fonte: Evans & Meggers (1955). Fonte da
ilustração: Jácome, 2017.

A maior parte da bacia do Rio Trombetas, se encontra nas terras indígenas dos Wai
Wai, a pesquisa que desenvolvemos nesse rio foi focalizada em duas aldeia Inajá e
Mapuera. O trecho entre as duas aldeias é marcado por três trechos de cachoeiras
(ou corredeiras), que são: Paraíso, Placa e Porotowkahxim (Cachoeira do Macaco
Aranha). A cachoeira mais longa e difícil de ultrapassar, onde há muitos acidentes de
canos é a cachoeira de Paraíso.

O Rio Trombetas tem como rios de cabeceira os rios Kapuwini, Tutumowo, Kikwo,
próximo a região da Guiana. Do outro lado tem rio Turuni que vem do Suriname,
desaguá no Trombetas.

O rio Mapuera se constitui após o encontro dos Tawiní e Urukurin. No interflúvio do


Mapuera e Trombetas, aflui o Rio Cachorro (Katxuru), cujo afluente mais importante é
o Cachorrinho (Txoroaho).

A topografia da bacia do Trombetas é formada por vários desníveis, que forma


cachoeiras e corredeiras que, praticamente, que se estendem de uma margem a
outra. A solução para ultrapassar essas cachoeiras é o uso dos paranãs, canais de
navegação formados por pequenos braços do rio onde há menos afloramento rochoso

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e as águas estão menos velozes, ou os varadouros, caminhos usados para atravessar
a pé e os trechos interfluviais.

O clima da região é dividido em estação das chuvas (de janeiro até julho) e da seca
(de agosto até dezembro). Quando o rio está cheio, os Wai Wai procuram alimento e
caça, é muito bom essa época para caçar macaco aranha e pescar curimatã, que sobe
os cardumes em piracema. Nessa época o macaco aranha fica muito gordo, por que
tem muitas frutas para comer. A partir de agosto, é bom para capinar as roças e abrir
plantação. Segundo velhos waiwai, tem que derrubar as arvores e mato nesse tempo,
porque aproveita o sol forte para secar as folhas e queimar bem a árvore, para não
dar trabalho muito quando for limpar. Os Wai Wai assim seguem os tempos dividindo
em época da chuva e época quente. E os tipos de vegetação encontrados são
basicamente de floresta de terra firme, floresta de várzea e a vegetação aquática
encontrada nos lagos.

1.2.Discussão arqueológica
A discussão arqueológica que farei na minha monografia, foi feita a partir da
interpretação dos velhos sobre as cerâmicas Konduri principalmente nas aldeias de
Inajá e Mapuera. No entanto, é importante também mostrar o que os arqueologos
pensam e interpretam sobre as cerâmicas que ocorrem na região do Rio Trombetas.
Vou aqui, apresentar um resumo do que a arqueologia fala sobre isso, a partir da
síntese feita por Camila Jácome (2017).

A arqueologia da região do Rio Trombetas e Nhamundá foi primeiramente descrita por


Peter Hilbert (1955), mas antes dele houve as expedições de João Barbosa Faria
(1946) no Nhamundá e a classificação da cerâmica Konduri feita por Nimuendaju
(2004). Dos anos 80 até os dias de hoje, o número de pesquisas arqueológicas, em
especial na porção baixa do Rio Trombetas e Nhamundá aumentou significativamente,
todas elas relacionadas às obras de grande impacto ambiental, social e econômico,
como a mineração de bauxita e projetos hidroelétricos.
A cerâmica Pocó, que é a mais antiga encontrada, na região, foi reconhecida
pela primeira vez na região do Lago Pocó, no baixo Nhamundá (Hilbert 1955).
A cerâmica por suas características formais e decorativas, foi comparada às
cerâmicas Barrancóides do sítio El Palito, do litoral da Venezuela e da fase
Japurá, do rio homônimo, na Amazônia centro-ocidental (Hilbert & Hilbert 1980:
8).
Na primeira caracterização (idem) essa cerâmica foi definida pela pasta
contendo cauixi, caraipé e eventualmente esses antiplásticos ocorrem
simultaneamente. As formas identificadas foram tigelas rasas e fundas, com
bojos semi-esféricos, vasos de gargalo constritos, com paredes carenadas e

13
assadores de beiju. E a decoração considerada típica é a pintura: como engobo
vermelho, faixas espessas e vermelhas, vinho e amarelo, sobrepostas em
engobo branco. A decoração plástica foi considerada menos frequente,
formando padrões geométricos feitos por incisão, assim como ocorrem o inciso-
escovado, acanalado, raspado-zonado e inciso-modelado. (Hilbert, 1955). Em
1975, quando Peter Hilbert volta ao Nhamundá, com seu filho Klaus Hilbert
(Hilbert & Hilbert, 1980), conseguiu obter amostras que dataram essa cerâmica
entre 65 AC e 205 DC. Eles obtiveram duas datações 1330 ± 45 AC. e 1000 ±
130 AC que consideram demasiadamente antigas, o que interpretaram como
erro, portanto, descartando o seu uso na cronologia Pocó.
Já nos anos 2000, na região do baixo Trombetas, acima de onde Hilbert
pesquisou, Vera Guapindaia (2008) também identificou sítios Pocó enterrados,
seja sob a ocupação Konduri, seja em áreas em contexto de única ocupação.”
(Jácome, 2017: 74-75)

Figura 6 – Fragmentos e contextos Pocó-Açutuba em quatro regiões da bacia Amazônica.


Prancha de Camila Jácome a partir de ilustrações de Neves et ali (2014). Fonte da ilustração:
Jácome, 2017.

De acordo com povos anciões waiwai, a cerâmica Pocó, surgiu quando os ancestrais
tinham ligações com os espíritos dos animais, por isso é uma cerâmica que contem
apliques representando animais, muito antes da evangelização Wai Wai.

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Peter Hilbert (1955) foi o primeiro a oferecer uma descrição tecnológica da cerâmica
Konduri, que ocorre em períodos, mais recentes do que a cerâmica Pocó. Em sua
pesquisa, nos sítios da área do baixo Trombetas e Erepecuru, em Oriximiná, ele
identificou 3 grupos de cerâmicas distintos (1955:71):

Grupo 1 – antiplástico de areia, decoração Espinha de Peixe (ver adiante), menor


ocorrência.

Grupo 2 – antiplástico de cauixi, vasilhas e decorações diversas.

Grupo 3 – antiplástico de cauixi, mais dura que o grupo 2, somente fragmento de


bordas e apliques globulares.

Figura 7 – Mapa com a localização dos sítios identificados no baixo Trombetas e Nhamundá,
por Peter Hilbert (1955).

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Segundo Hilbert, a cerâmica do grupo 2 é idêntica à que Nimuendaju chamou de
Konduri, a do grupo 1 ficou posteriormente conhecida como decorada por “espinha de
peixe” (Guapindaia, 2008) e o grupo 3 de Globular.

A cerâmica Konduri, assim como a Tapajós, é conhecida e reconhecida pelas suas


típicas decorações plásticas. No entanto, Hilbert reconheceu também um tipo liso, que
atribui ao uso cotidiano, pelo menos três formas, uma de panela e duas de tigelas.
Entre as formas identificadas Hilbert (1955) menciona os pratos de 3 a 6 cm de
profundidade, e decoração limitada a um friso na borda interna com incisões
retilineares, às vezes combinadas com pontos. Menciona as grelhas, provavelmente
trata-se dos assadores/torradores de beiju, peças menos frequentes. Assim como os
pratos tem diâmetro de 60 cm, no entanto, tem profundidade menor cerca de 1 a 2 cm
abaixo das bordas (Figura 18). Formas de secção globulares com variações no tipo de
fundo (anelar, pedestal e trípode) e forma da borda também ocorrem (Figura 17).”
(Jácome 2017:81)

Figura 8 – Formas Konduri a partir de levantamento arqueológico em Oriximiná por Hilbert


(1955) e da Coleção Frederico Barata (idem). Prancha digitalizada por Camila Jácome a partir
de Peter Hilbert (1955). Fonte da ilustração: Jácome, 2017.

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Figura 9 – Formas abertas com decoração incisa e ponteada aplicadas nas bordas
identificadas Hilbert (1955) no baixo Trombetas. Prancha digitalizada por Camila Jácome a
partir de Peter Hilbert (1955). Fonte da ilustração: Jácome, 2017.

Esse quadro, com as formas das cerâmicas Konduri, posteriormente foi ampliado com
a pesquisa de Vera Guapindaia em diversos sítios da região de Porto Trombetas que
sinteticamente apresentou em seu doutorado (2008). Notamos na ilustração abaixo,
que além de ampliar o repertório já apresentado por Hilbert (1955), Guapindaia
também identificou formas muito próximas da cerâmica Santarém, como os vasos
antropomórficos, escavados no sítio Boa Vista 1” (Jácome 2017:83)

A ocupação Konduri na região do baixo Trombetas foi datada em 1000 e 1400 DC


(Guapindaia 2008), período contemporâneo à ocupação Santarém.

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Figura 10 – Formas de vasilhas Konduri do Sítio Boa Vista 1, Porto Trombetas. Prancha
digitalizada por Camila Jácome a partir de ilustrações de Vera Guapindaia (2008). Fonte da
ilustração: Jácome, 2017.

Mas a característica mais marcante da cerâmica Konduri, sem dúvida, é sua


decoração plástica. Os adornos, na sua maior parte, são de fragmentos de borda.
Esses apêndices representam cabeças ou figuras antropomorfas e zoomorfas que em
geral estão olhando para dentro do vaso, em raros casos, olhando lateralmente, em
direção à curva da borda. São comuns também os pares de cabeças. Alguns desses
também são encontrados nas paredes das vasilhas. Os adornos são constituídos de
modelagens, roletes de argila nos quais se aplicam incisões, ponteados e algumas
vezes notam-se vestígios de tinta. Funcionam tanto como elemento de decoração
quanto como alças. Entre os zoomorfos reconhecidos estão: jacaré, tartaruga, jaboti,
sapo, tatu, macaco, morcego, aves não identificadas, gavião real e urubu rei.” ).”
(Jácome 2017:86)

18
Figura 1 – Diversas coleções que mostram a exuberância da decoração plástica Konduri em
suas bordas e apliques de vasilhas. Prancha digitalizada por Camila Jácome. Fonte da
ilustração: Jácome, 2017.

Figura 12 – Fragmentos de aplique do tipo cabeça de urubu identificados por Camila Jácome
(pesquisa em andamento) na Prefeitura de Oriximiná, doados de comunidades próximas.
Foto: Camila Jácome, 2014.

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Figura 13 - – Fragmentos de aplique de batráquios (sapos) identificados por Camila Jácome
(pesquisa em andamento) na Prefeitura de Oriximiná, doados de comunidades próximas.
Foto: Camila Jácome, 2014.

Já a cerâmica feita pelos Wai Wai foi estudada por Evans e Meggers e Yde, na região
do Alto Essequibo. O casal de arqueólogos norte-americanos estudou cerâmicas que
encontraram em aldeias recentemente abandonadas pelos próprios Waiwai. As
vasilhas, são em sua parte simples ou com incisão e pintura em vermelho.

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Figura 14 – À esquerda desenhos de peças Erepoimo inciso, à direita formas de Erepoimo
simples (A-E) e Erepoimo pintado (F-G) Fonte da ilustração: Jácome, 2017.

Entre os anos de 1954 e 1959, o etnólogo Jens Yde, do Museu Nacional de


Copenhage, visitou aldeias Waiwai do Alto Essequibo também, onde muitos grupos
vindos do Brasil já se reuniam próximos às missões proselitistas. O seu trabalho gerou
o livro Material Culture of Waiwai. O autor mostra como se fazia vasilhas e os materiais
utilizados na produção cerâmica, ele observou e mencionou pequenas diferenças nas
formas de acabamento e decoração dos artefatos entre os Hixkaryana, Waiwai,
Mawayana e Xerew.

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Figura 2 – Parte do processo de produção cerâmica dos Waiwai do Essequibo foi registrado
em fotografias por Yde (1963). Prancha adaptada a partir de obra citada por Camila Jácome.

O termo para cerâmica em Wai Wai é éermo (ou erimó) e para vasilha é taharim. Ele
mostrou dois tipos de vasilha: uma para para consumir bebidas e outra para fazer e
guardar as bebidas. Sendo que as grandes eram destinadas ao cozimento e
estocagem e as menores para consumo.

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Figura 15 – Morfologia e tipos de vasilhas identificadas no Alto Essequibo por Jen Yde (1963).
Prancha adaptada a partir de obra citada por Camila Jácome.

1.3 História dos Contatos dos Povos Wai Wai

Nesta parte, escrevo informações históricas sobre ocupação e desses contatos


segundo Camila Jácome escreveu em sua dissertação de mestrado (Jácome, 2011).
Existem várias coletividades mencionadas em fontes históricas e etnográficas da
região dos Rios Trombetas e Nhamundá, assim como aquelas que vivem atualmente
no Rio Mapuera e Cachorro.

Ante do contato com os brancos, os grupos Wai Wai, sempre foram viajando e
visitando seuS parentes próximos ou muito distantes. Antigamente, onde eles viviam,
não tinham igrejas ou escolas, e eles adquiriam as coisas pelos espíritos da natureza,
por isso, tinham trilhas pelas matas, e essas visitas podiam durar meses ou até mais
de ano. Hoje eles tem aldeias do rio Mapuera, e uma nova organização de vida, já tem
igrejas, escolas, posto de saúde e rádio de comunicação entre outras,

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Abaixo apresentam autores trazem primeiras referências sobre a existência dos
grupos Wai Wai, a produção de suas culturas, organização e mudança de longos de
tempos.

A relação dos grupos indígenas Wai Wai que pertence a língua Karibe, foram
mudando, antes eram isolados, como no tempo dos meus avós, depois quando eu era
criança já percebi mudanças. Antigamente, os jovens não vinham para cidade e os
não-índio iam nossas aldeias com Funai, pessoas da saúde. Os professores eram
missionários e ensinavam, matemática e escrita da língua Wai Wai, principalmente
usando a Bíblia.

Quando chegou a Funai e os brasileiros, falaram que seria bom ter professores
indígenas, neste período já iniciaram programa de formações dos professores
indígenas pelo Estado do Pará. E daí que começaram a vim para cidade. Eles foram
primeiros aprender português, nesse tempo ainda não tinha todas as aldeias fundadas
pelos Wai Wai, no rio Mapuera. Os jovens Wai Wai fugiam para cidade em busca de
melhoria de vida, trocando couro de animal, banana e outros ou trabalhando nas
fazendas. Depois voltavam para aldeias, depois de três ou quatro meses.

Mas os pesquisadores contam outras histórias

As primeiras informações históricas sobre a região entre o Tapajós e o Nhamundá se


devem à expedição de Francisco Orellana (1541-1542). O cronista desta expedição
era Frei Carvajal ([1542] 1941, que descreve populações que viviam ao longo do Rio
Amazonas, entre as regiões de Santarém até Oriximiná, se organizavam em grandes
aldeias e lutavam entre si. Carvajal narrou um combate entre os espanhóis e mulheres
guerreiras, na região da foz do Nhamundá, motivo pela qual batizaram o Rio Mar, de
Amazonas. Segundo o frei, essas guerreiras moravam acima do Nhamundá e sua
chefe, chamada Conduri, tinha um domínio político que se estendia sobre outros
chefes da região até a foz do rio Tapajós.
A viagem pioneira de Quito à Belém, no começo do séc. XVII, sob o comando de Pedro
Teixeira, foi narrada pelo frei jesuíta Cristóvão de Acuña (1641). Entre os indígenas
encontrados no Nhamundá, Acuña cita os Conduris ou Cunuris que povoavam sua foz.
De acordo com Porro (2007:36), os Konduri eram habitantes das regiões dos lagos,
acima da foz do Nhamundá e Trombetas, onde colhiam arroz silvestre de grão
avermelhado com o qual faziam bebida alcoólica. Eles comercializavam esse arroz e
sua cerâmica com outros grupos dessa região. Ainda de acordo com este autor, eles
utilizavam mais mandioca que os Tapajós, mas seu governo, ídolos e cerimônias eram
semelhantes aos desses últimos. Heriarte (1874[1662]) afirma que os Konduri
fabricariam uma finíssima louça, semelhante à dos Tapajós, objetos que os
portugueses levavam consigo para outras áreas coloniais. Heriarte menciona outros
índios no Rio Trombetas, como os Bobuis (também habitantes do Rio Maicuru),
Aroases e Tabao. (Jácome 2017:124)

24
A evangelização desses grupos do Trombetas e Nhamundá, começou logo após os
primeiros contatos, primeiro foram os católicos jesuítas (Betendorff 1990), depois os
franciscanos (Fritz 2007:36).

O frei franciscano Protásio Frikel (1958) chama de Tarumã-Parukoto1,os povos que


vivem nessa região no século XVII. Ele diz que nesta época havia guerra os Xereu e
os Parukoto. Um dos documentos históricos mais importantes sobre os indígenas da
região do Trombetas é a “Relação” do missionário frei Francisco de São Manços, que
a explorou e descreveu entre 1725 e 1727, os indígenas do rio Mapuera. A versão
original deste documento foi analisada por Antonio Porro (2008). O frei era religioso
na missão do Nhamundá, e foi até o Mapuera, acreditando que estava subindo o
Trombetas. Além de ser a mais antiga, a ‘Relação’ de São Manços é a única fonte do
século XVIII a nomear e situar 50 “nações” indígenas.

Alguns autores, como Guppy (1958), Evans e Meggers (1960), Fock (1963) e Howard
(2000), acreditam que muito provavelmente os Tarumã que estavam nas cabeceiras
do Rio Mapuera, no século XVIII, são os mesmos que moravam na boca do rio Negro
por volta de 1668, e que ajudaram a construir Fortaleza da Barra, onde hoje se localiza
Manaus.

Citando Jácome (2017:127)

De acordo com Porro (2007:82), a partir de Sampaio, em 1727, havia muitas aldeias
dos Parukoto ou Parucuato no rio Urucurin (um dos formadores do Mapuera), assim
como na região do alto Trombetas. João Barbosa de Faria (1946) menciona que os
Pauxi, no século XVIII, dividiam a região do baixo Nhamundá e Trombetas com os
Uaboí, Conori, Querena, Paracoimã e Paracuatá. Também há registros dos Pauxi nos
rios Erepecuru, Cachorro e Jacicuri, todos afluentes do Trombetas. Os Boboui,
Paruacotó, Jamundá e Uaboí encontravam-se nas imediações da Vila de Faro em
meados do XVIII (Porro, 2008). Para o período da primeira metade do século XIX, há
outras duas citações dos Uaboí dividindo o território do médio Nhamundá com os
Jamundá (Barbosa de Faria, 1946). Já no final do século XVIII, Barbosa Rodrigues
afirma que no Trombetas habitavam os Pinaghotó, Charumá, Tumayana e Arequena
(Barbosa Rodrigues, 1875).
Para Frikel (1958), o termo Parukoto designa uma etnia particular, mas também uma
formação mais genérica que incluiria outros grupos que viviam na bacia do Rio
Mapuera e de outros tributários mais ao norte do Rio Trombetas. Howard (2002:31)
acredita que sob o termo Tarumã estão reunidos aqueles grupos originários da
migração dos Tarumã do Rio Negro. Mas também, outros que vieram do Sul, subindo
os afluentes do Rio Amazonas, como o Trombetas, fugindo dos portugueses, africanos

1 Tarumã-Parukoto foi um termo cunhado por Frikel (1958) para designar os diversos coletivos indígenas e
sua maioria falantes de línguas Karib que habitavam a ampla região entre o Nhamundá e o Erepecuru, cujas formas de
organização social, política e ritual são semelhantes.

25
e seus descendentes, e de grupos indígenas rivais. Para Howard (2002) e Caixeta de
Queiroz (2008), “grupos Parukoto” se fundiram com os Tarumã e formaram os
“modernos” Waiwai.
Já no século XIX, em 1840, o geógrafo prussiano Richard Schomburgk (1922:23)
percorreu o entorno da Serra do Acarai (ou Acari), onde nascem alguns dos
formadores do Trombetas, e que encontrou os Tarumã, supostamente extintos, além
dos Waiwai e dos Parukoto. Já os franceses Henri e Olga Coudreau (1899, 1900) em
expedições no Mapuera e Erepecuru, nas duas últimas décadas do século XIX,
encontraram aldeias com maior densidade populacional. Na ocasião, registraram a
existência de 3.000 a 4.000 Waiwai, além de indígenas Parukotó e Pianokotó (Tiriyó)
e de diversos “ex mocambeiros e seus descendentes”.
A primeira expedição antropológica à bacia do rio Trombetas foi realizada por William
Farabee (1924), no início do século XX. Em sua etnografia estão registrados aspectos
da produção material e imaterial dos grupos da região. Farabee considerou os Waiwai
“índios misturados”, dizendo ter encontrado apenas poucos Waiwai “puros”, dois em
uma aldeia Tarumã, ao norte da Serra do Acari e outros três em uma aldeia Parukotó,
ao sul da mesma serra. A pesquisa de Walter Roth (1924) tratou dos costumes, da
cultura material e do simbolismo dos indígenas do Rio Trombetas. À época do seu
trabalho de campo, estavam se intensificando as relações dos índios com o “mundo
dos brancos” e, com elas, a circulação de objetos manufaturados, crenças religiosas e
doenças.
Segundo os etnólogos (Caixeta de Queiroz 2008, Howard 2000) O termo Waiwai se
refere muito mais a um entendimento sobre diversidade do que de uma identidade
social e cultural homogênea. “

Atuais anciões falam que já existiam grupo Wai Wai, hoje podem ser identificados
como descendente dos Parukwoto e Tarumã, Wai Wai não concordam que eram
misturados, insistem na existência desse grupo.

A aldeia Mapuera hoje tem muita diversidade cultural: de identidades, mitos, línguas,
entre outras. Atualmente esses grupos têm identidades misturadas, mas as
identidades originais continuam na memória. Existe conhecimento dos Wai Wai como
povo único, antes do contato com os missionários

A instalação das missões proselitistas evangélicas na região entre a fronteira do


Brasil, Guiana e Suriname, em fins dos anos 40 do século passado, causou grande
transformação na cultura e na organização social dos grupos indígenas da região do
Trombetas e Mapuera (Caixeta de Queiroz, 2008). A transformação ocorreu em vários
níveis: nas línguas faladas, em sua tradução para a escrita, na vida cotidiana, dos
ritos, dos mitos, na introdução de novos objetos, etc, mas principalmente através da
conversão ao cristianismo (Caixeta de Queiroz 1999, Valentino 2010).

26
As missões religiosas contribuíram para que grandes aldeias fossem formadas, em
diversos rios, como o Mapuera, Rio Novo, Nhamundá. A partir delas, os Wai Wai
convertidos saiam em buscas de “índios isolados”, para trazê-los para as aldeias-
missões. Foi assim que os Katuena, Xerew e Mawayana foram morar com os
Waiwai.).

Nos anos 50, os missionários se mantiveram próximos às aldeias do Rio Essequibo,


na Guiana. Na época, havia surgido um jovem líder político e pajé, de nome Ewká,
que tinha grande prestígio na região. A missão ficou conhecida como Kanashen
(“Deus ama você”, um neologismo criado pelos missionários na língua Waiwai)
(Caixeta de Queiroz, 2008). Depois saíram da Guiana, nos 70, e foram voltando ao
Brasil. Um grupo, liderado por Kiripaka e Yakutá, irmão de Ewká, migrou para o
sudeste de Roraima, no Rio Novo, afluente do Rio Anauá. A outra parte, liderada pelo
próprio Ewká, retornou para o Rio Mapuera, onde foi fundada aldeia homônima.

A Igreja trouxe várias mudanças, os pajés deixaram de fazer suas práticas e também
houve a proibição de bebidas alcoólicas e cigarro. Na Aldeia Mapuera começaram
ensinar os Wai Wai a se tornarem pastores, e foram estes que saíram para buscar
novos grupos isolados. Já morando no Rio Mapuera, os irmãos Ewká (Rio Mapuera)
e Yakutá (Rio Anauá), partiram em busca dos Karapawayana. Esses índios se
encontravam nas cabeceiras de afluentes dos rios Jatapu e Mapuera. O grupo de
Ewká encontrou uma aldeia Karapawayana e, depois de algumas tentativas,
conseguiram levar uma parte deles para morar na aldeia Mapuera.

Quando aumentou muito os grupos na aldeia Mapuera vida dessas pessoas ficou
muito difícil e começou a ocorrer divisão dentro da aldeia. Depois teve um conflito
entre parentes o que levou e leva os grupos a fundarem novas aldeias no Rio
Mapuera.

27
Figura 16 – Localização dos principais grupos atuais e históricos na Bacia do Rio Trombetas. Fonte: Caixeta de Queiroz (2008).

28
1.4. Meu percurso na cidade e na universidade

Depois de apresentar a ideia do meu trabalho, me apresento. Meu nome é Jaime


Xamen Wai Wai, da aldeia Mapuera, falante de língua Wai Wai, cresci e comecei a
estudar no ensino fundamental na aldeia Mapuera, ao longo da minha vida algumas
coisas crescerem e mudaram na aldeia, eu nem sabia que um dia eu viria estudar na
cidade. Quando terminei 4ª e 8ª série na minha aldeia comecei a vender artesanato
na cidade, com 14 anos de idade, depois um amigo meu, também indígena, que
estudava na cidade de Oriximiná, disse que era bom estudar na cidade, pois não
tinham ensino médio na nossa aldeia, os que tinham vontade de estudar no ensino
médio, com ajuda dos seu pais deslocaram de suas aldeias para o Município. Quando
terminei de estudar, como eu tinham irmãos pastores da igreja, nossos avós também
eram pastores, por isso eu não tinham apoio por parte da minha família no início,
porque eles queriam que eu também me tornasse pastor. Eles queriam que eu fizesse
curso de teologia em Manaus. Quando entrei no ensino superior em Santarém na
UFOPA (Universidade Federal do Oeste do Pará), eu não sabia o que fazer, mas pelos
menos já sabia que queria estudar sobre meus povos, mais ou menos eu já tinha isso
na minha cabeça. Quando eu entrei na UFOPA, não tinha vontade de estudar sobre
a história dos meus povos, queria aprender coisas novas, das novas tecnologias dos
brancos. Mas depois que eu pensei que seria bom fazer pensei fazer levantamento
arqueológico nas aldeias, pois eu já sabia de lugares aldeias antigas.

Como já tenho dois irmãos pastores e meu pai já foi pastor, não queriam que eu
estudasse arqueologia, eles achavam que não é bom, como eu escolhi essa área
importante eu recebi pelos outros amigos que me animaram seria muito bom eu
estudar nessa área. Como eu era estudante Wai Wai e via meus parentes guardando
historias antigas pensei em iniciar a escrever como é o entendimento dos Wai Wai,
como uma contribuição para o entendimento dessa vida antiga, como fundaram novas
aldeias. Os jovens do meu povo não buscam muita informação sobre o passado, não
conhecem a diversidade do nosso passado. Atualmente estão muito longe de nossas
origens, não sabe que somos fruto de vários outros povos e de uma diversidade
cultural muito grande. Quero com este trabalho registrar um pouco deste tempo e de
como era a vida dos mais antigos.

29
Capítulo 1 – Metodologia
Iniciei este trabalho com uma pesquisa de leituras bibliográficas de pesquisadores
anteriores que já fizeram trabalhos escritos sobre estes povos, sobre suas culturas e
suas arqueologias. Trabalhos como o de Hilbert (1955, 1980), Guapindaia (2008) e
Jácome (2011, 2017), que discutem a presença de cerâmica da fase Konduri, nesta
região. Meu objetivo de trabalho é contribuir para investigar este assunto do ponto de
vista do meu povo. Já tem entendimento dos brancos que é importante, do meu ponto
de vista tem que ter do nosso lado também.

1.1. Problema

Como se deu o processo de ocupação arqueológica Konduri nas aldeias Inajá e


Mapuera no entendimento dos velhos.

1.2. Objetivo Geral

Explicar a ocupação Konduri a partir dos relatos dos mais velhos e comparar com a
explicação dos arqueológos que também pesquisaram sobre Konduri, na região da
bacia Trombetas, e também entender como se deu os processos de migração e
ocupação dos povos neste rio.

1.3. Objetivo específico

A partir dos relatos dos velhos que ainda moram nas aldeias Inajá e Mapuera, e
também de alguns que moram no rio Cachorro (Aldeia Santidade) e na T.I. Wai Wai,
em Roraima (Aldeia Xaari), mostrar a interpretação que eles dão sobre a cerâmica
Konduri.
A ideia é comparar e dialogar com a interpretação dos velhos indígenas com a
interpretação da arqueologia dos brancos.

1.4. Hipótese

À minha hipótese acredito que os Wai Wai antigamente ocupavam o grande rio
Trombetas e que eles subiram rio acima alguns anos depois, eles foram mudando
suas aldeias para o rio Mapuera. Na oralidade dos anciões Wai Wai eles contam
histórias destes lugares antigos no Trombetas, como na cidade de Oriximiná. E dizem

30
que foi pressão pelos outros grupos (que podem ter subido os rios Cachorro e
Trombetas) que levaram os Wai Wai a subir o Mapuera antes do período do contato
com os brancos.

Acreditamos pelos dados que possuímos no momento que provavelmente os


utensílios antigos de cerâmicas encontradas no decorrer do rio Trombetas sejam de
antigos Wai Wai, esses ancestrais deixaram vestígios evidentes de sua presença
tanto material quanto na memória dos mais velhos que hoje ainda vivem e relatam tal
fato.

1.5. Métodos

Fiz algumas entrevistas na aldeia Mapuera, Inajá, Takara, e também em Macapá e


Roraima. Abaixo apresento as entrevistas e fotos dos conhecedores das histórias
antigas. Eles também indicaram quem poderia me ajudar.

Desenvolvimento desta pesquisa é partir da utilização de entrevistas com os próprios


indígenas para mostrar e contar sobre vestígios arqueológicos relacionados grupos
ancestrais em material cerâmico e lamina de marchado. Como fez Fabiola Silva (2002)
na interpretação dos vestígios arqueológicos encontrados Kuatinemu com Asurini do
Xingu.

As visitas foram registradas, utilizando GPS, câmera fotográfica, anotações de


entrevista e barco com motor. Também aproveitamos algumas matérias e referências
bibliográficas já publicadas sobre região, para conhecermos a respeito desses grupos.
A utilização dessas metodologias estrangeiras é uma forma de ajudar no resgate de
informações e questões sobre os artefatos, para a construção de uma etnoarqueologia
Wai Wai no rio Mapuera.
Quando chegamos uma local onde fomos coletar os fotos de artefatos encontrado
próximo ao rio, na casa dos moradores da aldeia foram realizados entrevistas,
indicações outros pessoas poderia explicar vestígios como etnias Hiskaryana,
Kaxuyana, Wai Wai sobre o local, para poder dialogasse conhecimento os dois lados
conhecimento tradicionais e cientifico, através conversa tivemos contribuição linha de
migrações e trajetos naquela região por populações indígenas e escrever informações
sobre as tecnologias.

31
Autores passaram informações durantes entrevistas eram grupos indígenas que
habitaram atualmente explicar algumas coisas sobre trajetos, perguntas e resposta.
Encontramos informações sobre arqueologia mais detalhe deste onde atual aldeia
Mapuera indicaram aldeias antigas. Povos atuais da aldeia Mapuera tem umas
informações consideram aldeia dos ancestrais por ter fragmento de artefatos mais
coleções e apliques, parece tem limite grupos desta interpretando bem poucos ao
longo dos anos grupos Hiskaryana tiveram acesso esse rio troca de suas matérias,
mas existe mais detalhes história dos grupos depois da aldeia Mapuera muito
movimento povos nessa região.

Algumas pessoas na Aldeia Mapuera ficaram felizes ao saber que eu tinha o objetivo
de fazer este trabalho, com a minha atenção sobre meus ancestrais e a produção de
artefatos antigos que aparecem nos sítios. Para mim estas informações dos velhos
são como a bibliografia dos trabalhos acadêmicos. Com eles conversei sobre o
passado, a produção das coisas, como que os Wai Wai interpretam o modo de ser
Wai Wai. Essas coisas dos antigos eu já sabia que era difícil de explicar, e eu queria
saber se os pais continuam contado estas histórias para os filhos.

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Capítulo 2 – Entrevistas com os velhos e conhecedores das histórias
antigas e ceramistas do Mapuera
Neste capítulo apresento sete entrevistas: cinco com homens e três com mulheres.
Os homens contam histórias sobre os tempos antigos e das migrações dos povos e
as mulheres falam sobre a cerâmica.

1.1. Entrevista 1

Identificação: Yakuta, Aldeia Xaari, em Roraima, tem 75 anos de idade (essa é a idade
que está no registro do documento, mas provavelmente ele é bem mais velho).

Quando cheguei em Roraima na aldeia Xaari, fui conversar com Yakuta, uma coisa
sempre me despertava a curiosidade de saber o que ele sabia do passado
(arqueologia) dos Wai Wai. Ele é idoso, e ele era considerado muito guerreiro quando
era jovem. Nascido na aldeia Kapikarathîrî, no rio Urukurin, casado com Cohki Wai
Wai, já sua segunda mulher. O nome do pai dele era Parancikna Wai Wai, o pai dele
era de grupos Wai Wai, a mãe dele era Kamahknarî, do grupo Mawayana, nessa
época tinha muita gente, a aldeia era grande, a casa era muito grande para fazer
festas. No tempo dos antigos é um pouco difícil saber da origem das pessoas pois
eles consideravam, às vezes, três pais e três mães, então isso pode confundir um
pouco as coisas. Isso acontecia porque antigamente os homens casavam com mais
de uma mulher.

Ele entende pouco a língua Mawayana, antigamente não tinha macaxeira apenas
tinha mara (batata de cipó), muito tempo, não tinha faca para cortar carne, usavam
casca de bambu, que era muito bom para cortar carne. Na aldeia Mawayana tinha um
pajé chamado Pirita (Mapepe na língua Wai Wai, lacraia em português). Traduzindo
em português homem - lacraia.

Expliquei para Yakuta Wai Wai, que conversei com meu pai, que é considerado como
Wai Wai também. Falei com meu pai, ele explicou algumas coisas do passado, falei
para ele que tinha me falado também que você ia saber também essas coisas.
Expliquei meu trabalho depois ele não queria saber, hoje maioria dos velhos querem
cobrar por essas informações, falei para ele que eu não tinha dinheiro para isso.

33
Depois falei para ele eu queria saber o que significado na língua Wai Wai de Konduri,
em primeiro lugar, o que significa esse tipo de cacos de vasos antigos. Porque que
aparece no sitio de aldeia antigas; será que outros viviam antes de nós nesses
lugares. Depois falei também para ele como os brancos chamam esse tipo de
artefatos, deram nomes como Konduri e que tem também outros chamados mais
antigos ainda chamados Pocó.

Segundo as informações de Yakuta, tem várias formas de trabalhar. Ele contou que
viu outros pajés que queimavam pedra e depois colocavam na água quando saia
fumaça descobriam a doença da pessoa. Perguntei se tinha copos próprios. Ele
respondeu que tinham e que eram feitos de cerâmica, que neles tinham várias
representações de animais. Perguntei porque eles faziam esses tipos de animais. Ele
disse que era para descobrir as doenças e que foi assim que mãe dele contou. Depois
os pajés falavam para doentes: você não pode comer porco, jacaré e outros, porque
com esse apoio dos pajés descobriam e se não comessem esses animais ficariam
bons. O mesmo ocorria com mulheres menstruadas, tinham que avisar para o pajé e
ele proibia carnes, cortavam o cabelo delas e ficavam na maloca presa até terminar a
menstruação. O peixe Otpa (tamoatá) sabia identificar quando a mulher estava
menstruada e se ele não ficasse protegida ele poderia se transformar em pessoa e
levar ela para o rio. A omissão dessas informações poderia significar a morte e outras
coisas ruins, os pajés trabalhavam para proteger disso e os animais representados
nos vasos significavam isso.

Depois perguntei para Yakuta: você não sabe músicas que os pajés cantavam?
Respondeu Yakuta, não lembro bem, mas eu sei uma música que Ewka cantava
assim:

KMUM, KMOM, KMUM, KMOM, KMU, KMO.

Yakuta, era irmão de Ewká, que foi um grande pajé que morava na aldeia Kahximó,
no rio Urukurin, e foi o primeiro pajé a se converter ao cristianismo nos anos 50 do
século XX. Yakuta ouvia seu irmão cantando quando era pequeno, essa música
sempre cantava durante cura de doentes, segundo Yakuta tinha outra também. Ewka
tinham alguns objetos parecidos com sementes, talvez Weyaci (tipo guaraná), sempre
colocava na sua boca para conseguir identificar a doença. Estas sementes ficavam
depositadas nesses vasos de cerâmica especiais. E assim Yakuta encerrou a fala

34
sobre Ewka. Ele ficou preocupado que eu estava querendo saber demais e que isso
poderia ser usado para algum tipo de pajelança, o que, de uma certa maneira, é
proibido hoje em dia.

Falei para ele que eu não estava interessado em aprender, que apenas queria
escrever esse passado e que um dia tiveram isso de verdade. Depois ele começou a
me contar, com quem aprendeu a ser pajé. Segundo Yakuta eles iam nas outras
aldeias, Wawku era onde morava um pajé muito forte, Maporo. Foi com ele que Ewka
aprendeu a se tornar um forte pajé, quando ele voltou ele casou, o tio dele deu sua
mulher, antes era assim.

Depois Ewka iniciou seu trabalho de curar doentes. Diziam que tinha quatro espíritos
de animais que ajudavam na cura (porco, urubu, ariranha e anaconda), esses eram
os espíritos mais fortes para as curas.

Foi aí que mostrei fotos da cerâmica da tradição tapajônica e perguntei porque foram
produzidas desse jeito. Segundo Yakuta esses grupos tinham também contato com
esses espíritos, porque as culturas são parecidas com a dos Wai Wai. Os
conhecedores falam a mesma coisa, só existe um espirito que ensinou os demais
grupos indígenas quando viviam no mato, por isso tem histórias semelhantes. Por
conta dessa troca de conhecimento que os pajés se desenvolviam e se tornavam
capazes de ajudar os outros.

Hoje esses materiais têm nomes muito diferentes, por exemplo Konduri, para Yakuta
o nome seria Nokwa, Yakuta considera que estes artefatos foram produzidos pelos
ancestrais dos Wai Wai. Os objetos do pajé, o Nokwa (que pode ser de cerâmica ou
pedra) e que tinham representação de animais, é como se fosse um ídolo, Orokwian,
que é um espirito poderoso e perigoso, que hoje depois que os Wai Wai se
converteram é visto como Diabo. Mas antigamente era diferente, eles trabalhavam
junto com os pajés. Essas peças que são Orokwian, tanto de cerâmica quanto de
lítico, são como escritos com significados, não foram inventadas por acaso.
Atualmente nós jovens encontramos esse tipo de artefatos e somente percebemos
aquilo como se fosse brinquedo, não significa nada. Hoje eu entendo pelos meus
parentes velhos uma valorização e interpretação trazida pela oralidade, que traz
realidades das suas vidas no passado, isso me ajuda com esse conhecimento, uma
arqueologia dos meus grupos. Hoje este tipo de artefatos é chamado Konduri, sozinho

35
eu não ia interpretar com meu conhecimento de olhar estes artefatos. Esses velhos,
eles podem responder e eu posso escrever enquanto os conhecedores estão vivos, e
eles já são uma minoria.

Eu posso dizer que eles já não sabem mais de onde vieram, se desceram ou subiram
o rio Mapuera, mas Yakuta afirma que este tipo de artefato mostra a identidade das
pessoas que estavam ligados com outros seres, aquilo que tem sentido. Ewka
também considerava esses espíritos dos animais para fazer cura e isso acorreu antes
de chegar os missionários. Na vida dos ancestrais antigamente eu entendo que o
conhecimento e os poderes sempre vieram pelos espíritos dos animais. Atualmente
eles não têm mais esse contato com esses espíritos, hoje esses artefatos não são
mais considerados pelos Wai Wai. As feitiçarias eram diferentes em cada povo e com
o tempo eles foram se encontrando e tentando trocar este conhecimento, de meu
ponto de vista é isso que está representado na cerâmica e se a cerâmica é igual
significa que estes povos antigos estavam próximos uns dos outros trocando
conhecimentos.

Figura 17 – Yakuta. Foto: Jaime Xamen Wai Wai, 2017.

36
1.2. Entrevista 2

Identificação: Renato Poriciwi, Aldeia Mapuera, 76 anos de idade (idade do registro,


mas ele é mais velho)

Pergunta (Xamen) Por que você identifica como Pinipici os “Wai Wai”, o que diferencia,
dos outros grupos?

A primeiro entrevistado tive acesso fácil foi Poriciwi Wai Wai, meu pai, nascido na
aldeia antiga chamado (Ahru mîîtî) no rio Kikwo, relata que neste período que viveu
na aldeia, tinha casa grande para todos grupos juntos. Onde viveu tinham 16 famílias,
onde ainda não tinha contato com branco chamado aldeia Wawku mîîtî, (aldeia tronco
de árvore no rio Kikwo, que chega até Guiana Inglesa).

A terceira aldeia construída, foi Yowutho, (yowu, buriti, tho, região no passado), no
mesmo rio um pouco acima, segundo ele comparando com uma criança ele
provavelmente tinha 10 anos de idade, la que começou o contato com missionário.
Eles ganharam também nome em Wai Wai Robert Hawkins e Kmam, e seu irmão era
Kron e os dois wapixanas, que levaram os missionários, eram chamados Tamaxi e
Cari. Depois missionários disseram: “vocês estão aqui muito longe, no meio da
floresta, vocês estão aqui no meio do mato muito longe vamos outro lugar, outro lugar
mais próximo”. Os Wai Wai responderam “assim que a gente termina comer de tudo
que nos plantamos, a gente vai para Kanaxen”, na época tinham mais velhos que
dirigiam grupo chamado Mewxa, Wayama, Macarwe, Wayca, também eles
começavam contato com troca de mercadorias com grupos Wapixanas.

Através do relato do meu pai, nessa época, eles enterravam os mortos dentro das
suas vasilhas, quando faleceu sua mãe ele viu enterro dentro do vaso, Poriciwi,
começou a chorar lembrando do passado. Mapuera não me pertence minha família
não foi criada aqui, pelos meus pais, fui criado em aldeia tem cabeceira do rio onde
meus grupos deixaram os registros.

Outro ponto Renato Poriciwi conta histórias do passado aos seus filhos antes, mas
hoje não contam mais por causa da escola e igreja que tem hoje para ensinar, mas os
velhos guardam conhecimento. “Quando vocês perguntar para nós algumas histórias
relembro do passado por exemplo sobre sitio. A parece nas nossas cabeças sobre

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as aldeias e casa que tínhamos, não sei se tem ainda os restos das coisas faz muito
tempo, outras não contamos por que proibiram não podemos mais contar isso”.

Poriciwi fala que antigamente grupos indígenas no tempo da festa convidavam outros
grupos para participar das festas. Neste tempo aconteciam várias festas, mas duas
festas eram para os estrangeiros, uma delas é a do XORWIKO, que é um homem
vestido com uma roupa-mascara feito de casca de arvore, e outra é a YAAMO, um
homem vestia roupa feita folha de buriti. Mas a festa mais antiga eram a festa do
Maawa, festa do sapo, que sempre acontecia no começo chuva, e festa da lua Nuuni,
que acontecia na época da lua crescente. Essas duas últimas festas não se convidava
as pessoas de fora de aldeia.

As festas que convidavam pessoas de fora da aldeia para participar. Geralmente no


tempo das festas as pessoas iam, os rapazes e as meninas junto com os pais. Alguns
jovens e meninas casavam e não voltavam mais para suas aldeias e os pais também
não voltavam, porque queriam ficar perto de seus filhos, para ajuda-los com a nova
vida, somente voltavam depois de muito tempo. As mulheres faziam suas panelas
conforme aprenderam nos grupos delas, os homens, a mesma coisa, neste caso que
começas troca de conhecimento fabricação de cerâmica. Outras coisas eram
trocadas, como as formas de comer, falar e pintar o corpo, além da forma de produzir
cerâmica.

Depois de muito tempo voltavam para suas aldeias, outras pessoas não nunca
voltavam. Aqueles que voltavam traziam várias fontes de conhecimento dos outros
grupos, imitavam nas cerâmicas, os homens o jeito de fazer as casas e as danças
também. Enfim, assim meus povos eu vi, eu passo contar história dos meus povos no
passado.

Poricwi Wai Wai também fala sobre a diferença entre aldeia e acampamento. Na
aldeia sempre tinham maloca Umana, agora ainda temos, mas antes tinha para todas
pessoas da aldeia eram grandes. Já os acampamentos, quando nós íamos caçar ou
busca buriti e bacaba, em outros lugares, nós tínhamos pequenas casas só para nós
dormirmos chamado rabo de mutum pawxi matko. Essas casas de acampamento,
comíamos carne assada ou se fazia pouco cozido em pequenas panelas que
cerâmicas. Esses tipos de artefato quebrado ficavam

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No mato, tinham também aldeias bem longe para fugir da guerra, onde tinha plantas
e casas. Essas casas não duravam muito, com tiver 1 ou 2 anos, outros tinham
acampamento de caça perto do rio, nos igarapés, próximos dos lagos, já outros tinham
no meio da floresta, em diversos lugares. No tempo do julho e agosto hoje nós
sabemos, antes não sabiam, tem muitos frutos nas arvores e os animais ficam muito
gordos. O macaco aranha é um dos animais que nós íamos caçar bem longe, porque
perto da aldeia eram muitos espertos porque tinham muito gente caçando. Em casas
de acampamentos nos faziam roças pequenas, alguns plantavam algodão e batata
(macucu).

Com o decorrer do tempo, as pessoas morrem, e nós mudávamos a aldeia de lugar,


deixando a antiga abandonada. Algumas pessoas ainda voltavam na antiga para
pegar frutas, outras não, tinham medo dos espirito dos mortos. E para evitar outra
morte, mudavam para outro lugar e por isso não voltavam mais suas aldeias
abandonadas. Os outros grupos diferentes, quando viam a aldeia abandonada, mais
recente, não ficavam com medo de conflitos com os donos antigos que poderiam
voltar, para pegar frutos por exemplo. Somente ficavam se fosse uma aldeia
abandonada muito antiga (ewtohto).

No caso dos indígenas Karapawyana, tinham as casas alto no galho da arvore la


moravam mas tinhas suas roças nas terras um pouco diferentes da gente.

39
Figura 18 – Poricwi. Foto: Jaime Xamen Wai Wai, 2014.

1.3. Entrevista 3

Identificação: Onorio Kaxuyana, Aldeia Santidade, no rio Cachorro, 68 anos de idade.

Apresentação do Onorio Kaxuyana, da etnia Kaxuyana, quando perguntei ele, quem


dos velhos Kaxuyana sabe histórias antigas? Respondeu todos Kaxuyana com a
minha idade sabem historias, como nossos pais contavam suas histórias, ele também
falou podia contar as histórias que sabia. Eu queria saber se os Kaxuyana já tinham
vivido no rio Mapuera também. Porque hoje eles só moram no rio Cachorro e no
Tumucumaque.

O terceiro entrevistado foi mais difícil para marcarmos uma entrevista, encontrei ele
em Macapá depois da reunião, me recebeu alegre e me disse que era a primeira vez
que meu parente você faz pergunta comigo, e depois fui apresenta tema da pesquisa
para ele. Esse entrevistado morador da Aldeia Santidade no rio Cachorro atualmente,
segundo Onorio Kaxuyana acompanhou durante todo esse tempo, depois daquele
tempo foram levados em missão Tiriyos inclusive por motivos de ataque de doenças

40
deste contato. Esse Onorio foi muito importante para contar como que tinham
movimento dos grupos depois contato como branco.

Quando perguntei para ele, alguns de vocês sabem um pouco da história do rio
Mapuera, me respondeu, meu povo kaxuyana eu sou Kaxuyana nos moramos no rio
cachorro, há muito tempo nasci e cresci. As aldeias antigas são sempre reocupadas,
a nossa antiga história sempre fica e aqui neste rio. Este não foi ocupado pelos outros
grupos sempre foi pelos Kaxuyana até cabeceira. O que importante agora para nos,
atuais é proteger o cemitério dos nossos parentes, que no tempo da colonização
morreram muitos, por causa da doença. Até hoje eu lembro tudo isso, até hoje boa
parte da nossa cultura está viva. Depois fomos almoçar não voltamos mais a
conversar sobre história. Pelos menos ele já contou que o grupo deles não subiram
do rio Mapuera, falou sempre que ocuparam do rio Katxuru (Rio Cachorro).

Figura 19 – Onório Kaxuyana. Foto: Jaime Xamen Wai Wai, 2014.

41
1.4. Entrevista 4

Identificação: Isaque Isaka Wai Wai, Aldeia Takara, idade estimada de mais de 40
anos, por medo de discriminação não quis falar idade.

Isaque contou história dos Hiskaryana, como ele tinha sogro Hiskaryana, que já
morreu, sabia bem da história dos Hiskaryana antigo, quando perguntei a ele, o que
que ele contava, ele começou a contar as histórias boas sobre Hixkaryana falei para
ele me contar mais.

Isaka Wai Wai, relata tinham aldeias grandes próximo igarapés Minirwaka, um pouco
distante do rio Mapuera. Segundo Isaka grupos Hiskaryana tinham medo de encontrar
outros grupos, por isso aldeia foi construída distante do rio, mas tinham outras aldeias
pequenas construídas descendo do rio Mapuera, chamado PAXKITHIRI (aldeia da
cutia) e acima tinha também no rio KARÎTHÎRÎ, (braço do rio Mapuera), abaixo da atual
aldeia Tamyuru. Quando havia muita doença na aldeia Mapuera, as pessoas fugiam
para a Aldeia Karîthîrî. Ele disse também sogro dele contava que os Hiskaryana, não
abriam clareiras para fazer suas aldeias, eles construíam as casas debaixo das
arvores mesmo, para não serem vistos pelos outros grupos.

Disse também tinha a aldeia pequenas rio abaixo, mas tinham aldeias antigas
abandonadas, da época das doenças. Eles também tinham uma espécie reserva para
onde fugiam caso houvesse conflito, onde havia roças e alimento. Os Hiskaryana
dizem que essa região do baixo Mapuera era seu território tradicional e que mesmo
hoje, ainda pertence a eles. Eles vinham até a região de Cachoeira Porteira fazer
trocas com os Kaxuyana, mesmo um não entendendo a língua do outro. Isaka afirma
que suas vidas era andar sempre em busca de troca.

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Figura 20 – Isaka Wai Wai. Foto: Camila Jácome, 2010.

1.5. Entrevista 5
Nome: Fernando Makari, idade 49 anos, Aldeia Mapuera.

O relato de Fernando Makari fala sobre os povos Pinipici-Wai Wai e como fundaram
aldeia Mapuera. Segundo Fernando Makari Wai Wai contou história que Rio Mapuera
era chamado de Kumuwo, rio da bacaba, pelos grupos Wai Wai (kuumu, bacaba, wo
rio, lugar). Anteriormente esse rio durante nomadismo os Wai Wai teriam tido aldeias
antigas, onde hoje estão as novas, como aldeia Inajá e Mapuera. Segundo Marciano
morador da aldeia Mapuera, relata que Valdemar, quilombola e atualmente morador
da Cachoeira Porteira, tem amizade muito grande com indígenas. E ele conta que
quando subiu o rio Mapuera percebia aldeias abandonadas, mas não encontraram os
índios, onde hoje se abriu Kwanamari, Inajá e Mapium.

43
Figura 31 – Waldemar da Comunidade de Cachoeira Porteira. Foto: Camila Jácome, 2010.
No tempo do Ewka decidiram fundar aldeia para ser o centro de evangelização dos
povos, toooto enihni komo, com ajuda do missionário branco Kmam que queria trazer
outros grupos para ouvir palavra de Deus Kaan karitan.

Eu pergunto como Como Kmam tornou os líderes Wai Wai em pastores? Falou muito
para os grupos quando alguém morre sendo crente, você vai para céu, por isso
ensinou a não matar os outros, também deixou o dia de domingo, quarta e sexta feira
para dedicar ao culto Wai Wai, assim Wai Wai vem deixando sua culturais.

E depois missionário viver muito tempo com eles, Ewka pensou em buscar outros
grupos, para evangelizar e acabar com a guerra. Kmam falou “a gente vai fazer aldeia
em rio Kumuwo, antes de fundar tu tens que procurar rio comprido que não tem curva,
para poder pousar avião e para poder continuar a manter contato com vocês”.

Foi Encontrado no rio Kumuwo, Waraku cecen que dizer na língua Hiskariyana peixe
aracu, rio reto, aí a Aldeia Mapuera foi fundada. Através do rio tem marcas de
habitação do tempo que os grupos Hiskariyana deixaram e foram em Guiana. Os
grupos Hiskariyana teriam ocupado rio Mapuera, iniciaram a ocupação deste lugar
para consumir alimentos, alguns velhos como Wirihta relatou que no rio onde morava
não tinha peixe trairão, por isso que vinham pescar no rio Mapuera.

Alguns nomes dos mais velhos foram citados pelo Fernando Makari, por exemplo
Maawu, e seu filho Tamokrana no período da evangelização foram até Guiana onde
todos os grupos tiveram encontro cultural. Tinham outros lugares habitados como rio

44
Kaari chamando Kukuwi, no período de doença eles fugiam para outra aldeia. Sempre
outros também tinha aldeia distante suficiente para isso.

Paxkithîrî é na língua Hiskariyana (onde encontra muito Cutia, paxki yehtoponho) e


hoje é um lugar muito importante para os Wai Wai pegar frutos como bacaba, pataua,
castanha do Pará. Purwe é um igarapé pequeno. Os nomes Hiskaryana de aldeias e
rios, ainda continuam sendo usados hoje pelos Wai Wai. Ainda hoje, viviam alguns
poucos Hiskariyana em Mapuera e estão abrindo nova acampamento para pegar caça
e frutos. Fernando Makari contou um pouco da história que ouviu pelos velhos e que
apresenta lugares onde viveram milenarmente.

1.6. Entrevistas com ceramistas

Nesta parte do trabalho pretendo contribuir, sobre como os Wai Wai fazem cerâmica.
Somente as mulheres fazem cerâmica em Mapuera, os homens ajudam suas
mulheres a carregar argila do mato. Se um homem fizer cerâmica ele não perde suas
habilidades de caçadores, não consegue mais acertar os bichos.

Na aldeia Mapuera onde eles tiram argila para fazer cerâmica é no igarapé chamado
Asîsî Yewku, no período de seca, geralmente se retira a argila. Atualmente tem gente
que guarda atrás de casa, a argila, etnoarqueologicamente mulheres ceramistas Wai
Wai podem contar a forma como fazem tradicionalmente.

Figura 22 – Wahciki fazendo cerâmica em sua casa na aldeia Mapuera. Foto: Jaime Xamen
Wai Wai, 2014.

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Figura 23 – Mulher Wai Wai em aldeia no Essequibo fazendo cerâmica. Acervo fotográfico
Niels Fock – Waiwai photograph colection, disponível no site The Archive of Indigenous
Language of Latin American, Texas University. Endereço Eletrônico:
http://www.ailla.utexas.org/site/welcome.html
As mulheres que entrevistei foram: Wahciki, minha mãe, Imaru Wai Wai e Moyo as
três são ceramistas que moram na aldeia Mapuera. Eu não sei a idade delas, mas
elas têm em torno de 60 anos de idade, pois todas já se aposentaram. As perguntas
que fiz a elas eram:

• Como que sua mãe fazia tahrem (panela de barro)?

• Quais tipo de tempero usavam na pasta argilosa?

• Porque não tem mais urubus representados na cerâmica atual, como havia na
cerâmica Konduri?

Segundo Wahciki começou a explicar: “quando eu cresci minha mãe me ensinou fazer
comida, beiju, bebida e panela de barro. Quando a gente não mistura o barro com
caraipé, depois de pronto a panela se abria por falta de mistura. Fazer vaso é trabalho

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de mulher, minha mãe falava assim minha filha aprende fazer as coisas se não você
vai sofrer um dia, para conseguir suas coisas, por isso eu aprendi com a minha mãe.
Nunca vi ela misturando o barro com cauixi. Todas responderam que somente viram
ser usado como tempero o caraipé (wepipi picho) e não o cauixi. Quando perguntei,
vocês não sabem que tem cauixi na pasta da argila? Elas falaram que não, falei que
os pesquisadores brancos identificam o cauixi nos cacos, nos antigos artefatos
aparece o cauixi. Os brancos se perguntam, será que os índios misturavam com cauixi
e caraipé o barro?

Segundo Moyo Caruma, disse que aqui nessa região encontravam bom barro para
fazer a panela. As mulheres antigas faziam esses tipos de apliques representações
de urubu, para tornar a vasilha “Nokwa” que era uma vasilha para o pajé. Vários
objetos ajudavam o pajé a se comunicar com os espíritos, esses objetos são Nokwa,
alguns deles eram feitos de pedra, barro, madeira cigarro, espirito e oração, esses
objetos eram somente de uso pessoal do pajé. Também ela disse que havia grandes
vasilhas para guardar bebidas alcoólicas e menores para cozinhar alimentos. Nas
vasilhas elas passavam resina “sîîpo” geralmente na parte interna da vasilha. No
pescoço das vasilhas grandes, se amarrava um cipó para evitar quebra, essas
informações ela deixou.

Eu perguntei porque hoje vocês não podem mais fazer aplique nos vasos? Eu não vi
potes desse tipo sendo feitos na minha família, respondeu Moyo, talvez ancestrais
tinham esses tipos de vasos com representação dos poderes que recebiam dos
animais. Cada cultura e grupo tinha sua organização, e eles sempre tinham contato
somente pelo pajé. A gente não sabe só eles que tinha contato com eles, eu vi Ewka
quando ele pajé, que contava tinha comunicação com espírito dos animais.

Ela disse também que antigamente ela viu para fazer a bebida de cana, banana,
taruba outras elas mastigavam com dente tipo liquidificador, agora eles não podem
mais fazer isso utilizam agora “parantir yewkukatopo” moinho de cana, feito de
madeira, várias técnicas foram mudando ao longo do tempo.

Cada vaso tinha seu uso, Warciki relatou que para cozinhar mutum tinham aplique
nas bordas representando cabeça de mutum, isso quer dizer vaso era cozinhar
mutum. Tem vaso tem duas linhas riscadas contornando o pescoço da vasilha é para
cozinhar mutum.

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Capítulo 3 – As aldeias e os objetos arqueológicos, exemplo das Aldeias
Mapuera e Inajá

1.1. Introdução

Nesta parte do trabalho vou falar de duas aldeias que também são sítios
arqueológicos, as aldeias Mapuera e Inajá. As duas são um pouco diferente uma da
outra, Mapuera é mais antiga e muito grande, é a maior aldeia do povo Wai Wai, e a
aldeia Inajá é menor.

1.2. Aldeia Mapuera

Aldeia Mapuera foi construída nos anos 80, quando os grupos que foram para a
Guiana, morar na Missão Kanashen, começam a retornar para o rio Mapuera.
Atualmente aldeia Mapuera tem escola, posto de saúde, igreja, pista de pouso e poço
artesiano. A aldeia Mapuera reuniu pessoas de diferentes etnias como Wai Wai,
Mawayana, Xerew, Katuena, Caruma, Parukwoto, entre outros. Dentro da aldeia,
esses diferentes grupos, de organizam em “bairros” separados para cada um deles.
Mas com o casamento entre pessoas dos diferentes grupos começou a misturar as
etnias. Devido a algumas situações, de velhos que poderiam fazer feitiço contra as
pessoas dos diferentes grupos, as pessoas começaram a morrer e houve fuga e
fundação de novas aldeias, como Pomkuru, Bateria, Tamyuru, Placa, Inajá, Takara,
Kwanamari, Mapium, Tawanã. As aldeias mais recentes são a Paraiso, Passara e
Yawara.

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Figura 24 – Vista aérea da Aldeia Mapuera. Fonte: Google Earth.

Figura 25 – Vista de casas da Aldeia Mapuera. Acervo de fotos do Projeto Norte Amazônico,
UFMG, 2011.
De acordo com as informações orais que pude coletar junto a alguns anciãos do povo
Wai Wai, um deles meu pai (Renato Poriciwi Wai Wai, nascido em 1940) a chegada
das missões norte americanas na aldeia dos Wai Wai se deu por volta dos anos 40,
na cabeceira do rio Mapuera, local chamado e Kahximó, que dizer cachoeira grande.
Com o contato eles então convidam os indígenas para ir até a Guiana. Estava
estabelecido então o primeiro contato com os Wai Wai. Alguns anos depois eles foram
levados até a Guiana onde permaneceram até o ano de 1975. Ali os Wai Wai,
iniciaram contato interétnicos através de trocas, comercio, artesanato, cerâmica, e
muitas outras coisas. A chegada das missões norte americanas (missionário Robert
Hawkins) começou a dominar os índios através da evangelização. Deste período em
diante a vida dos Wai Wai mudou muito.

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Antigamente, os Wai Wai não tinham as casas de madeira, as casas eram cobertas
de folha ubim e as paredes eram palmeiras de açaí, outras tinham parede de taipa,
esses tipos de parede das casas eram utilizados pelos Wai Wai.

Figura 26 – Casa tradicional Wai Wai em aldeia no Essequibo. Acervo fotográfico Niels Fock –
Waiwai photograph colection, disponível no site The Archive of Indigenous Language of Latin
American, Texas University. Endereço Eletrônico:
http://www.ailla.utexas.org/site/welcome.html

Aldeia Mapuera tem casa grande Umana para fazer suas festas, casamento. Os
casamentos acontecem em dois lugares na igreja e na casa grande. Os batizados
casam na igreja e os não batizados casam no Umana. Uma forma de organização
feita pelos missionários.

Atualmente, as pessoas que moram nesta aldeia, sabem falar diversas línguas, mas
utilizam somente a língua Wai Wai, para se comunicar. Antigamente, antes da

50
evangelização, cada grupo tinha sua própria organização, mesmo sendo parecidas,
mas o processo de evangelização daria início da mistura de cultura até mesmo da
mudança de cultura vida dos indígenas Waiwai.

1.3. Aldeia Inajá


A aldeia Inajá, foi construído no ano de 1999. Atualmente vivem os Wai Wai de forma
misturada, o nome da aldeia surge por causa da concentração de palmeira neste
lugar, anteriormente tinha nome “Kooso Kahxin” cachoeira do veado. Atualmente
moram nela os Mawayana, Hiskaryana, Wai Wai, Katwena e Tiriyó entre outros. Essa
aldeia foi construída em cima do lugar habitado pelos ancestrais. Anteriormente
abriram o lugar apenas para fazer farinha, depois que Porohxá Hiskaryana, filho de
Tamokrana, deixou de ser cacique de Mapuera, tiraram ele na marra, ele decidiu sair
da aldeia Mapuera para aldeia Inajá. Muitos Xerew vieram com Porohxá para Inajá,
que posteriormente decidiram abrir uma aldeia própria, que foi a Takara.

Figura 27 - Vista aérea da Aldeia Inajá. Fonte: Google Earth.


Essa aldeia fica na margem direita do rio Mapuera e tem mancha de terra preta no
centro da aldeia, que tem muitos fragmentos cerâmicos.

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Figura 28- Mancha de terra preta com muitos fragmentos de cerâmica na Aldeia Inajá. Foto:
Jaime Xamen Wai Wai, 2014.
Atualmente outros vem construindo casa de madeira com cobertura de telha, por
conta desses moradores que consumem as coisas na cidade, identificamos pedaços
de ferro na superfície associada com artefatos antigos. As casas na aldeia costumam
ser feitas perto do casar do sogro, essa organização iniciou com a chegada dos
missionários, para evitar que os homens mexerem com mulher dos outros, por isso
atualmente depois de casar o genro tem obrigação de fazer suas malocas próprio,
suas roças, busca alimentação sustenta seu filho outras coisas. Com aumento das
pessoas nessa aldeia foi reconhecida pela Funai e o prefeito deu apoio aos moradores
dando acesso à escola, posto de saúde e atualmente tem pista de pouso feito pelos
moradores da aldeia.

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Figura 29 – Umana da Aldeia Inajá. Foto: Jaime Xamen Wai Wai, 2014.

1.4. Interpretação dada pelos velhos aos objetos arqueológicos


encontrados nas aldeias atuais
Relatos nos apontam que grupos atuais ocupam locais em que apresentam sitio
arqueológico com vestígios de ancestrais. Alguns artefatos do sítio arqueológico de
Inajá são reconhecidos por moradores desse local como vestígios dos ancestrais Wai
Wai. Deixamos desde já claro que nos referindo a todos os habitantes do rio Mapuera
que foram “waiwainizados” (Howard, 1993) e hoje buscam registrar sua história.
Encontramos fragmentos cerâmicos com figura zoomórfica indicando ligação destes
com os povos ancestrais, segundo um Poriciwi. Quando fiz uma pergunta: você sabe
sobre esses antigos vestígios de cerâmica? Ele respondeu: Nem todo vaso tinha
esses apliques em suas bordas e em outras partes retratando figuras zoomórficas,
talvez sejam exclusivos dos xamãs, por isso ninguém sabe interpretar com precisão
tal antiguidade.

No entanto, Caramca Wai Wai antigo cacique que assumiu depois de Ewká, relatou
para Poriciwi Wai Wai, que os xamãs no passado mantinham segredo nas suas
práticas xamânicas no uso de mascaras, cigarros, vasos, entre outras coisas. Eles
tinham que fumar ou beber para começar a entrar em contato como os espíritos dos
animais, pois antes de se transformarem diziam (Kurumu ow aniytamko), que dizer

53
“vem me buscar urubu”, os urubus desciam. Eles pegavam e levavam voando para
conversar com o rei dos urubus que o revelava como praticar a cura e o feitiço. Assim
quando vejo as imagens dos urubus, sapos, morcegos entre outros, relembro a
importância destes, para os grupos indígenas antes da chegada dos missionários. Os
rituais xamânicos tinham o objetivo de encontrar os espíritos desses animais citados.

Quando chegamos na aldeia Inajá os moradores mostraram artefatos que


encontraram próximas das suas casas. Na casa do Oxiyasa Wai Wai ele encontrou
fragmento, tirei foto para mostrar para os velhos.

Figura 30 – Fragmento de borda com aplique de cerâmica Konduri, encontrado na superfície


da Aldeia Inajá. Foto: Jaime Xamen Wai Wai, 2014.

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Figura 31 - Fragmento de aplique zoomórfico, papagaio, de cerâmica Konduri, encontrado na
superfície da Aldeia Inajá. Foto: Jaime Xamen Wai Wai, 2014.
Segundo Poriciwi diz, o velho Ewka contou para nós como eles entravam em contato
com espíritos dos animais, quando ele já era crente, talvez ele pudesse contar tudo
isso, se ainda ele tivesse vivo. Nós sabemos quando Ewká e Muywa receberam
conhecimento transmitido pelos espíritos dos animais.

Meu pai cantou um pedaço de música dos urubus que ouviu dos outros. Cada pajé
tinha o espirito que permitia a comunicação para buscar de ajuda.

O pajé tinha que fumar cigarro dele,


Dizendo urubu, urubu vem me buscar.
Quero voar com você, urubu desciam
Tow tow tow Xum xum levavam com eles
La no céu.

Essa oração que pajés sempre usavam, nas suas malocas havia esses tipos de copos
de cerâmica ligados ancestrais dos pajés (yaskomo), atualmente existe muito nos
registros antigos, agora nós não mais praticamos isso.

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Atualmente nós artesões produzimos desenhos das histórias antigas, nas cestarias,
vasos, colares, remos, bancos, tangas e nas pinturas corporais. Esses desenhos
apresentam perspectivas de saberes do mundo e tradições mostrando como
respeitam esses símbolos. Para nós a imagem significa uma escrita, é uma forma de
conta a história do mundo dos Wai Wai.

Entrevistamos Katwena Cewnan, de 73 anos que mora aldeia Tamyuru, e encontrei


na CASAI, pois estava doente fazendo tratamento. Ele viveu no passado no rio
Kacworu, que vai para o Suriname. Ele disse que quando chegaram os Wai Wai para
buscar os Katwena, eles tinham dois homens guerreiros que matavam quem chegava
de fora. Como os Waiwai falavam próximo da língua Katwena, foram convidados para
ficar lá. Eu sobrevivi quando minha mãe estava gravida levaram minha mãe gravida
eu nasci na aldeia dos Tikyana hoje você ver dizem que eles são Katwena, eles não
são eles estão usando nome dos grupos mortos, eles são Tikyana.

Assim tínhamos guerra entre a gentes que viviam nessas áreas Xerew, Wai Wai,
Caruma, Parukwoto, Karapawyana e Cikyana. Com outros grupos nós tínhamos troca,
aqueles que nos dávamos bem. Nosso povo, tinha outros espíritos, quando vimos
Ewka, na aldeia Kanashen, que tinha contato o espirito do urubu, fiquei sabendo
desses espíritos. Respeitamos Ewka ele era muito forte. Eu não posso interpretar
esses tipos de artefatos, pois não pertence ao meu grupo.

Segundo Poroswe Xerew, 72 anos, morador da aldeia Bateria, os machados de pedra,


encontrado em muitas aldeias do rio Mapuera, incluindo Bateria, eram utilizados para
cortar arvores. De acordo com conhecimento do grupo Xerew, Poroswe informa que
para fazer a lamina de pedra procuravam pedra muito dura, qualquer pedra não
aquentava quebrava com facilidade quando cortava a arvore, tinha que ter essa pedra
que vocês tão vendo na antiga aldeia abandonada. Para derrubar a arvores eles
usavam o machado de pedra para cortar os galhos, como podar, até matar a arvores,
depois queimavam e ela caía. Já os Wai Wai faziam diferente, cortavam o tronco
mesmo para a derrubar a arvores, quando secava a madeira eles queimavam.

56
Figura 32 – Poroswe. Foto: Camila Jácome, 2011.
Segundo a entrevistada Caawa, que se identifica como do grupo Katwena, as lâminas
de machado eram utilizadas pelo seu grupo para capinar, tirar o mato e bambu fino, e
também para cavar as covas de plantar as manivas. As pedras utilizadas hoje para
fazer o dente de ralador, antigamente eram utilizadas como faca para cortar as coisas,
carne, madeira e também ajudar a capinar roça. Ela diz ainda que para costurar se
usava osso e dente de trairão, para costurar as tangas de semente de morototó. O
relato de Caawa diz ainda que grupos dividiram fugindo da guerra, o grupo dela foi
para uma aldeia no rio Tutumuwo, no alto Mapuera, região que era tradicional dos
Mawayana e Wai Wai. E foi lá que encontramos pé de algodão e até faca dos brancos
e outras coisas abandonadas, depois levamos para outros lugares a partir daí usamos
tanga, rede e faca.

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Figura 33 – Fragmentos líticos expostos na superfície da Aldeia Inajá. Esse mesmo tipo de
rocha ainda é utilizado para confecção dos dentes de ralador de mandioca. Foto: Jaime
Xamen Wai Wai, 2014.
Outras coisas eu fui saber pelos meus amigos acadêmicos depois, esse tipo de roça
capinado com machado e faca de pedra, chamavam “roça do jabuti”, wayam mararîn
na língua Wai Wai, outras pessoas antigamente procuravam arvore derrubada pelo
vento, nestes tempos as roças pequenas eram chamadas de cara do macaco (wicaro
yepatari), isso que eu ouvi dos meus amigos sobre a interpretação deste tipo de roça.

A relação de trocas entre as populações dos Xerew e Katwena com os Wai Wai, trouxe
grande contribuição para todos.

Figura 34 – Lâminas de machado encontradas expostas em superfície da Aldeia Inajá. Foto:


Jaime Xamen Wai Wai, 2014.

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Figura 35 - – Lâmina de machado encontrada exposta em superfície da Aldeia Inajá. Foto:
Jaime Xamen Wai Wai, 2014.

Figura 36 - – Lâmina de machado encontradas na a Aldeia Inajá. Foto: Jaime Xamen Wai
Wai, 2014.

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Conclusão
Para concluir esse trabalho falo m pouco da entrevista, que fiz com meu irmão,
Fernando Makari Wai Wai, nascido em Guiana Inglesa atualmente trabalha líder da
Igreja em Mapuera. Ele também sempre esteve curiosidade de entender a origem dos
grupos e quando expliquei que alguns pesquisadores (antropólogos, viajantes) dizem
que o termo Wai Wai é interpretado como descendentes dos Parukwoto/Caruma, eu
lhe perguntei se ele poderia me contar alguma coisa sobre isso.

Fernando Wai Wai diz para entender melhor uma forma de transmissão e geração a
geração, dos indígenas do passado ao presente, é da mistura interétnicos. Por
exemplo, uma mesma palavra que é Wai Wai, tem várias traduções, depende do
grupo, “Wai Wai” pode ser o nome de um grupo ou etnia, mas também um nome de
uma pessoa, mas também significa “limpei a casa”, e antigamente o termo “Wai Wai”
segundo os velhos significava “pessoas pequenas ” “baixinho”. As informações que
Fernando tinha foram passadas pelo velho Totori velho que explicou que o termo “Wai
Wai” dizia sobre grupos pequenos e baixinhos, e que havia dois nomes desses grupos
antigos, Wai Wai ou Pinipici. Mas após o contato foi reconhecido como Wai Wai,
porque era mais fácil de falar.

Totori também contou a Fernando, da troca de mercadorias nesta região. Antigamente


viviam mudando de lugar, podiam trazer contato com outros grupos pelo casamento,
aí um parente próximo pode trocar de tecnologia, entre outras coisas, atualmente
ainda continua troca de mercadoria.

Tem uma história muito importante que se conta na Aldeia Mapuera, que é boa para
pensar sobre o que escrevemos neste trabalho. É história da Pedra do Guariba, que
fica no meio do rio Mapuera, bem próximo da aldeia.

História da Pedra do Guariba - Mawtohrî Hiskaryana, Wai Wai Xîpîrîtohrî,

Tem uma história comum na Aldeia Mapuera, nunca mudaram as pedras, onde eles
viam antigamente, as mesmas até existem hoje, ainda se conta até hoje. No século
passado essa área foi ocupada pelos grupos Hiskaryana. Mas também tem registro
da presença dos Okoymoyana (Gente Cobra Grande) no passado histórico desse

60
povo, eles não desapareceram como podemos ver ainda no que se conta de ocorrido
pelos atuais.

Os grupos que moram atualmente na aldeia contam que tinha Okoymoyana, povo da
anaconda, que eram humanos muito perigosos, moravam no fundo do rio. Tem duas
pedras no meio rio Mapuera, na frente do Bairro Saúva (Yawko), que nunca mudaram.
Os ancestrais Hiskaryana enxergavam dos guaribas em cima das pedras que
atacavam as pessoas que passavam de canoa e até mesmo matavam. Por isso, as
pessoas que passavam lá perto, sempre tinham que passar com silencio.

Quando de noite, os guaribas saiam do rio, iam na terra roubar mulher ou até mesmo
fazer amor com mulher. Quando isso acontecia se tornavam os Okoymoyana homens
para pegar mulher, tomavam para si imagem do namorado ou marido, se ela fosse
casada. Também se transformavam em mulher para pegar os homens Hixkaryana, se
descobriam que estava acontecendo algo de errado na aldeia.

Dessa forma as gerações seguintes tomaram conhecimento e continuam revivendo


as histórias antigas em Mapuera. Segundo cacique Roquinaldo Yaxikma Wai Wai, 48
anos mora, que em aldeia Mapuera, afirma que isso é de verdade. A história
aconteceu com ele, numa noite de sábado, na madrugada para o domingo, dormiu
com sua esposa na rede. Os Wai Wai têm uma casa e separado uma. Então eles
estavam deitados na cozinha, e deixaram uma filha pequena na outra casa. A filha
pequena começou a chorar, a mulher escutou e foi acalmar filha. Ele ficou na rede
que ficava na cozinha, aí uma mulher deitou com ele, a imagem da mulher era
perfumada, ele disse minha mulher está cheirosa. Ele pensou que era mulher dele E
dormiu com ela, na madrugada ela levantou e não falou nada para ele, ele se levantou
e foi atrás dela ela. Mas ela estava fugindo atravessando no mato direção da pista e
voltou para casa, e gritou chamando a mulher dele “! Wosîkra, Wosîkra” ela respondeu
“Ahce” (o quê?). Aí ele falou: “deitou mulher comigo pensei que era você, cadê ela?
Fugiu no mato! ” Então ele falou: “é Okoymoyana”.

Atualmente outras pessoas pensam que esse povo Okymoyana já está morto pelo
desaparecimento, mas nas informações orais foram para a cabeceira do rio Mapuera
onde era aldeia antiga conhecida Arawa Weyun, segundo Masipaka esse povo
Okoymoyana estão vivendo este lugar até hoje.

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A história da pedra do Guariba fala de gente que se transforma ainda, mesmo depois
dos missionários, de gente que tem poder de virar gente. A história também fala dos
lugares que conhecemos hoje, mas de aldeias que não vemos mais, porque somente
os pajés podiam visitar as aldeias dos Okoymoyana e voltar. Quem não tem
conhecimento de pajé, fica doente e morre.

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