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FUNDAMENTOS DE LABAN NA DANÇA EDUCATIVA

Patrícia Rossi
Universidade Federal de São Carlos – UFSCar

Resumo:
Esse artigo tem como objetivo explicar sobre a metodologia dos estudos de Rudolf
Laban, relacionados aos Oito Temas de Movimento Básicos e Fatores de esforço
(Tempo, Espaço, Fluência e Peso) inseridos na Dança Educativa Moderna, a qual será
abordada durante uma oficina com carga horária de três horas. Essa oficina possui o
objetivo de transmitir o conhecimento teórico-prático da metodologia de Laban aos
participantes, que as vivenciarão de maneira lúdica e criativa de forma a desenvolver a
expressão e o movimento corporal. Além de vivenciarem essa movimentação, terão a
possibilidade de interpretar várias maneiras de aplicar e desenvolver esse método com
indivíduos de qualquer idade, com ou sem experiência na área da dança.

Rudolf Laban (1879-1958) nasceu no Império Austro-Húngaro, era de família


aristocrática e, tendo como pai um oficial do Exército, costumava viajar bastante, fato
que o fez incorporar o gosto e a curiosidade pela diversidade cultural e filosófica
(SANCHEZ, 2005).
Laban viveu a transição da máquina a vapor para a energia elétrica, esteve
presente nas duas guerras mundiais e, juntamente com outros artistas de sua época,
buscou novas formas, novos rumos para a expressão artística. Dedicou-se ao desenho,
ao teatro e à dança; participou do Movimento Dadá e esteve em contato com a
efervescência cultural de Viena, Paris, Berlim de antes da Segunda Guerra; realizou
danças-corais, fundou escolas e estabeleceu a Análise do Movimento, que, juntamente
com seus colaboradores, passou a utilizar em todas as áreas da movimentação humana:
teatro, ópera, ensino da dança, ginástica, terapia, trabalho operário. Tendo suas
atividades interrompidas pelo nazismo, Laban foi obrigado a deixar a Alemanha e
começar tudo de novo na Inglaterra, onde permaneceu sempre empenhado em divulgar
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a dança como processo educativo acessível a todos (RENGEL & MOMMENSOHN,


1992).
Segundo Baxman (1979), Laban e seus colaboradores reclamavam à dança o
sentido da comunicação multidimensional característico de tempos antigos, cuja
linguagem dançada possibilitava a mobilidade e a comunicação integral da mente, do
corpo e da emoção reunidos. Eles se exercitavam através de movimentos que não se
prendiam a estilos ou a códigos pré-definidos, o que ampliava as possibilidades de
diálogo entre a dança e seus diferentes estilos com os movimentos cotidianos, com
outras linguagens cênicas e com áreas do conhecimento.
Outro aspecto da obra de Laban, segundo Rengel & Mommensohn (1992), está
presente na sua opção de não trabalhar apenas voltado para a dança e para dançarinos.
Ao mesmo tempo em que Laban reivindicava a dança como um exercício de integração
através das experiências extásicas, desejava torná-la accessível também aos
trabalhadores de outros segmentos, expandindo assim, as contribuições da dança à
sociedade. E, a partir desse intuito, organizou “coros de movimento”, que reuniam até
cerca de mil pessoas, que eram unidas pela movimentação e ritmo coletivos, que eram
acompanhadas apenas por instrumentos de percussão. Essa “dança de massas”
misturava pessoas de diferentes etnias, condições sócio econômicas, sexos, tipos físicos,
dançarinos profissionais treinados e trabalhadores comuns.
A partir dos seus pressupostos, Rudolf Laban, em seu estudo de análise do
movimento e da perspectiva sociocultural, considera que o corpo expressa a relação do
indivíduo com o seu meio. É o meio o veículo e o conteúdo do indivíduo nas relações
que se estabelece. Seja no trabalho, no lazer, na intimidade das ações orgânicas básicas
da sobrevivência, o ser humano tem para si um repertório gestual que significa o seu elo
social. A análise do movimento e seu conseqüente Método de Dança/Arte do
Movimento refletem uma pedagogia voltada para o ser humano e, ultrapassadas as
fronteiras étnico-geográficas do século XIX, podem prepará-lo para conviver com a
tecnologia, a vida urbana, além de restituir-lhe a capacidade do prazer da convivência
consigo e com o outro. (RENGEL & MOMMENSOHN, 1992).
Dessa forma, a partir de vários estudos, Laban propõe também, a dança
educativa moderna, que, segundo ele, em seu livro “Dança Educativa Moderna” (1990),
ela se expressa nas formas dos movimentos liberados nos gestos, nos passos, bem como
nos movimentos do cotidiano, no qual a aprendizagem de uma nova dança é ações que
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consistem em sucessões de movimentos onde um esforço definido do sujeito acentua


cada um deles.
De acordo com Laban (1990), esses esforços que são citados se associam à
trajetória do movimento no espaço, que permitem ao professor, criar temas de
movimentos que podem ser realizados com propósitos recreativos e educacionais. Além
disso, a aprendizagem do aluno deve relacionar-se com as capacidades e as
necessidades para seguir qualquer impulso voluntário ou involuntário de mover-se com
desenvoltura e segurança.
Como citado anteriormente, Laban estuda a movimentação e seus esforços. Cada
ação de um tema de movimento consiste em uma combinação de elementos de esforço
que se movem seguindo os fatores de movimento Peso, Espaço, Tempo e Fluência. Os
temas básicos de movimentos e suas combinações e variações (os quais serão
explicados e exemplificados nesse trabalho), são considerados por Laban como a
melhor ferramenta para o professor de dança (LABAN, 1990).
Para Laban (1990), a idéia principal é que o professor deve encontrar sua própria
maneira de estimular os movimentos e a dança em seus alunos, escolhendo entre um
conjunto de temas de movimentos básicos aquelas variantes adequadas à etapa e ao
estado de desenvolvimento de seu aluno ou da maioria da classe. Portanto, para
desenvolver integralmente as crianças, Laban propõe a dança educativa, que busca o
desenvolvimento harmonioso da criança por meio da relação corpo-mente. Com essa
dança não se procura a perfeição ou criação de danças “sensacionais”, mas sim, o efeito
benéfico da atividade criativa sobre o aluno e a sua integração ao grupo.
Portanto, a dança educativa poderia ser considerada algo fundamental para o
desenvolvimento integral da criança nos seus primeiros anos de vida, no qual ela inicia
a aprendizagem ao se movimentar, ao gesticular, ao se expressar, ao criar... Assim,
segundo Freire (2001), as crianças precisam desenvolver as habilidades e
conhecimentos necessários para criar, modelar e estruturar movimentos em forma de
dança expressiva. A criança, muitas vezes, usa os movimentos espontaneamente,
variando seus gestos e dinâmicas para expressar seus sentimentos e idéias. Com um
pouco de encorajamento e assistência, elas brincarão e improvisarão com esses padrões
básicos de movimento. Este é um dos objetivos da Dança Educativa nos anos iniciais da
criança, para promover e desenvolver todas as suas habilidades naturais, ou seja,
oferecer oportunidades para elas criarem simples seqüências, através da improvisação,
interagindo umas com as outras, orientadas por um professor sensível. Com suas
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habilidades e conhecimentos desenvolvidos, elas poderão ser capazes de criar danças


mais complexas, as quais terão uma estrutura clara, incluindo aspectos interessantes de
composição, tal como desenvolvimento de tema e repetição.
Dessa forma, é a partir desse estudo sobre Laban e minha experiência na área da
dança contemporânea que proponho uma oficina, que será realizada no “IV Colóquio de
Pesquisa Qualitativa em Motricidade Humana: as lutas no contexto da motricidade” na
Universidade Federal de São Carlos, que acontecerá a partir do dia 6 até 9 de outubro de
2009. Essa oficina terá com carga horária de três horas.
Os objetivos da oficina são: 1.) transmitir aos participantes o conhecimento
teórico-prático da metodologia de Laban relacionada aos temas de movimento básicos e
suas ações de esforço (Tempo, Peso, Fluência e Espaço) na dança, bem como formas
para aplicá-los e desenvolvê-los durante uma aula de dança, teatro, e até mesmo, nas
aulas de Educação Física Escolar. Será por meio de movimentos corporais, associados
ao lúdico e à criatividade que serão desenvolvidas atividades direcionadas à essa
temática. 2.) possibilitar o contato dessa metodologia a qualquer tipo de participante,
sejam eles com experiência ou não na área da dança, teatro, música, entre outras artes
e/ou possuir conhecimento prévio ou não sobre os temas de movimentos básicos, os
fatores de esforço e a Dança Educativa proposta por Laban. 3.) proporcionar o contato
com maneiras diversificadas de se desenvolver o lúdico, a criatividade, a expressão
corporal e a movimentação a partir dessa metodologia proposta.
Ao início da oficina, haverá uma exposição breve sobre a temática dança
educativa, apresentação dos temas básicos de movimento e dos fatores de esforços.
Logo após, será proposto um breve aquecimento para então, dar início às atividades
direcionadas aos participantes sobre a temática. A oficina terá acompanhamento de
músicas e necessitará de um espaço adequado, amplo, para que assim, o fator espaço
possa ser bem explorado dentre também, os outros fatores e temas de movimento. Os
participantes deverão estar com roupas confortáveis, que não possam atrapalhar a
movimentação durante os exercícios propostos.
A metodologia seguirá os estudos e as propostas de Laban.
Segundo Laban, o ser humano se movimenta devido à necessidade de se
expressar. Os impulsos internos, a partir dos quais se origina o movimento, foram
denominados por ele de esforços. O esforço se manifesta em movimento e este, como
observou Laban, é composto de quatro fatores, que são Peso, Tempo, Espaço e Fluência
(RENGEL & MOMMENSOHN, 1992).
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O Peso pode ser leve ou firme (ou forte ou pesado). O peso analisa o movimento
em termos da quantidade de força despendida para realizá-lo - é a energia do
movimento. O Tempo pode ser rápido ou lento (com nuanças como, por exemplo,
rapidíssimo ou lentíssimo, isto valendo para o peso também). Este fator indica em que
tempo, em que velocidade o movimento se produz, ou seja, se ele é métrico (medidas de
tempo) ou não-métrico (a espiração, as batidas do coração). O fator Espaço pode ser
direto ou flexível. Ele aponta o tipo de trajeto que o movimento traça no espaço e como
se dirige nesse espaço. Já a Fluência, pode ser livre ou controlada. Ela revela o fluxo do
peso, tempo e espaço, detectando-o em várias atividades biológicas do homem
(REGNGEL, 2003).
De acordo com Rengel & Mommensohn (1992) e seus estudos sobre Laban,
esses quatro fatores são inerentes a cada pessoa e é o que diferencia umas das outras. Há
crianças com movimentos lentos (fator tempo), leves (fator peso), diretos (fator espaço)
e controlados (fator fluência) e outras totalmente opostas a estas em termos de
movimento, os quais podem ser rápidos, firmes, flexíveis, libertados. Assim, a autora
afirma que não existe movimento que não possua esses quatro fatores, seja no ato de
pegar um lápis, seja no de apagar uma lousa. E, portanto, o movimento com suas
diferentes formas, ritmos, pesos e fluências é revelador e possibilita demonstrações da
personalidade de cada um.
Além desses quatro fatores, também serão trabalhados na oficina os temas de
movimento. Cada tema possui muitas possibilidades de variação e podem combinar-se
entre si. São XVI (dezesseis) Temas básicos de movimento que podem ser divididos em
dois: os elementares, que são os primeiros oito Temas, que são apropriados para
crianças menores de onze anos, os quais serão desenvolvidos e trabalhados durante a
oficina, e os Temas avançados, de IX a XVI, os quais correspondem as necessidades das
crianças maiores de onze anos (RENGEL, 2008). Lembrando que esses temas podem e
devem ser trabalhados também, com pessoas de qualquer idade e não somente crianças.
A seguir, serão explicados, um por um, os oito Temas de movimento básicos
com base no livro “Os Temas de Movimento de Rudolf Laban” escrito por Lenira
Rengel (2008):

• Modos de aplicação do tema de movimento I


Esse tema é relacionado com a consciência do corpo, para possibilitar o uso do corpo e
partes do corpo para se mover ou dançar, trata-se de como podemos/devemos coordenar
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os movimentos do corpo de dobrar, esticar e torcer. São a partir dessas três funções que
o movimento acontece. As ações corporais são as mais conhecidas: sentar, correr,
engatinhar, cair, levantar, sacudir, derreter, balançar, deitar, pular, rolar, empurrar,
girar...

• Modos de aplicação do tema de movimento II


O Tema II é relacionado com a consciência do tempo e do peso, que traz possibilidades
da experiência do movimento com as gradações das qualidades de súbito e sustentado,
firme ou leve. É o primeiro tema que lida com dinâmicas e ritmos do movimento. O
Peso está relacionado com o aspecto mais físico e sensório do movimento e o Tempo,
operacionaliza e ajuda a decidir em relação a quando executar algo.

• Modos de aplicação do tema de movimento III


O Tema III é relacionado com a consciência do espaço para utilizá-lo, no qual o foco
não é só a pessoa, mas sim o ambiente em que está. Nesse caso, o espaço não deverá ser
preenchido, pois para Laban não existe Espaço vazio, e sim, um espaço que deve ser
explorado nos vários níveis (baixo, médio, alto), nas várias direções (frente, lado, trás,
diagonal), deve-se desenhar no espaço, atravessar o espaço. As ações nas dimensões
espaciais podem se emergir e afundar, alargar-se e estreitar-se, avançar e recuar.

• Modos de aplicação do tema de movimento IV


O Tema IV é relacionado com a consciência da fluência do peso corporal no espaço e
no tempo. Esse Tema trata a fluência e suas qualidades e completa o que foi
desenvolvido nos temas anteriores. As qualidades são identificadas como leve, firme,
sustentada, súbita, direta, flexível, livre, controlada. Aqui é mostrado o aspecto dos
quatro fatores, fazendo com que aconteça a experimentação da fluência, com várias
qualidades de peso, com deslocamentos pelo espaço e com ritmos diversos.

• Modos de aplicação do tema de movimento V


O Tema V está relacionado à adaptação a parceiros, faz parte do ambiente das outras
pessoas, a ênfase é dada ao espaço mais amplo. Exemplos de relações com o parceiro
pode ser aquele em que fazem a mesma movimentação, como se um fosse o espelho do
outro; pode ser o diálogo entre os corpos, como se os movimentos estivessem
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conversando, um responde ao movimento do outro; um dança e o outro assiste; pode ser


em trios, quartetos, quintetos...

• Modos de aplicação do tema de movimento VI


Esse Tema é relacionado ao uso instrumental do corpo. A atenção é voltada ao que o
corpo é capaz de fazer, atuando como se fosse um instrumento ou um objeto. O Tema
VI lida com gestos (que incluem todos os movimentos do corpo), com passos
(transferência de peso de um suporte para outro), com locomoção (maneira de
transportar o corpo de um lugar para outro), com o pular (todos os movimentos nos
quais o ponto de suporte é temporário), com o virar (movimentos nos quais é feita uma
mudança de frente) e com a imobilidade (em que aparentemente o corpo parece estar
imóvel mas possui seu fluxo sanguíneo, digestivo, batidas cárdicas, o movimento dos
olhos, entre outros).

• Modos de aplicação do tema de movimento VII


O Tema VII está relacionado com a consciência das oito ações de esforço básicas. É a
consciência do corpo como uma totalidade física, emocional e intelectual e de
corponectivo, em que o movimento e a dança não são só o que vemos de fora, mas sim
algo que tem sensações, atitudes, impulsos, pensamentos, inferências que aparecem em
movimento visível.

• Modos de aplicação do tema de movimento VIII


Esse Tema é relacionado aos ritmos ocupacionais, é um conjunto dos Temas V, VI e o
VII. A idéia é mostrar que os mesmos princípios gerais estão presentes em movimentos
de trabalho, bem como movimentos criativos.
De acordo com Rengel (2008), os Temas de movimento de Rudolf Laban fazem
parte de um conjunto de possibilidades admirável, com relação a se pensar, fazer e
conhecer movimento e dança.
Rengel & Mommensohn (1992) afirmam que por meio da dança educativa, a
criança descobre o que lhe é natural, orgânico, ou seja, por meio da linguagem corporal,
pois a linguagem verbal ainda não é totalmente dominada, ela descobre como é o
movimento. As autoras consideram importante frisar que a criança tem potencialidade
de desenvolver todos os fatores de movimentos e suas nuanças. Se seu movimento
natural é mais para o leve, em termos de fator peso, por exemplo, ela nunca vai perder
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esta característica, mas poderá "conhecer" e dominar o firme, que lhe abrirá um novo
campo de conhecimento a ser utilizado na vida. Portanto, de acordo com as autoras, não
é recomendável colocar crianças ainda pequenas no ballet clássico ou em qualquer outra
modalidade esportiva com excesso de padrões de movimento. Ela pode ser tolhida numa
gama enorme de movimentos. Mais tarde sim, entre nove e doze anos, a criança pode
optar pelo que desejar, seja ballet clássico ou não.
Dessa forma,  a dança educativa propõe observar e conhecer o repertório de
movimento das crianças, que podemos considerar já bastante rico, e também, auxiliá-las
a conservar a espontaneidade e a alegria que o domínio do corpo em movimento lhes
proporciona. Além disso, conduzi-las gradualmente a desenvolver suas habilidades
físicas junto com as habilidades criativas.
Assim, proponho essa oficina com o objetivo de transmitir o conhecimento
teórico-prático da metodologia de Laban relacionada aos temas de movimento e suas
ações de esforço na dança, nas quais os participantes as vivenciarão de maneira lúdica e
criativa para desenvolver a expressão e o movimento corporal. Além de vivenciarem
essa movimentação, terão a possibilidade de interpretar várias maneiras de aplicar e
desenvolver esse método com crianças ou qualquer pessoa em outra idade, e nas aulas
de dança ou qualquer outra aula que trabalhe a movimentação, como por exemplo, nas
aulas de Educação Física Escolar.