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Carlos Eduardo Martins

A TEORIA MARXISTA DA DEPENDÊNCIA À LUZ DE MARX

DOSSIÊ
E DO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO

Carlos Eduardo Martins*

Neste artigo, analisam-se as principais contribuições da economia política da dependência a partir dos
debates que a obra de Ruy Mauro Marini suscitou. Propõe-se a reformulação teórica dos conceitos de supe-
rexploração do trabalho e de subimperialismo, com o objetivo de atualizar e enriquecer a teoria marxista da
dependência, para a análise das tendências do capitalismo contemporâneo e das formas históricas que ele
assumiu na América Latina. O texto se divide em três partes: a primeira onde se expõem o pensamento de
Marini e suas contribuições para a economia política; a segunda onde se apresentam as principais críticas
realizadas ao seu enfoque; e a terceira onde se busca sustentar seu enfoque a partir de algumas reformula-
ções que se consideram necessárias para desenvolvê-lo.
Palavras-chave: Superexploração do trabalho. Subimperialismo. Economia política marxista. Marini. Marx.

APRESENTAÇÃO central, defendida pelo autor a partir da globa-


lização do padrão de acumulação neoliberal.
Neste artigo, propomo-nos a revisitar a Na segunda parte, apresentamos algumas das
economia política da dependência, tomando principais críticas que seu enfoque sofreu, tan-
como eixo os debates relacionados à obra de to as oriundas do desenvolvimentismo em seus
Ruy Mauro Marini. Um dos principais temas diversos matizes quanto aquelas formuladas
de destaque da economia política latino-ame- dentro da própria teoria marxista da dependên-
ricana foi a existência ou não de leis específi- cia. Na terceira parte, interpelamos a obra de
cas do capitalismo dependente, em particular Marini a partir do diálogo com essas críticas,
quanto à pertinência dos conceitos de supe- sustentando seu enfoque a partir de reformu-

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018


rexploração do trabalho e de subimperialismo. lações que consideramos indispensáveis para
Buscamos, a partir de um balanço crítico da seu desenvolvimento e atualização histórica.
obra desse autor e das polêmicas por ela sus-
citadas, reformular alguns de seus conceitos,
contribuindo para atualizar a teoria marxista MARINI E A ECONOMIA POLÍTICA
da dependência como um instrumento de aná- DO CAPITALISMO DEPENDENTE
lise do capitalismo contemporâneo e das for-
mas históricas que assumiu na América Latina. Marini formulou o conceito de superex-
Na primeira parte, apontamos os princi- ploração pela primeira vez, de forma mais sis-
pais conceitos formulados por Marini na elabo- temática, em Dialética da dependência (1973),
ração de uma economia política da dependên- que ampliou Dialectica de la dependencia: la
cia, contemplando sua extensão ao capitalismo economia exportadora (1972) – publicado in-
cialmente como artigo na revista Sociedad y
desarrollo, editada pelo Centro de Estudios So-
* Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Instituto
de Relações Internacionais e Defesa. cio-Económicos (CESO) no Chile – para anali-
Av. Pasteur nº 250. Campus da Praia Vermelha. CEP: 22.290-
902. Urca – Rio de Janeiro – Brasil. cadu.m@uol.com.br sar as etapas da industrialização na América

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792018000300003 463
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Latina, acrescentando-lhe um post scriptum.1 seu valor, implicando maior desgaste e redu-
As teses de Dialética da Dependência (1973) ção de sua vida útil.
foram desenvolvidas posteriormente, durante A maior exploração do trabalhador, to-
os anos 1970, em dois artigos, Plusvalía ex- davia, não se restringe, segundo Marini, a si-
traordinária e acumulación de capital (1979) tuações onde o aumento da produtividade é
– que o autor considera complemento indis- irrelevante ou inexistente. Ele aponta que es-
pensável ao seu livro – e El ciclo del capital sas duas formas de exploração não se excluem,
en la economia dependiente (1979). Nos anos mas se articulam, tendendo a se compensar
1990, ao coordenar, no Centro de Estudios lati- no conjunto da economia mundial capitalista,
noamericanos de la Universidad Autónoma do pois o aumento da força produtiva do traba-
México (CELA/UNAM), um balanço das contri- lho cria a possibilidade de maior exploração
buições do pensamento latino-americano du- do trabalhador, conduzindo, efetivamente, a
rante a transição para o padrão de acumulação esse resultado. Isso é assim porque o aumento
neoliberal que se impunha na região, o autor da força produtiva do trabalho não possibilita
postulou, em Tendencias y processos de La glo- apenas a elevação da taxa geral de mais-valia e
balización capitalista (1996), a extensão, aos a mais-valia relativa, mas também a mais-valia
países centrais, da superexploração do traba- extraordinária e a apropriação de mais-valia. O
lho, que considera constitutiva do capitalismo aumento da força produtiva do trabalho ape-
dependente, em razão das mudanças introdu- nas se converte em mais-valia relativa quando
zidas na divisão internacional do trabalho e reduz o valor da força de trabalho, barateando
nos padrões globais de acumulação. os bens de consumo necessários, diminuindo
Ao desenvolver o conceito de superex- o tempo de trabalho necessário e elevando os
ploração do trabalho, Marini considerou ne- salários. Isso ocorreria quando a competição
cessário ir além do ponto de partida de Marx intercapitalista assim o impusesse, e as lutas
para a formulação do conceito de mais-valia, dos trabalhadores garantissem um aumento do
de que para o conjunto da classe trabalhado- seu poder de consumo e a redistribuição par-
ra, no longo prazo, desprezando-se as oscila- cial do excedente em seu favor. Mas o aumento
ções conjunturais, o preço da força de trabalho da força produtiva do trabalho poderia impli-
equivale a seu valor. Postulou, então, a existên- car mais-valia extraordinária, objetivo pri-
cia de duas grandes formas de exploração do mordial do capitalista individual, levando ao
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trabalho, que são o aumento da força produti- emprego da maior exploração do trabalhador
va do trabalho, vinculada à elevação da produ- pelos capitais que não pudessem neutralizá-la
tividade, e a maior exploração do trabalhador, por meio da inovação tecnológica.
que constitui a superexploração. Essa última Em razão da forma como se inserem
se define pelo aumento da jornada de trabalho no ciclo de reprodução ampliada do capital
ou da intensidade de trabalho, sem a remu- na economia mundial, as burguesias dos paí-
neração equivalente do trabalhador, ou pela ses dependentes, inscritas de maneira subor-
apropriação de parte do seu fundo de consu- dinada na divisão internacional do trabalho,
mo, implicando redução salarial e violação de recorreriam regularmente à maior exploração
suas condições de existência. No seu conjunto, do trabalhador como forma de compensar as
a superexploração do trabalho significa a que- transferências de mais-valia determinadas pelo
da dos preços da força de trabalho, abaixo de monopólio tecnológico dos países centrais. Es-
1
O conceito de superexploração do trabalho apareceu tas transferências se apresentam associadas a
também embrionariamente em Subdesarrollo y revolución distintos contextos históricos e a padrões de
(1968) e, de forma mais destacada, em La acumulación
capitalista dependiente y La superexplotación del trabajo reprodução do capital. Marini aponta que o
(1972), resultado de sua intervenção no encontro de eco-
nomistas latino-americanos e italianos em Roma. emprego da maior exploração do trabalhador

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nos países dependentes ocorreria em função força de trabalho por maquinaria, transfe-
dos fatores a seguir apresentados: rências de valor em favor do setor de bens
a) Da busca do lucro extraordinário por parte de consumo suntuário, convertendo parte
das oligarquias dirigentes, na velha econo- da demanda dos trabalhadores em mais-va-
mia primário-exportadora, que, impulsiona- lia não acumulada, isto é, em demanda dos
da pelo mercado mundial, mas limitada pela que vivem do gasto de excedente.
baixa produtividade, as levaria a recorrer ao e) Das remessas de capital por parte das empre-
aumento da jornada de trabalho para atender sas estrangeiras internalizadas nos países
às pressões de demanda dos países centrais. dependentes às suas matrizes, motivadas
b) Da introdução do desenvolvimento tecno- por seu planejamento estratégico mundial,
lógico associado ao capital estrangeiro no pelo baixo nível de competitividade local
setor exportador, implicando a desvalori- e pelas restrições relativas ao investimento
zação de mercadorias que não se dirigem impostas pela superexploração do trabalho.
preferencialmente ao consumo dos traba- f) E, finalmente, ela deriva do estabelecimen-
lhadores nacionais – mas ao da burguesia e to da mais-valia extraordinária no comércio
dos trabalhadores dos países centrais e das internacional em favor dos monopólios em-
oligarquias e camadas médias locais – e a presariais sediados nos países centrais, em
repartição desigual da massa de mais-valia razão, com o desenvolvimento da divisão
nesse segmento, em função da elevação da internacional do trabalho, da contradição
heterogeneidade tecnológica imposta pela entre a transferência tecnológica crescente
fixação dos preços de produção. Assim, de para os países dependentes, destinada à pro-
um lado, a elevação da composição orgâni- dução de partes, componentes ou produtos
ca do capital soma-se à desvalorização das de menor complexidade, e a economia rela-
mercadorias, com efeitos marginais sobre tiva desse consumo pelos monopólios tecno-
a taxa de mais-valia – o que contribui para lógicos e consumidores dos países centrais.
reduzir a taxa de lucro– e, de outro, o mo- A superexploração do trabalho surge,
nopólio tecnológico reparte desigualmente assim, essencialmente como recurso de com-
a massa de valor em detrimento dos capitais pensação às transferências de valor intrasse-
de menor composição técnica. toriais e intersetoriais por parte de capitais
c) Da introdução da tecnologia estrangeira e do que estão abaixo das condições médias de

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monopólio tecnológico no setor industrial, produção, internas e internacionais, e que
que se orienta preferencialmente para o setor empregam a maior parte da força de trabalho
de bens de consumo suntuários, estabelece de seus países, determinando-lhes os marcos
escassa relação entre a desvalorização das gerais do mercado de trabalho. Segundo o au-
mercadorias e a da força de trabalho, e deslo- tor, a superexploração do trabalho tenderia a
ca o valor de mercado em direção aos capitais obstaculizar o trânsito da mais-valia absoluta
de maior composição técnica do segmento. para a relativa como forma dominante de acu-
d) Da fixação da mais-valia extraordinária mulação e engendraria sua forma própria de
como componente interno estrutural do ca- mais-valia relativa: o aumento da intensidade
pitalismo dependente, em função do mono- do trabalho, sem a remuneração equivalente
pólio tecnológico estabelecido pela entrada ao maior desgaste da força de trabalho, o que,
da tecnologia estrangeira. A mais-valia ex- ao se generalizar, rebaixa seu valor histórico
traordinária se estabelece não apenas den- moral e eleva o tempo de trabalho excedente.
tro dos ramos produtivos, mas também no A superexploração exigiria a presença de altos
plano intersetorial, violando os preços de níveis de desemprego e subemprego para que
produção, ao impor, com a substituição da os preços da força de trabalho se nivelassem

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abaixo de seu valor, e democracias limitadas de assentar seu modelo de acumulação sobre o
ou regimes políticos ditatoriais que impuses- aumento dos preços e a desvalorização da for-
sem tal situação. ça de trabalho, para dar lastro à sua pretensão
Os padrões de acumulação do capita- de autonomia, limitaria fortemente sua capa-
lismo dependente estariam marcados por for- cidade de expansão (Cf. Marini, 1974, 1977a,
te concentração de renda e de propriedade e 1978).
seriam liderados pelas frações burguesas con- Nos anos 1990, Marini afirma que a su-
centradas nos setores primário-exportadores, perexploração do trabalho estaria deixando de
de bens de consumo suntuário ou financeiros. ser uma característica exclusiva da acumula-
Haveria restrições ao investimento produtivo ção nos países dependentes, ao se estender aos
no mercado interno aos segmentos orientados países centrais. Os processos de globalização
para os bens de consumo necessários, que so- criariam novas fontes de mais-valia extraordi-
freriam concentração e monopolização preco- nária ao deslocar o monopólio da tecnologia
ce e cujo dinamismo se vincularia, em parte, para a ciência e fragmentar a fabricação do
ao mercado internacional. produto em partes e componentes, orientan-
Marini menciona que o mercado inter- do-a para mercados mundiais e permitindo
no, impulsionado pelo consumo de bens sun- combinar a alta tecnologia e a força de traba-
tuários e pela demanda estatal, seria relativa- lho superexplorada da periferia para substituir
mente insuficiente para atender à dinâmica de parcialmente a produção realizada nos países
investimento industrial dos países dependen- centrais (Marini, 1996). Dessa forma, com o
tes que tivessem atingido composição orgânica novo desenho organizacional das corporações
média e a etapa do capital financeiro, fomen- transnacionais, os salários da periferia passa-
tando, neles, tendências subimperialistas. Tais riam a nivelar para baixo os do centro, e as
tendências se manifestariam na exportação de empresas de base estritamente nacional desse
mercadorias ou de capitais, em busca de maté- cairiam a níveis inferiores aos das condições
rias-primas ou de controle de mercados, e no médias de produtividade dos mercados inter-
estabelecimento de projetos geopolíticos para nacionais, levando-as a empregar a maior ex-
países periféricos e regiões, mas sua oportu- ploração do trabalhador.
nidade estaria condicionada a espaços e con-
junturas em que fossem menores os obstáculos
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impostos pelos grandes centros imperialistas CRÍTICAS E DEBATES


e suas empresas. Para Marini, poucos países
poderiam jogar um papel subimperialista, ca- As críticas ao pensamento de Marini se
bendo essa possibilidade, na América Latina, originaram de diversas fontes, sendo as mais
ao Brasil. O subimperialismo, para além de um antagônicas as que partiram do enfoque webe-
esquema econômico de realização que saltaria riano da dependência, do neodesenvolvimen-
limitações do mercado interno, teria sua plena tismo e do endogenismo. Outras críticas têm
configuração em um projeto de autonomia na partido do próprio campo da teoria marxista
dependência, que se expressaria na busca do da dependência que, estimuladas pela ascen-
desenvolvimento da indústria pesada - onde são das esquerdas na América Latina no século
poderia ganhar destaque a militar -, do esta- XXI, buscam maior precisão nos marcos concei-
belecimento de centros internos de decisão e tuais paradigmáticos lançados por Marini. Tais
da ascensão nas hierarquias de poder e cadeias marcos, situados em alto nível de abstração, são
produtivas internacionais. Todavia sua incapa- introdutórios e gerais, suscetíveis de posterior
cidade para romper com os vínculos financei- desenvolvimento, como o autor reconhece no
ros, tecnológicos e políticos do imperialismo e post scriptum de Dialética da dependência:

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Dialéctica de la dependencia no pretende ser sino mento do primeiro. Cardoso destaca que, para
esto: una introducción a la temática de investiga- analisar a dinâmica da dependência, a ênfase
ción que me viene ocupando y de las líneas gene-
deve ser posta no conceito de desenvolvimen-
rales que me orientan en esa labor. Su publicación
obedece al propósito de adelantar algunas de las
to, uma vez que a dependência é condiciona-
conclusiones a que he llegado, susceptible quizá de da pela expansão do capitalismo internacional
contribuir al esfuerzo de otros que se dedican al es- (Cf. Cardoso, 2010). Ele descarta a formulação
tudio de las leyes de desarrollo del capitalismo de- de uma teoria da dependência em favor de uma
pendiente, así como al deseo de darme a mí mismo teoria global do desenvolvimento capitalista
la oportunidad de echar una ojeada global sobre el
que daria os marcos da articulação de forças
terreno que intento desbrozar.
Aprovecharé, pues, este post scriptum para aclarar
externas e internas, constituídas por classes
algunas cuestiones y deshacer ciertos equívocos sociais e grupos políticos, cuja interação de-
que el texto ha suscitado. En efecto, pese al cuidado finiria as formas concretas e particulares que
puesto en matizar las afirmaciones más tajantes, su este assumiria na periferia (Cf. Cardoso, 1979).
extensión limitada llevó a que las tendencias anali- Cardoso e Serra, em sua análise das
zadas se pintaran a brochazos, lo que les confirió a
transferências internacionais de valor – tema
veces un perfil muy acusado. Por otra parte, el nivel
mismo de abstracción del ensayo no propiciaba el
que surpreendentemente descartam com o ar-
examen de situaciones particulares, que permitie- gumento de que a baixa mobilidade internacio-
ran introducir en el estudio cierto grado de relativi- nal de força de trabalho não permitiria medir
zación (Marini, 1973, p. 81-82). o trabalho socialmente necessário –, acusam
A principal crítica formulada pelo enfo- Marini de confundir intercâmbio desigual e
que weberiano da dependência foi feita isola- deterioração dos termos da troca2 (Cf. Cardoso;
damente por Fernando Henrique Cardoso, ou Serra, 1978). Apontam que o intercâmbio desi-
em trabalho conjunto com José Serra, expoente gual não atinge negativamente a taxa de lucro,
do pensamento neodesenvolvimentista brasi- enquanto a deterioração dos termos da troca
leiro. Cardoso descarta a proposta teórica de só o faz quando a queda dos preços na perife-
Marini, respaldada por Theotonio dos Santos ria for independente das variações de produ-
e Vânia Bambirra, de que existiriam leis de tividade. Afirmam que Marini sustentaria sua
movimento especificas para o capitalismo de- teoria da superexploração em condições de es-
pendente, argumentando que isso só poderia tagnação ou de produtividade decrescente do
ocorrer caso este representasse um modo de setor exportador na periferia. Apontam ainda

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produção específico (Cf. Cardoso, 1975, 1979, que ele prioriza a taxa de mais-valia ao invés
1993). Para Cardoso, o capitalismo industrial da taxa de lucro e negligencia o papel do ba-
estaria baseado na mais-valia relativa e na ex- rateamento do capital constante na recupera-
pansão da produtividade, condicionando as ção desta taxa, indicando, para isso, apenas a
novas formas de dependência que o interna- redução dos custos da força de trabalho. Sua
lizavam, ou suas tecnologias, a partir dos anos teoria da superexploração exigiria ainda, como
1950, na América Latina. Cardoso aponta que condição, a estagnação produtiva no setor de
a superexploração poderia ocorrer em situa- bens de consumo necessários, desdobrando-se
ções específicas, independentes da dinâmica na busca de mercados externos, fundamento
do moderno capitalismo dependente. Elas se- de sua teoria do subimperialismo. Assinalam
riam oriundas de determinações políticas que que a produtividade concentrou-se no setor de
atuassem sobre seus marcos estruturais e debi- 2
Segundo Cardoso e Serra, o intercâmbio desigual se ex-
pressa nos diferenciais de produtividade entre os setores
litassem a atuação dos trabalhadores na luta de exportadores da periferia e do centro, em benefício desse úl-
timo, sem impactos na variação dos preços das mercadorias
classes, ou de articulações de modos de produ- de ambas as regiões; já a deterioração dos termos de troca
ção, entre o capitalismo e formas econômicas implica não apenas diferenciais de produtividade em favor
do centro, mas de preços, afetando-os negativamente na pe-
pré-capitalistas, que limitassem o desenvolvi- riferia, sem alterá-los nos centros (Cf. Cardoso; Serra, 1978).

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bens de consumo duráveis, mas avançou tam- troduzido pelo capitalismo europeu e, quando
bém no setor de bens de consumo necessários superada a fase de acumulação primitiva, eles
e, em ambos os casos, muito mais do que a ex- poderiam ser integrados aos níveis mais avan-
tensão da jornada de trabalho.3 Para Cardoso e çados do desenvolvimento capitalista, pouco
Serra, as contenções salariais realizadas pelos importando se o agente inicial fosse externo
governos militares teriam sua determinação ou interno. Para Palma, a escola do CESO, de
em seu reacionarismo, e não nas necessidades forma diametralmente oposta, negaria a possi-
do capitalismo dependente. Concluem que o bilidade de desenvolvimento na dependência.
dilema socialismo ou fascismo, sustentado Agustín Cueva, em Problemas e perspec-
por Theotonio dos Santos, mas também por tivas da teoria da dependência (1974) assinala
Marini, basear-se-ia na tese da estagnação do que Marini estiliza as diferenças entre capitalis-
capitalismo dependente e que são escassas as mo clássico e dependente, e trabalha com mo-
bases empíricas apresentadas pelo autor para delos e não leis. Cueva aponta que as leis gerais
comprovar seu enfoque. do capitalismo são modificadas pela presença
O texto de Cardoso e Serra constitui-se do imperialismo e pela articulação de modos
como paradigmático das interpelações neode- de produção, mas que são modificações de grau
senvolvimentistas a Ruy Mauro Marini, Theo- e não de qualidade, e não dão lugar a nenhuma
tonio dos Santos, Vânia Bambirra e Andre Gun- teoria da dependência. As diferenças entre for-
der Frank, negligenciando as críticas explícitas mações sociais devem ser vistas mais nas arti-
dos três primeiros à identificação entre depen- culações internas que nas internacionais entre
dência e situação colonial, presente no texto países dependentes e industriais.5 Ele afirma
de Frank, O desenvolvimento do subdesenvolvi- que o conceito de subdesenvolvimento é mais
mento (1966), que subestima o desenvolvimen- explicativo sobre as restrições ao consumo da
to das forças produtivas e a autonomia formal classe trabalhadora que o de superexploração,
do Estado nacional4 (Cf. Cardoso; Serra, 1978). e pode se aplicar aos países centrais, como na
Na mesma direção situa-se o texto de Gabriel França dos anos 1940. Destaca que, apesar de
Palma, que busca contrapor o enfoque da de- sugestivo, o conceito de superexploração apre-
pendência, postulado pelo CESO aos escritos senta inconsistências históricas, apontando,
de Marx, e apresenta o livro Dependência e entre elas, a subestimação do alto consumo de
desenvolvimento na América Latina (1967) de carne pela população argentina e do consumo
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Cardoso e Falleto, reforçado pelo prefácio de popular de produtos industriais na Améri-


1977, como fundador de um marco analítico ca Latina. Posteriormente, Cueva matiza suas
capaz de perceber a dinâmica interna da de- afirmações em Las democracias restringidas de
pendência (Cf. Palma, 1978). Segundo Palma, America Latina (1989), quando revisita o tema
Marx assinalou que o desenvolvimento apenas da superexploração, admitindo sua pertinência
ocorreria em países sob o modo de produção no plano histórico, ainda que não no teórico,
asiático, carentes de dinamismo interno, se in- o que se explica por um desvio imposto pelo
3
Cardoso e Serra confundem a elevação da produtividade imperialismo sobre as leis puras de desenvolvi-
com a mais-valia relativa, sem questionarem como afeta o mento do capital. Todavia, se reconhece a per-
grau de exploração na economia, o valor dos bens-salários,
e se articula com a demanda. Mantega também o faz e cita tinência da superexploração, Cueva aponta que
Desventuras para afirmar: “Aqui os dados são ainda mais
eloquentes, pois mostram que a produtividade industrial o subimperialismo não se confirmou historica-
(não distribuída aos trabalhadores), representando a mais-
-valia relativa, cresceu de 1959 a 1970 em 75% [...] e a mente, acossado pela amplitude do imperialis-
queda do salário real foi de 35%” (Mantega, 1984, p. 271). mo neoliberal (Cf. Cueva, 1989).
4
A influência de Cardoso e Serra (1978), no Brasil, na lei-
tura da obra de Marini e da vertente marxista da depen-
dência, está presente em textos como os de Luiz Carlos 5
Posição similar apresenta Hector Diaz Polanco em seus
Bresser Pereira (1982), Guido Mantega (1984) e Lidia Gol- comentários ao artigo de Marini, El ciclo del capital em la
denstein (1994). economia dependiente (1979) (Cf. Polanco, 1979).

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Castañeda e Hett, que expressam va- malização matemática da superexploração,


riantes do pensamento neodesenvolvimentis- apontamos que a hipótese da compatibilidade
ta e sustentam a hipótese da emergência de da superexploração com a mais-valia relativa
imperialismos latino-americanos, pretendem deve ser analisada à luz dos padrões concre-
criticar os pilares do conceito de superexplora- tos de reprodução do capital e que não há ele-
ção ao apontarem que não há base teórica para mentos suficientes apresentados por Marini
afirmar quando o preço da força de trabalho para afastar essa possibilidade. Assinalamos
está abaixo de seu valor, pois tal valor seria a necessidade de se avançar na reelaboração
fixado historicamente pelas lutas de classes e do conceito de superexploração, que aprofun-
não abstratamente (Cf. Castañeda; Hett, 1978). daremos neste artigo, pois entendemos ser in-
De forma similar, Jose Valenzuela Feijoó, em dispensável para desenvolver as formulações
um texto com erros grosseiros de exposição do de Marini e ampliar seu alcance (Cf. Martins,
pensamento de Marini, sustenta que os preços 2017). Indicamos ainda a necessidade de se
da força de trabalho são determinados pela integrar, ao conceito de superexploração, uma
realidade concreta e se, no longo prazo, des- quarta forma de maior exploração do trabalha-
cartarmos os ciclos de conjuntura, serão iguais dor, referente ao aumento do valor da força de
ao seu valor6 (Cf. Feijoó, 1997). Mais recente- trabalho, associada à elevação de sua qualifi-
mente, Claudio Katz sustentou a tese de uma cação sem a remuneração equivalente. Afirma-
dependência sem superexploração, defenden- mos que essa quarta forma, apesar de não estar
do que há baixos salários na periferia e não re- explicitada por Ruy Mauro Marini, surge em
muneração abaixo do valor da força de traba- várias passagens de seus trabalhos (Cf. Mar-
lho. O capitalismo periférico pagaria salários tins, 2011, 2017).
equivalentes ao baixo valor de uso ou troca da Marcelo Carcanholo faz objeções ao ter-
força de trabalho, atendendo a necessidades mo superexploração do trabalho para nomear
fisiológicas e histórico-sociais do trabalhador o conceito de Marini, considerando que o mais
condicionadas por “produtividade, escala de adequado é superexploração da força de traba-
acumulação, luta de classes e padrões cultu- lho, e questiona ainda a atribuição, por Marini,
rais de cada país” (Katz, 2018, p. 2). de mais-valia relativa ao aumento da intensi-
No campo mais próximo à teoria mar- dade do trabalho7 (Cf. Carcanholo, 2017). Ga-
xista da dependência, Cristóbal Kay destacou a nha destaque ainda, no debate sobre a supe-

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importância do aporte de Marini, mas objetou rexploração, a questão de sua extensão ou não
que o autor nunca procurou formalizar mate- aos países centrais, pois aqueles que defendem
maticamente suas hipóteses, o que restringiu a extensão apontam a reestruturação da divi-
sua capacidade de demonstrá-las (Cf. Kay, são internacional do trabalho e novas formas
1989). Entre os temas que ganham relevância monopólicas e de mais-valia extraordinária
no debate sobre a superexploração está o de como o seu determinante, e aqueles que a ne-
sua compatibilidade ou não com a mais-valia gam defendem a superexploração como uma
relativa, tal como foi assinalada por Marx, o especificidade do capitalismo dependente (Cf.
que implica elevação da produtividade e ba- Carcanholo, 2017; Osório, 2013).
rateamento dos bens salariais. Em publicação Na próxima seção, faremos um balanço
recente, ao avançarmos na questão da for- 7
A contraposição dos termos superexploração da força de
6
Veja-se, de Jose Valenzuela Feijoó, Sobrexplotación y de- trabalho e trabalho nos parece equivocada e pouco dialé-
pendência (1997), publicado meses após à morte de Ma- tica. Marini usa ambos, com predominância do segundo.
rini. Entre os estranhos erros de interpretação do pensa- Marx se refere tanto à exploração da força de trabalho as-
mento de Marini está o de lhe atribuir a afirmação de que salariada e do trabalhador que é seu proprietário. A forma
os países da periferia possuem uma taxa de mais-valia su- objetificadora em que a exploração se apresenta é parte
perior aos do centro e que, nos últimos, há um nível maior das relações que o capital impõe, mas constitui apenas
de superexploração do trabalho, formulações totalmente uma dimensão dessa totalidade, pois a exploração do tra-
alheias ao pensamento do autor. balho pelo capital é a exploração entre sujeitos.

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crítico da obra de Ruy Mauro Marini para dia- ponde a níveis de abstração que Marx se pro-
logar com as interpelações a ela dirigidas. pôs, mas não pode avançar, como são os do
Estado, das relações internacionais de produ-
ção e do mercado mundial. Grande parte das
PARA A REFORMULAÇÃO DA críticas que Marini recebeu é oriunda de um
ECONOMIA POLÍTICA DA DEPEN- marxismo formalista e mecanicista, incapaz de
DÊNCIA compreender que os conceitos se transformam
a partir da necessidade de desdobramento para
Ruy Mauro Marini deixou uma obra de níveis mais concretos da realidade, ou provêm
enorme fecundidade e criatividade, que avan- de um pensamento neodesenvolvimentista,
çou na direção do método dialético de Marx, dependentista ou neoliberal que, diante de
orientando-se para o desdobramento do ní- opção que faz pela subordinação, se preocu-
vel analítico mais abstrato ao mais concreto. pa com a crítica radical de Marini aos efeitos
Avançou do plano mais geral, que parte dos econômicos, políticos e sociais do capitalismo
supostos à produção de capital e se estende à dependente. Todavia, se Marini abriu fecundas
efetiva produção de mais-valia, ao mais com- perspectivas teóricas e analíticas, deixou lacu-
plexo da circulação e concorrência intercapita- nas que fragilizam sua promissora perspecti-
lista, onde se estabelecem os desvios de preços va. Diante de certas insuficiências, não cabe à
sobre o valor e as transferências de mais-valia teoria marxista da dependência sacralizar os
entre capitais de distintas composições técni- textos fundadores, mas buscar avançar no vi-
cas e orgânicas, para dedicar-se à análise de goroso caminho aberto pelo autor e aprofundar
formações sociais inscritas no sistema mun- suas formulações.
dial capitalista, em particular as dependen- Uma precisão inicial diz respeito ao pró-
tes. No âmbito mais abstrato da concorrência prio conceito de superexploração do trabalho.
intercapitalista, em que Marx situa O Capital, Se é importante reconhecer, como aponta Jai-
para tratar dos determinantes gerais das trans- me Osório, que o conceito não está formula-
ferências de valor, Marini também inova ao do em O Capital, pois Marx, para elaborar sua
postular que a mais-valia extraordinária pode teoria da mais-valia, parte do suposto de que
atuar não apenas dentro dos ramos produtivos, os preços da força de trabalho correspondem
mas entre ramos distintos, violando os preços a seu valor (Cf. Osório, 2004), cumpre desta-
Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018

de produção. Ele demonstra a compatibilidade car que suas raízes teóricas estão claramente
do progresso técnico e da mais-valia extraor- delimitadas nessa obra, ainda que não sejam
dinária com o pressuposto de equilíbrio dos desenvolvidas pelas razões assinaladas. Não se
esquemas de reprodução do Livro II, ao apon- trata, aqui, de sublinhar as referências de Marx
tar que o progresso técnico economiza força de no Livro I, em que reconhece a importância
trabalho e transfere demanda ao setor de bens histórica da queda dos preços da força de tra-
de consumo suntuário, articulando o setor I a balho abaixo de seu valor, apesar de descartá-
essa fração do setor II (Cf. Marini, 1979b). -la para fins analíticos, ou no Livro III, quando
O pensamento de Marini teoriza, por- a situa como uma importante contratendência
tanto, a superexploração do trabalho, avançan- ao aumento da composição orgânica do capital
do criativamente do plano do capital em geral e à queda da taxa de lucro. O que importa evi-
e dos determinantes mais abstratos da concor- denciar é que, já no Livro I, Marx assinala que
rência intercapitalista para incluir, na análise, a força de trabalho apenas possui valor médio
o funcionamento específico de determinadas se apresentar intensidade e destreza médias e
formações sociais nos marcos do sistema mun- atuar em condições normais de produtividade.
dial capitalista, patamar analítico que corres- Caso contrário, seu trabalho não apresenta va-

470
Carlos Eduardo Martins

lor médio e tampouco sua força de trabalho é calculá-lo em situações monopólicas, que pre-
considerada média, sendo vendida abaixo des- dominam nesse tipo de sistema mundial, de-
se valor. Marx é ainda mais explícito e aponta ve-se tomar em consideração que as condições
que a lei geral de valorização do capital só se médias de produção são estabelecidas pelos
realiza plenamente quando o capitalista indi- capitais de composição superior, os quais pro-
vidual emprega diversos trabalhadores, neu- duzem a maior parte das mercadorias; que o
tralizando suas diferenças, e empregando tra- valor de mercado dos produtos tende a se apro-
balho social médio: ximar do valor individual das mercadorias
desse segmento; e que, como contrapartida, os
Se um trabalhador consumisse significativamente
mais tempo na produção de uma mercadoria do que
preços da força de trabalho tendem a ser deter-
o socialmente necessário, se o tempo de trabalho de minados pela grande massa de trabalhadores
que ele individualmente necessita se desviasse sig- que a vende abaixo das condições médias, o
nificativamente do tempo de trabalho socialmente que desloca os seus preços médios para baixo
necessário ou tempo de trabalho médio, seu trabalho do valor médio.
não seria considerado trabalho médio, tampouco sua
A teoria da superexploração do trabalho
força de trabalho como força de trabalho média. Esta
não seria vendida, ou o seria apenas abaixo do valor
deve, portanto, tomar como primeiro indicador
médio da força de trabalho [...] Assim, a lei geral da a queda sistemática dos preços da força de tra-
valorização só se realiza plenamente para o produ- balho em relação a seu valor médio na economia
tor individual quando ele produz como capitalista, mundial. Todavia a superexploração não se ca-
emprega muitos trabalhadores simultaneamente e, racteriza apenas pela forma aparente, pelos des-
desse modo, põe em movimento, desde o início, o
vios de preços da força de trabalho em relação a
trabalho social médio (Marx, 2013, p. 495-496).
seu valor, mas pelo emprego da maior explora-
Portanto, para Marx, a base de sua teo- ção que os determina em função das transferên-
ria da mais-valia e das leis gerais da acumula- cias de valor. Considerando-se que a inscrição
ção de capital, fundadas na equivalência entre de formações sociais na economia mundial ca-
preços e o valor para grandezas numéricas ex- pitalista é mediada por classes dominantes que
pressivas, é o valor médio da força de traba- dirigem o Estado nacional e estabelecem espa-
lho. Quando se menciona a queda dos preços ços de circulação e produção de mercadorias
por debaixo do valor da força de trabalho é ao com autonomia relativa, podemos afirmar que
seu valor médio que se está fazendo referência, a superexploração do trabalho ocorre de forma

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018


caso se tome como parâmetro a teoria marxista. estrutural, tipicamente, quando esses processos
Se uma força de trabalho de destreza e inten- de acumulação estão determinados, interna e
sidade médias atua por debaixo das condições externamente, por situações monopólicas que
médias de produtividade, não poderá ser ven- inserem a maior parte de sua força de trabalho
dida pelo valor da força de trabalho em geral, significativamente por baixo das condições mé-
se lhe atribuindo um preço, pela concorrência, dias de produtividade do capital, em âmbito na-
que viola o seu valor de uso. cional e internacional, mais a afastando delas
O valor médio da força de trabalho se do que aproximando-as. Face à queda das taxas
define historicamente na economia mundial de mais-valia que lhes são impostas, os capitais
capitalista, seja de forma análoga ao capital em de composição média e inferior recorreriam à
geral, como síntese das múltiplas particulari- maior exploração do trabalhador. Define-se, as-
dades dos preços da força de trabalho, pouco sim, um segundo indicador para o fenômeno: a
importando a dimensão de sua expressão con- queda de preços da força de trabalho frente aos
creta específica, seja determinando esse valor estabelecidos pelas condições médias de produ-
pelo valor da força de trabalho que atua nas ção em âmbito nacional.
condições médias de produção. Todavia, para Essas observações são importantes para

471
A TEORIA MARXISTA DA DEPENDÊNCIA À LUZ DE MARX ...

assinalar que, ao contrário do que imaginam Se essa crítica pode ser feita aos opo-
autores como Jorge Castañeda, Enrique Hett e sitores do pensamento de Marini, é preciso
José Valenzuela Feijoó, os preços da força de reconhecer que, embora esse autor tenha de-
trabalho, nos países dependentes, não podem monstrado corretamente que as transferências
ser tomados como equivalentes aos seus va- de valor impostas aos países dependentes lhes
lores, por estarem determinados pela luta de determinam uma forma especifica de explora-
classes, descartando-se as flutuações de con- ção – pautada na queda dos preços da força de
juntura. Tampouco representam os valores trabalho abaixo de seu valor –, não se desven-
histórico-morais de nossos trabalhadores, li- cilhou inteiramente do nacionalismo metodo-
mitados por razões internas, como quer Clau- lógico. Ao utilizar o conceito de valor da força
dio Katz. Essas postulações derivam de um trabalho, embora não explicite, parece fazê-lo
nacionalismo metodológico que incorre em exclusivamente em bases nacionais, desarti-
dois erros: concebe a produtividade em termos culando-o de seu eixo de referência mundial,
nacionais, desarticulando-a das transferências entrando em contradição com seu ponto de
de valor que incidem sobre as economias de- partida analítico, vale dizer, a inscrição das
pendentes e no seu interior, afetando, particu- formações sociais dependentes nos processos
larmente, a grande massa de trabalhadores;8 de acumulação da economia mundial capita-
além disso, manejam um conceito equivocado lista. Dessa forma, desvincula a queda dos pre-
de valor da força de trabalho que não toma em ços da força de trabalho do seu valor médio
consideração o valor social médio da força de mundial, que pode se expressar em uma massa
trabalho na economia mundial capitalista. superior de bens de consumo necessários, com
No caso de Cardoso e Serra, o obscure- a sua desvalorização, associada ao aumento da
cimento se faz ainda mais profundo, porque capacidade produtiva nos países centrais.
se trata, como vimos, não apenas de ignorar o Esta confusão conceitual inclinou Marini
valor médio da força de trabalho na economia a afirmar que a mais-valia relativa, tal como de-
mundial, mas de negá-lo sob a afirmação de finida por Marx, seria incompatível com a supe-
que o conceito de trabalho socialmente neces- rexploração do trabalho. Embora seus trabalhos
sário não possuiria operacionalidade na eco- não sejam totalmente conclusivos em relação a
nomia mundial, em função da escassa mobi- isso, essa visão parece predominar. Em sua res-
lidade internacional da força de trabalho (Cf. posta a Cardoso e Serra, coloca muita ênfase no
Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018

Cardoso; Serra, 1978). Como assinala correta- fato de que a dinamização do setor de bens de
mente Marini, em réplica, a mobilidade inter- consumo necessários se associaria à expansão do
nacional da força de trabalho não tem relação comércio exterior. Assim, ele aponta que a supe-
alguma com a vigência do trabalho socialmen- rexploração inclui uma modalidade de mais-va-
te necessário na economia mundial, que con- lia relativa, vinculada ao aumento da intensida-
tinua comparando valores em função da pro- de do trabalho, que, ao se generalizar, afetaria os
dutividade, podendo apenas afetar sua medida dois tempos da força de trabalho. “Señalemos,
quando incide sobre esta (Cf. Marini, 1978).9 inicialmente, que el concepto de superexplota-
8
Brasil, México e Argentina possuíam, em relação aos Es-
ción no es idéntico al de plusvalía absoluta, ya
tados Unidos, quanto à renda per capita (PPP), anos de que incluye también una modalidad de plusvalía
escolaridade e jornada de trabalho (JT), em 2015: o Brasil
tinha 59% da escolaridade dos Estados Unidos, 27,5% da relativa – la que corresponde al aumento de la in-
renda per capita e a mesma JT; o México, 65% da escola-
ridade, 33,5% da renda per capita, e 27% a mais de horas tensidad del trabajo” (Marini, 1973, p. 92).
trabalhadas; e a Argentina 75% da escolaridade e 36% da Todavia não fica explicitado por Marini
renda per capita, sem diferenças de JT (Cf. PNUD, 2018;
The Conference Board, 2018).
9
Marini assinala que a chave para as transferências de mais- monopólios tecnológicos, e não a restrita circulação interna-
-valia e para os diferenciais de salário na economia mundial cional de força de trabalho, como querem autores como Clau-
capitalista são as assimetrias de produtividade, oriundas dos dio Katz (Cf. Amin, 1993; Katz, 2018).

472
Carlos Eduardo Martins

em que nível de análise está situando sua abor- missora. Embora a centralidade da superexplo-
dagem quando descreve a intensidade do tra- ração do trabalho fosse corretamente apontada
balho como a mais-valia relativa específica da por Marini, sua compatibilidade ou não com a
superexploração: se está se referindo aos me- mais-valia relativa não pode ser determinada
canismos pelos quais funciona uma tipologia em níveis teóricos mais abstratos, mas em sua
pura, a superexploração do trabalho, ou se está articulação com a análise concreta dos padrões
analisando diretamente a realidade concreta. de acumulação de capital. A tentativa de de-
Em outras passagens, parece apontar terminar essa incompatibilidade – ressalvado
para caminho metodológico distinto, quando o caso polêmico da intensidade do trabalho10
menciona que, nos países dependentes, a su- –, em níveis abstratos, que se imporia sobre os
perexploração obstaculiza o trânsito da mais- padrões concretos específicos de acumulação,
-valia relativa como forma predominante das fragilizou, desnecessariamente, o importante
relações entre capital e trabalho, abrindo es- aporte de Marini, cujos desdobramentos teó-
paço para incorporar sua presença de forma ricos, no plano econômico, social e político –
subordinada ao protagonismo da maior explo- alta concentração de capitais, altos níveis de
ração do trabalhador. desigualdade, baixos salários dos trabalhado-
res, fortes restrições ao mercado interno, su-
La tarea fundamental de la teoría marxista de la de-
pendencia consiste en determinar la legalidad espe-
bimperialismo e busca do socialismo como
cífica por la que se rige la economía dependiente alternativa à dependência –, prescindem dessa
[…] Como quiera que sea, la exigencia de especi- hipótese tão restritiva. Essa incompatibilidade
ficar las leyes generales del desarrollo capitalista sugerida não foi demonstrada nem empirica-
no permite, desde un punto de vista rigurosamente mente, nem formalmente por Marini, o que
científico, recurrir a generalidades como la de que la
colocou seu aporte sob ataques que lhe obje-
nueva forma de la dependencia reposa en la plusva-
lía relativa y el aumento de la productividad. Y no
tavam haver expansão do consumo das classes
lo permite porque ésta es la característica general trabalhadoras já com o desenvolvimento da
de todo desarrollo capitalista, como se ha visto. El produção agroexportadora, em determinados
problema está pues en determinar el carácter que países da América Latina,11 e ser a mais-valia
asume en la economía dependiente la producción relativa a especificidade do desenvolvimento
de plusvalía relativa y el aumento de la productivi-
do capitalismo a partir da grande indústria,
dad del trabajo.
En este sentido, se pueden encontrar en mi ensayo
pontos de convergência da crítica de Cardo-

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018


indicaciones que, aunque notoriamente insuficien- so (1975, 1979, 1993, 2010), Cardoso e Serra
tes, permiten vislumbrar el problema de fondo que (1978), Palma (1978) e, inicialmente, Cueva
la teoría marxista de la dependencia está urgida a (1974).
enfrentar: el hecho de que las condiciones creadas Entretanto essas críticas possuem forte
por la superexplotación del trabajo en la economía
capitalista dependiente tienden a obstaculizar su 10
Marcelo Carcanholo (2017) tem razão em questionar
tránsito desde la producción de plusvalía absoluta a intensidade do trabalho como forma de mais-valia re-
a la de plusvalía relativa, en tanto que forma domi- lativa. A hipótese de Marini de que o aumento da inten-
sidade de trabalho ao se generalizar, sem a remuneração
nante en las relaciones entre el capital y el trabajo. equivalente, cria um novo eixo de valor da força de traba-
La gravitación desproporcionada que asume en el lho, afetando os dois tempos da jornada de trabalho, entra
em contradição com a tese inerente à superexploração de
sistema dependiente la plusvalía extraordinaria es que os preços da força de trabalho estão sistematicamente
un resultado de esto y corresponde a la expansión abaixo do valor.
del ejército industrial de reserva y al estrangula- 11
Argentina e Uruguai se tornaram os países com maior
consumo per capita de carne bovina do mundo na primei-
miento relativo de la capacidad de realización de la ra metade do século XX. O consumo per capita anual de
producción (Marini, 1973, p. 99-100, grifo nosso). carne na Argentina saltou de 56,1 kg, nos anos 1914-19,
para 87,9 kg, nos anos 1950-59. Entre 1914-19, as exporta-
ções superavam o consumo interno, com 590.000 tonela-
Entretanto, o autor não desenvolve pos- das exportadas e 460.000 consumidas internamente; mas,
a partir dos anos 1920, o consumo interno se tornou o eixo
teriormente essa indicação metodológica pro- dinâmico (Cf. Guadagni, 1964).

473
A TEORIA MARXISTA DA DEPENDÊNCIA À LUZ DE MARX ...

teor desenvolvimentista, lançam mão de uma Da mesma forma, em O Manifesto do


interpretação mecanicista e equivocada da Partido Comunista, Marx e Engels assinalam:
obra de Marx e pecam no essencial: negligen-
Até aqui todas as sociedades repousaram, como
ciam o fenômeno da superexploração e os for- vimos, no antagonismo entre classes opressoras e
tes limites que coloca à expansão da mais-valia oprimidas. Mas, para se oprimir uma classe, é ne-
relativa. Postular a possibilidade de coexistên- cessário assegurar-lhe condições para que possa,
cia da mais-valia relativa com a centralidade no mínimo, prolongar sua existência servil. Sob o
da superexploração do trabalho não significa regime da servidão, o servo chegou a membro da
comuna, tal como sob o jugo do absolutismo feu-
atribuir-lhe caráter progressivo e pertinência às
dal, o pequeno burguês chegou a burguês. Por sua
etapas mais avançadas do capitalismo depen- vez, o operário moderno, em vez de elevar-se com
dente. Junto ao fenômeno do desenvolvimento o progresso da indústria, decai cada vez mais, abai-
da produtividade e da elevação da composição xo das condições de sua própria classe. O operário
técnica e orgânica do capital, crescem também transforma-se em indigente, e a miséria cresce mais
sua concentração e centralização, assim como rápido do que a população e a riqueza. Evidencia-
-se assim, claramente, que a burguesia é incapaz de
as transferências de mais-valia intercapitalis-
permanecer por mais tempo como classe dominante
tas. Mesmo no Tomo I de O Capital, dedicado da sociedade e de impor-lhe, como lei e como regra,
ao capital em geral, Marx deixou importantes as condições de vida de sua classe (Marx; Engels,
indicações sobre tais desdobramentos, colo- 2001, p. 44).
cando em cheque as interpretações que fazem
da mais-valia relativa o futuro do capitalismo As contradições entre a superexploração
baseado no progresso técnico. Essas observa- do trabalho e a mais-valia relativa avançam à
ções estão alinhadas também a determinadas medida que se desenvolvem a composição or-
formulações feitas por Marx e Engels em O gânica do capital, o monopólio tecnológico, o
Manifesto do Partido Comunista. peso do setor de bens de consumo suntuários, a
No Capítulo XXIV do Tomo I de O Ca- centralização do capital e a financeirização no
pital, Marx menciona que a etapa que sucede processo de acumulação, podendo, no limite,
à acumulação primitiva e à pré-história do ca- levar ao bloqueio dessa forma de mais-valia e
pital se desenvolve por meio do jogo das leis à regressão salarial de amplos contingentes de
imanentes da própria produção capitalista, trabalhadores. Assim, a título de demonstra-
onde crescem, de maneira correlata, em escala ção algébrica, podemos apontar três situações:
Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018

cada vez maior, a forma cooperativa do proces- a primeira, referente a um capital determinado
so de trabalho, a aplicação técnica e conscien- antes de sofrer transferências de mais-valia;
te da ciência, a exploração planejada da terra, a segunda, em que esse capital passa a sofrer
o entrelaçamento de todos os povos na rede do transferências de mais-valia que incidem no
mercado mundial, o caráter internacional do setor de bens de consumo suntuário a partir
regime capitalista, mas também a concentra- de variações da produtividade; e a terceira, em
ção e a centralização do capital. Assim, aponta: que um capital de composição inicial idêntica,
que atua no setor de bens de consumo neces-
Com a diminuição constante do número de magnatas sário, também passa a sofrer transferências de
do capital, que usurpam e monopolizam todas as van-
mais-valia pelo mesmo motivo:
tagens desse processo de transformação, aumenta a
massa da miséria, da opressão, da servidão, da degene-
1) c + v + m = p
ração, da exploração, mas também a revolta da classe
trabalhadora, que, cada vez mais numerosa, é instru-
ída, unida e organizada pelo próprio mecanismo do 2) c + +m=
processo de produção capitalista (Marx, 2013, p. 832).

3) c + + m =

474
Carlos Eduardo Martins

Sabe- se que c = capital constante, v = de mais-valia relativa e elevação de salários.


capital variável e x = desvalorização das mer- Para restabelecê-la, total ou parcialmente, terá
cadorias que representam os bens de consumo de utilizar a maior exploração do trabalhador
necessário, a qual é superior à variação de sua e, eventualmente, reorientar a produção para
produtividade, implicando a queda do preço os bens de consumo suntuários. As mesmas
abaixo do valor; m = mais-valia, p = valor do correlações anteriores se aplicam aqui: a subi-
produto, y = variação da produtividade do ca- da de y e a queda de x favorecem a mais-valia
pital de composição técnica inferior e z = des- relativa para o capital de composição inferior, o
valorização média das mercadorias no setor aumento da composição orgânica desfavorece,
de bens de consumo suntuários, que é inferior o aumento da taxa de mais-valia na equação 1,
à variação de sua produtividade, implicando mantidas as variações de produtividade inicial-
elevação do preço acima do valor. Por questões mente indicadas, desfavorece na equação 3.
de simplificação, supomos que cada mercado- Essas equações elementares demons-
ria do setor de bens de consumo necessário tram que a heterogeneidade tecnológica e a
representa a média daquelas que o compõem atuação da mais-valia extraordinária, dentro e
quanto ao valor e à produtividade; tal supo- entre os ramos ou setores produtivos, podem
sição é extensiva às mercadorias do setor de levar ao bloqueio da mais-valia relativa nos
bens de consumo suntuário. capitais de composição tecnicamente inferior,
Na primeira equação, se supusermos c mesmo na vigência da elevação de sua produ-
= 200, v = 300, m = 500 e p =1000 e, na se- tividade. Se esses capitais empregarem a maior
gunda, x = 2, y = 1,4 e z= 2, veremos que a parte da força de trabalho de uma formação so-
apropriação de mais-valia sofrida pelo capital cial, estará instituída uma situação de preva-
de composição inferior neutraliza a elevação lência da superexploração do trabalho que res-
de sua taxa de mais-valia e mantém inaltera- tringirá ou abolirá a mais-valia relativa, como
da a taxa de lucro, bloqueando-lhe a mais-va- resultado das transferências de valor que so-
lia relativa e o aumento dos salários. Assim, a frem. Mas, se os exercícios algébricos indicam
taxa de lucro de um determinado capital igual essas possibilidades, serão as análises históri-
a 1, na equação 1, se reproduz na equação 2, cas dos padrões de acumulação que permitirão
havendo queda do valor das mercadorias que deslindar as formas em que se apresenta a su-
representam os bens de consumo necessário e perexploração nos países dependentes. Nessas

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018


suntuário idêntica à da massa nominal de salá- análises retrospectivas e prospectivas, há de se
rios. Mas, se, para elevar a produtividade, esse integrar, entre as variáveis da superexploração,
capital aumentou sua composição orgânica, a o aumento do valor da força de trabalho sem a
restituição de sua taxa de lucro exigiria corte de elevação correlata dos seus preços, o que cons-
salários reais, aumento da jornada ou da intensi- titui uma forma disfarçada de queda de preços
dade de trabalho. Se alterarmos os valores de z, por baixo do seu valor, compatível, entretanto,
aumentando-os, e reduzindo os de y, novamente com o aumento real de salários.
a taxa de lucro cai. Igualmente, a taxa de lucro A extensão da superexploração aos paí-
cairá se partirmos de uma de taxa de mais-valia ses centrais proposta por Marini encontra arti-
maior na composição original do capital tecni- culação com o próprio pensamento de Marx e
camente inferior, mantendo-se as variações de de Engels referente aos efeitos das etapas avan-
produtividade inicialmente indicadas. çadas da concentração e centralização de capi-
Na terceira equação, se supusermos x = tais sobre os trabalhadores. Essa extensão não
2 e y = 1,3, a taxa de lucro cairá para o capital elimina a especificidade dos países dependen-
de composição inferior em relação à equação 1 tes na divisão internacional do trabalho, como
– de 1 para 0,85 –, impedindo que ele desfrute apontam alguns teóricos identificados com a

475
A TEORIA MARXISTA DA DEPENDÊNCIA À LUZ DE MARX ...

teoria marxista da dependência, mas introduz ríodo do boom das commodities, entre 2004 e
um novo patamar na composição técnica dos 2013, a partir dos anos 1980, a América Latina
monopólios, o qual situa a maior parte da for- cresceu abaixo das taxas de crescimento per
ça de trabalho dos países centrais por baixo das capita da economia mundial e se afastou dos
condições sociais médias de produção mundial. níveis de renda per capita do núcleo orgânico
O aumento vertiginoso dos índices de desigual- da economia mundial.12
dade, nos Estados Unidos e na Europa Ociden- O padrão neoliberal, ao elevar drama-
tal, e a estagnação dos salários, demonstrados ticamente os estoques relativos de capital es-
pelos estudos de Piketty (Cf. Piketty, 2014), trangeiro na América Latina, aumentou muito
constituem expressão dessa tendência. mais as remessas do que as entradas de capital,
O alto nível de centralização e concen- tornando negativos os fluxos líquidos inter-
tração de capital se expressa nos impactos cada nacionais de capital, mesmo durante os perí-
vez mais medíocres dos ciclos de ingresso de odos de crescimento dos ingressos. Tal situa-
capital estrangeiro para o desenvolvimento do ção exigiu uma balança comercial fortemente
capitalismo dependente. Os estudos sobre es- positiva, inclusive no período de apreciação
ses ciclos, realizados pela teoria marxista da cambial, o que só foi possível com a forte alta
dependência, destacam a tendência à descapi- dos preços das commodities, que se iniciou em
talização no médio e longo prazo, intermediada 2004 e abriu o espaço para um reformismo mo-
por períodos de predomínio de ingressos que derado na região, implementado pelos gover-
concentram e centralizam o capital (Cf. Capu- nos de centro-esquerda, ou mais radicais, sob
to; Pizarro, 1974; Martins, 2011; Santos 1978a). forte mobilização nacional-popular e orienta-
O resultado tende a ser o aumento estrutural ção latino-americanista.13
dos estoques de capital estrangeiro em relação A queda dos preços das commodities e
ao PIB e das transferências, o que se combina as reversões do ciclo de ingressos de capitais
com a volatilidade dos fluxos de entrada, pres- estrangeiros tornaram-se o ponto de partida
sionando, na longa duração, em favor da ex- para um novo período de inflexão na história
pansão dos saldos comerciais, via superexplo- latino-americana, quando as forças neolibe-
ração do trabalho, salvo situação específica de rais, suas variações fascistas e o imperialismo
forte ingresso de divisas com turismo ou emi- tomam o protagonismo na região, aproveitan-
grantes. Se Fernando Henrique Cardoso (1993) do-se das debilidades da centro-esquerda e da
Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018

destacou que sua ênfase nos estudos sobre ca- desarticulação interna do bloco histórico que
pitalismo periférico está no desenvolvimento, emergiu a partir da primeira década do século
e não na dependência, apostando que suas ne- XXI. O provável esgotamento, no final desta
cessidades de expansão seriam financiadas pe- década, do ciclo de Kondratiev expansivo, ini-
las corporações transacionais e por organismos ciado em 1994, a perda intensa de velocidade
internacionais, expressando processos históri-
cos que supostamente teriam ocorrido a par- 12
Se compararmos os níveis de renda per capita de Brasil
Argentina e México, em relação aos Estados Unidos, tere-
tir dos anos 1960, a realidade concreta parece mos os seguintes resultados: Brasil–E.U.A: 1950: 25,5%;
dar pouco respaldo às suas opções teóricas: as 1980: 39,9%; 2003: 24,8% 2013: 30%; 2017: 25,7%; Argen-
tina –E.U.A: 1950: 61,7%; 1980: 52,2%; 2003; 28,7%; 2013:
contradições do desenvolvimento dependente 37,5%; 2017: 34,2%; e México–E.U.A: 1950: 35%; 1980:
48,9%; 2003: 32,6%; 2013: 33,9%; 2017: 33,5%. Cálculos
e associado expuseram o capitalismo periféri- do autor (Cf. The Conference Board, 2018).
co às vulnerabilidades financeiras e à ofensiva 13
Entre 1992 e 1998, período cíclico de boom de ingres-
sos de capital estrangeiro, eles superaram as saídas sob a
do padrão neoliberal que desindustrializou, forma de remessas de lucros, juros e outros serviços em
desnacionalizou, impulsionou o capital fictí- U$ 27 bilhões, ao passo que a balança comercial foi nega-
tiva em U$ 89 bilhões. Entre 2010 e 2014, novo período
cio, reduziu as taxas de investimento e tornou de boom de ingressos de capital estrangeiro, as saídas os
superaram em U$ 34 bilhões, e a balança comercial foi
medíocres as de crescimento. Excetuado o pe- positiva em U$ 136 bilhões (Cf. Cepalstat, 2018).

476
Carlos Eduardo Martins

de expansão dos fluxos internacionais de capi- impossibilitava à economia brasileira funcio-


tal e do comércio exterior, o aumento do pata- nar efetivamente como uma economia expor-
mar estrutural de remessas com a elevação dos tadora. Essa economia da transferência atuava
estoques de investimento direto e o avanço dos a partir de dois grandes mecanismos: a) regula-
processos de concentração e centralização de ções protecionistas da substituição de impor-
capitais fazem prever um forte aumento das ta- tações, que garantiam a reserva de mercado e
xas de superexploração no capitalismo depen- preços monopólicos à burguesia industrial in-
dente latino-americano, restringindo, cada vez terna, estrangeira ou associada; e b) formação
mais, as possibilidades da mais-valia relativa. de uma grande dívida pública interna, origi-
Entre as formas que impulsionam a su- nalmente para envio de dólares aos pagamen-
perexploração no capitalismo contemporâneo tos de juros da dívida externa, que tornou-se
está a financeirização do capital, produtora parte substantiva do processo de acumulação
de capital fictício, respaldado essencialmente da burguesia local, internacionalizando-se a
pelo Estado, em particular pela expansão da partir da abertura financeira promovida pelo
dívida pública. O impacto que assume a pro- Governo de Fernando Henrique Cardoso, man-
dução de capital fictício no capitalismo con- tida nos governos petistas.
temporâneo tem forte relação com a revolução Essa economia da transferência limi-
científico-técnica e a automação que, ao re- tou significativamente o alcance do projeto
duzirem significativamente a massa de valor subimperialista brasileiro ao reduzir as taxas
representada pela força de trabalho, tornam de investimento e criar, no Estado, uma fonte
cada vez mais medíocres os incrementos na de acumulação e realização de capital fictício,
taxa de mais-valia e a economia de força de que substituiu parcialmente a produção e rea-
trabalho para sustentar a mais-valia extraordi- lização de mercadorias. O desmonte do regime
nária. Busca-se resolver a contradição entre o de acumulação vinculado à dependência in-
aumento da produtividade e a produção de va- dustrial, pela abertura comercial e financeira
lor para a acumulação de capital. Essa hipótese dos anos 1990, aprofundou ainda mais essa li-
tem sido sustentada nos trabalhos de Adrián mitação, ao sobrevalorizar a moeda, desindus-
Sotelo Valencia (2010) e Carlos Eduardo Mar- trializar, desincentivar as exportações e tornar
tins (2011). A geração de capital fictício, cuja a produção de capital fictício, via expansão da
fórmula básica é D-D`, traz consigo a expecta- dívida pública, o componente central da eco-

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tiva de produzir mais-valia sem a mediação do nomia de transferência.
trabalho e, para realizar-se, subtrai demanda Durante os governos petistas, a retoma-
e valor aos segmentos produtores de bens de da da política industrial via Banco Nacional de
consumo necessários, transferindo-os ao setor Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES)
de bens de consumo suntuários. reativou o projeto subimperialista, atribuindo-
Marini não se debruçou suficientemen- -lhe novo caráter em relação ao dos anos 1970
te sobre o tema da financeirização e suas im- e 1980, quando se vinculou à pretensão de in-
plicações sobre o subimperialismo, embora o ternalizar a indústria pesada e o controle das
tenha destacado em sua análise da crise do tecnologias nuclear e eletrônica por meio da
desenvolvimento associado, quando sublinha dependência financeira, à superexploração, ao
as vinculações entre a dívida interna e a dí- terrorismo de Estado e à imposição de frontei-
vida externa. O autor aponta, entretanto, em ras regionais ideológicas, idealizadas por Gol-
textos como La politica de fomento a las expor- bery do Couto e Silva, o mais destacado teórico
taciones y el déficit publico en Brasil (1988) e El da ditadura militar do grande capital no Brasil.
experimento neoliberal en Brasil (1992), a pre- Nos governos petistas, buscou-se alavancar se-
sença de uma economia da transferência que tores industriais muito mais específicos, sem a

477
A TEORIA MARXISTA DA DEPENDÊNCIA À LUZ DE MARX ...

mesma importância estratégica nas cadeias de pendência em favor do neoliberal; e pelo golpe
valor globais, vinculados à agroindústria, recur- de 2016, que bloqueou e destruiu a lenta reati-
sos minerais e construção civil, impulsionando vação do capitalismo de Estado para impulsio-
sua internacionalização a partir da formação de nar políticas industriais e elevar o controle na-
grandes monopólios produtivos internos. cional sobre recursos estratégicos. Como forma
Este subimperialismo projetou-se co- de realização dos excedentes e de investimen-
mercial e financeiramente, principalmente tos, o subimperialismo foi limitado pela finan-
sobre a América do Sul, com quem auferiu ex- ceirização do Estado no Brasil, pela destruição
pressivos superávits comerciais, mas também parcial de sua base industrial e pela expansão
sobre o Caribe e a África, obtendo significa- do mercado interno proporcionada pelo boom
tivas remessas de lucros, geradas a partir de das commodities. A economia política do golpe,
investimentos no exterior. Vinculou-se a uma todavia, impõe a retração do consumo popular
política internacional centrista e multilateral, e o corte drástico de gastos públicos primários,
de afastamento relativo dos Estados Unidos, vinculando o dinamismo econômico às expor-
aproximação da China por meio do BRICS, e tações e aprofundando o grau de transnaciona-
do integracionismo bolivariano, sem adotar lização da economia brasileira, devendo impli-
o seu anti-imperialismo. No plano interno, o car a reorientação para a conquista agressiva de
centrismo manifestou-se em uma política mo- mercados internacionais.
derada de avanços sociais e democráticos, que A tentativa de conter o protagonismo do
pretendeu se agregar ao padrão neoliberal, for- capital financeiro, reduzindo as taxas de juros,
talecendo a fração industrial da burguesia, sua e combinando-a a uma política fiscal forte-
base nacional e o controle estatal dos recursos mente restritiva, indica que esse movimento
naturais, reajustando a hegemonia do capital de reorientação tende a se articular aos seto-
financeiro fictício e do capital estrangeiro, mas res de menor complexidade tecnológica e a ser
sem ameaçá-la. O golpe de 2016 desarticulou dirigido pelo capital internacional, desvincu-
esse projeto em favor de um padrão neoliberal lando-se, cada vez mais, da associação entre
muito mais puro: alinhado aos Estados Unidos, capitalismo de Estado e frações burguesas in-
baseado em altas taxas de superexploração, no dustriais locais. Seus limites estão na associa-
protagonismo do capital financeiro fictício e ção a segmentos de baixo valor agregado e na
na alienação ao capital estrangeiro do controle ausência de um sistema nacional de inovação
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nacional sobre recursos estratégicos e cadeias capaz de projetá-lo para etapas superiores da
de valor agregado importantes. divisão internacional do trabalho.
O subimperialismo brasileiro apresenta, Finalmente, em relação ao tema do so-
assim, duas possibilidades: como forma de reali- cialismo, nem Ruy Mauro Marini, nem Theo-
zação do excedente econômico e de investimen- tonio dos Santos ou Vânia Bambirra sustenta-
tos em função das limitações do mercado interno ram essa opção política com base na estagna-
provocadas pela superexploração do trabalho; e ção econômica que Fernando Henrique Cardo-
como projeto geopolítico de frações internas da so, José Serra, Bresser Pereira, Guido Mantega
tecnoburocracia estatal, que buscam ampliar o e Gabriel Palma, entre outros, lhes atribuíram.
grau de autonomia na dependência e se articu- Para eles, o socialismo era a opção para en-
lam com distintas forças sociais, podendo apre- frentar a superexploração, os altos níveis de
sentar-se sob várias formas históricas. desigualdade, a desnacionalização, as viola-
Como projeto geopolítico, o subimpe- ções à democracia e os limites crescentes que
rialismo foi duplamente derrotado: pelo isola- a dependência coloca ao desenvolvimento no
mento dos governos militares e o desmonte de capitalismo periférico, condenando-o a novas
seu projeto de autonomia tecnológica na de- formas de subdesenvolvimento. O socialismo,

478
Carlos Eduardo Martins

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Carlos Eduardo Martins

THE DEPENDENCY THEORY IN THE LIGHT OF LA THÉORIE DE LA DÉPENDENCE À LA LUMIÈRE


MARX AND CONTEMPORARY CAPITALISM DU MARX ET DU CAPITALISME CONTEMPORAINE

Carlos Eduardo Martins Carlos Eduardo Martins

The article analyzes the main contributions of L’articleanalyse les principales contributions de
the political economy of dependence from the l’économiepolitique de la dépendance aux débats
debates that the work of Ruy Mauro Marini suscités par le travail de Ruy Mauro Marini. Il
aroused. It proposes the theoretical reformulation propose la reformulation théorique des concepts de
of the concepts of superexploitation of labor and surexploitation du travail et de sub-impérialisme
of subimperialism with the aim of updating and dans le but de mettre à jour et d’enrichir la
enriching the Marxist theory of dependency to théorie marxiste de la dépendance pour analyser
analyze the trends of contemporary capitalism les tendances du capitalismecontemporain et les
and the historical forms it has assumed in Latin formes historiques qu’il a assumées en Amérique
America. It is divided into three parts, the first Latine. Il est divisé en trois parties, la première
where Marini’s thinking and his contributions to où la pensée de Marini et ses contributions à
political economy are presented, the second where l’économie politique sont présentées, la seconde
the main criticisms of his approach are presented, où les principales critiques de son approche sont
and the third one where we sustain his approach présentées, et la troisième où il cherche à soutenir
from some reformulations that are considered son approche à partir de certaines reformulations
necessary to develop it. qui sont considérés comme nécessaires pour le
développer.

Key words: Superexplotation of labour. Mots clés: Superexploration du travail. Sous-


Subimperialism. Marxist political economy. Marini. imperialism. Économiepolitiquemarxiste. Marini.
Marx. Marx.

Caderno CRH, Salvador, v. 31, n. 84, p. 463-481, Set./Dez. 2018

Carlos Eduardo Martins – Doutor em Sociologia. Professor Associado do Instituto de Relações


Internacionais e Defesa (IRID) e do Programa de Economia Política Internacional da UFRJ (PEPI).
Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Hegemonia e Contra hegemonia da UFRJ (LEHC).
Pesquisador dos grupos de trabalho sobre Estados Unidos e sobre Integração Regional e unidade sul-
americana e caribenha de CLACSO. Prêmio Jabuti de 2007, livro do ano não ficção, pela coordenação
da Latino-americana; enciclopédia contemporânea de América Latina e Caribe. Principal Publicação:
Globalização, dependência e neoliberalismo na América Latina. Boitempo, 2011, 367p.

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