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CONFLITO:
UM NOVO OLHAR SOBRE UM VELHO TEMA*

Maria Cecília Peres do Souto

RESUMO
O conflito faz parte do nosso dia a dia, enquanto indivíduos inseridos em uma sociedade, sendo tema
do trabalho de sociólogos, advogados, diplomatas e, sem dúvida, psicólogos. No capítulo IX do livro
Gestalt-terapia (1997), de Perls, Hefferline e Goodman, encontramos uma visão criativa do tema “con-
flito” e de como manejá-lo em psicoterapia. Nossa proposta é trazer essas considerações teóricas como
ponto de reflexão e discussão, na medida em que consideramos a questão do conflito e o seu manejo
em psicoterapia aspectos importantes de serem continuamente revistos e ressignificados pelos psico-
terapeutas. A ilustração com um caso clínico possibilita a aproximação entre o teórico e o vivido e, a
fim de ampliar e enriquecer a discussão com um suporte simbólico, apresentamos o mito do príncipe
Conn-Eda, da mitologia bretã, o qual acreditamos possa ajudar a clarear a questão da relação conflito/
self, tal qual é vista pela Gestalt-terapia, apresentando a figura do “herói” em contraposição à do “con-
quistador”.

Palavras-chave: Gestalt-terapia; conflito; psicoterapia.

ABSTRACT
The conflict is part of our daily life while individuals belonging to society, being subject of the work
of sociologists, lawyers, diplomats and, without doubt, psychologists. In the book Gestalt Therapy by
Perls, Hefferline and Goodman, chapter IX, we find a creative vision of the conflict topic and how
to handle it in psychotherapy. Our proposal is to bring these theoretical considerations as a point of
reflection and discussion, to the extent that we consider the issue of conflict and its management in
psychotherapy important aspects that are continuously reviewed and redefined by psychotherapists.
The illustration with a clinical case allows approachment between the theoretical and the experienced
and in order to expand and enrich the discussion with a symbolic support, we introduce the myth of
Prince Conn-Eda, from Breton mythology, which we believe may help lighten the question of conflict/
self relationship as it is seen by the Gestalt Therapy, showing the figure of the “hero” in contrast to the
“conqueror”.

Key-words: Gestalt-therapy; conflict; psychotherapy.

*Apresentado como “Grupo de discussão temática” no VIII Encontro Nacional de Gestalt-terapia, em Forta-
leza, outubro de 2001.

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Uma das grandes novidades que a Ges- “pequenas batalhas”; pressupõe a possibilidade
talt-terapia traz é o enfoque dado à agressão de vencer e demonstrar bravura.
como algo positivo e necessário, não mais Grandes conflitos falsos se configuram
com a ênfase dada ao “instinto de morte”. quando soluções são impossíveis, como nas dis-
Pulsões agressivas “não são essencialmente cussões mente/corpo, amor/agressão, prazer/
distintas dos impulsos eróticos – são etapas realidade. Funcionam como meios de “evitar”
de crescimento diferentes, sob a forma de conflitos excitantes que teriam solução; fica-se
destruição e assimilação ou sob a forma de na discussão estéril e nunca se chega a nada.
regozijo, absorção e obtenção de equilíbrio”.
Como os conflitos aparecem no funciona-
Ambas estão a serviço da vida, não da morte.
mento neurótico?
Algumas resultantes possíveis do movi- Grandes conflitos verdadeiros são evitados;
mento agressivo são a vitória ou a derrota, a pequenos conflitos simbólicos e grandes confli-
conquista e a dominação. tos falsos são superestimados.
Na neurose, vitória é fundamental, pressu- Para se contrapor a esse comportamento
põe um vencedor e um vencido, uma vítima, neurótico de necessidade de vitória e distorções,
que é o self. A necessidade neurótica de vitória a Gestalt-terapia propõe o “desprendimento
não é a necessidade do objeto pelo qual se lutou; criativo” que os autores colocam como uma
é a necessidade de ser vencedor e a isso a Ges- “atitude peculiar do self espontâneo” e onde es-
talt-terapia chama “autoconquista”. A neurose tão presentes:
não aguenta derrota porque ela significa “per- • a aceitação do interesse e do ob-
di, fui humilhado e isso eu não aceito, eu não jeto;
assimilo derrotas”; é, no fundo, uma tentativa
• o movimento de agressão, no
de “salvar aparências”, manter a autoimagem,
sentido de ir na direção de, movi-
sempre pressupõe conflito e acaba sendo uma
mentar-se, agir;
“saída” dele.
• a aceitação da excitação com o
Chegamos ao nosso tema: conflito. Vejamos
conflito, no sentido de contato
qual a categorização que Perls, Hefferline e Goo-
com o novo;
dman propõem. Existem:
• crescimento com o conflito, no
• grandes conflitos verdadeiros; sentido de que propicia uma ex-
• pequenos conflitos simbólicos; e pansão do self.

• grandes conflitos falsos. Não importa ganhar ou perder; importa sim


não estar apegado (preso) ao que se pode per-
Grandes conflitos verdadeiros se configu-
der. Isso pressupõe abrir mão da segurança con-
ram quando existe luta por um objeto importan-
seguida (pressupõe uma “segurança básica”);
te; pressupõe um arriscar-se no desconhecido e,
importa saber que estará mudando e começar
necessariamente, mudança do status quo.
a se identificar com aquilo em que pode vir a
Pequenos conflitos simbólicos se configu- se tornar. O sentimento correspondente a esse
ram quando toda experiência é transformada em movimento é a fé, aquele “salto no escuro”, que

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é exatamente o oposto do sentimento de segu- saudável. Nenhum conflito deveria ser dissolvi-
rança. É esse o movimento que o neurótico não do na terapia. Os conflitos são fortemente ener-
pode realizar: ele se apega ao velho modo de gizados, plenos de interesse e, nesse sentido, um
ser, por impossibilidade de acreditar e falta de meio de crescimento. A tarefa da psicoterapia
suporte para experimentar “ser de outro jeito”. seria nutrir os conflitos importantes (grandes
conflitos) de material ambiental novo para que
Vejamos o significado de conflito, de acor-
atinjam um ponto de crise, ou seja, criar confli-
do com a fórmula clássica e com a proposta do
tos verdadeiros. Conflitos “menores” (simbóli-
texto. A proposta clássica é revelar e descobrir
cos) deveriam ser ressignificados, não para que
“conflitos internos”. A proposta da Gestalt-tera-
sejam evitados, mas para trazer à luz os grandes
pia é que conflitos não estão nem dentro nem
conflitos de que são sinais.
fora. Conflitos são sempre distúrbios do campo,
não podem ser reduzidos a qualquer uma das O importante é que conflito é sempre cola-
partes, ambas tem que ser consideradas junta- boração na direção de uma figura inteiramente
mente. Então as questões interno/externo, intra/ nova. Supor que existe uma sabedoria (do tera-
interpessoal, etc., utilizadas para identificar, no- peuta ou do cliente), de qual é o benefício que
mear, revelar conflitos são considerados concei- se quer alcançar, é enganoso: o “o que fazer?” é
tos “pobres”, pois são dicotômicos; a proposta é exatamente o que está sendo verificado, talvez
enxergar os conflitos sob a ótica do conceito de sendo descoberto pela primeira vez.
fronteira de contato e revelá-los enquanto dis- Como fica a questão do sofrimento? Toda
túrbios do campo e não necessariamente negati- vez que há elementos em disputa (relação com
vos e passíveis de remoção. escolhas objetais, comportamento social, culpa
Para a Gestalt-terapia, a questão do “inter- moral versus prazer), há sofrimento, e o contato
no” pode ser entendida como dentro da pele, com ele é o meio para se chegar a uma solução
no interior da psique (por exemplo, as tensões nova, criativa; se a solução é pré-concebida ou
opostas e o mecanismo de regulação do siste- incentivada pelo terapeuta, evita-se sofrimento,
ma fisiológico, das brincadeiras, dos sonhos, mas a solução é alheia ao paciente e será bem
da arte, etc.). Todos esses “conflitos internos” menos vigorosa em termos de crescimento e ex-
podem ser confiáveis, não neuróticos, e estar a pansão do self.
serviço da autorregulação. Nesse sentido, não
são o tema da psicoterapia. Na fórmula clássica,
Conclusão
conflitos internos são ruins e devem ser dissolvi-
dos porque desperdiçam energia, causam sofri-
É insensato anular, suprimir ou apaziguar o
mento, excitam a agressão e a destruição (o que
conflito. Como resultado, ocorre o impedimen-
é ruim!); tem a ver com aspectos antissociais que
to da destruição/assimilação completas, o que
devem ser eliminados ou sublimados (sexuali-
condena o indivíduo a um sistema nunca per-
dade pré-genital, por exemplo), pois provêm de
feitamente autorregulador. Mas se isso é verda-
“conteúdos arcaicos, equivocados, deslocados”.
deiro e aceitável quando partes conflitantes são
A proposta da Gestalt-terapia é que tensões impulsos “naturais” também pode sê-lo frente
internas opostas poderiam se resolver via sabe- a impulsos “não naturais?”: a Gestalt-terapia
doria do corpo (autorregulação) num organismo acredita e tem fé que o impulso “difícil” possa

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encontrar, espontaneamente, sua medida numa o contrário do vazio fértil –, com a introjeção de
nova configuração, isso via ajustamento criativo uma personalidade alheia – que é o contrário da
e autorregulação organísmica. É bom lembrar identificação com o novo self. Isso é neurose, é
que a concepção de homem que subjaz à Ges- optar pela segurança ao invés de ter fé.
talt-terapia é de alguém que caminha na direção
Então, qual a solução quando não há mais o
de uma “boa forma”, buscando autorrealizar-se
que fazer? Perls, Hefferline e Goodman sugerem
e autocompletar-se da melhor maneira possível.
que, de alguma forma, deve haver condição de
Se o sofrimento não pode ser evitado, pode se ter paz. Os autores fazem distinção entre paz
ser diminuído? A Gestalt-terapia, relembrando positiva (na vitória e na derrota) e paz negativa.
suas raízes no taoísmo, sugere “ficar fora do ca-
Na paz positiva na vitória o conflito foi até
minho”: abandonar as pré-concepções de como
o fim, ocorreu solução criativa e o sofrimento di-
o conflito “deveria” se resolver é o “vazio fértil”
minuiu. Há um entusiasmo de vitória sem sen-
de onde a solução irá surgir; é aí que o self pode
timento de conquista. O que está mais presente
descobrir “o que é” pela primeira vez.
são novas possibilidades e configurações.
Existe uma preocupação (muitas vezes ver-
dadeira) de que o conflito e o sofrimento possam Já na paz positiva na derrota, chegou-se ao
destruir o paciente. Como enfrentar esse perigo? limite, exauriram-se os recursos, a raiva não foi
Não enfraquecendo o conflito e sim fortalecen- contida. Por meio da raiva e do luto, aniquilou-
do o self e a awareness de si próprio. Isso cria a se a necessidade de ter o impossível. O self de-
possibilidade do aparecimento de uma atitude siste. O novo self é melancólico, mas inteiro; não
de imparcialidade criativa e a identificação com internalizou o conquistador nem se identificou
a solução que surge. com ele.

Neurose, então, não consiste de conflito ati- Paz negativa é a paz da conquista. A vítima
vo (interno ou externo), de um desejo contra ou- ainda existe e tem que ser dominada: o sofrimen-
tro, de padrões sociais contra necessidades ani- to cessou, mas a figura da awareness não mostra
mais. ”Todos os conflitos são compatíveis com novas possibilidades: nada se resolveu, as re-
a integração do self; são meios do processo de lações conquistador/vítima continuam sendo o
integração do self. Neurose é pacificação pre- foco. O conflito não amadureceu, apenas arrefe-
matura de conflitos;” é armistício para evitar ceu, não trouxe algo novo. O self pode até dizer
conflitos adicionais; manifesta-se como necessi- “eu sou vitorioso”, mas isso não é paz, é arrogân-
dade de vitória sempre em batalhas triviais, ao cia, vaidade. O self arrogante é aquele que precisa
invés de integração de partes, relação com a di- se perceber sempre como conquistador, sempre
ferença e a alteridade, no outro e em si mesmo. “forte”. O reconhecimento das próprias virtudes
Entretanto, há vezes em que não há mais o pelo self é saudável: não saudável é a combinação
que fazer. O self “desiste” (não agride mais), re- amor próprio, autoconfiança/força sem autorre-
signa-se. Se essa desistência resignação tem a ver gulação ou regulação social. Essa aparente força
com um vazio que é preenchido por figura de e agressividade são, na realidade, sinais de fra-
autoridade (amada e temida) e a renúncia tem a queza. O autoconquistador fraco sonha com sua
ver com medo ou temor da reprovação, estamos imagem grandiosa e nesse sentido, constrói um
frente a um espaço vazio de resignação – que é autoconceito ilusório. O verdadeiro conquistador

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é aquele que cria seu papel e o desempenha com vida dupla, achava que tinha direito de buscar o
“maestria atormentada”. prazer e que se a relação com o amante lhe pro-
O problema é que a autoconquista é valori- porcionava isso, porque deveria abrir mão dela?
zada como “caráter” (o homem de caráter não Por outro lado, estava muito claro para ela que
sucumbe à fraqueza). É evidente que a autocon- não haveria futuro com o amante.
quista pode ser vista como integração parcial viá- Por muito tempo, a terapia se fixou em seus
vel, como um ajustamento criativo que soluciona jargões, do tipo “não sei o que fazer”, ora com
o hoje, o agora. O importante é que não se crista- ela valorizando a segurança, a estabilidade, o
lize para não vir a se transformar no comporta- futuro, ora trazendo à tona a questão do prazer,
mento neurótico do amanhã.
da liberdade e do momento presente. O relacio-
Como fica a relação dessa teoria proposta namento com o amante tinha a característica do
pela Gestalt-terapia com o método em psicotera- “viver perigosamente”, e isso a excitava, sendo
pia? Para a Gestalt, a terapia deve ser ajudar o altamente valorizado.
self a se integrar, expandindo-se para incluir áre-
Em âmbito profissional, ela possuía nível
as mais amplas. A preocupação em terapia deve
universitário, mas desempenhava uma função
ser o self do paciente; é ele quem está disponível
na sua área que não exigia mais do que forma-
para ser ajudado e os conflitos, vistos pela ótica
ção de ensino médio. Não tinha coragem de se
proposta, são o canal por onde essa ajuda pode
lançar, achava que não tinha capacidade, chega-
melhor se realizar e concretizar. É nisso que a
Gestalt-terapia acredita: na possibilidade de ra a fazer outro curso universitário, na esperan-

“transformar conquistadores brigões em verda- ça de encontrar nova área onde se sentisse mais
deiros heróis”. segura. Acabou criando outra situação, muito
parecida com a dos dois parceiros: buscar na
profissão um lugar que incluía ambas as forma-
CONFLITO: UM CASO CLÍNICO
ções acadêmicas. Não levou muito tempo para
perceber que a saída não era por aí...
Há muitos anos atrás, fui procurada por
uma moça, de aproximadamente 20 anos de Durante um bom tempo, trabalhamos em
idade, com um conflito muito bem-estabelecido: terapia esse seu movimento, sua incapacidade
tinha um relacionamento com um homem casa- de aguentar a frustração, sua dificuldade de es-
do e namorava com outra pessoa que lhe pro- colha tendo a ver com sua expectativa infantil
pusera casamento. Ambos os homens eram in- de poder “ter tudo” etc. Como terapeuta menos
teressantes, inteligentes e charmosos: inclusive, experiente, acabando de ingressar na Gestalt,
tinham a mesma profissão. O relacionamento lidando ainda com divisões teóricas internas, o
com o amante era bem mais quente e ousado em caso foi bastante desafiador. O que mais me pre-
termos sexuais, enquanto que o namorado era ocupou foi a possibilidade de interferência dos
bem-estruturado em termos de futuro, constru- meus valores pessoais no processo de escolha
ção de vida a dois, filhos, etc. dela. Levei, repetidas vezes, esse caso à super-
A incapacidade de se decidir por qualquer visão para cuidar desse aspecto, mas, na verda-
um dos dois era o que a levava a buscar terapia. de, nunca me senti muito ajudada com relação à
Não se sentia culpada por estar levando essa problemática de minha cliente.

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Apesar disso, uma relação muito boa se es- criatividade e arrojo que só se faziam presentes
tabeleceu entre nós, onde confiança, abertura, no relacionamento com o amante.
respeito e amizade verdadeira se construíram.
Aos poucos, o “não sei o que faço” se trans-
Ao cabo de um trabalho de 4 anos, ela rom-
formou no “olha o que você faz!”. Isso possibili-
peu com o amante, decidiu-se pelo namorado,
tou uma mudança, principalmente no profissio-
casou-se, ficou grávida e interrompeu a terapia
nal, onde, devagar, começou a vencer o próprio
por questões financeiras. Estava claro, tanto
medo e ousar mais, e isso estava lhe abrindo
para ela quanto para mim, que o problema não
espaço para voos mais altos na direção de uma
estava resolvido. Durante 8 anos, essa cliente
função mais compatível com a sua capacidade. O
manteve contato comigo (uma ou duas vezes
entusiasmo pelo desempenho profissional atual
por ano ela me ligava ou vinha ao consultório substituiu uma antiga apatia e desmotivação.
para dar notícias). Nunca mais viu o amante,
A terapia tem sido importante para ela neste
está muito envolvida no papel de mãe e, razo-
momento, não apenas no sentido de desfocá-la
avelmente, no de esposa. Em termos profissio-
da resolução pura e simples do conflito, mas de
nais, nada mudou: continua na mesma função e
“alimentá-lo” com material novo para que atin-
muito frustrada.
ja um ponto de crise e se transforme no gran-
Como terapeuta, todas as vezes que ela me de conflito verdadeiro da sua vida, ao invés do
procurou, ao longo desses anos, meu primeiro pequeno conflito simbólico que tinha sido até
movimento era na direção de “será que come- então.
çou tudo de novo?”. Há alguns anos atrás, ela
Não tenho dúvidas de que esse novo olhar
me ligou meio desesperada, marcou uma sessão
para a questão do conflito e essa forma de ma-
e, aos prantos, contou-me que “começara tudo
nejá-lo estão diretamente relacionados com a
de novo”: havia retomado o contato com o an-
capacidade da minha cliente de poder estar na
tigo amante e passara a viver, agora casada, a
vida de uma forma mais sofrida, sem dúvida,
mesma situação que vivia no passado.
mas muito mais inteira e verdadeira. Vivemos
Recomeçamos o trabalho e eu, agora uma juntas um momento tenso, crítico, muito sofri-
terapeuta mais experiente, passei a olhar para do para ela, porém muito mobilizador no senti-
o seu conflito de uma forma diferente. Já não do de estar lhe abrindo formas mais criativas e
era tão forte a questão da sua resolução e sim menos fantasiosas de lidar com o conflito, para
o “para quê” ela precisava desse conflito em além da dicotomia “ou isto ou aquilo”.
sua vida. Passamos a trabalhar o “como” ela
estava frente às duas situações conflituosas (na
relação pessoal e na profissional); ficou claro
CONFLITO: UMA LEITURA
que as características que lhe faltavam na vida MITOLÓGICA
profissional (coragem, ousadia, enfrentar riscos,
acreditar em si mesma, independer-se do outro) A questão do conquistador versus herói me
estavam presentes no relacionamento com o remeteu à Mitologia, uma das minhas áreas de
amante, e somente nele. A questão ficou sendo interesse, e que acredito ser um instrumento
muito mais sua dificuldade de transportar para importante na compreensão simbólica dos con-
a sua vida, como um todo, esses elementos de ceitos teóricos estudados. Se até este momento

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a minha explanação foi mais “racional”, a pre- pelo ódio, começou a tramar-lhe a ruí-
tensão, agora, é ampliá-la com uma visão mais na. Desejava-lhe a morte e, para tanto,
recorreu a meios sobrenaturais, procu-
intuitiva, que talvez não fale tanto à razão, mas
rando uma bruxa. A perversa rainha re-
sim, mais diretamente, à estrutura humana. cebeu da bruxa um tabuleiro de xadrez
Sempre que leio ou estudo Mitologia, fico mágico, cujo encantamento faria com
que seu possuidor sempre ganhasse o
com a sensação de estar lendo “tratados teóricos primeiro jogo. Ela foi instruída a desa-
de outra época”. O homem mítico, mais vincula- fiar o príncipe, que de nada suspeitava,
do ao domínio da intuição, mais “inteiro” na sua sugerindo-lhe que o vencedor poderia
relação com o mundo, “teoriza” sobre ele con- impor ao perdedor a condição que qui-
sesse. Ao vencer Conn-Eda, a rainha o
tando estórias, numa linguagem analógica e me- obrigaria a trazer-lhe dentro de 1 ano,
tafórica que suscita no leitor um movimento de certos troféus míticos: três maçãs de
identificação com as vivências do herói; é como ouro, além do corcel negro e do cão
se aquela estória, ao contar coisas a respeito do de poderes sobrenaturais pertencentes
ao soberano daquele reino. Esses bens
humano, também fizesse eco dentro do leitor
eram tão preciosos que qualquer um
por estar contando da sua humanidade. que tentasse se apoderar deles encon-
traria a morte com certeza. O jogo foi
Narrarei, bem resumidamente, o mito do
marcado. O príncipe não desconfiava
príncipe Conn-Eda, que pode ser lido, na ínte- nem de leve do mal que o aguardava,
gra, no livro A conquista psicológica do mal, de e a rainha venceu. Mas tão entusiasma-
Heinrich Zimmer (1988), no capítulo “Um herói da ficou por tê-lo sob seu poder que o
desafiou para uma segunda partida;
pagão e um santo cristão”.
para seu espanto, perdeu e não quis
Há muitos e muitos anos, viveram um jogar outra vez. Anunciou suas condi-
rei mítico e sua rainha: o rei Conn, da ções para o príncipe, que percebeu que
Irlanda, e a rainha Eda da Bretanha; havia sido traído. Mas como ele havia
seu matrimônio era tão perfeito como a ganhado a segunda partida, também
união do Céu e da Terra. A perfeição da lhe foi possível impor uma condição à
conduta e do caráter do par se refletia rainha; decidiu mantê-la imóvel duran-
nas bênçãos que cumulavam o reino: te a sua ausência, ordenando que ela
a terra produzia safras exuberantes, as permanecesse no alto da torre até seu
árvores davam nove vezes mais frutos, retorno ou até expirar a data estipulada
os lagos e o mar fervilhavam de peixes de 1 ano mais um dia. Conn-Eda estava
excelentes. O rei Conn e a rainha Eda precisando desesperadamente de con-
tiveram um filho e, como os druidas selho. Recorreu a um poderoso druida
prognosticaram que ele herdaria as boas que lhe disse: “Toma este cavalinho pe-
qualidades dos progenitores, recebeu o ludo – ele lhe dirá tudo o que você pre-
nome de Conn-Eda. Na verdade, era cisa saber”. Conn-Eda montou o cavali-
uma criança extraordinária. Quando nho e ao chegarem à beira de um lago,
cresceu, tornou-se o ídolo dos pais e o o cavalinho deu o primeiro conselho:
orgulho do seu povo, sendo muito hon- “Desmonta, introduz a mão na minha
rado e amado. Na juventude, a grande orelha, tira de dentro um frasquinho
promessa de existência de Conn-Eda com o elixir “cura tudo” e uma cesti-
foi obscurecida: sua mãe morreu e o nha. Monta de novo e, bem depressa,
pai, seguindo o conselho dos druidas, porque agora começarão teus grandes
tomou outra esposa. Esta já tinha filhos perigos e dificuldades.” Ambos entra-
e prevendo que Conn-Eda sucederia ram na água e encontraram três horrí-
ao pai no trono, movida pelo ciúme e veis serpentes. “Abre a cesta, apanha

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uns pedaços de carne e atira um naco lida por um poder mágico, a lâmina
na boca de cada uma das serpentes”, enterrou-se profundamente no pesco-
disse o cavalinho. Conn-Eda atirou os ço e fez-se o trabalho da morte. Deses-
bocados sem errar, e assim venceu a perado, o jovem atirou-se no chão ao
primeira tarefa. “Foi fácil, só precisei lado do corpo inerte e gritou, choran-
de metade das minhas forças”. Conti- do até perder a consciência. Voltando
nuaram seguindo até chegarem a uma a si, apesar da grande dor, Conn-Eda
montanha de fogo. “Prepara-te para deu início à esfoladura. Completando-
um salto perigoso”, disse o cavalinho, a, envolveu-se na pele e, em estado de
e arremessou-se contra a montanha de semidemência, atravessou as portas.
fogo. “Ainda estás vivo, Conn-Eda?”, Nada nem ninguém lhe opôs resistên-
perguntou o cavalinho. “Sim, mas me cia; não encontrou encanto no esplen-
chamusquei bastante”. O cavalinho dor da cidade das fadas; caminhava
mandou que ele usasse o elixir cura- inteiramente absorto na sua dor. Então
tudo para suas queimaduras e isso o o último pedido do cavalinho lhe veio
deixou intacto e são novamente. Che- à mente: retornou à carcaça, afugentou
garam então à fortaleza das fadas onde as aves de rapina e deitou sobre os res-
ninguém conseguia entrar. “Desmon- tos mutilados o precioso elixir. Para sua
ta – disse o cavalinho –, e apanha uma surpresa, a carne inanimada principiou
faquinha em minha outra orelha. Com a sofrer uma estranha transformação e
ela, mata-me e esfola-me. Cobre-te en- em poucos minutos assumiu a forma de
tão com a minha pele e atravessarás a um mancebo, retornando à vida. Conn-
porta sem que te molestem. Quando Eda não podia acreditar no que via. O
entrares, poderás despir a minha pele, mancebo lhe relatou que era irmão do
já terá passado o perigo. Entrarás e sai- rei da cidade das fadas, há longo tem-
rás quando quiseres. Em troca, tudo po aprisionado no corpo do cavalinho
que eu te peço é que, ao transpores a por um poderoso druida. “Eu não po-
porta, retornes e expulse as aves de ra- deria recobrar minha forma e aparência
pina que estejam voando por perto para anteriores a menos que agísseis com a
devorar-me a carcaça e derrames sobre bondade que agistes: eu vos agradeço
a minha carcaça as gotas restantes do por isso. Vinde comigo que te darei
elixir “cura tudo”. O príncipe, tremen- tudo o que precisas.” O final feliz pode
ser narrado em poucas linhas: Conn-
damente chocado, falou: “Óh, mais no-
Eda voltou com os troféus no devido
bre dos corcéis, considero tal proposta
tempo e a perversa rainha, ao avistá-lo,
insultante; jamais retribuirei a tua leal-
movida pelo desespero, atirou-se da
dade com tamanha ingratidão; isso é
torre. Quando o rei inteirou-se de sua
contra meus princípios e sentimentos;
conduta mesquinha, ordenou que seus
jamais sacrificarei uma amizade aos in-
restos fossem queimados. Quando seu
teresses pessoais. Estou preparado para
pai morreu, Conn-Eda tornou-se rei e
enfrentar o pior, até a morte, antes de
seus feitos foram ainda maiores que os
violar princípios de humanidade, hon-
de seu pai, trazendo ainda mais rique-
ra e amizade”. O animal insistiu no seu
za e abundância para aquele reino.
pedido e Conn-Eda permaneceu firme
no seu propósito de não obedecê-lo.
“Se até agora não te enganei, por que
duvidas da parte mais importante do UMA ARTICULAÇÃO ENTRE O
meu conselho? Se não fizeres como te MITO E O TEMA CONFLITO
disse, romperei contigo para sempre e
ambos morreremos.” Relutante, o prín-
cipe empunhou a faca e apontou-a para O príncipe Conn-Eda é um modelo de virtu-
a garganta do animal. Como se impe- des, herdadas dos pais e validadas pelos súditos

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do reino. Porém, frente à nova tarefa de suceder grandes conflitos falsos, a divisão entre amor
ao pai no trono, a situação imposta pela perver- e agressão, entre bem e mal. A discussão entre
sa madrasta mostra que, apesar de todas as suas qual deve ser o caminho escolhido nunca pode
boas qualidades, falta-lhe algo para que esteja re- ser absoluta como na premissa “o amor deve
almente pronto para a função de ser rei. E ele se sempre prevalecer”, sob pena de transformar-se
vê obrigado a sair da posição cômoda em que se numa discussão estéril e em estagnação. É ne-
encontrava e lançar-se na jornada heroica, quan- cessário que esse conflito, nutrido de material
do se defrontará com um grande conflito: tomar ambiental novo e proporcionado pelas novas
uma atitude que parece absolutamente contradi- condições do campo, transforme-se num grande
tória com sua conduta e caráter anteriores: matar conflito verdadeiro que pressupõe, necessaria-
o cavalinho, seu companheiro fiel e conselheiro mente, mudança do status quo.
sábio até então. Um grande conflito se estabelece:
Conn-Eda era “bom”, uma extensão da bon-
com muito sofrimento pessoal, Conn-Eda conse-
dade dos pais. Até então, o já estabelecido em
gue optar pela incorporação do novo comporta-
termos de “caráter” parecia suficiente para dar
mento, ajudado pela insistência e determinação
conta de seu caminhar. No entanto, a morte da
do próprio cavalinho. O “final feliz” aponta para
mãe, o novo casamento do pai e a entrada em
o retorno de Conn-Eda transformado, com me-
cena da figura da madrasta mudam a configura-
lhores condições de assumir o reinado e tornar-se
ção do campo e, consequentemente, do seu es-
um rei, “com feitos ainda maiores que os de seu
tar-no-mundo, evidenciando que “o jeito antigo
pai, trazendo ainda mais riqueza e abundância
de ser” não mais dá conta da nova realidade. É
para o reino”.
preciso que Conn-Eda “cresça”, desenvolva-se,
Fazendo um paralelo, podemos aproximar busque novos recursos, amplie seu autossupor-
Conn-Eda do conceito de self em Gestalt-terapia: te e aja no mundo de forma compatível com ele.
por melhor estruturado que esteja, o self sempre
Nos mitos, a jornada do herói tem sempre
estará em processo, aberto para ampliações no
essa função: é um caminhar na direção do des-
sentido de dar conta dos conflitos que se apre-
conhecido onde, frente aos perigos e conflitos
sentarem no campo, na forma de novas situa-
que se apresentam, o herói tem como tarefa des-
ções ou tarefas que têm que ser encaradas.
cobrir quais as melhores formas de vencê-los.
Se o self, amparado em estruturas já estabele- Nada está pronto, tudo tem que ser construído;
cidas, preso à segurança conseguida e ao desejo é momento de coragem, de abandono da segu-
de não sofrer, não se abre para o novo, o diferen- rança, de sofrimento e, principalmente, de fé.
te, o resultado é a permanência no conhecido, no
Conn-Eda consegue, a duras penas, levar
estabelecido. Se, por outro lado, o movimento
a um bom termo sua jornada heroica: descobre
do self vai na direção do abrir-se para o novo, o
que o movimento agressivo de matar o cava-
diferente, o inusitado, a possibilidade de desen-
linho, longe de se constituir uma “maldade”,
volvimento se instaura e novos recursos incor-
resulta numa transformação, tanto para o cava-
porados possibilitam o ajustamento criativo que
linho como para si mesmo. Ambos são liberta-
se faz necessário.
dos: o cavalinho readquire sua forma humana
A dúvida do príncipe entre matar ou poupar e Conn-Eda deixa de ser “a personificação da
o cavalinho pode ser a representação de um dos bondade dos seus pais” e se descobre na sua hu-

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manidade, marcada por conflitos e novas pos-


sibilidades de manejá-los. Assim, o herói vence
a etapa final da sua jornada heroica, marcada
pelo seu retorno ao ponto de partida, “transfor-
mado”, de posse de novos e mais atualizados
recursos que o capacitarão a dar conta da nova
etapa da sua existência.

Acredito que seja possível uma aproxima-


ção do conteúdo do mito com questões teóricas
da Gestalt-terapia:

• a necessidade constante de re-


avaliação do já estabelecido em
termos de “caráter”, a fim de
adequá-lo às novas configura-
ções do campo;

• a ênfase no “arriscar-se na dire-


ção do novo”, como imprescin-
dível para evitar a estagnação e
acomodação e possibilitar o “vir-
a-ser”;

• a questão da agressão, vista tam-


bém como a serviço da vida e do
desenvolvimento;

• a compreensão e apropriação dos


conflitos, como o meio pelo qual
o crescimento pode ocorrer e o
self se expandir.

Finalmente, na medida em que nos reconhe-


cemos como seres de contradição, conflitos nada
mais são que a mais pura expressão da nossa
humanidade.

Caminha nesse sentido a nossa proposta


de... “um novo olhar sobre um velho tema”... Sobre a autora:

Maria Cecilia Peres do Souto é psicóloga, psicotera-


peuta, supervisora clínica. Foi professora do Curso de
Especialização em Gestalt-terapia do Instituto Sedes Sa-
pientiae, em São Paulo. Atualmente é coordenadora do
Departamento de Gestalt do referido Instituto.

e-mail: ceciliasouto@hotmail.com

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

PERLS; HEFFERLINE; GOODMAN. Gestalt-terapia. São Paulo: Summus,1997.

ZIMMER, H. A conquista psicológica do mal. São Paulo: Palas Athena, 1988.

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