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Então Companhia de Arte

Meu Pé de Laranja

Texto com Marcas da Sonoplastia (em negrito)

HÁ NA ÁREA DE TRABALHO UMA PASTA CHAMADA “MÚSICAS MPL” COM TODAS AS


MÚSICAS AQUI CITADAS.

DENTRO DESTA PASTA HÁ UMA OUTRA PASTA CHAMADA “ESPERA”. HÁ UMA


SELEÇÃO DE MÚSICAS ALEATÓRIAS A SEREM COLOCADAS ENQUANTO O PÚBLICO
CHEGA E SE ACOMODA.

AO SINAL, PARA COMEÇAR O ESPETÁCULO... TRACK 1 – “introdução MPL”

A flauta é o “início” do espetáculo e está exatamente em 08h42min.

A MÚSICA TERMINA QUANDO OS ATORES COMEÇAM A FALAR... AS DUAS, CLARA E


ANA, SE POSICIONAM NO PROSCÊNIO.

CENA 1

Boa tarde minha gente


Foi agora que eu cheguei
Fui chegando e fui cantando
Se é do seu gosto eu não sei

(refrão)
Ele chegou, ele (a’gente) chegou
Eu te disse veja
Veja só (foi nóis) quem chegou (2x)

É rapaz muito alegre


E também muito danado
Espia só esse menino
Ele é bem arretado

(refrão)
Nunca vi tanta gente
Reunida num salão
Veja só esses meninos
Com cara de pidão

Eu vou dar a despedida


Como deu a jaçanã
Não cantamos tudo hoje
Deixo o resto pra amanhã
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NARRADORAS: Ê Zezé, menino travesso... Com seu estilingue, cuspindo nos outros, andando descalço...
Lá vai o sapeca pela estada de barro, que não sabia nem por onde andar.

É peralta o moleque. Já queria ir para a escola, na volta, corria contente, mas o trabalho lhe espera, dizia ele:
“Eita vida da gente”.

Apanho e castigo vivia a tomar, brincar de fazer palavras era a sua maior perdição, e Zezé vai crescendo, a
calça encurtando, os sonhos surgindo: “Um dia serei poeta”.

É um grande menino, em cima do Pé de Laranja, até do Pé de Manga, a sua irmã lhe dizia: “Cuidado Zezé,
aí tem Saci”, o tempo passou, parece que a infância acabou e agora Zezé?

Aparece Zezé com o seu caixote na mão.

Zezé – Graxa freguês, graxa patrão! (para alguém do público) Graxa senhor? Graxa para ajudar o natal dos
pobres...

Clara – O que fazes Zezé, com essa caixa na mão?

Zezé – Eita susto danado, nem vi você por aí. Tô engraxando sapatos, vai?

Clara – (aceita e coloca o pé no engraxate) Mas é que... Uma hora dessas Zezé?

Zezé – (rindo) E existe hora para conseguir uma grana?

Clara – (troca o pé) Não. Mas é que hoje é sábado e já está ficando tarde...

Zezé – (pensativo) Ah sim. Mas não dou ligância para isso não. Além do mais, a janta de lá de casa foi bem
fraquinha ontem; eu quero levar hoje algo para o meu pai e o meu irmão, o Luís! O menino Jesus parece que
se esqueceu de passar lá em casa...

Clara – (para o público) Pena que este pobre menino tenha chegado tão rápido na idade da razão. Na luta
que é esta vida, o Zezé e sua família sofrem bastante!

Zezé – Graxa freguês, graxa patrão! (Há uma interação com o público, Zezé engraxa os seus sapatos).

CENA 2
Zezé – e eu não só trabalho não viu? Nas minhas horas vagas eu também vivo criando coisas. Inclusive,
(tirando algo da caixa) aqui está, a minha nova invenção, olha só como ela é linda! Ela não é muito lá
cheirosinha sabe? Porque eu achei de encontrar ela lá no varal da Dona Lindaura, e cá pra nós, ô velha
encrenqueira viu? Mas enfim, eu to doido para inaugurar a minha obra prima. Vou deixar aqui e ver o que
vai acontecer!

Dona Lindaura: Oh meu deus, que sina é ser uma velha nestas terras de cá. Passo o dia todo a caminhar,
para lá.... e para cá... e nada ninguém ajudar. Tô aqui cheia de compra com essa bolsa pesada carregando.
Aqui nesta cidade é tudo longe, tudo tem um caminhar, caminhar, caminhar. (pausa) Ih, será que eu comprei

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o sabonete? Ah, mas não tem problema não, caro do jeito que tava se eu não comprei fiz até um bem! Ah,
mas o que é aquilo? Valei-me meu deus do Céu!!!

Ao ver a cobra, Dona Lindaura assusta-se e corre, gritando.

Dona Lindaura: Ah, mas o que é isso? Isso não é cobra não, isso é minha meia. Quem foi que aprontou
isso? Ah, mas só pode ter sido aquele menino né?

Ao sair Dona Lindaura, o menino se aproxima.

Zezé – Ai minha santinha, logo a Dona Lindaura! Do jeito que ela é, ela vai contar lá em casa... Ai, ai, ai... é
hoje que eu durmo de rabo quente! (sai).

Clara: Zezeeeeeeé...

Ana: O que foi? O que aconteceu?

Clara: Ora, o que mais seria? O Zezé!

Ana: Tava demorando muito para ele estrear a rua nova...

Clara: e olha que ele fez uma coisa horrível desta vez...

Ana: Não acredito... não me dizer que ele...

Clara: Sim... foi ele sim!

Ana: Mas não é possível! Ô Meninozinho...

Clara: Destá só quando eu o encontrar...

Clara e Ana: Zezé... Ôh Zezeeeeeé!

Entra Zezé cantando, com sua baliadeira na mão

Avoou, avoou
Avoou deixa voar
No galho da Imbaúba
Gavião Totoriá
Clara: Ah, então é aí que você está hein moleque? (puxando Zezé pela orelha)

Zezé: Ai Clara, doeu...!

Ana: Onde você estava hein Zezé?

Zezé: Ué, eu estava na rua, errr... brincando!

Ana: Brincando e aprontando né? Só se for...

Zezé: Aprontando? Eu não sei de nada disso que vocês estão falando!

Ana: Até parece que você não sabe.... (irônica)

Zezé: Eu? Não sei não...


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Ana: Não sabe? (inquisitiva)

Zezé: Não.

Ana: Não sabe? (com dúvidas)

Zezé: Não, e você que tanto pergunta, me diga o que foi que eu fiz...

Ana: Não sei não.

Zezé cai na risada.

Zezé: É uma enxerida mesmo!

Clara: Mas eu sei o que você fez Zezé! Quem foi que assustou a Dona Lindaura hein? (mostrando a cobra).

Zezé: Ah, isso aí foi outro Zezé, com outra roupa, outro cabelo. Todo mundo está aqui de prova. (Crianças
desmentem). Tá, tá, eu conto tudo. É que eu vi a D Lindaura estendendo a roupa, aí eu fiquei olhando pra
meia e a meia me olhando, olhando para a meia, e a meia me olhando, até que de repente, vocês não sabem o
que aconteceu!

Ana e Clara: O QUE?

Zezé: A meia começou a ficar me piscando!

Ana: A meia lhe piscando?

Zezé: Sim, e foi aí que eu não pensei em outra, peguei ela e fiz dela uma cobra, que inclusive acho que ela
sempre foi. Ela tem pele de cobra, olhinho de cobra, tamanho de cobra..., mas não era para assustar.

Clara: Não era para assustar hein? Tá vendo Ana? Este menino tem mesmo o cão no couro!

Zezé – Oh Clara, não é bem assim, é que...

Clara– Bem assim nada Zezé, fique quieto!

Zezé – Oh Ana, você também não acredita em mim?

Ana: É que você apronta tanto Zezé, que não tem nem como lhe defender.

Clara – Deixe-o pra lá Ana, vamos, quando a mãe chegar, a mãe acerta ele!

As irmãs saem

Zezé – Mas é que eu não queria machucar, nem assustar a Dona Lindaura... Foi só uma ideia boba mesmo.
Eu devo ser muito ruim, muito ruim mesmo. Talvez eu não tenha jeito...

Aparece a Ana

Ana – Zezé corre que a mãe está chegando aí... Se ela se lhe pega agora...

Zezé sai.

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CENA 3
Passarinho verde bateu asas pra voar
Bate as asas e abre o bico
Pra cantar cacuriá

É bonito o campo verde


Quando vem raiando a aurora
Passarinho abre o bico
Bate as asas, canta e chora

Lá vai uma lá vai duas


Minha Lara já da Sina
Minha cabeça é meu mestre
Meu juízo é quem me ensina

Gente eu vou me embora


Eu não posso mais ficar
vou levando o meu povo
pra dançar cacuriá

(na saída de Clara, ela introduz a brincadeira do escravos de Jó)

Clara – Zezé vem cá! Eu tô aqui! (Zezé se aproxima) Segura a minha mão. (de costas para o público) Olha
para um lado... Olha para o outro. Espera passar. Não tá vindo ninguém? Então pode passar. (os dois correm
e viram-se para o público).

Zezé – Mas já chegamos? Que casa pequena Clara...

Clara – Mas você também só reclama Zezé...

Zezé – É que a outra casa que morávamos era bem maior que essa. Ô Clara, eu estava lendo aqui e me
lembrei de algo que o Tio Emanuel sempre diz comigo...

Clara – Ah, essa é fácil... ele lhe chama de danado, não é?

Zezé – Não, dessa vez não. Ele me chamou outro dia de “antônimo”.

Clara – Antônimo? O que é isso? Tenho certeza que é pior do que danado.

Zezé – Eu não sei bem, eu pensava que ele estava me chamando de Antônio, mas depois ele explicou,
antônimo é quem é admirado com a vida Clara.

Clara – E o que tem haver?

Zezé – Ah, é que ele diz que eu sempre tô pensando o contrário dos contrários. Se é pequeno, eu vejo
grande, se é folha eu vejo flor, se é pessoa eu vejo gente.

Clara – Que estranho Zezé, não sei nada disso não. Acho que tu és meio doido mesmo e só. Eu nunca ouvir
dizer de alguém “admirado com a vida”, ainda mais por essas bandas de cá. Isso só pode ser invenção sua!

Zezé – Não é não, pergunta ao Tio pra tu ver. Ele diz isso sempre que eu...
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Clara – “Diz que vai ser poeta”.

Zezé - É, como que tu sabes?

Clara – É que você sempre fica, pra lá e pra cá, conversando essas coisas. Fica dizendo umas palavras
difíceis e dizendo que é poesia.

Zezé – É... Mas um dia eu serei um poeta mesmo. Você vai ver.

Clara – Que ser poeta o que Zezé... Você tem que sonhar alto, tipo um médico... Um advogado, um doutor!
Nosso pai diz sempre que a gente tem que pensar grande! E não ficar pensando em ser poeta...

Zezé – Pois, mas eu penso em ser poeta, justamente por que eu penso ENORME. (triste). Na verdade eu
penso grande até demais...

Clara – Pois é, ainda mais, não se ganha dinheiro com poesia...

Zezé – Dinheiro? Eu nunca parei para pensar nisso...

Clara – Tá vendo que você não pensa grande?

Zezé – Mas e se eu escrevesse a minha poesia? As pessoas poderiam comprar o meu livro de poesias!

Clara – Livro de Poesias Zezé? Por aqui? Você não tem jeito mesmo...

Zezé – Mas Clara, mesmo que eu não goste de ser doutor, advogado, médico ou sei lá o que?

Clara – Sim, mesmo que não goste. A gente tem que ser o orgulho de nossos pais. Olhe, vou indo, você
fique aqui e não me apronte nada! E tire essas ideias da cabeça!

Zezé – Ah que danação! Ninguém parece acreditar em mim... Acho que eu tô pensando alto demais mesmo,
ou como disse a Clara, muito baixinho. Até por que, um menino pobre, nesta cidade pequena? Que futuro
tem eu? O que eu posso escrever de bom para as pessoas?

Eu escrevi um poema, vocês querem ouvir..? (ATENÇÃO PARA ESTA FRASE)

AO SUBIR NO BANCO... SOLTA O TRACK 2 – “POEMA”

É por demais de grande a natureza de Deus


Eu queria fazer para mim uma naturezinha particular.
Tão pequena que coubesse na ponta do meu lápis.
Fosse ela, quem me dera, só do tamanho do meu quintal.
No quintal ia nascer um pé de tamarindo apenas para o uso dos passarinhos.
E que as manhãs elaborassem outras aves para compor o azul do céu.
E se não fosse pedir demais que queria que no fundo corresse um rio.
No rio eu e a nossa turma, a gente iria todo dia jogar cangapé nas águas correntes.
Essa, eu penso, é que seria a minha naturezinha particular:
Até onde o meu pequeno lápis poderia alcançar.

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CENA 4
Pé de Laranja - Que lindo poema, Zezé, foi você quem fez?

Zezé - Ah, fui eu sim, mas não tenho tanta certeza de que esteja tão lindo assim, você já viu menino que tem
o cão no couro fazer poema bonito?

Pé de Laranja - Cão no couro? Que história é essa menino..?

Zezé - É… meus irmãos vive a dizer isso. Dizem que é por isso também que eu não tenho nenhum amigo,
seja para brincar ou conversar. Nem meus irmãos parecem gostar de mim, tudo o que eles fazem é só ficar
pra lá e pra cá me gritando ou me colocando de castigo.

Pé de Laranja - Nossa! Mas e a seus pais, Zezé?

Zezé - A Mãe anda sempre ocupada trabalhando, o Papai vive procurando emprego e sem nunca achar.
Quando o Ana ou a Clara vai fofocar pra eles, eles só dizem cansados, pra não fazer mais isso… e quando
não me gritam, me colocam de castigo.

Pé de Laranja - Não fica assim Zezé…

Zezé - Mas eu não reclamo não… fazer o que né? Eu deve ser muito ruinzinho como diz a Clara, ou melhor,
ruinzinho não. Ruimzão! Quem iria gostar de um menino assim? Eu devo ser uma peste mesmo! (assusta-se
com a palavra).

Pé de Laranja – Ei menino, que palavra mais feia!

Zezé – É além do mais tem isso. Eu tenho uma boca porca, outro dia desses, minha mãe disse que vai lavar
com sabão!

Pé de Laranja – Você tão inteligente e criativo, não há necessidade de tanto castigo nem de falar essas
palavras feias aí. Você bem sabe palavras muito mais lindas que essas aí...

Zezé - É… Verdade. Pior que sei mesmo. Eu tento não falar, mas é que sempre vem um negócio aqui dentro
de mim, uma agonia no peito, sabe? Como se fosse uma coceirinha no coração. (...) Êpa… perai. Com quem
eu estou falando? Aí aí aí, será que agora, além de tudo eu estou ficando doido?

Pé de Laranja – (gargalhando) Ai ai Zezé, você é mesmo um menino engraçado. Não está ficando doido
não, sou eu que estou falando.

Zezé – Você quem?

Pé de Laranja - Eu!

Zezé - (sem acreditar) O Pé de Laranja Lima? E pés de Laranja Lima falam?

Pé de Laranja – O pé (referindo-se ao pé anatômico) eu não sei, mas eu falo sim (rindo).

Zezé – Ué, por onde é que você fala?

Pé de Laranja – Pelo coração.

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Zezé – Pelo coração? Eu também acho que falo pelo coração às vezes também. Mas ultimamente eu ando
bem desacreditado disso.

Pé de Laranja – Ora, desacreditado?

Zezé - Sim. É muito difícil sustentar o peso de um sonho.


Pé de Laranja - Zezé, sonhos é algo que a gente carrega sempre a mão, não se pode soltar de jeito algum. É
como segurar na mão de um adulto quando vai atravessar a rua, quer dizer, muito mais forte que isso!

Zezé – Mas é que ninguém acredita em meus sonhos. Sempre riem deles. Basta eu abrir a boca e dizer que
eu quero ser poeta que já começam a rir, se eu disser que escrevo uns poeminhas então? Danou-se!

Pé de Laranja - Ah seu bobo… Quem tem que acreditar em nossos sonhos é nós mesmos! Nós podemos ser
quem a gente quiser quando a gente acredita em nós mesmos. Eu mesma, já acho que você seja poeta.

Zezé - (vergonhoso) Eu? Ah deixa disso…

Pé de Laranja - É sim… você vê o mundo de uma maneira muito especial, é difícil mesmo para as outras
pessoas entender, mas de forma alguma é motivo para desistir.

Zezé - Mas todos acham que eu sou doido ou que me falta um parafuso na cabeça.

Pé de Laranja - (rindo) De gênio e louco, toooodo mundo tem um pouco. Basta observar bem, a sua mãe
vive a conversar sozinha, a Clara escreve cartas para ela mesma, para ela ler no futuro!

Zezé - (rindo) É!!! Eu já li uma dessas cartas inclusive, eu rir a tarde inteira.

Pé de Laranja - Zezé… Zezé… se ela descobrir (rindo os dois). É normal, a gente sempre tem uma parte
bonita dentro da gente que a gente quer esconder. Isso acontece quando a gente inventa de soltar o
passarinho…

Zezé – (sem entender muito bem) Soltar o passarinho? ... Como..?

Pé de Laranja – Olha Zezé, agora eu preciso ir, já falei demais.

Zezé – Mas já? Quando você volta?

Pé de Laranja – (rindo) Olha só onde eu estou plantada... Nunca vou sair daqui, pode contar sempre comigo!

Zezé –Eba! Então seremos amigos para sempre?

Pé de Laranja – Tchau, Zezé! Até Mais!

Zezé – Mas peraí, não é assim que se despede de um amigo não. (...) Ah, já foi. Quem diria que eu seria
amigo de um Pé de Laranja Lima! Olhando bem, esse é o pé de Laranja Lima mais lindo de todos, eu sou
mesmo é um sortudo! Tenho de lhe arranjar um apelido… hmmm… deixa eu ver. Será se ele iria gostar de
Minguinho?

GALHO DA LIMEIRA

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CENA 5
ATENÇÃO!

AO SE DESPEDIR DO MINGUINHO, ZEZÉ SAÍ COM O CENÁRIO FAZENDO DELE UM


“CARRO”.

AO COMEÇAR A AÇÃO JÁ PODE IR SUBINDO O TRACK 3 – “TRANSIÇÃO”.

RETIRA O ÁUDIO QUANDO CLARA SE APRONTA E SE APROXIMA DO PÚBLICO, BAIXA


EM RESISTÊNCIA E RETIRA COMPLETAMENTE QUANDO ELA COMEÇA A FALAR.

Mãe – Cadê aquele menino hein? Tanto que eu trabalho, trabalho, trabalho e nada daquele menino me dá
gosto! Ô meu deus, o que eu fiz para merecer isso?

Ana – e não foi só isso Mãe, ele fez muito mais, ele soltou bombinha na Igreja!

Mãe – Na igreja? Mas logo na igreja? Que pecado!

Ana – E ainda puxou o rabo da cavalo que ele saiu em retirada relinchando para tudo que é lado!!

Mãe – Oh meu Deus, coitado do cavalo..!

Ana – E ainda colocou pimenta na comida do gato!

Mãe – Ave! Coitado do gato, meu Deus!

Ana – E ainda....

Mãe – Tá bom Ana, eu entendi, eu entendi.

Ana – Não mãe, mas é porque...

Mãe – Eu sei, o Zezé aprontou. É que eu tô muito cansada meu filho...

Ana – Mas é que o Zezé...

Mãe – Sim...

Ana – Ele ainda bateu no Zé Hermínies!

Mãe – (desconfiada) Bateu meu filho?

Ana- Bateu sim, foi a maior confusão!

Mãe – Mas Ana... o Zé Hermínies não é muito pequeno para o Zezé bater não?

Ana – Err… Sim, mas é que... ele bateu sim!

Mãe – Ana... Ana... conte essa história direito. Não me venha com mais problemas...

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Ana – Foi ele sim mãe!

Mãe – Foi você ou foi ele?

Ana – Foi ele mãe, eu juro!

Mãe – Então tá bem, deixe estar... vou acreditar em você. Mas cadê o Zezé? Vá chamar o seu irmão vá...

Ana – Ave, mas também tudo eu. Espera aí, olha ele!

Jabuti sabe ler, não sabe escrever


Trepa no pau e não sabe descer
Lê lê, lelé, lelelelele

Mãe - Meninos!!! Já chega!!! Vocês não tem nada de melhor para fazer não é?

Ana – Temos sim... (introduz a brincadeira da estátua).

AO INTRODUZIR A BRINCADEIRA DA ESTÁTUA, EXPLICAM-SE AS CRIANÇAS COMO


ELA IRÁ ACONTECER. QUANDO TODOS ESTIVEREM ENTENDIDOS... ALGUM DOS
PERSONAGENS DIRÁ: “SOLTA O SOM DJ”...
SEGUE-SE PARA O TRACK 4 – “BRINCADEIRA”.

A MÚSICA É PARA A BRINCADEIRA DA ESTÁTUA. LOGO TERÁ 3 PARADAS.


A PRIMEIRA MAIS LONGA, PARA SOLTAR TODOS OS CORPOS, TODAS AS PESSOAS
PRESENTES. ENTÃO, DEIXA-SE AO MENOS UNS 35 SEGUNDOS NA PRIMEIRA RODADA.
DISCUTE-SE QUEM SE MEXOU OU NÃO E SEGUE PARA A 2ª RODADA.
A 2ª RODADA TEM APROXIMADAMENTE 15 A 20 SEGUNDOS.
A 3ª RODADA TEM 10~15 SEGUNDOS.
FINALIZA-SE COM O ÁUDIO COMPLETAMENTE.

A ATRIZ CONDUZ AS CRIANÇAS DEVOLTA AOS SEUS LUGARES.


CENA 6

Narrador – Com todas as reclamações e peraltices do Zezé, os pais preocupados e cansados arranjaram uma
solução. Ouviram falar de um grande doutor que pela cidade passava e que curava pensamentos tortos,
acelerados ou avançados. Acharam que ele seria a maior solução, pois veja só, Zezé parecia sofrer dos três
ao mesmo tempo. Seguindo o conselho da vizinhança, os pais então levaram Zezé ao tal doutor. Todos
ficaram esperançosos, a vizinhança ficou em festa e os irmãos apesar de estarem com medo vibraram junto
com a família. Parecia tarde de futebol, todo mundo esperando pelo Gol. Ao chegar lá o Doutor disse: “Este
menino por pouco não tem jeito, mas tenho aqui o remédio certeiro! Dez dias sem sair de casa, sem ler,
tampouco escrever, estudar nem pensar, esse menino está doente de pensar demais!”. Os pais voltaram para
casa e seguiu a risca os conselhos do doutor. Zezé ficou sozinho em casa, sem conversar com ninguém, sem

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ler, sem escrever, sem cantarolar as poesias, sem poder vibrar os seus versos. Mas como todo aperreio,
chegou a hora do seu fim. Zezé enfim saiu de casa e voltou para a sua rotina, ir a escola, engraxar sapatos...

Zezé – Não é para me gabar, mas eu não tenho nada de esplendor. Sou referente à ferrugem, que nada serve
e a ninguém agrada. Acho que o meu grande problema mesmo é trabalhar grandemente, para tudo aquilo
que é desnecessário. Não serei mais um pobre Diabo que sofre.

CENA 9
Já tem um tempo que eu não vejo o Minguinho, onde será que ele está? Preciso contar pra ele porque andei
sumido todo esse tempo.

Ele ficava por aqui… Por onde será que ele está?

VOZ - Psiu!

Zezé - Hein?

VOZ - Zezé!

Zezé - Minguinho? Ué, onde você está?

Pé de Laranja - Olha para trás! (risada, como se fosse um esconde esconde).

Zezé - Onde?

Pé de Laranja - Pra cima!

Zezé - Para com isso Minguinho, onde você está?

Pé de Laranja - Faz o que eu disser, fecha os olhos… Olha pra dentro!

Zezé - Fechei! Mas cadê você?

Pé de Laranja - Estou aqui seu bobo. Tô aqui dentro. Dentro de você!

Zezé - Mas… dentro de mim? Ei… eu tô te vendo! Minguinho!!!! Que saudades de você eu tenho tanto pra
lhe contar,

Pé - Eu sei

Zezé - Aconteceu tanta coisa…

Pé - Eu sei…

Zezé - Eu pensei que tinha perdido você…

Pé - Eu sei… Mas não me perdeu não. Você não percebeu uma coisa esse tempo todo Zezé!

Zezé - O que?

Pé - Eu tô dentro de você seu menino! Eu tô dentro do seu coração!

Zezé - Do meu coração? Deixa de bobagem Minguinho!

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Pé - Sim, aqui dentro.

Zezé - Todo esse tempo?

Pé - Sim, tooooodo esse tempo.

Zezé - Então quer dizer, que o meu melhor amigo está dentro de mim mesmo?

Pé - Claro que sim, nosso melhor amigo sempre é nós mesmo, eu já lhe disse isso! Lembra do Passarinho?
Que lhe ajuda nas suas peraltices, com seu desatino..? Tudo isso é você. Cada criança é um mundo, e o seu
mundo é bem divertido e cheio de imaginação. É daí que vem toda a poesia, toda a alegria de viver, e eu
ando bem triste de lhe ver todo cabisbaixo assim.

Zezé - É que aconteceu tanta coisa Minguinho…

Pé - Eu sei que aconteceu. Mas você não pode se deixar abater assim Zezé, a sua família precisa dessa sua
alegria, já há muito sofrimento, não é necessário mais arrependimento. As coisas nem sempre acontece
como a gente imagina, mas é preciso coragem e força para a gente enfrentar todo rio.

Zezé - Minha cabeça está um pouco confusa Minguinho. Se esse tempo todo você estava dentro de mim e
você falava do meu coração, de onde é que vem todas essas palavras bonitas e todos esses conselhos?

Pé - Ora do seu coração!

Zezé - Mas por que eu não entendo sozinho? Preciso de ficar conversando com uma árvore ou um
passarinho?

Pé - Cada um tem sua imaginação e você tem até demais Zezé! A sua mãe e as suas irmãs vivem a lhe
ensinar coisas, você pensa que não aprende mas fica tudo guardado aqui ó, eu apareço só para lhe lembrar.
Mas isso não será para sempre.

Zezé - É… no fundo eu já sabia disso, eu sempre vejo minhas irmãs lutando para garantir a felicidade de
todo mundo. Na verdade eu acho que deveria ajudar mais também.

(ATENÇÃO) *Pé, lembra que tu disse* ...

Coloca-se a música “poema” novamente. que um dia eu teria que soltar o passarinho? Acho que esse dia
chegou. Eu acho que posso seguir agora sem vocês. Vou guardar a lembrança de vocês para sempre.
Sempre! Mas acho que devo soltar agora o meu passarinho, quem sabe ele encontra uma outra criança e
possa pousar no coração dela?

Pé - Sempre estaremos com você Zezé!

Zezé - Tchau minguinho! Adeus Passarinho! Voa para longe, voa alto e alcance muitas outras crianças nesse
mundo inteiro! A MÚSICA DO POEMA FINALIZA AQUI.

Os atores cantam Clariana.

“FIM”

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