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TEORIAS DA ARTE – ANNE CAUQUELIN

Teoria matemática, científica aplicável as artes? Não é melhor ignorá-las e nos reservarmos ao
deleite e ao prazer que a teorização pode destruir?
O plural TEORIAS da arte permite pensar na existência de uma espécie de atividade contínua
à qual diversos autores se dedicaram, e que foi por alguma razão importante para eles.
TEORIAS ESPECULATIVAS e TEORIAS DE ACOMPANHAMENTO
Adjetivo estética: definição compartilhada com todo mundo sobre atributos conferidos à
atividade artística: harmonia, gratuidade, prazer, desprendimento
Substantivo estética: corpus teórico de textos que definem o domínio específico da arte, um
sítio que admite diversas teorias
Emprego do termo estética no século XVIII (Baumgarten) – tentativa de junção de discursos
que tratam mais ou menos do mesmo objeto.
Teoria da arte ou teórico da arte como atividade que constroi, transforma ou modela o campo
da arte. Produzem efeitos sobre o domínio artístico.
Teorias Injuntivas – Ambiental – fundadora, estabelece regras de ações, qualificações de uma
obra de arte, julgamentos sobre a arte e o belo, limites à atividade artística assinalando o que
ela não deve tornar-se.
Acompanhamento – comentários, elucidam o processo artístico ou as próprias obras, a edificar
um sistema de leitura, decifração: Linguistica, semiologia, psicanálise, hermenêutica,
fenomenologia, história: Teorizações Secundárias.
Interações com uma obra de arte com prenoções
A obra ‘em si’ não existe realmente; ela se doz ‘obra’ por meio e com a condição de ser posta
em determinada forma, de ser posta em ‘em sítio’. A arte contemporânea parece de fato errar
‘fora de sítio’ e por isso permanecer sem critérios, dando a impressão de assim escapar de
qualquer julgamento ‘equilibrado’

Não liga tanto pra cronologia ou nome, mas nos efeitos das teorias
Tragédia como expressão inexcedível que mistura de maneira original a embriaguez dionísiaca
e a ordem apolínea, num conjunto de harmonia e ilusão.
Platão: a ideia de arte não é arte, é separada dela, deixando a prática, o ‘fazer’ longe de poder
aspirar ou realizar o belo.Essa divisão deprecia de modo claro tudo o que se refere à produção,
pelo homem, de seja qual for a obra. Rigor com que Platão julga a posia, a qual ele expulsa da
cidade (A República, livro X, 605 b, poesia e pintura são descritas “implantando na alma dos
indivíduos a má conduta” e “criando fantasmas a uma distância infinita da verdade”. Cópia
como imitação da ideia), a música que enlanguescia os corpos, a pintura, afastada em dois
graus da verdade e as artes manuais “improvisadas”, com forte imprecisão e pouca certeza.
O belo é o rosto do bem e da verdade. Se a arte vale alguma coisa, é na medida em que
percorre a via da dianoia (passagem degraus de conhecimento) e permite desvendar nos seres
e nas coisas uma ponta de inteligibilidade. Deve semear a busca pela verdade.
Tradução desconcertante: Neoplatônicos – Arte pode ser alcançada pela beleza no nível das
formas. O Belo ainda é bom, mas ele dota de uma Ideia específica, encontrando manifestação
sobre a terra sob a forma da arte. Na arte, conjuga-se o sensível e a ideia, direto à alma do
universo. Cicero em O orador.
Agostinho e santo Tomás – o belo se torna a forma ideal, manifesta na arte, e presente no
espírito do artista que tenta dar-lhe corpo. A esfera da metafísica passa a cercar as obras de
arte.

Hegel – arte se ajusta entre a moralidade subjetiva-objetiva (via pública e estrutura do Estado)
e a religião, em cuja direção ela segue.
Primeiro degrau da filosofia do espírito, que triunfa da separação entre exterioridade e
interioridade e se coloca como uma reconciliação entre a natureza finita e a liberdade
infinita do pensamento – a arte é o elo intermediário. Deve ultrapassar a forma sensível,
atingir o saber absoluto. Arte não é analisada por si própria. Arte vista como momento, detalhe
efêmero que movimenta-se para sua dissolução.
Do Egito Antigo ao século XIX, passando pela Índia, Grécia, Holanda, Itália, França;
arquitetura, escultura, pintura, música, poesia. Curiosamente, a arte caminha no espaço
geográfico e na temporalidade com o mesmo passo apressado, de extinguir a si mesma.
Gêneros de Belas-Artes, música e poesia nascem e morrem não pelo efeito de grupos de
artistas mas pela determinação superior que rege a história, por um espírito.
Arquitetura – berço: Persia, India, Egito Antigo nasce de uma indistinção entre fundo e forma,
alma e corpo, conceito e realidade, depois a diferenciação vem â tona sob a forma de símbolo.
Escultura – momento dito ‘clássico’, Grécia Antiga – que libera a figura da massa indistinta da
arquitetura para afirmar a individualidade espiritual encarnada em um corpo.
Pintura – subjetividade interior, representação independe da espacialidade, chega a negá-la
para servir-se da superfície e tonalidade.
À medida que a abstração avanla, as fronteiras geográficas se alargam, a poesia não tem mais
país, está pronta para a viagem através do universal. Logo os fragmentos – de espaço e de
tempo, de gêneros e de categorias – serão reunidos para se fundir dentro da unidade do único
sujeito que tem valor, aquele que fez todo o trabalho: o sujeito universal absoluto. (p.40)
Hegel em Estética: manifestações de arte como fenômenos, aparições sucessivas e
efêmeras, fantasmagóricas. Morte da arte, abstração progressiva em direção à filosofia.
Romantismo alemão – gênio, sublime, a teatralização da arte, arte acima da vida, o artista
diferente de outros homens, a natureza, poder absoluto falando por sua voz e revelando em
sua obra. Sucesso dessa imagem como estereótipo e lugar-comum do artista: retoma
platonismos e referências gregas

Nietzsche: arte como aquilo que nasce e não termina de nascer. Figura de Dionísio, seu delírio,
sua loucura mística, é a própria irrupção da vida. A tragédia antiga é a mesma, a fusão da
dupla aparição da embriaguez da vida e da vida como sonho: a arte. Mais poesia menos teoria.
Pensamento para fora da universidade.
***** até aqui é metafísica

TEORIAS INJUNTIVAS – se propõem a explicitar, apresentando condições ao exercício da arte


e dando uma ordem à multiplicidade de expressões, técnicas e intenções.
Aristóteles – maneira franca, concreta. A Poética trechos escolhidos: tragédia e a regra das
três unidades, preceito que a tragédia deve provocar no espectador temor e piedade. Noções
de mimesis, verdade e versossimilhança, recepção estética, relação entre o narrativo e a
imagem, liberdade do autor confrontada às exigências do gênero.
Arte faz parte das atividades humanas. Como descrever essa atividade? Se tomamos as
atividades humanas como um ‘gênero’, a arte seria uma de suas espécies, e seria assim
definida: uma expécie de atividade que produz com vista a um fim exterior, e essa espécie iria
distinguir-se das outras atividades cujo fim é inerente à ação. A arte é, então, uma ‘disposição
de produzir (poiésis) acompanada de regras. Produzir é trazer à existência uma das coisas que
são suscetíveis de ser ou de não ser e cujo princípio de existência reside no artista.

O que importa ao teórico da arte é, então, enunciar essas regras verdadeiras e, diante disso,
avaliar os meios e a matéria da produção de acordo com os fins que ela se dispõe a
alcançar (p. 60)
Se temos em mente que toda arte é produção acompanhada de regras, compreendemos de
imediato que a mimesis não é cópia de um modelo, pálido decalque da ideia, afastada da
verdade em muitos graus, como era o caso para Platão. Ela é antes de tudo fabricadora,
afirmativa, autônoma. Se ela repete ou imita, o que repete não é um objeto, mas um
processo: a mimesis produz do mesmo modo como a natureza produz, com meios análogos,
com vista a dar existência a um objeto ou a um ser; a diferença se deve ao fato de que esse
objeto será um artefato, que esse ser será um ser de ficção (p. 61).

O produto de uma ficção é tão real quanto o gerado pela natureza, apenas não pode ser
avaliado de acordo com os mesmos critérios. Para a natureza, os seres que ela produz são
como eles são: ela sabe o que faz, e o faz bem, suas regras de produção são imanentes
(mesmo que aconteçam vez por outra, muito raramente, erros de programação – por
exemplo, monstros por falta ou por excesso). Não acontece a mesma coisa com os seres de
ficção; o que é processo interior na natureza está, no artefato, submetido à exterioridade e,
portanto, à contingência [yami, uncertainty] (p. 62)

O afastamento. Há, pois, um afastamento necessário em toda ficção, pois a produção não
pode ser senão um analogon do processo natural. Como a natureza, a produção dispõe de
elementos, de meios e de um objetivo ou fim: fazer com que, de algum modo, os objetos ou
seres que ela vai produzir possam ‘funcionar’ no universo para o qual estão destinados (p.
62)

É nesse ‘como’, nesse afastamento, que se instala a ficção. Assim, por exemplo, a história
procura permanecer o mais fiel possível aos acontecimentos produzidos pela necessidade, e
que são o que são, não manifesta esse afastamento que constitui a essência da poesia. A
história repete o mais exatamente possível, é guiada pela preocupação com a verdade. A
ficção, por sua vez, não repete, ela compõe, e sua preocupação é com o verossímil, não
com a verdade (p. 62)

Mímesis de Aristóteles difere da cópia de Platão

O que o afastamento anuncia é a possibilidade de as coisas serem diferentes do que elas são.
Em outras palavras, é um universo do possível instaurado pela ficção (nós diríamos: o mundo
imaginário) (p. 63)

A articulação entre trivial e ficção cativante é delicada; felizmente temos diversas cartas na
manga, os tropos ou figuras de linguagem, os topoi ou lugares comuns.

Mas como criar metáforas? Não se pode recolher palavras ao acaso e mudá-las de lugar por
puro capricho, sob pena de se tornar obtuso. Mas por trás da metáfora trabalha outra figura,
lógica nesse caso: a analogia.
A analogia retém quase que matematicamente a metáfora dentro dos limites do verossímil. A
ficção não ‘ficciona’ sem regras, sob as imagens mais originais se esconde uma rigorosa
geometria. (p. 66)