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Prof. Doutor Pedro Caetano Nunes (pcaetanonunes@hotmail.

com)

Aula 1, 17/02/2015
Nos elementos de apoio: exercícios, que vamos trabalhar mais no fim do semestre.
Textos de apoio que são, na sua maioria, acórdãos, como forma de exercitar os conceitos
teóricos. Nos acórdãos, importa distinguir o que é ratio decidendi, o que é obiter dicta. Os
acórdãos visam exercitar o nosso método jurídico.
Este ramo do direito tbm é importante para direito criminal: grande parte dos crimes de
colarinho branco está relacionada com sociedades comerciais.

Aulas práticas sobre textos de apoio de jurisprudência/artigos vão ser baseadas em exposições
de 2 ou 3 alunos. Explicar: divergências doutrinais, dar a nossa opinião

Avaliação:
Mesma que em DPJ.

Bibliografia:
- Manual do prof. Rui Pinto Duarte: Vamos seguir o programa do prof Rui Pinto Duarte.
Problema deste manual: Muito fragmentário, só tem dois ou três capítulos. Devemos usar este
manual e um dos próximos dois. O favorito do professor.
- Manual de Engrácia Antunes: Manual bom, não é muito grande e trata das questões com
profundidade. Este prof tirou o doutoramento no estrangeiro; Por vezes Portugal ainda é um
pouco fechado com pessoas que tiram o doutoramento no estrangeiro.
- Manual de Coutinho de Abreu: Catedrático de Coimbra, muito sabedor. Manual com um
desenvolvimento teórico muito profundo.

- Manual do Menezes Cordeiro, vol I: Grande, profundo, mas n tão bom quanto os outros.
Desenvolve muitas matérias, mas n aprofunda certos tópicos importantes.
- Manual Paulo Olavo Cunha: Muito extenso, mas pouco profundo.

Programa:
No nosso plano curricular, nós não temos direito comercial.
Em direito comercial estuda-se a teoria dos atos do comércio - matéria abordada no código
das sociedades comerciais (1888), que surgiu por oposição ao Código Civil. O primeiro foi o
código comercial napoleónico de 1807 (e o primeiro CC foi o código napoleónico 1804),
inspirados na revolução francesa.
o O Código Civil é um código que visa igualdade pra todos os cidadãos.
o O Código Comercial é um código só para os comerciantes.
A questão: Quando é que uma matéria é comercial? Isto são respostas dadas pela teoria dos
atos do comércio? Quando é que um ato tem natureza comercial- e aplica-se CCom- e quando
não tem aplica-se o CC.
Desde 1836 (data 1º CComPT) se discute: quando é que um ato é comercial?
Problema: o atual CCom quase não existe, quase não tem artigos em vigor. O CCOm regulava
o contrato de seguro, o direito bancário,... Agora isso está tudo em lei avulsa!

Diferenças entre Código Civil e o Código Comercial:


- Quando há pluralidade de devedores, a regra no CC diz-nos que a obrigação é
parciária; No Código Comercial diz-nos que a regra é a solidariedade;
- Fiança no CC é caracterizada pelo benefício da excussão prévia; No CCOm existe
solidariedade;

O que vamos estudar:


3. Por detrás de uma sociedade comercial está uma empresa. Direito das Sociedades é
sinónimo de Direito das Empresas/Atividade económica.
5. Tipos de sociedades: Todas as pessoas coletivas estão sujeitas ao princípio da tipicidade.
As duas principais: sociedades por quotas (paradigma das pequenas empresas) e sociedades
anónimas (paradigma das grandes empresas)
6. A relevância do direito europeu: para interpretar certas normas é importante sabermos o
que dizem as diretivas
8.
9. Constituição das Sociedades Comerciais
10. Direitos e deveres dos sócios das SC: Os sócios, gestores, administradores têm direitos e
deveres.
11. Os acordos parassociais: Frequentes em empresas de maior dimensão- acordo ao lado do
contrato de sociedade. Por vezes alguns ou todos os sócios fazem acordos pra regular
determinadas matérias. Determinados sócios podem juntar-se pra controlar uma sociedade.
Muita relevância prática.
13. Capital Social : Matéria de proteção dos credores
14.
16. Outros protagonistas das sociedades comerciais : direitos e deveres dos gerentes,
amdinistradores, membros do conselho fiscal
17. Acordos parassociais, ponto 16 e 17 são os mais importantes para o exame final.

Matérias mais importantes:


- Direitos e deveres dos sócios
- Estrutura orgânica
- Deliberações sociais (conceito mais amplo do que deliberações dos sócios, por engloba
outros protagonistas)
- Deveres e responsabilidades dos administradores e
- Representação das Sociedades Comerciais

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- Capital Social e outros mecanismos de proteção de credores
- Acordos parassociais

Justificação da disciplina/ Porquê esta disciplina:


Estudamos direito das sociedades porque as empresas estão organizadas quase todas sob a
forma de sociedades, sob a forma de sociedades comerciais. A riqueza hoje em dia já não é
latifundiária, está nas empresas. As transações hoje em dia são feitas entre consumidores e
empresas (consumers to business) ou entre empresas (B to B)
É impensável ir pró mercado de trabalho sem saber funcionam as sociedades comerciais.
Esta riqueza surge essencialmente nas sociedades por quotas (forma jurídica das pequenas
empresas) e nas sociedades anónimas, forma jurídica das grandes empresas, historicamente
têm origem nas companhias coloniais.

A regra de ouro do capitalismo moderno é a responsabilidade limitada, e é responsável pelo


crescimento das diversas áreas sectoriais! Incentiva que se arrisque. É isto que explica o
capitalismo moderno do mundo ocidental. Esta regra historicamente era apenas para as
companhias coloniais.
A certo momento, os alemães aperceberam-se que esta regra era boa para as sociedades por
quotas.
Hoje em dia há poucas sociedades em nome coletivo.
Nas sociedades anónimas e por quotas os sócios n são resp pelas dívidas sociais (nas em nome
coletivo têm). Os administradores nca têm resp pelas dívidas sociais.

Material para as aulas


- Código das Sociedades Comerciais

I. Introdução ao Direito das Sociedades


1. A Dupla natureza da sociedade: sociedade enquanto contrato (sociedade
contrato) e sociedade enquanto entidade (sociedade entidade).
Bibliografia: 1º capítulo do Livro de Rui Pinto Duarte

A sociedade entidade/instituição/organização é uma organização de pessoas e bens dedicada


à prossecução de uma atividade económica.
A sociedade contrato corresponde ao contrato caracterizado pela obrigação de contribuir com
bens (ideia de dever de contribuição; dever principal dos sócios) e serviços para uma atividade
económica. Os contratos são caracterizados pelas obrigações que deles nascem: do contrato
de sociedade surge obrigação de contribuição com bens e serviços para uma atividade
económica.

Em comum: pessoas + bens + prossecução de uma atividade económica


Na origem da sociedade entidade está paradigmaticamente uma sociedade contrato, isto é,
um contrato de sociedade.

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Mas nem sempre é assim. As sociedades podem também ser constituídas por negócio jurídico
unilateral (270º-A e 488º CSC 1). São dois os casos: -Sociedades constituídas por Estas são
apenas uma pessoa, daí que não possam ser constituídas por contrato (270º-A) - Fenómeno
dos Grupos de Sociedades (caso de uma sociedade que constitui uma outra sociedade) (488º
CSC)

Na história do pensamento ocidental, o conceito de sociedade contrato precedeu o conceito


de sociedade entidade.
O conceito de contrato de sociedade, tem origem na Roma antiga (a societas romana:
conjugação de esforços de diversas pessoas para exercício de atividade económica).
Já a ideia de sociedade entidade/personificação de um ente coletivo é uma ideia moderna. Os
primeiros entes a serem personificados foram os Estados, Instituições religiosas e companhias
privilegiadas (antecessoras das sociedades anónimas). No final da Idade Média, os juristas
começaram a discutir se determinadas organizações e entidades não deviam ser
personificadas, isto é, equiparadas aos seres humanos, juridicamente, pois elas atuavam no
tráfego jurídico. Assim, a determinada altura (muito depois de existir o contrato de sociedade)
passou a fazer-se esta equiparação.

Daí que o CC olhe para a sociedade do ponto de vista contratual - 980º CC. No art 997º é que
encontramos regulada a relação do contrato de sociedade com terceiros. Quando, neste
artigo, nos diz que pelas dívidas da sociedade responde, em primeiro lugar, o património da
sociedade, dá-nos a entender que está aqui subjacente uma sociedade entidade.
E pqeq o contrato de sociedade vem regulado aqui? R: Por influência da tradição romana.
O contrato de sociedade que ali está, está focado na sociedade contrato.

A sociedade contrato também, ela própria, tem duas dimensões:


- Negócio Jurídico institutivo:
- Estatutos: Estipulações negociais que regulam o funcionamento da sociedade entidade ao
longo do tempo. Às alterações estatutárias aplica-se o princípio da suficiência da maioria.

Elementos obrigatórios- Denominação social, objeto, sede (local onde está sediada a
sociedade); Elementos eventuais- regras sobre limitações ao direito de voto

O contrato de sociedade insere-se nos contratos de cooperação. Trata-se de um contrato de


execução continuada, perdura no tempo. Tem características muito peculiares: tem cláusulas
estatutárias que visam vigorar ao longo dos tempos. Estas cláusulas estão sujeitas ao princípio
da suficiência da maioria.
É possível distinguir:
- Contratos instantâneos
- Contratos de execução continuada; Dentro destes temos os contratos de socidade, que são
ainda mais complexos- têm uma característica única- princípio da suficiência da maioria, que
permite que as cláusulas estatutárias possam ser alteradas por maioria, e não unanimidade.
Se fosse a regra da unanimidade, não se alterava nada.

1
Fenómeno dos grupos: Uma sociedade constitui uma outra sociedade.

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Tipos de Sociedades
Existe uma grande diversidade de tipos de sociedades. Principais tipos:
1. Sociedade Civil (CC)
2. Sociedade Comerciais (CSC):
2.1. Sociedades em nome coletivo
2.2. Sociedades por Quotas
2.3. Sociedades Anónimas: Há uma grande diversidade de subtipos de sociedades
anónimas; Há subtipos especiais em função do objeto: Sociedades gestoras de
participações sociais (ex: por cima do grupo espírito santo, S.A, há inúmeras sociedades
gestoras de participações sociais), de fundos mobiliários, imobiliários.
2.4. Sociedades em Comandita: Que podem ser :
- Simples
- Por ações

Próx aula: Distinção entre Soc. Civil e Soc. Comercial; Organização das PC’s; Autonomia
patrimonial/ Limitação da resp dos sócios (regra d’ouro) e probls de tutela dos credores.

Direito das Sociedades – 20.02.19:

A duas dimensões da sociedade:


A sociedade pode ser olhada como uma entidade, instituição organização ou
perspectivada como um contrato. Há uma dimensão contratual e institucional.

A sociedade enquanto entre jurídico e enquanto contrato:


Sociedade designa duas realidades jurídicas distintas ainda que ligadas uma à outra:
- Sociedade organização ou sociedade instituição: centro de imputação de
efeitos jurídicos, muitas vezes dotado de personalidade jurídica plena -
organização de pessoas e bens dedicada à prossecução de uma atividade
económica. Tem certos direitos e obrigações por meio da técnica da
personalidade jurídica.

- Sociedade – contrato: é um tipo de negócio jurídico, um acordo caracterizado


por os nele intervenientes se obrigarem a contribuir com bens ou serviços para
uma atividade económica comum – modo tradicional de criar uma sociedade
organização.
Durante muitos séculos a sociedade surgiu apenas na sua dimensão contratual.
Dentro da sociedade enquanto contrato existem duas dimensões:
- negócio jurídico institutivo;
- estatutos ou pacto social. Este CSC raramente usa a palavra estatutos.

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Possibilidade de o negócio institutivo de sociedade-organização ser praticado por
uma só pessoa:
Artigo 7º/2 CSC
No direito português isto sucede no campo das sociedades comerciais:
- constituição de sociedade por quotas por uma única pessoa singular ou
coletiva, ficando tais sociedades submetidas a várias regras especiais (270-A
CSC).
- Constituição de sociedades anónimas por uma única sociedade, ficando a
relação entre a sociedade-mãe e a sociedade-filha submetida a várias regras
especiais (481º e ss).

As sociedades unipessoais ciradas por tais processos podem passar a ter mais
do que um sócio.

Possibilidade de a sociedade-organização ter fonte legal:


A sociedade-organização pode ter origem em ato não negociais, designadamente em
atos de poder político.
Companhias privilegiadas – a sua constituição dependia e um ato do Estado.
Em Portugal após o 25 de Abril tem havido muitos casos de criação de sociedades por
ato legislativo – transformação de empresas públicas em sociedades anónimas com
vista à sua privatização.

O Contrato de Sociedade – negócio institutivo e estatutos:


A expressão contrato de sociedade não designa apenas o negócio institutivo da
sociedade-organização. Designa também os seus estatutos, que sendo estabelecidos
nesse negócio institutivo, são modificáveis ao longo da vida da sociedade. Estas são
disposições de cariz regulamenta às quais as sociedades obedecem no seu
funcionamento.

As cláusulas estatutárias estão quase sempre subtraídas à regras de que os contratos


só podem alterar-se por acordo de todos os contraentes, antes se lhe aplicando a regra
da “suficiência da maioria”.

CSC raramente refere o conceito “estatutos”: são antes chamados de “contrato de


sociedade”. Na reforma de 2006 o legislador passou a utilizar esta expressão visto que
era usada no quotidiano das empresas.

Atenção: o contrato de sociedade é um negócio institutivo da sociedade organização


mas não significa que esta adquira personalidade jurídica por mera força desse
negócio. No direito português no que respeita às sociedades comerciais, estas
necessitam ainda do registo definitivo do contrato institutivo para adquirirem
personalidade jurídica (5º CSC).

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A diversidade dos tipos de sociedades:
Tipos legais de sociedades comerciais:
- sociedade civil;
- sociedades em nome coletivo, sociedade por quotas, sociedade anónimas e
sociedades em comandita (simples ou por ações).
- Sociedades especiais em função do objeto que perseguem.

Entre os vários tipos legais de sociedades há muitas diferenças:


- inegável que todos os tipos de sociedades comerciais têm personalidade
jurídica (artigo 5º csc), há muitos autores que sustentam que as sociedades
civis comuns não a têm;
- enquanto as sociedade anónimas e por quotas os sócios não respondem, salvo
casos especiais, pelas obrigações da sociedade (197/3 e 271 CSC), nas
sociedades em nome coletivo a nas sociedades civis os sócios respondem pelas
obrigações sociais (175 CSC e 997 CC).
- Etc (ver pags 21 e seguintes do RPD)

Tipos sociais:
- na prática dos negócios e da vida das sociedades existem diferenças cuja análise é
útil para o conhecimento dos juristas.

Distinção entre as sociedades civis e as sociedades comerciais:


Esta distinção baseia-se na distinção entre direito comercial e direito civil. O direito
comercial é um direito dos comerciantes por contraponto com o direito dos cidadãos.
A partir do momento em que a separação entre direito civil e direito comercial se
cristalizou, a sociedade civil passou a ser apresentada como a sociedade comum e a
sociedade comercial como um tipo especial de sociedade, subdividido nos vários tipos
de sociedades comerciais.

Artigo 1º/2 CSC: A natureza comercial de uma sociedade resulta do seu objeto (pratica
de atividades comerciais) e da sua forma (adopta algum dos subtipos de sociedades
comerciais).
Artigo 4º/1 CSC: No entanto, as sociedades que tenham por objeto exclusivo a prática
de atos não comerciais podem adoptar um dos referidos tipos comerciais – ficando
nesse caso submetidas ao CSC – sociedades civis sob forma comercial.

Oposição dos regimes das sociedades civis e das sociedades comerciais:


Sociedades civis:
- regime centrado na sua dimensão contratual, deixando para segundo plano, a sua
dimensão institucional;
- está mais próxima da societas do direito romano;

Sociedades comerciais:
- regime comtempla largamente a dimensão institucional;

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- muito mais elaborado do que o das sociedades civis;
- muito mais relevantes do que as sociedades civis – quem quer dar forma societária
a um projeto empresarial adopta um dos tipos de sociedade comercial sem sequer
se importar com saber se o objeto da mesma é comercial (sociedade comercial
plena) ou civil (sociedade civil sob a forma comercial).

Origem:
A origem de grande parte das nossas normas remonta aos jurisconsultos romanos.
Quando surge a primeira codificação civil tem como princípios os da revolução
francesa.
O código comercial, ao ser criado, afasta-se deste princípio de igualdade francês visto
que é um código apenas da burguesia. É uma antítese ao código civil.

Distinção jurista:
- critério subjetivo: direito comercial é o direito dos comerciantes por oposição ao
civil que é os cidadãos;
- critério objetivo: direito dos atos de comercio por oposição ao CC que regula os
atos civis;

O nosso CSC de 1888 no artigo 2º adoptou um critério objetivo, através da noção de


atos de comercio.

O que é um ato de comércio objetivo?


São atos de comércio aqueles que são regulados no CSC – critério objetivo e simples. O
legislador teve a preocupação de abrir a porta a possíveis novas leis extravagantes.

Precipitado histórico:
As matérias tratadas como matérias comerciais foram fruto de um precipitado
histórico, pelo que foram afastaras algumas opções racionais.
Exemplos de falta de racionalidade:
Fora do regime jurídico dos comerciantes está a atividade das empresas agrícolas e
não há uma justificação racional para isso. É assim por razões históricas visto que a
agricultura era ligada à nobreza e ao clero, aos quais se opunha a burguesia
comerciante.
Numa perspectiva histórica, temos como comerciantes os mercadores que se
contrapunham à outra economia baseada na agricultura e na posse das terras.
Quando surge a industrialização, as pessoas que praticam a indústria foram também
considerados comerciantes.

Profissões liberais com pendor empresarial – hoje em dia existem escritórios de


advogados com natureza fortemente comercial que não são considerados comerciais.

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Critério material:
Em todo caso alguma racionalidade haverá, algum critério material existe,
nomeadamente tendo em conta determinadas ideias de fundo:
- finalidade lucrativa;
- interposição nas trocas;
- organização e profissionalismo;

As matérias consideradas comerciais tendem a invocar pelo menos uma destas ideias.
As pessoas que atuam com finalidade lucrativa em mercados tendem a ter uma certa
organização de estrutura empresarial.

Hoje há uma tendência para deixar de se falar do direito dos comerciantes e passar a
falar de direito das empresas. Regras específicas para os comerciantes de insolvência,
contabilidade.
Quando uma empresa entra em insolvência isto tem efeitos sistémicos em toda a
economia.
Ao longo dos séculos esta ideia tem vindo a ser desenvolvida – o legislador português
em 1888 estabeleceu um regime específico de insolvência com vista a evitar este
efeito sistémico.

Existem determinados regimes que são diferenciados entre comerciantes e os


cidadãos ou que apenas se opõem aos comerciantes:
- contabilidade;
- insolvência;

Assim continua a fazer sentido ter um direito comercial diferente do direito dos
cidadãos. Esse regime diferente não faz sentido aplicá-lo apenas aos comerciantes no
âmbito do precipitado histórico para também às empresas (direito empresarial).

As normas do direito comercial tiveram origem nos costumes sem fronteiras entre
comerciantes internacionais.

SOCIEDADES CIVIS:
Artigos 980º e seguintes CC

SOCIEDADES COMERCIAIS:
Artigo 1º CSC
Nº2 – sociedades comerciais:
- atos de comércios;
- adoptem um dos tipos de sociedade comerciais previsto (sociedade em nome
coletivo, por quotas, sociedade anónima ou sociedade em comandita simples ou
por ações);

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Nº4 – sociedades civis sob forma comercial:
- não praticam atos de comercio;
- adoptam um dos tipos comerciais;

Corolário: não é relevante saber se a sociedade é comercial ou sociedade sob forma


comercial pois de qualquer maneira vamos aplicar o CSC.

O conceito de sociedade enquanto contrato:


O contrato de sociedade:
Contrato que se enquadra na grande categoria dos contratos de cooperação.

Carlos Ferreira de Almeida cataloga os contratos em 5 categorias:


- troca;
- liberalidade;
- cooperação, onde se insere o contrato de sociedade;
- risco;
- re estruturação;

Este contrato de sociedade tem como característica marcante a finalidade comum –


contrato de fim comum. Esta é uma ideia marcante para perceber vários traços do
regime da sociedade, exemplo deveres dos sócios.
Alguma doutrina defende que no ato constitutivo de uma sociedade estão todas as
pessoas a apontar na mesma direção, enquanto no contrato sinalagmático as direções
são opostas – esta teoria deve no entanto ser afastada por ter uma vista curta, afinal
há mais vida para lá da troca e da compra e venda.

A sociedade enquanto contrato:


A sociedade é também um negócio jurídico cuja base factual tradicional é um acordo
caracterizado por os neles intervenientes se obrigarem a contribuir com bens e
serviços para o exercício de uma atividade económica comum.
RPD recusa a tentação de recorrer o 980º CC – esta disposição só vale para as
sociedades civis, e, por outro lado, a sua validade restringe-se ao direito português.

Clivagem doutrinária:
- Coutinho de Abreu: a definição do 980º vale para as sociedades comerciais;
- Rui Pinto Duarte: o 980º não vale para as o CSC – hipótese correta.

Para os defensores da aplicação do artigo 980º CC na definição de sociedades


comerciais, o CSC pressupõe que a sociedade comercial é uma espécie do género
sociedade, pois usa no artigo 1º/2 a expressão “são sociedades comerciais aquelas que
tenham por objeto”.
RPD recusa defendendo que as definições legais não são normas per si, necessitam de
posterior complementação.
Por outro lado, o CSC afasta-se da definição do 980º ao permitir as sociedade por
quota unipessoais.

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DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE CIVIL:
1- contrato;
2- contribuição com bens ou serviços – objeto da sociedade;
3- exercício em comum de uma atividade económica que não seja de mera fruição
– fim imediato;
4- Repartição dos lucros – fim mediato;

DEFINIÇÃO DE SOCIEDADE COMERCIAL :


Não existe nenhuma definição de sociedade comercial no CSC. Todavia, quando
aplicamos a legislação comercial temos de delimitar o seu campo de aplicação. Os
aplicadores do direito têm portanto de encontrar uma definição.

É possível construir um conceito de sociedade-comercial que não resulta claramente


da lei mas que está pressuposto. Rui Pinto Duarte divide a definição em 4 pontos:

1. A sociedade comercial não tem apenas por base um contrato, pode ter outra
origem - negócio jurídico unilateral ou ato administrativo;
2. O objeto da sociedade é a contribuição com bens ou serviços;
3. Direciona-se para o exercício de uma atividade económica – fim imediato;
4. Gerar benefício dos membros – fim mediato;

DIFERENÇAS:
- As sociedades comerciais não têm origem apenas nos contratos, pode ser origem
num ato administrativo ou legislativo;
- O contrato de sociedade não tem de ser necessariamente feito entre duas ou
mais pessoas;
- Nas sociedades comerciais não há um exercício em comum da atividade
económica, os accionários não desempenham funções na empresa. Os sócios
põem em comum os seus capitais, mas não exercem em comum uma atividade.
- É impossível que uma sociedade que pratique atos de comércio se caracterize por
ter uma atividade económica de mera fruição ;

Sociedade e atividade económica:


A sociedade organização tem de prosseguir uma atividade económica que é fixada no
contrato de sociedade – artigos 980º CC e 9/1 f) CSC.

Atividade económica:
Nota de direito comparado: Em Portugal o conceito atividade económica tem por base
um valor monetário, uma troca no mercado, aquilo que tem um preço, ainda que gere

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ou não lucros. As sociedade civis e comerciais dedicam-se em Portugal a atividades
económicas.

Já na Alemanha, Inglaterra e EUA, as sociedades comerciais podem dedicar-se a uma


atividade não económica. As companies e as corporations desenvolvem actividades
económicas mas tal não é essencial à sua definição.

Questão do lucro:
De acordo com o professor, as sociedades comerciais não tem necessariamente uma
finalidade lucrativa – há uma clivagem nesta matéria que tem como consequência
saber se podem ser admitidas como sociedades comerciais as sociedades non profit.

Implicações práticas: as sociedades non profit não têm fim lucrativo. Se um juiz se
deparar com uma sociedade non profit tem de a dissolver? X quer criar uma sociedade
para distribuir um jornal que sabe que não terá lucro, mas quer por mecenato – não
pode fazê-lo?

Vários artigos apontam para a importância dos lucros nas sociedades:


 Art. 21º/1 a) CSC – todos os sócios têm direito aos lucros.
 Art. 22º/3 – os estatutos não podem afastar aquele direito aos lucros (com
excepção dos sócios de indústria).
 Art. 217º - todos os anos vamos ver se a sociedade deu dinheiro ou não; se houver
lucros, numa sociedade por quotas, metade tem de ir para os sócios. As boas
sociedades não querem distribuir todos os lucros; querem investir, mas metade
tem de ir para os sócios.
 Art. 294º - nas grandes empresas, também tem de ser distribuído aos acionistas
metade do lucro.

Contra-argumentos do professor:
 Sim, se houver lucro tem de ser distribuído mas não é obrigatório que haja. Esta
norma não proíbe sociedades sem lucros; diz é que se houver lucros, estes têm de
ser distribuídos.

 Norma ainda mais importante: art. 42º - sobre a nulidade do contrato de


sociedade por quotas, anónima ou em comandita por ações registado. Surgiu no
CSC por imposição de uma diretiva comunitária.
Depois de a sociedade estar constituída e registada não podemos aplicar o regime
do CC destruindo a sociedade. Só em casos muito pontuais a sociedade poderá ser
destruída. Temos uma sociedade-contrato viciada, mas a sociedade-entidade já
começou a fazer negócios, já se estabeleceu no tráfego jurídico e, por isso, não a
podemos destruir.

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Há várias décadas que a sociedade é a forma jurídica paradigmática da empresa – por
isso alguns autores associam a este instituto jurídico a noção de empresa virada para o
lucro. No entanto estão não é uma ideia totalmente precisa:
- há sociedades que não são titulares de empresas (ainda não iniciaram atividade);
- há empresas cujos titulares não são sociedades (comerciantes em nome
individual).

A sociedade entidade:
Personalidade jurídica é a susceptibilidade de ser titular de situações jurídicas. Pessoa
colectiva: centro de imputação dos efeitos de normas jurídicas (perspectiva
normativista de Hans Kelsen e Manuel de Andrade).

Pessoa Jurídica é o centro de imputação dos efeitos das normas jurídicas. Se os efeitos são
atribuídos a uma subjetividade física abstracta, temos uma pessoa colectiva. Será pessoa
colectiva se for alvo de imputação de efeitos da norma jurídica – Kelsen.

PERSONALIDADE JURÍDICA PLENA:


Artigo 5º CSC – a partir do registo, as sociedades comerciais têm personalidade
jurídica, a ideia geral é a da equiparação aos seres humanos. São pessoas coletivas –
personalidade jurídica plena.

PERSONALIDADE JURÍDICA RUDIMENTAR :


No CC, não há uma norma semelhante para as sociedades civis. Há determinadas
normas que pressupõem que a sociedade civil tenha alguma personalidade jurídica,
alguns artigos atribuem determinados efeitos jurídicos a uma organização ou a uma
entidade. – 997º CC. Temos, nestes casos, pessoas colectivas rudimentares –
personalidade jurídica rudimentar.

Exemplos:
- Sempre que há um património autónomo, há uma personalidade jurídica
rudimentar.
- Sempre que temos organizações comuns é quase impossível não haver um artigo
que determine que responde primeiro o fundo comum (como o 997º), logo, temos
sempre uma personalidade jurídica rudimentar.
- o condomínio não tem personalidade jurídica mas em determinadas situações
pode ser personalidade judiciária, existindo então personalidade rudimentar.
- Artigo 997/2 – norma que atribui um dever à sociedade civil;

A personalidade jurídica das sociedades civis:

Clivagem na doutrina:
- sociedades civis têm personalidade jurídica rudimentar – Pedro Caetano Nunes;
- sociedades civis tem personalidade jurídica – Manuel de Andrade

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- sociedades civis não têm personalidade jurídica sendo então um património
autónomo dos seus sócios. Ponto de vista dos alemães e de Antunes Varela.

Distinção entre as corporações, a contitularidade românica e a comunhão germânica:


Contitularidade românica: as pessoas apontam como explicação para o regime da
compropriedade; duas pessoas ou mais têm um bem; cada parte tem uma quota.

Comunhão germânica: as pessoas não partilham apenas património; há um laço


anterior que os une. Exemplo paradigmático: união conjugal. As sociedades civis
costumam ser explicadas através da ideia de comunhão germânica. Há um património
comum, mas só é possível acabar com o património comum se se acabar com o
contrato celebrado (com o laço estabelecido anteriormente).

Corporação: companhias privilegiadas são instituições em que a ideia de indivíduo tem


muito pouco peso.

Na ideia de comunhão, pesa mais o património; na comunhão germânica, mais o laço;


na corporação, temos uma instituição que perdura na vida social ainda que as pessoas
morram. Para o Direito das Sociedades são convocadas as ideias de comunhão
germânica e de corporação.

Segundo o professor autonomizou-se o património mas também foi criada uma


personalidade jurídica rudimentar. Há aqui uma património autónomo e uma mão
comum germânica.

Em suma: No nosso sistema não há dúvida que as sociedades comerciais e as


sociedades civis que adoptem forma comercial gozam de personalidade jurídica (art.5º
CSC). Quanto às sociedades civis propriamente ditas, como vimos, as opiniões dividem-
se. Porém, não nos esqueçamos que a ausência de personalidade jurídica não significa
que as realidades em causa não sejam centros de imputação de efeitos jurídicos. São-
no, ainda que por aplicação de técnicas diferentes daquela em que a personalidade
jurídica consiste.

A sociedade no panorama das pessoas coletivas:


Grande parte da doutrina encara as sociedades comerciais como “pessoas coletivas de
tipo corporacional”, ou “pessoas coletivas de tipo associativo” – esta classificação
deve ser encarada com muitas reservas. Afinal há casos de sociedades unipessoais,
devendo ser afastada da definição esta noção de pessoas interrelacionadas.

Outra parte da doutrina considera as sociedades comerciais como PC de fim


interessado ou egoístico. RPD não se opõe a esta caracterização.

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Porém há uma ausência de sistematicidade do conjunto das pessoas coletivas. Assim, a
definição de sociedade enquanto pessoa coletiva deve ser feita segundo o método
tipológico, retendo em relação a cada uma os seus traços característicos.

O substrato das pessoas coletivas – atores e outros intervenientes:

Por detrás de uma pessoa coletiva está sempre algum substrato, uma razão para o
conhecimento da sociedade.
Numa fundação, o substrato é o património. Numa associação, as pessoas. Nas
sociedades, o substrato é antes de mais um substrato pessoal, associativo. Cada vez
mais doutrina chama a atenção para a ideia de substrato empresarial.

Associações – substrato pessoal associativo;


Fundações - substrato patrimonial;

Sociedade civis e comerciais:


– há quem diga que têm um substrato pessoal associativo. Problema: há
sociedades por quotas individuais e por outro lado uma sociedade por
constituir outra.
– O que há certamente é um substrato empresarial: por detrás de uma sociedade
civil ou comercial está uma empresa.

O SUBSTRATO EMPRESARIAL:
O substrato de uma sociedade comercial é a empresa - organização de meios de
produção com uma exploração profissional de uma atividade económica. Se os
substratos das sociedades costumam ser empresas, há exceções.

Definição de empresa:
1. Organização de meios de produção: capacidade de trabalho;
2. Com uma exploração profissional: estabilidade e autonomia;
3. De uma atividade económica: atividade susceptível de expressão monetária;

Há sociedades que não têm empresas: pode constituir-se uma sociedade que ainda
não tem empresa, logo não existe ainda o substrato empresarial. O mesmo acontece
no declínio da sociedade.

As tarefas da empresa:
O professor e Engrácia Antunes defendem que a primeira tarefa empresarial é a
organização dos sócios. As tarefas da empresa englobam todas as tarefas dentro da
sociedade.
A empresa é o substrato da sociedade e toda a organização da sociedade constitui
tarefa da empresa. Assim sendo, a esfera da empresa e da sociedade estão misturadas.

15
A organização da sociedade:
1. Poderes e competências - princípio da suficiência da maioria;
2. Deveres;

Atores e outros intervenientes na vida das sociedades:

1. OS SÓCIOS:
Competências principais:
- alterar o contrato de sociedade (85º/1 CSC e 982º/1 CC);
- nomear e destituir membros dos outros órgãos. Excepciona-se daqui as SA que
adoptem o modelo germânico em que a competência para designar os
administradores pertence ao conselho geral e de supervisão (441 al. a).
- Aprovar o relatório de gestão e de contas;
- Destinar os resultados de cada exercício (31º/1, 66º/5 f, 247º/1 e, 217º/1, 376/1
b, 294/1 CSC);

Modo tradicional de exercício dessas competências é a reunião em Assembleia Geral.


Existem ainda, deliberações unânimes por escrito (54º/1 1ª parte) e deliberações
mediante voto escrito expresso (247º).

Direitos de deveres dos sócios: dever de contribuição, dever de lealdade. Direito à


quota de liquidação, direito aos lucros, direito a participar nas deliberações sociais
(direito ao voto).

O estatuto dos sócios arranca de um plano de igualdade mas o seu poder tende a
variar em função da dimensão relativa da sua participação no capital social. Essa
dimensão reflete-se no direito de voto, direito ao acesso à informação e à convocação
de assembleias gerais.

Tipos de sócios:
As regras legais e as cláusulas estatutárias sobre a transmissão determinam a relação
entre os sócios e as suas participações: quem depende dos demais sócios para
transmitir a sua participação tem obviamente mais dificuldade em aliená-la do que
quem não está sujeito a tanto – está mais preso aos seus sócios.

- Sócio único e titular único do órgão da administração : é como um comerciante em


nome individual com responsabilidade limitada;
- Sócio que é mero investidor: não intervém na gestão da sociedade, apenas
pretende obter um certo rendimento do seu capital;
- Sócio não contribui só com bens mas também com trabalho: prende-se com a
existência de vários sócios todos ligados à gestão;
- Sócios pessoas coletivas:
o Sociedades participam como sócias noutras sociedades:
 Joint venture: relação de colaboração com outras empresas com
vista a um objetivo especifico;
 Estádio de processos de domínio.

16
o Sociedades participadas não têm autonomia real em relação à
participante, são totalmente dominadas – empresa plurisocietária.

2. OS TITULARES DOS ÓRGÃOS DE ADMINISTRAÇÃO , FISCALIZAÇÃO E SUPERVISÃO :


O exercício de funções de administração, fiscalização e supervisão não está
atualmente reservado aos sócios:
o crescente complexização da estrutura orgânica das sociedades;
o desprendimento entre as funções de administração, fiscalização e
supervisão e as atividades de sócio.

3. OS CREDORES:
As responsabilidade limitada dos sócios das sociedades comerciais é uma das
principais bases do desenvolvimento económico dos últimos séculos, que, por
outro lado diminui os direitos dos credores.

As sociedades dão espaço de intervenção aos credores sempre que ocorrem


alterações estruturais que possam afectar os seus interesses. Exemplo: cisões,
fusões, etc.

São protegidos os interesses dos credores com as regras sobre a insolvência.

4. TRABALHADORES :
Há regras especiais que acolhem os seus interesses. Na Alemanha em certas
sociedades por ações cabe aos trabalhadores eleger partes dos membros de um
órgão que é uma espécie de Conselho Geral e de Supervisão.
Em Portugal não há uma regra neste sentido mas os interesses dos trabalhadores
têm de ser tidos em conta pela Administração (64º CSC/1 b).

5. A COMUNIDADE :
São protegidos os interesses da comunidade através da atribuição ao estado de
poderes-deveres de intervenção, da imposição de deveres de informação ao
público.

A questão da existência de um interesse próprio da sociedade:


As sociedades têm um interesse próprio, diverso do interesse dos sócios?
- Corrente contratualista – não:
Os sócios enquanto conjunto deliberam livremente, tendo em conta apenas os
seus interesses.

- Corrente institucionalista – sim:

17
Diminui a capacidade de exercício dos sócios e da Administração que ficam
limitados à prossecução do interesse social.

São múltiplos os sinais legislativos de que o interesse social transcende o interesse


coletivo dos sócios, sendo uma amálgama deste interesse com os interesse dos
credores, dos trabalhadores, dos sócios potenciais e da comunidade em geral.
Exemplo: artigos 3º, 64º, 328º e 329º/2.

A DIMENSÃO ASSOCIATIVAS DAS SOCIEDADES :


A regra geral fixada no artigo 7º/2 CSC é a da exigência de uma pluralidade de autores
para o contrato de sociedade. A este artigo acrescentam-se os artigos 273º/1 e 479º
que exigem uma pluralidade ainda maior.

Por outro lado, mesmo quando a lei exige que o contrato de sociedade tenha mais do
que um autor, a redução do número de sócios a um só, não acarreta automaticamente
a dissolução da sociedade – arts 141º a 143º.

O funcionamento das sociedades é pautado pelo princípio da suficiência da maioria,


não é necessária a unanimidade. A lei no entanto também se preocupa com a proteção
dos minoritários sendo exemplos os artigos 3º/5, 240º/1 a), 490º/5 do CSC.

Aula 4 e 5
24-02

A organização da sociedade:
Conjunto de competências e direitos que integram a vida interna da PC. Esta ideia de
organização vem de um alemão, de Gierke

Estamos a falar de distribuição de poderes ou de competências. Numa sociedade


anónima temos o conjunto dos sócios que tem competências-poderes para decidir
sobre determinadas matérias. Temos ainda o Conselho de Administração. E ainda o
Conselho Fiscal. E o revisor oficial de contas. A organização da pessoa colectiva refere-
se a essa distribuição de poderes ou competências. Há estruturas orgânicas mais
simples (sociedades civis e sociedades em nome colectivo) e outras mais complexas
(sociedades anónimas).

Ex1: uma sociedade em nome coletivo tem o conjunto dos sócios e tem a gerência, e
por regra, sócios são ao mesmo tempo gerentes, mas na prática é difícil de distingui-
los porque por regra coincidem na mesma pessoa.

18
Ex2: No extremo oposto temos a sociedade anónima, para além do conjunto dos sócios
temos um órgão de administração frequentemente um órgão de fiscalização, e há
varias pessoas com diversas funções.

Poder de representação =/= poder de administração

- Poder de representação ou competência externa: poderes quanto ao exterior;


- Poder de administração ou competência interna: poderes a nível interno;

Na atuação prante terceiros, valem regras de proteção de terceiros e do tráfego


jurídico.

Ação deliberativa =/= Atuação conjunta =/= Atuação


Singular

Umas vezes, os órgãos atuam através de uma pessoa de forma isolada, outras, todos os
membros em conjunto e outras ainda por deliberação (por maioria). A ideia de atuação
deliberativa deve ser associada ao princípio da suficiência da maioria, que é essencial em
Direito das Sociedades.

o Atuação singular: temos um único órgão a atuar pela PC.


o Atuação conjunta: temos várias pessoas a atuam em uníssono por
unanimidade em nome da PC.
o Atuação deliberativa: temos a figura da deliberação, não atuam todos em
unanimidade, pode haver votos a favor e contra.

Nota: Utilizamos quase sempre a ideia de atuação porque vai no sentido de atuação
orgânica, mas o professor prefere o termo de declaração negocial, porque são as
pessoas que atuam no mundo jurídico em nome da PC – o que está em causa são
formas de atuação jurídica de PC.

A nível externo, a regra é que não pode haver atuação deliberativa (proteção de 3ºs,
que contratam com a sociedade). A nível interno, a regra é a da atuação deliberativa.

Principio da suficiência da maioria:


No mundo das sociedades comerciais temos este princípio, raramente é necessária
unanimidade, e a consequência disto é que há sócios maioritários. Há uma
necessidade de proteger as minorias mas é esbatido com este princípio que é
essencial. Uma sociedade não pode perdurar no tempo se para tudo for necessário
unanimidade, porque haveria sempre um bloqueio constante.

19
Proteção dos minoritários:
Há maior proteção em determinados tipos de sociedades como nas sociedades
anónimas abertas, a melhor forma de proteger os sócios minoritários é “falar com os
pés”, vender as ações quando não estão satisfeitos. Se a própria sociedade tem
liquidez, é fácil vender as quotas, e assim acaba o problema de ser sócio minoritário.
Noutras situações é necessário estabelecer um esquema de proteção das minorias nos
estatutos da Sociedade.

Democracia =/= Plutocracia

Existem votações por maioria mas com natureza diferente.

Por vezes, as sociedades são democracias, outras vezes plutocracias. Nas sociedades
de pessoas (civis e em nome colectivo), por cada pessoa há um voto, mas na maioria
das sociedades vigora uma plutocracia (depende do dinheiro detido pelas pessoas). O
mundo ocidental está organizado em torno de uma ideia de economia de mercado que
implica que mande nas empresas quem investiu mais dinheiro.

Plutocracia: tem que ver com o dinheiro, com a participação no capital social, em que
quem tem maior participação vota mais.
As sociedades por quotas e as anónimas são plutocráticas, enquanto as outras são
democracias.
A regra é cada ação 1 voto.

É possível limitar mais o voto, por ex., só vota quem tem mais de x ações. Pode haver
uma plutocracia mais democrática ou mais oligárquica.
Pode haver uma plutocracia mais:
 Democrática: Os sócios mais pequenos têm mais direitos;
 Oligárquica (ideia do poder só de alguns): Os sócios maioritários retiram
direitos aos sócios minoritários;

Direitos potestativos, poderes e deveres:

As competências, na organização das sociedades, podem estar associadas a direitos ou


a deveres. Podem ser direitos potestativos ou poderes-deveres. Os poderes são um
afigura autónoma da figura do direito subjetivo. Os poderes podem estar associados
não a direitos subjetivos (neste caso, temos direitos subjetivos), mas a deveres
(poderes-deveres). Os sócios têm direitos potestativos, mas os outros elementos da
organização da empresa têm poderes-deveres.

20
Os sócios têm poderes que correspondem também a direitos – têm direitos
potestativos. Os outros membros da organização têm poderes que não estão
associados a direitos mas sim a deveres – são poderes deveres.

As pessoas que são contratadas para atuar na sociedade estão lá para defender os
interesses dos sócios. As suas competências não devem ser exercidas por interesse
próprio mas sim alheio.
Os sócios têm uma posição orgânica originária, e os outros têm uma profissão
orgânica derivada. Os primeiros têm poderes e direitos potestativos, e os segundos
têm poderes deveres.

Art.64.º CSC – estabelece os deveres dos administradores:


- Al.a) dever de cuidado (= gestão);
- al.b) dever de lealdade.
-

O “governo das sociedades”:


O bom governo das sociedades interessa aos sócios, aos credores e à comunidade em
geral.

Os problemas relativos ao governo das sociedades resultam sobretudo de divergências


de interesses entre sócios e do fenómeno de separação entre a titularidade das
participações e da gestão (ou poder efectivo) – fenómeno de separação entre
propriedade (ownership) e controlo (control).

A falta de homogeneidade de interesses entre sócios é fonte potencial de conflitos. A


essa fonte somam-se as contradições entre os interesse tendenciais dos gestores e dos
sócios.

As reflexões sobre a melhoria do governo das sociedades têm incidido sobre os


titulares dos órgãos de administração – são vistos como administradores de coisa
alheia (agents). Daqui decorrem os chamados “agency costs” e agency problems.

Custos de agência (terminologia económica):


Por Jensen e Meckling.

Agency costs
Nas grandes empresas, há uma dissociação entre a propriedade e o controlo. Os
acionistas metem o dinheiro, mas quem gere não são os acionistas, grande parte das
vezes – são os administradores, os gestores.

21
Ter estes gestores envolve custos de agência. Há custos de vinculação (é preciso
contratá-los), custos de controlo (são precisos fiscalizadores para controlar os
administradores) e ainda custos sobre as perdas residuais (pode haver má gestão e os
administradores podem ser desleais). Estes agency costs convocam os tais poderes-
deveres na organização da pessoa colectiva.

Em suma - os sócios e acionistas têm custos de agência:


- Custos de contratação de gestores e administradores (custos de vinculação);
- Custos de controlo dos gestores e administradores (custos de controlo);
- Perdas residuais (matéria de extração de rendas);

Fidúcia (no Direito Americano, trust):


É uma figura do mundo jurídico com tradição nos países de common law e no mundo
germano. A fidúcia não existe no nosso CC. Mas existem na vida social contratos
semelhantes à fidúcia. Há uma desproporção entre meios e fins, e quando há poderes
de atuação não no interesse próprio mas no interesse de outrem, reclama-se do
fiduciário um dever de lealdade.

Diz-se que as pessoas com posição orgânica derivada têm uma posição fiduciária,
ideia que se reclama do fiduciário um dever de lealdade.
Nestas circunstâncias de fiduciário, é importante perceber que os poderes de lealdade
de que se falam, não são os deveres de lealdade do art.762.ºCC, mas deveres muito
mais fortes.

Financiamento através de capital alheio:


Qual a maneira mais eficaz de financiar a empresa? Capital próprio (dos sócios) ou
alheio (bancos, fundos de capital de risco)? Do ponto de vista do economista, isto
deve ser feito em função dos riscos relativos. Para um jurista, quando vamos ao
banco, temos uma taxa de juros fixada; quando pedimos a acionistas não é fixada
nenhuma taxa de juro. No longo prazo, a taxa de inflação é 3% e o mercado de capitais
costuma remunerar a uma taxa de 6%. Para um gestor, a opção é feita consoante
projeções.

A autonomia patrimonial e a limitação da responsabilidade dos sócios:

Cada sociedade é titular de um património que é separado dos património dos seus
sócios. Daqui decorre a responsabilidade limitada dos sócios, ou seja, a limitação da
responsabilidade dos sócios ao pagamento de contribuições para a sociedade a que se
obrigam – irresponsabilidade dos sócios pelas obrigações da sociedade.

Evolução histórica:

22
O processo que levou às sociedades de responsabilidade limitada foi longo e teve
como passo determinante a invenção das companhias privilegiadas. O que demorou
mais de dois séculos foi a plena extensão destas sociedades, ao campo da autonomia
privada, só no séc. XIX é que os Estados permitiram a constituição de sociedades por
ações em dependência de autorização casuística.

Só com a lei alemã de 1892 sobre as sociedades por quotas é que se iniciou no espaço
continental a facilitação da limitação da responsabilidade dos sócios nos pequenos
projetos.

A possibilidade de os comerciantes singulares alcançarem essa limitação de risco foi


dado com a criação das sociedades por quotas unipessoais.

A responsabilidade limitada é um dos alicerces do capitalismo. Sem ela o mundo não


seria o que é, pois não teria sido possível reunir capitais de modo a formar as
empresas gigantes que transformaram a economia e promoveram o desenvolvimento
tecnológico.
Em alguns casos porem o legislador impõe ao sócios, responsabilidade pelas
obrigações da sociedade:
- sociedade que domina totalmente outra: lei impõe responsabilidade pelas
obrigações da sociedade dominada (491º e 501º CSC).
- Sócio único da sociedade declarada falida nos termos do 84º CSC.

A esfera patrimonial do sócio não se confunde com a esfera patrimonial da sociedade.


Nas sociedades comerciais temos o art.5.º CSC onde é evidente a autonomia
patrimonial.
=/=
Nas sociedades civis não há um artigo que diga que têm personalidade jurídica. Se
respondem primeiro o património da sociedade.

Exemplo: Sociedade X, LDA; Sócios A e C;


Credor 1 (Banco) faz negócio com A - se A não cumpre, o Credor 1 pode penhorar todo
o património de A - 601ºCC, incluindo a sua quota2 na sociedade.
Mas n pode penhorar o património da X, LDA;

Se o Credor 2 tiver fornecido maçãs à X,LDA, vai poder penhorar todo o património da
X,LDA, ao abrigo do mesmo art CC- 601ºCC.

Limitação da responsabilidade dos sócios pelas dividas sociais


Nas SQ e SA, vigora a regra de ouro do capitalismo moderno da limitação da
responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais.
É a chamada regra da limitação da responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais.
Mas se formos a ver, esta regra nada tem de especial: a regra geral é de que cada
pessoa responde pelas suas dívidas.

2
Tratando-se de uma sociedade por quota. Se for uma sociedade anónima, penhoram-se ações.

23
Exemplificando, temos a sociedade X SA/quotas, uma mercearia, um credor C4
emprestou dinheiro para mobiliar, o C5 é um banco que emprestou dinheiro para
comprar a mercearia. O C5 tem uma hipoteca foi o primeiro a ser pago, quando o C4
vai reclamar já não há nada. A sociedade tem um património de 0 porque fora aplicado
para pagar ao C5. O que podem eles fazer? Podem demandar o A e o B? Se fosse uma
sociedade civil, podia, mas nas sociedades por quotas e as anónimas não podem.
A responsabilidade da sociedade fica na sociedade – falamos de uma limitação da
responsabilidade dos sócios pelas dividas. A regra base é que cada um responde pelas
suas dividas com o seu património.

Esta regra na história da humanidade é uma invenção recente. Nas sociedades


anónimas são 5 séculos, mas nas por quotas só surgiram na Alemanha em 1906. Esta
regra é relativamente recente.

Esta regra é a regra de ouro do capitalismo (procede a uma limitação do risco


facilitando a mobilização do capital).

Economia e externalização do risco nos credores


Está aqui presente a ideia de que quando crio um projeto empresarial vou usar uma
sociedade por quotas ou anónima e vou ter sempre a regra de outro do capitalismo,
em que o risco de montar uma empresa não é só dos sócios, como também dos
credores. Quando se começa uma atividade económica, começamos com pouco capital
próprio e muito capital alheio (que terceiros financiaram) - fenómeno de
externalização do risco dos credores.

Os contributos para a empresa foram dos sócios e dos credores que financiaram – há
uma externalização do risco dos credores.

Na prática: Há credores fortes que contornam esta regra do capitalismo, exigindo


garantias pessoais ao sócio, como um aval pessoal (ao abrigo do CCivil ou Comercial).
Nos credores fracos, nesse há externalização do risco.

Proteção dos credores

O mecanismo mais tradicional tem que ver com o capital social, é necessário ver as
ações e as quotas da sociedade. É também uma proteção externa da sociedade.
 Função Interna: peso das ações ou quotas nas sociedades; determinar peso
relativo dos sócios
 Função Externa: bitola para efeitos de variação do património. Se o património n
está acima desse valor, não pode haver distribuição de rendimentos; se o
património estiver acima, já é permitido distribuir bens aos sócios.

Ex: cifra de 50k, consta dos estatutos e constitui uma bitola nos estatutos. Se o
património for superior aos 50k, já é permitido distribuir lucros aos sócios, como uma

24
regra de proteção dos credores  falamos em principio da intangibilidade do capital
social.

A garantia dos credores sociais é o património, e esta é a regra geral. O capital social é
um número, uma cifra, que estão nos estatutos. Nada garante que dá para os
credores, mas serve de bitola para impedir a distribuição de lucro aos sócios.

Esta cifra é um mecanismo jurídico para fazer alguma proteção aos credores.

Hoje em dia é possível constituir uma sociedade por quotas com capital social de 1 ou
2€.

Se o capital como um mecanismo de proteção do credores é só este, então como é


que os credores se protegem?
Através da contabilidade, auditoria e informação ao mercado. O foco é exigir que as
sociedades tenham contabilidade organizada e que seja certificada por TOC’s, e depois
há uma publicidade das contas.

O capital social:
Cifra representativa da soma dos valores nominais das participações sociais fundadas
em entradas de dinheiro e/ou em espécie.

 Sociedades anónimas e em comandita por ações: 50 000€ (276º/5 e 478º);


 Sociedade por quotas: 1€ sociedade unipessoal, 2€ sociedades com dois sócios
(DL 33/2011 de 7 de Março);
 Sociedade em nome coletivo e comandita simples: também não é exigido um
capital mínimo.

FONTES NORMATIVAS

Quanto às fontes europeias,

25
Temos o direito europeu primário, TFUE, JP europeia, regulamentos, entre outros,
diretivas.

Quanto às fontes nacionais,


Diretivas de coordenação de direito das sociedades – a união é uma união económica
em que os protagonistas são as empresas, só é possível criar trocas inter comunitárias
se eu souber como é que uma empresa se vincula, por ex.

Ao nível das fontes internas a principal fonte é o CSC. Esta legislação foi objeto de
muitas reformas, a mais importante em 2006. Temos ainda o código de valores
mobiliários, relevante para as sociedades anónimas, que podem ser abertas ou
fechadas. Temos ainda o CIRE, relevante para os casos de insolvência. O código
comercial, o registo nacional de PC, e outra legislação especial que não respeita a
todas as sociedades comerciais mas a certas entidades.

 Soft law
As recomendações do mercado mobiliário são soft law, nao têm força de lei.

Quanto às fontes internacionais,


Os americanos e ingleses têm uma importância superior, existe uma concorrência de
ordens jurídicas, de capital.

1) FONTES EUROPEIAS:
a. TFUE
b. Regulamentos. Regulamentos que estabelecem figuras societárias europeias.
c. Diretivas. Mais relevantes que os regulamentos. Diretivas de coordenação em
matéria de Direito das Sociedades. Só pode haver um mercado único se
houver alguma harmonização em Direito das Sociedades, para que haja
concorrência e transações entre as diferentes empresas. A harmonização não
foi feita com regulamentos, mas com diretivas. Há diretivas que ficaram sob a
forma de proposta de diretivas, que, em todo o caso, influenciaram as
legislações nacionais. O nosso CSC é muito influenciado pela 5ª Proposta de
Directiva. Estas propostas não são fontes em sentido formal, mas em sentido
material.
d. Jurisprudência.
e. Propostas de diretivas.
f. European model company act – lei modelo

2) FONTES INTERNAS
a. Legislação
i. CSC. Grande reforma em 2006, que incidiu sobre os seguintes aspectos
estruturais: simplificação no que toca à constituição de sociedades e
registos; alteração das sociedades anónimas, estabelecendo várias

26
formas de governo societário; governação societária (corporate
governance – organização das grandes empresas, competência,
deveres dos administradores, esquemas de auditoria, deveres dos
fiscalizadores)
ii. CC (sociedades civis)
iii. Código de Valores Mobiliários – sociedades abertas (são sociedades
anónimas), cotadas na bolsa de valores. As grandes empresas, para
obter capital próprio, não se circunscrevem ao conjunto de sócios que
constitui a sociedade, mas vão ao mercado de capitais fazendo uma
oferta pública de venda. Quando uma empresa se lança na bolsa,
passa a estar sujeita a regras que visam proteger os investidores. É
também no CVM que estão reguladas as OPA (ofertas públicas de
aquisição).
iv. Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas – ao se
apresentarem à insolvência, são os credores que verão se a empresa
ainda é recuperável; se não for, liquida-se o património e o dinheiro é
entregue aos credores. Aplica-se não só a comerciantes, mas a todas
as empresas por causa do problema do anacronismo do Direito
Comercial. O CIRE também se aplica às sociedades civis, por exemplo.
v. Código do Registo Comercial – as sociedades comerciais e também as
empresas estão sujeitas ao registo comercial. No registo comercial, é
possível saber como se constituiu a sociedade, o seu capital social, se
foram prestadas contas e quem são os gerentes ou administradores.
vi. Registo nacional das pessoas colectivas.
vii. Regime jurídico das instituições de crédito e sociedades financeiras.
Instituições de crédito: bancos e familiares próximos. A entidade
supervisora é o Banco de Portugal.
viii. Regime jurídico das sociedades gestoras de participações sociais
(SGPS). Hoje em dia, as empresas vivem em grupos (empresa mãe –
empresas filhas). A empresa cúpula é muitas vezes uma SGPS; a sua
função é gerir as empresas filhas. Há sociedades gestoras de fundos de
investimento imobiliário e mobiliário.
ix. Regime jurídico da constituição online de sociedades.
b. Soft law (leis não vinculativas, recomendações): recomendações da CMVM;
Códigos de Conduta do Banco de Portugal aplicáveis a sociedades anónimas.
c. Jurisprudência – útil para perceber a law in action.

3) FONTES INTERNACIONAIS .

A matéria de Direito das Sociedades é muito internacional; há muito comércio internacional.


As soluções jurídicas tendem a ser globais. Os Estados soberanos estão em competição uns
com os outros para ver quem adopta melhores soluções.

27
No Direito das Sociedades, há também normas de DIP.

Nos EUA, em 1884, Model Business Corporation Act. Nos EUA, não existe um Direito das
Sociedades federal – não é feito nem pelo estado federal, nem pelos estados federados, mas
sim por associações de juristas. Principles of Corporate Governance. Ambos não são lei, são
soft law.

Inglaterra – Company’s Act (2006)


Alemanha – Leis das Sociedades por acções (1965) e lei das sociedades por quotas (1962)

Direito das Sociedades – 27.02.14

Apontamento Histórico:
A origem e evolução do direito das sociedades:
1. IMPÉRIO R OMANO - SOCIETAS ROMANA:
o Efeitos meramente internos;
o Sem personalidade jurídica, a sociedade nem sequer era vista como um
património autónomo.
o Tinha fraca relevância social, não era um contrato muito difundido.

Historicamente, a ideia de sociedade-contrato é anterior à ideia de sociedade-


entidade. Já em Roma havia a ideia de contrato – societas romana. Apenas dizia
respeito aos efeitos internos. Não aparecia como entidade autónoma perante
terceiros. Os sócios é que estabeleciam transações com terceiros e não a sociedade. A
sociedade ficava escondida na vida interna entre sócios.
Naquela época, o que havia de mais parecido com o negócio jurídico era a stipulatio
romana.
A societas não tinha personalidade jurídica (só surge na Idade Média), nem tinha
património. Para efeitos externos, surgiam só os sócios. A societas não tinha grande
relevância social; não era muito frequente.

2. SÉCULO XII – FIM DA IDADE MÉDIA, NASCIMENTO DE PEQUENAS SOCIEDADES COMERCIAIS


NO NORTE DE ITÁLIA :

28
No século XII, nas cidades italianas, surgem acordos entre comerciantes que vão dar
origem às sociedades em comandita e às sociedades em nome colectivo (ver Coutinho
de Abreu).

- Commenda, societas maris, collegantia: esta é a origem das atuais sociedades


em comandita. São acordos entre o comerciante marítimo e o investidor, o
primeiro convoca uma viagem marítima e o primeiro embora não participe nela
entra com os capitais.
Na sociedade em comandita, alguns sócios assumem a função de gestão
empresarial, outros são meros investidores. Hoje, há muito poucas sociedades
em comandita.

- Companhia ou societas mercatorum: ambos são sócios empresários, figura que


está na origem das sociedades em nome coletivo.

3. AS COMPANHIAS PRIVILEGIADAS :
A primeira companhia privilegiada foi a Companhia Holandesa das Índias Orientais
(1602). Nas companhias, o capital é fraccionado; existem títulos que correspondem ao
capital (ações). As fracções do capital são facilmente transmissíveis.

Aquilo que é hoje uma sociedade comercial em bolsa é muito semelhante a esta figura.
A grande inovação do capitalismo surge também a propósito desta figura: inexistência
de responsabilidade dos sócios.
Em Portugal, surge a companhia portuguesa das Índias Orientais em 1753. Esta figura
surgiu por iniciativa do poder público.

4. CÓDIGO COMERCIAL FRANCÊS DE 1807 (NAPOLEÓNICO).


Com o desenvolvimento da ideia de Estado-Nação, com as guerras napoleónicas,
temos um maior papel do Estado e, consequentemente, um maior movimento
legislativo. Este Código reúne na lei todo o direito que foi criado pelos comerciantes
de forma consuetudinária.

Em Portugal, há dois Códigos Comerciais a sucederem-se na história: 1833 (concebido


por Ferreira Borges) e 1888 (Código Veiga Beirão - não foi o único responsável,
contudo). Só uma parte reduzida deste Código é que ainda está em vigor. Nestes
Códigos, eram reguladas as figuras que hoje correspondem à sociedade em nome
colectivo, à sociedade anónima e à sociedade em comandita. A sociedade por quotas
ainda não existia.

5. SISTEMA DE LIBERDADE DE CONSTITUIÇÃO:


A meio do século XIX, surge uma mudança importante nas sociedades anónimas: o
sistema de concessão é substituído por um sistema de liberdade de constituição.
Antes, só podiam ser criadas se o rei autorizasse; a partir de certo ponto, achou-se por
bem conceder liberdade de criação destas grandes sociedades. Isto surge primeiro em

29
Inglaterra (onde ocorreu a Revolução Industrial), em 1844. Isto deu outro fulgor à
economia.
Em Portugal, isto só surgiu com a lei de 22 de Julho de 1867. Nesta data, ainda estava
em vigor o Código Ferreira Borges, ou seja, em relação às sociedades anónimas, este
Código foi alterado. Esta data é muito preciosa para Portugal, pois temos o primeiro CC
com abolição da escravatura.

A origem e evolução das Sociedades Anónimas:

ORIGEM DAS SA – COMPANHIAS PRIVILEGIADAS :


Está nas companhias coloniais. A primeira é a Companhia das Índias Orientais
holandesas de 1602.
Começam aqui os grandes pilares do capitalismo:
- Frações de capital com transmissibilidade como é o caso das ações atualmente.
Bomba de capital
- Limitação da responsabilidade por dívidas sociais;

Em Portugal – 1587, Companhia Portuguesa das Índias Orientais, nunca saiu do papel.
O comércio com as Índias era feito pelo Estado em nome do rei, sem que a burguesia
criasse uma companhia.
Só veio a existir de facto com o Marquês de Pombal em 1753 – intervenção régia
latina por oposição a uma burguesia holandesa.

EVOLUÇÃO:
Codificação liberal – Code de Comerce:
Esta codificação obedecia à regra dos 3S´s – código científico, sistemático e sintético.
Em Portugal temos o Código Comercial de 1877 de Ferreira Borges, depois substituído
pelo Código Comercial de 1888, o Código Veiga Beirão, que ainda hoje se encontra em
vigor.

De início as companhia privilegiadas eram regidas a um sistema de concessão – só


existiam aquelas que o rei quisesse. Em 1844 os ingleses criaram um sistema de
liberdade de constituição de SA. Isto foi um avanço importante, os burgueses
passaram a poder criar grandes avanços empresariais e podiam fazê-lo sem
autorização do rei.
Em Portugal esta inovação deu-se com a Lei de 22 de Junho de 1867 – Lei das
Sociedade Anónimas.

“OWNERSHIP AND CONTROL”:


EUA: Crescente dispersão de ações – cada vez maior bomba de capital. Por isso surge a
ideia da separação da propriedade e controlo (“ownership and control”) – isto surge
nos EUA em 1932 pela mão de Berle e Means. A ideia destes autores é de evitar que
pequenos administradores desviem fundos das empresas uma vez que não têm
interesse em transformá-los em dividendos que não irão receber.
Ainda assim os administradores são fiduciários dos acionistas e respondem perante
eles.

30
Ao longo do tempo, houve um aumento da dispersão das ações, no que respeita às
sociedades anónimas. O capitalismo foi florescendo. O protagonismo já não é em
Inglaterra. A partir de finais do século XIX, temos os EUA com empresas extremamente
grandes, com sociedades anónimas cada vez maiores.
Começou-se a teorizar nos EUA a ideia de separação entre propriedade e controlo
(ownership and control) – ideia de Berle e Means (1932). Olhando para o tecido
empresarial norte-americano, viram que as grandes empresas tinham uma dimensão
enorme e milhares de acionistas. E as pessoas que dominavam a empresa (CEOs) eram
pessoas que, tipicamente, tinham poucas ações - havia uma separação entre a
propriedade e o controlo. Algumas pessoas têm poucas ações, pouco investiram, mas,
mesmo assim, mandam; decidem o que fazem com o dinheiro de outros. Isto coloca
problemas de corporate governance.

Alemanha: Em 1937, surge, na Alemanha, a lei das sociedades por acções. Os


acionistas não se podem imiscuir em Assembleia Geral acerca de matérias de gestão, o
Conselho de Administração tem poderes plenos de gestão. Ideia de que as sociedades
anónimas não podem ser regidas em democracias não era uma questão conjuntural do
nazismo, o mesmo se passava nos EUA. Esta é uma questão consensual – não se pode
transformar uma grande empresa numa RGA.

Também na Alemanha, as empresas tinham grande dimensão. A ideia do legislador


alemão é que as grandes empresas não deviam ser geridas pelos pequenos
acionistas.
 Até 1937, vigorava a ideia de que os gestores eram mandatários dos acionistas
– a Assembleia Geral mandava e tinha poderes soberanos. Se houvesse algum
litígio, eram os acionistas a decidir o rumo que os gestores deviam seguir.
 A partir de 1937, os sócios não podiam opinar sobre matérias de gestão. Ideia
de direção pelo poder superior – democracia afastada. Mais importante do que
a democracia, era a eficácia da gestão. Hoje em dia, isto é questionado. Uma
directiva europeia: quando só temos pequenos investidores, estes não querem
interferir na gestão; é um mero investimento de bolsa; não têm tempo para
entrar na gestão da empresa. Hoje em dia, as grandes sociedades continuam a
ser geridas com separação entre a propriedade e o controlo. Em todo o caso,
este problema tem uma expressão reduzida em Portugal porque há poucas
empresas com uma grande expressão de capital.

“MANAGMENT AND CONTROL (= VIGILÂNCIA )”:


Os acionistas apesar de proprietários não têm o controlo, como se protegem? Existe o
Conselho de Administração mas deve haver outro órgão que controle a gestão –
“princípio dos dois olhos”, distinção entre gestão e controlo (=vigilância da gestão).
Jammeson e Famma distingue “management and control” – justificação para o sucesso
das SA nos EUA e outros países, empresas têm sucesso porque há uma separação
entre os órgãos de gestão e os órgãos de controlo.

Na Alemanha:

31
Os alemães foram os primeiros a pensar esta questão da separação de poderes, Lei
Comercial Germânica de 1844 – distingue-se um órgão de administração de um
órgão de supervisão.
Como se deu esta separação?
- órgão de gestão – administração;
- órgão de fiscalização – não tem meros poderes de fiscalização, nomeia e
destitui os administradores, autoriza os atos de gestão mais importantes,
estabelece a remuneração. Assim estes órgãos são respeitados.

Nos EUA:
Os americanos adoptaram esta ideia cerca de 100 anos depois – vários autores
americanos defenderam que o conselho de administração devia passar a ser um
modelo de vigilância – os executivos vão para fora do board of direction e este quadro
de direção passou agora a ter poderes de vigilância.

Em Portugal:
Em Portugal – Lei 22 de Junho de 1866 cria a possibilidade de se constituir um
Conselho Fiscal. No entanto este conselho não tem qualquer poder, não controlam
absolutamente nada, são “yes men”.

A gestão das sociedades anónimas divide-se em dois órgãos: um de gestão e um de


controlo. Uns gerem ativamente a sociedade, outros exercem um controlo, uma
fiscalização sobre os que fazem a gestão ativa. Esta ideia surge desde muito cedo nas
sociedades anónimas – logo nas companhias privilegiadas.
Fundamento: há muitos investidores que não têm tempo para controlar o que a gestão
faz. Assim, é preciso contratar os gestores e os controladores. Esta ideia de separação
entre gestão e controlo é muito realçada por E. Fama e M. Jensen.

Na Alemanha, desde 1884, que o legislador assumiu claramente que tinha de haver
um órgão de gestão e outro de supervisão.

Nos EUA, não foi pensado pelo legislador; nunca houve na lei esta separação; havia
apenas o conceito de administração (Board of Directors) e, na prática estatutária, o
Board of Directors foi dividido em dois: administrados delegados e administrados
delegantes e controladores. Estatutariamente, foi adoptado um modelo de vigilância.

Em Portugal, nunca adoptámos o sistema germânico com dois órgãos tal qual. Tivemos
uma coisa relativamente parecida, mas ineficaz: o Conselho Fiscal. A lei de 22/07/1967
criou a figura do Conselho Fiscal. Inicialmente, uma boa ideia. O problema está nos
pormenores. Na prática, tinha poucos poderes de controlo e fiscalização e não era
respeitado pelos gestores. Na Alemanha, tinha poderes importantes: nomear e
destituir os gestores executivos; para atos de gestão centrais era necessária
autorização dos controladores. Isto é que é um órgão de controlo com garras. Em
Portugal, o Conselho Fiscal não tem nenhum destes poderes – sistema sem garras.
Tem muito pouca eficácia de controlo.

32
Atualmente, fala-se muito na corporate governance das sociedades anónimas
portuguesas. Há poucas sociedades anónimas de grande dimensão. Tradicionalmente,
temos um órgão de controlo sem garras. A prática que ainda existe é uma prática sem
garras. Outra coisa que o órgão de controlo faz: fixa a remuneração. Em Portugal, isto
não existe.

A partir de 1986, com o actual CSC, tentámos fugir a esta tradição do Conselho Fiscal.
Previu-se que as sociedades anónimas pudessem ter a estrutura tradicional com
Conselho Fiscal ou que pudessem adoptar a estrutura igual à alemã. Mas houve muito
poucas sociedades a adoptarem o modelo germânico. Com a reforma de 2006,
também é possível adoptar o modelo americano. Em todo o caso, os esquemas que
estão previstos na lei portuguesa nunca têm as garras do modelo germânico.

A origem e evolução das Sociedades por Quotas:


Alemanha – 1892 – novo tipo de societas comerciais de pequenas dimensão, com o
limite da responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais. Isto foi ótimo para as PME
´s.

Portugal fez isto em segundo lugar.

12º Diretiva da UE de 1989 sobre sociedades por quotas unipessoais:


Inspirada no Regime alemão de 1980 – uma sociedade por quotas pode ter apenas
uma pessoa. Vantagem: estender a regra de outro do capitalismo.

Invenção do legislador alemão (1892). As sociedades em nome colectivo e em


comandita estabeleciam a responsabilidade subsidiária dos sócios, o que não era bom
para o desenvolvimento da economia. Assim surge esta nova figura das sociedades por
quotas.
Em Portugal, surgem em 1901.

Em 1989, 12º Diretiva de Coordenação da UE: sociedades por quotas unipessoais.


Antes desta Diretiva, tinha surgido na Alemanha e em França. Antes de Portugal
transpor a diretiva como deve ser, tivemos o Estabelecimento Individual de
Responsabilidade Limitada – figura parecida com uma sociedade por quotas
unipessoal, mas sem personalidade jurídica. Em vez de permitir que qualquer pessoa
pudesse criar uma sociedade por quotas unipessoal, o legislador português teve uma
ideia menos eficaz: não se cria uma sociedade; continua a ser o comerciante a celebrar
os negócios, mas vão ser canalizados para um património autónomo. Foi uma figura
sem relevância em Portugal. Sociedades por quotas unipessoais há milhares.

O que se espera da iniciativa comunitária nesta matéria? Criação de uma sociedade


por acções simplificada. Para além das sociedades por quotas e das sociedades
anónimas, para grandes empresas, no meio termo, uma sociedade por acções, mas
que ainda assim não é uma grande empresa. É capaz de ser criada brevemente pelo
legislador comunitário.
Também se espera legislação sobre corporate governance.

33
Notas:
O CSC é de 1986 sendo que os artigos do Código Veiga Beirão foram revogados.
Grande parte do regime das sociedades comerciais é novo por força das transposição
das diretivas europeias.

Reforma de 2006 – dois vectores:


- desburocratização da criação das sociedades comerciais e novas tecnologias;
- corporate governance: três modelos de organização das sociedades anónimas:
o Modelo tradicional latino com conselho fiscal;
o Modelo alemão – órgão fiscalizador com efetivos poderes
o Modelo anglo americano – fiscalização fica a cargo do quadro de
direção.
o Regra de proteção das decisões empresariais.

Direito da UE
RPD – páginas 179 - 224

Direito Primário:
Quando se fez o primeiro Tratado da CEE, a ideia de mercado comum implicava uma
aproximação das legislações dos diversos Estados-membros.
Vectores importantes:
 liberdade de estabelecimento das empresas (para haver mercado comum, não
basta a livre circulação de produtos);
 segurança jurídica nas operações intracomunitárias.

Problemas de vinculação: uma pessoa quer contratar um fornecimento com uma


empresa belga. Corre-se o risco de a pessoa que assinou do lado deles afinal não
vincular a sociedade? É preciso conhecer o registo comercial na Bélgica, como é que a
sociedade se vincula, etc  Necessidade de harmonização em função da necessidade
de redução de custos.

TFUE:
- artigo 49º Liberdade de estabelecimento em toda a UE
- artigo 50/2g), coordenação de garantias para proteção de sócios e 3os – para
se garantir um mercado comum é necessária coordenação nesta matéria.
- artigo 54º - princípio da equiparação;
- artigo 55º - igualdade de tratamento dos titulares de capital;

34
Direito secundário:

I. DIRETIVAS DE COORDENAÇÃO :

1. Publicidade, vinculação e nulidade dos contratos de contratos de sociedade


(1968);
2. Constituição de sociedade anónimas de conservação do capital social (1967);
3. Fusão de sociedades anónimas;
4. Contas anuais;
5. Estrutura orgânica e deveres dos administradores (apenas um projeto).
Problema: co-gestão – em grande parte dos países da UE os trabalhadores têm
um assento nos órgãos das sociedades comerciais;
6. Cisões: uma sociedade divide-se e dá origem a duas ou mais sociedades;
7. Contas consolidadas nos grupos de sociedade – as sociedades têm de prestar
contas ao público. As contas da empresa mãe comportam as contas das filhas;
8. Fiscalização da contabilidade;
9. Grupos de sociedade (apenas um projeto);
10. Fusões Transfronteiriças;
11. Publicidade das Sucursais (empresas noutros países);
12. Sociedades Unipessoais;
Ofertas Públicas de Aquisição – via hostil de aquisição de uma sociedade com capital
disperso – é feita uma oferta a todos os investidores, ainda que contra a administração
maioritária.
Isto gera vários problemas: autores americanos defendem o virtuosismo de um
mercado de administração de empresas. As empresas que estão a ser mal geridas é
que ficam mais vulneráveis a uma OPA e é provável que e empresa seja melhor gerida,
por outro lado a OPA oferece um preço mais alto aos acionistas.
Na UE isto é sensível, as OPA nas UE favorecem os grandes países em detrimento dos
países mais pequenos.

13. Diretivas dos direitos dos acionistas nas sociedades quotadas – não é uma
democracia é uma plutocracia que pode ser oligárquica ou não oligárquica.

Esta diretivas podem colocar problemas de correta transposição ou não.

1) 1968, entretanto substituída pela Dir. 2009/101/CE – diretiva sobre


publicidade, vinculação e nulidade das sociedades. Aprovou coisas básicas
entretanto transpostas para o CSC. As sociedades comerciais têm de estar
obrigadas a publicidade; saber quem vincula (um administrador ou mais); art.
42º CSC – o elenco de causas de nulidade é expressão de que a sociedade não é
um mero contrato; é uma entidade que perdura.

2) 1977, entretanto substituída pela Dir. 2012/30/CE – sobre constituição de


sociedades anónimas e conservação do capital social. Para conseguir um
mercado comum, convém proteger os terceiros, nomeadamente através da
ideia de capital social como cifra estatutária que funciona como um alarme. A

35
Directiva de 2012 recuou um pouco em relação à directiva anterior – não deixa
de haver capital social (não apenas com a função interna, mas também com a
função externa de protecção dos credores), contudo, como o capital social
mínimo é ínfimo, as regras não servem de nada.

3) 1978, substituída pela Dir. 2011/35/CE – sobre a fusão. Duas sociedades (ou
mais) fundem-se, unem-se e criam uma única sociedade. Exemplo: a Zon e a
Optimus estão agora em fusão.

4) 78/600/CE, alterada pela 2006/43/CE – sobre contabilidade, prestação de


contas. Mecanismo importantíssimo para proteger os credores.

5) Sobre a estrutura orgânica. Nunca passou de proposta; nunca foi aprovada.


Discutiu-se se os trabalhadores das empresas deviam participar nos órgãos da
sociedade – a chamada co-gestão. Na altura do 25 de Abril, surgiram leis sobre
co-gestão. Com a extinção do PREC (anos 80), deixou de haver esta co-gestão
nas empresas portuguesas. No entanto, na Alemanha e noutros países
europeus, há esta ideia de co-gestão. Metade do órgão de supervisão é
constituído por trabalhadores.

6) 82/891/CE - sobre cisões. Cisão é o oposto de fusão. Na cisão, uma sociedade


divide-se em duas ou mais.

7) 83/248/CE, alterada pela 2006/43/CE – sobre contas consolidadas de grupos


de sociedades. Contas em grupos de empresas. A empresa-mãe tem de prestar
contas não só da sua empresa, mas das empresas-filhas.

8) 84/253/CE, alterada pela 2006/43/CE - sobre fiscalização da contabilidade


(auditoria, revisores oficias de contas, etc.).

9) Não passou de proposta. Sobre grupos de sociedades.

10) 2005/56/CE – fusões transfronteiriças – entre empresas de diferentes Estados-


membros.

11) Sobre publicidade das sucursais. Sucursal: empresa de um EM que resolve


trabalhar noutro EM; não chega a criar outra empresa.

12) 89/667/CE – Sociedades Unipessoais

36
13) 2004/26/CE - sobre OPAs. Há uma empresa cotada em Bolsa; qualquer pessoa
pode dizer aos accionistas que quer comprar todas as acções.
Ofertas Públicas de Aquisição – via hostil de aquisição de uma sociedade com
capital disperso – é feita uma oferta a todos os investidores, ainda que contra a
administração maioritária.
Isto gera vários problemas: autores americanos defendem o virtuosismo de um
mercado de administração de empresas. As empresas que estão a ser mal
geridas é que ficam mais vulneráveis a uma OPA e é provável que e empresa
seja melhor gerida, por outro lado a OPA oferece um preço mais alto aos
acionistas.
Na UE isto é sensível, as OPA nas UE favorecem os grandes países em
detrimento dos países mais pequenos.

14) 2007/26/CE - diretiva dos acionistas das sociedades cotadas – dar mais
direitos aos acionistas para promover a democracia (rectius, plutocracia) nas
sociedades. O voto não é atribuído por pessoa, mas sim por fracção de capital.

Até determinada altura (1984 – 8ª Dir.), muita harmonização. A partir daí, só pequenas
harmonizações.

II. REGULAMENTOS :

1) CE/2137/85 – agrupamento europeu de interesse económico. Duas ou mais


empresas de diferentes EM juntam-se para fazer um projeto comum. Figura
parecida com a sociedade.
2) CE/2157/2001 – societas europeia. Figura transnacional que corresponde a
uma sociedade anónima com o cartão de identificação europeu. Grandes
empresas que não têm sede estatutária de um EM; têm cidadania europeia.
3) CE/1435/2003 – sociedade cooperativa europeia. Na cooperativa, os sócios
não pretendem obter lucros propriamente, mas antes outras vantagens.
Cooperativa de habitação – não querem vender os apartamentos; querem ficar
com os apartamentos por um preço mais baixo.
4) CE/1606/2002 e 1126/2008 – normas internacionais de contabilidade.

III. JURISPRUDÊNCIA EUROPEIA:

Problema de liberdade de estabelecimento:


1. Acórdão Centros – dinamarquês que estabeleceu uma pequena sociedade em
Inglaterra e depois quis trabalhar na Dinamarca. Não lhe foi permitido o registo
da sociedade na Dinarmarca com o argumento de que este senhor estava a
proceder a uma fraude à lei dinamarquesa como fuga ao capital social mínimo.

37
TJUE – clara ofensa à liberdade de estabelecimento, as regras sobre o capital
social perderam a sua proteção com este acórdão Centros – declínio da função
externa do capital social.

2. Uberseering;
3. Inspire Art;
4. Sevic;
5. Cartesid;

Conclusão: O que importa é o regime do local de constituição da sociedade e não o da


sua sede efetiva.

Problema de concorrência entre legislações:


Isto é um caminho virtuoso ou não? Exemplo: nos EUA todas as grandes sociedades
têm sede no Delaware em busca do regime societário do Delaware, código com pouca
regulamentação que admite grande margem de liberdade dos sócios maioritários – lei
mais laxista.

Na Europa a “guerra” faz-se entre Londres e Haia.

Com esta interpretação do art. 49º do TFUE, passou a ser menos relevante o critério da
sede efetiva, para ser mais relevante o da sede estatutária (efeito Delaware). Discute-
se se esta jurisprudência cria um movimento positivo ou negativo.

Delaware: um Estado americano onde a maioria das sociedades cotadas tem a sua
sede porque é mais amigo dos sócios das grandes acionistas. Na federação dos EUA,
houve uma grande liberdade quanto ao regime societário. Sobre direito dos valores
mobiliários (bolsas) já existe direito federal. Na legislação societária que regula os
direitos dos sócios, as regras de protecção dos credores, a estrutura orgânica das
sociedades, etc. não existe uma lei a nível federal, todos os Estados federados têm as
suas próprias leis.

Os Estados estão em concorrência quanto ao estabelecimento das empresas. Muitas


vezes, diz-se que é por razões fiscais. Parece que não é assim. Para efeitos fiscais, não
releva o local de constituição. As sociedades constituem-se no Delaware e quando têm
litígios vão para os tribunais deste Estado. O Direito do Delaware é mais apetecível
porque tem muitas regras de proteção dos sócios maioritários; tem poucas regras de
proteção dos credores. Neste movimento liberal e de concorrência entre Estados para
ver qual fica com mais empresas, há pessoas que são da opinião de que nos EUA houve
uma evolução positiva. Para outros, com preocupações menos liberais, a corrida do
Delaware foi uma “race to the bottom” – os sócios minoritários e os credores ficaram
menos protegidos. No final do dia, contudo, todos ganhámos mais riqueza; investiu-se
mais. Nos EUA prevaleceu o pensamento mais liberal, por isso, é o estado onde a
maioria das empresas tem a sua sede.
Na Europa, neste momento, está a produzir-se um efeito Delaware, na sequência da
jurisprudência acima referida. Constitui-se uma sociedade onde se quiser. Protecção

38
de credores – o capital social é baixíssimo; prevalece a ideia de mão invisível do
mercado.

Direito Sociedades – 03.03.15

Tipos de Sociedades Comerciais:


Considerações introdutórias:
- Princípio da Tipicidade das Pessoas Coletivas
- Distinção entre conceito fechado e tipo ou conceito aberto
- Grau de liberdade de estipulação estatutária (art 9º, nº3)

Diferentes tipos de sociedades comerciais:

Tipo e tipicidade têm vários significados. O significado aqui convocado é o de


tipicidade enquanto numerus clausus, elenco taxativo.

Princípio da tipicidade das pessoas colectivas – não podemos inventar pessoas


colectivas; só podemos criar uma já prevista na lei. Existe aqui uma restrição muito
forte a um artigo do CC onde está prevista a liberdade de estipulação – art. 405º CC.

O mesmo acontece nos direitos reais, por razões de protecção de terceiros. Também
nas pessoas colectivas, estão em jogo interesses não só das pessoas que criam as
pessoas colectivas, mas os interesses de terceiros que vão conviver com a pessoa
colectiva. Joga-se a segurança no tráfego jurídico. É necessário proteger os terceiros,
nomeadamente, os credores, os trabalhadores.
Por conseguinte só se podem formar sociedades comerciais se encaixarem nas
figuras recortadas na lei. Existe uma impossibilidade de constituir pessoas colectivas
atípicas. Entre as atípicas, estão também as mistas.

Tipo pode também usar-se para distinguir do conceito fechado.


Exemplo de conceito fechado: Conceito de maioridade - conceito que não é tipológico;
é um conceito fechado; ou se tem menos ou mais de 18 anos.

Há outros recortes legais que não são tão preto e branco: não temos conceitos
fechados, mas características mais cinzentas. Há conceitos classificatórios fechados e
há conceitos tipo mais vagos, que têm características mais fluidas.

Exemplos de conceitos tipológicos:


 Noção de sociedade por quotas - sociedade em que cada sócio tem uma quota;
por regra, uma sociedade por quotas tem um regime em que é difícil de
transmitir a quota. Mas a lei permite que, no estatuto, se altere esta regra.
Tanto é sociedade por quotas uma com regime mais fácil de transmissão como
uma com um regime mais difícil de transmissão.

39
 Regime do jogo ou de aposta – a lei não define bem; as suas características são
fluidas.

Estes dois conceitos são tipológicos em vez de conceitos fechados. A noção de tipo
interessa para o direito das sociedades porque existe o princípio da tipicidade das
pessoas colectivas e, dentro das pessoas colectivas típicas, temos conceitos
tipológicos (meio termo entre uma definição legal muito pormenorizada e a ausência
de definição legal). Isto está relacionado com a liberdade de estipulação.

Tipo vs. Conceito:


Um conceito em sentido estrito é definível mediante a indicação de todas as notas
distintivas que o compõem, um fenómeno é subsumido a conceito “só e sempre que”
todas as notas caracterizadoras deste se verifiquem naquele.

Um tipo descreve-se através de indicação que não tem se ser exaustiva, de notas
características, umas eventualmente imprescindíveis, outras meramente indiciárias ou
sintomáticas. Um fenómeno para corresponder ao tipo não precisa de conter todas as
notas características com que este é descrito.

 Num tipo, há características muito difusas. Há tipos mais abertos e tipos mais
fechados.
 Quando o legislador estabelece de forma muito clara as características,
trabalha com um conceito.

Os tipos societários são modelos ou formas diferenciadas de regulação de relações não


determinados conceitual-abstractamente mas antes por conjuntos abertos de notas
características. Aproximam-se dos conceitos pelos facto de terem notas essenciais.

Art. 1245º CC - o legislador não define jogo ou aposta. Estamos perante um conceito-
tipo, com características fluidas.
Art. 874º CC – a definição de compra e venda é muito mais pormenorizada do que a
definição de jogo ou aposta. Estamos perante um conceito classificatório de compra e
venda.

Os conceitos de sociedades comerciais são sempre relativamente abertos. Neste


sentido, diz-se que os conceitos de sociedades comerciais constituem conceitos-tipo. É
esta a segunda acepção de “tipo” (a primeira é a de numerus clausus).

Art. 9º/3 CSC – liberdade de estipulação no âmbito das sociedades comerciais:


- Os preceitos imperativos da lei não podem ser afastados;
- os estatutos podem afastar-se das leis dispositivas (não injuntivas);
- se os estatutos o permitirem pode dar-se o afastamento por mera deliberação
dos sócios;

Se os estatutos violarem normas imperativas, estamos perante um problema de vício


do negócio jurídico dos estatutos. Aplicam-se as regras da redução dos negócios
jurídicos.

40
Sendo as diferentes sociedades comerciais todas conceitos-tipo, há sociedades com
fronteiras mais rígidas e outras com fronteiras mais fluidas.
Nas sociedades anónimas, o regime é em grande medida injuntivo porque estas
sociedades têm, tipicamente, muitos sócios. É necessário que as regras sejam fixadas
de forma clara pelo legislador para que todos os sócios possam saber com o que
contar.

Em contraponto, nas sociedades por quotas, temos um reduzido número de sócios.


Assim sendo, não faz sentido ter um regime legal tão injuntivo. O regime é muito mais
dispositivo. As sociedades por quotas são conceitos-tipo mais abertos do que as
sociedades anónimas; são o tipo com mais elasticidade.

Devemos ter em conta três critérios caracterização – abrangem todas as sociedades


comerciais (Coutinho de Abreu):
1. Responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais;
2. Modos de representação e de transmissão das participações sociais;
3. Estrutura orgânica;

1. Responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais:

Sociedade em nome coletivo:


Artigo 175º/1 CSC
Responsabilidade dos sócios perante a sociedade: Cada sócio responde pelo
cumprimento da respectiva entrada a que se obrigue (dinheiro, espécie ou indústria).
Responsabilidade dos sócios é subsidiária em relação à sociedade e solidária entre si.
Daqui decorre que os credores da sociedade só podem exigir o pagamento aos sócios
depois de excutido o património social. Por outro lado, após a excussão prévia, podem
exigir de qualquer sócio o pagamento da dívida por inteiro.
No momento em que surge a responsabilidade dos sócios, ou seja, depois de
responsabilizada a sociedade, se houver mais do que um sócio, todos os sócios
respondem em regime de solidariedade – todos os sócios respondem pela titularidade
do valor em vida.

41
Sociedade por quotas:

Responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais - artigo 197º/3: Só o património


social responde pelos credores – não há responsabilidade dos sócios pelas dívidas
sociais.
Artigo 198º - Pode ser estipulado nos estatutos uma responsabilidade até
determinado montante, subsidiária ou solidária – no entanto isto nunca é feito!
O que acontece é que os credores “fortes” (bancos) quando fazem empréstimos à
sociedade exigem garantias pessoais a alguns sócios que apenas beneficiam aquele
credor, e não todos os credores. Note-se na diferença substancial desta e daquela
estipulação: nesta o credor responde apenas perante um credor; naquela, responde
perante todos os credores.
=/=
Responsabilidade dos sócios perante a sociedade - 197º/1 e 2: sociedade por quotas
tem um capital social mínimo. Exemplo: dois sócios, capital social de 10€ e quotas para
cada um de 5€. Se apenas um meter 4€ são ambos responsáveis solidariamente pelos
restantes 6€ - a responsabilidade dos sócios pelas entradas sociais não se pode
confundir com a responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais.

Sociedades anónimas:

Responsabilidade dos sócios perante a sociedade:


Artigo 271º
“cada sócio limita a sua responsabilidade ao valor das ações que subscreveu” – o valor
das ações é o valor por que foram postas à subscrição que não pode ser inferior mas
pode ser superior ao valor nominal das mesmas.

Responsabilidade dos sócios pelas dívidas sociais:


Diz o art.271º que os sócios não respondem pela dívida, apenas pelas participações
sociais, e o regime é injuntivo, não tem qualquer exceção. É uma característica muito
forte das sociedades anónimas e a regra de ouro do capitalismo moderno.

Sociedade em comandita:
Artigo 465º, 474º e 478º
Dois tipos de sócios:
- Comanditados (sócio empresário): a quem é atribuída a gestão da empresa.
Estes sócios têm um regime semelhante às sociedade em nome coletivo,
respondem pelas dívidas sociais subsidiariamente face à sociedade, e
solidariamente face aos restantes.
- Comanditários (sócio investidor): meros investidores que conferem a
administração da empresa aos comanditados. Aqui a regra é a das SA -
irresponsabilidade pelas dívidas sociais.

Note-se que o art.465º/2 diz que o sócio comanditado pode ser uma sociedade por
quotas ou anónima, ou seja, o sócio da sociedade por quotas ou anónima está

42
protegida por vigora a regra da irresponsabilidade dos sócios. Quer isto dizer que se a
sociedade por quotas (sócio comanditado da sociedade comandita) não tiver
património, os credores não poderão atacar o património do sócio da sociedade por
quotas ou anónima.
Vantagem: conjugação deste tipo de sociedade em comandita com uma sociedade por
quotas – a comanditada é uma sociedade por quotas e assim é esta que responde
pelas dívidas sociais, os seus sócios não respondem.

Atenção:
Este programa é alterado quando ocorrem certas situações:
- Declaração de insolvência de sociedade reduzida a um único sócio: responde
ilimitadamente e a título principal (artigo 84º).
- Sociedades em relação de grupo, a sócia-sociedade totalmente dominante é
responsável para com os credores da sociedade dominada ou subordinada.
(491º/501º).

2. Modos de representação e de transmissão das


participações sociais:
Participação social – conjunto unitário de direitos e obrigações atuais e potenciais do
sócio.
Possibilidades de transmissão das participações:
a) Transmissão por morte:

Sociedades em nome coletivo:


Artigo 182º
Chama-se parte à participação social nas sociedades em nome coletivo. Esta parte
pode corresponder a uma participação com bens ou com serviços, opondo-se assim os
sócios de indústria aos sócios de capital.

A parte social só pode ser transmitida por ato entre vivos (oneroso ou gratuito, para
sócio ou não sócio) com o expresso consentimento de todos os outros sócios – regime
extremamente restritivo de transmissão de participação em sociedade. Esta é uma
sociedade extremamente gregária – as pessoas têm enorme ligação umas com as
outras.

Transmissão por morte – possível nos termos do 184º/1 e 2.

A participação social de uma pessoa tem um regime muito restritivo de transmissão , o


que faz diminui o valor de mercado dessa participação.

43
Sociedade por quotas:

Artigo 197º/1: Participações sociais têm o nome de quotas.


Artigo 202º/1: Não são admissíveis contribuições de serviços – não há sócios de
indústria;

Artigo 219º/7: não podem ser emitidos títulos de participação social. A titularização
simplifica a venda, criando mercado em grosso para os produtos. As ações podem ser
objeto de emissão de títulos, as quotas não.

Transmissão por morte: Falecendo um sócio a regra é a da transmissão da respectiva


quota para os sucessores (225º/1 e 226º).

Regime de transmissão das quotas inter vivos:


Artigo 228º e 229º
A transmissão de quotas é em regra livre quando realizada entre cônjuges,
ascendentes e descendentes ou entre sócios (228º/2 2ª parte).
Fora destes casos, a transmissão de quotas depende do consentimento da sociedade
(da maioria dos sócios).

Estas são regras supletivas, os estatutos podem dispor de forma diferente. Estas regras
podem ser derrogadas pelo estatuto social, que tanto pode reforçar o relativo
fechamento da sociedade por quotas como abri-la mais à possibilidade de saídas e
entradas de sócios.

Que leitura devemos fazer deste regime?


- Não é tão restritivo como as sociedades coletivas;
- Não é não dado à transmissibilidade das ações como as SA;
- Regime estatutário muito plástico que permite um grande aumento de
transmissibilidade das quotas – este é um aspecto que faz com que as
sociedades por quotas sejam um tipo muito elástico.

Devido a isto, as sociedades por quotas podem ter regimes muito diferentes.

Sociedades Anónimas:

Artigo 271º - Participação social é por ações.


Artigo 277º - as entradas têm de ser em bens, não são admitidos sócios de indústria;
Artigo 328º - a regra é a da livre transmissibilidade das ações, no entanto não é
totalmente injuntiva, é possível restringi-la, embora não muito.
No respeitante a ações nominativas pode o estatuto estabelecer limitações à sua
transmissão, subordinando-a ao consentimento da sociedade.

44
Está aqui previsto um mínimo de elasticidade, pode haver uma sociedade mais
familiar, com limitações à transmissibilidade e portanto com um carácter mais
gregário. No entanto o paradigma das SA não é esse mas antes as grandes sociedades
com livre transmissibilidade da sua participação social.
Artigo 1º do Código dos Valores Mobiliários – são valores mobiliários as ações.

Transmissão por morte: transmissão mortis causa das ações rege-se em regra pelo
direito comum das sucessões.

Sociedades em comandita:
Comanditados:
Artigo 469º/1
Em relação aos comanditados as participações sociais são as partes. Estes são sócios
empresários, podem entrar com bens e com serviços.

A transmissão das partes depende do consentimento dos outros sócios por


deliberação, sem prejuízo de cláusula estatutária (469).

Comanditários:
Artigo 475º e 478º
Divisão entre sociedades em comandita simples e sociedades em comandita por
ações – esta divisão faz-se sentir sobretudo no regime jurídico dos sócios
comanditários.
- Nas sociedades em comandita simples, os sócios comanditários tem também
partes e quanto à transmissão aplica-se o regime das sociedade por quotas
(475º).

- Nas sociedades em comandita por ações as participações sociais dos sócios


comanditários são ações e aplica-se o regime das sociedades anónimas (478º).

Devemos então distinguir os sócios comanditados dos sócios comanditários e depois


distinguir ainda as sociedades em comandita simples e as sociedade em comandita por
ações.

Transmissão por morte – possível nos termos do 184º/1 e 2 por remisão do 469º/2.

3. Estrutura orgânica:
Ver Coutinho de Abreu 57 - 61
Órgãos – centros institucionalizados de poderes funcionais a exercer por pessoa ou
pessoas com o objetivo de formar/exprimir vontade juridicamente imputável às
sociedades.

45
Diferentes órgãos sociais segundo competência:
- Órgãos deliberativos (Assembleia geral);
- Órgãos administrativos/representativos (Gerência e Conselho de
Administração);
- Órgãos fiscalizadores (fiscal único ou conselho fiscal);

Sociedades em nome coletivo:

Artigo 191º - os sócios são gerentes salvo estipulação estatutária. Os estatutos


podem dispor diferente:
- podem haver sócios não gerentes;
- podem haver gerentes não sócios;

Existe no entanto uma tendência em não haver dissociação entre os órgãos e a


gerência dos órgãos - os próprios órgãos de gerência e conjunto dos sócios
confundem-se.

Não há um órgão de fiscalização.

Artigo 190º - são democracias não são plutocracias – este voto não é atribuído em
função da participação no capital social. O poder é atribuído em função da pessoa não
é atribuído em função do investimento.

Sociedades por quotas:

Artigo 252º/1 – os gerentes podem ou não ser sócios. É frequente que sejam ambos -
sócio-gerente - mas podem não o ser. A tendência é para uma dissociação efetiva
entre o órgão gerência e o órgão conjunto dos sócios.

Artigo 262º - É possível a existência de um órgão de fiscalização (Conselho Fiscal).


Um dos membros efetivos do CF, bem como o fiscal único, devem ser revisores oficiais
de contas e não podem ser sócios. No entanto isto é raríssimo em Portugal, na
Alemanha é frequente graças ao fenómeno da co-gestão.
Apesar de não haver na prática um conselho fiscal, a sua estrutura é muito mais
complexa do que a das sociedades coletivas.

Artigo 250º/1: este não é uma democracia, antes uma plutocracia. Quem pôs mais
dinheiro tem mais poder.

Artigo 259º: os gerentes devem praticar os atos de gerência com respeito pelas
deliberações dos sócios – os gerentes recebem instruções dos sócios.
Instrução é um negócio jurídico unilateral que modela o dever de gerir dos gerentes.

46
Sociedades anónimas:

Artigo 390º/3 – administradores não têm de ser sócios, podem ser ou não ser. Não
são escolhidos por serem sócios, são escolhidos por serem competentes e terem
capacidade de criar a maior quantidade possível de dividendos entre sócios.
Há sociedades anónimas com matriz mais fechada mas o grande paradigma é a
sociedade com forte relevância de capital – não interessam as pessoas interessa o
dinheiro.
Artigo 405º/1 – em regra o Conselho da Administração não está subordinado às
deliberações dos acionistas.

Artigo 384º/1 – cada ação corresponde a um voto. Assim sendo, o voto não é atribuído
por pessoa mas antes pelo capital. É uma plutocracia. Também existem mecanismos
de restrição ao voto – é preciso ter determinado montante para poder votar.

Artigo 272º/ 2 e 3: Ao contrário das sociedades por quotas, não podem haver
instruções dos sócios para a direção. Há uma autonomia decisória por parte da
administração. Os administradores não têm de ser sócios, eles é que têm iniciativa de
gestão.

As SA devem ter sempre órgãos de fiscalização. A par do conselho de administração


têm fiscal único (ROC, não sócio) ou conselho fiscal (278º/1 a).

A complexidade orgânica é muito maior: existem 3 modelos de estrutura orgânica


distintos.

- MODELO TRADICIONAL OU LATINO:


Existe o Conselho de Administração e o Conselho Fiscal – sendo que este tem meras
funções de fiscalização. Não é um órgão de supervisão mas antes de mera fiscalização,
não tem os poderes extra.
Existe desde 1867 – modelo tradicional português, menos eficaz.

- MODELO GERMÂNICO :
Surgiu em 1986 com a entrada em vigor do CSC. Para além do conjunto dos sócios,
existe o Conselho de Administração Executivo e Conselho Geral e de Supervisão.
Pode ainda haver um revisor oficial de contas, embora este seja um órgão externo.
O órgão de supervisão fiscaliza e tem por regra as funções de nomeação e destituição
dos administradores e ainda fixar remuneração.

Em Portugal temos o Conselho Geral e de Supervisão que assume as mesmas funções.


No entanto pode não ser assim, mediante cláusula estatutária em sentido diverso.
É por terem estas funções extra que se diz que este órgão tem mais “garras”

- MODELO ANGLO AMERICANO :

47
Existe desde 2006 – grande reforma do CSC;
EUA seguiram a ideia alemã a alteraram a sua prática estatutária: a direção funciona
como um conselho fiscalizador (Board of directors) e afasta-se daqui o CEO, CFO.

E nós? Temos o Conselho de Administração e a Comissão de Auditoria – esta última


encontra-se dentro do Conselho de Administração.
Membros da comissão de auditoria, fazem parte do Conselho de Administração mas
enquanto sub-órgão assumem só poderes de fiscalização.

Difere do modelo tradicional pois tem mais garras – os membros da comissão da


auditoria sentam-se no conselho de administração, logo acompanham as decisões
mais de perto e tomam as decisões mais importantes.

Os membros da Comissão de Auditoria não podem ser administradores executivos.


Isso faz com que na prática, nestes casos, o Conselho de Administração tem uma
Comissão de Auditoria e tem ainda, separadamente uma Comissão Executiva.
É possível dentro do Conselho de Administração criar comissões, delegar poderes –
esta é uma complexidade muito mais elevada do que as restantes sociedades
comerciais.

As sociedades que adoptem a estrutura organizatória de tipo germânico, devem ter, a


par do Conselho de Administração, o Conselho Geral e de Supervisão.

Sociedade em comandita:

Artigo 470º - só os comanditados podem ser gerentes, salvo cláusula estatutária.

Sociedade em comandita simples  remissão para o regime das sociedades coletivas;


Sociedade em comandita por ações  remissão para o regime das SA.

Atenção: estas remissões são diferentes em relação às remissões que há na parte da


transmissibilidade das partess/ações.

Tipicidade social:
Existem tipos que são discutidos pela doutrina em função da realidade sociológica e da
realidade estatutária.

48
Na vida real surgem sociedades que pertencem a um destes tipos legais, mas é
possível aprofundar a análise para lá dos tipos legais e ver se estes são tipos sociais. Há
sociedades de pessoas e sociedades de capitais.

Sociedade em nome coletivo - paradigma da sociedade de pessoas:


Coutinho de Abreu – p. 67
- transmissibilidade perante unanimidade;
- um voto por pessoa;
- etc.

Sociedade anónima - paradigma da sociedade de capital:


- não interessam as pessoas o que interessa é o dinheiro;
- livres transmissibilidade de ações;
- voto em função do número de ações;

Sociedades por quotas – tipo elástico:


- há quem diga que é uma sociedade de capitais e há quem diga que é uma
sociedade de pessoas;
- o voto é em função do capital;
- é sobretudo elástico e daqui podem decorrer vários tipos sociais. Pode o contrato
de sociedade criar uma sociedade de quotas com limitações acrescidas à
transmissibilidade, ou, se por outro lado se afastarem todos os impedimentos à
livre transmissibilidade de quotas, aproxima-se de uma SA.

Subtipos em relação aos tipos legais:


Sociedades anónimas abertas:
Artigos 13º e seguintes do Código dos Valores Mobiliários
Pertencem ao tipo legal de sociedade anónimas e são ainda abertas, pelo que se aplica
o CVM.

Sociedades abertas:
o logo que estão a ser constituídas há um apelo à participação do público;
o são abertas a aquisição na bolsa de valores, ou seja no mercado regulamentado;

São sociedades especialmente abertas para o mercado de capitais, designadamente


aos mercados da bolsa, colocam ações e onde os investidores e os sócios adquirem e
alienam ações. São sociedade com o substrato pessoal muito amplo e disseminado –
um pequeno grupo de acionistas consegue formar um estável “grupo de controlo”.

Sociedades fechadas:
São em regra sociedades por ações que embora tipicamente abertas, são compostas
por um só acionista (sociedades filhas) ou por um número restrito de sócios.

Sociedades gestoras de participações sociais:


Sociedade anónimas – CSC;

49
Se forem abertas – CVM;
São as holdings – são as mães das outras sociedades e a única coisa que fazem é gerir
os ativos daquelas.

Sociedades gestoras de fundos de investimento mobiliário:


Instituições de crédito – bancos:
São sociedades anónimas, frequentemente abertas;
Subtipo especial das instituições de crédito;

Tipos articulados:
Artigo 465º
Uma sociedade por quotas ou uma sociedade anónima podem ser sócios
comanditados – têm a responsabilidade pessoal pela sociedade em comandita. Volta
assim a nascer a regra de outro do capitalismo.

A o adminstrador da soc
Comanditado: responde Apeanas responde o
por quotas unipessoal -
pelas dividas sociais - SOC patromonio da SOC POR
nao vai responder com
POR QUOTAS. QUOTAS.
nenhum dos seus bens.
Sociedade em Comandita

Comanditário

Taxatividade dos tipos legais de sociedade:


Princípio da taxatividade ou do numerus clausus dos tipos legais – CSC apenas permite
sociedades de certos tipos.

As sociedades comercias não podem deixar se adoptar um dos tipos previstos na lei.
Não podem ser atípicas, isto é, adoptarem uma regulamentação incompatível com
qualquer tipo legal ou com o tipo legal assinado nos estatutos sociais.

50
Esta taxatividade impõe uma limitação à liberdade negocial. Ainda assim, têm os
sujeitos considerável liberdade de conformação do regime das sociedades de cada um
dos tipos: nos espaços não ocupados por lei e nos espaços ocupados por lei dispositiva
há lugar para cláusulas atípicas.
As cláusulas atípicas que contrariem notas essenciais do tipo escolhido são nulas, a
menos que se conclua que esses cláusulas configuram uma sociedade de tipo diverso
do nomeado pelos sócios.

Empresa e Sujeito Jurídico:


Ler Coutinho de Abreu – pag. 23 - 50

Para além das sociedades comerciais que mais formas jurídicas de empresa vamos
encontrar?;
o Formas jurídicas de empresas;
o Formas de cooperação interempresarial;

Uma sociedade é em regra constituída para a exploração de uma empresa e as


vicissitudes de uma influenciam necessariamente a outra, no entanto são estruturas
jurídicas distintas:
a) há sociedades que não correspondem a empresas (sociedades unipessoais);
b) as empresas têm conteúdos e formas próprios;
c) a sociedade embora também signifique a ordenação da empresa é
primariamente a organização de sujeitos.
d) O exercício da atividade empresarial para que é constituída a sociedade é
normalmente posterior a essa constituição (a sociedade precede a empresa);
e) O património da sociedade mesmo depois de formada a respetiva empresa não
é idêntico ao património empresarial.
f) A sociedade, como outros empresários, pode efetuar negócios tendo por
objeto a respetiva empresa;
g) A sociedade pode sobreviver à sua empresa e o contrário também é possível.

Definição de empresa:
- organização de meios de produção;
- exploração profissional (estável e autónoma);
- uma atividade económica (suscitável de expressão monetária e portanto
susceptível de troca);

Há uma profusão de definições porque a lei não tem uma definição.

o Sentido subjetivo de empresa: Substrato da personalidade jurídica – organização


de meios de produção, estável par ao exercício de uma atividade económica.
Exemplo: sociedade comercial

51
o Sentido objetivo de empresa: a empresa é um objeto do negocio jurídico. Neste
sentido, a empresa é uma coisa complexa, corpórea e incorpórea. Empresa em
sentido objetivo é sinónimo de estabelecimento comercial.

Regime da empresa:
Os estabelecimentos comerciais podem ser alvo de direito de penhor.

Regime de trespasse de estabelecimento comercial em caso de arrendamento – o


senhorio tem direito de preferência? Sim – 1112º/4.

Qual a natureza do estabelecimento comercial enquanto coisa? CPC – é suscetivel de


direitos, se é um objeto de direitos também é um objeto de negócios.

Transmissão entre as participações sociais de controlo (share deal) e o


trespasse de estabelecimento comercial (asset deal):

Trespasse – forma especial de compra e venda, compra e venda de estabelecimento


comercial. O estabelecimento comercial é constituído por mercadorias, pela fração
autónoma onde este se encontra, pelo direito de ser inquilino, pelas ações, valores
mobiliários, dinheiro, direitos de propriedade, organização de meios de produções
orientadas para a atividade económica. Em vez de vender só a mercadoria, eu vendo
tudo, do negocio de trespasse.
Que aconteceu com o Bes? Criou-se o Novo Banco e faz-se o trespasse da sociedade
antiga para a nova que fica com o ativo. O passivo ficou no Banco Mau, o Banco Novo
começou do zero.

Share deal:
Em vez de fazer CV do estabelecimento comercial – posso vender todas as quotas,
todas as ações. Em vez de fazer o trespasse, o comprador adquirir antes as ações.

Se transmito as ações ou as quotas, em rigor não preciso de transmitir todas as ações


ou as quotas a outra pessoa, basta vender 51º%. Noutras circunstâncias se faço um
share deal, compro uma fração da sociedade e na prática fico eu o dono da sociedade,
ao vasculhar na contabilidade posso encontrar certas surpresas. há certos negócios
em que compensa não fazer um share deal.

Quando se faz o trepasse de estabelecimento comercial estou a vender uma coisa, se


a coisa tiver defeitos o vendedor pode ser responsabilizado? Artigo 913º -
cumprimento defeituoso – reparação, substituição da coisa, resolução do negocio,
redução do preço, indeminização.

52
Em casos de share deal aplica-se o 913º? Se vender poucas ações não faz sentido
aplicar o 913º, se vender a maioria das ações faz sentido afinal acabei por adquirir a
empresa.

Empresa e sujeito jurídico (continuação):


Asset deal – trespasse de estabelecimento comercial;
Share deal – não há uma transmissão da empresa, há um equivalente comercial ao
trespasse. Esta é uma forma equivalente de negociar a empresa em que formalmente
apenas transmitimos participações sociais de controlo. Temos aqui um negócio cujo
objeto não é a empresa mas antes as participações sociais.

Formas jurídicas de empresas:


Ler Engrácia Antunes – pag. 90 - 131

Comerciantes em nome individual:

A empresa costuma ser o substrato por detrás de uma sociedade comercial mas nem
sempre existe uma empresa detrás de um estabelecimento comercial – comerciantes
em nome individual.

Comerciante em nome individual – o estabelecimento faz parte do seu património


individual. É ele que a titulo pessoal é parte nos negócios jurídicos referentes ao
estabelecimento, é na sua esfera jurídica que surgem as relações comerciais com os
fornecedores e os clientes. Neste caso, os credores vão poder atacar a esfera jurídica
do seu devedor.

Esquema atual mais vantajoso: Comerciante cria uma sociedade por quotas que detém
a mercearia, assim só responde pelas dívidas da atividade comercial a sociedade por
quotas – regra de outro do capitalismo moderno.

Estabelecimento individual de responsabilidade limitada (EIRL):

O comerciante individual constitui um EIRL, que é um património autónomo, não tem


personalidade jurídica mas destaca-se da massa patrimonial com vista à limitação da
responsabilidade.
Não há um ente novo, mas antes uma massa patrimonial que apesar de pertencer à
mesma pessoa (comerciante), dentro do seu património há uma divisão entre o
património geral e o património especial afecto a um fim especial.

Isto nunca saiu do papel – apenas se conhece uma situação de EIRL. Não tem utilidade
a partir do momento em que foi criada a sociedade por quotas unipessoal.

53
Cooperativa:

Origem: em Inglaterra e França com a ideia de defesa dos sectores populares


economicamente mais débeis contra certas consequências da revolução industrial
capitalista. Começou por não ter cobertura legal específica.

Em Portugal a lei precedeu as cooperativas.

As cooperativas são reguladas no Código Cooperativo (1996), são pessoas coletivas


que visam a satisfação de necessidades económicas, sociais ou culturais dos seus
membros sem fim lucrativo mas antes com fim mutualista.
- pessoa coletiva, tem personalidade jurídica;
- visa a satisfação de necessidades económicas sociais ou culturais dos membros;
- não tem fim lucrativo, em vez de distribuir dividendos atribuindo lucros aos
sócios, gera vantagens no património dos membros. Fazem isto através da
prestação de serviços a preços inferiores. A vantagem económica é recebida
através de produtos ou serviços prestados pela própria cooperativa. Exemplo:
o cooperativas de habitação: viárias pessoas se juntam para formar uma
cooperativas que constrói habitações e depois as vendem mais barato;
o cooperativas de consumo.

Tem uma origem ideológica socialista. A CRP prevê três sectores de atividade, o
público, o privado e o cooperativo.

Princípios cooperativos: adesão voluntária e livre, gestão democrática pelos membros


(“um membro, um voto nas cooperativas de 1º grau), participação económica dos
membros, autonomia e independência, educação, formação e informação,
intercooperação, interesse pela comunidade.

A ideia da cooperativa não é ter retorno, mas podem haver excedentes ou prejuízos,
ou seja há três hipóteses:
- excedentes;
- prejuízo;
- igual.

Os excedentes tomam a forma de retorno, em função daquilo com que os sócios


entraram.
Formar uma cooperativa para obter preços mais baixos nem sempre corre bem –
podem haver grandes problemas de gestão e derrapagem - se a gestão não for eficaz
os preços vão derrapar.

As cooperativas são uma forma de sociedades comercias ou são uma figura jurídica
distinta?

54
Depende do conceito de sociedade adoptado – se o conceito for um conceito que visa
o lucro são distintas, afinal estas não visam o lucro.
- Para Coutinho de Abreu, as cooperativas não são formas de sociedade pois não
se enquadram no 980º.
- RPD que tem um conceito mais amplo de sociedade que não se enquadra no
980º estas já são uma espécie de sociedade. Professor concorda com RPD.

Sociedade cooperativa europeia:


Reg 1435/2003 - Pessoa coletiva de direito europeu.

Empresas públicas:
DL 300/2007
EPE´s e Sociedades com capitais públicos –empresas pertencentes ao sector público.

Sucursais:

As sociedades quando exercem a atividade em mais do que um país usam sucursais. A


sucursal é parte da empresa, no entanto tem uma autonomia empresarial: na
clientela e na gestão. Este não é um ente autónomo com personalidade jurídica plena,
não temos uma nova pessoa jurídica, antes um património que pertente à pessoa
jurídica portuguesa.

Artigo 13º CPC – as sucursais podem demandar e ser demandadas, têm uma
personalidade jurídica rudimentar.

Difere disto montar um sociedade comercial autónoma noutro país, as sociedades


comerciais subsidiárias – neste caso existe um grupo de sociedades comerciais.

Formas de cooperação inter-empresarial:


NOTAS PRÉVIAS:
Cooperação horizontal: duas empresas em situação de paridade que cooperam entre
si para criar um negócio – joint ventures;
Cooperação vertical: contratos de cooperação comercial. Exemplo: representante
nacional da BMW tem contratos com as concessionárias.

Plurifuncionalidade das formas jurídicas:


É possível criar cooperação de forma muito variada – há várias formas jurídicas para a
mesma joint venture.

55
Consórcio – DL 231/81:
Artigo 1º - 20º
Contrato pelo qual duas ou mais pessoas singulares ou coletivas que exercem uma
atividade económica se obrigam entre si e de forma continuada a realizar uma
atividade económica.
1. Contrato
2. Fim comum de exercício de atividade económica em mera concertação – dever
contratual característico é um dever de concertação. Obrigam-se a realizar
certas atividades, efetuar determinadas contribuições a fim de possibilidade a
realização de atos materiais ou jurídicos preparatórios de uma atividade, a
execução de certo empreendimento, o fornecimento a terceiros de bens iguais
ou complementares, a pesquisa ou exploração de recursos naturais ou a
produção de bens que possam ser repartidos em espécie entre os
consorciados.

3. Não há personalidade jurídica nem sequer património autónomo;

Esta é uma mera concertação de duas pessoas autónomas com patrimónios


autónomos.
Isto é muito comum nas obras públicas – vários empreiteiros consertam-se para
concorrer a um determinado concurso de obras públicas. Cada empresa que já existe
vai fazer em total autonomia parte da obra.

FIGURAS AVULSAS DE CONSÓRCIO, FORA DO DL:

Sindicatos bancários com vista a formar uma oferta pública de distribuição - 241º
CVM. Estes bancos juntam através de consorcio.

Operações coletivas de locação financeira.


Exemplo: Avis quer introduzir mil carros em Portugal. É um risco fazer negócio apenas
com uma empresa – assim há consorcio entre vºarias empresas.

FORMAS POSSÍVEIS DE CONSÓRCIO:

Consórcio externo:
Visível perante terceiros.
Pode ter ou não uma organização. Esta consiste no Chefe de Consórcio e
eventualmente no Conselho de Orientação e Fiscalização – coordenam a concertação.
As suas competências são meramente internas, organizam a cooperação, no entanto
não têm competências externas perante terceiros, não contratam com terceiros
apenas promovem a concertação entre as empresas que fazem parte do consórcio.

Consórcio interno:
Não é visível perante terceiros:

56
- atividades ou os bens são fornecidos a um dos consorciados pelo outro e só
aquele estabelece relações com terceiros;
- bens são fornecidos a terceiros por cada um dos consorciados sem expressa
invocação dessa qualidade (5º/1).

RESPONSABILIDADE :
Em princípio não há responsabilidade comum dos membros do consórcio perante
terceiros, salvo se isso for estipulado em contrato com terceiros – unincorporated joint
ventures.

Associação em participação – DL 231/81:


Artigo 21º
Contrato pelo qual um ou mais sujeitos se associam a uma atividade económica
exercida por ouro sujeito (associante), ficando os primeiros a participar nos lucros ou
nos lucros e perdas que desse exercício resultarem para o segundo.
A atividade económica em causa é do associante, é ele que a exerce autonomamente,
é ele que se relaciona e responsabiliza perante terceiros. Deve no entanto prestar
contas ao associado.

Elementos:
1. Contrato;
2. Associação a outra pessoa que exerce atividade económica;
3. Contribuição patrimonial;
4. Comungando nos resultados;

Não há personalidade jurídica nem sequer património autónomo. Isto não é uma
sociedade em comandita porque lhe falta a personalidade jurídica, no entanto
também há um que é o empresário e o outro um mero investidor.

Na tradição dos códigos comerciais isto chamava-se conta em participação.


Código Ferreira Borges (1936) – era entendidas como uma forma de sociedade
comercial ao lado da sociedade em comandita.

Secretismo como uma vantagem: eu invisto mas o meu nome não aparece. Isto pode
ocorrer entre empresas ou entre empresas e pessoas sigulares.
Não é exigida forma; há liberdade de forma, art.219º CC. Como consequência a
Tendência na jurisprudência – quando têm uma cooperação apenas entre empresas, a
tendência a jurisprudência é ir para aqui, mas nem sempre o que é combinado encaixa
nesta forma de cooperaçao. La por não ter exigência de forma não quer dizer que seja
uma associação em participação.

57
ACE – Agrupamento Complementar de Empresas:

Lei 4/73 de 4 de Junho


Exercício de uma atividade complementar por parte de mais do que uma empresa,
não há finalidade lucrativa, tem personalidade jurídica. Exemplo: associação de
serviços de back office; Frota transitária em comum.
As pessoas singulares ou coletivas e as sociedade podem agrupar-se, sem prejuízo da
sua personalidade jurídica, a fim de melhorar as condições de exercício ou de
resultado das suas atividades económicas – Base I, Lei 4/73.

A atividade objeto do ACE há-de ser não só diversa mas também auxiliar ou
complementar das atividades exercidas pelos agrupados. O objetivo é melhorar as
condições de exercício das atividades dos membros, não pode ter como objetivo final a
realização e partilha de lucros. Este é portanto um instrumento para os agrupados
realizarem economias ou conseguirem vantagens económicas diretamente produzíveis
no património de cada um deles.

Existe um regime de responsabilidade dos membros pelas dívidas sociais.


São ou não uma sociedade comercial? Mais uma vez a doutrina vai divergir – RPD vai
entender que sim pois defende que a sociedade não tem de ter necessariamente
finalidade lucrativa. Caetano acha que os ACE são uma sentida em sentido amplo.

Exemplo:
SA Seguradora e SA Banco – querem criar cal center em comum, que devem fazer?
Criar ACE ou SQ? SQ – assim se der prejuízo, apenas responde o património da
sociedade por quotas.

Agrupamento Europeu de Interesse Económico:


Regulamento 2137/85 – o objetivo do agrupamento é facilitar ou desenvolver a
atividade económica dos seus membros, melhorar ou aumentar os resultados desta
atividade. Não pode realizar lucros.
Tem de ser composto por pelo menos dois sujeitos que tenha a administração central
ou exerçam atividade principal em EM diferentes (4º/2 Reg).

Grupo – empresa plurisocietária:

Art.481º e 481º do CSC.


Estrutura piramidal em que o controlo de todas as sociedades pertence ao grupo
primitivo.
O CRC tem regras muito restritas no que respeita ao controlo de empresas por outras
empresas: Mãe que detém 90% ou mais % da filha responde pelas dívidas da filha e os
seus gestores também respondem.

58
Diferentes tipos de grupos e controlo:
o Grupo em sentido restrito: controlo de 100% ou a partir de 90%
o Situações de domínio: até 90% - CSC já não diz quase nada;
o Mera participação: detenção de por exemplo 10%.

Personalidade jurídica, capacidade e representação das


sociedades comerciais:

Definição de pessoa jurídica: centro de imputação dos efeitos de normas jurídicas. As


posições jurídicas são os efeitos das normas jurídicas.

Personalidade jurídica plena e personalidade jurídica rudimentar – sociedades


comerciais e sociedades civis sob forma comercial têm personalidade jurídica.

O termo pessoa coletiva é pouco próprio, afinal as SQ unipessoais e as fundações não


são coletivas.

A personalidade jurídica da sociedade comercial:


A sociedade comercial é um fenómeno híbrido situado a meio caminho entre o
contrato e a organização. Nasce de um negócio bilateral ou plurilateral com objeto e
fins particulares, dando origem a uma nova entidade ou organização, dotada de
personalidade jurídica própria e distinta das pessoas que celebram tal negócio.

Artigo 5º CSC – as sociedades comerciais são pessoas coletivas, entidades a que a


Ordem Jurídica atribui personalidade jurídica própria, mas essa personificação apenas
ocorre no momento da respetiva inscrição no registo comercial.

Consequências decorrentes da atribuição de personalidade às sociedades:


Sociedade comercial constitui um centro autónomo de imputação de direitos e
deveres, encabeçando uma esfera jurídica ativa e passiva própria.

Perspetiva ativa: capacidade de gozo e exercício de direitos (6º/1), estado pessoal,


personalidade judiciária (5º/2 CPC), personalidade tributária, personalidade
insolvencial (2º/1 a CIRE).

Perspetiva passiva: sociedade tem deveres, ónus e encargos, incluindo os decorrentes


de responsabilidade civil (6º/5 CSC) e responsabilidade penal (11º CP).

Património social autónomo: a sociedade comercial é titular de um conjunto de


direitos e obrigações pecuniariamente avaliáveis que emergem das relações jurídicas
em que intervenha, pelo que os sócios não são co proprietários dos bens sociais, nem
co-devedores dos débitos.

59
Sistemas de atribuição de personalidade (natureza jurídica da
personalidade coletiva):

Sistema da concessão administrativa vs. Sistema da liberdade de constituição:


O sistema de liberdade de constituição é chamado também de sistema de
reconhecimento condicionado – podem constituir-se desde que observados os
pressupostos da lei.

Tema relevante para o exame! Aprofundar – ler pag 161 a 176 Coutinho de Abreu

Teoria da ficção – Savigny:


Baseia-se na ideia de vontade.
Pessoa coletiva é um sujeito de relações jurídicas que é tratado como uma pessoa
natural como um ser humano, através de uma ficção jurídica.
Na relação jurídica nem sempre temos um ser humano, por vezes temos uma ficção
jurídica – surge uma uma personalidade coletiva como se fosse uma pessoa natural,
através de uma ficção jurídica.

Construção da personalidade coletiva, por referência à relação jurídica – proximidade


de uma ideia normativista de base kelsiniana.

Savigny foi o primeiro grande pandectista. Savigny acreditava muito na liberdade


humana. Pensou o direito subjetivo como um poder da vontade - um negócio como
exercício do poder da vontade, acto da vontade.
Neste sentido vê pessoa colectiva através da ideia de ficção jurídica. Pessoas
colectivas seriam sujeitos de relações jurídicas que seriam tratados como se fossem
pessoas naturais através de uma ficção jurídica. Esta ideia de ficção desvaloriza um
pouco a força de pessoa jurídica. Savigny constrói toda a sua teorização com base na
ideia de relação jurídica. Nas relações jurídicas surgiam não apenas seres humanos,
mas também pessoas colectivas.
Savigny considerava que não fazia sentido falar de responsabilidade extracontratual
das pessoas colectivas. Para efeitos do mundo dos contratos, faz sentido falar de
pessoas colectivas. É a pessoa colectiva que celebra o contrato. Do ponto de vista dos
delitos, não faz sentido falar em responsabilidade das pessoas colectivas; esse é o
mundo dos seres humanos. Esta é a principal crítica que se faz à concepção de Savigny.

Organicismo ou realismo orgânico – Von Gierke:


As pessoas coletivas são organismos de base social – a ideia de organismo, não
significa órgão do corpo humano. A origem etimologia desta palavra vem do grego e
significa mecanismo.

60
Estas instituições que perduravam ao longo dos séculos assumem uma ideia de
mecanismos sociais que perduram no tempo, olhar para eles como uma mera ficção
por comparação aos seres humanos é descrever pouco.
Substrato da personalidade coletiva – há algo real no substrato da pc.

Gierke parte da ideia de órgão, de organização. As pessoas colectivas têm


mecanismos, organismos e órgãos; têm alguma realidade institucional.
Estudou, sobretudo, as corporações medievais (as companhias privilegiadas, as
instituições religiosas, etc.). Estas instituições perduram para lá dos seres humanos
que estão por detrás delas. Nas companhias, desde início, havia um órgão de gestão e
um de controlo. Estas organizações caracterizam a pessoa colectiva ao longo dos anos,
independentemente dos seres humanos que por lá passaram. Descrever uma pessoa
colectiva desta dimensão com base numa mera ficção como o ser humano é um
absurdo; estamos a perder tudo.
É necessária a ideia de órgão. Surge também a ideia de substrato de pessoa colectiva.
Por detrás das sociedades comerciais, estaria, para muitos, a ideia de empresa. Como
substrato de fundação, o património. Para uma associação, o substrato será o conjunto
de pessoas.

Estas duas teorias opõem-se e vão marcar todas as teorias posteriores.

Realismo Jurídico – Ferrara e Manuel de Andrade:

Estes autores dizem que isto não é uma realidade orgânica/social, é sim o que o
legislador decide. Temos, portanto, de verificar o que está estabelecido na lei. Pessoa
coletiva como produto da ordem jurídica – ideia de reconhecimento legislativo, é a lei
que define o que são pessoas coletivas.
Proximidade com a teoria da ficção de Savigny e do normativismo de Kelsen – em vez
de usarmos a teria de relação jurídica, usamos agora a teoria norma ou posição
jurídica.

Filosofia desconstrutivista italiana – Ascarelli e Galgano:

Direitos da PC não são atribuídos à PC mas antes aos seres humanos que estão por
detrás dela.
PC coletiva como um regime jurídica a aplicar a seres humanos implicados, que são na
realidade os destinatários das normas jurídicas.

Sempre que a lei nos diz quem tem direitos e deveres é uma sociedade comercial,
indiretamente ela está a atribuir direitos e deveres aos seus sócios, aos seres

61
humanos. A pessoa colectiva será um regime jurídico a aplicar (indiretamente) aos
seres humanos.
Professor considera que é impossível desconstruir. Quando se diz que a sociedade é
proprietária não se está dizer que os sócios são proprietários. As pessoas colectivas são
realidades demasiado complexas para poderem ser desconstruídas.

Filosofia analítica de Hart:

Temos uma construção jurídica, é uma criação humana, a pessoa coletiva tem a ver
com as normas jurídicas mas não vamos desconstruí-la, é impossível imputar a
terceiros os efeitos da pessoa coletiva.
Quando atribuímos personalidade jurídica plena atribuímos uma carga simbólica de ser
humano – assim também pode ter alguns direitos fundamentais.

Hart vê a personalidade colectiva como uma construção jurídica, mas afasta a ideia de
desconstrutivismo. Para Hart a pessoa colectiva é uma criação social feita por normas
jurídicas. Hart faz ainda uma analogia com o ser humano.

Discussão actual:
Legado de Savigny – há várias pessoas coletivas com personalidade atribuída de forma
algo discricionária;

Legado de Gierke: esforço de encontrar substratos meta jurídicos das várias pessoas
coletivas.

Conclusões do professor:
1. Atribuição de personalidade jurídica plena é uma opção de política legislativa. É
certo que há substratos, mas haver ou não uma norma é uma opção de política
legislativa;

2. Vantagens para o raciocínio interpretativo da teoria de Gierke;

3. O desconstrutivismo está mal pensado;

Significado da atribuição de personalidade jurídica às sociedades comerciais (EA):

A personalidade jurídica societária é um expediente técnico-jurídico destinado a


simplificar a produção normativa de um direito especial complexo a partir do direito
comum. A criação de uma sociedade dá origem a um novo sujeito de direito mas, mais
do que isso, subordina ao um novo regime especial o conjunto de relações jurídica
protagonizadas pelas pessoas que estiveram na base da respetiva constituição.
Em vez de serem os sócios constituintes a submeterem-se diretamente às normas de
direito comum, ocorre a interposição do ente coletivo – é a sociedade que se submete
à aplicação das normas comuns e os sócios submetem-se agora ao quadro legal e
estatutário próprio.

62
Em suma: a personalidade coletiva é uma forma simples de apresentar o conjunto
complexo de normas.

EA afasta-se assim da visão tradicional, segundo a qual, a sociedade é um verdadeiro


sujeito de direitos que existe lado a lado com os indivíduos de carne e osso que a
fizerem nascer e que comandam o seu dia a dia – para este doutrina tradicional a
pessoa jurídica constitui um centro de imputação, por puro artifício do legislador, ou
realidade orgânica e social ou como realidade jurídica instrumental criada pelo direito.

EA defende que antes disso a pessoa coletiva é um mecanismo ou expediente de


imputação jurídica, cujos resultados são orientados para os seres humanos,
destinatários finais da imputação de direitos e deveres.

Estado pessoal das Sociedades Comerciais:


Qualidades próprias inerentes à condição das sociedades enquanto sujeitos jurídicos:
firma, sede e nacionalidade.
A jurisprudência tem vindo ainda a reconhecer às sociedades comerciais o direito ao
bom nome, o direito à imagem, direito à tutela do crédito, prestígio ou confiança, e o
direito ao acesso ao apoio judiciário.

Firma:

A firma é um sinal identificador da sociedade no trafego jurídico, é pela firma que estas
são reconhecidas.
Assim, a firma constitui menção obrigatória nos estatutos sociais (9º/1 c CSC), sujeita a
registo (35º RRNPC), sendo mesmo um pressuposto da validade do ato constitutivo
social (41º, 42º/1 b CSC).

Composição:
Vigora aqui o princípio geral de liberdade de composição da expressão verbal.

Sociedades em nome coletivo e sociedades em comandita:


Devem ser respeitadas as regras do CSC referente à composição das firmas - 177º e
467º.
Se um terceiro não sócio autorizar a inclusão do seu nome ou firma na sociedade,
aquele passará a estar sujeito a regime geral de responsabilidade subsidiária e solidária
pelas dívidas sociais que é aplicável aos sócios em nome coletivo (177º/2) ou aos
sócios comanditados (467º/2).

SA e SQ:
Pode ser constituída sem obedecer a regras especiais, desde que contenha o
aditamento da sigla obrigatória Lda. nas SQ (200º CSC) e da sigla SA. nas sociedades
anónimas (275º).

63
Aqui as firmas não podem conter o nome de terceiros não sócios nem atividades não
abrangidas pelo objeto do contrato.

Sede:

As sociedades possuem uma sede, local concreto onde a sociedade se considera


situada para a generalidade dos efeitos jurídicos – centro geográficos das relações
jurídicas da sociedade.

A sede é menção obrigatória dos estatutos sociais (9º/1 e CSC), sujeita a registo,
devendo ser estabelecida em local concretamente definido (12º/1 CSC).

Sede estatutária: local indicado nos estatutos como constituindo a sede da sociedade ,
releva para a generalidade das relações jurídicas societárias (correspondência,
notificações, negócios, etc.).

Sede real ou efetiva: local onde está o controlo da sociedade, onde funcionam os
respetivos órgãos de direção ou gestão – determina a lei aplicável à sociedade (3º/1
CSC).

Regime de transferência de sede:


Transferências internas: a deslocação pode ser decidida por simples deliberação do
órgão de administração (12º/2 CSC).

Transferências internacionais: no caso de transferências intercomunitárias ou no


espaço europeu. A atual jurisprudência do TJCE tem entendido que as sociedades
constituídas de acordo com a lei de um EM mantêm a sua personalidade e capacidade
jurídicas de acordo com essa lei de origem em caso de transferência de sede efetiva da
sua administração para outro EM. São exemplos o acordo “Centros” (1999), “Inspire
Art” (2003), “Sevic” (2005) e “Cartesio” (2008).

Nacionalidade:

Qual o critério relevante para determinar a nacionalidade de uma sociedade?


Pode ser o local constituição, da sede social ou da sede efetiva. A doutrina portuguesa
tem considerado que a nacionalidade de uma sociedade comercial será determinada
pela sua sede efetiva.

Sociedades – 10.03.15

Acórdão Impacto Azul – tem que ver com a constituição das sociedades e a
responsabilidade da sociedade-mãe, perante a sociedade filha.

64
Aula Passada: personalidade jurídica e sua natureza;

Capacidade jurídica das sociedades:

Artigo 6º CSC
Personalidade: Susceptibilidade de ser titular de direitos e deveres.

Sabendo que as sociedades comerciais têm personalidade jurídica coloca-se agora o


problema de saber em que medida pode ser titular de direitos e obrigações
(capacidade de gozo) e os pode exercer (capacidade de exercício).

Capacidade de gozo: aquele que é capaz de gozo é titular de certas posições jurídicas –
direitos, poderes, deveres. A diferença entre a capacidade de gozo e a personalidade é
o critério qualitativo da primeira por oposição ao carácter quantitativo da segunda -
medida da susceptibilidade de ser titular de direitos e deveres – suscetibilidade de
imputação de efeitos das normas jurídicas.

Capacidade de exercício: aquele que é capaz de exercício pode ser parte nessas
posições jurídicas. Medida da capacidade de exercício jurídica, medida da
susceptibilidade de exercer pessoalmente os direitos e os deveres. Exercer os poderes
por mim próprio.
Esta capacidade tem a ver já não com os direitos e os deveres mas antes com os
poderes. O exercício jurídico tem a ver com a normas de poder ou de competência.
Exercício efetivo dos direitos e deveres.

Classificação tripartida – vem de manual de andrade. Os alemães só têm duas


categorias. Personalidade e capacidade de gozo são a mesma coisa.

Existem limites à capacidade de exercício das sociedades comerciais. Não podem


celebrar negócios jurídicos como as pessoas singulares. Vejamos os art.6º CSC:
1. A ideia da limitação da capacidade pelo fim. Teoria da especialidade das
pessoas colectivas;
2. Limitação da capacidade de exercício para fazer liberalidades (negócios sem
contraprestação).
3. As garantias reais são consideradas liberalidades.

Quando utilizamos o termo capacidade há uma ideia de grau. Quando falamos de


personalidade a ideia é tudo ou nada, têm ou não capacidade.

CAPACIDADE DE GOZO NO NOSSO CSC:


Há varias interpretações do artigo 6º, o professor faz uma interpretação derrogante.
Para quem lê de acordo com a lei estabelece uma limitação à capacidade das
sociedades comerciais.

65
O legislador quis limitar a capacidade de gozo das sociedades. Devemos ter em conta
que o que está em causa é uma redução da capacidade de gozo e não uma redução da
capacidade de exercício.
Neste art.6º está consagrada uma verdadeira limitação de exercício das sociedades
comerciais. Há quem critique muito esta norma, como o professor. Professor considera
até que esta norma é ilegal porque desconforme a uma diretiva europeia, porém, é
doutrina minoritária.

As sociedades têm capacidade de gozo para praticar as liberalidades usuais. Mas são
incapazes de gozo para praticar liberalidades não usuais.
Doar não é exercer, não é capacidade de exercício. Atuando com ou sem
representantes, se elas são suscetíveis de ser titulares das disposições que derivam
de um contrato de doação. É um problema de capacidade de gozo – suscetibilidade
de ser titular dos efeitos das normas jurídicas.

Ao contrário das pessoas singulares, a capacidade de gozo das pessoas coletiva é


limitada: o artigo 6º/1 CSC dispõe que a capacidade e uma sociedade compreendem os
direitos e as obrigações necessários à prossecução do seu fim.

 Princípio da especialidade do fim:

A capacidade da sociedade compreende todos mas apenas os direitos e obrigações


necessários ou convenientes à prossecução dos seus fins.

Fim da sociedade:
Legislador refere-se ao fim geral de lucro, não ao objeto específico concreto de cada
sociedade. Os atos que sejam contrários a este fim lucrativo, são nulos (294º CC),
podendo tal nulidade ser invocada a todo o tempo por qualquer interessado (286º CC)
e são destituídos de qualquer efeito jurídico (289º CC).

O que são atos não lucrativos? Não são necessariamente todos os atos gratuitos, afinal
o legislador considerou como abrangidos pela capacidade das sociedades, as
liberalidades, os brindes promocionais, gratificações e patrocínios culturais ou
artísticos (6º/2 CSC).

No entanto não podemos admitir todos os atos gratuitos das sociedades – numa será
compatível com o fim de distribuição dos lucros da sociedade o mútuo gratuito da
totalidade dos ativos sociais realizado em favor de um terceiro.

O critério que devemos então ter em consideração é a finalidade ou a projeção dos


atos no património social: devemos indagar se o ato praticado constitui ou não um
meio idóneo para a obtenção de lucros.

Problema da prestação de garantias a terceiros (6º/3 CSC):


Regra: proibição genérica de as sociedades realizarem garantias pessoais (fiança, aval,
mandato de crédito) ou garantias reais (penhor, hipoteca, caução, retenção). Assim a
sociedade não pode por exemplo ser fiadora da dívida de um sócio.

66
Desvios:
- Garantia tenha sido prestada com justificado interesse da sociedade garante.
Exemplo: sociedade subscreve letra em benefício do seu principal cliente ou
fornecedor;
- Relações de domínio ou de grupo.

 Limites legais e naturais (6º/1):


A capacidade de gozo das sociedade comerciais também não abrange os direitos e
obrigações que lhe estejam vedados por lei (limites legais) e os que sejam inseparáveis
da personalidade singular (limites naturais).

Limites naturais: direitos e deveres relativos às relações familiares e sucessórias;


Limites legais: ex 1484º CC.

 Limites estatutários e orgânicos (6º/4):


As deliberações orgânicas não constituem um limite à capacidade de gozo das
sociedades comerciais mas simplesmente um limite aos poderes dos respetivos órgãos
sociais.

Corolários:
- ainda que passem as limitações impostas pelas cláusulas estatutárias, os atos
sociais permanecem válidos;
- está no entanto criado o dever de não praticarem estes atos, logo a violação deste
dever pode gerar responsabilidade civil ou constituir causa de destituição.

Eficácia externa do ato extra estatutário nas SA e SQ: estes atos vinculam sempre
externamente a sociedade, as limitações decorrentes do objeto social apenas serão
oponíveis a terceiro se a sociedade provar que este tinha ou devia ter conhecimento
da natureza extra estatutária do ato (260º/2 e 409º/2 CSC).

CAPACIDADE DE EXERCÍCIO NO NOSSO CSC:

Há duas maneira de olhar para isto:


- Oliveira Ascensão: a sociedades comerciais têm plena capacidade de exercício
uma vez que atuam através dos seus órgãos e quando um órgão atua é como se
atuasse a própria sociedade – atuação orgânica;
- Professor e CFA: As pessoas coletivas tem uma total incapacidade de exercício que
é suprida através da representação orgânica. Afinal as sociedades comerciais não
têm corpo nem mente, são criações humanas e para atuarem é necessário um ser
humano. Elas não agem pessoalmente há sempre seres humanos a agir, suprindo a
sua incapacidade de exercício.

67
Querela doutrinária:
Esta querela doutrinária é marcada e está relacionada com a querela doutrinária sobre
a natureza da personalidade jurídica. Afinal o Gierke vem dizer que as PC não são uma
ficção mas sim uma realidade social. Todos os adeptos do Savigny acham que há aqui
uma incapacidade de exercício. No entanto, a maioria da doutrina acha que não há
aqui um problema de incapacidade de exercício.

Em suma:
 Pessoas colectivas têm capacidade de exercício (perspectiva organicista, Gierkiana
pura)
 Pessoas colectivas têm uma incapacidade geral de exercício. Os representantes
suprem esta incapacidade de exercício. (Carlos Ferreira de Almeida)
 Professor está no meio-termo destas teorias . Pessoas colectivas atuam
necessariamente através dos seres humanos. Há sempre um problema de
imputação jurídica: tem sempre que se ver se a atuação do representante são
imputáveis aquela pessoa colectiva ou não. Estes problemas de imputação são
resolvidos através do instituto jurídico de representação – representação
orgânica.

A incapacidade de exercício gera a nulidade:


- Do ato praticado pelo representante orgânico: Art.2º CSC, 294º CC e 286º CC;
- Da deliberação da Assembleia: Art.56º/1, d) e 411º/1, c) CSC;

Tradições sobre a capacidade de exercício das sociedades:

Para os partidários da teoria da ficção, as sociedades comercias são entes gravados


por uma absoluta incapacidade de exercício, para os adeptos da teoria orgânica as
sociedades seriam organismos dotados de uma verdadeira capacidade de exercício,
embora de tipo diferente da dos indivíduos.

1. TRADIÇÃO ANGLO AMERICANA – ULTRA VIRES DOCTRINE:

Ingleses tinham a chamada doutrina ultra vires (para além da força, para além do
poder) - a capacidade de exercício é limitada pelo objeto social, ou seja, a atividade
que a sociedade vai exercer.
Esta doutrina dizia que quando um gerente atua para lá do objeto social está a
extravasar a capacidade de exercício da sociedade. O objecto social é a atividade que
os sócios querem que seja exercida (estabelecida nos estatutos). A ideia era proteger
os sócios minoritários na medida em que os gerentes eram nomeados pelos sócios
maioritários.

Ratio: proteção dos sócios minoritários – todos vamos contribuir para determinada
atividade comercial mas nem todos a podemos administrar, pelo esta limitação impõe

68
barreiras aos administradores – não podem praticar atos que se afastem do objeto do
processo.

2. TRADIÇÃO FRANCESA E PORTUGUESA - PRINCÍPIO DA ESPECIALIDADE :

A teoria da especialidade do fim. A capacidade das sociedades não é limitada pelo


objeto social mas sim pelo seu fim. Sendo o fim das sociedades o lucro, não poderão
ser feitas liberalidades.
Aplica-se por pessoas que entendem que as sociedade visam obrigatoriamente o fim
lucrativo. Se o negócio não visa o lucro já não estamos no âmbito da capacidade de
exercício das sociedades comerciais.

Se estamos para lá do fim lucrativo estamos para lá da capacidade. Sanção: nulidade.


Ratio: proteção dos sócios minoritários e credores. Imaginemos que numa seguradora
alguém faz um seguro a um amigo, que sabe gerar prejuízo e deixar a empresa na
insolvência – este negócio não foi praticado no âmbito da capacidade da entidade.

3. TRADIÇÃO GERMÂNICA – CAPACIDADE DE GOZO PLENA:

O objeto social não limita a capacidade, o fim não limita a capacidade – nada limita
a capacidade da sociedade.

Na tradição germânica não há qualquer limite à capacidade. No primeiro Código


comercial alemão foi estabelecido que os poderes da gerência eram ilimitados. Isto no
sentido de proteger os terceiros e o tráfego jurídico em detrimento dos sócios
minoritários.

Não interessa se o negócio se insere no objecto social nem se o negócio celebrado era
compatível com o fim lucrativo ou não. As liberalidades são incompatíveis com o fim
lucrativo, porém, para os Alemães isso é irrelevante. Criaram, no entanto, uma
ressalva, pode haver abuso de representação dos gestores. Não obstante, para haver
ineficácia dos negócios era preciso que o terceiro soubesse que havia uma atuação
prejudicial para a sociedade.

Ratio: Proteção de terceiros e aumento do tráfego jurídico – se, sempre que quero
contratar com uma sociedade comercial, tenho de verificar se o negócio é constitutivo
do objeto social ou conforme o fim lucrativo, isto vai diminuir o tráfego jurídico. Temos
de diminuir os custos de transação das empresas com vista ao aumento do seu valor.
Limitações: abuso da representação, impugnação pauliana, resolução em benefício da
massa.

O legislador português no artigo 6º CSC consagrou a tradição francesa – princípio da


especialidade.

69
A União Europeia acolheu a teoria germânica de proteção dos terceiros e do tráfego
jurídico (art.9º da primeira diretiva). Para haver mercado comum é essencial que todas
as empresas na UE saibam como é que as outras empresas da UE se vinculam.

PRIMEIRA DIRETIVA – ARTIGO 9º:


1 . A sociedade vincula-se perante terceiros pelos actos realizados pelos seus
órgãos , mesmo se tais actos forem alheios ao seu objecto social , a não ser
que esses actos excedam os poderes que a lei atribui ou permite atribuir a
esses órgãos .
Todavia , os Estados-membros podem prever que a sociedade não fica
vinculada , quando aqueles actos ultrapassem os limites do objecto social , se
ela provar que o terceiro sabia , ou não o podia ignorar , tendo em conta as
circunstâncias , que o acto ultrapassava esse objecto ; a simples publicação
dos estatutos não constitui, para este efeito , prova bastante .

2 . As limitações aos poderes dos órgãos da sociedade que resultem dos


estatutos ou de uma resolução dos órgãos competentes , são sempre
inoponíveis a terceiros, mesmo que tenham sido publicadas .

3 . Quando a legislação nacional prveja que o poder de representar a


sociedade é atribuído por cláusula estatutária , derrogatória da norma legal
sobre a matéria , a uma só pessoa ou a várias pessoas agindo
conjuntamente , essa legislação pode prever a oponibilidade de tal cláusula a
terceiros , desde que ela seja referente ao poder geral de representação ; a
oponibilidade a terceiros de uma tal disposição estatutária é regulada pelas
disposições do artigo 3 º .

Esta diretiva não regula diretamente a capacidade de exercício mas antes a matéria
da vinculação das sociedades comerciais, regulando indiretamente a sua capacidade
de exercício – o objeto social não pode se um obstáculo à vinculação, logo não pode
também limitar a capacidade de exercício destas sociedades

Pressuposto Organizativo (EA):

Mais importante do que entrar nesta discussão é sublinhar que as sociedades


comerciais são entidades jurídicas que necessitam de uma organização, afinal apenas
podem existir através de órgãos, graças aos quais se torna possível a formação de uma
vontade social que lhes é juridicamente imputável e se torna possível a sua atuação
externa.
Por outro lado, estes órgãos são constituídos por membros que são em última análise
pessoas.

70
Artigo 6º - análise:

Nº1 – CAPACIDADE DE EXERCÍCIO :


- Tradição francesa: parece afirmar que o fim social limita a capacidade de exercício,
Coutinho de Abreu assim o entende.
- Tradição germânica: Professor defende que não é esse o caso.

Nº2 – LIBERALIDADES :

- Tradição francesa: parece haver uma limitação à capacidade de gozo às


liberalidade.
Problema: financiamento partidário, brindes publicitários – isto não é contrário ao
fim lucrativo. Assim Coutinho de Abreu defende que devemos ter em conta a
liberalidade caso a caso: devemos indagar a finalidade da liberalidade e a sua
projeção no património social.
- Tradição germânica: Professor entende que não há qualquer limitação às
liberalidades.

Há um regime especial de mecenato e de financiamento partidário. E, portanto, há


uma lei especial sobre mecenato e outra sobre financiamento partidário. Estas leis
referem-se à possibilidade de as sociedades fazerem liberalidades.

Para verificar se a liberalidade é usual ou contrária ao fim da sociedade, é necessário


indagar da finalidade da liberalidade (v.g. fizeram uma doação para o Banco Alimentar
mas era para publicidade, portanto, ainda se contém no fim lucrativo) ou da projeção
da liberalidade no património social (fizeram doações para o Sporting; se as doações
são de valor relativamente reduzido talvez sejam aceitáveis; se for extremamente
grande, não é usual, logo, há incapacidade de exercício e, como tal, o negócio jurídico
é inválido).

O Professor diz que tudo isto é desconforme com a 1ª Directiva – todas as doações
são válidas, a não ser que haja abuso de representação. Esta ideia de limitação pelo
fim pressupõe que o fim é o lucro. O Professor (e RPD) considera que as sociedades
não têm de ter necessariamente fim lucrativo.

Nº3 – GARANTIAS:
Aplicação prática extremamente frequente – as sociedades comerciais prestam com
muita frequência negócios de prestação de garantias. Há que distinguir as garantias
onerosas das garantias gratuitas, a controvérsia está nas garantias gratuitas, as
onerosas não põem qualquer problema, estão dentro dos limites da capacidade de
gozo e de exercício.

As garantias gratuitas são liberalidades – o nº 3 não acrescenta grande coisa face ao


nº 2. No nº 3, há uma regra – não pode haver garantias a terceiros – e exceções:

71
 Justificado interesse próprio da sociedade:
o quando são onerosas, desde logo;
o prestar uma garantia a favor de um cliente para evitar a insolvência deste,
que faria com que deixasse de ser cliente, naturalmente;

 Relação de domínio ou de grupo : entre sociedades com relação de domínio ou de


grupo, a lei presume que há um interesse próprio. As sociedades-mães prestam
garantias às sociedades-filhas, por exemplo. Não basta uma relação de simples
participação ou de participações recíprocas.
o há grupo strictu sensu quando uma sociedade tem 90% ou mais da outra;
o há domínio quando uma sociedade tem mais de 50% ou mais da outra;
o nos casos de mera participação já não estamos no âmbito da exceção..

Esta exceção funciona quer seja a mãe a dar uma garantia à filha, quer seja a filha
a dar uma garantia à mãe. Há um entanto uma interpretação restritiva: isto só
funciona nas relações down string, quando é a mãe a dar a garantia à filha
(Coutinho de Abreu).

Exemplo: A emprestou ao B e o B fica a dever ao A os 100.000€ + juros. A XSA vai


prestar uma garantia pessoal ao A, dizendo que se o B não pagar o valor e os juros, ela
paga. Isto é prestado porque existe uma relação de favor ou uma relação de troca
(garantia bancária on first demand). A garantia em si é sempre igual – depois temos é
de analisar a relação subjacente (uma doação, liberalidade vs. troca, cobrança dos
custos da garantia bancária).
A garantia bancária on fisrt demando é muito frequente na prática bancária, já nos
casos de “empréstimo ao amigo” exige uma maior atenção ao artigo 6º/3.

Nº4 - OBJETO SOCIAL :


O objeto social não limita a capacidade de exercício da sociedade.
Um ato social excede ou é alheio ao objeto social quando, atendendo ao momento da
sua prática, se revele inservível para a realização das atividades que a sociedade pode,
nos termos dos estatutos (art.11º/2), exercer.
Resulta deste artigo o dever dos órgãos sociais não excederem o objeto. A violação
deste dever acarreta sanções.

Atenção! A 1ª Diretiva (de harmonização) apenas respeita às sociedades por quotas,


em comandita por ações e anónimas.

EM SUMA – CAPACIDADE =/= VINCULAÇÃO :

Não há limites à capacidade – devemos “passar uma auto estrada sobre esta artigo”.
Porquê?
1. Está em contradição com o 9º/1 da primeira diretiva;

72
2. A sociedade comercial não tem fim lucrativo necessariamente;
3. A capacidade não tem restrições especificas mas antes abstratas – aquilo que
os autores entendem ser uma incapacidade o autor considera um abuso de
representação;

A matéria da capacidade não deve ser confundida com a da vinculação. As limitações


à capacidade não se identificam com as limitações ao poder representativo dos
órgãos de administração e representação.

1 2

1- (a medida da) Capacidade: a sociedade, de um ou outro órgão, através de um ou


mais órgãos, poderá fazer tudo aquilo que, com relevo interno ou externo, se
contenha no interior deste círculo; nada poderá fazer, sob pena de nulidade, que
vá para lá deste círculo.

2- (poderes de) Vinculação: A sociedade através do órgão representativo (agora


apenas este está em causa), não se liga, obriga ou vincula perante terceiros (agora
somente as relações externas estão em jogo) por atos fora do círculo da
capacidade jurídica (atos nulos);
O círculo da vinculação ocupa o espaço do circulo da capacidade respeitante tão
somente às relações externas. Por outro lado, o menor perímetro do círculo da
vinculação é imposto também pelo facto da sociedade por todo e qualquer ato
com relevo externo para cuja prática ela tenha capacidade – os poderes de
vinculação do órgão representativo são limitados por disposições legais e, nalguns
casos, estatutárias. Note-se também que um ato que não vincula a sociedade é
ineficaz em relação a ela; um ato fora da capacidade jurídica da sociedade é nulo.

Representação:
Considerações Gerais:
- Poder de representação: equivale à competência externa, perante terceiros
(art.408º e 409º CSC);
- Poder de administração/gestão: equivale a competência interna, relativa a
deliberações interorgânicas (art.406º CSC);

O poder de representação equivale à competência externa; o poder de administração


ou gestão equivale à competência interna.

Sociedades anónimas: arts. 408º e 409º CSC. A representação é a vinculação perante


terceiros. Ambos estes artigos tratam da competência externa. O art. 406º trata da
competência interna do poder de administração ou gestão.

73
Sociedades por quotas: Arts. 260º (vinculação ou poder de representação) e 261º
(trata simultaneamente do poder de representação e do poder de administração).

Representação ativa – representação orgânica vs. representação


voluntária:
A deliberações apenas têm impacto interno, para passarem para o exterior é
necessário a representação.
Exemplo: o conselho de administração da MEO decide passar do MEO 4 para o MEO 5
isto é competência interna, quando vendem estes serviços aos consumidores é
competência externa, poder de representação.

No art. 261º e 408º é estabelecido um regime de representação orgânica conjunta.


Ambos estipulam que as sociedades ficam vinculadas com a maioria dos gerentes e
administradores. Este é o regime supletivo na medida que só é assim salvo cláusula
estatutária que diga o contrário.

Para além da representação orgânica conjunta, nos arts.261º/2 e 408º também é


prevista uma delegação do poder de representação entre os
gestores/administradores. A ideia de delegação surge na escola de Oto Von Gierk, um
privatista.
O regime da delegação funciona só para determinados atos ou espécie de atos. Não é
genérico. É um poder delimitado. Por contrapartida, o poder originário (não delegado)
é ilimitado.

Exemplo:
- Imaginemos uma sociedade que se dedica a comprar e a revender café, esta
sociedade pretende adquirir uma quantidade enorme de café; tem dois gerentes;
apenas existe vinculação se atuarem os dois;
- A sociedade pretende comprar um imóvel, só há vinculação se atuarem os dois
gerentes;
- Porém, se a sociedade quiser revender o café a pequenos distribuidores (se não for
um negócio que envolva grandes valores), pode não ser prático estarem os dois
gestores a assinar os contratos, logo, pode um dos gestores delegar os poderes,
somente para aquele ato específico – representação orgânica delegada.

A REPRESENTAÇÃO VOLUNTÁRIA:
As sociedades anónimas para além de terem este regime de representação orgânica
prevista no art.261º e 408º, também podem socorrer-se do regime do CC. Os gerentes
podem passar procurações a terceiros.

Existem então dois tipos de representação:

74
- REPRESENTAÇÃO ORGÂNICA – representação da sociedade através dos
administradores ou gerentes. Esta representação pode ser originária ou delegada
os poderás na primeira são ilimitados e na segunda limitados. Através da delegação
de poderes, os gestores/administradores delegam entre si . Aplica-se, portanto, as
regras do CSC (art.261º e 408º).

- REPRESENTAÇÃO VOLUNTÁRIA – representação dos gestores a terceiros através de


procuração. Aplicam-se, portanto, as regras do CC.
Diz o art.391º/7 que é possível as sociedades comerciais fazerem procurações.

Representação na sociedade por quotas – artigo 261º CSC:


De acordo com a última parte do artigo 261º/1, para as sociedade por quotas se
vincularem não basta a assinatura de um gerente, é necessária a maioria dos gerentes
– representação orgânica conjunta maioritária.

Havendo dois gerentes a vinculação só é feita com duas assinaturas, só assim se dá a


representação orgânica conjunta maioritária.

Artigo 261º/2 – há possibilidade de delegação dos poderes de representação de um


gerente noutro .

Representação nas sociedades anónimas – 408º e 409º CSC:


Também aqui existe a representação orgânica conjunta mas podem ser feitas
procurações – aqui releva a procuração tácita e a procuração aparente.

Assim podemos concluir que para além da representação orgânica temos ainda um
regime de procuração voluntária - Artigo 252º/6 e 391º/7 CSC.

A PROCURAÇÃO :
A procuração constitui um negócio jurídico unilateral, através do qual são atribuídos
poderes de representação.

Art. 258º CC - dois requisitos da representação para que funcione a imputação:


 atuação em nome de outrem;
 no âmbito dos poderes concedidos;

Contemplatio domini – invocação do nome de outrem. A sub-representação e a


delegação (sub-representação orgânica) funcionam nos mesmos termos. O art. 258º
também se aplica à representação orgânica.

A doutrina vai para além da letra do 258º CC:


- Procuração tácita: pessoa não atribui a procuração mas teve contactos comerciais
anteriores e pelo seu comportamento tem de ser concluir de demandou o outro.

Pedro – “principal”, “representado”;

75
Paulo – “procurador”, “representante”
Tiago – “terceiro” – Pedro já teve vários contactos com o Tiago, em que o Paulo
era o seu representante – outra coisa não se pode depreender das suas
relações.

- Procuração aparente: em nome da boa fé e da proteção das expectativas, se o


Tiago confiou no Pedro, essa confiança deve ser tutelada.

Nota: As sociedades comerciais, para além de terem este regime de representação


orgânica (261º e 408º), também podem socorrer-se das normas do CC sobre
representação voluntária.

Exemplo:
A, Lda., representada pelos gerentes B e C – representação orgânica (261º CSC).
B e C podem passar uma procuração a favor de P (procurador) – representação
voluntária (262º CC). P pode intervir no negócio dizendo que tem poderes de
representação da A, Lda.
P pode substabelecer no S (representação voluntária – CC). P só pode substabelecer os
poderes que lhe foram dados.

A delegação é entre gerentes ou administradores. A procuração já é com alguém de


fora. A representação orgânica pode ser originária ou delegada. É feita através dos
órgãos das sociedades.

Análise de todos os artigos referidos:

Art. 391º/7: devia estar no art. 408º; está mal colocada sistematicamente. Como não
podia deixar de ser, é possível que as sociedades comerciais passem procurações.

Art. 408º/2: o Professor faz uma interpretação ampla para permitir um amplo regime
de delegação. O hábito nas sociedades anónimas é fazer uma delegação através
daquilo a que se chama credencial. Do ponto de vista jurídico, isto é uma delegação.
 O Professor interpreta este artigo tal como o 261º/2 – delegação externa.
 A maioria da doutrina diz que nas sociedades anónimas costuma haver uma
delegação, não do poder de representação, mas do poder de administração
(representação interna). Um fica com o pelouro financeiro, outro com o pelouro
comercial, outro com o de investigação. Esta distribuição de pelouros é uma
distribuição de competências internas da sociedade.  O Professor diz que esta
interpretação não permite gerir bem uma empresa, mas apenas o sistema de
credenciais – delegação para atos concretos ou determinadas espécies de atos. A
letra da lei permite esta interpretação ainda que assim se desvalorizem os
trabalhos preparatórios da lei.

Representação passiva:
Artigos 261º/3 e 408º/3 - a regra agora é a da representação singular.

76
A representação passiva corresponde a receber citações e notificações – ser
destinatário de declarações negociais (e não emissor de declarações negociais). Para a
representação passiva basta receber um gerente ou um administrador – representação
singular.

Sociedades por quotas - art. 261º/3.


Sociedades anónimas - art. 408º/3.

Representação aparente:
Art. 23º DL 178/86, de 3/06 (regime jurídico da agência). O contrato de agência é um
contrato de distribuição comercial. O agente promove a venda mas o contrato é
celebrado diretamente com a empresa-mãe. Esta norma tem uma vocação de
aplicação por analogia universal.
Não há procuração, mas ainda assim o representado contribuiu para criar a aparência
de que o trabalhador T tinha poderes de representação. Ainda que não haja uma
cadeia formal de poderes de representação, ele atuou em nome de outrem e criou a
aparência e a confiança. Há, assim, vinculação com base na lei (art. 23º, por analogia).

As vicissitudes da representação:
O abuso de representação:

Artigo 269º CC – também aplicável à representação orgânica.

Casos especiais: 260º/2 e 409º/2 CSC

O que é o abuso de representação? Eu atuo dentro dos meus poderes formais e como
tal há validade, no entanto violei os meus deveres, pelo que o ato será eficaz. Exemplo:
violei deveres de lealdade, violei deveres em geral, atuei contra o interesse do
Principal.
Mesmo quando o procurador atua no âmbito da procuração pode haver ineficácia
quando P atuou em prejuízo da A, S.A. e o terceiro sabia ou devia saber dessa
atuação prejudicial. A hipótese mais típica é o conluio entre o procurador e o terceiro.
Também há a hipótese do dever de conhecer – o terceiro devia saber, por força das
circunstâncias, que aquela atuação era prejudicial.
Esta ideia subjacente ao art. 269º é uma importação de doutrina germânica.

Se a atuação extravasar à partida o âmbito dos poderes de representação, já nem


sequer estamos perante abuso de representação. O abuso de representação do 269º
só surge se primeiro houver atuação nos termos formais do 259º - há representação,
mas há abuso de representação.

Atuo no âmbito do poder mas violando deveres.

77
SOCIEDADES POR QUOTAS - ARTIGO 260º CSC:

Nº1: Ideia de que os poderes são formais, abstractos. A atuação dos gerentes dentro
dos poderes formais vincula perante terceiros, não obstante as limitações constantes
do contrato social ou resultantes de deliberações dos sócios (independentemente dos
deveres).

Nº2: prevê uma hipótese de abuso de representação.


Quando o Paulo autua em representação da Pedro Seguradora SA, dentro dos seus
poderes mas violando o objeto social e o Tiago sabia, este negocio não pode ser
oposto à sociedade.
Isto é teoria germânica – não há limites à capacidade de gozo, mas a sociedade não
responderá perante questões de abuso de representação. Este não é um problema de
capacidade, há poder de representação – a válvula de escape é o abuso de
representação.
Importa notar que quem tem de provar que o T conhecia do abuso é o Pedro, a
sociedade.

SOCIEDADES ANÓNIMAS – ARTIGO 409º:


Em relação às sociedades anónimas, estipula exatamente o mesmo.

Os artigos 260º e 409º são um resultado transposição da 1ª diretiva e revelam o


regime germânico de tutela de terceiros e do tráfego jurídico. Os poderes de
representação são formais, ilimitados. Sem prejuízo de situações de abuso do poder de
representação.

Há essencialmente dois deveres dos administradores: dever de lealdade e dever de


gestão. Atuação em violação dos deveres pode ser reconduzida ou a uma violação do
dever de gestão ou do dever de lealdade. Extravasar o objecto social é uma violação do
dever de gestão.

Instituto do negócio consigo mesmo:

Artigo 261º CC e 397º/2 CSC (para as sociedades anónimas)


Situação que também corre mal e em que é possível destruir os efeitos jurídicos do
negócio.

Art. 397º/2 CSC – negócio com a sociedade ou negócio consigo mesmo. Situações em
que o gerente ou o administrador faz um negócio consigo próprio. Atua no âmbito dos
poderes formais, mas há a possibilidade de a sociedade ter sido lesada. Há um
elevadíssimo perigo de conflitos de interesses. Daí este preceito. É necessário haver
uma autorização especial para esse efeito, sob pena de o negócio ser nulo.

78
Art. 261º CC – refere-se mais ou menos às mesmas situações que o art. 397º CSC. É
anulável a não ser que o representado tenha autorizado.

Os alemães defendem a ineficácia e é este o regime mais apropriado.

Quatro sub-hipóteses de negócio consigo mesmo:

1. Negócio consigo mesmo strictu senso:


.B e C, como administradores da A, S.A. vendem um imóvel a eles próprios. É provável
que o preço seja inferior ao normal.

2. Negócio com dupla representação:


B e C surgem do outro lado não como compradores, mas como representantes. Se o
representante atuou dos dois lados, à partida destrói-se logo o negócio, esta é uma
forma de evitar isso.

3. Sub representação:
B substabelece os seus poderes em D, que vende a B.

4. Co-representação;
B não actua (podia actuar, mas ficou escondido); só C. C vende a B.

A lei não vai proibir isto em absoluto – podem fazer mas com a autorização de todos
os sócios, pelo Conselho de Administração, etc, em abstrato são anuláveis ou nulos,
salvo se, houver uma autorização por parte do representado.

No CC só estão previstas as três primeiras hipóteses. No CSC (397º/2) estão previstas a


primeira, a terceira e a quarta. A melhor solução é aplicar por analogia para abarcar as
quatro hipóteses. Aplicamos por analogia o 261º à situação de co-representação e o
397º/2 por analogia à dupla representação.

O 397º/2 está previsto para as sociedades anónimas. E para os outros tipos de


sociedades?
Não está nada previsto. Há quem aplique o CC (Professor; não é por analogia, é uma
aplicação subsidiária – art. 2º CSC) e quem aplique o 397º/2 CSC por analogia
(Coutinho de Abreu).

Nota: Isto na prática nunca é tão simples - este instituto jurídico convive com a
interposição de pessoa, afinal o Paulo vai vender por ex à mulher.

79
Imputação delitual orgânica:
Artigo 165º CC, e 6º/5 do CSC.
Artigo 500º CC – responsabilidade civil extracontratual;
Artigo 800º CC – responsabilidade civil contratual;

Assumindo que a sociedade tem personalidade e capacidade devemos agora saber em


que termos poderá incorrer em responsabilidade pelos atos praticados em seu nome.
Afinal se a sociedade se tornou num ator económico e social que pratica em proveito
próprio numerosos atos ou omissões, natural é que deva suportar os encargos ou
consequências negativas daí decorrentes.

A imputação pode surgir em vários contextos: não apenas no da celebração de um


negócio jurídico, mas também em contextos de responsabilidade delitual. Precisamos
de regras de imputação das condutas dos seres humanos às pessoas colectivas não
só quando são celebrados negócios jurídicos, mas também quando está em causa a
responsabilidade delitual. Se no mundo da imputação negocial vale o art. 258º CC, no
mundo da responsabilidade delitual (para efeitos da aplicação do art. 483º CC), já não
Exemplo: o funcionário de uma empresa tem um acidente de carro e provoca danos a
terceiros. Não é o art. 258º que nos permite resolver este problema. Nem no caso de
uma descarga de efluentes de uma fábrica, por exemplo, que provoque danos
ambientais. Contudo, tem de haver sempre critérios de imputação.

Para explicar como surge a ideia de imputação delitual nas pessoas colectivas, é
preciso invocar novamente Savigny e Gierke. Savigny é o grande representante da
teoria da ficção e Gierke da teoria orgânica. É no contexto desta querela entre Savigny
e Gierke que se coloca o problema da imputação delitual. Para Savigny, não fazia
sentido falar de imputação delitual quanto às pessoas colectivas. Nesta altura, ainda
não havia responsabilidade objectiva. Só aos seres humanos poderiam ser imputadas
as condutas culposas. Em contraposição, Gierke considera que as pessoas colectivas
são realidades sociais que actuam através dos seus órgãos e, como tal, também podem
praticar factos ilícitos e culposos. A ideia de imputação delitual às pessoas colectivas
surge, assim, com Gierke.

O art. 6º/5 CSC diz-nos exactamente o mesmo que o art. 165º CC. Este artigo remete
para o regime da responsabilidade dos comitentes – art. 500º CC. Pressupostos:
responsabilidade independente de culpa; o comissário tem de ser responsável em
termos de culpa; a conduta tem de se enquadrar no exercício da função que foi
confiada ao comissário.

Se haverá depois responsabilidade interna (do gerente perante a sociedade) depende


de saber se geriu bem ou mal. Esta questão diz respeito aos deveres e
responsabilidades dos gerentes e administradores – vamos ver depois.

80
É preciso distinguir a imputação delitual no âmbito da representação orgânica (165º CC
e 6º/5 CSC) da imputação delitual no regime civil comum (500º). O resultado é o
mesmo; contudo, ainda assim, é preciso distinguir as duas situações.
Se não é um gerente nem um administrador da empresa que tem um acidente, mas
um qualquer outro trabalhador, já não existe um vínculo orgânico, portanto, não
aplicamos nem o 165º CC nem o 6º/5 CSC, mas sim directamente o 500º CC.

Há quem defenda antes uma ideia de culpa da pessoa colectiva, fazendo tábua rasa da
ideia de imputação. É uma escola que vem na tradição de Gierke. Menezes Cordeiro é
influenciado por estas ideias. Em vez de dizer que quem tem culpa é o gerente e
depois há responsabilidade da pessoa colectiva através dos arts. 6º/5 CSC e 165º CC,
diz antes que é a sociedade que tem culpa, pois foi ela que atravessou com o sinal
vermelho, causando um acidente, por exemplo. O Professor não concorda com esta
ideia: não é a pessoa colectiva que vai ao volante; é um ser humano. Há sempre,
portanto, um problema de imputação. Não interessa escamoteá-lo. Aliás, Gierke,
originalmente, usa várias vezes o termo “imputação”. O Professor considera que há
claramente um problema de imputação. Ambas as tendências podem ser, contudo,
encontradas em Gierke.

Para além do fenómeno da imputação, discute-se se existe um privilégio. Ao mesmo


tempo que responsabilizamos a pessoa colectiva, deixamos de responsabilizar o
gerente? Ou há uma responsabilização simultânea? Se há uma responsabilização de
ambos, não podemos falar de privilégio. Se há uma desresponsabilização do ser
humano, podemos falar do privilégio da irresponsabilidade.

Imputação de estados subjetivos relevantes:

Artigo 259º CC - discute-se se é aplicável à representação orgânica. Os alemães dizem


que sim. Exemplos de estados subjectivos: erro-dolo. Uma declaração negocial pode
ser anulada quando há uma actuação dolosa.

Exemplo 1: sociedade A, Lda. que tem 100% da B, Lda. A sociedade A vai vender estes
100% à sociedade C (share deal). A, Lda. vendeu por 50.000€, quando, na verdade,
valia 1€. A sociedade B estava cheia de dívidas. O gerente da sociedade A entregou
contabilidade falsificada. O dolo do gerente vai ser imputável à sociedade – art. 259º.

Exemplo 2: Sociedade A, S.A. Joaquim é administrador único da A, S.A. Felisberto,


membro do Conselho Fiscal, enganou o C. A sociedade fez uma cessão da quota de
100% da B, Lda. a C por 50.000€. Quem actua como representante neste negócio é o J.
F não actua como representante mas informa o C de que a sociedade B tem uma
óptima contabilidade. Neste caso, não é fácil aplicar o 259º. Se fosse o J a utilizar o
artifício fraudulento e a entregar a contabilidade falsificada aplicávamos o 259º. F não
fez nada na escritura, mas enganou o C. Não encontramos uma solução evidente no

81
259º. Os alemães dizem que, adaptando, devemos sancionar a situação, imputando o
comportamento de F à sociedade A, S.A. Aplica-se, portanto, o 259º.

Exemplo 3: caso de impugnação pauliana. A, S.A. vende um imóvel ao C. Isto para fugir
a uma penhora que B tentava contra A, S.A. Só pode haver impugnação pauliana
procedente se houver má fé, uma vez que se trata de uma venda e não de uma
doação. Felisberto é membro do Conselho Fiscal da A e é sócio da C. Para B destruir
este negócio, tem de provar que há má fé. É possível imputar o conhecimento de
Felisberto? Nas sociedades comerciais, não interessa fazer apenas a imputação dos
estados subjectivos dos que actuam como representantes no negócio, mas também
imputar os conhecimentos, os estados subjectivos de pessoas que estão na
organização da pessoa colectiva, apesar de não terem estado na escritura. Deve-se
fazer uma interpretação extensiva do 259º.

Sociedades – 13.03.15

Aula passada - aspectos gerais da sociedade enquanto entidade:


Representação, patologias da representação.
Imputação dos estados subjetivos relevantes – erro, vício na formação do negócios
jurídico.

A desconsideração da personalidade jurídica ou levantamento


da personalidade coletiva:
Ler Coutinho de Abreu – pag 176 a 186

Princípio da separação: a personalidade jurídica societária representa um instrumento


técnico jurídico cujo significado fundamental é operar uma separação tangente entre a
sociedade e o respetivo substrato pessoal (sócios, administradores, trabalhadores): a
sociedade é titular de relações jurídicas próprias e de um património autónomo.
Daqui decorrem porem perigos e riscos:
- Acionistas de uma SA deitam fogo às suas instalações fabris para que a
sociedade encaixe a correspondente indemnização da seguradora;
- Sócio único de uma SQ a constitui com o único propósito de explorar através
dela uma atividade económica que lhe estava vedada a titulo pessoal;

82
Perante estas situações alguma jurisprudência e doutrina defendem então a
necessidade de “levantar o véu” da personalidade jurídica da sociedade comercial,
olhando para a realidade substantiva – desconsideração da personalidade jurídica.

A derrogação da personalidade jurídica é então a derrogação ou não observância da


autonomia jurídico subjetiva e patrimonial das sociedades em face dos respetivos
sócios.
Tal desconsideração legitima-se através do recurso a operadores jurídicos:
interpretação teleológica de disposições legais e negociais e o abuso de direito.

“Disregard of the corporate entity”


Criação jurisprudencial norte-americana, que foi depois importada para a Europa. Não
há nenhuma norma do CSC sobre desconsideração da personalidade jurídica, contudo,
os tribunais, por vezes, lembram-se disto. A ideia é afastar a autonomia subjetiva e
patrimonial da sociedade face aos sócios.

Esta desconsideração teve a sua origem histórica nos EUA no séc. XIX mas rapidamente
se difundiu pelos tribunais da Europa. É a técnica através do qual o julgador, sem
norma legal que expressamente o suporte, afasta a personalidade jurídica de um ente
coletivo societário com vista a imputar um determinado efeito jurídico à realidade a
ela subjacente.
Este método jurídico permite, em via excecional e ao arrepio do princípio fundamental
da separação, a imputação aos sócios ou administradores de um determinado ato,
qualidade, negócio ou responsabilidade jurídico formalmente atribuídos à empresa.
Fica no entanto a incógnita de saber a exata delimitação deste instituto face a outros
institutos clássicos como a fraude à lei, abuso de direito, a boa fé, tutela da confiança,
simulação etc.

Em determinadas circunstâncias as pessoas que estão por detrás da PC estão a usar


de forma abusiva a personalidade coletiva. A regra de ouro do capitalismo diz-nos
que os sócios não têm responsabilidade pelas dívidas sociais mas se abusarem das
vantagens inerentes a criar uma sociedade, prejudicando os credores e os outros
sócios, os tribunais desconsideram a sociedade e atacam o património dos sócios.
Os tribunais consideraram que era de esquecer a regra de ouro e responsabilizar os
sócios pelas dívidas sociais - derrogam a separação, a autonomia subjetiva e
patrimonial da sociedade face aos sócios.
Desconsidera-se aqui o princípio da separação que faz esta clivagem, entre as esferas
pessoais e patrimoniais.

Há duas situações de desconsideração de personalidade jurídica.

1. Situações de imputação

Nestas situações determinados conhecimentos, qualidades ou comportamentos de


sócios são referidos ou imputados à sociedade e vice versa. Aplica-se aqui o operador
da interpretação teleológica.

83
EXEMPLO 1 – VIOLAÇÃO DA PROIBIÇÃO DA CONCORRÊNCIA :

Um pessoa que por efeito de um trespasse, fica obrigado a não concorrer durante
certo tempo com o trespassário viola tal proibição quando constitui uma sociedade
unipessoal com objeto idêntico ou similar ao do estabelecimento alienado, ou quando
entra em sociedade concorrente nela desempenhando funções de relevo decisório.

Vendi a minha farmácia em Évora e concordei numa cláusula de proibição da


concorrência: combinei com o adquirente que ficava com dois anos sem poder abrir
novos estabelecimentos farmacêuticos naquela zona.
Assim é porque quando eu vendo um estabelecimento tenho de largar a clientela, nem
é necessário clausular a proibição da concorrência. Em filigrama jurídica discute-se se
está em causa a venda da “clientela”, ou se estamos perante certes deveres
contratuais de conduta.

Para contornar esta proibição o vendedor pode criar uma sociedade comercial
detentora de uma nova farmácia, que, por seu turno, vai exercer concorrência direta à
farmácia que vendeu antes – não há violação da proibição de concorrência, logo não
tem de pagar clausular penal.

No entanto será desconsiderada a personalidade jurídica da nova sociedade


comercial, haverá imputação deste violação da proibição da concorrência à conduta do
vendedor.

EXEMPLO 2 - VENDA DE PAIS A FILHOS:


Artigo 877º CC
No CC, são proibidas as vendas de pais a filhos sem consentimento dos outros filhos.
Os pais poderiam vender não ao filho preferido, mas à sociedade do filho. Já não está
sujeito formalmente ao art. 877º CC. Para situações como esta, serve a
desconsideração da personalidade jurídica. Esta ideia convoca a ideia mais vasta da
interposição de pessoas.

EXEMPLO 3 – VENDA DA TOTALIDADE OU DA MAIORIA DAS PARTICIPAÇÕES SOCIAIS:


A venda da totalidade ou da maioria das participações sociais deve ser equiparada à
venda da empresa social. É feita aqui uma interpretação teleológica do contrato de
compra e venda de participações sociais, apoiada por um entendimento
substancialista da personalidade jurídica, que permite atribuir ao sócios a venda de um
bem (empresa) que somente à sociedade competiria efetuar.

EXEMPLO 4 – IMPEDIMENTOS AO DIREITO DE VOTO:


Em certas situações de conflito de interesses estão os sócios impedidos de exercer o
direito de voto (251º CSC).

84
2. Situações de responsabilidade:

Nestas situações a regra da responsabilidade limitada ou da não responsabilidade por


dívidas da sociedade, é quebrada. Aqui estão em causa abusos da regra de outro do
capitalismo – agora o sócio vai responder pelas dividas sociais.
Aplica-se aqui o operador do abuso de direito – os sócios perdem o benefícios da
responsabilidade limitada, respondendo perante os credores sociais quando utilizem a
sociedade não para satisfazer os interesses de que esta é instrumento mas antes para
desrespeitar interesses dos credores da sociedade.

A. MISTURAS DE PATRIMÓNIOS :

A e B casados, únicos sócios de uma SQ, comportam-se habitualmente como


se o património social fosse património comum do casal: circulam bens de um
para o outro sem registos contabilísticos, tornando-se inviável distinguir o
património dos sócios do património da sociedade.
Em casa de insolvência, não poderão os sócios opor aos credores a regra de
ouro da responsabilidade limitada.

b. DESCAPITALIZAÇÃO FORÇADA:

Imagine-se uma sociedade de responsabilidade limitada que tem problemas de


liquidez. Os sócios deslocam a produção para sociedade nova por eles
constituída, ou para sociedade já existente e de que eles são sócios. A primeira
sociedade cessa a atividade ou diminui-a grandemente, ficando impossibilitada
de cumprir obrigações para com os terceiros.
Verifica-se aqui um abuso da personalidade coletiva, a responsabilidade
limitada não pode ser usada como um instrumento de inflição de danos aos
credores.
Nestes casos de descapitalização provocada é violado o dever de lealdade,
dever que impõe que cada sócio não atue de modo incompatível com o
interesse social ou com interesses de outros sócios relacionados com a
sociedade. Consequentemente os sócios desleais podem ter de responder
perante a sociedade (responsabilidade interna).

Faço uma venda dos ativos que transferir por um valor ínfimo para outra
sociedade por mim criada – para a jurisprudência isto não vai relevar, os
credores da empresa antiga vão poder atacar o património da nova sociedade.

O negócio não está a correr bem, por isso, a sociedade vende os bens/ativos a
outra sociedade por um preço generoso e passa a exercer a sua atividade
através da outra sociedade. A sociedade A fica com as dívidas, mas passa os
bens para a B. Estas vendas podem ser objecto de impugnação pauliana, mas,
para além disso, terá lugar a desconsideração da personalidade jurídica. Os

85
credores tanto poderão atacar o património da sociedade A como dos gerentes
dessa sociedade (contrariando a regra de ouro do capitalismo).

c. SUB CAPITALIZAÇÃO INICIAL MANIFESTA :

Diz-se em restado de subcapitalização material a sociedade que não dispõe de


capitais próprios suficientes para o exercício da sua atividade.
Os sócios abusam da personalidade coletiva da sociedade quando a introduzem
no comércio jurídico ou a mantêm nele, apensar de sofrer de manifesta
subcapitalização material. Se a sociedade porque subcapitalizada caiu em
regime de insolvência os sócios são chamados a responder subsidiaria mas
ilimitadamente, perante os credores sociais.

A e B constituem a sociedade A, Lda. para construção civil. Metem lá 50.000€


de capital próprio e pedem emprestado à banca 500.000€. O negócio correu
mal porque o capital alheio era muito. A sociedade não vai gerar dinheiro
suficiente para pagar o serviço da dívida e quem vai sair prejudicado são os
credores.

Considerações de EA:

O recurso a esta técnica de desconsideração da personalidade jurídica introduz um


facto de insegurança no direito societário que pode levar a resultados insatisfatórios,
quer na prática quer para o próprio Direito.

Esta banalização da figura, somada ao recorte impreciso da sua matriz e à fluidez das
suas fronteiras, conduziu inevitavelmente a uma vaga de impressionismo
jurisprudencial em vários países, que sendo destituída de unidade ou consistência tem
resultado em resultados casuísticos e imprevisíveis.
A desconsideração da personalidade jurídica só pode vir a desempenhar um papel
relevante no universo jussocietário quando o enorme grau de incerteza jurídica tenha
sido ultrapassado por um sólido corpo de jurisprudência – tal ainda não é possível.

O problema da base legal:


Conselheiro Sousa Brito – “apenas podemos defender aquilo que tem uma base legal”.
Estas teorias de desconsideração de personalidade jurídica são úteis, no entanto não
têm uma base legal. Foi criada nos tribunais americanos que não dão tanta
importância às fontes de direito.

ARTIGO 84º - RESPONSABILIDADE DO SÓCIO ÚNICO:


Este artigo é um afloramento da desconsideração de património., no entanto tem uma
aplicação limitada.

Só existe esta responsabilidade:

86
i) quando há um sócio único. É raríssimo haver um sócio único.
ii) é preciso que haja uma falência, e,
iii) se prove que após ser sócio único não respeitou as disposições legais relativas
à afectação do património.

Este preceito consagra, ainda que de forma muito tímida, uma ideia de
desconsideração da personalidade jurídica. É preciso ser muito desatento para se
deixar apanhar por esta norma – basta não ser sócio único.

A questão da simulação por CFA:


Há um contrato simulado, há ou não um contrato dissimulado e um pacto simulatório
– acordo de vontades quanto a não valer o contrato. Aqui não há isso, as partes criam
uma sociedade, queriam mesmo aquele efeito, o problema é que o efeito da criação
da nova sociedade era uma fraude.

Segundo CFA, o artigo 84º não tem nada a ver com o instituto da desconsideração,
devemos procurar outra base legal. O professor não concorda, devemos ter em contra
o princípio que está por detrás deste artigo.

ARTIGO 334º DO CC – ABUSO DE DIREITO :


Quando a jurisprudência aplica a ideia da desconsideração da personalidade jurídica
não aplica o 84º, mas sim o instituto do abuso de direito (334º). A autonomia
patrimonial, a irresponsabilidade dos sócios, é um direito que é abusado por ofensa à
boa fé ou aos bons costumes. Não é fácil recorrer a esta norma, pois, em rigor técnico,
não há aqui um direito. O direito talvez seja antes o de constituição de sociedades
comerciais.

CASOS DE VENDA DE FILHOS A NETOS - INTERPRETAÇÃO TELEOLÓGICA :


Nas outras situações de imputação talvez nem seja necessário recorrer ao art. 344º CC.
Basta fazer uma interpretação extensiva de normas pontuais como o art. 877º CC.

CASOS DE FRAUDE À LEI – INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA :


Artigo 21º CC
Na aplicação das normas por analogia, para além de se ter em conta a previsão, o que
releva é encontrar as normas cuja estatuição normativa nos resolve o caso concreto.
De acordo com este ponto, o artigo 21º CC é a melhor norma para analogicamente
resolver o problema da base legal da desconsideração da personalidade jurídica.

Artigo 21.º
(Fraude à lei)
Na aplicação das normas de conflitos são irrelevantes as situações de facto ou de direito criadas com o intuito
fraudulento de evitar a aplicabilidade da lei que, noutras circunstâncias, seria competente.

87
Aplicação da desconsideração do património:
É preciso cuidado na aplicação deste instituto, afinal é contra legem. A ideia de que os
sócios podem ter de responder pelas dívidas da sociedade vai colidir com um princípio
estruturante da organização económica – o facto de poderem ser criadas empresas
com limitação da responsabilidade dos sócios.
Se houver uma desconsideração de personalidade jurídica frequente, o juiz que aplicar
o instituto está a prejudicar a regra de ouro do capitalismo moderno, prejudicando a
economia do país.

Por exemplo o caso das start ups – essas empresas começam quase sem nenhum
capital próprio e muito capital emprestado. Se correrem mal, não deve depois haver
desconsideração da personalidade jurídica, sob pena da violação da regra de ouro do
capitalismo.

A constituição de sociedades comerciais:


Sumário: 1. Considerações genéricas 2. Modalidades de constituição. 3. Elementos
contratuais. 4. Regime de interpretação dos estatutos. 5. As regras do registo. 6. As
sociedades irregulares. 7. As sociedades inválidas.

Considerações genéricas:
CONTRATO DE SOCIEDADE – NATUREZA:
De acordo com Gierke no contrato, temos declarações negociais que se cruzam; na
sociedade, pelo contrário, todos apontam na mesma direção – constituem uma
sociedade para prosseguir um fim comum. Portanto, não seria um contrato, mas sim
um acto colectivo. A característica marcante dos contratos aos olhos de Gierke é a
contraposição de interesses. Nas sociedades, não encontramos esta contraposição de
interesses. Todos caminham na mesma direcção. Hoje, esta perspectiva (acto
colectivo) quase não tem seguidores.

Atualmente considera-se que na constituição da sociedade há também um contrato.


O dever que mais caracteriza o contrato de sociedade é a contribuição com bens ou
serviços. Estas contribuições nem sempre são iguais. O aspecto essencial para
ultrapassar a ideia de Gierke não é a de haver contribuições diferentes na sociedade,
mas o facto de vários contratos não implicarem uma contraposição de interesses.
Nem todos os contratos evolvem troca de prestações em que os interesses de cruzam,
podem haver contratos de sociedade em que há uma finalidade comum.
Corolário: aplicação ou não do regime geral do negocio jurídico.

88
PROCESSO DE CONSTITUIÇÃO DE UMA SOCIEDADE COMERCIAL:
A constituição de uma sociedade comercial deve ser vista como um processo – não se
traduz num único ato mas sim num conjunto de atos jurídicos que se sucede:
1) Negócio jurídico institutivo – contrato ou negócio unilateral
2) Registo;
3) Publicidade;

TENDÊNCIA DE DESBUROCRATIZAÇÃO :

Forma do contrato de sociedade:


Há uma tendência atual de desburocratização ao nível da constituição das sociedades
comerciais.
Na redação inicial do CSC (1986), exigia-se a escritura pública, que é a forma mais
solene para a celebração de negócios jurídicos. Deixou de se exigir escritura pública em
2006.
A reforma de 2006 incidiu sobre dois grandes temas: corporate governance e
desburocratização ao nível de todos os atos das sociedades comerciais, com destaque
para o ato constitutivo.

1ª Diretiva em matéria de coordenação do Direito das Sociedades: aborda o tema da


invalidade do negócio jurídico institutivo e o problema da constituição e da
publicidade. Qual é, ao nível da constituição das sociedades, a arquitetura da Diretiva?
Qual é o consenso europeu? Tem de haver um controlo público, mas não dois.
A tradição portuguesa era a de haver dois: um primeiro pelo notário na celebração da
escritura púbica e o segundo pelo conservador do registo comercial aquando do
registo comercial. Porquê esta preocupação com o controlo da constituição das
sociedades comerciais? Devido ao regime de responsabilidade dos sócios.
Preocupações com segurança de terceiros. Não se jogam apenas os interesses das
partes na constituição de uma sociedade.

Aos olhos do legislador europeu, basta um controlo único. Em momentos mais


recentes de desburocratização, o legislador português está a optar por um maior
controlo pelo conservador do registo comercial. Isto tem custos - a desvantagem da
desburocratização é a diminuição do controlo

Certificado de admissibilidade da firma social:


As sociedades não podem ter uma firma de nome igual à que já existe. Também aqui
há uma tendência de desburocratização.
Como é que se controla que as sociedades não usurpam as firmas de outras? É preciso
um controlo de originalidade das firmas, quando se quer constituir uma sociedade
comercial, em primeiro lugar, é necessário obter uma certidão de admissibilidade da
firma social.

Este certificado é um problema porque há uma tendência nas organizações


internacionais de fazer estudos de análise da legislação e dos hábitos burocráticos dos
vários países. Os economistas têm uma grande preocupação em saber se é mais fácil

89
constituir uma sociedade comercial em Portugal do que em Espanha, por exemplo. Até
2006, estávamos muito mal nestas estatísticas. Perdia-se muito tempo com a obtenção
destes certificados.

Criou-se então a Empresa na Hora. A ideia é o próprio Estado inventar umas firmas
para quem queira constituir sociedades e adoptar uma destas firmas.

Ainda no sentido desta tendência de desburocratização, a constituição de sociedades


passou a ser possível online, sem qualquer suporte de papel. Tendência de
sobreposição entre o negócio jurídico institutivo e o registo – quando é tudo online, há
uma espécie de fusão dos dois actos. A tendência no futuro é conseguirmos transmitir
imóveis ou móveis sujeitos a registo online. Isto acabará com as querelas sobre o
registo predial.

Surge aqui uma sobreposição entre o negocio jurídico institutivo e o registo.

AS SOCIEDADE EM FORMAÇÃO E AS SOCIEDADES IRREGULARES :


Quando se faz uma constituição tradicional, existe um processo com hiatos temporais
ainda extensos, temos um problema de sociedades em formação.
Existem também em que os próprios sócios não tinha interesse em completar o
processo institutivo das sociedades, ficavam as sociedades irregulares. Estas são
ituações patológicas em que os sócios não querem fazer o registo mas antes viver à
margem da lei.

Há aqui um problema político-ideológico: combate às sociedades-fantasma e à


economia paralela. O que se joga também aqui é o problema da valorização dos
registos públicos. Quando não se acaba o processo constitutivo, há um escrito com as
assinaturas reconhecidas, mas não há registo nem publicidade. Por que é que os
registos públicos são importantes?

A relevância dos registos:


1. Redução dos custos de transação (Coase);
Toda a economia moderna é baseada nesta ideia. Um grande objectivo político
numa sociedade moderna deve ser a redução dos custos de transação. O
registo leva a uma maior segurança, maior informação, o que reduz
enormemente os custos de transação.
Os registos públicos fazem com que seja mais fácil eu perceber com quem
estou a contratar e consequentemente contratar bem. Toda a riqueza no
mundo moderno, está assente em registos público.

2. Igualdade entre agentes económicos:


Todos estamos sujeitos ao registos, todos temos as mesmas obrigações. Todos
temos os mesmos encargos. Os custos agregados não são tão elevados como
isso, isto vai reduzir os custos de transação e consequentemente ganhamos
todos.

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3. Concorrência entre agentes económicos:
Com mais informação, há mais concorrência, que faz funcionar a mão invisível
do mercado.

Fontes:
1. Fonte Comum: contrato de sociedade (artigo 7º CSC);
2. Fontes especiais:
a. Lei;
b. Negócio jurídico unilateral (7º/2 in fine CSC);
c. Deliberação social: casos de cisão simples, fusão constituição (7º/4)
d. Decisão judicial: plano de insolvência de empresas insolventes (199º
CIRE).

Modalidades de constituição das sociedades comerciais:


O ato constitutivo reveste a natureza de processo jurídico de formação sucessiva e
complexa, composto por uma série variada de atos que podem prolongar mais ou
menos no tempo – é um processo constitutivo.

Modalidade comum:

1. Negócio jurídico institutivo: artigo 7º CSC – na atual redação o que se exige é a


forma escrita com reconhecimento presencial de assinaturas.

2. Registo: artigo 5º e 18º/5 CSC

3. Publicidade: 167º CSC – promovida oficiosamente pelos conservador do registo


comercial;

Análise dos artigos:


 Art. 7º - primeira fase do negócio jurídico institutivo
 Art. 5º - registo como condição para a atribuição de personalidade jurídica plena.
Até lá, há personalidade jurídica rudimentar.
 Art. 18º - registo do contrato. Nos 1 a 4 tratam da possibilidade haver registo
prévio. 18º/5 – aborda a modalidade comum mais frequente. Há uma imposição de
registo comercial. O Código do Registo Comercial explica como se faz o registo.
 Arts. 166º e 167º - as publicações obrigatórias (a constituição é uma publicação
obrigatória) devem ser feitas a expensas da sociedade em sítio da Internet de
acesso público. O conservador trata do registo a expensas da sociedade. O sítio é o
Registo Nacional de Pessoas Colectivas. Há uma dupla publicitação: no registo,
temos o pedido dos particulares a pedir o registo e há o acto do conservador que

91
realiza o registo e faz constar da base de dados da Conservatória Comercial
determinados elementos da sociedade comercial. Registo na Conservatória do
Registo Comercial – publicidade perante terceiros (o Código chama-lhe registo); em
segundo lugar: Registo Nacional de Pessoas Colectivas (publicidade).

Regimes especiais:

EMPRESA NA HORA – DL 111/2005 DE 8 DE JULHO:


Artigo 1º: Só para as sociedades por quotas e as SA.
Artigo 3º/1 a): Este regime funciona com modelos previamente aprovados. Firma
previamente criada e reservada a favor do Estado.

É necessário o registo e a publicitação (8º e 13º).


Art. 13º/1 a) – dever oficioso do conservador do registo comercial de enviar para o
RNPC para fazerem a tal publicitação obrigatória, que é uma espécie de registo.

Modalidade exclusivamente aplicável à constituição de sociedades anónimas e por


quotas cujo capital seja realizado através de entradas de dinheiro ou de bens sujeitos a
registo – artigo 3º/b DL 111/2005.

EMPRESA ONLINE – DL 125/2006:


Artigo 1º - Apenas para sociedade por quotas e sociedades anónimas.
Artigos 6º e 10º - O negocio jurídico institutivo é subscrito online –Registo e
publicitação automáticos – permite uma subscrição online.
Pode haver um modelo aprovado para ao acto constitutivo, mas também pode ser
usado um modelo acordado entre os sócios – 6º/1 al. c). Já não há aquela barreira da
sociedade na hora. A sociedade online é um regime mais maleável. Podemos ter uma
firma de fantasia previamente criada pelo Estado (procedimento mais rápido) ou os
outros esquemas de admissibilidade de firma. Neste diploma está também previsto o
registo e as publicações obrigatórias.

Modalidade exclusivamente aplicável à constituição de sociedades anónimas e por


quotas cujo capital seja realizado através de entradas de dinheiro ou de bens cuja
transmissão não exija forma legal solene – artigo 2º/a DL 125/2006.

MODALIDADE COM REGISTO PRÉVIO:


Artigo 18º/1 a 4
Igual à comum mas tem mais uma fase que é o registo prévio – para além do registo
definitivo fez-se um registo prévio – permite às sociedades comerciais cujo capital seja
realizado através de entradas pecuniárias prevenir eventuais necessidades de
rectificação posterior desse ato.

1. Registo prévio: pouco utilidade.

92
2. Negócio jurídico institutivo: artigo 7º CSC – na atual redação o que se exige é a
forma escrita com reconhecimento presencial de assinaturas.

3. Registo: artigo 5º e 18º/5 CSC

4. Publicidade: 167º CSC – promovida oficiosamente pelos conservador do registo


comercial;

CONSTITUIÇÃO POR SUBSCRIÇÃO PÚBLICA:


Artigos 279º segs CSC
Artigo 13º do CVM
Para as SA – quero fazer uma sociedade anónima com dispersão de capital.

Queremos montar uma empresa com imensos investidores com apelo à participação
pública. A lei prevê uma situação em que a chamada dos diversos investidores surge
logo no momento de constituição da sociedade.

1. Projeto de contrato de sociedade;


2. Registo provisório;
3. Elaboração dos prospecto de oferta pública de aquisição: há um regime de
responsabilidade pelo prospecto caso tenha omissões ou informações erradas.
4. Aprovação do prospecto pela CMVM;
5. Lançamento da OPA – convites a contratar;
6. Subscrição das ações – nos balcões dos bancos;
7. Deliberação sobre a constituição em sociedade em assembleia constitutiva;
8. Celebração do contrato de sociedade por dois promotores – estre escrito é
uma mera formalização. Se houver vícios da declaração negocial vamos é olhar
para a deliberação;
9. Registo definitivo;
10. Publicidade;

Alternativas a isto:

Não se faz muitas vezes esta subscrição pública. É mais frequente constituir uma
sociedade pelo método comum e nos estatutos prever uma autorização de aumento
de capital deliberado pelo órgão de administração – 456º e ss. Faz-se esse aumento de
capital e em vez de se fazer uma oferta pública logo, faz-se uma conta de participação
com instituições financeiras. Combina-se com um banco que compra várias acções e o
banco é que venderá as acções. Estas alternativas não são modalidades de constituição
de sociedades – pertencem ainda à modalidade comum.

1. A forma de o fazer é criar uma SA estabelecendo logo nos estatutos a


possibilidade de um aumento do capital social, a deliberar pelo Conselho de
Administração.

93
2. Constitui-se uma sociedade anónima em conjunto com bancos, que depois
vendem as suas ações com o público.

TRÊS FORMAS DE CONSTITUIÇAO ANÓMALA:

I. FUSÃO POR CONSTITUIÇÃO DE NOVA SOCIEDADE:

Artigo 97/4 CSC


Fusão por incorporação – duas ou mais integram-se numa delas. Todas desaparecem
menos uma.

Fusão por constituição de nova sociedade – duas sociedades fundem-se e criam uma
nova sociedade.

II. CISÃO SIMPLES:

Artigo 118º
Uma sociedade divide-se e dá origem a duas novas sociedades.

Exemplo da cisão PT:


A PT engloba: telemóveis, telefones fixos, filmes. Tiramram os telemóveis e criaram a
TMN, tiraram os filmes e constituíram a PT multimédia.
As ações da TMN e da PT multimédia eram detidas em 100% pela PT.
A PT multimédia passou a para a Zon e deixou de ser a PT a deter 100%.

Houve aqui uma cisão – é destacado uma massa patrimonial que vai formar uma nova
empresa.

III. TRANSFORMAÇÃO:
Art. 130º/3 e 5 – transformação. Transformar uma sociedade por quotas numa
sociedade anónima. Há ainda a transformação extintiva ou novatória – 130º/3.

SANEAMENTO POR TANSMISSÃO :

Art. 199º CIRE. Há uma sociedade que está em más condições financeiras – só tem
passivo e não tem ativo. Com o processo de insolvência, liquida-se o ativo que ainda
resta e dá-se aos credores.
A insolvência é um processo de execução universal. Na insolvência, temos todos os
exequentes que possam executar aquela pessoa. Não faz sentido que haja mil
execuções a correr em todo o país – corre tudo num único processo de insolvência.

A ideia não é liquidar a empresa; se possível, quer-se recuperar a empresa. O


administrador de insolvência (quem vai gerir a empresa) deve procurar uma forma de

94
recuperar, de sanar, a empresa. Quem decide é a maioria dos credores. O
administrador faz um plano de insolvência, que será ou não aprovado pelos credores.
Nesta fase, os sócios já não mandam. Uma das medidas que pode ser aprovada pelos
credores é o saneamento por transmissão – art. 199º. É possível transmitir um
estabelecimento comercial para outra empresa que se constitui – transmitem-se os
ativos, deixa-se o passivo.

1. Proposta de plano de insolvência com os estatutos da sociedade já em anexo;


2. Deliberação e aprovação em assembleia de credores.
3. Homologação judicial U(217º/3 a) CIRE)
4. Registo e publicidade;

CONSTITUIÇÃO ATRAVÉS DE ATO LEGISLATIVO FORMAL :


É uma lei que cria uma empresa – nas privatizações costuma haver criação de empresa
através de ato legislativo formal.

Sociedades – 17.03.15

Constituição de Sociedades Comerciais (continuação):

Requisitos constitutivos:

1. REQUISITOS RELATIVOS ÀS PARTES:


a. Número: não existe número mínimo ou máximo obrigatório, embora o
legislador estabeleça como regra geral a existência de 2 sócios (7º/2
CSC).

b. Natureza: sujeitos com personalidade jurídica (pessoas singulares ou


pessoas coletivas, de direito privado ou de direito público, comerciantes
ou não comerciantes).

c. Capacidade: capacidade jurídica de gozo ou de exercício.

d. Legitimidade: caso dos cônjuges, artigo 8º/1 CSC.

2. REQUISITOS DE FORMA:
a. Formal legal: a constituição de uma sociedade comercial está sujeita,
por via de regra a forma legal especial, nomeadamente forma escrita
(7º/1 CSC) com reconhecimento presencial da assinatura.
A falta de forma implica a nulidade do negócio societário (220º CC e
41º/1 CSC).

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b. Registo Comercial: as sociedades comerciais apenas têm personalidade
jurídica a partir do ato de registo (artigo 5º). Através do registo reforça-
se a segurança do tráfego jurídico, certificando a conformidade legal do
ato constitutivo social, conferindo publicidade ao nascimento das
sociedades e tutelando as expectativas de terceiros sobre factos
registados.

A eficácia constitutiva do registo é mitigada por força da relevância que


a sociedade comercial não registada já possui no trafico jurídico – pode
se fonte de relações com terceiros (36º CSC).

Outros efeitos relevantes: eventual assunção de negócios pré registrais


(19º CSC), determinação do regime da invalidade constitutiva (41ºCSC),
promoção oficiosa da publicação societária (71º CRegC).

c. Publicação: a lei exige que à constituição da sociedade seja dada


publicidade obrigatória (166º e 167º CSC). A falta de publicação,
acarreta a inoponibilidade da sua existência perante terceiros
(168/1CSC).

Em suma:
A forma legal constitui um requisito de validade do ato de constituição da sociedade,
o registo comercial, um requisito da sua eficácia absoluta, e a publicação constitui um
requisito da eficácia relativa da sociedade perante terceiros.

Elementos do contrato de sociedade comercial:

Os estatutos sociais constituem um conjunto de regras jurídicas aprovadas pelos sócios


que regem a identidade, o nascimento, a organização e funcionamento, as relações
internas e externas e a dissolução de uma determinada sociedade comercial concreta.

Ato constitutivo de sociedade engloba:


i. Contrato de sociedade: ato de identificação das partes e expressão da
respetiva vontade na criação de um novo entre jurídico;
ii. Estatutos sociais: disciplina a criação, organização e funcionamento,
financiamento, relações externas e interna e dissolução da sociedade. Têm
elementos obrigatórios e elementos facultativos.

Ver pág. 177 – 184 do Engrácia Antunes

96
Menções obrigatórias:

Artigo 9º - elenco de menções legais obrigatórias, elementos obrigatórios que não


podem deixar de constar do negócio jurídico constitutivo de sociedade.

a) identificação dos sócios;

b) identificação do tipo de sociedade;

c) a firma da sociedade – o nome/designação da sociedade;

d) o objeto da sociedade - artigo 11º/2 CSC.


Como objeto da sociedade devem ser indicadas as atividades que os sócios
propõem que a sociedade venha a exercer. O objeto é portanto a atividade
prevista nos estatutos.

Não podem existir sociedades universais, ou seja, sociedades que tenham um


objeto completamente amplo (ex. dedica.se a tudo o que não seja proibido por lei)
. Tem de haver uma efetiva delimitação de uma atividade.

e) A sede da sociedade – dever ser estatutário, que pode ser contraposta a uma sede
efetiva.
Artigo 12º - também regula a possibilidade de deslocação da sede.
Artigo 3º - A propósito do direito dos sócios à informação os sócios têm direito a
convocação para assembleias na sede estatutária.

Contrapõem-se os conceitos de sede principal e efetiva da sociedade. Esta


distinção é convocada a propósito do estatuto pessoal da sociedade, relevante
para saber qual o direito aplicável.

Acórdão Centrus – a sede estatutária pode ser em país diferente da sede efetiva.

f) Capital social;

g) e h) - Discrição e valorização das entradas.

 Uma entrada com dinheiro não necessita de ser valorizada, já sabemos o


seu valor;
 Se for uma entrada com bens é necessário esse ato de
avaliação/valorização;

Apesar de não previstas no artigo 9º há certas situações que quando ocorrem também
devem ser mencionadas nos estatutos:

97
- vantagens especiais concedidas a sócios conexionadas com a constituição da
sociedade e com as despesas inerentes (16º/1);
- direitos especiais de sócios que só existem quando previstos no contrato social
(24º/1).

Quanto às sociedades anónimas é ainda obrigatória referência à estrutura orgânica


(272º/g e 278º).
Sociedades por Quotas: artigo 199º.

Menções não obrigatórias:

CLÁUSULAS RELATIVAS À DURAÇÃO DA SOCIEDADE: artigo 9º/i) e 65º - A CSC.

CLÁUSULAS RELATIVAS À AQUISIÇÃO DE PARTICIPAÇÕES NOUTRAS SOCIEDADES: 11º/4 e 5

Nº4 – aquisição de participações em sociedades de responsabilidade limitada: O


objecto das sociedades tem de ser igual. Normalmente existem cláusulas estatuárias
que permitem a aquisição de participações por sociedades mesmo que estas tenham
objeto diferente. Afasta-se assim este regime supletivo.

“Responsabilidade limitada”: este número aplica-se às SA e sociedades por quotas,


excluindo-se assim as sociedades em comandita e as sociedades comerciais. Ainda
assim pode colocar-se uma cláusula estatuária que afaste esta proibição.

Nº5 – aquisição de participações como sócio de responsabilidade ilimitada.

CLÁUSULAS SOBRE VANTAGENS, INDEMINIZAÇÕES E RETRIBUIÇÕES: 16º/1

Nº1: vantagens, indemnizações ou retribuições associadas à constituição da sociedade


comercial. Não podem ser confundidas com os direitos especiais dos sócios presentes
no artigo 24º.
Exemplo: pessoa teve maiores prejuízos com a constituição da sociedade, a lei permite
que a esse sócio seja atribuída uma vantagem X.

Já no artigo 24º tratamos de direitos especiais face aos outros acionistas mas que não
têm a ver com a constituição da sociedade. Exemplo: direitos associados a ações nas
sociedades anónimas.

CLÁUSULAS REFERENTES A CONTRATOS CELEBRADOS DURANTE O PROCESSO DE CRIAÇÃO SOCIEDADE:


Artigo 19º/1 c) e d) – cláusulas expressamente preveem que determinados negócios
celebrados pelos sócios em momentos prévios ao registo sejam depois assumidos pela
sociedade.

SOCIEDADES ANÓNIMAS - CLÁUSULAS QUE ATRIBUEM COMPETÊNCIA AO CONSELHO DE


ADMINISTRAÇÃO EM MATÉRIA DE DELIBERAÇÃO SOBRE O AUMENTO DO CAPITAL SOCIAL - artigo 456º

98
Tendencialmente este poder está conferido aos sócios mas pode ser atribuído ao
Conselho de Administração.

Pode ser aposta no contrato de sociedade uma cláusula facultativa que autorize o
órgão de administração a aumentar o capital com entradas em dinheiro. Aumentar o
capital social é arriscado. Podem entrar novos sócios ou os sócios já antigos
subscreverem uma participação de capital maior.

Exemplo:

Sociedade anónima
A – 20 acções
B – 20 acções
C – 20 acções
D – 20 acções
E – 20 acções

Aumento de capital de 50: A passa a ter 70; os restantes ficam com o mesmo. O A
passa a ser um sócio com muito mais peso do que os outros. Basta juntar-se a mais um
sócio e conseguem controlar a sociedade toda. Quem controla uma sociedade pode
conseguir de forma direta ou indireta retirar mais dinheiro da sociedade do que os
sócios minoritários.
Como administrador, pode fazer com que a empresa passe a fornecer-se com uma
empresa que também é sua (e a preços mais elevados do que os de mercado). Existe,
por isso, um prémio de controlo. Quem compra uma participação minoritária paga x.
Quem compra uma maior participação, paga mais do que x. Em Portugal, o preço de
controlo ronda 30%. Os aumentos de capital jogam com o equilíbrio de poderes na
sociedade.

Artigo 456º - Nas sociedades anónimas é possível que os estatutos estabeleçam uma
autorização para o órgão de administração aumentar o capital. A ideia é a de que, ao
contrário das sociedades por quotas, as sociedades anónimas são o tipo de sociedades
que têm tendência para serem bombas de capital. São o tipo de sociedade comercial
mais apto para os grandes projetos empresariais, com grande absorção de capital.
Umas vezes, são constituídas sociedades anónimas fechadas para projetos
empresariais menos grandes e com menos sócios. Contudo, muitas outras vezes, as
sociedades anónimas são constituídas para aquilo para que realmente estão
vocacionadas: atraírem grande investimento público.

Aumentar capital é um risco; joga com o equilíbrio de poderes na sociedade. Forma de


proteger os sócios perante um aumento de capital: direito de preferência dos
acionistas na subscrição do aumento de capital social (458º).

SOCIEDADES POR QUOTAS - PRESTAÇÕES SUPLEMENTARES – artigo 210º;


Para além da entrada inicial (dever de contribuição característico do contrato de
sociedade), pode ser estabelecida uma obrigação de prestar contribuições
suplementares num determinado prazo (210º).

99
SOCIEDADES POR QUOTAS - DIREITO À INFORMAÇÃO DOS SÓCIOS – artigo 214º/2 - O direito à
informação dos sócios pode ser regulado no contrato de sociedade, nos estatutos. Isto
pode ser feito para proteger os sócios minoritários ou os sócios maioritários.

DISTRIBUIÇÃO DE LUCROS – artigo 217º e 294º;


A constituição de sociedade implica três direitos essenciais dos sócios (aos lucros, a
participar nas deliberações sociais e à informação). Aqui, está em causa o primeiro.
Esta é uma norma de proteção das minorias. Salvo uma deliberação por parte de uma
maioria qualificada forte, os lucros anuais não podem deixar de ser distribuídos.

TRANSMISSÃO DE PARTICIPAÇÕES SOCIAIS – artigo 329º e 328º; com esta cláusula podemos
alterar em grande medida do tipo da sociedade.

 Art. 229º (sociedades por quotas) - transmissão de quotas.

 Art. 328º (sociedades anónimas) – está em causa a transmissão de ações. Aqui,


há uma menor elasticidade. A regra é haver uma maior liberdade de
transmissão de ações. Pode haver sociedades anónimas mais ou menos
fechadas. 328º/1. 328º/2 a), b) e c).

CLÁUSULAS QUE AUTORIZAM A DERROGAÇÃO DE PRECEITOS LEGAIS DE CARÁCTER SUPLETIVO, POR


DELIBERAÇÃO SOCIAL DE CARÁCTER INFRA ESTATUTÁRIO – artigo 9º/3.
Cláusula estatutária autoriza derrogação da lei supletiva via deliberação infra-
estatutária. Os estatutos podem ter uma cláusula que autorize os sócios a deliberarem
de forma contrária a preceitos legais, a normas legais supletivas. As normas injuntivas
claro que não podem ser afastadas. As supletivas podem ser afastadas pelos estatutos
ou por deliberação simples se os estatutos previrem esta possibilidade (9º/3).

Lei supletiva  Estatutos sociais  Deliberação infra estatutária.

Regime das relações societárias anteriores à celebração do contrato de sociedade:


Artigo 36º/2
- Relações internas: aplicam-se os artigos 983º CC e seguintes.
- Relações externas: aplicam-se os artigos 996 e seguintes CC – em regra responde a
sociedade e pessoal e solidariamente a título subsidiário, os sócios.

Regime das relações internas depois da celebração do ato constituinte e antes do


registo:
Artigo 37º

100
No período compreendido entre a celebração do ato constituinte e o seu registo
definitivo, são aplicáveis às relações internas as regras estabelecidas no estatuto e no
CSC.

Regime de relações das SA e das SQ com terceiros depois da celebração do ato


constituinte e antes do registo:
Artigo 40º/1 – pelos negócios realizados em nome de uma SQ, ou SA respondem
ilimitada e solidariamente todos os que no negócio agirem em representação dela,
bem como os sócios que tais negócios autorizarem, os restantes sócios respondem até
às importâncias das entradas a que se obrigações.

PROBLEMAS QUE DAQUI RESULTAM:

 Para além dos sócios e representantes também as sociedades respondem


com os seus patrimónios pelos negócios celebrados em seu nome?

CA considera que também as sociedades respondem pelos atos em seu nome


realizados no período compreendido entre a celebração do ato constituinte e o seu
registo definitivo, porem com dois limites:
1. não respondem por obrigações que não podem assumir depois do registo;
2. parte do património social por ações não pode ser mobilizado para pagar a
credores (277º/5 b).

 Os sócios que respondem solidariamente entre si são também responsáveis


com as respetivas sociedades?

Sim – cada um dos sujeitos referidos nos artigos 38º a 40º respondem pela prestação
integral e esta a todos libera (512º/1 CC).

 Os sócios que não autorizaram os negócios e que só respondem até às suas


entradas também respondem solidariamente?

Não – esta é uma responsabilidade limitada que se apfasta portanto da


responsabilidade solidária.
Estes sócios respondem apenas numa segunda linha, este ideia destina-se a permitir
que os credores se paguem também com bens que ainda não entraram na socialidade.
É uma espécie de subrogação de credores.

A interpretação dos estatutos:

101
Os estatutos são negócios jurídicos de organização, relevando não apenas para os
sócios iniciais mas também para futuros sócios e terceiros.
Atendendo aos interesses de terceiros e futuros sócios têm alguns acórdãos e autores
defendido uma interpretação unitária objetiva dos estatutos: não há que buscar a
vontade real dos sujeitos do ato constituinte, e não devem atender-se a elementos
contextuais (ex. negociações preliminares).

Existem várias posições doutrinárias:


 As cláusulas estatutárias têm natureza negocial, logo a primeira ideia é que a sua
interpretação deve ser feita nos termos do 236º CC.
 Porém a maioria da doutrina portuguesa defende que as cláusulas devem antes ser
interpretadas de acordo com o artigo 9º CC. Engrácia Antunes entende que devem
ser tidos em conta critérios objetivos.
A este propósito, fala-se numa interpretação objectiva, e não tanto subjetiva.
Porquê esta querela? Porquê interpretar como uma lei se é um negócio jurídico?
Porque entende-se que os estatutos não respeitam apenas àquelas concretas
pessoas que naquele momento histórico celebraram o contrato; projetam-se no
futuro. Serão relevantes não apenas para aqueles sócios que estiveram ali
presentes, mas também para os sócios futuros. Se isto já pode acontecer numa
sociedade por quotas, ainda mais numa sociedade anónima de grande dimensão.

Engrácia Antunes começa por distinguir as cláusulas do contrato de sociedade em


cláusulas de cariz jurídico negocial e cláusulas de cariz jurídico organizativo.
* Cláusulas de cariz negocial: atribuem direitos e obrigações intimamente
ligados à pessoa dos sócios ou a regular as relações destes entre sim com a
sociedade – método subjetivo (236º CC)

* Cláusulas de cariz organizativo: regras de direito objetivo, de aplicação geral


e abstrata indistintamente aplicáveis aos sócios atuais, aos sócios futuros,
aos investidores, aos membros dos órgãos de administração e fiscalização,
aos credores sociais e aos terceiros em geral – método objetivo (9º CC).

 Posição intermédia (Coutinho de Abreu):


- cláusulas relativas à organização: relevantes para os sócios atuais, para os
sócios futuros e para terceiros – aplica-se o artigo 9º CC;
- cláusulas relativas aos direitos dos sócios: relevantes para os sócios atuais, já
faz sentido aplicar-se o 236º. Esta é a posição de Coutinho de Abreu.

 Professor: deve aplicar-se o artigo 236º CC.


O artigo 236º convoca a noção de declaratário que pode ser uma única pessoa ou um
conjunto de pessoas. Há declarações negociais dirigidas a um indivíduo ou a um
público em geral.

Tese de Karl Larenz – interpretação em que o sentido relevante do negócio não é o


sentido da vontade do declarante, mas o sentido da interpretação do horizonte do
destinatário, com a ressalva de imputabilidade ao declarante. Esta tese foi adoptada
em Portugal.

102
Muitas vezes, quando se defende a ideia de que não vale o 236º, mas a interpretação
objectiva da lei, defende-se isto com base em interpretações que não são muito
elegantes. Ferreira de Almeida e Larenz: o regime geral de interpretação do negócio
jurídico é flexível. Declaratário, para efeitos do 236º, não tem de ser necessariamente
uma pessoa. O negócio jurídico pode destinar-se a o público e continuamos a aplicar o
236º.
Exemplo: se é uma oferta ao publico de um país em geral, tenho de interpretar isso de
acordo com a interpretação do português comum. Se é assim, deixa de fazer sentido
buscar o artigo 9º.
Caímos assim numa interpretação um pouco mais objectiva, pois temos como
referência, não o Joaquim, mas um conjunto muito grande de pessoas. Vamos ser mais
objectivistas necessariamente. Contudo, para isto, não temos de abandonar o 236º e
aplicar as regras de interpretação da lei. É preciso é interpretar bem o art. 236º.
Portanto, o Professor considera que se deve aplicar o 236º CC.

Problemas práticos: problemas linguísticos, só o artigo 236º esclarece o assunto, o


artigo 9º CC não está pensado para resolver problemas de confrontos linguísticos.
Exemplo: BANIF, com sede no Funchal, tem uma cláusula com elementos linguísticos
duvidosos. Na Madeira, há uma gíria típica que permite interpretar aqueles elementos.
O horizonte da interpretação deve ser o de um declaratário madeirense.

O registo:
1º EFEITO - AQUISIÇÃO DE PERSONALIDADE JURÍDICA :
Artigo 5º

O registo tem como efeito a aquisição da personalidade jurídica. As sociedades


comerciais adquirem a personalidade com o registo.

Professor – a sociedade comercial adquire a personalidade jurídica plena com o


registo, até aí tem uma personalidade jurídica rudimentar.

Oliveira Ascensão faz uma leitura sincopada do artigo 5º, segundo a qual, as
sociedades comerciais têm personalidade. Existem como tal, a partir da data do
registo.
De acordo com esta leitura as sociedades têm personalidade mesmo antes do registo e
a partir do registo existem como tais. Ou seja não dá importância ao registo. Neste
sentido, também está Menezes Cordeiro.

Outros autores defendem que antes do registo não há qualquer tipo de personalidade.

Esta querela doutrinaria é exatamente igual à questão da personalidade das


sociedades coletivas.

103
2º EFEITO DO REGISTO - ASSUNÇÃO DE POSIÇÕES JURÍDICAS:
Artigo 19º/2.

Um dos elementos facultativos dos estatutos refere-se aos atos posteriores ao ato
institutivo e prévios ao registo. Com o registo, há uma assunção das posições jurídicas
anteriores pela sociedade.
O registo, para além de atribuir personalidade jurídica plena às sociedades, leva à
assunção de posições jurídicas anteriores. Para além da assunção das posições
jurídicas anteriores, há também uma eficácia liberatória da responsabilidade dos
sócios e dos agentes. Se A e B começam logo a contratar o arrendamento (quando
ainda não constituíram a sociedade), a lei diz que A e B também respondem (36º/2),
para que o arquiteto e o senhorio não sejam prejudicados. Com o registo, o contrato
de arrendamento e de empreitada são assumidos em definitivo pela sociedade e os
sócios deixam de ser responsáveis por aqueles contratos.

Sociedades irregulares:

Este tema convoca o problema da economia clandestina.


Sociedades irregulares são aquelas que exercem atividade antes do registo, da
aquisição da personalidade jurídica plena. Estão em causa dois momentos: o momento
anterior ao ato institutivo e o momento entre o ato institutivo e o registo. Antes do ato
institutivo, ainda está tudo escondido.
Este problema não deve ser confundido com o problema das sociedades inválidas.
Estas têm um vício no ato constitutivo (com exceção do vício da falta de forma – este
convoca o problema das sociedades irregulares).

Transitoriedade e falsa transitoriedade. A constituição de sociedades comerciais não é


um ato isolado; é um processo. Logo, tem de haver sempre algum decurso do tempo.
A transitoriedade é inevitável, em grande medida. Mas há depois situações em que a
transitoriedade foi realmente querida. Aqui, quis-se estar à margem da lei. A distinção
das duas situações é difícil. Se estão apenas há um mês ou dois sem registar, é
complicado distinguir. Há sempre aqui o problema da economia clandestina.

Relações anteriores à celebração do contrato de sociedade:

Artigo 36º

104
Nº1 – A APARÊNCIA DE SOCIEDADE :
Não há sequer um acordo oral, ou escrito sem reconhecimento. Dois ou mais
indivíduos criam a falsa aparência de entre eles existir uma sociedade, nunca
acordaram em contribuir para uma atividade com um fim comum. Havendo um acordo
meramente oral, temos um contrato de sociedade meramente oral, não se aplica o nº1
mas antes o nº2.

Nº2 – SOCIEDADE SEM A FORMA LEGAL:


Há o negócio jurídico institutivo, este tem é falta de forma (forma escrita com
reconhecimento presencial de assinaturas).

Direito das Sociedades Anglo Americanas – apresentação:


Nota: para nos referirmos a sociedades comerciais é preferível o termo company.

DIREITO INGLÊS

Antecedentes históricos:
- Joint stock companies (século XVI)
- Join stock companies registration (1844)
- Limited liability act (1855)
- Companies act (1862)
- Sucessivas alterações aos Companies Act

The Basic Business Types:

- The Company – tem personalidade jurídica; Companies act


- The Partnership – não tem personalidade jurídica; partnership act

Company versus corporation

The Companies:
- Registered companies – companies act
- Unregistered companies

Registered companies:
1) Company limited by shares (public company and private company).
- Tem personalidade jurídica.
- A responsabilidade dos membros é limitada, pelo que não respondem pelas
dívidas sociais. Ver art. 197º/1 CSC

105
- Podem ser públicas ou privadas (privada é toda aquela que não é pública).
Professor: tal como em Portugal, o que interessa é que o capital seja acessível
ao público, o que pode ser feito numa bolsa de valores, mas também nos
balcões dos bancos. As que oferecem acções em Bolsa são cotadas na Bolsa,
mas as outras também podem ter as suas acções colocadas junto do público.

2) Company limited by guarantee


- Os membros não têm de contribuir para a sociedade durante o seu
funcionamento “saudável”.
- Cada membro é responsável por um montante específico, inscrito nos
estatutos, em caso de dívidas.
- Actualmente, não podem possuir capital social.
- Usualmente são utilizadas com fins solidários ou de interesse público.
- Professor: temos uma figura inspirada nesta figura – art. 198º/1 CSC. Os
membros podem prestar uma garantia até determinado montante. Nos
estatutos fixa-se um valor: o sócio diz que até 50.000€ responde pelas dívidas
da sociedade (apesar de haver responsabilidade limitada) – isto é inspirado
nesta figura. É uma segurança para os credores. Neste artigo mistura-se o
regime das limited by share com as limited by guarantee.

3) Unlimited company
- Os accionistas são responsáveis pelas dívidas e encargos da sociedade. Por
isso, não são tão atractivas.

Unregistered companies (regulados pelo acto institutivo + princípios gerais da jurisprudência):


1) Chartered companies. Criadas por autorização da Coroa.
2) Statutary companies – criadas por Acto of Parliament

DIREITO AMERICANO

Antecedentes históricos:
- A primeira lei de 1811 (Estado de Nova Iorque)
- As leis de 2888 e 96 (Estado de Nova Jersey)
- A “retracção” de Nova Jersey e a ascendência de Delaware (1913)
- Model Business Corporation Act (1950)

Corporations:
- Close corporations – são definidas segundo vários critérios. Três características
essenciais:
o Pequeno número de accionistas
o Limites à troca de acções
o Coincidência entre accionistas e gerentes
- Public corporations – as acções podem ser livremente comercializadas em bolsa

106
Professor: art. 13º CVM – define sociedade aberta. As que não se enquadrarem nesta definição
são sociedades fechadas. Al. c) – a autonomização da legislação sobre valores mobiliários tem
subjacente a necessidade de proteger o público investidor.

No texto 4 dos elementos de apoio, diz-se que antes de 1844 havia comerciantes que não
tinham autorização régia, criam montar na mesma grande projectos empresariais e não os
montavam ao abrigo de estatutos de companhia colonial; criavam uma Partnership de um
grande projecto empresarial. Tentavam obter contributos, participações sociais do público.
Algumas vezes, o público era enganado. Estas entidades sempre foram conhecidas por grandes
crises.

A partir de 1844, os comerciantes que queriam criar grandes empresas passaram a criar
companies com personalidade jurídica. Também para os pequenos projectos se criavam
companies.

Company vs. corporation. Corporation está muito associado à personalidade colectiva, no


direito inglês. Corporation em Inglaterra será algo próximo de pessoa colectiva em Portugal. É,
portanto, um termo muito amplo. Nos EUA, já não temos esta terminologia. Nos EUA,
sociedade comercial é corporation. A terminologia inglesa interessa-nos mais porque, na
common law, a origem está em Inglaterra.

Company vs. partnership. Na Alemanha também se fala em corporações. Em contraposição,


fala-se em comunhão (comunhão germânica). Na história do mundo ocidental, a ideia de
personalidade colectiva é relativamente recente. Os Romanos tinham a figura da societas e
não uma ideia de personalidade colectiva. Esta só surge no final da Idade Média, com a
atribuição de personalidade jurídica às igrejas, às instituições religiosas e às corporações,
designadamente às companhias coloniais. A ideia de personalidade colectiva vai buscar a sua
raiz na história das corporações. Portanto, não é estranho que os ingleses usem a expressão
corporation para significar personalidade colectiva. Na Alemanha, temos a tradição das
corporações (companhias coloniais, sociedades por acções). As sociedades por acções sempre
foram associadas à personalidade colectiva. É evidente que aquelas corporações não podem
ser descritas pelos sócios (estes são fungíveis). Tem de ser uma subjectividade jurídica
diferente dos sócios; tem de ser uma pessoa colectiva. Mas havia empresas que não eram
sociedades por acções, não eram corporações – as sociedades em nome colectivo. Na tradição
germânica, nunca foram consideradas corporações; erma um conjunto de pessoas que tinham
um projecto comum. Daí a ideia de mão comum. Distingue-se a contitularidade germânica da
românica (esta está descrita no CC – compropriedade). Na compropriedade, é possível dividir a
coisa comum. Na germânica não – há um património comum dirigido a uma determinada
finalidade. Exemplo: comunhão conjugal (só podem dividir o património se acabarem com o
casamento). Com o passar do tempo, passou-se a reconhecer personalidade colectiva a
algumas coisas que tradicionalmente eram consideradas mão comum, como o que aconteceu
com as sociedades em nome colectivo.

As Partnership são o equivalente à mão comum. Não têm personalidade jurídica e têm um
projecto em mão comum.

107
A Company surgiu em Inglaterra com as companhias coloniais; é o equivalente a uma
corporação (na tradição germânica).

Posteriormente, surgiu ainda a sociedade por quotas na Alemanha.

Em Inglaterra, não há a distinção entre sociedades por quotas e sociedades anónimas. São
sempre limited by shares, sendo que umas são abertas e outras são fechadas. O regime é mais
complexo entre nós. No mundo dos negócios, o que interessa é mais saber se é aberta ou
fechada, se tem o investimento do público ou não. Os problemas de governação são
totalmente distintos consoante as sociedades sejam abertas ou fechadas. Nas abertas, há o
problema da protecção dos pequenos investidores. Nas sociedades fechadas (sociedades por
quotas e sociedades anónimas fechadas), há problemas de confronto entre sócios, que têm
mais ou menos acesso à informação.

As discussões sobre o governo das sociedades que se colocam hoje em dia são, sobretudo, a
propósito das sociedades abertas. UK: companies abertas; EUA: corporations abertas;
Portugal: sociedades anónimas abertas.
Sociedades – 20.03.15
Hoje: Sociedade irregulares. Sociedades Inválidas. Direitos e deveres dos sócios.

Sociedades irregulares:
Sociedades irregulares: sociedades com processo constitutivo incompleto, aquelas que
ainda não estão registadas.
Sociedade que tendo já iniciado a sua atividade, não observou ainda algum ou alguns
requisitos formais do seu processo constitutivo.

Momentos na constituição de uma sociedade:


1) Acordo pré-contratual (chegaram à conclusão que vão criar uma sociedade)
2) Negócio jurídico institutivo
3) Registo – a partir daqui há personalidade jurídica (5º CSC)

No mundo dos negócios, é muito frequente que os sócios comecem a tomar


providências quanto à sociedade ainda antes do registo. Podemos ter bons cidadãos
que registam logo que possível ou maus cidadãos que, pretendendo fugir ao fisco, por
exemplo, não chegam a registar ou passam um longo tempo sem o fazer.

3 problemas:
1) Validade do negócio jurídico constitutivo (220º CC);
2) Efeitos dos negócios jurídicos celebrados até ao registo;
3) Responsabilidade das pessoas que celebraram aqueles negócios:

108
1. Sociedade aparente:

Artigo 36º/1

Sempre que dois ou mais indivíduos criam a aparência de existir entre eles uma
sociedade quando na realidade nada existe (nem contrato de sociedade, nem simples
projeto, nem tão pouco qualquer intenção genuína das partes em se associar). Temos
a chamada sociedade aparente.
Nestes casos, nada existe para além da vontade em criar a respectiva aparência.

Não há de todo um contrato de sociedade, não há um acordo de vontades, um


negócio. Há uma mera atuação que faz criar nos terceiros a aparência de que existiu
esse acordo.
Isto aparece muito em letras, livranças e nos cheques – principais exemplos do
princípio da tutela da aparência.

Não temos uma vinculação jurídica por força do negócio jurídico mas há uma
responsabilidade e uma vinculação jurídicas por força da lei, em nome da tutela da
da boa fé. Este é um princípio do direito civil consagrado constitucionalmente e
também com positivação no direito administrativo. Esta tutela da aparência é uma
demonstração ampla da tutela da confiança.

Neste sentido, o artigo 36º/1 CSC responsabiliza solidária e ilimitadamente qualquer


um dos putativos sócios pelas obrigações e demais consequências jurídicas
emergentes.

2. Contrato de sociedade com falta de forma legal:

Artigo 36º/2

Casos em que as partes celebraram, ou se prepararam para celebrar, um autêntico


contrato de sociedade mas sem forma legal exigida (documento escrito, documento
electrónico, escritura pública).

Regime legal aplicável:


O artigo 36º/2 estatui para estes casos, as normas aplicáveis às sociedades civis e
portanto confere responsabilidade solidária e subsidiária dos sócios pelas dívidas
sociais. Enquanto não promoverem um contrato de sociedade ao abrigo desta norma,
têm responsabilidade solidária e subsidiária.
* Plano das relações internas: regras do artigo 983º a 995º CC – as relaç~ões entre
sócios regem-se por estas normas civis;
* Plano das relações externas: regras dos artigos 996º a 1000 CC. Nos termos do
artigo 997º, segundo o qual, pelos atos praticados em nome da pré-sociedade,
respondem os sócios, a titulo subsidiário em relação à a sociedade e a título
solidário, entre si.

109
Em suma, à pré-sociedade é reconhecida a titularidade de um património autónomo
exclusivamente afecto às dívidas, sendo todavia, lícito aos credores sociais agredir o
património pessoal de qualquer um dos sócios, após excussão do património social
(997º/2 CC).

Considerando que a sociedade formanda possui personalidade judiciária ativa a


passiva (6º/ c CPC), sendo representada em juízo pelos seus administradores/sócios, os
credores deverão propor ação judicial de condenação ou execução simultaneamente
contra a sociedade e os sócios individualmente considerados.

3. Sociedade sem registo:

Artigos 37º a 40º CSC


Existe contrato de sociedade formalmente válido mas sem a competente inscrição no
registo comercial.

* Plano das relações internas: artigo 37º


Regra geral, as relações entre os sócios durante este período são regidas
fundamentalmente pelas normas gerais da lei societária, ou seja são iguais às
relações existentes numa sociedade já constituída.

Exceções: transmissão inter vivos das partes sociais e alteração dos estatutos
exigem o consentimento unânime dos sócios (37º/2);

* Plano das relações externas: artigo 40º CSC


Pelos negócios realizados em nome de uma sociedade por quotas, anónima ou em
comandita por ações, respondem ilimitada e solidariamente todos os que no
negócio agiram em representação dela, que como os que a autorizaram. Os
restantes respondem até à importância das entradas.

Em suma: a sociedade pré-registal constitui uma entidade com relevo a vários títulos
no negócio jurídico, incluindo o reconhecimento de personalidade judiciária (6º/d CPC)
e a sujeição à insolvência (2º/1 e CIRE).

Obtido o registo, o que acontece com os negócios jurídicos celebrados


anteriormente?

Assunção automática pela sociedade de negócios anteriores ao registo:


Art. 19º CSC
Nº1, alínea c) – aqueles negócios anteriores têm que constar do ato constitutivo e por
ele serem ratificados.

110
Nº1, alínea d) – autorização aos gerentes para celebrarem negócios jurídicos até ao
registo.

Assunção eventual:
Nº2 – podem ser assumidos outros direitos e obrigações realizados antes de registado
o contrato.

Efeitos:
 Sociedade assume retroativamente os direitos e as obrigações decorrentes dos
atos em apreço, tudo se passando como se os negócios houvessem sido
concluídos pela própria sociedade (19º/3).
 Relativamente aos sócios, a assunção possui em regra uma eficácia liberatória
da respectiva responsabilidade, com o consequente direito de regresso contra
a sociedade pelos pagamento entretantos efectuados.

Se a sociedade não se chegar a constituir, poderá haver responsabilidade pré-


contratual dos que celebraram os negócios jurídicos antes da constituição da
sociedade.

Artigo 36/2 Contrato Artigos 37º e 40/1 Registo


Responsabilidade dos sócios na Alemanha

Em Portugal há uma responsabilidade solidária e subsidiária dos sócios face à


sociedade, antes do contrato de sociedade e antes do registo.

 Art. 36º/2 – antes de celebrado o contrato, a lei remete em termos de


responsabilidade para o regime da sociedade civil, no CC. Arts. 997º e 998º CC
– responsabilidade do património comum e subsidiariamente dos sócios.

 Art. 40º/1 – negócios celebrados entre o negócio constitutivo e o registo.


Responde primeiro o património comum e depois alguns sócios de forma
subsidiária:
o Sócios que celebraram/autorizaram os atos praticados respondem
ilimitada e solidariamente.
o Restantes: respondem até ao limite das respectivas entradas, acrescidas
dos montantes recebidos a título de lucro.

111
Na Alemanha isto não funciona assim, antes do registo apenas são responsáveis os
sócios, não será responsável a sociedade não se pode atacar o património social.
Os alemães adoptam a teoria da separação: tudo o que for feito antes do registo
pertence aos sócios; o que for feito depois do registo, pertence à sociedade. Desta
forma, já não há economia paralela. Não há o problema de as pessoas andarem anos a
fio sem registarem a sociedade porque não conseguem realizar negócios jurídicos.
Engrácia Antunes defende este regime (o Professor também).

4. Sociedades sem publicação:

Uma sociedade cujo ato constitutivo já tenha sido outorgado e inscrito no registo
comercial, embora não publicado, é uma sociedade comercial dotada de
personalidade jurídica plena, sujeita embora a um regime especial em matéria de
oponibilidade da existência social perante terceiros (168º CSC).

A natureza da personalidade coletiva:

As sociedade comerciais têm personalidade a partir do registo (artigo 5º). As


sociedades civis têm personalidade jurídica rudimentar de acordo com o professor.

As sociedades comerciais em formação inserem-se nesta querela doutrinaria:


1. Alguma doutrina defende que as sociedades comerciais não têm
personalidade;
2. Oliveira Ascensão defende que as sociedades comercial têm personalidade
mesmo antes do registo.
3. Professor defende que as sociedades comerciais antes do registo têm
personalidade fragmentária, são pessoas jurídicas rudimentares.

Sociedades inválidas:
A invalidade das sociedades comerciais advém de vícios do negócios jurídico institutivo
que não são vícios de forma. O negócio é o contrato ou o negocio jurídico unilateral
que funda uma sociedade comercial.
Nota: quando as sociedades comerciais são criadas por lei já não aplicamos o regime
dos vícios do negócio jurídico.

Há uma regime especial: não se aplica apenas a Parte Geral do CC, também existem
normas no CSC, artigos 41º e seguintes.

Vício do negócio constitutivo:

112
Quais são as especificidade do regime consagrado no CSC? Há que distinguir entre o
regime de invocação dos vícios no negócio jurídico antes ou depois do registo.

Reação ao negocio jurídico institutivo inválido pode ocorrer e dois momentos:

1. ANTES DO REGISTO ;
Artigo 41º
- remete para o regime geral do CC: causas gerais de invalidade dos negócios
jurídicos previstas na lei civil, quer afetem o contrato no seu conjunto, quer
respeitem apenas a uma das declarações negociais;
Artigos 220º, 240º a 257º e 280º a 284º CC.

- Especificidades:
 refere o artigo 52º que não há efeito retroativo. Assim que é criada
a sociedade já foram praticados vários atos, assim não devem haver
efeitos retroativos, para não serem destruídos os atos já praticados.
 A invalidade de uma das declarações negociais não provoca
necessariamente o colapso do contrato.

O que se faz é uma liquidação, não há retroatividade. A lei não coloca a


pessoa em erro na posição em que estaria se não tivesse celebrado o
negocio, liquida-se o contrato mas não se coloca a pessoa em erro na sua
anterior situação.
A sociedade comerciais extinguem-se em dois momentos: através da
dissolução e posteriormente da liquidação. Os sócios decidem a dissolução
da sociedade e para isto ocorre a liquidação – liquidatário cobra as dívidas,
paga os créditos, distribui o remanescente pelos sócios, extinguindo assim a
sociedade.
o liquidatário não vai andar a desfazer negócios, apenas extingue todos os
atuais negócios existentes.

 Artigo 292 CC e 46º do CSC – possibilidade de redução do negocio


jurídico. Se o vício não afetar todo o contrato pode haver uma redução.

2. DEPOIS DO REGISTO :

Sociedades anónimas, por quotas, e comandita por ações:


Artigo 42º, regime imposto pela 1º diretiva.

Após o registo só é possível invocar determinado numero de vícios


taxativamente determinados no artigo 42º.
Há aqui uma ideia de estabilidade das sociedades comerciais – é quase
impossível extingui-la após o registo. As causas são quase impossíveis de
cumprir.

113
Isto também é uma decorrência do princípio da proteção da confiança. Um 3º
vai ao registo e confirma que está a lidar com uma sociedade comercial, não
lhe podem depois dizer que esta é inválida.

Sociedades em nome coletivo e em comandita simples:


Não estão cobertas pela diretiva comunitária. São fundamentos de invalidade
os constantes do CSC quer os constantes na lei civil

Diferença entre sociedade irregular e sociedade inválida::


- sociedade irregulares: atuação da sociedade quando há vícios de forma;
- sociedades invalidade: invalidades muito mais amplas.

Vício das declarações negociais dos sócios:


REGIME DA EXONERAÇÃO NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS , POR QUOTAS OU EM COMANDITA –
ARTIGO 45º:

Este artigo trata do problema dos vícios das declarações negociais e não do negócio
jurídico. Há vícios que afectam apenas uma declaração e vícios que afectam o conjunto
das declarações negociais.
Quando o vício afecta uma declaração negocial, o que resulta do CC é que se repercute
na totalidade do negócio jurídico, em princípio. Se uma das partes está em erro, não é
a declaração negocial dessa parte que cai, mas sim todo o negócio jurídico.
O art. 42º CSC trata dos vícios que afectam todo o negócio e o art. 45º dos vícios que
afectam apenas uma declaração negocial. Aqui, um vício duma declaração negocial
não provoca nenhuma nulidade, mas sim um direito à exoneração: não temos uma
eficácia retroativa; o sócio limita-se a poder sair fazendo um ajuste de contas no final;
a participação social do sócio é excluída.

A exoneração é uma forma de extinção da participação social. Quando há um vício de


uma declaração negocial, não se destrói todo o contrato, o que se dá é a
possibilidade ao sócio que sofreu um vício de sair da sociedade. Exemplo: sociedade
com 5 sócios, cada um com 20%. 1 sócio estava em erro e tinha entrado com 10.000€ -
não lhe vão devolver os 10.000€, mas antes os 20% do que a sociedade vale agora,
pode valer mais ou menos.

SOCIEDADE EM NOME COLETIVO E EM COMANDITA SIMPLES:

114
Os vícios de vontade ou usura despoletam indistintamente a anulabilidade relativa do
contrato (46º).

Consequências da invalidade do negócio constitutivo:

Artigo 52º - afasta-se da regra geral de retroatividade da anulação presente no CC.


Neste âmbito a invalidade do ato constitutivo apenas determina a entrada da
sociedade em liquidação. A eficácia dos negócios jurídicos anteriores não é afetada
pela declaração de nulidade ou anulação do contrato.

As causas de invalidade são verdadeiras causas de liquidação de sociedade tendo


portanto como efeitos a entrada da sociedade em liquidação judicialmente decidida.
Protegem-se assim os interesses dos sócios, que querem as sociedades o mais
atuantes possíveis, e os terceiros que não querem ver postas em causa as suas
relações atuais ou potenciais com as sociedades.

Direitos e deveres dos sócios:

Deveres - situações jurídica passivas: artigo 20º;


Direitos - situações jurídicas ativas: artigo 21º;

Principais deveres:
- Dever de contribuição e
- dever de lealdade;

Principais direitos:
- direito as lucros;
- direito a participar nas deliberações sociais;
- direito de informação;

Deveres principais:

Dever de contribuição vs. dever de lealdade:

115
O dever de contribuição é um dever primário de prestação. A contribuição é a
prestação característica dos sócios. Mas fala-se também no dever de lealdade (ideia
de origem germânica). Uma questão que os germânicos discutem é se este dever não
será o dever principal do contrato de sociedade. Há quem defenda que o dever de
contribuição não é o mais relevante; seria só uma faceta de um dever maior que é o de
lealdade, enquanto dever de prossecução do fim social. A ideia de fim comum é que
seria mais relevante. O Professor não gosta muito desta ideia: há um dever de
lealdade, mas não parece que seja o dever principal – esse é o dever de contribuição.

Dever de lealdade:
Há uma clivagem doutrinária no dever de lealdade.
Para uns é visto como um dever acessório de conduta nos termos do artigo 762º/2º
CC. Exemplo: dever primário do Mac é entregar a comida. Dever acessório de
proteção dos clientes que passa por não ter o piso escorregadio.

Outra parte da doutrina entende que o dever de lealdade é um dever característico do


contrato de sociedade. Isto é, característico dos contratos de cooperação. O dever de
lealdade não é visto como um mero dever acessório mas antes caracterizador – para
quem tem este entendimento, o dever de contribuição já não é tão importante e não é
um elemento caracterizador do contrato.

Considerações críticas:
 a ideia de um dever de lealdade é muito forte nas sociedades gregárias. Foi
pensada para as pequenas sociedades comercias, poe-se o problema de saber se
isto se aplica às grandes sociedade, nomeadamente às SA. É difícil de conceber que
em relação Às SA o dever de lealdade seja um dever característico.

 Esta ideia joga mal com o dever de participação – o limite ao direito de


participação é o abuso do direito, não é o dever de lealdade. Se o limite fosse o
dever de lealdade, não havia direito de participação nenhum, afinal pessoa não
podia votar de acordo com os seus interesses, mas apenas de acordo com o seu
dever de lealdade para com a sociedade .

 Numa sociedade em nome coletivo a lealdade é mais intensa mas existe sempre
um direito de voto.

Participação social ou socialidade:

EA – a participação social ou socialidade é a posição jurídica unitária e complexa de


que uma pessoa singular ou coletiva é titular enquanto sócia de uma sociedade
comercial.

116
Situação jurídica complexa do sócio, abarcando direitos e deveres. Esta participação
social tem vários nomes: parte, quota ou ação, conforme a sociedade seja uma
sociedade em nome coletivo, por quotas ou anónima.

Terminologia:
Podem haver problemas de polissemia: ação pode significar conjunto de direitos e
deveres dos sócios, ou também o documento que representa a participação social e
ainda enquanto fração do capital.

A participação social pode ser objecto de direitos reais, como o usufruto, o penhor, a
penhora.
As participações sociais também podem ser objecto de negócios jurídicos
transmissivos: cessão de quotas ou venda de ações. Numa cessão de quotas, o objecto
do negócio jurídico é uma situação complexa.
As situações jurídicas que integram a participação social, por vezes, são cindíveis.
Exemplos: direito ao dividendo. Outro exemplo: Art. 1º CVM – as ações podem ser
valores mobiliários. Pode haver valores mobiliários destacados das ações.

Conteúdo da participação social:

O conteúdo desta participação é o conjunto de direitos, obrigações, ónus expectativas,


faculdades, sujeições, de natureza atual ou potencial, de que uma pessoa singular ou
coletiva é titular na sua qualidade de sócio.

Natureza jurídica da participação social – polémica doutrinária:

Há uma grande discussão doutrinária sobre a natureza jurídica da participação social.


Várias opiniões:
1) Direito real
2) Direito de crédito
3) Direito misto
4) Posição jurídica contratual
5) Estado
6) Direito subjetivo especial

Professor: é um bocado disto tudo. É uma situação jurídica complexa. Manuel de


Andrade importou a ideia de relação jurídica. Menezes Cordeiro adopta a ideia de
situação jurídica, porque é possível haver um direito, sem que a ele corresponda um
dever. Noção de direito subjetivo, de dever, poder jurídico, sujeição. Quem explica isto
melhor é Menezes Cordeiro. Estas categorias analíticas correspondem ao léxico dos

117
juristas. Indo buscar este léxico, pode dizer-se que a participação social é uma posição
jurídica complexa.

Ideia de objecto jurídico – a participação social surge como objecto dos negócios
jurídicos. Duas ideias: problema da transmissão das posições contratuais; direitos reais
sobre participações sociais. Os direitos reais podem incidir sobre coisas corpóreas ou
não.

Tutela constitucional da participação social. Noção de propriedade na CRP – art. 62º.


Esta noção na CRP não equivale de todo à noção de propriedade no CC. Na CRP, é uma
noção extremamente ampla.
De acordo com o tribunal Constitucional: a participação social, enquanto situação
jurídica complexa de carácter patrimonial, também está protegida pelo art. 62º CRP.
Fala-se a este propósito de propriedade corporativa. Atualmente, a riqueza não está
concentrada na propriedade fundiária, mas na propriedade corporativa.

El de apoio – Ac. TC muito relvante.

Para EA a participação social constitui uma realidade jurídica única, complexa e sui
generis cuja disciplina sendo irredutível às categorias dogmáticas se traduz numa
posição corporativa.
A participação social traduz uma relação jurídica instituída entre o sócio e a pessoa
coletiva societária – relação complexa de natureza duradoura e disciplinada pela lei,
estatutos sociais e deliberações de órgãos sociais.

Em segundo lugar consiste num estatuto jurídico, que dá origem a direitos e deveres.
Por fim traduz-se ainda num objeto jurídico, já que se comporta como um bem
autónomo e unitário no tráfego jurídico.

Artigo 62º CRP – é um direito análogo aos DLG´s.


Nº2: estabelece uma imunidade, a proteção face à expropriação sem indeminização.
Nº1: direito à propriedade. Legislação infra constitucional que estabelece o que é a
propriedade de cada um, não resulta daqui um estatuto pormenorizado sobre
sociedades comerciais.

A tutela da propriedade não é uma mera tutela do direito real da propriedade mas
antes uma tutela de todos os direitos reais e ainda de todos os direitos obrigacionais
de conteúdo patrimonial. Entende-se que o artigo 62º também protege em alguma
medida as participações sociais.

Deveres dos sócios:


Dever de contribuição:
Art. 20º CSC.

118
O Professor prefere a expressão “dever de contribuição” em relação à expressão
“dever de entrada”. O dever de entrada é uma das facetas do dever de contribuição.
Finalidades do dever de entrada? Fornecimento de meios para a atividade social;
proteção dos credores. As entradas iniciais têm de corresponder ao capital social
mínimo, não apenas para que a atividade social seja possível, mas também para
proteger os credores. Para que haja também capital próprio e não só capital alheio.

Tipos de entradas:

1) Dinheiro ou pecuniária: tem por objeto dinheiro ou moeda (metálica, papel


moeda, moeda bancária ou escritural).
2) Espécie: tem por objeto todos os bens diferentes de dinheiro (estabelecimento
comercial, imóvel, direito de arrendatário, etc.). Podem ser imóveis, móveis
(entenda-se: direito de propriedade sobre imóveis e direito de propriedade
sobre móveis), estabelecimentos comerciais, propriedade intelectual, direitos
reais menores, créditos.
Dois critérios legais para a aceitação de bens em espécie: critério da
penhorabilidade (20º/1 a) e critério da economicidade (28º).
3) Indústria (entrada com serviços): prestação de serviços de trabalho ou de
atividade à sociedade por parte do sócio. Apenas são admitidas aos sócios em
nome coletivo e aos sócios comanditados (178º/1 e 468º).

Entradas em espécie: são tudo o que não for dinheiro, imóveis, móveis, direitos de
propriedade industrial, intelectual, direito de autor etc.

 Critério de penhorabilidade: só é possível a entrada que possa ser sujeito a


penhor, isto é uma garantia dos credores (822º e 824º CPC).

 Critério de economicidade: as entradas têm ainda de ser avaliadas por um


terceiro independentes.

Garantia de efetividade das entradas:

Seja qual for o tipo de entrada, é indispensável que as prestações pecuniárias, em


espécie ou em industrias feitas por cada sócios sejam expressamente mencionadas nos
estatutos sociais +, por forma a determinar a sua natureza, a discriminar o seu
conteúdo concreto e a fixar o seu valor pecuniário (9º/1 g e h).

Valor de subscrição vs. valor de realização:

119
Para as entradas pecuniárias e em espécie, o valor da entrada de cada sócio (dinheiro
ou bem) deve ser, pelo menos igual ao valor da participação no capital por ele
subscrita (valor nominal das partes, quotas ou ações ou valor de emissão) – proibição
de emissão de participações “abaixo do par” (25º/1 CSC).

O valor nominal de uma participação social corresponde a uma cifra, um número,


correspondente à fracção do capital social que essa participação social representa.
Valor de subscrição: cifra correspondente à fração do capital social.
Valor de realização: valor efetivo da prestação monetária ou em espécie que o sócio
entrega à sociedade.

Proibição de emissão de participações abaixo do par: o valor de realização não pode


ser inferior ao valor de subscrição. Se subscrevi uma participação social no valor de
200€ não é possível entregar menos de 200€. Art. 25º/1.

É possível a subscrição acima do par. Fala-se a este propósito de prémio de emissão:


diferença entre o valor de subscrição e o valor de realização.

10 acções x 1€ - valor de subscrição: 10 €


10 acções x 1,5€ - valor de realização: 15€
10 acções x 0,5€ - ágio: 5€

As ações têm um valor estatutário, contratualizado. É obrigatório nos estatutos


constar a participação de cada sócio. É possível no regime das sociedades comerciais,
em determinadas situações, haver uma emissão acima do par (= acima do valor de
subscrição). Se o valor estatutário é 500€, é possível que tenham de entrar com mais
de 500€. Com menos de 500€ é que não é possível.

Exemplo: estatutos da X, S.A. (Janeiro 2014)


Abel – 500€
Bento – 500€

Por força deste negócio jurídico, o Abel passou a dever à X, S.A. 500€. O Bento a
mesma coisa.
Pode-se estabelecer que a participação no capital social é de 500€, mas a obrigação de
entrada é de 750€ - acima do par. Assim, o Abel terá de pagar à sociedade 750€. Terá
metade dos votos, mas tem de pagar à sociedade 750€. Isto tem que ver com os
direitos e deveres dos sócios perante a sociedade. Não pode ser inferior porque a
entrada destina-se a proteger os credores, portanto, o valor de realização nunca pode
ser abaixo do valor de subscrição.

Outra coisa diferente é se o Abel ou o Bento venderem as suas acções a terceiros. Eles
venderão as acções pelo preço que bem entenderem. Do ponto de vista dos estatutos,
aquelas acções valem 500€, mas eles podem vendê-las por 1000€. Esta relação jurídica
não tem nada que ver com a sociedade. O que acontece é que o objecto desta compra
e venda é uma participação social.

120
Em Abril de 2014, A e B fazem um aumento de capital. Entra um novo sócio, David.
Entra com 1500€ na sociedade, mas tem um valor de subscrição de 500€, para que não
mande mais do A e B. A e B estabelecem que o valor de realização será de 1500€, por
exemplo. Moral da história: em Abril de 2014, o David tem de entrar para a x, S.A. com
1500€. Depois de Abril de 2014, a sociedade ficou com três sócios. Cada um com um
poder de voto de 33%. O aumento de capital é uma espécie de alteração estatutária.

A proibição de subscrição abaixo do par destina-se a proteger os credores. A


possibilidade de subscrição acima do par visa jogar com o equilíbrio de poderes
interno. Exemplo: David paga mais e manda menos.

Artigo 277º/3 – obrigação de depósito das entradas em dinheiro. As entradas em


dinheiro têm de ser depositadas, sem prejuízo das normas especiais da empresa na
hora e empresa online.

Qual o momento de realização das entradas?

Regra geral: até ao momento da celebração do contrato (26º).

SA – 277º/2 e 285º/1:
Pode haver um deferimento das entradas em dinheiro em 70% do caso no prazo de 5
anos. É possível deferir para momento posterior a realização das entradas, até 5 anos.

Na hipótese de deferimento das entradas a sociedade tem o direito de exigir ao sócio o


pagamento das quantias diferidas na data estatutariamente prevista ou, na falta desta,
a todo o tempo (777/1 CC).

SQ – 203º/1:
Entradas pecuniárias: Até 5 anos pode haver um deferimento de 100% (203º/1).
Entradas em espécie: 26/2, 199/b) e 219º/3 – possível deferir até à prática do primeiro
exercício.

A referida regra geral foi praticamente afastada ao permitir-se hoja a consagração


estatutária do diferimento total das entradas em dinheiro ou em espécie dos sócios – é
lícito aos estatutos sociais determinar que as entradas de determinado sócio ou
mesmo de todos os sócios, sejam elas em dinheiro ou em bens, serão realizadas após a
data da constituição social até ao termo do primeiro exercício económico (26º/2 e
199º/b).

121
Mais notas:
- Proibição de compensação – artigo 27º/5;
- Artigo 29º estabelece regras de aquisição de bens pelas sociedades a acionistas.
- Artigo 30º possível a subrogação de credores.

Consequências do eventual incumprimento das entradas:


Artigo 27º
Artigo 29º

Dever de participar nas perdas:

Não é bem um dever, é antes a exposição ao risco empresarial. Não é uma posição
jurídica em sentido técnico jurídico. Vincula todo e qualquer sócio a suportar o seu
quinhão nos prejuízos da sociedade.

Art. 22º/1. Este dever não quer dizer que quando a sociedade corre mal, os sócios
tenham de meter mais dinheiro. Não há responsabilidade dos sócios pelas dívidas
sociais. Em rigor, isto não é um dever (ao contrário do que diz o CSC), mas uma
exposição ao risco empresarial, acrescida de uma regra proporcional entre capital e
perdas. Se entraram dois sócios com 500€, vão sair os dois com 50€.

Obrigação de participar nas perdas sociais =/= responsabilidade por dívidas sociais:
Os sócios das SA e das SQ jamais poderão ser obrigados a responder diretamente
perante credores sociais. Tem no entanto o dever genérico de exposição ao risco da
exploração empresarial que se pode traduzir em diferentes perdas:
- podem exigir a utilização das reservas livres: implica para o sócio uma afetação do
seu direito de participar nos lucros sociais;
- podem implicar uma redução do capital social: implica para o sócio uma perda do
valor da sua participação social;
- podem implicar reconstituição do capital social: obriga os sócios à realização de
novas entradas;
- podem tornar a sociedade insolvente: perda total do capital investido na
sociedade.

Esta é uma posição jurídico passiva de todo e qualquer sócio, sendo proibidas as
cláusulas estatutárias que excluam um sócio de participar nas perdas (22º/3). A
participação faz-se de uma forma proporcional.

Dever de não concorrência dos sócios:

Está prevista para as sociedades em nome colectivo (art. 180º). As sociedades em


nome colectivo são muito gregárias; todos os sócios estão atrás do balcão. Nas
sociedades anónimas, não há este dever.

122
As sociedades por quotas podem ser mais ou menos gregárias. Qual o seu regime? A
lei não estabelece uma proibição de concorrência. Na prática estatutária, é que por
vezes são estabelecidas proibições de concorrência. Se não existir esta cláusula
estatutária, temos uma sociedade por quotas menos gregária. Este dever de não
concorrência é uma manifestação do dever de lealdade. As exigências de lealdade
dependem da conformação em concreto da sociedade. Há outras manifestações do
dever de lealdade: dever de não usar informação privilegiada. Não se pode roubar os
clientes ou segredos profissionais – estes deveres sobrevivem após a extinção da
sociedade.

Sujeição de alienação potestativa:


Artigo 490º - grupos de sociedades. Se o sócio tem 90% tem o direito potestativo de
adquirir os restantes 10%.
Fim: para proteger a empresa e o tecido empresarial, atribui-se a o direito do sócio
maioritário de expulsar os sócios minoritários que são parasitas – squeeze out.

Exclusão de sócios pelos outros sócios:


Direito potestativo de exclusão por parte dos outros sócios – arts 186º, 241º e 242º.
É a propósito disto que se fala do dever de lealdade.

Problematização do dever de lealdade:

Situações em que o dever de lealdade interessa não apenas para fundamentar um


exclusão mas também para fundar o direito a indeminização:
- Apropriação de informação privilegiada: um sócio pode obter informação
proveitosa mas não a pode usar contra a sociedade.
- transmissão de posições de controlo de forma lesiva;

Sociedades – 24.03.15

Os direitos dos sócios:


Devemos entender aqui todos os poderes jurídicos ou situações jurídico-ativas de que
aqueles são titulares nessa qualidade.

123
Classificação de direitos:
Direitos organizativos ou políticos vs. patrimoniais ou económicos:
Os primeiros visam habilitar o sócio a participar na vida da sociedade, os segundos
visam permitir-lhe comungar nos lucros sociais e rentabilizar o seu investimento de
capital.
O direito aos lucros é um direito patrimonial ou económico e o direito a participar nas
deliberações sociais é visto como um direito político. Todavia, este último direito tem
uma forte relevância económica. Já o direito de informação é instrumental face aos
lucros.

Direitos sociais vs. direitos extra-sociais:

Os primeiros são aqueles de que os sócios são titulares em face da sociedade nessa
qualidade (enquanto sócio), os últimos são aqueles de que os sócios são titulares
independentemente dessa qualidade (enquanto credor social), podem ter a sua fonte
num facto jurídico totalmente alheio a esse estatuto.

Os direitos sociais têm um carácter estatutário, interno à organização. Os extra-sociais


já não relevam da vida estatutária da sociedade, mas têm antes um conteúdo
civilístico, por contraposição a um conteúdo social.
1) Autonomização do direito ao dividendo. O direito ao lucro pode ter diferentes
intensidades: uma coisa é a expectativa de vir a ter lucro; outra é o direito de
crédito no momento em que são distribuídos os lucros. Aqui, o crédito já não
tem uma natureza de direito social, mas sim extra-social. O direito de crédito,
aqui, até é transmissível a uma pessoa que não seja sócia.

2) Direito de preferência na subscrição de um aumento de capital. Para garantir


a posição relativa dos sócios, a lei estabelece um direito de preferência na
subscrição do aumento de capital. Este direito de preferência também é
considerado um direito extra-social; tem conteúdo civilístico e pode ser
transmitido a terceiros, sejam sócios ou não. Por vezes, estes direitos de
transferência até se transacionam nas bolsas.

3) Acordos parassociais. Art. 17º. Exemplo destes acordos: há uma sociedade


anónima (os acordos parassociais surgem mais nestas) que tem um capital
disperso, mas há um conjunto de sócios que querem combinar uma actuação
conjugada e… fazem um contrato paralelo ao contrato de sociedade entre
alguns dos sócios em que combinam coisas para si que não são vinculativas
para os que estão de fora. Muitas vezes, são acordos para aumentar o poder de
controlo (voto). Outro exemplo: Professores do Técnico descobriram uma
técnica muito boa (tecidos inteligentes) e querem vendê-la ao público. Montam

124
uma sociedade anónima. Os investidores não querem ficar para sempre como
mecenas; estabelecem não apenas um contrato de sociedade, mas um acordo
parassocial em que acordam com os professores do Técnico que, em
determinadas situações, podem vender todas as acções aos professores ou a
terceiros. Estes acordos gravitam na esfera extra-social.

O direito aos lucros:

Artigo 21º - consagra o direito do sócio quinhoar ou compartilhar nos lucros


produzidos pela sociedade.

Polissemia da expressão “direito aos lucros”:


a) Direito abstrato aos lucros: direito nuclear integrante da socialidade de
natureza abstrata ou potencial. Antes de atribuir ao titular o poder concreto de
exigir à sociedade o pagamento de uma quantia pecuniária, é antes uma
expectativa juridicamente tutelada ao seu recebimento, de cariz irrevogável.
Daqui decorre a proibição dos pactos leoninos (22º/3 CSC).

b) Direito concreto aos lucros: posição jurídica do sócio relativamente à


distribuição periódica de lucros apuradas. É discutido na doutrina se logo
aprovado o balanço e apurada a existência de lucros os sócios serão ou não
titulares de um direito subjetivo ao recebimento desses lucros.

c) Direito ao dividendo deliberado: direito formado na esfera jurídica de cada


sócio com a deliberação da AG que decida distribuir os lucros sociais apurados
e distribuíveis em determinado exercício social. Este é um direito extrassocial e
creditório – sócio passa a ser titular de um puro direito de crédito sobre e
sociedade, exigível ou vencível com o decurso de um prazo após a deliberação
social e cindível da respetiva participação social (239º CSC).

Artigo 21º/2: o sócio tem direito aos lucros mas esses lucros não se podem traduzir
em quantias certas. Tem direito a lucros não a juros. Os sócios têm uma posição
distinta da dos credores, têm direito a uma posição que se carateriza pelo risco
empresarial, se não houver sucesso empresarial, nada recebem. Os sócios são titulares
de uma pretensão residual – se não houver o lucro não recebem nada, se houver lucro
recebem mais do que os credores.

O risco é o que distingue os sócios dos credores. Este é um elemento caracterizador do


contrato de sociedade. A ideia de lucro não é essencial à noção de contrato de
sociedade (Professor e RPD). Em todo o caso, mesmo para esta corrente de opinião,

125
nos casos em que se pretende mesmo obter lucro, o jogo é de risco, do tudo ou nada.
Por contraposição aos contratos de locação financeira, etc.

Residual claim – os economistas chegaram à conclusão de que os sócios são titulares


de uma pretensão residual. Se houver dinheiro esse dinheiro tem de ser utilizado para
pagar aos credores. Só se o negócio correr bem e sobrar dinheiro é que o dinheiro vai
para os sócios. Se os sócios são os últimos na fila de pagamento são eles que têm um
maior interesse em que a gestão seja bem feita. Se fosse mal feita, não receberiam
nada. Conclusão: quem tem de mandar na sociedade são os sócios e não os
trabalhadores. Há uma filosofia utilitarista associada a esta ideia (Jeremy Bentham).
Não se dá como adquirido que a sociedade pertence aos sócios e que os sócios fazem
o que querem; é a ideia de utilidade social, bem comum. O poder deve ser dado aos
sócios para que se atinja o maior lucro possível – é uma ideia utilitarista e não egoísta.
Há quem diga que os administradores não devem gerir a empresa a pensar nos
trabalhadores, mas sim numa ideia maximizadora dos lucros (para o maior bem
comum).

TIPOS DE LUCROS:

1. Lucros de exercício: lucros obtidos de forma periódica, no final de cada


exercício pode ou não haver lucros.

2. Lucros periódicos eventuais: podem ser liberados extraordinariamente, ou


seja, podem ser distribuídos periodicamente, mas de forma eventual. Exemplo:
a PT vendeu a Vivo no Brasil. Fez 7 mil milhões. A PT fez um programa de
recompra das ações. E decidiu uma distribuição dos lucros aos sócios.
3. Lucros finais: aqueles obtidos na dissolução da sociedade. Essencialmente, são
uma figura dogmática. Normalmente, quando se dissolve a sociedade estão já
dissipados todos os lucros.

DIREITO AOS LUCROS VS DIREITO AO DIVIDENDO:

Direito aos lucros é uma posição jurídica complexa. Eu não tenho direito aos lucros do
próximo ano mas antes uma mera expectativa jurídica. Todavia, se efetivamente
existirem lucros, daqui decorrem vários direitos, como o direito potestativo a forçar a
sociedade a distribuir alguns lucros, não destinando tudo ao investimento (217º e
294º/1 CSC).
Após deliberação de distribuição de dividendos, eu passo a ter um direito de crédito
sobre o montante de dividendos que me foi atribuído. Esse direito de crédito passa a
ter uma natureza extra-social, civilística, até sindicto da participação social, sendo
portanto cindido a terceiros, caso o sócio assim o entenda.

Exemplo - esfera jurídica do sócio A:


1) 01/01/2014 – direito aos lucros. Não é um direito a quantia certa. É um direito
a exigir a deliberação. Ainda é uma expectativa jurídica. A ideia de expectativa
jurídica traduz a ideia de que os direitos vão evoluindo.
2) 01/04/2014 (há uma deliberação) – direito ao dividendo de x.

126
DIREITO AOS LUCROS DO EXERCÍCIO:
Artigo 217º
Nº1: salvo maioria qualificadíssima, não pode deixar de ser recebido metade dos
lucros de exercício. Não está em causa um direito ao dividendo, mas antes uma das
faculdades do direito aos lucros em sentido amplo. Para as sociedade anónimas aplica-
se o 204º.

Nº2: “vencimento do crédito” – direito ao rendimento que se autonomiza como um


direito de crédito civilístico. A partir do momento em que é deliberado, a sociedade
tem um x de dias para entregar o dinheiro. A partir daqui, transforma-se num direito
de crédito. Passa a ter a natureza de um direito extra-social, que pode ser transmitido
a um terceiro sem ser em conjunto com a participação social. A deliberação é um
negócio jurídico que faz surgir vários direitos de crédito (aos vários sócios)

Como subespécie do direito aos lucros pode haver um direito de ir para tribunal exigir
os lucros. Não há aqui um direito de crédito concreto.

Só há lucros se houver boa gestão. O direito aos lucros também é condicionado pelo
princípio da suficiência da maioria. Se se decide se se distribuem os lucros ou não
depende de deliberação da maioria. Salvaguarda: 217º e 294º.

Art. 22º/3: traduz-se na proibição do pacto leonino. Mas há alguma liberdade de


estipulação – 22º/1.

O DIREITO AOS DIVIDENDOS NAS SOCIEDADES ABERTAS:

* Artigo 55º/3 a) CVM: os dividendos são direitos inerentes às ações.


* Artigo 301º CVM: os dividendos que são inerentes às ações podem ser destacados
das ações. Passam a ser negociados no mercado mobiliários, dos tipos de direitos.

O direito aos lucros depende da boa gestão e do sucesso empresarial da sociedade


comercial. Mas depende também do princípio da suficiência da maioria, toda a
matéria das sociedades comerciais não é tratada pela unanimidade mas antes pelo
princípio da suficiência da maioria. Um sócio minoritário pode ver-se na contingência
de não receber lucros porque os sócios maioritários querem aplicar os lucros na
empresa.

REGIME DA DISTRIBUIÇÃO DOS LUCROS:


A distribuição dos lucros está dependente de deliberação prévia da AG (31º/1 CSC) e
apenas pode incidir sobre lucros sociais distribuíveis (32º e 33º). A distribuição ao sócio

127
de lucros fictícios acarreta a nulidade da deliberação (56º/1 d) e a eventual
responsabilidade civil e penal dos membros (31º/2 c + 34º).

AG pode ainda reter no património social uma parte ou a totalidade dos lucros (217º e
294º).

REGIME DE REPARTIÇÃO DOS LUCROS:


Artigo 22º/1 CSC – participação proporcional.
Este é um princípio supletivo que pode ceder perante autonomia estatutária dos
sócios:
- podem prever a existência de ações preferenciais sem voto (341º CSC) –
atribuem aos titulares direito ao lucros prioritário e até majorado;
- dividendo de lealdade: direito bonificado aos lucros àqueles acionistas que
conservem a titularidade das respetivas ações por um determinado período
temporal mínimo.

A autonomia não é total, como já vimos está proibido o pacto leonino (22º/3) e não se
pode remeter para terceiro a fixação do critério de distribuição (22º/4).

REGIME DE PAGAMENTO DOS LUCROS:


Direito do sócio ao seu quinhão nos lucros distribuídos, é um direito de crédito que se
vence decorridos 30 dias após deliberação social (217º/2, 294º/2 CSC). É um direito
cindível da participação social:
- sócio pode transmiti-lo;
- pode também renunciar ao mesmo;

Esta é a única forma de remuneração do investimento que o sócio realizou no capital


social, não sendo permitido o pagamento de quantias certas nem sequer a realização
de adiantamento dos lucros do exercício.

Direito a participar nas deliberações sociais:

Direito complexo, situação jurídica complexa. Compreende o direito de voto, de


assistência nas Assembleias Gerais, direito de intervenção nas assembleias.
O próprio direito de intervenção abarca do direito de apresentar propostas de
deliberação. O sócio pode ainda formular propostas e pedir a impugnação das
deliberações sociais.

Em suma:
1) Direito de voto (aspecto central);
2) Direito de assistência às deliberações sociais;

128
3) Direito de intervenção (direito de tomar a palavra nas assembleias e formular
propostas de deliberação);
4) Direito de impugnação das deliberações;

DEMOCRACIA =/= PLUTOCRACIA :


Nas sociedades em nome colectivo estamos perante uma democracia: um voto por
pessoa – 190º/1. Nas sociedades por quotas e nas sociedades anónimas, plutocracia:
voto por participação social – 250º/1 e 384º/1.

Blindagem de votos: Art. 384º/2 b). Art. 391º/2

Conformação estatutária sobre o direito de participação na deliberação social:


Na SQ, no artigo 250º/2 – temos uma atribuição dos votos em dobro. Isto altera o
equilíbrio de forças na sociedade.
Caso do BPI: Caixa Bank tem quase 50% do contrato social mas só manda 20%. Isabel
dos Santos, tem um peso equivalente ao banco espanhol pois ações acima dos 20%
não são contabilizadas.

O DIREITO DE VOTO:
Consiste no direito do sócio participar na tomada de deliberações da AG da sociedade,
através da emissão de votos. Este é o mais importante direito organizativo dos sócios
encontrando-se consagrado no artigo 21º/1 b) – através do voto o sócio determina o
governo e a condução da vida da sociedade.

Os critérios da atribuição deste direito variam consoante o tipo social. Nas sociedades
de pessoas vigora a lógica democrática (“um sócio – um voto”). As sociedades de
capitais regem-se pelo sufrágio censitário (“uma ação – um voto”).

 Sociedades em nome coletivo: cada sócio tem direito a um voto (190/1 CSC).
 Sociedades por quotas: sócio tem direito a um voto por cada cêntimo do valor
nominal da respectiva quota (250º/1 CSC);
 Sociedades anónimas: acionista tem direito a um voto por cada ação detida
(384º/1 CSC);
 Sociedade em comandita: cabe aos estatutos regular a atribuição do voto
(472º/2 CSC).

OS IMPEDIMENTOS DE VOTO:
Em determinadas circunstâncias os sócios são impedidos de votar. Artigo 251º para as
SQ e no artigo 384º/6 nas SA. É aplicável às sociedades em nome colectivo por
remissão (189º/1).

Parte da doutrina enquadra do impedimentos do voto com o desrespeito do dever de


lealdade para com a empresa. Estes impedimentos têm vantagens e desvantagens.
Riscos de subversão da democracia: há riscos de paralisação orgânica; possibilidade de
retirada do voto de quem é o titular da pretensão residual mais intensa. O voto pode

129
não ser dado a quem tenha mais participações sociais. Por que é que quem tem mais
participações sociais manda mais? Porque tem mais dinheiro investido; tem maior
propensão para gerir bem. Mas isto também pode ir ao ponto da paralisação – está
tanta gente impedida que ninguém pode votar.
Nos EUA, as últimas décadas têm sido marcadas por um fortalecimento do regime dos
impedimentos de voto. Os norte-americanos têm muitos impedimentos sobretudo a
propósito das grandes empresas, no conselho de administração. Os ingleses têm
menos impedimentos; têm mais acordos de cavalheiros.
O regime dos impedimentos pode levar a situações excessivas.

Direito à informação:
Artigo 21º/c
Direito instrumental face aos restantes direitos.
Instrumental face ao direito de voto: para votar é preciso saber o que se está a passar.
Instrumental face ao direito de transmissão da participação social: qualquer sócio
tem o direito a transmitir a sua participação social (salvo casos excepcionais). Para
ceder a quota e vender as ações é preciso ter acesso à informação para saber o que
aquilo vale.
Há uma alternativa no mundo dos negócios entre votar com as mãos ou votar com os
pés (sair da empresa). O que dizem os estudos de análise económica é que, por regra,
nas grandes empresas, em que há dispersão do capital, o que é racional para os
pequenos acionistas não é votar nas assembleias mas sim vender as ações. Quer para
discutir, quer para vender, é sempre necessária informação.
Como é que sabemos o valor de mercado de uma participação social (o valor nominal
está nos estatutos)? É preciso avaliar a empresa e dividir por todas as ações, obtendo o
valor de cada ação. O problema está nos critérios de avaliação da empresa. Para
avaliar a empresa é preciso obter informação financeira sobre a empresa.

Este direito à informação pode ter por objecto três coisas:


1) Direito à informação stricto sensu: fazer perguntas à gerência, à administração.
2) Direito de consulta: analisar os documentos societários.
3) Direito de inspeção: analisar os bens sociais.

REGIME PARA CADA TIPO DE SOCIEDADES COMERCIAIS:

Há uma graduação: nas sociedades em nome colectivo, o direito à informação é muito


intenso, nas sociedades anónimas é mais ténue.

Sociedades em nome colectivo:

Art. 181º/1 e 4. Sociedades muito gregárias. Art. 191º - por regra, todos os sócios são
gerentes. É fechada, todos partilham informação.

130
Sociedades por quotas:

Artigo 214º/1 a 5 - estão aqui presentes todos os tipos de informação. Qualquer sócio
tem direito a tudo isto.
Nº2: possibilidade de regulamentação do direito à informação – são exemplos o
estabelecimento de um horário de consulta, estabelecer um prazo de resposta dos
gerentes, a exclusão de certas informações ou matérias (sigilosas). Podemos ter um
regime mais restritivo de acesso à informação no regulamento do que aquele que
resulta do art. 181º.

Numa sociedade por quotas, o sócio maioritário pode ter interesse numa cláusula
estatutária que limite o acesso à informação dos outros sócios.

Sociedade Anónimas:

* Direito de consulta:

Artigo 288º - direito à consulta em geral apenas conferido aos sócios que detiverem
1% do capital social.

Artigo 289º - consulta preparatória da AG. Antes de uma AG qualquer sócio pode
consultar a documentação, mas só neste momento. Noutras alturas do ano, há uma
forma restrição ao direito de consulta dos documentos.

Em relação ao artigo 288º há uma clivagem doutrinária:


- Há quem diga que o sócio tem de ter 1%.
- Raul Ventura e Coutinho de Abreu: este direito é coletivo e portanto vários
sócios com participação inferior a 1% podem juntar-se, e, formando 1% tem em
conjunto em acesso à informação.

* Direito à informação stricto sensu:

Artigos 290º e 291º


No 290º trata de direito à informação na véspera da AG – quando sócio tem o direito
de fazer perguntas aos administradores sobre os assuntos da ordem do dia, quando
surge uma AG.

O artigo 291º refere-se a esse direito na restante altura do ano – para obter a
informação strictu senso é necessária uma participação de 10%.

* Direito à inspeção:

131
Parece que, nas sociedades anónimas, não há direito à inspecção. Pode-se discutir é se
pode haver uma estipulação societária sobre o assunto. Contudo, presumivelmente,
não haverá cláusulas neste sentido. Quem faz os estatutos é o peixe graúdo, portanto,
neles não encontraremos regras a favorecer o peixe miúdo.

* Regulamentação do direito à informação:

Discute-se se é possível aplicar por analogia o 214º/2 às sociedades anónimas. Opinião


maioritária: é possível.

CONSEQUÊNCIAS DA VIOLAÇÃO DO DIREITO À INFORMAÇÃO :

1) 290º/3 – anulabilidade da deliberação.


2) 58º/1 c) – a mesma ideia.
3) Responsabilidade do administrador: administrador que se tenha recusado a
prestar informações violou um dever. Isto pode levar à sua destituição ou à sua
responsabilidade. Na responsabilidade do administrador: art. 72º -
responsabilidade perante a sociedade. Art. 79º - responsabilidade não perante
a sociedade, mas perante o sócio. Responsabilizar o administrador ao abrigo do
79º é um direito potestativo.
4) Inquérito judicial – art. 67º. A informação sobre as sociedades é sobretudo
financeira. O sócio vai a tribunal e pede que se nomeie alguém para saber o
que se passa com as contas. Arts. 216º, 292º/1, 2 + Processo Especial no CPC.
Quem vai a tribunal solicitar um inquérito não quer apenas que o juiz
determine que a informação seja prestada; quer o passo seguinte: que os
administradores sejam destituídos e nomeados outros. Solicitar um inquérito
judicial é um direito potestativo.

UTILIZAÇÃO ILÍCITA DA INFORMAÇÃO:

Exemplo: GALP fez rastreios na zona de Alcobaça e o sócio quer essa informação, quer
saber onde há petróleo, para depois vender essa informação à PETROBAS.

SQ – artigo 215º/1
SA – artigo 290º

Art. 215º/1: É possível recusar informações a um sócio que exerça uma atividade
concorrente (nas sociedades por quotas e nas sociedades anónimas não é proibido
exercer uma actividade concorrente).

132
Arts. 290º e 291º - informação stricto sensu.
Art. 290º/2 – regime da recusa. Art. 291º/4 – regime de recusa também. A primeira é
para o direito às informações em assembleia geral. A segunda tem um regime de
recusa mais pormenorizado.
Ponte com o dever de lealdade dos sócios: um sócio que utiliza informação em
prejuízo da sociedade, viola o dever de lealdade. Em última análise: exclusão do sócio.

O DIREITO À INFORMAÇÃO DOS GERENTES E DOS ADMINISTRADORES :

Isto é o direito à informação dos sócios. Problema diferente é o direito à informação


dos gerentes e administradores. A lei não fala destes últimos. Pressupõe que os
gerentes têm a informação toda. A propósito das sociedades anónimas já há muita
doutrina sobre o direito à informação dos administradores: há administradores
executivos e administradores não executivos. O grande problema é como é que os não
executivos conseguem aceder à informação. Isto é matéria para outra aula.
Quanto aos sócios, está em causa um direito subjectivo; quanto aos gerentes, em
rigor, não está em causa um direito subjectivo, mas sim um poder-dever. Em princípio,
a utilização da informação por parte dos gerentes não deve ser realizada no interesse
próprio, mas no cumprimento do dever de boa gestão.

Outros direitos relevantes:

 Direito à quota de liquidação – dissolve-se e liquida-se a sociedade. Se houver


dinheiro, o sócio tem dinheiro a ele. Na prática nunca acontece porque quando
se liquida uma sociedade é porque não há dinheiro.

 Direito de preferência nos aumentos de capital realizados em dinheiro – 266º


e 458º

 Princípio da igualdade de tratamento dos sócios face aos órgãos da


sociedade. Artigo 321º - respeita apenas às SA mas vale para todos os tipos
societários. A sociedade pode comprar acções dela própria. Essas acções
deixam de ter direito de voto. Na história do mundo das empresas, esta prática
é utilizada nomeadamente como mecanismo de remunerar o accionista. O art.
321º diz que nestas situações os administradores têm de tratar os accionistas
de forma igualitária. Este direito à igualdade de tratamento, na realidade, é
uma manifestação do princípio mais amplo da igualdade de tratamento dos
accionistas.

 Direito à exoneração (240º) – não deve ser confundido com a exclusão. Na


exclusão é uma saída forçada por voto dos outros sócios. A exoração é um
direito conferido aos próprios sócios.

133
 Direito de alienação potestativa (490º/5): simétrica à sujeição à aquisição
potestativa, o sócio maioritário tem o direito potestativo a adquirir as
participações dos sócios minoritários. Como correlativo disto, também os
sócios minoritários podem obrigar os sócio maioritário a comprar as suas
participações.
Art. 490º CSC – norma muito importante em matéria de grupos de sociedades.
Este artigo está incluído numa parte do Código que regula os grupos de
sociedades stricto sensu.
490º/1 a 3: Atribui a um sócio de uma sociedade dominante (que tenha pelo
menos 90%) o direito potestativo de se ver livre dos sócios minoritários. Por
mera declaração negocial pode tornar-se titular das participações sociais dos
sócios minoritários. É um direito potestativo de aquisição das participações
minoritárias.
No 490º/5, atribui-se aos sócios minoritários o direito potestativo oposto de
alienarem as suas participações sociais. Nas situações em que há domínio
(90%), a lei acha por bem atribuir o direito potestativo de aquisição e o direito
potestativo de alienação.

Razões de racionalidade económica subjacentes a este regime: quanto ao


direito potestativo de aquisição, a ideia é a de que isto não é uma mera
associação, mas uma associação para fins empresariais. Pretende-se proteger
as empresas e o desenvolvimento económico. Não há democracia, mas sim
plutocracia. Numa situação em que há um único sócio maioritário, faz sentido,
do ponto de vista da comunidade em geral, que o sócio que já investiu 90% se
possa ver livre dos outros para melhor desenvolver a sua atividade empresarial
(em casos de conflitos entre os sócios minoritários e o maioritário; ações
propostas em tribunal pelos minoritários contra o maioritário). Os interesses
dos minoritários são aqui desvalorizados, pois a empresa vai passar a ser
melhor gerida. Quanto ao direito potestativo de alienação, a ideia é a de que o
sócio maioritário pode extrair rendas, dada a sua posição privilegiada,
acabando por impedir os sócios minoritários de obter lucros.

Alguma doutrina portuguesa equipara o direito potestativo de aquisição a uma


expropriação, para efeitos do art. 62º CRP. O direito de propriedade é um
direito fundamental. O conceito constitucional do direito de propriedade é
muito amplo e não equivale ao conceito civilístico. Qualquer direito patrimonial
tem alguma tutela constitucional. A participação social (a socialidade, os direito
dos sócios) tem um conteúdo patrimonial e também beneficia da tutela
constitucional da propriedade. O direito de aquisição potestativa do sócio
maioritário tem como contraponto uma sujeição jurídica dos sócios
minoritários, que se traduz numa limitação grave, intensa do seu direito social.
Do ponto de vista da Constituição, há constrangimentos às limitações do direito
fundamental propriedade. Contudo, o TC já veio dizer que a limitação do 490º

134
não é inconstitucional; é justificada. A propósito desta ideia de o conceito
constitucional de propriedade ser amplo, utiliza-se a terminologia “propriedade
corporativa” – aquela que consiste em posições patrimoniais em sociedades,
em participações sociais. Atualmente, grande parte da riqueza não é fundiária,
mas corporativa. A riqueza não está sobretudo nos direitos de propriedade
sobre coisas imóveis.

 Direito a propor ações de responsabilidade social – artigo 77º.


Acção uti singuli. A lei estabelece este tipo de ações para, em nome da
sociedade, se poderem responsabilizar os administradores. Art. 77º/1, parte
final – condiciona-se o direito potestativo do sócio ao facto de a sociedade não
ter reagido ela própria ao abrigo do art. 75º com uma ação social. Enquanto a
sociedade não reagir, o sócio não pode ir a tribunal. Há uma forte polémica
doutrinal sobre esta questão. O sócio tem de ficar à espera ou pode forçar a
sociedade a reagir? Há quem diga que basta interpelar o conselho de
administração e esperar num prazo razoável (10, 15 dias) que a administração
diga se vai propor a ação ou não (pode forçar a sociedade) – Menezes Cordeiro.
Outros dizem que o sócio, antes de avançar, tem de notificar a sociedade e
esperar que a matéria seja levada a uma assembleia geral dos sócios. Nos EUA
há muito maior litigância de responsabilização dos administradores. Os
americanos não têm grandes constrangimentos em relação a esta ação social.

Os direitos especiais dos sócios:


Contrapõem-se aos direitos gerais. Art. 24º CSC. São direitos especiais de alguns
sócios. Os direitos gerais podem ter medidas diversas (v.g. o direito de voto, que existe
em função das participações sociais), mas, em todo o caso, o direito de voto é
estabelecido para todos. No direito especial, beneficiários são só alguns.

Artigo 24º e 55º


Artigo 55º
Segundo o 24º/5, para limitar um direito social é necessário o consentimento. Esta
regra é reforçada pela regra do art. 55º. A ação judicial em que se pede a ineficácia da
deliberação social não tem uma natureza constitutiva, mas declarativa. Numa ação de
anulação temos um pedido constitutivo. Numa situação de nulidade ou ineficácia, a
sentença não tem efeito constitutivo. Estas deliberações são nulas ou ineficazes ab
initio. O sócio que tem o direito especial nunca vê o seu direito especial destruído; ele
permanece sempre porque a deliberação social é sempre ineficaz. Propõe-se a ação só
para obter a confirmação judicial de que é ineficaz.

135
Direitos especiais das Sociedades por Quotas:

1. DIREITO ESPECIAL À GERÊNCIA

Artigo 257º/3

Aplica-se às sociedades por quotas, o gerente não pode ser destituído sem o seu
consentimento, salvo a situação de destituição por justa causa.
Não se fala a propósito das sociedades anónimas. Estas são um tipo social mais aberto.
Frequentemente, nas sociedades anónimas, os gerentes e administradores não são
sócios. A ideia típica da sociedade anónima é a de bomba de capital com uma gestão
profissional.

Nos tipos sociais mais fechados (como as sociedades por quotas), é muito frequente
que os sócios também sejam gerentes. Assim, faz sentido que, logo nos estatutos,
estabeleçam que vão ser gerentes com direitos especiais (gerentes para toda a vida,
por exemplo).
Ideias centrais:
 o direito especial à gerência não pode ser alterado sem consentimento (já
encontrávamos esta regra no 24º/5); quando há um direito especial à gerência,
os gerentes só podem ser destituídos com justa causa.
 Nas sociedades por quotas e nas sociedades anónimas, os gerentes, por regra,
podem ser destituídos a todo o tempo. Não têm um direito de permanecer até
ao fim do mandato. Geralmente, os mandatos são de três anos. A qualquer
momento, os sócios podem deliberar uma mudança dos gestores, sem prejuízo
da obrigação de indemnização – princípio da livre destituição.
 Ideia dos acionistas e sócios como titulares de uma pretensão residual. O poder
das sociedades deve estar na mão dos sócios porque eles é que têm um bom
incentivo para gerir bem. Se houver justa causa para a destituição, não é devida
indemnização. A indemnização é para proteger os interesses do gerente, do
administrador, que planeavam receber a sua remuneração até ao final do
mandato. Se eles violaram os seus deveres de gestão ou de lealdade, já não faz
sentido receberem uma indemnização. Se um gerente ou administrador tiver
um direito especial à gerência só pode ser destituído com justa causa. Não
pode ser destituído ad nutum. Se os sócios deliberarem destituir um gerente
que tem um direito especial à gerência sem invocarem a justa causa, qual o
valor jurídico desta deliberação? Art. 55º. 257º/3: só é possível destituir com
justa causa e através do tribunal. Conceito de justa causa: 257º/6.

Na prática, os direitos especiais são estabelecidos nos estatutos. Como é que se


estabelece o direito especial à gerência nos estatutos? A forma mais cristalina é dizer

136
“o sócio Joaquim tem o direito especial à gerência”. Contudo, na prática estatutária
usam-se outras expressões: “será gerente para toda a vida”, “será gerente enquanto
for sócio”, “o gerente x só pode ser destituído com justa causa”. Estas expressões
devem ser interpretadas como criando o direito especial à gerência.
Se o gerente foi nomeado nos estatutos tem necessariamente um direito especial à
gerência? Não, de todo. Só tem se for usada alguma daquelas expressões.

Quando se constitui uma sociedade por quotas há o hábito de indicar nos estatutos
quem vão ser os gerentes, só se houver uma menção que denote que há um privilégio
deste é que estamos perante um direito especial à gerência.

Exemplo:
Sócios: A, B e C
A e B são gerentes. O C é só sócio. Os estatutos podem dizer que a sociedade fica
vinculada apenas com a assinatura de um gerente. Se nos estatutos se diz que basta a
assinatura de A, significa que há um direito especial à gerência de A? Não, apesar de A
ser o único que consegue vincular a sociedade isoladamente. Para ter um direito
especial à gerência, é necessário usar-se uma daquelas expressões.

2. GOLDEN SHARES;

3. VOTO PLURAL :
Artigo 250º/2
Sociedade: A (20%), B (40%) e C (40%)
Pode ser clausulado que o voto de A é plural – conta a dobrar (40%, tal como os
outros sócios).

Direitos especiais nas sociedades Anónimas:

24º/4 - Os direitos especiais não são atribuídos a uma concreta pessoa mas antes por
categorias de ações.

1) Ações preferenciais sem voto. Art. 302º. Se se atribuem direitos diferentes, são
direitos especiais - é atribuído um lucro prioritário ou majorado embora o sócio
não tenha o direito de voto.
Exemplo: art. 341º/1 e 2. Se há poucos lucros, quem tem ações preferenciais
recebe os dividendos em primeiro lugar. Em limite, podem receber tudo. Em
contraponto, estes acionistas não têm voto. São ações para meros investidores,
não para empresários. Talvez seja preferível ter voto e não ter ações
preferenciais; sem voto pode estar a ser enganado.

137
2) Direito especial a um dividendo de lealdade. Não está previsto na lei. Nada
impede que nos estatutos se estabeleça um dividendo de lealdade (autonomia
privada). Traduz-se em criar determinadas acções que atribuem dividendos
prioritários ou mais intensos a quem tenha acções por mais tempo. É uma
forma de incentivar os investidores a serem de longo prazo.

Os direitos dos sócios podem ser singulares ou colectivos. Nomeadamente, o direito à


informação pode ser exercido singularmente ou em colectivo.

A participação social no trafego jurídico:


A participação social representa ainda um objeto autónomo e unitário no trafego
jurídico, podendo ser adquirida ou transmitida, onerada, executada e extinta.

Titularidade:

A titularidade de uma participação social pode pertencer a todo e qualquer sujeito


com personalidade jurídica, seja singular ou coletiva, de direito privado ou público,
nacional ou estrageira. Esta titularidade pode ser originária ou superveniente.
A participação social pode ter como titular terceiros ou a própria sociedade
(autotitularidade).

Transmissão:

Inter vivos: usualmente realizada através de compra e venda (463º/5) mas também
podem ocorrer empréstimos, penhoras e etc.
SQ – regra supletiva geral do artigo 228º/2. Esta regra pode no entanto ser alterada no
contrato social podendo demonstrar uma maior abertura do capital a terceiro ou uma
menor abertura.

SA – as ações são em princípio livremente negociáveis ou transmissíveis (328º/1 CSC),


assegurando-se assim um direito ao desinvestimento por parte dos acionistas. Esto
princípio geral pode todavia sofrer limitações legais ou estatutárias.
O regime da transmissão de ações é diverso consoante as modalidades de ações e o
seu segmento transmissivo.

De enorme relevância prática são ainda algumas modalidades especiais de transmissão


em massa: ofertas publicas de aquisição (OPA), de troca (OPT) e de venda (OPV) de
ações.

Oneração, execução e extinção:

138
A participação social pode ser onerada através da constituição de direitos reais de
gozo (usufruto) ou de garantia (penhor).
Usufruto – 23º/1 e 2 CSC.

Penhor – 23º/3 e 4. Visa afetar juridicamente a participação social à satisfação de um


determinado direito de crédito a terceiro, pelo que, em princípio os direitos sociais
àquela inerentes permanecem na titularidade exclusiva do sócio, apenas sendo lícito
ao credor pignoratício exercer tais direitos quando isso haja sido expressamente
convencionado (23º/4 CSC).

Extinção: dissolução, liquidação social, morte do sócio na SQ (225º/1), amortização de


quotas ou ações (232º/2 + 347º/2), exoneração (240º).

Execução: As quotas e as ações (239º e 328º) podem ser judicialmente executadas ou


penhoradas para satisfação dos direitos dos credores particulares do sócio devedor.

Acordos parassociais:

Estivemos até agora a tratar da esfera da socialidade, da esfera estatutária e agora


vamos passar para a esfera parassocial.

Contrato sociedade/estatuto  socialidade (direitos e deveres dos sócios);


Acordo parassocial  parassocialidade;

Acordo parassocial (artigo 17º/1):


Contrato celebrado entre sócios, autónomo face ao contrato de sociedade que no
essencial regula o exercício de posições jurídicas societárias – estabelece direitos e
deveres regulando o exercícios dos direitos e deveres sociais.

Contrato de sociedade =/= acordo parassocial:

Estes são contratos celebrados entre todos ou alguns sócios (ou entre sócios e
terceiros) produtores de efeitos atinentes à posição jurídica dos pactuantes sócios e,
eventualmente, atinentes também a outros pactuantes (terceiros) e à vida societária,
mas que não vinculam a própria sociedade.
Na medida em que podem influenciar a vida societária e intervir na delimitação de
direitos e obrigações de sócios, os acordos para sociais têm algumas conexões com os
estatutos:

139
- certa regulamentação deve resultar dos estatutos, não havendo ai lugar a
pactos parassociais.
- Outras matérias podem ser regulados pelo contrato social e podem também
ser objeto de acordo parassocial – diferencia-se no entanto a eficácias dos dois
contratos.

O ato constituinte social está sujeito a forma especial, deve ser registado e,
normalmente, publicado, para os acordos para sociais vale o princípio da liberdade de
forma (219º CC) e não é em geral exigido qualquer registo ou publicação.

No que respeita às vicissitudes os acordos parassociais estão sujeitos à disciplina


contratual do CC e os contratos constitutivos regem-se pelo CSC.

A questão da eficácia:
O estatuto social vincula a sociedade e os sócios sendo oponível a terceiros. Os
acordos parassociais produzem efeitos apenas entre intervenientes são imponíveis à
sociedade e o seu incumprimento não se reflete societariamente.
Exemplo: não pode ser impugnada uma deliberação social de eleição de gerentes com
o fundamento de um dos sócios não ter votado nas pessoas em que, nos termos de um
acordo parassocial, se obrigara a votar.

O artigo 17º CSC contém uma noção embrionária de acordo parassocial (stakeholders
agreements). Contrato celebrado entre sócios, autónomo face ao contrato de
sociedade, essencialmente regulando o exercício de posições jurídicas societárias. São
convenções celebradas com vista a coordenar a conduta dos sócios no seio ou em face
da sociedade, mormente o exercício dos direitos inerentes às respectivas participações
sociais. Primeiro, os sócios fizeram o contrato de sociedade. A par dele, fizeram um
outro contrato, com alguns sócios ou com todos os sócios – acordo parassocial. É
muito frequente haver acordos parassociais nas sociedades anónimas; nas sociedades
por quotas não tanto.
Este é um portanto um contrato autónomo face aos estatutos mas com alguma
repercussão nos direitos sociais.

A verdadeira justificação dos acordos parassociais prende-se com o objectivo de os


sócios regularem matérias que se pretendem não ver reveladas e que não querem que
o público, em geral, conheça. Dessa finalidade resultou, em especial relativamente a
determinadas sociedades comerciais especiais (instituições de crédito e financeiras) o
dever de revelar a existência dos acordos e o respectivo conteúdo quando, por efeito
(ainda que indirecto) do mesmo, se pudessem considerar alteradas as regras que
traduzem uma determinada detenção ou controlo de participações no âmbito de uma
certa sociedade.

De acordo com uma classificação muito difundida, é costume distinguir-se entre:

140
1) Acordos de relação: distinguem-se pela neutralidade em relação à sociedade,
caracterizando-se por restringir os seus efeitos à regulação direta das relações
internas e recíprocas entre os sócios, sem qualquer mediação ou interferência
significativa, ainda que meramente mediata, na vida social. Entre as cláusulas
mais frequentes deste tipo de acordos contam-se as que estabelecem direitos
de aquisição preferente das participações sociais, obrigações de lock up (pacto
de não venda), obrigações de não incrementar as participações sociais acima
de determinado montante (pacto de não agressão), direitos de compra e
obrigações de venda das participações em certas circunstâncias, regras de
estabilização e distribuição de dividendos, etc.

2) Acordos de atribuição: já produzem algumas repercussões na vida social,


caracterizando-se por serem destinados a obter para a sociedade
determinadas vantagens a cargo dos sócios. Exemplos paradigmáticos são os
acordos que incluem cláusulas estabelecendo a primazia do interesse social
sobre os interesses individuais dos acionistas outorgantes do acordo
parassocial, obrigações de não concorrência com a sociedade, de preferência
da sociedade na alienação das participações dos outorgantes, de realização de
suprimentos ou contribuições financeiras suplementares, etc.

3) Acordos de organização: porventura os mais relevantes e frequentes na prática


societária, caracterizam-se por incidir diretamente sobre a vida e o
funcionamento da sociedade, disciplinando as relações entre os sócios e o
exercício dos direitos sociais de que estes são titulares no que respeita à
organização, ao governo e ao funcionamento sociais.

Para além das classificações que dizem respeito aos sujeitos dos acordos parassociais e
ao momento da sua celebração, os acordos podem também distinguir-se em função do
objecto de incidência da coordenação em:
1) Convenções de voto – dizem respeito ao exercício do direito de voto
(sindicatos de voto), que, por sua vez, podem corresponder a:
a. Sindicatos de maioria – visam a estabilização do controlo societário
mediante a organização de “núcleos duros” de acionistas e a obtenção
de maiorias deliberativas.
b. Sindicatos de defesa – visam a formação de minorias de bloqueio em
matérias estruturais da vida social.
2) Outras convenções parassociais – dizem respeito ao exercício de outros
direitos sociais, por exemplo, direitos de transmissão de participações sociais
(convenções de bloqueio), direitos de informação (convenções de consulta
recíproca), direito aos lucros, etc.

Exemplos:

141
1) Sindicatos de votos.
Alguns sócios celebram entre si um sindicato social, com vista a dominar a
sociedade. É um acordo distinto do contrato de sociedade, dos estatutos
apenas resulta que cada uma tem 10% e cada um o exerce como bem
entender. Em conexão com isto surge um acordo para social entre alguns dos
sócios que exercem o seu direito de forma coordenada
Exemplo: sociedade anónima relativamente aberta (pode estar cotada em
bolsa ou não, mas tem alguma dispersão de ações). Tem sócios maioritários e
minoritários. Ninguém tem 51%. Mas é possível juntar alguns sócios que
formem 51%. Os acionistas destas sociedades anónimas, por vezes, juntam-se
para coordenar esforços; votar em conjunto para formar 51% (por vezes
menos) e mandarem na sociedade. Pessoas que, só por si, não controlam a
empresa, fazem um acordo para controlar a empresa.

2) Sindicato de voto de minoria. Não são sócios maioritários, mas se se


coordenarem conseguem ter uma minoria suficiente para impedir alterações
dos estatutos (algumas deliberações têm de ser aprovadas por maioria
qualificada – alterações dos estatutos, distribuição de dividendos, etc.). Estes
acordos são mais raros.

3) Convenções de bloqueio, em que há regras sobre a transmissão das acções. A –


20%, B – 51%. O A é que tem know-how. Pode haver um acordo parassocial em
que se diga que se A quiser sair tem primeiro de encontrar um terceiro que
compre a participação social de B (B não quer ficar na sociedade com um
terceiro a substituir A que não conhece).

Distinção entre parassocialidade (acordo parassocial) e socialidade (estatutos):


A esfera da socialidade é a esfera dos direitos e deveres dos sócios, tal como
configurados nos estatutos. É uma esfera estatutária. Nos acordos parassociais,
estamos perante uma esfera parassocial: é uma coisa à parte que se repercute na
socialidade.
Num sindicato de voto, há um dever do A e do B votarem em concordância um com o
outro. Da esfera da socialidade resulta que todos os sócios têm um direito de voto. O
direito de participar nas deliberações sociais é um direito estatutário. Dos estatutos
resulta o direito estatutário de voto. Do acordo parassocial resulta o dever
obrigacional de votar em concordância.

Por que é que se fazem acordos parassociais? Para regular o exercício das posições
jurídicas sociais.

142
Elemento subjetivo dos contratos parassociais:
Os acordos parassociais devem ser celebrados por alguns sócios ou por todos os
sócios. Os que são celebrados por todos os sócios são os acordos parassociais ou
omnilaterais. Colocam-se problemas mais sensíveis entre o que são efeitos
estatutários e efeitos parassociais, visto que aqui todas as pessoas que assinaram os
estatutos também assinaram o contrato social.

No sindicato de voto de maioria, são só os sócios que se conluiem para formar maioria.
O objectivo é deixar de fora os outros. Acordos com todos os sócios (mais raros; nas
sociedades anónimas fechadas): exemplo: vamos montar uma sociedade, precisámos
de investidores, uns de nós têm know-how. Para além dos estatutos da sociedade,
todos os sócios fazem um acordo em que estabelecem que, se daí a 3 anos o negócio
estiver a correr bem, tem de haver um aumento de capital e entrada na bolsa; se não
correr bem, os investidores têm um direito potestativo de sair da sociedade e aqueles
que têm know-how terão de comprar o capital que os investidores colocaram. Este
acordo não pode ser estabelecido nos estatutos; só num acordo parassocial.

Podem terceiros tomar parte num acordo parassocial?


Que terceiros têm este interesse? Terceiros que querem um regime com vista à futura
aquisição de participações sociais. Exemplo: banco ou alguem que se comprometa a
financiar a sociedade mas face a determinada situação pode passar a sócio, este
situação será estabelecida em acordo parassocial.

Exemplo criação de uma start up – administrador não é sócio mas sem ele nada na
sociedade faz sentido afinal a invenção é sua. Nestes casos é normal haver um acordo
parassocial entre os sócios e o administrador. Se este terceiro por exemplo quiser sair
tem de pagar uma enorme indeminização.

Discute-se se isto ainda é um acordo parassocial (ver definição do art. 17º/1). Há


doutrina a defender as duas posições.
Coutinho de Abreu – se há um terceiro já não é um acordo social.
Professor: é um problema clássico de aplicação de normas jurídicas por analogia. O art.
17º fala em sócios. Se é um terceiro, não é possível subsumir na norma. Podemos é
aplicar analogicamente o art. 17º, o que dependerá do caso concreto (não se aplicam
normas por analogia em abstracto). Conclusão: não se pode responder em abstracto a
este problema; é um problema geral de aplicação da lei.

Valor das definições legais: Menezes Cordeiro diz que não têm grande valor; o que
interessa é o que diz a doutrina. Professor: esta posição não é sustentável. Temos de
aplicar a lei. Todas as definições legais são proposições normativas aclaratórias (Karl
Larenz); são parcelas de normas jurídicas. Distinção entre enunciado ou proposição
normativa (texto da lei) e norma jurídica (resultado da interpretação do texto da lei).
Normalmente, só encontramos a norma jurídica através de diversas proposições
jurídicas. Estas são totalmente vinculativas.

143
No art. 17º temos uma definição de acordo parassocial que temos sempre de usar.

Tempo de Celebração:

1. Momento anterior ao contrato de sociedade: por vezes celebram-se acordos


parassociais em conjunto com o contrato promessa de constituição de sociedade.

2. Ao mesmo tempo do contrato de sociedade: muito frequente nas joint ventures –


criação de uma nova sociedade comercial com impulsos de outras.

3. Após o contrato de sociedade. Exemplo: celebração do acordo aquando a entrada


de um novo sócio, que quer regular com os outros sócios alguns aspectos.

Este é um acordo bastante importante.


São bastante frequentes nas sociedades anónimas. Visto que não se podem moldar
tantos os estatutos acabam por se fazer acordos parassociais.
A confidencialidade, o secretismo, é um elemento por vezes associado à celebração de
acordos parassociais, sobretudo aqueles em que a maioria se conjuga para ter poder
face à minoria. Nestas situações, frequentemente, os sócios que celebram o acordo
não querem que seja público. São acordadas cláusulas de confidencialidade. Este é um
traço marcante da história dos acordos parassociais. Por vezes, contudo, o legislador
tenta forçar que os acordos parassociais não sejam confidenciais. Em relação a alguns
tipos de sociedades anónimas, a lei exige a divulgação dos acordos parassociais, com
sanções do género: se não forem divulgados são ineficazes.

Conteúdo frequente dos acordos parassociais:

Artigo 405º CC (liberdade contratual): muito importante para enquadrar estes


acordos. O conteúdo de um acordo para social é marcado por esta liberdade, pode
fazer-se tudo o que não for proibido.
No art. 17º CSC, encontramos o regime dos acordos parassociais, que é um regime
muito embrionário (é só um artigo), mas a norma base para enquadrar os acordos
parassociais é o art. 405º CC. É um contrato legalmente típico (17º CSC), mas é um tipo
muito aberto, não tem um regime pormenorizadamente descrito na lei.
A matéria dos acordos parassociais releva mais do estudo das sociedades anónimas
(sobretudo as abertas) do que das sociedades por quotas.

Cláusulas típicas:

1. Composição e funcionamento dos órgãos sociais:

144
a. número de administradores a elencar por cada parte;
b. pelouros de cada administrador executivo (um fica com o CFO e o outro o
CEO);
c. as deliberações dos administradores são sempre por unanimidade;
d. designação de gestão corrente;
e. designação do auditor externo;
f. regras para proteção dos sócios minoritários;
g. regras de quórum;
h. Estipulação de um órgão consultivo (ad hoc) com os sócios de referência.
Exemplo: está em causa uma grande mudança estrutural da sociedade
(fazer uma fusão ou não). Antes de o conselho de administração propor a
fusão, os sócios maioritários podem querer que aquelas matérias sejam
primeiro discutidas por eles num órgão meramente consultivo. Só se
estiverem de acordo é que avançam formalmente perante toda a
sociedade.

2. Cláusulas sobre modos de gestão:


a. rácios económico financeiros a apresentar;
b. planos de negócios a medio e longo prazo;
Exemplo: expandir a sociedade ou não; “o rácio de capital próprio e de
capital alheio tem de ser x”.

3. Política de dividendos:
Fixação de uma percentagem de dividendos mínimos a distribuir. Exemplo: os
sócios minoritários podem querer estabelecer num acordo parassocial que há
dividendos mínimos a distribuir e que os sócios maioritários não podem fazer
maioria para evitar que sejam distribuídos.

4. Cláusulas sobre transmissão de participações sociais:


a. Cláusula frequente: obrigação de manutenção da titularidade da
participação social (mais frequente nas sociedades anónimas). Fala-se em
cláusulas de lock-up na gíria dos negócios. Frequentemente são por um
determinado prazo. Por vezes, estas cláusulas têm uma ressalva: é
permitido vender as acções desde que dentro do mesmo grupo de
sociedades.
b. Outra cláusula frequente: cláusulas de venda com direito de preferência.
c. Direitos de aquisição
i. Opção de compra pelos maioritários
ii. Força-se a venda pelos minoritários (drag along). Mecanismo em
que se reserva ao sócio maioritário, em certas condições, o direito
de forçar a venda dos minoritários, facilitando a alienação da
totalidade da sociedade.

145
Exemplo:
X, SA: A (60%), B (20%), C (20%) – o A tem interesse em vender a
sua posição a terceiros (ao D). Mas D só quer comprar 100% (ou
só aceita comprar 60% por um preço muito reduzido). O A tem
interesse em convencer o B e o C a venderem também. Para
precaver esta hipótese, o A faz uma cláusula de drag along,
estabelecendo que, se encontrar um terceiro que queira
comprar, o B e o C também têm de vender ao terceiro.
d. Direitos de alienação.
i. Tag along. Determina-se que, em caso de alienação de posições
maioritárias, os demais sócios podem acompanhar os maioritários
na venda nos termos e condições em que estes contratam. Exemplo
anterior: direito de o B e o C acompanharem a venda do A. O A só
pode vender se garantir que o D também compra a B e C.
ii. Opção de venda pelo B e o C.

Distinção entre contrato de opção e contrato-promessa. O contrato de opção é uma


figura parecida com o contrato-promessa. Quem mais escreveu sobre esta figura foi
Carlos Ferreira de Almeida. Num contrato-promessa, um promete comprar, outro
promete vender (no caso de ser bilateral). Tem como efeito jurídico a criação de uma
obrigação de contratar ou de várias obrigações de contratar. Para surgir o contrato
definitivo, é necessário que ambas as partes voltem a emitir novas declarações
negociais. No contrato de opção, o efeito não é a criação de uma obrigação de
contratar; é a criação de um direito potestativo à celebração do contrato definitivo e,
em contraponto, uma sujeição jurídica à celebração do contrato. Para a formação do
contrato definitivo só é necessária a declaração negocial de quem tem o direito
potestativo. A aceitação já está dada com o contrato de opção. Numa opção de
compra, A quer eventualmente comprar e, portanto, estabelece com o B, no contrato
de opção, que terá um direito potestativo de, a todo o tempo, poder comprar as
ações. A determinada altura, o A diz “eu compro”. Com a recepção desta declaração
negocial está perfeito o contrato de compra e venda. As ações são assim transmitidas.
Normalmente, nestes contratos de opção, há fixação do preço. Quase sempre as
cláusulas de aquisição ou alienação potestativa (de drag along e de tag along) têm
também mecanismos de fixação do preço (v.g. “o preço será aquele que resultar de
uma avaliação de um revisor oficial de contas independente”). Também é frequente as
partes estabelecerem que cada uma terá um revisor oficial de contas e o preço será o
intermédio.

5. Cláusula de objectivo de cotação em bolsa. Esta cláusula estabelecerá prazos, qual


a percentagem do capital que vão dispersar pelo público, etc.

6. Cláusula de financiamento da sociedade. Relativamente frequentes.


a. Exemplo mais típico: cláusulas de subscrição de aumento de capital.

146
b. Obrigação de realização de outras contribuições financeiras que não sejam
aumento de capital – suprimentos, por exemplo. Quando querem injetar
capital na sociedade, os sócios podem fazer um aumento de capital.
Contudo, pode não ser bom do ponto de vista fiscal. Por isso, em vez de os
sócios entrarem com capital, fazem empréstimos às sociedades. Os
empréstimos dos sócios designam-se suprimentos.
7. Proibições de concorrência. Nas sociedades por quotas não há proibições de
concorrência estabelecidas na lei, mas podem ser estabelecidas estatutariamente.
8.
9. Modos de resolução de divergências entre as partes.
c. Cláusulas que estabelecem reuniões entre as partes.
d. Cláusulas sobre arbitragem (cláusulas compromissórias). Estipuladas
sobretudo nas situações em que a confidencialidade é importante.
e. As opções de compra e de venda podem ser previstas, como últimos meios,
para resolver litígios.

Cláusulas instrumentais face às anteriores:

10. Cláusulas penais. Se não for cumprido o que tiver sido acordado, restam as
cláusulas penais.
11. Cláusula escrow - quantias depositadas junto de um terceiro, por regra, um banco,
que fica com uma posição fiduciária….
12. Procurações irrevogáveis – como cláusula de um acordo parassocial é possível
estabelecer uma procuração irrevogável, nomeadamente, para o exercício do
direito de voto.
13. Cláusula de confidencialidade.
14. Cláusulas sobre a duração do acordo parassocial . Estão relacionadas com o
problema da denunciabilidade dos acordos parassociais. Há uma grande querela
doutrinária quanto ao problema de saber se os acordos parassociais que não
tenham prazo podem ser denunciados ou vinculam perpetuamente. Uma das
formas de fugir a esta querela é fixar um prazo.
15. Cláusulas sobre a lei aplicável . Por vezes, os sócios têm diferentes nacionalidades,
portanto, a definição da lei aplicável pode ser relevante.

Socialidade vs. Parasocialidade:

1. PRINCÍPIO DA AUTONOMIA FACE AO CONTRATO DE SOCIEDADE:

147
Uma coisa é o contrato de sociedade, outra é o acordo parassocial. São totalmente
autónomos.
Esta autonomia ou bipolaridade entre social e parassocial manifesta-se em vários
pontos dos respectivos regimes:
a) Quanto à sua celebração, os acordos parassociais não estão sujeitos, em
princípio, a forma especial (219º CC), enquanto os contratos constitutivos das
sociedades exigem a observância de requisitos particulares de forma e
publicidade.
b) Quanto à sua alteração, ao passo que os acordos parassociais apenas podem
ser modificados, em princípio, pela unanimidade dos sócios outorgantes
(406º/1 CC), os contratos sociais, também em regra, podem ser modificados
pela vontade da maioria dos sócios (85º/1 CSC).
c) Quanto à sua validade, ao passo que os acordos parassociais estão sujeitos às
regras gerais da invalidade dos negócios jurídicos (285º ss. CC), os contratos
sociais estão sujeitos a regras específicas de invalidade (41º e ss. CSC).
d) Quanto à sua interpretação, ao passo que é prevalente a adopção de um
método hermenêutico subjectivo para os acordos parassociais, assente na
aplicação das regras gerais de interpretação e integração dos negócios jurídicos
(236º a 239º CC), já se admite com maior frequência o recurso a métodos de
cariz objectivo no domínio da interpretação de algumas disposições dos
estatutos sociais, em especial das cláusulas de cariz organizativo.

2. PRINCÍPIO DA EFICÁCIA RELATIVA:

Os acordos para sociais têm eficácia relativa, em contraposição aos estatutos que têm
uma eficácia absoluta. Os efeitos jurídicos decorrentes dos estatutos impõe-se perante
todos os sócios.
A eficácia relativa dos acordos para os seus subscritores, não afecta a eficácia em
relação aos mesmos sócios no âmbito da socialidade.
Exemplo: combinar votar de determinada forma, mas o sócio X incumpre esta
combinação, ainda que tenha desrespeitado o sindicato de voto, este é um voto válido,
afina no âmbito da socialidade nada limita a sua liberdade de voto. Aqui vão entrar as
cláusulas penais.

Contraposição da eficácia relativa do acordo parassocial e a eficácia absoluta dos


estatutos (do contrato de sociedade). As regras do contrato de sociedade vinculam
todos os sócios, inclusivamente os novos sócios. Se numa sociedade por quotas for
estabelecido um direito de preferência dos sócios em caso de alienação das quotas a
terceiros vale em relação a todos os sócios, presentes e futuros. Diferente se passa nos
acordos parassociais: estes apenas vinculam os sócios que celebraram o acordo
parassocial (406º CC e 17º/1 CSC), não sendo oponíveis diretamente à sociedade, aos

148
demais sócios ou a terceiros. Vigora a regra da intangibilidade da esfera jurídica dos
sócios que não celebraram o acordo parassocial.
Exemplos: 1) um sócio outorgante de um acordo parassocial de voto exerce o seu
direito de voto na assembleia geral em termos divergentes daqueles a que se obrigou
no âmbito desse acordo: este cominava uma obrigação dos sócios pactuantes votarem
sempre numa determinada lista para os órgãos de administração social e o referido
sócio, aquando da deliberação de eleição, vota noutra lista.
2) Um sócio outorgante de um acordo parassocial de bloqueio aliena as suas ações a
um terceiro: este estabelecia a obrigação de os sócios outorgantes não alienarem as
suas ações sem consentimento dos restantes ou concedia a estes um direito de
preferência, e o citado sócio vende as suas ações a terceiro em contravenção da
referida obrigação. Ora, o que a lei pretende dizer, ao afirmar que tais acordos “têm
efeitos entre os intervenientes, mas com base neles não podem ser impugnados actos
da sociedade ou dos sócios para com a sociedade (17º/1, in fine), é que os demais
sócios não poderão invocar o acordo de voto, nem para tentar impugnar a
deliberação social de eleição dos administradores, nem para anular o negócio de
compra e venda das acções, apenas lhes sendo lícito responsabilizar o sócio por
incumprimento contratual ou aplicar-lhe as sanções previstas no próprio acordo
parassocial.

Contudo, não se trata de um princípio sem exceções: assim, tal como os estatutos
sociais preveem amiúde cláusulas cujo conteúdo não diz respeito à sociedade mas
unicamente aos sócios delas destinatários, dispondo assim de uma eficácia meramente
relativa (circunscrita a tais sócios), também nada impede, em abstracto, que os
acordos parassociais consagrem determinados direitos a favor da própria sociedade ou
de outros terceiros (443º ss. CC).

O acordo parassocial pode ser um acordo a favor de terceiros Os contratos têm


eficácia relativa mas é possível fazer contratos a favor de terceiros.
Os acordos parassociais também podem ser contratos a favor de terceiro,
nomeadamente, a favor da sociedade, estabelecendo financiamentos de que é credora
a própria sociedade. Exemplo: obrigações de subscrição e aumento de capital e de
realização de outras contribuições (v.g. suprimentos).

Concluímos assim que o acordo para social também pode ser um contrato a favor de
terceiro.

Quando são estabelecidas estas cláusulas, das duas uma: ou se estabelece um dever
de realizar a prestação no confronto entre as partes que celebram o acordo ou se
estabelece que credor da contribuição é também (ou só) a sociedade – esta é uma
estipulação a favor de terceiro. Quando se fala do princípio da eficácia relativa dos
acordos parassociais não podemos deixar de ter em conta esta limitação. Princípio da
relatividade dos contratos contínua a manifestar-se neste caso, afinal este princípio
apenas refere que não podem ter efeitos negativos sobre terceiros. Este princípio
apenas reflete a intangibilidade da esfera jurídica alheia, não se pode prejudicar esta
esfera mas pode contratar-se um beneficio para terceiros.

149
Sociedades – 27.03.15

Cláusulas estatutárias que limitam a eficácia de acordos parassociais:


Uma questão polémica é a de saber se é possível estabelecer nos estatutos cláusulas
estatutárias que limitem os acordos parassociais ou os seus efeitos.
 Raul Ventura dizia que sim, os estatutos podem conter cláusulas que limitem os
acordos parassociais.
 Para o resto da doutrina isto é discutível.
 Professor concorda com o professor Raul Ventura.
 Atualmente, há regras no CVM, para as sociedades anónimas abertas, que
implicam a eficácia dos estatutos nos acordos parassociais. Regras que
permitem, por exemplo, que a sociedade estabeleça nos estatutos que, em
determinadas condições, os acordos parassociais não terão eficácia.

Exemplo: dos estatutos sai a imposição do A, B e C não celebrarem acordos


parassociais. Se o fizerem violam os estatutos é certo, mas a violação implica a
ineficácia do acordo?
A violação dos estatutos constitui um ilícito estatutário para o qual se preveem as
sanções típicas de exclusão do sócios etc, mas daqui não resulta a ineficácia dos
acordos parassociais, afinal estes são independentes.

O CVM estabelece para as SA abertas que os estatutos podem efetivamente limitar a


eficácia dos acordos parassociais. Conclui-se que estes são contratos autónomos, mas
que podem influenciar-se mutuamente.
Em relação a todas as outras sociedades a doutrina diverge.

Acordos parassociais omnilaterais:

São aqueles em que todos os sócios são parte do acordo - casos de sociedades
fechadas em que existe uma coincidência entre os sócios e as partes no acordo
parassocial.

150
Carneiro da Frada: a distinção entre sociedade e parassocialidade não faz sentido
quando estamos perante um acordo parassocial ominlateral (posição minoritária). A
maioria da doutrina não é sensível à posição de Carneiro da Frada.

Exemplo:
A sociedade tem os sócios A, B, e C – C tem 40% e A e B 30% cada um. Se A e B
estabelecerem um sindicato de voto, vão controlar todas as decisões da sociedade. Se
o A desrespeitado o acordo votar contra o B, no âmbito dos estatutos estas decisão é
perfeitamente válida, a eficácia do acordo para social não afeta a eficácia dos
estatutos.
A atuação na esfera social é perfeitamente válida pode haver é depois uma cláusula
penal.

Agora quando todos os socos são partes de um acordo para social não faz tanto
sentido esta distinção cristalina. Se todos acordam e há um que viola não faz sentido
que a sua atuação na esfera societária não fique afectada – assim é em nome da tutela
da confiança. Para este professor, em virtude do acordo parassocial a deliberação
social também não será eficaz.
Todavia o resto da doutrina discorda.

Existe um problema inicial que é o de estabelecer se realmente existem dois contratos


autónomos quando o acordo parassocial e o contrato de sociedade se celebram
simultaneamente. Não é por um documento dizer “acordo parassocial” e outro
“contrato de sociedade” que concluímos por dois contratos autónomos (o critério
formal não serve, portanto). Temos de recorrer a um critério material. Há
determinadas matérias que não podem constar dos estatutos. Não é possível
estabelecer nos estatutos determinadas obrigações de financiamento, proibições de
concorrência, cláusulas penais, etc. (a lei não permite estas cláusulas nas sociedades
anónimas), portanto, estas matérias só podem ser reguladas nos acordos parassociais.
É este o critério material.
Para além deste critério material, os estatutos estão sujeitos a publicidade registral.
Isto tem utilidade, nomeadamente, para os novos sócios. Quem quer entrar para uma
sociedade quer saber a que estatutos vai ficar vinculado. Se se fez um acordo
parassocial que não está publicitado não faz sentido que aquilo que não foi publicitado
possa afectar a esfera jurídica de terceiros que não tomaram parte neste acordo.
Carneiro da Frada, com a sua tese, pensava nas situações em que todos os sócios
celebraram o acordo parassocial e que não houve novos sócios a entrar para a
sociedade.

Limitações ao conteúdo dos acordos parassociais

1ª Regra: liberdade contratual (405º CC). Depois, há restrições à liberdade contratual


(17º CSC). O art. 17º é muito inspirado na legislação alemã e muito marcado pelas
ideias de restringir os sindicatos de voto.

151
A matéria é marcada por uma ideia de racionalidade, não há aqui preconceitos o que
interessa é encontrar as soluções que permitam uma melhor solução para a economia
da UE.

São nulos os acordos parassociais que violem ou defraudem a lei:


- violem a proibição do pacto leonino (22º/3);
- que obriguem algum sócio a votar no sentido determinado por algum sócio
impedido de votar (251º/ 384º/6).

São também nulos os acordos que conduzam à tomada de deliberações nulas ou


anuláveis (17º/1), bem como os que visem permitir dar instruções aos membros dos
órgãos de administração e fiscalização.

Primeira restrição – Inimpugnabilidade dos atos da sociedade ou dos sócios:

Artigo 17º/1 parte final – convoca o princípio da autonomia e o princípio da eficácia


relativa. Inimpugnabilidade dos atos da sociedade e dos sócios. Que tipo de atos não
podem ser impugnados com base num acordo parassocial? Atos que relevam da
atuação externa da sociedade, atos internos (deliberações dos sócios, do conselho de
administração, etc. – qualquer deliberação social), os próprios votos.
De acordo com parte da doutrina, a deliberação é um negócio jurídico. Os votos são
declarações negociais (de acordo com Carlos Ferreira de Almeida e o Professor, são
enunciados).
Os votos concorrem para a formação da deliberação. Quando há vícios da vontade
(dos negócios jurídicos), colocam-se duas possibilidades: ou respeita ao todo ou a uma
das partes (um voto). O art. 17º/1, parte final, diz que não se pode afectar a
deliberação como um todo nem cada voto individualmente. O erro é um vício que
afecta uma declaração negocial. Os efeitos do erro não afectam apenas a declaração
negocial, mas todo o negócio. Com os votos passa-se a mesma coisa: podem afectar
toda a deliberação.
Segundo o Professor: o voto é um enunciado e a deliberação é que é uma declaração
negocial. Voltaremos a esta matéria.

Importante por agora: as quebras de acordos parassociais não afectam nem as


deliberações nem os votos.
Também não são afectados os atos de transmissão das participações sociais (direito
potestativo de aquisição, de alienação, etc.).

Em suma:
 não é afectado o poder de representação/ competência externa dos órgãos sociais;
 as deliberações sociais não são afectadas na sua eficácia;
 também os votos não são afetados.

152
 A transmissão de participações sociais também não é afetada. Exemplo: há um
acordo social em que A e B, estabelecem direito de preferência no caso de
transmissão de ações. No entanto A acorda com C vende-lhe antes a si as suas
ações. B fica um sócio minoritário, sem qualquer controlo sobre a empresa. O A
pode ter direito a uma cláusula penal mas não pode questionar as transmissões
sociais.

Segunda restrição - proibição dos acordos respeitarem às condutas dos


intervenientes ou de outras pessoas no exercício de funções de administração ou de
fiscalização:

Artigo 17º/2: proibição de respeitarem à conduta dos intervenientes ou de outras


pessoas no exercício de funções de administração ou de fiscalização. É uma proibição
de instruções de sócios a administradores ou de administradores a outros
administradores. Se houver uma cláusula deste género é ineficaz. Desta limitação
resulta, claramente, que as pessoas não podem ser condicionadas, na sua atuação, em
prejuízo da sociedade. As suas funções devem ser exercidas, com cuidado e lealdade,
em termos criteriosos e diligentes (cf. 64º). Neste caso, não está em causa o direito de
voto, mas a prática de determinados atos no desempenho de certas funções.

Posição orgânica originária vs. posição orgânica derivada. A originária cabe aos
sócios; derivada têm os outros que são eleitos pelos sócios. Quem tem uma posição
orgânica originária tem o direito potestativo de votar de acordo com os seus interesses.
Os que têm uma posição orgânica derivada devem atuar nos interesses dos outros, da
sociedade – já não têm um direito potestativo, mas sim um poder-dever (gerentes,
titulares dos órgãos de administração). Por vezes, podem receber instruções. Os
gerentes devem obediência às instruções dos sócios. Nas sociedades anónimas, não é
assim. Os sócios não podem dar instruções aos administradores (373º, 17º/2 CSC). É
assim porque, caso contrário, os sócios maioritários dariam instruções aos gerentes. E
a lei quer que os sócios minoritários também tenham poder de decisão. Apesar de
existir esta proibição, ela é letra morta. É a proibição mais violada. Instruções informais
dos sócios maioritários aos administradores claro que há.
Exemplo: Se A foi para o conselho de Administração não foi para satisfazer os seus
interesses e os de B, mas antes os da sociedade, logo não faz sentido que siga
instruções de B, o que deve seguir é o interesse da sociedade – artigo 64º.

Também se pode estabelecer uma cláusula que imponha uma obrigação de meios e
não uma obrigação de resultado, no sentido de contornar aquela proibição legal.
Exemplo: “caso o administrador não siga as instruções do sócio ficará obrigado ao
pagamento de uma cláusula penal”.
Não é boa técnica redigir um acordo parassocial com obrigação de resultado, antes se
deve considerar a cláusula como uma obrigação de meios – “deve adoptar os seus
melhores esforços no sentido de a atuação da sociedade beneficiar os interesses
comuns estabelecidos no acordo sob pena de pagar uma cláusula penal”.

153
Não há acordo para social em que não se tente contornar o 17º/2. Uma forma
sofisticada de o fazer é uma obrigação de meios – salvaguardar que a cláusula penal
entra mesmo em ação. Exemplo: não se fala em instrução mas antes em juntar os
esforços...

Exemplo: A tem 40%, B tem 30%, C tem 30%.


B será nomeado administrador mas compromete-se a atuar sempre de acordo com
instruções de C ou nos termos do que foi acordado em reunião. Num primeiro
momento acordo em nomeá-lo administrador, num 2º momento este compromete-se
a seguir instruções de C.
Esta estipulação não será relevante nos termos da sociedade, ainda que a sua violação
possa implicar o pagamento de uma cláusula penal.

Terceira restrição - proibição da obrigação de votar, seguindo as instruções da


sociedade ou de um dos seus órgãos:

Artigo 17º/3 a) e b). A finalidade é única: o problema é o da subversão da democracia


societária. Se há a obrigação de votar sempre de uma certa forma, a democracia não
funciona. O que implica o risco de perpetuação e de irresponsabilidade dos
administradores. Se um ou vários sócios votam sempre de acordo com as instruções,
os administradores vão ser sempre os mesmos e ser sempre irresponsáveis.

As “instruções” da sociedade a que se refere o art. 17º/3 a) podem ser dadas por ela
através do órgão, de mandatário ou procurador (252º/6 e 391º/7). Os “órgãos” sociais
indicados no acordo para darem instruções poderão ser o órgão de administração e
representação ou os de fiscalização.
Sendo indicado o primeiro, ou ele aparece propriamente como órgão, logo como
“representante” da sociedade, reconduzindo-se então o caso à hipótese das instruções
da “sociedade”, ou aparece sem essa veste, concretizando-se então a hipótese das
instruções “de um dos órgãos”. Neste caso, a indicação reportar-se-á à totalidade ou à
maioria dos membros do órgão; está fora do campo de aplicação da hipótese a
vinculação do voto às instruções de um ou mais sujeitos titulares do órgão de
administração mas sem peso suficiente para determinar as deliberações nele tomadas.
Sendo indicado algum órgão de fiscalização, claro que as instruções não serão da
sociedade (que não pode, para o efeito, ser por ele representada), mas sim dos
membros (todos ou maioria) do órgão designado. A cominação da nulidade assenta
na ideia da repartição de competência entre os vários órgãos sociais, não sendo pois
lícito que o órgão deliberativo-interno seja comandado por outros.

154
4º restrição - proibição de aprovar sempre as propostas feitas por órgãos da
sociedade:
Artigo 17º 3º/c) – proibição de exercer o direito de voto em contrapartida de
vantagens sociais – a chamada venda dos votos.
Nulos são os acordos pelos quais um ou mais sócios se obrigam a exercer o direito de
voto ou a abster-se de o exercer em contrapartidas de “vantagens especiais”.

Esta regra deve ser interpretada restritivamente. Nos sindicatos de votos, alguma
vantagem existe em atuarem em conjunto de forma concordante. Estes sócios
procuram vantagem que aos olhos da lei são legítimas, o que é possível é uma venda
pontual do voto sem um acordo neste nível. A “prostituição do voto”.
O que é proibido é a mercantilização dos votos (não ter um interesse sério por trás,
vender apenas o voto a quem dê mais dinheiro). Este preceito tem de ser interpretado
restritivamente, portanto: o que se quer proibir é a especulação com a venda dos
votos.

Dissociação entre a detenção do capital e o risco empresarial. Ideia cara para os


economistas. “Se eu tenho um capital social sou titular de uma pretensão residual.
Tenho um adequado incentivo para realizar boas decisões de gestão. Se gerir bem vou
receber dinheiro. Se gerir mal não recebo nada.” Quando se vende os votos, a pessoa
que compra já não tem a mesma propensão para gerir bem.

Havia aqui uma subversão da democracia no funcionamento societário, risco de


perpetuação dos administradores e de responsabilidade dos administradores.

A denunciabilidade dos acordos parassociais:

Estes são contratos de execução continuada não são contrato de execução


instantânea, é frequente que não seja estabelecido um prazo.
É possível estabelecer vinculações temporalmente indeterminadas? Tem-se
entendido que estas vinculações são denunciáveis ad mútuo, ou seja, a todo o tempo.

Isto é no entanto discutível. Em todo caso é frequente na prática serem estabelecidos


prazos confortáveis. Exemplo: prazo de 10/15 anos.
RPD – considera que estas obrigações dos acordos parassociais têm conexão com os
estatutos. Logo estes prazos não são indetermináveis, antes têm um prazo
diretamente ligado à sociedade, assim vigoram enquanto os seus subscritores
continuem como sócios da sociedade.
Pessoas celebram os estatutos e também um acordo parassocial. O que faz sentido é
que as obrigações dos acordos parassociais se mantenham, enquanto os subscritores
se mantenham na sociedade.

3 posições na doutrina portuguesa:


a) AP sem prazo;

155
b) AP denunciáveis ad mútuo;
c) AP eficazes enquanto os órgãos da sociedade se mantiverem na sociedade.

Raúl Ventura diz que vigora a regra da denunciabilidade ad nutum. Há quem diga que
não podem ser denunciados. Posição intermédia de Rui Pinto Duarte (muito mais
razoável, segundo o Professor): há uma relação entre as posições jurídicas tal como
nas obrigações propter rem (obrigações que acompanham a coisa). A parassocialidade
existe por causa da socialidade. Enquanto A, B e C forem sócios estão vinculados pelo
acordo parassocial. O acordo nunca é perpétuo – vigora enquanto durar a sociedade.
Querem desvincular-se? Saem da sociedade.

Isto é relevante para efeitos de cláusula penal – se um dos sócios quiser violar aquilo
a que se compromete no acordo pode argumentar a denunciabilidade a todo o tempo,
não ficando assim sujeito a cláusula penal.

Relevância jurídica dos acordos para sociais em relação a outras normas:

Os acordos para sociais têm aqui relevância jurídica. Já não estamos perante o
conteúdo do acordo nem dos efeitos jurídicos que dali resultam.
Associada à celebração do APS decorrem certos efeitos legais que determinadas
normas lhe associam.

 Responsabilidade do sócio que celebrou um APS (artigo 83º):


Responsabilidade solidária do sócio por atos dos administradores ou dos membros de
outros órgãos sociais.
Nº1/3 – hipótese de culpa in eligendo, culpa na escolha do administrador.
Nº4 – situação de influência dominante. Norma jurídica com garras.

Todavia, todas estas normas são de difícil aplicação prática.

Culpa in elegendo (artigo 83º/1 e 3):

Eu sócio tive culpa na eleição do administrador, e este violou os seus deveres, sendo
responsável.
1. Administrador violou os seus deveres e é responsável;
2. Eu tive possibilidade de o escolher só por mim ou devido a um acordo
parassocial;
3. Eu tive culpa na sua escolha – sabia que não tinha bom carácter, que não tinha
conhecimentos.

O 2º pressuposto refere-se aos acordos parassociais. O sócio teve maioria que lhe
permitia escolher este administrador mas agora é solidariamente responsável perante
ele.

156
Situação de influência dominante (83º/4):

1. Situação de influência do administrador;


2. Eu tive capacidade de escolher o administrador;
3. Eu tive participação dominante na conduta lesiva praticada pelo administrador.
Eu exerci uma influencia dominante que esteva na base da responsabilidade
civil do administrador.

Exemplo: empresa compra bens acima do mercado – esta a passar os lucros de uma
empresa para outra. Através de uma atuação do administrador, conseguimos desviar
as mais valias da sociedade em prejuízo dos restantes sócios que não fizeram parto do
APS.

 Artigo 111º - regime geral das instituições de crédito e sociedades


financeiras:
Os bancos são um tipo especial de sociedades anónima, têm um relevo económico
muito importante. Há regras especiais sobre acordos especiais – exige-se os registos
dos APS para que sejam válidos - devem ser registados no Banco de Portugal, sob
pena de ineficácia. Este regime visa quebrar a confidencialidade que, muitas vezes,
caracteriza os acordos parassociais.

Com isto quer-se evitar a turbulência nos bancos com vista a evitar os efeitos
sistémicos que daí resultam e também proteger de forma especial os credores.

 Artigo 55º - Regime geral da Atividade Seguradora:


O mesmo acontece quanto às sociedades seguradoras – art. 55º Regime Geral da
Actividade Seguradora. As seguradoras são um primo próximo dos bancos – actividade
financeira lato sensu.

 As instituições financeiras são muitas vezes abertas (v.g. BES, BCP). Quanto às
sociedades abertas, subtipo das sociedades anónimas:

- Arts. 19º CVM – dever de comunicação à CVM por parte dos subscritores dos
acordos parassociais. Artigo 19º/3 - Não há acordos secretos e casos estes existam
os restantes sócios podem requerer a anulação das deliberações sociais tomadas
com bases nestes votos;

- Art. 245º-A/1 al. g) CVM – dever de divulgação dos acordos parassociais junto do
público, já não por parte dos sócios subscritores, mas por parte da sociedade. Não
para todas as sociedades abertas, mas apenas para as sociedades abertas cotadas.

157
- Não existe uma norma semelhante à do art. 111º do Regime das Instituições
Financeiras para estas sociedades, mas existe o art. 19º/3 CVM. Como
consequência jurídica negativa, estipula-se a anulabilidade das deliberações
sociais. Depois, segue-se o regime geral da acção de anulação de deliberações
sociais (59º CSC).

- Art. 182º-A CVM. Os estatutos podem prever que os acordos parassociais fiquem
sem efeito na pendência de uma OPA (para favorecer as OPAs). Quem é sócio
maioritário não tem interesse em que os estatutos tenham esta regra, pois
prejudica-os. Os sócios maioritários não querem OPAs. Os sócios minoritários já
têm interesse em estabelecer uma cláusula estatutária ao abrigo deste artigo, pois
facilita a realização de OPAs e o surgimento de propostas de compra das ações por
um bom preço. Cria valor para o acionista. Torna mais fácil para o acionista obter
um preço pelas suas ações.
A liquidez, a facilidade de obter um preço pelas ações, faz aumentar o preço das
ações. As cláusulas que restringem a transmissibilidade das ações fazem descer o
preço. Aquilo que não é facilmente “vendável” tem um preço mais baixo. Uma
economia como a dos EUA, em que frequentemente as sociedades têm regras de
fácil transmissão de ações, é uma economia com sociedades mais valorizadas.
Estas cláusulas podem ser muito desvantajosas para um sócio maioritário que não
queira nunca abdicar do controlo.
Al. a) – relativa à transmissão das acções
Al. b) – relativa ao exercício do direito de voto

- Art. 187º CVM – prevê a OPA obrigatória. Quem tenha um terço ou metade dos
direitos de voto tem de lançar uma OPA sobre a parte restante. Isto é próximo do
direito de alienação potestativa (490º/5 CSC). Neste último, em situações de
domínio total ou quase (90%), os sócios minoritários têm um direito potestativo de
alienação – podem sair para não ficarem sob o jugo de um sócio tão grande.
Próximo deste regime é o do 187º CVM. Numa sociedade aberta, quer-se muita
liquidez, capital disperso, ser fácil comprar e vender. Por outro lado, se existirem
sócios muito grandes, maior a probabilidade de eles influenciarem a gestão e
tentarem extrair rendas para si próprios (em prejuízo dos sócios minoritários). A
dispersão é uma vantagem para os investidores por estes dois aspectos. Se houver
um controlo de, pelo menos, metade a lei começa a preocupar-se com os sócios
minoritários.

Para o cômputo das participações (para sabermos se corresponde a um terço ou


metade), não valem apenas os votos de que o sócio seja titular, mas também os
votos que lhe possam ser imputados (por força do acordo parassocial,
nomeadamente) – 20º/1 c).

158
O acordo parassocial, numa sociedade aberta, tem de ser divulgado. Divulgado ou
não, é relevante para o dever de lançamento de uma oferta.
Pode haver situações em que o acordo parassocial é confidencial, mas se se soubesse
dele já funcionariam os arts. 20º e 187º. Houve um litígio na CMVM e nas varas cíveis
de Lisboa, em que a principal cimenteira portuguesa tinha como principais acionistas o
BCP e outras duas empresas. Os sócios minoritários alegavam que o BCP e as duas
empresas tinham um acordo parassocial confidencial e que deviam ter lançado uma
OPA. O BCP e as duas empresas negavam ter um acordo parassocial. Em tribunal, não
se provou existir um acordo parassocial, apesar de tudo indicar, no mercado, a sua
existência (o BCP e as duas empresas andavam a comprar acções a um preço caríssimo
– parecia uma corrida pelo controlo da cimenteira, que só faz sentido se houvesse um
acordo, para que o controlo, o domínio, fosse possível).

Art. 3º/2 al. c) da Lei de defesa da concorrência. Se há um acordo parassocial que


permite designar administradores a um sócio, este acordo é relevante para saber se há
ou não um cartel.

Capital social das sociedades


comerciais:
1.Noção de capital social 2.Nocões distintas 3. Noções jurídicas 4. Princípios 5. Valores
mínimos 6. A crise 7. Operações harmónio.

Noção de capital social:

Capital social é um cifra pecuniária estatutária correspondente ao somatório dos


valores nominais das participações sociais, com exclusão das entradas de indústria. Só
contam as entradas de capital e em bens. É um elemento obrigatório dos estatutos
(9º/1 f). Artigo 14º - a cifra tem de ser em moeda com curso legal em Portugal (neste
momento, o euro).
Releva aqui a diferença entre valores de subscrição e valores de realização. A cifra ou
o montante do capital social corresponde ao somatório dos valores nominais das
participações sociais, ou seja das frações de capital emitidas por uma sociedade
comercial.
Exclusão das entradas de indústria: resulta do artigo 9/1 f) e do 178º/1.2 Se uma
sociedade em nome coletivo só tiver sócios de industria, tal significa que não tem
capital social. As sociedades civis não têm capital social.

159
Capital social vs. Património:

Património: Conjunto de posições jurídicas ativas e passivas avaliáveis em dinheiro de


que uma sociedade comercial é titular em cada momento, distingue-se o património
bruto do património líquido. Património bruto é só o ativo e o líquido são os ativos e os
passivos.
Quando digo património apenas, refiro-me aos líquido.
Esta é uma realidade de natureza concreta (bens, direitos ou deveres tangíveis),
variável (sujeita a constantes alterações com o crescimento da sociedade) e essencial
(não existem sociedades sem património).
O património é a garantia dos credores – artigo 601º CC. Se o património do devedor é
0, o credor fica sem nada.
Autonomia patrimonial – exprime a ideia de que a sociedade é a exclusiva titular dos
bens e das dívidas sociais: bens sociais apenas respondem pelas dividas sociais e ainda
pelas dívidas sociais apenas respondem os bens sociais.

Já o capital social e uma mera cifra estatutária e contabilística, representativa da soma


dos valores nominais das participações sociais. Esta é uma entidade de valor
puramente real e abstrato, só por si, essa cifra nada garante aos credores. Exemplo:
sociedade tem um capital social de 50.000, e o credor tem um dívida de 50.000. Isto
não é relevante, para ser pago é preciso é ver se há património, pode nem haver
dinheiro nenhum, o autor pode nunca ser pago.

As regras do capital social destinam-se a proteger os credores, garantir que a


sociedade tem algum património para pagar aos credores. O capital social é uma cifra
estatutária estática, é sempre aquele número a menos que haja uma alteração
estatutária. O património é algo dinâmico, é o dinheiro real e efetivo.

Tendo em conta uma perspectiva dinâmica reparamos que a coincidência entre os


respetivos valores é improvável ou meramente eventual, seja no momento do
nascimento social, seja no decurso da vida social.

Capital próprio vs capital alheio:


Este é uma distinção essencial para gestores e economistas. Em relação aos bancos
enquanto tipo especial de sociedades anónimas, estes distinção é fulcral.

Capital próprio (em inglês, equity) – meios financeiros fornecidos pelos sócios.
Participações sociais. Só há remuneração se houver lucros.
Resulta de meios financeiros que são fornecidos à sociedade pelos seus próprios sócios
direta (entradas de capital) ou indiretamente (acantonamento de lucros). Estes são
meios destinados a permanecer na sociedade duradouramente ou por um tempo

160
indeterminado, não garantem aos seus aportadores qualquer remuneração certa mas
tão somente um dividendo dependente da existência de lucros sociais.

Capital alheio (em inglês, debt) – meios financeiros fornecidos por terceiros.
Exemplos:
1) Mútuos bancários, nomeadamente contas-corrente caucionadas (o banco
combina com a empresa um determinado plafond até ao qual a empresa pode
obter empréstimos do banco; a empresa tem uma conta bancária que pode ser
movimentada a crédito até um determinado valor; por vezes, as empresas têm
dificuldades de tesouraria).
2) Empréstimos a longo prazo.
3) Leasing (locação financeira).
4) Emissão de obrigações (348º) – a sociedade não está a aumentar o capital
social, está a emitir obrigações que atribuem a quem as subscreve um direito
de crédito sobre a sociedade; pede dinheiro ao público. Quem subscreve as
obrigações terá um direito de crédito sobre a sociedade, tal como um banco.
Esta é uma forma de financiamento da sociedade, não através dos sócios mas
através de terceiros.

Estes são meios que são colocados à disposição da sociedade temporariamente ou por
prazo predeterminado, que atribuem aos seus aportadores uma remuneração certa e
não estão sujeitos a qualquer regime de vínculos particular: o seu reembolso pode ser
solicitado no termo do prazo estipulado (1148º/1 e 2).

Os suprimentos:
Esta figura encontra-se prevista no artigo 243º.
Os suprimentos estão a meio caminho entre a equity e a debt. São empréstimos dos
sócios, não sob a forma de participação social, mas sob a forma de empréstimo.
O sócio não está a entregar capital próprio, formalmente, é capital alheio. No entanto,
materialmente, é capital próprio.
Fazem-se muitos suprimentos, nomeadamente por causa das vantagens fiscais. A lei
no entanto impõe limites a esta figura – para certas citações os suprimentos não vão
assumir natureza de simples empréstimos.

Teoria financeira moderna. Equilíbrio entre o capital alheio e o capital próprio. Apesar
de no capital próprio não haver nenhuma taxa de remuneração contratualizada, está
implícita. Se vamos à bolsa para que os investidores subscrevam ações apesar de no
contrato não estar prevista uma remuneração, é preciso convencer o público de que
vai haver lucros. Aos acionistas é preciso também prometer uma remuneração
implícita – dizer que vai haver lucro. No que respeita ao capital alheio há sempre uma
taxa contratualizada.

Que faz o gestor moderno?


Vai ver qual a forma de adquirir capital alheio mais vantajosa. Vai aos bancos ver qual
a taxa de juro que lhe oferecem para o empréstimo e, caso esta não seja vantajosa,
pondera a emissão de obrigações tendo claro em conta a taxa de juro.

161
Capital Nominal vs. Capital Real:
Aceção puramente formal ou nominal: capital como mera cifra estatutária ou
contabilística representativa do somatório do valor nominal das participações sociais. É
a este que a lei se refere quando o considera elemento obrigatório dos estatutos (9º/1
f).

Aceção real ou substancial: cifra de retenção designativa daquela massa de bens


concretos que no património social se encontram contabilisticamente afetos à
cobertura do valor estatutário do capital social – são os direitos e bens existentes para
cobrir o montante do capital social estatutário.

Aula , 10/04/2015
Trabalho- Capacidade das Sociedades Comerciais e Prestação de Garantias
Estrutura de uma sentença
 Relatório

 Factos

 Direito

 Conclusão

Acórdão da Relação
Matéria de facto
A Sociedade COFACO tem 60% da COMALTE, que tem 64,28 % da SAFOL
A Sociedade COFACO tem também 15% da PACHECO

A SAFOL está a deliberar dar uma garantia para que o banco empreste dinheiro ao “grupo”
COFACTO, nomeadamente para a CONSERVEIRA PACHECO.

Conceito jurídico de grupo =/= Conceito Corrente/ Económico de grupo


Conceito Jurídico: Quando há uma participação social superior a 90% (raríssimo) OU quando é
celebrado um contrato de subordinação (raríssimo).
Relação de domínio: Quando uma sociedade detém a maioria do capital da outra (aqui há
relações de grupo subjacente
 Relação de domínio (indiretamente): entre COFACO e SAFOL

Problema
Nos termos do art 6º só são permitidas prestações de garantias em dois casos.
 Justificado interesse próprio

162
 Relação de domínio ou de grupo

Ora, neste caso não existe qualquer relação de domínio ou grupo entre a SAFOL e a
CONSERVEIRA PACHECO.
“O facto de todas elas serem participadas pela COFACTO, não é, suficiente, para determinar a
existência de uma relação de grupo ou de domínio entre as mesmas, nos termos do art 6º,3”-
Este é o argumento do recorrente, com o qual o tribunal concorda.
No entanto, o tribunal achou que, sem prejuízo d n haver relação de domínio, deve ser
possível prestar garantias se houver relações económicas muito importantes, considerando
haver um justificado interesse próprio- isto extravasa a letra do art 6º,3 e é um precedente
muito importante. Este é um acórdão muito importante.
Apesar de não haver um grupo em sentido jurídico, o grupo económico justifica falar-se num
“justificado interesse próprio”. Assim, este acórdão alarga as exceções do art 6º,3 muito para
lá das relações de domínio ou de grupo.

Ac. TRL
Caso semelhante ao outro- Há uma sociedade que constitui uma hipoteca sobre um terreno
para pagamento das dívidas do JC. Uma hipoteca a favor do BCA.
Problema: Outros bancos, também nos açores, vão ficar chateados com isto.
Quem tem o ónus da prova?
O Ac. diz que quem tem o ónus da prova do justificado interesse próprio é o beneficiário da
garantia/ a pessoa a favor de quem foi constituída a garantia pela sociedade.
Os outros credores n têm o ónus da prova.

Duas notas:
- Posição do prof: O prof defende o BCA; Pro prof os poderes são abstratos e ilimitados, e o
prof associa-se a pais de vasconcelos e outros autores. O prof dá muito valor à diretiva.
- Este acórdão segue à risca a teoria das normas de rosenber “exceto...”- então quem tem o
ónus da prova é quem quer beneficiar com a exceção.

Trabalho
Ac 154/2006
Coutinho de Abreu (bem como a maioria da doutrina) critica estes acórdãos. Distinção entre
problemas que têm que ver com cláusulas estatutárias (260º; 409º) e problemas que têm q ver
com número de assinaturas/administradores (261º; 408º).
A ideia dos AL é: principal preocupação é a proteção de terceiros. Os terceiros n têm de
conhecer as regulações sociais. No entanto, quanto à identificação dos administradores e
quanto ao seu número, aí têm de ter atenção- e isso está n registo. Os terceiros têm de ter
atenção se estão a contratar realmente com os administradores, através do registo comercial.
Quanto ao número de intervenientes, há um limite: os terceiros têm de ir verificar quem sã os
administradores e quantas assinaturas são precisas.

Isto formalmente é ilegal/contra legem. Mas há formulação dos AL que, provados det
circunstancialismos, conseguem fazer uma proteção de terceiros próxima desta- aparência dos
poderes de representação.

163
Teoria da aparência dos poderes de representação: Os poderes de representação são formais
e só há vinculação dentro dos poderes formais. No entanto, em det circunstancias, apesar d n
haver poderes formais, há uma aparência da sua existência (tutela da confiança/ tutela da
aparência) (havendo determinados factos para terceiro achar que havia poderes unilaterais de
representação) (é preciso haver ) (este regime, de tutela da aparência, devia estar previsto no
CC, mas não está.... está previsto no contrato de agência). Ex: Se até agora havia sempre um
representante e sempre tudo correu bem, agora n me podem vir dizer que são precisos 2; Ex:
Vamos a uma loja, encontramos uma pessoa atrás do balcão com canetas e formulários....
celebramos contrato com essa pessoa (confiamos que ela tem poderes de representação).

Pró prof: Estes acórdãos são contra-legem; Há a teoria daa aparência dos poderes de
representação. Seria preciso analisar se haviam fatores para ativar o regime da tutela da
aparência. Os juizes n se preocuparam com isto.

Notas:
- Poderes de representação orgânica dos gerentes e administradores
- Limitações (260º; 409º)
- Mas a identificação dos admin e o seu número já é relevante (261º; 408º)
- Possibilidade de aplicar teoria da aparência dos poderes de representação só quando é que
um assina (Argumentos: art X do Contrato de Agência)
- Depois também há, claro, representação voluntária- e isso é um outro mundo de
representação das SC, ao abrigo do CC ou do CT (que pode estabelecer poderes de
representação). Também aqui é possível aplicar, por analogia, a teoria da aparência dos
poderes de representação.
- Conclusão: A ideia final do acórdão está correto; a metodologia que n foi a melhor (o acórdão
fez aplicação contra legem da lei); Correto seria terem aplicado o art do Pinto Monteiro que
está no contrato de agência.

No acórdão do supremo “Aos interesses....exigida pelos estatutos”- isto é uma rule of law
contra legem. O supremo não pode fazer isto! Isto é a ratio decidendi, de onde é possível
extrair uma rule of law, general e abstrata. Mas o supremo n devia ter feito isto assim.

Direito das Sociedades – 14.03.15

Apresentação de trabalho:
(pedir Carminho)

Artigo 246º/2 alínea c) e d).


A doutrina diverge:

164
Quem tenha em conta uma interpretação germânica defende que estas deliberações
são meramente internas não relevam na eficácia do contrato de compra e venda. O
professor vai mais longe e defende que o 246º/2 nem sequer tem eficácia externa.

A restante doutrina defende a eficácia externa do artigo 246º/2.

O capital social (continuação):

Funções jurídicas do capital social:


[Engrácia Antunes – p. 353 a 370]

- Função interna: é um suporte de distribuição de direitos e deveres entre os sócios.


Cada sócio tem uma fração relativa do capital social – tem ações representativas de
2% do capital social.
Exemplo: quórum constitutivos e deliberativos (383º/2 e 386) – para determinados
assuntos mais importantes os sócios só podem deliberar com 2/3 do capital social.

- Função externa: o capital social é um limite à evolução do património da


sociedade. A cifra estatutária funciona como uma cifra de retenção patrimonial
com o objetivo de tutela dos credores.
Não devemos é dizer que o capital social é a garantia dos credres – afinal sem
património a sociedade não tem nada.
Regras: quando o património tem um valor inferior à cifra estatutária não pode
haver distribuição de lucros pelos credores. Esta é uma tutela dos credores.

Princípios do capital social:

1. Princípio da rigidez: o capital social não é maleável, está fixado nos estatutos –
só se altera com alteração estatuária com maioria qualificada.

2. Princípio da efetividade ou exata formação do capital social: tem a ver com a


função externa. Exemplos de regras jurídicas aqui inspiradas:
o norma que estabelece a obrigação de deliberação das entradas;
o regras da avaliação das entradas em espécie;
o norma que proíbe a realização abaixo do par: posso subcrever ações acima
do valor nominal ou tendo em conta o valor nominal, não posso no entanto
fazê-lo abaixo do valor nominal.

3. Princípio da conservação ou da intangibilidade do capital social: também tem


a ver com a tutela dos credores.
o Quem empresta dinheiro tem direito a juros fixos, quem entra com capital
próprio não tem direito a pagamento certo;
o Artigo 32º/2 – se o património desce abaixo da cifra estatutária não é
possível deliberar a distribuição dos lucros ao sócio. Como se dá a volta a
esta regras? Através da venda de imóveis aos sócios – distribuição oculta.

165
o Perdas sociais graves (artigo 35º) – quando o património está abaixo de
50% da cifra estatutária é preciso fazer alguma coisa. O artigo 35º nunca
entrou em vigor na sua versão original, a atual apenas impõe o dever de
importar.
o Auto participações: quotas própria, ações próprias - artigo 220º a 316º. Isto
é feito como uma forma de reorganizar os sócios.

Valores mínimos atuais do capital social:


SA – artigo 276º/5 – 50k
SQ – artigo 201º e 219º/3
Até à uns anos o valor mínimo era de 5.000€. agora há o regime do capital social livre –
o capital corresponde soma das quotas e cada quota tem de ter o valor mínimo de 1€.
Se tiver dois sócios o capital mínimo será de 2€.

As regras de proteção dos credores (601º CC) agora já não valem nada – estes são
limites ínfimos, em nada protegem os credores.

A crise da função externa do capital sociedade:


Para os gestores e contabilistas nortes americanos têm de se focar na contabilidade.
Importa ver quais são os cash flows, qual o nível de endividamento.

EBITDA – juros ou mais valias antes dos impostos, amortizações e etc. – isto é o que
releva, a função externa do capital social não vale nada.

Forma de reação do legislador:


Proteção de terceiros que já não é feita com base nas regras do capital social mas
antes com enfoque no capital alheio e capital próprio - isto acontece na área dos
bancos e dos seguros. Não é um questão da cifra dos estatutos mas antes com a
contabilidade.

Princípio geral é este – os bancos têm de ter um mínimo de 8% de capital próprio. Tem
de haver a todo o momento uma proporção de capital alheio e de capital próprio.

Sociedades - 17.04.15

O capital social (fim):


O principal dever dos sócios era o dever contribuição, antes de mais constituído por
uma entrada mas também por prestações complementares. Neste capitulo
aprofundámos o capital social e de alguma forma também do dever de contrato
enquanto contribuição para o capital social.

166
A distinção entre capital próprio e capital alheio releva sobretudo em questões de
contabilidade mas também em questões de tutela de terceiros.

Valores mínimos do capital social:

Valor da empresa medido pelo cahsflow:


Para conhecer o efetivo valor de uma empresa não vamos olhar para o capital social,
mas antes para os seus cashflows. As empresas têm determinada cotação em mercado
porque há analistas que analisam o valor da empresa tendo em conta os fluxos de
caixa (cashflows) – dinheiro que entra na empresa e o dinheiro que sai, as vendas e as
compras.
Paras os analisas não interessa tanto medir o valor da empresa pelo património
liquido, interessa é verificar no futuro que ganhos é que aquilo pode gerar.

Para a banca há o critério mais inteligente do ratio entre o capital próprio e o capital
alheio. Temos portanto dois caminhos para o legislador: o capital social e o rácio entre
capitais próprios e capitais alheios.

Discute-se se deve haver valores mínimos de congruência entre o capital social e o


objecto social. Nestes casos para além da ratio entre o capital social e o capital alheio
há também o necessidade de valores mínimo de capital social muito superior – este é
no entanto um caminho sem pernas, a função externa do capital social é para
esquecer.

A lei devia, para determinadas atividades (mais arriscadas), exigir um capital social de
determinado valor? Isto acontece nalgumas atividades – instituições de crédito
(bancos, seguradoras têm capitais sociais bastantes superiores a 50.000€).
Isto só acontece pontualmente no sector financeiro, não nos restantes sectores
económicos. Contudo, pode-se discutir a aplicação da desconsideração da
personalidade jurídica sempre que é criada uma sociedade destinada a um grande
investimento (v.g. exploração petrolífera) com um reduzido capital social. Isto pode ser
um argumento para fazer a desconsideração da personalidade jurídica e atacar os
sócios?

Perspectiva alternativa: congruência entre capitais próprios e capitais alheios. Rácios


prudenciais entre capital próprio e capital alheio. Não se pode recorrer a capital alheio
em proporção superior àquela a que se recorre ao capital próprio. Ou não se pode
recorrer a capital alheio em mais de 90% ou de 92%, por exemplo. Estas regras existem
no sector financeiro. Esta perspectiva é a que os americanos consideram mais eficaz,
mais interessante. Os bancos vêem-se aflitos para ter 6% de capital próprio.

Questões relacionadas com o capital social:

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O capital social representa a bússola da avaliação económica-financeira da sociedade
comercial. A cifra nominal do capital constitui o parâmetro fundamental da apreciação
cíclica da situação económico-financeira da empresa, permitindo apurar a existência
de lucros ou perdas e a possibilidade de reservas de valores que habilitem a sociedade
a fazer face a responsabilidades e encargos futuros (reservas).

1. Reservas:
Valores que, tendo sido gerados pela própria atividade social e sendo contabilizados
no capital próprio da sociedade, os sócios não puderem (por força da lei ou dos
estatutos) ou não quiserem (deliberação social) distribuir.

Cifras limitativas da distribuição de bens aos sócios que acrescem ao capital social. São
“quase-capital social”. São um acréscimo face ao capital social.
Aumentam o valor de referente para efeitos da regra de distribuição, não pode haver
distribuição de dividendos pelos sócios quando o capital social está abaixa de
determinado valor.

Exemplo:
Estatutos – capital social é de 30.000€
Património é de 29.000€ - não posso distribuir dividendos por força do artigo 32º;
Reserva de 5.000€ - já não tenho por referencia apenas o valor do capital social mas
antes o valor do capital social acrescido das reservas – se não tenho o valor de 35.000€
não posso distribuir.

Exemplo II:
Ativo: 150.000€
Passivo: 100.000€
Capital social: 30.000€
Reservas: 10.000€

Só se podem distribuir 10.000€. As reservas reforçam a função de proteção de


terceiros dos credores.

As reservas podem ser:

1) Legais – estabelecidas em lei injuntiva. Não há aqui autonomia privada. Artigo


295º e 296 CSC.
2) Estatutárias – estabelecidas nos estatutos. Têm uma origem que não é legal
mas sim negocial.
3) Contratuais – constituição é imposta por disposição contida em determinado
contrato especial celebrado pela sociedade com terceiros (ex. concessão de
serviço público).
4) Facultativas ou livres – estabelecidas nas deliberações sociais ano a ano (217º
e 294º).

As reserva legais podem ter origem em lucros em ágios e em atribuições gratuitas.

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Sociedades por quotas – art. 218º. Para estas sociedades é preciso fazer uma leitura
conjugada. Há um limite mínimo.

Sociedades anónimas (artigo 295):


o Reserva legal com origem em lucros (art. 295º/1): 20% dos lucros tem sempre
de ir para a constituição de uma reserva até que se atinja 5% do capital social.

o Reserva legal com origem em ágios e atribuições gratuitas (art. 295º/2):

a) Ágio - diferença entre o valor nominal e o valor de subscrição


Exemplo: sociedade foi criada por A e B – o capital social é de 30.000€, cada um tem
15.000 ações a um 1€. Mandam o mesmo.
Agora podem querer pôr na sociedade o C e o D, mas não querem que C e D mandem
tanto como eles – vendem cada ação com valor nominal a 1€ mas estes pagam
efetivamente 3€, vão pagar acima do par. Cada um entra com 15.000 embora tenham
apenas subscrito 5.000 – subscreveram 10.000€ acima do par. Em suma, vão pagar o
mesmo que os sócios originais mas enquanto estes têm 37% do capital social, o novos
sócios apenas têm 12,5% cada um.

Com este subscrição acima do pagar, apesar de todos terem entrego com a mesmo
quantia em dinheiro uma ficam com 12,5 de peso político e os outros com 37,5%.

Então que nos diz a regra da reserva? Há uma emissão de 20.000€ acima do par (10k +
10k) e este valor traduz-se numa reserva.

b) Saldos positivos de reavaliações monetárias – atribuições


monetários gratuitas. Exemplo: sócio morreu e deioxou muuto
dinheiro à sociedade.

2. Os lucros e perdas:
Lucros e perdas sociais representam os aumentos ou diminuições registados no
património líquido de uma sociedade comercial, em virtude da exploração da respetiva
atividade, tomando por referência a cifra do capital social.
Lucros são aumentos patrimoniais, perdas são diminuições patrimoniais.

LUCROS FINAIS E LUCROS PERIÓDICOS :


Distinção de escassa relevância prática.
Lucros finais: excedente do património social líquido relativamente à cifra do capital
social no tempo da vida da sociedade, apurado através do balanço de liquidação.

Lucros periódicos: excedente do património social líquido relativamente à soma do


capital social e das reservas indisponíveis (legais e estatutárias) no final de cada ano
económico ou exercício social, apurado através do balanço anual.

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LUCROS APURADOS, LUCROS DISTRIBUÍVEIS E LUCROS DISTRIBUÍDOS :

Lucros apurados:
Excedentes do património social líquido relativamente à soma do capital social e das
reservas indisponíveis que são apurados no balanço anual da sociedade. LA =
Património Social Liquido – (CS + Reservas Indisponíveis).
No final de cada exercício social, os órgãos sociais de administração são obrigados a
submeter as contas de exercício à apreciação da AG (65º CSC), as quais integram um
balanço que poderá registar um saldo positivo, negativo ou neutro. Quando é apurado
um saldo positivo temos os lucros apurados e só estes podem ser distribuídos aos
sócios.
A distribuição de valores que não correspondem a lucros apurados acarreta a
invalidade das deliberações sociais (56º/1 d) a responsabilidade dos administradores
(31º/2 c) e o dever de restituição por parte dos sócios (34º CSC).

Lucros distribuíveis:
Nem todos os lucros apurados são lucros susceptíveis de serem distribuídos aos sócios,
já que uma parte daqueles é imperativamente destinada a cobrir os prejuízos
eventualmente transitados de exercícios sociais anteriores e a integrar reservas legais
ou estatutárias existentes (33º/1).

Lucros distribuíveis = Património - (Capital Social + Reservas Indisponíveis).

Posso ter em determinado ano, lucros anuais mas não ter lucros distribuíveis.

Lucros distribuídos:
A lei permite que não seja distribuída uma parte ou mesmo a totalidade dos lucros
distribuíveis. Aos sócios é lícito deliberar por maioria simples a retenção na sociedade
de até metade dos lucros distribuíveis, podendo mesmo decidir por maioria qualificada
não distribuir uma parte superior dos lucros ou até a sua totalidade (217º/1 e 294º/1).

Continuação do exemplo:
Capital social + reserva indisponível (=) 40.000 + 20.000 (=) 60.000;
Lucros distribuíveis = património – 60.000

Ano 1 – 50.000€ - abaixo de 60.000, não há distribuição;


Ano 2 – 55.000€ - abaixo de 60.000, não há distribuição;
Ano 3 – 65.000€ - acima de 60.000, há distribuição de 5.000€

PERDAS:
Decréscimos ou diminuições do património da sociedade.

Perdas de balanço: prejuízos patrimoniais acumulados pela sociedade desde o início


da sua atividade até ao momento da elaboração de determinado balanço.

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Perdas de exercício: prejuízos apurados em cada exercício social em concreto,
correspondendo ao diferencial entre o património social liquido no inicio e no termo
desse mesmo exercício social.

3. Variações do capital social – aumento e redução:


O aumento de capital – modalidades:
- incorporação de reservas: artigo 91º, 92º, 93º.
O valor de 20.000 que é uma reserva, por força de um aumento estatuário passa a
ser capital social.

- novas entradas; artigo 87º;

Artigo 266º e 267º


Existe um direito de preferência dos sócios na subscrição de novas ações: artigo
458º.Este direito de preferência é alienável.
É possível em certas condições delimitar ou restringir o direito de preferência (460º).

Redução de capital - modalidades:


Artigo 94º

- Libertação de capital: redução da cifra estatutária do capital social, com a


correspondente libertação do património.

- Cobertura de perdas: libertação da cifras estatuária, sem perda de património


real – casos em que o património social já era inferior ao capital social, nestas
situações, o capital baixa, apenas para corresponder ao património que
efetivamente existe.

Operação harmónio ou acordeão:


Operações de saneamento financeiro. Primeiro, está a correr mal. É preciso dinheiro
fresco. Primeiro, reduz-se o capital social, o que faz com que os sócios antigos fiquem
com ações correspondentes a muito poucos euros; de seguida, aumenta-se o capital
social e os novos sócios terão ações correspondentes a muitos euros.

Exemplo:
Quota de A: 100.000€
Quota de B: 100.000€
Capital social: 200.000€

A sociedade corria mal. C está disposto a entrar com 50.000€. Mas se assim for fica
como o sócio minoritário (dessa forma não quer). A e B fazem uma redução do capital
social – passam cada um de 100.000€ para 10.000€. O capital passa a 20.000€. Depois

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desta redução, há um aumento com novas entradas de C. C entra com 50.000€. Passa
a ser o sócio maioritário e o capital social passa a 70.000€.

Art. 95º/2 – a redução pode ser abaixo do capital social mínimo.


Operação de redução do capital social para cobertura de perdas, seguida de um
aumento de capital por novas entradas. Faz-se primeiro um saneamento financeiro e
depois há novas entradas por terceiros.

- há aqui uma alteração do equilíbrio de forças – quem entra fica como sócio
maioritário;
- redução do capital social, a lei permite que essa redução possa ir para valores
abaixo do capital social mínimo. Esse possibilidade está prevista no artigo
95º/2.
- Discute-se na doutrina se pode haver uma redução do capital social a zero.
Exemplo: A, B, C, D ficam a zero – D entra a 100%. Grande parte da doutrina diz
que não pode ser, pois nem que seja num segundo a sociedade ficam sem
sócios o que nunca pode acontecer, outros dizem que isto é uma mera
formalidade e que na prática tal operação é possível.

Prestações dos sócios para além do capital social:


O dever de contribuição do sócio envolve sempre um dever de realização de entrada e
pode abarcar ou não o dever de prestações acessórias ou suplementares.

PRESTAÇÕES ACESSÓRIAS ( 209º 287º) E PRESTAÇÕES SUPLEMENTARES (210º A 213º):


Ou decorrem dos estatutos ou de uma deliberação social, orgânica. Têm natureza
estatutária.
Têm em comum serem prestações feitas em cumprimento de obrigações sociais,
resultantes diretamente dos estatutos ou de uma deliberação de sócios tomada do
abrigo de uma cláusula estatutária. Estes prestações acrescem assim à obrigação de
entrada, essa sim a obrigação principal, não só geneticamente como funcionalmente,
uma vez que, são as participações no capital que determinam primacialmente os
direitos e deveres dos sócios.

SUPRIMENTOS (243º A 245º):


Não têm uma natureza estatutária, têm uma natureza civilística. Consistem na
celebração de um contrato de mútuo ou na não exigência de crédito perante a
sociedade.

É fixado um regime especial para os contratos pelos quais um sócio de uma sociedade
por quotas lhe empreste dinheiro ou outra coisa fungível ou pelo qual convencione
com a sociedade o diferimento do vencimento de créditos seus sobre ela “desde que
em qualquer dos casos o crédito fique tendo carácter de permanência”.

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Os suprimentos já tem uma natureza de “contribuições voluntárias”. Não são
efetuados no cumprimento de obrigações sociais, antes resultando de obrigações
assumidas para além das obrigações sociais, em resultado de um cotrato de mútuo, ou
da não exigência de crédito sobre a sociedade-

**
A afinidade entre prestações acessórias, prestações suplementares e suprimentos está
em que as três figuras consistem em contribuições dos sócios para além do capital
social.

Síntese comparativa dos regimes das três figuras:

Âmbito de aplicação:
Prestações suplementares e suprimentos – apenas a propósito das sociedades por
quotas (210º e 243º).
Prestações acessórias – SQ e SA (209º e 287º).

Fonte da obrigação:
o Prestações acessórias – contrato de sociedade (209º e 287º);
o Prestações suplementares – deliberação dos sócios posterior à previsão desta
possibilidade no contrato de sociedade (210º/1 e 211º/1).
o Prestações de suprimentos – estranha ao contrato de sociedade. Fonte é um
contrato entre sócio e sociedade que não depende de deliberação dos sócios
(244º/3). Nos casos em que o contrato de sociedade estabelece a obrigação de
efetuar suprimento, a mesma conduz-se a uma prestação acessória.

Objeto da obrigação:
o Prestações acessórias – podem ser pecuniárias ou não pecuniárias (209º/2 e
287º/2);
o Prestações suplementares – sempre dinheiro (210º/2).
o Prestações de suprimentos – dinheiro ou outra coisa fungível, lucros (243º/1).

Onerosidade, gratuitidade e remuneração:


o Prestações acessórias – podem ser onerosas ou gratuitas. São ou não
remunerados.
o Prestações suplementares – onerosa, dá origem a créditos sobre a sociedade.
Regras sobre a reconstituição (213º). Não podem ser remuneradas (210º/5)
o Prestações de suprimentos – onerosa. Natureza de mútuo ou de acordo de
diferimento de crédito pré-existente. São ou não remunerados.

Regime de restituição:

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o Prestações acessórias – regulamentação do contrato em questão (209º/1). A
contraprestação pode ser paga independentemente da existência de lucros de
exercício (209º/3).
o Prestações suplementares – a restituição depende da deliberação dos sócios
(213º/2) que só pode ser tomada se o respetivo sócio já tiver liberado a sua quota
e se, por força da restituição, a situação líquida não se tornar inferior ao somatório
do capital social com a reserva legal (213º/1).

o Prestações de suprimentos – também fortemente condicionada. Em caso de


insolvência os suprimentos só podem ser reembolsados depois de pagos os outros
credores (245º).

Sanção dos incumprimento:

o Prestações suplementares – perda total ou parcial da quota e eventual exclusão da


sociedade (212º/1 e 204º).

o Prestações acessórias e prestações de suprimentos – lei não prevê sanção similar,


mas também não parece obstar a que os estatutos prevejam que tal
incumprimento seja fundamento de exclusão ou de amortização da quota.

Regime das prestações:


Prestações acessórias:
Artigo 209 287 – SQ e SA
Têm uma fonte direta - estão logo previstas nos estatutos. Podem ser prestações não
pecuniárias ou prestações pecuniárias – podem portanto ser serviços de industria
(artigos 209/2 e 287º/2). Podem ser remuneradas ou não (209/3 e 287º/2) – juros no
caso de dinheiro e remuneração no caso de serviço.

Prestações suplementares:
Artigo 2010º - só para as SQ
Primeiro tem de haver uma previsão nos estatutos e depois tem de haver uma
deliberação social criando na esfera jurídica do sócio o dever de realizar a deliberação
suplementar. Prestações pecuniárias – em dinheiro, não há outra opção (210º/2). São
não remuneradas – não há juros.
Há uma enorme sobreposição de regime entre as prestações acessórias e
suplementares nas sociedades por quotas (nas sociedades anónimas, não há
prestações suplementares).

Suprimentos:
Previstos apenas para as SQ mas aplicam-se por analogia às sociedades anónimas.

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Tem uma origem civilística – 244º/3. Consistem em dinheiro ou outra coisa fungível.
Podem ser remunerados ou não.

Origem das prestações:

Origem das prestações acessórias:


Na origem tínhamos as sociedades em nome colectivo e as sociedades anónimas. As
sociedades por quotas são uma criação recente. As sociedades em nome colectivo
constituíam frequentemente comunidades de trabalho – duas ou três pessoas
juntam-se e abrem uma retrosaria. Historicamente, as sociedades comerciais
começaram por ser associações de comerciantes e esse traço genético foi ainda
dominante durante todo o séc. XIX.
Ao invés as companhias privilegiadas, das quais as SA descendem, não eram meras
associações de comerciantes, antes agrupavam pessoas dos mais diversos estratos e
estatutos. Os seus estatutos desconsideravam, expressa ou tacitamente, as
contribuições dos sócios em serviços. Nas sociedades anónimas, a tendência é a de
bomba de capital.

No entanto, nas sociedades anónimas oitocentistas, começaram a existir casos de


sociedades em que havia lugar a contribuições dos sócios em serviços (ex. “sociedades
da beterraba”). Quando o legislador germânico criou as sociedades por quotas
estabeleceu não apenas a possibilidade de realizar prestações de capital, mas também
prestações acessórias em serviços – deveres acessórios ou obrigações acessórias.

Em Portugal:
Quando importámos as sociedades por quotas (em 1801), a lei não fez referência a
estas prestações acessórias em serviço. Mas a doutrina fez-lhes referência e a prática
dos negócios fez surgir este género de cláusulas estatutárias prevendo obrigações
acessórias. Enigmaticamente, aquando os trabalhos preparatórios do CSC, previa-se as
prestações acessórias não apenas para serviços mas também pecuniárias (na senda
dos “textos de Coimbra”).
Estas prestações acessórias foram entretanto consagradas no CSC e foi acrescentado
algo: não apenas serviços, mas também prestações pecuniárias. Assim surge o
problema da sobreposição.

Obrigações tácitas e extra estatutárias:


Hoje em dia é raríssimo os estatutos estabelecerem as prestações acessórias - perdeu-
se a prática comercial de clausular prestações acessórias de serviços: o Joaquim fica
atrás do balcão a fazer a reposição – estar atrás do balcão é a sua contribuição para a
sociedade e a sua forma de receber dividendos, não há aqui um contrato social.
Na verdade, não se prevê nos estatutos de forma expressa, mas de forma tácita: se o
sócio x não realizar o serviço y é excluído da sociedade.

Por vezes, surge o equivalente a prestações acessórias em acordos parassociais: de


joint venture, de cooperação entre empresas - v.g. uma sociedade entra com o know-

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how, outra entra com o capital. Isto pode ser previsto nos estatutos ou nos acordos
parassociais.

Origem das prestações suplementares:


Matéria exclusiva das sociedades por quotas. Surgiram com a lei germânica de 1892
quando sugiram as sociedades por quotas.
Previa a possibilidade de previsão estatutária de prestações pecuniárias
suplementares.
Foram recebidas na nossa lei das sociedades por quotas de 1901. Em termos de prática
tabeleónica, não havia grande tradição de previsão de prestações suplementares. Pode
ser melhor estabelecer uma obrigação de entrada mais pequena e mais tarde
prestações suplementares, pois é mais fácil reaver as prestações suplementares do
que a obrigação de entrada. Reaver uma obrigação de entrada só através de uma
redução do capital social com efectiva distribuição do capital. Mais inteligente do que
tudo isto pode ser realizar suprimentos.

A utilização prática desta figura nas últimas décadas é significativa – estas prestações
são parte integrante do capital próprio e é mais fácil aos sócios reaverem as prestações
suplementares do que reduzirem o capital social, para efeitos de receberem o que
tenham por excessivo para as necessidades da sociedade. É óbvio que quem investe
com capital próprio na sociedade contemplando a hipótese de vir a retirar parte dele
tem de preferir fazê-lo por meio de prestações suplementares, em vez de por meio do
capital social.
O objetivo do legislador alemão com a criação destas prestações terá sido alcançar um
compromisso entre a facilidade na chamada de reforços de capital e a previsibilidade
por cada sócio do seu esforço financeiro.

Origem dos suprimentos:


A jp e a doutrina alemãs desenvolveram uma construção segunda a qual os
empréstimos de sócios que sejam sucedâneos de capital próprio devem ser tratados,
em caso de insolvência como capital próprio.
Esta construção alemã começou a ter ecos em Portugal nos anos sessenta do séc. XX.

Figura híbrida entre o capital próprio e o capital alheio. Formalmente, são capital
alheio - mútuo civil de um sócio à sociedade. Materialmente, é dinheiro dos sócios e
não de terceiros. Do ponto de vista contabilístico são arrumados no capital alheio mas
materialmente são capital social.
Sempre houve uma tradição secular de realizar suprimentos à caixa. Todas as
sociedades podem ter problemas momentâneos de tesouraria (não problemas de
investimento). “Recebemos tarde dos clientes e estamos a pagar cedo aos nossos
fornecedores. Temos custos ao fim de 30 dias e lucros ao fim de 120 dias”, por
exemplo. Por causa destes problemas, muitas vezes, há a tradição de os sócios
meterem dinheiro na sociedade por curto espaço de tempo.

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Os alemães construíram uma doutrina segundo a qual tinha de haver alguma
protecção dos credores. Em situações de insolvência, não fazia sentido que os sócios
recebessem em primeiro lugar os seus suprimentos e os credores só depois. Os
empréstimos de sócios ou créditos análogos que sejam sucedâneos de capital próprio
devem ser tratados em caso de insolvência como capital próprio e não capital alheio.
Paga-se primeiro aos credores e só se sobrar dinheiro é que se pagam os suprimentos.
A ideia é pagar os credores em detrimento dos sócios.

Esta doutrina germânica foi recebida em Portugal por Raúl Ventura e incorporado nos
trabalhos preparatórios do CSC – 243º CSC. Art. 245º/3 – al. a) – regra principal. Norma
jurídica de apoio a esta ideia: al. b).

Regime injuntivo sobre graduação de créditos em regime de insolvência:


Art. 48º CIRE – insere-se no capítulo respeitante à massa insolvente e à classificação
dos créditos (comuns, privilegiados, subordinados). A regra do 245º/3 CSC é repetida
neste 48º CIRE. Não faltam preceitos para fundamentar esta regra: os suprimentos são
créditos subordinados.

Frequentemente, na prática dos negócios, nomeadamente por razões fiscais, fazem-se


suprimentos.

Problemas relativos ao regime das três figuras:

1. TRANSMISSIBILIDADE AUTÓNOMA DOS CRÉDITOS DOS SÓCIOS EMERGENTES DAS TRÊS


FIGURAS :

Crédito em contrapartida do suprimento: é transmissível o crédito por suprimentos


autonomamente da qualidade de sócio, sendo que o crédito manterá o seu regime
ainda que o novo titular não seja um sócio.

Crédito em contrapartida de prestações acessórias: aplica-se também o princípio da


credibilidade.

Crédito em contrapartida de prestações suplementares: também eles transmissíveis


autonomamente da qualidade de sócio ainda que mantenham o seu regime.

2. APLICABILIDADE DO REGIME DE CONTRATO DE SUPRIMENTO ÀS SOCIEDADES ANÓNIMAS:

Esta aplicabilidade começou a ser discutida logo após a entrada em vigor do CSC.
O regime dos suprimentos pode ser aplicado por analogia a outros tipos societários,
nomeadamente às sociedades anónimas?
Estão previstos para as sociedades por quotas. Há posições doutrinárias nos vários
sentidos: não é aplicável às sociedades anónimas; é sempre aplicável; depende
consoante seja um sócio-empresário ou um sócio-investidor (posição maioritária). Há
quem avance números: se tem 10% é sócio-empresário.

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Brito Correia: quando os suprimentos sejam uma obrigação estatutária, quando se
reconduzam a prestações acessórias, é óbvia a sua aplicação.

Raul Ventura: admite a aplicação analógica das regras do contrato de suprimento


quando se deva entender que a posição do acionista-credor é de “titularidade de ações
com fins verdadeiramente societários” e não de “titularidade de ações como simples
meio de colocação de capitais”. Para este autor, o nível mínimo de participação que
exprime a titularidade com fins societários é de 10% do capital social.

Coutinho de Abreu: não concorda com a definição de linhas de fronteira como as


propostas por Raul Ventura, sustentando que as mesmas são arbitrárias. Todo que
qualquer acionista pode ter créditos na sociedade independentemente da sua
representação no capital social.
Os acionistas que sejam titulares de créditos de prazo superior a um ano sobre
sociedades de que são sócios poderão afastar a aplicação do regime do contrato de
suprimento nos termos do 243º/4.

Alexandre Mota Pinto: não considera que a aplicação do regime dos contratos de
suprimento à SA não depende apenas da dimensão da participação do acionista
credor, devendo antes basear-se num conjunto de circunstâncias que justificam a
aplicação deste regime: dimensão da participação do sócio, exercício de funções em
órgãos sociais, prestação de garantias a financiamentos contraídos pela sociedade,
montante do empréstimo e a própria situação financeira da sociedade.

Menezes Cordeiro: no âmbito das SA há suprimento quando opere uma das situações
nas quais o acionista ordenado faria uma contribuição de capital.

Rui Pinto Duarte: para se fazer uma aplicação analógica do regime dos suprimentos
previsto para as SQ às SA é necessário apurar se entre a posição do acionista credor e
o quotista credor há uma relação de identidade. Critérios desta relação de identidade:
controla o grau de capitalização da sociedade, independentemente do seu nível de
participação no capital social – afasta-se assim de Raul Ventura.
Também não concorda com Coutinho de Abreu quando diz que o créditos dos
acionistas de prazo superior a um ano ficam sujeitos ao regime de suprimentos.
RPD defende então uma posição mais exigente que a dominante na doutrina para a
aplicação às sociedades anónima do regime do contrato de suprimento.

Tem de se ver em concreto a percentagem do capital, que pode ser um indício muito
importante para saber se é um sócio-empresário ou um sócio-investidor. Outro
aspecto importante: saber até que ponto esse sócio consegue gerir bem a informação
que tem da sociedade. Numa sociedade anónima, talvez só faça sentido aplicar o
regime dos créditos subordinados se for um sócio que domina o quotidiano da
tesouraria da empresa. Matéria que o Professor gosta de perguntar no exame.

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3. APLICABILIDADE DO REGIME DO CONTRATO DE SUPRIMENTO A EMPRÉSTIMOS DE TERCEIROS
GARANTIDOS POR SÓCIOS :

Código alemão determina que, em caso de falência, os terceiros que tenham


concedido empréstimos à sociedade garantidos por sócios numa ocasião em que os
sócios, se tivessem agido como comerciantes diligentes, teriam entrado com capital
próprio, não têm direito a receber senão o montante não recuperável pelas forças da
garantia do sócio.

Raul Ventura defende que o legislador português deve abster-se de legislar neste
âmbito e faz uma distinção:
- intervenção do terceiro é uma interposição fraudulenta de pessoa: a reação
contra esta fraude já está assegurada pelos princípios gerais do direito.
- intervenção do terceiro não é uma interposição fraudulenta: nesta hipótese
falta a base essencial de aplicação dos regimes dos suprimentos que é a
coincidência das qualidades de sócio e de credor da sociedade.

4. AS PRESTAÇÕES ACESSÓRIAS PECUNIÁRIAS :

Talvez e justifique admitir as prestações acessórias pecuniárias nas SA, mas não nas
SQ, pois isso seria uma redundância face às já existentes prestações suplementares.
A admissão de prestações acessórias pecuniárias sem que a sua restituição seja
limitada por qualquer das regras que limitam a restituição das prestações
suplementares e a dos suprimentos é uma via para alcançar o que a lei quis evitar com
a fixação daqueles regimes.

5. PRESTAÇÕES SUPLEMENTARES E PRESTAÇÕES ACESSÓRIAS NA AUSÊNCIA DE CLÁUSULA


ESTATUTÁRIA :

Na ausência de cláusula estatutária que imponha o dever de realizar prestações


suplementares, não será válida a deliberação que pretenda impor a sócios que a isso
se oponham a participação em prestações suplementares.
No entanto, parece válido um acordo entre todos os sócios pelo qual os mesmos se
obriguem a efetuar prestações suplementares ao capital que fiquem submetidas ao
regime de restituição do artigo 213º, apesar a inexistência de cláusula que preveja tais
prestações.
O artigo 210º tem por razão de ser que os sócios não sejam confrontados com uma
obrigação com que não contavam, uma vez que essa obrigação seja voluntariamente
contraída, cessa a razão de ser da necessidade de cláusula estatutária.

O conteúdo de tal deliberação não é ofensivo de preceitos legais que não possam ser
derrogados por vontade unânime dos sócios – pelo que a deliberação nunca seria nula,
mas apenas anulável (56º/1 d e 58º/1 a). Ora, as deliberações anuláveis não podem ser
impugnadas pelos sócios que as tenham votado favoravelmente.

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No entanto, para RPD, o incumprimento de um acordo destes não deve ser sancionado
com o artigo 212º/1 por a pesada sanção aí prevista só parecer justificada quando haja
violação de um dever estatutário.

6. ADMISSIBILIDADE DE PRESTAÇÕES SUPLEMENTARES NAS SOCIEDADES ANÓNIMAS:


RPD recusa esta possibilidade sob pena de violação do disposto na lei.

Sociedades - 21.04.15

Suprimentos (continuação):
São vantajosos do ponto de visto fiscal, não envolvem grande burocracia, logo é muito
frequente a utilização de suprimentos.
Em matéria de insolvência, há uma hierarquia nos pagamentos tendo em conta a
classificação dos créditos.
Se não há dinheiro para toda a gente, primeiro são pagos os credores qualificados,
depois dos credores comuns e por fim apenas os credores subordinados – os
suprimentos são créditos subordinados.

Estrutura orgânica das sociedades


comerciais.
1. Noção de órgão; 2. Principais órgãos das sociedades comerciais; 3. Competências ou
Poderes; 4. Modelos orgânicos de administração e controlo; 5. Deveres dos
administradores; 6. Sanções jurídicas para a violação dos deveres dos administradores

[Ler Engrácia Antunes p. 269 à 295]

180
Noção de órgão:
Existe em relação a este conceito jurídico uma querela doutrinária.
1. Posição mais antiga: órgão é a pessoa física que integra a organização. Manuel de
Andrade e Raul Ventura.
2. Concepção institucional: órgão como centro de imputação dos efeitos de normas
jurídicas. Deixa de ser visto como uma pessoa física para passar a ser concebido
como entidade idealizada, versão institucional de órgão, há aqui uma subjetividade
orgânica. Defensores, Marcelo Caetano, Coutinho de Abreu, Engrácia Antunes.
Quem actua não é o Presidente da República Cavaco Silva, mas a Presidência da
República. Esta concepção institucional remonta a von Gierke.
3. Posição eclética de Freitas do Amaral – considera que para efeitos de teoria da
organização vale o conceito institucional e para a teoria da atividade administrativa
vale o conceito de órgão enquanto pessoa física.
4. Posição eclética defendida pelo professor Pedro Caetano Nunes – umas vezes um
órgão é uma instituição e outras vezes é a pessoa física, disto depende o tipo de
atuação orgânica. Depende do tipo de atuação negocial: quando está em causa
uma atuação singular ou conjunta de uma ou mais pessoas, o órgão é a pessoa
física; quando está em causa uma deliberação, é tomada por um órgão
institucional – quem atua numa deliberação não são apenas as pessoas físicas que
fazem a votação, mas uma entidade organizada. Fora este caso, não se justifica a
posição institucional.

Formas de atuação dos órgãos:


TERMINOLOGIA FREQUENTE NA DOUTRINA:
o deliberativa ou colegial;
o conjunta;
o singular ou disjunta.

TERMINOLOGIA DO PROFESSOR:

Declaração negocial:
1) Singular
2) Conjunta. Exemplo: dois comproprietários vendem um imóvel. Há quem diga
que A e B emitem cada um a sua declaração negocial – mas está errada esta
concepção. Quando dois gerentes declaram vender um imóvel da sociedade,
temos uma actuação de duas pessoas, mas uma única declaração negocial de
venda do imóvel. A declaração negocial conjunta é muitas vezes uma proposta.
Mas pode ser também um negócio jurídico unilateral – testamento, instrução
do mandatário ao mandante, etc. Nestes casos, a declaração negocial é, ao
mesmo tempo, o negócio jurídico unilateral.

181
1. Deliberativa. A maioria pode ser favorável ou desfavorável à deliberação.
Quando é positiva temos um negócio jurídico com o conteúdo da deliberação.
Quem atua é quem vota favoravelmente. Quem vota contra não integra a
estrutura da declaração negocial. Na deliberação estamos, na maioria dos
casos, perante um negócio jurídico unilateral (autorização, instrução). A
deliberação também vem da teoria geral do negocio jurídico. É uma
modalidade de declaração negocial.

Em suma: Estas atuações são modalidades de declaração negocial que podem ser
feitas por uma única pessoa, por um conjunto de pessoas ou por um conjunto de
pessoas através de uma deliberação.

DISTINÇÃO ENTRE ENUNCIADO NEGOCIAL, DECLARAÇÃO NEGOCIAL E NEGÓCIO JURÍDICO (FERREIRA DE


ALMEIDA).
É essencial para perceber as declarações negociais conjuntas e as deliberativas.
Quando dois comproprietários vendem um imóvel, cada um deles faz um enunciado e
é o conjunto das palavras das duas pessoas que forma a declaração negocial. Quando
esta entra em contacto com a declaração do comprador, forma-se um negócio jurídico.
Numa deliberação, cada um dos votos positivos constitui um enunciado negocial que
forma a declaração judicial. Pode acabar aí ou entrar em contacto com outra
deliberação.

Quando estamos perante uma atuação singular ou conjunta, quem tem o poder de
atuar é o A e o B. São as pessoas que têm o poder, que falam. Órgão são as pessoas
físicas. Quando estamos perante uma atuação deliberativa, o poder já não pertence às
pessoas físicas; tem de pertencer a uma instituição, pois uns podem votar a favor e
outros contra. O poder de atuar pertence ao órgão enquanto instituição porque basta
que a maioria atue para termos uma atuação do órgão. Nestes casos, não faz sentido
falar em competências de pessoas físicas.

Deliberação vs Ato conjunto: Ato conjunto carateriza-se pela unanimidade, a


deliberação tem por base o voto da maioria não há necessidade de uma vontade
conjunta. A atuação exterior é por regra singular ou conjunta. Só em casos muito raros
há uma atuação deliberativa externa.

Os órgãos:
Para sabermos se temos um órgão ou não, tempos de olhar para a lei para sabermos
se a lei lhe atribui um concreto poder.
O órgão é um titular de um poder ou competência de representação orgânica ou de
atuação orgânica. Para sabermos se existe um órgão aferirmos se há algum
poder/competência atribuído àquela entidade – normas de poderes/competências.
E é atribuída competência a quem? Competência singular a um ser humano ou
conjunta a vários seres humano? Ou ainda a um centro institucionalizado em que não
têm de votar todos? É através das normas que atribuem poderes ou competências que
eu vejo se existe um órgão.

182
Sempre que há nova pessoa ou novo centro institucional com competências é um
órgão.

As normas dos CSC atribuem também direitos ou por vezes deveres – as competências
dos sócios por regra estão associadas a direitos. As competências ou deveres não estão
associadas a direito mas antes a poderes.
Uma organização é uma relação entre poderes e competências e direitos e deveres.

Quando é que eu sei que o poder e competência é orgânico? Quando regula a vida do
organismo coletivo, quando releva da constituição da pessoa coletiva. Quando é
inerente ao regime jurídico ou estatutário do organismo coletivo, à constituição da
pessoa coletiva.

O conselho de administração reúne e adopta deliberações. Decide por maioria. Arts.


405º e 411º. Da conjugação destes preceitos, resulta que o conselho de administração
tem competências para atuar por deliberação. Quer dizer que é uma instituição; é um
órgão. Os poderes não são de cada um dos administradores; há poderes que
pertencem ao colégio, ao órgão deliberativo. Para além destas competências que
pertencem ao conjunto, há competências individuais dos administradores. Estes, por
vezes, podem representar individualmente a sociedade perante terceiros. Quanto aos
poderes individuais, o órgão é o administrador.
Em rigor técnico, órgãos são o conselho de administração e os administradores. Dentro
do conselho de administração há sub-órgãos (comissões de auditoria, por exemplo).
Quando se cria a comissão atribuem-se-lhe poderes, portanto, também é um órgão
institucional. Desde que tenha um poder orgânico, seja singular ou conjunto, é um
órgão. Os administradores são membros ou titulares do órgão conselho de
administração, mas, como também têm poderes, também são órgãos.

GIERKE – DIREITO INDIVIDUAL VS. DIREITO COLETIVO: A ideia é que eu olho para o
ordenamento jurídico e vejo muitas normas que são aplicadas a qualquer cidadão e a
qualquer PC, mas depois eu vejo um conjunto complexo de normas jurídicas que
regula aquela PC em concreto – é um regime jurídico próprio daquela pessoa coletiva.
Assim uma PC é uma criação do direito. O administrador pode atuar ao abrigo dos seus
poderes orgânicos mas também pode passar uma procuração em nome de X, para X
vender o imóvel da sociedade. Ao fazê-lo está a praticar um ato de procuração ao
abrigo das normas do CC. Quando X vende o imóvel está a atuar ao abrigo do conjunto
de regras que regulam aquele órgão coletivo.

DISTINÇÃO ENTRE COMPETÊNCIAS EXTERNAS E INTERNAS (OU INTER-ORGÂNICAS):

Poder ou competência interna: deliberação ou decisão prévia – poder de


administração;
Poder ou competência externa: atuação perante o exterior – poder de representação.

Competências externas: poderes de representação perante terceiros. Competências


internas: perante outros órgãos, dentro da vida interna do organismo. Por regra, nas

183
sociedades comerciais, a competência externa está concentrada no órgão de gestão ou
administração – são os gerentes e administradores que podem representar a
sociedade. Mas há exceções: os membros do conselho fiscal podem contratar peritos.
O contudo do poder de representação é marcado pela 1º Direta da UE sobre
sociedades e explanado no artigo 499º CSC – o poder externo é um poder abstrato ou
ilimitado – tutela de terceiros e do tráfego jurídico. Se houvesse limitação ninguém
sabia o âmbito dos poderes e, portanto, não quereria fazer negócios jurídicos com a
sociedade. Para o mundo inter-orgânico não vale a regra do 260º/2 – proibição da
limitação do poder de representação.

Órgãos internos vs. órgãos externos: há quem diga que a Ass Geral é um órgão
interno e o Conselho de Administração é um órgão externo – isto é errado. Esta é uma
característica tendencial, mas o correto é dizer que todos os órgãos são dotados de
competências externas e internas.

O que existe, por causa da tutela de terceiros, é a regra de concentração do poder


externo ou de representação num único órgão – no conselho de Administração, quem
representa a Administração são os administradores.

POSIÇÃO ORGÂNICA ORIGINÁRIA VS. POSIÇÃO ORGÂNICA DERIVADA:

Originária: é a dos sócios; foram eles que criaram a sociedade e desde o início que têm
competências. Os outros têm uma posição derivada. Quem tem uma posição orgânica
originária atua de acordo com o seu interesse pessoal – têm direitos potestativos.
Quem tem uma posição derivada, não atua no seu próprio interesse; tem poderes-
deveres. Exemplo: numa SA temos a AG que elege os administradores e por sua vez o
Conselho de Administração tende a eleger uma comissão executiva – há uma
nomeação de um sub órgão. Temos a posição originária dos sócios, depois a posição
derivada do Conselho de Administração e depois a posição duplamente derivada dos
membros da Comissão Executiva.

É frequente a utilização da expressão “função” – função de administração, função de


fiscalização, supervisão. Este terminologia significa poder-dever. O que se passa é que
eu tenho determinados órgãos que têm poderes deveres com conteúdo de função de
administração, fiscalização, supervisão.

Fala-se também em estratificação das posições orgânicas. Quanto maior a


estratificação, menor a democracia, ou seja, maior a segregação do poder. A história
das sociedades anónimas é marcada por uma tensão entre os poderes dos sócios e os
poderes dos administradores. Com o liberalismo, o poder passou a estar muito mais
nos sócios e os administradores eram vistos como mandatários dos sócios. A partir dos
anos 30, surgiu a concepção moderna da sociedade anónima – os sócios não podem
dar instruções aos administradores e estes não são mandatários dos sócios. Apontou

184
para uma concentração do poder nas mãos dos administradores. É o que actualmente
existe.

DISTINÇÃO ENTRE A FUNÇÃO DE ADMINISTRAÇÃO, FISCALIZAÇÃO E SUPERVISÃO .


Interessa para as sociedades anónimas. Estas é que têm uma maior complexidade
orgânica. Nas sociedades anónimas há frequentemente um órgão de fiscalização. Nas
sociedades por quotas também pode haver, mas é raríssimo. Nas sociedades anónimas
podemos encontrar a função de supervisão. Não há em mais nenhum tipo societário.

Como se distingue fiscalização de supervisão?


Supervisão envolve mais os seguintes conjuntos de poderes deveres: para além do
poder dever de fiscalização, tem o poder dever de nomear ou destituir o órgão de
administração. Os alemães têm um poder dever de supervisão.

Os sócios tem poderes deveres orgânicos mas por vezes têm atuações que não são
orgânicas ou seja atuações em que os sócios não formam a vontade da pessoa
coletiva. Por exemplo, quando o sócio pede informações à sociedade, está a exercer
um direito que não é um poder competência, atua como terceiro fora da pessoa
coletiva. Por outro lado quando vota está na parte de dentro da pessoa coletiva.

Identificação dos principais órgãos:


Nota prévia: agora só vamos falar dos principais em sede de teoria geral podem haver
muitos mais órgãos.

1. Sociedades em nome coletivo: conjunto de sócios e gerência. Em regra todos os


sócios são gerentes.

2. Sociedades por quotas: sócios e gerência, conselho fiscal ou revisor oficial de


contas (262º). Possibilidade de conselho fiscal nunca acontece na vida real.
A tendência sociológica é que só alguns sócios sejam gerentes ou mesmo que os
gerentes não sejam sócios. Para além do conjunto dos sócios e da gerência,
também pode haver um órgão de fiscalização, ainda que eventual (262º CSC). Há
mesmo situações em que é obrigatório haver revisor oficial de contas.

3. Sociedades Anónimas:

a. MODELO TRADICIONAL : conjunto dos sócios, Conselho de Administração e


Conselho Fiscal;
i. Administrador único;
ii. Fiscal Único;
iii. Conselho Fiscal e ROC.

185
b. ANGLO AMERICANO : conjunto dos sócios, Conselho de Administração,
Comissão de Auditoria e Revisor Oficial de Contas.

Inspirado nas experiência dos EUA que por sua vez é inspirado na verão germânica. Eu
tenho um Conselho de Administração e como sub órgão tenho a comissão de auditoria
– o órgão de controlo está dentro do próprio conselho de Administração. Há uns
administradores que são só do conselho de administração e outros reúnem ainda em
separado na comissão de auditoria, quando o fazem analisam as ações e as dos seus
pares no conselho de administração.

Este modelo implica uma diferenciação total de funções, os membro da auditoria não
podem ser executivos. Na realidade é mais complexo do que está na lei – dentro do
Conselho de Administração tem de existir a comissão de auditoria e a comissão
executiva. Os que não assumem funções executivas devem ficar a controlar.

c. GERMÂNICO:
i. Conjunto dos sócios
ii. Conselho de administração executivo
iii. Conselho geral e de supervisão – principal órgão de fiscalização, mas
não é apenas de fiscalização. Tem competências acrescidas: nomeia
e destitui os administradores, fixa a sua remuneração e participa nas
principais decisões de gestão. Fiscaliza melhor porque tem mais
competências – tem garras.
iv. Revisor oficial de contas

Há submodelos no modelo germânico e no tradicional:


No modelo germânico, pode haver um administrador único em vez de um conselho de
administração.
No modelo tradicional, pode haver um administrador único em vez do conselho de
administração; pode haver um fiscal único em vez do conselho fiscal; em vez do
conselho fiscal, existe um conselho fiscal e um revisor oficial de contas.
Não é muito correto falar de competências da Assembleia Geral; é mais correto falar
de competências do conjunto dos sócios.

Controlo orgânico vs. não orgânico:


O controlo não orgânico faz-se pelos próprios sócios. O controlo orgânico faz-se pelos
órgãos próprios de controlo.
Nas sociedades anónimas o controlo é o orgânico e nas SQ o controlo é não orgânico.

Plutocracia indireta: quando eu tenho um órgão de supervisão que por sua vez
nomeia um órgão de gestão, o órgão de supervisão tem uma estrutura orgânica com
mais garras embora tenha um órgão de controlo indireto.

Separação entre sócios executivos e não executivos: o que devem fazer é controlar –
esta separação em termos materiais abrange todos os modelos de governo.

186
Há sempre um problema de captura dos não executivos pelos executivos – os não
executivos que ficam muito tempo no mesmo cargo tendem a obedecer aos
executivos. No modelo tradicional português é aquele em que é menos visível o
controlo dos executivos aos não executivos.

Sociedades - 24.04.15

Na aula passada começamos a falar de estrutura orgânica e começamos com algumas


considerações teóricas de TGDC.

Competências do conjunto dos sócios:


1. ALTERAÇÃO DOS ESTATUTOS: normas – Parte Geral 85º, SQ 265º, SA 383/2 e 3 e 386º/3.
Artigos estabelecem maiorias qualificadas e distinguem-se nas SA os quóruns
constitutivo e quórum deliberativos . Art. 456º - pode haver aumentos de capital
(espécie de alteração estatutária) deliberados pela Administração. Isto é uma
ressalva em relação à regra de que as alterações estatutárias são da competência
dos sócios.

2. DESIGNAÇÃO DOS OUTROS ÓRGÃOS COM POSIÇÃO ORGÂNICA DERIVADA: artigo 252º/2 + artigo
391º/2 + 415º + 423º/c) + 425º/1 (aqui entende-se que são designados pelos
sócios em AG). Os outros órgãos tendem a ser designados pelo conjunto dos
sócios, mas não é sempre assim (252º/2). Sociedades anónimas – 391º/1 e 2. 415º
- ideia de atribuição de competência ao conjunto dos sócios para designar os
membros do conselho fiscal. 423º c) – designar os membros da comissão de
auditoria. 425º/1 – designação dos administradores executivos no modelo
germânico. A competência pode ser do conjunto dos sócios ou do conselho geral e
de supervisão. 435º - atribui ao conjunto dos sócios a competência para designar o
conselho geral e de supervisão. 446º - competência do conjunto dos sócios para
designar o revisor oficial de contas.

3. APRECIAÇÃO PERIÓDICA DA SITUAÇÃO ECONÓMICA-FINANCEIRA DA SOCIEDADE. SQ - 246º/1 e).


SA – 376º/1 a).

4. AFETAÇÃO DOS RESULTADOS: SA - 246º/1 e). SA – 376º/1 b).

5. COMPETÊNCIA DE GESTÃO. SQ – os sócios têm competências de gestão. Nas SA de


acordo com a concepção moderna (1937) os sócios já não têm competências de
gestão. Esta competência vale então para as SQ e não para as SA.
SQ - artigo 246º/2 c) e d). SA – 373º/3 + 405º e 406º - só podem deliberar a pedido
do órgão de administração.

187
O artigo 406º – apresenta a competência exclusiva do conselho de administração.
A competência exclusiva do conselho de administração significa principalmente
uma proibição de tomada de iniciativa de gestão por parte dos sócios. Se for o
conselho de administração a pedir opinião dos sócios, estes já podem opinar, não
podem no entanto tomar esta iniciativa sozinhos. Não podem ser portanto dadas
instruções dos sócios aos membros do conselho de administração.

DECISÕES ESTRUTURAIS OU FUNDAMENTAIS DE GESTÃO VS. DECISÕES NÃO TÃO FUNDAMENTAIS


OU GENERALISTAS :
A iniciativa é sempre dos administradores, agora quem detém a capacidade de decisão
vai depender de ser uma decisão estrutural/fundamental ou uma decisão de
generalidade.
As decisões estruturais (ex. fusão) dizem respeito aos sócios, as outras, a generalidade,
não tão fundamentais dirão respeito ao conselho de Administração – aqui não só têm
a iniciativa como são os únicos a decidir.

Em suma: Competência exclusiva significa iniciativa exclusiva do conselho de


administração, mas depois disto temos de verificar se é uma decisão estrutural ou
não. Há competência exclusiva do conselho de administração em relação à
generalidade das decisões, mas já as decisões estruturais fundamentais pertencem aos
sócios.

Instrução vs. Autorização:


Os sócios nunca podem dar instruções porque a iniciativa é sempre dos
administradores, no entanto em muitas matérias têm de dar a última palavras. Os
administradores tomam a iniciativa mas depois ficam sujeitos à autorização dos sócios.

Querela doutrinária:
Há uma clivagem doutrinária sobre a interpretação do art. 373º/3 (uma das normas
mais importantes do CSC). Esta é a norma que consagra a concepção moderna sobre a
sociedade anónima. Na história das sociedades anónimas, temos as companhias
coloniais, privilegiadas, em que o poder estava concentrado nos administradores.
Muitas delas eram criadas pelos reis e os administradores eram nomeados pelos reis.
Havia sempre um fenómeno de concentração do poder nos administradores.

Com o liberalismo, passámos a uma situação de maior predomínio dos sócios. Nos
anos 30 do século passado, voltou-se ao predomínio do poder na administração. Com
a lei das sociedades alemã de 1937, volta-se à ideia de poder no dirigente. Daqui
resulta a impossibilidade de os sócios darem instruções aos administradores. Há um
afastamento confessado da ideia de democracia, privilegiando a eficácia da gestão.
Apesar de esta ideia ter renascido na Alemanha nazi, também proliferou nos EUA, com
uma democracia plena. O art. 373º/3 é a pedra de toque da dita concepção moderna.
Instruções não pode haver de todo. Mas há algo mais para além das instruções. Há
uma competência para as decisões estruturais ou fundamentais de gestão. Exemplo:
para fazer uma fusão com outra empresa, é necessária uma deliberação dos sócios.

188
Esta concepção moderna não significa que os sócios não tenham competências de
gestão – mas não têm de iniciativa; é para autorizar ou aprovar as decisões. A
competência para algumas decisões fundamentais está prevista na lei, mas discute-
se se não haverá outras (para além das previstas na lei). Exemplo: sociedade que está
cotada em Nova Iorque e quer deixar de estar cotada em Nova Iorque para passar a
estar cotada em Lisboa (operação de delisting). Esta é uma decisão fundamental ou
estrutural. Em Nova Iorque há um controlo muito maior. Para o investidor é muito
diferente comprar ações de uma sociedade cotada em Nova Iorque ou em Lisboa. Não
está prevista na lei a competência dos sócios para estas decisões.
Doutrina: alemães invocaram a ideia de competências não escritas dos sócios. Agora
também se fala em Portugal. Está em causa uma aplicação por analogia das normas
que já existem sobre competência dos sócios quanto a decisões fundamentais de
gestão. Um exemplo clássico é o da operação de delisting – não pode ser levada a cabo
sem a deliberação dos sócios.
Quase toda a doutrina defende isto: a iniciativa de gestão cabe ao conselho de
administração, não podendo haver instruções aos administradores. A maior parte da
doutrina fala ainda nestas decisões estruturais de gestão e no problema das
competências não escritas. Quem melhor explica isto é Engrácia Antunes. Mas há
posições contrárias.
Dentro da opinião maioritária, aspecto em que há clivagens de pormenor: saber se os
estatutos podem estabelecer a necessidade de autorização dos sócios para certas
matérias. Nunca estão em causa as instruções, a iniciativa dos sócios. Apenas a
autorização dos sócios a determinadas operações. Exemplo: prever nos estatutos que,
para fazer um delisting, tem de haver primeiro uma deliberação dos sócios.

Diversas posições:
1) Engrácia Antunes e Menezes Cordeiro – há liberdade de estipulação.
2) Coutinho de Abreu – é possível, mas apenas no modelo tradicional e no modelo
anglo-americano. No germânico, não é possível.
3) Professor: o critério não deve ser apenas o dos modelos em causa. Está também
em causa estarmos perante sociedades abertas ou fechadas. Nas fechadas faz todo
o sentido haver esta liberdade de estipulação. Nas abertas talvez seja de não
conceder esta liberdade de estipulação.

Notas:
Competência de gestão. A maioria das decisões dos sócios releva também já gestão,
exemplo: a fusão – é da competência dos sócios alterar estatutos, aumentar o capital
social ou fazer uma fusão. A fusão é das decisões de gestão mais radical.

189
Modelos orgânicos de administração e de controlo:
Distinção entre controlo orgânico e controlo não orgânico. Orgânico: exercido pelos
órgãos de fiscalização ou de supervisão. Controlo é um termo mais amplo para abarcar
a fiscalização, a supervisão e o controlo não orgânico. Não orgânico: controlo exercido
pelos sócios, em nome próprio.

Quem tem controlo? Sócios; órgãos com funções de controlo. Nas sociedades
anónimas, há sempre controlo não orgânico e órgãos que fazem controlo orgânico.

Controlo orgânico nas sociedades anónimas

No modelo germânico, temos o controlo exercido pelo órgão de supervisão – tem


poderes não apenas de fiscalização, mas também de eleição e destituição dos
administradores executivos e de fixação da remuneração dos administradores. O facto
de ter mais poderes facilita o controlo. Desvantagem deste modelo: estratificação
orgânica – há menor democracia (democracia indirecta).

Modelo anglo-americano – nos EUA, havia apenas um board of directors. Com o


passar dos tempos, adoptou-se uma prática estatutária que aproximou o modelo
anglo-americano (um único órgão) do modelo germânico (dualista). Adopção de um
modelo de controlo – delegação da gestão em executivos e o conselho de
administração exerce essencialmente funções de controlo.
Em Portugal, o modelo de inspiração anglo-americano não é uma réplica exacta do que
fazem os norte-americanos. Em Portugal, é a lei que delimita de uma forma muito mais
intensa quais são os órgãos. Na lei portuguesa, temos um conselho de administração e
dentro dele uma comissão de auditoria (um sub-órgão). Há administradores que só
pertencem ao conselho de administração e não à comissão de auditoria. O modelo
anglo-americano, tal como recebido em Portugal, compõe-se de dois órgãos, sendo
que o segundo é um sub-órgão do primeiro. Isto é já mais próximo do modelo
germânico. Vantagens: proximidade do conselho de administração, o que facilita o
controlo. Contudo, não tem as mesmas garras que o modelo germânico. Os membros
da comissão de auditoria não nomeiam, destituem ou fixam a remuneração. Também
há a desvantagem da estratificação orgânica e de haver menos democracia.

Modelo tradicional. Temos o conselho de administração e o conselho fiscal. Na


realidade, temos um controlo incipiente pelo conselho fiscal. Tende a fazer um
controlo meramente contabilístico. Limita-se a verificar se as contas estão bem
apresentadas. O conselho fiscal português controla pouco a gestão, comparando com
o modelo germânico e o modelo anglo-americano.
No modelo tradicional, é frequente, na prática estatutária, haver a criação da comissão
executiva (dentro do conselho de administração). Art. 407º. A delegação do poder de

190
gestão é feita na comissão executiva. Isto traduz-se numa estratificação orgânica
(desvantagem), com prejuízo para a democracia. Pode ser melhor para a eficácia de
gestão, contudo. Faz com que o poder esteja só na comissão executiva. Este modelo
tem muito pouco controlo porque há estratificação orgânica máxima com um conselho
de fiscalização que faz um controlo incipiente. Os administradores que não estão na
comissão executiva, que deveriam exercer o controlo, na verdade, não o fazem.

Três conclusões:
1) Estes três modelos têm traços em comum: o principal é a separação entre
executivos e não executivos. Os não executivos podem ser os membros do
conselho de administração que delegaram a gestão nos executivos. Os não
executivos são administradores não executivos, fiscalizadores ou supervisores.
No estrangeiro, todos estes exercem funções não executivas de controlo.
2) Captura dos não executivos pelos executivos – risco de os executivos
mandarem e os não executivos não conseguirem fazer nada.
3) Dos três modelos, o tradicional é o que promove menos o papel dos
controladores. O melhor talvez seja o germânico. Em todo o caso, tudo
depende da prática – da corporate governance.

Posições derivadas dos gerentes e administradores:


1. SQ – gerentes:

COMPETÊNCIA EXTERNA OU PODER DE REPRESENTAÇÃO DA GERÊNCIA - 261º/1.


A vinculação da sociedade é feita pela intervenção da maioria dos gerentes. Não basta
uma assinatura é preciso mais do que uma assinatura. Se existirem 2 gerentes são
necessárias 2 assinaturas!
Este regime pode ser alterado pelos estatutos – mas os estatutos não podem dizer
tudo em nome da proteção da confiança de terceiros. É certo que permitem sempre
um numero inferior de assinaturas dos gerentes.

Por outro lado, pode-se dizer nos estatutos que só há vinculação se houver
intervenção de todos os gerentes (mais do que o estipulado por lei)? O Professor diz
que sim. Qualquer pessoa que queira contratar com uma sociedade tem de ir ao
registo ver quem são os administradores e saber quantas assinaturas são necessárias.
Se uma cláusula estatutária disser que tem de ser um número de administradores
superior à maioria, isso tem de estar no registo.

Credencial (261º/2): os gerentes têm de representar a sociedade mas um deles não


pode porque se encontra no estrangeiro. Pode ocorrer uma delegação da competência
externa do poder de representação.

191
Art. 246º/2 – competência dos sócios. Als. c) e d). Isto limita a competência externa
dos gerentes? Se estes venderem um imóvel sem a prévia autorização dos sócios, o
negócio é inválido? Ou esta competência apenas tem efeitos internos, não afectando a
competência externa dos gerentes? Coutinho de Abreu: o 246º não limita a
competência externa dos gerentes ainda que não tenha havido autorização dos sócios.
Raúl Ventura: não há eficácia jurídica dos negócios celebrados sem autorização dos
sócios. Professor: concorda com Coutinho de Abreu. É a interpretação conforme à 1ª
Directiva. Defender os terceiros e o tráfego jurídico. Para Raúl Ventura, protegem-se
mais os sócios.

Quando a lei estabelece de forma imperativa competências dos sócios podemos ter
uma limitação da competência externa dos gerentes (496º/1). Quando a lei não
estabelece de forma injuntiva a competência dos sócios então isso já não se reflete na
competência dos gerentes (496º/2).

COMPETÊNCIA INTERNA OU PODER DE ADMINISTRAÇÃO :


Ao contrario das SA a gerência não tem poderes exclusivos de iniciativa de gestão. Os
sócios podem dar instruções aos gerentes.
As deliberações dos gerentes são adotadas por maioria (261º/1). Neste artigo a lei
regula simultaneamente a competência externa e interna – “vinculam” vs.
“deliberam”.
Primeiro deliberam por maioria o que vão fazer (ex. venda do imóvel), num segundo
momento vão proceder ao negocio jurídico de CV com um terceiro, só vai ter de
entrever um conjunto de sócios correspondente à maioria, a menos que os estatutos
exijam um numero de assinaturas diferentes.

A nível da deliberação todos contam - uns querem vender, outros não, – dp na


competência de nível externo estão a falar com um terceiro, quem for atuar tem de
dizer a opção final – apenas demostra a vontade final da sociedade – queremos
vender.

O 261º/2 não só permite que se elabore uma credencial para que seja apenas um a
vincular a sociedade como também permite uma delegação do poder decisório – ex
damos a X o poder de decisão interna e também uma credencial que executa a decisão
perante terceiros. Devemos aprofundar se há uma delegação da competência interna
ou uma delegação da competência externa, perante terceiros.

2. SA – Conselho de Administração:

COMPETÊNCIA EXTERNA (408º E 409º):


Jp. contra legem não tem respeitado a regra geral que nos diz que vinculação se faz
por maioria dos administradores.

192
O regime legal supletivo (408º) é por vezes pouco prático. Devemos analisar a margem
de estipulação estatutária. É possível estipular um número inferior – um número
inferior não cria problemas a terceiros, até favorece a sua tutela. Facilita também os
negócios porque por vezes é difícil reunir todos os administradores.
Não é possível estipular um número superior - não é admissível uma cláusula
estatutária que exija um número superior, nem sequer se abre a hipótese do registo
comercial.

É possível a referência nominal desde que isso não afaste o regime supletivo da lei –
ex. pode haver vinculação com a assinatura de X ou da maioria dos administradores.
CA acha que não é possível a referência nominal, já professor acha que é possível e
frequente.

Delegação da competência externa? 408º/2 – é possível uma delegação da


competência externa. Clivagem doutrinária:

1) Professor: pode haver uma delegação pontual, nomeadamente uma credencial


equivalente à do 261º/2 - é possível que o número suficiente de
administradores emita credenciais para conferir poderes de vinculação a um
administrador via delegação. Uma credencial sem as assinaturas suficientes já
não é um ato eficaz de delegação.
Parece que é isto que acontece na prática

2) Coutinho de Abreu (doutrina maioritária): posição que não joga bem com o
que acontece no mundo dos negócios. Faz uma interpretação literal da lei. Uma
pessoa só tem uma delegação da competência externa na mesma medida que
tenha uma delegação da competência interna. Exemplo: se o António, que
percebe de madeiras, tem a competência interna para decidir sozinho comprar
madeiras, também pode ter competência externa para celebrar sozinho os
contratos de compra e venda de madeiras. E vice-versa. Professor: isto dificulta
o mundo dos negócios. Art. 261º/2 CSC.

Legislador afastou-se do regime das sociedades por quotas. Primeiro há delegação da


competência interna e o que o 408º/2 permite é que a delegação da competência
interna vá acompanhada da delegação da competência externa. Na generalidade dos
estatutos existe uma cláusula a permitir as credenciais.

COMPETÊNCIA INTERNA (406º E 410º):

No confronto com outros órgãos, temos de recordar o art. 373º/3. Poderes exclusivos
de iniciativa de gestão; proibição de instruções dos sócios. Coloca-se, nas sociedades
anónimas, o problema da clivagem doutrinária sobre a liberdade de estipulação – isto
é um limite à competência interna do órgão de administração. Nas sociedades

193
anónimas de modelo germânico (conselho de administração executivo, conselho geral
e de supervisão e revisor oficial de contas), o órgão de supervisão faz mais do que
fiscalizar. Para além de fiscalizar, nomeia e destitui eventualmente, fixa a
remuneração e tem competência para autorizar os atos de gestão mais importantes.
É esta última competência que agora interessa. Se o conselho geral e de supervisão
tem esta competência, o reflexo é que a competência interna do conselho de
administração executivo é limitada no confronto com o órgão de supervisão. Base
legal: 442º/1.
A nível da competência interna, o conselho de administração funciona por
deliberações por maioria – 410º/7. A competência interna é uma competência
decisória e a patologia é a dos vícios, das invalidades das deliberações.

Mas é possível que os estatutos estabeleçam que para determinadas decisões de


gestão é necessária a autorização dos sócios? Professor acha que sim mas há quem
diga que não.
Há um regime específico para as sociedades anónimas que seguem o modelo
germânico – neste modelo é a própria lei que diz que o conselho geral e de supervisão
que tem uma competência para autorizar os atos de administração generalistas mais
importantes.
Este órgão de controlo não acompanha a gestão corrente nem as decisões estruturais,
mas acompanha as decisões que dentro da gestão generalista são importantes.
As autorizações do conselho geral de supervisão têm efeitos meramente internos
não limitando a competência externa dos administradores. Se não é a lei de forma
injuntiva a estabelecer a competência dos sócios para os atos mais relevantes os
terceiros não têm de contar com isto, logo mesmo que o Conselho não tenha
autorizado, este é um problema meramente interno não afeta a vinculação perante
terceiros, os terceiros não tem de andar a investigar os estatutos e a vinculação dos
sócios.

DELEGAÇÃO DA COMPETÊNCIA INTERNA DECISÓRIA (407º):


Numa SA interessa dominar o que se passa nas AG mas ainda mais os que se passa
dentro do Conselho de Administração.
Há uma arquitetura dupla, há duas formas de delegação da competência interna:
delegação restrita (encargo especial) e delegação ampla (delegação).

Delegação restrita ou encargo especial (407/1 e 2):


Distribuição de matérias de competência decisória, a lei fala em distribuir funções logo
está a distribuir competências. É restrita porque não pode abranger as matérias do
artigo 406º.
É sempre possível fazê-la salvo se houver proibição estatutária.

Delegação ampla (407/3 a 8):


Nº4 – na delegação ampla o elenco de matérias que podem ser delegadas já é maior.
É preciso uma disposição estatutária a permitir uma delegação ampla. Muito
importante esta cláusula no estatuto!

194
Aqui a lei para além de permitir a delegação em uma ou várias pessoas a nível
individual é possível ainda delegar uma comissão executiva. Implica que eu tenha um
órgão de gestão que segrega a informação face à generalidade do conselho de
administração, os não executivos ficam fora da comissão executiva – mas reuniões do
conselho de administração já só se vai passar aquilo que os membros da comissão
executiva quiserem deixar passar.

A lei limita a amplitude da delegação afastando determinadas alíneas do artigo 406º -


deixa de fora a competência para deliberar a venda de estabelecimentos comerciais.

Gestão corrente – os estatutos autorizam a delegação ampla e o conselho de


administração cria uma comissão executiva na qual delegam a gestão corrente.
o Conteúdo positivo: podemos delegar tudo o que seja de gestão corrente.
o Conteúdo negativo: não pode ser delegado aquilo que não seja gestão corrente.

Criação de outras comissões:


Não pode haver criação de comissões que não sejam comissões executivas ou é
possível criar outras comissões? É possível por argumento de maioria de razão.
Exemplo: comissões de controlo interno, controlo de aplicação da lei, etc.
Estas outras comissões podem só ser criadas quando os estatutos permitam a
designação ampla ou seja quando os estatutos os disserem, ou também na designação
restrita? Isto já é duvidoso.

Negocio Jurídico de delegação:


- Competências ou poderes dos delegados;

- Competências ou poderes dos delegantes;


ficam com o poder o competência de avocação, a todo o momento podem invocar
para elas a decisão. A avocação é uma limitação temporal limitada: “eles continua
a ter a competência delegada mas para esta decisão em concreto eu vou avocar
para mim a competência”.
A competência ou poder de avocação está ligada a uma poder/ dever de
intervenção. Há também um dever mais geral que é um dever de vigilância, se há
delegação os que delegam têm um dever de vigilância. Fala-se numa bifurcação do
dever de gestão, os delegados ficam com o dever de gestão ativa, os delegantes
ficam com o mero dever de vigilância.

Esta bifurcação dos deveres acompanha as competências e é limitada pelas regras


que atribuem competência. Delegante continua a ter gestão ativa sobre as
matérias que não delegou.

- Deveres dos delegantes e dos delegados;

Os deveres - estas delegações (restrita e ampla) têm reflexo nos deveres.

195
A delegação altera o regime da competência interna. Quanto às matérias delegadas,
deixa de ser competência do conselho de administração e passa a caber ao
administrador delegado ou à comissão executiva. Para além de alterar o poder, altera
também o regime dos deveres. O negócio jurídico tem efeitos jurídicos modificativos
do poder de representação ou da competência, mas também afecta o regime dos
deveres. Há uma bifurcação do dever de gestão. Os administradores delegados,
quanto às matérias delegadas, passam a ter um dever de gestão activa. Os
administradores delegantes deixam de ter um dever de gestão activa; passam a ter um
mero dever de vigilância e intervenção. Vigilância significa que, se não têm de tomar as
decisões, têm um dever residual de vigiar o administrador delegado. Se detectam
algum problema, têm o dever de intervir. Este dever tem como instrumento o poder
de avocação.
Discussão doutrinária: o Professor entende que esta bifurcação vale na delegação
ampla e na restrita. Sempre que há uma delegação, há sempre esta bifurcação. É isto
que se passa no estrangeiro. A lei, contudo, só prevê a bifurcação, no 407º/8, para a
delegação ampla. Grande parte da doutrina (Coutinho de Abreu) entende que esta
bifurcação só vale para a delegação ampla.

Se se tem o dever de vigilância, não basta ter o poder de avocação. Há um outro poder
instrumental face ao dever de vigilância: poder de obtenção de informação junto do
administrador delegado, dos colaboradores, etc.

Aula 34 e 35
28-04
Apresentação de trabalho sobre estatutos do BPI
Regime que permite que haja ações sem valor nominal – valor nominal vs. Valor real.
Imagine-se que as ações valem 1€. Mas se a empresas crescer muito, as ações podem
valer mais no mercado (valor real). Há 2 anos passou a ser possível haver ações sem
valor nominal, ficando apenas a interessar o real. Mas assim como calculo o capital
social, para efeitos de regras que convocam esse conceito?  Há algo encapotado,
um valor de subscrição que é estabelecido inicialmente para efeitos de subscrição de
entradas. O capital social é a soma desses valores de subscrição.
É obrigatório ter um ROC – 278º/1/a) + 413º/2 - se preencherem estes requisitos,
sendo grandes sociedades anónimas ou sociedades abertas cotadas, há obrigação de
ter um ROC (além do conselho fiscal).
PCN considera que é possível criar comissões com efetivos poderes jurídicos, e não
apenas funções consultivas.
Algumas das funções do conselho fiscal podem ter de implicar atuações externas – por
exemplo, requerer um parecer ou comprar um computador para o exercício de
funções.
**

Gestão ativa vs. Mera vigilância

Dever de gerir ativamente a sociedade

196
Quando há delegação, deixa de haver um dever de gestão ativa, passando este a ser
passivo ou de vigilância – a gestão ativa passa a competir aos delegantes. Antes de
haver delegação, todo os administradores têm dever de gestão ativa face a todas as
matérias – quando há delegação, mantêm a gestão ativa quanto às matérias fora da
delegação, mas passando a ter dever de vigilância quanto às matérias delegadas.
407º/8
Poder de avocação – não exclui a delegação quanto aos demais atos inerentes a
determinada matéria.
Delegação restrita ou encargo especial – maioria da doutrina diz que não opera
bifurcação do dever de gestão. Mas PCN diz que em qualquer delegação há esta
bifurcação, independentemente da espécie de delegação.
Administradores delegantes têm de ter poder de obtenção de informação – só assim
podendo exercer o dever de vigilância. Mas a lei não fala deste acesso, referindo-o
apenas quanto aos órgãos de fiscalização. Mas não nos devemos esquecer de que há
sempre uma contraposição entre executivos e não executivos. Os delegantes ficam
materialmente com uma posição de controlo, ou seja, são não executivos. Assim
sendo, aquela norma que prevê o direito a pedir informação aos não executivos deve
estender-se aos delegantes. Pedro Maia e PCN – claramente que há este poder de
obtenção de informação. Quem tem dever de vigilância tem de ter poder de obtenção
de informação junto dos administradores executivos – poder instrumental ao
desempenho do dever.
Art.423ºB, n3 – membros da comissão de auditoria não podem ser executivos.
Doutrina interpreta isto no sentido de que numa arquitetura de inspiração norte-
americana, os não executivos não tenham, na medida do possível, funções executivas
– mas algumas têm de ter sempre pois algumas decisões de gestão (as mais
importantes) têm de ser tomadas pelo pleno do conselho de administração – esta
norma impõe que se faça a delegação mais ampla possível, a que vem prevista no
407º/3, que consiste na delegação de toda a gestão corrente na comissão executiva.
Modelo germânico – conselho de administração executivo + conselho geral e de
supervisão não executivo  Mas se já há estes órgãos, não é possível haver qualquer
delegação dentro do próprio conselho de administração? – lei nada diz – Coutinho de
abreu diz que não; mas na Alemanha não há qualquer duvida de que tem de haver
uma delegação, tendo de haver cargos com diferentes funções, sem o que a empresa
irá à falência. Mas então, aqui só pode haver uma delegação restrita ou encargo
especial, ou seja, nos termos do 407º/1 e 2. O que não pode haver bifurcação no
próprio conselho de administração entre executivos e não executivos – porque neste
modelo há um órgão específico para a vigilância. Dentro do conselho de administração
executivo, como o próprio nome indica, tem de ser todos executivos – agora é obvio
que isso não significa que todos tenham de fazer tudo, tendo de haver distribuição de
pelouros. Nenhum dos executivos pode ficar sem qualquer competências.

Deveres dos administradores:

Dever de cuidado ≠ Dever de lealdade

197
Art.64º/1 CSC – deveres fundamentais.
Esta redação surgiu em 2006. A distinção que a doutrina costuma fazer é entre
deveres gerais e deveres específicos. A lei usa a terminologia “deveres fundamentais”,
que é sinónimo de deveres gerais. Toda a doutrina diz que, a par destes deveres gerais,
há deveres específicos (v.g. 65º/1 – dever de prestar contas; 68º - proibição de
concorrência; quando a sociedade faz uma fusão, o administrador deve promover a
inscrição no registo comercial dessa fusão, etc.).
Recondução à teoria do negócio jurídico e ao direito das obrigações. Estes dois
direitos gerais são realidades específicas do direito das sociedades que não jogam com
a teoria geral do direito das obrigações? Professor: tenta enquadrar estas figuras de
ramos do direito mais extremos nas categorias gerais do direito civil. Nesse esforço de
integração, estes deveres de cuidado são deveres de prestação (prestação de serviço).
Todos estes deveres são reconduzíveis à cláusula geral da boa fé (762º CC). Com base
nesta cláusula geral da boa fé, descobriram-se deveres para além do dever de prestar.
O dever de cuidado (que o Professor apelida de dever de gestão) é, neste sentido, um
dever de prestar (primário). O dever de lealdade é um dever acessório de conduta (e
não um dever de prestar).
No direito anglo-americano, duty of care (dever de cuidado) e duty of loyalty (dever de
lealdade).
Grande parte da doutrina fala, não do dever de cuidado, mas sim do dever de gestão.
Os norte-americanos ao explicarem o duty of care dizem que o que está em causa é o
management.
Também em sede de teoria geral do direito civil, a prestação dos deveres acessórios
pode ser vistos de uma perspectiva atomística ou de uma perspectiva mais gregária,
mais concentrada. Os deveres específicos são manifestações dos direitos gerais. Em
qualquer relação obrigacional, é possível decompor a prestação em vários deveres. Os
deveres específicos são aspectos parcelares dos deveres gerais.

Deveres gerais versus Deveres específicos

o Gerais – art-64º - dever de gestão e dever de lealdade – 64º/1/a e b,


respetivamente. Dever de gestão pode ser também apelidado de dever de
cuidado/diligência. Uma violação do dever de gestão é uma má gestão; contra
o dever de lealdade é uma atuação em conflito de deveres.

o Específicos – aspetos parcelares dos deveres gerais. Muitas vezes, a lei


estabelece pequenos deveres:
 Dever de sigilo;
 Dever de não concorrência;
 Não utilização de informação privilegiada;
 Não aproveitamento de oportunidades de negócio.

(aspetos parcelares do dever de lealdade)


 Prossecução do objeto social;
 Dever de obtenção de informação antes de levar algo a cabo.

198
(aspetos parcelares do dever de gestão).
Por vezes, é comum associar deveres a poderes. Mas o dever de lealdade não tem
correspondência a poder. Já o de gestão pode ser entendido como tendo poderes
correspondentes . ex: eu tenho o poder de, havendo alteração estatutária, ir ao registo
promover essa inscrição. A generalidade dos poderes dos administradores têm como
contraponto o dever de gestão – tem esses poderes para gerir bem a sociedade.

A. Deveres gerais

Dever de gestão

Coutinho de Abreu enquadra este dever apenas na dogmática do direito das


sociedades; ou PCN, que prefere enquadrar no direito das obrigações – dever de
prestação/prestação de serviços.
Prestação de meios ou de resultado?  De meios e não de resultado – tal como a
generalidade das prestações de serviço. O artigo relativo à presunção de culpa, no CC,
foi pensado para as obrigações de resultado – mas quanto às de meios?  Não faz
sentido aplicar-se este artigo. Corolário de ser obrigação de meio – não é exigido o
sucesso empresarial, apenas tem de tomar decisões conformes com a boa gestão.
 Está em causa uma prestação de meios e não de resultado. Não é devido sucesso
empresarial; o administrador não garante sucesso empresarial. Apenas deve adoptar
decisões adequadas de acordo com as regras da arte da gestão de empresas. Se não há
sucesso empresarial, não quer dizer que tenha sido mal gerida. 798º - na
responsabilidade contratual, presume-se a culpa do devedor. Numa prestação de
resultado (compra e venda de uma televisão), se a televisão não é entregue, presume-
se a culpa do devedor. Na prestação de facto não. Nas prestações de meios, a
prestação não é integrada por um resultado que faça passar o ónus para o devedor.
Para delimitar o dever de gestão, há três conceitos da lei a considerar:
o DILIGÊNCIA. 64º/1 a) CSC – é uma transposição do critério do bom pai de família
do CC para a administração de empresas.
Diligência de um gestor criterioso e ordenado - Este é um conceito
indeterminado, o que faz é atribuir ao juiz um espaço de manobra para verificar
no caso concreto o que é um gestor diligente.
Critério do bom pai de família – art.487.º e 789.º CC – o bom pai de família é
uma pessoa diligente de acordo com a situação em que está colocada; quando
o contexto é o profissional, ser um bom pai de família é ser um bom
profissional. Isto é relevante para a responsabilidade obrigacional e extra
obrigacional (nota: aqui estamos perante a obrigacional) - Violação de um
dever, Presunção de culpa, Culpa, Nexo de causalidade. Assim, conjugamos a
diligência de um gestor ordenado com o critério do bom pai de família.
Ser profissional depende do pelouro atribuído.

a. Exigências do tráfego profissional. Em contextos profissionais, o


devedor tem de atuar com a diligência de um profissional.

199
b. De acordo com a distribuição de pelouros, com as concretas funções
que são distribuídas. Quem ficou com o pelouro financeiro, tem de ter a
diligência do profissional financeiro.
c. Elevação subjetiva – ainda que não tenha o pelouro da investigação
científica, se é engenheiro tem de atuar de acordo com a diligência do
engenheiro. O facto de saber mais significa que as exigências são
superiores.
d. Se souber menos, não é desculpa. As exigências são sempre as
exigências do tráfego profissional.

Deve considerar-se que tudo está em pé de igualdade e joga-se tudo com a aferição do
conteúdo do dever que foi eventualmente violado. E é aqui que releva o critério da
diligência. E este dever de diligência interessa sobretudo nas obrigações de meios.
Quando se fala de gestor criterioso e ordenado, remete-se para o 789º, CC – há quem
diga que é uma bitola mais acrescida do que a do bom pai de família, mas isto está
errado – porque o bom pai de família afere-se em função da circunstância concreta em
que se encontra – no caso será a posição de gestor. Mais, se o administrador for
executivo, a diligência apresentada tem a de ser adequada ao seu pelouro – tem de ser
um bom CFO; se tem o pelouro das relações de trabalho, tem de apresentar
conhecimentos em matéria de relações profissionais. A bitola eleva-se à situação
subjetiva – o saber naquela área.
o Perspetiva positiva – os administradores têm que prosseguir o objeto social;
o Perspetiva negativa – os administradores não podem extravasar o objeto social,
não podem prosseguir interesses de terceiros.

Diligência dos não executivos – ingleses dizem que mesmo que eu seja não executivo
mas tenha conhecimentos de fiscalidade ou gestão, tenho de os aplicar
convenientemente.
o OBJECTO SOCIAL: A cláusula estatutária do objecto social (que diz a atividade que
a sociedade deve exercer) pode ser relevante para configurar o dever de
gestão. Deve-se gerir tendo em conta a finalidade da sociedade. Estou proibido
de fazer coisa diversa do objecto social e obrigado a prossegui-lo.

o INTERESSE SOCIAL (= interesse a prosseguir). A referência aos interesses está no


64º/1 b) e não na al. a). O direito das sociedades está basicamente organizado
em torno deste conceito – é importante para a dogmática do DS.

Grande contraposição entre o valor accionista (share holder value) e os outros


interessados (credores, fornecedores, etc. – stake holder value). Os mais liberais dizem
que se deve prosseguir apenas o valor accionista (monismo do interesse a prosseguir);
posições mais de esquerda dizem que se devem ter também em conta os interesses
dos trabalhadores (pluralismo dos interesses a prosseguir). Fala-se ainda numa ideia
de enlightened share holder value. A lei aponta para o pluralismo dos interesses a
prosseguir.

200
A filosofia dos institucionalistas dizem para seguir o interesse dos sócios, da empresa,
como um fim em si da instituição (share holders), mas os mais pluralistas dizem que se
deve prosseguir o interesse de todas as pessoas (stake holders) envolvidas na
empresa, como os credores, trabalhadores, etc. art.64.º/1 b).
Esta discussão surgiu nos grandes filósofos da humanidade mas já vem de Aristóteles.

Professor: o legislador enganou-se; isto tem que ver com a al. a) e não com a b). O
interesse social não devia ser só o dos sócios? Questão de grande discussão: saber se
os administradores devem pensar só nos sócios ou também nos trabalhadores.
Exemplo: aumentos dos trabalhadores: 2% ou 5%? Os administradores têm sempre
que apertar ao máximo a massa salarial para sobrarem mais lucros ou podem ter em
conta os interesses dos trabalhadores? A lei parece dizer que os administradores
podem olhar para os interesses dos trabalhadores.

O prof concorda com o interesse como utilitarismo. Isto aponta no sentido de que
interesses e utilidades só têm os seres humanos. O prof tem uma posição intermedia
segundo a qual temos que ponderar os interesses todos mas sobretudo os dos
accionistas, e a este propósito falamos de um enlightened share holders, de modo a
enquadrar a lei portuguesa. (= pluralismo racional)

Externalização absoluta dos riscos dos credores:


A doutrina mais moderna diz que na proximidade da insolvência, não faz sentido que
os administradores prossigam os interesses dos sócios, faz sentido que tenham que
proteger os interesses dos credores. Dizem que devem fazer uma gestão muito
arriscado para conseguirem recuperar porque já não perdem mais nada. Fala-se de
uma externalização absoluta dos riscos dos credores.
Nas sociedades abertas, cotadas, os investidores, acionistas fazem uma distribuição do
risco. Esta teoria do portefólio diz que os acionistas têm uma carteira diversificada e
assim imunes ao risco não sistémico, mas não estão imunes ao risco sistémico.
Teorias de enquadramento:
o O risco não sistémico é o risco especifico daquela empresa
o O risco sistémico é o risco de todas as empresas, de todo o mercado. Aqui só se
prejudica se todas forem abaixo.
Corolários: se os acionistas típicos têm uma diversificação do portefólio, então
devo atuar com o máximo risco.

Sociedades – 05.04.15
Diversificação da carteira da ativos:
O facto de as sociedades abertas cotadas estarem cotadas em bolsa faz com que os
sócios tenham características diferentes. Os investidores no mercado acionista gerem
o risco diversificando a sua carteira de ações – portfólio teory - têm uma carteira
diversificada, estão imunes ao risco não sistémico mas não estão imunes ao risco
sistémico.
Se eu ponho os ovos em várias empresas, não estou exposto ao risco da queda de uma
empresa em concreto – perco numa empresa e ganho na outra. O que me prejudica é
o risco sistémico, ou seja aquele que corro de todas as empresas falharem.

201
Dever de legalidade:
Discute-se se, para além deste dever de gestão ou dever de cuidado, existe um dever
de legalidade (dever de observância da lei). Há quem diga que sim, há quem diga que
não deve ser autonomizado ou que, pelo menos, tem de ser bem entendido. O
Professor defende a segunda posição. Fala-se em legalidade interna e externa. A
legalidade interna corresponde aos deveres específicos. Legalidade externa: por vezes,
a lei (não o CSC, mas a lei sobre contra-ordenações, crimes, regulação económica)
estabelece deveres e imposições perante a sociedade. São tudo leis que se dirigem não
aos administradores, mas à sociedade. Alguma doutrina diz que os administradores
devem cumprir esses deveres em nome da sociedade. Têm de garantir que a sociedade
não viola a lei. Professor:
1) O que está em causa são imposições, não perante os administradores, mas
perante a sociedade. Se houver um ilícito, o arguido é a sociedade.
2) Então é algo estranho dizer que também surge na esfera jurídica do
administrador um dever de observar a lei.
3) No exercício da gestão, o administrador, em princípio, tem de fazer com que a
sociedade observe a lei, mas isso não é um dever autónomo do dever de gestão
ou de cuidado.
4) Gerir bem uma sociedade nem sempre significa observar a lei. Há situações de
bagatelas contra-ordenacionais. Exemplo: a empresa quer vender um produto
óptimo com um preço fabuloso, mas como ainda não concluiu o licenciamento,
pode ter de pagar uma coima ínfima se o fizer sem estar finalizado o
licenciamento. Gerir bem, neste caso, pode passar por prosseguir com a venda
(pagando a coima) do que deixar a empresa falir.

Exemplo: imaginemos um produtor agrícola do Oeste que tem de cumprir


regulamento europeu que o obrigam a comercializar apenas Maçãs com uma
determinado peso e tamanho. Ele sabe que as suas maças não têm o peso ideal
mas ainda assim vende-a. ou incumpre o regulamento ou vota a sua sociedade
à falência.

COMPONENTES DO DEVER DE GESTÃO:


1. Dever de gestão ativa ou de adoção de risco empresarial. Os administradores
não devem ficar estáticos e fugir do risco.

2. Dever de obtenção de informação (procedimentalização da gestão);

Mais do que decisões adequadas exige-se um procedimento adequado. Isto é


assim na sequência de uma decisão norte-americana muito conhecida: Smith v.
Van Gorken. O tribunal de Delaware, em 1985, proferiu esta decisão,
responsabilizando administradores de uma empresa, não porque a decisão
(uma espécie de fusão com benefícios fiscais) tivesse sido má do ponto de vista
substancial, mas porque os administradores decidiram aquela matéria em 2
horas sem obtenção de informação, sem avaliações, sem nada. A partir daqui,

202
gerir, mais do que decidir adequadamente, é observar um percurso decisório
adequado.

3. Dever de planificação: Numa empresa que não seja uma “mercearia”, tem de
haver uma planificação do negócio.

4. Deveres de organização: Construir uma empresa é essencialmente distribuir


tarefas. As empresas têm uma estrutura, hierárquica normalmente. O conselho
de administração tem o dever de organizar bem a empresa.

5. Deveres de vigilância: Se organiza e distribui tarefas, tem de estabelecer


sistemas de vigilância: vigilância financeira, vigilância da legalidade, etc.

a. Vigilância vertical: vigilância dos colaboradores abaixo do


administrador;

b. Vigilância horizontal: vigilância do trabalho dos outros administradores;

Carácter sistémico da vigilância: os administradores têm de implementar sistemas de


vigilância ou controlo. Exemplo: sistemas de vigilância financeiras, controlo de risco,
controlo de produtos
A ideia de vigilância horizontal deve ser cruzada com a matéria da delegação (407º) -
quem delega competências fica com um dever de vigilância (bifurcação do dever dos
administradores) sobre quem tem o dever de vigilância activa. A vigilância é muito
mais do que isto, contudo. Há a vigilância horizontal. Ainda mais importante, é a
vigilância vertical: os administradores não têm apenas de olhar para o lado; têm de
vigiar os colaboradores da empresa. Na aula passada, distinguimos a delegação ampla
(407º/3) da delegação restrita (407º/1). Esta bifurcação surge expressamente na lei
para a delegação ampla. Não é referida a propósito da delegação restrita. Contudo,
não pode deixar de ser assim (Coutinho de Abreu defende o contrário, no entanto).

BUSINESS JUDGEMENT RULE:


Regra de proteção das decisões empresarias. Se não há regras de proteção os sócios
correm mais riscos, se há uma menor propensão para os riscos por partes dos
investidores, estes não investam e a economia fica prejudicada – deve haver então
uma regra deste género. Em Portugal é o artigo 72º/2 CSC.
Art. 72º/2 – no nº 1, prevê-se a responsabilidade dos administradores – quando violam
as suas obrigações são responsáveis, aplicando-se a regra da presunção de culpa. No
contexto do nº 1, surge o nº 2 a dizer que a responsabilidade é excluída quando ….
(circunstâncias que estão no artigo). A redação deste artigo surge em 2006 por
influência norte-americana.
Se não existem conflitos de interesses e foi obtida a informação adequada, então os
tribunais deixam de questionar o mérito da decisão empresarial. É isto que dizem os
norte-americanos; todos os países europeus quiseram importar esta ideia para
proteger as empresas e os negócios - business judgement rule. Esta ideia existe para
proteger o risco empresarial. Sem riscos não há ganhos. A economia ocidental está

203
baseada na adopção de riscos. É uma regra básica de protecção do capitalismo. Isto
deixa de vigorar quando a decisão seja irracional.
O art. 72º/2 é para o Professor uma cláusula de exclusão de responsabilidade
(Coutinho de Abreu no mesmo sentido). Para outra parte da doutrina, este preceito
não joga a propósito do dever secundário de indemnização; joga logo a propósito do
dever primário de prestação. Não exclui a responsabilidade; ajuda a configurar o
dever. Numa interpretação literal, é uma cláusula de exclusão de responsabilidade,
que afasta o dever de indemnizar. Há quem prefira passar por cima da letra da lei,
dizendo que a lei estatui o que é o dever de boa gestão. Isto é complexo. Antes de
aplicar o 72º/2, temos de verificar se houve violação do dever de gestão ou não. E gerir
bem também é decidir racionalmente. Portanto, este elemento surge duas vezes.

Pais de Vasconcelos: 72º/2 é uma proposição normativa que ajuda a interpretar o


dever de gestão. Para esta autor o dever primário de gestão resulta do 64º e 72º/2
Maioria da doutrina e professor: 72º/2 não estabelece o dever de gestão mas antes
uma norma jurídica que estabelece uma cláusula de exclusão da responsabilidade
Só no caso de haver uma violação do dever de gestão é que eu vou aplicar a cláusula
de exclusão da responsabilidade (72º/2).
Elementos da previsão normativa:
1. agir sem conflitos de interesses;

2. decisão informada;

3. racionalidade empresarial;

Estes pressupostos têm muito a ver com o próprio dever de gestão.


Se o administrador cumpriu determinadas regras básicas eu dou-lhe alguma proteção,
quando houver uma violação do dever de gestão. Se o administrador não tem um
conflito de interesses e obteve informação antes de agir sendo que a decisão é
racional, eu vou dar-lhe uma proteção acrescida.
só se aplica quando há uma decisão de gestão. Se estou num contexto não decisório
não aplico a norma. Não se aplica essencialmente a norma em contextos de vigilância
– quando vigio eu estou a obter informação.

Dever de lealdade:

Este é um dever de lealdade bastante intenso.


Relações fiduciárias latu sensu (RPD):
Fidúcia: alguém está obrigado, por força de negócio jurídico, a exercer o seu direito
para um fim específico, em que está interessado um terceiro e a retransmiti-lo após a
ocorrência desse facto.

Origem histórica: jurisprudência britânica, associada ao surgimento e desenvolvimento


dos trusts – operação jurídica em que ocorre uma transmissão de bens ou direitos
pelo settlor para o trustee, em benefício de uma terceira pessoa, o beneficiário. Para
proteção do beneficiário são impostos ao trustee deveres fiduciários.

204
Trust – características essenciais:
a) bens/ direitos confiados ao trustee não são propriedade sua;
b) bens/ direitos estão em seu nome;
c) trustee tem o poder e o dever de gerir os bens direitos da melhor forma
possível;

Propriedade fiduciária – A atribui a propriedade a B que vai utilizar a propriedade


apenas no interesse de C. Norte americanos têm o trust que significa isto.
No mundo romano germânico: propriedade gerida no interesse de outros e contrato
de fidúcia. Contratos com natureza fiduciária, relações fiduciárias latu sensu.
Administradores gerem a sociedade com ampla liberdade mas devem prosseguir os
interesses os shaholders e stakeholdres – fidúcia stricto senso e lato senso.
Cláusula geral ou conceito jurídico indeterminado – insere-se determinação legal da
boa fé, que vai ser concretizado pelos juízes. Para saber então quais os deveres em
causa devemos analisar a jurisprudência.
Manifestações: proibição de concorrência. Pode ser reconduzido à ideia de deveres
acessórios de conduta e à cláusula geral de boa fé. Fala-se em relações fiduciárias, mas
a doutrina diz que, em determinados tipos de relações, há uma relação de confiança –
curadoria dos interesses de outrem. Também há os conceitos de gestão do património
alheio. Uma pessoa coloca o seu património nas mãos de outrem; há um grande risco
de abuso de poder, de desproporção entre meios e fins. “Tenho muitos meios e fins
não para o meu interesse, mas para o interesse de outrem”. Nas relações fiduciárias, o
dever de lealdade é muito intenso.

CONCRETIZAÇÕES DO DEVER DE LEALDADE , NA LEI, NA JURISPRUDÊNCIA , NA DOUTRINA:


1. Proibição de celebração de negócio consigo mesmo. Implica violação do dever
de lealdade podendo do administrador ser penalizado por isso - 397º/2 CSC,
261º CC

2. Proibição de concorrência (254 e 398/3)

3. Proibição de apropriação de património societário: um gerente de uma


sociedade andou a fazer desvios patrimoniais. Pagou despesas suas com o
património da sociedade.

4. Proibição de apropriação de oportunidade de negócio societário.


Administrador de sociedade que se dedica à exploração petrolífera, antes que a
sociedade possa apropriar-se do terreno, compro-o. Estou a aproveitar-me de
uma oportunidade que tomei conhecimento no âmbito das minhas funções.

5. Proibição de apropriação de vantagens patrimoniais indevidas: luvas e


comissões.

6. Transações de controlo da sociedade – operações de controlo da sociedade:


OPA MBO, Fusões. MBO - administrador ou conjunto de administradores
oferece-se para comprar a sociedade aos sócios.

205
Para além do dever de lealdade perante a sociedade, o Professor defende que
há deveres de lealdade perante os sócios – lealdade em operações de controlo
da sociedade. Exemplos:
a) Há uma OPA. O BCP quer opar o BPI. A administração do BPI diz que o preço
até é bom, mas quando o BCP para cá vier vão-nos destituir…. É defensável
que os administradores, para além de deverem lealdade à sociedade, a
devam também aos sócios.
b) Management buy-out (MBO). A administração compra a empresa aos
próprios sócios. Exemplo: tenho uma empresa que se dedica à investigação
científica, estão a descobrir uma nova fórmula e vão conseguir criar novos
produtos. Antes que os sócios saibam de alguma coisa, peço um
empréstimo ao banco e compro a empresa aos sócios. Passado um mês, a
sociedade vale muito mais do que o preço por que comprei. Isto convoca a
noção de contrato com eficácia de protecção de terceiros. A ideia é a de
que os deveres acessórios de conduta por vezes não são apenas perante a
outra parte do contrato, mas perante pessoas próximas da outra parte do
contrato.

Consequências jurídicas: quando um administrador viola um dever pode haver


responsabilidade civil, destituição com justa causa, violação grave de deveres e
incapacidade para o exercício de funções. A responsabilidade civil pode ser perante
sócios, credores ou terceiros.
Destituição com justa causa e sem justa causa – os administradores são livremente
destituíveis, numa ideia de dinâmica empresarial. Se a destituição for sem justa causa
eu tenho de indemnizar, se for com justa causa eu não tenho de indemnizar.

Deveres dos outros membros:


1. Competências dos fiscalizadores do Conselho Fiscal no modelo tradicional:
Competências de fiscalização do conselho fiscal que são as mesmas da generalidade do
órgãos de controlo.

Competências externas:
- poder de inspeção e verificação na empresa (420º/3);

- pode de obtenção de informação junto de terceiros (421º/1 c);

- poder de contratação de peritos (420º/1 l e 421º/3);

Os dois primeiros poderes podem ser exercidos individualmente o último é um poder


deliberativo ou colegial.

206
Competência interna:
- poder de inspeção e verificação junto dos administradores (421º);

- poder de obtenção de informação junto dos administradores (421º);

- poder de assistir às reuniões da administração (421º);

- poder de convocar a AG (420º);

- poder de propor uma ação de declaração de nulidade de deliberações sociais


(57º).

Os dois últimos são poderes deliberativos, os restantes são individuais.


Comissão de auditoria e conselho geral de supervisão – têm essencialmente estes
poderes.

2. Deveres dos titulares dos órgãos de controlo:


Deveres de fiscalização e de um modo mais amplo poderes de supervisão e ainda
deveres de lealdade.
É um dever de cuidado. Têm de prestar um bom serviço e ser leais. Dever de
fiscalização ou de supervisão (o Professor não gosta de falar em “dever de cuidado”) a
par do dever de lealdade. As empresas de auditoria externa fazem um mero controlo
contabilístico. Os membros do conselho geral e de supervisão têm de fazer fiscalização
política.

Deliberações dos órgãos das sociedades comerciais:

1. Noções introdutórias 2. Espécies de deliberação 3. Deliberações dos sócios 4. Vícios


das deliberações dos sócios.

Considerações teóricas:
Deliberação como resultado: conjunto de votos que fizeram vencimento. Deliberação
como processo: proposta de deliberação e votação.
Deliberação em sentido estrito: atuação negocial de uma pluralidade de pessoas
caracterizada pela suficiência de uma maioria. Ato conjunto: atuação negocial plural
caracterizada pela unanimidade neste caso já tem de haver uma unanimidade.
Legislador refere muitas vezes uma deliberação unânime - precipitado histórico que
do ponto de vista do negocio jurídico é um ato conjunto.
Por vezes há decisões do sócio único – a lei refere decisão do sócio único.

207
Natureza da deliberação e dos votos:
A deliberação é uma modalidade de declaração negocial (Professor, Ferreira de
Almeida). Mas esta opinião não é unânime. Há quem considere que é um negócio
jurídico; entendem que os votos é que são declarações negociais. Quando há
deliberações e declarações conjuntas, há enunciados negociais. Os votos são
enunciados que formam uma deliberação, que é uma declaração negocial.
Terceira corrente doutrinária: a deliberação não tem nada a ver com o negócio jurídico
(influência de von Gierke).
Professor e CFA: a deliberação é uma declaração negocial e os votos são enunciados
negociais. Existem 3 níveis:
- Voto;

- Declaração negocial que é um conjunto de votos;

- Declaração negocial pode ser uma proposta ou um negocio unilateral.

Há uma pluralidade de pessoas na estrutura da relação negocial e temos de distinguir


o enunciado negocial, a relação negocial e ou negócio jurídico em si.
Exemplo 1: dois irmão são comproprietários de um imóvel e vendem-no ao vizinho.
Com a proposta dos irmãos e com a aceitação do vizinho há um CV. A declaração
negocial dos irmãos é um ato plural, cada ato dos irmãos constitui um ato singular
formando um enunciado.
Exemplo 2: a deliberação dos sócios que dá uma instrução ao gerente – é um negócio
jurídico unilateral, não necessita da aceitação do gerente. Já a deliberação de
designação do administrador pressupõe depois a aceitação por parte do
administrador. Cada voto positivo é um enunciado.

Sociedades - 07.05.15

Apresentação de trabalho - destituição de Administrador com ou sem justa


causa?
Textos 16 e 17

[Coutinho de Abreu – p. 618 e seguintes]

Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa, de 26 de Fev de 2009:

A relação entre o administrador e a sociedade é uma relação obrigacional, há


obrigações. Agora podemos admitir que relação contratual tem origem num contrato,
havendo obrigações contratuais, ou por outro lado, entender que a
designação/nomeação do administrador e consequente aceitação não conformam um
contrato uma vez que a designação não pode ser vista como uma proposta e não casa
com a aceitação.
Professor defende que estamos perante um contrato mas é doutrina minoritária,
quem defende que não estamos perante um contrato é doutrina maioritária.

208
Formas de cessação da relação contratual:
- caducidade;
- renúncia;
- acordo revogatório;
- livre destituição: estas são relações profissionais que que se baseiam na
particular relação de confiança entre administradores e acionistas, logo
justifica-se este princípio.

Modelos:
Tradicional: 403º/1
Anglo-americano: 423º - E/1 e 419º
Germânico: 430º/1 e 2

Em todos os modelos vigora um princípio da livre destituição dos administradores


executivos. No caso dos administradores não executivos já não é assim.

Deveres dos administradores:


- dever de cuidado;
- dever de lealdade;

Destituição sem justa causa:


Pode dar lugar a indemnização nos termos gerais da norma ou nos termos do acordo
feito entre administrador e sociedade (golden parachute).

Acórdão sobe suspensão: Também relevante no âmbito dos deveres dos


administradores.

Deliberações dos órgãos das sociedades comerciais (continuação):

Deliberação positiva: vencimento dos votos positivos vs. Deliberação negativa:


vencimento dos votos negativos, não vão dar em nada.

Deliberação positiva de conteúdo positivo e deliberação positiva de conteúdo


negativo. A positiva tem uma formulação positiva da proposta de formulação e a
negativa tem uma formulação negativa da proposta de formulação.
O ponto de referência par perceber se a formação é positiva ou negativo é o negócio
jurídico. Quando há uma formação positiva é possível que haja um negócio jurídico,
uma eficácia negocial. Se eu tenho uma deliberação positiva de conteúdo negativo isto
não tem eficácias jurídica.

Exemplos:

209
Faço uma proposta de deliberação e proponho que a sociedade não se oponha ao
exercício de uma atividade concorrente pelo gerente – conteúdo positivo, o negócio
jurídico tem como objeto o consentimento previsto no 398º/3 CSC.

Proposta de não autorizar a venda de um imóvel pelos gerentes – 346º/2 c) – na falta


de estatutos, a venda de imóveis dependente da autorização dos sócios. Se a proposta
é autorizada é uma proposta de conteúdo positivo, como aqui o objeto é não
autorizar, o conteúdo é negativo.

Também há as deliberações de conteúdo positivo ou de conteúdo negativo. Pode-se


propor a fusão (conteúdo positivo) ou que não se faça a fusão (conteúdo negativo).
Quer num caso, quer noutro, pode haver vencimento positivo ou negativo. As únicas
que interessam são as de conteúdo positivo de vencimento positivo, pois são as
únicas que criam efeitos jurídicos. Como é que se verifica se uma deliberação é positiva
ou negativa? Em função dos efeitos jurídicos que dali podem resultar. Exemplo: não
autorizar pode ter um efeito positivo – pode significar proibir. O que temos de analisar
é se cria efeitos jurídicos; se sim, é de conteúdo positivo.

Espécies de deliberações:

Orgânicas: dos órgãos da sociedade, ex: sócios, acionistas. Não orgânicas: adotadas
por pessoas que não são membros da sociedade, exemplo: deliberações dos
obrigacionistas. Exemplo: a SA anuncia que vai emitir obrigações e pede dinheiro
emprestado junto do público – quem compra estes títulos para a ser um
obrigacionista.
As obrigações não orgânicas não são imputadas à sociedade, afinal é o conjunto dos
obrigacionistas que está deliberar contra a sociedade.
Já as deliberações orgânicas são imputáveis à sociedade.

As deliberações dos sócios:

Dentro das deliberações orgânicas vamos aprofundar o estudo das deliberações


orgânicas dos sócios.
Podem ser do conjunto dos sócios ou de certas categorias de sócios. Regra básica:
princípio da suficiência da maioria. Excepcionalmente, há maiorias qualificadas.
Princípio da unanimidade é que é mais raro.

Deliberações do conjunto dos sócios vs deliberações de certas categorias de sócios:


Exemplo de ações preferenciais – os acionistas com categoria B de ações podem fazer
deliberações apenas em relação àquelas categorias em especial.

210
Deliberações sujeitas ao princípio da suficiência da maioria vs. alterações que
necessitam de maioria qualificada.

Classificação das formas de deliberação (53º, 243º/1 e 247):


 Deliberações em AG: sócios são convocados e aqueles que vêm deliberam de
acordo com os procedimentos de trabalho da AG.
 Deliberações em AG universal ou totalitária (54º/1): há uma primeira deliberação
unânime ou ato conjunto no sentido de se fazer uma AG com a seguinte ordem de
trabalhos. Depois já não é preciso deliberar por unanimidade.
 Deliberações unânimes por escrito (54º/1) – estão todos de acordo fazem logo
tudo por escritos. Frequentemente é o advogado da sociedade que faz
previamente uma ata de reunião, que será depois aprovada por todos.
 Deliberações por voto escrito, apenas estão previstas para as sociedades por
quotas (247º). Também há uma convocatória e há deliberação mas não há
presença física.

Sociedades – 12.04.15

Deliberações orgânicas (continuação):

Tem de haver um AG devidamente convocada. Mas há dois mecanismos: deliberações


unânimes por escrito – circula a minuta de ata de AG e todos a assinam.

Deliberações na Assembleia Geral:


1. A convocação; 2. Funcionamento; 3. Ata;

A CONVOCAÇÃO:
Competência:
Depende do tipo de sociedade.
1) Sociedades por quotas (248º/3) – qualquer dos gerentes.
2) Sociedades anónimas (377º/1, 377º/7). Por último, há sempre o tribunal.

Artigo 375º - questão da oportunidade da convocação da assembleia geral para as


sociedades anónimas – sempre que a lei determine. Para as sociedades por quotas não
há grandes regras legais.

Formalidades. 377º/5 – a convocatória tem de ter um determinado conteúdo. 377º/8


– indicar a ordem do dia não pode ser uma coisa oculta que não permita aos sócios

211
perceber se têm de estar presentes ou não. Isto tem de ser convocado com uma certa
dilação – 15 dias (248º/3) ou 21 dias (377º/4).

Artigo 377º/7 – possibilidade do CF e Comissão de Auditoria convocarem AG de


acionistas. Artigo 378º - Atribuição aos administrativos e sócios da direito de inclusão
dos assuntos da ordem do dia.

FUNCIONAMENTO:
Quórum constitutivo vs. quórum deliberativo – artigo 383º e 386º.
Para deliberar eu tenho de ter determinado quórum deliberativo e para determinadas
matérias tenho de ter ainda uma maioria especial na própria deliberação.

Artigo 383º - quórum constitutivo: para que a AG possa deliberar sobre uma questão
societária relevante tem de estar presente pelo menos 1/3 do capital.
Artigo 386º - quórum deliberativo: Para as questões do 383º/2 – a deliberação tem de
ser aprovada por 2/3 dos sócios emitidos.

Há ainda casos em que há uma ficção de um AG e na prática há apenas uma


deliberação unânime por escrito.

A ATA:
Documento onde se corporiza o que se passou numa AG. Artigo 63º
Questão doutrinária relevante – qual a natureza da ata? Uma posição doutrinária
considera que a ata é uma condição de eficácia das deliberações. Outra corrente
doutrinaria defende que a ata é um mero meio de prova substituível (Professor e
Coutinho de Abreu). Professor defende esta segunda teoria porque se assim não for
pode ser dificultado o acesso à justiça de quem queira impugnar a ata – afinal,
segundo a primeira concepção, se se fez uma acta a dizer que a deliberação foi x
quando foi y, para quem considera que é uma condição de eficácia, nada a fazer.

A matéria das deliberações foi estudada em Portugal por Lobo Xavier e ele tem
tendência para olhar para as invalidades nas deliberações como uma invalidade do
negócio jurídico – aproxima-se então da intuição de Coutinho de Abreu e do Professor.

COUTINHO DE ABREU – A ATA É UMA CONDIÇÃO DE EFICÁCIA DAS DELIBERAÇÕES ?


A ata é um registo em documento escrito das deliberações tomadas pelos sócios em
Assembleia ou por voto escrito, e ainda de outros dados do respetivo procedimento
deliberativo.

Quem assina as atas?


o SA – presidente da AG e secretário (388º/2).
o SQ – sócios ou representantes que tenham participado nas respetivas
assembleias.

212
Uma deliberação efetivamente tomada mas não documentada em ato (porque esta
não foi lavrada ou tendo-o sido, não faz menção à deliberação) sobre por isso em
termos de validade e eficácia?
A doutrina diverge.
Uma deliberação adotada pelos sócios em forma apropriada é, apesar da falta de ata,
de facto e juridicamente existente. A ata não é uma forma pela qual os sócios
exprimem ou exteriorizam a sua vontade deliberativa – não é formalidade ad
substancium, pelo que não é nula a deliberação em ata. Por fim, também não há aqui
uma violação do conteúdo e do procedimento deliberativo, logo não há
anulabilidade.

CA considera também que a falta de ata não acarreta a ineficácia – tem consequências
negativas mas as deliberações são eficazes desde o momento em que foram tomadas.
As atas têm essencialmente uma função certificativa, promovendo maior segurança
no funcionamento societário e informação mais certa dos sócios. Contrariando o valor
de prova exagerado do artigo 63º/1 devemos considerar que se em tribunal for
desfeita a força probatória de certo ata e ficar provado ter sido adotada uma
deliberação nela não registada, deverá admitir-se como provada para todos os efeitos
esta mesma deliberação.

Deliberações sujeitas as registo – não podem ser registadas se não forem em regra
comprovadas por ata. No entanto esta impossibilidade de registo funda-se não na
ineficácia das deliberações mas na falta de documento comprovativo das mesmas. Por
outro lado esta ineficácia é apenas relativa a terceiros, a deliberação produz efeitos
internamente.

Ação anulatória de deliberações dos sócios – artigo 59º/4, o juiz manda notificar os
assinantes da ata para que no prazo dado a apresentem ao tribunal. O que sucede
quando a ata não é apresentada ao tribunal? Para CA a ação deve prosseguir: o ónus
da prova é invertido, o tribunal avaliará os factos alegados pelas partes, apreciará
livremente o valor da não apresentação da ata para efeitos probatórios e decidirá
sobre o pedido.

Com estes exemplos concluímos que uma ato é um meio substituível de prova e não
uma condição de eficácia das deliberações.

Invalidade das decisões dos sócios:

Vícios de conteúdo vs. vícios de procedimento – uns têm a ver com o conteúdo da
decisão que foi adotada, outros não têm a ver com os vícios em concreto mas antes
com o processo da deliberação em sim (ex. não se deixou um sócio votar).

Violação da lei vs. violação dos estatutos – a violação da lei divide-se na violação da lei
injuntiva da violação da lei supletiva.

213
A estratificação dos regimes jurídicos orgânicos - para além de haver na estrutura
orgânica vários órgãos pode haver ainda uma estratificação dos regulamentos
orgânicos.
Para efeitos de vícios por violação dos estatutos devemos ainda contar que pode haver
uma violação dos estatutos ou de regulamentos infra estatutários.

Vícios:
[Coutinho de Abreu – 507 a 580]
Os primeiros são mais simples os últimos dois mais complexos e difíceis.
1. INEXISTÊNCIA – não está prevista na lei. Parte da doutrina considera que a
inexistência não existe. Outros defendem que existe. RDP defende que esta
matéria está relacionada com a aparência de deliberação ou de negócio
jurídico. As pessoas devem ter o direito de ir a tribunal pedir que se declare a
inexistência. Exemplo: ata de uma AG que nunca se realizou.
2. INEFICÁCIA (55º): é ineficaz a deliberação tomada sem o consentimento de
determinado sócio imposto pela lei.

3. NULIDADE (56º):

a. Por vícios de forma ou procedimento: alíneas a) e b) do número 1 –


falta de convocatória. Dúvida de interpretação: é necessário que falte
qualquer convocatória ou basta que não tenha havido a convocatória
em relação a um do sócios? Coutinho de Abreu e Professor defendem
esta última questão.

b. Por vícios de conteúdo: alíneas c) e d) do número 2.

Alínea d) – não podem ser tomadas decisões que violem as normas


gerais injuntivas e os bons costumes (280º CC).
Interesses de terceiros – aqui terceiros podem ser também os sócios
futuros e não os sócios atuais. Exemplo: distribuição de lucros fictícios –
não houve lucros mas vamos fingir que houve. Isto prejudica os
credores enquanto terceiros.

Alínea c) – concepção moderna de sociedade anónima – o conselho de


administração tem competências próprias não podem outros órgãos
deliberar por si. Esta alínea é dispensável afinal o regime das sociedades
anónimas modernas é um regime injuntivo por razões de segurança
para com os atuais sócios e também os futuros.

214
4. ANULABILIDADE (58º):

ALÍENA A):
Cabem na aliena a) quer vícios de conteúdo quer vícios formais. São vícios do
procedimento aqueles que não cabem no 56º a) e b). Fora isso todos vêm cair no
58º/a).

Teoria da relevância (CA): para além dos gravíssimos que geram nulidade, há ainda
vícios relevantes que geram anulabilidade – quando afetam o resultado ou o direito de
participação social.

Temos de distinguir os vícios da deliberação como um todo dos vícios dos votos – os
vícios dos votos enquanto parte da declaração negocial são relevantes também. Em
que medida é que são relevantes? Prova de resistência – se o peso daquele voto
mudar o curso da decisão é relevante, se o voto não mudar a direção da decisão, não é
relevante a existência deste vício.

ALÍNEA B):
As deliberações abusivas – apesar de ser abusivo parece o que legislador apenas
aponta para a anulabilidade.
Voto com dolo de vantagem especial vs. voto emulativo. O primeiro: eu quero
prejudicar os outros sócios para obter uma vantagem para mim ou para terceiro. O
segundo: eu quero prejudicar os outros sócios apenas porque sim, não quero
vantagens apenas quero o prejuízo dos outros.
In fine – a lei prevê aqui a “prova de resistência” – não são anuláveis as deliberações
se se provar que teriam sido tomadas mesmo sem os votos abusivos.

Aqui temos de provar os elementos subjetivos – tenho de provar que tinha o dolo/
intenção. Tem de provar que queria a vantagem para si ou o prejuízo para os restantes
sócios.
Como esta é uma prova tão difícil, este numero acaba por ser letra morta. Para CA – é
possível sancionar situações de abuso ou deslealdade para lá do artigo 58º:
- Convocar o dever de lealdade dos sócios: doutrina alemã diz que o dever de
lealdade dos sócios é até mais importante que o dever de contribuição. Resulta
da própria definição do contrato de sociedade que dali advém o dever de
lealdade.
- Abuso de direito: o voto é um direito subjetivo potestativo. É direito poder,
sendo assim, o sócio deve exercer o seu voto com liberdade mas se o faz
prejudicando a sociedade, está a abusar do seu direito. Professor afasta-se um
pouco da questão da lealdade, há lealdade de facto mas o essencial é a
liberdade, os sócios podem votar como entenderem.
Exemplo: os sócios deliberaram dissolver a sociedade, é a liberdade deles. Os
sócio resolveu que não quer ampliar o exercício da atividade comercial, é
abusivo mas é a liberdade dele – só podemos atacar os comportamentos que
sejam manifestamente abusivos.

215
Qual o vício se uma deliberação tomada sem a maioria necessária?
O conteúdo não ofendeu a norma legal injuntiva pelo que não se aplica o 56º/d).
Devemos aplicar o 58º/1 a)? – querela doutrinaria:
- há quem diga que se aplica o 58/1 a);
- há quem use a questão da aparência de negocio jurídico para justificar a
inexistência desta deliberação – professor entende esta a melhor opção.

RENOVAÇÃO DAS DELIBERAÇÕES SOCIAIS (ARTIGO 62º):

Nº1 - Quanto às deliberações nulas apenas pode ser renovada aquela cuja nulidade
recaia sobre vícios de forma. Eficácia retroativa da negociação ressalva os direitos de
terceiros.

Nº2 – Anulabilidade: é possível renovar desde que a renovação não tenha também
vícios. Discussão: é possível renovar duas vezes? Há prazo para renovação.

Prox. aula. Deliberações do conselho de administração.


Exercícios sobre responsabilidade dos administradores (56 a 59).

Sociedades - 15.05.15

Invalidade das deliberações dos sócios:


Ação de declaração de nulidade e ação de anulação.

Limite: 61º/2

Providencia cautelar de suspensão de deliberações sociais (CPC):


- aplica-se não apenas quando está em causa uma anulabilidade;
- tem também em conta os efeitos práticos posteriores;

Deliberações do Conselho de Administração:


Artigo 411º
Regime decalcado do das deliberações dos sócios. Em vez de ir diretamente para
tribunal impugnar a deliberação, tenho em primeiro lugar de impugnar na AG – este é
um regime indireto.
É por vezes criticado: há quem defenda que devia haver uma impugnação judicial
direta.
Vantagem deste regime de impugnação indireta: proteção da iniciativa de gestão do
Conselho de Administração. Se eu posso diretamente impugnar as decisões do

216
Conselho de Administração eu não posso dar instruções mas bloqueio a gestão da
administração.

A responsabilidade dos titulares de órgãos das sociedades


comerciais:
Este tema insere-se no âmbito do estatuto passivo dos titulares de órgãos
administrativos e fiscalizadores. Existem três modalidades distintas de
responsabilidade:
1. responsabilidade perante a sociedade (71º e 72º);
2. responsabilidade perante os credores sociais (78º);
3. responsabilidade perante os sócios e terceiros em geral (79º);

Responsabilidade dos membros dos órgãos de fiscalização:


A responsabilidade dos membros dos órgãos de fiscalização pode ser de natureza
exclusiva ou solidária, consoante decorra de condutas ilícitas próprias que tenham
causado diretamente um dano (81º/1), ou antes da violação do seu dever primordial
de fiscalização da atividade da administração, quando seja de concluir que o dano
provocado por atos ilícito e culposos desta última não teria sido produzido se o dever
de fiscalizar não tivesse sido omitido (81º/2).

RESPONSABILIDADE PERANTE A SOCIEDADE:


Artigo 71º e72º
Ao lado desta responsabilidade tais atos ou omissões poderão ainda ser fonte de
outros tipos de consequências jurídicas, por exemplo, a destituição com justa causa ou
a obrigação de restituição do que foi indevidamente recebido.

Esta é uma responsabilidade de natureza pessoal, sujeitos passivos sãos os membros


individuais do órgão de administração, não o próprio órgão. Também é de natureza
subjetiva – assenta na culpa individual dos membros (72º/1 e 78º/1).

Pressupostos fundamentais:
1. Conduta do administrador ou gerente (ação ou omissão);
2. Ilicitude da conduta: violação de deveres legais ou estatutários.
3. Conduta culposa: tem de haver dolo ou negligência – a prova da sua ausência
cabe ao próprio titular do cargo (72º/1 in fine);
4. Conduta causou dano social: tem de haver um nexo de causalidade entre as
conduta do administrador e os prejuízos sociais (danos emergentes e lucros
cessantes).

A business judgment rule:

217
Artigo 72º/2
A responsabilidade do gerente ou administrador é excluída sempre que este prove que
atuou em termos informados, livre de qualquer interesse pessoal, segundo critérios de
razoabilidade.
Um administrador apenas será civilmente responsável quando não esteja em
condições de alegar e demonstrar que a sua decisão empresarial (ativa ou omissiva),
ainda que em si mesmo culposa ou danosa, foi precedida da recolha de informação
necessária e adequada, foi tomada na ausência de qualquer conflito direito ou indireto
de interesses e foi executada na crença razoável de se tratar de uma decisão
empresarialmente admissível ou tolerável, ainda que porventura arrojada ou até
arriscada.
De referir que este artigo apenas será aplicável a decisões empresariais discricionárias,
não valendo quando há violação de uma decisão vinculada.

Modalidades de ação de indeminização:


1. Ação social uti universi: ação judicial proposta pela própria sociedade com
base em deliberação da AG (75º e 76º).
2. Ação social uti singuli: ação social que tendo em vista superar a inércia dos
sócios maioritários pode ser proposta por sócios que sejam titulares de
percentagem igual ou superior a 5% do capital social (77º/1).
3. Ação sub-rogatória de credores sociais – tem em vista debelar a inação da
sociedade na efetivação judicial dos direitos indemnizatórios daquela contra os
respetivos administradores.

RESPONSABILIDADE PERANTE CREDORES SOCIAIS:


Artigo 78º/1
Esta é uma responsabilidade de natureza externa e extra obrigacional. Assim aqui já
não se presume a culpa do gerente ou administrador e o dano é um dano reflexo ou
indireto.

RESPONSABILIDADE PERANTE SÓCIOS E TERCEIROS:


Artigo 79º

Casos: 51, 50, 49, 48, 47, 41.

Casos Práticos:

41.
A X, Lda. é uma sociedade com três sócios, todos gerentes, sendo A titular de uma
quota correspondente a 40% do capital social e B e C titulares, cada um, de quotas
correspondentes a 30% do mesmo. O objecto da X, Lda. é o comércio de automóveis.
Recentemente, B herdou uma quota numa sociedade com o mesmo objecto da X, Lda.,
correspondente a 30% do capital social dessa sociedade.

218
Por carta registada expedida há 10 dias, A convocou para hoje uma reunião da
assembleia geral da X, Lda. com a seguinte ordem de trabalhos:
1.º Destituição de B de gerente com justa causa consistente no exercício de
actividade concorrente com a da sociedade;

2.º Proposição de acção judicial de exclusão de sócio de B com base no mesmo facto.

Diga:
a) Se a reunião foi corretamente convocada:
Não – não respeita a antecedência mínima de 15 dias (248º/3).

b) Em caso de a reunião não ter sido corretamente convocada, qual a sanção legal
para o facto;
Anulabilidade – 58/1 a)

c) Se há fundamento para a destituição de B de gerente;


Há aqui uma violação do dever de lealdade na sua manifestação de proibição de
concorrência (254º/ 1 a 3).
Esta infração constitui justa causa de destituição (254º/5) mas tal direito da
sociedade prescreve passados 90 dias de todos os sócios saberem da prática
daquela atividade concorrente.

d) Se há fundamento para a exclusão de B de sócio;


242º/1 – este não é um comportamento desleal ou gravemente perturbador e não
causa danos à sociedade X, pelo que, não há fundamento para a exclusão de B
como sócio.

e) Se B pode votar nas deliberações em causa.


B não pode votar – 251º/ d) e f).

47.
A, B e C são os únicos sócios da X, Lda. A e B são titulares de quotas correspondentes,
cada uma, a 20% do capital social. C é titular de uma quota correspondente aos
restantes 60% do capital social. Os gerentes da X, Lda. têm sido A, B e C. Quer a
designação de A, quer a de B consta dos estatutos: a de A com a menção de que
conservará essa qualidade enquanto dela não prescindir, a de B sem qualquer menção.
Há dois meses, mediante convocatória enviada por C a A e B, por “e-mail”, realizou-se
uma reunião da assembleia geral, sendo a ordem de trabalhos "a recomposição da
gerência da sociedade". Na mesma reunião foi deliberado, sob propostas não
fundamentadas de C, destituir A e B da gerência e designar como gerentes D e E,
empregados da sociedade. C votou a favor das propostas e A e B contra.

219
A e B querem saber se podem pôr em causa as deliberações tomadas, quer por serem
gerentes designados nos estatutos, quer por a ordem de trabalhos lhes parecer
insuficientemente precisa, quer ainda por o único meio de convocação ter sido o “e-
mail”. Dê-lhes a sua opinião.

1. Questão de serem gerentes designados nos estatutos: não é relevante,


aplica-se a regra da livre destituibilidade dos estatutos (257º/1). No entanto
em relação a A tem se ser respeitado o disposto nos estatutos a menos que
estejamos perante uma justa causa de destituição (257º/2).
2. Ordem de trabalhos: considero que está explicita o suficiente.
3. Convocação por e mail: tinha de ser por carta registada (248º/3). A
deliberação é portanto anulável (258º/1 a).

48.
A X, S.A. é uma sociedade anónima com o capital social de € 50.000,00, dividido em
50.000 acções nominativas de € 1,00 cada. A é titular de 40.000 acções e B é titular das
restantes 10.000 acções. Quer A quer B são credores da sociedade por avultadas
quantias (no total de mais de € 1.000.000,00) em resultado de empréstimos que lhe
fizeram, na proporção das suas participações.
Ontem, reuniu a assembleia geral da X, S.A., tendo deliberado, com os votos a favor de
A e os votos contra de B, aumentar o capital social em € 450.000,00 (portanto, para
um total de € 500.000,00), a realizar mediante conversão de créditos dos accionistas
de igual valor.
A reunião foi convocada por aviso publicado no sítio da internet relevante, com 29
dias de antecedência. A ordem de trabalhos constante do aviso era: «aumento do
capital social para € 500.000,00, por entradas em dinheiro».
B não quer subscrever o aumento de capital (pretendendo conservar por inteiro os
seus créditos sobre a sociedade) e quer impedir que o mesmo tenha lugar.
Dê a B a sua opinião sobre o enquadramento jurídico dos factos em causa e sobre o
que B deve fazer para alcançar os seus objectivos.

Art. 456º - Nas sociedades anónimas é possível que os estatutos estabeleçam uma
autorização para o órgão de administração aumentar o capital. Aumentar capital é um
risco; joga com o equilíbrio de poderes na sociedade.
Visto que implica uma alteração estatutária – é necessário quórum e maioria
qualificados – 383º/2 + 386º/3.

Quando à formalidades da convocatória:


- 377º/5 – a convocatória tem de ter um determinado conteúdo.
- 377º/8 – indicar a ordem do dia – o conteúdo foi cumprido e foi bem explicitado
na ordem de trabalhos.
- Bastava a publicitação da AG no site a menos que estivesse prevista nos estatutos
outra exigência.
- AG tem de ser convocado com uma certa dilação – um mês (377º/4). Esta dilação
não foi respeitada pelo que a deliberação é anulável (58º/1 a).

220
49.

A X, S.A. é uma sociedade anónima cujo capital social se encontra dividido em duas
categorias de acções: a das acções ordinárias ou de categoria A e a das acções de
categoria B. As acções de categoria B atribuem aos seus titulares, além de direitos
iguais aos conferidos pelas acções ordinárias, o direito de aprovação de um terço dos
membros do conselho de administração, nos termos do art. 391, n.º 2, do CSC.

Há três meses, teve lugar uma reunião da assembleia geral da X, S.A. que deliberou:
1. Destituir a totalidade dos administradores e eleger novos membros para todos
os lugares do conselho de administração, incluindo para a sua presidência;
Não pode ser atribuído a certas categorias de ações o direito de designação dos
administradores (391º/2).

2. Suprimir as ações de categoria B, passando todas as ações a ser ordinárias.


Alteração estatutária – necessária quórum e maiorias qualificadas (383º/2 e
386º/3).

Ambas as deliberações foram tomadas por 55% dos votos emitidos, tendo todos os
acionistas participado nas deliberações – respeitadas as regras da maioria.

Z, que era presidente do conselho de administração e titular de metade de todas as


ações de categoria B, votou contra as deliberações e pretende agora saber:

a) se pode atacar as deliberações em causa;


Assumindo que detêm 25% do capital social o seu voto contra implica a
ineficácia da deliberação (403º/2).

b) caso a deliberação de destituição não possa ser revertida, se os


administradores destituídos têm direito a alguma indemnização.
Sim têm – existe de facto a regra da livre destituibildiade mas a destituição sem
justa causa implica pagamento de indeminização (403º/5).

50.

Os estatutos da X, Lda. contêm uma cláusula do seguinte teor: «Mediante deliberação


tomada por maioria de três quartos dos votos correspondentes ao capital social, os
sócios ficarão obrigados a efetuar suprimentos não remunerados à sociedade, até ao
dobro do valor nominal das suas quotas».
A e B são os únicos sócios e gerentes da X, Lda., correspondendo as suas quotas,
respectivamente, a 80% e a 20% do capital social.

Há seis meses, em reunião da assembleia geral, com o voto a favor de A e o voto


contra de B, foi tomada a deliberação de exigir aos sócios a realização de suprimentos

221
no valor igual ao valor nominal das suas quotas. No entanto, B não pagou a quantia
em causa, alegando não ter meios financeiros para tanto.

Anteontem, teve lugar nova reunião da assembleia geral, na qual, com o voto a favor
de A e o voto contra de B, foi deliberado destituir B de gerente da sociedade e excluí-lo
de sócio, em ambos os casos com fundamento no incumprimento da obrigação
estatutária de efectuar suprimentos.
Diga se e como pode B reagir contra as deliberações em causa, seja atacando a sua
validade ou exigindo indemnização pelos prejuízos sofridos.

1ª deliberação: - era este um contrato de suprimento?


É possível que os estatutos imponham esta obrigação – 244º + 209º. É uma obrigação
civil que pode vir prevista nos estatutos – atribuição de uma natureza estatutária a
uma obrigação extra social.
Professor considera de devemos qualificar esta cláusula como uma obrigação de
prestações suplementares – interpretação em enquadramento negocial.

1º caminho - se forem prestações acessórias (contrato de suprimento):


Artigo 209º/4 – o sócio não pode ser excluído. Vício é de anulabilidade (58º/4): esta
deliberação vai contra uma norma dispositiva, ora se temos uma norma injuntiva
aplicamos a nulidade (56º/1 d). Não havendo nulidade, a sanção é a mera
anulabilidade (58º/1 a).

2º caminho – se forem prestações suplementares:


Aplica-se o artigo 211º, as prestações suplementares, ao contrario das acessórias
abrem a porta para a exclusão do sócio, pelo que, já não havia nenhum vício da
exclusão

2º deliberação – destituição do gerente:


Artigo 257º
Dois problemas – havendo só dois sócios, a AG pode deliberar destituição com justa
causa. B viola um dever enquanto sócio (dever de prestar suprimentos ou de realizar
prestações suplementares). Havendo uma violação do dever do sócio, esta pessoa nas
vestes de gerente pode ser afastada? Professor entende que devem ser separadas as
águas.

Podia ou não haver justa causa de destituição?


A norma do 257º/5 é injuntiva – a norma visa proteger o interesse de terceiros, do
publico ou da parte mais fraca, será provavelmente um norma injuntiva. Para a qual a
sanção será a nulidade.

- se estivermos perante uma prestação suplementar não havia justa causa para
destituição pelo que apenas existiram direito a uma indeminização.

222
51.
A, B e C são os únicos sócios da X, Lda., na qual cada um detém uma quota no valor
nominal de € 100.000.
Há 15 dias teve lugar uma reunião da assembleia da X, Lda., cuja ordem de trabalhos
foi:
1. Deliberar sobre o relatório e as contas do exercício findo;
2. Deliberar sobre a aplicação dos resultados do exercício findo.

As contas evidenciavam um lucro de € 50.000, que os gerentes propunham que fosse


integralmente distribuído aos sócios, tendo em vista que a reserva legal já se
encontrava integralmente preenchida e que a sociedade não aparentava necessitar de
reforçar os capitais próprios. No ponto 1 da ordem de trabalhos, foram aprovadas por
unanimidade as contas, mas no ponto 2, para além da proposta dos gerentes, foi
também apreciada uma proposta então apresentada por B, consistente em todo o
lucro ser levado a reservas livres, não havendo distribuição de quaisquer dividendos.
Essa proposta de B mereceu os votos favoráveis de A e de B, tendo C votado contra. A,
que presidia à reunião, declarou que a proposta tinha sido aprovada.
Basta maioria?

C pretende saber se pode reagir contra a aprovação da proposta relativa ao destino


dos lucros, quer por achar que ela não reuniu a quantidade de votos legalmente
necessária, quer por ter sido apresentada sem a antecedência devida, quer ainda por,
em seu entender, não ter justificação económica. Dê-lhe a sua opinião, partindo do
pressuposto de que os estatutos da X, Lda. nada estabelecem sobre a matéria.

Quantidade de votos necessária:


Art. 217º + 294 – a menos que em deliberação contrária se reúnam ¾ dos votos não
pode deixar de ser recebido metade dos lucros de exercício – ou seja, para não se
distribuírem estes lucros era necessária uma deliberação aprovada por ¾ do capital
social. Só houve aprovação por 2/3 pelo que a deliberação é anulável (58º/1 a).

Antecedência devida:
??

Não tem justificação económica:


???

Aula - 19/05/2015

Matéria de casos práticos:


 Deveres e responsabilidade dos administradores

 Deliberações sociais

223
Exercício 56
Identificar o problema. Não é relevante explicar o que é uma SQ ou SA, isto não interessa
muito.
Enquadrar – questão da indemnização.

1º Aspeto processual: Quem tem legitimidade para propor ação de responsabilidade?


Há vários tipos de responsabilidade dos administradores. A lei prevê 3 situações de
responsabilidade , em função do titular do crédito indemnizatório:
o Artigo 72º a 77º: Responsabilidade perante a sociedade. Esta pode ser acionada de duas
formas:

 Ação social ut universi: Proposta pela sociedade, Conselho de Administração após


deliberação dos sócios (75º). Artigo 75º/1: A sociedade só pode intentar ação em
tribunal pedindo indemnização ao administrador se houver uma deliberação social.

 Ação social ut singuli: Proposta pelos sócios (77º3) (mas que visa ressarcir a sociedade);

o Artigo 78º: Responsabilidade perante os credores;

o Artigo 79º: Responsabilidade perante sócios e terceiros;

A assim o próprio S podia responsabilizar C, desde que, a própria sociedade não tivesse
avançado.

2º Aspeto substantivo: Havia ou não responsabilidade do administrador para com a


sociedade? Verificar pressupostos da responsabilidade.
o Ilicitude: A responsabilidade perante sociedade é uma responsabilidade obrigacional por
violação de deveres específicos (72º,1). Aqui o ilícito é a violação de um dever. Este é o
momento central.

1º Identificar o dever: Dever de cuidado (64º,1,a); Aprofundar este dever e descortinar


a componente de obtenção de informação.
2º Ver se houve violação do dever

1º - Identificação do problema: responsabilidade por violação dos deveres específicos das


obrigações:
- violação de dever resultante de obrigação prévia;

3
Há uma querela doutrinária quanto à interpretação do excerto fina do 77º,1 “O sócio
que tenha pelo menos... pode propor a ação quando a sociedade a não haja
solicitado”- sócio só pode atuar quando sociedade n atuou. Depois há quem diga que é
preciso os sócios agendarem AG, sob pena de ilegitimidade pra avançar.
Ou seja: basta o Conselho de Administração não mostrar interesse para o sócio poder
avançar vs. Conselho de Administração tem de autorizar o sócio a avançar com o
pedido de indeminização.

224
- neste caso havia aqui um dever de cuidado que foi violado.

Aqui o dever violado é o dever de cuidado(64º,1,a). O dever de lealdade é pra situações de


conflitos de interesses, atuações desleais.

2º Terá havido violação deste dever? Como deve ser procedimentalização da gestão/do dever
de cuidado? O professor entende que este dever decompõe-se em vários deveres, vários
aspetos que integram a gestão ou cuidado. Um destes deveres é o de obtenção de informação
do processo decisório/Procedimentalização do dever de gestão. Por regra, não se deve “decidir
pela barriga”, mas sim obtendo informação. Não se exige decidir correto; Exige-se sim uma
decisão informada. Daí que a base seja a procedimentalização... o que se visa descortinar não
é se foi uma boa decisão, mas sim se foi informada, em função dos constrangimentos
temporais. Ex: “Tens de decidir até ao final do dia”- o bom gestor tanto é aquele que diz: é
pouca informação, mas é preciso e temos de avançar; ou ... Agora sem haver uma pressão de
tempo decidir sem estar informado - violação do dever de gestão, na sua vertente de obtenção
de informação.
Há, portanto, violação do dever de gestão por falta de informação.

E o artigo 72º/2 - como se encaixa aqui a querela doutrinária?


o PPV e RPD: Diz que este artigo completa 64º,1. Analisa-se ao mesmo tempo do que o
artigo 64º. Segundo esta doutrina, a violação do dever de gestão resulta do 64º,1 + 72º2-
conclusão dos outros pressupostos.

o Maioria da doutrina (Professor Carneiro da Frada e Coutinho Abreu): Cláusula de exclusão


da responsabilidade: afasta a consequência jurídica da responsabilidade civil, mesmo
tendo havido violação de um dever. Este artigo surge, portanto, depois de aferirmos a
violação do dever. Segundo esta doutrina, a violação do dever de gestão resulta do 64º,1;
Depois passamos para o 72º,2 para ver se a responsabilidade é excluída; E só depois para
os restantes pressupostos da responsabilidade civil.

O professor diz que o 72º,2 não se aplica em contextos de vigilância ou de controlo (outras
componentes do dever de gestão).
O 72º/2- business judgment rule - n se aplica a violações do dever de lealdade, nem a alguns
casos do dever de gestão - qd tá em causa o dever de vigilância.

Exercício 57

Procedimento: aqui é a própria sociedade a querer reagir - ut universi - no âmbito da


responsabilidade obrigacional por violação de devere.

Dever violado: 64º,1,a)- Dever de Gestão/Cuidado, modalidade de vigilância. O que está aqui
em causa é n ter feito um controlo diário da informação financeira. Desapareceram 500.000. O
que está em causa é: como é que há este buraco? Trata-se de um problema de controlo
financeiro.

225
Isto aparentemente é deslealdade... Mas o professor pôs no caso prático “Nada mais se
provou quanto a eventuais comportamentos na origem do problema”.

Ver se houve violação do dever:


Professor acha que, em 1º lugar, temos de separar as responsabilidades do A e B.
o Quanto ao A, que é o administrador delegado para a área financeira: O dever de gestão ou
cuidado implica vários aspetos... Aqui a componente em causa é a componente de
vigilância (costuma surgir mais nos casos práticos). Há vigilância sobre:

- Patamares inferiores da empresa/vigilância vertical


- Vigilância horizontal: Feita em relação aos outros admin.
O que está aqui em causa é a vigilância vertical- foi naquele departamento das
finanças que desapareceram 500.000€.
O admin que tem aquele pelouro, responsável pela vigilância vertical, tinha de
acautelar que aquelas coisas n acontecessem.
Mas é uma responsabilidade objetiva? Ele controlava bem? Ele topou logo o
desaparecimento? Pode não haver justificação para censurar o seu comportamento.
Mas tbm pode ter acontecido por n haver práticas de vigilância vertical.

o Quanto ao B, que é o admin que n tem o pelouro. Quando o admin não tem o pelouro, a
ideia é que só tem um dever de vigilância horizontal, não tem de controlar o
departamento, mas só o desempenho dos outros admin.

Logo B já n seria responsabilizado, pois n tinha que controlar o que se passava no gabinete
financeiro.

Subjacente a isto está a diferença entre administradores:


o Executivos: Fazem controlo vertical em relação ao seu pelouro e controlo horizontal nos
termos gerais

o Não executivos: Fazem apenas um controlo horizontal, nos termos gerais.

Conclusão:
- A delegação de competências (407º/8 CSC) opera uma bifurcação do dever de gestão:
o A fica com todo encargo da gestão do seu pelouro

o B fica só com dever de vigilância horizontal... pelo que n tinha de andar em cima dos
funcionários do departamento financeiro

O artigo 64º tem seguinte interpretação: dever de vigilância vertical para quem tem o pelouro.
Base legal e o 64º.
A gestão ativa (horizontal) tem como base legal...

Condenaria A e B?
72º,1

226
407º,8- delegação opera modelação dos deveres, pelo que em relação ao B apenas havia dever
de vigilância horizontal (exclusão da resp). Relativamente ao A havia dever de gestão ativa,
incluindo vigilância vertical.

Sub-hipoteses:
“mas sim a mera atribuição ao A do encargo especial de zelar pela área financeira”-
O 407º,2 n fala numa bifurcação do dever de gestão... Pqe? pq os trabalhos preparatórios n
estudaram bem a coisa... sempre que há uma delegação, há biforcação de poderes. Este
encargo especial
- Apesar de ser um encargo especial, modigfica o dever de gestão.. pelo que a resposta é a
mesma
- Mas prá > da doutrina, n há qqr modificação dos deveres, pelo que ambos respondem (A e B)

Exercício 47

“A e B querem saber se podem pôr em causa as deliberações tomadas...”

“... Quer por serem gerentes designados nos estatutos”


Problema subjacente: São convocadas duas matérias:
o Direitos e deveres dos sócios - Direito especiais dos Sócios- Direito de um sócio ou de uma
categoria de sócios- Nas SPQ é mt frequente direito especial à gerência. Art 24º. O 257º já
vimos... Temos dois problemas:

- 1º Concluir se há ou n um direito especial à gerência (aplicar 24º e 254º aplicado ao


caso concreto): A e B têm direito especial à gerência? R: Direito especial à gerência
tem de ser clausulado nos estatutos (ex “A tem direito especial à gerência”) (“A é
gerente e só pode ser destituído com justa causa”). Prof entende que relativamente ao
A há pois aquilo só pode ser entendido como a atribuição d1 direito especial à
gerência...
A designação nos estatutos acontece sempre aquando da formação da sociedade. Isto
n significa que em todas as sociedades em que são nomeados gerentes.. B n tem
direito especial à gerência
- 2º Haverá algum vício da deliberação social? (Regime das deliberações sociais)

o Deliberações das SC

B e A destituídos sem justa causa; A tinha direito especial à gerência, logo tinha de ser
destituído com justa causa, logo há vício; Quanto ao B, n tendo direito especial à gerência,
aplica-se princípio da livre destituibilidade, pode destituir, n há nenhum vício.
Quanto ao A qual é o vício?

227
- Ineficácia (55º) (conjugar com o art 24º “n pode ser retirado sem consentimento”) (logo
vício é da ineficácia.

“... Quer por a ordem de trabalhos lhes parecer insuficientemente precisa (Ordem do dia
clara)”
o 248º,1: Grande remissão para o regime das SA’s

o 377º,5,e): Ordem do dia; O nº8 explica bem o que é a ordem do dia- tem de se mencionar
claramente o assunto/ordem do dia

Depois, olhando para o caso prático, temos de tomar posição: terá sido clara? Prof considera
que não... Na opinião do prof a ideia é abrir o jogo e que direito de informação tenha um
maior alcance possível. Não terá sido feito propositadamente de forma pouco clara? O gerente
qd está a convocar está a exercer uma função orgânica derivada (tendo em contra os
interesses da sociedade), e n como sócio derivado. “Recomposição da gerência”- isto é o que?
destituir e nomear outros? Então que seja explícito.
o Se considerarmos que n é clara - vício da anulabilidade 58º,1,a)- Cláusula Geral.

“... Quer ainda por o único meio de convocação ter sido o “e-mail” (Teoria da relevância dos
vícios)”
- Havia vício formal/ procedimental (58º)
- Quanto aos vícios procedimentais residuais- Teoria da irrelevância. Este é um caso claro: n é
um vício suficientemente relevante. Problematização da teoria da irrelevância.

Conclusão:
Em relação à designação dos estatutos, há ineficácia relativamente ao A
Quanto à ordem dos trabalhos imprecisa:
o Vício da anulabilidade (pró professor)

o N há vício (para a maioria das pessoas)

Quanto ao último: teoria da relevância

Há dois vícios:
- Ineficácia qto A; Aqui n há problema, pois não há prazo.
- Anulabilidade; Problema do prazo (59º,2): Prazo para propor a ação é de 30 dias-
caducou o direito potestativo de anulação da deliberação social; O vício de anulabilidade e
dto potestativo de B desapareceram.

Exercício 51
Cada um tem 33,3 %
Se foi há 15 dias, n há problema do prazo
Lucro de 50.000

228
No ponto 2, para além da proposta dos gerentes (dividir tudo por todos), foi apresentada uma
proposta por B pra reservas livres.
Essa proposta teve 2/3 dos votos.
O que votou vencido pretende saber como reagir..

3 problemas são levantados:


Quer por achar que ela n-ao reuniu a quantidade de votos legalmente necessária
Art 217º, nº1: Finalidade desta norma- proteger os sócios minoritários; Não há maioria exigida;
Verifica-se maioria simples, mas não a legal que se exige. Consequências:
- Anulação da deliberação 58º,1,a
Mas dizer isto não chega... é preciso falar da problemática- Querela das deliberações que n
reunam a maioria dos votos.... Há quem diga que o vício aqui pode ser o da inexistência ou da
aparência da deliberação.
O vício da inexistência, ainda que n esteja previsto na lei.

Conclusão:
o 217,1

o Não tá preenchida maioria de ¾

o Querela doutrinária: pra uns é anulabilidade, para outros é inexistência

Quer por ter sido apresentada sem a antecedência devida


248º,3: exige 15 dias antecedência, carta registada...
Aqui nada se diz sobre isto. E num caso prático n vamos inventar vícios.
Foi convocada supostamente bem.
Ver 217º- Devemos distinguir:
o Convocatória com assunto ou ordem do dia: Aplicação de resultados- é o assunto da
ordem do dia

o Dentro deste assunto, os socios podem fazer várias propostas de deliberação (sendo este
um direito de paricipação social) sobre assuntos da ordem do dia. Mas sobre o mesmo
assunto, pode haver mais do que uma proposta. Prof interpreta o 217º no sentido de te
que haver.

Conclusão: Afasta-se, portanto, a ideia de antecedência devida.

Quer ainda por, em seu entender, não ter justificação económica


O que pode estar aqui em causa? O que poderá estar aqui a ser convocado?
Qual o problema que C quer levantar?
Deliberações abusivas- fizeram isto sem qualquer razão, foi só pra prejudicar.
Constava do enunciado q reserva legal já se encontrava preeenchida e soceidade n pcisava
daquele dinheiro pra reservas livres... Por isso é que proposta inicial seria distribuir tudo em
dividendos... E agora n querem distribuir nada... Daí se dizer que é uma deliberação abusiva
(58º,1,b).

229
58.
A sociedade X, S.A., que se dedica à transformação e venda de produtos petrolíferos,
equaciona dedicar-se igualmente à extração de petróleo. A sociedade encarregou o
administrador F de realizar um estudo, de forma a tentar descobrir novos jazigos
petrolíferos. Aproveitando-se dos resultados positivos deste estudo, F adquiriu
pessoalmente um terreno rico em petróleo.
A sociedade X, S.A. pretende exigir o terreno para si ou, caso tal se revele impossível,
obter uma indemnização pecuniária. Que conselho lhe daria?
O conselho seria o mesmo caso F tivesse adquirido o terreno após ter renunciado ao
cargo?

Comportamento desleal – em exercício de funções obteve informações sobre terrenos


e em vez de fazer com a sociedade aproveitasse desses terrenos aproveita a
oportunidade de negócio para si. Está aqui em causa um abuso de informação e uma
apropriação de uma oportunidade de negócio societária.

- oportunidades de negócio associadas a informação privilegiada;


- atos isolados de concorrência;

Um único ato de concorrência – não é proibido através das normas específicas da


proibição de concorrência mas o 64º/1 b) proíbe, este é sempre um ato desleal –
apropriação de um oportunidade de negócio societário por força de conhecimento de
informação privilegiada.

Consequência jurídica:
EUA – reação com garras, constroem um construtctive trust, o terreno é propriedade
do sócio mas por conta da sociedade.
Portugal – pagamento de indeminização. Instituto de responsabilidade civil não abarca
os lucros obtidos pelo infrator – isto pode não constituir uma grande sanção, os lucros
do infrator serão certamente mais elevados do que os danos da lesada.

Possibilidade de recurso ao ESC – sócio já tem de restituir os lucros que teve.

Função punitiva da responsabilidade civil – já foi discutido numa tese de


doutoramento e numa de mestrado a possibilidade de indeminização mas com base na
ideia de restituição do lucro.

Importa relevar que a proibição de utilização de informação tem eficácia pós


contratual. Os deveres acessórios de conduta que estão relacionados com a prestação
caem com a cessação de prestação. Agora há outros deveres acessórios que são
deveres de proteção que nascem ainda antes do contrato e perduram após a sua
cessação. Artigos relevantes são o 227º + 776/2.

Aula de dúvidas – dia 2 de manhã;

230
231