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Laerte Cardoso

Graça
www.caminharpublica.com.br

2
“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem
de vós, é dom de Deus;”
Paulo, apóstolo (60 A.D.)

3
Autor
Laerte Cardoso

Diagramação
Luís Rogério Müzel dos Santos
rogerio@etsah.com.br

Capa
Luiz Fernando Brughera
cwi2012@hotmail.com

www.caminharpublica.com.br
Editora Caminhar Publicações
Rua Santa Catarina, 464
Bairro Santa Maria Goretti
Porto Alegre (RS) | 91030-330

4
Sumário

Introdução ............................................................................................. 6

Graça para se conhecer ......................................................................... 9

Graça para ser ..................................................................................... 15

Graça para não ser .............................................................................. 20

Graça para se render ........................................................................... 25

Graça para produzir .............................................................................. 29

Conclusão .............................................................................................. 34

Sobre o autor ........................................................................................ 39

5
Introdução

“Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça,


que me foi concedida, não se tornou vã, antes trabalhei muito
mais do que todos eles; todavia não eu, mas a graça de Deus
comigo”.1

O Evangelho que anunciamos é o Evangelho da graça.


Contudo, ainda que não haja nada de novo nesta afirmação,
quantas vezes nos esquecemos e nos desviamos desta
verdade, nos enveredando por caminhos permeados de
religiosidade humana, repletos de regras sufocantes, e tão
distantes de uma experiência transformadora, que tem a ver
muito mais com a bondade de Deus do que com mero esforço
carnal.
Experiência que envolve fé e confiança num Deus
amoroso que, diante da nossa insuficiência, consciente da
nossa miséria e das inúmeras limitações que nos cercam,

1
1º Co 15:10
6
mesmo assim, optou pelo recurso da misericórdia e abriu mão
do direito de executar juízo sobre nós, transferindo para o seu
próprio Filho a pena que nos cabia,2 – viabilizando salvação
por sua graça redentora, poderosa para nos salvar em todos
os sentidos.3
Infelizmente, por vezes reduzimos o entendimento da
graça divina, destacando somente o aspecto de que por ela
estamos livres da ira vindoura de Deus. É óbvio que isso não é
pouca coisa, muito menos que esta ação da graça seja menor.
Longe disso. Meu coração se regozija todos os dias pela
certeza da salvação que se instalou em mim. Entretanto, a
graça do nosso Deus vai além da salvação do inferno, ela nos
salva de nós mesmos e faz com que a promessa de vida
abundante, feita por Jesus, se cumpra.4
Mesmo sendo incompreendido por muitos, mesmo
sofrendo ataques maldosos daqueles que se diziam irmãos,
Paulo defendeu o Evangelho da graça até as últimas
consequências, pois a revelação que recebeu e a experiência

2
Is 53.5
3
Hb 7.25
4
Jo 10.10
7
que viveu foram muito maiores do que a oposição que ele teve
de enfrentar.
Na sua declaração registrada em sua primeira carta aos
Coríntios, a consciência de um homem marcado pela graça de
Deus fica patente diante dos nossos olhos. Neste curto texto,
a Bíblia nos oferece alguns desdobramentos da graça, os
resultados na vida daqueles que provaram da generosidade
divina.
Esta é a proposta desta singela meditação, levar o leitor
a refletir sobre a graça divina, sem pretensão alguma de
esgotar o inesgotável, mas despertar o nosso espírito, a fim de
que sejamos absorvidos totalmente por Ele.
Que o Senhor Jesus lhe conceda uma abençoada leitura!
No amor de Jesus,
Laerte Cardoso

8
Graça para se conhecer

Ao afirmar “pela graça de Deus, sou o que sou”, Paulo


nos remete ao autoconhecimento que a graça de Deus produz
em nós. A graça nos leva a entendermos quem somos, o que
é de grande relevância, pois este é o primeiro passo para
sermos confrontados.
Ainda que o próprio Paulo tenha dito que “considerava
tudo como perda, por causa da sublimidade do conhecimento
de Cristo Jesus”,5 ainda que o autoconhecimento por si só não
promova a transformação, e que de fato o conhecimento de
Cristo é o que mais importa, por outro lado, saber sobre si
mesmo é fundamental.
A graça realiza em nós o que não conseguimos, isto é
muito mais poderoso do que mero esforço religioso. Isto
extrapola ao rigor que muitos se impõem a si mesmos sem
que resultados sejam alcançados, sem que valores que
norteiam o caráter sejam assimilados. Entretanto, a primeira

5
Fp 3:8
9
ação da graça na vida de uma pessoa, diz respeito ao
autoconhecimento que ela desperta. Ela faz com que nos
avaliemos sob nova perspectiva. Caem as escamas dos nossos
olhos e passamos a nos ver como de fato somos, sem
maquiagem.
Em um dos Salmos6 escritos por Davi, o rei de Israel faz
uma pergunta muito interessante a si mesmo, algo que
colabora com a nossa reflexão:
“Quem há que possa discernir as próprias faltas?”
A questão levantada nos mostra que em muitas
situações, existe de nossa parte uma ignorância a respeito de
nós mesmos. Em muitas áreas da vida, não temos a percepção
das nossas próprias falhas.
Como um simples exemplo, podemos agir de um modo
que no nosso modo de ver a vida é correto, e machucar o
coração de pessoas queridas, sem perceber que aquilo que
fazemos é mal. Muitos têm uma prática completamente
equivocada, pensam que estão fazendo o bem, mas não
enxergam a realidade e continuam repetindo

6
Sl 19:12
10
comportamentos sem suspeitar que estão longe da vontade
de Deus.
Quando Davi pergunta “Quem há que possa discernir as
próprias faltas?”, ele admite que muitas faltas cometidas não
são discernidas por nós, não as consideramos como falhas. Por
isto, apelando para a misericórdia divina ele acrescenta:
“Absolve-me das que me são ocultas”.
Existem muitas coisas que dizem respeito a nós que
estão ocultas aos nossos olhos, e, não obstante estarem
erradas, não nos incomodam. Porém, a graça nos faz ver,
lança luz sobre a escuridão da ignorância, clareia a visão nos
desafiando à transformação.
Quando a graça começa a agir, um confronto se
estabelece com o objetivo de nos libertar das faltas que nos
acompanharam por tantos anos sem que percebêssemos, mas
que estavam o tempo todo diante dos olhos de Deus. 7
O véu da ignorância é retirado a fim de conhecermos
quem de fato somos. Ainda que por um momento isso possa
provocar tristeza, esse confronto entre a nossa realidade

7
Sl 90:8
11
(cheia de faltas, falhas e pecados) de um lado, e a perfeição de
Deus do outro, é necessário para o nosso aperfeiçoamento e
libertação.
Muitas pessoas não provam da transformação de Deus
porque não sabem quem são, não se conhecem a partir do
conhecimento de Deus. Falta a percepção de si mesmas, falta
a convicção de pecados. Para elas tudo está bem, não
acreditam que necessitam de mudança, e por isto não há
quebrantamento. Se existe algum problema, não é com elas,
pois não se percebem, não conhecem os próprios erros, e por
esta razão não alcançam a transformação patrocinada pela
graça.
A primeira ação da graça deve mostrar quem somos,
para que, conscientes da nossa miséria, possamos apelar para
o favor divino. A experiência de Paulo é calcada nesta
premissa que lhe deu o entendimento de quem ele era. Ainda
que durante um tempo de sua vida achasse que tudo estava
certo, ao ser confrontado pela graça, Paulo descobriu quem
de fato era, e foi assim que a transformação da sua vida se
deu.

12
Em Romanos ele expressa a consciência da sua realidade
como homem, e do favor divino que alcançou:
“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do
corpo dessa morte? Graças a Deus por Jesus Cristo nosso
Senhor.”8
Repare que primeiro ele declara a sua falência
(“Desventurado homem que sou”), ele se reconhece como
pecador, então, declara que a graça proposta por Cristo é o
que o livrou de si mesmo. Assim deve acontecer com todos os
homens, primeiro reconhecer o próprio pecado, a fim de
conhecer a perfeita libertação.
Infelizmente, muitos não permitem a ação
transformadora da graça de Deus pelo endurecimento do
coração. Eles conhecem os pecados alheios, mas não admitem
os próprios pecados. São muitos os que testemunharam as
falhas dos outros, e assim justificam as suas incoerências.
Maridos que continuam sem mudar, mas justificam suas más
ações com base nos defeitos da esposa. Esposas que se
escondem por trás dos pecados dos esposos. Filhos que se

8
Rm 7:24,25
13
eximem de culpa por conhecerem os erros dos pais. Discípulos
que não se rendem à graça por conviverem com as faltas dos
seus discipuladores.
Enquanto a graça não nos confrontar, produzindo
quebrantamento, nos levando a reconhecer os nossos
próprios erros, não haverá mudança. Num dos momentos
mais dolorosos da História de Judá, Jeremias propôs um
quebrantamento a partir da consciência individual, do
reconhecimento das faltas de cada um:
“Por que, pois se queixa o homem vivente? Queixe-se
cada um dos seus próprios pecados.” 95
Que a graça nos alcance: produzindo consciência de
quem somos de fato, nos quebrantando e nos transformando
a cada dia!

9
Lm 3:39
14
Graça para ser

Outro enfoque sobre a graça, a partir da declaração de


Paulo em 1ª Coríntios, reside no entendimento de que a graça
nos é dada para ser e não somente para ter. Repare que o
apóstolo não diz “pela graça de Deus tenho o que tenho”, mas,
“pela graça de Deus sou o que sou”.
Em um mundo tão materialista como o nosso, onde a
maioria das pessoas foca no que pode ter e não no que pode
ser, a pregação do Evangelho da graça torna-se um grande
desafio. Temos que admitir que a maioria é atraída pelo que
pode receber. São aqueles que vão atrás do pão e do peixe,
mas que não se interessam pelo pão que permanece.
Infelizmente, a pregação de sucesso, aquela que seduz,
que atrai multidões, está muito mais voltada para a promessa
de dar as pessoas o que elas querem do que dar a elas o que
de fato precisam. Lamentavelmente, são muitos os que

15
correm atrás da comida que perece e não da que subsiste para
a vida eterna, como nos ensinou Jesus.10
Todavia, quando temos um verdadeiro encontro com a
graça divina, as necessidades desta vida, ainda que tenham a
sua importância, já não ocupam mais a primazia, e o nosso
espírito é despertado para a necessidade de transformação.
Exatamente neste ponto descobrimos o quanto o padrão de
Deus é elevado, o quanto somos limitados, e o quanto
precisamos da ação da graça, a fim de correspondermos à
expectativa do padrão das Escrituras.
Os olhos de Deus estão voltados para o que podemos
ser. A voz do Pai que ecoou nos céus proclamou: “Este é o meu
Filho amado, em quem me comprazo.”11 Paulo, falando do
propósito de Deus para nós, revela que “fomos escolhidos em
Cristo antes da fundação do mundo, para sermos santos e
irrepreensíveis perante ele; em amor.”12 Deus teve prazer no

10
Jo 6.27
11
Mt 3.17
12
Ef 1.4
16
que o Filho era, e, do mesmo modo, quer ter prazer naquilo
que somos.
O projeto é o mesmo, antes de tudo, o Pai quer que
sejamos. Para isto, Ele nos oferece recursos espirituais que
invadem o nosso ser, que nos confrontam, mas também nos
libertam. Ele nos escolheu para sermos santos e
irrepreensíveis, é desejo dele, é plano dele. Portanto,
devemos crer no que foi dito a nosso respeito e receber o
favor imerecido de Deus, que nos faz ser os filhos do seu
sonho.
João diz, no Evangelho que leva o seu nome, que “todos
quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos
de Deus; a saber: aos que creem no seu nome; os quais não
nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da
vontade do homem, mas de Deus”.13

Deus libera poder para sermos filhos. Entenda que não é


a vontade da carne que nos gera, mas a vontade de Deus. Isto
é o que chamamos de milagre. Este é o poder da graça que

13
Jo 1.12,13
17
nos faz ser, que é liberado quando admitimos que somos
incapazes por nós mesmos de alcançarmos o padrão divino,
mas cremos no Deus que é poderoso para realizar esta obra
em nós. Porém, torno a frisar, a obra só começa quando
reconhecemos a nossa real necessidade.
Em Efésios, Paulo apresenta o padrão de Deus para os
seus filhos, mostrando como deve ser a conduta dos maridos,
das esposas, dos filhos, dos patrões, dos empregados, dos
obreiros do Reino.14 Quando olhamos para o texto, podemos
nos impressionar avaliando que estamos muito distantes do
que devemos ser e julgarmos ser impossível atender àquelas
“exigências”. Porém, ainda que esta avaliação possa ser
verdadeira, entendemos que Deus quer revelar a sua vontade,
permitindo que a graça venha agir, nos conduzindo ao
patamar do seu padrão.
Portanto, a reflexão proposta é: “quem eu preciso ser e
não consigo ser?” A partir desta descoberta é que a graça
começará a agir no sentido da nossa transformação. É ela que
me faz ser quem eu preciso ser. Muito mais do que a graça

14
Ef 5 e 6
18
que me faz ter, que me faz conquistar bênçãos transitórias,
ainda que necessárias, mas que não subsistem para a vida
eterna.
O Evangelho não é um mero código de ética. O
Evangelho é o poder de Deus para a salvação de todo aquele
que crê.15 Capaz de transformar o mais miserável dos
pecadores em uma pessoa santa e irrepreensível. Creia nisto
e desfrute do poder da graça para viver como uma nova
criatura.16

15
Rm 1.16
16
2º Co 5.17
19
Graça para não ser

Ao declarar “pela graça de Deus sou o que sou”, Paulo


também nos dá o entendimento de que para ser quem Deus
quer, devemos deixar de ser aquele que somos. Para que eu
possa ser quem Deus quer, eu preciso deixar de ser quem eu
quero ser, como resultado da minha vontade carnal. A vida
nova que Deus nos concede só se instala à medida que
deixamos para trás a velha vida. Deste modo, devemos
reconhecer que precisamos da graça para abandonar a vida
que um dia vivemos, isto é o que chamamos de graça para não
ser.
Paulo diz em 1ª Coríntios que “quando era menino,
falava como menino, sentia como menino, pensava como
menino, quando chegou a ser homem, desistiu das coisas
próprias de menino”.17 Ele diz ter desistido das coisas próprias
de menino. É importante destacar isto: Paulo teve que
desistir. O caminho da transformação pela graça depende de

17
1º Co 13.1

20
muitas desistências, de muitos abandonos, de muitas
rupturas, de muitas decisões. Infelizmente, muitos ainda não
provaram da graça que nos leva a desistir do nosso antigo
modo de vida.
Jesus disse que “quem quiser salvar a sua vida perdê-la-
á; e quem perder a vida por causa dele achá-la-á.”18 As
palavras de Jesus enfatizam a necessidade de perder para
poder ganhar. A vida nova substitui a vida que foi
abandonada, que foi deixada para trás. Mas aí é que reside a
dificuldade, é nesse ponto que muitos tropeçam e desistem,
quando se dão conta de que não conseguem deixar de ser o
que são. É nessa hora que se deve contar com a graça
transformadora de Deus que nos leva a não ser.
Veja o que disse Jesus no Evangelho de Marcos:
“E, se tua mão te faz tropeçar, corta-a; pois é melhor
entrares maneta na vida do que, tendo as duas mãos, ires para
o inferno, para o fogo inextinguível. E, se teu pé te faz tropeçar,
corta-o; é melhor entrares na vida aleijado do que, tendo os
dois pés, seres lançado no inferno. E, se um dos teus olhos te

18
Mt 16.25
21
faz tropeçar, arranca-o; é melhor entrares no reino de Deus
com um só dos teus olhos do que, tendo os dois, seres lançado
no inferno, ...”.19
Neste texto, o Mestre está nos alertando para o perigo
de perdermos a salvação por aquilo que trazemos conosco e
que deve ser retirado de nós. Veja que é esperado de nossa
parte uma voluntariedade em arrancarmos aquilo que pode
nos roubar a vida eterna que Ele nos outorgou. É o perigo da
mão que se lança sobre o que não nos pertence; é o pé leviano
que nos conduz por caminhos tortuosos; é o olho malicioso
que desperta a cobiça. É deste modo que muitos são mantidos
longe da vida de Deus, cativos dos males que neles habitam.20
Até que num encontro real com a graça, desperte a disposição
para realizar essas amputações na alma.
Compreenda que a graça vai além do perdão dos
pecados, ela também promove a libertação dos pecados. É por
ela que são quebradas as algemas que prendem o homem aos

19
Mc 9.43-47
20
Rm 7.18
22
desvios do seu caráter. É por meio dela que decidimos perder
para poder ganhar.
Como não ser mais trapaceiro? Como não ser mais
mentiroso? Como não ser mais rancoroso? Como não ser mais
invejoso? Como não ser mais mulherengo? Como não ser mais
adúltero? Como não ser mais sem-vergonha? Como não ser?
Como não ser? Como não ser? Eis a questão: eu só posso ser
depois que eu deixo de ser, e se não for pela graça derramada
sobre o coração do quebrantado – que se choca com a sua
dura realidade, com o reconhecimento da sua falência, mas
que descobre a saída no amor e na misericórdia que recheiam
o pacote da graça de Deus, patrocinando a mudança, nos
levando a deixar de ser o que fomos durante toda a vida –,
estaremos perdidos.
Então, a pergunta que devemos fazer aqui é: “quem eu
preciso deixar de ser e não consigo? O que eu preciso perder?”
Pense nas batalhas que você já travou contra a sua carne sem
conseguir o sucesso que esperava. Pense na vergonha que
você sentiu quando fracassou. Agora creia na graça do Senhor,
poderosa para lhe libertar. É ela quem nos permite deixar para

23
trás aquilo que tenta nos tirar do caminho. A graça é
libertadora!

24
Graça para se render

A graça nos leva a nos rendermos à vontade de Deus.


Quando Paulo estava a caminho de Damasco, munido de
cartas para sinagogas, a fim de achar os discípulos de Jesus
para levá-los presos para Jerusalém, ao meio-dia, uma luz
mais resplandecente que o sol brilhou ao seu redor, e uma voz
lhe disse: “Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa é
recalcitrares contra os aguilhões.”21
O verbo recalcitrar, usado neste texto, significa resistir,
rebelar-se, não ceder, dar coices. A voz celestial disse que
Paulo recalcitrava contra os aguilhões, e que essa escolha era
dolorosa. O aguilhão é uma vara com ferrão na ponta usada
para guiar os bois. Quando o animal tenta sair da rota é
empurrado novamente para o caminho – quanto mais ele
insiste em sair, mais se machuca.
A experiência de Paulo nos ensina que, muitas vezes,
entramos por um caminho que julgamos ser correto mas, na

21
Atos 26.14
25
verdade, estamos longe do propósito de Deus. Salomão
ensina que “todos os caminhos do homem são puros aos seus
olhos, mas o Senhor pesa o espírito”.22 No entendimento de
Paulo, ele estava prestando um serviço a Deus, entretanto, na
prática Paulo estava perseguindo a obra de Deus. Ao dizer
“dura coisa é recalcitrares contra os aguilhões”, o Senhor
Jesus está nos mostrando que a graça pode começar a se
manifestar por intermédio de um incômodo. Deus pode usar
um desconforto qualquer para nos apontar a sua vontade.
Entenda que o aguilhão não é feito para matar o animal, mas
para levá-lo a seguir o caminho correto. Da mesma forma,
Deus não quer nos destruir, mas quer nos mostrar um
caminho melhor. Porém, enquanto não nos rendermos à
graça que aponta a direção que devemos seguir, iremos nos
machucar.
Infelizmente, muitas pessoas têm um entendimento
equivocado da graça. Para elas, a graça é uma “varinha
mágica” que podemos usar para realizar a nossa própria
vontade. Elas não percebem que a graça é dada para que a

22
Pv 16.2
26
vontade do Pai se cumpra nelas. Neste sentido, a graça,
pedagogicamente, nos ensina o significado da rendição
incondicional. Ela é o instrumento divino que produz
quebrantamento com o objetivo de nos levar a trilhar o
caminho que Deus tem para nós.
É por intermédio da graça que somos educados no
caminho de Deus. Mesmo tendo que passar por situações
desagradáveis, circunstâncias que a princípio não
entendemos, ao final do processo descobrimos que tudo foi
usado pelo Pai Amoroso para nos libertar dos nossos próprios
equívocos; assim como foi com Paulo, do mesmo modo como
reconheceu o salmista: “foi-me bom ter eu passado pela
aflição, para que aprendesse os teus decretos”.23
Ao dizer “pela graça sou o que sou”, Paulo demonstra
também a sua rendição ao plano de Deus. É uma declaração
que reflete uma alma curada, livre de frustrações, sem o
ressentimento de não ter conseguido ser o que ele queria.
“Sou o que sou” é o reconhecimento do produto da graça na
vida, é a expressão da entrega ao projeto divino que nos

23
Sl 119.71
27
alcançou. “Sou o que sou” é não se envergonhar do resultado
da graça e se render.
Quantas pessoas vivem frustradas, insatisfeitas com elas
mesmas e com o próprio Deus. Quantos não se curvam, não
se vergam, não aceitam a vontade divina sem querer ser o que
Deus quer para elas. “Sou o que sou” não é a declaração de
um apóstolo meramente conformado. “Sou o que sou” não é
o lamento de alguém que, diante das impossibilidades da vida,
impedido de realizar projetos pessoais, teve que se conformar
com o que sobrou.
Muito longe disso! “Sou o que sou” não é se contentar
com o resto, não é a resignação de alguém à infelicidade de
ter que aceitar o que se impôs. “Sou o que sou” é uma
declaração de vitória é o reconhecimento público de que Deus
fez a melhor obra que podia fazer por mim; é o testemunho
da alegria de alguém que entendeu que a excelência do sonho
de Deus se cumpriu nele.

28
Graça para produzir

Outro ponto que merece destaque, na declaração de


Paulo sobre a graça de Deus na sua vida, é que, além de
transformá-lo, a graça também fez com que trabalhasse mais
ainda pelo Reino. Depois de dizer “pela graça de Deus, sou o
que sou”, ele acrescenta: “e a sua graça, que me foi concedida,
não se tornou vã, antes trabalhei muito mais do que todos
eles”.
A manifestação da graça nos filhos de Deus não pode
ficar estancada, tem que fluir. Ela tem que seguir adiante. Ela
não pode se tornar vã. Ela tem que frutificar. Ela deve produzir
resultados. A graça que a princípio nos leva à salvação e
transformação do nosso ser, depois de ter operado em nós,
deve agir por nosso intermédio para que outros também
sejam alcançados por ela. Repare que o propósito não se
encerra quando somos atingidos pela graça.
O projeto é mais amplo, os que foram salvos devem ser
transformados em instrumentos nas mãos do Pai para que

29
outros sejam salvos. Por isto Paulo diz que a graça na sua vida
não se tornou vã, não foi desperdiçada, porque não parou
nele, mas fluiu por seu intermédio produzindo frutos para o
Reino, multiplicando vida.
Quando Jesus se utilizou da figura da videira, afirmando
que Ele é a videira verdadeira e o Pai o agricultor, o Mestre
revelou esse propósito ao explicar aos seus discípulos como
isso funcionaria. Senão, vejamos:
“não fostes vós que me escolhestes a mim, pelo
contrário, eu vos escolhi a vós outros, e vos designei para que
vades e deis frutos, e o vosso fruto permaneça”.24
Repare que Jesus assume a responsabilidade da escolha.
Ele revela que não foi escolhido, mas foi Ele que escolheu. Em
seguida, Ele diz que a escolha trazia consigo um objetivo muito
claro, era uma escolha missionária, respaldada por um
decreto: “para que vades e deis frutos, e o vosso fruto
permaneça”.

24
Jo 15.16

30
O investimento naqueles homens não se resumiu ao
objetivo de salvá-los e transformá-los. A escolha de Jesus não
se limitou ao plano salvífico. O Mestre também quis torná-los
úteis para o serviço do Reino. Por isso, primeiro Ele agiu neles
para depois agir por intermédio deles.
Paulo revela que receber da graça e não produzir é fazer
com que ela se torne vã. Porém, creio que um verdadeiro
encontro com a graça divina não permite àquele que por ela
foi alcançado ficar sossegado num canto sem nada fazer.
Acredito que um dos sinais que evidenciam a graça de
Deus em nossas vidas é o desejo de proclamar o Evangelho e
compartilhar, com todos os que encontrarmos, a boa-nova
que recebemos.
Paulo disse que “tudo fez por causa do evangelho, com o
fim de se tornar cooperador com ele”. 25 Declarou à igreja de
Corinto que “de boa vontade se gastou e ainda continuaria a
se gastar em prol das suas almas”.26 A graça desperta o nosso
ser para o trabalho no Reino. Olhamos para o serviço que

25
1º Co 9.23
26
2º Co 12.15
31
prestamos não apenas como uma obrigação, mas, sobretudo,
como um privilégio.27
Quando experimentamos verdadeiramente a graça,
quando nos damos conta da extensão da obra realizada por
Deus em nós, ficamos constrangidos com tão grande amor.28
Nesse momento, o nosso coração é despertado para a
gratidão. Aí está o cerne da questão. A mola que nos
impulsiona em direção ao trabalho no Reino é a gratidão.
Mesmo sabendo que nada do que possamos fazer irá
aumentar o amor de Deus por nós, mesmo sabendo que não
há como pagar o que foi feito em nosso favor, ainda assim, a
gratidão nos domina e não conseguimos mais ficar de braços
cruzados.
Os que são alcançados pela graça querem se sentir úteis
nas mãos do Deus que os salvou. Eles não aceitam mais a
passividade daqueles que só olham. Os que foram
contemplados com o favor divino se colocam à disposição
para cooperar com o crescimento do Reino.

27
At 5.41
28
2º Co 5.14
32
Esta questão veio à mente do salmista que, diante da
bondade de Deus, perguntou a si mesmo: “Que darei ao
Senhor por todos os seus benefícios para comigo?”29 Para ele,
as palavras não bastavam mais. Ele queria ir além das suas
belas poesias. Ele precisava dar alguma coisa ao Senhor. Ele
precisava fazer alguma coisa pelo seu Reino. Isto nos ensina
que a gratidão dos que reconhecem, pela graça, a
grandiosidade dos feitos de Deus, necessita ser expressada,
ela não se contenta em ficar escondida no coração.

29
Sl 116.12
33
Conclusão

Após declarar que havia trabalhado muito mais que


todos, Paulo reconhece no fim do versículo que na verdade foi
a graça de Deus que o conduziu a servir ao Senhor. Para
finalizar a nossa meditação, devemos entender que a graça é
o tudo de Deus. É por ela que nos movemos, fora da graça não
há vida de Deus. Mesmo quando nos decidimos; mesmo
quando nos esforçamos; mesmo quando nos gastamos;
mesmo quando, aparentemente, fazemos alguma coisa, na
verdade, é a graça de Deus operando em nós. Mais uma vez
foi a bondade de Deus que nos permitiu ser usados por Ele.
Paulo alcançou esta revelação. Ele compreendeu que
trabalhou mais que todos, que se doou mais que todos, mas
que o mérito não era dele, pois foi a graça de Deus que de fato
agiu por seu intermédio.
Talvez a grande dificuldade que encontramos na relação
com a graça divina, resida no fato de não compreendermos
muito bem a parte que nos cabe e a parte que cabe a Deus.

34
Paulo afirma que “Deus é quem efetua em nós tanto o querer
como o realizar, segundo a sua boa vontade”.30 Ora se é Ele
quem efetua o querer e o realizar, o que pode sobrar para
nós?
Deste modo podemos pensar que nada cabe a nós e tudo
cabe a Deus. Sim, é exatamente isto. Porém, esse
entendimento não nos dá o direito de cairmos numa
predestinação fatalista que nos dispensa de
responsabilidades, dando a entender que se não conseguimos
alcançar o êxito foi porque Deus não quis. Absolutamente!
Não podemos colocar na conta de Deus as irresponsabilidades
dos nossos desvarios. Não podemos culpá-lo por aquilo que
não conseguimos fazer. Pelo contrário, a graça nos é oferecida
para que Deus possa querer e realizar por nós, mas isso não
nos transforma em fantoches sem vontade própria,
desprovidos de livre-arbítrio, que não realizam nada.
Paulo está dizendo que ele trabalhou sim, ele se esforçou
sim, mas isso só aconteceu por ter se rendido à graça que

30
Fp 2.13

35
operou na sua vida. Esta é a figura do advogado que nos
representa diante de um tribunal para nos defender, por
causa da nossa inaptidão. Por não conseguirmos fazer a nossa
defesa, entregamos uma procuração para que alguém, que
sabe fazer o que não sabemos, nos defenda. É assim a vida na
graça de Deus, entregamos uma procuração ao Senhor, para
que Ele realize por nós e por meio de nós. 31
A graça nos dá a compreensão da nossa falência, mas
também aponta para a disposição divina de nos socorrer.
Paulo diz que “Ele nos deu vida, estando nós mortos nos
nossos delitos e pecados”.32 Nós estávamos mortos,
completamente alheios à vontade de Deus, sem noção alguma
do que é vida de verdade, quando Deus resolveu agir. E a ação
de Deus foi de nos dar o que não tínhamos. É óbvio que
ninguém pode dar aquilo que não tem. Ele nos deu vida
porque tem vida, porque a vida está nele. Ele é a própria vida.
Esta é a grande descoberta da graça, é deste modo que somos

31
1ª Jo 2.1
32
Ef 2.1
36
despertados e impulsionados na direção do Pai Amoroso que
nos conduz às águas de descanso.33
Esta foi a experiência de Davi, que descobriu na presença
de Deus o melhor lugar para se viver, o lugar da sua rendição
incondicional, o lugar da sua cura e restauração. Ali, Davi
descobriu que a graça é melhor que a vida. Ali, ele descobriu
que na nossa entrega, o Todo-Poderoso assume as nossas
guerras e nos dá vitórias. Foi na presença do Senhor que Davi
descobriu que Ele não faz caso da força do cavalo, nem se
compraz nos músculos do guerreiro, mas que o Senhor se
agrada dos que o temem, e dos que esperam na sua
misericórdia.34
Que o Senhor, por misericórdia e graça, nos alcance e
conceda entendimento, para que, na nossa entrega, Ele
realize em nós todo o seu querer.
“Ó Deus, tu és o meu Deus forte; eu te busco
ansiosamente; a minha alma tem sede de ti; meu corpo te
almeja, como terra árida, exausta, sem água. Assim, eu te

33
Sl 23.2
34
Sl 147.10,11
37
contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória.
Porque a tua graça é melhor do que a vida; os meus lábios te
louvam.35

35
Sl 63.1-3
38
Sobre o autor

Laerte Cardoso é pastor há mais de trinta anos. Com


formação em Teologia e Licenciatura em História, seu
ministério tem no cuidado e estruturação da família e
treinamento de liderança, as suas principais ênfases.

Casado há trinta e quatro anos com Simone Cardoso, é


fundador da Igreja Caminho Santo , ministério com sede em
Porto Alegre, RS.

Além de sua responsabilidade com a igreja local,


também coordena uma equipe apostólica, supervisionando
mais de cem igrejas no Rio Grande do Sul, alcançando mais de
vinte mil discípulos. Sua experiência ministerial de décadas
tem sido compartilhada como conferencista e por intermédio
de sua literatura.

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