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AULA 2 – INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DE SANTO

AGOSTINHO – CRISTIANISMO E FILOSOFIA


Pater noster, qui es in cælis,
sanctificétur nomen tuum;
advéniat regnum tuum; fiat volúntas tua sicut in cælo, et in terra.
Panem nostrum cotidiánum da nobis hódie,
et dimítte nobis débita nostra
sicut et nos dimíttimus debitóribus nostris.
Et ne nos indúcas in tentatiónem,
sed líbera nos a malo.
Ámem
1. Cristianismo e filosofia
O conteúdo da Fé cristã possui, em alguns aspectos, uma relação com a tradição judaica,
mas quando se para pensar sobre seu conteúdo filosófico que se manifestou nos primeiros
séculos da Era cristã, percebe-se que ele é consequência do encontro do cristianismo com a
tradição filosófica pagã. E não apenas do encontro, mas muitas vezes do confronto, ou seja, do
conjunto de debates e discussões entre as ideias cristãs e as filosofias gregas e romanas.

2. Dimensão histórica (fator


externo)

Para compreender esta relação de uma


maneira minimamente adequada, é preciso
analisa-la a partir de duas perspectivas. Em
primeiro lugar, a dimensão histórica, que é
um fator externo, não pode ser desprezada e,
depois, a ligação interna do cristianismo
com a filosofia. Nos primeiros séculos,
quando se fala em pensadores cristãos, é
muito complicado usar os termos “filósofos”
ou “filosofia Patrística”. Não se quer dizer
que não houvesse filosofia, mas afirma-se
primeiramente que procurar no período da
Patrística a distinção clara que se faz entre,
por exemplo, filosofia e teologia, não tem
muito sentido, pois os Padres da Igreja não
fizeram isso. Sendo assim, como denominar
esses pensadores? Eles eram simplesmente
Padres da Igreja, defensores da Fé e foram
grandes escritores. Argumenta-se isto
Os quatro Padres da Igreja Latina, por Abraham Bloemaert porque talvez muitos não gostariam de
(1632)
serem chamados de filósofos, pois este termo tinha conotação pagã.
No entanto, é inegável que houve o encontro entre cristianismo e filosofia e todas as
tendências de pensamento usavam ou liam coisas provenientes da filosofia grega ou romana, e,
sendo assim, seria muito difícil partir do pressuposto ou achar que os cristãos não seriam
atingidos com esse tipo de literatura e pensamento.
Com o intenso uso de determinados autores de âmbito filosófico, os cristãos tiveram o
contato com essas obras e com a tradição filosófica. Neste contexto, eles passam a ser
questionados sobre qual seria o sentido de falar de Ressurreição, de Eucaristia, e de Santíssima
Trindade, por exemplo. Eles são, pois, desafiados constantemente, não só na medida em que
estudam, mas quando dialogam, a defender o conteúdo especulativo e doutrinal da Fé. E isto
não só pela exigência teórica, mas também por uma questão de sobrevivência do cristianismo
na sociedade na qual estava inserido. Isto contribuiu para que nos cristãos despertasse um
interesse crescente pela filosofia.
Nem todos concordavam com essa
aproximação e entendiam que a filosofia era
perigosa e deveria ser rejeitada. Mas mesmo
que isto tenha acontecido, até para rejeitar a
filosofia, os que isto fizeram acabavam, de
certa maneira, por passar por dentro dela e
usavam elementos seus para negar a
proximidade que ocorria. Tertuliano, por
exemplo, apresenta ideias e argumentos de
cunho filosófico para a não aproximação com
ela.
Outra coisa que chama a atenção neste
contexto é a questão da apologética. Os cristãos
precisavam justificar o seu direito de existência
e também explicitar a coerência de sua
doutrina. Sendo assim, para mostrar a
singularidade e a superioridade do cristianismo
em relação ao paganismo, os apologistas
precisavam de um instrumento filosófico.
Noutras palavras, seria de extrema importância
instrumentos de reflexão teórica para defender Monge lendo na biblioteca do mosteiro, por Eduard von
Grützner
a Religião Cristã.
Além disso, também para estabelecer uma relação hermanêutica entre o Antigo e o Novo
Testamentos, este referencial filosófico muitas vezes foi de grande relevância para fixar uma
continuidade entre os textos produzidos no contexto judaico e os da comunidade cristã. Sabe-
se que desde o início já havia questionamentos sobre isso, pois por vezes alguns quiseram
rejeitar o Antigo Testamento e permanecer somente com o Novo. Tenha-se em vista que isso
ocorreu dentro de um processo lento, e que apesar de no século II o cânon bíblico não estar
estabelecido ainda, já havia uma discussão neste sentido com o auxílio de elementos da
filosofia.
Outro ponto a se considerar são as divergências e questões internas da comunidade cristã,
que estimularam a busca de meios teóricos e filosóficos de elucidação. Na medida em que se
estabeleceram contradições entre os próprios cristãos, fez-se necessário não apenas o diálogo,
mas explicitar a posição de Fé mais coerente, clara e verdadeira. Para isso, o domínio de
determinados meios teóricos – noções, conceitos e argumentos – ajudou a elucidar os debates
e as questões que foram realizadas, além de preservar o caráter fundamental dos mistérios da
Fé. Isto foi muito peculiar no contexto da Patrística e de grande importância para o combate das
heresias.
Alguém poderia indagar, ainda neste assunto, se algumas heresias não seriam o resultado
do excesso de filosofia, como o arianismo. De fato, com a mistura de soberba e o excesso de
filosofia, coisas ruins podem surgir. No entanto, muitos Padres procuraram mostrar que o uso
da disciplina filosófica foi não apenas exagerado, mas também equivocado. A grande questão
é buscar os meios teóricos e filosóficos adequados que ajudem a ter a compreensão clara do
dado da Fé, sem feri-La e ir além da sua dimensão mistérica.
Todos esses pontos elencados são de ordem histórica. Os cristãos não só encontraram, mas
também buscaram o âmbito filosófico por todos estes motivos destacados. E se alguns
rejeitaram a filosofia, inclusive para fazerem isto, como dito, usaram da própria disciplina
filosófica. Diante de todos os acontecimentos mencionados, muitos cristãos foram, de fato,
estimulados a buscar o conhecimento filosófico e o seu aprofundamento.

3. Ligação interna entre cristianismo e filosofia: elemento novo


No entanto, há uma segunda perspectiva: até que ponto se pode dizer que na relação do
cristianismo com a filosofia existe apenas uma relação histórica? Ao olhar para o
desenvolvimento filosófico do cristianismo, pode-se dizer que ele não passaria pela evolução
pela qual passou se não fosse o incremento importantíssimo da filosofia grega. Houve o
encontro (o fator externo, dimensão histórica), mas na própria maneira do cristianismo ver o
mundo, a existência e a vida, já existem elementos que implicam uma necessidade de reflexão
filosófica (ligação interna).
A interlocução entre cristianismo e filosofia se aceitaria também na singularidade do
conteúdo de sabedoria que o cristianismo inclui, ou seja, que ele traz de novidade. Se, por um
lado, os gregos tinham a sua concepção de sabedoria, por outro, o cristianismo tem o seu próprio
conceito, que tem uma identidade própria.
Em um simplismo extremamente equivocado se poderia fazer uma objeção e dizer que o
cristianismo primitivo foi simplesmente uma filosofia, o que se pode responder que não.
Quando alguém pedia a Jesus para ser curado, é possível ler claramente nos Evangelhos que o
Cristo não perguntava o que é a cura?. Vale ressaltar que, apesar de sua metodologia ter sido
diferente do que faziam os filósofos antigos, não se quer dizer que Ele não tenha utilizado
elementos filosóficos.
De fato, desde os primeiros séculos a Igreja apresentava-Se como o caminho de Salvação,
como seu Divino Mestre assim o fazia. No entanto, quando se apresenta a doutrina cristã como
a da Salvação, evidentemente se ressalta bastante o seu aspecto prático. Surge, pois, uma
preocupação com o tipo de vida que a pessoa deve levar, e não apenas com o seu modo de
pensar.
Sendo assim, poderiam afirmar que a religião está apenas do lado prático, e que a dimensão
contemplativa da filosofia grega estaria com o teor especulativo teórico, o que geraria, desta
forma, uma exclusão mútua. No entanto, isto não corresponde à verdade nem à finalidade da
própria comparação, e trairia os dois lados. Ao parar e analisar, por exemplo, o pensamento de
Platão e o modo como ele apresenta sua filosofia, é possível ver que há as dimensões do sensível
e a do inteligível, onde a primeira tem um aspecto de aparência e não explica a si própria, além
de depender da segunda.
Se Platão faz esta diferença, a alma pode, na medida em que realiza o movimento dialético,
conseguir chegar à contemplação das formas, que seriam os modelos originais de todas as
coisas. Isto é a teoria para o filósofo grego, e está no âmbito da contemplação. Porém não se
pode esquecer a raiz socrática do pensamento
platônico: se existe esta sabedoria
contemplativa que mostra o destino racional da
alma (a alma precisa reencontrar a sua
dimensão suprassensível e imortal através do
esforço ascético), há também a manifestação da
dimensão ética, justamente por causa do
esforço intelectual e ascético.
As dimensões do bem e da verdade,
portanto, estão presentes neste contexto e
ocorre, assim, uma identificação entre elas, o
que caracteriza uma unidade entre saber (ligado
à questão da Verdade) e virtude (ligada à
questão do Bem). Se é assim, como dizer que
só existe uma dimensão teorética no
pensamento platônico, como se não houvesse
uma dimensão prática? Da mesma maneira,
quando se pára para pensar no contexto cristão,
surge igualmente uma dificuldade de se
estabelecer uma distinção tão radical entre
A apoteose de Santo Tomás de Aquino, por Francisco de teoria e prática.
Zurbarán (1631) A maneira como o cristianismo
compreende a questão da sabedoria inclui a
ordenação da vida à Salvação. Sendo assim, é nítido que se há uma dimensão salvífica que
precisa ser buscada, é necessário preocupar-se sobre o tipo de vida que se terá. Portanto, o
homem precisa ordenar a sua vida para este fim, isto é, a Salvação é a finalidade de sua estadia
transitória neste mundo. Isto supõe, portanto, como fundamento da prática da virtude e do
próprio processo da santificação, o contato da alma com o Bem e com a inefável Fonte das
verdades (a Verdade absoluta, o Cristo), que sustentam todo o processo de crescimento e de
purificação.
Desta forma, esta contemplação é movida não apenas pela razão, mas também pela Fé, e,
na medida em que isto acontece, ela se nutre também da compreensão possível que se pode ter
da transformação ético-histórica que constitui a novidade cristã. Isto mostra, em outras palavras,
que a oposição excludente entre Verdade cristã x filosofia grega é falsa.

4. Desfecho
Mas por que, principalmente do ponto de vista cristão, isto é falso? Como se pode conceber
que o cristianismo, apesar de ser doutrina de Salvação e de valorizar tanto o aspecto prático,
nunca sufocou e proibiu a dimensão especulativa, mas ao contrário, impulsionou-a? Parece que
o único caminho é questionar qual é, de fato, a noção de sabedoria que o cristianismo traz. O
que é, portanto, a sabedoria segundo a Igreja Católica? E além disso, qual é a especificidade da
sabedoria cristã? O que esta tem, em seu modo de ser, que ajuda o homem a entender que,
apesar da dimensão prática, ela também implica uma dimensão teorética? Na próxima
exposição, pois, estas questões serão analisadas.

Sub tuum praesídium confúgimus,


Sancta Dei Génetrix.
Nostras deprecatiónes ne despícias in necessitátibus,
sed a perículis cunctis libera nos semper,
Virgo gloriósa et benedícta.
Ámen