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AULA 16 – INTRODUÇÃO AO PENSAMENTO DE SANTO

AGOSTINHO – BEATITUDE – PARTE III


Inspirai, ó Senhor, as nossas ações e
ajudai-nos a realizá-las, para que em
Vós comece e termine tudo aquilo que
fizermos. Por Cristo, Senhor Nosso.
Amém.
Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por
nós.

1. Deus e o homem

Depois de mostrada a equivalência entre as


proposições dadas para que alguém possua a Deus,
surge uma pergunta de grande importância: Deus
quer que o homem O procure? Todos admitem que
sim, e aparece outro questionamento: é possível
dizer que quem procura a Deus vive mal, se ainda
não O possui, apenas O busca? E todos concluem
que, de modo nenhum, aqueles que procuram a
Deus vivem mal.
Se Deus quer que o homem O procure, e este
faz isso, não poderia viver mal, já que faz aquilo que
o Criador quer. Logo, Agostinho apresenta um
problema: o indivíduo que tem o espírito impuro
pode procurar a Deus? Em um primeiro momento
todos negam, e o Santo apresenta uma conclusão
que mostra que eles foram precipitados ao
afirmarem que quem vive bem, faz o que Deus quer,
Santo Agostinho e Santa Mônica, por Ary Scheffer
e não tem o espírito impuro possui a Deus.
Para ele, se alguém cumpre estas proposições, mas ainda O procura, é porque ainda não O
possui de maneira tão imediata, como foi aceita anteriormente, pois não se pode procurar o que
já se tem totalmente. Na mesma obra A vida feliz ele diz:

“Segue-se que não se deve crer que quem vive bem e faz o que Deus quer e não tem
o espírito impuro possua a Deus necessariamente.”

Todos começaram a rir por terem sido enganados por suas próprias conclusões. Mônica
intervém e pede ao seu filho para explicar melhor o que ele quer dizer. Quando recebe a resposta
dele, ela diz que ninguém pode chegar a Deus sem O procurar. E para Agostinho:

“Contudo, quem até hoje O procura ainda não alcançou Deus, mesmo que viva bem,
Portanto, nem todo aquele que vive bem, possui Deus.”
Havia uma ideia cética dos Acadêmicos de que a pessoa poderia ser feliz simplesmente
buscando mesmo sem encontrar e possuir, mas Agostinho, nesta obra, quer mostrar que não. A
busca tem o seu valor importante, mas somente ela não é suficiente para garantir plenamente a
felicidade.

2. Buscar e possuir a Deus


Santa Mônica responde dizendo:

“A mim parece que ninguém O possui, mas que quem vive bem O tem favorável, e
quem vive mal O tem por hostil.”

O Santo percebe que a conclusão do dia anterior não foi boa, que afirmava que quem possui
Deus é feliz, porque se é verdade que todo homem possui a Deus, nem por isso todo homem é
feliz. Inicia-se com isso uma discussão importante, a da análise da presença de Deus no ser
humano, e estabelece-se um ponto de grande relevância: possui e ter a Deus são coisas
diferentes. Segundo Mônica, ninguém possui a Deus, mas há pessoas (as que vivem bem) que
tem a Deus por favorável, ou seja, o Criador as ajuda de diversas maneiras; e aquelas (as que
vivem mal) que tem a Deus, mas de maneira hostil.
Todo homem tem a Deus no sentido de Sua presença ontológica natural, isto é, Ele está
presente em sua obra da Criação e sustenta o seu ser. A criatura participa do Ser do Criador,
que decorre imediatamente do ato criador ou por derivação ontológica, pois ela, enquanto ser
limitado e finito, é, mas não é por si, e sim por Deus – isto significa que seu princípio ontológico
não está nela mesma, mas em Outro que é mais perfeito e é sua Causa primeira (Deus).
Trigésio resiste um pouco a essas considerações e diz que não admite tão depressa que
Deus seja hostil a quem Ele não é favorável, e julga que deve haver um meio termo. Agostinho
o questiona:

“esse homem que se encontra no meio termo, a quem Deus não é favorável nem
desfavorável, acredita que possui a Deus de alguma maneira?”

Neste momento, Mônica diz que uma coisa é possuir Deus, e outra é não estar sem Deus.
Esta é justamente a questão ontológica mencionada: é possível não possuir a Deus, e, ao mesmo
tempo, não estar sem Deus. Portanto, no plano natural e ontológico, Deus está presente no
homem e sustenta seu ser (isto é não estar sem Deus). E diante da fala de sua mãe, Agostinho
pergunta qual das possibilidades é a melhor, obtendo por resposta o seguinte:

“Tanto quanto me é dado compreender, essa é minha posição: quem vive bem, tem
Deus, mas favorável; quem vive mal, tem Deus, mas hostil; quem até agora procura e
ainda não O encontrou, não O tem nem favorável nem hostil, mas não está sem Deus.”

Santa Mônica tenta mostrar que há uma distinção entre não estar sem Deus, que seria a
presença ontológica de Deus em tudo o que criou, e o possuir a Deus. Todos concordam e
Agostinho levanta outra questão, a saber, se não parece que Deus é favorável a quem favorece.
Todos concordam novamente e o Santo continua: “E Deus não favorece o homem que O
procura?”. Todos dizem que sim e ele prossegue:
“Portanto, quem procura a Deus, tem-no de maneira favorável, e quem quer que tenha
a Deus favorável é feliz. Logo, mesmo quem O procura é feliz, mas quem procura
ainda não tem o que quer, por isso, quem não tem o que quer é feliz.”

É preciso acautelar-se com os textos agostinianos, pois o autor levanta questões que podem
parecer contraditórias. Além disso, deve-se ter em conta que se pode chegar a conclusões
temporárias, que podem ser reformuladas ou aprofundadas. Neste momento do diálogo, o Santo
mostra que eles fizeram uma conclusão rápida demais, concebendo coisas que não deveriam
conceber.
Se, de fato, Deus é favorável a quem O procura, e se ser favorável é favorecer, então Ele
favorece aquele que O procura. Porém, quem procura a Deus O terá como favorável e quem
quer que tenha a Deus de maneira favorável, parece que já é feliz. Sendo assim, seria possível
dizer que quem O procura já é feliz, mesmo sem encontrá-Lo, o que contradiz o que foi dito
antes.
Agostinho se mostra contrário e diz que de modo nenhum se pode ser feliz quem não tem
o que quer, e, portanto, não basta ter Deus apenas de maneira favorável para ser feliz, mas é
necessário encontrá-Lo plenamente. Isto significa que, como dito, o ser humano, no plano
ontológico, não está sem Deus, mas O tem (é diferente de possuí-Lo), e é assim mesmo se negar
a Fé, pois há um vínculo natural entre o homem e Deus. Sendo assim, o homem tem a Deus
como seu sustento, e pode buscá-Lo, tendo-O por favorável, assim como afastar-se Dele, o que
se dá apenas no sentido ético e moral, tendo-O por hostil, e nessas duas possibilidades não será
plenamente feliz.

3. A presença de Deus na vida do homem

O Santo expõe, então, a necessidade de reformular algumas questões e se aprofundar na


temática da presença de Deus na vida do ser humano:

“Por conseguinte, conclui eu, chegamos a essa distinção: quem já encontrou Deus e
tendo-O favorável é feliz; quem procura Deus e O tem como favorável, ainda não é
feliz. Pelo contrário, quem se afasta de Deus, por vícios e pecados, não só não é feliz
como não vive com o favor de Deus.”

A partir destas considerações, Agostinho ainda diz:

“Receio que não estejais perturbados por algo que já tínhamos acordado, isto é, que
quem não é feliz é infeliz, e cuja consequência fará infeliz o homem que tem Deus
favorável de quem há pouco dissemos e por quanto procura a Deus ainda não é feliz.
Ou como disse Túlio, vamos chamar ricos aos proprietários de muitos domínios aqui
na Terra, e acerca dos que possuem todas as virtudes diremos que são pobres. Reparai,
no entanto, que se é verdade que todo o indigente é infeliz, também do mesmo modo
todo infeliz é indigente. Assim é verdade que a infelicidade não é outra coisa senão a
indigência”

Há, como se vê, uma íntima relação entre infelicidade e indigência, isto é, aquele que é
indigente parece ser o infeliz, porque, no fundo, todo infeliz é indigente. Sendo assim, seria
feliz apenas aquele que é rico? Agostinho questiona isso, pois qual seria a natureza desta
indigência? Será que estaria ligada, como logo se pensa, à falta de riquezas? Conclui-se que
não.
Para esta investigação, o Santo levanta alguns pontos:

“Ninguém duvida que todo aquele que é indigente é infeliz. Não temos que recear
aqui com as necessidades corporais dos sábios, porque a alma onde se encontra a vida
feliz não sofre essa indigência. Ela é perfeita, e o que é perfeito não carece de nada.
Se tiver a mão o que parece necessário ao corpo, o sábio toma-o. Mas se tal não
acontecer, não sofre com a sua falta, porque quem é sábio é forte, e quem é forte não
teme, seja o que for. O sábio não teme, portanto, nem a morte do corpo nem as dores
que não pode suprimir, evitar ou odiar, coisas necessárias cuja falta os pode afetar.
Todavia, se elas não lhe faltarem, não deixa de as usar corretamente. É por isso, muito
verdadeiramente essa máxima: é estultice tolerares tudo o que puderes evitar
(TERÊNCIO).
Evitará, portanto, a morte e a dor, na medida em que for possível ou conveniente e, se
diria um modo as evitar, não será infeliz por aquilo que acontece, mas porque podendo
evitá-las não o quis, o que é sinal evidente de insensatez. Será infeliz não porque as
evitou ou suportou pacientemente, mas em virtude da sua insensatez. E se não pôde
evitá-las, ainda que nisso se tivessem empenhado, com todo zelo e conveniência, não
são aquelas contrariedades que o vão tornar infeliz. Não é, de fato, menos verdadeira
outra máxima do mesmo comediógrafo: vi isto que não podes fazer o que queres, quer
o que podes (TERÊNCIO).”

Agostinho menciona o poeta romano Terêncio, que fala o que na tradição era muito
discutido: a relação entre felicidade e a figura do sábio. Por que o sábio, e somente ele, pode
ser feliz? E qual é a relação disto com a indigência?

4. Desfecho
É necessário, pois, refletir sobre a figura do sábio porque compreender-se-á a relação entre
infelicidade e indigência, assim como as implicações entre felicidade e sabedoria. Estas
considerações, porém, serão apresentadas na próxima exposição.

Glória Patri, et Fílio, et Spirítui Sancto.


Sicut erat in princípio, et nunc, et semper,
et in saécula saeculórum.
Ámen.