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POLÍTICAS CULTURAIS PARA O ATENDIMENTO DA ‘QUESTÃO
SOCIAL’?: O CASO DE BOGOTÁ
Mônica Cristina Moreno-Cubillos1

Resumo: Analisa-se a possível relação entre o atendimento da questão social através


das políticas culturais, tendo como estudo de caso as Políticas Culturais Distritais 2004-
2016 de Bogotá. Ressalta-se a importância de manter uma estrutura interna coerente nos
documentos de política cultural, assim como a necessidade de transformações na ação
administrativa de acordo com a mudança nos discursos com o fim de não desconsiderar
ou exacerbar as manifestações que se pretendem intervir. Finalmente, aponta-se que as
políticas culturais só atendem algumas das manifestações da questão social.

Palavras-chave: Questão social, políticas culturais, Políticas Culturales Distritales


2004-2016 de Bogotá.

1. INTRODUÇÃO
Em geral, poder-se-ia dizer que as cidades contemporâneas atualmente se
caracterizam por sofrer de altos níveis de pobreza, exclusão social, desigualdade,
iniquidade no acesso aos serviços e equipamentos urbanos, discriminação, insegurança e
violência, vulnerabilidade social e espacial, marginalização, entre outras (ZICCARDI,
2001), além de registrar elevadas taxas de desemprego, subemprego e informalidade
consequência dos processos de desindustrialização e terceirização da economia.
Os governos locais tendem a atender estes problemas, em maior medida,
mediante políticas sociais de diversas ordens. As políticas culturais não estão alheias a
desenvolver um rol na atenuação destes. Assim, este trabalho se propõe analisar a
possível relação entre o atendimento destas problemáticas através das políticas culturais,
tendo como estudo de caso as Políticas Culturais Distritais 2004-2016 de Bogotá. Para
isto, além de revisar textos bibliográficos que ajudaram a definir categorias como
questão social e política cultural, principalmente o documento Políticas Culturales
Distritales 2004-2016 em sua segunda edição foi explorado, da mesma forma que textos
que já o tinham estudado desde diferentes perspectivas.

1
Administradora de empresas, especialista em análise de políticas públicas – Universidade Nacional da
Colômbia. Mestranda em Políticas Públicas – Universidade Federal do Maranhão. Bolsista do CNPq e
membro do Núcleo África e o Sul Global. E-mail: monica.m.cubillos@gmail.com
Portanto, esta reflexão está dividida em quatro seções. Na primeira se define a
categoria ‘questão social’, expondo alguns debates em torno a esta, suas principais
manifestações na cidade e as formas em que o Estado a enfrenta. Na segunda se delimita
a categoria ‘política cultural’ levando em conta aspectos como sua origem no sistema de
produção capitalista, seu desenvolvimento histórico na América Latina e os principais
objetivos atribuídos a esta. Na terceira se apresentam as Políticas Culturales Distritales
2004-2016 de Bogotá explicitando o contexto no qual se originaram, seus princípios de
ação, assim como a estrutura para efetivar a intervenção. Finalmente, conclui-se com
algumas considerações sobre o enfrentamento da questão social mediante este
documento em Bogotá.
2. ‘QUESTÃO SOCIAL’: DELIMITANDO A CATEGORIA
A origem da ‘questão social’ coincide com o nascimento da sociedade capitalista
industrial. Como Netto (2001) expressa, o termo começou a ser utilizado na terceira
década do século XIX para dar conta do fenômeno que experimentava os impactos da
primeira onda industrializante, iniciada na Inglaterra a final do século XVIII: o
pauperismo da população trabalhadora (NETTO, 2001, p. 42). A pobreza dos
trabalhadores, no cenário de industrialização e urbanização dessa época na Europa, é
explicada desde a teoria marxista pela lei absoluta geral de acumulação capitalista a
qual indica que a maior produtividade (geralmente obtida através do aumento de meios
de produção mais eficientes e a redução da força viva de trabalho), provoca-se o
crescimento do exército industrial de reserva que leva a uma maior concorrência entre
todos os trabalhadores o que resulta em menores salários e na miséria desta população
porque não todos podem estar ocupados e, portanto não têm as condições para produzir
seus meios de subsistência (IAMAMOTO, 2001, p. 15). Contudo, esta lei é necessária
para os que possuem a propriedade dos recursos materiais dado que o aumento da
produtividade é a alavanca mais poderosa para o incremento do capital. Assim, esta lei
produz e reproduz a ‘questão social’ na sociedade capitalista. Em palavras de Pastorini,
“a ‘questão social’ deve ser entendida como o conjunto de problemáticas sociais,
políticas e econômicas que se geram com o surgimento da classe operária dentro da
sociedade capitalista” (2007, p. 104).
Segundo Iamamoto (2001), a ‘questão social’ se apresenta como uma disfunção
ou ameaça à ordem e à coesão social e uma expressão das desigualdades sociais
resultado do modelo capitalista de produção. Seguindo a Netto (2001), esta foi adotada
e naturalizada pelo pensamento conservador laico quem percebeu suas manifestações
imediatas como características inelimináveis de toda e qualquer ordem social, que
podem, no máximo, ser objeto de uma intervenção política limitada, capaz de minimizá-
las e reduzi-las, entendendo ao capitalismo como natural e como a única via para o
desenvolvimento. Conforme Rosanvallon (1998), o Estado Providência (Welfare State
ou Estado de Bem-Estar), que teve sua grandeza durante os Trinta Anos Gloriosos e que
se desenvolveu com base em um sistema securitário, foi percebido como uma solução a
essa insegurança social. A proposta do Estado Providência se encaminhava à cobertura
dos principais riscos aos quais estavam expostos os trabalhadores (doença, desemprego,
aposentadoria, invalidez, entre outros) através de sua intervenção mediante políticas
sociais (universais e homogeneizadoras) destinadas a atender estas problemáticas
(ROSANVALLON, 1998, p. 36). Nesta perspectiva, o Estado definiria um conjunto de
situações sociais que requerem uma atenção prioritária.
Com a crise do modelo de produção fordista-taylorista do Welfare State (década
de 1970), e o ‘ressurgimento’ dos fenômenos de desemprego e ‘novas formas’ de
pobreza na classe trabalhadora (a partir de 1980), alguns autores tendem a considerar
que existe uma ‘nova questão social’ visto que suas manifestações são consideradas
diferentes. Evidentemente, há mudanças dentro da sociedade contemporânea que
transformam o contexto socioeconômico o qual está marcado pela financierização da
economia mundial como um novo estágio da produção do capital (IAMAMOTO, 2001,
p. 19). Pastorini (2007) agrupa as mudanças em dois tipos: mudanças no mundo do
trabalho e mudanças no Estado. Dentro do primeiro tipo, esta autora identifica como
principais rasgos a flexibilização das relações trabalhistas e a tecnificação como
resultado das transformações dos métodos de produção que levam a preferir a
informatização do processo de automação. Com estes, então, criam-se novas formas de
contratação da mão de obra, negociações coletivas, retraimento dos direitos sociais,
entre outros, que leva a uma desregulamentação das condições de trabalho, um aumento
do desemprego no setor industrial e um “aumento do emprego do setor terciário
(comércio, serviços, setor financeiro, etc.), junto com uma expansão do trabalho parcial,
temporário, subcontratado, precário, terceirizado, vinculado à chamada economia
informal” (PASTORINI, 2007, p. 31, grifo da autora).
Por outra parte, as mudanças ocorridas no Estado compreendem essencialmente
o desmonte do Estado de Bem-Estar que levou a uma redução das taxas do lucro e um
aumento do desemprego. A crise do Estado Providência se apresenta em três aspectos
(ROSANVALLON, 1998): uma crise financeira porque as demandas sociais requerem
cada vez mais ingressos para sua cobertura, uma crise de gestão originada na
incapacidade do Estado para gerenciar as soluções propostas para os problemas sociais e
a quantidade de recursos que o aparato estatal precisa para seu funcionamento, e uma
crise filosófica que se aprecia na perda do princípio de solidariedade e o fracasso da
concepção tradicional dos direitos sociais. Desta forma, o desmonte do Welfare State,
enfocado numa orientação neoliberal através da promoção de um Estado mínimo
(guiado pelas recomendações no Consenso de Washington) mediante a restrição dos
gastos sociais em decorrência da crise fiscal, resulta em “um Estado que desregula,
regulando de uma outra forma, como diz Netto (1993), [ou seja] é um Estado mínimo
para o social e máximo para o capital” (PASTORINI, 2007, p. 39). Esta mudança gera
efeitos nas formas de sociabilidade, dado que se privilegia o papel do mercado como
regulador da vida social sob uma lógica pragmática e produtivista que reforça o
individualismo atingindo todos os aspectos da vida, reduzindo os direitos políticos, tudo
em nome dos direitos civis (principalmente o direito a propriedade privada).
“Concluindo: para os neoliberais, só na sociedade livre mercado os indivíduos podem se
desenvolver plenamente, optar sobre o que fazer e o que não fazer, sem que exista uma
autoridade (Estado) que lhes imponha o que deve ser feito” (PASTORINI, 2007, p. 41).
Por conseguinte, só seria possível falar de uma ‘nova questão social’ se as
manifestações da ‘antiga’ já tivessem sido superadas ou resolvidas, situação que não
pode ser afirmada porquanto o capitalismo não se esgotou (mas se transformou) e as
manifestações da ‘questão social’ são expressões das desigualdades e os antagonismos
próprios da sociedade capitalista, contradições que foram acentuadas em razão ao
estágio vigente (IAMAMOTO, 2001).
Mas, qual tem sido o papel do Estado no enfrentamento desta ‘questão social’?
Esta pergunta é relevante visto que “falar de ‘questão social’ implica necessariamente
fazer referência ao capitalismo e ao Estado por ele constituído” (PASTORINI, 2007, p.
91), assim como as políticas oficiais para o enfrentamento das desigualdades
(IAMAMOTO, 2001).
Desta forma, as estratégias implementadas são influídas por dois projetos sociais
com interesses distintos: por um lado, a defesa dos direitos sociais e por outro, a
mercantilização para o atendimento das necessidades sociais. O primeiro, de caráter
universalista, aposta no avanço da democracia; fundado nos princípios da participação e
do controle popular, da universalização dos direitos, garantindo a gratuidade no acesso
aos serviços, a integralidade das ações voltadas à defesa da cidadania de todos na
perspectiva da equidade. Este projeto exige do Estado um sujeito ativo, o fortalecimento
dos sujeitos coletivos e a construção de espaços oficiais de participação como são os
Conselhos.
Contudo, existe uma força de inspiração neoliberal que polariza o enfoque
anterior, subordinando os direitos sociais à lógica orçamentária e a política social à
política econômica, individualizando os riscos e diferenciando-os para focalizar a
intervenção do Estado (ROSANVALLON, 1998). Como resultado, a atenção das
demandas sociais é orientada por uma racionalidade instrumental, onde a democracia
termina sendo reduzida a um ‘modelo de gestão’ que invisibiliza os sujeitos e a arena
pública em que se expressam e defendem seus interesses. Esse processo se revela em
uma dupla via: por transferência de responsabilidades governamentais para
‘organizações da sociedade civil de interesse público’ (consolidação do ‘terceiro setor’)
ou pela crescente mercantilização do atendimento das necessidades sociais (onde os
serviços sociais não representam direitos sociais, mas estão inscritos no circuito de
compra e venda de mercadorias). Como consequência, a resposta dada pelo Estado - já
seja mediante a mercantilização, tanto como a transferência da implementação dos
programas sociais para o terceiro setor - se encontra dentro dos limites para a
acumulação do capital, enfrentando sintomas, consequências e efeitos, mas não
trocando os fundamentos da sociedade burguesa com o que o Estado reproduz o sistema
capitalista (IAMAMOTO, 2001).
3. POLÍTICAS CULTURAIS: O QUE E PARA QUE?
A importância da cultura dentro do sistema de produção capitalista se observa
desde que o trabalhador assalariado conquista momentos de liberação da cadeia de
produção, ou seja, com a divisão entre tempo laboral e tempo de ócio, tornando possível
destinar certos momentos para desfrutar de práticas, manifestações, repertórios sociais,
bens e serviços dedicados à cultura e ao lazer. Porém, a preocupação do Estado pela
cultura se faz evidente ao fim da Segunda Guerra Mundial com a criação da
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - (UNESCO) e
a posterior Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948 que no artigo 27º
proclama:
Toda a pessoa tem o direito de tomar parte livremente na vida cultural da comunidade,
de fruir as artes e de participar no progresso científico e nos benefícios que deste
resultam. Todos têm direito à proteção dos interesses morais e materiais ligados a
qualquer produção científica, literária ou artística da sua autoria (NAÇÕES UNIDAS,
1948).

Apesar disso, é entre as décadas de 1960 e 1970 que a cultura conseguiu se


inserir no campo das políticas públicas (SILVA, 1993, p. 30; CALABRE, 2013, p. 323)
através, em um primeiro momento, do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos,
Sociais e Culturais, em 1966, que no artigo 15º ratifica:
Os Estados-partes no presente Pacto reconhecem a cada indivíduo o direito de: 1.
Participar da vida cultural; 2. Desfrutar o progresso científico e suas aplicações; 3.
Beneficiar-se da proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de toda a
produção científica, literária ou artística de que seja autor.
As medidas que os Estados-partes no presente Pacto deverão adotar com a finalidade de
assegurar o pleno exercício desse direito incluirão aquelas necessárias à conservação, ao
desenvolvimento e à difusão da ciência e da cultura.
Os Estados-partes no presente Pacto comprometem-se a respeitar a liberdade
indispensável à pesquisa científica e à atividade criadora.
Os Estados-partes no presente Pacto reconhecem os benefícios que derivam do fomento
e do desenvolvimento da cooperação e das relações internacionais no domínio da
ciência e da cultura (NAÇÕES UNIDAS, 1966).

Além disso, para esta época, a UNESCO realizou múltiplas reuniões com o fim
de tentar estabelecer qual seria o papel do Estado numa política cultural. Assim sendo,
as políticas culturais podem ser definidas como o “conjunto de intervenciones realizadas
por el estado, las instituciones civiles y los grupos comunitarios organizados a fin de
orientar el desarrollo simbólico, satisfacer las necesidades culturales de la población y
obtener consenso para un tipo de orden o de transformación social” (GARCÍA
CANCLINI, 2005, p. 79). É preciso assinalar aqui que a forma de intervenção tem
mudado com o passar do tempo. Desde uma perspectiva histórica em América Latina,
Logiódice (2012) expõe que entre 1960 e 1970, as políticas culturais “se politizaram”,
sendo consideradas como ferramentas de transformação social para as distintas forças
políticas da sociedade. Inicialmente, estas foram pensadas desde uma concepção
sociológica da cultura (ou seja, como um conjunto diversificado de demandas - de
profissionais e pessoas dispostas a consumir bens e serviços culturais, visibilidade
institucional, política e econômica), mas para estas décadas passaram a se sustentar
desde uma visão antropológica mais abrangente que concebe a cultura como o resultado
da interação social dos indivíduos que constroem certas maneiras de pensar e sentir e
definem os seus valores, identidades, gerem as suas diferenças e estabelecem suas
rotinas (BOTELHO, 2001).
Já para a década de 1980, a racionalidade econômica começa a dominar os
discursos culturais dos estados, organismos intergovernamentais e intelectuais. Da
mesma forma, entra a ser parte do debate o paradigma da diversidade cultural e as
políticas culturais foram apreciadas como instrumento para intervir na cultura política,
fundamentalmente das classes populares. No decênio de 1990, com a aplicação do
Consenso de Washington, a noção instrumental do econômico da cultura se aprofundou,
com o que “la idea de políticas culturales viene aunada a una noción de la cultura como
recurso sea éste un recurso económico, cultural, social, político o una mezcla de éstos”
(LOGIÓDICE, 2012, p. 81, grifo da autora). Isto fez com que o tema cultural se
reorganizasse seguindo uma racionalidade privada de tipo mercantil, propondo para as
políticas culturais a opção da não intervenção do Estado porquanto a cultura seria
considerada um direito individual e não social, e uma intervenção em termos de
promoção e censura iria contra das liberdades de pensamento, criação e expressão.
Ainda assim, a cultura se considerou como uma ferramenta estratégica para o
desenvolvimento que abrange uma ampla variedade de objetivos que vai desde a
geração de benefícios econômicos até a melhoria da qualidade de vida das pessoas, a
luta contra a exclusão social, o reforço do espírito comunitário, o acesso a espaços
públicos e manifestações autóctones, entre outros (ARVANITAKI, 2007), sobretudo nas
cidades.
Com o início do século XXI, o debate novamente mudou e se centrou na
pluralidade cultural ao reconhecer que as nações não são homogêneas e nesse sentido
propor-se que não existe uma única cultura, mas múltiplas culturas que coabitam no
mesmo território. Assim, “el reconocimiento de una base pluricultural en los estados
implica la existencia de otros derechos, no ya individuales sino colectivos. Y abre a
nivel de políticas culturales nuevas tramas de actores, campos de acción y tensiones. Es
por estas zonas que discurre actualmente la reflexión sobre las políticas culturales”
(LOGIÓDICE, 2012, p. 79).
Como se observar, as concepções de política cultural são variadas, como também
são seus objetivos. Com sua formalização e massificação, como Rausell-Kóster aponta,
“desde 1951, la UNESCO es la rama de las Naciones Unidas que tiene por objeto
fomentar el desarrollo cultural de todo el planeta, concretando la no demonstrada idea
de que cuando gran parte de la población consuma bienes culturales desaparecerá la
mayoría de los conflictos que asolan la convivencia entre los seres humanos” (1999, p.
25); assim, tende-se a pensar que as políticas culturais são úteis para alcançar maiores
graus de coesão e progresso, aprender a respeitar e tolerar a diversidade e manter a
igualdade das oportunidades através do consumo de bens culturais. Sob outra
perspectiva, Gambina (2009) assinala que as atuais políticas culturais nascem desde as
demandas das corporações transnacionais como desde os organismos multilaterais que
articularam diversos mecanismos para a dominação política, econômica e cultural, com
os quais aparece a concepção de serviços de saúde, educação, entre outros em
detrimento da noção de direitos, cujo propósito é “mercantilizar el conjunto de la vida
social, subordinando las esferas de las relaciones sociales cotidianas a la lógica del
mercado; o sea; a las leyes del valor y del plusvalor” (GAMBINA, 2009, p. 62). Desta
forma, assiste-se no século XX, a transformação da cultura numa ‘oportunidade de
negócio’, tornando os indivíduos em meros consumidores de artefatos e experiências
culturais que passam “a ser mais um instrumento de dominação política e econômica e
menos uma oportunidade” (BAPTISTA, 2008, p. 40).
Apesar disso, existem exemplos de políticas culturais, especificamente voltadas
para as artes, ligadas a aspectos de exclusão e inclusão social. As primeiras, geralmente,
são dirigidas a grupos-alvo para abordar barreiras à inclusão, tais como problemas de
saúde, falta de moradia, crime, registro criminal, uso indevido de drogas e prostituição.
No entanto, políticas centradas na inclusão social focalizam desde suas diretrizes e
ações olhando mais pra lá que só os grupos, ou seja, esta ótica “is linked to their
understanding of how individual’s can benefit (or benefit themselves) through being
included in cultural service provision” (McCALL, 2010, p. 180).
Deste modo, pode-se perceber como as políticas culturais terminam, em alguns
casos, servindo para o atendimento das manifestações da ‘questão social’; no entanto,
estas também resultam influenciadas por movimentos como o capitalismo e o
neoliberalismo ao ser presas pelas lógicas que estes dois sistemas impõem.
4. AS POLÍTICAS CULTURAIS 2004-2016 EM BOGOTÁ E A
QUESTÃO SOCIAL
Bogotá, capital da Colômbia, é uma cidade que não escapa das manifestações da
questão social já descritas. Segundo o análise da evolução dos principais indicadores
sociais em Bogotá entre 1990 e 2003 realizado pelo Centro de Investigaciones para el
Desarrollo - CID da Universidade Nacional da Colômbia (2005), em geral, pode-se
dizer que entre 1993 e 2003 o PIB pér cápita se manteve num nível similar, sendo os
ingressos da população os que se viram mais afetados porquanto estes tenderam a
diminuir. Além disso, a partir da segunda metade da década de 1990, a taxa de
desemprego cresceu ainda por encima do nível das outras cidades capitais do país,
sendo a taxa feminina a que mais aumentou. Assim, para o começo do século XXI, a
economia bogotana se sustentava de maneira significativa em dois setores: o terciário e
o industrial, com maiores potencialidades para gerar emprego no lado dos serviços. O
grupo vulnerável por excelência são os pobres que sofrem de maiores taxas de
desemprego, sendo obrigados a vincular-se ao mercado através do sub-emprego ou o
emprego informal:
La calidad del empleo se ha deteriorado. El 63% de los nuevos puestos de trabajo
generados durante los últimos nueve años corresponden a trabajadores por cuenta
propria, contra apenas un 8% en personas con contrato asalariado. [...] Los empleos
estables se están reemplazando por temporales, y los contratos laborales se sustituyen
por órdenes de prestación de servicio (CID, 2005, p. 53).
Somado a este panorama, Bogotá é uma cidade com elevadas taxas de pobreza e
grandes desigualdades. Mesmo que o melhoramento da qualidade de vida tem sido uma
preocupação reiterada dos planos de desenvolvimento, até 2003 se observaram três tipos
de resultados: 1) o número de pobres (medido por ingresso) continuou aumentando, 2) a
desigualdade se aguçou e, 3) os serviços públicos ampliaram a cobertura (CID, 2005, p.
57). Da mesma forma, a concentração do ingresso se manteve muito alta (ainda hoje)
dando como resultado que a cidade seja posicionada pelo PNUD como uma com a mais
alta iniquidade medida através do coeficiente de Gini (CID, 2005, p. 63). Estes rasgos
se apresentam de forma mais marcada em algumas áreas da cidade. Por conseguinte,
Bogotá revela características de sua segmentação espacial:
Distinguimos tres grupos que coinciden con sectores geográficos delimitados. El
primero compreende localidades en donde las tasas de incidencia de pobreza son
superiores al 60% y las de indigencia mayores al 20%. Se trata de localidades del sur
[...]. El segundo grupo, con incidencia de pobreza entre 35 y 60%, compreende las
localidades del eje central [...] y del occidente de la ciudad [...]. Al tercer grupo
pertenecen las localidades del nororiente, con niveles de pobreza inferiores al 35%
(CID, 2005, p. 71).

Neste cenário, a prefeitura de Luís Eduardo Garzón2 (2004-2007) implementou


diferentes políticas sociais, centrando sua gestão na luta contra a exclusão social e a
pobreza através da
construcción de las condiciones para el ejercicio efectivo, progresivo y sostenible de los
derechos humanos integrales [...]. Para avanzar en la garantía de los derechos humanos
y disminuir las desigualdades injustas y evitables, [...] el gobierno propiciará la creación
y la redistribución de la riqueza; reconocerá las diferencias generacionales, étnicas,
culturales, de género, de oportunidades y de capacidades; y hará de la calidad de vida el
referente principal de la acción del Estado (BOGOTÁ D.C., 2004).

Já com a primeira edição do documento Políticas Culturales Distritales 2004-


2016 aprovado desde 2003, o qual vinha sendo trabalhado desde anos anteriores pelo
Comitê de Políticas Culturais criado no interior do Instituto Distrital de Cultura e
Turismo, e pela Comissão de Políticas Culturais (com participantes de dentro e fora do
governo), a nova administração distrital decidiu revisá-lo e atualizá-lo, de forma tal que
este fosse articulado com a

2
Representante do Polo Democrático, coalizão de partidos de esquerda que declarou sua independência
dos partidos políticos tradicionais.
propuesta política de una Cultura para la Inclusión Social, como parte esencial del sello
del gobierno democrático del alcalde Lucho Garzón. [...] El papel de guía que cumplen
estas políticas se refleja, entre otros, en la concepción, programas y objetivos que sobre
el tema cultural se formularon en el Plan de Desarrollo 2004-2008: “Por uma Bogotá sin
Indiferencia: un compromiso contra la pobreza y la exclusión” (SENN, 2005, p. 11-17).

Assim, esta política pública em Bogotá esteve fundamentada no diagnóstico


feito em matéria cultural da cidade, no qual se identificou que os cidadãos não
reconheciam completamente seus direitos culturais assim como os deveres frente ao
Estado o qual pode ser percebido mediante a relação assimétrica, exclusiva e
discriminatória dos diferentes estilos de vida e expressões culturais que coexistiam na
cidade, como também com as práticas políticas clientelistas, o ‘pessimismo
democrático’, o pouco reconhecimento e uso das áreas de cooperação para a resolução
de conflitos e a restrição de informações sobre os mecanismos e canais de participação
que ameaçavam a cultura democrática. Da mesma forma, notou-se que se bem existia o
Sistema Distrital de Cultura como mecanismo de participação cidadã eficiente, as
decisões tomadas aí não se refletiam nos planos de ação cultural das instâncias públicas
e privadas. Por outra parte, dado que os índices de deserção escolar eram altos, o
impacto dos programas de formação artística e cultural era restringido e grande parte da
população carecia de formação básica em arte e patrimônio. Além disso, a maior parte
do fomento cultural era realizada pelo setor público concentrando-se em apoios a
atividades pontuais e a oferta cultural estava restringida a só um 31,3% dos bogotanos
em 2002 sendo dirigida, principalmente, para jovens de níveis educacionais e estratos
socioeconômicos altos. Aliás, a infraestrutura física cultural se aglutinava em seis
localidades tendo, além disso, problemas de sustentabilidade (IDCT, 2005, p. 30-32).
Como se percebe, esta descrição de problemas culturais tem a ver também com
as manifestações da questão social tais como a exclusão social do segmento mais
vulnerável da população expostas através das desigualdades no acesso a bens e serviços
e outras que se expressam na origem étnica, etária e de gênero (discriminação); e a
segmentação e vulnerabilidade sócio-espacial (ZICCARDI, 2001).
Desta forma, os princípios que orientam eticamente as Políticas Culturales
Distritales 2004-2016 são a participação de toda a cidadania nas decisões que afetam a
vida econômica, política, administrativa e cultural; a descentralização, quer dizer, na
transferência de poder, recursos, funções e capacidade de decisão da administração
central às instâncias territoriais; a interculturalidade com a qual se reconhece tanto os
aspectos que constituem o substrato comum de todas as culturas, como a diversidade
própria da sociedade; a concertação entre os distintos setores sociais, a criatividade
como fator determinante para a intervenção e a construção coletiva de formas de
democracia, solidariedade, participação e cidadania; a sustentabilidade entendida como
o planejamento de fatores culturais, sociais, econômicos e ambientais; a articulação
entre distintas instâncias, espaços, processos e práticas; e o público como o espaço onde
se negociam as assimetrias e as diferenças entre os setores sociais e se lançam os
interesses comuns a todos (IDCT, 2005, p. 63-65).
Finalmente, para sua concreção, estabelecem-se quatro eixos que encerram a
identificação de problemas prioritários, ações propostas, resultados esperados e
responsáveis para sua execução. Portanto, com o eixo legislativo se abordaria a
problemática de legalização, regulamentação e normalização do campo cultural. O eixo
organizacional abrangeria os aspectos organizativos estruturados no Sistema Distrital
de Cultura; a profissionalização da atividade cultural, artística e do patrimônio; assim
como as relações com outros sistemas regionais, nacionais e internacionais. Com o eixo
comunicacional e da informação se estruturaria a produção de difusão de informação
sobre a cultura da cidade. E o eixo dos processos culturais, artísticos e do patrimônio
atingiria os aspectos relacionados com as atividades que resultam das relações entre as
dimensões e as áreas de intervenção da política (IDCT, 2005, p. 67).
Com tais características, estas políticas resgatam diferentes elementos da forma
de intervenção ativa do Estado para o enfrentamento da questão social (mencionadas no
apartado 2), mediante a aposta no avanço da democracia e a incorporação de princípios
como participação e o fortalecimento das instâncias onde esta se materializa.
5. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS: ALÉM DO DISCURSO
Cabe lembrar que as políticas culturais de Bogotá apresentadas se geram dentro
do contexto do neoliberalismo, refletindo os conflitos próprios na luta pelo poder e pela
dominação. Cortés Gómez (2007) menciona algumas contradições ou limites dentro dos
eixos desta política. Por exemplo, no eixo legislativo, a cultura se assimila como ‘show’
e como produtos culturais que se produzem no mercado de oferta e demanda, o que
poderia fazer com que as formas culturais que se manifestam em circuitos não
convencionais sejam excluídas. Assim, “podemos concluir que la política beneficia
directamente al espectáculo y a aquellas empresas que se lucran con esta actividad, a la
vez que no se preocupa por fortalecer los procesos culturales, desde la formulación de
normas jurídicas, que se generan por actores que no se dedican al espectáculo y que
realizan cultura de maneras alternativas” (CORTÉS GÓMEZ, 2007, p. 44). Sobre o eixo
organizacional expressa que se bem a política manifesta que tem a intenção de procurar
espaços para o diálogo e o encontro de todos os sujeitos da cidade, além de identificar a
desarticulação entre as entidades distritais culturais, não é claro como com as ações
propostas se originariam esses novos espaços democráticos. Na mesma linha, esses
espaços seriam oferecidos pelas instituições distritais, mas não concertados e debatidos
pelos agentes culturais e políticos da cidade, correndo o risco de reproduzir as lógicas
existentes instituídas em e pelas entidades que estabelecem ou lideram os espaços.
Outro ponto diz respeito da forma como a comunicação é vista, no eixo
comunicacional e da informação, desde dois ângulos: divulgação do material científico
e informação cultural. No primeiro caso, a política só reconhece a importância do
conhecimento acadêmico nacional e internacional deixando de lado o conhecimento que
nasce desde os grupos que, através da prática, geram saberes. No segundo caso, os
espaços de difusão obedecem à lógica de oferta e demanda: “llevo la información a los
lugares que son visitados de manera tradicional y que son epicentros de cultura, en
aquellos lugares en donde la afluencia de gente es baja no llevo” (CORTÉS GÓMEZ,
2007, p. 51) o que termina reproduzindo essa importância dada ao centro frente à
periferia e por tanto a mesma segmentação espacial. Por último, em face ao eixo
estruturante da política - dos processos culturais, artísticos e do patrimônio - não se faz
explícito o que tipo de arte, patrimônio e expressões culturais pretende consolidar
(sendo este seu objetivo), com o que poderia se entender que só se faz referência a um
tipo de arte, patrimônio ou expressões específicas, onde predomina a visão dominante
de “museos, galerías y en el inventario cultural oficial de la ciudad, a la vez que es la
que recibe mayor estímulo económico en las convocatorias” (CORTÉS GÓMEZ, 2007,
p. 54), deixando de lado todo o leque de possibilidades que expressam a
heterogeneidade da cidade. Desta forma, ainda que a política seja disposta como uma
ferramenta de inclusão social está contém vazios que poderiam provocar efeitos
contrários aos desejados e exacerbar as situações que pretende intervir.
Sob outra perspectiva, Rubiano Pinilla (2009) expõe que o importante é
reconhecer se as mudanças apresentadas no discurso neste documento de política são
consequentes com as transformações que deveriam acontecer na ação administrativa.
Assim, o autor identifica que, se bem os espaços de participação foram abertos a mais
grupos sociais, as práticas e as dinâmicas dentro destes não permitiram uma atuação
efetiva de todos seus integrantes, evidenciando-se a exclusão de membros no interior
das mesmas mesas e, portanto nos olhares para as análises e decisões efetuadas aí. Com
isto, uma das principais manifestações da questão social, assim como um dos problemas
identificados para a atenção da política estaria se desconsiderando.
Finalmente, é evidente que as políticas culturais só poderiam atender algumas
das manifestações da questão social e não seus determinantes substanciais,
corroborando a posição de Iamamoto (2001), Netto (2001) e Pastorini (2007) que
sustentam que sem mudar os princípios que deram origem a questão social esta não
poderá desaparecer, ou seja, que para a extinção da questão social seria necessária a
supressão da ordem do capital, elemento que não está em discussão nas políticas
culturais.

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