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NlO)Ay Nis A RCla lah a LL i SUSPENSOES tl mh PERCEPCAU EI FAA WAC oar AUK = AGUA ONT WA NTOID ART 2 Ta * la 1 i or fundamental para entender as alter: Ja socledade industria gia e umn moderno i rmando sua ago a regra um pr imp do trabalho e as no Em amplia 0 aleance de sua andlice, focalizando a segunda metade do culo xix. qui, ele avanca em seu estud sensibilidade, pesqulsa cientifca e experiéncla no capitalism .ou em novo patamar problema da atencao coma nnadindmica da fade.O autor nota sobretudo ambi deste primado da atencio como atividade inserida na conformaci Fla estd certamente& sombra de uma racional za¢iotipica da ordem industrial mas, ao mesmo tempo, é uma atvidad engendrar,em situagées especificas, uma in ticalibe jperaa“captura institucional’ eafirma o seu yo evidenciam as obras de Manet, Seurat e arme const nalises notaveis daquele co de constitu sta € lida ag have, que relaciona forma studos da fsiologia do olhar, quad social. Assini;podemos entender que a inovacdo tecnoldgica, na qual inema se afma como ponto de condensacio das. da era me- canica, soma-se& irupcio da estética modernista ¢ aos seus embates na sociedade do espetculo.O impacto d espaco e do tempo seré enorme, Para chega 8a das upturas en ema Crary ria um novo instrumental prvilegiam a centralidade do suelto obs stavel —heranca da Re rascenga,Assim,a percepe3o ¢ entendida como enlace corpo-mundo do ado de temporalidade, pr 1 pontos de suspenso. INA eN ana tradugao JONATHAN CRARY SUSPENSOES DA PERCEPCAU ATENCAO, ESPETACULO E CULTURA (MODERNA 365 375 REFACIO Stella Sen AGRADECIMENTOS 1.Amodernidade e o problema da atencao 2.1879:A visio que se desprende 3.1888: lluminagdes do desencantamento 4.1900: Reinventando a sintese Epllogo— 1907: Enfeiticado em Roma Crary e as transformacdes do observador Stella Senra O leitor brasileiro pode, finalmente, ter acesso a este importante livro de Jonathan Crary que, na virada do século xx para o xxi, langou um olhar ana: litico penetrante sobre as complexas transformagdes da percepgio do homem moderno ocidental ocorridas no iiltimo quartel do século x1x, culminando em 1900. A publicaglo da obra é auspiciosa e merece destaque porque vai en- riquecer, por aqui, os estudos e pesquisas nos campos da arte, da tecnologia, ddas midias modernas e contemporineas, enfim, da cultura como um todo, Em nosso meio, a compreensio do tema problematizado por Crary tem sido balizada, ha décadas, pelos ensaios seminais de Walter Benjamin, escri tos na década de 1930, sobre as “metamorfoses da percepgio” A riqueza gotivel da reflexio do filésofo alemao sobre as reconfiguracbes da percepgao humana pela fotografia e pelo cinema nutriu muitos trabalhos, e permitiu que ‘o espectador culto brasileiro escapasse das armadilhas da velha e simpléria di- ccotomia entre os detratores e os partidérios das tecnologias, entre os outrora chamados apocalipticos integrados, Através da elaboracao dos conceitos de aura, e de sua perda, e das categorias de choque e de “inconsciente ético’, 0 filésofo aleméo aponta a ambivaléncia da crise do espectador contemplativo da pintura e, com ela, o que este perdia e ganhava em termos perceptivos a0 trocar 0 tradicional valor de culto que moldava sua visio, pelo moderno valor de exposigio, que passou a modulé-la, Em sintese: Benjamin assina lava que, com 0s novos aparatos técnicos, a experiéncia da visio passava do ‘campo da transcendéncia para o campo da imanéncia,libertando o olho dos parimetros da rligiio para langé-lo no mundo da politica. Com Benjamin, vvirias geragdes aprenderam a desnaturalizar e a dessacralizar a experiéncia perceptiva, passando a pensé-Ia como uma maquinagéo que tanto podia ser tivas, fascistas, quanto por poténcias mobilizada por poténcias negativas, positivas,liberatérias, revolucionétias. ‘Sem polemizar com os ensaios de Benjamin, o livro de Crary retoma a problemitica, a ela conferindo novas inflexdes ¢, ao mesmo tempo, levan- tando outras questdes. Pts se para o autor da “Pequena historia da fotografia” "A obra de arte na era de sua reprodutbilidade técnica” reconfiguragao da ppercepgiio se dava na passagem da pintura para a fotografia ¢0 cinema como modos de perceber agenciados por aparatos técnicos, para o scholar norte: americano a transformagio passa tanto por mdquinas de visdo quanto por rupturas no proprio exercicio da pintura. E mais: os aparatos técnicos que jvamente para a meta- {sto é a linhagem dos precedem 0 advento do cinema e que contribuem dec rmorfose nao se circunscrevem a cimeras monoculares, dispositivos decorrentes da camera obscura e aos desdobramentos da pers: pectiva renascentista, assim que, para o critic, linha diviséria no passa mais entre a arte ea técnica, mas por dentro de ambas. Ea matriz moderniza- dora concorse, nesse sentido, para uma transformagio profunda da percep¢ao humana, cujo cariter ontoligico e epistemoldgico precisa ser analisado para além de qualquer tentagao de um determinismo tecno-L6gico. ara armar e desenvolver sua argumentacao, Crary se inspira fundamen: talmente em Walter Benjamin, mas também em Michel Foucault. Sua anil tem um cunho arqueoligico que acompanha minuciosamente o descentra ‘mento do sujeito clissico e a emergéncia de um observador moderno, cujas rnhadas em seu livro precedente, Técnicas caracteristicas comegaram a ser de do observador, e que agora ganham contornos mais fortes ¢ intensos & medida aque se adentraa segunda metade do século x1x europeu. O foco de sua visada 0 que se passava em Paris, porque, como bem abservou Benjamin, acidade fia capital do século x1x, Tudo que de relevante ocorria ali em termos filosé ficos, cientificos, culturais, sociopoliticos e estéticos é convocado e escrupulo samente relacionado com as descobertas cienificas, o pensamento filoséfico ¢08 avancos técnicos delineados em outros centros do mundo desenvolvido ‘euro-norte-americano. Mas todo esse arsenal heuristico € mobilizado para sustentar as metamorfoses da percepcio em curso na logica operatéria que se constréi e se consuma na obra de trés grandes pintores franceses - Edouard ‘Manet, Georges Seurat ¢ Paul Cézanne -, mais especificamente em algumas obras-chave desses artistas, Aqui, também, é impossivel ndo pensar no pro- jeto de Foucault de As palavras e as coisas, cuja anise penetrante de As me. ninas de Velizquez. confere ao quadro do Prado o poder de condensar, em termos visuais, toda a problemitica do sujeito soberano clissico. Agora, em Crary, Manet, Seurat e Cézanne vio operar em suas telas, progressivamente, 0s trés momentos fundantes da constituigio do regime perceptivo moderno, Por isso mesmo, o livro se articula em trés grandes capitulos: A visio que se desprende, luminagdes do desencantamento e Reinventando a sintese, Capit los que sio precedidos por um importante prélogo, cons igrado as relagtes wuderuidade e o problema da atencio, e sucedidos por um rapido desfecho sobre a experiéncia de Freud, 0 observador moderno por exceléncia, ‘em suas andangas por Roma, ‘A anélise de Crary rompe com o paradigma analitico que toma a ideia do olhar fixo (e em geral monocular) como fator constitutivo dos sistemas clissi- cos de representacio, assim como desinveste a visio da centralidade (que teve, aligs, como uma de suas consequencias o privilégio conferido a fotografia e ao cinema como continuidade desse modo de representago). Ao contrério dda consagragdo de uma visualidade sem histéria, diante da qual o mundo se exporia em toda a sua nudez, 0 critico considera que ¢ 0 olhar fix, imével, ue aniquila a aparente naturalidade do mundo, e pde em evidéneia a nati- reza fluida e provis6ria da experiéncia visual. Ao considerar a atencio como fator incontornivel de uma concepgio subjetiva da visio, a investigagio de Crary implica também o exame do processo de reconstrugio social do obser vador no final do século x1x, a partir do momento em que nio é mais possivel pensar a percepgao como até entdo fora pensada, em termos de imediatismo, presenca ou interrupcio. O estatuto da atengdo adquire extrema relevncia no livro de Crary por que € no entendimento da construgio desse modo especificamente moderno de olhar, e nas ambiguidades e ambivaléncias que ele comporta, que se pode compreender o que aconteceu, Crary convida, portanto, 0 leitor a prestar 4atengao na atengdo, Esso torna a leitura de seu livro fascinante. Pois, por mais advertido que seja, 0 préprio leitor moderno desconhece como a aten- ‘gio se torna o vetor através do qual se desestrutura a clssica relagdo sujeito objeto, com seu regime de visualidade caracteristico, dando lugar a uma pro- sgressiva incorporacdo do ato de ver que jé nio tem mais o olho como sede, Mas para que isso ocorra, para que seja dissolvida e desinvestida a percepgao és i ens6es cada ver mais radicals profun cléssica, é preciso que ocorram suspe das, levando o sujeito a redescobrir a si mesmo ¢ ao mundo como modos de existencia entrelacados no fiuxo de uma permanente mutagio. Leitor de Crary, Emerson Freire anota que a inspira¢ao benjaminiana do : Be: jernidade: a fabrica, da fotografia” em reas aos epaco prototpco da mode 0, nota ele, foi a0 examinar sala de cinema, a galeria comercial Com : esses espacos que o fildsofo destacou a continuidade entre as experiéncias da percep¢io no local de trabalho fora dele, ressaltando ainda a importancia ~ no qual o olho & constantemente So iver no regime modern da pereepo chanado a pes esimulos Fol jasamente com onto de expcara a oar a ogi de ehngue pl detent Crary lea Frere asim como alee eas de Fuses de percep a indaar como ea a aptaquemerge das tees de Ct egue Fee se prope pon mento, com a emer ainda: se a atencio néo mais subsiste nos moldes em que ° que figura de observador tera sido gerada na sociedade da era cibernética? ara reunir elementos de resposta a essas indagagdes,¢ preciso levar em conta «© modo segundo o qual se explicitam, na sociedade contemporinea, as trés ss que Crary considera em relagdo ao final do século nx: a discus dimes sio filosoficae cientifica que tem sido articulada nos nossos dias em torno do campo da atendo;o surgimento recente de novos aparatos 6pticos que agen ciam a seu modo o campo visual; e, enfim, a reconfiguragio do observador ‘em sintonia com a atticulagéo dessas duas primeiras dimensdes. Enquanto es sobre a 1 Emeron Fei Da senso ant eso como pti: ema ari a re de doutorado apresentada to Progra de Pos graduacio ern rego arte-tcnologa Te . Soctolota Instat de Flosoia Céncis Humana da Unicamp e na Universidade Pars 1 Panhon Sorbonne em 212 India as duas primeiras dimens0es sio, de algum modo, contempladas pela argu- ‘mentagdo de Liev Manovitch em seu texto The Labor of Perception,” terceira delas é precisamente o objeto da anélise feita por Emerson Freire em seu j citado Da sensagio ausente d sensagio como pottncia: Tema e variagBes sobre 4 relagao arte-tecnologia, ‘Vejamos como se desenvolve o pensamento desses dois autores Assim como na sociedade disciplinar de Foucault o olho é treinado para funcionar em sintonia com o ritmo da produgo industrial na fabrica, na so: ciedade de contiole de Deleuze ele € treinado para navegar através do com: plexo ¢ aberto campo visual que se estende para além das portas da fabrica, Estudioso da sociedade da era cibernética, 0 critico Liev Manovitch tem se preocupado com o modo segundo o qual nio s6 0 trabalho, como a cultura visual contemporanea, vém sendo crescentemente permeados pelos dispo- sitivos de informagio de computagao grafica (computer graphic information display), enquanto os conceitos de trabalho manual, produgéo de bens e fa liga da era industrial passaram a ser substituidos pelos novos conceitos de trabalho cognitivo (cognitive labor), pelo processamento de informacio, pelas cigncias cognitivas e pela espera. Acolhendo igualmente o pensamento de Foucault, Manovitch acredita que a transformagio da sociedade industrial em sociedade pés-industrial marca um momento crucial na historia das discipli- nas, quando aquelas que antes estavam empenhadas em promover a eficiéncia do corpo passam a ser substtufdas por outras e novas disciplinas, agora vol- tadas para 0 novo instrumento de trabalho ~ a mente. Para esse critico, os jogos de computador eo simulador de voo sio ape- nas os exemplos mais dbvios de como a cultura visual contemporanea esté sendo crescentemente permeada pelos dispositivos informacionais interati vos de computagdo grifica. Como aponta ele - e diversos outros estudiosos da era cibernética também o fazem -, ¢ a omnipresenga desses aparatos que confere uma feigdo prépria & sociedade pés-industrial, quando o ser humano, seja no trabalho seja na diversio, funciona como parte de um sis tema “homem-maquina’ no qual o ato da visio é a principal interface entre ‘ohumano ea maquina 2 Disponivel em: hip/imanovch.net/rexr/laboc tm 2 Manovitch define o sistema homem-miguina como umn sistema deequipemento no qu pelo menos um doscomponentes um ser humano que latrage ou inte na. opera os componente da maquina do sistema de tempos em tempos. Diferentemente do trabalhador manual da era industrial, que empenhava sua forca, um operador nium sistema homem-méquina pode ser visto, de certo modo, como um “observador’, desde que se encontre, antes de tudo, en sgajado na observagio de dispositivos que apresentem informacio em tempo real sobre a mudanga de estado de um sistema, ou de um ambiente real ou virtual. Dentre os exemplos desse tipo de observagio invocados por Mano: ‘itch esti tanto a tela de radar, que rastreia o espaco circundante, quanto a tela de computador que atualiza a cotacio de agGes na bolsa; tanto a tela de vi- deo ou de videogame que apresenta um campo de batalha imaginarto quanto o painel de controle de um carro indicando sua velocidade e demais informa. «Bes de desempenho. Em todos esses casos, de vez em quando a informaga0 leva o observador a intervie na operagao do sistema: seja, por exemplo, para mandar 0 computador rastrear uma bomba inimiga, seja para comprar ou vender aces, ¢ assim por diante ~ decisées que tanto podem se dar em inter- ‘valos minimos de tempo, quanto em intervalos mais dilatados. No primeiro desses casos ~ quando a decisio se da com intervalos de fragbes de segundo ~ a situagio se assemelha iquela experiéncia descrita por Benjamin como choque perceptivo: & 0 que acontece, como exemplifica Manovitch, com o trabalhador na linha de montagem, 0 pedestre, ou 0 es- pectador de cinema; também no campo especifico do trabalho cibernético, a constante carga de informagio, a cascata de choques cognitivos, requer in- tervengio imediata - como no caso do piloto face ao inimigo, ou do jogador com o seu computador... No segundo tipo de situagao, quando a intervenga0 ‘se di em intervalos mais dlatados, jf se trata de um outro tipo de experiéncia, nova na sociedade pés-industrial. Para Manovitch é cla que dé lugar ao traba- Iho como espera de que algo acontega: é 0 caso, por exemplo, do operador de radar i espera do surgimento de um pequeno ponto em sua tela, ou 0 de um téenico monitorando uma fabrica ou uma usina nuclear, sabendo que um bug de software pode eventualmente se manifestar. [No campo dos saberes é justamente essa relagio homem-méquina que aponta ~ como destaca Manovitch ~ para a passagem do taylorismo as cién. cias cognitivas enquanto saber operatério fundamental. Num movimento de inicio, 0 srcamo perio extolado peo sileramercano para demons gue no thopanenasercomidrado como spend dene otbulo humane fl defi coma fog d tralbo (bor power, que fx com qe © 4 trabalhador passasse a ser concebido como um “motor humano”: Enguanto isso, num esforgo para maximizar a eficiéncia do trabalhadore eliminar 0 seu possivel desperdicio, na Europa, fsiologistas, psicélogos e especialistas em industrializagao foram em busca de métodos para maximizar a acumulagao da energia do trabalhador e o seu dispéndio no trabalho, ao mesmo tempo em que, nos Estados Unidos, Winslow ‘Taylor buscava, nessa mesma direcio, ‘minimizar e estandardizar o tempo demandado pelo trabalhador para de sempenhar suas fungGes. Essas duas abordagens do iuudo do trabalho consolidaram, segundo Manovitch, um proceso de reducdo do corpo do trabalhador a uma mé- quina mecinica, enquanto sua mente era relegada a um mero componente da chamada “forca de trabalho” Desprezo que, como destaca o critico, seria compartilhado pelo pensamento behaviorista formulado na mesma época e definido pelo seu criador J. B. Watson como “a ciéncia do controle social’ com efeito, para o behaviorisme, o sujeito humano era um sistema de entrada € saida de estimulos e respostas a ser controlado por meio do condiciona- ‘mento, 0 que impossibilitou o conhecimento dos process periodo que se estende dos anos 1920 até 08 anos 1950. 1s mentais no longo ‘Com a passagem da sociedade industrial para a sociedade pés-industrial com o deslocamento do foco do corpo do trabalhador para a sua mente, co. ‘meca a ser formulada, em substituigdo ao behaviorismo, wma nova disci- plina ~ a psicologia cognitiva. Agora, o que passa a ser priotizado sio jus- tamente as fungGes mentais: percepcdo, atencio, compreensio de texto e resolucio de problemas. Enquanto no campo do trabalho industrial tinha imperado a obsessio com a racionalizacio do trabalho corporal, na nova sociedade que comesa ase instaurar na segunda metade do século xx é a ra- cionalizasio da mente que passa, por sua vez, a ocupar um lugar central tanto ‘no pensamento cientifico quanto nas pesquisas e no mundo do trabalho, com a “civilizagéo das tecnologias militares” desenvolvidas durante a Segunda Guerra Mundial. Em consonancia com esse processo, um deslocamento da énfase do humano para a méquina se desenha, a partir do momento em que se passa da selecio de pessoal fundada na boa percepgio e na atividade mo. tora, para o desenho do equipamento que se adapte is capacidades sensorials cde uma pessoa média Na verdade, a ascensio das ciéncias cognitivas é apenas um dos aspectos destacados por Manovitch de um deslocamento mais amplo da sociedade in- dustrial para a po: industrial, quando ndo apenas o trabalho, mas também 0 entretenimento privlegiaré o processamento mental da informacio, da atividade corporal. Na era da automagio, em que o material e o produto do trabalho cerebral passam a ser a informagio, fica clara a distancia entre 0 hhomem.-camne de Taylor ¢o trabalhador que monitora complexas tecnologias de comunicagio. Para ocritico a automagio no levou, entretanto substitu ‘cao do humano pela maquina, Ao contrirlo, € 0 papel do trabathador que se transforma, passando a consistir, entdo, na observagiio e na espera, na espera de que algo acontga. O trabalho passa a ser eto, fandamentalmente,o moni tomar toramento e a regulagio: examinar teas e painéis, analisar informa decisées e operar controles sio as novastarefas do trabalhadlor/ubvervador: (ra, assim como o corpo foi levado aos seus limites na sociedade indus da performance perceptual e mental trial, na sociedade pés-Industrial é2 serem exorbitadas e terem seus limites a capacidade humana de processar informagdes passa a tolher o funciona ‘mento do sistema homem-méquina. Como exemplo central desse processo sgotados ~ 0 que acontece quando Manovitch recorre novamente ao radar, que pode efetuar complexas opera «Bes numa fracao de segundo, enquanto qualquer reago humana, por mais simples que sea, requer pelo menos um quinto de segundo para ser desenca- deada. Na verdade, o que se pode deduzir da andlise de Manovitch € que, a0 ltrapassar as capacidades de processar informagées dos humanos, 0 desen- volvimento tecnoldgico esta dando lugar a uma nova linhagem de méquinas de"itura” de dados e sugerindo a superagio da percep¢o humana por uma légica operatoria que implica uma “obsolescéncia” do par observador/ traba thador um fendmeno que tem sido, aiés, muito bem apontado por Harun Farocki em alguns de seus extraordinaris filmes sobre a evolugdo das tecno- Jogias audiovisuais, ‘Ao encerrar sua anélise Manovitch afirma que, ses “psicologia experimental’, “engenharia humana’ ¢ “machine engineerin foram substituidas pelo termo standard de “fator humano’, enquanto aquela figura prototipica do sistema humano-maquina situada na origem da era pés-industril ~ 0 operador de radar - foi substituida pelo usurio do com- putador. £ assim que toda a energia intelectual e de pesquisa passa a ser investida no trabalho com as interfaces do computador; enquanto @ reali dade virtual, habitualmente associada ds nogbes de fuga da reatidade, de jogo inrestrito e de fantasia, substitui a tela do radar e passa a mobilizar todo o rn nossos dias, as expres conhecimento acumulado pela psicologia sobre a visio humana para um desempenho mais eficiente, 6 Passando agora a tiltima etapa de nossa anilise, vejamos por fim em que ter mos se coloca a reconfiguracio do observador: em que medida o homo ciber: neticus contemporiineo seria um prolongamento do observador moderno? Ou serd qu ncontraria em ruptura com este itimo? ise ‘io essas as perguntas que Emerson Freire busca responder em seu traba- Iho jé citado sobre as transformacées da percepgio. Relembrando o livro ante: rior do critico, Técnicas do observador, Freire nota que, ali, Crary considerava co papel decisivo dos dispositivos épticos; enquanto, em Flutuazées da percep- $0, estes eerie tomados como operadores através dos quais conhecimento ¢ poder investem os corpos dos individuos processo que daria origem, por stta ver, a um novo tipo de observador. Ele nota que Foucault jé apontara para a existncia de uma “politica do corpo” ao relacionar a modernidade do século xrx com o modo segundo o qual os diversos e dispersos met de poder coincidiam com novas formas de subjetividade na construgio de corpos déceise ites, por meio da utilizagio de métodos institucionaise dis: ciplinares (tais como aqueles em operago na fabrica, na escola, na prisio, nos hospitais, na racionalizacio do trabalho, na educagdo, na medicina, na psico: logia, na fisiologia...): a seu ver, Crary toma 0 observador como um “efeito” do esforgo de criagio de um novo sujeito,o individuo moderno proceso 1no qual a atengio desempenha um papel preponderante, sobretudo se pensar~ mos que, desde Técnicas do observador, o autor por ela jase interessava dentro de um modelo de gestdo da percepcio. Como Crary mesmo escreve: "a aten fo [...] era 0 meio pelo qual um observador individual podia transcender as limitagdes subjtivas e tornar sua a percepgio, mas també ‘um meio de tor: nar o observador susceptivel ao controle e& cooptacio de agentes externos” Em suma, trata "nem mais nem menos, da constituigdo do sujeito... su jeitado, Mas terda atengdo mantido tal papel, do final do século x1< ao inicio dos clo xx1? O scholar ndo chega a considerar os tempos atuais, concen trando-se no periodo estudado; porém, diversas mengGes em seu livro, em- bora sumirias, levam o leitor a acreditar que sim, que a atencdo manteve o seu papel - 0 que ja provoca controvérsia, inclusive entre nés. E assim que para Freire, Crary “esti ciente dessa questo (da subsisténcia da atengio),e sua resposta inicial éafirmativa, embora nfo se esqueca das mudangas ocor- ridas no decorrer do século xx, principalmente nos seus tiltimos vinte anos. ‘© que sublinharia a aten¢io como ponto importante, seria a constatacio de sua constante reconfiguracio em fungio das mutagdes na organizagio do po- der e nos modelos de subjetivacao”, Para Freire, embora desconfiado Crary ainda acredita numa certa centralidade da atenglo, na continuidade da sua ” relevincia, mesmo sabendo que nao vivemos mais na sociedade disciplinar rudada por Foucault: como bem observou Deleuze, sociedade de disci- plina é © que ja no somos mais, é 0 que estamos deixando de ser. Ao evocar também o advento da sociedade de controle enunciada pelo filésofo (autor que, aliés, étido em alta consideragdo por Crary, a ponto de embasas vavios t6picos de seu approach), Freire considera que o problema da atengio ainda persiste, mas nao é mais da mesma forma que ele passard a se manifestar. A ideia de continuidade até poderia ser considerada, nota ele, caso essa diferenca fosse de grau; mas acontece que cla € “de natureza, porque ‘6 modus operandi & outro’, Com efeito, esse critico acredita que nem todas as tecnologias de sujeigdo do sujeito foram aposentadas ou descartadas, mas a tengo dos jogadores nas lan-houses no & a mesma que foi mobilizada no diorama ~ que se encontra justamente na capa da edigio em inglés do livro de Crary. Em poucas palavras: para Freire o usitério nao é um simples obser vvador, a tecnologia que esti em uso ¢ outra, a énfase nao se encontra mais, ou aio se encontra principalmente, na passividade de quem contempla, mas sim nna interagio com a maquina, Até mesmo a relagio com a imagem parece ser outra: "Hé outra velocidade envolvida, que destoca o foco da atengdo para ‘a capacidade de leitura de padrées fragmentados, uma torrente de dados e informagdes que surgem no monitor deve ser ‘lida’ rapidamente e/ou ainda deve disparar ages dos que jogam |... Por isso, As vezes, tem-sea impressi0 de que o ponto de atencio até deslocou-se para a maquina, quem esté atenta é amiquina através do software, que tem a capacidade de conduzir os operado- res em rede, uma espécie de atencio compartilhada com a maquina (Os dois pontos de vista - de Manovitch e de Freire ~ levam a pensar que isso s6 pode acontecer a partir do momento em que a imagem deixa de ser central e passa para um segundo plano, & medida que a visio nao é mais, a operacao fundamental no proprio processamento da relacio homem-m 4quina, esim o reconhecimento de padres. Com efeito,na era da informa, ‘0 que importa nao é o que aparece na tela, mas o que estd por trés dela, isto 6 os algoritmos e seus agenciamentos, a informagio enquanto diferenga que faza diferenca. Nesse nivel, a miquina nfo vé o que se apresenta mas “Ie” as sais infimas transformagdes, numa velocidade e com uma acuidade que 0 ‘lho humano néo pode alcangar. Portanto, na interagio homem-computador, fo observador atento néo vé através da miquina, mas vé com ela 0 que reitera os padres ¢ 0 que deles escapa. Em ver de modelizada, como no tempo da disciplina, a atengio se torna assim constantemente modulada pela interaglo hhumano-méquina e, consequentemente, atrelada as relagées entre sujeiga0 8 social eassujeitamento maquinico: pois se por um lado tanto a atengio cons: ciente quanto a inconsciente serio objeto de um investimento de saber e de poder que é, 20 mesmo tempo, molar e molecular, e que se configura como tum aparelho de captura, por outro lado é 0 proprio desinvestimento ou des- conexio da atenglo dessas relagées inéditas de dominagdo que poderd abrir as portas para novas subjetivagbes néo controladas, ou descontroladas. Nao € 4 toa que tanto se fala, hoje, em "era do acesso” e em "economia da atengi”, quando se quer caracterizar 0 valor de mercado, nio dos produtos, mas dos usuérios das redes, Prender a sua atensio, ogi los" & tla pelo maior tempo possivel tornou-se uma prioridade no capitalismo avancado; seo letor tiver dividas liao registro da propriedade intelectual do Google para a util zagio dos dados dos uswitios na formatagio e comercializasio dos espacos pu- blicitrios customizados dentro dos jogos eletrOnicos. Ali, se desvela tudo o que € possivel fazer, atualmente, para a exploraciio objetiva e subjetiva da atencio, E nessa mesma era da .conomia da atengio” que a proliferacio de te- las tem sido posta, por outro lado, a servico do desinvestimento das foreas dominantes, propiciando novos modos de visualizacio, fora dos sistemas de vigilincia (que ainda nio desapareceram inteiramente) ou de controle, Assim, hé algumas décadas o campo das artes plisticas vem sendo revolvido pela presenga insistente das imagens em movimento, pela proliferagdo de telas e de monitores que do lugar a0 ultrapassamento dos limites da dominagio, dilatam o potencial da visualidade e estendem os limites da propria pritica artistica - propiciando uma nova ordem de relagio com essas tecnologias de rivadas dos desenvolvimentos militares. Nao se trata, neste espago, de empreendler uma anilise dos efeitos libe- radores de tal incorporagio, mas apenas de sugerir os rumos que parece to- rua, nesse contexto, o observador interrogado por Crary. Tomemos um tinico exemplo, o das hoje omnipresentes instalagdes, Derivadas dos “ambientes” do artista americano Allan Kaprow, que buscavam, jé nos anos 1950, a “imersio total do “visitante” na obra, em lugar da mera contemplagdo ~ elas passaram contar, nos dltimos vinte anos, com a presena de telas, de monitores e de imagens. Ao buscar uma nova palavra, visitante’ para designar o antigo espectador empenhado em operacdes visuais, ao apelar para todos os seus sentidos, essa nova forma de imersio pode star acenando com uma nova forma de suspensio da atencio, levando ao seu extremo 0 engajamento do corpo do observador, numa sorte de contexto que nao visa mais otimizagio dda sua performance, e sim ao dispéndio, ao exercicio livre de todas as suas, ccapacidades e potenciais. 19 | Agradecimentos Durante a escrita deste livro, a oportunidade de testar minhas ideias em ‘que me convidaram e me acolheram como palestrante, bem como aqueles que proporcionaram em publicacées um forum para minha obra, incluindo Peter alison, Caroline Jones, Alan Trachtenberg, Charles Musser, Annabel Wharton, | conferéncias e artigos foi inestimavel,e sou especialmente grato is pessoas ! Ronald Jones, Brian Lukacher, Molly Nesbit, Vanessa Schwartz mney, Ewa Lajer-Burcharth, Norman Bryson, Giuliana Bruno, Victor ert, P. Adams Sitney, Sarah Bayliss, Hannah Feldman, Russell Ferguson, Jack Barth, Ron Clark, Ellen Wardell Lee, Akira Asada, Mark Jarzombek, Sara Beliveau, Lynne Cooke, Olivier Asselin, Richard Roth, Marc Gotlieb, Cynthia, Hammond, Miwon Kwon, Daniel Soutif, André Rouillé, André Gunthert, Xa~ : -vier Costa, Ruth Meyer, Hans Belting, Friedrich Kitler, Horst Bredekamp, Gary ‘Smith eos editores da October. Agradego em particular ao convite do Departa~ ; ‘mento de Historia da Arte da Duke University para ser Benenson Lecturer em 1995: as cinco conferéncias que ld proferi em novembro desse ano forneceram. a base para o que se tornou o presente text. Muitos amigos e colegas ofereceram aportes, compartilharam seu conhe- ‘imento e me deram apoio de tantas formas que é impossivel especificar aqui, ¢ entre eles gostaria de mencionar Suzanne Jackson, Michel Feher, Hal Foster, Leo Steinberg, Andreas Huyssen, David J. Levin, Nina Rosenblatt, Martin Meise, Henri Zerner, Greg Lynn, John Rajchman, Sarah Lawrence, John Elderfield, f Martin Jay, Catherine Irving Lavin, Anne Boyman, Peter Eisenman, Laura Fost de Zegher, Manny Farber, Meaghan Gele, Cliff Simms, Richard Martin, Deirdre Donohue, Bridget Evans, Dee 1 Jospe, Dominique Auzel, Tom Levin, Stephanie Schwartz, Ramona Naddaff, Richard Berman, Stephany Gordon, Kalman Bland, Kevin Parker, Kate Rudy e Paul Wing, Agradecimentos especias a Stefan Richter ‘e Rebeccah Blum, po ‘gentileza e hospitalidade em Berlim. Pelas sugestdes e orientacio acerca do material cientifio, estou em divida com Julian Hochberg, Paul D. MacLean, Jonathan Miller ¢ James H. Schwartz ‘A troca com 0s meus colegas de departamento na Columbia University foi importante e sou grato, entre outros, a Rosalind Krauss, David Rusands Richard Brilliant, Robin Middleton, Benjamin Buchloh, David Freedberg, Barry Bergdoll, Theodore Reff, Barbara Novak eS claboracdo deste livro se deu enquanto All ephen Murray. A maior parte da ley era chefe do nosso departa mento, ¢ devo muito ao ambiente produtivo criado por sua generosa liderance TTive a sorte de ter Larry Cohen como meu editor na ar Press, tanto por seu apoio prolongado ao meu trabalho como por sua imperturba vel capaci dade de resolver todaaa sorte de problemas, A John Simon Guggenheim Foundation, o Getty Center ¢ 0 Institute for Advanced Study contribuiram para a realizagio deste projet. Este livro é para meus filhos Chris e Owen. Ofcolours twelve few known on earth, give light in the opake, Placid in the order of the stars, when the five senses whelm'd In deluge o'r the earth-born man; then turmed the fuxile eyes Into two stationary orbs, concentrating al things: The ever-varying spiral ascents to the heavens of heavens Were bended downward, and the nostrils’ golden gates shut, Turnld outward, barr'd and petrifyd against the infinite. Europe: Prophecy Introdugio Este livro se baseia na hipétese de que os modos pelos quais ouvimos, olhamos ‘ou nos concentramos atentamente em algo tém um profundo carter histé rico. Seja o modo como nos comportamos diante de uma tela luminosa de um. computador ou como fruimos a apresentagio de uma épera, como executamos certas tarefas produtivas, criativas ou pedagégicas, ou como realizamos, de ma neira mais passiva, atividades rotineiras como dirigir um carro ou ver televisio, estamos numa dimensio da experiéncia contemporsinea que requer da nossa consciéncia o cancelamento efetivo ou a exclusio temporéria de boa parte do ambiente imediato.Interessa-me como a modernidade ocidental desde o século xix exigiu que os individuos se defini eadaptassem de acordo com uma capacidade de ‘prestaratenca0 ou seja, de desprender-se de um amplo campo de atencio, visual ou auditivo, com o objetivo de isolar-se ou focalizar-se em lum niimero reduzido de estimulos. Que nossas vidas sejam tio inteiremente uma colcha de retalhos de taisestados desconexos, nao é uma condigio “natu ral” e, sim, o produto de uma densa e poderosa recomposigao da subjetividade humana no Ocidente ao longo dos iltimos 150 anos. Tampouco ¢ insignificante ‘© fato de que no fim do século xx uma imensa crise social de desintegragio da subjetividade seja metaforicamente diagnosticada como um déficit de “atengio' Grande parte da anilise critica e historica da subjetividade moderna no século xx tem se baseado na ideia de “recepcdo em um estado de distragao tal como foi articulada por Walter Benjamin e outros, Deriva desse raciocinio a disseminada suposigio de que, a partir de meados do século x1x, a percep¢ao 25 se caracteriza fundamentalmente por experitncias de fragmentago,chogue ‘clsperia Popo aui que dtragio moderna pode ser entendide i eu desde fades’ tengo. rei explorara interscroparadonal ques extabeleceu des fine do século xix etre o imperativ de manter uma atengio concentrada ra educa amo de massae0 organizagio disciplinar do trabalho, daeducagioe do consu ania ideal de uma atengiocontinvada como elemento constittivo de uma soe jo objtar que estou comparando vidade live ecriativa. Sem diivida, alguns ‘quaitativamente diferentes nogSes de atengio: que, por exemplo, wun indivi- jvado que contempla uma obra de arte tem pouco ou nada em comm iuo cult am repetitiva. En- e sugio de uma taref com um operirio que se concentra na execu: ante, a propria possbilidade, no final do.século ética purificada estéestreitamente ligada tretanto, como discutirei adi xx, de se conceber uma percepgio es een 1a processos de modernizagio que tornaram o problema da atengio um tema ‘ idade produtiva central nas novas construgées insitucionais de uma subjetiv controkivel, © que espero apontar sio os vinculos existentes entre as expe- riéncias modernas de divisio social e de autonomia do sujeito eas magaificas ento, ossibilidades, os limites ambivalentes e 0s fracassos de um individuo a pi at iro é uma tentativa de esbocar alguns contornos de uma genealogia da atencao desde o século xix e de detalhar seu papel na modernizacao da subjetividade. Mais concretamente, examinarei como idelas sobre a percep- 1 se transformaram, em fins do século xrx, lado a lado com o fo ea atenca “ surgimento de novas formas tecnologicas de espeticulo, exposiglo, proj isto. Procuro descrever os caminhos pelos quais um novo co ‘um sujeito humano atragdo e re tnhecimento sobre 0 comportamento e a constituigio de ‘coincide com mudangas sociais e econ6micas, com novas praticas represen tativas, e com uma reorganizagio radical da cultura visual e auditiva. Neste livro, construo um ponto de vista relativamente inusual para estudar uma crise generalizada da percepgio nas décadas de 1880 ¢ 1890, indicando como a problemtica nogdo de atengio foi fundamental para todo um conjunto de durante esses anos e, de modo indireto, ‘questes sociais, filosoficase estétic para uma série de desenvolvimentos no século Xx. Hi diversas razdes importantes para que eu elegesse o problema da atengso ‘como o ponto de partida do exame de um conjunto de objetos no perfodo his {rico em questio, Talvez de maneira mais signficativa, a atencio, enquanto constelacio de textos e préticas, seja muito mais do que uma questi do olhas, da visio edo sujeito tao somente como espectador. Ela evita que o problema da percepciio seja reduzido a uma equiparacdo simplista com questdes da visua 26 lidade e, como tentarei demonstrar, o problema moderno da aten¢io abrange uum conjunto de termos e posigbes que nio podem ser construidos apenas como uestées de 6ptica. Recentemente, com a expansio das estudos da visualidade, a visio tem sido tratada como um problema aut6nomo que se autojustifica. Ao privilegiar a categoria da visualidade, incorte-se no risco de ignorar as forgas dda especializacio e separagdo que deram forma a essa categoria, ernando-a0 conceito intelectualmente disponivel que é hoje, Assim, muito do que parece constituir um dominio do visual é um efeito de outros tipos de forgas e de re- Iagfesde poder Aa mesmo tempo, a “visualidade” pode facilmente desviar se para um modelo de percepcio e de subjetividade que se afasta da ideia de “cor poreidade’ mais rica e mais historicamente determinada, na qual un sujeito “corporificado” é 20 mesmo tempo o local de operagies de poder e o potencial de resisténcia a elas. No momento presente, assegurar a centralidade ou a “hegemonia’ da visio na modernidade do século xx nao tem mais nenhum valor ou significado, Portanto, mo argumentarei, a cultura do espetéculo no esta fundada na necessidade de fazer um sujeito ver, mas em estratégias ppelas quais s individuos se isolam, se separam e habitam o tempo destituidos de poder. Do mesmo modo, as formas de contra-atencio nio sio exclusiva ou essencialmente visuais, mas constituidas como outras temporalidades e esta- dos cognitivos,tais como os que ocorrem no transe e no devaneio, {Um dos objetivos do meu livro Téenicas do abservador foi demonstrat como as transformagdes histéricas das nossas idelas sobre a visio nao podem ser , pp. 42-57. Kurt Golstlaescreveu que ‘menos que astenco ten "una énfise diferencia’ as ransfrmariem “uma iberacho patolipca para os estimulor insist diendo que" dstrago e a ixagio anormal sio fexpresies da mesma mudang funcional ob condigGes diferentes Goldstein, “The Sign- Feance of Paychoogial Research in chizophenl’ Journal of Nervous and Mental Discas 97.8.3: mAE 943, p. 372 O filésofo Alfred Fouillée formulou o problema de maneira sucinta: “Concen trara vontade ea atengiio em qualquer coisa leva ao esgotamento da atengio 8 paralisia da vontade” Nesse sentido, a atengio tinha certas qualidades termodinamicas segundo as quais determinada forca podia assumir mais de uma forma.” Emile Durkheim, em seus escritos epistemoldgicos da década de i890 e no contexto de uma discussio mais ampla sobre a cogueira inerente 4 percepcio, foi explicito a respeito da impossibilidade de se separar atencio € distragdo: “Estamos sempre em algum tipo de estado de distrago, pois a atengio, ao concentrar a mente em 4m miimera redurido de objetos, deixa-a cega para muitos outros. Toda distrago tem o efeito de excluir da consciéncia, certos estados psiquicos que, apesar disso, no deixam de ser reais, pois con tinuam a funcionar” Nesse sentido, meu trabalho busca corrigir algumas hipéteses de uma cor rente critica bastante estabelecida, a qual, por sua vez, caracterizou a moderni dade em termos de experiéncias de distragio, Em particular, as obras de Georg Simmel, Walter Benjamin, Siegfried Kracauet, Theodor Adorno e outros prest iam que a percepgdo distraida era fundamental para qualquer explicago da subjetividade moderna." A palavra ales Zerstreuung figurava em insimeras 10 Alfed Foul, “Le Physique ee mental: Apropos de Thypntisme’ Revue dee Des Mon ds, 105, ao 1943, 9.438 10} Exnst Mach fi um dos muitos qu, na década de 880, entendew sua naturera aparentemente paredora “Onde iteligénca ting um so grade desenvolvimento tl como acontece hoje nas condgdescompleas da vida humana asrepeesentagdes com fequéncia poder absorver toda a tengo, de modo que a pessoa que et reletindo pode nia notar eventos 20 seu redorenio ouvir perguntas feta els um estado que a pessoss no acostumadss poderiochamar de distrasio (absent-minded), xabora poss ems apropradamente ‘hmada de concentra [presen uss!” Mach, Comins tthe Anal ofthe Sensations 85], wad. C.M, Willams La Sil lini: Open Court 18, p. 204 Emile Durkheim, “Indivial and Collective Representations em eu Socilgy and Philo apy, trad. DF. Pocock. Glencoe, Ina Free Pes, 953, 10s Ver por exemplo, oor Simmel As grandes cidade en vda do expe [go], tad. Leo poldo Watsbor. wan, vn, 3, Rio de Janeiro, 2005 pp. 77st; Walter Benjamin, “On uminaions tad. Harty Zohn, Nora York: Schocken 168, 1p.15-200 [ed bas: "Sobre alguns tems de Bnudelaite’ in A moderndade eos moderna, Mende da Siva, Arlte de Bio eT ata, Rio de Jane Tempo brasileiro, 2000, pp 3-72: Sted Kracauer, “Cul da dita’ n O ornament da massa (1963), tad, Carlos Eduardo |. Machado e Marlene Hlzhassen, Sto Paul: Cosse Nalfy 2005, p. 343-48]; € Theodor Adorno, "On the Fetsh-Character in Misi and the Regression of Listening in Andrew Araoe ike Gebhard (orgs), The Es Schoo! Reader, Nova York: Urizen, 1978, pp 270-99 [ed bres: Oftichsma na misca ea oa, trad, Roberto Schware, So Paulo, Abril Calta 98 Some Motif in Baudelaire in ed, ad. Heindrun Krige ripest da aug anilises criticas ligadas 3 teoria kantiana do conhecimento. Nela, Zerstreuung sito ou disseminacdo das percepgdes, fora de qualquer referia-se a uma disp. sintese necesséria, percepgdes que “apenas seriam tum jogo cego de represen- tages, isto &, menos que um sonho”" Parte do legado dessus obras foi a des crigo da modernidade como um processo de fragmentagio e destruicio, em que as formas pré-modernas de completude eintegridade foram irremediavel- mente quebradas ou degradadas pelas reorganizacées tecnolégicas, urbanas e econdmicas. Uma das premissas de On Judging Visual Works of Art (1876), de Fiedler, foi o diagnéstico da “decadéncia” na capacidade de percepsio. Esse texto representa um exemplo importante das primeiras suposiges histéricas, que depois se generalizaram, de que as modalidades pré-modernas de ver e de ouvir eram implicita ou explicitamente mais rcas, profundas ou valiosas?” decerto estava por tris da tentativa de Fiedler de estabelecer Essa avaliag uma estética“objetivsta, em que a“presenga” da forma visual pura éacessivel apenasa um “olhar” atento e desligado de qualquer das condigdes subjetivas, da visio.“ Na virada do século, Simmel jétinha descrito de maneira exemplar como a vida urbana moderna era “uma rpida e continua movimentagio de estimulos externos ¢ internos” e contrastava com “o ritmo mais lento, usual € de fluxo mais suave da fase sensério-mental” da vida social pré-moderna, Um onto de vista coetineo considerou a fragmentagio implicta na modernidade como elemento destrutivo para uma série de valores artisticos eculturais tradi cionais, mas, segundo essa visio, a distragdo era parte necesséria do processo de superagdo da estética burguesa falida. Contudo, existia um ponto de vista, prevalecente de quea distragio era produto da “decadéncia” ou da “atrofia" da percepsio, no contexto da deterioracdo generalizada ca experiéncia.™ Adorno, ppor exemplo, trata a distragdo como uma “regressio”, como uma percepcao ue ficou “pres no estagio infantil” e na qual a “concentracao” profunda nao 106 1 Kant, Citigue of Pure Reson op p13 fed. port Cito era pura, op. cit, A 2} 107 K-Fed opt p40. 108 Vera andise penetrate sobre Fiedler feta por Ernst Case, The Phil Forms: The Metaphys of Symbolic Forms, rad, John Michael Kris, New Haven: Yale Uni- cohy of Smblic ‘very Press, 996, 4 pp. 8185:"0 context pricolgco no pode ser confundido com o ons: o sentiments que surgem quando se apreende uta obra de arte no podem ser consderados como aspects essenciais dessa obra [..] noi, Feder pens que tado.o «que pertence ao lado subjetv! ao mundo mocional, eno so mundo vise, meramente bscurece a visbldade pure to Vera andlise de Miriam Hansen sobre historiiassoambivalete da percep feta por Benjamin em “Beajamin, Cinema and Experience’ New German Critique. 4 kvetno 1987 pp. i733 mais possivel.»° Para o poeta Rilke, que escreveu no inicio do século xx, a tengo auténtica era 0 resquicio raro e precioso de um ideal perdido de ab- sorgio artesanal no trabalho, agora relegado as margens de um mundo me. canizado cheio de rotinas, Para Rilke, o escultor Rodin encarnava “o homem atento a quem nada escapa, o amante que recebe continuamente, o homem paciente que néo conta o tempo e nio pensa em querer a coisa seguinte. Para cle,a tinica coisa que existe é sempre aquilo que ele é e seu entorno, o mundo em que tudo acontece [...] eeste modo de ver esté to fixado em si porque ele co adquiriu como artesic™ ‘Ao contrério disso, defendo que a distracio moderna néo é uma ruptura dos tipos estiveis ou “naturais” de percepgao continua e imbuida de valores existentes durante séculos. A distragdo seria um efeito e,em muitos casos, um, clemento consttutivo das diversas tentativas de produzir atengao em sujeitos umanos” Se a distragio surge como problema no final do século xe, isso corre de maneira inseparivel da construcio paralela, em varios campos, do observador atento, Embora Benjamin faca afirmagdes positivas sobre a dis tragdo em alguns de seus trabalhos (sugerindo que a disrupgio inerente ao choque e & distragio traz a possibilidade de novos modos de percepsio), ele sempre pressupunha uma dualidade fundamental, em que a contemplagdo ab: sorta, purficada das estimulos excessivos da modernidade, era o outro termo." tno T. Adorn, opt. 28 tat Ralner Masa Rilke, Letters of Rainer Maria Rls 1892-9, trad, Jane B, Greene M.D. Noe ton, Nova York: Norton, 945, carta a Lou Andreas Salome, 8 de agosto de 1903 tna John Dewey fi um dos que, décads de o,havam esabelecdo a impossibidade de sepataro modelo normatvo de atengioe as experiéncas de chogue, disociagSo € nov dade:"Um choquecasado por una surpresa um dos métodoe male chicazes de desprtar ‘tengo. Oinesperado em meio rotina ¢acenuado, © contrate ene os dis prende a ‘tengo edisocla umn do outro de modo mais eficaz Assim a varedade es mobiidae da vida psigic esto garantida: Dewey, Psychology. opt .127. sis E claro que em alemio no hi cognat pars contemplation. Enteetant, vale lembear s ressondncias teolgicas dss termo de orgem latina. Ele significa nio somente "ver ou in’ mas, como esceveu Paul Tilich, antigo colega de considera com atengio cor Adorno no Frankfrt Isis, "eontemplagso significa i ao empl, entrar na esfera do agro, nas rales profundas das coisas, em eu terreno criativo,Tilich, The New Being. Nova York: Scribner 1955, p30. Pata Benjamin, mesmo Franz Kaka, um de seus mo: dernists exemplars, aracerizava-e por uma relacio prolemstica com as modalida des seculares da percepeio: “Se Kafka no rezoa~ coisa que nfo sabemos - distngui-se em gra elevadissimo pelo que Malebranche define como'a oraco natural da alma’ a tengo. Enel, como ot santos nas suas oraies, el eslidarizou com todas as cra ras W. Benjamin, hominations-p. 94 fed bras: “Franz Kafka’ in A modernidade eos ‘moderns, op. ci. p. 97) 7 “Distragéo e concentragdo formam polos opostos”, declarou Benjamin no fa ‘moso texto em que coloca a arquitetura eo cinema como dois paradigmas do modo moderno de “recepgdo em estado de distracio’™' Em vez disso, argu: ‘mento que atengio e distragao nao podem ser pensadas fora de wm continuum no qual as duas fluem incessantemente de uma para a outra, como parte de um ‘campo social em que os mesmos imperatives e forcas incitam ambas, Abra do historiador de arte Alois Riegl foi um dos muitos elementos que formaram a historicizagao da percepedo de Benjamin. Em seu livro de 1902, ‘The Dutch Group Portrait (0 retrato de grupo holandés], Ricgl descreven ou tro modelo de atengo, no qual opunha nao tanto formas contemporineas de distragio, mas antes formas modernizadas de subjetividade, caracterizadas pela absorgio numa percepcio de base fsiologica. Ainda que o texto de Riegl tenha sido influenciado pelo conhecimento das pesquisas de Wundt e outros, sua explicacio da atengao buscava reconstituir o ser unitério que a psicologia Anterior mente, Helmholtz havia escrito algo parecido: “Nio existe nenhuma maneia, de se alcancar um equilibrio da atengio que dure por um periodo longo. A ten- déncia natural da atengo quando deixada a si mesma é sempre de vagar por coisas novas’” Na década de 1880, esse entendimento jé havia se generalizado, eas observagves do psicdlogo heodor Lipps sio tipicas: “Repetidas vvezes, & uma questio de experiéncia querermos apreender firmemente e até acharmos que seguramos com a forca da atencio algo que nos escapa e é subs ituido por outra coisa. Assim, écom dificuldade que conseguimos, ou entéo rmerglhando de volta no fuxo, parece estar a mil éguas da efcinca tyres Posnock, ‘he Til of Carity: Henry James, Wiliams James andthe Challenge of Modernity. Oxford Oxford University Pres, gon pp. 0-16 154 W.B, Carpente ysl [886] op. pp 13435 Maitos ds im peratvospedaglcordsciplinaes da obra de Carpente mals de quatro dicads, como pode sever, por exemplo, no tabalho de Hugo Minster Teacher. Nova York: D. Appleton permanecerm efetvos dure colegs erival de James em Harvan. Ver Py chology 1909, especialmente pp.s7-71, 155 TL Ribot opt 136 Hermann Helmholtz, citado em W. James, op. elt ¥ 1p. 422, Ver também Marie emarqus su lemécansme de ttentio! pp 569-7 no conseguimos, aprender ou isolar certo contetido perceptive! Desse modo, a atencdo impediria que nossa percepgdo se transformasse em uma cenxurrada incoerente de sensagies, apesar de a pesquisa mostrar que nao era ‘uma defesa confidvel contra tal desordem. Era um componente indispensé vel do sujeito “normal” e “racional” da sociedade industrial de fins do século xix, mas se assemelhava de modo preocupante a certos efeitos “patolégicos" “irracionais”, Apesar da importincia da atengio na organizacio e na mo dernizacio da producdo e do consumo, a maioria dos estudos sugeria que ela tomnava a experiencia perceptiva instavel, constantemente sujeita a mudancas «por fim, dissipadora."* No século x1x, a aten¢ao passou do modelo clissico de estabilizacio mental da percepcio dentro de um molde fixo para um con. tinuum de-variagio, uma modulagio temporal, repetidas vezes descrita como de cardter ritmico ou ondulante.” Embora parecesse trazer a possibilidade de construcdo de cognicées estiveis ¢ ordenadas (mas ndo necessariamente verdadeiras), ela também continha em si forcas incontroliveis que poderiam ameacar esse mundo organizado, Dentro da crise epistemol6gica geral do final do século x1x, a atencio tornou-se uma simulagio temporiria e inadequada de 157 Theodor Lipps, schol & Wilkins, 926 p89 158 "O movimento sicesivo d tenga que pasa por diverts objets parece serum proceso perio, cal Studies [8] trad. Herbert. Sanborn alkimore: Wiliams sto de diverso aos de percep seprados e consectvos, Em condiges fa peibic Assim, se deinarmos uma impress racae continua agit sobre um dio do sentido as tengo pode set demostrad drtamente |. ‘arms todos os outros extimulos o mismo possvel ser possvel bservar que, quando a steno extiverconceneads nessa imprest, em interval geralmente regulates, ext se tornarsindscerivel por tm curt period ow parecer desapaecer po inter, apenas para resparecerno momento segunte” Whe Wund, Outine of Pychology [853] ed rev, ead, Chaves H, Jud, Lepig:Eaglmana, 902, p23; rf orginal. Angelo Mosso ‘observot que "a ate presrupde mosificagdes de natreracomplexa”envavendo oxi lags periicas. “As experigncias mostaram que a steno no € um proceso continu rai sim interment, que avanga quae que por salts" Fatigue p. 13-84. A atencdo & excita como wim forma pris, emelhante&onds em Thaddews Bolton, "Rhytn! American Journal of Psychology 6m. 2, Jan. 1894 Pp 145238 A dscrgio de atensio podia também mostrar cert afindade com a “certezasenalvel” de Hegel como forma de spreenso qu ance s mesma, como num ritmo de "sparecimentae "Ssaparciments VerG. W.E Hegel, The Phenomenology of Mind tra. B. Baile. Nowa York: Harper & Rows sd. Paulo Meneses e Karl Hein 1967, pp 49-61 fd, bras: Fenomenologia do expt, en Eetpetes Feo 159 Sobre a isting entre mode e modalag, ve Gilbert Simondon, Lindivid esa gene syho- biologique, Pri: Preses Universities de France, 1964, pp 39-44 Uma dscuseto semelhante encontr-s em ills Delee, A dbra: Lei 0 bara [oa ra, LB 1. Onan, Campinas Papas 1993, pp. 38-42. 90 tum ponto de estabilidade arquimediano a partir do qual a consciéncia podia conhecer 0 mundo. Em vez da estabilidade perceptiva eda certeza da presenga, cla desembocava no fluxo e na auséncia em meio aos quais sujeito e objeto tinham uma existéncia dispersiva e proviséria." Talvez nenhuma instancia do final do século x1x tornasse mais visivelo sta us ambiguo da atensio do que o fenémeno social da hipnose. Por muitas ddécadas, a hipnose esteve na dificil posicio de modelo extremo de tecnologia. da atencio. Embora parecesse oferecer novas possibilidades de poder clinico ce beneficios médicos, ela revelava os contornos preocupantes de um sujeito cuja configuracao incerta podia escapar tanto do dominio intelectual quanto do institucional." Ao demonstrar de modo tio dramitico o cariter precério ‘emaledvel do que se pensava ser a consciéncia, a hipnose langou um desafio sem precedentes para a possibilidade de separar os fatores psicoldgicos, Tigicos esociais."* Muitostipos diferentes de testes feitos no final do século xx pareciam mostrar que era incerta a fronteira entre atencio focada normativa, c transe hipndtico. A hipnose (palavra que significa tanto um estado psiquico quanto as prticas especifcas utilizadas para induzir esse estado) era descrita com frequéncia como uma mudanca de foco e um estreitamento da atengao, acompanhado da inibigdo das respostas motoras. As pesquisas, que comesa- 160 Pata Henry Adams, no final cada de 890, 0 sueto modern era agule para quem 'o pensamento normal era diperso,o sono, sonho, nconsequéncs 3 a0 simulnes de virios centro de ensamento sem um controle ental’ A mente mans, ecreveu, pasa mctade da vida no cios mental do sono; vin, mesmo quando acoedada, de seu pripcio esjust, da doen da idade, da sugesto externa, da compulso da natures: duvidando de suns senanges em lima inetnca, confando apenas em instramentoe estat’ 1H. Adams, The Education of Henry Ada. Boston: Houghton Mii, 173, pp 434-0. (O otimismo generalizado sobre hipnose como panacea fea evident num tipo anal _médico sobre asinto“Alegro-me de ter vivo para we a triunfo da qm, da irurga «das pesousspsicolglcase ptogicas masa pesgulsa sobre ahipose prometedesco- bertasmalores ainda; aquelas que reveario as lls que governam econeclam a ages, of sentimentos eos pensamentor James . Cocks, Hypnotism: How It Done, ls Use and Dangers Boston: Arena, 854,93 a6 A pergunta sobre o que € hipnos,Itbelle Stengersresponde:“Niosubemnos etencl- smente nad espeito |. Aind falamos de hipnose sem saber ditingi entreshipnose Ae auitrio, as diferentes formas de ranse rualistico, as hipnoesasasinsasociadas& Hitler e Khomenishipnose estupidicante que atelevielo daramente provoca ea hipnose leangada de acordo com wm protocol cen .Stengrs, “The Deceptions of Power: Paychonalyis and Hypnose Sub Stance 62-63, 1990, 9 continuaram com Auguste Ligbeault ram com James Braid na década de 1840 na década de 1860, exploravam a semelhanga aparente e paradoxal da hipnose eda atengéo com 0 sono." Tais observagSes traziam implicitas certas questies preocupantes: se a atenglo era apresentada como baluarte contra a dissociaca0, garantia de coesto da consciéncia e de sua relagdo com 0 mundo e ferramenta de produtividade, como podia ser tdo préxima de estados que implicavam perda de autocontrole, de afetos e atividades conscientes? No final do século x1x, a hipnose era geralmente definida como um dos cextremos do espectro de intensidade da atengao, que envolvia concentragio intensa do foco e relativa suspensio da consciéncia periférica. G. Stanley Hall, em 1883, sustenta uma posigdotipica ao afirmar que “a maior parte dos fenéme nos que chamamos de hipnose” nio pode ser atribuida a forgas mesmerianas, “mas apenas a um grau anormal de‘concentragdo da Atencio, dirigida de vévias rmaneiras por sugestdes de diferentes tipos”* Entendia-se que, em estado de hipnose,a percepgio era hicida e detalhada, porém, que o escopo da conscién cia era muito redurido, De fato, as técnicas mais comuns para induzir otranse hipnético eram as formas de focalizaco, ito , que concentravam aatenglo em algum ponto especifco, frequentemente um ponto brilhante e luminoso, mas por vezes uma ideia ou apenas o ritmo da propria respiracio ou dos batimentos cardiacos. Assim, a atengio parecia ser a porta de entrada para um estado pouco compreendido, mas qualitativamente diferente do que até entio se consider consciéncia." Na década de 1880, houve debates famosos sobre o significado desse estado enigmitico: seria, como acreditavam J-M. Charcot e seus seguido- es, do hospital de La Salpétrdre,o sinal de alguma desordem somatica oculta, ‘ou, como queriam Hipolyte Bernheim e outros, uma exacerbagao de um estado completamente normal de sugestionabilidade? A obra de Liébeault, responsivel pela formagao da chamada escola de Nancy na década de 1880, postulava a atengio como o elemento mais impor tante ecritivo da vida psiquica, Era considerada uma forga mével edinémica, responsivel por toda a percepsio e a atividade motora, Ligbeault acreditava ervous Sleep. Londres: Churchill 1843 163 James Braid Neurypnolgyor the Ration vlogs Pais: Doin Auguste Lithenult Le Sommel provoqu ets das Richet, "Du Sornambulisme provoque” Journal de pathologies, 1 1875, p.348-78, 464 G. Stanley Hall op cit, p70. Hall aprofunda a dela de um espectroincerto de extados de Iipotese de Atengio, um grande némero de distrbios neurldgicos€ cons ode enados comune todas as mentes normaie plyslogie normals ‘erado apenas exacerbac 165 Ver por exemplo,olevantamento de ténias de induce hipndtc,nolivro de Albert Mol, am i889} Nova York; Srkners, 89, pp 3-63 2 que a indugdo hipnética produzia um estado semelhante ao sono, em que a atengio era imobilizada ou isolada, O estado que ele chamava, lisme provoqué [sonambulismo induzido] era uma reorientacao dristica da tengo e podia ser produzido por meio de uma série de técnicas relativamente simples. O desenvolvimento do trabalho de Ligbeault por Bernheim, dentro de uma pritica clinica mais sistemstica, inclufa um método de indugéo chamado de “atengio fixa ‘em que o olhar continuo sobre um tinica ponto ou objeto produzia uma reorganizacao radical da consciéncia. A escola de Nancy man- leve-se importante pelo fato de ter situado o fendmeno hipndtivn ne Wereno dda percepgéo normal, em vez de consideré-lo como sintoma de uma doenga ou fraqueza. Bernheim costumava declarar: “Procurel mostrar que a hipnose na verdade nao cria uma nova condigio: ndo ha nada que acontega no sono induzido que nao possa acontecer no estado desperto, muitas vezes num grat clementar, mas, algumas vezes, no mesmo grau” A hipnose também mostrava com clareza que os estados atentos podiam ser descritos em termos de absorsio, dissociagio e sugestionabilidade. A ligacao entre aatencio e a dissociagio m particular significativa porque permite en- tender aatencio, na questio de forma seri ralavras de um pesquisador contemporineo, como uma eparacio mental de componentes da experiéncia que de outra im processados juntos” Isso pode levar a suposicio de varios tipos de descontinuidades entre as experiéncias motoras, sensoriais e psicoldgicas William James fot um dos muitos que, na década de 1880, investigaram as dis- sociagdes possiveis em estados absortos ou hipnéticos,tornando simultineos 166 Hippolyte Bernheim, Hyp S oss and Suggestion in Pychatherapy [4884], rad. Christian ere. Nova Yorke Aronson, 197, p. 79. Compara ibid. pp. 149-$0:"A candi hipnd tic no é anormal, a ria nov anges em fendmenosexesrdiniios ea desenvove aqueles que se prodazem na condicdodespera [Na verdde, avez no baja nem ut, nem dos estados de consclncla, mas estigio infintamentevardvels. Todos os gets de Iago podem exsie entre a condigio desperta prfeltse a condo de concentragio perfeta que constitu o sonamblisme" 167 David Spiegel, “Neurophysilogial Corelaes of Hypnosis and Dissociation Jour of Newropsjchiary and Clinical Neuroscience. 399%. 4492"A hipnose est em um ex teem do espectro da steno; envalveo aumento da pes ncenragi do foc ea lati da consciénclaperlris. A concentra hipnstica& como ob teleotorifica de uma cimer:o que sev dtalhado, ms 0 ecopo & eduzido | dos principsis componente doertadohipnético &capacdade ugetva, isto & uma recepividade 2s estimulos socials que aumentaatendénca a acstarinstrugbes hips. Isso representa no uma perda de vontade, mas uma suspensto do juizo rtco em ardo 4a intensaabsorgo do estado hipndtica, As iastrugeshipnéticas so astomaticamente acatadas e com egutnca so, por eng, consderadas decisis internat’ dois processos mentais distintos."*Talveza descoberta mais signficativa feta pela pesquisa nessa drea, a comecar com Mesmer e continuando por todo 0 século x1x, tenha sido a de que, apesar de a hipnose implicar um estreitamento dda atengio, paradoxalmente ela também permitia aos individuos que expand sem a consciéncia, que vissem e lembrassem mais (como hoje os departamen- tos de policiae outros o sabem)." Em muita instincias, a hipnose revelou-se ‘um meio de recuperagdo de meméria tio eficiente que ndo é de espantar que tenha escandalizado a psicanilise, obrigada a trabalhar com uma escala tem: poral muito mais extents, ‘Como fendmeno histirio, a hipnose também deve ser considerada dentro do campo mais amplo de processos de racionalizagdo. Assim como as inova 6es fotogrificas e cinematogrificas das décadas de 1880 ¢ 1890 definiram os. termos da automagao da percepcio, também a hipnose (apesar dos paradoxos {que revelava) era uma tecnologia que oferecia ao menos a fantasia de tornar 0 ‘omportamento automiticoe previsivel’® Embora o transe hipnético fosse um «estado profundamente ambiguo, transformou-se em uma imagem poderosa de docilidade induzida por procedimentos psicomeédicos especificos, Entretanto, no inicio do século xx, a hipnose subitamente desapareceu da tendéncia do- ‘minante das priticase pesquisa insttucionais. O abandono nervoso de Freud, Bernheim e outros, da hipnose foi apenas um dos sinais mais visiveis dessa mu ddanga:” Houve uma surpreendenteinverso cultural entre o apogeu da hipnose, 168 Ver Eugene Taylor, Wiliam Jameson Exceptional Mental Sates: The 1896 Lowell Lectures, Anerst: University of Massachusetts Press, 183 pp. 15-34 Jon EKihstrom e Kevin M. “MeConke, "Wiliam James and Hypnosis: A Centennial Reflection, Prycologial Since, vets. malo 1990, P1778 19 Por exerpl,Scheling, poe vol de i, esceveu sobre como “sono mesinerin constiaia ‘uma quebea da unidade dos extador de vg, abrindo a possibiiade do “desenlvimento do talento vsioniio em ger He especulaa sobre comtnuidade eas adage eee stds aparentemente distntos "Por multas aes paree-me que chard sono mesmeian fe separado do soo comm de modo muito cepa Schelling, The Ages ofthe Word rad Frederick deWoleBolman, Nov Yr Columbia University Pres 1942.8 170 Ver, por explo, a descrigio da hipnose como tecnologia social prtica de atenco em HG, Well, When the leper Wakes 899]-Nese romance, tuado no sécolo xt," pl «ages pitas da psicologiaeram agora de uso ger, drivand dos trabalhos de "Fechner Lebeau, Wiliam James" e outros. “As eriangas poquenas das clases operdras assim que tinham dade suiciente para ser hipnotizadas, erm assim converts em guardadorss «de miquinas perfetamente pontuals e cones... Um ipo de cirurga pag er, na verdad, de uso geral” Tne Proetic Noels og, Blellet Nova York: Dover, 960,124 171 Sobre. abandono por Freud da técnica hipnética, ver Léon Chertoke Isabelle Stengers A Catique of Pychoanalytic Reason: Hypnosis as a Scene Problem rom Lavisler to Lacan, trad. Martha Noe Evans. Stator Stanford University Press, 9836. p. 3645 94 no final da década de 1880, quando parecia ser em toda a Europa ea América do Norte uma terapia que prometia beneficios ilimitados, ea virada do século, quando se tornou um constrangimento para seus antigos defensores.”* No inicio do século xx, a Revue de 'Hypnotisme expérimental, fundada em 1886, ja havia :mudado seu nome para Revue de Psychothérapie et de Psychologie appliquée. A hipnose implicava tio energicamente possibilidades excessivas de con. trole perceptivo e cognitivo, ndo importando se empiricamente provadas ou rio, que se tornou incompativel com as ideias humanistas sobre o tonomo ¢ voluntirio da subjetividade humana (iaxla que a psicandlisetivesse suas pr6prias incompatibilidades com essastiltimas ideias) * Logo, a hipnose ea sugestio foram desprezadas como priticas dirigidas para processos auto- ‘iticos (os inferiores, mais instintivos e préximos da animalidade) e nao para processos racionais, que contavam com a participagao consciente ea forga de vontacle do paciente. A vivida caracterizagio feita por Bernheim da hipnose como uma “decapitagio mental” era tipica das imagens em torno das quais esse tipo de ansiedade mais tarde se desenvolveria.”* Houve também numerosos er Janet (1859-1947 fi um dos poucos psctlogos frances qué, no século xX continua a sem constrangimento algun ular ahipnose como prt fundamental de seu prjeto fc A quea hipnose era considera parte da ciénca normativ intituconal no inal da década de 880 eiico da segue. Porexemplo, ves a afirmagio inetata feta pelo historiador Mark. Mia de que “periodor de alto rau teraptico, Hoe ¢comum encontrar a ecu ~ que consti uma fl ientfica tim a caracterisica de 3s: esmerismo no fal do llaminisma,curaneiismo ehipnose gers “ ‘ada do séclo pasado, nosis pps pscologis da Nova Era emedicnasalternativa’ in Strange Signs of the Times" Times Literary Supplement, 16/05/199n p. 67 Essa opasicSo entre clénciae pseudociéncias penféres, que hoje em da et. aa moda, pica um modelo, Aduvidoso a um periodo histérico em que ets dvisdes bem dfinidas no existiam. Por exemplo,cafirmacso, nafs, da etc do ter laminas estavarelaconada de maneiea compleae varie ua ampla gama de eis sobre o “esprsma” ea “ago a distinc’ 179 A desconfianga moderna em rlago &hipnosecomtega com as reflendes de Hegel sore Mesmer eos “stados magnéticorconsderados uns doen: "Ma se minha vids sca separa-se da minha considncia intelectual e assume sua fang, perco minha liberdade, ue est enraizad nessa consis, perc a habilidade deme proeger contra poderes ex ternos,na verdad, suetosme esse dere. Ness rego migics,o onto pina E que um individ bre outs cua vontade é mais frac e mene independent Dee ‘modo, natureas multo poderosisexercem maior poder sobre as acas um poder mui esto nessive que estas itimas podem ser indusidas ao transe magntico mesmo em quer” Hegel Philosophy ofthe Miu, pp. 6-7. Pats Hegel, omesmeismo represen tava um momento espetico de diferencia do sere iferentaion] numa deseriglo mas ampla do desenvolvimento da consciacia 174 O luga da hipnose no imaginirio popular ésugeido numa peca de Strindberg de 188, (Opa, sobre as races de poder um casamento que este desnegrando. Em certo pono, 95 processos judiciais, muito publicizados (a maioria claramente fraudulenta) dos casos de individuos que alegavam ter sido coagidos por hipnose a realizar atos sexuais ou criminosos contra a prépria vontade.” Isso nio significava que a investigagdo e a pesquisa sobre a possiblidade de controle dos sujeitos hhumanos tivessem cessado, pelo contririo, mas ideologicamente essas éreas rio podiam ser reconhecidas como parte das ciéncias humanas. O repiidio A hipnose ocorreu apesar da enorme quantidade de evidéncias clinicas que _mostravam que os sujeitos hipnotizados, de modo essencial, mantinham sua liberdadle. Desde « mudanga de opiniao de Freud, « hipnose continuou a ser um fendmeno cultural perturbador justamente porque nio se deixava dominar cou racionalizar pela cincia endo, como se diz com frequencia, porque era “um. ataque 8 dignidade do paciente’2"* Como modelo de relagdes de poder, a hip. omarid repreende a mulher “Se eu estes acordado, voc poderla mehipnotizar para «qe et nfo pudesse nem ver nem ouvir 6 obedecer voce poderia me da uma basta cra me convencer de que era um pssego voce podera me obigar a admira eu coment to mais infantil como ae Fosse uma idea de genio; voc podera ter me levado ao crime ¢ at mais baixa mesguinhara: Strindberg, Thee Plas trad. Peter Watts, Harmonde ‘worth: Penguin, 958, pp. fs. Exe una extensaltertura que apresentava imagens pertusbadoras da hipnose, ncuindo o romance antisemits Tilly. Nova York H ‘nd Brothers, 04 do ecritorstradorbitnico George Du Mabie Na Fran, Iteratura inchs La sommambude, de William Mintorn, Pars: Gh, 18; 0 conto “Soeue Marthe’ publicado por Charles Richet sob o pseudnimo de Charles Epheyr. Revue der Deve once, 95 mao 151889, p. 384-43; €0famoso cont "Le Hol” [886], de Guy tempo, o so de picofirmicos par sumentr seach 13,4986, pp ka-319. Ao mesmo temp : tengo tem sido estuad de virias maneirss Ver, por exempl, B.S. ken ea, “Phar on Behavorl and Electophysologc tmacologiclly Induced Changes in Arousal Measures of Alertness and Attention lecroenephalagrephy and Clinical Newoplysio 1.95.5, no 1995, p. 359-71 Ver também a série de rabalhosepresentadosem Patricia Catcrata Alice Tybot (orgs), Cognitive and Affective Response to Adve exington Books, 98 Ese io spens alguns dos milhares de estudes afins que si pu beads todo ana 98 tifcar em detalhe as continuidades significativas entre o final do século x1x ea nossa época. Isso também envolveria o exame das maneiras bastante diferentes ‘em que a atengio foi ao mesmo tempo uma estratégia de controle e tm locus de resisténcia e deriva, ecom maior frequéncia um amélgama dos dois, O presente trabalho tenta considerar alguns dos elementos que fazem parte do inicio dessa historia maior, que deveria ser do interesse de todos. Ji suger as formas assumidas pela atengio como um objeto relacionado & ‘organizacio e ao controle concreto da educagio e do trabalho. Nesse sentido, cla é inseps mas é uma inversio de seu modelo pandptico, em que o sujeito ¢ objeto da fl do que Foucault descreveu como instituigses “disciplinares’, atengio ¢ da vigilancia, Dai a idefa moderna da atencao como um sinal da re configuragao desses mecanismos disciplinares. Apesar da sociedade discipli nar ter se constituido em suas rigens em torno de procedimentos nos quais 0 corpo era lteralmente confinado, fsicamente isolado e disciplinado, ou posto ‘num lugar de trabalho, Foucault detxa claro que essas eram apenas as primeiras experiéncias, um tanto toscas, de um processo continuo de aperfeicoamento e refinamento de tals mecanismos. No inicio do século xx, 0 sujeto atento & parte de uma internalizagdo dos imperativos disciplinares por meio da qual 0s individuos sio responsabilizados de forma mais direta por seu pr6prio uso cficiente e proveitoso em diversas situagdes sociais. As tentativas do final do século xix de determinar 0s limites de uma atengio “normativa” com certeza fizeram parte dessa transformagio, Embora aatengio possa ser situada dentro do relato especifico de Foucault sobre a modernizagao ocidental, também gostaria de associé-la a teorizagao de Guy Debord sobre a "sociedade do espeticulo”" Os trabalhos de Debord. de Foucault podem parecer muito distantes os dois decerto representavam, tipos muito diferentes cle pensamento, de critica e de intervengdo politica.™ Apesar de Foucault rejetar explicitamente a ideia deespetéculo como relevante para se pensar a sociedade moderna, hi pontos de coincidéncia importantes entre os modelos da sociedade da disciplina e da sociedade do esp. Acb culo, de Debord é frequentemente identificada aos significados mais su- 1h Deve-selembrar que Guy Debord descreveo espeticalo com a expressto comportement ‘nypetque [comportamentohipndtico] nas piginas inkl de seu Soi da spectacle Ver A sociedad do espeticul [167] rad, Etla do Santos Abreu Rio de Janeiro Con sponta, fa Embors A sociedad spatial de Debor’ tena sido um dos mas infuentes sais is deine marsstaseabelecidas nos anos 960, nda oper, pelo menos de modo imp ito, dentro deur terreno intletlhegeliano aque Foucault se opunka fontalmente 99 perficiais do titulo do livro, dado que desconsidera uma parte essencial da caracterizagio da sociedade do espetaculo: em ver de enfatizar os efeitos da comunicagio de massa e seu imaginério visual, Debord insiste no fato de 0 espeticulo ser (parafrascando Tonnies e sua Gesellschaft) 0 desenvolvimento da tecnologia da separagio. Essa é a consequéncia inevitavel da “reestrutu ragdo [da sociedade] sem comunidade" feta pelo capitalismo. A descricio que Debord faz do espetaculo como estratégias miltiplas de isolamento é se rmelhante feta por Foucault em Vigiare punir: a produgio de sujeitos déceis, fn, mais expecificamente, a diminuigio da arpa enquanta forca politica. Por tris desses dois pensadores, encontra-se a identificagao feita por Max Weber do “isolamento interior do individuo” como um dos fundamentos da moder nidade capitalista.™ Além disso, Debord ¢ Foucault descrevem mecanismos difusos de poder, por meio dos quais os imperativos de normalizagio ou con formidade permeiam a maioria das camadas da atividade social e tornam-se subjetivamente internalizados, Nesse sentido, o controle da atengao, seja pelos primeiros veiculos de comunicaglo de massa, no final do século x1x, sea pel aparelho de tevé ou tela do computador (pelo menos em suas formas mais difundidas), tem menos a ver com os contetidos visuais desses monitores ¢ mais com uma estratégia ampla sobre o individuo."* O espetdculo envolve a cconstrugao de condigies que individualizam, imobilizam e separam os sueitos, 18) G. Debord op. ci, p16. A necessidade de deste a comunidadej era parte da tecnolo i da tengo no inicio do séulo Xx: "Mas viros ftoes no rearano dos esabeecimen tos de acordo com os principio do gerenciamentocientiico mudaram a poscio dos tab adores pra qu as conversa casem mal dificels ou lmposies. O resultado evidente «em todos os lugares parece te sido wm aumento significative da producio.Oindiviuo concentra sua mene na taefa com urna intensidade que parece além desevakance quando sun tude interna et jstada to contato soca” Hugo MUnserberg,Pychoog dasa Bienes. Boston: Houghton Mili, 191, p20, Max Webet, The Potstant Ethic and the Spirit of Capitalism 1904), trad. Talot Parsons. Nova York Scribner, 138 p18 [ed rats A la pretender tea, José Marcos Mariani de Macedo, Si Palo: Compania da Letras, 2004), obra de ene Lefebvre fo irtamentesgafcatva para Debord: “Agultestemunhamos o calito captain, cate cera ‘ntomizai da vida (dennciadaunlateralmente ua cetena de veres) ema superoganizagio que cerea a vids, sem divida exge que sein stomizada como condigio prévia necesria. A socllizago da sociedad continua coms org total. Enquaito a redes onsiénca individual torna-se cada vez mais isoladae menos consciente dos ‘outro A sim fancion a conrad Lefebvre, Introduction to Modernity (i963, ta, Joba Moo, Londres ers, 995 p90 2:85 Raymond Wiliams siti a tlevisio dentro de ma gia econéimica eecnoligica de taco mel em seu Televison: Technolgy and Form, opt. 2. no s6 ago de olhar imagens, embora se situe dentro de um mundo em quea mobilidade ea circulacio so ubiquas."* Dessa maneira, a atengio torna-se um clemento-chave para o funcionamento de formas néo coercivas de poder. Pot {sso, ndo ¢ inapropriado unit objetos épticos ou tecnolégicos aparentemente diferentes: todos tém a ver com a disposicao de corpos no espaco, técnicas de isolamento, celularizagao e sobretudo separacio, O espeticulo nio éuma <6ptica do poder, mas uma arquitetura, A televisio e o computador pessoal, apesar de convergirem para uma operacio maquina inice, sio processos an. tindmades que fixam e estriam. Séo métodos para controlar atengio por meio da compartimentalizagio e sedentarizacio, tornando os corpos controliveis e iteis, a0 mesmo tempo em que geram a ilusio de escolha e “interatividade” claro que com isso nao se quer minimizar a necessidade da andlise hist rica das interfaces locas especificas entre homens e miquinas. Um dos estudos mais convincentes sobre as miltiplas composicées da relagao entre o homem e a méquina esti no trabalho de Gilles Deleuze e Félix Guattari. Eles distinguem virios modelos histéricos dominantes de interface entre seres humanos e mé 4quinas ou como seres humanos estdo “sujeitos a mquinas ou sistemas mecini- 0s" O capitalismo industrial, que comegou no século xxx, foi uma fase em que ‘o operador humano estava ligado & méquina como objeto externo. Entretanto, ‘com as méquinas cibernéticase informiticas contemporineas, “a relacio do hhomem e da méquina se dé em termos de comunicacio mutua interior endo mais de uso ou de ago" Deleuze (sozinho) defendeu que nas iltimas duas, décadas houve uma modificacio da sociedade disciplinar de Foucault para “sociedades de controle’, em que a combinag2o do mercado global, da tecno logia da informagao e do imperativo irresistivel da “comunicagio” produzem efeitos continuos e ilimitados de controle." Eu ressaltaria que, independen- 1s Vera dscusio que Hal Foster faz sobre Debord es questes de distasio, distinc espe p 28-20 (od. bras: rage The Ret of th Real Cambie Mt Pres, 1996 so real wad. Calla Ewald, S50 Palo: Cosae Naif 203). 7 Giles Deleuee Fix Goattar, il plate: Capitaliona e xquizfrenia sol trad Peter Pil Pelbate Janice Caaf. Sto Paul: Eaitors 34, 1997-5 1s. "O poder moderna no se reduzia aleratva elise ‘epressfo ot ideologi ma ny so, de modulagi, de modelzaio, de infrmasto, que se apom na inguagem, nape. processor de nota cept, no desej, no movimento ete, ¢ que passam por micoagenciamentos” Para uma