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Ano 2 / Número 3 - Dezembro 2011

10 NP

Prof. Sergio Hortelan


Prof. Rodrigo Paiva
Esporte e suas contribuições
O JOGO: Por que sim? Por que não?

Prof. Marcelo Jabu


Prof. Bruno Gonçalves
Vila Romana F.C.
A “magia” das Oficinas do Esporte

Prof. Fabio D´Angelo


“Quando um não quer, dois não brincam”
Responsáveis pelo Programa
Oficinas do Esporte

Coordenação Geral
Fábio D´Angelo
Caro Leitor, Zona Sul - SP e Caravana do Esporte
Bruno Gonçalves
Você acaba de receber a terceira edição da Revista
Cordel Pedagógico, Oficinas do Esporte – IEE. Neste O.S. Instituto Esporte & Educação - SP
Cibele Venâncio
segundo ano de publicação decidimos manter a
Zona Leste - SP
estrutura da revista, com a inovação de convidarmos Mafalda Marques
profissionais não vinculados ao IEE para manifestar
Heliópolis - SP
suas opiniões e suas visões sobre o ensino do esporte Bianca Lima
para crianças.
Rio de Janeiro
Lívia Resende
Nesta EDIÇÃO o tema central é o JOGO. Nas Oficinas
do Esporte encaramos o JOGO como o principal
conteúdo de ensino. É o JOGO que fortalece o
nosso método para o ensino de um esporte que
seja inclusivo e para todos. Queremos convidar o
leitor para uma reflexão sobre a idéia equivocada
de que o esporte, ensinado através do jogo, se
resume ao “recrear” ou apenas “ocupar” o
tempo livre dos pequenos. O nosso compromisso
é com o ensino e, como tal, enxergamos no jogo
um potencial educativo que mobiliza
interessantes aprendizagens nas dimensões
FICHA TÉCNICA
social, afetiva, moral, cognitiva e motora. O desafio
está para todos os professores do programa em olhar Redação
para o futuro, sem esquecer do presente. Assim, nas Profº FÁBIO D´ANGELO

Oficinas, as crianças praticam aquilo que está na base Arte


Profº BRUNO GONÇALVES
dos esportes, isto é, as brincadeiras. As crianças
aprendem a brincar de fazer esporte e os professores COLABORADORES da 3ª EDIÇÃO
ensinam sobre solidariedade, ética, respeito e professores(as)
cidadania. Adriana Vieira
Ângela Aparecida Lopes
Bárbara Piváto
Nossa vontade é motivar o leitor para conhecer o Bianca Lima
admirável trabalho realizado por todos os professores Douglas Eduardo Silva
das Oficinas do Esporte e ampliar ainda mais sua visão João Batista Freire
Mafalda Marques
sobre o ensino do esporte educacional para as Marilene Tavares
crianças. Romildes Lopes
Boa leitura! Tatiane Maciel Garcia
Tayane Santos Araújo
índice
Prof. Rodrigo Paiva
p4
C COM A PALAVRA
Prof. Sergio Hortelan
p8
E ENTREVISTA
Prof. Marcelo Jabu
p9
PARA PENSAR
Prof. Bruno Gonçalves p 12 NP NOSSA PRÁTICA
A MAGIA DAS OFICINAS p 17
Prof. Fabrício de Souza
p 15
1 Cultura Esportiva: Jogando para Valer

p 19
10 JOGO 10
Prof. Fabio D´Angelo
2 “Sabedoria das Artes Marciais”

p 21

PONTO FINAL
p 28
3 Lutas para as crianças

p 23
4 Conhecimento do Corpo

p 25
5 Jogos da Família

b www.esporteeducacao.org.br/blog/oficinas
Prof. Rodrigo Paiva
C
COM A PALAVRA
Nos últimos anos tenho participado de alunos nos movimentos realizados”,
inúmeras discussões referentes às diferentes “diminuírem a bagunça nas aulas”, entre
metodológicas de ensino existentes na outras. Quando penso em exercícios,
dimensão educacional do esporte. Não freqüentemente me recordo de situações da
pretendo teorizá-las aqui, mas acho infância em que me via obrigado a realizar
fundamental diferenciar duas orientações algo que me era imposto, que eu realmente
metodológicas bastante contrastantes: não via motivos para realizar, a não ser, é
lógico, para fugir da punição de não fazê-los.
Foi assim com a matemática, com a física,
O exercício e o jogo. com o português e por fim, com os esportes.
Acho fundamental dizer que embora eu, e
Muitos autores já tentaram definir
provavelmente todas as crianças do mundo,
conceitualmente o que são os exercícios e os
nunca tenha gostado de realizar exercícios,
jogos. A verdade é que ainda hoje há
hoje reconheço que eles me proporcionaram
divergências quanto ao uso destes conceitos,
muitas aprendizagens. Enfatizo isso para não
portanto, farei, intencionalmente, uma
dar a impressão de que nada se aprende com
“simplificação”.
a prática de exercícios, sejam eles mais
cognitivos (como uma equação de segundo
Compreendo por exercícios as atividades
grau, por exemplo) ou motores (treinar uma
repetitivas, previsíveis e com objetivos
manchete contra a parede).
alheios/externos ao aluno. Refiro-me às
atividades, propostas pelo professor, que não
Quando ouço as justificativas que acabei de
envolvam os alunos num contexto que
comentar, nunca deixo de considerá-las
ultrapasse a dimensão técnica/as habilidades
como válidas, como pertinentes e como
motoras da modalidade praticada, que não
parcialmente verdadeiras. Digo parcialmente
favoreçam o desenvolvimento de outras
porque quando o professor organiza em sua
competências relacionadas, inclusive ao
aula exercícios bem planejados, é grande a
próprio esporte. Em geral, os exercícios são
probabilidade de que a execução, a
amplamente utilizados em programas de
aprendizagem e o aperfeiçoamento técnico
ensino de esportes sob a justificativa de
dos fundamentos da modalidade que
“facilitarem a observação individual”,
pretende ensinar sejam efetivamente
“favorecerem a correção/o aperfeiçoamento
favorecidos, justamente sob o argumento de
da técnica”, “por serem mais específicos”,
facilitarem e diminuírem a demanda de
“acelerarem a aprendizagem dos
atenção necessária para a execução dos
fundamentos”, “focarem a atenção dos
gestos motores.
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Considero fundamental salientar que os prefiro defender meu ponto de vista a omitir-
estudos no campo do comportamento motor me. Quando proponho que os jogos têm
são vastos e sugerem que, quanto menos início e fim conhecidos, sugiro que sabemos
experientes forem os alunos em uma exatamente como e quando o jogo termina,
modalidade esportiva, maior a necessidade mesmo que esse fim não esteja diretamente
de certa “previsibilidade” no contexto de relacionado com o relógio, ou seja, sabemos
aprendizagem, neste sentido, os exercícios que o xadrez pode durar dias, mas quando o
podem ajudar os “novatos”. Seriam, rei é posto em xeque, o jogo acaba. Todo jogo
portanto, os exercícios um bom modelo ocorre num determinado campo, quadra,
metodológico para o ensino do esporte em rua, tabuleiro, na tela da TV, num pedaço de
sua dimensão educacional? Talvez. Sim e não. papel, etc., portanto num espaço definido.
Isso mesmo, parece confuso, mas tentarei Todas as regras do jogo podem ser
explicar a seguir. combinadas de acordo com as
características, interesses e
Para entendermos melhor as potencialidades necessidades dos jogadores,
e as limitações do exercício como proposta no entanto, após tal
metodológica, estabeleceremos combinação essas regras
comparações com outro método, o jogo. devem ser totalmente cumpridas.
Como disse, tenho participado de discussões Ao jogar dentro das regras combinadas, os
sobre a adoção do jogo como método de participantes buscam superar uns aos outros
ensino de esportes. Busquei compreender (tensão), tendo mais ou menos êxito (alegria)
um pouco sobre o que é efetivamente JOGO, dependendo da forma como jogam. Por fim,
mas confesso que não fui muito além da mas não menos importante, e talvez o mais
superficialidade no entendimento deste controverso, defendo a idéia de que
fenômeno. Não porque minha dedicação foi todo jogo solicita um (ou
pequena, mas sim pela abrangência de mais) vencedor (es), em
produções referentes ao jogo, em diversas busca de um objetivo
áreas, em diversos países e em diferentes comum (Jogo Cooperativo)
momentos históricos. Permitam-me, de ou contrário.
forma ousada e pretensiosa, defender minha
compreensão simplória e limitada do que é Há aproximadamente 3
jogo: Jogo é toda atividade estruturada com anos (2008), iniciamos
início e fim conhecidos que acontece em alguns estudos para
determinado local, com regras previamente justificar o jogo como
combinadas pelos envolvidos (mas que são modelo metodológico
absolutamente obrigatórias), repleta de de ensino de esporte
tensão e alegria e que busca um ou mais educacional no
vencedores. Ufa!!! Instituto Esporte e
O Jogo, nesta perspectiva, é uma combinação Educação. Identificamos
de conceitos. Sei que definir jogo é uma que muitos autores
tarefa igualmente difícil e arriscada, mas s u ge re m q u e o s
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o s j o g o s s ã o m a i s “ m o t i v a n t e s ”, grupo que praticou exercícios tenha
“envolventes”, “imprevisíveis” e “divertidos”. demonstrado alguns movimentos mais
No entanto continuamos nos perguntando, o elaborados, isso não se configurou em
jogo se justifica por tudo isso ou por melhores resultados no jogo, ou seja, bons
efetivamente ensinar o que pretendemos? È movimentos não significam,
possível ensinarmos esportes por meio de necessariamente, vitória garantida. Isso
jogos? Seria o jogo um método de ensino que mesmo, jogar ou praticar exercícios
se justifica por efetivamente proporcionar proporcionam efeitos de aprendizagem
aprendizagem, ou apenas, por servir de motora semelhantes. No entanto, os alunos
motivador para os alunos que não se que aprenderam por meio do método jogo,
envolvem com os exercícios? Desenvolvemos viram-se favorecidos por aspectos não só
uma pesquisa interessantíssima onde dois inerentes à motricidade, mas também
grupos de alunos foram avaliados quanto ao relacionados com a capacidade de análise
método de ensino utilizado para a crítica do jogo, dos posicionamentos dos
aprendizagem do voleibol, em outras adversários, da habilidade de deslocar-se
palavras, um grupo foi ensinado durante rapidamente e manter a bola em jogo por
alguns meses exclusivamente por meio de mais tempo, da maior participação do grupo
exercícios e outro por meio de jogos. Os nas aulas e se perceberam mais
resultados nos mostraram que ambos os animados/motivados para a continuidade do
grupos, de exercícios e jogos, melhoraram programa de aprendizagem de
muito suas habilidades motoras, seus esportes, faltando muito menos às
gestos técnicos, suas competências da aulas. Pense nisso.
modalidade. Vale dizer que as
habilidades motoras, ou seja, a Se por um lado, o exercício
qualidade técnica do movimento do p ro d u z , e fe t i va m e n t e ,
grupo de exercício, foram levemente avanços significativos no
melhores do que do grupo de jogo. O âmbito do movimento, da
mesmo não se observou quanto à motricidade, da
habilidade de manter a bola em jogo habilidade motora ou
(fluência), de movimentação em f u n d a m e n t o d a
quadra de acordo com a ação do modalidade, por outro,
adversário (tática), assim como a diminui a motivação das
freqüência nas aulas (participação) e crianças e jovens que querem,
avaliação do período (motivação). apenas, aprender a praticar
esporte com competência. Se
O que quero dizer com isso? Bom, que os exercícios realmente
tanto os alunos que aprenderam aumentam a previsibilidade
jogando, quanto os que praticaram para a aprendizagem motora
exercícios, melhoraram suas dos fundamentos e facilitam
habilidades técnicas/motoras. Embora o a observação sistemática do

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do professor sobre aspectos específicos do palavras, se o jogo ensina tudo o que método
movimento de todos os alunos, por outro tradicional de ensino por tarefas repetitivas
lado, os jogos possibilitam igualmente a ensina, além das vantagens educacionais que
aprendizagem dos movimentos e dos ele acrescenta, por qual motivo, nas aulas de
aspectos motores, favorecem o Educação Física, os esportes continuam a ser
desenvolvimento de relações pessoais mais ensinados segundo o modelo tradicional?
próximas, uma vez que potencializam
interações humanas, estimulam a tomada de Agora é com você professor (a). Jogos e
decisão (tática/cognição), a autonomia moral exercícios, Por que sim? Por que não?
(considerando que cumprir as regras
combinadas envolve disposição intelectual e
moral), entre tantas outras possibilidades,
deixamos como último ponto de reflexão:
Se o jogo, enquanto espaço de
ensino/aprendizagem de habilidades

“o jogo se justifica por tudo isso


ou por efetivamente ensinar o
que pretendemos? “

motoras, técnicas e esportivas é igualmente


eficiente (uma vez que não temos a intenção
de afirmar qual é a melhor metodologia)
quanto à aprendizagem por tarefas
repetitivas, adicionados os aspectos
cognitivos, motivacionais, emocionais e
interpessoais da aprendizagem pelo jogo (e
ausentes nas tarefas repetitivas dos
exercícios), justifica-se a opção por
ensinar/aprender a jogar jogando. Em outras

Participe do FÓRUM virtual das


OFICINAS DO ESPORTE !

f oficinasdoesporte.ning.com

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Prof. Sergio Hortelan
E
ENTREVISTA
O esporte contribuiu para a sua formação pessoal da escola e em outros espaços
e profissional? como os CEUS, comunidades,
- Sim e muito. Fui atleta de Handebol desde os 13 associações, etc. Mesmo
anos, treinando em vários clubes. Convivi a minha dentro de grandes clubes que
vida inteira com diferentes grupos de pessoas visam o trabalho competitivo,
dentro do esporte e aprendi sobre diversidade, acredito que o atleta deve ser o resultado da soma
convivência e cidadania. A prática esportiva me da formação da performance mais a formação do
levou à formação acadêmica como professor de cidadão.
educação física no ano de 1986, na Fefisa. O amor
por essa profissão fez com que buscasse mais Para você qual deve ser o legado dos grandes
conhecimentos e, em 1987, conclui uma eventos como Copa do Mundo 2014 e Olimpíadas
especialização na USP. Em 2002 conclui o meu 2016 para as crianças e os jovens brasileiros?
mestrado na Universidade de Guarulhos e em - Temos no Brasil um abismo social enorme. O
2008 me tornei treinador nível III pela Federação governo deveria se empenhar e aumentar a
Espanhola de Handebol. Os valores que o esporte possibilidade de uma melhor educação para
me ensinou fez com que hoje eu tenha uma família todos. Não acredito que a Copa de 2014 e as
(esposa e 3 filhas) maravilhosa, seja uma pessoa Olimpíadas de 2016 deixem legados importantes
batalhadora, persistente, forte e realizada. para a formação de nossas crianças e jovens
brasileiros.
O que você tem feito depois que deixou de jogar
Handebol? Continua trabalhando com o esporte? Como você avalia as políticas públicas de esporte
- Assim que parei de jogar, me formei em educação educacional no nosso país?
física e, desde então, venho trabalhando em - Há ainda muito por fazer. Ainda não vejo grandes
escolas e clubes na tentativa de formar atletas e ações do governo no desenvolvimento do esporte
cidadãos. O esporte é mais uma ferramenta na educacional, que possa melhorar a qualidade de
educação do ser humano e complementa o vida da nossa população.
aprendizado que ele tem na escola e na família.
Trabalho no Esporte Clube Pinheiros há 18 anos Se você fosse o ministro do esporte, quais seriam
como supervisor técnico do departamento de as suas principais ações?
Handebol e treinador das categorias Júnior e - A primeira idéia seria diminuir esse abismo social
Adulto. Atuo também como professor e aumentar as possibilidades de melhoria
universitário na Faculdade de Educação Física do educacional através da prática do esporte. Faria
Centro Universitário da Ítalo, disciplina de isso para todas as camadas da população, de
Handebol. maneira organizada, planejada e com a utilização
de tecnologias e recursos de baixo custo.
O que pensa do esporte como meio educacional? Continuaria também investindo no esporte
- Acredito no esporte educacional como um competitivo, como uma possibilidade de
importante meio de formação do cidadão. O desenvolver talentos esportivos que sirvam de
esporte pode ser desenvolvido claramente dentro estímulo para os nossos jovens.
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Prof. Marcelo Jabu
!
PARA PENSAR
VILA ROMANA F.C.

Acredito que todos nós, em algum momento que a gente jogava futebol, e em cada um
da vida, já tenhamos tido a seguinte deles, o “tipo de futebol” que era jogado:
experiência: - Voltar como adulto para um
lugar que tenha sido muito freqüentado por - “Gol a gol” no corredor lateral entre a
nós quando éramos crianças! cozinha e o quintal.
- “Controle” na porta da garagem da mãe do
Quando a gente se depara com um retorno gordo.
desses, normalmente a gente se espanta com - “Chute-em-gol-rebatida-drible” na própria
a pequenez do lugar, que na nossa memória rua com dois tijolos como meta.
está registrado como um lugar muito amplo - “Bobinho” em qualquer lugar disponível.
aonde se fazia muitas aventuras, proezas e - “Contra” o time da Rua Ribeiro de Barros,
malabarismos. maior rival da nossa rua, a Frei Henrique de
Coimbra, no terreno baldio do lado da minha
Naquele quintalzinho, naquela árvore, casa.
naquela garagem, naquele barranco onde
vivemos tantas estórias, certamente hoje mal A gente adaptava uma maneira de jogar para
seria possível correr ou se pendurar! cada espaço disponível e para o número de
jogadores em cada situação, assim, se tinha
Mergulhando mais fundo nessas muita gente se faziam times e jogávamos “gol
recordações, vão emergindo os espaços em
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desafios contribuía para que todos nós
fossemos nos aperfeiçoando como jogadores
dia após dia, naquele tempo de criança em
que se vive cada dia com um imenso apetite
para aprender e se divertir. Chegamos a
desenvolver requintes de habilidade ao jogar
na pracinha Tupã que era uma descida bem
íngreme, e nos fundos do prédio do Os car,
onde o “campo” era em curva, e um goleiro
caixote”, se só tinham duas crianças e estava não enxergava o outro!
chovendo, o jeito era fazer “gol a gol” na
garagem...mas algum jeito a gente dava para Começo a lembrar também da carga afetiva e
poder jogar Futebol! simbólica que essas vivências de rua
permitiram, povoando minha memória com
Para cada situação existiam regras e imagens das comemorações de cada gol, das
convenções específicas que eram negociadas rivalidades entre crianças e turmas, das
na hora, bem como a maneira mais justa de narrações paralelas a cada jogada, da
equilibrar os times, o que ia valer e o que não cumplicidade que se constrói entre parceiros,
ia, quem ia “jogar na frente” e quem ia “jogar das estratégias e táticas estabelecidas entre
atrás”, se tinha alguém “café-com-leite” e, as equipes, da ousadia necessária para cada
dependendo não me lembro do quê, que drible. Tudo isso era vivido por nós como se a
“vira-seis e acaba-doze”. gente fosse “de verdade”, mesmo que a gente
soubesse no fundo que éramos apenas
Em cada um desses contextos, uma ou mais crianças desejando, imaginando e sonhando
habilidades eram exigidas mais acordados em ser jogadores de futebol , e
nem sei de onde a gente tirava imagens para
representar esses papéis, pois ninguém tinha
televisão, poucas chances a gente tinha de ir
aos estádios e a maioria dos jogos
profissionais eram acompanhados pelo rádio
ou conferidos nas fotos dos jornais
pendurados na banca do Seu Donizette no dia
seg uinte. Talvez por isso mesmo nesta época,
imaginar era imaginar mesmo, era inventar
na cabeça o quase desconhecido através da
intensamente dos jogadores, o drible curto emoção pura!
no “dois-toques”, a pontaria nos pênaltis, a
força do chute no “gol a gol”, a técnica de Nessas manhãs, tardes, noites e madrugadas
domínio no alto no “controle” e assim por jogando futebol na rua aprendemos quem é
diante, e certamente essa variedade de “fominha” e quem não é, quem é desleal e

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quem não é, quem é ousado, quem é
divertido, quem é honesto e quem é otário.

Suados e sujos até o pescoço construímos


nosso universo de imagens e personagens
futebolísticos com os quais a gente se
divertia:
- O chapéu, o lençol, a caneta, o drible da
vaca, a chaleira, a bicicleta, a letra, a
embaixadinha, o bico, a matada, o de
primeira, a prensada é da defesa... e, sem
nunca termos lido Piaget, nem PCN,
praticamos e aprendemos o que é a inclusão
e a diversidade.

Voltando do sonho, fico pensando o quanto


poderíamos ter aprendido a mais se, naquela
época, tivéssemos ao nosso lado um
professor de Educação Física sensível e
inteligente, que soubesse aproveitar toda
essa riqueza para nos ensinar a aprender
ainda mais sobre Futebol!

Depois, a rua de terra foi asfaltada, começou


a passar ônibus, os muros subiram com
grades, os terrenos foram sumindo, todo
mundo começou a trabalhar, apareceu uma Marcelo Jabu tem dois ofícios, é
televisão na sala, mas afinal, isso já é outra professor de Educação Física e
história, e vocês vão me dar licença por que a carpinteiro, construtor de brinquedos
didáticos.
minha mãe está me chamando para tomar
banho!

visite a página da Incubadora de Jogos!

incubadoradejogos.weebly.com

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Prof. Bruno Gonçalves

A MAGIA DAS OFICINAS

AS OFICINAS DO ESPORTE, A CARAVANA E A MAGIA!

Desde 2008 o programa das Oficinas do e constante, de fazer um simples e esquecido


Esporte está presente nas formações e na cabo de vassoura, virar um brinquedo
grande arena da Caravana do Esporte, em educativo, desafiador, auto-organizador,
diferentes cidades e regiões do Brasil. São agregador, estimulador de parcerias e
mais de 60 mil crianças atendidas sorrisos de crianças, jovens e adultos. Faço
diretamente e aproximadamente 5 mil isso também, com tampinhas, latas, cordas,
professores, que receberam a metodologia bolas de meia, tiras de pano coloridas, caixas
utilizada pelo programa das Oficinas do de papelão, garrafas pet, entre outros
Esporte, nesses três anos. materiais que a imaginação de muitos outros
bons mostradores(as) de brinquedos, e a
Mas isso são números! Eu gostaria de lhes minha própria criatividade fornecem.
contar, algo que os números não falam. Vou
lhes contar da “magia” que as Oficinas do Mas como faço isso? Como faço a “magia”
Esporte trás para a Caravana. É isso mesmo, acontecer? – Eu vos digo e sem demora. Mas
ela trás “magia”. antes, quero dizer que só consigo tal feito,
porque fui estimulado a praticar as mais
Eu não sou bruxo, já adianto! - Considero-me habilidosas artes da pesquisa, do estudo
apenas um “bom” mostrador de brinquedos. constante, da reflexão sobre a prática e
E como tal, me proponho o desafio, prazeroso principalmente da indignação com formas

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Terceiro passo: - Quando as crianças
chegarem, finja que está dando os últimos
reparos. Fique de costas para elas e deixe que
te observem, não diga nada. Elas já te viram
de longe, estão imaginado e se perguntando,
o que será que você tanto faz, e por que está
tão desatento(a), afinal, elas estão chegando,
e em GRANDE número.

Após essa pequena encenação, sente-se para


equivocadas de ensinar. Sem isso, sabe lá o fazer a roda de conversa, tranquilamente. A
que eu faria com as tampinhas de garrafas. “magia” vai logo se manifestar. Observe... as
crianças vão sentar, e sem você pedir. Você os
Pois bem, vou falar da arena, que é onde uma cumprimenta cordialmente, sem pressa, pois
parte da “magia” das Oficinas do Esporte assim você estará ditando o ritmo da aula, e
acontece, a outra parte, deixo para a próxima indo na contra-mão deles, pois a curiosidade
edição. já esta pronta para entrar em ação, e algo
fantástico vai acontecer. Dê um sorriso, e
Primeiro passo da “magia”: - Monte um conte até três.
cenário. Um cenário bonito e organizado.
Distribua, ou melhor, exponha os materiais e - O que será que tem naquela caixa? - O que
os brinquedos da melhor forma possível, vamos fazer aqui? - Nem tem gol? - Vixi! Olha
como se você fosse vendê-los. Consiga caixas o tanto de cabo de vassoura! - Cadê o gol?
ou alguns sacos grandes para colocar os seus Você é atleta do quê? - O que vamos fazer
materiais e os decore. Na Caravana eu nessa lona? Ah... é aqui que eu vi um negócio
disponho de uma “caixinha” de 1 metro de colorido bem grande de pano! – Vamos jogar
largura, por 1 de comprimento, que pesa uns a bola naquele pano grande, é? – O professor,
95 kg cheia, ela é toda pintada, muito bonita, o que tem naquela caixa? – Nos vamos jogar
e fácil de carregar! – Que o digam, meus futebol?
companheiros de caravana. Alias, muito
obrigado a todos! Percebe? - Já começou! As crianças já estão
querendo aprender. Isso é o principal, pois é
Segundo passo: - Deixe os materiais, meio
escondidos, principalmente os brinquedos
mais conhecidos, como por exemplo: bolas,
bambolês, cones, latas, etc. Utilize sacos
coloridos, e guarde as tampinhas e as bolas
de meia, de forma que ninguém possa saber
o que tem dentro. Deixe os cabos de vassoura
juntos e visíveis.

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chato aprender sem vontade. As crianças perceber o outro, de mudar sua forma de
querem saber, e por quererem saber, pensar, de solucionar problemas, de conviver
perguntam, e quando as respostas não são e cooperar.
suficientes, elas querem mexer, querem por
as mãos onde os seus olhos já colocaram. Quinto passo: - é aquele em que você, os
ajuda a perceber..., a tomarem consciência
Quarto passo: - é mostrar os brinquedos de do que estão aprendendo. Nesse momento é
forma entusiasmada e desafiadora, pois você quem faz as perguntas. Então capriche!
aquelas tampinhas, não são tampinhas
comuns, aquelas bolas de meia, aquelas Esses são os passos que utilizo para realizar a
cordas, e cabos de vassoura não são comuns. “magia” das Oficinas do Esporte na Caravana.
São brinquedos “banhados” em uma A “magia” de educar através do jogo e do
metodologia que a cada dia se fortalece. São esporte, mesmo com vento forte, terreno
brinquedos capazes de mobilizar seus ruim, frio, ou debaixo de um sol escaldante,
músculos, seu intelecto, sua imaginação, onde a temperatura ultrapassa com
sentidos, vontades, sua capacidade de facilidade 45°C, ainda assim ela acontece.

“Magia” que têm por princípio, garantir


direitos, - e como diz o Ale, “Se é direito,
dever ser assegurado”. Dessa “magia”, nós,
NÃO abrimos mão.

Eu convido você a realizar a “magia” das


Oficinas do Esporte em sua escola, venha ser
um bom mostrador(a) de brinquedos.

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JOGO 10 Prof. Fabrício de Souza

“Batalha do Futebol:
Ataque contra Defesa”
Crianças de 6 à 10 anos ATAQUE DEFESA

Onde surgiu o jogo? número de jogadores em cada equipe. As


O Jogo “Batalha do Futebol” foi construído bolas são utilizadas, na versão inicial, para
nas aulas de futebol do núcleo Délio de que os jogadores possam “cumprir” as
Carvalho, durante o desenvolvimento de uma funções de ataque. Para a defesa usamos
U n i d a d e D i d á t i c a c o m o fo c o n a cones ou garrafas pet e os coletes servem
aprendizagem dos gestos específicos da para diferenciar os times.
modalidade.
Como o jogo acontece?
Qual a história do jogo? Dividimos duas equipes, com o mesmo
O jogo é novo, ele foi criado recentemente número de jogadores, nas funções de ataque
pelos alunos do Núcleo. Durante as aulas e defesa. A equipe da defesa terá cones
tínhamos como desafio praticar e aprender (espalhados em qualquer espaço do campo)
os gestos específicos do futebol, também e a equipe do ataque usará as bolas. Função
chamados de fundamentos, de uma forma das equipes: Ao sinal do professor, a defesa
mais motivante e prazerosa, para além do deverá proteger seu cône, tentar roubar a
simples “treinamento” e execução de bola do adversário e chutar ao gol. Ao mesmo
exercícios. Neste Jogo, que chamamos de tempo, a equipe que estiver no ataque,
“Batalha do Futebol”, conseguimos realizar o deverá chutar as bolas com objetivo de
drible, o passe, a condução e a finalização de derrubar os cones. A cada gol efetivado ou a
fo rma mais integrad a e co m u ma cada cône derrubado conta-se um ponto para
participação mais efetiva e ativa dos alunos. a equipe. Antes da prática o professor
combina o tempo de duração de cada
Qual o material necessário para jogar? período. Ao término de cada período, os
Para a realização do jogo são necessárias jogadores invertem as posições de jogo.
bolas variadas, com pesos e tamanhos Quando as duas equipes passarem pelas
diferentes. O número de bolas depende do posições de ataque e defesa todos devem
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contar o número de gols realizados e quantos O que se aprende nesse jogo?
cones derrubaram. O vencedor será aquela Na dimensão da motricidade este jogo
equipe que fizer o maior número de pontos contribui para a melhora das habilidades
(gols e cones derrubados). motoras relacionadas com o futebol (drible,
passe, condução e finalização). Os alunos
Qual a relação do jogo com o esporte? também aprendem mais do que o esporte
A “Batalha do Futebol” pode ser considerado quando resolvem conflitos, constroem
um Jogo Pré-desportivo da modalidade. coletivamente as regras, discutem e fazem
Como no jogo oficial, ele estimula a acordos sobre as estratégias de ataque e
aprendizagem e o aperfeiçoamento das defesa. O “Batalha do Futebol” também é um
habilidades motoras específicas e também bom jogo para aprender sobre o respeito à
algumas noções e estratégias de ataque e diversidades e às diferenças de habilidades
defesa. de cada jogador.

NP NOSSA PRÁTICA

A Terceira edição do Cordel Pedagógico reuniu cinco bons projetos


didáticos, que demonstram a essência das Oficinas do Esporte, o
“Jogar para Aprender”. Confira!
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1 PÓLO ZONA LESTE - NÚCLEO C.E.U. PARQUE VEREDAS

Alunos: 08 a 12 anos - Período de realização: 3 meses - Professores: Douglas Eduardo e Janaina Lima

“Jogando para Valer”


O que foi feito e com que objetivo? esportes a serem estudados. Estipulamos que
O trabalho, em linhas gerais, teve como os alunos com melhor comportamento nas
objetivos desenvolver as habilidades sócio- aulas teriam a oportunidade de escolher os
afetivas e ampliar o universo cultural esportivo esportes a serem estudados. Para isso
dos alunos. Durante o projeto as crianças foram pensamos na confecção de um “dinheiro
convidadas a participar mais ativamente das virtual” que seria utilizado por todos para a
aulas, principalmente na escolha e na seleção “compra” dos esportes. Alunos com as atitudes
dos esportes a serem estudados. A idéia era mais positivas teriam mais “dinheiro” para
ensinar algumas habilidades relacionadas com comprar no mercado dos esportes, suas
atividades preferidas. No início conversamos
com o grupo sobre como surgiu o dinheiro, qual
a sua função e como são feitos. A seguir
mapeamos e selecionamos os esportes que as
crianças gostariam de praticar. Utilizamos
revistas e jornais para a construção de um
painel dos esportes que seriam vendidos no
mercado dos esportes. Tintas de tecido,
cartolinas, cabos de vassoura e outros materiais
foram utilizados para construção do “dinheiro”.
Para a aquisição do dinheiro definimos algumas
Momento da compra dos Esportes
o trabalho em grupo, com a convivência entre regras: fazer a aula sem falar “palavrão”, realizar
os meninos e as meninas e com a consciência e jogos com a participação de todos, chegar no
a importância das regras. Tudo isso sempre horário, realizar as pesquisas sobre os esportes,
relacionado com o aprendizado dos esportes, já etc. Assim que os alunos conseguiam o dinheiro
que a sua prática demanda a capacidade e a compravam o tema/esporte da próxima aula ou
disponibilidade de todos para jogar de acordo os materiais esportivos que se encontravam no
com regras comuns e unificadas. mercado construído com caixas, bolas, redes,
cones, raquetes, tecidos, papel, garrafas,
Como foi feito? tampinhas, etc. Além de utilizamos todo este
Para motivar os alunos construímos uma material, os alunos e seus amigos emprestaram
brincadeira que chamamos de “Jogando para equipamentos como saco de boxe, berimbau e
Valer”. Definimos, em conjunto com os alunos, cama elástica. Toda esta variedade de material
algumas regras para a participação nas aulas e contribuiu para que pudéssemos estudar e
relacionamos as mesmas com os jogos e os praticar esportes ainda não conhecidos pelas

17
crianças. Nos três meses de duração do projeto comportamento e nas suas atitudes. Eles
conseguimos estudar esportes tradicionais passaram a valorizar as aulas de esporte como
como o futebol, o vôlei, a natação e o basquete um espaço de inclusão e participação de todos.
e também esportes não convencionais como o A responsabilidade para com as questões de
boxe, a capoeira, o frisbee, o futebol americano horários, de palavrões e de exclusões durante
e o beisebol. os jogos melhorou muito. Hoje em dia as aulas
são menos diretivas e as crianças participam
Por que deu certo? mais ativamente da estruturação das
Um aspecto importante para o sucesso do atividades. Elas transportam os materiais,
projeto foi a interação dos professores com os organizam o “campo” de jogo, distribuem
alunos durante as aulas. Conseguimos, a cada melhor os materiais e as funções e monitoram
dia de trabalho, construir coletivamente as de forma mais independente o andamento dos
propostas e isso motivou os alunos na jogos e demais atividades. Finalizamos o
participação e no comprometimento com as projeto com os alunos mais tranqüilos e mais
tarefas. A brincadeira “Jogando para Valer”, que disponíveis para aprender novos esportes.
incluiu a confecção do dinheiro e a montagem Prova disso é que agora esportes como o
do mercado dos esportes, mobilizou as crianças frisbee, o beisebol e o futebol americano estão
para um cuidado e uma atenção maior com as entre os preferidos da turma. 75 % dos
questões atitudinais. Percebemos os meninos e esportes mapeados no início do projeto foram
as meninas mais atentos em relação ao respeito estudados e concluídos. Os alunos puderam
às diferenças e individualidades. No início valorizar mais as suas conquistas e hoje
tínhamos a preocupação de que as regras percebem-se mais protagonistas e
fossem cumpridas apenas para que os alunos participantes do seu processo de
pudessem ter o dinheiro para comprar os aprendizagem.
esportes, mas com o passar do tempo
identificamos as crianças mais conscientes e O que nós aprendemos?
esclarecidas quanto à regra como um fator que Aprendemos que é possível desenvolver uma
normatiza e permite a vida em grupo. prática mais dialogada com os alunos. Desta
forma seus interesses e suas necessidades são
A variedade de material também ajudou muito. respeitados e nós conseguimos realmente
Conseguimos adaptar e construir fidelizar as crianças no projeto. Aprendemos
equipamentos que deram condições aos alunos que o professor deve ser um facilitador para as
de praticar esportes até então não conhecidos. aprendizagens dos alunos, cativando-os e
Por exemplo, o futebol americano foi praticado motivando-os para as conquistas e os avanços.
com a bola de futebol, o frisbee com diversos O segredo é não dar a resposta e sim fazer as
tipos de tampas de latas, o beisebol com cabos boas perguntas. Assim, o aluno passa a ser parte
de vassoura, etc. Foi interessante perceber que integrante do processo e se compromete muito
os alunos estão cada vez mais valorizando as mais com a sua aprendizagem.
aulas como um espaço de convivência, onde é
possível “jogar” e estar junto.
“O segredo é não dar a resposta e
Qual a diferença que o trabalho fez? sim fazer as boas perguntas.”
O s a l u n o s e v o l u í ra m m u i t o n o s e u
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2 PÓLO ZONA LESTE - NÚCLEO CARLOS PASQUALE

Alunos: 10 a 14 anos - Período de realização: 2 meses - Professores: Tatiane Maciel, Renato Santos,
Jéssica Guimarães e Janaína Rodrigues.

“Sabedoria das Artes Marciais”

O que foi feito e com quais objetivos? favorita. Neste trabalho inicialmente nos
Quando se fala em artes marciais logo nos deparamos com o desafio de integrar os
vêm à cabeça algumas palavras como meninos e as meninas durante as aulas, mais
treinamento, competição, lutas, brigas, etc. precisamente no aprendizado e na prática
Este projeto foi realizado com o intuito de das lutas. Aproveitamos a oportunidade para
mostrar que podemos sim, ensinar artes discutir as questões de gênero e esclarecer
marciais por meio de jogos e brincadeiras, que as meninas podem e devem praticar
sem que o foco seja o rendimento ou o vencer artes marciais, assim como qualquer outro
a qualquer custo. Nosso objetivo, com a esporte. Em seguida foi decidido com os
prática inicial e básica do Taekwondo, era que alunos a modalidade de artes marciais (lutas)
os alunos incorporassem atitudes de respeito a ser aprendida durante este projeto.
e valorizassem a luta como uma prática que Chegamos, após algum tempo de discussão,
favorece a construção de amizades e do bom ao Taekwondo. Foi observada, neste
convívio entre as pessoas. momento pelos professores, a necessidade
de uma orientação aos alunos sobre as artes
Como foi feito? marciais como uma prática que não tem nada
O projeto teve origem em uma avaliação a ver com “pancadaria”. Trabalhamos com os
diagnóstica realizada no início do ano onde os meninos e as meninas que para ser um bom
alunos puderam falar sobre as modalidades praticante de qualquer luta é necessário
esportivas que gostariam de aprender. As entender sua filosofia, refletir e criticar com
Lutas foram apontadas como a modalidade bom senso, ter disciplina, ordem, rotina,
normas e regras. Na 2ª etapa, para o
desenvolvimento dos jogos de lutas
utilizamos os mais diversos materiais
(bexigas, barbantes, cordas, bambolês, tnt,
pregadores de roupas, giz e cones). Os jogos
foram realizados de diferentes formas e
envolveram os gestos específicos da
modalidade como os chutes, os socos e as
formas de ataque e defesa, etc. No início e no

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término das aulas, durante as rodas de coordenação e direção da escola foi
conversa, discutíamos sobre as variáveis dos importante, pois nos deu segurança para
jogos propostos, os conteúdos que os jogos trabalhar com um tema que normalmente
envolviam e as atitudes necessárias para o não faz parte das aulas de educação física na
seu desenvolvimento. As idéias dos alunos escola.
eram anotadas e colocadas em práticas nas
aulas posteriores. Na fase final fizemos uma Qual é a diferença que o trabalho fez?
avaliação das principais aprendizagens Pela primeira vez na escola os alunos tiveram
adquiridas nas aulas e realizamos um festival contato com as lutas. Eles aprenderam que é
de Taekwondo com os principais jogos possível tematizar esta modalidade dentro da
construídos pelos alunos. escola e que os meninos e as meninas podem,
juntos, participar de uma aula legal e
motivante dentro da temática artes marciais.
Os alunos aprenderam também a socializar
seus conhecimentos e a trocar suas
experiências, cada um do seu jeito e com as
suas limitações. Percebemos os estudantes
mais participativos, tomando a iniciativa de
ajudar na organização e no encaminhamento
das atividades. Após as aulas do projeto,
avaliamos que os alunos mudaram muito sua
Preparação para pega pega “step”
postura. Eles passaram a ter atitudes mais
Por que deu certo? positivas e respeitosas nas demais oficinas e
Os jogos com diferentes formatos, materiais e se tornaram referências de boas atitudes.
Eles também fizeram mais amizades, alguns
Aprendemos que para ensinar... Basta perderam a timidez e outros se mostraram
prestar mais atenção nos alunos e nas mais criativos. Foi muito bom ver que alguns
experiências que eles trazem consigo. alunos sentiram-se mais úteis por poder
ajudar e passaram a manifestar sua opinião
variações ajudaram muito na execução do sem ser menosprezados pelos demais
projeto. Trabalhar com a luta na forma de colegas.
jogos favoreceu a participação dos alunos e
os motivou a praticar a modalidade O que nós aprendemos?
escolhida. As rodas de conversa em grandes e Aprendemos que para ensinar não é preciso
pequenos grupos, os bons questionamentos, “impor” as atividades. Basta prestar mais
as possibilidades de criar e participar atenção nos alunos e nas experiências que
ativamente da construção dos jogos foram eles trazem consigo. Explorar o lado criativo
pontos chaves para o sucesso deste trabalho. dos alunos fez com que as aulas fluíssem de
Isso aumentou o comprometimento de todos forma mais divertida e natural. Aprendemos
e diminuiu as tensões existentes entre os que aluno motivado é aluno presente.
meninos e as meninas. O apoio da
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3 PÓLO O.S. DO ESPORTE – ZONA LESTE - NÚCLEO DANÚBIO

Alunos: 3 a 7 anos - Período de realização: 4 meses - Professores: Thayane e Mizael

“Lutas para as crianças”


O que foi feito e com quais objetivos? em algumas modalidades, para ajudar na
Partimos da seguinte pergunta para iniciar esta apresentação das lutas e na condução das
unidade didática: Será que as crianças sabem a práticas. Nas aulas de capoeira a professora
diferença entre Luta e Briga?. Partindo do Mafalda trouxe um pouco da história da
pressuposto de que luta é “arte” e “equilíbrio” e modalidade e ensinou como tocar os
que não tem nada a ver com briga, instrumentos. As crianças aprenderam a fazer a
desenvolvemos este projeto com o objetivo de roda e a executar alguns dos gestos específicos
que os pequenos aprendessem mais sobre da capoeira. Nas aulas de judô, com a ajuda do
respeito, convivência, consciência corporal e professor Alex, os alunos aprenderam sobre os
ampliação cultural. costumes e os principais posicionamentos da
modalidade. Nas aulas de sumô e kung fu
Como foi feito? utilizamos um pequeno espaço forrado com
Partimos inicialmente de uma avaliação lonas e colchonetes. Trabalhos em pequenos
diagnóstica realizada nas rodas de conversa. grupos, basicamente em duplas, com
Através das perguntas: Qual a modalidade de brincadeiras como pega-pega rabinho, luta do
lutas que vocês conhecem? Vocês conhecem saci, cai não cai e empurra-empurra ajudaram
pessoas (familiares ou amigos) que praticam para que as crianças aprendessem um pouco
alguma luta? Qual a diferença entre lutar e mais sobre as modalidades. A cada modalidade
brigar? detectamos o conhecimento que as de lutas estudada fomos sugerindo desafios,
crianças tinham sobre o assunto. Nesta etapa, incentivando assim novas aprendizagens nas
através das respostas dos alunos, percebemos dimensões do saber e do fazer. Durante as
que eles tinham algum conhecimento sobre as práticas sempre trabalhamos com os valores
modalidades de lutas conhecidas como judô, das lutas que sugerem o respeito ao próximo, a
kung fu, capoeira e o sumô. Apresentamos
algumas fotos, assistimos a um vídeo infantil
sobre lutas e resolvemos explorar mais estas
modalidades. Organizamos então uma
seqüência de aulas com este objetivo. Através
de jogos e brincadeiras com materiais como
colchonetes, bambolês, fitas, pregador e lona,
as crianças tiveram acesso aos fundamentos a à
história das modalidades escolhidas.
Convidamos professores colegas, especialistas

21
manutenção da integridade física e a postura do incorporando a rotina e os costumes das
lutador frente ao seu oponente. Finalizamos os diferentes lutas. Elas aprenderam que cada luta
projeto com uma apresentação aos colegas das tem a sua forma de saudação e cumprimento,
outras turmas, onde as crianças puderam os seus equipamentos específicos, as suas
mostrar as aprendizagens adquiridas durante as regras e a sua “cultura”. Finalizamos o projeto
aulas. com os alunos mais “críticos” sobre as
modalidades e os desenhos que passam na
Por que deu certo? televisão sobre a temática. Eles são
O ensino das lutas através de jogos e “pequenos”, mas já sabem que a luta, como
brincadeiras foi uma estratégia muito acertada. todo o esporte, deve servir para que as pessoas
As crianças eram pequenas e o grupo bastante vivam e convivam de forma amigável e pacífica.
heterogêneo, o que demandou muita atenção
por parte dos professores. A possibilidade de O que nós aprendemos?
Esta foi a primeira vez que desenvolvemos um
projeto na temática lutas. Temos muito que
“...desenvolver projetos com temas não
aprender, mas ficamos felizes com os
muito conhecidos exigem do professor
resultados. Aprendemos que é possível ensinar
estudo e aprofundamento.”
lutas para os pequenos, desde que as devidas
adaptações sejam feitas. Foi muito bom trazer
utilizarmos um material adequado (lona e
os colegas especialistas para nos ajudar.
colchões) ajudou na segurança das crianças.
Elas não demonstraram “medo” e participaram
Aprendemos muito com eles e estamos
ativamente das propostas.
dispostos a continuar estudando sobre o
assunto. Aliás, este foi o nosso maior
A participação dos professores Mafalda e Alex,
aprendizado... Trabalhar e desenvolver projetos
especialistas em lutas, ajudou na condução das
com temas não muito conhecidos exige do
atividades. Eles trouxeram atividades,
professor estudo e aprofundamento.
equipamentos e materiais que motivaram os
Aprendemos assim o real sentido do conceito
pequenos a aprender mais sobre as
do professor como pesquisador.
modalidades estudadas e nós, os professores,
nos sentimos mais “seguros” para desenvolver
as propostas.

Qual a diferença que o trabalho fez?


O trabalho contribuiu para que as crianças
ampliassem seu conhecimento sobre as
diferentes modalidades de lutas. Além disso,
eles entenderam a diferença entre o lutar e o
brigar. Todos sabem e verbalizam a
compreensão da luta como uma prática
corporal que se caracteriza pela existência de
regras e pela necessidade de respeito ao
próximo. Foi interessante perceber as crianças

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4 PÓLO HELIÓPOLIS - NÚCLEO CAMPOS SALLES

Alunos: 9 e 10 anos - Período de Realização: 2 meses - Professor: Allan Aparecido

“Conhecimento do Corpo”
O que foi feito e com quais Objetivos? “partes” (Cabeça, Pescoço, Ombros, Braços,
Após um mapeamento identificamos que os Cotovelos, Mãos, Tronco, Cintura, Coxas,
nossos alunos conheciam pouco sobre o seu Joelhos, Tornozelos e Pés). Para isso os alunos
próprio corpo e as suas possibilidades de utilizaram um mapa ilustrado. Um a um eles
exploração e utilização. Pensamos assim em foram convidados a identificar e nomear, no
desenvolver uma seqüência didática com o mapa, cada parte do corpo que conheciam e
objetivo de ensinar as crianças a identificar os sabiam utilizar nos diferentes jogos e
diferentes segmentos corporais. A idéia era brincadeiras. Na segunda fase os alunos
fazer com que os alunos aumentassem a sua desenvolveram ações esportivas e, ao fim de
consciência sobre o corpo, principalmente cada jogo, foram incentivados a levantar e a
durante a realização dos esportes e dos jogos. nomear os segmentos corporais mais
A nossa hipótese era a de que, com este utilizados nas modalidades ou nos jogos
trabalho, as crianças aprendessem mais vivenciados. Alguns destes jogos foram
sobre seus potenciais e seus limites na prática retirados do Guia da Prática Pedagógica das
das atividades propostas nas aulas. Oficinas do Esporte. Os jogos Mapa do corpo,
feito de tampinhas de garrafas pet, e o Jogo
Como foi feito? do Robô foram os mais trabalhados e
Na primeira etapa do trabalho fizemos uma ajudaram muito para que as crianças
avaliação dos conhecimentos prévios sobre o evoluíssem na aquisição de uma maior e
conteúdo principal da unidade. Investigamos melhor consciência sobre o corpo. Na etapa
o que as crianças sabiam “sobre” os seguinte assistimos a um vídeo que “falava”
segmentos do corpo e quais as possibilidades sobre os membros e os segmentos do corpo
de movimentação de cada uma das suas humano, além da sua estrutura óssea e
muscular. Fizemos também uma parceria
com a professora da sala de informática e os
alunos puderam brincar com jogos
interativos sobre o corpo humano. Esta
atividade foi muito interessante. As crianças
gostaram muito de utilizar os computadores
e aprenderam ainda mais sobre o corpo
humano e suas possibilidades de
movimentação e interação com o meio. Na

23
última fase do projeto retomamos a atividade identificação das partes do corpo no mapa
diagnóstica feita com o mapa ilustrado e ilustrado, realizada ao final do projeto,
realizamos uma avaliação final para percebemos que todos os alunos evoluíram
sabermos qual era o conhecimento atual na aprendizagem e no conhecimento sobre o
destes alunos após todo o processo de seu corpo. O Jogo Mapa do Corpo pode
aprendizado desta unidade. ilustrar a evolução das crianças no conteúdo
estudado. Ao longo da seqüência didática, a
Por que deu Certo? cada vez que brincávamos com este jogo, os
As estratégias utilizadas durante as aulas “mapas” construídos eram mais detalhados e
foram bastante eficientes. O mapa ilustrado completos. Os meninos e as meninas ficaram
do corpo humano, as brincadeiras do guia da mais “exigentes” na brincadeira, desde a
prática pedagógica, os registros, os desenhos qualidade do “desenho” até a sua forma e o
e a atividade realizada na sala de informática seu conteúdo.
contribuíram muito para o sucesso do
projeto. Estas atividades motivaram as O que nós aprendemos?
crianças e elas se envolveram bastante com Nós, os professores, aprendemos que uma
as propostas. A parceria realizada no núcleo educação que se diz integrada precisa
com as professoras polivalentes para a va l o r i za r a l i n g u a ge m co r p o ra l . O
utilização da sala de informática o do material depoimento das professoras “da sala” foi
de ciências foi fundamental. A participação muito importante. Elas passaram a valorizar
dos monitores também ajudou muito. mais o trabalho das Oficinas do Esporte e
Conseguimos dar uma atenção mais incorporaram na sua rotina atividades que
“individualizada” para as crianças, “falam” sobre o corpo e o movimento.
principalmente aos alunos que apresentaram Aprendemos que a parceria é fundamental
alguma dificuldade de aprendizagem do para o êxito do trabalho. Para isso é
conteúdo programado. O projeto deu certo necessário que o professor de educação física
porque as expectativas de aprendizagem “saia” da quadra e procure pelos colegas. Eles
foram alcançadas e os resultados revelaram têm como nos ajudar, principalmente na
crianças mais espertas e conscientes sobre o utilização dos recursos didáticos existente
seu “corpo”. nos núcleos (escolas).

Qual a diferença que o trabalho Fez?


Após o trabalho realizado percebemos uma
evolução na capacidade dos meninos e das
meninas em controlar e coordenar seus
movimentos corporais dentro dos jogos e das
brincadeiras. As crianças ampliaram seu
conhecimento corporal e passaram a nomear
e a dizer corretamente os nomes dos
segmentos utilizados em cada uma das
atividades propostas. Na atividade de
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5 PÓLO O.S. DO ESPORTE – ZONA LESTE - NÚCLEO DÉLIO DE CARVALHO

Alunos: 3 a 6 anos - Período de realização: 4 meses - Professores: Jefferson e Mafalda

“Jogos da Família”

“...os jogos não nascem do nada. Eles são construções sociais e culturais que
fazem parte da história e da evolução de um povo.”

O que foi feito e com que objetivo? jogos não nascem do nada. Eles são
Entendemos o jogo como um fenômeno construções sociais e culturais que fazem
cultural que está em constante parte da história e da evolução de um povo.
transformação. Alguns dos jogos praticados
pelas crianças nos dias de hoje não são os Como foi feito?
mesmos praticados no passado, ou seja, os Iniciamos o trabalho solicitando aos alunos
jogos, ao longo do tempo, ganham novas que fizessem um mapeamento dos jogos
formas e configurações. No nosso núcleo mais praticados pela sua família. Para
temos um currículo que, na área cultural, contemplar a todos não restringimos apenas
propõe a transmissão às gerações atuais dos aos pais e mães. A partir do mapeamento
conhecimentos que foram construídos construímos um portfólio com todas as
socialmente. Por que então não desenvolver informações enviadas. Textos, desenhos,
um projeto sobre os jogos e os esportes mais fotos e depoimentos foram organizados e
praticados pelos seus familiares em tempos levados para as rodas de conversa. Nas rodas
"passados"? O objetivo principal deste utilizamos o mapeamento com os alunos,
trabalho era ensinar aos pequenos que os fizemos perguntas (De quem é este jogo?

25
Quem conhece? Quem da sua família os alunos puderam viver concretamente a
praticava este jogo? Quem sabe como joga? idéia do brincar como uma necessidade e um
Que material podemos utilizar neste jogo?) e direito de todas as idades.
selecionamos os jogos que foram estudados
e aprendidos. Durante as aulas, conforme Por que deu certo?
estudávamos cada jogo, estabelecíamos O mapeamento foi de suma importância para
relações com os esportes, suas regras, sua que pudéssemos organizar e sistematizar as
estrutura e o seu funcionamento. As práticas etapas do trabalho. A partir do diagnóstico
foram realizadas em grandes e pequenos conseguimos dimensionar melhor o tempo e
grupos, trios, duplas e individualmente. As as aulas que seriam necessárias para dar
brincadeiras com bola foram as mais conta das nossas expectativas. O contato com
praticadas. Brincamos na quadra, no campo e os pais motivou muito os alunos para o
com bolas de diferentes pesos, tamanhos, trabalho. Elas não imaginavam que seus pais
cores e texturas. Jogamos boliche, bola ao e seus avós um dia também foram crianças.
cesto, limpa casa e futebol. A corda também Através do portfólio, elaborado com as
foi um brinquedo bastante explorado. Com a figuras esportivas e os desenhos de jogos e
corda brincamos de pular, de correr e saltar, brincadeiras, possibilitamos que as crianças
passar por baixo, etc. Brincadeiras como ampliassem seu conhecimento sobre os
zerinho, aumenta-aumenta e chicotinho jogos e os esportes. A parceria estabelecida
queimado estiveram presentes nas aulas. com as famílias foi o ponto "forte" do projeto.
Esta estratégia deu muito certo e fez com que
Alguns avós e pais das crianças estiveram as crianças realizassem as práticas motivadas
presentes em algumas aulas e ensinaram para aprender e ensinar uns aos outros. O
como eram as suas brincadeiras com bola e diário de bordo, principal instrumento de
com corda no tempo de crianças. Algumas registro utilizado durante as aulas, contribuiu
brincadeiras, já com traços dos esportes, para a nossa reflexão sobre o andamento das
foram ensinadas e aprendidas. Jogamos "coisas" e permitiu que fizéssemos os ajustes
peteca, tênis, taco e capoeira. Nestas e as regulações necessárias para o bom
vivências as crianças conseguiram ver nas
brincadeiras a presença do esporte, muitas
vezes praticados pelos adultos.
Durante as aulas os meninos e as meninas
tiveram a oportunidade de brincar muito e,
mais do que isso, puderam perceber que
"brincar" não é só atividade de criança. Elas
acharam muito interessante quando alguns
pais disseram que quando crianças também
brincavam muito com a bola e com
a corda. Mesmo sem ter a
dimensão do tempo dos adultos,

26
andamento das aulas. Este instrumento certo. Levar em consideração os
ajudou muito para que pudéssemos olhar conhecimentos prévios das crianças e as
para os avanços e as dificuldades experiências da própria família nos ajudou
encontradas ao decorrer do também a dar os "passos" certos em todas as
desenvolvimento do projeto. etapas do projeto. Aprendemos que
podemos aprender uns com os outros e
Qual a diferença que o trabalho fez? também a valorizar a parceria do núcleo com
O envolvimento dos alunos e dos seus as famílias. Isso ajuda na fidelização das
responsáveis foi fundamental neste trabalho. crianças e solidifica a programa junto à
O projeto estreitou os laços entre os comunidade.
professores e a comunidade. Os pais e os avós
passaram a ter mais clareza da seriedade e da O que nós aprendemos?
dedicação de todos que trabalham no Aprendemos sobre a importância de
programa. Já as crianças ampliaram muito a sistematizar o trabalho desenvolvido.
sua visão sobre os jogos e os esportes. Além Conseguimos colocar em prática as etapas de
de terem seu repertório de jogos aumentado, antecipação, observação e regulação do
tiveram a oportunidade de aprender sobre planejamento. Apuramos nosso senso de
este fenômeno cultural como algo que observação e, com um olhar diferenciado,
evoluiu e evolui através dos tempos. É pudemos refletir e fazer as intervenções
interessante observar que as brincadeiras necessárias para que o projeto pudesse dar
estudadas e aprendidas durante este projeto certo. Levar em consideração os
passaram a fazer parte da rotina das crianças conhecimentos prévios das crianças e as
no núcleo. É muito comum, nas horas livres e experiências da própria família nos ajudou
nos momentos que antecedem ou sucedem também a dar os "passos" certos em todas as
as aulas, vermos as crianças pulando corda, etapas do projeto. Aprendemos que
brincando de aumenta-aumenta, jogando podemos aprender uns com os outros e
futebol ou capoeira. É muito bom ver que as também a valorizar a parceria do núcleo com
crianças estão brincando bastante e que as famílias. Isso ajuda na fidelização das
umas ensinam para as outras novos jogos e crianças e solidifica a programa junto à
esportes. comunidade.

O que nós aprendemos?


Aprendemos sobre a importância de
sistematizar o trabalho desenvolvido.
Conseguimos colocar em prática as etapas de
antecipação, observação e regulação do
planejamento. Apuramos nosso senso de
observação e, com um olhar diferenciado,
pudemos refletir e fazer as intervenções
necessárias para que o projeto pudesse dar

27
PONTO FINAL
“Quando um não quer, dois não brincam”

Prof. Fabio D´Angelo


Nós costumamos dizer que nas Oficinas do melhor percepção do próprio corpo, enfim,
Esporte as crianças Jogam para Aprender, pode ampliar suas chances de dar significado
mas aprender o que? Nas aulas das oficinas, a às coisas do mundo em que vive”.
brincadeira é o principal conteúdo, ou
melhor, o tema gerador de uma pedagogia Na dimensão social e moral, foco deste texto,
que pretende ser forte no ensino de a intenção das oficinas é envolver os alunos
conhecimentos relativos às questões e m b r i n ca d e i ra s q u e favo re ça m o
intelectuais, motoras, morais, sociais, desenvolvimento de atitudes cooperativas,
afetivas e estéticas. Isso quer dizer que os fruto das aprendizagens advindas dos
pequenos devem aprender sobre o esporte, diálogos, da construção coletiva de regras,
mas principalmente sobre a vida. das discussões e das tomadas de decisão.
Neste sentido nosso olhar está
Como professores compromissados com o freqüentemente voltado para a possibilidade
presente e também com o futuro dos nossos de a criança evoluir da autocentração para
alunos acreditamos que é possível termos posturas cada vez mais descentradas, ou seja,
pessoas melhores, vivendo em um mundo para a capacidade de conviver e brincar em
melhor. Alguns fazem isso através da arte, grupo, junto com os amigos, de
outros através da música ou até mesmo da uma forma saudável e
dança. Nós queremos fazê-lo ensinando o harmônica.
esporte. Como diz o Prof. João Freire, “O
esporte nas oficinas é fim, mas também é Saber o que queremos
meio”. É fim porque, quando uma criança ensinar é importante,
vai a um local qualquer aprendê-lo, precisa mas fundamental, tanto
ser satisfeita quanto a isso. Porém, quanto o conteúdo, é o
também é meio, porquanto, quando o método, o jeito de fazer.
aprende, pode aprender também valores, Na educação das atitudes
pode fortalecer seu pensamento, pode o método das oficinas é
aprender a lidar melhor com suas emoções, recheado de algumas
pode desenvolver uma melhor apreciação orientações didáticas que
estética das coisas, pode desenvolver uma incluem ações como
28
“O esporte nas oficinas é fim,
mas também é meio”.

construir coletivamente, gerar interações e as transitar do brinquedo individualizado para


provocar o conflito. É brincando com as cordas, as brincadeiras em grandes grupos, com regras
com as bolas, com as caixas, com as garrafas, unificadas e comuns para todos. Sabendo o
com as latas e com as tampinhas que momento certo de dar e/ou retirar o apoio
mobilizamos e convidamos as crianças a conseguimos gerar interações entre as crianças
vencerem o seu egocentrismo. Se no início e, assim, respeitadas nas suas características e
parece que o mundo gira no entorno do umbigo necessidades, elas vão aprendendo a diferença
de cada uma delas, com o tempo ensinamos e, entre o “estar juntos” e o “brincar juntos”. A esta
todas aprendem, a brincar juntas. Como isso é pedagogia damos o nome de “pedagogia da
possível? É só ter paciência e não dar “moleza” contradição”, um jeito de ensinar que
aos pequenos. desencadeia a tomada de consciência e a
compreensão do quanto é “trabalhoso”, mas
Estamos falando menos de uma pedagogia também “prazeroso” brincar com os amigos.
diretiva e autoritária e mais de uma pedagogia
que não aponta para aquilo que as crianças já Sabemos que a educação esportiva pode seguir
conhecem ou fazem, nem para muitos caminhos. Nossa opção foi escolher
comportamentos que já dominam, mas sim aquele de ensinar para que as pessoas sejam
para o que não se conhece, não se realiza ou mais solidárias, mais responsáveis; para que
não se domina suficientemente. O segredo está saibam agir coletivamente. Para educar
em provocar conflitos que levem os pequenos atitudes e construir valores precisamos dar

29
tempo ao tempo e criar espaços de ajuda mútua
e reciprocidade, onde as relações de troca entre
onseguimos associar a ação à reflexão, pois ao
falarem sobre o que foi “brincado”, as crianças
confrontam a prática com o pensar sobre este
fazer. Trazem para o plano da imaginação a
brincadeira em curso ou já terminada, e podem
vê-la na imaginação, isto é, olhando para
dentro. É assim que os pequenos aprendem a
“ver” e a entender o que aconteceu. A isso
damos o nome de tomada de consciência. Está é
uma estratégia que fortalece o pensamento das
crianças e ajuda a integrar o fazer e o nome de tomada de consciência. Está é uma
compreender. Alguém mais desavisado pode estratégia que fortalece o pensamento das
dizer: basta então fazer roda de conversa que o crianças e ajuda a integrar o fazer e o
problema da educação das atitudes está compreender. Alguém mais desavisado pode
resolvido. É claro que não!!! Nós temos a dizer: basta então fazer roda de conversa que o
clareza de que a “roda” não vai resolver todos os problema da educação das atitudes está
"problemas", mas ela é o "simbolo" de uma resolvido. É claro que não!!! Nós temos a
educação comprometida com a construção da clareza de que a “roda” não vai resolver todos os
autonomia. Quando as crianças percebem seu "problemas", mas ela é o "simbolo" de uma
professor e seus colegas atentos e disponíveis educação comprometida com a construção da
para ouví-los, elas se sentem mais seguras e autonomia. Quando as crianças percebem seu
confiantes para "falar" sobre as "coisas" da aula, professor e seus colegas atentos e disponíveis
sobre as dificuldades e as “pedras” que estão no para ouví-los, elas se sentem mais seguras e
caminho da boa convivência. Com o tempo, elas confiantes para "falar" sobre as "coisas" da aula,
vão aprimorando a qualidade da sua "fala", com sobre as dificuldades e as “pedras” que estão no
argumentos mais sólidos e consistentes no caminho da boa convivência. Com o tempo, elas
sentido de fortalecer o grupo, sem esquecer, é vão aprimorando a qualidade da sua "fala", com
lógico, das diferenças e das individualidades. argumentos mais sólidos e consistentes no
as crianças e a construção coletiva sejam sentido de fortalecer o grupo, sem esquecer, é
valorizadas. Nas oficinas as rodas de conversa, lógico, das diferenças e das individualidades.
que com freqüência acontecem durante as
aulas, são os espaços privilegiados da Este é um jeito de fazer educação que se apóia
construção coletiva. Nas rodas conseguimos na cooperação e não na coação. Vamos e
associar a ação à reflexão, pois ao falarem sobre venhamos, brincar em grupo ou praticar
o que foi “brincado”, as crianças confrontam a esporte, de acordo com regras comuns e
prática com o pensar sobre este fazer. Trazem unificadas, não é tarefa fácil. O desafio está
para o plano da imaginação a brincadeira em justamente na compreensão e no
curso ou já terminada, e podem vê-la na entendimento, por parte de todos, que no
imaginação, isto é, olhando para dentro. É assim espaço da brincadeira em grupo vale o dito
que os pequenos aprendem a “ver” e a popular “QUANDO UM NÃO QUER, DOIS NÃO
entender o que aconteceu. A isso damos o BRINCAM”.
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Alan Leão, Alex, Alexandre Arena, Allan Aparecido, Ana Mozer, Ângela Albertinni,
Bárbara Pivato, Bethania Brotto, Bianca Lima, Bruno Gonçalves, Caio Martins,
Carlinhos, Cibele Venáncio, Cibelle Regielle, Claudinei Quirino, Denise,
Douglas Eduardo, Everaldo Cortes, Fabiana, Fábio D´Angelo, Fabrício de Souza, Isabel,
Jefferson, João Batista Freire, Janaina Lima, Janaína Rodrigues, Jéssica Guimarães,
José Camelo, Leandro Moreira, Lívia Resende, Luiz Machado, Mafalda Marques,
Marcelo Jabu, Marilene Tavares, Marta, Mizael, Moreira de Acopiara, Renata Parente,
Renata, Renato Santos, Ricardo Pereira, Rodrigo Paiva, Romildes Lopes, Sergio Hortelan,
Tatiane Maciel, Thayane Santos, Tiago Baia, Vanessa Coutinho, Vanessa Pessoa,
Yara Letícia, ... aos coordenadores de pólo, estagiários, e a todos os alunos.

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