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UNIVERSIDADE FEDERAL DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – UNIRIO

Centro de Ciências Humanas e Sociais – CCH


Programa de Pós-Graduação em Gestão de Documentos e Arquivos – PPGARQ
Mestrado Profissional em Gestão de Documentos e Arquivos – MPGA
Disciplina Arquivos e Cultura Documental
Prof. João Marcus Figueiredo Assis
28/03/2019
Estudante: Beatriz Carvalho Betancourt

RESENHA CRÍTICA

ASSIS, J. M. F.. Imaginação Classificatória e Cultura Documental. Informação


Arquivística, v. 1, p. 27-47, 2012.
ASSIS, J. M. F.. Arquivos: produções e reapropriações de sentidos. Revista Observatório
Itaú Cultural, v. 1, p. 45-54, 2017.
Os artigos “Imaginação classificatória e cultura documental” e “Arquivos: produções e
reapropriações de sentidos” foram escritos pelo arquivista e sociólogo João Marcus
Figueiredo Assis. Como a formação do autor prenuncia, os dois textos aproximam a
Arquivologia das Ciências Sociais, além de outras áreas do saber.
Assis, no artigo de 2012, discutiu sobre os significados do conceito de classificação
pelo aporte das Ciências Sociais, problematizou a classificação no campo da Arquivologia,
apresentou a percepção da força de imposição e de manipulação social que os sistemas
classificatórios carregam e apontou a função social do arquivista de analisar criticamente as
categorias de classificação utilizadas em seu trabalho.
A partir da apresentação das ideias de Aristóteles, Tarnas, Anderson, Goffman,
Durkheim e Mauss, Silva, Ribeiro, Ramos e Real, Sousa, Nietzsche, Schellenberg, Dollar e
Duranti, Assis (2012) questionou o serviço das categorias que pautam a definição da
organização das informações registradas. Indagou, também, sobre os sistemas classificatórios
que lidamos e o que eles reforçam socialmente.
O autor denominou o termo “imaginação classificatória”, que forma o título do artigo,
a partir da referência de Anderson à ideia de “imaginação museologizante”. Fundado na ideia
de que a imaginação classificatória serve como suporte político e de poder, o autor se propôs a
pensar os usos dos modelos classificatórios.
Para isso, definiu três eixos de argumentação: questões teóricas e definições
terminológicas no campo arquivístico; compreensão do processo classificatório como
empreendimento ocidental de formulação de categorias “claras e distintas” e discussão sobre a

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ampliação e complexificação das categorias com as quais, nós arquivistas, lidamos
cotidianamente.
As categorias arquivísticas foram confrontadas com reflexões “de fora”. Os métodos
da Antropologia colaboraram para afastar um objeto da nossa formação e rotina profissional,
a classificação, deslocando-o para uma observação mais longínqua. Assim, passamos também
a nos ver como objeto de nós mesmos por meio da análise de nossos pensamentos e práticas.
O texto contribui ao nos colocar no papel de investigadores. Como tais, devemos
pensar as categorias classificatórias que usamos. Concordamos que nossa função social requer
além do trabalho de garantir acesso aos arquivos. É necessário cuidar para que projetos
estatais, políticos, econômicos, religiosos, ideológicos ou outros não se sobreponham à
cidadania e democracia.
A proposta de Assis nos conduziu a pensar nas diferentes formas de perceber e
desnaturalizar conceitos e ações aos quais nos acostumamos. Dessa mesma forma, fomos
conduzidos pelo autor, no artigo de 2017, pela discussão dos valores e funções dos arquivos
com argumentações de autores da História, das Ciências Sociais e da Arquivologia.
Com base em reflexões de Weber e Bourdieu, Rousso, Le Goff, Silva, Ribeiro e
Ramos, Halbwachs, Cook, Greene, e Gutiérrez, evidenciou a força simbólica dos documentos
e arquivos no processo de legitimação do Estado diante dos cidadãos e chamou a atenção para
o caráter do processo manipulador de construção da naturalidade e da neutralidade dos
arquivos.
Primeiro, enfatizou o processo que levou à qualificação de “prova”, que atribuiu aos
arquivos noções de veracidade e neutralidade, além da função de comprovar atos
administrativos ou legais e garantir direitos e deveres, especialmente em relação ao Estado. A
crítica documental foi apontada como forma de questionar e relativizar os arquivos e
documentos como instrumentos de legitimação naturais e neutros.
Depois, debateu sobre o documento arquivístico como fonte privilegiada de pesquisa e
resultado de arranjos, conscientes ou inconscientes, da historia e da época em que foi
produzido. A crítica histórica foi apontada como responsável por desvelar o caráter do
documento, entendendo-o como monumento. Esse entendimento permitiu a demonstração dos
significados múltiplos dos documentos, dos poderes que os produzem para se constituírem ou
se sedimentarem como poder.
Por fim, o autor se propôs a refletir sobre o campo arquivístico a partir da concepção
dos arquivistas como produtores e mediadores ativos e conscientes na formação da memória.

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Essa concepção elevou nossa função social. Passamos a ser agentes de arquivos com
as dimensões de prova e memória equilibradas, ampliando os propósitos para a proteção da
cidadania, do cidadão e dos direitos humanos.
A ampliação da nossa função social é consoante às novas questões de caráter teórico e
técnico do campo arquivístico. Exemplo disso foi a aula inaugural da Escola de Arquivologia
da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), em 2019. O professor
Renato Tarciso Barbosa se propôs a refletir sobre a “Classificação e a descrição de
documentos de arquivo no contexto do mundo digital, da legislação de acesso à informação e
dos novos comportamentos informacionais”.
As ideias apresentadas na aula convergem com o que refletimos a partir dos artigos
citados. Barbosa (2019) se questionou sobre quanto, efetivamente, da informação utilizamos
para tomadas de decisão, preservação da memória e garantia de direitos e deveres?
A partir desse problema, o professor, por meio da crítica à classificação funcional,
refletiu sobre as novas formas de busca de informação (como as buscas na internet e
solicitações ao Serviço de Informações ao Cidadão - SIC). Barbosa considerou, no fim, novas
maneiras de pensar as funções arquivísticas diante do novo contexto do mundo digital.
Diante de tais exemplos de mudanças, remetemos à necessidade de continuamente
recorrer a diversas áreas do saber para melhor exercermos nossa função. Conforme Barbosa
pontuou, antes do século XIX os arquivos serviam à administração e ao direito. Depois do
século XIX, à administração, ao direito e à história. Agora, no século XXI, a “razão de ser”
dos arquivos é ligada aos serviços (voltados ao criador e também à sociedade). E servir à
sociedade requer, de nós, constante atenção às suas demandas e consciência das nossas
marcas ativas nesse processo.