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“A FORÇA DAS MARÉS”

ANÁLISE DOS FACTORES EROSIVOS SOBRE AS


LITOLOGIAS DA PRAIA DA AGUDA
Ana Luísa Sá; Carina Costa; Franscisco Maltez; Maria Pedro Silva; Pedro Amorim

Qualquer tipo de rocha é produto do ambiente físico-químico em que foi gerado.


Quando as condições ambientais se alteram, as rochas experimentam mudanças profundas. O
Mar é uma das forças que, como país costeiro, aprendemos a temer e respeitar. O poder das
suas ondas e marés é suficientemente capaz de alterar a morfologia da Terra.

Objectivos:
• Estudar a influência das marés sobre a morfologia das diferentes litologias da Praia;
• Explicar a meteorização física e química sofrida pelas rochas;
• Analisar a presença de formações características desta acção abrasiva das ondas;

Fundamentos Teóricos:
À superfície da crosta terrestre afloram rochas que ficam expostas à acção de variados
agentes, tais como a água, o vento, o ar, as mudanças de temperatura e os próprios seres vivos.
Neste caso, os agentes abrasivos principais são a água e seres vivos sésseis, como cracas,
mexilhões e lapas. Estes agentes, actuando sobre as rochas, provocam a sua alteração física e
química, fenómeno que é designado por meteorização. Em consequência da meteorização, as
rochas superficiais vão sendo destruídas. Os materiais resultantes deste processo podem ser
removidos do local, quer por acção da gravidade, quer pela água, pelo vento ou pelo gelo,
sendo essa remoção denominada erosão. Pela meteorização a rocha é alterada, e pela erosão
os materiais resultantes desse processo são removidos do local. Existe um processo de
meteorização/erosão específico das zonas costeiras, provocado pela acção conjugada da força
motriz das marés e pela presença de sedimentos, transportados em suspensão pelas ondas,
que provocam um desgaste mecânico mais significativo – abrasão marinha.
As rochas de um modo geral, expostas aos agentes da geodinâmica externa,
experimentam, simultaneamente, dois tipos de transformações. Uma alteração química,
designada por meteorização química, em que certos mineriais dão lugar a outros mais estáveis
em diferentes condições ambientais, e uma desagregação mecânica – meteorização física, que
pode não estar necessariamente relacionada com a alteração mineralógica. Normalmente,
estes dois processos desenrolam-se concomitantemente e os seus efeitos estão
inseparavelmente combinados.

Meteorização Física
Este tipo de meteorização provoca nas rochas uma desagregação em fragmentos cada
vez menores, mas que retêm as características do material original. Esta fragmentação
aumenta a superfície exposta aos agentes de meteorização, e dá origem a formações
características, moldadas pela força dos agentes erosivos.

Esta meteorização pode resultar da conjugação de enúmeros factores:

 A acção mecânica da água: as águas correntes e os detritos que transportam metralham


as rochas, acelarando o seu desgaste e fragmentação, e originando formações
características, como marmitas, arribas, chaminés de fada, etc.;
 Dilatações e contracções térmicas: principalmente na zona eulitoral, as rochas
experimentam autênticas variações de temperatura, consoante se encontra emersa ou
submersa. As variações d temperatura provocam dilatações e contracções alternadas
dos minerais que reagem de diferentes modos por terem diferentes coeficientes de
dilatação, originado falhas locais;
 Actividade biológica: animais sésseis como mexilhões, cracas e lapas, fixam-se sobre as
rochas, contribuindo para o seu desgaste. Alguns animas cavam galerias e tocas nas
rochas, favorecendo a sua desagregação.

Meteorização Química:

A maioria dos minerais gerados em profundidade torna-se instável nas condições


superficiais. Ocorrem processos completos, pelos quais se originam outros minerais mais
estáveis, ou uma série de produtos solúveis, que são transportados pelas águas correntes. O
principal agente desta alteração mineralógica é a água, com diferentes substâncias dissolvidas,
como o oxigénio e o dióxido de carbono.
Acção do CO2 atmosférico:

Na Natureza, a acidificação da água é um fenómeno frequente. Por exemplo, o dióxido


de carbono atmosférico ou o existente nos solos, pode reagir com a água, formando o ácido
carbónico, que se dissocia, sendo esta reação traduzida pela seguinte equação:

H 2O + CO2 → H + + HCO3−
Carbonatação
Um dos processos de meteorização mais comuns é a carbonatação. Neste caso, as águas
acidificadas pelo CO2 atmosférico podem reagir com a calcite (carbonato de cálcio), mineral
que faz parte de maciços calcários e das peças esqueléticas e conchas de alguns animais.

CaCO3 + H 2CO3 → Ca 2+ + 2( HCO3− )


O carbonato de cálcio insolúvel reage com o ácido carbónico, formando dois produtos
solúveis, os iões cálcio e hidrogenocarbonato, que podem ser removidos em solução do local
onde determinada formação sofreu meteorização. Estes podem ser levados, pelas águas do
mar, até bacias de sedimentação onde, por alteração das condições físico-químicas do meio,
podem precipitar, formando novos maciços calcários ou sendo incorporados nas peças
esqueléticas de alguns animais.
De forma a comprovar a acção das águas acidificadas sobre os carbonatos, procedemos
a seguinte experiência:
Material:

• 4 tubos de ensaio, etiquetados respectivamente com A, B, C, D, e respectivo suporte;


• Pipetas;
• Lamparina de álcool;
• Fósforos;
• Pinça de madeira;
• Varetas;
• Espátula;
• Balança Electrónica;
• Vidro de relógio;
• Calcite reduzida a pó;
• Água destilada;
• Água mineral gasocarbónica.
• Procedimento:
1. No tubo A introduza 10 ml de água destilada;
2. No tubo B introduza 10 ml de água destilada e 500 mg de calcite reduzida a pó, agite
com uma vareta, aguarde alguns minute e registe as observações;

Fig.1 Recolha dos 10 ml de água destilada.

3. No tubo C, introduza 10 ml de água mineral e 500 mg de calcite reduzida a pó, agite


com uma vareta, aguarde alguns minutos e registe as observações;

Fig.2 Recolha dos 10 ml de água mineral.


4. No tubo D, introduza 10 ml de água minneral e 500 mg de calcite reduzida a pó e agite
com uma vareta;
5. Aqueça o tubo D recorrendo à lamparina, aguarde alguns minutos e registe as
observações.

Fig.3 Aquecimento do tubo D com recurso à lamparina

Resultados
O tubo A não regista nenhuma alteração, funcionando como controlo relativamente à
experiência exposta.
No tubo B, dado que a calcite não é solúvel em água, após agitação observa-se a turvação
do líquido. Apesar disso, passados alguns minutos a calcite precipita, depositando-se no fundo
do tubo de ensaio, pelo que o líquido se torna novamente límpido.
No tubo C, adicionaram-se calcite e água mineral contendo ácido carbónico. Neste caso,
em presença do CO2 na água, a calcite forma uma substância solúvel, hidrogenocarbonato de
cálcio, Ca(HCO3)2. Esta dissolve-se na água, e a turvação do líquido mantem-se.
No tubo D, por diminuição da concentração de CO2 na água, devido ao aumento de
temperatura, o hidrogenocarbonato de cálcio forma carbonato de cálcio, CaCO3, que precipita.
Daí o líquido se tornar gradualmente mais límpido, formando se um precipitado no fundo do
tubo.
Fig. 4 Resultados da experiência nos 4 tubos, pela ordem A, B, C e D.

Conclusões
Tais evidências permitem perceber de que forma se dá a meteorização química, nas
praias, de compostos de carbonato de cálcio, como por exemplo conchas. A água da chuva
acidificada pelo CO2 atmosférico actua sobre as conchas calcárias, formando
hidrogenocarbonato de cálcio solúvel. Este é arrastado, dissolvido nas águas, para bacias
oceânicas de deposição. Aí, por aumento da temperatura ou alteração de outras condições
físico-químicas, pode precipitar sob a forma de CaCO3, formando maciços calcários, ou sendo
incorporado nas partes esqueléticas de animais com concha ou carapaça.

Hidrólise
Um outro processo de meteorização é a hidrólise ou caulinização dos feldspatos. Os
feldspatos, minerais muito frequentes em muitos tipo de rocha, nomeadamente nos granitos,
são também facilmente alterados pelas águas acidificadas, experimentando reacções de
hidrólise.
Este é um mineral inssolúvel, mas a sílica e o potássio que o constituem podem ser
removidos em solução, quando em contacto com o ácido carbónico. Forma-se, como produto
desta reacção, um mineral novo, designado de caulinite, que faz parte da família dos minerais
de argila. Estes minerais são produto final da meteorização química de muitos outros minerais,
sendo extremamente estáveis nas condições superficiais. Podem ficar a fazer parte do solo que
se vai gerando no local, em consequência da alteração da rocha, e nas praias, dão origem às
areias argilosas.

Meteorização na Praia da Aguda


Na Praia da Aguda, a acção conjunta da meteorização física e química leva, como
noutras praias, ao surgimento de formações e litologias características. Nestas, a acção da força
das ondas e o poder abrasivo do mar é por demais evidente. É de salientar que as litologias a
seguir apresentadas foram tomando forma ao longo de milhares de anos, a uma escala
imperceptível para o olho Humano. Essa é uma das razões pela qual estes fenómenos se
tornam tão fascinantes para nós.

Fig.5 Forma característica do impacto das ondulação nas rochas

Fig.6 Cavidade formada numa litologia pelo impacto da abrasão marinha.


Fig.7 Arco formado pelo impacto da erosão marinha numa das litologias da praia.

Como população costeira que somos, o mar é, simultaneamente, o nosso principal


sustento, o melhor companheiro, e o mais temido dos inimigos. A força das ondas, demontrada
nestas formações, leva-nos a admirar a capacidade da água em moldar rocha como nós
moldamos barro. Daí que este seja o elemento que deu à Terra o seu nome – Planeta Azul.

Bibliografia
• “Acção das águas acidificadas sobre o calcário” -
http://www.proformar.org/revista/edicao_12/aguas_acidificadas.pdf

• SILVA, A.; GRAMAXO, F.; SANTOS, M. E.; MESQUITA, A.F.; BALDAIA, L.;
FÉLIX, J. M.; (2006) – “Terra, Universo de Vida – 2ª parte Geologia”. Porto Editora,
208pp.

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