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Tendo em vista os atos praticados na vida civil relacionados a contratos paritários e de ordem

privada, abordem todas as mudanças eventualmente trazidas com a L.13.874/19.


A abordagem sobre a lei de liberdade econômica deverá constar aspectos de interpretação
objetiva e subjetiva dos pontos incluídos ou alterados pela respectiva lei. E ainda, no que diz respeito aos
artigos alterados na legislação privada, façam uma pesquisa de pelo menos 2 jurisprudências sobre qual
artigo mencionando ainda se houver qualquer tipo de modificação de entendimento das correntes
majoritárias existentes antes da referida lei.
Obs: Antes do trabalho ser objeto de correção pelo avaliador, cada discente terá a
obrigatoriedade de sustentar oralmente a sua linha de pesquisa ao professor no período de até 10 minutos,
justificando todos os pontos que entenda como relevantes na defesa de sua pesquisa objeto deste trabalho.
Boa Sorte!

O entendimento jurisprudencial é nesse sentido. Vejamos:


Ausência de controle de horário por vontade do empregador. O controle de jornada de
trabalho, nas empresas com mais de dez empregados, não é opcional, tratando-se de dever do
empregador e de direito do trabalho. (TRT 4ª R; RO 00442-2005-331-04-00-0, 6ª Turma, relator juiz
Mário Chaves, DOERS 08-09-2006).
HORAS EXTRAS. OBRIGATORIEDADE DO CONTROLE DE PONTO.
ESTABELECIMENTOS COM MAIS DE 10 (DEZ) EMPREGADOS. Se o empregador possui mais de
10 (dez) empregados, está obrigado a manter registro manual, mecânico ou eletrônico de ponto,
para anotação do horário de entrada e saída de pessoal. Se o reclamado, nessas condições, não
instala o controle necessário, conclui-se que sonegou documentação essencial à vida funcional de
seus trabalhadores, desafiando a legislação aplicável à espécie. A injustificada omissão na
apresentação dos controles de ponto faz presumir verdadeiras as jornadas elencadas na exordial,
conforme doutrina e jurisprudência majoritárias, esta última representada pela Súmula nº 338 do C.
TST. Horas extras devidas. (TRT-2 - RECORD: 1075200502602002 SP 01075-2005-026-02-00-2,
Relator: PAULO AUGUSTO CÂMARA, Data de Julgamento: 14/04/2009, 4ª TURMA, Data de
Publicação: 28/04/2009).

A ampliação do limite de funcionários, inclusive, deve ocasionar a revisão da Súmula


338 do TST, que acompanhava a antiga redação do parágrafo segundo do artigo 74 da CLT,
ao afirmar que é ônus do empregador que conta com mais de 10 (dez) empregados o registro
da jornada de seus funcionários.

O TST editou a Súmula nº 338 nesse sentido:


Súmula nº 338 do TST - JORNADA DE TRABALHO. REGISTRO. ÔNUS DA PROVA
I - E ônus do empregador que conta com mais de 10 (dez) empregados o registro da jornada de
trabalho na forma do art. 74, § 2º, da CLT. A não-apresentação injustificada dos controles de
freqüência gera presunção relativa de veracidade da jornada de trabalho, a qual pode ser elidida
por prova em contrário.

O entendimento jurisprudencial também segue o mesmo entendimento:


HORAS EXTRAS - INTERVALO - ANOTAÇÃO EM CONTROLE DE PONTO -
OBRIGATORIEDADE - A fruição regular do intervalo deve ser comprovada pela empresa, através
das anotações de ponto (§ 2º, do artigo 74 da CLT), sendo certo que a ausência de referida anotação
faz presumir que o intervalo não foi concedido e, ainda, que a anotação de horários uniformes são
inválidos (Súmula nº 338, item III do C. TST). (TRT-2 - RO: 00002106720135020017 SP
00002106720135020017 A28, Relator: ODETTE SILVEIRA MORAES, Data de Julgamento:
04/11/2014, 11ª TURMA, Data de Publicação: 11/11/2014).
HORAS EXTRAS. ART. 74, § 2º, CLT. ÔNUS DA PROVA. SÚMULA Nº 338, DO TST. É ônus
do empregador que possui mais de 10 empregados provar a jornada de trabalho alegada na defesa,
uma vez que existe preceito de ordem pública que estabelece para as empresas com mais de uma
dezena de empregados a obrigatoriedade do registro manual, mecânico ou eletrônico das jornadas
dos empregados. (TRT-5 - RecOrd: 00779002320085050161 BA 0077900-23.2008.5.05.0161,
Relator: LUÍZA LOMBA, 2ª. TURMA, Data de Publicação: DJ 30/08/2012.).

A ideia do registro de ponto por exceção é de somente anotar atrasos, falta, trabalho em sábados,
domingos e feriados, ou sejam, situações que fujam da rotina de trabalho pactuada entre a empresa e o
empregado.
Isso quer dizer os cartões de ponto somente devem ser marcados nos dias em que o empregado, por
qualquer motivo que seja, chegue atrasado ou antes do seu horário habitual; ou saia mais cedo ou mais
tarde do que a jornada de trabalho habitual.

As pessoas jurídicas cumprem relevante papel nas sociedades, porquanto favorecem o crescimento e o
desenvolvimento econômico social. Desnecessário dizer o potencial e a força geradora de postos de
trabalho dessas entidades, de arrecadação de tributos de distribuição de renda, de circulação de bens e
serviços, enfim, de um ímpio espectro de atuação do qual a sociedade hodierna, sobretudo, não pode
prescindir.
Importante destacar que o princípio da função social da empresa foi expressamente referenciado no
parágrafo único do art. 116 da Lei n.º 6.404/76 (Lei das Sociedades Anônimas), vejamos:
Art. 116. Entende-se por acionista controlador a pessoa, natural ou jurídica, ou o grupo de
pessoas vinculadas por acordo de voto, ou sob controle comum, que:
[...]
Parágrafo único. O acionista controlador deve usar o poder com o fim de fazer a
companhia realizar o seu objeto e cumprir sua função social, e tem deveres e
responsabilidades para com os demais acionistas da empresa, os que nela trabalham e
para com a comunidade em que atua, cujos direitos e interesses deve lealmente respeitar e
atender.
Nestes termos, ressaltamos que é o Código de Defesa do Consumidor e a Lei de Crimes Ambientais que
adotam a teoria menor da desconsideração da personalidade jurídica.
Senão vejamos:
Art. 28 da Lei n.º 8.078/90 (Código de Defesa do Consumidor): O juiz poderá
desconsiderar a personalidade jurídica da sociedade quando, em detrimento do
consumidor, houver abuso de direito, excesso de poder, infração da lei, fato ou ato
ilícito ou violação dos estatutos ou contrato social. A desconsideração também
será efetivada quando houver falência, estado de insolvência, encerramento ou
inatividade da pessoa jurídica provocados por má administração.
Art. 4º da Lei n.º 9.605/98 (Lei que dispõe sobre as sanções penais e
administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio
ambiente): Poderá ser desconsiderada a pessoa jurídica sempre que sua
personalidade for obstáculo ao ressarcimento de prejuízos causados à qualidade
do meio ambiente.

L.13.874/19 - Art. 3º São direitos de toda pessoa, natural ou jurídica, essenciais


para o desenvolvimento e o crescimento econômicos do País, observado o
disposto no parágrafo único do art. 170 da Constituição Federal:
(...)
§ 3º O disposto no inciso III do caput deste artigo não se aplica:
(...) II - à legislação de defesa da concorrência, aos direitos do consumidor e às
demais disposições protegidas por lei federal.

O Código de Defesa do Consumidor, até então vigente, logo em seu art. 28, incluir a conhecida “Teoria
Menor da Desconsideração da Personalidade Jurídica”, isto porque, o juiz togado poderá efetuar a
desconsideração da personalidade jurídica, quando, em prejuízo do consumidor, que é o elo
hipossuficiente da relação consumerista, se notar a ocorrência de abuso de direito, infração da lei, fato ou
ato ilícito, excesso de poder, ou até mesmo, evidenciar-se a violação do contrato social ou dos estatutos
que regem suas funções sociais.

CTN - Para outros, a desconsideração da personalidade jurídica em matéria tributária seria plenamente aplicável,
e se daria com fundamento no artigo 135 do Código Tributário Nacional, dentre outros, que possuiriam os
elementos centrais da teoria da desconsideração. Sob essa perspectiva, em diversas normas do Código Tributário
Nacional haveria previsão para o afastamento de qualquer dificultador da identificação exata e clara do sujeito
passivo do tributo, a exemplo do artigo 149, inciso VII. Por conseguinte, a existência de pessoa jurídica a
obstaculizar a tributação de pessoa física, efetivo sujeito passivo da obrigação tributária, não impede o Fisco de
desconsiderá-la (a pessoa jurídica) para fins de tributação. O Código Tributário Nacional, como visto, permite a
desconsideração, a partir da leitura de diversos de seus artigos.
Art. 135. São pessoalmente responsáveis pelos créditos correspondentes a obrigações tributárias
resultantes de atos praticados com excesso de poderes ou infração de lei, contrato social ou
estatutos:
I - as pessoas referidas no artigo anterior;
II - os mandatários, prepostos e empregados;
III - os diretores, gerentes ou representantes de pessoas jurídicas de direito privado.
Art. 149. O lançamento é efetuado e revisto de ofício pela autoridade administrativa nos
seguintes casos:
VII - quando se comprove que o sujeito passivo, ou terceiro em benefício daquele, agiu com dolo,
fraude ou simulação;

Mas o uso da pessoa jurídica para fins ilegítimos, para a realização de ilícito, deve permitir a
desconsideração da personalidade jurídica, nos exatos termos utilizados por Alexandre Couto SILVA:

A desconsideração da personalidade jurídica ocorrerá quando o conceito de


pessoa jurídica for utilizado para promover fraude, evitar o cumprimento de
obrigações, obter vantagens da lei, perpetuar o monopólio, proteger a prática do
abuso de direito, propiciar a desonestidade, contrariar a ordem pública e justificar
o injusto. Nessas hipóteses, o Judiciário deverá ignorar a pessoa jurídica,
considerando-a como associação de pessoas naturais, buscando a justiça. A pessoa
jurídica deve ser, obrigatoriamente, utilizada para fins legítimos, e não para
negócios escusos, situação em que deverá ser desconsiderada. Entretanto, a
desconsideração deve ser a exceção, não a regra.

CLT – desconsideração pessoa jurídica no direito do trabalho


A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em seu artigo 2º, §2º, abarca a hipótese de desconsideração da
personalidade jurídica, quando várias pessoas jurídicas, muito embora regidas e dotadas de personalidade
jurídica própria, tornam para os efeitos da legislação trabalhista, empresas solidariamente responsáveis pelos
créditos trabalhistas existentes, sempre que uma ou mais empresas, estiverem sob a direção, controle ou
administração de outra, constituindo grupo industrial, comercial ou de qualquer outra atividade econômica,
tornando-se, para os efeitos da relação empregatícia, solidariamente responsáveis, a empresa principal e cada
uma das quais se subordinam.

Art. 2º - Considera-se empregador a empresa, individual ou coletiva, que, assumindo os riscos da


atividade econômica, admite, assalaria e dirige a prestação pessoal de serviço.
(...)
§ 2o Sempre que uma ou mais empresas, tendo, embora, cada uma delas, personalidade jurídica
própria, estiverem sob a direção, controle ou administração de outra, ou ainda quando, mesmo
guardando cada uma sua autonomia, integrem grupo econômico, serão responsáveis
solidariamente pelas obrigações decorrentes da relação de emprego. 
§ 3º Não caracteriza grupo econômico a mera identidade de sócios, sendo necessárias,
para a configuração do grupo, a demonstração do interesse integrado, a efetiva comunhão
de interesses e a atuação conjunta das empresas dele integrantes.
Assim sendo, trazemos a colação as lições de Amador Paes de Almeida:
 […] nenhum ramo do direito se mostra tão adequado à aplicação da teoria da
desconsideração do que o direito do trabalho, até porque os riscos da atividade
econômica, na forma da lei, são exclusivos do empregador […] No direito do
trabalho a teoria da desconsideração da pessoa jurídica tem sido aplicada pelos
juízes de forma ampla, tanto nas hipóteses de abuso de direito, excesso de poder,
como em casos de violação da lei ou do contrato, ou, ainda, na ocorrência de
meios fraudulentos, e, inclusive, na hipótese, não rara, de insuficiência de bens da
empresa, adotando, por via de consequência, a regra disposta no art. 28 do Código
de Proteção ao Consumidor.
Assim sendo, a regra é que o descumprimento dos direitos trabalhistas configuram o “desvio de
finalidade”, sendo este um conceito legislativo indeterminado disposto no art. 50 do Código Civil (Lei
10.406/02), onde se permite que ocorra a desconsideração da personalidade jurídica, com o fito de fazer
com que certas e determinadas relações e obrigações sejam estendidas aos bens particulares dos
administradores ou sócios da empresa.
Nestes termos, vejamos os precedentes jurisprudenciais relativos a matéria ora em comento:
Ementa: Desconsideração da Personalidade Jurídica da Executada.
Responsabilidade Pessoal do Sócio. O descumprimento dos direitos trabalhistas
configura o “desvio de finalidade”, conceito legal indeterminado presente no
artigo 50 do Código Civil Brasileiro, que permite a desconsideração da pessoa
jurídica. Logo, exauridas as tentativas de execução contra a pessoa jurídica, cabe
deferir o redirecionamento da execução aos sócios da executada. Apelo a que se
nega provimento.” (Tribunal Regional do Trabalho da Quarta Região/ Agravo de
Petição Nº 0156100-55.1997.5.04.0291/ Relatora Desembargadora Ana Rosa
Pereira Zago Sagrilo/ Julgado em 09.06.2011) (destaquei)

No Direito do Trabalho, prevalece a regra segundo a qual o simples inadimplemento da dívida de


natureza trabalhista pela pessoa jurídica autoriza a afetação dos bens particulares dos sócios ou
administradores, sem que se tenha a comprovação de abuso da personalidade jurídica (Teoria Menor da
Desconsideração).

Porém, caso a empresa faça parte de grupo econômico, a comprovação do abuso de personalidade
jurídica, caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial, torna-se necessária para a
desconsideração. Assim, neste caso, ter-se-á a aplicação da Teoria Maior, em conformidade com a nova
redação do art. 50, parágrafo 4º, do CC/02.

Vale destacar que as empresas que integram grupo econômico continuam sendo solidariamente
responsáveis por dívidas resultantes da relação de trabalho. Significa dizer que o trabalhador contratado
por uma das empresas integrantes do grupo poderá cobrar a integralidade da dívida de qualquer uma das
demais empresas, sem que exista uma ordem de cobrança. Porém, ao requerer a desconsideração da
personalidade jurídica para que tenha a condenação da pessoa física dos sócios ou administradores,
deverá comprovar o abuso de personalidade a que se refere o art. 50, do CC/02.

Como fica a ação pauliana?


DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA.
CPC - Art. 133. O incidente de desconsideração da personalidade jurídica será instaurado a pedido da
parte ou do Ministério Público, quando lhe couber intervir no processo.
§ 1º O pedido de desconsideração da personalidade jurídica observará os pressupostos
previstos em lei.
§ 2º Aplica-se o disposto neste Capítulo à hipótese de desconsideração inversa da
personalidade jurídica.

RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. DESCONSIDERAÇÃO INVERSA


DA PERSONALIDADE JURÍDICA. EXECUÇÃO CONTRA EMPRESA PERTENCENTE A
CONGLOMERADO, CUJO SÓCIO MAJORITÁRIO OU ADMINISTRADOR ALIENOU A QUASE
TOTALIDADE DAS COTAS SOCIAIS DA PRINCIPAL EMPRESA DO GRUPO PARA SUA
ESPOSA. FRAUDE À EXECUÇÃO. ABUSO DA PERSONALIDADE. CONFUSÃO PATRIMONIAL.
ATO ATENTATÓRIO À DIGNIDADE DA JUSTIÇA. TENTATIVA DE FRUSTRAR A EXECUÇÃO.
RISCO DE INSOLVÊNCIA DO DEVEDOR. NECESSIDADE DE PERSEGUIÇÃO DE NOVAS
GARANTIAS. 1. Controvérsia em torno da legalidade da desconsideração inversa da personalidade
jurídica em relação à empresa recorrente no curso de execução movida contra uma das empresas
integrantes do mesmo grupo econômico, mas sem patrimônio para garantia do juízo, em face da
transferência pelo sócio majoritário da quase totalidade de suas cotas sociais para sua esposa, ficando
somente com a participação de 0,59% na empresa recorrente. 2. A alienação maliciosa para a esposa da
quase totalidade de sua participação societária pelo sócio controlador, co-executado na qualidade de
avalista, de empresa-joia de conglomerado de empresas, integrado pela empresa co-executada, sem
patrimônio, em fraude à execução, caracteriza abuso de personalidade jurídica. 3. Legalidade da
desconsideração inversa da personalidade jurídica, autorizada pelo art. 50 do Código Civil, que abrange,
conforme a jurisprudência desta Corte, as hipóteses de ocultação ou mescla de bens no patrimônio de seus
sócios ou administradores. 4. A teoria da "disregard doctrine" surgiu como mecanismo para coibir o uso
abusivo da autonomia da pessoa jurídica para a prática de atos ilícitos em detrimento dos direitos
daqueles que com ela se relacionam. 5. A comprovação de que a personalidade jurídica da empresa está
servindo como cobertura para abuso de direito ou fraude nos negócios, deve ser severamente reprimida. 6.
Utilização, no caso, de uma das empresas, a mais importante, do conglomerado de empresas pertencentes
ao devedor, integrado pela empresa co-devedora sem patrimônio, para ocultar bens, prejudicando os
credores. 7. Caracterização do abuso de personalidade jurídica, autorizando a medida excepcional.
Precedentes do STJ. 8. RECURSO ESPECIAL DESPROVIDO. (STJ - REsp: 1721239 SP
2017/0296335-9, Relator: Ministro PAULO DE TARSO SANSEVERINO, Data de Julgamento:
27/11/2018, T3 - TERCEIRA TURMA, Data de Publicação: DJe 06/12/2018)

Artigo do Professor Pablo Stolze Gagliano


sobre a Lei 13.784/2019 (Lei da Liberdade Econômica)
Publicado por Flávio Tartuce

A Lei n. 13.874 de 2019 (Liberdade Econômica): a Desconsideração da Personalidade Jurídica e a


Vigência do Novo Diploma.
Pablo Stolze
Juiz de Direito. Mestre em Direito Civil pela PUC-SP. Membro da Academia Brasileira de
Direito Civil, da Academia de Letras Jurídicas da Bahia e do Instituto Brasileiro de Direito
Contratual. Professor da Universidade Federal da Bahia e da Rede LFG. Co-autor do Manual
de Direito Civil, do Novo Curso de Direito Civil e do Manual da Sentença Cível (Ed. Saraiva).
1. Introdução
Não faz muito, publiquei artigo com as minhas primeiras impressões acerca da Medida Provisória
n. 881, de 30 de abril de 2019, que instituiu a “Declaração de Direitos de Liberdade Econômica”, em
face do instituto da desconsideração da personalidade jurídica[1].
No presente texto, pretendo revisar as considerações que fiz, já com os olhos da nova Lei n.
13.874, de 20 de setembro de 2019, bem como tecer objetivas considerações acerca da vigência do
novo diploma.
Os leitores que me deram a honra do estudo do primeiro artigo, poderão, não apenas revisar o
que lá foi escrito, mas, fixando conceitos, verificar o que (pouco) mudou, no âmbito da desconsideração,
a partir da conversão da Medida Provisória e o que, em minha modesta visão acadêmica, deveria ter
mudado.
Aos que ainda não leram, convido para que conheçam este instituto tão importante para o Direito
Brasileiro.
2. O art. 49-A do Código Civil
Propositalmente, antes da disciplina jurídica da desconsideração, o legislador inseriu, no Código
Civil, o art. 49-A:
Art. 49-A. A pessoa jurídica não se confunde com os seus sócios, associados,
instituidores ou administradores.
Parágrafo único. A autonomia patrimonial das pessoas jurídicas é um instrumento lícito
de alocação e segregação de riscos, estabelecido pela lei com a finalidade de estimular
empreendimentos, para a geração de empregos, tributo, renda e inovação em benefício
de todos.
Com isso, reafirma uma premissa básica do nosso sistema: a autonomia jurídico-existencial da
pessoa jurídica em face das pessoas físicas que a integram.
Vai mais além, aliás, ao estabelecer, em seu parágrafo único, o próprio elemento teleológico da
autonomia patrimonial, qual seja, o de “estimular empreendimentos, para a geração de empregos,
tributo, renda e inovação em benefício de todos”, dialogando, inclusive, com o princípio da função social
da empresa.
Por via oblíqua, portanto, realça o caráter excepcional da desconsideração da personalidade
jurídica.
Nessa linha, aliás, a doutrina do jurista FLÁVIO TARTUCE:
“A regra é de que a responsabilidade dos sócios em relação às dívidas sociais seja
sempre subsidiária, ou seja, primeiro exaure-se o patrimônio da pessoa jurídica para
depois, e desde que o tipo societário adotado permita, os bens particulares dos sócios ou
componentes da pessoa jurídica serem executados”[2].
Partindo dessa premissa deve o intérprete guiar a bússola do instituto da desconsideração.
3. Relembrando a Teoria da Desconsideração (Disregard Doctrine)
Segundo a doutrina clássica, o precedente jurisprudencial que permitiu o desenvolvimento da
teoria ocorreu na Inglaterra, em 1897.
Trata-se do famoso caso Salomon v. Salomon & Co[3].
Aaron Salomon, objetivando constituir uma sociedade, reuniu seis membros da sua própria
família, cedendo para cada um apenas uma ação representativa, ao passo que, para si, reservou vinte
mil.
Pela desproporção na distribuição do controle acionário já se verificava a dificuldade em
reconhecer a separação dos patrimônios de Salomon e de sua própria companhia.
Em determinado momento, talvez antevendo a quebra da empresa, Salomon cuidou de emitir
títulos privilegiados (obrigações garantidas) no valor de dez mil líbras esterlinas, que ele mesmo cuidou
de adquirir.
Ora, revelando-se insolvável a sociedade, o próprio Salomon, que passou a ser credor privilegiado
da sociedade, preferiu a todos os demais credores quirografários (sem garantia), liquidando o
patrimônio líquido da empresa.
Apesar de Salomon haver utilizado a companhia como escudo para lesar os demais credores, a
Câmara dos Lordes, reformando as decisões de instâncias inferiores, acatou a sua defesa, no sentido
de que, tendo sido validamente constituída, e não se identificando a responsabilidade civil da sociedade
com a do próprio Salomon, este não poderia, pessoalmente, responder pelas dívidas sociais.
“Mas a tese das decisões reformadas das instâncias inferiores repercutiu”, assevera RUBENS
REQUIÃO, pioneiro no Brasil no estudo da matéria, “dando origem à doutrina do disregard of legal
entity, sobretudo nos Estados Unidos, onde se formou larga jurisprudência, expandindo-se mais
recentemente na Alemanha e em outros países europeus”[4].
Em linhas gerais, a doutrina da desconsideração pretende o afastamento temporário da
personalidade da pessoa jurídica, para permitir a satisfação do direito violado diretamente no patrimônio
pessoal do sócio que praticou o ato abusivo.

4. Teoria Maior e Teoria Menor da Desconsideração


Por óbvio, não é o meu objetivo, aqui, longa digressão acerca dessas teorias.
Todavia, é recomendável relembrar que, em torno da desconsideração, gravitam duas
importantes teorias:
a) a teoria maior;
b) a teoria menor.
O Código Civil, em seu art. 50, adotou a denominada teoria maior da desconsideração, por
exigir, além da insuficiência patrimonial, pressuposto lógico, a demonstração do abuso caracterizado
pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial.
Contrapõe-se, pois, à denominada teoria menor da desconsideração, de aplicação mais
facilitada, que exige, apenas, a insuficiência patrimonial, consagrada no Direito Ambiental e no Direito
do Consumidor, bem como na Justiça do Trabalho.
Em síntese, para relações jurídicas civis ou estritamente empresariais, a desconsideração,
regulada pelo art. 50 do Código Civil, tem a sua aplicação mais dificultada, tendo em vista os requisitos
exigidos por lei, dispensados na teoria menor.
5. A Desconsideração na Nova Lei n. 13.874, de 20 de setembro de 2019
O caput do art. 50 do Código Civil, que já estava alterado pela MP 881/19, não experimentou
mudanças com a nova Lei:
Art. 50. Em caso de abuso da personalidade jurídica, caracterizado pelo desvio de
finalidade ou pela confusão patrimonial, pode o juiz, a requerimento da parte, ou do
Ministério Público quando lhe couber intervir no processo, desconsiderá-la para que os
efeitos de certas e determinadas relações de obrigações sejam estendidos aos bens
particulares de administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou
indiretamente pelo abuso.
Elogiável, no final do texto legal, a expressão “beneficiados direta ou indiretamente pelo
abuso”, porquanto a desconsideração é instrumento de imputação de responsabilidade, não podendo,
por certo, sob pena de se ignorar a exigência do próprio nexo causal, atingir sócio que não
experimentou nenhum benefício (direito ou indireto) em decorrência do ato abusivo perpetrado por
outrem.
Passo, então, à análise dos seus parágrafos.
O § 1º do art. 50 do Código Civil experimentou uma pequena, posto significativa, mudança, em
virtude da conversão da Medida Provisória no novo diploma legal.
Para a sua melhor compreensão, colocarei, lado a lado, ambos os dispositivos:
MP 881/19, art. 50, § 1º, CC. Para fins do disposto neste artigo, desvio de finalidade é a
utilização dolosa da pessoa jurídica com o propósito de lesar credores e para a prática
de atos ilícitos de qualquer natureza. (grifei)
Lei n. 13.874/19, art. 50, § 1º, CC. Para os fins do disposto neste artigo, desvio de
finalidade é a utilização da pessoa jurídica com o propósito de lesar credores e para a
prática de atos ilícitos de qualquer natureza.
Este parágrafo, como se pode notar, conceitua o desvio de finalidade.
A versão atual, consagrada pela Lei n. 13.874/19, com razoabilidade, retirou a exigência do
dolo para a caracterização do desvio.
A desnecessidade de se comprovar o dolo específico - a intenção, o propósito, o desiderato -
daquele que, por meio da pessoa jurídica, perpetrou o ato abusivo, moldou a teoria objetiva, mais
afinada à nossa realidade socioeconômica e sensível à condição a priori mais vulnerável daquele que,
tendo o seu direito violado, invoca o instituto da desconsideração.
O Professor FÁBIO KONDER COMPARATO afirmava que a “desconsideração da
personalidade jurídica é operada como consequência de um desvio de função, ou disfunção, resultando,
sem dúvida, as mais das vezes, de abuso ou fraude, mas que nem sempre constitui um ato ilícito”[5].
Ora, a exigência do elemento subjetivo intencional (dolo) para caracterizar o desvio, como
constava na redação anterior, colocaria por terra o reconhecimento objetivo da tese da disfunção.
Com efeito, andou bem o legislador, nesta supressão!
Os demais parágrafos, outrossim, não sofreram mudanças:
§ 2º Entende-se por confusão patrimonial a ausência de separação de fato entre os
patrimônios, caracterizada por:
I - cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do administrador ou
vice-versa;
II - transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto os de
valor proporcionalmente insignificante; e
III - outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial.
O inciso III, deste § 2º, ao mencionar, genericamente, que caracterizam a confusão
patrimonial “outros atos de descumprimento da autonomia patrimonial”, resultou por
tornar meramente exemplificativos os incisos anteriores.
Podem traduzir confusão patrimonial, por exemplo, a movimentação bancária em conta
individual do sócio para as operações habituais da sociedade, o lançamento direto como
despesa da pessoa jurídica de gastos pessoais do sócio ou administrador etc.
§ 3º O disposto no caput e nos §§ 1o e 2o deste artigo também se aplica à extensão das
obrigações de sócios ou de administradores à pessoa jurídica.
Em minha visão, acolheu-se, aqui, a desconsideração inversa ou invertida, o que significa ir ao
patrimônio da pessoa jurídica, quando a pessoa física que a compõe esvazia fraudulentamente o seu
patrimônio pessoal.
Trata-se de uma visão desenvolvida notadamente nas relações de família, de forma original,
em que se visualiza, com frequência, a lamentável prática de algum dos cônjuges ou companheiros
que, antecipando-se ao divórcio ou à dissolução da união estável, retira do patrimônio do casal bens
que deveriam ser objeto de partilha, incorporando-os na pessoa jurídica da qual é sócio, diminuindo,
com isso, o quinhão do outro consorte.
Nesta hipótese, pode-se vislumbrar a possibilidade de o magistrado desconsiderar a autonomia
patrimonial da pessoa jurídica, buscando bens que estão em seu próprio nome, para responder por
dívidas que não são suas e sim de seus sócios, o que tem sido aceito pela força criativa da
jurisprudência:
CIVIL E PROCESSUAL CIVIL. RECURSO ESPECIAL. AÇÃO MONITÓRIA. CONVERSÃO.
CUMPRIMENTO DE SENTENÇA. COBRANÇA. HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS
CONTRATUAIS. TERCEIROS. COMPROVAÇÃO DA EXISTÊNCIA DA SOCIEDADE. MEIO DE
PROVA. DESCONSIDERAÇÃO INVERSA DA PERSONALIDADE JURÍDICA. OCULTAÇÃO DO
PATRIMÔNIO DO SÓCIO. INDÍCIOS DO ABUSO DA PERSONALIDADE JURÍDICA.
EXISTÊNCIA. INCIDENTE PROCESSUAL. PROCESSAMENTO. PROVIMENTO. 1. O propósito
recursal é determinar se: a) há provas suficientes da sociedade de fato supostamente existente
entre os recorridos; e b) existem elementos aptos a ensejar a instauração de incidente de
desconsideração inversa da personalidade jurídica. 2. A existência da sociedade pode ser
demonstrada por terceiros por qualquer meio de prova, inclusive indícios e presunções, nos termos
do art. 987 do CC/02. 3. A personalidade jurídica e a separação patrimonial dela decorrente são
véus que devem proteger o patrimônio dos sócios ou da sociedade, reciprocamente, na justa
medida da finalidade para a qual a sociedade se propõe a existir. 4. Com a desconsideração
inversa da personalidade jurídica, busca-se impedir a prática de transferência de bens pelo sócio
para a pessoa jurídica sobre a qual detém controle, afastando-se momentaneamente o manto
fictício que separa o sócio da sociedade para buscar o patrimônio que, embora conste no nome da
sociedade, na realidade, pertence ao sócio fraudador. 5. No atual CPC, o exame do juiz a respeito
da presença dos pressupostos que autorizariam a medida de desconsideração, demonstrados no
requerimento inicial, permite a instauração de incidente e a suspensão do processo em que
formulado, devendo a decisão de desconsideração ser precedida do efetivo contraditório. 6. Na
hipótese em exame, a recorrente conseguiu demonstrar indícios de que o recorrido seria sócio e
de que teria transferido seu patrimônio para a sociedade de modo a ocultar seus bens do alcance
de seus credores, o que possibilita o recebimento do incidente de desconsideração inversa da
personalidade jurídica, que, pelo princípio do tempus regit actum, deve seguir o rito estabelecido
no CPC/15. 7. Recurso especial conhecido e provido.
(STJ, REsp 1647362/SP, Rel. Ministra NANCY ANDRIGHI, TERCEIRA TURMA, julgado em
03/08/2017, DJe 10/08/2017)
O Código de Processo Civil de 2015 expressamente contemplou a possibilidade jurídica desta
modalidade de desconsideração, conforme se verifica do § 2.º do seu art. 133.
§ 4º A mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos de que trata
o caput deste artigo não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa
jurídica.
Nada demais é dito aqui.
Nenhuma desconsideração poderá ser decretada, se os requisitos legais não forem
obedecidos.
Um detalhe, todavia, deve ser salientado.
Se, por um lado, a mera existência de grupo econômico sem a presença dos requisitos legais
não autoriza a desconsideração da personalidade da pessoa jurídica, por outro, nada impede que, uma
vez observados tais pressupostos, o juiz decida, dentro de um mesmo grupo, pelo afastamento de um
ente controlado, para alcançar o patrimônio da pessoa jurídica controladora que, por meio da primeira,
cometeu um ato abusivo.
Trata-se da denominada desconsideração indireta, segundo MARCIO SOUZA:
“A desconsideração da personalidade jurídica para alcançar quem está por trás dela não
se afigura suficiente, pois haverá outra ou outras integrantes das constelações
societárias que também têm por objetivo encobrir algum fraudador.(…)”[6]
§ 5º Não constitui desvio de finalidade a mera expansão ou a alteração da finalidade
original da atividade econômica específica da pessoa jurídica.”(NR)
Lamentavelmente, aqui, o legislador perdeu a oportunidade de aperfeiçoar o texto normativo.
Ao dispor que não constitui desvio de finalidade a “alteração da finalidade original da atividade
econômica específica da pessoa jurídica”, o legislador dificultou sobremaneira o seu reconhecimento:
aquele que “expande” a finalidade da atividade exercida - como pretende a primeira parte da norma -
pode não desviar, mas aquele que “altera” a própria finalidade original da atividade econômica da
pessoa jurídica, muito provavelmente, desvia-se do seu propósito.
6. Algumas Palavras Sobre a Vigência da Lei n. 13.874, de 20 de setembro de 2019
A vigência de um diploma normativo é tema que sempre desperta o interesse da doutrina,
rendendo ensejo a polêmicas.
Até mesmo a entrada em vigor do próprio Código Civil - ocorrida, segundo firme entendimento
predominante, em 11 de janeiro de 2003 - rendeu debates[7].
Conforme consta no seu art. 20, a Lei n. 13.874/19 entrou em vigor:
I - (VETADO);
II - na data de sua publicação, para os demais artigos.
Ora, se, de acordo com o inc. II, a vigência seria imediata “para os demais artigos”, os artigos
contemplados no inciso vetado (arts. 6º ao 19), por consequência lógica, somente começariam a vigorar
após a vacatio de 45 dias, conforme preceitua a regra geral constante no art. 1º da Lei de Introdução às
Normas do Direito Brasileiro - LINDB.
Este panorama, todavia, é, no mínimo, esquisito, sobretudo se passarmos em revista as razões
do veto ao inc. I:
“A propositura legislativa, ao estabelecer o prazo de noventa dias para a entrada em
vigor dos arts. 6º ao 19 do projeto de lei, contraria o interesse público por prorrogar em
demasia a vigência de normas que já estão surtindo efeitos práticos na modernização do
registro público de empresas, simplificação dos procedimentos e adoção de soluções
tecnológicas para a redução da complexidade, fragmentação e duplicidade de
informações, entre outros. Nestes termos, deve prevalecer a norma do inciso II do art.
20, que estabelece a vigência imediata do projeto de lei, na data de sua publicação”[8].
Com efeito, a afirmação, na parte final das razões, no sentido da prevalência da “vigência
imediata do projeto de lei”, conduz-me à ideia de que esta foi a intenção do Governo Federal.
E talvez esta linha de entendimento, por ser mais prática, prevaleça, a despeito de a redação
do texto legal (art. 20), poder conduzir o intérprete, como visto acima, a conclusão diversa.

[1] STOLZE, Pablo. A Medida Provisória da Liberdade Econômica e a desconsideração da personalidade jurídica
(art. 50, CC). Primeiras impressões. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 24, n. 5782, 1 maio
2019. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/73648. Acesso em: 20 set. 2019.
[2] TARTUCE, Flávio. Manual de Direito Civil. 7ª Ed. São Paulo: Gen, 2017, pág. 179.
[3] Cf. Novo Curso de Direito Civil - Parte Geral - Vol. I, Pablo Stolze Gagliano e Rodolfo Pamplona Filho, 21ª ed.
São Paulo: 2019, págs. 312 a 314.
[4] REQUIÃO, Rubens. Curso de Direito Comercial, vol. I, 23ª ed. São Paulo: Saraiva, 1998, pág. 350.
[5] COMPARATO, Fábio Konder. O Poder de Controle na Sociedade Anônima. 3ª ed. Rio de Janeiro: Forense,
1983, págs. 284-286.
[6] GUIMARÃES, Márcio Souza. Aspectos modernos da teoria da desconsideração da personalidade jurídica.
Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862, Teresina, ano 8, n. 64, 1 abr. 2003. Disponível em:
https://jus.com.br/artigos/3996. Acesso em: 22 set. 2019.
[7] ARAS, Vladimir. A polêmica data de vigência do novo Código Civil. Revista Jus Navigandi, ISSN 1518-4862,
Teresina, ano 7, n. 60, 1 nov. 2002. Disponível em: https://jus.com.br/artigos/3517. Acesso em: 22 set. 2019.
[8] http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2019-2022/2019/Msg/VEP/VEP-438.htm , acessado em 22 de
setembro de 2019.
O QUE MUDA COM A LEI DA LIBERDADE ECONÔMICA?
LEI Nº 13.874/2019
Lorival Aureliano e Rosangela Gomes - 04.10.2019
A antiga MP nº 881/19, denominada como medida provisória da Liberdade Econômica foi aprovada e
sancionada em 20/09/2019, tornando-se definitivamente uma Lei nacional (Lei nº 13.874/19). A nova Lei
não tem só o intuito de trazer medidas para desburocratização e simplificação de processos para as
empresas e empreendedores, mas também flexibilizar algumas regras trabalhistas, sendo apelidada
também de “minirreforma trabalhista”. 
Abaixo relacionamos algumas das principais mudanças trazidas pela Lei: 

Trabalho aos finais de semana e feriados


A lei permite o exercício das atividades econômicas em qualquer dia e horário, inclusive em feriados,
não estando sujeitos a cobranças ou encargos adicionais, desde que não atinja o meio ambiente, a
regulação condominial e a legislação trabalhista. 
Carteira de trabalho eletrônica
A Lei adotou uma nova forma para a emissão da CTPS, a qual será emitida por meio eletrônico,
estando vinculada ao número do CPF da pessoa. As Carteiras físicas serão emitidas somente em casos
excepcionais. 
Registro de Ponto
A partir de agora, somente as empresas que tenham mais de 20 funcionários é que obrigatoriamente
precisam manter o registro de ponto. Do mesmo modo, passa a ser permitida a utilização do ponto por
exceção, neste caso serão registrados apenas os horários que não coincidem com aqueles regulares
adotados no contrato de trabalho. Desde que seja feito mediante acordo individual escrito, convenção
coletiva ou acordo coletivo de trabalho. 
Alvará de Funcionamento
A Lei dispensa o alvará e licenças de funcionamento para as Pessoas Jurídicas que exercem atividade
de baixo risco. A autodeclaração de enquadramento será documento suficiente para a apresentação. 
e-Social
O Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas (e-Social) será
substituído por um sistema simplificado de escrituração digital de obrigações previdenciárias, trabalhista
e fiscais. 
Abuso regulatório
A lei prevê a figura do abuso regulatório, o qual tem a função de impedir que o Poder Público edite
regras que afetem a exploração da atividade econômica. 
Sociedade Limitada Unipessoal
A nova Lei regulamentou a possibilidade da constituição de uma sociedade com apenas um sócio cuja
responsabilidade será limitada e não haverá exigência mínima de capital a ser integralizado. 
Desconsideração da Personalidade Jurídica
A lei altera as regras para a desconsideração da personalidade jurídica, definindo o conceito de desvio
de finalidade e confusão patrimonial, bem como ressaltando que a mera existência de grupo econômico
não ensejará na aplicação automática do instituto. 
Documentos Digitais
Uma inovação há muito esperada, a qual facilitará a rotina das empresas e das pessoas, principalmente
com relação aos órgãos públicos, uma vez que o documento digital e a sua reprodução, em qualquer
meio, terão o mesmo valor probatório do documento original, para todos os fins de direito, inclusive para
atender ao poder fiscalizatório do Estado. A esperança aqui é o fim das cópias reprográficas e das
autenticações de documentos em cartórios.
A certificação digital ganha a partir desta norma legal um importante papel no trato documental, vez que
a reprodução de documento digital conterá mecanismos de verificação quanto a integridade e a
autenticidade, cabendo ao particular o ônus de demonstrar integralmente a presença de tais requisitos
através da certificação digital no padrão da Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira (ICP-Brasil).
Registros de Constituição e encerramento de PJ
A Lei prevê o deferimento automático nos processos de constituição e encerramento de empresas,
salvo quando houver alguma pendência que impossibilite o processo.
O que se espera desta nova regulamentação é que a Lei efetive as mudanças que estão propostas,
haja vista tratar-se de alterações consideráveis, as quais tem como intuito desburocratizar o setor
empresarial do país, provocar um significativo crescimento econômico, bem como gerar novos postos
de trabalho. 
O “super” Conselho federal
Embora já exista uma lista exemplificativa de temas com jurisprudência consolidada do STF e/ou de
Tribunal superior, inclusive as decorrentes de julgamentos de casos repetitivos, em sentido desfavorável
à Fazenda Nacional, a Lei nº 10.522, de 19 de julho de 2002 foi alterada com significativas e
importantes alterações, a exemplo: 
a)      A edição de normas e súmulas pelo comitê composto de integrantes do Conselho Administrativo
de Recursos Fiscais, da Secretaria Especial da Receita Federal do Brasil do Ministério da Economia e
da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, deverão ser observados nos atos administrativos,
normativos e decisórios praticados pelos referidos órgãos.
b)     A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional fica dispensada de contestar, de oferecer
contrarrazões e de interpor recursos, estando autorizada a desistir de recursos já interpostos, desde
que inexista outro fundamento relevante, na hipótese em que a ação ou a decisão judicial ou
administrativa versar sobre diversos temas e súmulas. 
Os atos de registro empresarial
Um importante passo foi dado na desburocratização empresarial, tendo em vista que o cadastro
nacional DREI será mantido com as informações originárias do cadastro estadual de empresas, vedado
a exigência de preenchimento de formulário pelo empresário ou o fornecimento de novos dados ou
informações, bem como a cobrança de preço pela inclusão das informações no cadastro nacional. Os
atos decisórios serão publicados no site da junta comercial do respectivo ente federativo.
Uma notícia importante é que os atos, os documentos e as declarações que contenham informações
meramente cadastrais serão levados automaticamente a registro se puderem ser obtidos de outras
bases de dados disponíveis em órgãos públicos. Ato contínuo, o registro dos atos constitutivos e de
suas alterações e extinções ocorrerão independentemente de autorização governamental prévia. 
Das autenticações de documentos
A cópia de documento autenticada na forma prevista em lei dispensará nova conferência com o
documento original, a autenticação do documento poderá ser realizada por meio de comparação entre o
documento original e a sua cópia pelo servidor a quem o documento seja apresentado.
A inovação está na dispensa da autenticação quando o advogado ou o contador da parte interessada
declarar, sob sua responsabilidade pessoal, a autenticidade da cópia do documento. 
A nova Lei da Liberdade Econômica traz muitos aspectos inovadores e tecnológicos, os quais englobam
diversas áreas jurídicas, cujo intuito é a efetiva desburocratização tendo como finalidade o crescimento
econômico ao longo prazo. 
O AURELIANO SANTOS cumprindo seu papel de difundir as informações, coloca-se à disposição dos
amigos e clientes para prestar maiores esclarecimentos.
Autores: Lorival Aureliano e Rosangela Gomes – sócios do Aureliano Santos Advogados. 

Migalhas
No último dia 20/09/19 foi sancionada e convertida em lei ( lei 13.874/19) a chamada medida
provisória da liberdade econômica, a qual trouxe significativas mudanças na Consolidação das Leis
Trabalhistas.
A primeira mudança diz respeito à criação da CTPS DIGITAL, a ser emitida pela Secretaria de
Trabalho do Ministério da Economia, contendo o número do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF)
como identificação única do empregado, dispensando que o empregado emita recibo de entrega da
CTPS.
Além disso, de acordo com o § 7º do art. 29 da  CLT (incluído pela nova lei), os registros eletrônicos
gerados pelo empregador nos sistemas informatizados da CTPS em meio digital equivalem às
anotações a que se referem a CLT. No caput deste mesmo artigo, mudou-se o prazo para realização
das mencionadas anotações, prevendo-se o prazo de 5 (cinco) dias, que antes eram de 48 (quarenta
e oito) horas.
Ademais, houve mudança legal no que tange ao controle de horário do trabalhador, pois a nova
redação dada ao § 2º do art. 74 da CLT estipula a obrigatoriedade dos estabelecimentos com mais
de 20 (vinte) empregados - e não mais 10 (dez) - a promoverem anotação da hora de entrada e de
saída, em registro manual, mecânico ou eletrônico, conforme instruções expedidas pela Secretaria
Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia, sendo permitida a pré-assinalação do
período de repouso.
Outra mudança é relativa ao controle de ponto por exceção, caracterizado pelo meio do qual o
empregador efetua o controle apenas da jornada extraordinária. Portanto, a partir da vigência da
nova lei, permite-se que sejam anotadas apenas as horas extras, ressaltando-se a necessidade de
autorização para tal prática, mediante acordo individual escrito, convenção coletiva ou acordo
coletivo de trabalho. 
Tais alterações, segundo o governo - que propôs a medida provisória -, visam o desenvolvimento e o
crescimento econômicos do País, sobretudo a partir de modernização e simplificação de
procedimentos anteriormente estipulados em lei e utilização de tecnologia para diminuir a
complexidade, dualidade e desarmonia de informações. 
Por fim, é importante ressaltar que a mencionada lei entrará em vigor a partir da data de sua
publicação, tendo como justificativa de que a necessidade da vigência imediata se dá pelo interesse
público.

Lei da liberdade econômica promove importantes alterações para a área trabalhista


A lei sancionada promove alterações na área trabalhista quanto a emissão e anotação da CTPS,
o controle da jornada de trabalho e a substituição do eSocial
Foi publicada no DOU de 20 de setembro de 2019 a Lei nº 13.874 que institui a Declaração de Direitos
de Liberdade Econômica e estabelece “[…] normas de proteção à livre iniciativa e ao livre exercício de
atividade econômica e disposições sobre a atuação do Estado como agente normativo e regulador […]”.
Carteira de Trabalho Digital
Na área trabalhista o referido dispositivo altera a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) quanto à
emissão das Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) que passará a ser “preferencialmente”
em formato digital conforme alteração do artigo 14 da CLT:
“Art. 14. A CTPS será emitida pelo Ministério da Economia preferencialmente em meio
eletrônico.
Parágrafo único. Excepcionalmente, a CTPS poderá ser emitida em meio físico, desde
que:
I – nas unidades descentralizadas do Ministério da Economia que forem habilitadas para
a emissão;
II – mediante convênio, por órgãos federais, estaduais e municipais da administração
direta ou indireta;
III – mediante convênio com serviços notariais e de registro, sem custos para a
administração, garantidas as condições de segurança das informações.” (NR)
Os procedimentos para emissão da Carteira de Trabalho foram regulamentados pelo Ministério da
Economia por meio da Portaria nº 1.065 no dia 23 de setembro de 2019. Conforme o parágrafo único do
artigo 3º da Portaria “A Carteira de Trabalho Digital terá como identificação única o número de inscrição
do trabalhador no CPF.”
Ainda sobre a Carteira de Trabalho Digital, foi publicada uma notícia no dia 24 de setembro de 2019 no
Portal do eSocial que trata da importância do envio dos dados dos trabalhadores ao sistema eSocial
para alimentar a nova CTPS:
"Os empregadores obrigados ao eSocial que não prestaram as informações referentes às admissões e
cadastramentos dos trabalhadores, bem como aos eventos não periódicos, devem fazê-lo logo, uma
vez que o prazo já se esgotou. Os dados dos trabalhadores alimentarão a nova CTPS Digital, prevista
na mesma lei.
Anotação da CTPS
Outra importante alteração está no prazo que o empregador terá para fazer as anotações na CTPS
relativas à admissão do trabalhador. Esse prazo passa a ser de 5 (cinco) dias úteis conforme a nova
redação do artigo 29 da CLT:
“Art. 29. O empregador terá o prazo de 5 (cinco) dias úteis para anotar na CTPS, em relação aos
trabalhadores que admitir, a data de admissão, a remuneração e as condições especiais, se houver,
facultada a adoção de sistema manual, mecânico ou eletrônico, conforme instruções a serem expedidas
pelo Ministério da Economia.
É importante ressaltar que a lei também estabeleceu que o trabalhador deverá ter acesso às
informações da sua CTPS no prazo de até 48 (quarenta e oito) horas a partir de sua anotação (§ 8º do
art. 29 da CLT) .
Controle da Jornada de Trabalho
O artigo 74 da CLT que previa o “Quadro de Horário” e a obrigatoriedade da anotação da hora de
entrada e de saída para estabelecimentos com mais de dez trabalhadores também foi alterado. O
controle da jornada (anotação da hora de entrada e de saída) passa a ser somente para os
estabelecimentos com mais de 20 (vinte) trabalhadores:
Art. 74. O horário de trabalho será anotado em registro de empregados.
§ 1º (Revogado).
§ 2º Para os estabelecimentos com mais de 20 (vinte) trabalhadores será obrigatória a
anotação da hora de entrada e de saída, em registro manual, mecânico ou eletrônico,
conforme instruções expedidas pela Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do
Ministério da Economia, permitida a pré-assinalação do período de repouso.
§ 3º Se o trabalho for executado fora do estabelecimento, o horário dos empregados
constará do registro manual, mecânico ou eletrônico em seu poder, sem prejuízo do que
dispõe o caput deste artigo.
Registro de Ponto por Exceção
A lei sancionada também prevê uma nova modalidade de controle de jornada de trabalho denominada
de “Registro de Ponto por Exceção”. Essa nova modalidade de registro poderá ser estabelecida por
meio de acordo individual escrito ou pelo instrumento normativo da categoria:
§ 4º Fica permitida a utilização de registro de ponto por exceção à jornada regular de
trabalho, mediante acordo individual escrito, convenção coletiva ou acordo coletivo de
trabalho. (NR)
Substituição do eSocial
A substituição do atual Sistema de Escrituração Digital (eSocial) por um sistema simplificado, que já
havia sido noticiado no dia 08 de agosto de 2019 por meio da Nota Conjunta SEPRT/RFB/SED nº
1/2019, teve a confirmação por meio do artigo 16 da lei da Liberdade Econômica:
Art. 16.O Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e
Trabalhistas (eSocial) será substituído, em nível federal, por sistema simplificado de
escrituração digital de obrigações previdenciárias, trabalhistas e fiscais.
Em conformidade com o disposto na referida lei e a notícia publicada no Portal do eSocial, os
empregadores deverão continuar prestando as informações ao eSocial até que ocorra a sua
substituição:
Até que seja publicado o novo leiaute simplificado em substituição ao leiaute atual do
eSocial, conforme estabelecido pela Lei nº 13.874/19, os empregadores deverão seguir
prestando as informações ao sistema, de acordo com o calendário de obrigatoriedade
dos grupos.
O artigo 5º da Portaria MF nº 1.065/2019 regulamenta como os empregadores obrigados ao envio das
informações ao eSocial deverão proceder em relação ao registro dos trabalhadores com a CTPS Digital:
Art. 5º Para os empregadores que têm a obrigação de uso do Sistema de Escrituração
Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas – eSocial:
I – a comunicação pelo trabalhador do número de inscrição no CPF ao empregador
equivale à apresentação da CTPS em meio digital, dispensado o empregador da
emissão de recibo;
II – os registros eletrônicos gerados pelo empregador nos sistemas informatizados da
Carteira de Trabalho em meio digital equivalem às anotações a que se refere o Decreto-
Lei nº 5.452/1943.
Para conhecer na íntegra o texto da Lei da Liberdade Econômica e as orientações sobre a CTPS Digital
acesse a Lei nº 13.874, de 20 de setembro de 2019 e a Portaria MF nº 1.065/2019.
Fagner Costa Aguiar
Blog Práticas de Pessoal

Lei da Liberdade Econômica exigirá mudança cultural do brasileiro


Após o trâmite no Senado da MP 881, dia 20 de setembro o presidente da República sancionou a Lei
n.º 13.874/19 que institui a Declaração de Direitos de Liberdade Econômica no Brasil, cujo artigo 1.º
define de forma clara sua finalidade: normatizar a livre iniciativa e o livre exercício de atividade
econômica. Para isso, traz novas regras que tendem a flexibilizar a gestão de empresas, inclusive nas
relações entre empregado e empregador. As alterações legislativas são sensíveis e promoverão uma
mudança cultural de grandes proporções no ambiente econômico e social brasileiro.
LEIA TAMBÉM >Impactos trabalhistas da MP da Liberdade Econômica
Ao diminuir a burocracia e aliviar as amarras instituídas pelo próprio Estado (que com a medida perde
muito de seu papel de interventor nas relações de caráter privado), a nova lei concede maior liberdade
na pactuação de contratos particulares. Ou seja, o Estado dá um passo atrás e abre espaço para
a responsabilidade individual das partes dentro de um acordo. Os impactos serão grandes e em todas
as direções.
De acordo com a nova lei da liberdade econômica, o contrato passa a contar com uma presunção de
justo equilíbrio das obrigações das partes e, neste sentido, para ser anulado, será preciso comprovar
um eventual desequilíbrio. Essa concepção jurídica impõe sobre os contratantes a valorização da
responsabilidade individual. E isso exigirá do brasileiro uma mudança de hábito (no caso, um mal
hábito): o de não ler os contratos ou cláusulas contratuais com a devida atenção.
Pois os contratos privados ganharão maior força. Por um lado, isso tende a aumentar a segurança
jurídica entre as partes, sem interferir na função social das relações jurídicas (o Código de Defesa do
Consumidor, por exemplo, continua em vigor). Por outro, com a nova lei, as revisões contratuais
deverão ocorrer de forma limitada, prevalecendo a presunção de paridade e simetria das obrigações
contratadas. A entrada do Estado no cerne das obrigações de caráter  privado tenderá a ser
excepcional e não ordinária, como hoje.
Outra mudança é a nova dimensão da sociedade unipessoal, que não encontra mais as limitações de
capital social previstas para as EIRELIs, ampliando o leque de opções para os empreendedores agirem
de forma individualizada. E entre os artigos do Código Civil alterados, para dar maior transparência e
dinamismo às relações obrigacionais, está a distinção expressa da pessoa do sócio em relação à
sociedade empresária, dando maior sentido à Desconsideração da Personalidade Jurídica, que foi
melhor trabalhada pelo legislador, cuja redação mais clara delimita melhor o seu alcance através do
esclarecimento do que poderia ser considerado  abuso, confusão patrimonial e desvio de finalidade.
A desobrigação de registro de ponto em empresas com mais de 20 empregados, pré-assinalação do
intervalo de descanso e a criação da CTPS digital são outras entre as mudanças que agora farão parte
do cotidiano das empresas e dos trabalhadores. O sistema e-social, criado pelo governo federal para
desburocratizar e concentrar as informações dos empregadores em relação aos seus empregados, será
em breve substituído por um mais simples.
E é bom lembrar que mesmo com a retirada do texto original da MP 881 da polêmica previsão para o
trabalho aos domingos, essa questão foi objeto da portaria nº 604/19, de 19 de junho, na qual o governo
mantém tal possibilidade para mais de 70 categorias profissionais, garantindo a estas maior segurança
para abertura de expedientes nestes dias.
A nova lei não é uma invenção do governo atual. Na verdade, era uma previsão que aguardava
regulamentação desde a promulgação da Constituição Federal de 1988. Ela estabelece que a ordem
econômica deve assegurar a todos existência digna, com a valorização do trabalho humano e da livre
iniciativa, com a garantia do livre exercício de qualquer atividade, independentemente de autorização de
órgãos públicos. Preservam-se ao Estado as funções de fiscalização, incentivo e planejamento, na
qualidade de agente normativo e regulador da atividade econômica.
*Cristiano Rennó Sommer, advogado de empresas, sócio do escritório Abdalla e Landulfo
Sociedade de Advogados; Felipe Cunha Pinto Rabelo, advogado especialista em Direito do
Trabalho, sócio do escritório Abdalla e Landulfo Sociedade de Advogados

A MP da liberdade econômica: o que mudou no Código Civil?


A medida provisória da liberdade econômica (MP 881, de 30/4/2019), promoveu importantes
alterações em diversas áreas do Direito Privado, Direito Econômico e do Direito Administrativo com a
finalidade de articular:
(i) uma redefinição da atuação do Estado, como agente normativo e regulador da atividade
econômica (lato sensu);
(ii) a diminuição do caráter intervencionista de algumas regras e princípios de Direito Civil;
(iii) inovações destinadas a dar fluidez ao trânsito de riquezas.

No Código Civil, as alterações mais importantes, em síntese, foram as seguintes:


 artigo 50: alteração da disciplina de desconsideração da personalidade jurídica, mediante a
especificação de requisitos mais restritivos para a excepcional medida;
 artigo 421: modificação da cláusula geral da função social do contrato segundo a “declaração
de direitos da liberdade econômica”;
 artigo 423: redução da interpretação favorável ao aderente apenas às situações em que houver
dúvida sobre a cláusula contratual e inserção da regra geral de que a interpretação
beneficia a parte que não redigiu a cláusula controvertida;
 artigo 480-A: inserção de regra que faculta, nas relações interempresariais, o estabelecimento
de parâmetros objetivos para a interpretação de requisitos de revisão ou de
resolução do contrato;
 artigo 480-B: estabelece a presunção de simetria dos contratantes e o respeito à alocação dos
riscos definidos;
 parágrafo 7º ao artigo 980-A: esclarece que apenas os ativos patrimoniais da Eireli são
atingidos pelas dívidas decorrentes da atividade empresarial individual, com
separação do patrimônio pessoal do titular, ressalvados os casos de fraude;
 parágrafo único ao artigo 1052: cria a sociedade limitada unipessoal;
 artigos 1.368-C, 1.368-D e 1.368-E: definem a natureza jurídica e a disciplina geral dos fundos
de investimento.

Por desconsideração da personalidade jurídica compreende-se o ato, de natureza judicial ou


administrativa, que restringe a separação patrimonial permitindo que o efeito de certas e determinadas
obrigações, originalmente imputadas à pessoa jurídica, possam alcançar os seus sócios ou associados
(modalidade direta) ou, inversamente, que o efeito de certas e determinadas obrigações imputadas aos
sócios ou associados possam atingir a pessoa jurídica que integram (modalidade inversa).
Com a nova redação do Código Civil, a extensão da responsabilidade patrimonial pela
desconsideração da personalidade jurídica somente poderia atingir “os bens particulares de
administradores ou de sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente pelo abuso”.

A desconsideração da personalidade jurídica continua a ser uma medida excepcional, dependente


do “abuso da personalidade jurídica”, verificável em casos de desvio de finalidade ou confusão
patrimonial.

A interpretação do que vem a ser cada um desses requisitos, no entanto, foi restringida a uma
interpretação pré-determinada pelo legislador.

O desvio de finalidade passa a ser “a utilização dolosa da pessoa jurídica com o propósito de lesar
credores e para a prática de atos ilícitos de qualquer natureza” (parágrafo 1º do parágrafo 50, Código
Civil).
São exemplos dessa variegada conformação da disregard doctrine no Brasil o artigo 50 do
Código Civil e o artigo 28 da Lei 8.078/1990. Quanto às formas de dilatação da responsabilidade
pessoal, vejam-se o artigo 4º da Lei 9.605/98, o artigo 18, parágrafo 3º da Lei 9.847/99, o artigo 23 do
Decreto 2.953/99, o artigo 34 da Lei 12.529/11, o artigo 14 da Lei 12.846/13 e, muitas vezes, a medida
é alicerçada no artigo 2º da CLT e nos artigos 124 e 125 do CTN.

Migalhas
A “lei da liberdade econômica” (lei 13.874/19) e os seus principais impactos para o
Direito Civil.
Seguimos o estudo e a análise da lei 13.874/19, conhecida como “lei da liberdade econômica” -
fruto da medida provisória 881, de 30 de abril de 2019 -, sancionada no dia 20 de setembro de 2019.
Neste segundo texto serão abordadas as principais mudanças realizadas na codificação privada em
vigor a respeito dos contratos, especialmente as alterações dos arts. 113 e 421, bem como a inclusão
do novo art. 421-A no Código Civil de 2002. Antes deste estudo pontual, começaremos com reflexões
sobre o âmbito de incidência da nova lei para os negócios jurídicos patrimoniais.
1. Abrangência da lei quanto aos contratos
Sobre a abrangência da nova lei, não se pode negar que o seu principal âmbito de aplicação diz
respeito aos contratos paritários ou negociados. Essa categoria jurídica surge quando do estudo da
classificação dos contratos quanto à negociação do conteúdo pelas partes.
Nesse contexto, os contratos de adesão são aqueles em que uma parte, o estipulante, impõe o
conteúdo negocial, restando à outra parte, o aderente, duas opções: aceitar ou não o conteúdo desse
negócio (take it or leave it). Tenho defendido uma visualização ampla do conceito, de modo a englobar
todas as figuras negociais em que as cláusulas são preestabelecidas ou predispostas de forma
majoritária, caso do contrato-tipo e do contrato formulário, em que as cláusulas são predeterminadas
até por um terceiro. Além disso, não me filio à antiga diferenciação entre contratos de adesão e por
adesão - sustentada, no passado, por Orlando Gomes -, no sentido da necessidade de haver nos
primeiros o monopólio de uma determinada atividade.
Essa diferenciação restou há tempos superada por duas razões principais. A primeira delas diz
respeito ao fato de os monopólios serem cada vez mais raros. A segunda razão de superação é relativa
à definição de contrato de adesão que consta do art. 54 do Código de Defesa do Consumidor, no
sentido de ser “aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou
estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor de produtos ou serviços, sem que o consumidor possa
discutir ou modificar substancialmente seu conteúdo”. Nota-se que em nenhum momento a norma
jurídica em destaque estabelece a presença do monopólio para que o instituto esteja presente.
De toda sorte, apesar de essa definição constar da lei consumerista, o contrato de adesão não
necessariamente é de consumo, como se retira do enunciado 171, aprovado na III Jornada de Direito
Civil, promovida pelo conselho da justiça federal em 2004. A título de exemplo podem ser citados os
contratos de franquia, geralmente firmados entre empresários e que não são contratos de consumo,
pois o fraqueado não é destinatário fático e econômico dos produtos e serviços que recebe. A propósito
dessas afirmações, vale destacar importante julgado do Superior Tribunal de Justiça que concluiu não
existir mais a diferença entre os termos contratos de adesão e por adesão; e que a franquia figura entre
esses, mas não constitui um contrato de consumo. O aresto diz respeito à invalidade de cláusula
compromissória, tida como patológica, por não ter sido destacada, nos termos do art. 4º da lei de
arbitragem. Nos seus exatos termos, “o contrato de franquia, por sua natureza, não está sujeito às
regras protetivas previstas no CDC, pois não há relação de consumo, mas de fomento econômico.
Todos os contratos de adesão, mesmo aqueles que não consubstanciam relações de consumo, como
os contratos de franquia, devem observar o disposto no art. 4º, § 2º, da lei 9.307/96. Poder Judiciário
pode, nos casos em que prima facie é identificado um compromisso arbitral ‘patológico’, i.e., claramente
ilegal, declarar a nulidade dessa cláusula, independentemente do estado em que se encontre o
procedimento arbitral” (STJ, REsp 1.602.076/SP, Rel. Ministra Nancy Andrighi, Terceira Turma, julgado
em 15/09/2016, DJe 30/09/2016).
Art. 4º A cláusula compromissória é a convenção através da qual as partes em um contrato
comprometem-se a submeter à arbitragem os litígios que possam vir a surgir, relativamente a tal
contrato.
§ 2º Nos contratos de adesão, a cláusula compromissória só terá eficácia se o aderente tomar a
iniciativa de instituir a arbitragem ou concordar, expressamente, com a sua instituição, desde que
por escrito em documento anexo ou em negrito, com a assinatura ou visto especialmente para
essa cláusula.
Ao lado dos contratos de adesão, têm-se os contratos paritários ou negociados, cujo conteúdo é
discutido entre as partes, geralmente em posição econômica de igualdade, o que constitui exceção no
meio social e não a regra, diante daquilo que Enzo Roppo denomina como “Império dos Contratos-
Modelo”. Não se pode negar, todavia, que muitos dos contratos celebrados entre grandes empresas
assumem essa última categorização, estando sujeitos à nova lei da liberdade econômica, em muitas de
suas previsões. Cite-se, a título de uma primeira ilustração, o aqui antes analisado art. 3º, inc. VIII, da lei
13.874/19, segundo o qual “são direitos de toda pessoa, natural ou jurídica, essenciais para o
desenvolvimento e o crescimento econômico do país, observado o disposto no parágrafo único do art.
170 da Constituição Federal. (...). VIII - ter a garantia de que os negócios jurídicos empresariais
paritários serão objeto de livre estipulação das partes pactuantes, de forma a aplicar todas as regras de
direito empresarial apenas de maneira subsidiária ao avençado, exceto normas de ordem pública”. O
dispositivo ressalta a importância da autonomia privada em tais negócios, mas releva a necessidade de
observância das normas de ordem pública ou cogentes, como sempre se afirmou e se entendeu, tanto
em doutrina como em jurisprudência.
Na verdade, como se verá do estudo dos tópicos a seguir, a minha posição é a de que o principal
âmbito de incidência da norma emergente diz respeito a tais contratos paritários ou negociados, sendo
esse o seu foco principal. A respeito das demandas que surgem desses negócios, não se pode negar
que muitas delas não estão no âmbito do Poder Judiciário, mas em painéis arbitrais em curso não só no
Brasil como também no exterior.
2. Inclusões no art. 113 do Código Civil a respeito da interpretação dos negócios jurídicos
em geral
O art. 113 do Código Civil traz em seu conteúdo a função de interpretação da boa-fé objetiva,
dirigida a todos os negócios jurídicos em geral. O seu âmbito de incidência, portanto, não é somente o
contrato, podendo o preceito ser aplicado ao casamento, ao testamento e a outros negócios jurídicos,
patrimoniais ou não.
Conforme o seu caput, os negócios jurídicos devem ser interpretados conforme a boa-fé e os usos
do lugar da sua celebração, valorizando-se a importância das regras de tráfego. Exatamente nesse
sentido, o enunciado 409 da V Jornada de Direito Civil preceitua que se deve incluir no sentido da
norma as práticas habitualmente adotadas entre as partes.
O comando recebeu dois parágrafos pela lei da liberdade econômica. Na originária medida
provisória 881 - pelo que constava dos pretendidos arts. 480-A e 480-B do Código Civil -, e também no
processo de sua conversão em lei, a ideia seria inserir novas regras somente para os negócios jurídicos
empresariais. Todavia, o relator do projeto de conversão, deputado Jerônimo Goergen, ouviu a
recomendação feita por alguns civilistas, caso de Maurício Bunazar, no sentido de que os novos
critérios interpretativos seriam interessantes para todo e qualquer negócio jurídico, o que é verdade, não
sendo viável que o Código Civil criasse uma separação entre negócios empresariais e civis na sua parte
geral. Muitos desses critérios, aliás, já eram aplicados na prática do Direito Privado, em julgados e
decisões arbitrais; e também retirados do art. 131 do Código Comercial, ora revogado.
Na redação do novo § 1º do art. 113 do Código Civil, a interpretação do negócio jurídico deve lhe
atribuir o sentido que: a) for confirmado pelo comportamento das partes posterior à celebração do
negócio, sendo vedado e não admitido o comportamento contraditório da parte, com ampla aplicação
prática (venire contra factum proprium non potest); b) corresponder aos usos, costumes e práticas do
mercado relativas ao tipo de negócio, o que já está previsto no caput do comando, pela valorização das
regras de tráfego; c) corresponder à boa-fé, o que igualmente se retira da norma anterior; d) for mais
benéfico à parte que não redigiu o dispositivo, se identificável; e e) corresponder a qual seria a razoável
negociação das partes sobre a questão discutida, inferida das demais disposições do negócio e da
racionalidade econômica das partes, consideradas as informações disponíveis no momento de sua
celebração. Parece-me que as previsões relativas às letras b e c ficaram sem sentido após a retirada da
aplicação restrita aos negócios empresariais.
Sobre a penúltima previsão, ressalvo que, muito mais do que a incidência principal quanto aos
contratos paritários, houve uma ampliação de tutela dos aderentes negociais e contratuais, aqueles
para quem o conteúdo do negócio jurídico é imposto. Isso porque qualquer cláusula passa a ser
interpretada contra aquele que redigiu o seu conteúdo, máxima há muito tempo reconhecida pelo Direito
(interpretatio contra proferentem). Alarga-se, portanto, o sentido do art. 423 do Código Civil, segundo o
qual a interpretação favorável ao aderente se daria apenas em havendo cláusulas ambíguas ou
contraditórias. De todo modo, também é possível aplicar essa interpretação a negócios paritários, desde
que seja possível identificar determinada cláusula ou cláusulas que foram impostas por uma das partes,
tidas isoladamente como de adesão, hipótese em que serão interpretadas contra quem as redigiu.
A respeito do último inciso do novo § 1º do art. 113 do Código Civil, valoriza-se a negociação
prévia das partes, especialmente a troca de informações e de mensagens pré-negociais entre elas.
Essas negociações devem ser confrontadas com as demais cláusulas do negócio pactuado, bem como
com a racionalidade econômica das partes. A expressão destacada é mais uma cláusula geral, a ser
preenchida pelo aplicador do Direito nos próximos anos, assim como ocorreu com a boa-fé objetiva e a
função social do contrato nos últimos quinze anos de vigência da lei geral privada. Para tanto, a título de
exemplo, devem ser considerados os comportamentos típicos das partes perante o mercado e em
outras negociações similares, os riscos alocados nos negócios e as expectativas de retorno dos
investimentos.
Como última nota sobre o diploma, foi inserido um § 2º no mesmo art. 113 do Código Civil,
prevendo que “as partes poderão livremente pactuar regras de interpretação, de preenchimento de
lacunas e de integração dos negócios jurídicos diversas daquelas previstas em lei”. Como se verá, há
norma muito próxima no novo art. 421-A, inc. I, da codificação, sendo necessário o devido controle
dessas regras de interpretação ou preenchimento de lacunas pelos julgadores em geral, para que
abusos não sejam cometidos. Adiante-se que a norma pode ser inócua em muitas situações, pois as
partes de um negócio jurídico podem sim pactuar a respeito dessas questões, mas isso não afasta a
eventual intervenção do Poder Judiciário em casos de abusos negociais ou em havendo a tão citada
lesão a norma de ordem pública. Pode-se também sustentar que não haveria a necessidade de inclusão
dessa previsão no texto legal, pois o seu conteúdo já vinha sendo admitido parcialmente pela doutrina
brasileira, pelo teor do enunciado 23 da I Jornada de Direito Comercial.
Porém, em alguns casos, especialmente em negócios paritários, pode ser muito útil para a prática
a inclusão de determinada regra de interpretação contratual que não contravenha disposição absoluta
de lei. A título de exemplo, imagine-se uma regra que determine que uma cláusula específica prevaleça
sobre uma geral, ou vice-versa.
3. Da nova redação do art. 421 do Código Civil
Sobre o art. 421 do Código Civil, é interessante confrontar a redação original do comando, a que
constava da MP 881/19 e a que acabou sendo adotada na sua conversão em lei.
Art. 421 do CC. Art. 421 do CC. Art. 421 do CC. Redação
Redação original. Redação com a MP 881. após a lei 13.874/19.
“A liberdade de “Art. 421. A liberdade “A liberdade contratual
contratar será exercida em de contratar será exercida será exercida nos limites da
razão e nos limites da em razão e nos limites da função social do contrato.
função social do contrato”. função social do contrato, Parágrafo único. Nas relações
  observado o disposto na contratuais privadas,
Declaração de Direitos de prevalecerão o princípio da
Liberdade Econômica. intervenção mínima e a
Parágrafo único. Nas excepcionalidade da revisão
relações contratuais contratual”.
privadas, prevalecerá o  
princípio da intervenção
mínima do Estado, por
qualquer dos seus
poderes, e a revisão
contratual determinada de
forma externa às partes
será excepcional.”
Sobre a redação original do dispositivo, seguindo a melhor doutrina, sempre sustentei que ela
trazia dois equívocos técnicos, que tenderiam a ser corrigidos pelo antigo projeto de lei Ricardo Fiuza, o
originário PL 6.960/02. Acatando as sugestões formuladas por Antônio Junqueira de Azevedo e Álvaro
Villaça Azevedo, professores da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, propunha-se a
mudança no texto exatamente como ele se encontra agora. Destaque-se que a professora Giselda
Hironaka também escreveu texto no mesmo sentido, logo após a entrada em vigor da codificação de
2002, apoiando as mudanças.
Como primeiro equívoco anterior, a norma mencionava a liberdade de contratar, relacionada com
a celebração do contrato em si e que, em regra, é ilimitada, pois a pessoa celebra o contrato quando
quiser e com quem quiser, salvo raríssimas exceções. Por outra via, tem-se que a função social - a
finalidade coletiva do instituto, com suas projeções internas e externas - limita a liberdade contratual,
relativa ao conteúdo negocial em si, às cláusulas contratuais propriamente ditas. Ademais, a função
social do contrato nunca foi e não é razão do contrato, constituída pela autonomia privada, pela
liberdade individual, sendo necessário excluir a locução “em razão e”.
Diante dessa realidade jurídica, quando da emergência da medida provisória 881, na sua
tramitação no Congresso Nacional, escrevi artigo científico, publicado neste canal, em que sustentei a
necessidade de alteração da lei com a correção desses dois equívocos. O texto trazido originalmente
pela MP estabelecia, ignorando a necessidade desses reparos, que “a liberdade de contratar será
exercida em razão e nos limites da função social do contrato, observado o disposto na Declaração de
Direitos de Liberdade Econômica”. Como se percebe, a redação também procurava reduzir
consideravelmente a abrangência da função social do contrato, limitando-a ao conteúdo do art. 3º da
norma, que trata da Declaração de Direitos de Liberdade Econômica, o que, por bem, acabou não
prosperando.
A proposta de emenda 199, apresentada pelo senador Jean Paul Prates no Congresso Nacional,
seguiu a minha sugestão a respeito do caput do comando, nos seguintes termos de justificativas: “com
apoio no texto intitulado ‘A MP 881/19 (liberdade econômica) e as alterações do Código Civil. Primeira
parte’, escrito por um dos mais respeitados civilistas brasileiros – o professor Flávio Tartuce –,
sugerimos a emenda em pauta”. A proposta acabou por ser adotada na tramitação legislativa na linha
do que sempre sustentei doutrinariamente e com base nas lições de Antônio Junqueira de Azevedo,
Álvaro Villaça Azevedo e Giselda Maria Fernandes Novaes Hironaka. Sendo assim, por bem, o texto do
art. 421 do Código Civil foi finalmente corrigido, para que tenha o real sentido, de que a liberdade
contratual, a autonomia privada, é que é limitada pela função social do contrato.
Pontue-se, a propósito, que, quando da tramitação legislativa, chegou-se a debater outro texto,
sugerido pelos Professores Otávio Luiz Rodrigues Jr. e Rodrigo Xavier Leonardo, por meio do Senador
Antonio Anastasia (emenda 158). Pela proposição, o dispositivo teria a seguinte dicção: “O contrato
cumprirá a sua função social”. A norma proposta era até mais abrangente e louvável, pois colocava a
função social do contrato no plano da validade do negócio jurídico. De todo modo, essa interpretação já
é realizada pela doutrina, conforme se retira do enunciado 431 da V Jornada de Direito Civil.
Sobre o parágrafo único do art. 421, continua ele trazendo uma obviedade, desde o texto original
da medida provisória, ao enunciar que a revisão contratual regida pelo Código Civil é excepcional. Na
verdade, o Código Civil de 2002 adotou uma teoria de difícil aplicação prática - a teoria da imprevisão
para uns, teoria da onerosidade excessiva, para outros -, com elementos insuperáveis para que a
revisão seja efetivada, notadamente o elemento da imprevisibilidade (arts. 317 e 478). Acrescente-se
que essa revisão também é dificultada por requisitos adicionais que constam do art. 330, §§ 2º e 3º, do
CPC/15, quais sejam a determinação da parte controversa e incontroversa da obrigação - com a
necessidade de eventual apresentação de cálculo contábil desses valores - e o depósito da parte
incontroversa; sob pena de inépcia da petição inicial. Por isso, afirmar que a revisão de um contrato civil
não é a regra significa dizer algo que já era da nossa realidade jurídica.
A encerrar o estudo do art. 421, parágrafo único, estou totalmente filiado às críticas de Anderson
Schreiber, constantes do nosso Código Civil Comentado, a respeito da inexistência do princípio da
intervenção mínima, agora previsto na norma. Vejamos suas palavras:
“A MP n. 881/19 também introduziu no art. 421 um parágrafo único, que estabelece a prevalência
de um assim chamado ‘princípio da intervenção mínima do Estado’ e reserva caráter ‘excepcional’ à
revisão contratual ‘determinada de forma externa às partes’. Mais uma vez, o equívoco salta aos olhos.
Não existe um ‘princípio da intervenção mínima do Estado’; a intervenção do Estado nas relações
contratuais de natureza privada é imprescindível, quer para assegurar a força vinculante dos contratos,
quer para garantir a incidência das normas jurídicas, inclusive das normas constitucionais, de hierarquia
superior à referida medida provisória. A MP n. 881/19 parece ter se deixado se levar aqui por uma certa
ideologia que enxerga o Estado como inimigo da liberdade de contratar, quando, na verdade, a
presença do Estado – e, por conseguinte, o próprio Direito – afigura-se necessária para assegurar o
exercício da referida liberdade. No que tange à revisão contratual, também parece ter incorrido a
medida provisória nessa falsa dicotomia entre atuação do Estado-juiz e liberdade de contratar, quando,
ao contrário, a revisão contratual privilegia o exercício dessa liberdade ao preservar a relação contratual
estabelecida livremente entre as partes, ao contrário do que ocorre com a resolução contratual, remédio
a que já tem direito todo contratante nas mesmas situações em que a revisão é cabível (v. comentários
ao art. 478). Se a intenção da MP foi evitar que revisões judiciais de contratos resultem em alterações
excessivas do pacto estabelecido entre as partes, empregou meio inadequado: afirmar que a revisão
contratual deve ser excepcional nada diz, porque não altera as hipóteses em que a revisão se aplica, as
quais são expressamente delimitadas no próprio Código Civil. O novo parágrafo único, acrescentado
pela MP, tampouco indica parâmetros, critérios ou limites à revisão contratual, o que leva a crer, mais
uma vez, que a alteração não produzirá qualquer efeito relevante no modo como a revisão contratual é
aplicada na prática jurisprudencial brasileira – aplicação que, de resto, já se dá com bastante cautela e
parcimônia, sem interferências inusitadas no conteúdo contratual”.1
De fato, esse tal princípio da intervenção mínima é desconhecido pelos civilistas, sendo mais um
argumento retórico e ideológico do que um princípio contratual com efetividade. Na verdade, a
afirmação de que a intervenção do Estado não constitui regra, mas exceção, já poderia ser retirada da
própria ideia da autonomia privada ou da força obrigatória da convenção. De todo modo, os abusos
contratuais são comuns no Brasil, e, em casos tais, é imperiosa a intervenção estatal, por meio do
Poder Judiciário.
4. O novo art. 421-a do Código Civil
Encerrando este artigo - sem prejuízo das reflexões que constarão das novas edições dos nossos
livros -, é necessário analisar o conteúdo do art. 421-A do Código Civil, igualmente inserido pela lei da
liberdade econômica, originária da MP 881. Na última norma, os seus conteúdos estavam colocados
nos arts. 480-A e 480-B, totalmente fora de contexto, pois o art. 480 trata de revisão de contratos
unilaterais. A nova inserção permite deduzir que o diploma emergente traz ideias complementares a
respeito da função social dos contratos.
Conforme o caput do novo comando, “os contratos civis e empresariais presumem-se paritários e
simétricos até a presença de elementos concretos que justifiquem o afastamento dessa presunção,
ressalvados os regimes jurídicos previstos em leis especiais”. Quanto à diferença entre contratos civis e
empresariais, sabe-se que o Código Civil de 2002 unificou o seu tratamento, não se justificando
diferenciação quanto a ambos a respeito das normas jurídicas incidentes na atual realidade jurídica. No
que concerne aos contratos empresariais - aqueles em que as partes figuram como empresários -,
aplica-se, assim, a teoria geral dos contratos prevista na codificação material, entre os arts. 421 e 480.
Sobre a necessidade de se elaborar uma teoria própria para os contratos empresariais, a propósito,
está sendo debatida no Senado Federal a necessidade ou não de um novo Código Comercial tratar
desse tema.
Entendo, por isso, que somente se justifica certa diferenciação quanto ao nível de intervenção
estatal desde que o contrato seja paritário ou negociado, hipótese em que a intervenção deve ser
menor. Nesse sentido, o enunciado 21 da I Jornada de Direito Comercial, de autoria do Professor André
Luiz Santa Cruz Ramos: “nos contratos empresariais, o dirigismo contratual deve ser mitigado, tendo
em vista a simetria natural das relações interempresariais”. Advirto que, na minha visão, essa afirmação
de mitigação do dirigismo contratual somente vale para os contratos paritários e não para os de adesão,
que, como visto, têm especial proteção na codificação em vigor (arts. 423 e 434), até ampliada pela
própria lei da liberdade econômica, diante do novo art. 113, § 1º, inc. IV, do CC, aqui antes já
comentado.
Seguindo essa ideia de menor intervenção nos contratos empresariais, apesar da aplicação do
Código Civil de 2002, destaque-se, da jurisprudência superior: “contratos empresariais não devem ser
tratados da mesma forma que contratos cíveis em geral ou contratos de consumo. Nestes admite-se o
dirigismo contratual. Naqueles devem prevalecer os princípios da autonomia da vontade e da força
obrigatória das avenças. Direito Civil e Direito Empresarial, ainda que ramos do Direito Privado,
submetem-se a regras e princípios próprios. O fato de o Código Civil de 2002 ter submetido os contratos
cíveis e empresariais às mesmas regras gerais não significa que estes contratos sejam essencialmente
iguais” (STJ, REsp 936.741/GO, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, Quarta Turma, julgado em
03/11/2011, DJe 08/03/12). Ou, ainda, como se retira de acórdão publicado no informativo 583 da Corte,
que trata de contrato agrário celebrado por uma grande empresa como arrendatária e sem prejuízo de
outros acórdãos: “efetivamente, no Direito Empresarial, regido por princípios peculiares, como a livre
iniciativa, a liberdade de concorrência e a função social da empresa, a presença do princípio da
autonomia privada é mais saliente do que em outros setores do Direito Privado. Com efeito, o controle
judicial sobre eventuais cláusulas abusivas em contratos empresariais é mais restrito do que em outros
setores do Direito Privado, pois as negociações são entabuladas entre profissionais da área
empresarial, observando regras costumeiramente seguidas pelos integrantes desse setor da economia”
(STJ, REsp 1.447.082/TO, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, Terceira Turma, julgado em 10/5/16,
DJe 13/5/16).
Reconhecida a necessidade de uma menor intervenção nos contratos paritários no atual sistema
jurídico - sejam civis ou empresariais -, voltando-se à essência do art. 421-A, o seu caput consagra uma
presunção relativa ou iuris tantum de paridade e de simetria econômica nessas figuras. Todavia, sendo
evidenciado que o contrato é de adesão - o que pode decorrer não só de prova construída pela parte
interessada, mas também das práticas e da realidade do meio social -, afasta-se essa presunção, o que
justifica a incidência das regras protetivas do aderente aqui antes estudadas (arts. 113, § 1º, inc. IV, 423
e 424 do CC). A nova norma também exclui expressamente o tratamento previsto em leis especiais,
caso do Código de Defesa do Consumidor, que, no seu art. 4º, inc. III, consagra a presunção absoluta
ou iure et de iure de vulnerabilidade dos consumidores. A propósito, no meu entender, pontuo que a
nova lei da liberdade econômica não traz qualquer impacto para os contratos de consumo, sendo
dirigida aos contratos civis em geral, não submetidos ao CDC.
O novo art. 421-A do Código Civil ainda preceitua, no seu inc. I, que está garantida às partes
contratuais a possibilidade de estabelecer parâmetros objetivos para a interpretação das cláusulas
negociais e de seus pressupostos de revisão ou de resolução. Trata-se de reprodução parcial do
enunciado 23 da I Jornada de Direito Comercial, novamente proposto pelo professor André Luiz Santa
Cruz Ramos, que participou do processo de elaboração da MP 881, que deu origem à lei da liberdade
econômica. Conforme essa ementa doutrinária, “em contratos empresariais, é lícito às partes
contratantes estabelecer parâmetros objetivos para a interpretação dos requisitos de revisão e/ou
resolução do pacto contratual”. Norma em sentido próximo, aliás, consta do antes analisado novo art.
113, § 2º, do Código Civil.
A título de concreção, as partes de um contrato civil podem fixar previamente quais são os
eventos que podem gerar imprevisibilidade, extraordinariedade ou onerosidade excessiva para um
determinado negócio, para os fins de rever ou resolver o contrato, e nos termos do que consta dos arts.
317 e 478 da codificação privada. Podem, ainda, a respeito da interpretação do contrato, estabelecer
que uma cláusula é a mais importante de toda a avença, devendo guiar a interpretação das demais.
Entretanto, ressalve-se, mais uma vez, que, caso haja lesão a norma de ordem pública, essa
previsão contratual interpretativa pode não prevalecer, por força do sempre citado art. 3º, inc. VIII, da
própria lei 13.874/19. Cite-se, a título de exemplo, uma cláusula de revisão ou de interpretação que
procure afastar as regras de limitação ou de redução equitativa da cláusula penal, previstas nos arts.
412 e 413 do Código Civil. O controle do julgador também deve ser maior caso haja um contrato de
adesão, mesmo que celebrado entre empresários, por força do art. 424 do CC/02, que estabelece a
nulidade de qualquer cláusula que implique a renúncia do aderente a direito resultante da natureza do
negócio. Cite-se, como ilustração da última, uma cláusula limitativa de indenização em decorrência da
resolução do contrato imposta ao aderente, que deve ser tida como nula de pleno direito.
Seguindo, conforme o art. 421-A, inc. II, do CC/02, a alocação de riscos definida pelas partes deve
ser respeitada e observada. Assim, é preciso levar em conta, por exemplo, os investimentos realizados
pelas partes e a oportunidade de reavê-los, sem prejuízo da obtenção dos lucros esperados, de acordo
com a racionalidade econômica e as regras de tráfego de cada negócio em si. Repete-se, assim, o
sentido já previsto no novo art. 113, § 1º, inc. V, do Código Civil, que, como visto, menciona a
racionalidade econômica das partes. Mais uma vez, se essa alocação de riscos gerar enriquecimento
sem causa de uma parte frente a outra, se acarretar onerosidade excessiva, se afrontar a função social
do contrato, a boa-fé objetiva ou outro preceito de ordem pública, poderá ser desconsiderada, tida como
nula ou ineficaz.
Como última análise, o inc. III do art. 421-A repete o parágrafo único do art. 421 ao estabelecer
que “a revisão contratual somente ocorrerá de maneira excepcional e limitada”. Valem os comentários
antes desenvolvidos sobre o último preceito, sendo a regra também desnecessária, pois a revisão
contratual já tem caráter excepcional, como antes pontuado, limitando-se às partes envolvidas.
Por tudo o que foi aqui analisado, nota-se que, em matéria de contratos, a lei da liberdade
econômica procurou valorizar a autonomia privada e resolver antigos problemas técnicos que existiam
no Código Civil, o que é louvável. Todavia, não se pode dizer que a autonomia privada, a força
obrigatória do contrato e a tal intervenção mínima passaram a ser princípios contratuais inafastáveis e
absolutos. Por óbvio que devem eles ser ponderados e mitigados frente a outros regramentos, caso das
sempre citadas função social do contrato e boa-fé objetiva. Com isso, busca-se o eventual equilíbrio
contratual perdido e a vedação dos abusos e excessos negociais, tão comuns em nosso país.
___________
1 SCHREIBER, Anderson. Código Civil comentado: doutrina e jurisprudência. Rio de Janeiro:
Forense, 2019. p. 245-246.

CONTRATOS PARITÁRIOS : Igualdade das partes na discussão dos termos do negócio, cláusulas e
condições.
CONTRATOS POR ADESÃO : excluem a liberdade sobre as cláusulas e condições,q ue são
previamente redigidas por um dos contratantes. Supõe : a) Uniformidade; b) Proposta permanente e
geral; c) Superioridade econômica de uma das partes.

Agora, com a criação da sociedade limitada unipessoal, resta a dúvida qual o tipo societário a ser
escolhido. Abaixo segue um quadro onde estão comparadas as principais características entre EIRELI e
sociedade limitada unipessoal, cabendo ao empresário, de acordo com as peculiaridades de seu
negócio decidir onde melhor se enquadra.
  EIRELI UNIPESSOAL LTDA.
Responsabilidade do
Limitada Limitada
titular/sócio
Número de sócios necessários Uma Uma
Não exige valor
Capital mínimo integralizado 100 salários mínimos
mínimo
Restrições para pessoas Apenas uma sociedade dessa por
Não possui
físicas pessoa
Restrições para pessoas
Não  possui Não possui
jurídicas

            Portanto, as duas principais diferenças se encontram no capital mínimo a ser integralizado no
ato constitutivo e na impossibilidade de pessoas naturais serem titulares de mais de uma EIRELI.

Migalhas
Inicialmente, precisamos saber qual o objeto de referida lei, bem como quais regras podem ter
sido criadas ou alteradas para atingir tal objetivo.
A norma em questão se propôs a estabelecer regras para proteção da livre iniciativa e do livre
exercício da atividade econômica, e, para tanto, elencou em seu artigo 2º os princípios que norteiam
esta lei, isto é, a liberdade como garantia para o exercício de atividades econômicas, a boa-fé do
particular perante o ente público, a intervenção subsidiária e excepcional do Estado sobre o exercício de
atividades econômicas e o reconhecimento da vulnerabilidade (de quem?) perante o Estado.
Mas, o que esses princípios querem dizer?
Através deles, podemos perceber que a lei foi criada para proteger o empreendedor particular, ao
passo que reconhece que este possui menor capacidade probatória e de investimento se comparado ao
Estado, bem como que pretende desburocratizar a vida de tais empreendedores, deixando todo o
procedimento para abertura e continuidade da empresa mais simples.
Denota-se que a intenção do legislador foi reafirmar o princípio do livre mercado, através do qual
as empresas possuem o direito da livre definição dos preços dos seus produtos e serviços em
mercados não regulados. Mas então isso quer dizer que o Governo não pode interferir na fixação dos
preços e serviços? Sim, exatamente isso! Em sendo o mercado livre, não pode o Governo interferir nas
decisões por ele tomadas, inclusive com relação aos preços a serem praticados.
Da mesma forma, visando desburocratizar o procedimento, acaba com a exigência de alvará de
funcionamento, sanitário e ambiental, para abertura de empresas com atividades de baixo risco; limita
as opções de restrição do horário de funcionamento de comércios e serviços pelo Poder Público e
Sindicatos; e permite a abertura e fechamento automático de empresas por meio das Juntas
Comerciais.
Acerca das questões trabalhistas, apesar de inicialmente ter sido apelidada de “minirreforma
trabalhista”, por terem vários pontos iniciais de alteração vetados, isso não se concretizou, sendo
apenas alterados ou excluídos alguns artigos da CLT, tais como os artigos 17, 20, 21, 25, 26, 30 a 34,
inciso II do artigo 40, artigos 53, 54, 56, 141, parágrafo único do artigo 415, e artigos 417, 419, 420, 421,
422 e 633.
No tocante ao horário de trabalho, foram feitas duas grandes alterações: a alteração do artigo 74
da CLT, fazendo constar que os estabelecimentos com até 19 empregados, não precisam ter controle
de jornada, sendo que em havendo 20 ou mais empregados, a anotação será obrigatória.
A segunda alteração é a permissão de utilização do ponto por exceção – quando são anotadas
apenas as horas extras prestadas, presumindo sua inexistência se não houver registro –, desde que
haja previsão em acordo individual, convenção coletiva ou acordo coletivo de trabalho.
O Sistema E-Social será substituído, em todo o país, por um sistema simplificado de obrigações
previdenciárias, trabalhistas e fiscais.
Houve ainda a instituição da CTPS de forma eletrônica, a qual possuirá apenas o CPF como
documento de identificação, sendo que a emissão do referido documento de forma física será em
caráter excepcional e aplicável apenas quanto o empregador não for obrigado a utilizar o E-Social (ou o
sistema que irá substituí-lo).
Acerca dessa novidade, e visando disciplinar como tal emissão ocorrerá, foi publicado no Diário
Oficial de 24/9 a portaria SEPRT 1.065, que prevê que para todos aqueles que já possuem CPF a
carteira de trabalho digital já está previamente emitida, sendo que basta a pessoa acessar
o site acesso.gov.br, ou baixar o aplicativo em seu smartphone, para habilitá-la.
Todos os registros eletrônicos ali gerados equivalerão às anotações na CTPS física.
A lei, ainda, altera o CC, para fazer constar que a Pessoa Jurídica não se confunde com os seus
sócios, associados, instituidores ou administradores, instituindo a autonomia patrimonial das pessoas
jurídicas, impondo que os bens particulares dos sócios e administradores da pessoa jurídica somente
poderão ser afetados se restar caracterizado o desvio de finalidade desta ou a confusão patrimonial,
definindo assim os conceitos de desconsideração da personalidade jurídica.
Após essas explanações acerca das alterações trazidas pela lei da liberdade econômica, volto ao
questionamento contido no título do presente artigo. Precisávamos de uma lei para isso?
Na atual conjuntura econômica e política do país, em que tivemos inclusive a intervenção do
governo acerca dos preços praticados pelas companhias de petróleo quando do episódio da greve dos
caminhoneiros (e novamente alguns meses depois), acredito que a melhor forma de demonstrar à
sociedade, e principalmente aos empreendedores, a liberdade para praticar as atividades por eles
decididas, seria respeitar as normas.
Não nego que a desburocratização trazida pela lei da liberdade econômica é bem-vinda, mas suas
regras serão seguidas pelo Governo, pelos órgãos fiscalizadores e pelo Judiciário?
Será mesmo que o ponto por exceção será um benefício ou trará só mais uma complicação às
demandas Judiciais? Afinal, de quem será o ônus de provar a jornada em empresas que o adotarem e
tenham mais de 20 funcionários? E quando da desconsideração da personalidade jurídica, quem
validará se houve ou não o referido desvio ou confusão patrimonial?
Se a redução burocrática é sempre um alívio ao empreendedor, ainda precisaremos de anos para
saber se o restante das providências nela contidas, efetivamente, trará o resultado almejado.
Talvez a mera simplificação das normas já existente, reduzindo esse cipoal jurídico em que se
embrenham os empreendedores, teria sido mais que suficiente, não sendo necessária a criação de
mais uma lei a ser considerada na hora de empreendermos?

LIBERDADE ECONÔMICA
APENAS UMA DECLARAÇÃO DE (BOAS) INTENÇÕES – OU MUITO MAIS DO QUE ISTO?

Em 20 de setembro de 2019, entrou em vigor a Lei no 13.874 (“Lei no 13.874”), proveniente da


Medida Provisória no 881, publicada em 30 de abril de 2019 (“MP da Liberdade Econômica” ou “Medida
Provisória”), com o objetivo declarado de promover uma “mudança cultural nas relações entre o Poder
Público e os agentes privados”.
A MP da Liberdade Econômica foi editada visando estabelecer a intervenção excepcional nas
relações privadas, proporcionar uma desburocratização e simplificação para os pequenos e médios
empreendedores e consolidar em lei a jurisprudência já firmada no Superior Tribunal de Justiça (por
exemplo, com relação ao instituto da desconsideração da personalidade jurídica).
A Lei nº 13.874 pode trazer efeitos positivos duradouros na maneira como os negócios serão
conduzidos no Brasil. Obviamente, a mudança cultural necessária para torná-la efetiva somente
ocorrerá se os princípios e disposições nela contidos forem adotados (e genuinamente apoiados) pelos
servidores públicos em todos os níveis do governo, incluindo os juízes brasileiros, responsáveis por
aplicar esses princípios em casos concretos.
Para que se possa compreender, sob uma perspectiva geral, as principais mudanças
introduzidas pela Lei no 13.874 ao ordenamento jurídico, preparamos um breve guia para tratar dos
denominados direitos de liberdade econômica, bem como das principais alterações que poderão afetar
as relações privadas.

1. PRINCÍPIOS NORTEADORES
O Brasil ocupa o 110º lugar (em 190) no ranking do Doing Business World Bank e é colocado de
maneira impressionante em alguns sub rankings relacionados às interações com o Estado: iniciar um
negócio (140o lugar em 190), licenças de construção (175o em 190) e pagamento de impostos (184ºde
190). Além disso, o Brasil é um dos países mais litigiosos do mundo - nossos tribunais receberam cerca
de 28 milhões de novos casos em 2018, ou quase 11.800 casos por cada 100.000 habitantes. Leis
como a proveniente da referida Medida Provisória visam levar esses números a um nível mais racional.
A Lei nº 13.874 foi elaborada com base nos seguintes princípios norteadores:
(i) a liberdade como uma garantia no exercício de atividades econômicas;
(ii) a boa-fé do particular perante o poder público;
(iii) a intervenção subsidiária e excepcional do Estado sobre o exercício de atividades
econômicas; e
(iv) o reconhecimento da vulnerabilidade do particular perante o Estado.
Alguns desses princípios não são novidade - a Constituição Federal já prevê, por exemplo, a
livre iniciativa, o livre exercício da atividade econômica e a intervenção mínima e excepcional do Estado
na exploração direta da atividade econômica, mas, na prática, sempre se observou uma grande carga
burocrática e dificuldade para que os agentes privados iniciassem e desenvolvessem suas atividades.
Alguns exemplos da presença dos princípios norteadores descritos acima no conteúdo da Lei no
13.874 encontram-se:
2. em seu artigo 3o, inciso I, o qual prevê que as atividades econômicas de baixo risco poderão
ser desenvolvidas sem a necessidade de quaisquer atos públicos de liberação da respectiva atividade.
A classificação de atividades de baixo risco, por sua vez, dependerá de ato do Poder Executivo federal,
o qual deverá ser observado na ausência de legislação estatual, distrital ou municipal específica e,
quando não houver o referido ato do Poder Executivo federal, deverá ser aplicada a resolução do
Comitê para Gestão da Rede Nacional para a Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas
e Negócios – CGSIM; e
em seu artigo 3o, incisos IX e X, os quais preveem, respectivamente, que o particular (a) deverá
ser cientificado expressa e imediatamente pela autoridade competente sobre o prazo máximo estipulado
para análise de seu pedido, de modo que, após transcorrido o prazo fixado, o silêncio da referida
autoridade importará aprovação tácita para todos os efeitos, ressalvadas as hipóteses expressamente
vedadas em lei e (b) poderá arquivar qualquer documento por meio de microfilme ou por meio digital,
conforme técnica e requisitos estabelecidos em regulamento, hipótese em que se equiparará a
documento físico para todos os efeitos legais e para comprovação de qualquer ato de direito público.

AUTONOMIA DA VONTADE E INTERPRETAÇÃO DOS CONTRATOS


2.1. Interpretação do negócio jurídico
A Lei no 13.874 introduziu ao artigo 113 do Código Civil, que trata da interpretação dos negócios
jurídicos conforme a boa- fé e os usos do lugar de sua celebração, a indicação de que os negócios
jurídicos deverão ser interpretados no sentido que
(i) for confirmado pelo comportamento das partes posteriormente à celebração do negócio;
(ii) corresponder aos usos, costumes e práticas do mercado relativas ao tipo do negócio;
(iii) corresponder à boa-fé́ ;
(iv) for mais benéfico à parte que não redigiu o dispositivo, se identificável; e
(v) corresponder à qual seria a razoável negociação das partes sobre a questão discutida,
conforme as demais disposições do negócio e a racionalidade econômica das partes.
Além disso, foi inserido o §2o ao artigo 113 do Código Civil para prever que as partes poderão
livremente pactuar regras de interpretação, de preenchimento de lacunas e de integração dos negócios
jurídicos diversas daquelas previstas em lei, o que significa que as partes terão liberdade não apenas
para estipular regras interpretativas adicionais, mas também para alterar ou mesmo excluir a aplicação
das novas regras interpretativas estabelecidas pela Lei no 13.874.

2.2. Os limites da função social do contrato


O Código Civil, até a entrada em vigor da MP da Liberdade Econômica, previa em seu artigo 421
que a “a liberdade de contratar será́ exercida em razão e nos limites da função social do contrato”. A Lei
nº 13.874 inseriu o paragrafo único ao referido artigo com a seguinte redação: “nas relações contratuais
privadas, prevalecerão os princípios da intervenção mínima e a excepcionalidade da revisão contratual.”
A redação original do artigo 421 do Código Civil possuía natureza bastante genérica, conferindo
grande margem à discricionariedade do Poder Judiciário em cada caso concreto (ao analisar se o
negócio jurídico estabelecido contratualmente pelas partes no exercício da autonomia da vontade
haveria violado uma função social). Frequentemente, esse exercício acarretava uma reinterpretação
judicial dos direitos e das obrigações contratuais, causando insegurança e imprevisibilidade aos
contratantes.
Referida inserção pela Lei nº 13.874 visa evitar a intervenção e o ativismo judicial excessivos
nas relações contratuais privadas. Caberá́ observar como esta inovação será aplicada pelo Poder
Judiciário.
2.3. Parâmetros de revisão ou resolução de pacto contratual e alocação dos riscos definidos
A Lei no 13.874 introduziu, ainda, o artigo 421-A ao Código Civil, para dispor que os contratos
civis e empresariais presumem-se paritários e simétricos até a presença de elementos concretos que
justifiquem o afastamento desta presunção, ressalvados os regimes jurídicos previstos em leis especiais
e garantindo também que
(i) as partes negociantes possam estabelecer parâmetros objetivos para a interpretação das
cláusulas negociais e de seus pressupostos de revisão ou de resolução;
(ii) a alocação de riscos definida pelas partes seja respeitada e observada; e
(iii) a revisão contratual somente ocorra de maneira excepcional e limitada.
No ponto, a Lei no 13.874 reforçou o princípio da força obrigatória dos contratos (pacta sunt
servanda) que, como dito acima, é frequentemente mitigado por reinterpretações judiciais.

3. DESCONSIDERAÇÃO DA PERSONALIDADE JURÍDICA

3.1. Alterações no Código Civil


Embora, em regra, os sócios não sejam pessoalmente responsáveis por dívidas das sociedades
em que possuam participação, na prática, comumente os juízes estendem a responsabilidade
patrimonial da sociedade aos sócios diretos e indiretos de empresas brasileiras (e até afiliadas e
administradores) por - entre outros - passivos trabalhistas e de natureza consumerista. Houve casos em
que os juízes perseguiram a controladora final e (em casos trabalhistas) outras empresas membros do
mesmo grupo econômico. As relações de trabalho e de consumo tendem a ter uma abordagem social
ou distributiva (funcionários e consumidores são considerados o “elo mais fraco da cadeia”) e os juízes
geralmente relativizam o conceito da autonomia patrimonial das sociedades ou o rejeitam por completo.
Infelizmente, a Lei no 13.874 adotou uma abordagem um tanto tímida, alterando apenas o
Código Civil, para tornar expresso certos precedentes já estabelecidos pelo Superior Tribunal de Justiça
(e não a legislação específica que trata das matérias trabalhista, consumerista, ambiental e de
corrupção, por exemplo).
O instituto da desconsideração da personalidade jurídica de forma a atingir os bens particulares
dos sócios e/ou dos administradores que praticarem abuso da personalidade de sociedade empresária
já era previsto expressamente no Código Civil, em seu artigo 50.
O referido artigo, em sua redação original, previa que o abuso da personalidade jurídica estaria
caracterizado pelo desvio de finalidade ou pela confusão patrimonial (conceitos até então não definidos
no referido diploma legal).
Com a nova redação incluída pela Lei no 13.874, (i) ficou expresso no caput do artigo 50 que
apenas os administradores ou sócios da pessoa jurídica beneficiados direta ou indiretamente pelo
abuso poderão ter seus bens particulares atingidos em decorrência da desconsideração e (ii) definiu-se
os conceitos de desvio de finalidade e de confusão patrimonial.
Quanto à definição de desvio de finalidade, a novidade é o pressuposto expresso do propósito
(dos sócios ou administradores beneficiados) em lesar credores ou praticar atos ilícitos; quanto à
definição de confusão patrimonial, as novidades são dois exemplos concretos de atos que a
caracterizam: o cumprimento repetitivo pela sociedade de obrigações do sócio ou do administrador (ou
vice-versa) e a transferência de ativos ou de passivos sem efetivas contraprestações, exceto o de valor
proporcionalmente insignificante; e um terceiro exemplo genérico referente à prática de outros atos de
descumprimento da autonomia patrimonial.
Foi introduzida, ainda, previsão no sentido de que a mera existência de grupo econômico sem a
presença de desvio de finalidade ou de confusão patrimonial não autoriza a desconsideração da
personalidade da pessoa jurídica (nos termos do §4o do artigo 50) e que não constitui desvio de
finalidade a mera expansão ou a alteração da finalidade original da atividade econômica específica da
pessoa jurídica (nos termos do §o5 do artigo 50).
Esse dispositivo não representa propriamente uma alteração ao ordenamento jurídico, apenas
servindo ao propósito de reforçar a autonomia privada, consignando expressamente que as partes terão
liberdade em estipular os termos e condições dos contratos que celebrarem e que, com relação às
matérias definidas, a revisão contratual pelo Poder Judiciário deverá ser medida excepcional.

Embora já reconhecida pela Lei no 13.105, de 16 de março de 2015 (Código de Processo Civil),
a desconsideração inversa da personalidade jurídica (ou seja, a possibilidade de extensão das
obrigações de sócios e/ou de administradores à pessoa jurídica em caso de desvio de finalidade e
confusão patrimonial) foi inserida no artigo 50 do Código Civil.
Além disso, também foi inserida previsão expressa no Código Civil, mediante a inclusão do
artigo 49-A, no sentido de que a pessoa jurídica não se confunde com os seus sócios, associados,
instituidores ou administradores e que a autonomia patrimonial das pessoas jurídicas é um instrumento
lícito de lei com a finalidade de estimular empreendimentos, para a geração de empregos, tributo, renda
e inovação em benefício de todos.
Importa notar que as novas regras sobre desconsideração da personalidade jurídica se
restringem à matéria cível e não se aplicam à discussão da responsabilidade de natureza trabalhista,
tributaria, ambiental, consumerista e concorrencial e outras que são reguladas por leis especificas.

4. LIMITAÇÃO DA RESPONSABILIDADE DOS SÓCIOS


4.1. Sociedade Limitada Unipessoal
Uma importante inovação trazida pela Lei no 13.874 consiste na possibilidade de a sociedade
empresária limitada ser constituída por um único sócio, nos termos do §1o introduzido ao artigo 1.052
do Código Civil. Trata-se do reconhecimento da unipessoalidade de fato de sociedades limitadas com
sócios formais, permitindo a alteração de contratos sociais em que a pluralidade de sócios é composta
por sócios apenas de direito.
Introduziu-se também o §2o ao artigo 1.052 do Código Civil, no sentido de que, se a sociedade
for unipessoal, aplicar-se-ão ao documento de constituição do sócio único, no que couber, as
disposições sobre o contrato social.
A sociedade empresária limitada unipessoal provavelmente tornará pouco usual a constituição
de empresa individual de responsabilidade limitada (“EIRELI”) prevista no artigo 980-A do Código Civil,
diante da exigência constante no referido artigo de que o capital social da EIRELI, devidamente
integralizado, não seja inferior a 100 (cem) vezes o maior salário mínimo vigente no País à época da
constituição da EIRELI.
Vale ressaltar que o Código Civil veda, ainda, que uma mesma pessoa física seja titular de mais
de uma EIRELI (nos termos do §2o do artigo 980-A). O objetivo desta vedação era justamente coibir
abusos da personalidade jurídica e fraudes a credores.
Uma vez que a Lei no 13.874 não introduziu a mesma vedação para as sociedades empresárias
limitadas unipessoais e tampouco exigiu a integralização de capital social mínimo para sua constituição,
caberá verificar como esta nova estrutura será de fato utilizada e se serão adotados mecanismos de
proteção aos credores.
Além disso, embora inserida a possibilidade de constituição de sociedade limitada por 1 (um)
único sócio, não foi feita nenhuma exceção no artigo 1.033, inciso IV, do Código Civil, o qual prevê que,
quando a pluralidade de sócios não for reconstituída no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, dissolver-
se-á a sociedade.
O dispositivo da Lei no 13.874 (artigo 19, IV) que revogava o inciso IV do art. 1.033 do Código
Civil foi vetado, sob o argumento (correto) de que este tinha aplicação não apenas à sociedade limitada,
mas também aos outros tipos societários previstos no Código Civil. Mesmo faltando uma ressalva
expressa — similar à prevista no artigo 1.033, parágrafo único, do Código Civil (que prevê a
possibilidade de conversão da sociedade unipessoal em EIRELI ou em empresa individual) — parece-
nos que, com o veto, a regra de dissolução pela não recomposição da pluralidade somente será
aplicável se, no prazo de 180 (cento e oitenta) dias, o sócio remanescente não deliberar por manter a
sociedade com apenas 1 (um) sócio, reformando o contrato social para essa finalidade. Sobre esse
ponto, convém ver como as Juntas Comerciais reagirão em tais casos.
4.2. Limitação à responsabilidade do titular da Empresa Individual de Responsabilidade Limitada
– EIRELI
Foi, ainda, introduzida previsão expressa no Código Civil no sentido de que, ressalvados os
casos de fraude, o patrimônio do titular de EIRELI não se confundirá com o patrimônio da empresa,
conforme §7o do artigo 980-A do Código Civil, incluído pela Lei no 13.874, proveniente da MP da
Liberdade Econômica.

5. LIMITAÇÃO DA RESPONSABILIDADE DOS COTISTAS DE FUNDOS DE INVESTIMENTOS


E PRESTADORES DE SERVIÇOS FIDUCIÁRIOS

5.1. Natureza jurídica e disciplina dos fundos de investimento


A Lei no 13.874 também introduziu um capítulo específico no Código Civil para tratar sobre
fundos de investimento (conforme artigos 1.368-C a 1.368-F). No artigo 1.368-C, prevê-se que os
fundos de investimento possuem natureza jurídica de condomínio de natureza especial e são
destinados à aplicação em ativos financeiros, bens e direitos de qualquer natureza. É válido ressaltar
que a referida definição está alinhada com o que já era estabelecido pela Comissão de Valores
Mobiliários (“CVM”).
Tendo em vista que foi adicionada referência específica aos fundos de investimento destinados
à aplicação de recursos financeiros, bens e direitos de qualquer natureza, entende-se que as
disposições do Código Civil introduzidas pela Lei no 13.874 são aplicáveis tanto aos fundos de
investimento em participações, regulados pela Instrução da CVM no 578, de 30 de agosto de 2016,
conforme alterada (“Instrução CVM 578”) e a todas as demais classes de fundos de investimento
atualmente existentes, nos termos da Instrução da CVM no 555, de 17 de dezembro de 2014, conforme
alterada (“Instrução CVM 555”).
Conforme prevê o §2o do artigo 1.368-C, competirá à CVM disciplinar os fundos de
investimentos.
Outra alteração importante foi introduzida no §3o do artigo 1.368-C no sentido de que o registro
do regulamento dos fundos de investimento na CVM é condição suficiente para garantir a sua
publicidade e a oponibilidade de efeitos em relação a terceiros. Com isso, estaria dispensada a
necessidade de registro do documento em cartório de títulos e documentos.
Resta verificar, no entanto, como será a aplicação desta dispensa na prática, tendo em vista que
a Instrução CVM 578 prevê expressamente que o funcionamento do fundo de investimento será
automaticamente concedida pela CVM mediante o protocolo na autarquia de certidão que comprove
que o ato de constituição e o regulamento do fundo foram devidamente registrados em cartório de
títulos e documentos, nos termos do artigo 2o, inciso I, da Instrução CVM 578.
Conforme dispõe o artigo 1.368-F do Código Civil, introduzido pela Lei no 13.874, os fundos de
investimento regulamentados pela CVM deverão, no que couber, seguir as disposições dos 1.368-C a
1.368-F do Código Civil.
5.2. Regras aplicáveis aos cotistas de fundos de investimento e aos prestadores de
serviços fiduciários
Outra importante inovação no tocante aos fundos de investimento introduzida pela Lei no 13.874
consiste na possibilidade de o regulamento do fundo estabelecer
(i) limitações à responsabilidade de cada cotista ao valor de suas cotas;
(ii) limitações à responsabilidade dos prestadores de serviços fiduciários ao cumprimento dos
deveres particulares de cada um (ou seja, sem solidariedade), perante os cotistas e entre si; e
(iii) classes de cotas com direitos e obrigações distintos, com possibilidade de constituição de
patrimônio segregado para cada classe (o qual somente responderá por obrigações vinculadas à classe
respectiva), nos termos do 1.368-D do Código Civil.
Antes das alterações introduzidas pela Lei no 13.874, a responsabilidade limitada apenas era
prevista expressamente no ordenamento jurídico brasileiro para os fundos de investimentos imobiliários
(e era aplicável apenas aos cotistas destes fundos, não aos seus prestadores de serviços fiduciários),
nos termos da Lei no 8.668, de 25 de junho de 1993.
Conforme dispõe o artigo 15 da Instrução CVM 555, os cotistas de fundos de investimento estão
sujeitos à responsabilização pelo patrimônio líquido negativo do fundo, sem prejuízo da possibilidade de
o administrador e o gestor serem responsabilizados, caso a política de investimento ou os limites de
concentração previstos nos respectivos regulamentos dos fundos e na Instrução CVM 555 não forem
observados. 
Ainda nos termos da Instrução CVM 555, o contrato de prestação de serviços dos fundos de
investimento regulados pela referida instrução deverá prever a responsabilidade solidária entre o
administrador do fundo e o prestador de serviços por eventuais prejuízos incorridos pelos cotistas que
derem causa em virtude de condutas contrárias à lei, às normas da CVM e ao regulamento dos fundos.
A Instrução CVM 578 traz previsão no mesmo sentido, com exceção às contratações de serviços
relacionados especificamente à gestão de carteira.
Ainda, nos termos do novo artigo 1.368-D, §1o, do Código Civil, a adoção da responsabilidade
limitada, caso assim passar a ser estabelecido pelo respectivo regulamento, por fundo inicialmente
constituído sem esta limitação, somente abrangerá fatos ocorridos após a mudança no regulamento.
Tendo em vista a ausência de regulamentação específica da CVM para tratar das inovações
trazidas ao Código Civil pela Lei no 13.874, será necessário aguardar esta regulamentação para que os
regulamentos dos fundos possam ser alterados de modo a prever limitações à responsabilidade do
cotista e dos prestadores de serviços fiduciários.
A possibilidade de se estabelecer as limitações acima descritas poderá proporcionar maior
previsibilidade e segurança jurídica aos investimentos realizados por meio de fundos, além de
representarem um incentivo para que os prestadores de serviços fiduciários atuem de forma cada vez
mais ativa e inovadora neste mercado.
Por fim, foi introduzida a aplicabilidade das regras de insolvência civil previstas nos artigos 955 a
965 do Código Civil, caso o fundo de investimento com limitação de responsabilidade não possua
patrimônio suficiente para responder por suas dívidas. Com essa regra exclui-se a possibilidade de
falência ou de recuperação judicial do fundo de investimento.
A insolvência civil poderá ser requerida judicialmente por credores, por deliberação própria dos
cotistas do fundo de investimento, nos termos dos respectivos regulamentos, ou pela CVM, conforme
previsto nos parágrafos 1o e 2o do artigo 1.368-E do Código Civil.

6. ALTERAÇÕES NA LEI DAS S.A.

Com relação à Lei das S.A., foi inserida a possibilidade de dispensa de assinatura de lista ou de
boletim de subscrição no ato da subscrição de ações a serem realizadas em dinheiro, caso a liquidação
da oferta pública em questão ocorra por meio de sistema administrado por entidade administradora de
mercados organizados de valores mobiliários, nos termos do §2o do artigo 85 da Lei das S.A.,
introduzido pela Lei no 13.874.
Trata-se de medida de desburocratização para companhias abertas, estimulando o acesso ao
mercado de capitais.
7. ALTERAÇÕES NA LEI DE REGISTRO PÚBLICO DE EMPRESAS MERCANTIS

A Lei no 13.874 introduziu, ainda, diversas alterações na Lei no 8.934, de 18 de novembro de


1994 (“Lei de Registro Público de Empresas Mercantis”). Dentre elas, destaca-se a obrigatoriedade de o
registro dos atos constitutivos e de suas alterações e extinções ocorrer independentemente de
autorização governamental prévia, devendo os órgãos públicos ser informados pela Rede Nacional para
Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios (Redesim) apenas a respeito dos
registros sobre os quais manifestarem interesse.
Além disso, nos termos do novo parágrafo único do artigo 41 da Lei de Registro Público de
Empresas Mercantis, os pedidos de arquivamento (i) dos atos de constituição de sociedades anônimas;
(ii) dos atos referentes à transformação, incorporação, fusão e cisão de empresas mercantis; e (iii) dos
atos de constituição e alterações de consórcio e de grupo de sociedades, conforme previsto na Lei das
S.A. deverão ser decididos no prazo de 5 (cinco) dias úteis, contados da data de seu recebimento pela
Junta Comercial competente, sob pena de os atos serem considerados arquivados, mediante
provocação dos interessados, sem prejuízo do exame das formalidades legais pelas procuradoria.
Para outros pedidos de arquivamento não citados acima (como alterações ao contrato social de
sociedades empresárias limitadas), o prazo para decisão sobre o respectivo deferimento pela Junta
Comercial competente será de 2 (dois) dias úteis, sob pena de os atos serem igualmente considerados
arquivados, mediante provocação dos interessados.
Outra importante alteração é o deferimento de registro automático para o arquivamento de atos
constitutivos e alterações de sociedades limitadas caso estejam presentes os requisitos de (i)
aprovação da consulta prévia da viabilidade do nome empresarial e de localização e (ii) utilização de
instrumento padrão estabelecido pelo Departamento Nacional de Registro Empresarial e Integração
(Drei). Essa medida certamente desburocratizará o registro, permitindo às partes que adequem o
contrato social às especificidades da sociedade em um segundo momento.
Ainda, nos termos do §3o introduzido ao artigo 63 da Lei de Registro Público de Empresas
Mercantis, fica dispensada a autenticação dos atos levados a arquivamento nas Juntas Comerciais nos
casos em que o advogado ou o contador da parte interessada declarar, sob sua responsabilidade
pessoal, a autenticidade da cópia do respectivo documento.
A Lei de Registro Público de Empresas Mercantis passou a prever, ainda, que os atos de
constituição, alteração, transformação, incorporação, fusão, cisão, dissolução e extinção de registro de
empresários e de pessoas jurídicas poderão ser realizados também por meio de sistema eletrônico
criado e mantido pela administração pública federal. A ameaça de concorrência potencial de um registro
federal pode servir de estímulo para que as Juntas Comerciais de cada Estado sejam mais eficientes.

8. ALTERAÇÕES NA CONSOLIDAÇÃO DAS LEIS DO TRABALHO

As alterações introduzidas pela Lei no 13.874 na Consolidação das Leis do Trabalho, no intuito
de desburocratizar o empreendedorismo brasileiro, dizem respeito
(i) às anotações do contrato de trabalho e da carteira de trabalho;
(ii) à anotação da jornada de trabalho; e
(iii) ao Sistema de Escrituração Digital de Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas (E-
Social).
8.1. Anotações do Contrato de Trabalho e da Carteira de Trabalho
Alterações e revogações dos textos contidos nos artigos no 13, 14, 15, 16, 29, 40 e 135 da CLT,
com a implementação da Carteira de Trabalho e Previdência Social (“CTPS”) eletrônica, sendo a física
apenas emitida em caráter excepcional, competindo ao Ministério da Economia essa atribuição, são
algumas das alterações introduzidas pela Lei no 13.874 na CLT.
Com a entrada em vigor da Lei no 13.874, a CTPS estará vinculada apenas ao CPF do
trabalhador. O empregador terá 5 (cinco) dias úteis para proceder à anotação da contratação mediante
um novo cadastro eletrônico de empregador. Em 48 (quarenta e oito) horas após a anotação da CTPS,
o trabalhador deverá ter acesso às informações.
Por fim, está revogado o inciso II do artigo 40 da CLT, retirando a necessidade de prova das
anotações da CPTS para fins de comprovação de dependentes perante a Previdência Social.
Para os empresários, a alteração simplifica a burocracia de contratar e segue a tendência digital.
Indiretamente, mitiga registros precários e imprecisos. Logo, é positiva.
8.2. Anotação da Jornada de Trabalho
Foram implementadas, ainda, alterações e revogações no texto do artigo 74 da CLT, de modo a
aumentar de 10 (dez) para 20 (vinte) o número de empregados do estabelecimento para que o
empregador tenha a obrigação do controle e registro de ponto.
Serão anotadas as jornadas de trabalho por meio manual, mecânico ou eletrônico, conforme
regulamentação administrativa do Ministério da Economia, sendo possível a pré anotação do período de
repouso. Também há novas regras para a anotação da jornada de trabalho daqueles que laboram fora
do estabelecimento do empregador.
Por fim, por acordo individual escrito, por Acordo Coletivo ou por Convenção Coletiva de
Trabalho, será autorizada a anotação da jornada pelo regime de “exceção” (anotação apenas da
jornada extraordinária).
As alterações parecem positivas para os empresários, especialmente a que diz respeito ao
número mínimo de empregados para registro de horário obrigatório. O texto original é muito antigo e a
atividade econômica muito mais modesta. Assim, a alteração parece ser mais fiel ao espírito da norma
do que a sua literalidade atual.
A anotação do horário do empregado externo deve ser entendida em harmonia com a regra do
artigo 62 da CLT, portanto, sendo aplicável apenas aos casos em que seja possível o controle dessa
jornada.
A anotação pelo regime de exceção é mais prática com vantagens para o empregador pela
simplificação, sem prejuízo para o empregado. O argumento por vezes apresentado de que ele inibiria o
registro de horas extras, na verdade, serviria a qualquer forma de anotação ou não haveria tanto
contencioso por horas extras.

8.3. E-SOCIAL
Por fim, o Sistema de Escrituração Digital de Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas
(E-Social), que unifica o envio de dados de trabalhadores e de empregadores, será substituído, em nível
federal, por um sistema mais simples, de informações digitais de obrigações previdenciárias e
trabalhistas.
As dificuldades operacionais do sistema são notórias, bastando ver os sucessivos adiamentos.
Não se trata de eliminar registros, mas de procurar um sistema digital mais eficiente.
A proposta original de permissão geral para o trabalho aos domingos caiu, assim como a
regulamentação da alteração do dia de descanso e do adicional.

9. DIREITO DO CONSUMIDOR
A Lei no 13.874 não altera expressamente qualquer artigo da Lei no 8.078, de 11 de novembro
de 1990 (“Código de Defesa do Consumidor” ou “CDC”)1. Assim, genericamente falando, a opção da
Lei no 13.874 parece ter sido a de não restringir direitos dos consumidores, ao menos não aqueles
previstos expressamente no CDC. Ao garantir ‘a livre definição, em mercados não regulados, do preço
de produtos e de serviços como consequência de alterações da oferta e da demanda’ (art. 3o, III), a Lei
no 13.874 foi ainda mais específica e excluiu expressamente desse âmbito a legislação de defesa aos
direitos do consumidor, assim como a de defesa da concorrência e às demais disposições protegidas
por lei federal (art. 3o, § 3o, II, da Lei no 13.874). Mas essa foi a única exclusão relacionada a direito do
consumidor, ou seja, tão somente no que se refere à definição de preços de produtos.
Ocorre que o sistema de proteção e defesa do consumidor no Brasil não se resume ao que está
disposto no CDC, mas é composto por uma série de normas infralegais e regras que compõem um
vasto sistema regulatório que transcendem ao Código de Defesa do Consumidor, de modo que as
alterações trazidas pela Lei no 13.874 deverão impactar em alguma medida também as relações de
consumo, inclusive podendo flexibilizar algumas perspectivas protetivas, desde que não afrontem
diretamente disposições do CDC.
Publicidade e propaganda. Um claro exemplo de impacto da Lei no 13.874 nas relações de
consumo refere-se à maior flexibilização dos critérios a serem observados para publicidade e
propaganda de serviços e produtos.
O art. 4o da Lei no 13.874 define ser “dever da Administração Pública [...] evitar o abuso do
poder regulatório de maneira a, indevidamente [...] restringir o uso e o exercício da publicidade e
propaganda sobre um setor econômico, ressalvadas as hipóteses expressamente vedadas em lei
federal” (inciso VIII). Nesse contexto, não sendo expressamente vedado pelo CDC, não restam dúvidas
que a Lei no 13.874 conferiu às empresas fornecedoras maior liberdade na veiculação da publicidade
sobre produtos, justamente com o objetivo de evitar restrições indevidas no que tange a tal direito de
expressão, comunicação e/ou interação dirigida ao público visando à promoção, divulgação ou venda
de um produto ou serviço.