Você está na página 1de 22

Análise Psicológica (2002), 3 (XX): 449-470

A saúde mental na inserção social da


pessoa com cegueira adquirida

MARIA JOÃO SILVEIRA (*)


ARMÉNIO SEQUEIRA (*)

1. INTRODUÇÃO ção, disseminação e utilidade social dos citados


estudos e trabalhos de investigação, um os prin-
Constitui hoje ampla preocupação de sectores cipais eixos de desenvolvimento de pesquisa é o
políticos, sociais e científicos o acesso e prática relativo ao estudo dos factores de maior influên-
da cidadania plena de todas as pessoas, a fortiori cia da autonomia e bem-estar das pessoas com
das pessoas com deficiência. Distintas perspecti- deficiência.
vas orientam a centralidade dos objectivos, os Uma revisão de literatura sobre a temática
factores de influência e análise dos processos e a mostra a relevância duma análise diferenciada
consequente postura de apresentação e interpre- dos contextos e das deficiências nos resultados
tação dos fenómenos bem como das prováveis obtidos em diferentes estudos e trabalhos de in-
causas. vestigação. Os estudos e investigações sobre a
Algumas invariantes, contudo, sobressaem de saúde mental nestas populações revela-se muito
diferentes abordagens: a multidimensionalidade importante face à dificuldades em identificar
e abrangência, a progressão e cúmulo de desvan- alguns problemas comportamentais e por serem,
tagens e a maior vulnerabilidade de grupos espe- por outro lado, muitas vezes ignorados.
cíficos como o das pessoas com deficiência. Al- Vários estudos efectuados neste âmbito apon-
guns investigadores da área das ciências huma- tam para um maior temor que a cegueira intro-
nas e sociais vêm, neste contexto, procurando, duz quando comparada com outras deficiências.
com os seus estudos e trabalhos de investigação, Tais diferenças parecem dever-se a, entre outros,
melhor conhecer para melhor explicar, compre- dois factores fundamentais:
ender e intervir nos processos/situações que pro- O primeiro é a crença inconsciente de que ver
duzem e estruturam os handicaps daí resultantes. é uma forma de influenciar outrem e o meio, pe-
No quadro social e científico da Reabilitação lo que a cegueira não seria a perda sensorial dum
e Inserção Social, à volta do qual tem tomado sentido, mas a perda de um importante instru-
forma e se tem organizado o processo de realiza- mento para a realizar o que se deseja. O olhar re-
presentaria o poder de transmitir energia de dife-
rentes qualidades, de induzir o bem e o mal. Fa-
la-se então de «frieza do olhar» do «olhar que
(*) Instituto Superior de Psicologia Aplicada, Lis- seduz» do «mau olhado» que depaupera e torna
boa. o outro incapaz e vulnerável; o segundo é a ideia

449
de que ver e compreender são uma e a mesma As diferenças inter-individuais causadas por
coisa. Enunciamos «pontos de vista» quando alterações das características pessoais represen-
nos referimos a uma estrutura conceptual de re- tam um terreno privilegiado para o esclarecimen-
ferência, em «visões do mundo» quando preten- to que essas características cumprem no funcio-
demos significar diferenças culturais, em «evi- namento psicológico geral dos indivíduos, como
dente», «sem sombra de dúvidas» para (re)afir- também para elucidar os recursos de que o apa-
mar o conhecimento verdadeiro que equivaleria relho psíquico dispõe e a forma como os utiliza
à «visão perfeita do fenómeno». para fazer face às solicitações do ambiente físico
Tais crenças parecem estar presentes e influ- e social.
enciar, embora diferentemente em extensão e A forma com estas condições afectam o com-
profundidade, sentires e comportamentos. portamento real dos indivíduos e a sua relação
Tendo em conta que a grande maioria das po- com o meio, e a construção de recursos psicoló-
pulação é normo-visual toda a cultura e quadro gicos exige um cuidado esforço metodológico de
social pressupõe que todas as pessoas vêem. A investigação. A comparação do comportamento
ausência de visão é considerada uma diferença das pessoas com cegueira adquirida com os nor-
marcante, algo não desejável. O conhecimento mo-visuais permite-nos o conhecimento dos
do funcionamento psicológico das pessoas cegas efeitos diferenciais que a visão tem sobre o
em termos de saúde mental melhorará, entende- comportamento. Uma proposta concreta de tra-
mos, a possibilidade de intervenção social e balho – Saúde Mental na Inserção social na Ce-
técnica e poderá fornecer elementos para melhor gueira Adquirida – é gerada neste quadro.
compreender o papel que a visão cumpre no de- Dion (1972), Kleck (1968), e Van Hasselt
sempenho dos processos de autonomia social e (1983) identificam dificuldades na adaptação
pessoal, e de inserção social. social dos indivíduos com cegueira, nomeada-
É objectivo deste trabalho estudar o modo co- mente: rejeição generalizada, dificuldades de
mo um grupo de pessoas com cegueira adquirida interacção limitações funcionais, inferindo con-
organiza as suas funções psicológicas para reali- sequências emocionais. A cegueira afectaria ne-
zar a autonomia/inserção social. Pretende-se ain- gativamente o carácter, a valência social e/ou o
da contribuir para uma reflexão sobre os meca- estatuto emocional do indivíduo deficiente.
nismos de exclusão a que as pessoas cegas estão Eaglestein (1975) e Van Hasselt (1983), verifi-
particularmente expostas. cam que uma grande percentagem de indivíduos
A saúde de um indivíduo em situação de fra- com cegueira estão socialmente isolados.
gilidade social, as possibilidades de desenvolvi- Ammerman, Van Hasselt e Hersen (1986), en-
mento físico e mental, a sua autonomia e segu- contraram dados que apontam para a existência
rança, as suas condições de existência consti- de limitações cognitivas, perfis de personalidade
tuem-se em função do meio em que se insere e mal adaptadas, probabilidades de comportamen-
dos grupos a que pertence. Cremos que se po- to e psicopatologia, nesta população. Bauman
derá falar de aspectos particulares dum grupo (1964), Jan, Freeman e Scott (1977), Van Has-
sempre que e quando este partilha, de forma dis- selt, Kazdin e Hersen (1986), observam elevados
tinta, um conjunto de elementos considerados re- níveis de ansiedade e depressão em indivíduos
levantes, nomeadamente quando se podem de- com cegueira, relativamente aos normo-visuais.
senvolver mecanismos operativos necessários à Imamura (1965) e Wilson (1967) constatam
realização de acções específicas de inserção que estudantes cegos são mais submissos, menos
social, cultural e profissional. O objecto de estu- auto-confiantes e menos auto-suficientes que os
do desloca-se então das características do indiví- estudantes normo-visuais.
duo para o funcionamento das processos sociais Hartings (1947) e Barker (1953), comparando
e psicológicos gerais. Passa-se de um estudo índices de Saúde Mental entre estudantes com
centrado nas propriedade de um indivíduo ou deficiência visual e normo-visuais, verificam
grupo, considerado como uma entidade indepen- que os indivíduos com deficiência visual apre-
dente e idiossincrática, para o estudo de proces- sentam maiores distúrbios na escala de auto-
sos comuns que ocorrem em condições concretas -adaptação e uma maior labilidade em termos de
e particulares. saúde mental.

450
Carrol (1961), encontra resultados semelhan- ral: o movimento espontâneo que nos leva a
tes, considerando a personalidade da pessoa cega comparar o que observamos.
qualitativamente diferente da dos normo-visuais,
contrariando Foulke (1972), que não verifica a 2.1. Participantes
existência de quaisquer diferenças.
Klein (1962), aponta a importância de relacio- Os participantes são caracterizados através da
nar um défice sensorial especifico com o isola- análise dos processos individuais e posterior-
mento geral do meio, que implicaria uma redu- mente em situação de entrevista. Pretende-se,
ção de oportunidades para avaliar os factos e si- por este meio, constituir um grupo de participan-
nais do meio com sérias consequências na inte- tes com cegueira adquirida.
gração. Esta situação ocorreria como conse- Foram seleccionados 60 indivíduos dos dois
quência da cegueira, tendo em conta que a ce- sexos com cegueira, nas instituições C.R.N.S.A.,
gueira cria uma situação em que a desadaptação A.C.A.P.O e A.P.E.D.V.
tem grande probabilidade de ocorrência. Nas constituição dos grupos com cegueira e
Cutsforth (1966), vem apoiar esta perspectiva, dado o nosso objectivo, elegemos as seguintes
considerando não existir um postulado diferente variáveis:
intitulado «Psicologia da Cegueira». Contudo,
este autor considera dois tipos de reacção à ce- 2.1.1. Data de Aparecimento da Cegueira
gueira, ambos no sentido de estabelecer a impor-
tância do ego no grupo social, e para organizar O grupo de pessoas com cegueira é constituí-
do por sujeitos que cegaram após os 5 anos de
ou recuperar sentimentos de segurança e auto-
idade. A idade limite escolhida deve-se às con-
-aceitação. Um é a compensação, segundo o
trovérsias existentes no que respeita à idade, data
qual o indivíduo tenta provar a si próprio e aos
de aparecimento da cegueira e retenção da ima-
outros, que a inadequação não existe. Outro, a
gem visual (Shaegil, 1953; Lowerfeld, 1955).
retracção, em que o indivíduo aceita os senti-
mentos de inadequação como avaliação válida
do seu ego e estabelece uma falsa segurança, 2.1.2. Causa da Cegueira
adoptando uma conduta agressiva. Estes quadros Este factor pode ter implicações no funciona-
poderão não ter como causa a cegueira em si, são mento mental, especialmente, se na etiologia da
resultantes da interacção do indivíduo cego com cegueira, se verificam lesões ao nível do sistema
o seu meio social, incluindo atitudes, expectati- nervoso central. Com o objectivo de controlar
vas dos outros e as suas próprias reacções a essas esta variável não foram incluídas no grupo de
atitudes e expectativas. participantes pessoas com cegueira com patolo-
Para estes autores, a dinâmica que afecta a gias do S.N.C..
personalidade do indivíduo cego também afecta
a do normo-visual, surgindo, no entanto, diferen-
2.1.3. Sexo e idade
ças ao nível do meio físico e social que podem
produzir quadros característicos de personalida- Optamos, de acordo com Gécas (1982), por
des diferentes. definir um intervalo de idades entre os 20 e os 55
McGuire e Meyers (1971), vêm evidenciar es- anos.
ta perspectiva ao referirem a não existência de
uma topologia da personalidade específica em 2.1.4. Habilitações
indivíduos com deficiência visual.
Os intervalos escolhidos pretenderam garantir
comparabilidade nos grupos em estudo. Foi defi-
2. MÉTODO nido um intervalo entre a ausência de habilita-
ções e os 17 anos de formação académica.
No objectivo do presente estudo optou-se pe- Foi ainda seleccionado, um grupo de controlo,
lo método comparativo, que segundo Grawitz constituído por 80 indivíduos normo-visuais,
(1990) tende a sistematizar uma tendência natu- apresentando homogeneidade nas características

451
demográficas relativamente ao grupo experi- 1971; Cooper, 1973; Rawnsly, 1975; Tarnopol-
mental. sky, 1979).
O grupo total de participantes é de 140 indiví-
duos, 60 com cegueira e 80 indivíduos normo-
-visuais. 3. APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS

2.2. Procedimento Pretende-se numa primeira fase, realizar uma


análise estatística descritiva, apresentando as
Procedeu-se ao pré-teste do GHQ (General características demográficas da população. Se-
Health Questionnaire), na versão de 28 itens, em guidamente, utilizar uma estatística paramétrica
10 sujeitos com cegueira e 10 sujeitos normo-vi- para calcular as proporções de variabilidade dos
suais, concluindo-se pela compreensibilidade e resultados, relativas às variáveis, em estudo.
pertinência da utilização do questionário, ainda
que moroso na resposta.
3.1. Caracterização demográfica da popula-
Os participantes com cegueira foram con-
ção estudada
tactados no Centro de Reabilitação Nossa Senho-
ra dos Anjos, na Associação de Cegos e Amblío- A população total deste estudo, é constituída
pes de Portugal e na Associação Promotora de por 140 indivíduos, 60 com cegueira e 80 nor-
Emprego para Deficiência Visuais. mo-visuais.
Procedeu-se a uma entrevista inicial, onde era
referido, de forma sucinta a importância do estu-
do a realizar, de modo a informar os sujeitos so- 3.1.1. Distribuição da População em Função
bre o tema abordado e diminuindo a possibilida- da Variável Sexo
de de enviesar os resultados. Relativamente aos indivíduos normo-visuais,
Posteriormente foi aplicado o GHQ na versão
70% são do sexo feminino e 30% de sexo mas-
de 28 itens em situação de entrevista individual.
culino. A população de indivíduos com cegueira
Garantia-se o anonimato, das respostas obtidas.
é constituída por 60 sujeitos, 48% do sexo femi-
O grupo de controlo foi seleccionado poste-
nino e 52% do sexo masculino.
riormente. Do mesmo modo, foi-lhe apresentado
o projecto e trabalhada a sua colaboração, em si-
tuação de entrevista individual. 3.1.2. Distribuição da População em Função
Explorou-se a associação dos resultados das do Nível Etário
diferentes variáveis, bem como entre estas e os
resultados do GHQ. Pontualmente, estudou-se a A maior percentagem dos indivíduos com ce-
interdependência entre outras variáveis conside- gueira, situa-se na faixa etária entre os 31 e os 35
radas pertinentes. anos (Gráfico 1).
Utilizaram-se as provas estatísticas paramétri- A percentagem mais elevada de indivíduos
cas de T de Student e Qui-Quadrado, utilizadas normo-visuais situa-se entre os 31 e os 35 anos,
pelo autor do questionário. Assim, aplicou-se o à semelhança dos indivíduos com cegueira (Grá-
teste do qui-quadrado para o nível de significân- fico 2).
cia nas diferenças encontradas. Para a compara-
ção de médias foi utilizado o teste t-student. 3.1.3. Distribuição da População em Função
Após a utilização de um questionário semi-di- das Habilitações
rectivo, que incluía questões para caracterização
demográfica dos participantes foi aplicado a ca- Os indivíduos com cegueira e com habilita-
da indivíduo o General Health Questionnaire ções entre o 10.º e o 12.º ano, constituem o mai-
(Golberg, 1972, 1976, 1978, 1981), na sua ver- or grupo da população estudada (Gráfico 3).
são de 28 itens. Os indivíduos normo-visuais, tal como os in-
Este instrumento tem demostrado possuir uma divíduos com cegueira, com habilitações entre o
validade e fiabilidade significativas em estudos 10.º e o 12.º ano, constituem o maior grupo da
de rastreio na área da Saúde Mental (Eastwood, população estudada (Gráfico 4).

452
GRÁFICO 1
Distribuição em pergentagens por idade, dos indivíduos com cegueira

GRÁFICO 2
Distribuição em pergentagens por idade em indivíduos normo-visuais

453
GRÁFICO 3
Distribuição de pergentagens dos indivíduos com cegueira por habilitações

GRÁFICO 4
Distribuição dos indivíduos normo-visuais por habilitações

454
GRÁFICO 5
Distribuição dos indivíduos com cegueira por estado civil

GRÁFICO 6
Distribuição dos indivíduos normo-visuais por estado civil

455
GRÁFICO 7
Distribuição de percentagens dos indivíduos com cegueira em função da etiologia

3.1.4. Distribuição da População em Função da população em estudo, são, na sua maioria, na-
do Estado Civil turais de Lisboa. Os restantes, apresentam uma
distribuição heterogénea pelos vários distritos.
Em relação ao estado civil dos indivíduos com Surge, ainda, a presença de 11 indivíduos no gru-
cegueira que constituem a população estudada, po de pessoas com cegueira e 5 no grupo dos
estes surgem na sua maioria, solteiros (Gráfico normo-visuais, originários dos PALOP´s.
5).
Os indivíduos normo-visuais, são na sua mai- 3.2.2. Residência
oria casados. Seguem-se os solteiros, represen-
tando 36% da população estudada (Gráfico 6). Relativamente à residência dos indivíduos
com cegueira e normo-visuais que constituem a
3.1.5. Distribuição da População em Função população em estudo, é maioritariamente do
da Etiologia da Cegueira distrito de Lisboa surgindo uma distribuição he-
terogénea pelos vários distritos, nos restantes
Na etiologia da cegueira, verificamos uma indivíduos.
maior percentagem de glaucoma (28%), nos
indivíduos com cegueira que constituem a popu- 3.2.3. Profissão
lação em estudo (Gráfico 7).
Relativamente à profissão a maioria dos su-
3.2. Distribuição da População em Função de jeitos situa-se ao nível do grupo 5, relativo à área
Outras Variáveis em Estudo de serviços e segurança, nas duas populações em
estudo (Gráficos 8 e 9).
O maior grupo de indivíduos com cegueira,
3.2.1. Naturalidade encontra-se a trabalhar na área de serviços e
segurança, seguindo-se um grupo em formação
Os indivíduos com cegueira e normo-visuais profissional.

456
GRÁFICO 8
Distribuição de percentagens dos indivíduos com cegueira relativamente à profissão

GRÁFICO 9
Distribuição das profissões por percentagens nos indivíduos normo-visuais

457
GRÁFICO 10
Diferenças de médias entre indivíduos com cegueira e normo-visuais relativamente aos
valores do GHQ

Para os indivíduos normo-visuais, à seme- tivamente mais elevados de que os indivíduos


lhança da população com cegueira, o maior gru- normo-visuais, o que aponta para um compro-
po corresponde aos profissionais na área de ser- misso psicológico neste tipo de população em
viços surgindo a mesma percentagem de pessoal relação aos indivíduos normo-visuais (Gráfico
administrativo (Gráfico 9). 10).
Comparando a prevalência de situações com
3.4. Análise Estatística dos Resultados compromisso psicológico, avaliados pelo GHQ e
utilizando o referencial dado pelo autor da esca-
Relativamente ao primeiro objectivo deste la, Goldberg (1982), em indivíduos com cegueira
estudo, verificar a existência de diferenças signi- e normo-visuais, verifica-se a existência de 32
ficativas, nos valores de Saúde Mental obtidos casos positivos, 53% de indivíduos com ceguei-
através do GHQ, entre indivíduos com cegueira ra, com compromisso psicológico e uma preva-
e normo-visuais, encontramos resultados que lência de 22 casos nos normo-visuais, o que cor-
confirmam a nossa hipótese experimental. responde a 27,5% desta população (Quadro 1,
Através da utilização do teste paramétrico t de Gráfico 11).
student, encontramos p=0,00042 a um nível de Efectuando uma comparação entre os dois
significância de α=0,001, verificamos a existên- grupos, através do X2, verifica-se um valor de p
cia de diferenças significativas nos valores do = 0,00189, o que indica a existência de diferen-
GHQ, apresentados por indivíduos com cegueira ças significativas em que o grupo de indivíduos
e normo-visuais. com cegueira apresenta maior número de casos
Os indivíduos com cegueira apresentam um com compromisso psicológico.
valor médio no GHQ de 6,00, e os indivíduos Quando se analisam apenas os casos GHQ +,
normo-visuais, de 3,12. Deste modo, os indiví- isto é, os indivíduos que acusam algum compro-
duos com cegueira apresentam valores significa- misso psicológico, relativamente às sub-escalas

458
QUADRO 1
Casos com e sem compromisso psicológico nos indivíduos com cegueira e normo-visuais

GRUPOS GHQ + GHQ - TOTAL

Indivs. Cegueira 32 28 60

Normo-visuais 22 58 80

Total 54 86 140

GRÁFICO 11
Prevalência de casos com compromisso psicológico, em indivíduos com cegueira
e normo-visusis

em estudo nos dois grupos, constituídos por indi- 3.4.1. Valores obtidos no GHQ e Nível Etário
víduos com cegueira e normo-visuais, verifica-se
a existência de diferenças significativas com Verificou-se a existência de diferenças signi-
p<0,05 no que respeita aos aspectos somáticos, ficativas, relativamente aos valores do GHQ em
mais elevados nos indivíduos normo-visuais, no indivíduos com cegueira nos diferentes níveis
disfuncionamento social e depressão com mais etários. Efectuando uma análise de variância
casos com compromisso psicológico nos indiví- surge p=0,01 significativo com α= 0,05.
duos com cegueira. Não surgem diferenças, nos Verifica-se um pico, relativamente aos valores
casos positivos dos dois grupos, relativamente à que implicam um compromisso psicológico, no
sub-escala ansiedade (Quadro 2). Ambos surgem nível etário que se situa entre os 46 e os 50 anos
com os valores mais elevados. (Quadro 3).

459
QUADRO 2
Médias das sub-escalas dos indíviduos que acusam compromisso psicológico (GHQ +)

GRUPOS SOMA ANSI SOCI DEPR

Indivs. Cegueira 2,00 3,03 2,65 2,12

Normo-visuais 3,13 3,90 1,54 0,68

Total 2,46 3,38 2,20 1,53

QUADRO 3 QUADRO 4
Médias dos valores obtidos no GHQ nos Médias obtidas nos valores do GHQ de
indivíduos com cegueira em função do indivíduos normo-visuais em função do
nível etário nível etário

IDADE GHQ IDADE GHQ

G_1: < 25 5,41 G_1: < 25 2,00

G_2: 26-30 3,00 G_2: 26-30 3,28

G_3: 31-35 6,92 G_3: 31-35 0,72

G_4: 36-40 6,14 G_4: 36-40 3,40

G_5: 41-45 1,00 G_5: 41-45 5,66

G_6: 46-50 10,00 G_6: 46-50 2,80

G_7: >50 6,60 G_7: >50 5,83

Total 6,00 Total 3,12

Do mesmo modo, surgem diferenças signifi- 3.4.2. Valores do GHQ e Estado Civil
cativas nos valores de GHQ, em função do nível
etário nos indivíduos normo-visuais, apesar de Encontramos diferenças significativas nos va-
não serem tão significativas quanto no grupo de lores do GHQ com p=0,02 a um nível de signi-
indivíduos com cegueira (p = 0,03 significativo ficância de α=0,05, relativamente ao estado civil
com α=0,05). dos indivíduos com cegueira.
Nos indivíduos normo-visuais, os valores do Podemos verificar uma prevalência elevada de
GHQ mais elevados surgem em indivíduos com compromissos psicológicos nos indivíduos viú-
mais de 50 anos e com idades compreendidas en- vos. Os indivíduos com cegueira, solteiros ou di-
tre os 41 e os 45 anos, diferindo assim dos resul- vorciados, apresentam os valores do GHQ mais
tados obtidos nos indivíduos com cegueira. Os baixos, surgindo os casados com valores inter-
valores do GHQ mais baixos surgem entre os 31 médios (Quadro 5).
e os 35 anos (Quadro 4). Em relação aos indivíduos normo-visuais,

460
QUADRO 5 QUADRO 7
Médias obtidas nos valores do GHQ em Médias dos valores do GHQ em indivíduos
indivíduos com cegueira em função do cegos segundo as habilitações
estado civil
HABILITAÇÕES GHQ
ESTADO CIVIL GHQ
G_1: analfabetos 11,00
Solteiros 5,20
G_2: 1.ª-4.ª classe 6,38
Casados 7,23
G_3: 5.ª-6.ª classe 6,20
Divorciados 4,16
G_4: 7.º-9.º ano 7,45
Viúvos 15,00
G_5: 10.º-12.º ano 5,78
Total 6,00
G_6: Bacharelato 0,40

G_7: Licenciatura 2,00

QUADRO 6
Médias obtidas nos valores do GHQ em
indivíduos normo-visuais em função do QUADRO 8
estado civil Médias dos valores do GHQ em indivíduos
normo-visuais segundo as habilitações
ESTADO CIVIL GHQ
HABILITAÇÕES GHQ
Solteiros 5,20
G_1: analfabetos 4,58
Casados 7,23
G_2: 1.ª-4.ª classe 2,60
Divorciados 4,16
G_3: 5.ª-6.ª classe 3,42
Viúvos 15,00
G_4: 7.º-9.º ano 2,77
Total 6,00
G_5: 10.º-12.º ano 1,47

G_6: Bacharelato 2,00

G_7: Licenciatura 3,12


não se verificaram diferenças significativas, em
função do estado civil, apesar de tal, como na
população de indivíduos com cegueira, serem os
indivíduos viúvos a apresentarem os valores do
GHQ mais elevados (Quadro 6). Os valores do GHQ mais elevados surgem nos
indivíduos analfabetos, e os mais baixos, nos
3.4.3. Valores no GHQ e Habilitações indivíduos com maiores habilitações (Quadro 7).
Em relação ao grupo de indivíduos normo-vi-
Verifica-se a existência de diferenças signifi- suais, não há diferenças significativas nos valo-
cativas, relativamente aos valores do GHQ, em res do GHQ em função das habilitações. No en-
indivíduos cegos com diferentes graus académi- tanto, os resultados variam de forma inversa às
cos, surgindo p=0,03 a um nível de significância habilitações, à semelhança do grupo de indiví-
de α=0,05. duos com cegueira (Quadro 8).

461
3.4.4. Valores no GHQ e Zona Geográfica de QUADRO 10
Residência Médias dos valores do GHQ em indivíduos
normo-visuais em função da zona de residência
Podemos verificar a existência de diferenças
significativas com p=0,001 a um nível de signi- RESIDÊNCIA GHQ
ficância de α=0,01 nos valores do GHQ, nos in-
divíduos com cegueira, em função da zona de G_1: Guarda 0,00
residência.
G_2: Leiria 19,00
Verifica-se um pico de morbilidade psiquiá-
trica no distrito de Santarém, e uma baixa de pre- G_3: Lisboa 3,00
valência, no distrito do Porto e da Guarda (Qua-
dro 9). G_4: Portalegre 0,00
Verifica-se, do mesmo modo, com p=0,008 a
um nível de significância de α=0,01 a existência G_5: Porto 1,00
de diferenças significativas nos valores do GHQ
em função da zona de residência, nos indivíduos G_6: Setúbal 3,50
normo-visuais.
Total 3,12
Neste grupo em estudo, encontramos um pico
de morbilidade psiquiátrica na zona de Leiria, ve-
rificando-se a existência de valores nulos no GHQ
nas zonas da Guarda e Portalegre (Quadro 10).

3.4.5. Valores no GHQ e Profissão


QUADRO 9 Através de uma análise de variância e obtendo
Médias dos valores do GHQ em indivíduos com um p=0,03 a um nível de significância de
cegueira em função da zona de residência α=0,05 revela-nos a existência de diferenças
significativas nos valores do GHQ em indivíduos
RESIDÊNCIA GHQ com cegueira, em função da sua situação profis-
sional.
G_1: Braga 4,00
Deste modo, os valores do GHQ mais eleva-
G_2: Castelo Branco 4,00 dos situam-se nos indivíduos cegos reformados e
em seguida, nos sem profissão. Surgem igual-
G_3: Coimbra 2,00 mente, com um valor elevado, os indivíduos
que apresentam como profissão «doméstica». O
G_4: Guarda 1,00 grupo profissional com melhores índices de
saúde mental, corresponde aos directores e qua-
G_5: Leiria 9,75 dros superiores, e em seguida nos estudantes
(Quadro 11).
G_6: Lisboa 8,43
Em relação aos indivíduos normo-visuais não
G_7: Porto 1,75 se verificam diferenças significativas nos valores
do GHQ em função da profissão, surgindo os
G_8: Setúbal 2,00 melhores índices de saúde mental nos estudan-
tes, e à semelhança do grupo com cegueira os
G_9: Santarém 12,00 valores mais elevados do GHQ, no grupo dos
reformados (Quadro 12).
G_10: Viseu 4,50 Não se encontram diferenças significativas
nos valores do GHQ, em função das queixas
G_11: Palop’s 2,00
físicas apresentadas pelos indivíduos com
Total 6,08 cegueira (p = 0,17), nem em função da etiologia
da cegueira (p = 0,73).

462
QUADRO 11 Não se verificaram diferenças significativas
Médias dos valores do GHQ em indivíduos com nos valores do GHQ, em indivíduos com ceguei-
cegueira segundo a profissão ra que se identificavam como sendo «não saudá-
veis» (p = 0,16). No entanto, dos 60 indivíduos
PROFISSÃO GHQ com cegueira, 53 consideram-se saudáveis, dos
quais 26, apresentam um GHQ +, e 27 um GHQ -.
G_1: Estud. 1,20 Dos 7 indivíduos que não se consideram sau-
dáveis, 6 surgem com o GHQ + e apenas 1 apre-
G_2: Domést. 7,25
senta o GHQ - (Quadro 13).
G_3: Prof. Cientif. 3,00 Não se encontram diferenças significativas
nos indivíduos com cegueira, que terminaram,
G_4: Direct. Tabelas 0,25 estão em reabilitação ou nunca a efectuaram, re-
lativamente aos valores do GHQ (p = 0,08).
G_5: Comérc. Vended. 6,66 No entanto, verificam-se valores de compro-
misso psicológico mais elevados nos indivíduos
G_6: Serviç. Segurança 5,66 que não efectuaram qualquer reabilitação.
Por sua vez, os indivíduos que terminaram a
G_7: Agricult. 3,00
reabilitação há algum tempo, apresentam valores
G_8: Indust. Extractiv. 4,75 de morbilidade psiquiátrica ligeiramente supe-
riores, aos dos indivíduos que se encontram em
G_9: Reformado 10,25 reabilitação, no momento da avaliação efectuada
através do GHQ (Quadro 14, Gráfico 12).
G_10: S/Profiss. 8,37 Foi encontrada uma correlação positiva entre
a idade em que o indivíduo cegou e os valores
G_11: Form. Profiss. 6,20 apresentados no GHQ. Assim, quanto maior o
nível etário em que o indivíduo cegou, mais
elevados surgem os valores do GHQ.
Verificou-se a existência de uma correlação
QUADRO 12 negativa entre a duração da situação de cegueira
Médias dos valores do GHQ em indivíduos e os valores do GHQ. Quanto menor o tempo de
normo-visuais segundo a profissão cegueira, mais elevados surgem os valores do
GHQ.
PROFISSÃO GHQ
Não se verificou qualquer correlação entre o
G_1: Estud. 0,66

G_2: Domést. 1,75

G_3: Prof. Cientif. 1,33


QUADRO 13
G_4: Direct. Tabelas 2,16 Distribuição dos valores dos GHQ + e GHQ -
dos indivíduos gegos em função de se sentirem
G_5: Comérc. Vended. 1,90 ou não saudáveis

G_6: Serviç. Segurança 5,25 GHQ SAUDÁVEL NÃO SAUDÁVEL TOTAL

G_7: Agricult. 3,55 + 26 6 32


% 43,3% 10,0% 53,3%
G_8: Indust. Extractiv. 4,00
- 27 1 28
% 45,0% 1,67% 46,6%
G_9: Reformado 8,00
Total 53 7 60
Total 3,12 Total % 88,3% 11,67% 100,0%

463
GRÁFICO 12
Diferenças de médias entre indivíduos com cegueira que terminaram o seu processo de
reabilitação, que se encontram em reabilitação actualmente, e os que nunca a efectuaram

QUADRO 14 4. DISCUSSÃO DE RESULTADOS


Médias dos valores do GHQ em indivíduos com
cegueira que terminaram, estão a afectuar ou A análise de resultados permite-nos verificar a
nunca realizaram qualquer Reabilitação existência de diferenças significativas nos va-
lores de Saúde Mental entre os indivíduos com
REABILITAÇÃO GHQ cegueira e os normo-visuais.
Estes resultados vão no sentido dos encontra-
Terminou Reabilitação 5,50 dos por Klein (1962), que aponta como explica-
ção o facto do défice sensorial reduzir as oportu-
Em Reabilitação 6,92 nidades de avaliação dos factos e sinais do meio,
com sérias consequências na integração. Para es-
Sem Reabilitação 10,40
te autor, esta situação ocorre como consequência
Total 7,32
da cegueira, tendo em conta que esta cria uma si-
tuação em que a desadaptação tem grande proba-
bilidade de ocorrência.
Outros autores como Cutsforth (1966) e
número do agregado familiar, e os valores apre- McGuire e Meyers (1971), referem o facto de
sentados no GHQ, nos indivíduos com cegueira. não existir uma topologia de personalidade espe-
Também não se verificou a existência de cor- cífica de pessoas com cegueira. Apesar de, tal
relação entre a existência de queixas físicas no como Klein, encontrarem diferenças significati-
próprio ou nos seus familiares e os valores apre- vas relativamente à Saúde Mental em indivíduos
sentados no GHQ, em indivíduos com cegueira. com e sem cegueira, referem que estes quadros
Do mesmo modo, não foram encontradas corre- não têm a ver com a cegueira em si, mas são re-
lações entre estas variáveis nos indivíduos nor- sultantes da interacção do indivíduo cego com o
mo-visuais. seu meio social, incluindo atitudes, expectativas

464
dos outros e as suas próprias reacções a essas As diferenças em relação à saúde mental sur-
atitudes e expectativas. gem altamente significativas. No mesmo sentido
A cegueira parece ser vista, tal como nos es- as perspectivas de autores como Lowelfeld
tudos de Ignácio de S. (1974), como um trauma (1944), Bauman (1954), Freedman (1965), Bi-
profundo que afecta o Ego, com repercussões gellow (1983), Hull (1990) e Dodds e colabora-
nas relações básicas pessoais e sociais. dores (1991), referem a importância da natureza
Se os processos básicos de desenvolvimento e momento em que ocorreu a deficiência no tipo
são iguais entre normo-visuais e cegos, os recur- de ajustamento a nível social e emocional.
sos de que dispõem para se adaptarem ao ambi- Pela análise comparativa dos resultados, em
ente são diferentes, tanto na sua dimensão física, função das sub-escalas que constituem o GHQ,
como social. Os processos de aculturação não es- verificam-se diferenças altamente significativas,
tão então, preparados para fazer frente aos défi- nos grupos em estudo, na área da depressão, se-
ces existentes, influenciando quadros caracterís- guida do disfuncionamento social e ansiedade,
ticos de personalidades diferentes. em que os indivíduos com cegueira surgem com
Verificou-se a existência de uma correlação valores mais elevados, denotando compromisso
entre o nível etário em que ocorreu a cegueira e psicológico nestas áreas.
os valores do GHQ. Quanto maior o nível etário Ao efectuarmos a análise dos GHQ positivos,
em que ocorreu a cegueira e menor o tempo de os indivíduos com cegueira aparecem depres-
cegueira, mais elevados os valores do GHQ, o sivos e desadaptados do ponto de vista social. Os
que indica maior compromisso psicológico.Estes resultados do GHQ positivos dos indivíduos
resultados apontam para a importância da distin- normo-visuais surgem com base em valores ele-
ção entre cegueira congénita e cegueira adquiri-
vados na sub-escala somática.
da em que a cegueira recente, surge como um
Os resultados dos indivíduos com cegueira
acontecimento emocionalmente devastador.
são semelhantes aos encontrados por Seligman
Berger, Olley e Oswald (1962), Freud (1965),
(1975), considerando este autor que os indiví-
referem a importância do facto da cegueira ser
duos com cegueira adquirida passam grande
congénita ou adquirida na forma como o indiví-
parte do tempo centrados sobre a sua perda,
duo sente a sua própria deficiência, logo a data
vivendo num mundo idealizado do passado.
de aparecimento e tempo de cegueira surgem co-
mo variáveis que intervêm de forma não negli- Abramson e colaboradores (1978), sugerem
genciada sobre o comportamento e adaptação que os indivíduos com cegueira adquirida atri-
destes indivíduos. buem o sucesso à sorte ou a circunstâncias favo-
Cohen (1966), considera que os indivíduos ráveis e o insucesso a factores estáveis internos,
que cegam tardiamente, ao sentirem que não tor- tais como, poucas capacidades o que explicaria a
nariam a ver, criariam sentimentos de tristeza e frequência dos estados depressivos.
desespero que provocariam ansiedade e depres- Para autores como Figueiredo e Frank (1982),
são crónicas. a percepção do sujeito sobre a sua própria in-
Estas perspectivas são complementadas por competência, produz sentimentos de desmorali-
Dodds (1991), que refere que a perda da visão, zação, levando-o à depressão. Por outro lado, a
implica perder o controlo sobre o meio envol- perda de visão envolve uma denominação de
vente físico, social e económico, provocando in- «cego» que comporta conotações negativas. O
certeza e receio perante o futuro. indivíduo tende, então, a formar expectativas ne-
A prevalência de situações com compromisso gativas sobre ele próprio, em função de estereó-
psicológico encontradas nos sub-grupos que tipos criados pela comunidade.
constituem a nossa população, vão no mesmo Nos resultados por nós encontrados, a sub-es-
sentido das perspectivas aqui referenciadas.Os cala ansiedade surge com valores elevados, sen-
índices de casos com compromisso psicológico do o grupo de indivíduos com cegueira os menos
surgem mais elevados nos indivíduos com ce- ansiosos e que igualmente, apresentam menos
gueira. 53% da população surge com GHQ posi- queixas somáticas, o que poderá reforçar a ideia
tivo, para 27,5% no grupo de controlo, constituí- de passividade defendida por Onwake e Solnit
do por normo-visuais. (1961), Burlingham (1965), Willis (1966), Nage-

465
ra e Colone (1966), e School (1971), entre ou- tecção/rejeição e as questões relacionadas com a
tros. cegueira raramente são abordadas, por medo ou
Quando se analisaram outras variáveis, que suposto respeito pelo membro familiar cego.
pudessem influenciar, de forma significativa, os Deste modo, os sentimentos de medo instalam-se
resultados obtidos, verificámos a existência de de forma duradoira.
relação entre os valores do GHQ na população
com cegueira e nível etário, estado civil, nível 4.3. Nível académico
académico, residência e profissão. Não se verifi-
caram diferenças significativas entre os valores Pudemos encontrar, no grupo de indivíduos
do GHQ e queixas físicas, etiologia da cegueira, com cegueira, diferenças nos valores do GHQ
o facto de se sentir saudável, agregado familiar e em função das habilitações. Os indivíduos com
ter ou não efectuado reabilitação. Seguidamente, menores habilitações surgem com maior com-
discutiremos os resultados das análises efectua- promisso psicológico. Os valores mais elevados
das que nos pareceram mais relevantes em fun- no GHQ coincidem com o grupo de indivíduos
ção dos objectivos propostos. sem quaisquer habilitações, e sem qualquer
actividade profissional. Não se verificaram dife-
4.1. Nível Etário renças em função das habilitações nos indivíduos
normo-visuais.
Os resultados do GHQ em indivíduos com Os indivíduos com cegueira sentem que a
cegueira, alteram-se de forma significativa em sua deficiência é incapacitante, tendo em conta
função do nível etário dos indivíduos, surgindo que 1/3 da população equipara deficiência a do-
um pico de morbilidade psiquiátrica entre os 46
ença e muitas vezes os próprios interessados não
e os 50 anos. Do mesmo modo, verificam-se al-
se libertam deste modelo de défice, fazendo dela
terações nos valores do GHQ nos indivíduos
uma parte de percepção que têm de si próprios,
normo-visuais em função da idade, o que parece
contribuindo para o consolidar, no sentido de
remeter para uma problemática não específica da
uma profecia que se cumpre por si mesma.
cegueira.

4.4. Residência
4.2. Estado Civil

Verifica-se uma prevalência elevada de com- Observam-se diferenças significativas nos va-
promisso psicológico nos indivíduos em estado lores do GHQ em função da zona de residência
de viuvez, que corresponde aos indivíduos com nos indivíduos com cegueira e normo-visuais.
maior nível etário, e em seguida nos casados, o Os melhores níveis de saúde mental verificaram-
que poderá ter a ver com o facto destes indiví- se no distrito da Guarda em ambos os grupos.
duos estarem na sua maioria casados com cônju- Surgindo o pico de compromissos psicológicos
ges cegos, instalando-se por vezes a hostilidade e nos indivíduos com cegueira em Santarém e
a frustração o que ameaça, em si, a forma como nos normo-visuais em Leiria.
se lida com a situação (Freedman, 1965).
Nos indivíduos normo-visuais, o estado civil 4.5. Profissão
não introduz alterações significativas nos valores
do GHQ, o que poderá traduzir a importância do Os valores que apontam para um compromis-
suporte familiar na população com cegueira e, so psicológico surgem em maioria nos indiví-
nomeadamente, na qualidade da interacção duos reformados e nos sem profissão. Alguns
conseguida. trabalhos referem que estes indivíduos conside-
Bauman e Yoder (1970), nos seus trabalhos, ram que a vida já não merece ser vivida e refu-
referem a importância do suporte psicológico e giam-se num mundo de passividade e pena por
social oferecido pelo grupo de pertença, como eles próprios de onde dificilmente podem emer-
tão ou mais relevante na saúde mental desta po- gir (Dodds, 1991).
pulação, que a data de aparecimento da cegueira.
A reacção da família é normalmente a super-pro- Não se verificaram quaisquer diferenças signi-

466
ficativas nos valores de saúde mental na popula- 4.10. Reabilitação
ção com cegueira em função das variáveis:
Não se encontraram diferenças significativas
nos valores de saúde mental dos indivíduos com
4.6. Queixas Físicas cegueira em função do facto de terem efectuado
ou não reabilitação. Comparando indivíduos que
Não se verificaram diferenças nos resultados
não efectuaram qualquer reabilitação com os
do GHQ pelo facto dos indivíduos apresentarem
que se encontram actualmente num centro de
ou não outras queixas físicas associadas, quer no reabilitação e aqueles que já efectuaram o seu
próprio quer nos familiares próximos. Também processo reabilitativo, verificamos que os casos
não surgiram diferenças significativas nos resul- com compromisso psicológico vão diminuindo
tados pelo facto de existirem mais elementos de- progressivamente. No entanto, as diferenças não
ficientes na família. são significativas, do ponto de vista estatístico.
Podemos, contudo, considerar relevante esta
4.7. Etiologia tendência para melhoria dos valores de saúde
mental em função da realização de um processo
Não surgiram diferenças significativas nos de reabilitação. Seligman (1975) aponta a impor-
resultados em função da etiologia da cegueira. O tância de uma intervenção precoce, relativamen-
facto da cegueira surgir de forma progressiva ou te a outros autores que consideram que uma in-
traumática também não influenciou a saúde tervenção adequada deverá decorrer algum
mental dos indivíduos que constituem a nossa tempo depois da situação de cegueira ter ocor-
população; resultados estes que diferem dos rido. Em ambas as perspectivas é realçada a im-
portância da restauração da perda funcional no
resultados obtidos por Freedman (1965), em que
sentido de prevenir atitudes de super-protecção/
as circunstâncias em que ocorreu o traumatismo,
/super-dependência. Dodds (1989) refere a im-
se de forma prolongada ou repentina, são impor- portância de avaliar/diagnosticar a saúde mental
tantes nas reacções perante a situação de ceguei- dos indivíduos com cegueira no sentido de iden-
ra. tificar os indivíduos depressivos e/ou ansiosos,
considerando que estes não estão aptos a bene-
4.8. Sentir-se Saudável ficiar, na íntegra, de uma reabilitação funcional.

O facto dos indivíduos se sentirem ou não


saudáveis, não alterou de forma significativa os 5. CONCLUSÕES
valores de saúde mental obtidos através do
GHQ. Os indivíduos que não se sentem saudá- De acordo com os nossos dados, os factores
veis, apresentam, de facto, um GHQ positivo. determinantes da saúde mental nos indivíduos
No entanto, 43% dos indivíduos com cegueira com cegueira, poderão não ter a ver com a ce-
referem sentir-se saudáveis apesar dos resultados gueira em si, enquanto privação sensorial, mas
do GHQ indicarem a existência de compromisso com factores que se prendem, eventualmente,
com a perda súbita de controlo sobre o meio
psicológico.
envolvente físico, social e económico, provocan-
do incerteza e receio perante o futuro.
4.9. Agregado Familiar Estados emocionais ansiosos e depressivos
seriam então comuns em indivíduos que expe-
Não se verificou qualquer correlação entre o
rimentam uma perda da visão. Uma combinação
número de pessoas do agregado familiar e a saú- entre a ansiedade e depressão poderá, no entanto,
de mental dos indivíduos com cegueira que levar a uma actividade mental activa, e a uma
constituem a nossa população, o que reforça a certa letargia física. Deste modo, poderão surgir
importância da qualidade das relações estabele- dificuldades devido ao facto da mente estar
cidas no grupo familiar, independentemente do preocupada com questões sem resposta, esperan-
número de pessoas que o constituem. ças e medos não expressos.

467
A cegueira parece pois implicar uma maior sagem do estudo das características específicas
vulnerabilidade à ansiedade, adaptação social e do indivíduo para o funcionamento dos proces-
depressão, que quando se prolongam, parecem sos psicológicos gerais, centrando a atenção nos
levar a estados de dependência e tendência ao processos comuns que ocorrem sob condições
isolamento social. concretas e particulares, numa população de in-
A sua necessidade de ordem e ajustamento ao divíduos em situação de fragilidade, desejos in-
meio social pode contrariar, muitas vezes, o dividuais, como o potencial, a escolha do estilo
ajustamento à própria deficiência, levando a si- de vida e contexto envolvente, parecem ser de-
tuações conflituosas em que o indivíduo renun- terminantes ao longo de todo este processo.
cia a agir como cego, nomeadamente, quando
No decorrer do trabalho realizado, surge-nos
verifica que o seu comportamento terá reprova-
como fundamental, na avaliação da saúde men-
ção social, deixando-se então proteger e chegan-
do a inibir as suas necessidades. tal, a identificação dos factores sociais e clínicos.
Os resultados por nós encontrados, quando Consideramos relevante, a história pessoal e so-
confrontados com os pressupostos teóricos le- cial para determinar o impacto da deficiência na
vam-nos a interrogar se uma prevalência elevada capacidade de um indivíduo se integrar num
de casos com compromisso psicológico, em indi- mundo visual. De todas as vivências desprende-
víduos com cegueira, não implicará repensar o se uma afectação, um colorido social afectivo,
tipo de intervenção a efectuar. que matiza qualquer acto, em cada momento, ao
Tendo em conta a preocupação com os seus longo da vida.
próprios problemas internos, a pessoa com Se por um lado a reabilitação visa providen-
cegueira fica pouco atenta aos inputs externos, ciar um suporte prático, social e emocional para
com pouca capacidade relativamente às apren- ultrapassar receios que acompanham e que en-
dizagens a efectuar, e pouca resistência às acti- volvem estes indivíduos, por outro, permitirão
vidades que não surjam associadas às suas ne- confrontá-lo com problemáticas/solicitações nem
cessidades mais imediatas. Parece então resultar sempre facilmente consertáveis.
que a reabilitação psicológica integrada num Parece-nos possível observar que grande parte
contexto global de reabilitação, vai confrontando das questões que se colocam passam pelos sen-
os progressos psicológicos de relação com a
timentos e valores individuais do grupo e da co-
cegueira com a capacidade de desempenho fun-
lectividade.
cional nos diferentes contextos de inserção, po-
Providenciando uma clarificação conceptual
dendo daí resultar um todo equilibrado de adap-
tação individual à cegueira e ao meio social e do problema, ao desenvolver um modelo testável
profissional. de adaptação à perda, poderemos aproximar-
Uma outra característica que nos parece inte- -nos da criação de uma reabilitação mais eficaz
ressante é a maior susceptibilidade aos diferentes que se poderá iniciar aquando da situação de per-
factores socio-psicológicos na pessoa cega, tais da, e que acompanhará todo o processo de reabi-
como, nível académico, estado civil e profissão, litação até à plena (re)inserção social.
apontando, a nosso ver, a necessidade de uma
intervenção psicológica em todo o processo de
inserção social, visando a assumpção plena de REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
uma interioridade auto-confirmada e duma
exterioridade desempenhada como sentidamente Altoumian, J. (2000). La survivance. Paris: Dunod.
reconhecida. Baker, L. (1973). Blindness & social behaviour: A
Se o objectivo das políticas e práticas relativas need for research. The New Outlook for the Blind,
67, 7.
às pessoas com deficiência passa pela promoção
Barasch, M. (2001). The history of a mental image in
da qualidade de vida nesta população, factores western thought. New York: Routdlege.
relevantes como a autonomia, respeito, envolvi- Barton, L. (1996). Disability & society. London: Long-
mento social, mobilidade, privacidade, tranqui- mans.
lidade e inserção, deverão ser incluídos. Blunkett, D. (1993). Eguality in practice. British Jour-
Se no objecto deste trabalho é descrita a pas- nal of Visual Impairment, 11, 3-4.

468
Brown, E., & Cohen, J. (1966). The effects of blindness Ingstad, B., & Whyte, S. R. (1995). Disability and cul-
on children’s development. The New Outlook for ture. Berkeley: University of California Press.
the Blind, 60, 5. Martin, E., & Gandy, G. (1990). Rehabilitation and
Cowen, E., Underberg, R., Verrilho, R., & Benham, F. disability: Psychological case studies. Springfield:
(1961). Adjustment to visual disability in adoles- Charles Thomas Publisher.
cence. New York: American Foundation for the Michalko, R. (1998). The mystery of the eye and the
Blind. shadow of blindness. Toronto: University of Toron-
Daunt, P. (1991). Meeting disability. London: Cassel. to.
Dodds, A. (1993). Rehabilitation blind and visual im- Mitchell, D. T., & Snyder, S. L. (2000). The body and
paired people. A psychological approach. London: physical difference. Ann Arbour: The University of
Chapman and Hall. Michigan Press.
Dodds, A. (1993). The Nottingham Adjustment Scale: Mittler, P. (1978). The psychological assessment of
A validation study. International Journal of Reha- mental and physical handicaps. London: Tavistock
bilitation Research, 16, 177-184. Publications.
Doods, A. (1991). The psychology of rehabilitation. The Monbeck, M. (1973). The meaning of blindness, attitu-
British Journal of Visual Impairment, 9, 38-40. des toward blindness and blind people. Blooming-
Eastwood, M. (1975). Screening for psychiatric disor- ton: Indiana University Press.
der. Psychological Medicine, 1, 37. Mouaux, P. (2000). Mieux comprendre l’exclusion so-
Ferrol, G. (1994). Integration of exclusion. Lille: Presse ciale. Paris: L’Hartmattan.
Universitaire de Lille. Ochaíta, E., & Rosa, A. (1993). Psicología de la cegue-
Freedman, S. (1964). Psychological growth. The New ra. Madrid: Alianza Editorial, S.A.
Outlook for the Blind, 60. Ormel, J., Koeter, M., & Vanden Brick, W. (1989).
Freedman, S. (1965). Reactions to blindness. The New Measuring change with the General Health Ques-
Outlook for the Blind, 29, 10. tionnaire (GHQ). The problem of retest effect. So-
Goldberg, D. (1981). Estimating the prevalence of psy- cial Psychiatry Psychiatric Epidemiology, 24, 227-
chiatric disorder from the results of a screening -232.
test. In J. Wing, P. Bebbington, & L. Robins Pascal, J. (1985). Comment sortir de la solitude. Review
(Eds.), What is a case? London: Grant McIntyre. of the European Blind, 3.
Goldschmidt, J. (1992). Rehabilitation R&D progress Ravaud, J., & Ville, I. (1986). De la représentation so-
reports. Journal of Rehabilitation Research and ciale à l’identité des personnes handicapées physi-
Development, 29, 1-58. ques. International Journal of Rehabilitation Re-
Hans, S. (1990). Conférence européenne sur la rééduca- search, 9, 343-354.
tion des handicaps visuels. Revue des Aveugles Eu- Roberts, A. (1998). Coping with blindness: Personal
ropéens, 19, 8-12. tales of blindness rehabilitation. Carbondale: Sou-
Harrington, R., & McDermott, D. (1993). A model for thern Illinois University Press.
the interpretation of personality assessments of Robertson, S., & Brown, R. (1992). Rehabilitation
individuals with visual impairments. Journal of Re- counselling. London: Chapman & Hall.
habilitation, 59, 24-29. Schneiders, A. (1965). Blindness: A psychologist’s
Heller, M. A. (2000). Touch, representation and blind- view of handicap. The New Outlook for the Blind,
ness (Debates in psychology). Oxford: Oxford 59.
University Press. Steinfeld, E., & Danford, G. S. (1999). Enabling envi-
ronments. New York: Kluver Academic/Plenum
Hersen, M., & Hasselt, V. (1990). Psychological as-
Publishers.
pects of developmental and physical disabilities.
Vaughan, E. (1998). Social and cultural perspectives on
London: Sage Publications.
blindness: Barriers to community integration.
Hill, A., Aspinall, P., & Grennwood, R. (1992). Infor-
Springfield: Charles C. Thomas Publications.
mation used in rehabilitation decisions: some re-
search results. British Journal of Visual Impair-
ment, 10, 83-87.
Hollins, M. (1989). Understanding blindness. New RESUMO
York: Lawrence Erlbaum Associates, Publishers.
Hull, J. M. (2002). In the beginning there was darkness: As problemáticas dos processos de inserção das
a blind person’s conversation with the Bible. Har- pessoas com deficiência constituem hoje tema de dis-
risburg: Trinity Press International. cursos políticos e sociais, mas também assunto de pro-
Huppert, F. A., Gore, M., & Elliott, B. J. (1988). The fundo interesse de estudiosos e investigadores das
value of an improved scoring system (CGHQ) for áreas das ciências humanas e sociais.
the General Health Questionnaire in a representa- Diferentes trabalhos mostram a importância de in-
tive community sample. Psychological Medicine, vestigações onde a diferenciação dos contextos e das
18, 227-232. deficiências sejam preocupação de relevo. A cegueira,

469
neste quadro, apresenta especificidades que importa with disability is a recurrent topic in political and so-
melhor conhecer para intervir. cial speeches. Scholars and Investigators from the field
Realçam-se, neste estudo, os factores de controlo of human and social sciences have also shown a pro-
pessoal sobre as envolventes físicas, sociais e econó- found interest in this subject.
micas. Several studies have showed us the importance of
Por outro lado, a cegueira parece induzir mais vul- considering the particularities of different environ-
nerabilidade à ansiedade, dificuldades adaptação social ments and different disabilities. For better working
e depressão que, quando se prolongam, parecem pro- with blind people its is of the outmost interest to know
vocar consideráveis níveis de dependência e isolamen- the special features of blindness such as personal
to. control over physical, social and economical environ-
Face a tal quadro numa maior atenção ao confronto ments.
dos quadros psicológicos e funcionais no processo de On the other hand, blindness seems to increase
reabilitação parece impor-se. vulnerability to anxiety, sicial adaptation problems and
Palavras-chave: Cegueira, processos de inserção, depression. When these difficulties prevail they seem
processo de reabilitação, quadros psicológicos, qua- to enhance the degree of dependence and isolation.
dros funcionais. There for, during the rehabilitation process, an in-
creased attention to the psychological and functional
domains is due.
ABSTRACT Key words: Blindness, insertion process, rehabilita-
tion process, psychological domain, functional do-
In nowadays the social inclusion process of people main.

470